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C A R D I O L O G I A ELETROCARDIOGRAFIA BÁSICA ABRIL 2022 P R O F . B R U N O F E R R A Z Eletrocardiografia Básica PROF. BRUNO FERRAZ APRESENTAÇÃO: @profbrunoferraz Sou Bruno Ferraz, carioca, vascaíno e portelense, nascido no subúrbio do Rio de Janeiro. Vim de uma família simples e lutei bastante para chegar à faculdade de Medicina. Desde a época do pré-vestibular (fiz o primeiro ENEM da história que não valia aprovação), já gostava de ensinar Matemática e Física aos meus colegas e essa experiência garantiu minha aprovação em uma Universidade pública (Física era matéria específica no vestibular de Medicina e mandei muito bem). Em 2001, entrei na UFRJ com 17 anos para cursar Medicina. Nessa época, a vida também não foi fácil. Fui monitor de diversas disciplinas, recebi bolsa de Iniciação Científica e dei muitos plantões como acadêmico para conseguir complementar renda. Por conta disso, não tive condições de fazer nenhum curso preparatório para Residência e resolvi estudar por conta própria. Alguns amigos e eu montamos um grupo de estudos e entendemos rapidamente a importância de estudar por questões. Depois de muita perseverança nos estudos e milhares de questões respondidas, fui aprovado na Residência. Hoje, sou titulado em Cardiologia, Ecocardiografia e Terapia Intensiva. Fiz meu mestrado em Engenharia Biomédica na COPPE-UFRJ e estou terminando meu doutorado em Cardiologia na UFRJ. Além disso, sou médico do serviço de Cardiologia do HUCFF/ UFRJ. Sempre gostei de ensinar e o Estratégia MED me deu a oportunidade de fazer o que mais gosto. Espero que gostem do material construído com muito carinho! Grande abraço! Eletrocardiografia Básica /estrategiamedt.me/estrategiamed Estratégia MED @estrategiamed Caro colega Revalidando, O eletrocardiograma é um dos principais métodos diagnósticos em Cardiologia, amplamente disponível e cada vez mais presente nas provas do Revalida. Além das cardiopatias, ele pode apontar outros diagnósticos, como distúrbios eletrolíticos, intoxicações etc. Com isso, questões de eletrocardiograma podem surgir em qualquer área da Cardiologia, tanto na prova objetiva como na prática. Por isso, dedicamos este capítulo ao treinamento das condições relacionadas ao eletrocardiograma que podem aparecer na sua prova. Neste livro, faremos uma abordagem geral do eletrocardiograma. Alguns tópicos serão abordados em livros específicos com o conteúdo necessário para você acertar as questões sobre o tema. Espero que gostem do material produzido. Prof. Bruno Ferraz. 4Prof. Bruno Ferraz | Cardiologia | Abril 2022 Eletrocardiografia Básica SUMÁRIO 1.0 INTRODUÇÃO 5 1.1 O REGISTRO ELETROCARDIOGRÁFICO 5 1.1.1 AS DERIVAÇÕES 5 1.1.2 O PAPEL DE ECG 6 1.1.3 A LÓGICA DOS VETORES 8 1.2 AS ONDAS E INTERVALOS DO ECG 9 1.2.1 A ONDA P 10 1.2.2 O INTERVALO PR 13 1.2.3 COMPLEXO QRS 15 1.2.4 SEGMENTO ST 23 1.2.5 INTERVALO QT 30 1.2.6 ONDA T 31 1.2.6.1 DISTÚRBIOS DO POTÁSSIO 32 1.2.6.2 ONDA T ISQUÊMICA 34 1.3 SEQUÊNCIA DE ANÁLISE DO ELETROCARDIOGRAMA 38 1.3.1 ANÁLISE DO RITMO 39 1.3.2 ANÁLISE DO EIXO 40 1.3.3 ANÁLISE DA FREQUÊNCIA CARDÍACA 43 1.3.4 ONDA P 44 1.3.5 INTERVALO PR 44 1.3.6 COMPLEXO QRS 44 1.3.7 SEGMENTO ST 44 1.3.8 INTERVALO QT 44 1.3.9 ONDA T 45 2.0 VERSÕES DAS AULAS 46 3.0 LISTA DE QUESTÕES 47 4.0 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 48 5.0 CONSIDERAÇÕES FINAIS 48 5Prof. Bruno Ferraz | Cardiologia | Abril 2022 Eletrocardiografia Básica 1.0 INTRODUÇÃO O eletrocardiograma (ECG) é um detector da atividade elétrica do coração. Por isso, diversas condições podem interferir nessa detecção, sendo algumas patológicas e outras não. Este capítulo é um bônus. Se você estiver bem atrasado com o cronograma de estudos, deixe este livro para depois. 1.1 O REGISTRO ELETROCARDIOGRÁFICO 1.1.1 AS DERIVAÇÕES Você já imaginou se um ECG tivesse apenas UMA derivação? Significa que teríamos apenas uma “câmera” para monitorar a atividade elétrica do coração. Muito pouco, não é? Por isso, foi criado um sistema tridimensional de câmeras ao redor do coração: plano frontal (DI, DII, DIII, aVF, aVL e aVR) e plano precordial (V1, V2, V3, V4, V5, e V6). Veja a figura abaixo: Figura 1. As derivações ao redor do coração. CAPÍTULO 6Prof. Bruno Ferraz | Cardiologia | Abril 2022 Eletrocardiografia Básica Reparou que conseguimos monitorar praticamente todo coração? Assim, é possível rastrear diversas regiões do coração, o que ajuda a tirar dúvidas sobre o diagnóstico. Em um paciente com infarto, por exemplo, conhecer essas derivações é fundamental para identificar a parede acometida e qual é a artéria envolvida no infarto. E como elas são geradas? As derivações são sempre construídas a partir de 2 eletrodos, por isso são representadas por meio de vetores. As derivações que começam com a letra “a” (augmented, em português, amplificadas) são a exceção. Essas derivações são unipolares (polo único) e estão ligadas a uma grande resistência para sua geração. Não precisa memorizar esse conceito, que é bem difícil. Citei apenas para você entender a origem das derivações. Vamos ver como é na prática? Figura 2. A origem das derivações. As derivações do plano frontal originam-se dos eletrodos colocados nos membros. As derivações do plano precodial originam-se dos eletrodos colocados no tórax. A resistência elevada fica no centro do triângulo para a geração das derivações que começam com a letra “a”. 1.1.2 O PAPEL DE ECG O registro eletrocardiográfico é documentado em um papel milimetrado. Em geral, esse registro padrão do ECG ocorre a uma velocidade de 25 mm/s. Na horizontal, cada mm significa 0,04 segundos (40 milisegundos). Na vertical, cada mm significa 0,1 mV. Mas isso é importante? Sim! Esse conceito é importante para você entender como calculamos a frequência cardíaca no ECG. Além disso, os critérios de hipertrofia ventricular envolvem o conhecimento da amplitude do QRS! Por isso, toda vez que um ECG é realizado, um pulso elétrico de 1 mV de amplitude e 0,20 segundos de duração é gerado para mostrar a você qual é a calibração do aparelho. Em condições normais, o pulso de 1 mV ocupa 10 quadradinhos para cima e a duração de 0,20 s ocupa 5 quadradinhos para frente. Veja a figura a seguir: 7Prof. Bruno Ferraz | Cardiologia | Abril 2022 Eletrocardiografia Básica Figura 3. O papel milimetrado utilizado no registro eletrocardiográfico apresenta essa configuração básica. À direita, observe o pulso gerado que confirma a calibração padrão. Você deve estar se perguntando: onde eu vou encontrar essas informações? No ECG, oras! Vou mostrar a você em um exemplo real: Figura 4. Exemplo de um eletrocardiograma em que podemos observar a velocidade de registro e o pulso de calibração. Observe que esse aparelho está bem calibrado (amplitude de 2 quadradões e duração de 1 quadradão). Fonte: acervo pessoal. 