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PROCESSO DE CONHECIMENTO Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida ou transmitida de qualquer modo ou por qualquer outro meio, eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia, gravação ou qualquer outro tipo de sistema de armazenamento e transmissão de informação, sem prévia autorização, por escrito, do Grupo Ser Educacional. Diretor de EAD: Enzo Moreira Gerente de design instrucional: Paulo Kazuo Kato Coordenadora de projetos EAD: Manuela Martins Alves Gomes Coordenadora educacional: Pamela Marques Equipe de apoio educacional: Caroline Guglielmi, Danise Grimm, Jaqueline Morais, Laís Pessoa Designers gráficos: Kamilla Moreira, Mário Gomes, Sérgio Ramos,Tiago da Rocha Ilustradores: Anderson Eloy, Luiz Meneghel, Vinícius Manzi Assis, Rafaela Lacerda. Processo de conhecimento / Rafaela Lacerda Assis: Cengage – 2020. Bibliografia. ISBN 9788522129843 1. Processo de Conhecimento 2. Código de Processo Civil 3. Código Processual Civil Grupo Ser Educacional Rua Treze de Maio, 254 - Santo Amaro CEP: 50100-160, Recife - PE PABX: (81) 3413-4611 E-mail: sereducacional@sereducacional.com “É através da educação que a igualdade de oportunidades surge, e, com isso, há um maior desenvolvimento econômico e social para a nação. Há alguns anos, o Brasil vive um período de mudanças, e, assim, a educação também passa por tais transformações. A demanda por mão de obra qualificada, o aumento da competitividade e a produtividade fizeram com que o Ensino Superior ganhasse força e fosse tratado como prioridade para o Brasil. O Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego – Pronatec, tem como objetivo atender a essa demanda e ajudar o País a qualificar seus cidadãos em suas formações, contribuindo para o desenvolvimento da economia, da crescente globalização, além de garantir o exercício da democracia com a ampliação da escolaridade. Dessa forma, as instituições do Grupo Ser Educacional buscam ampliar as competências básicas da educação de seus estudantes, além de oferecer- lhes uma sólida formação técnica, sempre pensando nas ações dos alunos no contexto da sociedade.” Janguiê Diniz PALAVRA DO GRUPO SER EDUCACIONAL Autoria Rafaela Lacerda Assis Advogada graduada em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Possui experiência profissional na área de Direito, com ênfase em Direito Administrativo e Constitucional. Atualmente pesquisa sobre controle de constitucionalidade, o papel contramajoritário e político do Judiciário, revisão judicial e as relações interinstitucionais entre Poderes do Estado. SUMÁRIO Prefácio .................................................................................................................................................8 UNIDADE 1 - Processo de conhecimento ........................................................................................9 Introdução.............................................................................................................................................10 1.0 Formação do processo e petição inicial .......................................................................................... 11 2.0 Pedido .............................................................................................................................................22 3.0 Espécies de Pedido .......................................................................................................................... 26 PARA RESUMIR ..............................................................................................................................30 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ......................................................................................................31 UNIDADE 2 - Desenvolvimento do contraditório ............................................................................33 Introdução.............................................................................................................................................34 1.0 Atos processuais e a comunicação de atos processuais ..................................................................35 2.0 Respostas do réu e revelia .............................................................................................................. 48 3.0 Noções Gerais ................................................................................................................................. 50 4.0 Exceções de Incompetência, Impedimento e Suspeição .................................................................53 PARA RESUMIR ..............................................................................................................................58 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ......................................................................................................59 UNIDADE 3 - Desenvolvimento e julgamento antecipado do processo ............................................61 Introdução.............................................................................................................................................62 1.0 Improcedência liminar do pedido ................................................................................................... 63 2.0 Providências preliminares e julgamento conforme o estado do processo .....................................65 3.0 Extinção do processo ...................................................................................................................... 68 4.0 Suspensão do processo: análise das hipóteses legais .....................................................................73 5.0 Provas: teoria geral e direito probatório ......................................................................................... 75 PARA RESUMIR ..............................................................................................................................81 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ......................................................................................................82 UNIDADE 4 - Sentença e coisa julgada ...........................................................................................83 Introdução.............................................................................................................................................84 1.0 sentença ..........................................................................................................................................85 2.0 Elementos da sentença ................................................................................................................... 89 3.0 Coisa julgada ................................................................................................................................... 93 PARA RESUMIR ..............................................................................................................................102 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ......................................................................................................103 A área de direito é uma das mais ricas em temas. Um deles é o de Código de Processo Civil, assunto tratado aqui. Dividido em quatro unidades, o livro aborda, além de diversos conceitos, os principais assuntos da matéria. Processo do conhecimento, nome da primeira unidade, traz ao leitor o modo como o processo se forma, seu meio de formação e os requisitos necessários para que ele se constitua de forma válida por meio da petição inicial. Ainda, a formação do processo e da petição inicial e o pedido que constituirá a pretensão jurídica do autor da causa, também são tratados. Desenvolvimento do contraditório, segunda unidade, aborda o desenvolvimento do contraditório, caracterizado pela a forma e o modo de comunicação dos atos processuais às partes, pelas formas e efeitos da comunicação da instauração do processo ao réu, pela realização de audiência preliminar deI do artigo 231). Oficial de justiça A citação por Oficial de justiça é um dos casos de exceção à regra e só ocorrerá nos casos em que não couber citação por carta, conforme já tratado no tópico anterior, ou quando, tentada a 43 citação por carta, a diligência restar frustrada, nos termos do artigo 249 do CPC. O mandado que o Oficial de Justiça deverá cumprir precisa atender aos mesmos requisitos já citados para o caso de citação por correio, elencados no artigo 250. É papel do Oficial de Justiça procurar o citando, buscando meios e informações necessárias para encontrá-lo, e diligenciando de modo mais incisivo que o oficial dos correios faria. Ao encontrar o citando, o Oficial de Justiça deverá cumprir as formalidades do artigo 251 do CPC, o qual determina a incumbência de: (i) ler o mandado ao citando e entregar-lhe a cópia da inicial; (ii) atestar se o citando recebeu ou recusou o recebimento da cópia da inicial; (iii) recolher a assinatura do citando no mandado, ou certificar caso o citando se recuse a assinar o mandado. Mesmo que a citação por Oficial não possa ocorrer em qualquer comarca sem a emissão de carta precatória, como seria no caso do envio pelo correio, o CPC permite em seu artigo 255 que o Oficial de Justiça cumpra a citação, intimação, notificações, penhoras ou quaisquer outros atos em comarcas contíguas e de fácil acesso, como é o caso de regiões metropolitanas, dispensando a emissão de carta precatória. Hora certa A citação por hora certa é tratada nos artigos 252 a 254 do CPC e ocorrerá quando o Oficial de Justiça comparecer à residência do citando por duas vezes, em dias e horários distintos, confirmar que o endereço está correto e suspeitar que ele está se ocultando para não receber a citação. Nesse caso, o Oficial de Justiça deverá preencher a verificação dos pressupostos no mandado e estará autorizado a intimar quaisquer das pessoas que estiverem presentes (familiar, vizinho, funcionário da portaria), desde que capaz, que no dia útil imediato voltará em hora especialmente designada para proceder à citação (art. 252, CPC). Nos termos do artigo 253 e seus parágrafos, o Oficial de Justiça comparecerá na hora marcada e, mesmo que não encontre o citando ou outra pessoa que por ele responda, dará por realizada a citação, certificando a ausência do citando e indicando pessoa a quem entregou a cópia da inicial, além de apontar no mandado que, caso o citando não responda ao processo, será indicado curador especial. Realizada a citação por hora certa, o escrivão ou chefe de secretaria enviará ao citando, no prazo de 10 (dez) dias, uma carta, telegrama ou correspondência eletrônica, dando-lhe ciência de tudo quanto foi registrado pelo Oficial de Justiça (art. 254). Entretanto, conforme lição de DIDIER (2015, p. 618), não obstante o envio da correspondência seja obrigatória – e caso não ocorra acarrete a nulidade da citação – ela não será o marco para o início do prazo de resposta do réu. O prazo começará a transcorrer a partir da juntada dos autos 44 do mandado de citação certificado pelo Oficial de Justiça. Escrivão ou chefe da secretaria Esse meio de citação existe com o objetivo de simplificar o procedimento de ciência do réu. Nos termos dos artigos 152, II e 246, III do CPC, caso o citando compareça ao cartório, o escrivão ou chefe de secretaria certificará a citação, cientificando-o do processo e do início do prazo para resposta, fornecendo cópia do processo. Edital A citação por Edital é uma forma de citação ficta, o que significa que o mandado de citação não será entregue diretamente ao citando, mas será praticado um ato processual que mitiga a pessoalidade da citação. Do mesmo modo que a citação por hora certa, caso haja revelia, será indicado curador especial para promover a defesa do revel, conforme inciso II do artigo 72 do CPC. O artigo 256 determina que a citação por edital, a qual é excepcional, será realizada quando: (i) o réu for desconhecido ou incerto; (ii) o lugar em que se encontrar o citando for ignorado, incerto ou inacessível; (iii) ou nos casos expressos em lei, conforme artigo 259 do CPC. Por sua vez, o artigo determina as hipóteses legais de citação por edital, que são: (i) ação por usucapião de imóvel; (ii) ação de recuperação e substituição de título ao portador e; (iii) qualquer ação que seja necessária, por determinação legal, a provocação, para participação no processo, de interessados incertos ou desconhecidos. O Edital deverá seguir os requisitos apontados pelo artigo 257 do CPC e será publicado na internet, no site do tribunal, na plataforma de editais do Conselho Nacional de Justiça e, caso determinado pelo juiz, em jornal local de ampla circulação, conforme peculiaridades da comarca. No caso de edital, o prazo para resposta do réu será determinado pelo juiz, ente 20 (vinte) e 60 (sessenta) dias e começará a fluir da data de publicação do edital (inciso III do artigo 257). Meio eletrônico A citação por meio eletrônico foi instituída pela Lei nº 11.419/2006, a qual dispõe sobre a informatização do processo judicial e determina que, caso os autos estejam integralmente disponíveis para o citando, a citação poderá ser eletrônica, inclusive para a Fazenda Pública (artigo 6º da Lei nº 11.419/2006). Nesse sentido, o CPC de 2015, na tendência da informatização dos processos, instituiu 45 hipóteses em que o meio eletrônico será o meio preferencial de citação que são: (i) empresas públicas e privadas, com exceção das microempresas e empresas de pequeno porte; (ii) a União, os Estados, o Distrito Federal, os Municípios e as entidades da administração indireta. É importante pontuar que, não obstante a obrigação esteja prevista no CPC, o modo de citação deverá observar os requisitos do artigo 5º da Lei nº11.419/2006, que são: Art. 5º As intimações serão feitas por meio eletrônico em portal próprio aos que se cadastrarem na forma do art. 2º desta Lei, dispensando-se a publicação no órgão oficial, inclusive eletrônico. § 1º Considerar-se-á realizada a intimação no dia em que o intimando efetivar a consulta eletrônica ao teor da intimação, certificando-se nos autos a sua realização. § 2º Na hipótese do § 1º deste artigo, nos casos em que a consulta se dê em dia não útil, a intimação será considerada como realizada no primeiro dia útil seguinte. § 3º A consulta referida nos §§ 1º e 2º deste artigo deverá ser feita em até 10 (dez) dias corridos contados da data do envio da intimação, sob pena de considerar-se a intimação automaticamente realizada na data do término desse prazo. § 4º Em caráter informativo, poderá ser efetivada remessa de correspondência eletrônica, comunicando o envio da intimação e a abertura automática do prazo processual nos termos do § 3º deste artigo, aos que manifestarem interesse por esse serviço. § 5º Nos casos urgentes em que a intimação feita na forma deste artigo possa causar prejuízo a quaisquer das partes ou nos casos em que for evidenciada qualquer tentativa de burla ao sistema, o ato processual deverá ser realizado por outro meio que atinja a sua finalidade, conforme determinado pelo juiz. § 6º As intimações feitas na forma deste artigo, inclusive da Fazenda Pública, serão consideradas pessoais para todos os efeitos legais. Apenas os cadastrados no sistema poderão ser citados eletronicamente, motivo pelo qual o §1º do artigo 246 do CPC obriga que as pessoas jurídicas mantenham seu cadastro atualizado perante os tribunais. Procedida a citação eletrônica, nos termos do artigo 231 do CPC, o prazo para a resposta começará a fluir do dia útil seguinte à consulta ao teor da citação, ou do dia útil seguinte ao término do prazo para que a consulta se dê. 46 Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: 1.4 Audiência preliminar de conciliação ou mediação A audiência de conciliação e de mediação está prevista no CPC no artigo 334, que trata da designação da audiência, as formas de intimação, hipóteses em que não ocorrerá a audiência,a possibilidade de que ocorra por meio eletrônico, os efeitos do não comparecimento injustificado do autor e do réu, a obrigatoriedade de comparecimento de advogado, o modo de autocomposição e a organização da pauta de audiências. A ideia da realização da audiência antes mesmo da apresentação de defesa é justamente evitar o litígio, caso ainda seja possível, provocando as partes a se mobilizarem pela autocomposição, em um cenário institucional que facilite o debate, que poderia não ocorrer caso a ação não FIQUE DE OLHO A diferença entre audiência de conciliação e mediação diz respeito ao tipo de técnica que será utilizada, em relação ao tipo de conflito, nos termos do artigo 165 do CPC. Consoante §§2º e 3º do artigo 165 do CPC, o conciliador “atuará preferencialmente nos casos em que não houver vínculo anterior entre as partes” e poderá sugerir soluções para o litígio, enquanto o mediador “atuará preferencialmente nos casos em que houver vínculo anterior entre as partes, auxiliará os interessados a compreender as questões e os interesses em conflito, de modo que eles possam, pelo restabelecimento da comunicação, identificar, por si próprios, soluções consensuais que gerem benefícios mútuos”. Ou seja, a conciliação trata de uma solução puramente jurídica para a lide, enquanto a mediação visa restabelecer vínculos de comunicação quebrados que levaram ao litígio. 47 houvesse sido proposta. Conforme já tratado na unidade anterior, o autor deverá indicar na petição inicial se deseja ou não que seja realizada a audiência preliminar de conciliação, sendo que as partes podem optar por expressamente manifestarem-se no sentido de dispensar a audiência. O artigo 334 do CPC estabelece que, deferida a petição inicial, o juiz designará a audiência de conciliação ou mediação com antecedência mínima de 30 (trinta) dias, mesmo que o autor tenha se manifestado pela dispensa da audiência, devendo o réu ser citado com, no mínimo, 20 (vinte) dias de antecedência. Isso porque, conforme o §4º, a audiência só não acontecerá caso ambas as partes, mesmo no caso de litisconsórcio (§6º, art. 334) manifestem expressamente o desinteresse na autocomposição, sendo que caso o autor dispense a audiência, o réu tem até 10 (dez) dias de antecedência para manifestar a discordância com a realização da audiência de conciliação ou mediação. Conforme lição de DIDIER (2015, p. 624): O legislador preferiu não impor a audiência em caso em que ambas as partes manifestem expressamente o seu desinteresse. A solução parece boa: elimina a possibilidade de a audiência não se realizar porque apenas uma parte não a deseja, mas ao mesmo tempo respeita a vontade das partes no sentido de não querer autocomposição, o que está em conformidade com o princípio do respeito ao autorregramento da vontade e com o princípio da cooperação. Repita-se o que já se disse neste Curso: a vontade das partes não pode ser nem é um dado irrelevante para o processo. Importante efeito da manifestação de discordância do réu na realização da audiência é que, conforme o inciso II do artigo 335 do CPC, a partir do protocolo da manifestação de desinteresse começará a correr o prazo para sua resposta. Outra hipótese de não ocorrência da audiência será quando a lide, por sua natureza, não admitir autocomposição, como é o caso de ações que envolvam o Poder Público, o qual só pode realizar transações quando expressamente autorizado por lei. Nesse caso, o reú só será citado para apresentar resposta, sem ser intimado para realização de audiência (art. 335, III). Conforme o artigo165 do CPC, a audiência deverá ocorrer em centros judiciários de solução consensual de conflitos, espaço criado exclusivamente para a realização de audiências de conciliação e mediação, as quais também poderão ocorrer por meio eletrônico em videoconferência (§7º, art. 334). A respeito da realização da audiência, o §2º do artigo 334 determina que poderá acontecer mais de uma sessão, no intervalo máximo de 2 (dois) meses, sendo necessária a figura do conciliador ou mediador, conforme o caso (§1º). Ademais, a pauta das audiências deverá ser 48 organizada de tal modo a respeitar o intervalo mínimo de 20 (vinte) minutos entre o início de uma e o início da seguinte (§12). Faz-se importante pontuar que é obrigatória a presença dos advogados das partes. Entretanto, as próprias poderão indicar representantes com poderes para transigir, por meio de procuração específica (§10, art. 334), caso em que as partes não precisarão comparecer. Importante é o lembrete de DIDIER (2015, p.626) a esse respeito: Há proibição de atuação de advogado como preposto (art. 23 do Código de Ética da OAB). Parece, no entanto, que essa proibição não se aplica à representação processual, porquanto a participação de advogado, aqui, na qualidade de representante negocial, restringir-se-á à negociação e à assinatura do termo de acordo – atividades típicas do exercício da advocacia. A restrição do Código de Ética refere-se à preposição em causas trabalhistas, nas quais a figura do preposto assume outras funções – depor pela parte, por exemplo. As partes são obrigadas a comparecer à audiência, sendo que nos termos do § 8º, o não comparecimento injustificado “é considerado ato atentatório à dignidade da justiça e será sancionado com multa de até dois por cento da vantagem econômica pretendida ou do valor da causa, revertida em favor da União ou do Estado”, conforme o tribunal que estiver processando a demanda. A autocomposição deverá ser homologada por sentença (§11) e, caso não ocorra, o prazo para resposta do réu começa a contar da data de realização da audiência (art. 335, I). 