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Júlia Brasileiro - ENF XVII 1 Farmacocinética- ABSORÇÃO INTRODUÇÃO Existe uma diferença importante entre fármaco e medicamento . O fármaco corresponde à substância ativa responsável pelo efeito farmacológico. Já o medicamento é composto pelo fármaco associado aos excipientes e recipientes utilizados em sua formulação e apresentação. Outro conceito relevante é a distinção entre bioequivalência e biodisponibilidade . A biodisponibilidade refere-se ao tempo e à quantidade com que um fármaco chega à circulação sistêmica e inicia sua ação no organismo. Essa característica pode variar conforme a via de administração utilizada. Um mesmo fármaco administrado por vias diferentes pode apresentar biodisponibilidades distintas. Por exemplo, quando administrado por via intramuscular, o início de ação pode ocorrer mais rapidamente em comparação com outras vias, devido às diferenças no trajeto que o medicamento percorre até atingir a circulação sanguínea. A bioequivalência refere-se à comparação entre duas formas farmacêuticas ou entre medicamentos que contêm o mesmo fármaco. Mesmo possuindo o mesmo princípio ativo, esses medicamentos podem apresentar diferenças relacionadas à concentração, à biodisponibilidade, ao local de ação e ao tempo necessário para produzir efeito. Essa relação é especialmente observada na comparação entre medicamentos de referência e medicamentos genéricos. No estudo da farmacologia, um dos primeiros processos abordados é a absorção . A absorção pode ser definida como a transferência do fármaco ou medicamento do local de administração para o compartimento central do organismo , que corresponde à circulação sanguínea. Além da transferência, considera-se também a amplitude e a velocidade com que esse processo ocorre. O objetivo da administração de um medicamento é que ele alcance o compartimento central, permitindo que seja distribuído pelo organismo e atinja o local onde exercerá seu efeito terapêutico. A velocidade com que a absorção ocorre depende diretamente da biodisponibilidade do fármaco . Para que um medicamento seja absorvido, ele precisa ultrapassar diversas barreiras biológicas . A quantidade e o tipo de barreiras variam de acordo com a via de administração. Na via oral , o medicamento precisa atravessar diversas barreiras antes de atingir a circulação sanguínea. Inicialmente, entra em contato com a saliva. Em seguida, sofre ação do suco gástrico presente no estômago. Também pode interagir com bactérias presentes no trato gastrointestinal. Somente após esses processos ocorre sua absorção. Por esse motivo, não se pode afirmar imediatamente que um medicamento administrado foi absorvido, pois o processo depende da via utilizada. A única via em que o medicamento chega diretamente ao sangue é a via endovenosa , assim como ocorre na via intra-arterial . Nessas vias, o fármaco é introduzido diretamente na circulação sanguínea por meio de uma agulha, não havendo etapa de absorção. Dessa forma, pode-se considerar que o medicamento já se encontra no sangue imediatamente após sua administração. Já na via oral , o fármaco precisa passar por diversas etapas antes de alcançar o sangue, o que torna esse processo mais lento em comparação com a via endovenosa. As vias parenterais , de modo geral, apresentam ação mais rápida. Entretanto, também podem provocar efeitos adversos com maior intensidade. A via oral, por sua vez, tende a apresentar ação mais lenta, mas geralmente com menor intensidade de efeitos adversos. Na via intramuscular , o medicamento é aplicado no tecido muscular. Inicialmente, o fármaco permanece no músculo e, posteriormente, migra para o sangue por transporte passivo , deslocando-se de uma região de maior concentração para uma região de menor concentração. A via subcutânea segue um processo semelhante. O medicamento é administrado no tecido subcutâneo e, posteriormente, migra para o músculo e para a circulação sanguínea. Existem dois principais tipos de transporte envolvidos nesse processo: Transporte passivo: ocorre do meio mais concentrado para o meio menos concentrado e Transporte ativo: ocorre do meio menos concentrado para o meio mais concentrado, exigindo gasto de energia celular. No caso da absorção por via oral , o medicamento administrado em forma de comprimido percorre o esôfago até chegar ao estômago. No estômago, sofre ação do suco gástrico e inicia o processo de dissolução. Os movimentos