8Prof. Bruno Ferraz | Cardiologia | Abril 2022 Eletrocardiografia Básica 1.1.3 A LÓGICA DOS VETORES Não iremos entrar em detalhes sobre os vetores, pois sabemos que este é um assunto bem complexo. Iremos pontuar o básico para você entender como se forma o registro eletrocardiográfico. Quando ocorre a despolarização de alguma região do coração, existe um vetor resultante da despolarização. Dependendo da câmera (derivação) que está captando essa despolarização, o vetor pode estar afastando-se ou aproximando-se. Com isso, esperamos registros diferentes dependendo da câmera. Veja o exemplo abaixo: Figura 5. Repare a corujinha que vê a seta em sua direção: ela registra uma onda positiva ao eletrocardiograma, pois ela observa um vetor sempre em sua direção. A corujinha que está atrás da seta vê exatamente ao contrário, registrando uma onda toda negativa. Por fim, a corujinha de cima observa uma parte da seta aproximando-se e outra se afastando. Por isso, o registro é metade para cima e metade para baixo (bifásico). Cada uma das corujinhas representa uma derivação! Dessa forma, o registro é diferente em cadauma das 12 derivações: cada uma enxerga do seu jeito! Na figura abaixo, mostramos como o vetor de despolarização atrial será representado em DI, DII e DIII: 9Prof. Bruno Ferraz | Cardiologia | Abril 2022 Eletrocardiografia Básica Figura 6. O vetor de despolarização atrial pode ser projetado em outras derivações. Isso é válido para qualquer vetor. Por isso, as ondas terão amplitudes diferentes nas derivações. Pronto! Aprendemos a primeira etapa fundamental para o entendimento do eletrocardiograma. Como você observou, esses itens não são cobrados diretamente nas provas, mas são fundamentais para o entendimento dos próximos tópicos. Entraremos agora no tópico mais importante do livro: o eletrocardiograma normal e suas alterações! Se você está cansado, é hora de se levantar da cadeira e tomar uma água para refrescar a mente! 1.2 AS ONDAS E INTERVALOS DO ECG Para entendermos o eletrocardiograma normal, precisamos entender o significado das ondas e dos intervalos. O registro eletrocardiográfico irá representar toda sequência de despolarização e repolarização do coração. Tudo começa no nodo sinusal, que inicia a despolarização de todo coração. Com isso, temos o início da despolarização atrial, que irá gerar a onda P. Chegando ao nodo atrioventricular (NAV), ocorre um atraso fisiológico da condução entre o átrio e o ventrículo, que é representado pelo intervalo PR. Esse intervalo é importante, pois funciona como um grande filtro de altas frequências. Nas situações em que o átrio apresenta frequência de despolarização elevada (fibrilação atrial, por exemplo), o NAV “protege” o ventrículo, lentificando a condução. Dessa maneira, nem todas despolarizações atriais chegam ao ventrículo! ACORDE! 10Prof. Bruno Ferraz | Cardiologia | Abril 2022 Eletrocardiografia Básica Após o NAV, a despolarização chega ao feixe de His, fibras de condução muito rápida, distribuindo a despolarização por todo ventrículo, o que gera o complexo QRS. Por fim, toda a massa ventricular precisa repolarizar, surgindo a onda T. Vamos ver a representação gráfica desses eventos? Figura 7. Sequência dos eventos que geram as ondas e os intervalos do ECG. Agora vamos detalhar cada onda e intervalo importante para a análise do eletrocardiograma! 1.2.1 A ONDA P A onda P representa a despolarização atrial. Em condições normais, a origem da onda P é o nodo sinusal e, com isso, será responsável pelo famoso ritmo sinusal! Assim, para determinarmos o ritmo do ECG, é fundamental identificarmos a onda P! No ritmo sinusal, a despolarização ocorre na direção de DII e, por esse motivo, esta é uma derivação ótima para avaliar a onda P! Veja a figura abaixo e entenda a despolarização atrial sinusal: 11Prof. Bruno Ferraz | Cardiologia | Abril 2022 Eletrocardiografia Básica Figura 8. A despolarização atrial sinusal. O vetor de despolarização vai na direção de DII. Por isso, geralmente, essa é a derivação de maior amplitude da onda P. Observe as projeções do vetor de despolarização e veja que, no ritmo sinusal, a onda P estará positiva em DI, DII e aVF. DEFINIÇÃO DE RITMO SINUSAL: Presença de ondas P positivas em DI, DII e aVF, que originam um QRS. Nesse sentido, se a onda P tiver um padrão diferente desse, devemos suspeitar de duas condições: ritmo atrial ectópico ou troca de cabos/eletrodos na realização do ECG. A troca de cabos/eletrodos mais comum é a inversão dos braços (trocar braço esquerdo pelo braço direito). Nesse caso, não só a onda P ficará negativa em DI, mas todo traçado eletrocardiográfico. Além disso, na maioria das vezes, aVR fica todo positivo! As outras trocas de eletrodos são incomuns e não estou aqui para confundi-lo. Além disso, nunca foi questão de prova. Já o ritmo atrial ectópico é causa de onda P negativa antes do QRS. Mas em qual derivação? Depende! Em qual região do átrio está surgindo a despolarização? Para onde está apontado o vetor de despolarização atrial? Por isso, não podemos citar um padrão! Nas provas, você vai suspeitar quando houver uma onda P negativa com QRS positivo em DI ou DII. Combinado? A morfologia normal da onda P é arrendondada e tem uma duração de até 0,10 segundos (2,5 quadradinhos) e amplitude até 2,5 mm. Por isso, a onda P normal tem 2,5 x 2,5 quadradinhos! Na presença de aumentos atriais, podemos ter aumento da amplitude e/ou da duração da onda P. Como o início da onda P representa o átrio direito (local onde está o nodo sinusal), em caso de aumento dessa câmara, observaremos aumento da amplitude da onda P. Em contrapartida, no aumento do átrio esquerdo, observaremos aumento da duração. Com a figura abaixo, esses conceitos ficarão mais claros: TOME NOTA! 12Prof. Bruno Ferraz | Cardiologia | Abril 2022 Eletrocardiografia Básica Figura 9. A onda P é gerada a partir da despolarização do átrio direito e esquerdo. Como o nodo sinusal fica no átrio direito, essa câmara despolariza primeiro. No aumento do átrio esquerdo, há aumento da duração da onda P e, em DII, podemos observar onda P bífida (em corcova de camelo). No aumento do átrio direito, há aumento da amplitude da onda P. Em V1, temos uma particularidade: como essa derivação fica muito próxima dos átrios, V1 irá manifestar uma onda P com primeira porção positiva (relacionada ao átrio direito) e segunda porção negativa (relacionada ao átrio esquerdo). Lembra o que falamos na lógica dos vetores? Às vezes, temos uma corujinha (derivação) que vê um vetor em dois momentos (aproximação e afastamento). Isso acontece em V1, com a onda P! Em situações de sobrecarga atrial esquerda, teremos um aumento importante da porção negativa, gerando o famoso índice de Morris! Veja a figura abaixo: Figura 10. Índice de Morris é um sinal de sobrecarga atrial esquerda. Fonte: acervo pessoal. 13Prof. Bruno Ferraz | Cardiologia | Abril 2022 Eletrocardiografia Básica Com isso, conseguimos definir os critérios para sobrecarga atrial esquerda: aumento da duração da onda P associado à entalhe (onda em corcova de camelo) na derivação DII, também conhecida como onda P mitrale, além da presença de índice de Morris. Você sabe por que essa onda era conhecida como P mitrale? Trata-se de uma onda tipicamente encontrada na estenose mitral, valvopatia em que há importante aumento do átrio esquerdo. Com isso, se você viu esses achados, deve sempre pensar nessa valvopatia! 1.2.2 O INTERVALO PR O intervalo PR é o atraso fisiológico da condução atrioventricular. Conforme dito anteriormente, é um atraso provocado pelo nodo AV visando à proteção dos ventrículos em caso de taquiarritmias atriais. Deve ser medido do início da onda P até o início do QRS e sua duração normal é de 0,12 a 0,20 segundos (3 a 5 quadradinhos). A análise do intervalo PR é fundamental para dois diagnósticos: bloqueios atrioventriculares (BAV) e pré-excitação ventricular. Quando o intervalo PR é maior do que 0,20 segundos, teremos, no mínimo, bloqueio atrioventricular de primeiro grau. A partir do bloqueio de segundo grau, teremos alguma falha na condução atrioventricular (onda P que não gera QRS). Os BAV são detalhados no livro “ARRITMIAS”. CAI NA PROVA (REVALIDA – UFMT 2008) Em relação ao eletrocardiograma normal do adulto, podemos afirmar que a duração normal do intervalo PR é: A) Igual à duração da onda P. B) Inferior à duração do QRS. C) Superior à duração do QRS, mas inferior ao intervalo QT. D) Superior ao intervalo QT. E) Superior à duração do QRS e ao intervalo QT. COMENTÁRIOS: Caro Estrategista, Estamos diante de uma questão exclusivamente sobre eletrocardiografia. Como vimos, o intervalo PR é o atraso fisiológico da condução atrioventricular. Deve ser medido do início da onda P até o início do QRS e sua duração normal é de 0,12 a 0,20 segundos (3 a 5 quadradinhos). Vamos analisar as alternativas? 14Prof. Bruno Ferraz | Cardiologia | Abril 2022 Eletrocardiografia Básica Incorreta a alternativa A. O intervalo PR inclui a ondaP. Incorreta a alternativa B. O QRS dura, normalmente, até 100 ms. Correta a alternativa C. O intervalo PR realmente é maior do que o QRS e menor do que o QT (que dura, aproximadamente, até 460 ms). Incorreta a alternativa D. O intervalo QT dura, aproximadamente, até 460 ms. Incorreta a alternativa E. O intervalo PR realmente é maior do que o QRS, mas não é superior ao intervalo QT que dura, aproximadamente, até 460 ms. Gabarito: alternativa C. Em outras situações, o intervalo PR pode ser curto. Como o PR pode ser curto? O PR não representa o atraso fisiológico da condução atrioventricular? “Deu a louca” no nodo AV? Negativo! Se a despolarização está chegando mais rápido ao ventrículo, significa que há algum atalho! E esse atalho é a via acessória! Com isso, o ventrículo é “excitado” antes do tempo, o que encurta o intervalo PR e gera a onda delta. Por isso, chamamos esse fenômeno de pré-excitação ventricular e sua principal causa é a famosa síndrome de Wolff-Parkinson-White. Se você quiser saber mais detalhes, veja o capítulo sobre as arritmias. Neste momento, daremos foco ao diagnóstico eletrocardiográfico. Veja a figura a seguir: Figura 11. Síndrome de Wolff-Parkinson-White é o protótipo das síndromes de pré-excitação ventricular. 15Prof. Bruno Ferraz | Cardiologia | Abril 2022 Eletrocardiografia Básica 1.2.3 COMPLEXO QRS O complexo QRS representa a despolarização ventricular e merece a análise mais demorada e minuciosa no ECG. Você sabe identificar as ondas do QRS? • A onda R é a onda positiva do QRS. Não existe onda R negativa! • A onda Q é a onda negativa que vem antes da onda R. • A onda S é a onda negativa que vem depois da onda R. Figura 12. As ondas do QRS. Fonte: acervo pessoal. Além disso, existe uma convenção de nomenclatura do QRS conforme o tamanho e a presença das ondas. Nem todo QRS apresenta todas as ondas! Quando a onda for pequena, representaremos com letra minúscula; quando a onda for grande, maiúscula. Veja o exemplo abaixo: Figura 13. Nomenclatura do QRS. 16Prof. Bruno Ferraz | Cardiologia | Abril 2022 Eletrocardiografia Básica A morfologia do QRS é importante na análise de uma diversidade de condições, especialmente a presença de fibrose secundária a infarto antigo e bloqueios de ramo, como veremos adiante. Na análise do QRS, três pontos são importantes: duração, amplitude e morfologia. A duração normal do QRS é 70-100 ms (algumas bibliografias colocam até 120 ms), isto é, um pouco menos do que 3 quadradinhos. A largura do QRS é fundamental para identificar a origem da despolarização ventricular, assim como identificar bloqueios e distúrbios eletrolíticos. Se o QRS é estreito (até 120 ms), podemos dizer