2.0 RESPOSTAS DO RÉU E REVELIA Conforme já tratado, após a citação válida do réu, caso não haja audiência de conciliação ou caso a conciliação reste frustrada, inicia-se o prazo para a resposta do réu. Resposta do réu é o termo genérico para todas as possíveis reações processuais cabíveis ao réu, não se confundindo simplesmente com a defesa, que é apenas uma espécie de resposta. O réu poderá responder à pretensão do autor das seguintes formas: (i) reconhecimento do pedido do autor (art.487, III, a), que deverá ser homologado por sentença (ii) apresentação de contestação, nos termos dos artigos 335 a 342 (iii) reconvenção (art. 343) (iv) arguição de impedimento ou suspeição (arts. 144 a 148) 49 (v) revelia, que é a ausência de resposta 2.1 Espécies de Defesa Em prol da concentração da defesa (que será estudada em tópico próprio), todos os argumentos de defesa devem ser apresentados em contestação. Inicialmente, a defesa é dividida em dois tipos: de admissibilidade e de mérito. As defesas de admissibilidade são traduzidas nas preliminares de contestação, indicadas no artigo 337 do CPC. As matérias de admissibilidade devem ser alegadas em primeiro lugar. Isso deve ocorrer porque são elas que discutem os pressupostos processuais, as condições da ação, além de todos os requisitos necessários para a propositura da demanda e instauração do processo, como por exemplo a ilegitimidade das partes, inépcia da petição inicial, coisa julgada etc. Nos dizeres de Wambier (2015, p. 580): No que se refere à defesa processual, o art. 337 elenca as preliminares, que abrangem matérias cuja análise, sob o ponto de vista lógico, deve anteceder a defesa de mérito, uma vez que, se acatadas, levam à extinção do processo ou à necessidade de que sejam tomadas providências prévias à apreciação da procedência ou não do pedido do autor. As defesas de admissibilidade são divididas em peremptórias (que podem levar à extinção da demanda) e dilatórias (que adiam a análise o mérito da demanda). De acordo com a WAMBIER (2015, p. 583): O art. 337 do NCPC elenca as defesas processuais, relacionadas à falta das condições da ação e dos pressupostos processuais. São as preliminares que, se acatadas, podem levar à extinção da ação sem análise do mérito – defesa processual própria ou peremptória – ou aoadiamento da análise do mérito, em razão da necessidade de que seja adotada, antes, alguma providência – defesa processual imprópria ou dilatória. São defesas processuais peremptórias: a inépcia da petição inicial, perempção, litispendência e coisa julgada, convenção de arbitragem, ausência de legitimidade ou de interesse processual. São, por sua vez, defesas processuais dilatórias: inexistência ou nulidade da citação, incompetência absoluta ou relativa, incorreção do valor da causa, conexão, incapacidade da parte, defeito de representação ou falta de autorização, falta de caução ou de outra prestação que a lei exige como preliminar, a indevida concessão do benefício da justiça gratuita. Ainda, as preliminares podem ser de objeção ou de exceção. De objeção são aquelas que podem ser conhecidas de ofício pelo juiz (prescrição, incompetência absoluta). De exceção são as que devem ser alegadas pela parte, não podendo ser conhecidas de ofício (incompetência relativa, cláusula de arbitragem). 50 Por sua vez, a defesa de mérito, como o próprio nome já indica, reflete o direito material do réu, podendo ser direta ou indireta. Se a defesa de mérito for direta, tem-se a negativa do direito do autor, por exemplo, e a dívida não existe. Se for indireta, tem-se a indicação de fatos impeditivos, extintivos ou modificativos do direito do autor, por exemplo, e a dívida foi paga. Leciona Wambier (2015, p. 581): É na contestação que o réu deve impugnar, de maneira especificada, os fatos alegados pelo autor e o pedido formulado na inicial, expondo as razões pelas quais se impõe sua improcedência. Trata-se da defesa substancial, pois se volta contra o direito material afirmado pelo autor. Pode ser direta ou indireta. A defesa de mérito direta é aquela por meio do qual o réu nega a ocorrência do fato constitutivo do direito do autor (v.g. inexiste o fato danoso narrado na inicial) ou as consequências jurídicas que o autor diz decorrerem desses fatos (v.g. o evento danoso existiu, mas dele não decorre indenização por dano moral no valor excessivo pretendido pelo autor), ou ambos. A defesa de mérito indireta, por sua vez, é aquela por meio da qual o réu admite, nem que o faça em atenção ao princípio da eventualidade, o fato constitutivo do direito do autor (v.g. a dívida existiu), mas alega outros fatos novos, extintivos (a dívida foi paga), impeditivos (foi contraída sob coação) ou modificativos do direito do autor (houve o parcelamento do valor devido). Por fim, a defesa pode ser instrumental ou interna. Sendo interna aquela que pode ser alegada no bojo do processo e instrumental àquela que depende da formação de autos próprios. A maioria das defesas são internas, sendo que as instrumentais estão expressamente previstas na legislação, por exemplo, alegação de suspeição ou impedimento do magistrado. 2.2 Contestação Nos tópicos que se seguem, falaremos a respeito da contestação, que é a defesa do réu, uma das formas de resposta, conforme já tratado. 3.0 NOÇÕES GERAIS Contestação é a manifestação do réu de resistência à pretensão do autor, em que será, em petição única, alegada toda a matéria de defesa. Conforme lição de DIDIER (2015, p. 637): A contestação está para o réu como a petição inicial está para o autor. Trata-se do instrumento da exceção exercida (exercício do direito de defesa), assim como a petição inicial é o instrumento da demanda (ação exercida). É pela contestação que o réu apresenta sua defesa. No procedimento comum, a contestação é escrita e deve ser assinada por quem tenha capacidade postulatória – advogado, Membro do ministério Público ou defensor público. 51 Nos termos do artigo 335, o prazo para apresentação da contestação é de 15 dias contados: (i) da audiência de conciliação quando não houver autocomposição; (ii) do protocolo do pedido de cancelamento de audiência apresentado pelo réu; (iii) da data de perfectibilização da citação, nos termos do artigo 231, já abordado anteriormente. 3.1 Ônus da impugnação especificada A ideia da especificação da impugnação é que não é possível que exista defesa genérica, de modo que cada fato alegado pelo autor em sua inicial deverá ser especificamente combatido pelo réu em sua defesa. Portanto, o que não for especificamente impugnado será reputado como verdadeiro, nos termos do artigo 341 do CPC. O mesmo artigo também traz exceções à regra, dispensando a impugnação específica quando: (i) a defesa for apresentada por defensor público, advogado dativo ou curador especial, caso em que poderá ser apresentada defesa genérica; (ii) não for admitida confissão a respeito do fato, como é o caso dos direitos indisponíveis; (iii) faltar na petição inicial documento essencial que a lei exige para constituir o fato; (iv) o réu contestar apenas alguns fatos que logicamente decorram a impugnação de outros. 3.2 Regra de Concentração da defesa A regra da concentração da defesa é aquela expressa no artigo 336 do CPC, por meio do qual determina-se que o réu deverá alegar na contestação toda a matéria de defesa, expondo as razões de fato e de direito com que impugna o pedido do autor. O efeito dessa regra é que o momento para impugnação das teses e fatos expostos na petição inicial é exclusivamente na contestação. Nos dizeres de DIDIER (2015, p. 638): A regra da eventualidade (Eventualmaxime) ou da concentração da defesa na contestação significa que cabe ao réu formular toda a sua defesa na contestação. Toda defesa deve ser formulada de uma só vez como medida de previsão ad eventum, sob pena de preclusão. O réu tem o ônus de alegar tudo quanto puder, pois ao contrário, perderá a oportunidade de fazê-lo. O artigo 337¹ elenca um rol de todas as matérias preliminares que poderão ser alegadas pelo réu em sede de defesa, contestando a própria admissibilidade da ação, além de todas as teses de mérito que deverão contestar especificamente, conforme já tratado os fatos e o direito alegado pelo autor. 52 FIQUE DE OLHO ¹ Art. 337. Incumbe ao réu, antes de discutir o mérito, alegar: I - inexistência ou nulidade da citação; II - incompetência absoluta e relativa; III - incorreção do valor da causa; IV - inépcia da petição inicial; V - perempção; VI - litispendência; VII - coisa julgada; VIII - conexão; IX - incapacidade da parte, defeito de representação ou falta de autorização; X - convenção de arbitragem; XI - ausência de legitimidade ou de interesse processual; XII - falta de caução ou de outra prestação que a lei exige como preliminar; XIII - indevida concessão do benefício de gratuidade de justiça. § 1º Verifica-se a litispendência ou a coisa julgada quando se reproduz ação anteriormente ajuizada. § 2º Uma ação é idêntica a outra quando possui as mesmas partes, a mesma causa de pedir e o mesmo pedido. § 3º Há litispendência quando se repete ação que está em curso. § 4º Há coisa julgada quando se repete ação que já foi decidida por decisão transitada em julgado. § 5º Excetuadas a convenção de arbitragem e a incompetência relativa, o juiz conhecerá de ofício das matérias enumeradas neste artigo. § 6º A ausência de alegação da existência de convenção de arbitragem, na forma prevista neste Capítulo, implica aceitação da jurisdição estatal e renúncia ao juízo arbitral. 53 Isso demonstra que, não obstante o Código de Processo Civil tenha simplificado o procedimento de reconvenção em relação ao código anterior, permitindo que seja apresentada na mesma petição da contestação, ele mantém sua autonomia processual, que perdura mesmo na ausência de contestação ou de extinção da ação principal. 3.3 Reconvenção Nos termos do artigo 343 do CPC, na contestação o réu pode propor reconvenção para manifestar pretensão própria, conexa com a ação principal e com o argumento de defesa, como por exemplo em uma ação de cobrança em que o réu alega que o devedor é, de fato, o autor. A reconvenção deverá obedecer aos mesmos requisitos da petição inicial, ainda que apresentada na mesma petiçãoda contestação, sendo o autor intimado para apresentar resposta no prazo de 15 (quinze) dias (§1º, art. 343). Caso o autor desista da ação, a reconvenção segue como ação autônoma, sendo inclusive possível que o então réu indique terceiro para compor a lide conjuntamente ao autor, ou mesmo indique litisconsorte (§§ 2º, 3º e 4º, art. 343). Inclusive a independência da reconvenção permite que o autor apresente reconvenção mesmo sem apresentar contestação (§6º, art. 343). Isso demonstra que, não obstante o Código de Processo Civil tenha simplificado o procedimento de reconvenção em relação ao código anterior, permitindo que seja apresentada na mesma petição da contestação, ele mantém sua autonomia processual, que perdura mesmo na ausência de contestação ou de extinção da ação principal. 4.0 EXCEÇÕES DE INCOMPETÊNCIA, IMPEDIMENTO E SUSPEIÇÃO As regras envolvendo incompetência e impedimento ou suspeição estão previstas no CPC nos artigos 64 a 66 e 144 a 148, respectivamente. São regras gerais que, se não seguidas, podem gerar a nulidade dos atos praticados, ou até mesmo do processo como um todo. 4.1 Da incompetência A incompetência pode ser relativa ou absoluta, e deve ser alegada como preliminar de contestação. Por competência absoluta, tem-se aquela que é devida em lei em decorrência do direito material envolvido, da condição de uma das partes e pelo critério funcional. Por exemplo: a discussão de um tributo federal atrai a competência absoluta da justiça federal, não podendo ser 54 a ação julgada na justiça estadual. A competência relativa, como o próprio nome já indica, é aquela que pode ser relativizada por envolver interesses privados. Sua fixação decorre do valor da causa e da territorialidade. Por exemplo: em alguns casos, a ação pode ser ajuizada no juizado especial por conta do baixo valor da causa, mas o autor opta pela justiça comum. A incompetência absoluta é matéria de ordem pública, podendo ser alegada a qualquer momento, em preliminar de contestação ou petição apartada, e pode ser reconhecida de ofício pelo magistrado. Por sua vez, a incompetência relativa somente pode ser arguida pelo réu em preliminar de contestação. Uma vez não sendo arguida, há a relativização da competência e a preclusão do direito de requerer a remessa dos autos ao juízo competente. Nos ensinamentos de Wambier (2015, p. 130-131): *Importante alteração: a incompetência relativa será arguida em preliminar de contestação O NCPC, em seu art. 64, inova de maneira robustamente positiva ao dispor que a incompetência relativa (isto é, incompetência em razão do valor ou de natureza territorial), uma vez verificada, poderá ser arguida em capítulo preliminar de contestação, revogando-se o sistema do CPC/73, que condiciona a arguição de incompetência relativa à apresentação de exceção de incompetência. Trata-se de norma simplificadora, que extingue a figura da exceção de incompetência e uniformiza a metodologia de suscitação de incompetências: tanto a incompetência relativa (em razão do valor e territorial) quanto a absoluta (material e funcional) serão arguíveis no âmbito da contestação, sem a necessidade de ajuizamento, no caso das primeiras, de exceção de incompetência, gerando-se o processamento de incidente processual. * Incompetência absoluta Dado decorrer de normas de ordem pública, a violação a disposições legais estabelecedoras de competência absoluta pode ser arguida tanto na contestação (em capítulo da petição de defesa preliminar à abordagem dos argumentos atinentes ao mérito), quanto em petição simples, ou mesmo no bojo de qualquer outra manifestação (recursos etc.), em qualquer tempo e grau de jurisdição. Trata- se de vício insanável, gerador de nulidade absoluta e, portanto, suscitável por qualquer das partes ou apreciável ex officio. Observamos que, apesar de pronunciável de ofício pelo magistrado, a declaração de incompetência absoluta deverá ser precedida da oitiva da parte contrária, conforme disposto no art. 9º e no § 2º do art. 64, ambos do NCPC. 4.2 Do impedimento e da suspeição A imparcialidade do juiz é condição de validade do processo. Caso sua imparcialidade seja 55 colocada em discussão, pode gerar a nulidade de todos os atos práticos. Nessa linha o CPC traz duas situações a fim de evitar tal parcialidade: casos em que o juiz está impedido de julgar a ação e casos em que ele pode ser considerado suspeito. Nos casos expressamente previstos de impedimento (art. 144, CPC), há a ocorrência da presunção absoluta de que, por conta das situações ali descritas, o juiz não atuará com a imparcialidade que lhe é obrigatória, logo deve ser afastado do caso. As hipóteses de suspeição, por outro lado, são situações em que a parcialidade do juiz gera uma presunção relativa. Ou seja, pode ser constatado que, apesar de ser amigo íntimo de uma das partes (inciso I, art. 145, CPC), o juiz manterá sua imparcialidade não favorecendo nenhuma das partes. O rol de situações que geram o impedimento do juiz ou sua suspeição é taxativo e está previsto nos artigos 144 e 145, CPC. Sobre o tema, WAMBIER (2015, p. 274) assim leciona: As causas de impedimento estão relacionadas a fatos objetivamente verificáveis. e geram a presunção absoluta de parcialidade do juiz. Estão enumeradas, de forma taxativa, no art.144 do NCPC. As causas de suspeição, por sua vez, têm conotação subjetiva e geram presunção relativa de parcialidade do juiz. Embora se afirme que a enumeração do art. 145 (correspondente ao art. 135 do CPC/73) seria também taxativa5., não nos parece que seja exatamente assim. Cândido Dinamarco sustenta que “a aparente rigidez dessas tipificações fica superada pela ideia mater da suspeição, que é o estado anímico de perda da serenidade e equidistância – seja porque ao juiz é aconselhado que se dê por suspeito por motivo de foro íntimo, seja porque as alegações de suspeição fundam-se mais na própria perda de serenidade que no enquadramento típico em hipóteses legais. Nos casos de impedimento a tipificação é mais rígida e sempre rigorosamente objetiva, não comportando ampliação alguma”. Tanto o impedimento quanto a suspeição envolvem a imparcialidade do juiz, condição inafastável do devido processo legal, porém, diferentemente do primeiro, cujas hipóteses são preestabelecidas, mostra-se difícil, senão impossível, ao legislador antever todas as possibilidades de vínculos subjetivos que possam colocar em risco a equidistância que o julgador deve manter das partes. Por força disso, o rol do art. 145 do NCPC, correspondente ao art. 135 do CPC/73, não deve ser tido por exaustivo. Não é por outra razão que o legislador, ao prever as hipóteses de suspeição, valeu-se de conceitos vagos, especialmente, no inciso IV, quando dispôs que se deve considerar suspeito o juiz interessado no julgamento do processo. Apenas após a análise do caso concreto, com as inúmeras circunstâncias que pode envolver, é que se poderá dizer se o juiz agiu com interesse pessoal na causa, ou não, o que acaba por enfraquecer eventual limitação que a taxatividade da enumeração das hipóteses implicaria. 56 O impedimento ou a suspeição devem ser suscitados em até 15 dias após o conhecimento do fato pela parte, em petição apartada e dirigida ao juiz do processo, que poderá acolher tal alegação, remetendo o processo para outro juiz, ou instaurar o incidente de suspeição ou impedimento, que será distribuído a um relator que também ouvirá as razões de defesa do magistrado. Uma vez acolhido o incidente de suspeição pelo Tribunal, o relator deverá determinar a partir de qual momento o juiz não poderia ter atuado, tornando nulo todos os atos por ele praticados. Em não sendo acolhida a suspeição ou o impedimento, o processo retoma sua tramitação normal. 4.3 Revelia Uma vez citado para responder à ação, o réu tem o ônus de se defender. Chama-se ônus pois não é uma obrigação, mas deve arcar com as consequências de não o fazer. Nesse sentido, o CPC prevê a aplicaçãodos efeitos da revelia quanto o réu não contestar a ação. Eis os dizeres do artigo 344: Art. 344. Se o réu não contestar a ação, será considerado revel e presumir-se-ão verdadeiras as alegações de fato formuladas pelo autor. Por efeitos da revelia, entende-se que serão consideradas como verdadeiras as alegações formuladas pelo autor, desde que em consonância com as provas produzidas nos autos. Ainda, conforme o artigo 345, não ocorrerão os efeitos da revelia quando: “I - havendo pluralidade de réus, algum deles contestar a ação; II - o litígio versar sobre direitos indisponíveis; III - a petição inicial não estiver acompanhada de instrumento que a lei considere indispensável à prova do ato; IV - as alegações de fato formuladas pelo autor forem inverossímeis ou estiverem em contradição com prova constante dos autos.” FIQUE DE OLHO Embora os artigos 144 a 147, CPC, mencionem a imparcialidade/suspeição dos magistrados, o artigo 148, do mesmo diploma legal, amplia a aplicação de tais dispositivos a todos os demais sujeitos do processo que devam ser imparciais, tais como Ministério Público, Peritos, escreventes etc. Essa ampliação decorre do fato de que o processo, assim como os seus operadores, deve ser imparcial, de forma a garantir que a justiça seja feita sem favorecimentos ou detrimentos. 