do estômago misturam o conteúdo alimentar e as secreções gástricas, formando uma substância denominada quimo , composta pela mistura do alimento com ácido clorídrico (HCl) e outros líquidos digestivos. A formação e o deslocamento do quimo estão relacionados ao tempo de esvaziamento gástrico , que pode variar entre indivíduos. Em pessoas com diabetes , por exemplo, o esvaziamento gástrico pode ocorrer de forma mais lenta. Já em indivíduos com hipertireoidismo , o movimento gástrico tende a ser mais acelerado. Todos esses fatores influenciam diretamente o processo de absorção dos medicamentos administrados por via oral, justificando sua absorção mais lenta quando comparada a outras vias. Uma característica fundamental dos medicamentos é que eles são produzidos para entrar no organismo e posteriormente serem eliminados . Nenhum medicamento é desenvolvido para permanecer indefinidamente no corpo; ele deve exercer seu efeito terapêutico e depois ser eliminado. Características para um fármaco ser absorvido: Júlia Brasileiro - ENF XVII 2 1. Ser lipossolúvel 2. Ser apolar , ou seja, não apresentar polaridade 3. Ser não ionizado Essas propriedades facilitam a passagem do fármaco pelas membranas celulares. Os medicamentos que atuam no sistema nervoso central precisam apresentar ainda maior lipossolubilidade, pois devem atravessar a barreira hematoencefálica para alcançar o cérebro. Por esse motivo, muitos medicamentos utilizados na psiquiatria são desenvolvidos com maior capacidade de dissolução em lipídios em comparação com medicamentos destinados a outras classes terapêuticas. Caso uma substância não possua essas três características — lipossolubilidade, apolaridade e ausência de ionização — sua absorção será dificultada, podendo não produzir efeitos farmacológicos relevantes no organismo Fatores que Afetam a Absorção dos Fármacos Diversos fatores podem influenciar o processo de absorção dos fármacos no organismo. Entre os principais, destacam-se a solubilidade , a posologia e as vias de administração . Um dos fatores mais importantes é a solubilidade do fármaco . Conforme discutido anteriormente, os fármacos devem apresentar alta lipossolubilidade , pois essa característica facilita a passagem pelas membranas biológicas e favorece o processo de absorção. Dessa forma, a solubilidade constitui um requisito fundamental para que o medicamento seja absorvido de maneira eficiente. A administração de medicamentos frequentemente ocorre junto com alimentos . Apenas uma pequena quantidadede medicamentos deve ser ingerida em jejum. Como exemplo, destacam-se omeprazol e pantoprazol , medicamentos utilizados para proteção da mucosa gástrica, que normalmente devem ser administrados antes das refeições. A maioria dos medicamentos, no entanto, deve ser administrada juntamente com alimentos, pois o meio gastrointestinal torna-se mais favorável à absorção. Nessa condição, o ambiente tende a apresentar características que favorecem a lipossolubilidade, aumentando assim a absorção do fármaco. Outro fator relevante é a posologia , que corresponde à relação entre dose e resposta terapêutica . Existe uma relação direta entre o aumento da dose administrada e o aumento da resposta farmacológica, porém essa relação é válida apenas até determinado limite. Quando a dose ultrapassa esse limite, ocorre risco de toxicidade . Por esse motivo, a prescrição médica é estabelecida com base na chamada janela terapêutica , que corresponde à faixa de concentração do medicamento capaz de produzir efeito terapêutico sem causar efeitos tóxicos significativos. Assim, o aumento da dose tende a aumentar a resposta até certo ponto; além disso, pode levar à intoxicação medicamentosa. As vias de administração também exercem influência significativa sobre a absorção. Após a administração por praticamente todas as vias — com exceção da via endovenosa e da via intra-arterial — a absorção da maioria dos fármacos segue a cinética de primeira ordem . Na cinética de primeira ordem , ocorre a absorção de uma fração constante do fármaco ao longo do tempo . Esse comportamento é observado principalmente nas administrações por via oral ou por vias parenterais que não introduzem o medicamento diretamente na circulação sanguínea. Quando um medicamento é administrado em intervalos regulares — por exemplo, a cada seis horas, oito horas ou doze horas — a concentração do fármaco no organismo tende inicialmente a aumentar. Com o tempo, atinge