que a origem da despolarização é supraventricular. Por outro lado, no QRS largo (> 120 ms ou 3 quadradinhos), a origem pode ser ventricular (na maioria das vezes) ou supraventricular com condução aberrante (secundário a bloqueio de ramo, hipercalemia ou bloqueio dos canais de sódio). Ao encontrar um QRS largo, a principal hipótese que deve vir à cabeça é o bloqueio de ramo! Se o QRS está largo, significa que a despolarização do ventrículo está lenta (demorando mais tempo do que o normal), por isso devemos ter algum grau de bloqueio de ramo atrapalhando a despolarização ventricular. Agora fique bem atento, pois vou dar uma dica bem simples: basta olhar para V1 para fechar o diagnóstico do bloqueio! Lembre-se de que V1 fica à direita, então, se V1 for positivo (QRS para cima), teremos bloqueio de ramo direito (BRD); se V1 for negativo (QRS para baixo), teremos bloqueio de ramo esquerdo (BRE). Essa dica não funciona sempre, mas funciona na maioria das vezes e pode fazer você acertar uma questão! Agora vamos ver os critérios completos de BRD e BRE: 17Prof. Bruno Ferraz | Cardiologia | Abril 2022 Eletrocardiografia Básica Figura 14. Critérios eletrocardiográficos dos bloqueios de ramo. Fonte: acervo pessoal. O bloqueio de ramo é a principal causa de QRS largo na prática clínica e nas provas. No entanto, outras condições podem alargar o QRS e quero que você dê atenção especial para a hipercalemia! Falaremos com mais detalhes neste livro. A tabela abaixo sumariza as causas de QRS largo: Causas de QRS largo (> 120 ms ou 3 quadradinhos) Bloqueio de ramo Hipercalemia Intoxicação por antidepressivos tricíclicos Pré-excitação ventricular Marcapasso Hipotermia 18Prof. Bruno Ferraz | Cardiologia | Abril 2022 Eletrocardiografia Básica QRS tem muito detalhe, não é, Estrategista? Ainda não acabou! Já falamos sobre as condições que alargam o QRS e agora chegou a hora de conversarmos sobre a amplitude do QRS. Se o QRS está muito grande, ou temos muito músculo (muito músculo = hipertrofia) ou está muito fácil detectar o QRS (paciente muito magro e jovem, com pouca gordura e musculatura entre o eletrodo e o coração). Por outro lado, se o QRS está muito pequeno, significa que está bem difícil captar o sinal elétrico do coração (obesidade, derrame pericárdico…). A principal causa de aumento de amplitude do QRS é a hipertrofia ventricular. Todavia, o ECG não é o método mais acurado para esse diagnóstico (ecocardiograma é o método de escolha). Além disso, existem diversos critérios para definir a hipertrofia ventricular ao ECG. Como estamos aqui para ajudá-lo, podemos dizer que o conhecimento desses critérios nunca foram cobrados em prova. Por isso, vamos passar o “filé” sobre esse tema. Como falado anteriormente, o QRS com amplitude aumentada é o primeiro achado que faz pensar em hipertrofia. Na hipertrofia ventricular esquerda (HVE), onde você imagina ter um grande QRS? Nas derivações mais à esquerda, não é? Em V5 e V6. Você também esperaria um certo desvio do eixo para esquerda também, certo? Por isso, a amplitude do QRS em aVL também pode estar aumentada. Com isso, sutilmente, descrevi alguns critérios de HVE. O mais conhecido é: Critério de Sokolow-Lyon: onda S em V1 ou V2 + onda R de V5 ou V6 > 35 mm Além da hipertrofia ventricular esquerda, outra condição que leva ao aumento da amplitude do QRS é a hipertrofia ventricular direita (HVD), comum em algumas questões da Pneumologia, principalmente sobre doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC). O diagnóstico de HVD pode ser difícil e tardio pelo ECG, visto que a massa habitual do VD é muito menor do que do VE. Portanto, para surgirem os sinais eletrocardiográficos, a massa do VD deve ser consideravelmente maior do que a massa do VE. Se a hipertrofia é do lado direito do coração, em quais derivações esperamos encontrar aumento de amplitude? Nas derivações à direita! V1 e V2. Veremos a morfologia normal do QRS mais adiante, mas você consegue imaginar que a onda R é pequena ou ausente em V1, visto que o vetor despolarização vai em direção oposta. Então, na presença de V1 positivo, devemos pensar em sobrecarga/hipertrofia ventricular direita. 19Prof. Bruno Ferraz | Cardiologia | Abril 2022 Eletrocardiografia Básica Resumindo, para o diagnóstico de hipertrofia, olhe para V1/V2 e V5/V6: Figura 15. A chave para o diagnóstico de hipertrofia é olhar para a amplitude do QRS em V1/V2 e V5/V6. Na HVE, esperamos aumento da onda R nas derivações à esquerda V5/V6 e, consequentemente, aumento da onda S em V1/V2. Por outro lado, na HVD, o aumento da onda R é observado em V1/V2. E a redução da amplitude do QRS? O que sugere? Conforme pontuado anteriormente, significa que está difícil captar a atividade elétrica do coração. Esse achado é chamado baixa voltagem e está presente no derrame pericárdico, na obesidade, em doenças infiltrativas (amiloidose, sarcoidose) e quando há pouco miocárdio viável (cardiomiopatia dilatada em estágio final). 20Prof. Bruno Ferraz | Cardiologia | Abril 2022 Eletrocardiografia Básica E o que define baixa voltagem? Veja o quadro abaixo: BAIXA VOLTAGEM – Critérios diagnósticos: • Amplitude de TODASderivações do plano frontal 40 ms (1 quadradinho) • Profundidade > 2 mm (2 quadradinhos) • Amplitude > 25% do complexo QRS • Qualquer onda Q em V1-V3 No infarto agudo do miocárdio com supradesnivelamento do segmento ST que não é reperfundido, observamos claramente essa evolução (redução da onda R e surgimento da onda Q) com o passar das horas. Veja a figura abaixo: Figura 19. Tempo é músculo! Quanto mais tempo o miocárdio sofre, menor a chance de o salvarmos. Com o passar do tempo, perdemos viabilidade (redução da onda R), surgindo necrose/fibrose (onda Q). 