57 Eis os ensinamentos de WAMBIER (P. 603/604): De acordo com o art. 76 do NCPC, será reputado revel, o réu que, uma vez intimado para tanto, não regulariza sua representação nos autos. Em verdade, o juiz deverá analisar caso a caso para verificar se realmente a revelia estará configurada, para fins de incidência da regra do art. 344. Poderá ocorrer, por exemplo, de o réu tempestivamente ter apresentado contestação, firmada por advogado que posteriormente veio a falecer. Se, uma vez intimado, o réu não regularizar a capacidade postulatória, será reputado revel, para fins do efeito do art. 346, mas não do 344, pois, com a defesa apresentada oportunamente, estabeleceu-se controvérsia quanto aos fatos alegados pelo autor. O art. 344, tal como o art. 319 do CPC/73, refere-se ao efeito material da revelia, que é a “presunção” de veracidade das alegações de fato formuladas pelo autor. O dispositivo legal não deixa dúvida de que essa “presunção” diz respeito apenas a alegações de fatos, o que implica dizer que caberá ao juiz analisar livremente os temas de direito, não sendo a revelia garantia alguma de procedência do pedido do autor. De acordo com o STJ, “a falta de contestação não conduz necessariamente à procedência da ação, porquanto os efeitos da revelia não incidem sobre o direito da parte, mas apenas quanto à matéria de fato” ou, ainda, “na revelia, a presunção de veracidade é relativa, de forma que a sua ocorrência conduz à procedência do pedido se, com as provas dos autos, o magistrado se convencer da existência dos fatos alegados e não contestados.”. Assim também, “A caracterização de revelia não induz a uma presunção absoluta de veracidade dos fatos narrados pelo autor, permitindo ao juiz a análise das alegações formuladas pelas partes em confronto com todas as provas carreadas aos autos para formar seu convencimento”. A despeito da ausência de apresentação de contestação e declaração dos efeitos da revelia, o réu será intimado através do seu advogado ou por diário oficial. As contestações de todos os atos processuais podem se manifestar no processo a qualquer momento. 58 Nesta unidade, você teve a oportunidade de: • Entender os atos processuais:Vimos no início da dessa unidade o que são os atos processuais, bem como as formas de sua apresentação e comunicação. Houve a diferenciação da prática dos atos em processos eletrônicos e processos físicos, mas sempre destacando que a instrumentalidade das formas é princípio a ser aplicado, pois o mais importante é o ato processual atingir sua finalidade sem trazer prejuízos às partes. • Saber como são feitas a citação e intimação:Como forma de comunicação dos atos processuais, foram indicadas a citação, a intimação e as cartas, sendo destacado o cabimento de cada uma delas. Por exemplo: aprendemos que a carta é expedida quando o ato deve ser praticado fora do juízo competente, e que a citação informa ao réu a instauração da demanda, bem como a intimação informa acerca dos atos praticados e a serem praticados de forma mais ampla. • Compreender as formas de citação:Em relação à citação, por se tratar de ato de suma importância, abordou-se as suas diferentes formas de realização (oficial de justiça, correios, edital, por hora certa), destacando o cabimento de cada uma des- sas formas, lembrando sempre que a citação inválida pode gerar nulidade dos atos praticados. • Entender sobre conciliação e mediação:Outro ponto estudado foi a audiência de conciliação ou de mediação que, promovendo a intenção conciliadora do legislador, propõe a resolução da demanda sem a instauração do litigio, sem que o réu tenha que apresentar defesas, sem que ocorra a tramitação integral do processo. • Saber sobre os processos de contestação e impugnação:Não frutífera a audiência preliminar de conciliação ou de mediação, ou não requerida pelas partes, o réu deve apresentar defesa. Analisadas as diversas espécies de defesa, tem-se que a con- testação é o momento de o réu alegar praticamente toda a sua matéria de defesa (à exceção das matérias de ordem pública e de nulidade absoluta, que podem ser alegadas a qualquer momento). Desde preliminares até a reconvenção, passando pela matéria de direito/mérito, indicação de provas, exceções etc. Foi ensinado o ônus da impugnação específica, sob pena de serem declarados como verdadeiros os fatos narrados pelo réu (revelia e seus efeitos), e a regra de concentração da defesa, que se traduz justamente na necessidade de apresentar toda a matéria de defesa. • Entender sobre a contestação com base na incompetência ou impedimento:Por fim, adentramos em preliminares de contestação específicas, como a incompetência e o impedimento ou suspeição do juiz, lembrando que, se descoberta tardiamente, a suspeição ou impedimento do magistrado pode ser alegada a qualquer momento e pelo autor, não sendo de exclusividade do réu. PARA RESUMIR ALVIM, Arruda. Manual de direito processual civil: teoria do processo e processo de conhecimento. 17. ed. rev., atual. e ampl. – São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2017. BUENO, Cassio Scarpinella (coordenador). Comentários ao código de processo civil – volume 2. São Paulo: Saraiva, 2017. BRASIL. Lei nº 13.105, de 16 de março de 2015. Presidência da República, Secretaria Geral, Subchefia para Assuntos Jurídicos. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13105.htm. Acesso em: 13 nov. 2019. BRASIL, Lei nº11.419/2006, de 19 de dezembro de 2006. Presidência da República, Secretaria Geral, Subchefia para Assuntos Jurídicos. Disponível em: http://www.planalto. gov.br/ccivil_03/_Ato2004-2006/2006/Lei/L11419.htm. Acesso em: 13 nov. 2019. DIDIER JR., Fredie. Curso de direito processual civil: introdução ao direito processual civil, parte geral e processo de conhecimento. 17. Ed. – Salvador: Ed. Jus Podivm, 2015. v.1. GAJARDONI, Fernando da Fonseca; DOLLORE, Luiz; ROQUE, André Vasconcelos; OLIVEIRA JR., Zulmar Duarte. Processo de conhecimento e cumprimento de sentença: comentários ao CPC de 2015. Rio de Janeiro: Forense; São Paulo: Método, 2016. WAMBIER, Teresa Arruda Alvim et al. Primeiros comentários ao novo Código de processo civil: artigo por artigo. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2015. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS UNIDADE 3 Desenvolvimento e julgamento an- tecipado do processo Olá, Depois de estudarmos como o processo se constitui de modo válido e como se instaura o contraditório, nesta unidade trataremos do desenvolvimento válido do processo. Esse tema é amplo e inclui o seguinte: todas as decisões que acontecem de modo intermediário no processo; o saneamento do processo; as hipóteses desuspensão e extinção do processo; bem como a constituição de provas em contraditório, com o objetivo de demonstrar os fatos apresentados pelas partes no processo. Bons estudos! Introdução 63 1.0 IMPROCEDÊNCIA LIMINAR DO PEDIDO Já abordamos, na Unidade I, o indeferimento da petição inicial, que também é uma forma de extinção liminar do processo. Não obstante, o indeferimento da petição inicial não se confunde com a improcedência liminar do pedido, diferenciação que será abordada a seguir. Fonte: Gunnar Pippel, shutterstock, 2020 #PraCegoVer:imagem de uma balança dourada, símbolo da justiça, vista de perto. 1.1 Conceito A improcedência liminar do pedido ocorre quando, independentemente da citação do réu ou de produção de provas, o juiz julga o mérito da demanda como improcedente, tendo em vista que a demanda é manifestamente improcedente ou já foi resolvida em outro processo. Conforme Lição de WAMBIER (2015, p. 403): O dispositivo congrega dois diferentes grupos de hipóteses. Por um lado, prevê casos em que o cerne da disputa reside unicamente em uma questão jurídica que já foi resolvida, em julgamento precedente ao qual o ordenamento confere especial valor, contrariamente à pretensão do autor (art. 332, I a IV). Por outro lado, admite a rejeição da demanda em seu mérito quando for possível, de plano, constatar-se haver prescrição ou decadência (art. 332, § 1.º). É importante ressaltar que em quaisquer dos dois casos, o juiz deve atestar que a decisão independe de provas ou de qualquer elucidação dos fatos. Isso ocorre porque é da característica do indeferimento liminar do pedido que a improcedência seja, de fato, manifesta. Além disso, a sentença só poderá ser de indeferimento, pois caso apreciasse qualquer fato ou relação jurídica que atinja a esfera de direitos do réu, o contraditório deve ser obrigatoriamente instaurado, sob pena de nulidade da ação. Desse modo, a improcedência do pedido diz respeito apenas ao direito pleiteado pelo autor e só produz efeitos jurídicos para essa parte. 64 1.2 Regime jurídico Nos termos do artigo 332 do CPC, quando não for necessária a fase instrutória, ou seja, quando não houver necessidade de produção de provas, o juiz poderá, antes mesmo da citação do réu, julgar liminarmente improcedente o pedido. As hipóteses do CPC que autorizam a improcedência liminar do pedido são o caso de pedido que contrarie os seguintes itens: (i) o enunciado do STF ou do STJ; (ii) o acórdão proferido pelo STF ou STJ em julgamento de recursos repetitivos; (iii) o entendimento firmado em incidente de resolução de demandas repetitivas ou de assunção de competência; (iv) o enunciado ou súmula de tribunal de justiça sobre direito local; (v) a verificação de decadência ou prescrição. A ideia desse dispositivo é aproximar um pouco o processo civil brasileiro do common law, prestigiando o regime de precedentes mesmo quando os julgados não possuem efeito vinculante, buscando a ampliação da eficácia e aplicabilidade dos precedentes judiciais. Nos dizeres de WAMBIER (2015, pg 453): Nem todos esses precedentes têm força vinculante em sentido estrito – de modo a caber reclamação se eles não forem observados no caso concreto (v cap. 34 e 39, adiante). Falta tal eficácia às súmulas não vinculantes do STF e a todas as súmulas do STJ e dos tribunais locais. [...] Confere-se tal poder ao juiz a fim de impedir que inúmeros processos sobre casos análogos seguissem inutilmente todo o longo itinerário procedimental, para só muito depois chegar a um resultado desde o início já previsto, com total segurança. Prestigiam-se os princípios da economia processual e da duração razoável do processo. Isso não significa que, quando o juiz declara a improcedência liminar do pedido, estaria decidindo contrariamente aos tribunais. Significa apenas que abriu mão de um rito mais expedido por entender que a causa merecia alguma discussão mais profunda. É importante destacar que, para que se caracterize a improcedência liminar do pedido nas hipóteses dos incisos do artigo 332 do CPC, a decisão deverá demonstrar que a tese de direito apresentada pelo autor é inequivocamente oposta ao precedente invocado para fundamentar a extinção do processo. FIQUE DE OLHO Conforme já tratado, improcedência liminar do pedido não se confunde com indeferimento da petição inicial, sobretudo porque o indeferimento da inicial se embasa em pressupostos de admissibilidade da ação, acarretando a extinção do processo sem resolução do mérito, enquanto a improcedência liminar do pedido resolve o mérito. 65 Além da hipótese da improcedência liminar do pedido embasada na jurisprudência pátria, também há, conforme o §1º do artigo 332, a possibilidade de que a decisão se embase na constatação de decadência ou prescrição, somente antes da citação do réu, conforme trata WAMBIER (2015, p. 455): O § 1.º do art. 332 apenas autoriza o direto julgamento de rejeição do pedido fundada na prescrição ou decadência, sem propiciar-se contraditório ao autor, somente antes da citação do réu. Se o juiz constatar possível prescrição ou decadência, em momento posterior à citação, deverá abrir vista às partes, antes de pronunciar-se sobre o tema (art. 487, parágrafo único, que não faz mais do que especificar a regra do art. 10). Nesse momento, se desejar, o réu poderá exercer sua renúncia à prescrição – hipótese em que o juiz estará impedido de decretá-la (art. 191 do CC/2002). Ainda, quando não houver a renúncia, tal prévia concessão de vista às partes permitirá também que o próprio autor, se for o caso, aduza razões que convençam o juiz de que, ao contrário de sua impressão inicial, não houve ainda decurso do prazo de prescrição. Em ambos os casos será, portanto, proferida uma sentença que resolve o mérito da ação, de modo que, diante da decisão, o autor poderá interpor o recurso de apelação, cabendo retratação do juiz no prazo de 5 (cinco) dias e, caso assim não ocorra, deverá citar o réu para apresentar contrarrazões ao recurso. 2.0 PROVIDÊNCIAS PRELIMINARES E JULGAMENTO CONFORME O ESTADO DO PROCESSO As providências preliminares são um conjunto de atos que o juiz pratica após ser encerrado o prazo para que o réu apresente sua resposta, seja qual for, concluindo-se a chamada fase postulatória e inaugurando a fase de saneamento do processo. A ideia da fase de saneamento é organizar o processo. Nesta fase, é verificado se há algum vício que impossibilite a continuidade do processo. Caso ele seja verificado, deve ser sanado ou, caso não seja possível, deve-se declarar a impossibilidade de continuação do processo. 2.1 Julgamento antecipado parcial do mérito O julgamento antecipado parcial do mérito trata da possibilidade de que, em causas que envolvam mais de um pedido, o juiz se pronuncie para analisar parte do mérito, possibilitando dilação probatória para o restante da demanda. Conforme lição de WAMBIER (2015, p. 457): Tal fatiamento do mérito pode ocorrer em relação a um ou alguns dos vários pedidos formulados na ação, na reconvenção ou em outras demandas incidentais (como é o caso da denunciação da lide). Por exemplo: o autor formula três pedidos na inicial – e dois deles, por ocasião do julgamento conforme o estado do processo, não apresentam nenhuma controvérsia quanto aos fatos que os embasam, havendo necessidade de provas apenas relativamente ao terceiro pedido. Outro exemplo: 66 as provas documentais reunidas nos autos já são suficientes para elucidar os fatos relevantes para o julgamento do pedido feito pelo autor, sendo necessária somente instrução probatória relativamente ao suporte fático da reconvenção que o réu formulou. Mas o fatiamento pode ainda incidir sobre uma única pretensão formulada, na medida em que ela seja fracionável, decomponível. Por exemplo: o autor pede a condenação do réu ao pagamento de um milhão de reais, e o réu desde logo reconhece a procedência de duzentos mil reais, defendendo-se quanto ao resto. Conforme texto do artigo356 do CPC, o julgamento parcial do mérito poderá ocorrer quando o pedido se mostrar incontroverso, mesmo sem produção de provas, e quando parte da demanda estiver em condições de julgamento, nos termos do artigo 355 do CPC. O artigo 355, por sua vez, determina a possibilidade de julgamento antecipado do mérito quando não houver necessidade de produção de provas, ou quando o réu for revel e o direito do autor se encontrar pré-constituído. A decisão poderá reconhecer a existência de obrigação líquida ou ilíquida (§1º, art. 356), sendo que tanto a liquidação quanto o cumprimento do julgamento parcial poderão ser desde logo solicitados e processados em autos suplementares, a requerimento da parte ou a critério do juiz, (§4º, art. 356, CPC). A respeito da execução provisória da decisão, assim leciona WAMBIER (2015, p. 460): Se não for atribuído efeito suspensivo ao agravo contra tal decisão (arts. 995 e 1.019 do CPC/2015 – v. n. 25.5), ela poderá ser, desde logo, executada provisoriamente – se for o caso, procedendo-se antes à liquidação da condenação. Dispensa-se inclusive prestação de caução para tanto (art. 356, § 2.º – v. vol. 3, caps. 3 e 16, onde se examina o exato alcance de tal dispensa). Note-se que a solução do mérito dada em sentença, por ser recorrível mediante apelação que em regra tem efeito suspensivo, normalmente não poderá ser, desde logo, executada. Assim, a decisão interlocutória de mérito possui um regime de eficácia privilegiado, em contraste com o da sentença. Uma vez transitada em julgado a decisão parcial do mérito – seja porque não se interpôs recurso contra ela, seja porque não tiveram sucesso aqueles interpostos – passa a caber a própria execução definitiva (art. 356, § 3.º, do CPC/2015), mesmo que ainda esteja em curso a fase cognitiva do processo relativamente à outra parcela do mérito. Tanto a liquidação quanto o cumprimento provisório ou definitivo da decisão poderão ser processados em autos apartados (art. 356, § 4.º, do CPC/2015). Além disso, com o trânsito em julgado da decisão interlocutória de mérito, forma-se coisa julgada material sobre o comando decisório ali contido (art. 502 do CPC/2015) – independentemente do trânsito em julgado do pronunciamento que resolve a parte restante do mérito. Por fim, é importante esclarecer que a decisão que resolver parcialmente o mérito, tendo em vista que não encerra a demanda, é considerada decisão interlocutória e, portanto, é impugnável mediante interposição de Agravo de Instrumento. 2.2 Saneamento A fase de saneamento, conforme já tratado, é um conjunto de providências preliminares que 67 ocorrem no caso de o juiz entender que o processo deve prosseguir como está, sem proferir alguma das modalidades de julgamento previstas no artigo 353 do CPC. As providências preliminares encontram-se previstas entre os artigos 348 e 353, sendo que tais atos serão praticados se: (i) o réu não apresentar contestação; (ii) o réu alegar fato impeditivo, modificativo ou extintivo do direito do autor; (iii) o réu alegar preliminares ao mérito elencadas no artigo 337 do CPC. O rol de hipóteses é apenas exemplificativo, sendo que caberá ao juiz também praticar outros atos, conforme lição de WAMBIER (2015, p. 462): – determinar que as partes manifestem-se sobre a possível falta de um pressuposto de admissibilidade (pressuposto processual ou condição da ação) de que ele cogitou de ofício (art. 5.º, LV, da CF/1988 LV e arts. 6.º, 9.º e 10 do CPC/2015); – dar às partes, especialmente ao autor, a oportunidade para se manifestar sobre uma possível objeção material, i.e., fato extintivo, modificativo ou impeditivo do direito do autor que pode ser conhecido de ofício, como pagamento, prescrição ou decadência (v. vol. 1, n. 12.5.4), em atenção ao contraditório e ao dever de cooperação (CF, art. 5.º, LV, da CF/1988 e arts. 6.º, 9.º e 10 do CPC/2015); – provocar a participação de um terceiro como amicus curiae (art. 138 do CPC/2015 – v. vol. 1, n. 19.9.1); – intimar o Ministério Público para que esse possa participar como fiscal da lei, nos casos legalmente previstos (art. 178 do CPC/2015 – v. vol. 1, cap. 22); – dar vista, ao autor, de documentos novos juntados pelo réu ao contestar (art. 437 do CPC/2015 – v. n. 15.9, adiante); – intimar as partes para que então efetivamente especifiquem as provas que pretendem produzir, se apenas as indicaram genericamente na fase postulatória (v. n. 13.12.2, adiante) etc. 2.3 Decisão de saneamento e organização do processo Nos termos do artigo 357, o juiz deverá, em decisão de saneamento e organização do processo, corrigir eventuais defeitos que o processo apresente. Tal correção deve ser feita nos termos tratados no tópico precedente. Cabe também ao juiz organizar os próximos atos processuais. A ideia é trazer mais eficiência ao processo, evitando que eventuais nulidades detectadas comprometam a validade e eficácia do pronunciamento final de mérito. Nos dizeres de WAMBIER (2015, p. 465): A ideia que está presente nessa determinação do legislador é a da gestão do processo, à luz do princípio da eficiência, previsto no art. 8.º do CPC/2015, e que está intimamente relacionado com a necessidade de dar cumprimento à garantia constitucional da razoável duração. A ineficiência, entendida como a falta de método capaz de dar rendimento a qualquer instrumento destinado à 68 prestação do serviço público, é algo que deve ser insistentemente combatido. Ao eleger o princípio da eficiência como regra motriz do processo civil, o legislador ficou atento à necessidade de criar mecanismos capazes de permitir que o resultado útil e justo do processo seja alcançado mediante o uso de métodos que permitam aos seus atores a obtenção desse resultado em tempo adequado, sem dilações inúteis e com certa funcionalidade. O art. 357 do CPC/2015 é um desses mecanismos. Na decisão de saneamento e organização, nos termos do artigo 357 do CPC, o juiz deverá: (i) resolver questões processuais eventualmente presentes; (ii) delimitar questões de fato que deverão ser objeto de produção de prova; (iii) definir a distribuição do ônus da prova; (iv) delimitar questões de direito relevantes para a decisão de mérito; (v) designar audiência de instrução e julgamento. Após a decisão, as partes podem requerer esclarecimentos ou ajustes no prazo de 5 (cinco) dias (§1º), caso necessitem. Caso a demanda apresente complexidade (§3º), o juiz poderá designar audiência para que o saneamento seja feito em cooperação com as partes. Ou então, caso devam ser ouvidas testemunhas (§§ 4º, 5º,6º e 7º), o juiz designará audiência de instrução e julgamento, com a finalidade de produzir as provas necessárias. Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: 3.0 EXTINÇÃO DO PROCESSO Nos termos do artigo 316, CPC, a única forma de extinção do processo é por meio de sentença, seja tal sentença de mérito ou não. Por decisão de mérito tem-se aquela que adentra no direito discutido. É resolvido se a dívida é devida ou não, se o réu deve entregar a coisa, deixar de fazer algo, e assim por diante. 