um nível de concentração estável , no qual a quantidade de medicamento absorvida e eliminada se equilibra. Nesse momento, não há necessidade de aumentar a dose prescrita, pois a concentração já atingiu uma fração constante. O aumento da dose só é considerado quando o paciente volta a apresentar sintomas, como dor ou retorno da condição clínica tratada. Nesses casos, o profissional de enfermagem pode comunicar o médico responsável, que realizará nova avaliação e decidirá se haverá ajuste na prescrição. Quando a dose é aumentada, ocorre novamente um aumento da concentração plasmática do medicamento, até que se atinja novamente um novo ponto de equilíbrio. Em contraste, após a administração por via endovenosa , o comportamento segue a cinética de ordem zero . Nesse caso, ocorre a entrada de uma quantidade constante de fármaco na circulação sistêmica . Embora muitos livros descrevam a biodisponibilidade da via endovenosa como sendo 100% , na prática pequenas perdas podem ocorrer durante o processo de preparo e administração. Por exemplo, ao aspirar o medicamento para a seringa, pequenas quantidades podem permanecer na ampola ou frasco-ampola. Durante o ajuste do volume na seringa também podem ocorrer pequenas perdas, assim como uma pequena quantidade pode permanecer no interior da seringa após a injeção. Por esse motivo, considera-se que a quantidade efetivamente administrada seja muito próxima de 100%, podendo ser estimada em valores ligeiramente menores. Quando comparada à via oral , a via endovenosa apresenta perdas significativamente menores. Na administração oral, as perdas são maiores devido à ação do suco gástrico, metabolismo hepático e outras barreiras fisiológicas. Outro conceito importante é o metabolismo de primeira passagem , que ocorre principalmente após administração por via oral . Nesse processo, parte do fármaco é metabolizada no fígado antes de atingir a circulação sistêmica. Já na administração por via Júlia Brasileiro - ENF XVII 3 endovenosa , esse fenômeno não ocorre da mesma forma, pois o medicamento entra diretamente na corrente sanguínea. Absorção oral: esvaziamento gástrico O tempo de esvaziamento gástrico também influencia a absorção. De modo geral, quanto mais rápido ocorre o esvaziamento do estômago, mais rapidamente o medicamento alcança o intestino delgado, onde grande parte da absorção ocorre. Assim, quanto mais rápido o esvaziamento gástrico, mais rápida tende a ser a absorção . Entretanto, isso não significa que todos os medicamentos devam ser administrados em jejum. Apenas aqueles cuja eficácia depende dessa condição devem ser ingeridos antes das refeições. Outro aspecto frequentemente discutido é a biodisponibilidade associada ao volume de líquido ingerido junto com o medicamento em jejum, nem todos os medicamentos são melhor absorvidos dessa forma. Essa relação também depende da forma farmacêutica . Quando um comprimido é ingerido em jejum, o suco gástrico pode dissolvê-lo rapidamente, o que pode levar à degradação de parte do fármaco antes que ele seja absorvido. Já formas farmacêuticas como cápsulas ou drágeas podem atravessar o estômago com maior proteção e alcançar o duodeno, onde ocorrerá a dissolução e absorção mais eficiente do fármaco, então a forma correta de se afirmar é que: Geralmente, a biodisponibilidade do fármaco na forma de comprimido é menor quando ingerido em jejum e com um grande volume de líquido, já as formas em drágeas e cápsula é maior. Biodisponibilidade A biodisponibilidade pode ser definida como a velocidade e a extensão com que um fármaco alcança a circulação sistêmica em sua forma inalterada . Após a administração, a concentração do medicamento no sangue aumenta progressivamente, alcançando níveis capazes de produzir efeito terapêutico ao atingir os locais de ação onde existem receptores específicos. Após determinado período, relacionado à meia-vida do medicamento , a concentração começa a diminuir. Quando essa concentração diminui abaixo do nível terapêutico, torna-se necessário administrar uma nova dose , restabelecendo a concentração adequada no organismo. Esse processo se repete ao longo do tratamento, conforme o intervalo de administração estabelecido. Fatores podem influenciar a biodisponibilidade dos medicamentos ● Via de administração ● Características físico-químicas do medicamento ● Forma farmacêutica utilizada ● Efeito de primeira passagem hepática A via de administração influencia diretamente a