23Prof. Bruno Ferraz | Cardiologia | Abril 2022 Eletrocardiografia Básica Com isso, você deve presumir que a onda Q patológica é sinal de fibrose, não é? Em tese, sim. Desde que ela siga aquelas regrinhas básicas do infarto/isquemia: (1) a onda Q deve respeitar um território coronariano e, com isso, deve aparecer nas derivações que olham para determinada parede; e (2) devemos ter redução/ausência da onda R na mesma derivação em que encontramos a onda Q. Quando encontramos esses achados, comumente os chamamos de área/zona inativa. Dessa forma, fechamos a demorada análise do QRS. Não se esqueça da sequência: duração, amplitude e morfologia! Agora vamos falar sobre o segmento ST! 1.2.4 SEGMENTO ST O segmento ST é uma faixa isoelétrica do ECG que começa com o término da onda S (ponto J) e termina no início da onda T, representando o intervalo entre a despolarização ventricular e a repolarização. A principal causa de alteração no segmento ST é a isquemia coronariana, por isso devemos olhar com carinho especial para esse segmento em pacientes com dor torácica. No entanto, caro Estrategista, nem tudo que supra é infarto e devemos ficar atentos aos outros diagnósticos diferenciais que serão expostos neste capítulo. Você verá mais detalhes sobre este tema no livro sobre “Infarto Agudo do Miocárdio com Supradesnivelamento do Segmento ST”, em que você terá as informações importantes sobre as alterações isquêmicas e determinação do local do infarto e artéria acometida. Neste livro, vamos apenas revisar as características isquêmicas relacionadas ao segmento ST e os diagnósticos diferenciais. Para determinar se há supra ou infradesnivelamento desse segmento, é fundamental encontrarmos o ponto J (término da onda S), avaliando se houve elevação ou depressão desse ponto em relação à linha de base. Consideramos supradesnivelamento isquêmico quando existe elevação do segmento ST ≥ 1 mm em duas derivações contíguas (que olham para a mesma parede). Em V2-V3, o critério é mais rígido, em que a elevação, em mulheres, deve ser superior a 1,5 mm; em homens com idade maior que 40 anos, superior a 2 mm; em homens com idade abaixo de 40 anos, superior a 2,5 mm. O infradesnivelamento é isquêmico quando a depressão do ponto J é maior ou igual a 0,5 mm de característica retificado ou descendente (ver figura): 24Prof. Bruno Ferraz | Cardiologia | Abril 2022 Eletrocardiografia Básica Figura 20. Alterações isquêmicas do segmento ST. Para maiores detalhes, consulte o livro de infarto com supradesnivelamento do segmento ST. 25Prof. Bruno Ferraz | Cardiologia | Abril 2022 Eletrocardiografia Básica CAI NA PROVA (REVALIDA – INEP 2021) Uma mulher com 55 anos de idade procura a unidade de emergência referenciada com queixa de dor precordial em aperto há 12 horas. Antecedentes pessoais: diabética tipo 2, há 12 anos, em uso de metformina 1 500 mg ao dia e glicazida 30 mg ao dia, hipertensão arterial, há 8 anos, em uso de captopril 150 mg ao dia. Exame físico da admissão: PA = 100 x 60 mmHg, FC = 70 bpm, FR = 18 irpm, Sat = 92%. Ritmo cardíaco regular em 2 tempos sem sopros, murmúrio vesicular presente e simétrico com estertores crepitantes em base, abdome globoso, fígado há 4 cm do rebordo costal direito, baço não percutível. Extremidades: pulsos periféricos diminuído, edema 3+/4+. ECG abaixo: Diante do quadro apresentado, o diagnóstico e tratamento são: A) infarto agudo do miocárdio e trombólise com alteplase. B) infarto do miocárdio evoluído e cateterismo. C) síndrome coronariana aguda e balão intra-aórtico. D) pericardite aguda e colchicina. 26Prof. Bruno Ferraz | Cardiologia | Abril 2022 Eletrocardiografia Básica COMENTÁRIOS: Caro Estrategista, Estamos diante de um paciente com dor torácica! Ao chegar a uma unidade de emergência, o eletrocardiograma deve ser realizado em até 10 minutos! Não podemos “comer mosca” do supradesnível do segmento ST! Nesse caso, o vaso está ocluído e precisa ser recanalizado o mais rápido possível. Observe que, nesse eletrocardiograma, temos supradesnível isquêmico (elevação do ponto J ≥ 1 mm em derivações contíguas) em V2-V6 (infarto anterior extenso), além de DI e aVL (acometimento de parede lateral). Com isso, fechamos o diagnóstico de IAMCSST. Dessa forma, o vaso precisa ser aberto o mais rápido possível com trombólise ou angioplastia (angioplastia é melhor, especialmente após as 3 horas iniciais). Como esse paciente está com dor há 12 horas, o melhor tratamento será o cateterismo e o diagnóstico será infarto evoluído (ninguém usa mais esse termo!). Para mais detalhes, ver livro sobre infarto. Aqui, iremos focar no eletrocardiograma! Gabarito: alternativa B. 27Prof. Bruno Ferraz | Cardiologia | Abril 2022 Eletrocardiografia Básica (REVALIDA – INEP 2017) Um homem com 50 anos de idade, ao ser atendido em um Serviço de Emergência, refere desconforto torácico descrito como sensação de aperto, com início há cerca de 90 minutos, sem fatores de alívio. Questionado a respeito da localização da dor, o paciente coloca a mão fechada sobre o lado esquerdo do peito. Informa, ainda, que o desconforto teve início após ter subido escadas, tendo evoluído também com náuseas, palidez cutaneomucosa e sudorese fria. O paciente é portador de hipertensão arterial sistêmica e dislipidemia, estando em uso regularde enalapril - 20 mg/dia, de sinvastatina - 20 mg/dia e de ácido acetilsalicílico - 100 mg/dia. Durante o atendimento, foi realizado eletrocardiograma, cujo resultado está reproduzido a seguir. Nessa situação, qual é o diagnóstico mais provável e o que se espera encontrar na curva enzimática do paciente no momento de sua chegada? A) Angina variante de Prinzmetal; troponina e CPK-MB positivas. B) Angina instável; marcadores de necrose miocárdica negativos. C) Infarto agudo do miocárdio inferolateral dorsal; mioglobina positiva. D) Infarto agudo do miocárdio de parede lateral alta; elevações séricas de mioglobina e CK-MB. COMENTÁRIOS: Caro Estrategista, Mais uma vez, estamos diante de um paciente com dor torácica! Como vimos, ao chegar a uma unidade de emergência, o eletrocardiograma deve ser realizado em até 10 minutos! Observe que, nesse eletrocardiograma, temos supradesnível isquêmico (elevação do ponto J ≥ 1 mm em derivações contíguas) em DII, DIII e aVF (infarto inferior), além de infradesnível em V1 e V2 (sugerem infarto dorsal). Dessa forma, a alternativa correta é a C. Detalhe importante: esse mesmo ECG também foi utilizado na prova de 2013! Gabarito: alternativa C. 28Prof. Bruno Ferraz | Cardiologia | Abril 2022 Eletrocardiografia Básica No entanto, sabemos que nem todo supradesnível é isquêmico. Por isso, devemos