69 Por decisão que não julga o mérito, tem-se aquelas em que o juiz, por uma questão processual, detecta que o processo deve ser extinto, sem adentrar no bem da vida tutelado. Por exemplo: ele pode reconhecer a existência da coisa julgada ou a ausência de interesse de agir. O artigo 317, CPC, de forma a evitar a extinção sem julgamento de mérito desnecessária, dispõe que “antes de proferir decisão sem resolução de mérito, o juiz deverá conceder à parte oportunidade para, se possível, corrigir o vício”. 3.1 Decisões que não examinam o mérito As situações que originam decisões que extinguem o processo sem análise de mérito estão previstas no artigo 485, CPC: Art. 485. O juiz não resolverá o mérito quando: I - indeferir a petição inicial; II - o processo ficar parado durante mais de 1 (um) ano por negligência das partes; III - por não promover os atos e as diligências que lhe incumbir, o autor abandonara causa por mais de 30 (trinta) dias; IV - verificar a ausência de pressupostos de constituição e de desenvolvimento válido e regular do processo; V - reconhecer a existência de perempção, de litispendência ou de coisa julgada; VI - verificar ausência de legitimidade ou de interesse processual; VII - acolher a alegação de existência de convenção de arbitragem ou quando o juízo arbitral reconhecer sua competência; VIII - homologar a desistência da ação; IX - em caso de morte da parte, a ação for considerada intransmissível por disposição legal; e X - nos demais casos prescritos neste Código. De acordo com WAMBIER (2015, p. 567), a extinção sem julgamento de mérito decorre de um rol de matérias que impedem o magistrado de apreciar o mérito. Portanto, é preciso ser declarada a existência de tal óbice, destacando que tais empecilhos devem ser detectados o quanto antes, para garantir a economia processual: O art. 485 elenca o conteúdo que pode ter uma sentença terminativa ou processual. Trata-se de um rol de matérias que impede o juiz de apreciar o mérito, e que, portanto, o leva à prolação de uma decisão em que declara a existência destes óbices. A incompetência é uma destas matérias, 70 que, todavia, porque há disposição legal expressa (art. 64, § 3.º do NCPC), autorizando que o juízo remeta o processo àquele que seria o competente, não gera sentença, mas decisão interlocutória. O mesmo se diga quanto ao impedimento: é um fenômeno que interfere na imparcialidade do juiz, que é pressuposto processual de validade, e obsta que este decida o mérito. No entanto, também neste caso, diz a nova lei, como também diz o CPC/73, que o processo deve ser encaminhado ao juiz que não seja impedido (art. 146, § 1.º do NCPC). A sentença, como se observou nos comentários aos arts. 203 a 205, é, à luz do NCPC, pronunciamento judicial que tem por conteúdo a matéria constante dos arts. 485 e 487, e que tem por função colocar fim à fase cognitiva do procedimento comum ou à execução (art. 203, § 1.º). Não há, necessariamente, extinção da relação processual, nem mesmo em caso de sentença processual, pois a relação pode se manter viva para a fase em que se pleiteará cumprimento relativo aos honorários de advogado e reembolso de custas. O art. 485, portanto, alista temas que devem ser objeto de análise do juiz, para que possa ser apreciado o mérito. A maioria dos incisos traz elementos que devem preferencialmente, ser examinados no início do processo, evidentemente, por razões de economia processual. (WAMBIER, 2015, p. 567) Havendo a extinção do processo sem julgamento de mérito, a ação pode ser reproposta (art. 486, CPC), desde que corrigido o vício indicado. WAMBIER traz valiosos exemplos sobre o tema: A ação pode ser reproposta, quando há o pronunciamento judicial final, que não resolve o mérito, nos casos de que trata o artigo anterior. Mas desde que, diz a nova lei, o vício seja CORRIGIDO e que haja prova do pagamento das custas e dos honorários de advogado. Indeferimento da inicial, falta de pressupostos processual positivo, falta das condições da ação e reconhecimento de que há convenção de arbitragem etc.: são os casos que geram a possibilidade de repropositura da ação se sanado o vício (e pagas as custas e os honorários). Assim, por exemplo, a ausência de interesse deve desaparecer: a dívida que não estava vencida já deve ter vencido; já se terá completado o prazo para a configuração da usucapião. Ou ainda, o autor se fez representar adequadamente, o que não tinha ocorrido no primeiro processo. A litispendência, que terá dado causa à prolação da primeira sentença, há de ter cessado: o primeiro processo, cujo curso foi causa de extinção do segundo, pode ter dado azo à prolação de sentença que não resolveu o mérito. Então, diz a lei, pode ser movida a terceira ação. O mesmo não ocorre, todavia, se aquela litispendência se tiver transformado em coisa julgada (sentença de mérito). (WAMBIER, 2015, p. 568-569) No entanto, quando ocorrer a extinção do processo por perempção, o autor não poderá repropor a demanda. O artigo 386, § 3º, CPC, traz o conceito de perempção: “se o autor der causa, por 3 (três) vezes, a sentença fundada em abandono da causa, não poderá propor nova ação contra o réu com o mesmo objeto, ficando-lhe ressalvada, entretanto, a possibilidade de alegar em defesa o seu direito”. 71 Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: 3.2 Decisões que examinam o mérito O artigo 487, CPC, traz a hipóteses em que o juiz profere decisão apreciando o mérito da demanda, o bem da vida tutelado, quando a parte renunciar ao seu direito ou quando as partes transigirem: Art. 487. Haverá resolução de mérito quando o juiz: I - acolher ou rejeitar o pedido formulado na ação ou na reconvenção; FIQUE DE OLHO WAMBIER (2015, p. 569) ensina que existe diferença entre nova ação idêntica e nova ação com o mesmo objetivo, sendo que esta última poderia ser reproposta após a ocorrência da perempção: “Não se aplica o preceito se, na verdade, de ‘nova ação’ se tratar. A mesma imperfeição técnica não tem lugar, todavia, no caput do art. 483, em que se faz menção à possibilidade de que se ‘intente de novo a ação’. Realmente, para que haja perempção, é necessário que o processo se extinga sem resolução de mérito, por três vezes, pelo fato de o autor ter abandonado o processo, por mais de trinta dias, por não ter promovido as diligências que lhe competiam, para que a mesma ação não possa ser intentada “de novo”, e não para que não se possa intentar nova ação com o mesmo objetivo. Dizer-se que vai intentar nova ação com o mesmo objetivo não equivale a intentar uma ação idêntica à anterior (a mesma ação), pois pode haver causas de pedir diferentes, alterando-se, assim, a identidade da ação, identidade essa a que se chega pelos critérios partes, causae petendi e petitum ou objeto do pedido, como já se disse.” 72 II - decidir, de ofício ou a requerimento, sobre a ocorrência de decadência ou prescrição; III - homologar: a) o reconhecimento da procedência do pedido formulado na ação ou na reconvenção; b) a transação; c) a renúncia à pretensão formulada na ação ou na reconvenção. Parágrafo único. Ressalvada a hipótese do § 1º do art. 332, a prescrição e a decadência não serão reconhecidas sem que antes seja dada às partes oportunidade de manifestar-se. MARINONI define o julgamento de mérito da seguinte forma: Apresenta-se o mérito como tema central do processo civil, de modo a ser enfrentado pela sentença definitiva, mediante a qual o órgão jurisdicional responde ao pedido deduzido pelo autor. Haverá, pois, “julgamento de mérito” toda vez que, ultrapassado o exame das questões formais, o processo estiver escorreito para receber decisão sobre o objeto da controvérsia submetida à cognição do órgão jurisdicional. (MARINONI, 2016, p. 157) A sentença de mérito põe fim ao litígio, resolvendo a questão em favor de uma das partes. Tanto é que o artigo 488 preceitua que, “desde que possível, o juiz resolverá o mérito sempre que a decisão for favorável à parte a quem aproveitaria eventual pronunciamento nos termos do art. 485”. Eis o que leciona MARINONI sobre o tema: A regra do art. 488, inspirada no valioso princípio de que não há nulidade sem prejuízo (pas de nullité sans grief) e conectada com os arts. 277 e 283, parágrafo único, do CPC/2015, enquadra-se no ideário instrumentalista na perspectiva de que o processo tem por precípuo escopo o julgamento de mérito. Como já observado, ao ensejo da exegese do art. 485, a atividade saneadora do juiz é permanente. Assim, antes mesmo de se preocupar com o julgamento de mérito, é necessário examinar se coexistem os pressupostos processuais e as chamadas condições da ação. Todo cuidado é pouco, uma vez que a ausência de um desses requisitos constitui óbice intransponível à resposta estatal alvitrada pelas partes. Reconhecendo o acerto do legislador quanto à precisão do dispositivo ora enfocado, assevera JoséRoberto dos Santos Bedaque que a sua interpretação extensiva “revela-se perfeitamente adequada e pode estender seu alcance a todas as hipóteses em que algum defeito processual não identificado no momento oportuno, seja ignorado, possibilitando o tão desejado pronunciamento sobre o mérito”. (MARINONI, 2016, p. 178) 73 4.0 SUSPENSÃO DO PROCESSO: ANÁLISE DAS HIPÓTESES LEGAIS A suspensão do processo está prevista nos artigos 313 a 315, CPC. Apesar de o artigo 313, CPC, trazer um rol taxativo, alguns itens permitem uma ampliação dos motivos que ensejariam tal ampliação, como por exemplo por convenção das partes. Deve-se ter em mente que a suspensão do processo é ato de extrema necessidade, sendo uma exceção. Nessa linha, WAMBIER assim se manifesta: A suspensão do processo é, a rigor e como regra, uma situação absolutamente indesejada. O que o autor quer, quando propõe a ação, é que o curso do processo, pelo procedimento que ao tipo de questão seja destinado pela lei, não sofra interrupções ou crises, mas que caminhe em direção ao alcance de sua finalidade, que é a sentença de mérito. Ainda que se trate de situação temporária, como efetivamente o é, na qual atos processuais ordinários não são praticados, é algo que, em regra, foge aos padrões de normalidade convenientes para o processo. Dissemos que apenas atos ordinários não são praticados porque, excepcionalmente, poderá ocorrer a prática de atos processuais tidos por urgentes, nos termos do que dispõe o art. 314. (WAMBIER, 2015, p. 430) As situações expressamente previstas são: Art. 313. Suspende-se o processo: I - pela morte ou pela perda da capacidade processual de qualquer das partes, de seu representante legal ou de seu procurador; II - pela convenção das partes; III - pela arguição de impedimento ou de suspeição; IV- pela admissão de incidente de resolução de demandas repetitivas; V - quando a sentença de mérito: a) depender do julgamento de outra causa ou da declaração de existência ou de inexistência de relação jurídica que constitua o objeto principal de outro processo pendente; b) tiver de ser proferida somente após a verificação de determinado fato ou a produção de certa prova, requisitada a outro juízo; VI - por motivo de força maior; VII - quando se discutir em juízo questão decorrente de acidentes e fatos da navegação de 74 competência do Tribunal Marítimo; VIII - nos demais casos que este Código regula. IX - pelo parto ou pela concessão de adoção, quando a advogada responsável pelo processo constituir a única patrona da causa; X - quando o advogado responsável pelo processo constituir o único patrono da causa e tornar-se pai. Salvo as previsões específicas, o CPC não determina por quanto tempo o processo deverá ser suspenso, mas em algumas situações o tempo de suspensão está relacionado à causa que a originou. Por exemplo, se o processo depender de outra demanda que pende de julgamento, o primeiro processo somente será retomado quanto houver o julgamento pendente. Assim, em situações em que não se é possível determinar o prazo de suspensão, o juiz poderá colocar uma condição de termo, como por exemplo: “até a realização do evento X”. Nos demais casos, o juiz pode indicar um prazo e, se houver necessidade, pode prorrogar tal prazo. Porém, há casos em que a suspensão não pode perdurar de forma indiscriminada, como no caso da perda da capacidade processual e falecimento de uma das partes ou dos patronos. Nesses casos, há expressa previsão legal de duração da suspensão. Ainda, o artigo 313, § 4º, CPC, determina que em hipóteses excepcionais, a suspensão não pode ser superior a 1 ano e 6 meses. Com exceção dos atos urgentes e que envolvam perecimento de direito, nenhum ato processual pode ser praticado enquanto perdurar a suspensão do processo (art. 314, CPC). Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: 75 5.0 PROVAS: TEORIA GERAL E DIREITO PROBATÓRIO Prova é o meio utilizado para formar o convencimento do juiz a respeito de fatos controvertidos que tenham relevância ao processo. É um direito fundamental das partes, que emana do princípio do contraditório e da ampla defesa (art. 5º, LV, CF) e no decorrente direito que estas possuem de influir no convencimento do juiz. 5.1 Noções Gerais DIDIER JR propõe o conceito de provas em dois sentidos: • Objetivo - como o instrumento ou o meio hábil, para demonstrar a existência de um fato (as testemunhas, os documentos, entre outros). • Subjetivo - é “a certeza (estado psíquico) originada quanto ao fato, em virtude da produção do instrumento probatório. Aparece a prova, assim, como convicção formada no espírito do julgador em torno do fato demonstrado”. (DIDIER JR, 2015, p. 592) DIDIER JR vai além, concebendo a prova como direito fundamental decorrente do próprio contraditório, uma vez que a dimensão substancial do contraditório é a possibilidade de influenciar a convicção e a decisão do Juiz. Os meios utilizados para este propósito também são as provas, portanto compõem de forma inevitável o princípio do contraditório, pois garantem a sua dimensão material. 5.2 Princípios Três princípios se destacam sobre o tema: A. Princípio da Atipicidade da Prova: Art. 369, CPC – admite-se provas que, mesmo não especificadas na legislação, sejam moralmente legitimas B. Princípio do Convencimento Motivado do Juiz: Art. 371, CPC - incumbe ao juiz apresentar uma valoração discursiva da prova, justificando seu convencimento acerca da veracidade das alegações, e indicando os motivos pelos quais acolhe ou rejeita cada elemento do conjunto probatório. C. Princípio da Aquisição da Prova: Art. 371, CPC - uma vez produzida, a prova passa a fazer 76 parte do processo, devendo o Juiz fundamentar sua conclusão por qualquer prova dos autos, sendo irrelevante quem a tenha produzido (art. 371, do CPC), até mesmo quando produzida por determinação judicial. 5.3 Momento da produção das provas A fase de produção de provas tem início após o despacho saneador e termina na audiência, no momento em que o juiz declara encerrada a instrução e abre o debate oral (art. 364, CPC). São três os momentos da prova: a) Requerimento – petição inicial (art. 319, VI, CPC) e contestação (art. 336, CPC) b) Deferimento: o juiz, no saneamento do processo, decidirá sobre a realização de exame pericial e deferirá as provas que deverão ser produzidas na audiência de instrução e julgamento c) Produção: provas documentais podem ser produzidas desde a petição inicial. Porém, a prova oral somente será produzida em audiência de instrução e julgamento 5.4 Fontes Nos termos do artigo 369 do CPC: “As partes têm o direito de empregar todos os meios legais, bem como os moralmente legítimos, ainda que não especificados neste Código, para provar a verdade dos fatos em que se funda o pedido ou a defesa e influir eficazmente na convicção do juiz”. Dessa forma, as provas são os elementos trazidos ao processo para orientar o juiz na busca da verdade, devendo ser obtidos por vias lícitas, sob pena de serem desentranhados dos autos e, portanto, não considerados em julgamento. O código elenca alguns tipos de provas: a) Ata Notarial – Art. 384 b) Depoimento pessoal – Arts. 385 a 388 c) Confissão – Arts. 389 a 395 d) Exibição de documento ou coisa – Arts. 396 a 404 e) Prova documental – Arts. 405 a 438 f) Dos documentos eletrônicos – Arts. 439 a 441 – inovação do novo CPC g) Prova testemunhal – Arts. 442 a 463 77 h) Prova Pericial – Arts. 464 a 480 i) Inspeção Judicial – Arts. 481 a 484 5.5 Espécies de provas Depoimento Pessoal O depoimento da parte pode ser requerido pela parte adversa, e tem como objetivo extrair uma confissão. De acordo com MARINONI (2016, p. 30-31): Quanto ao depoimento da parte, deve-se de início observar que ele não se confunde com o interrogatório livre. Com efeito, o interrogatório livre é disciplinado pelo art. 139, VIII, CPC, embora o art. 385, em sua parte final, também trate dessa figura. Por meio do interrogatóriolivre, admite-se que o magistrado, de ofício, determine a oitiva das partes, em qualquer momento do processo, e por quantas vezes forem necessárias, para esclarecer os fatos da causa. Desse modo, o interrogatório livre tem por objetivo o esclarecimento do juiz, razão pela qual pode ser determinado de ofício pelo magistrado, em qualquer fase do processo, podendo ocorrer mais de uma vez. Já o depoimento da parte, regido a partir do art. 385 do CPC, tem outra finalidade: destina- se a induzir o depoente à confissão. Por isso, esse depoimento só será tomado a requerimento da parte adversária, não podendo ser requerida pelo próprio depoente, nem pelo juiz. Mais que isso, há um momento específico para que essas declarações sejam tomadas (na audiência de instrução e julgamento, conforme prescreve o art. 361, II, CPC) havendo preclusão sobre a colheita dessa fonte de prova. São, portanto, institutos absolutamente distintos o depoimento da parte e o interrogatório livre. Confissão Diferentemente do depoimento pessoal, na confissão há o interesse da parte em admitir a FIQUE DE OLHO O Enunciado 636, do Fórum Permanente de Processualistas Civil, traz opções de provas não previstas no Código de Processo Civil, mas que são aceitas em juízo. “Enunciado 636 - (artigos. 369, 439 440 e 584, todos do CPC) As conversas registradas por aplicativo de mensagens instantâneas e redes sociais podem ser admitidas no processo como prova, independentemente de ata notarial.” 78 verdade, em interesse contrário ao seu e favorável à parte. Sobre a confissão, destaca-se ensinamento de MARINONI (2016, p. 40): Por meio da confissão, o depoente afirma ser verdadeiro um fato, contrário a seu interesse e favorável ao interesse da parte adversária. É certo que, para a eficácia desta declaração, não é indispensável que a parte tenha efetivamente a intenção de descortinar a verdade, ou ainda que aja com interesse lídimo de manter sua conceituação (como pessoa íntegra e proba); também não se cogita de hipótese em que a parte tenha por objetivo favorecer o adversário. Basta, para a validade da confissão, que esta seja produzida de vontade livre e consciente (sob pena de, em não o sendo, faltar ao ato jurídico um dos seus requisitos essenciais: a vinculação da esfera jurídica por vontade própria), pena de ser inválida, porque realizada mediante erro, “dolo” ou coação, como se verá adiante. Prova documental Configura-se como prova documental todo documento pré-existente ao processo. Em outras palavras, quando da instauração do processo, tal documento já existia. A prova documental não necessariamente implica em um documento escrito, podendo ser uma foto, um objeto, etc. Ainda, nem tudo o que for escrito é prova documental, como por exemplo o laudo pericial. Nesse sentido, MARINONI assim esclarece: Segundo Comoglio, Ferri e Taruffo, “à categoria das provas documentais se reduzem em geral todas as coisas que aparecem idôneas a documentar um fato, ou seja, a narrá-lo, a representá-lo ou a reproduzi-lo”. Conquanto genérica, a definição presta-se bem para demonstrar a impossibilidade de assimilação de prova documental por prova escrita. As figuras não se confundem, sendo possível haver prova documental não escrita (fotografia, por exemplo), bem assim prova escrita não documental (v.g. o laudo pericial). A representação aludida, portanto, não se resume à mera escrituração de declarações. Ao contrário, abrange o registro de sons, imagens, estados de fato, ações e comportamentos, além dos “documentos criados através das tecnologias modernas da informação e das comunicações, como os dados inseridos na memória do computador ou transmitidas através de uma rede de informática, e em geral os assim ditos documentos informáticos” (documenti informatici no original). (MARINONI, 2016, p. 45) Ata notarial A ata notarial consiste na redução a termo, pelo tabelião, de informação que não estava documentada. 