biodisponibilidade, pois cada via apresenta velocidades, extensões e quantidades diferentes de absorção. Embora todas as vias tenham como objetivo permitir que o fármaco alcance a circulação sistêmica e exerça seu efeito terapêutico, o modo como isso ocorre pode variar significativamente entre elas. As características do medicamento, bem como a forma farmacêutica utilizada também exercem papel fundamental nesse processo. Entre esses fatores, destaca-se novamente o efeito de primeira passagem , fenômenoassociado principalmente à via oral , no qual parte do medicamento é metabolizada antes de alcançar a circulação sistêmica. Farmacocinética- DISTRIBUIÇÃO Após a absorção, o medicamento já se encontra na corrente sanguínea, independentemente da via pela qual foi administrado. A partir desse momento, inicia-se a fase de distribuição , que corresponde ao transporte do fármaco pelo sangue e por outros fluidos até os diferentes tecidos do corpo. A distribuição dos fármacos envolve alguns fatores essenciais, entre eles a concentração plasmática do fármaco , a permeabilidade do endotélio , a ligação às proteínas plasmáticas e a biodisponibilidade . Para que o fármaco consiga alcançar seus locais de fração, é necessário que sua concentração plasmática seja adequada. Uma concentração suficiente permite que ele atue nos receptores e produza os efeitos esperados. Quando a concentração é muito baixa, a ação farmacológica torna-se insuficiente, não sendo capaz de desencadear a resposta terapêutica desejada. Outro fator importante é a permeabilidade do endotélio dos tecidos que o fármaco precisará atravessar. Essa Júlia Brasileiro - ENF XVII 4 permeabilidade varia de acordo com o local de ação. O fármaco pode precisar atravessar, por exemplo, o tecido pulmonar, o tecido cardíaco ou, no caso de medicamentos que atuam no sistema nervoso central, estruturas mais seletivas, como a barreira hematoencefálica, até alcançar os receptores específicos. Formas de transporte Além disso, a distribuição sofre grande influência da ligação do fármaco às proteínas plasmáticas , principalmente à albumina plasmática . Uma vez na circulação, os fármacos podem se ligar às proteínas do plasma, sendo que grande parte deles apresenta afinidade pela albumina. De forma geral, pode-se considerar que uma porção significativa do fármaco que chega ao sangue liga-se à albumina, enquanto outra permanece em sua forma livre . Pode-se imaginar, por exemplo, que cerca de 80% do fármaco permaneça ligado à albumina e uma parcela menor fique livre na circulação. Além dessas duas frações, existe ainda uma forma de depósito , que ocorre em situações específicas, particularmente em pessoas obesas e em indivíduos submetidos ao uso de anestésicos gerais. A fração ligada à albumina plasmática funciona como uma espécie de depósito circulante . A albumina carrega o fármaco pelo sangue, mas essa fração não produz efeito farmacológico, nem benéfico nem maléfico. Enquanto está ligada à albumina, a molécula do medicamento não é filtrada, não é metabolizada e não é excretada. Ela permanece apenas como reserva, circulando pelo organismo. Cada fármaco apresenta um percentual próprio de ligação às proteínas plasmáticas. Esse percentual varia de um medicamento para outro, mas o princípio permanece o mesmo: a parte ligada à albumina não exerce ação direta, funcionando apenas como reserva no plasma. Já a fração livre é a porção ativa do medicamento. É essa parte que deixa a circulação, alcança os tecidos, procura seus receptores e produz o efeito farmacológico . Se o fármaco for seletivo para receptores beta, por exemplo, poderá atuar no coração ou nos brônquios. Se atuar em receptores muscarínicos, exercerá seus efeitos em estruturas compatíveis com esse tipo de receptor. Assim, é sempre a fração livre que efetivamente chega ao local de ação e desencadeia o efeito terapêutico. Entretanto, essa fração livre não permanece ativa indefinidamente. Após determinado tempo de ação, ela se desliga dos receptores e segue em direção ao fígado, onde será metabolizada. Quando isso acontece, uma parte da fração que estava ligada à albumina se desprende e passa a ocupar o lugar da fração livre que acabou de deixar os receptores. Desse modo, estabelece-se um equilíbrio dinâmico entre a fração ligada e a fração livre. À medida que a forma livre atua e posteriormente é removida para metabolização, a albumina vai liberando novas moléculas do fármaco, que passam a