conhecer os diagnósticos diferenciais de supradesnível do segmento ST. • PERICARDITE: é um dos diagnósticos diferenciais mais cobrados nas provas. Uma dica importante: o quadro clínico irá ajudá-lo a chegar ao diagnóstico (dor torácica à inspiração profunda que melhora ao inclinar o tronco para frente, além de pródromos gripais). No eletrocardiograma, teremos supradesnivelamento difuso em lua crescente (com concavidade para cima) associado à infradesnivelamento do segmento PR. Veja a figura a seguir: Figura 21. Alterações eletrocardiográficas da pericardite. • REPOLARIZAÇÃO PRECOCE: comum em jovens e pacientes saudáveis com menos de 50 anos. O aspecto eletrocardiográfico lembra a pericardite, mas pode apresentar um entalhe no ponto J (aspecto de anzol). Além disso, o supradesnivelamento é mais proeminente nas derivações do plano precordial (V2-V5). Uma forma simples de diferenciar a repolarização precoce de um infarto é por meio da avaliação da onda Q (onda Q patológica sugere IAM), da avaliação da onda T (é assimétrica e com a mesma polaridade do QRS na repolarização precoce) ou, ainda, buscar presença de imagem em espelho do infarto. 29Prof. Bruno Ferraz | Cardiologia | Abril 2022 Eletrocardiografia Básica Figura 22. Achado típico da repolarização precoce ao eletrocardiograma. • BLOQUEIO DE RAMO / HIPERTROFIA VENTRICULAR: vimos no módulo sobre o QRS que o bloqueio de ramo e a hipertrofia podem afetar o segmento ST, assim como inverter a onda T. • ANEURISMA DE PONTA DE VE: alguns pacientes com infarto anterior podem ter acometimento da ponta do VE, que pode evoluir com aneurisma. Nesse caso, poderemos evidenciar um supradesnivelamento do segmento ST mantido (que não reduz após o infarto) associado à onda Q. Esse supradesnível é mais comum nas derivações precordiais. • SÍNDROME DE BRUGADA: trata-se de uma canalopatia (mutação do canal de sódio cardíaco) com alto risco de morte súbita. As alterações eletrocardiográficas são: ◦ Elevação do segmento ST característica > 2 mm em V1-V3, seguida por onda T negativa ◦ Morfologia semelhante à BRD • MARCAPASSO: como o marcapasso estimula diretamente o ventrículo direito, gera morfologia de BRE, causa de supradesnível do segmento ST. 30Prof. Bruno Ferraz | Cardiologia | Abril 2022 Eletrocardiografia Básica Figura 23. Diagnóstico diferencial de supradesnivelamento do segmento ST. 1.2.5 INTERVALO QT O intervalo QT é medido do início do QRS até o final da onda T e representa a sístole ventricular, visto que engloba a despolarização (QRS) e repolarização ventricular (onda T). A duração normal do QT é diretamente influenciada pela frequência cardíaca (FC): quanto menor é a FC, maior é o QT. Por isso, utilizamos o valor do QT corrigido (QTC). Em geral, o próprio aparelho de ECG já fornecerá o valor corrigido. Na prova, não teremos essa facilidade. No entanto, como você é aluno Coruja, vou dar duas dicas para você não precisar calcular o intervalo QTC: 1. A primeira é bem simples: quando a FC estiver dentro da normalidade, consideraremos QT longo quando a duração for superior a 440-460 ms (aproximadamente 11 quadradinhos). O QT estará curto se for menor do que 300 ms. DII longo é uma boa derivação para fazer a medição. RESUMINDO: 31Prof. Bruno Ferraz | Cardiologia | Abril 2022 Eletrocardiografia Básica Figura 24. Dica prática para medida do intervalo QT. E qual é a importância da avaliação do intervalo QT no ECG? Nas provas, basicamente estarão envolvidos em dois cenários: distúrbios do cálcio e, principalmente, QT longo/torsades de pointes. Pacientes com QT longo apresentam maior risco de evolução para taquicardia ventricular polimórfica do tipo torsades de pointes, especialmente quando o QT possui duração superior a 500 ms. Esse tema é tratado com detalhes no livro sobre parada cardiorrespiratória (PCR). 2. Na correria da prova, você quer saber se o QT está normal: o que fazer? Dica mágica → trace uma linha no ponto médio entre 2 QRS. Se a onda T NÃO ultrapassar essa linha, posso garantir que o QT é normal! Se ultrapassar, você terá que medir! Veja a figura: Em relação aos distúrbios do cálcio, basta lembrar que o cálcio é fundamental para a sístole ventricular e o intervalo QT representa a sístole ventricular! Com isso, na hipercalcemia, a sístole ocorre mais rápida (QT curto). Em contrapartida, na hipocalcemia, o QT é longo. 1.2.6 ONDA T A onda T reflete a repolarização ventricular, é naturalmente assimétrica, lembrando uma montanha-russa (sobe devagar e desce rápido), e possui polaridade similar à do QRS. Nas provas, a análise da onda T será fundamental para duas situações: distúbios do potássio e isquemia. 32Prof. Bruno Ferraz | Cardiologia | Abril 2022 Eletrocardiografia Básica Figura 25. A onda T é assimétrica (em montanha-russa) e acompanha a polaridade do QRS na maioria das vezes. QRS para cima, onda T para cima! Nas derivações de transição (V3, V4), pode ter polaridade invertida em relação ao QRS, sem refletir condição patológica. Assim como toda onda, devemos analisar morfologia, duração e amplitude. Quanto à morfologia, já citamos as características acima. A duração da onda T já foi realizada na análise do intervalo QT! Por fim, a amplitude normal é menor do que 5 mm nas derivações periféricas e menor do que 10 mm nas derivações precordiais. Agora vamos conversar sobre as situações que mais alteram a onda T. 1.2.6.1 DISTÚRBIOS DO POTÁSSIO Entenda que o potássio e a onda T andam sempre juntos. Se o potássio sobe, a onda T sobe também. Além disso, a onda P é do contra e faz o movimento inverso. Com isso, podemos imaginar as principais alterações eletrocardiográficas dos distúrbios do potássio: Figura 26. Evolução das alterações eletrocardiográficas de acordo com a calemia. 