79 Acerca da ata notarial, diz MARINONI (2016, p. 28): A ata notarial, apesar de seu tratamento apartado, constitui documento público, de autoria de um notário, de modo que seu valor probante é aquele estipulado pelo art. 405. Assim, a ata notarial faz prova não apenas de sua existência, mas ainda dos fatos que o notário atestar que ocorreram em sua presença ou que foram por ele verificados. Em última análise, trata-se de maneira peculiar de criação de documento público, cuja finalidade é, especificamente, servir de meio de prova. Ademais, por se tratar de documento público, a ata notarial rege-se por toda a disciplina dada pelo código a essa categoria de documentos. Assim, por se tratar de documento público, os limites ao valor da ata notarial são os mesmos aplicáveis a qualquer outro documento público. Por exemplo, não pode, obviamente, o notário elaborar ata notarial quando impedido (art. 27, da Lei 8.935/1994) ou quando incompetente (art. 407). Em tais casos, bem como quando não for observada formalidade essencial para a elaboração de ata notarial, o valor probante do ato praticado será o mesmo de qualquer documento particular, nos exatos termos do que prescreve o art. 407. Exibição de documento ou coisa O CPC, no artigo 396, disciplina a exibição de documento ou coisa: “o juiz pode ordenar que a parte exiba documento ou coisa que se encontre em seu poder”. MARINONI traz observações especiais sobre o tema: Na presente seção, o Código regula “meio de prova” intermediário entre aqueles que têm origem na parte e em terceiro. Trata-se aqui da situação em que a prova de certo fato depende da apresentação, em juízo, de algum documento ou de coisa, que se sabe estar em posse da parte contrária ou mesmo de terceiro. Como bem pondera Redenti, ao tratar da exibição, a legislação não se preocupa, propriamente, com um meio de prova, mas sim com uma tramitação processual, que se presta para oferecer ao magistrado o meio de prova propriamente dito (o documento ou a coisa, para inspeção). (MARINONI, 2016, p. 50) Prova testemunhal A prova testemunhal consiste na oitiva de pessoas, não relacionadas à lide, acerca dos fatos em litígio. MARINONI (2016, p. 85) leciona: Por meio da prova testemunhal obtém-se, através das declarações de alguém estranho à relação processual, determinada versão de como se passaram certos fatos importantes para a definição do litígio. As testemunhas são sempre pessoas que não se confundem com os sujeitos principais do processo. Assim, não podem ostentar essa condição aqueles que, no processo, assumem a função de parte (como seria o caso do chamado ao processo, do opoente, do denunciado da lide e do assistente litisconsorcial). O assistente simples poderia, em tese, ser testemunha, não fosse sua vinculação à causa, que determina sua suspeição (art. 447, § 3.º, II, do CPC). 80 Prova pericial A prova pericial é necessária para situações em que a análise do caso dependa de conhecimento técnico específico, como prova contábil, prova de engenharia, etc. Eis o que nos ensina MARINONI (2016, p. 101): A prova pericial advém da necessidade de se demonstrar no processo fato que dependa de conhecimento especial que esteja além dos saberes que podem ser exigidos do homem e do juiz de cultura média. Não importa que o magistrado que está tratando da causa, em virtude de capacitação técnica individual e específica (porque é, por exemplo, formado em engenharia civil), tenha qualificação para analisar a situação concreta. Se a capacitação requerida por essa situação não estiver dentro dos parâmetros daquilo que se pode esperar de um juiz, não há como dispensar a prova pericial, ou seja, a elucidação do fato por prova em que participe um perito – nomeado pelo juiz – e em que possam atuar assistentes técnicos indicados pelas partes, a qual deve resultar em laudo técnico-pericial que, por essas, poderá ser discutido. O fato que requer conhecimento técnico não interessa apenas ao juiz, mas fundamentalmente às partes, que têm o direito de discuti-lo de formaconciliação e mediação e, finalmente, pelas possíveis respostas do réu e o efeito da ausência de resposta. Desenvolvimento e julgamento antecipado do processo, terceira unidade, trata de todas as decisões que acontecem de modo intermediário no processo, do saneamento do processo, das hipóteses de suspensão e extinção do processo e da constituição de provas em contraditório. Para finalizar, a quarta unidade, Sentença e coisa julgada, explica a formação da sentença, seus elementos, capítulos, requisitos e efeitos, e a materialização dos mesmos no mundo jurídico. Aos leitores, sorte em seus estudos! PREFÁCIO UNIDADE 1 Processo de conhecimento Olá, Você está na unidade Processo do Conhecimento. Conheça aqui o modo como o processo se forma, seu meio de formação e os requisitos necessários para que ele se constitua de forma válida por meio da petição inicial, possibilitando o desencadeamento dos atos processuais subsequentes, que culminarão na prolação de uma sentença nos termos e limites estabelecidos na peça inaugural do processo. Para tanto, é necessário tratar da formação do processo e da petição inicial, bem como do pedido que constituirá a pretensão jurídica do autor da causa. Bons estudos! Introdução 11 1.0 FORMAÇÃO DO PROCESSO E PETIÇÃO INICIAL Neste tópico, abordaremos o ato inicial de instauração do processo representado pelo protocolo da petição inicial. Trata-se da peça de ingresso que expõe do que se trata a demanda sobre a qual versará o processo. É a petição que fundamenta juridicamente o direito pleiteado e expõe qual o direito que a parte pretende que seja satisfeito com aquela demanda. No Código de Processo Civil (CPC), Lei nº 13.105/2015, a formação do processo é tratada no artigo 312, enquanto a petição inicial é tratada nos artigos 319 a 331. 1.1 Petição inicial e demanda O processo é, sinteticamente, um conjunto de normas aplicáveis a procedimentos judiciais. Estas normas têm o objetivo de dirimir conflitos gerados no âmbito de uma relação jurídica entre sujeitos. O processo se inicia com o protocolo da petição inicial, que representa a propositura da demanda naquela data específica, conforme artigo 312 do CPC, que diz: “Considera-se proposta a ação quando a petição inicial for protocolada. Todavia, a propositura da ação só produz os efeitos mencionados quanto ao réu no art. 240 depois que for validamente citado”. A propositura da demanda inaugura uma série de atos processuais que se seguirão, formando a relação processual entre as partes do processo, bem como entre estas e aquela jurisdição. Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: 12 A partir da propositura da ação, o processo passa a produzir efeitos para o autor, gerando litispendência. No entanto, ele só passa a produzir efeitos para o réu a partir da citação. A propositura da demanda induz litispendência e torna litigiosa a coisa em relação ao autor, enquanto que os efeitos do artigo 240 do CPC, que incluem também a constituição de mora do devedor, apenas fazem efeito em relação ao réu depois da citação válida. Desses efeitos é muito importante destacar a litispendência, que é o efeito verificado quando se repete ou reproduz uma ação que esteja em curso ou que foi anteriormente ajuizada. Nesse caso, nos termos do § 2º do artigo 337 do CPC, consideram-se idênticas as ações que possuírem mesmas partes, mesma causa de pedir e mesmo pedido. Sendo assim, ao inaugurar uma demanda judicialmente, é importante verificar se a ação idêntica está – ou já esteve – em curso, uma vez que a propositura da demanda é o momento em que se verifica se há litispendência ou não. Nos dizeres de Fredie Didier Jr. (2015, p. 548): A demanda é o conteúdo da petição inicial. Forma é o meio pelo qual a vontade se expressa, se exterioriza. Ao tempo em que serve para exteriorizar a vontade, a forma serve de prova para o ato jurídico. Para maior segurança, a lei às vezes impõe que determinados atos jurídicos se revistam de determinada forma. A demanda é deles. O estudo dos requisitos da petição inicial (...) não passa de estudo dos requisitos formais do ato jurídico demanda. Como a demanda tem a função de bitolar a atividade jurisdicional [...] costuma-se dizer que a petição inicial é um projeto de sentença: contém aquilo que o demandante almeja ser o conteúdo da decisão que vier a acolher seu pedido. Desse modo verifica-se que a demanda expressa por meio da petição inicial é a delimitação daquilo que poderá ser objeto da tutela jurisdicional. Desta forma, a decisão proferida futuramente só poderá alcançar os limites daquele direito que foi contemplado na petição inicial, sem poder aumentar ou reduzir o seu alcance. 1.2 Requisitos da petição inicial Conforme dito, a petição inicial é a forma que a demanda toma, o que significa que o conteúdo deve ser expresso conforme determinados requisitos para que seja considerado juridicamente válido. Tais requisitos encontram-se expressos nos artigos 319 a 321 do CPC e indicam as informações básicas que a petição inicial deve conter, bem como as medidas tomadas pelo autor ou pelo FIQUE DE OLHO A petição inicial não se confunde com a demanda, mas é a forma pela qual a demanda se materializa no mundo jurídico, como se a petição inicial fosse um recipiente e a demanda o líquido que o preenche. 13 magistrado caso não se verifique o cumprimento de tais regras. É importante ressaltar que a petição deve ser apresentada de forma escrita, com sua autoria identificada e data de assinatura, sendo a postulação oral medida de exceção prevista em legislação específica. Conforme o artigo 319, são pressupostos básicos da petição inicial: (i) o juízo a que a petição é dirigida (ii) a qualificação das partes, composta pelos nomes, prenomes, estado civil, a existência de união estável, a profissão, o número de inscrição no CPF ou no CNPJ, o endereço eletrônico, o domicílio e a residência do autor e do réu (iii) o fato e os fundamentos jurídicos do pedido (iv) o pedido com suas especificações (v) o valor da causa (vi) as provas com que o autor pretende demonstrar a verdade dos fatos alegados (vii) a opção do autor pela realização ou não de audiência de conciliação ou mediação O juízo a que a petição é dirigida é o foro identificado como competente para julgar aquela demanda, e deve ser indicado no cabeçalho da petição inicial designando-se a unidade territorial (comarca ou seção judiciária), bem como a qualidade do magistrado que receberá originariamente a demanda. Como exemplo: Exmo. Sr. Juiz de Direito da __ Vara da Fazenda Pública da Comarca de Florianópolis/SC; ou Exmo. Sr. Juiz Federal da Vara Cível da Seção Judiciária de São Paulo/SP. A qualificação das partes é o simples preenchimento das informações pessoais das partes, sejam elas pessoas físicas ou jurídicas. Conforme o § 1º do artigo 319 do CPC, caso o autor não possua tais informações, poderá requerer ao juiz as diligências judiciais necessárias para a obtenção dos dados do réu. Isso pode FIQUE DE OLHO As regras para determinar qual foro é o competente para julgar determinada demanda estão insculpidas nos artigos 42 a 66 do CPC, e estabelecem qual juízo poderá julgar aquela demanda específica em razão do território, da matéria a ser julgada, da qualidade das partes envolvidas no processo ou do valor da causa. 14 ocorrer, por exemplo, quando o réu tem moradia incerta ou seu nome é desconhecido. Como tratado acima, o objetivo da qualificação das partes é a adequada citação do réu de modo que, conforme o § 2º do artigo 319 CPC, mesmo que alguma das informações não esteja presente, a petição inicial não será indeferida caso as informações ali contidas sejam suficientes para o sucesso na citação do réu. A terceira exceção é aquela prevista no § 3º do artigo 319 do CPC, a qual determina que a inicial será aceita, mesmo sem os dados necessários, quando a obtenção das informações se tornar impossível ou excessivamente custosa. Um exemplo para esse caso é quandoadequada mediante, se for o caso, a indicação de assistentes técnicos. Em poucas palavras: a legitimidade do resultado da prova pericial requer que as partes tenham tido a devida possibilidade de participar em contraditório da sua formação. Inspeção judicial A inspeção judicial será determinada pelo juiz, sendo requerida pela parte somente com justificativa devidamente fundamentada. Importa na realização de diligência até o local, coisa ou pessoa a ser inspecionado, de forma a compor o livre convencimento do magistrado. Eis o que leciona MARINONI sobre o tema: A inspeção judicial, segundo o art. 481, pode incidir sobre pessoas ou coisas. Se o caso recomendar – e isso não for prejudicial às partes em termos de despesas e de tempo – o juiz deve ir ao local em que está a pessoa ou a coisa para realizar a inspeção. Em outra hipótese, o juiz pode determinar a apresentação da pessoa ou coisa na sede do juízo ou em local que for mais oportuno. (MARINONI, 2016, p. 137) 81 Nesta unidade, você teve a oportunidade de: • estudar diversos atos que podem ser praticados antes mesmo do julgamento final de mérito pelo juiz, e que impedem que o processo transcorra inválido, ou que dure mais tempo do que o necessário, verificando que o CPC prima pela necessidade de se privilegiar a eficiência. • ver que o juiz pode julgar liminarmente o pedido, para declarar manifesta improce- dência do pleito autoral, julgando o mérito antes mesmo de proceder à citação do réu. • entender que, caso a demanda supere a análise preliminar, e após a resposta do réu, o magistrado tem o dever de promover as chamadas providências preliminares, instaurando a fase de saneamento do processo com a finalidade de, mais uma vez, verificar se há algum impedimento para o transcurso válido do processo. • saber que, nesse momento, o juiz poderá também julgar parcialmente ao mérito quanto a pedidos que prescindam da produção de provas e mostrem-se, portanto, incontroversos. • compreender que, verificados pressupostos que impeçam o seguimento do proces- so, o juiz deverá extinguir o processo analisando ou não o mérito. • compreender, por fim, que após o seguimento válido do processo, os meios e proce- dimento de produção de provas que demonstrarão os fatos alegados possibilitarão a formação do convencimento do juiz para que seja proferida a decisão final de méri- to, tema que estudaremos na próxima unidade. PARA RESUMIR ALVIM, Arruda. Manual de direito processual civil: teoria do processo e processo de conhecimento. 17. ed. rev., atual. e ampl. –São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2017. BUENO, Cassio Scarpinella (coordenador). Comentários ao código de processo civil – volume 2. São Paulo: Saraiva, 2017. BRASIL. Lei nº 13.105, de 16 de março de 2015. Presidência da República, Secretaria Geral, Subchefia para Assuntos Jurídicos. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13105.htm DIDIER JR., Fredie. Curso de direito processual civil: introdução ao direito processual civil, parte geral e processo de conhecimento. 17. Ed. – Salvador: Ed. Jus Podivm, 2015. v.1. GAJARDONI, Fernando da Fonseca; DOLLORE, Luiz; ROQUE, André Vasconcelos; OLIVEIRA JR., Zulmar Duarte. Processo de conhecimento e cumprimento de sentença: comentários ao CPC de 2015. Rio de Janeiro: Forense; São Paulo: Método, 2016. MARINONI, Luiz Guilherme Marinoni. Curso De Processo Civil - Vol. 1 - 4ª Ed. São Paulo: Revista dos Tribunais 2019. WAMBIER, Teresa Arruda Alvim et al. Primeiros comentários ao novo Código de processo civil: artigo por artigo. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2015. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS UNIDADE 4 Sentença e coisa julgada Olá, Após estudarmos todos os atos que se sucedem no processo de conhecimento pelo diálogo das partes em contraditório, materializado pela apresentação da demanda pelo autor e resistência à pretensão pelo réu, passando pela produção de provas, verificaremos o resultado produzido por esses atos, que é a prolação de sentença final de mérito por parte do juiz. Estudaremos então, nesta unidade, a formação da sentença, seus elementos, capítulos, requisitos e efeitos, bem como a materialização desses efeitos no mundo jurídico, consubstanciada pela formação da coisa julgada. Bons estudos! Introdução 85 1.0 SENTENÇA Conforme já tratado, todos os atos processuais que ocorreram desde a propositura da ação, ressalvadas as exceções, foram com o objetivo de conduzir a uma sentença, produzindo em contraditório, elementos para o convencimento do juiz que possibilitassem a prolação de uma decisão de mérito válida e eficaz, produto de um procedimento que seguiu validamente todos os ritos necessários. Fonte: Pixelbliss, shutterstock, 2020 #PraCegoVer: martelo de juiz, feito de madeira, colocado sobre uma superfície e um suporte de madeira no qual o juiz deve bater. 1.1 Conceito dos pronunciamentos judiciais Os pronunciamentos judiciais, nos termos do artigo 203 do CPC, consistem em sentenças, decisões interlocutórias e despachos. Nos termos do artigo 203, § 1, “sentença é o pronunciamento por meio do qual o juiz, com fundamento nos arts. 485 e 487, põe fim à fase cognitiva do procedimento comum, bem como extingue a execução”. Decisões interlocutórias são, nos termos do § 2º do artigo 203, todo pronunciamento judicial de natureza decisória, que não seja uma sentença, sendo que despachos são todos os demais pronunciamentos do juiz que não possuam conteúdo decisório (§ 3º). É importante destacar que todas as decisões, mesmo que julguem o mérito parcialmente ou extingam parte do processo, não são consideradas sentenças por não encerrarem a fase cognitiva do processo, uma vez que o procedimento prossegue em relação à parte da demanda. Essa distinção conceitual importa muito, pois as decisões que resolvem parcialmente o mérito 86 ou extinguem parte do processo são atacáveis mediante agravo de instrumento, por se tratar de decisões interlocutórias, e não por apelação, cabível apenas em face de sentença. Nas lições de WAMBIER e TALAMINI (2018, p. 427): O legislador do CPC/2015, ao conceituar sentença, retoma o critério classificatório original do CPC/1973, aperfeiçoando-o ao conjugá-lo com o critério de conteúdo que havia sido introduzido pela Lei 11.232/2005. Assim, em regra, sentença é definida como o pronunciamento que encerra a fase cognitiva do processo ou a execução (com o que, em princípio, estará, daí sim, encerrando o processo como um todo) e que tem por conteúdo alguma das hipóteses dos arts. 485 ou 487 do CPC/2015. Também poderá haver decisões com tal conteúdo, mas que não põem fim ao processo nem à sua fase de conhecimento. São as decisões interlocutórias que reconhecem a parcial impossibilidade de julgamento do mérito (art. 354, parágrafo único) ou julgam antecipadamente apenas uma parte do mérito (art. 356 – v. cap. 12, acima) [...] A principal relevância da classificação, em primeiro grau, é para a definição da admissibilidade e adequação recursal. O conceito de sentença contém a acepção de que tal pronunciamento pode culminar em decisões: (i) terminativas, que não resolvem o mérito, nos termos do artigo 485 do CPC; ou (ii) definitivas, que resolvem o mérito, colocando fim à controvérsia trazida em juízo, nos termos do artigo 486 do CPC. No momento, nos importa tratar mais profundamente da sentença, de modo a diferenciar as hipóteses e características dos pronunciamentos que resolvem o mérito e aqueles que não resolvem. 