desempenhar o papel terapêutico. Esse mecanismo mantém a ação do medicamento ao longo do tempo. Esse equilíbrio também depende da posologia correta . Quando o medicamento é administrado nos intervalos adequados, novas doses reabastecem o organismo, mantendo a quantidade necessária de fármaco livre e permitindo que a albumina continue funcionando como reservatório. As moléculas livres que chegam com a nova dose podem completar o que foi perdido, enquanto parte delas permanece disponível para ação imediata e parte pode voltar a compor a fração ligada. Caso a posologia seja interrompida, o equilíbrio se perde. As moléculas ligadas à albumina continuam sendo liberadas gradualmente, e a fração livre continua sendo consumida nos locais de ação e encaminhada ao fígado para metabolização. Como não há reposição com novas doses, chega um momento em que não restará mais quantidade significativa nem na forma livre nem na forma ligada. Quando isso acontece, o medicamento deixa de exercer seu efeito no organismo. Portanto, a fração livre tem a função de sair da corrente sanguínea e alcançar os locais de ação para produzir o efeito terapêutico esperado, seja ele antitérmico, anti-inflamatório, analgésico ou qualquer outro. Já a fração ligada à albumina não produz efeito direto; atua apenas como um depósito plasmático , permanecendo em circulação até que seja necessário liberar novas moléculas ativas. Além desse depósito ligado à albumina, existe também a chamada forma de depósito extra , observada principalmente em pessoas com grande quantidade de tecido adiposo e em fármacos muito lipossolúveis, como os anestésicos gerais . Os anestésicos possuem alta lipossolubilidade , ou seja, têm grande afinidade por gordura. Em indivíduos obesos, essa característica favorece o acúmulo do fármaco no tecido adiposo, formando um depósito adicional. Como a gordura retém o anestésico por mais tempo, a eliminação torna-se mais lenta, prolongando seus efeitos no organismo. Esse fenômeno ajuda a explicar por que, em cirurgias semelhantes, com o mesmo tempo de duração e utilização do mesmo anestésico, pessoas com peso corporal mais elevado tendem a despertar mais lentamente do que pessoas com peso normal. Mesmo após o término do procedimento e a administração de medicamentos para reversão anestésica, o anestésico ainda permanece retido no tecido adiposo, sendo liberado lentamente. Em consequência, pessoas mais magras costumam recuperar-se da anestesia de forma mais rápida, Júlia Brasileiro - ENF XVII 5 enquanto pessoas obesas frequentemente permanecem sonolentas por mais tempo no pós-operatório. Embora despertem, podem apresentar recuperação mais lenta, com menor capacidade imediata de levantar-se, caminhar ou retomar plenamente suas atividades. Esse mesmo princípio é observado em exames e procedimentos que utilizam sedação, como colonoscopia e endoscopia. Nesses casos, indivíduos com maior quantidadede tecido adiposo também podem demorar mais para se recuperar dos efeitos anestésicos. Fatores que afetam a distribuição: Pessoas com maior quantidade de tecido adiposo tendem a demorar mais para se recuperar da anestesia. Esse fato se relaciona com os fatores que afetam a distribuição dos fármacos , entre os quais se destacam o débito cardíaco , a permeabilidade capilar nos tecidos , a ligação às proteínas plasmáticas , a concentração plasmática , o volume de distribuição , as características físico-químicas do fármaco e as condições do paciente. Um dos fatores mais importantes é o débito cardíaco . O débito cardíaco influencia diretamente a distribuição porque determina a velocidade com que o sangue circula pelo organismo. Quando uma pessoa apresenta baixo débito cardíaco , o sangue circula mais lentamente. Como consequência, o fármaco, mesmo já presente na corrente sanguínea, terá sua distribuição prejudicada, pois a fração livre precisará de mais tempo para alcançar os tecidos e os locais de ação. Assim, a redução da velocidade de condução sanguínea interfere no início da ação do medicamento, já que dificulta sua chegada aos receptores. Outro fator essencial é a permeabilidade capilar nos tecidos . Alguns medicamentos são produzidos especificamente para atuar no sistema nervoso central, como os benzodiazepínicos , os antiepilépticos , os anticonvulsivantes e os antiparkinsonianos . No entanto, mesmo quando apresentam lipossolubilidade, certos fármacos não conseguem atravessar sozinhos a barreira hematoencefálica