33Prof. Bruno Ferraz | Cardiologia | Abril 2022 Eletrocardiografia Básica Quanto mais alterado o nível sérico do potássio, mais exuberante será a alteração eletrocardiográfica. No entanto, algumas questões cobram conhecimentos além desses. Então, vou apresentar a grande dica para acertar TODAS as questões sobre esse tema. Vamos começar pelo distúrbio do potássio mais comum: HIPERCALEMIA. Imagine uma mão levantando a onda T (lembra-se de que a onda T acompanha o potássio?), provocando todas as alterações! Ao levantar, o QRS alarga e a onda P reduz de calibre! Repare que a onda T fica simétrica e apiculada (algumas bibliografias chamam de aspecto de pá de pedreiro). Veja a figura abaixo: Figura 27. Hipercalemia no ECG. Na hipocalemia, como esperamos uma onda T de pequeno calibre, imagine umamão apertando a onda T. Com isso, surgirá uma onda U proeminente, além da onda P aumentada. Veja na figura: Figura 28. Hipocalemia no ECG. HIPERCALEMIA NO ECG HIPOCALEMIA NO ECG 34Prof. Bruno Ferraz | Cardiologia | Abril 2022 Eletrocardiografia Básica 1.2.6.2 ONDA T ISQUÊMICA A onda T é outra importante fonte de alterações isquêmicas ao ECG. Além da famosa onda T invertida, existem outras morfologias que também apontam para evento isquêmico. Por outro lado, nem toda onda T invertida significa isquemia. Por ser a alteração mais comum, vamos começar pela onda T invertida. ONDA T INVERTIDA Afinal, qual seria a nomenclatura correta? Onda T invertida ou onda T negativa? Onda T invertida é mais adequado, pois a onda T negativa pode ser completamente normal. Então, a onda T é invertida em relação à quê? O vetor de despolarização ventricular tem o mesmo sentido do vetor de repolarização ventricular, por isso a onda T deve possuir a mesma polaridade do QRS. Com isso, se o QRS é negativo, a onda T será negativa também. Para a onda T ser considerada isquêmica, além da polaridade invertida, ela deve apresentar amplitude superior a 1 mm e as famosas características das alterações isquêmicas (pelo menos duas derivações CONTÍGUAS, isto é, que olham para a mesma parede). Veja uma onda T invertida com características isquêmicas: Figura 29. Onda T isquêmica: QRS para cima, onda T para baixo (invertida) com amplitude superior a 1 mm. 35Prof. Bruno Ferraz | Cardiologia | Abril 2022 Eletrocardiografia Básica CAI NA PROVA (REVALIDA – INEP 2012) Um homem de 48 anos, hipertenso, obeso, chega à Emergência com queixa de episódios de dor torácica precordial, sem irradiação, iniciada nos últimos dois dias, com piora há 24 horas. A dor dura de 5 a 15 minutos, sendo precipitada por esforços intensos, como subir escadas, e é aliviada pelo repouso. O paciente informa não sentir a dor no momento da anamnese. Usa captopril e hipoglicemiante oral de forma regular. Nega antecedentes de doença coronariana e um eletrocardiograma foi considerado normal pelo seu cardiologista na última consulta, há 6 meses. Ao exame, mostra-se ansioso, mas em bom estado geral, pulso = 85 bpm, regular, cheio, PA = 140 x 80 mmHg, pulsos periféricos palpáveis e simétricos, extremidades bem perfundidas. As auscultas pulmonar e cardíaca estão dentro da normalidade. O seu eletrocardiograma à admissão mostra os seguintes achados. Qual a abordagem mais adequada ao paciente? A) Realizar tratamentos anti-isquêmico e antitrombótico administrados de modo imediato e simultâneo. B) Observar em Unidade Coronariana e administrar medicamentos sintomáticos até realização de cateterismo cardíaco. C) Observar na Emergência por 12 horas e encaminhar ao cardiologista para teste ergométrico se persistir assintomático. D) Realizar tratamento anti-isquêmico imediato, seguido de terapia antitrombótica em caso de alterações do segmento ST no ECG nas próximas 12 horas. E) Realizar tratamento antitrombótico imediato, seguido de terapia anti-isquêmica em caso de elevação de troponina sérica e/ou CK-MB nas próximas 12 horas. 36Prof. Bruno Ferraz | Cardiologia | Abril 2022 Eletrocardiografia Básica COMENTÁRIOS: Caro Estrategista, Estamos diante de um paciente com dor torácica! Ao chegar a uma unidade de emergência, o eletrocardiograma deve ser realizado em até 10 minutos! Não podemos “comer mosca” do supradesnível do segmento ST! Nesse caso, o vaso está ocluído e precisa ser recanalizado o mais rápido possível. Observe que, nesse eletrocardiograma, temos inversão da onda T (QRS para cima e onda T para baixo) em toda parede anterior (V2-V6). Diante de um paciente com dor com características anginosas, esse achado sugere ISQUEMIA MIOCÁRDICA. Com isso, paciente deve ser abordado como SCASSST e receber tratamento anti-isquêmico e antitrombótico. Para maiores detalhes, veja o livro sobre infarto! Aqui, iremos focar no eletrocardiograma! Gabarito: alternativa A. Existem outras causas de onda T invertida que estão expostas na tabela abaixo: Causas de onda T invertida Normal em crianças Padrão persistente juvenil Isquemia / infarto Bloqueio de Ramo Hipertrofia ventricular (padrão strain) Embolia pulmonar A presença de inversão de onda T de V1 a V4 (strain de VD) em paciente com dor torácica deve levantar a hipótese de tromboembolismo pulmonar (TEP). Aliás, muitas provas gostam de cobrar conceitos relacionados ao ECG nessa doença. Por isso, abrimos uma caixinha especial para falar sobre o ECG no TEP. 37Prof. Bruno Ferraz | Cardiologia | Abril 2022 Eletrocardiografia Básica O ECG NA EMBOLIA PULMONAR A embolia pulmonar pode gerar diversas alterações no eletrocardiograma, sendo a maioria inespecífica. Essas alterações são secundárias à hipoxemia e à sobrecarga ventricular causada pelo quadro clínico. Do ponto de vista prático, as principais perguntas sobre ECG e TEP que podem surgir são: • Qual é o achado mais comum? Taquicardia sinusal • Qual é o achado mais específico? Se não tiver a inversão de T SIMULTÂNEA em precordiais e derivações inferiores nas opções, marque S1Q3T3 e seja feliz! Figura 30. Principais alterações eletrocardiográficas do TEP ao eletrocardiograma. Inversão de T de V1 a V4 também é conhecida como “strain de VD”. 38Prof. Bruno Ferraz | Cardiologia | Abril 2022 Eletrocardiografia Básica ONDA T HIPERAGUDA Essa alteração já foi apresentada neste livro quando falamos sobre a evolução do infarto com supra (tópico sobre onda Q patológica). Nos primeiros minutos do IAMCSST, a primeira alteração eletrocardiográfica é a onda T hiperaguda. Trata-se de uma onda T que geralmente é simétrica, ampla, apiculada e respeita a polaridade do QRS. Muitas vezes, esse eletrocardiograma pode ser considerado normal ou não diagnóstico. Por isso, diante de um paciente com dor torácica persistente, é recomendado um novo ECG em 30 minutos caso o primeiro não tenha alterações. ONDA T BIFÁSICA Onda T bifásica tem apenas duas causas: isquemia ou hipocalemia. Quando a primeira porção é positiva e termina negativa, o diagnóstico é isquemia. Caso contrário, hipocalemia. Figura 31. Diferenciando a onda T bifásica. 