1.2 Sentença sem resolução do mérito Nem toda sentença deverá, necessariamente, analisar o mérito, uma vez que existem pronunciamentos meramente processuais, em que o juiz expõe os motivos pelos quais não é possível julgar o mérito, por faltar ao processo características que confiram a validade necessária para que prossiga. Nos termos do artigo 485 do CPC, o juiz não resolverá o mérito quando: I - indeferir a petição inicial; II - o processo ficar parado durante mais de 1 (um)ano por negligência das partes; III - por não promover os atos e as diligências que lhe incumbir, o autor abandonar a causa por mais de 30 (trinta) dias; IV - verificar a ausência de pressupostos de constituição e de desenvolvimento válido e regular do processo; 87 V - reconhecer a existência de perempção, de litispendência ou de coisa julgada; VI - verificar ausência de legitimidade ou de interesse processual; VII - acolher a alegação de existência de convenção de arbitragem ou quando o juízo arbitral reconhecer sua competência; VIII - homologar a desistência da ação; IX - em caso de morte da parte, a ação for considerada intransmissível por disposição legal; e X - nos demais casos prescritos neste Código. Conforme verificamos, muitos dos casos ocorrem em fases mais preliminares do processo, não necessitando o amadurecimento da causa para que seja declarada a extinção do feito, por carecer de pressupostos de validade que permitam o prosseguimento do feito. Já tratamos nas unidades anteriores, mas é sempre bom destacar quais são estes casos: (i) o indeferimento da petição inicial, que acontece, de plano quando do ajuizamento da ação; (ii) verificação da ausência de pressupostos de constituição e desenvolvimento válido do processo, o que o juiz pode atestar a qualquer momento; (iii) verificar ausência de legitimidade ou de interesse processual, o que em geral conduz ao indeferimento da petição inicial, já elencado; (iv) reconhecer existência de perempção, de litispendência ou de coisa julgada. Nesses casos, o juiz entende que o processo não pode seguir, porque faltam-lhe pressupostos que são, conforme lição de WAMBIER e TALAMINI (2018, p. 428): Os pressupostos processuais consistem no primeiro momento lógico merecedor da atenção do juiz. São elementos cuja presença, como já indicado, é imprescindível para a existência e para a validade da relação processual (lembrando que há pressupostos positivos, que são elementos que devem estar presentes para a existência ou validade da relação, e pressupostos negativos, cujo preenchimento se dá pela inexistência de configuração concreta de determinada hipótese). A existência e a validade da relação jurídica processual são requisitos para que o juiz possa apreciar o mérito (v. vol. 1, cap. 15). Assim, será meramente processual ou terminativa a sentença toda vez que o juiz constatar a inexistência de pressuposto processual positivo, de existência ou de validade (com exceção das hipóteses de incompetência absoluta e impedimento, por disposição legal expressa), ou a existência de pressupostos processuais negativos. O mesmo ocorre com as já estudadas condições da ação. Consistem elas, como se viu, no elo mais nítido que existe unindo o direito material ao processual: são o interesse de agir e a legitimidade ad causam (v. vol. 1, cap. 10). Toda vez que o juiz verificar estar ausente alguma das condições da ação, estar-se-á diante de sentença processual ou terminativa. 88 Os demais casos elencados no artigo 485 tratam de fatos supervenientes ao ajuizamento da ação que tornam seu prosseguimento inviável, e que são os casos dos seguintes incisos: II — negligência das partes por mais de um ano III — quando as partes não promoverem atos ou diligências que lhe incumbirem por mais de trinta dias VII — quando houver superveniente convenção de arbitragem ou o juízo arbitral reconhecer sua competência VIII — quando houver desistência da ação IX — em caso de morte de uma das partes É importante apontar que, nos termos do artigo 486 do CPC, o julgamento sem resolução do mérito do feito não faz coisa julgada material, o que significa que o pronunciamento judicial que não resolve o mérito não obsta que a parte proponha nova ação, desde que corrija o vício que levou à extinção do feito. Nesse caso, a petição inicial da nova ação só será despachada após a comprovação do pagamento das custas e honorários da ação precedente (§ 2º do artigo 486). Entretanto caso o autor dê causa por três vezes à extinção de ação sem resolução do mérito fundada em abandono da causa, não poderá propor nova ação contra o réu com o mesmo objeto (§ 3º do artigo 486). Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: 89 1.3 Sentença de mérito As sentenças de mérito são aquelas elencadas no artigo 487 do CPC e, conforme WAMBIER e TALAMINI (2018, p. 436): Tais sentenças veiculam a resolução do conflito; definem as normas que incidiram no caso; dizem quem tem razão, reconhecendo-lhe o bem jurídico a que faz jus; e, se for o caso, ditam as providências destinadas a concretamente transformar a realidade para adequá-la a tal reconhecimento. Assim, projetam-se sobre a esfera jurídico-material das partes e, em regra, são aptas a fazer coisa julgada material. Nos termos do artigo 487, resolvem o mérito as sentenças que: (i) acolhem ou rejeitam o pedido formulado na ação ou na reconvenção; (ii) decidem a respeito de decadência ou prescrição; (iii) homologam o reconhecimento de procedência do pedido emitido pelo réu, a transação entre as partes, a renúncia à pretensão pelo autor da ação ou da reconvenção. Desse modo, a sentença de mérito é aquela que examina de fato o conflito, colocado em pauta e fazendo coisa julgada material, o que significa que a mesma ação não poderá ser proposta novamente, sob os mesmos fatos e fundamentos para provocar pronunciamento judicial diverso. 2.0 ELEMENTOS DA SENTENÇA Os elementos da sentença são os tópicos ou capítulos que a sentença necessariamente deve conter a fim de que seu conteúdo seja considerado válido para declarar o direito das partes. 2.1 Capítulos da sentença Nos termos do artigo 489 do CPC, são elementos da sentença o relatório, os fundamentos sob os quais se embasam as razões de fato e de direito que conduziram à conclusão do juiz a respeito da lide e o dispositivo. O relatório é o tópico por meio do qual o juiz delimita todo o histórico processual, identificando o caso, a suma do pedido, a contestação, as provas que foram produzidas, e outras eventuais intercorrências fático-processuais. É um resumo do processo que destaca as partes relevantes, algo essencial para que a fundamentação demonstre que se amolda aos fatos jurídicos e processuais que levaram à decisão. A fundamentação é o elemento de motivação de sentença. É ela que traça os passos argumentativos que levaram o juiz ao pronunciamento final, sendo que, conforme se verá adiante, a sentença não motivada ou mal motivada é considerada nula, constituindo a fundamentação como requisito de validade da decisão. 90 Por fim, o dispositivo é a parte que declara o direito, em que o juiz resolve as questões apresentadas, proferindo um comando a respeito do direito que foi pleiteado pelo autor e contraposto pelo réu. 2.2 Requisitos da sentença Os requisitos de validade da sentença são aqueles elementos que garantem que o documento produzido pelo magistrado não é anulável de pleno direito. A decisão deverá, então, conter todos os capítulos indicados e o conteúdo deve obedecer aos requisitos de validade expressos no CPC. O principal requisito de validade da sentença é o conteúdo da fundamentação. É muito importante destacar que a fundamentação é essencial para que se identifique o caminho argumentativo que conduziu àquela decisão final descrita no dispositivo da sentença. Na lição de WAMBIER e TALAMINI (2018, p. 442): Na fundamentação, cabe ao magistrado expor as razões de seu convencimento, de forma clara, completa e razoável, de modo a que todos aqueles que a leiam possam compreender o caminho argumentativo que o levou à conclusão a que chegou. Trata-se de norma em que se manifesta e se concretiza de forma inequívoca o princípio do livre convencimento motivado, tal como expresso no art. 371. Para que se considere fundamentada a sentença, devem ser observadas as regras do § 1.º do art. 489. Tal conjunto de disposições não inova o ordenamento jurídico com o roteiro que ali explicita. Ressalvado o seu inciso VI, nadamais faz do que enunciar didaticamente todo um conjunto de vetores indispensáveis para a concretização da garantia fundamental estabelecida no art. 93, IX, da CF/1988. Por esse motivo, o § 1º do artigo 489 proíbe que em sua fundamentação o magistrado se limite a apenas as seguintes ações: (i) indicação, reprodução ou paráfrase de ato normativo, sem explicar sua relação com a causa específica; (ii) empregar conceitos jurídicos indeterminados, sem explicar o motivo concreto de sua incidência no caso; (iii) invocar motivos que prestariam a justificar qualquer outra decisão; (iv) não enfrentar todos os argumentos deduzidos no processo, capazes de, em tese, infirmar a conclusão adotada pelo julgador; (v) invocar precedente ou enunciado de súmula sem identificar os fundamentos determinantes ou demonstrar que os fundamentos se amoldam ao caso em julgamento; (vi) deixar de seguir enunciado de súmula, jurisprudência ou precedente invocado pela parte, 91 sem demonstrar a existência de distinção no caso em julgamento ou a superação do entendimento jurisprudencial trazido. A fundamentação deve, portanto, obedecer aos requisitos do § 1º do artigo 489, sob pena de não se considerar fundamentada a decisão, o que levaria à sua nulidade. Outro requisito é a identidade entre o dispositivo e a fundamentação, de modo compreensível e capaz de afirmar os efeitos decorrentes da decisão. Uma sentença sem dispositivo é inexistente juridicamente. No caso de decisão que resolve colisão entre normas, nos termos do § 2º do artigo 489, “o juiz deverá justificar o objeto e os critérios gerais da ponderação efetuadas, enunciando as razões que autorizam a interferência na norma afastada e as premissas fáticas que fundamentam a decisão”. Por fim, o § 3º do artigo 489 trata da interpretação da sentença, determinando que deverá ser sistemática “a partir da conjugação de todos os seus elementos e em conformidade com o princípio da boa-fé”, o que demonstra mais uma vez a importância da fundamentação da sentença para a adequada interpretação da decisão. Isso indica que a coerência sistemática da sentença também é um requisito de validade, tendo em vista que a harmonia dos elementos confere coesão e validade ao ato decisório. Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: 2.3 Efeitos da sentença A prolação da sentença possui diversos efeitos jurídicos para o processo, para as partes e demais atingidos pela decisão, os quais são classificados pela doutrina como efeitos principais, efeitos anexos e efeitos secundários. 92 2.4 Principais Efeitos principais são aqueles previstos no dispositivo. São os efeitos causados pelo mandamento que declara o direito, determinando-se a conclusão da fase de cognição. Os efeitos principais decorrem necessariamente dos pedidos formulados pelas partes e dos limites materiais delineados pelo transcorrer da fase de cognição, sendo que, nos termos do artigo 492 do CPC, a decisão não poderá possuir natureza diversa do pedido, nem condenar parte a quantidade superior ou em objeto diverso do que foi demandado. Pode-se dizer que o efeito principal é o efeito imediato da sentença, ou seja, é dar às partes a resposta necessária ao provimento evocado pelos pedidos e, portanto, todo seu conteúdo deve estar expresso na decisão para que produza efeitos. Conforme WAMBIER e TALAMINI (2018, p. 442): Os efeitos principais estão previstos na própria sentença. São decorrência da sentença considerada como ato jurídico. Mais especificamente, os efeitos principais advêm diretamente do próprio conteúdo do comando (dispositivo) da sentença. Derivam da definição do destino do processo contida no dispositivo da sentença (resolver ou não o mérito e, nesse segundo caso, acolhendo ou rejeitando o pedido). Daí que, quando de procedência, os efeitos principais refletem o pedido imediato do autor. Se o autor pediu condenação, o efeito principal da sentença de procedência é condenatório. Se pediu uma ordem, a sentença tem efeito principal mandamental, e assim por diante [...] Todas as sentenças têm certa carga de eficácia declaratória. A declaração impõe-se logicamente, antes de tudo, ao juiz. Na sentença de mérito, o juiz sempre declara a existência ou inexistência de um direito. Por vezes, a prestação da tutela jurisdicional cinge-se a essa declaração, dando, assim, origem às sentenças ditas meramente declaratórias, isto é, às sentenças cuja finalidade é declarar ou a existência ou a inexistência de uma relação jurídica. Frise-se que o interesse jurídico do autor pode cingir-se à obtenção de sentença meramente declaratória, mesmo quando já houver violação de seu direito (arts. 19 e 20). Desse modo, as sentenças de procedência declaram o bem da vida que será conferido ao autor, as de improcedência são uma declaração negativa de direito e as que não apreciam o mérito declaram a impossibilidade de se decidir sobre o pedido autoral. Dependendo do direito pleiteado, para produzir efeitos, a sentença deverá ser objeto de liquidação ou de cumprimento de sentença, sendo que quando apenas constitui direito, já produz efeitos jurídicos a partir do trânsito em julgado. 2.5 Anexos Efeitos anexos são os efeitos que a sentença produz em razão da sua natureza especial definida em lei. Tal natureza especial decorre do fato de a decisão ter sido dada no bojo de procedimento tipificado por lei como distinto da regra geral, de modo que a própria lei define os efeitos específicos para a sentença, independente do que estiver escrito na decisão. 93 O efeito anexo decorre, portanto, da lei. E, conforme trata WAMBIER e TALAMINI (2018, p. 446): Efeito anexo é aquele que a própria lei atribui a determinadas espécies de sentença, independentemente de ele estar previsto no conteúdo do provimento. O efeito anexo é uma decorrência da sentença considerada como fato jurídico. O ordenamento prevê que, quando existir uma dada espécie de sentença, dela advirá determinado efeito, independentemente do que esteja dito nela. Assim, a produção do efeito anexo independe de pedido da parte e de pronunciamento do juiz. São exemplos de efeitos anexos: a hipoteca judiciária – decorrente de sentenças que condenam o réu ao pagamento de quantia ou que convertem prestação de fazer, não fazer ou de dar coisa em prestação pecuniária (art. 495 do CPC) – e a eficácia de título executivo civil advinda da sentença condenatória penal (art. 515, VI). Tais efeitos produzem-se tão só pelo fato de existirem sentenças dessas espécies, pouco importando o que nelas conste a respeito do tema. Desse modo, independente do conteúdo da sentença, produzirá determinado efeito pelo simples fato de estar contida em um procedimento tipificado de modo especial pela lei, ainda que silente à decisão. 2.6 Secundários Os efeitos secundários são aqueles que independam de pedido para que o juiz se pronuncie a respeito, mas devem estar contidos na decisão para que se materializem. Conforme trata WAMBIER e TALAMINI (2018, p. 447): Efeito secundário é aquele que, embora independa de pedido da parte para que seja produzido, precisa estar contemplado na sentença para que se produza. Portanto, e assim como o efeito principal, é uma consequência da sentença considerada como ato jurídico. Exemplos: condenação em honorários; condenação em litigância de má-fé etc. Desse modo, são efeitos secundários aqueles que também são designados por lei, porém devem estar expressamente designados na decisão. 3.0 COISA JULGADA A coisa julgada está prevista nos artigos 502 a 508 do CPC, sendo que, conforme conceito trazido pelo artigo 502, “denomina-se coisa julgada material a autoridade que torna imutável e indiscutível a decisão de mérito não mais sujeita a recurso”. Para WAMBIER (2015, p. 789), o cerne da coisa julgada é “a imutabilidade e indiscutibilidade da sentença.” O autor continua (p. 818-819): A coisa julgada é instituto cuja função é a de estender ou projetar os efeitos da sentença ou da decisão interlocutória demérito (v. comentários aos arts. 203, 204 e 205), indefinidamente para 94 o futuro. Com isso, pretende-se zelar pela segurança extrínseca das relações jurídicas, de certo modo em complementação ao instituto da preclusão, cuja função primordial é garantir a segurança intrínseca do processo, pois que assegura a irreversibilidade das situações jurídicas cristalizadas endoprocessualmente. Esta segurança extrínseca das relações jurídicas gerada pela coisa julgada material traduz-se na impossibilidade de que haja outra decisão sobre a mesma pretensão. O resultado final da fase de conhecimento normalmente atribui um bem jurídico a alguém. Define- se, assim, uma situação jurídica, estabelecendo-se a sua titularidade, passando esta definição, por causa da coisa julgada material, a ser imutável, razoavelmente estável ou marcadamente duradoura. A coisa julgada projeta os efeitos da sentença ou da decisão interlocutória de mérito para o futuro, de maneira estável – está é sua função positiva – e impede o próprio Judiciário de se manifestar acerca daquilo que já foi decidido – esta é a função negativa da coisa julgada. A coisa julgada não é um efeito da sentença ou da decisão de mérito, mas uma qualidade que se agrega aos efeitos da sentença. Não pode ser vista como um efeito autônomo da sentença (ou da decisão interlocutória de mérito). Indica a forma como certos efeitos se exteriorizam, a sua força, a sua estabilidade, a sua autoridade. Expressões como imutabilidade, definitividade, intangibilidade exprimem uma qualidade, uma propriedade, um atributo do objeto a que se referem. Ou seja, a coisa julgada é o elemento de estabilização do direito e de estabelecimento da segurança jurídica, determinando que para aqueles fatos, partes e causas de pedir, não haverá outro posicionamento jurisdicional diverso do já ofertado. 3.1 Noções gerais De acordo com o CPC, a coisa julgada opera-se quando a decisão não for mais passível de recurso, tornando-se lei entre as partes, mas não prejudicando terceiros (art. 506, CPC). Ainda, o artigo 504, CPC, preconiza que os seguintes elementos não fazem coisa julgada: “I - os motivos, ainda que importantes para determinar o alcance da parte dispositiva da sentença; II - a verdade dos fatos, estabelecida como fundamento da sentença”. 95 Por fim, o artigo 505, CPC, traz situações em que a lide pode ser rediscutida, ainda que operada a coisa julgada: “I - se, tratando-se de relação jurídica de trato continuado, sobreveio modificação no estado de fato ou de direito, caso em que poderá a parte pedir a revisão do que foi estatuído na sentença; II - nos demais casos prescritos em lei”. 3.2 Tríplice identidade A tríplice identidade implica que a coisa julgada se constitui sobre uma decisão final que envolva identidade entre as mesmas partes, mesma causa de pedir e mesmo pedido. Ela existe para que haja estabilização do direito, sendo certo que outra decisão judicial não será proferida sobre caso idêntico, impedindo por exemplo que o autor, vencido na primeira demanda, não ajuíze nova ação com a mesma finalidade em face do mesmo réu. Eis o que dispõe WAMBIER (2015, p. 349) sobre o tema: A regra da tríplice identidade não é a única com base na qual opera a coisa julgada material, pois ela se completa e se combina com a regra da eficácia preclusiva, enunciada pelo art. 508. De fato, basta a regra da tríplice identidade (art. 337, § 2.º) para impedir que o demandante que saiu vencido de um primeiro processo por sentença de mérito passada em julgado volte a juízo para deduzir a exata mesma pretensão. Contudo, a tríplice identidade é inútil para impedir que o demandado que saiu vencido venha a juízo pedir tutela jurisdicional contrária àquela obtida pelo demandante declarado vencedor por sentença de mérito já coberta pela coisa julgada material. Para esses casos, desponta relevante apenas a regra da eficácia preclusiva da coisa julgada (art. 508), de tal modo que o demandado vencido não poderá suscitar quaisquer questões cujo acolhimento possa infirmar o resultado emergente da sentença de mérito passada em julgado (a propósito, confira-se, v.g., a clássica FIQUE DE OLHO O entendimento da doutrina e consolidado nos tribunais é que matérias de ordem pública decididas no despacho saneador não precluem, conforme podemos ler abaixo: AGRAVO REGIMENTAL NOS EMBARGOS DE DECLARAÇÃO NO RECURSO ESPECIAL. PROCESSO CIVIL. DECISÃO SANEADORA. ILEGITIMIDADE PASSIVA. MATÉRIA DE ORDEM PÚBLICA. PRECLUSÃO. INEXISTÊNCIA. 1. Nos termos da jurisprudência desta Corte as matérias de ordem pública decididas por ocasião do despacho saneador não precluem, podendo ser suscitadas na apelação, ainda que a parte não tenha interposto o recurso de agravo. 2. Agravo regimental não provido. (STJ, AgRg no REsp 1377422/PR, Rel. Ministro RICARDO VILLAS BÔAS CUEVA, TERCEIRA TURMA, julgado em 14/04/2015, DJe 17/04/2015) 96 lição de Barbosa Moreira. Coisa julgada e declaração. Temas de direito processual – 1.ª série. São Paulo: Saraiva, 1980. p. 83-86). Desse modo, observa-se que a regra da eficácia preclusiva completa a tríplice identidade da coisa julgada, tendo em vista que apenas a conjugação das duas regras obsta que a causa volte a ser, de fato, apreciada por outro juízo, culminando no ilegal duplo provimento judicial para a mesma lide. Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: 3.3 Pressupostos de sua formação Para que ocorra a coisa julgada material, deve se materializar a cognição plena e exauriente da matéria. Ainda, faz-se mister que também estejam atendidos os pressupostos processuais de existência e validade, conforme leciona NERY JR. E NERY (2015, p. 579): “jurisdição do juiz, petição inicial, capacidade postulatória (somente para o autor) e citação do réu (quando necessária)”. MARINONI (2016, p. 82), mencionando Donaldo Armelin, explica sobre os pressupostos de formação da coisa julgada material: É exatamente por tudo isso que, no âmbito do processo de conhecimento, para a formação da coisa julgada material – na pontual observação de Donaldo Armelin -, impõe-se (quase sempre) cognição plena e exauriente, não exigida em outras espécies de processo, possibilitando ao órgão jurisdicional a oportunidade de aprofundar-se no exame dos fatos e do direito, de modo que a imutabilidade outorgada pelo sistema jurídico à sentença possa produzir uma decisão que também preserve a justiça, evitando, tanto quanto possível, as consequências deletérias para as partes e para as próprias instituições, da deplorável situação na qual ocorra a dissociação desses valores fundamentais para a sociedade como são a justiça e a segurança jurídica. 97 Para NERY JR. E NERY (2015, p. 579): Para que a decisão/sentença de mérito, proferida pelo juiz no processo civil, adquira autoridade da coisa julgada (coisa julgada material), é necessário que estejam presentes os pressupostos processuais de existência: jurisdição do juiz, petição inicial, capacidade postulatória (somente para o autor) e citação do réu (quando necessária). Presentes os pressupostos de existência da relação jurídica processual, o processo existe e, consequentemente, a decisão ou sentença que nele vier a ser proferida, se de mérito, será acobertada pela auctoritas rei iudicatae, tornando-se imutável, indiscutível e intangível. Caso falte um dos pressupostos processuais de existência, o processo inexiste e a decisão ou sentença que nele vier a ser proferida será, igualmente, inexistente: não terá força de coisa julgada e por isso prescinde de rescisão, porque não produz nenhum efeito. De tudo isso decorre que a coisa julgada material só produz efeitos válidos quando é produto de uma cognição plena e exauriente, construída em contraditório, possibilitando às partes a ampla defesa, constituindo um processo válido que torna eficaz a decisão final proferida no âmbito daquele procedimento. Desse modo a validade da coisa julgada está intrinsecamente vinculada à validade do processo eda decisão prévios que a constituiu. 3.4 Coisa Julgada formal e coisa julgada material A coisa julgada pode ser formal ou material, a depender do seu alcance e possibilidade de modificação. Sobre a coisa julgada (formal e material) assim se manifesta WAMBIER (2015, p. 1282): “A coisa julgada formal seria um evento intraprocessual, i.e., a imutabilidade e indiscutibilidade da sentença compreendida como um fato interno ao processo impedindo a rediscussão da matéria naquele procedimento, mas não em outros. Já a coisa julgada material atingiria o próprio direito material, seria a “imutabilidade dos efeitos substanciais da sentença de mérito”, projetando-se ad extra, para fora do processo em que proferida a decisão, vedando a renovação da discussão não só naquele procedimento, mas em qualquer outro. (...) Diz-se também que ambos os conceitos estão numa relação de pressuposição. Segundo a doutrina tradicional, para a formação da coisa julgada material, deve-se formar antes a coisa julgada formal; ou seja, a coisa julgada formal seria um “pressuposto” lógico da coisa julgada material”. 3.5 Coisa julgada formal A coisa julgada formal seria a impossibilidade de se rediscutir o tema num mesmo processo. Podemos citar, como exemplo, a situação em que uma ação é julgada extinta sem resolução de mérito, e o prazo para interposição de recurso se escoa. O autor não pode mais discutir o 98 tema da ação nesse processo, porque ocorreu a coisa julgada material: ao não recorrer dentro do prazo, a extinção da ação se perpetuou no tempo. No entanto, ele poderá ajuizar nova demanda para rediscutir o mesmo objeto, uma vez sanada a irregularidade que ensejou a extinção da ação. DIDIER (2016, p. 110) define coisa julgada formal da seguinte maneira: A coisa julgada formal é imutabilidade da decisão judicial dentro do processo em que foi proferida, porquanto não possa ser mais impugnada por recurso – seja pelo esgotamento das vias recursais, seja pelo decurso do prazo do recurso cabível. Trata-se de fenômeno endoprocessual, decorrente da irrecorribilidade da decisão judicial. Revela-se, em verdade, como uma espécie de preclusão, (...) constituindo-se na perda do poder de impugnar a decisão judicial no processo em que foi proferida. Seria a preclusão máxima dentro de um processo judicial. Também chamada de ‘trânsito em julgado’. Eis o disposto na jurisprudência: RECURSO ESPECIAL. AÇÃO DECLARATÓRIA C/C COBRANÇA. EXTINÇÃO SEM RESOLUÇÃO DO MÉRITO. COISA JULGADA FORMAL. POSSIBILIDADE DE AJUIZAMENTO DE NOVA AÇÃO. DIREITO DE ACESSO À JUSTIÇA. 1.- A jurisprudência desta Corte é no sentido de que a extinção do processo sem julgamento do mérito por falta de legitimidade ad causam não produz coisa julgada material, mas apenas coisa julgada formal, a qual não impede a discussão da matéria em processo diverso. Precedentes. 2.- A ação anteriormente proposta pelo autor, igual à ação da qual decorreu o Recurso Especial em análise, sem resolução do mérito, não cria impedimento à propositura de nova ação pelo autor, contra as mesmas partes, sob pena de violação ao artigo 5º, XXXV, da Constituição da República, que assegura o amplo acesso à Justiça. 3.- Recurso Especial provido. (STJ - REsp: 1148581 RS 2009/0132622-9, Relator: Ministro SIDNEI BENETI, Data de Julgamento: 24/09/2013, T3 - TERCEIRA TURMA, Data de Publicação: DJe 27/09/2013) Verifica-se, então, que a coisa julgada formal é aquela oriunda de sentenças meramente processuais, as quais não apreciam o mérito por alguma impossibilidade processual. Isso quer dizer que a demanda pode ser novamente proposta e apreciada pelo juízo competente, desde que corrigidos os vícios que levaram à sua extinção. 3.6 Coisa julgada material Coisa julgada material implica na impossibilidade de se rediscutir o tema de forma ampla. Por exemplo: se uma ação é julgada improcedente e ocorrer o trânsito em julgado (com a interposição dos recursos cabíveis ou não), o autor não poderá rediscutir o tema de tal ação em outra demanda. Decidiu-se o mérito. Por sua vez, coisa material seria: A coisa julgada material é a indiscutibilidade da decisão judicial no processo em que foi produzida 99 e em qualquer outro. Imutabilidade que se opera dentro e fora do processo. A decisão judicial (em seu dispositivo),cristaliza-se, tornando-se inalterável. Trata-se de fenômeno com endo/extraprocessual. (...) Para que determinada decisão judicial fique imune pela coisa julgada material, deverão estar presentes quatro pressupostos: a) há de ser uma decisão jurisdicional (a coisa julgada é característica exclusiva dessa espécie de ato estatal); b) o provimento há que versar sobre o mérito da causa (objeto litigioso); c) o mérito deve ter sido analisado em cognição exauriente; d) tenha havido a preclusão máxima (coisa julgada formal) (DIDIER, 2016, p. 113). Eis o que dispõe a jurisprudência sobre a coisa julgada material: PROCESSUAL CIVIL. EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. MANDADO DE SEGURANÇA. COISA JULGADA MATERIAL. EFEITO MODIFICATIVO. CABIMENTO. 1. Os embargos de declaração têm por escopo sanar decisão judicial eivada de obscuridade, contradição, omissão ou erro material. 2. Havendo manifesta coisa julgada material, é inviável nova impetração com o mesmo propósito. Precedentes. 3. Hipótese em que o aresto lavrado pela antecessora do relator foi omisso quanto ao exame de impetração anteriormente ocorrida nesta Corte Superior, com o objetivo de compelir a autoridade apontada como coatora a cumprir integralmente a Portaria anistiadora, tendo sido a ordem denegada. 4. Embargos acolhidos, com efeitos infringentes, para denegar a ordem, nos termos do art. 6º, § 5º, da Lei n. 12.016/2009. (STJ - EDcl no MS: 19403 DF 2012/0236893-5, Relator: Ministro GURGEL DE FARIA, Data de Julgamento: 23/05/2018, S1 - PRIMEIRA SEÇÃO, Data de Publicação: DJe 29/06/2018) AGRAVO INTERNO NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. PROCESSO CIVIL. COISA JULGADA MATERIAL. EXISTÊNCIA DE COISA JULGADA. SÚMULA 7 DO STJ. EXTENSÃO DOS EFEITOS DA COISA JULGADA. SÚMULA 7 DO STJ. 1. É assente nesta Corte Superior que “conquanto seja de sabença que o que faz coisa julgada material é o dispositivo da sentença, faz-se mister ressaltar que o pedido e a causa de pedir, tal qual expressos na petição inicial e adotados na fundamentação do decisum, integram a res judicata, uma vez que atuam como delimitadores do conteúdo e da extensão da parte dispositiva da sentença” (REsp 795.724/SP, Rel. Ministro LUIZ FUX, PRIMEIRA TURMA, julgado em 1º/3/2007, DJ 15/03/2007). 2. É também em razão desse prisma que se firmou o entendimento de que em “havendo dúvidas na interpretação do dispositivo da sentença, deve-se preferir a que seja mais conforme à fundamentação e aos limites da lide, em conformidade com o pedido formulado no processo” (REsp 818.614/MA, Rel. Ministra Nancy Andrighi, Terceira Turma, julgado em 26/10/2006, DJ 20/11/2006). 3. É pacífica a jurisprudência desta Corte Superior no sentido de que a alteração das conclusões do Tribunal a quo no tocante à existência ou não de coisa julgada, por não haver nas demandas identidade de parte, causa de pedir e pedido, demandaria o revolvimento fático-probatório dos autos, o que encontra óbice na Súm 7 do STJ. 4. Consigna-se, também nesse ponto, que o acolhimento da pretensão recursal, no sentido de rever o alcance e os limites da coisa julgada, demandaria, necessariamente, a incursão na seara fático-probatória constante nos autos, situação que atrai o óbice da Súmula nº 7 do STJ. 5. Agravo interno não provido. (STJ - AgInt no AREsp: 1267129 AM 2018/0066360-6, Relator: Ministro LUIS FELIPE SALOMÃO, Data de Julgamento: 07/05/2019, T4 - QUARTA TURMA, Data de Publicação: DJe 15/05/2019) A coisa julgada material, portanto, é a coisa julgada por essência, aquela que estabiliza o direito das partes no mundo jurídico e obsta que a demanda seja novamente proposta em razão da tríplice identidade e do efeito preclusivo da coisa julgada. 100 3.7 Limites objetivosda coisa julgada Por limites objetivos da coisa julgada entende-se com qual parte da decisão é afetada pela coisa julgada. Nessa linha, ROQUE (2016, p. 634) assim leciona: De início, vale lembrar que a sentença é composta de relatório, fundamentação e dispositivo (art. 489). Segundo o art. 504, não é coberto pela coisa julgada: (i) a motivação da sentença, ou seja, a fundamentação do magistrado para chegar à conclusão em relação ao pedido (cabendo destacar que, usualmente, a apreciação da questão prejudicial ocorre, do ponto de vista de localização, exatamente na fundamentação); (ii) a afirmação do juiz quanto aos fatos (o que é denominado de “verdades do fatos” pelo Código), sejam os fatos constantes dos relatórios, sejam controvertidos apreciados na fundamentação. 3.1. Logo, se os fatos (relatório) e a motivação não são cobertos pela coisa julgada, somente o dispositivo é coberto pela coisa julgada. 3.2. Cabe consignar, porém, que a interpretação do dispositivo não é realizada de forma isolada, apenas com a sua leitura. A correta delimitação do dispositivo se dá a partir da leitura da fundamentação. FIQUE DE OLHO A verdade dos fatos não é alcançada pelos limites objetivos da coisa julgada. Nesse sentido, MARINONI (2016, p. 77), esclarece: “Observa-se, ademais, que a verdade dos fatos, fixada nas razões de decidir, também resta excluída dos limites objetivos da coisa julgada. O novel legislador, a exemplo do anterior, parece não se ter dado conta de que as conclusões fáticas, a partir da valoração dos elementos probatórios, constantes dos autos, integram, por certo, a motivação da sentença. Desnecessária – e até redundante –, pois, a alusão à ‘verdade dos fatos’, uma vez que já incluída no âmbito do inc. I do art. 503. Acrescenta, com absoluta propriedade, Egas Moniz de Aragão, que se os motivos não são abrangidos pela coisa julgada, muito menos a verdade dos fatos estabelecida como fundamento da sentença pode se subordinar àquela. Daí, porque ‘nenhum juiz, em outro processo, ficará vinculado ao que a sentença houver admitido como verdade; ao proferir o seu julgamento qualquer juiz poderá e deverá reapreciar livremente os fatos para formar o seu convencimento’”. 101 3.8 Limites subjetivos da coisa julgada Por limites subjetivos da coisa julgada entende-se como quem é atingido pela coisa julgada. Nos dizeres de ROQUE (2016, p. 468), “o ponto central dos limites subjetivos está em saber quais pessoas serão atingidas pela mutabilidade e indiscutibilidade da coisa julgada”. Segundo ele, o substituto, no caso de substituição processual, também será atingido pela coisa julgada, independentemente de ser beneficiado ou prejudicado por ela. O adquirente de bem litigioso também é coberto pela coisa julgada que se formar no processo. O assistente, pelo fato de não ser parte, não deve ser coberto pela coisa julgada, mas pela justiça da decisão. Desse modo, percebe-se que tal conceito diz respeito aos sujeitos atingidos pela coisa julgada, não se limitando às partes que compuseram a lide, mas se ampliando a todos aqueles que sofrem os efeitos jurídicos da decisão transitada em julgado. 102 Nesta unidade, você teve a oportunidade de: • Entrar em contato com um panorama amplo a respeito do processo de conhecimento, com todas suas fases, atos processuais e efeitos jurídicos, constituindo e resolvendo a lide. • Compreender, com base nas primeiras três unidades, todos os atos que se sucedem no processo de conhecimento pelo diálogo das partes em contraditório, materializado pela apresentação da demanda pelo autor e resistência à pretensão pelo réu, passando pela produção de provas. • Entender o conceito de sentença e dos demais pronunciamentos judiciais: o que são sentenças que resolvem ou não resolvem o mérito, bem como os elementos e efeitos do pronunciamento final do juiz da fase de cognição. • Entender o que é coisa julgada, como se forma, seus efeitos, pressupostos de formação; o que é coisa julgada formal e material, bem como os limites objetivos e subjetivos da coisa julgada. • Encerrar o conteúdo pertinente ao processo de conhecimento e à formação do livre convencimento do juiz operado em contraditório, que leva ao pronunciamento final a respeito do pedido ou a respeito da impossibilidade de que o feito siga validamente. • Completar a fase de conhecimento, para que possa iniciar a fase recursal, que será estudada oportunamente. PARA RESUMIR ALVIM, Arruda. Manual de direito processual civil: teoria do processo e processo de conhecimento. 17. ed. rev., atual. e ampl. –São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2017. BUENO, Cassio Scarpinella (coordenador). Comentários ao código de processo civil – volume 2. São Paulo: Saraiva, 2017. BRASIL. Lei nº 13.105, de 16 de março de 2015. Presidência da República, Secretaria Geral, Subchefia para Assuntos Jurídicos. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13105.htm DIDIER JR., Fredie. Curso de direito processual civil: introdução ao direito processual civil, parte geral e processo de conhecimento. 17. Ed. – Salvador: Ed. Jus Podivm, 2015. v.1. GAJARDONI, Fernando da Fonseca; DOLLORE, Luiz; ROQUE, André Vasconcelos; OLIVEIRA JR., Zulmar Duarte. Processo de conhecimento e cumprimento de sentença: comentários ao CPC de 2015. Rio de Janeiro: Forense; São Paulo: Método, 2016. WAMBIER, Teresa Arruda Alvim et al. Primeiros comentários ao novo Código de processo civil: artigo por artigo. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2015. WAMBIER, Luiz Rodrigues e TALAMINI, Eduardo. Curso Avançado de Processo Civil – Cognição Jurisdicional (processo comum de conhecimento e tutela provisória). v.2. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2018. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Este é um livro para estudantes do Código do Processo Civil. Além de abordar assuntos gerais da área, o livro apresenta conteúdo específico do estudo de processo de conhecimento: processo do conhecimento, desenvolvimento do contraditório, desenvolvimento e julgamento antecipado do processo e sentença e coisa julgada. Após a leitura da obra, o leitor vai: entender que a petição inicial é o meio pelo qual a demanda se expressa (sendo que o processo é inaugurado pelo protocolo da peça inaugural, a qual deverá obedecer aos requisitos dos artigos 319 e 320 do CPC); diferenciar os requisitos da petição inicial; perceber que a formulação dos pedidos deve obedecer aos requisitos dos artigos 322 e 324 do CPC; compreender os atos processuais, as formas de citação, a conciliação, a mediação, os processos de contestação e impugnação; apreender a contestação com base na incompetência ou impedimento, e muito mais! Bons estudos!o réu é indeterminado ou numeroso, como nos casos de ocupação irregular de uma aglomeração de pessoas, em ações possessórias, em que pode ser impossível para o autor precisar quantas e quais pessoas deveriam compor o polo passivo da ação. O fato e os fundamentos jurídicos são também conhecidos como causa de pedir. Conforme define Didier (2015, p. 551), A causa de pedir é o fato ou o conjunto de fatos jurídicos (fato(s) da vida judicializado(s) pela incidência da hipótese normativa) e a relação jurídica, efeito daquele fato jurídico, trazidos pelo demandante como fundamento do seu pedido.[...] Tem, assim, o autor de, em sua petição inicial, expor todo o quadro fático necessário à obtenção do efeito jurídico perseguido, bem como demonstrar como os fatos narrados autorizam a produção desse mesmo efeito (deverá o autor demonstrar a incidência da hipótese normativa no suporte fático concreto). Isso significa que o autor deverá narrar o fato e descrever qual a consequência jurídica dele que gerou o direito que se está postulando por meio da demanda, ou seja: qual fato e qual a relação jurídica consequente. Desse modo não poderá haver demanda genérica, mas apenas uma demanda que se amolde a uma situação, ou a uma pluralidade de situações concretas fáticas vividas pelo autor de modo concreto e individualizado. Situação essa que produziu efeitos no mundo jurídico e que gerou o litígio objeto da proposição judicial. Importante destacar que todo os fatos alegados deverão ser passíveis de prova, seja já constituída na petição inicial por meio de documentos, ou por meio de outras provas admitidas que serão produzidas ao longo do processo como oitiva de testemunhas ou perícia técnica. É interessante citar a reprodução de esquema gráfico elaborado por Didier (2015, p. 554), por meio da qual são descritas as etapas que levarão à formação da causa de pedir, que culminará no pedido: 15 Fonte: Elaborada pelo autor, 2019. #ParaCegoVer: Tabela com organograma: o primeiro quadrado possui a palavra “Incidência”. Dele sai uma seta que passa por dois quadrados um ao lado do outro: “Fato ou conjunto de fatos” e “Hipótese normativa”. A seta passa por eles e chega ao quadrado com o dizer: “Fato jurídico (causa de pedir)”. Deste, uma seta liga ao quadrado com “Relação jurídica substancial deduzida”, do qual saem duas setas. A da esquerda vai até o quadrado “Situação jurídica passiva (dever jurídico legal, obrigação, etc.). A seta da direita vai para o quadrado “Situação jurídica ativa (direitos subjetivos, interesses juridicamente tutelados etc.). Destes dois quadrados da esquerda e direita, saem setas que se unem e vão ao final, que indica “Pedido (efeito jurídico pretendido)”. 16 Seguindo os requisitos da petição inicial, após delineada a causa de pedir, conforme descrito acima, é necessário que se realize o pedido que é a delimitação do que se quer por fim. Ainda, conforme os artigos 291 a 293 do CPC, é necessário que se indique o valor da causa em número certo e expresso em moeda nacional, o qual deverá exprimir o real proveito econômico envolvido em discussão, ou evidenciar tal impossibilidade caso não haja conteúdo econômico imediatamente aferível, conforme parâmetros estimativos previstos no artigo 292 do CPC. O valor da causa será importante fator para o cálculo de despesas judiciais e honorários sucumbenciais, motivo pelo qual se faz importante que seja preciso, podendo inclusive ser impugnado pelo réu em preliminar de contestação, conforme artigo 293 do CPC. O próximo requisito trata da indicação das provas que se pretende produzir. Entretanto, essa não é a indicação definitiva das provas que serão de fato produzidas no processo, tendo em vista que o juiz pode determinar a produção de provas nos termos do artigo 370 do CPC. Desta forma, é na fase de saneamento do processo que as partes serão intimadas a indicar as provas que pretendem produzir. Por fim, a petição inicial deverá conter a opção por realizar ou não a audiência de conciliação ou mediação. Sendo facultativa, ela ocorrerá caso o autor assim opte, antes da oportunidade de defesa por parte do réu, com o objetivo oportunizar que o litígio se finalize em uma composição amigável. Caso o autor não indique sua vontade, ela será presumida e o juiz agendará a audiência, independentemente de emenda à inicial. Além dos requisitos inerentes ao conteúdo da petição inicial, o artigo 320 do CPC determina que esta deverá ser instruída com os seguintes documentos indispensáveis à propositura da ação: os documentos que comprovam a qualificação da parte autora, conforme indicado na inicial; a procuração que outorga poderes ao advogado do autor (art. 287 do CPC), que a lei expressamente exige; e documentos que sejam aptos a provar o direito, já que o momento para produção de prova documental é, em regra, no momento da propositura. FIQUE DE OLHO O inciso V do artigo 292 determina que, na ação indenizatória, o valor da causa corresponderá ao valor pretendido. Isso não significa, contudo, que o autor da causa não possa fazer pedido genérico, requerendo que o juiz arbitre o valor da indenização. Conforme entendimento do STJ (REsp 693.172/MG, 12/9/2005 e REsp 1321219 de 04/05/2017) o pedido de indenização pode ser genérico. Apenas quando o valor pretendido for expressamente indicado pelo autor, ele deverá ser idêntico e vinculado ao valor da causa. 