com facilidade. Nesses casos, podem necessitar de outras substâncias ou associações farmacológicas que favoreçam esse transporte. Portanto, a permeabilidade dos tecidos constitui um fator determinante para a distribuição, pois pode facilitar ou dificultar a chegada do medicamento ao seu local de ação. A quantidade de líquido nos tecidos também interfere nesse processo. Fármacos lipossolúveis distribuem-se com maior facilidade em meios compatíveis com suas características. Já fármacos com menor afinidade por gordura ou maior dificuldade de atravessar barreiras podem ter distribuição mais lenta e limitada. Isso repercute diretamente na biodisponibilidade, o que, por sua vez, interfere na velocidade de chegada do medicamento ao local de ação e no início do seu efeito. Dessa forma, todos esses fatores permanecem interligados. Outro elemento fundamental são as proteínas plasmáticas , especialmente a albumina . Parte do fármaco que entra na circulação permanece livre , enquanto outra parte se liga à albumina plasmática. Em alguns casos, pode-se considerar que aproximadamente 95% do fármaco esteja ligado e cerca de 5% permaneça livre. Ainda que a fração livre seja pequena, ela é suficiente para produzir o efeito farmacológico esperado. Nesses casos, o medicamento continua eficaz, mas sua meia-vida pode ser mais prolongada, podendo passar de seis horas para oito ou até doze horas, por exemplo. Assim, a ligação às proteínas plasmáticas também influencia a distribuição. Quanto maior a ligação do fármaco à albumina, menor será a quantidade imediatamente disponível para alcançar os tecidos e atuar nos receptores. Ainda assim, a fração livre existente pode ser suficiente para o efeito terapêutico, enquanto a fração ligada funciona como reservatório. Concentração plasmática A concentração plasmática é outro conceito central. Ela indica o nível do medicamento no sangue e permite avaliar se esse nível se encontra dentro da faixa adequada. Quando a concentração está no intervalo ideal, fala-se em nível terapêutico . Quando está abaixo do necessário para produzir efeito, tem-se um nível subterapêutico . Quando está excessivamente elevada, entra-se na faixa de dose tóxica , capaz de intoxicar o paciente. A posologia tem justamente a função de manter a concentração plasmática dentro do nível terapêutico , evitando tanto concentrações insuficientes quanto excessivas. Por isso, o medicamento deve ser tomado nos horários corretos. Esse princípio é especialmente importante em tratamentos com contraceptivos e antibióticos . No caso dos antibióticos, o uso irregular favorece a resistência bacteriana , pois a bactéria passa a reconhecer o mecanismo de ação do medicamento e ele pode deixar de ser eficaz em futuras infecções. Dessa forma, se a prescrição é de oito em oito horas, o uso deve seguir rigorosamente esse intervalo; o mesmo vale para intervalos de seis em seis ou de doze em doze horas. Volume de distribuição No estudo da distribuição, também se distinguem os conceitos de volume real e volume aparente . O volume real corresponde à distribuição do fármaco por todos os líquidos do organismo, incluindo não apenas o sangue, mas também outros compartimentos líquidos, Júlia Brasileiro - ENF XVII 6 como a linfa. Já o volume aparente corresponde à relação entre a concentração do medicamento nos tecidos e sua concentração no sangue. As drogas lipossolúveis tendem a aumentar o volume aparente , pois se distribuem com maior intensidade pelos tecidos. Já as drogas ligadas à albumina plasmática tendem a diminuir o volume aparente , porque permanecem mais retidas na circulação e menos disponíveis para penetração nos tecidos. Variação do volume aparente A variação do volume aparente dependente da droga de diversas propriedades do fármaco, como a lipossolubilidade, a polaridade, a ionização e o grau de ligação às proteínas plasmáticas. Cada fármaco apresenta um perfil próprio nessas características, o que explica por que a distribuição varia de um medicamento para outro. Além das características do fármaco, a distribuição também pode ser classificada como dependente do paciente , como idade, peso e condições clínicas. Em pacientes idosos e em pacientes debilitados, a biodisponibilidade e a distribuição podem ocorrer de forma mais lenta. Nesses casos, a posologia precisa ser revista pelo médico, especialmente em situações de descompensação clínica, como episódios de hipertensão, para que o esquema