1.3 SEQUÊNCIA DE ANÁLISE DO ELETROCARDIOGRAMA Estrategista, discutimos o significado, a normalidade e as causas de anormalidade de todas as ondas e intervalos importantes do ECG. Agora, chegou a hora de organizar tudo em um roteiro de análise. Se não tivermos sequência, não olharmos onda por onda, podemos “comer mosca” em algum diagnóstico. Por isso, venho propor a sequência simples de análise do ECG. Vamos tomar um refresco diante das ondas! 39Prof. Bruno Ferraz | Cardiologia | Abril 2022 Eletrocardiografia Básica Figura 32. Mnemônico para lembrar a sequência de análise do ECG. 1.3.1 ANÁLISE DO RITMO Sempre vamos buscar o ritmo sinusal. Para isso, devemos analisar a onda P, que deve ser positiva em DI, DII e aVF. Além disso, cada onda P deve gerar um QRS. Se você tem alguma dúvida neste tópico, volte e leia novamente o tópico sobre a onda P. Nas taquiarritmias e bradiarritmias, temos um algoritmo próprio para resolver essas questões (veremos adiante). Nos pacientes com FC controlada, as outras possibilidades são: • Ritmo atrial ectópico: as características da onda P serão diferentes das onda P sinusal, mas são imprevisíveis (depende do local de origem da ectopia). • Ritmo juncional: onda P será negativa em DII e DIII, como pode ser ausente ou até mesmo retrógrada (após o QRS). Depende do local de origem na junção AV. • Marcapasso migratório: ondas P com múltiplas morfologias. • Fibrilação atrial: ritmo irregular com ausência de onda P. 40Prof. Bruno Ferraz | Cardiologia | Abril 2022 Eletrocardiografia Básica As questões que cobram esses diagnósticos, exceto fibrilação atrial, são raras. Então, o importante é saber o que é ritmo sinusal! 1.3.2 ANÁLISE DO EIXO O eixo do QRS representa o vetor resultante da despolarização ventricular.A análise do eixo ajuda na identificação de bloqueios, de origem de arritmias e em diversas outras condições cardíacas. O vetor de despolarização geralmente vai em direção a DII, sendo aceitável algumas variações de acordo com o biotipo do paciente. Por isso, o eixo cardíaco normal vai de -30° a +90°. Algumas bibliografias pontuam de 0° a +90°, mas isso não influencia em nenhum diagnóstico. Veja a figura abaixo: Figura 33. Eixo cardíaco normal. E como determinaremos o eixo cardíaco por meio do ECG? Basta olhar para DI e aVF. Se o QRS for positivo em ambas derivações, podemos garantir que o QRS é normal. Esse é o método dos quadrantes: 41Prof. Bruno Ferraz | Cardiologia | Abril 2022 Eletrocardiografia Básica Figura 34. Determinando o eixo cardíaco pelo método dos quadrantes. 42Prof. Bruno Ferraz | Cardiologia | Abril 2022 Eletrocardiografia Básica E quais são as condições que afetam o eixo cardíaco? Desvio de eixo para direita Desvio de eixo para esquerda Hipertrofia ventricular direita Hipertrofia ventricular esquerda Embolia pulmonar Bloqueio de ramo esquerdo Infarto lateral Infarto inferior DPOC Síndrome de Wolff-Parkinson-White Dextrocardia Bloqueio divisional anterossuperior (BDAS) Síndrome de Wolff-Parkinson-White Bloqueio divisional posteroinferior (BDPI) O desvio de eixo é condição fundamental para a identificação dos bloqueios divisionais (bloqueios de pequenos ramos do ramo esquerdo ou direito). Você precisa reconhecer o BDAS por conta de uma condição: a doença de CHAGAS! A alteração eletrocardiográfica clássica, presente em aproximadamente 50% dos doentes chagásicos, é o bloqueio de ramo direito (BRD) com BDAS. Como identificar? Basta encontrar um BRD (QRS largo com V1 positivo) e desvio de eixo para esquerda. Só isso? Exatamente. Só isso! Quando o desvio de eixo não estiver evidente, busque por polaridade negativa na parede inferior (DII, DIII e aVF). Figura 35. ECG típico de doença de Chagas. Repare que há BRD (QRS largo + V1 positivo com orelha de coelho rSR’) e BDAS (desvio de eixo para esquerda → DI positivo e aVF negativo, além de polaridade negativa em parede inferior – DII, DIII e aVF). 43Prof. Bruno Ferraz | Cardiologia | Abril 2022 Eletrocardiografia Básica 1.3.3 ANÁLISE DA FREQUÊNCIA CARDÍACA A análise da frequência cardíaca visa à identificação de taquiarritmias (FC > 100 bpm) e bradiarritmias (FC• Intervalo QT: normal (normal entre 300 e 460 ms) • Onda T: normal (morfologia, duração e amplitude normais) Com isso, esse eletrocardiograma sugere aumento biatrial com sobrecarga de cavidades direitas, achado típico da estenose mitral, valvopatia mais provável diante dos achados clínicos descritos nessa questão. 2.0 VERSÕES DAS AULAS Caro Estrategista, Chegou a hora de colocarmos em prática nosso roteiro de análise do ECG: Caro aluno, para garantir que o curso esteja atualizado, sempre que alguma mudança no conteúdo for necessária, uma nova versão da aula será disponibilizada. CAPÍTULO 47Prof. Bruno Ferraz | Cardiologia | Abril 2022 Eletrocardiografia Básica3.0 LISTA DE QUESTÕES https://estr.at/ZJeY 48Prof. Bruno Ferraz | Cardiologia | Abril 2022 Eletrocardiografia Básica 4.0 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 1. ECG: Manual Prático de Eletrocardiograma. Helder José Lima Reis et cols. Editora Atheneu, 2013. 2. Pastore CA, Pinho JA, Pinho C, Samesima N, Pereira-Filho HG, Kruse JCL, et al. III Diretrizes da Sociedade Brasileira de Cardiologia sobre Análise e Emissão de Laudos Eletrocardiográficos. Arq Bras Cardiol 2016; 106(4Supl.1):1-23 3. Waldemar Decache. ECG de bolso. Editora Revinter. 5.0 CONSIDERAÇÕES FINAIS Caro Revalidando, Eletrocardiograma é um dos temas mais difíceis e complexos da Cardiologia. Somente o treinamento levará você à perfeição. Por isso, não deixe de realizar os exercícios que separamos para seu treinamento! Se alguma dúvida persistir, utilize o Fórum de Dúvidas! Terei o maior prazer em respondê-lo. Também estou disponível no Instagram (@profbrunoferraz) e pelo e-mail (bruno.ferraz@estrategiamed.com.br). Até o próximo tema! Bruno Ferraz. CAPÍTULO CAPÍTULO