terapêutico seja ajustado temporariamente até a estabilização do quadro. O peso corporal e o tamanho da molécula também exercem influência. O tamanho das partículas interfere na velocidade de dissolução e absorção do medicamento. Essa diferença pode ser observada, por exemplo, entre formas farmacêuticas utilizadas por via oral e por via sublingual, nas quais partículas menores tendem a facilitar absorção mais rápida. O peso também se relaciona com o comportamento do medicamento no organismo, especialmente em fármacos lipossolúveis, devido à sua afinidade com o tecido adiposo. A concentração de proteínas plasmáticas , especialmente de albumina, exerce influência decisiva na distribuição. A albumina é produzida pelo fígado e desempenha papel fundamental ao se ligar aos fármacos, permitindo que eles circulem sem serem imediatamente metabolizados ou excretados. Em pacientes com comprometimento hepático,a produção de albumina pode estar reduzida. Nesses casos, a capacidade de ligação dos fármacos às proteínas plasmáticas também diminui, alterando sua distribuição e aumentando a fração livre disponível, o que pode modificar tanto a eficácia quanto o risco de toxicidade. Em situações críticas, como em pacientes internados em UTI , alterações no estado clínico e na função hepática podem comprometer ainda mais a produção de albumina e, consequentemente, a distribuição dos medicamentos. Assim, o entendimento da distribuição dos fármacos exige a análise conjunta da circulação, da composição do sangue, dos tecidos, das características do fármaco e das condições fisiológicas do paciente. Alterações na Albumina, Penetração no Sistema Nervoso Central e Meia-Vida dos Fármacos Quando ocorre piora da função hepática, o fígado passa a produzir menos albumina . Como o fígado desempenha funções metabólicas essenciais, produzindo enzimas, proteínas e participando de numerosas reações químicas, qualquer comprometimento importante de sua atividade repercute diretamente na farmacocinética dos medicamentos. À medida que a função hepática se deteriora, a produção de albumina diminui progressivamente. Em quadros mais graves, como na falência hepática , essa redução torna-se intensa. Nessa situação, os medicamentos que estão sendo administrados ao paciente podem passar a agravar o quadro clínico, pois o organismo perde parte importante de sua capacidade de metabolização. Além disso, com a diminuição da produção de albumina, reduz-se também a quantidade dessa proteína disponível na corrente sanguínea. Como consequência, a fração do fármaco que normalmente permaneceria ligada à albumina passa a ficar livre . Assim, uma grande quantidade de moléculas que antes estava reservada no plasma torna-se subitamente disponível para distribuição aos tecidos. Esse aumento abrupto da fração livre provoca uma chegada excessiva de fármacos aos locais de ação, como se houvesse uma verdadeira sobrecarga de moléculas nos tecidos e receptores. Em vez de produzir apenas o efeito terapêutico esperado, o medicamento passa a agir em intensidade excessiva. Se isso ocorrer, por exemplo, em fármacos com ação cardíaca, a concentração exagerada nos receptores do coração pode desencadear efeitos graves, como arritmias . Esse fenômeno ocorre porque, sem albumina suficiente, deixa de existir o reservatório plasmático que controlava a disponibilidade do medicamento. Em pacientes com insuficiência hepática, esse problema pode se agravar ainda mais pela presença de ascite , popularmente conhecida como “barriga d’água”. Nesses casos, pode ser necessária a realização de paracentese , procedimento em que o líquido acumulado na cavidade abdominal é drenado. Entretanto, quando a doença hepática persiste, o líquido pode voltar a se acumular em pouco tempo, em razão da disfunção do fígado. Nessas circunstâncias, a administração de albumina pode ser necessária não apenas para auxiliar na manutenção da vida do paciente, mas também para restaurar parcialmente a função de reservatório plasmático dos fármacos. Sem albumina suficiente, praticamente toda droga administrada tenderia a se Júlia Brasileiro - ENF XVII 7 distribuir livremente para os tecidos, como se o paciente estivesse recebendo uma superdose, ainda que a dose prescrita fosse a habitual. Isso demonstra que a concentração plasmática também se relaciona com o chamado volume aparente de distribuição . Substâncias capazes de penetrar no sistema nervoso central. Para atravessar a barreira hematoencefálica, o fármaco precisa reunir algumas características específicas. Em geral, são necessários: ● ausência de polaridade , ou seja, drogas apolares; ● lipossolubilidade elevada ; ● tamanho molecular reduzido ; ● coeficiente de partição óleo-água elevado . O coeficiente de partição óleo-água expressa a afinidade do fármaco por meios lipídicos em comparação com meios aquosos. Como a barreira hematoencefálica favorece a passagem de substâncias com características lipossolúveis, apenas drogas com essas propriedades conseguem penetrar adequadamente no sistema nervoso central. Durante o desenvolvimento de novos medicamentos, a indústria farmacêutica e os farmacologistas avaliam justamente essas características para determinar se determinada substância pode ou não ser utilizada para atuar no sistema nervoso central. Quando ela não apresenta perfil adequado para essa finalidade, pode ser direcionada para outro uso terapêutico. Alguns fármacos, inclusive, podem ter sua utilidade redescoberta com o tempo. Uma substância inicialmente desenvolvida para uma aplicação específica pode, anos depois, demonstrar eficácia em outra condição clínica. Esse reaproveitamento terapêutico mostra como o conhecimento farmacológico evolui a partir da observação dos efeitos das drogas no organismo. Alterações farmacocinética na falência hepática A falência relacionada a esse contexto farmacocinético pode ser compreendida pela combinação de dois fatores principais: diminuição da albumina e aumento da fração livre do fármaco . A albumina exerce papel de reservatório; quando ela diminui, essa função se perde. Ao mesmo tempo, a fração livre aumenta, alterando a farmacocinética do medicamento. Se esse processo não for reconhecido e tratado, o paciente pode evoluir com agravamento importante do quadro hepático, uma vez que a redução da albumina é consequência direta da diminuição da função do fígado. Primeiro ocorre a piora funcional do fígado; em seguida, reduz-se a produção de albumina e também de outras substâncias importantes. Por isso, o manejo farmacológico de pacientes hepatopatas exige extremo cuidado. O médico deve calcular doses com atenção especial, avaliar quais medicamentos dependem menos do metabolismo hepático e reconsiderar a terapêutica à luz da farmacologia clínica. Meia-vida A meia-vida indica o tempo necessário para que a concentração do medicamento no organismo seja reduzida à metade . Esse parâmetro é fundamental porque está diretamente relacionado ao efeito terapêutico , à duração do efeito e ao esquema posológico . Após a administração de um medicamento, sua concentração no sangue começa a aumentar. À medida que essa concentração cresce, o fármaco alcança a circulação, e a fração livre dirige-se aos receptores, onde passa a produzir o efeito farmacológico. Enquanto isso, a fração ligada permanece circulando sem exercer efeito direto. Quando o medicamento atinge os receptores, ele produz o efeito esperado por determinado período. No entanto, essa ação não é permanente. Com o passar do tempo, as moléculas deixam os receptores, e a concentração ativa começa a diminuir, pois o fármaco segue para o fígado, onde será metabolizado, e posteriormente será eliminado. É exatamente nesse ponto que a meia-vida se torna essencial para definir a nova administração da dose . Antes que a concentração do medicamento caia a níveis insuficientes,uma nova dose deve ser administrada para manter o efeito terapêutico. Assim, a meia-vida orienta o intervalo entre as doses e fundamenta a construção do esquema posológico. Desse modo, a concentração do medicamento sobe, o efeito é produzido, depois a concentração cai e, antes que desapareça totalmente, uma nova dose deve ser oferecida. Esse ciclo se repete ao longo do tratamento e garante a manutenção do efeito farmacológico dentro da faixa terapêutica adequada. A meia-vida corresponde sempre à metade da quantidade inicial considerada como referência . Em outras palavras, ela expressa a redução de 50% da concentração anterior. Por isso, quando se fala em meia-vida, o conceito central é sempre a ideia de redução pela metade. Assim, o estudo da meia-vida permite compreender por que os medicamentos precisam ser administrados em intervalos regulares e por que não basta apenas oferecer uma dose isolada. A manutenção do efeito terapêutico depende da reposição do medicamento antes que sua concentração caia abaixo do nível necessário para produzir resposta clínica.