17 A produção documental deve provar, quando suficiente, todos os fatos alegados, já que o ônus de provar o que alega, em regra, é do autor da demanda. Entretanto, é importante observar que a petição inicial não é o único momento de produção de prova no processo, já que é possível ao autor: (i) produção de prova documental posterior, após a fase de saneamento do processo; (ii) requerer que o juiz diligencie para a obtenção de documentos necessários a provar o direito; e (iii) requisitar que o réu exiba documentos dos quais tem posse, e que são necessários ao deslinde da demanda. 1.3 Emenda da petição inicial Vimos, portanto, o que uma petição inicial deve conter para que seja deferida pelo juiz e para que se dê prosseguimento à demanda. Entretanto, pode acontecer de algum dos requisitos formais não ser observado pela parte autora, mas se tratar de algo que possa ser corrigido ou sanado, não justificando que o juiz cancele todo o processo por este motivo, já que ele pode ser consertado pelo autor. Diante de tal situação, o artigo 321 do CPC determina que quando o juiz verificar que algum dos requisitos dos artigos 319 e 320 está faltando ou apresenta irregularidades capazes de prejudicar o julgamento futuro da demanda, deverá determinar que o autor, no prazo de 15 (quinze) dias, emende ou complete a petição. Neste caso, o juiz deverá indicar e descrever de modo pormenorizado qual requisito entende estar omisso ou incompleto na petição inicial, demonstrando objetivamente ao autor o que deve ser corrigido para que a petição seja deferida. Emendar a inicial é, portanto, corrigir um vício apontado pelo juiz como essencial para a solução da lide. Essa determinação pode ser feita quantas vezes o juiz entender necessário, sempre que entender que o defeito é sanável, com o objetivo de evitar que o processo se perca em razão de requisitos formais, os quais são importantes para o processo mas não podem prejudicar a solução de conflitos. Caso o autor não cumpra a diligência requerida pelo juiz, a petição inicial será indeferida, conforme prescreve o parágrafo único do artigo 321 do CPC. 1.4 Indeferimento da petição inicial: considerações gerais e hipóteses Conforme já tratado, a petição inicial deve obedecer a uma determinada forma. A demanda deve possuir pertinência e determinados documentos deverão compor a petição. Caso não sejam cumpridas tais premissas, a petição inicial será indeferida, conforme autoriza o artigo 321 do CPC, impedindo de modo liminar o prosseguimento da causa, antes que o réu seja ouvido. O momento do indeferimentoda inicial é muito importante, pois mata a causa antes mesmo que ela exista 18 e produza efeitos no mundo jurídico. Após a praticar outros atos processuais, como a citação do réu, já não é mais possível que se indefira a inicial, pois a demanda já terá iniciado a produção de efeitos no mundo jurídico. Isso não significa que o juiz não possa extinguir posteriormente o processo por outros motivos processuais verificados após o prosseguimento válido do feito (conforme art. 485 do CPC). Significa apenas que esse é o único momento que o feito poderá ter fim com fundamento no indeferimento da petição inicial. Conforme lição de Didier (2015, p. 558): É o indeferimento [da petição inicial] uma hipótese especial de extinção do processo por falta de um “pressuposto processual”. A petição inicial válida é um requisito processual de validade, que, se não preenchido, implica extinção do processo sem exame do mérito. Se o defeito se revelar macroscopicamente, é o caso de indeferimento; se o magistrado tiver ouvido o réu para acolher a alegação de invalidade, não é mais o caso de indeferimento, mas sim de extinção com base no art. 485, IV do CPC. A distinção é importante, pois o regramento do art. 331 do CPC somente se aplica à decisão que indefira a petição inicial, bem como, sendo liminar a sentença, não se condenará o autor ao pagamento de honorários advocatícios em favor do réu ainda não citado. Ou seja, é justamente pelo fato de a petição inicial não produzir qualquer efeito jurídico em relação a qualquer pessoa que ela pode ser indeferida sem quaisquer ônus à parte autora, como se o processo não houvesse sido iniciado para o mundo jurídico. Isso não acontece quando outros atos processuais são praticados, o que envolve o réu na demanda e passa a produzir efeitos, gerando consequências processuais, como é o caso do pagamento de honorários advocatícios conforme exemplo supracitado pelo doutrinador. Observe-se que o indeferimento da inicial não resolve o mérito, possibilitando que a demanda seja novamente proposta caso corrigidos os vícios que motivaram o indeferimento, quando possível. A decisão que indefere a petição inicial apenas declara que aquela demanda, do modo como foi apresentada, não poderá nem mesmo ser apreciada pelo juízo, tendo em vista o fato jurídico que impede o prosseguimento do feito. Outro efeito do modo de indeferimento da petição inicial é o recurso cabível diante da decisão proferida. Quando a demanda versar sobre diversas causas de pedir, o indeferimento da inicial pode ser parcial, ou seja, em relação a apenas parte da pretensão jurídica, seguindo o feito em relação à parte que o juiz entende como apta de prosseguimento, cabendo agravo (nos termos do art. 1015 do CPC) face à decisão, que será interlocutória. Quando se tratar de uma causa de pedir indivisível, o indeferimento da inicial implicará na prolação de uma sentença que extinguirá o feito sem resolução de mérito, contra a qual poderá ser interposto o recurso de apelação. Caso a decisão seja proferida em tribunal, monocraticamente ou em instância colegiada, a 19 decisão também terá características diferentes, cabendo outros recursos. Conforme lição de Didier (2015, p. 560): Com base nisso, pode-se estabelecer o sistema recursal da decisão que indefere a petição inicial: a) se se tratar de um indeferimento parcial feito por juízo singular (decisão interlocutória), o recurso cabível é o agravo de instrumento (art. 354, par. Ún, CPC;); b) se se tratar de indeferimento total do feito por juízo singular, será apelação; c) contra indeferimento total ou parcial feito por decisão do relator, caberá agravo interno; d) contra indeferimento total ou parcial feito por acórdão, caberão, conforme o caso, recurso ordinário constitucional, recurso especial ou recurso extraordinário. As hipóteses de indeferimento da petição inicial estão contidas no artigo 330 do CPC, e seus efeitos no artigo 331 do CPC. Conforme o Código de Processo Civil a petição inicial será indeferida quando: (i) for inepta; (ii) a parte for manifestamente ilegítima; (iii) o autor carecer de interesse processual; (iv) não forem atendidas as prescrições dos arts. 106 e 321. O Artigo 331 trata dos efeitos jurídicos do indeferimento da petição inicial que são: (i) o cabimento do recurso de apelação; (ii) a possibilidade de que o juiz se retrate no prazo de 5 (cinco) dias contados da apelação. O réu deverá ser citado para responder à apelação, caso não haja retratação por parte do juiz, ou intimado do trânsito em julgado quando não houver interposição de apelação. Caso, em sede de recurso, o tribunal reforme a decisão, o novo prazo para contestação começará a correr da intimação do retorno dos autos à primeira instância. Para a compreensão das hipóteses elencadas no artigo 330 é necessário o entendimento de determinados conceitos que não se encontram explícitos no texto da lei, exceto pela petição inepta, que é definida no § 1º do citado artigo. 1.5 Inépcia da inicial Conforme o § 1º do artigo 330 do CPC, a inicial será considerada inepta quando faltar pedido ou causa de pedir; quando apresentar pedido indeterminado não albergado pelas hipóteses legais que permitirem pedido genérico; quando a narração dos fatos não levar logicamente à conclusão ou contiver pedidos incompatíveis entre si. Observe que os defeitos elencados pelo CPC estão todos ligados a vícios que impedem ou 20 obstaculizam o julgamento do feito, tendo em vista que não é possível que se julgue uma demanda que não explicite o que se pretende, ou que não haja fatos e fundamentos que justifiquem o pedido, ou que formule pedidos que se anulem ou que sejam contraditórios. A inépcia da inicial decorre da ausência da identificação dos limites e fundamentos da demanda, impossibilitando ao magistrado delimitar a respeito do que, de fato, versa a demanda. Desta forma, torna-se impossível alcançar o mérito da questão, que não pode ser identificado naquela petição inicial inepta. A inépcia é, portanto, uma ausência de possibilidade de identificação e de reconhecimento do que deve ser julgado. A ausência de pedido ou de causa de pedir impede a delimitação da demanda. O juiz não consegue verificar até onde pode julgar, tendo em vista que diversas informações essenciais estão ausentes ou incompletas, tratando-se de uma demanda obscura. O pedido e seus requisitos serão melhor abordados no tópico seguinte, mesmo assim é importante destacar que o pedido deverá ser certo e determinado, sendo que o pedido indeterminado, quando a lei não autorizar pedido genérico, é outra das causas de inépcia da inicial. Isso se justifica porque a decisão de mérito oferta uma resposta a um pedido. Se não é possível identificar precisamente qual é o pedido, não é possível também conferir-lhe uma resposta adequada. A terceira hipótese de inépcia da inicial trata do pedido, abordando a coerência da demanda. Não é possível que a narração dos fatos e fundamentos verse sobre um determinado tema enquanto o pedido seja a respeito de outro. Por exemplo: em uma ação possessória em que se discute a desocupação de determinado imóvel, o pedido não pode versar sobre demarcação de terras. Outro exemplo é quando a demanda versa sobre descumprimento contratual e o autor requer anulação do contrato, enquanto deveria pedir resolução do contrato. Por fim, também a respeito do pedido, a quarta hipótese legal é a de que, quando há mais de um pedido cumulativamente, estes não podem ser incompatíveis entre si, pois um pedido anula o que é pretendido no outro. É importante lembrar que nesse caso os pedidos são válidos, mas não poderiam estar na mesma petição inicial por se tratar de pedidos contraditórios, o que leva à conclusão de que, nesse caso, é adequado que o juiz intime a parte a optar por um dos dois pedidos e não simplesmente indefira a inicial de plano. Além das hipóteses dos incisos do artigo 330, o CPC traz outra hipótese de inépcia da inicial em seu § 2º,que elenca requisitos específicos para ações que tenham por objeto a revisão de obrigação decorrente de empréstimo, de financiamento ou alienação de bens. Nesse caso, o autor deverá descrever quais das obrigações contratuais está contestando especificamente, além de demonstrar e quantificar qual valor discutido é incontroverso e qual está sendo objeto de discussão. Assim como no caso anterior, trata-se de vício sanável, em que é mais adequado que o juiz intime a parte a completar o pedido do que indefira a inicial. 21 O § 3º apenas determina que, nas hipóteses do § 2º, o autor deverá permanecer adimplindo as eventuais parcelas incontroversas, regra de direito material. Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: 1.6 Ilegitimidade da parte A ilegitimidade da parte, nos termos do inciso II do artigo 330, verifica-se quando o sujeito indicado como parte na petição inicial não é o titular daquela relação jurídica que está sendo discutida na demanda, seja como autor ou como réu. É o caso, por exemplo, de uma pessoa pleitear em nome próprio o direito de outrem, ou quando indica-se um réu que não praticou nenhuma ação contra o autor, o que acontece muito quando, na existência de grupo econômico de conhecimento notório, indica-se empresa do grupo que não foi exatamente aquela que estabeleceu a relação jurídica com o autor. Nesse caso, por se tratar de vício sanável, o ideal é que o juiz determine a emenda da petição inicial, intimando o autor para que indique corretamente a parte que compôs a relação jurídica que está sendo discutida. 1.7 Ausência de interesse processual por parte do autor O interesse processual diz respeito à relação entre o autor da demanda e o objeto da demanda: o bem pretendido. É a definição entre o que está sendo pedido e o direito e necessidade que o autor tem de pedir aquele bem jurídico. Também diz respeito à relação da parte com o processo. Não há interesse processual, nos termos do inciso III do artigo 330, quando o processo não seria necessário para a obtenção do pedido ou quando o procedimento adotado não é o meio adequado para fazer aquele pedido. 22 1.8 Não atendimento das prescrições dos artigos 106 e 321 Por fim, o último motivo de indeferimento da petição inicial, previsto no inciso IV do artigo 330, é o descumprimento dos requisitos insculpidos nos artigos 106 e 321 do CPC. O artigo 106 trata dos requisitos para que advogados postulem em causa própria. No caso, além de observar todos os requisitos dos artigos 319 e 320, o advogado deverá também indicar seu número de inscrição na Ordem dos Advogados do Brasil e o nome da sociedade de advogados da qual participa, ou outro endereço para recebimento de intimações. Conforme o § 1º do artigo 116, caso o advogado não cumpra os requisitos do inciso I, deverá ser intimado para completar as informações no prazo de 5 (cinco) dias. As prescrições do artigo 321, conforme já tratadas, dizem respeito à possibilidade de que o juiz determine a emenda da inicial de modo que, caso o autor não cumpra as determinações contidas na decisão, a petição inicial deverá ser indeferida. 2.0 PEDIDO As regras relativas ao pedido, tais como requisitos, possibilidades, vedações e exceções estão previstas na Seção II, do Capítulo II, Livro I, do CPC, compreendendo os artigos 322 a 329. Por ser um dos requisitos da petição inicial, conteúdo este apresentado no tópico acima, o pedido deve estar em total consonância com o quanto foi previsto no CPC, sob risco de indeferimento da petição inicial (art. 330, § 1º, incisos I, II e IV, CPC). 2.1 Conceito O pedido é a pretensão objetivada pelo autor. É o bem jurídico ao qual se busca a proteção, ou seja, é o objeto final da ação e, consequentemente, guia a atuação jurisdicional ao limitar os parâmetros da sentença a ser proferida. Ainda, é com base no pedido formulado pelo autor que o réu exercerá o seu contraditório. Nos dizeres de Roque (2016, p. 22-23): O pedido é um dos elementos da demanda e revela o que o autor veio buscar em juízo. Como visto em comentários ao art. 319, item 7, classifica-se em imediato (espécie de providência jurisdicional postulada) e mediato (bem da vida que o autor pleiteia). A razão de ser do processo é justamente sobre o qual recairá a atividade jurisdicional, acolhendo-o ou rejeitando-o. Sob a perspectiva do réu, será exercido o contraditório tendo por parâmetro especialmente o que foi pedido pelo autor. O pedido, em regra, bitola, a atividade jurisdicional, que não deve ser exercida além de seus limites, pela exigência de congruência entre o pedido e a sentença (arts. 141 e 492). Apesar disso, em determinadas situações, expressamente reguladas em lei, o órgão jurisdicional pode conceder tutela diversa da pedida, de 23 maneira a assegurar a efetividade da prestação jurisdicional (por exemplo, arts. 497, 536 e 537, que se referem à tutela específica ou à obtenção de tutela pelo resultado prático equivalente ou, ainda, a conversão superveniente em perdas e danos, na forma do art. 499). O pedido pode ter natureza declaratória, constitutiva/desconstitutiva ou condenatória. O pedido declaratório é aquele em que se pretende o reconhecimento de forma declarada de algo, como por exemplo o pedido para que seja reconhecida a paternidade. O pedido constitutivo/ desconstitutivo é aquele que pretende a criação, extinção ou alteração de uma relação jurídica. Como exemplo tem-se a invalidação de uma cláusula contratual. Por sua vez, o pedido condenatório consiste na imputação de uma obrigação, pecuniária ou não, ao réu, como por exemplo o pagamento de alimentos. Como será abordado em tópico específico, é possível a cumulação de pedidos, inclusive a cumulação de um pedido declaratório com um condenatório. Por exemplo: declaração do reconhecimento da paternidade com a condenação em pagamento de pensão alimentícia. Existem duas subdivisões do pedido: o pedido mediato e o pedido imediato. Nos dizeres de Alvim (2017, p. 749): O pedido imediato (...) é aquele que, desde logo, diretamente se deseja; é o pedido dirigido ao Poder Judiciário, no sentido de que outorgue a tutela jurisdicional especificamente solicitada. Já o chamado pedido mediato representa o bem jurídico material (bem da vida) subjacente ao pedido imediato. O pedido mediato, portanto, representa o que o autor deseja (interesse do autor), em detrimento do interesse do réu e o imediato “como” o autor deseja. O pedido mediato evidencia o objeto litigioso, ou a lide (terminologia do Código), ou ainda, o mérito. A título de exemplo, o pedido imediato é a condenação no pagamento de um determinado valor, enquanto que o pedido mediato é o reconhecimento da dívida. Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: 24 2.2 Requisitos Os requisitos estão previstos nos artigos 322 e 324 do CPC, que estabelecem que o pedido deve ser certo e determinado. Por certo, tem-se a ideia de expresso, claro e definido. À exceção das regras previstas no § 1º do artigo 322 do CPC, o ordenamento jurídico não admite pedido implícito (o pedido implícito será estudado no subtópico correspondente). Nos dizeres de Roque (2016, p. 23) “tal exigência serve para que o juiz possa delimitar o âmbito de sua atuação”. Ainda, o pedido deve ser determinado, traduzindo-se em liquidez, qualidade e/ou quantidade. Tal como ocorre com a certeza do pedido, o artigo 324, § 1º, CPC, traz as hipóteses legais em que o pedido pode ser genérico (que será abordado em tópico específico). O pedido deve estar expresso na petição inicial e definido quanto à quantidade e à qualidade, ou seja, deve ser uma pretensão precisa, porém isso não determina a necessidade de uma expressão econômica definida. 2.3 Cumulação de Pedidos Como narrado anteriormente, é lícito ao autor cumular os pedidos, desde que eles sejam compatíveis entre si, o juiz da causa seja competente para julgar todos os pedidos formulados, e o procedimento escolhido seja compatível para todos os pedidos formulados. Essa autorizaçãoestá prevista no artigo 327 do CPC. Nessa esteira, a compatibilidade entre os pedidos implica necessariamente que eles sejam coexistentes no mundo jurídico, ou seja, que não se excluam nem se anulem (com exceção do pedido alternativo que será analisado mais à frente). Podemos citar como exemplo uma ação revisional de aluguel cumulada com ação de despejo, em que o autor busca a revisão do valor do aluguel e, ao mesmo tempo, quer despejar o inquilino. Neste caso, ou o autor pretende a revisão do aluguel ou o despejo do inquilino: as duas situações juntas não se mostram cabíveis. Caso os pedidos sejam incompatíveis, o juiz não deve indeferir a petição inicial de plano, mas deve determinar a intimação do autor para que opte por um dos pedidos, em nome da economia processual. Ainda, o juiz deve ser competente para apreciar todos os pedidos. Isso significa que um pedido de competência estadual não pode ser cumulado com um pedido de competência federal. Ou, ainda, um pedido cível não pode estar junto de um pedido criminal. 25 No entendimento da súmula 170/STJ quando o juízo for competente apenas para apreciar alguns dos pedidos formulados, ele deverá decidir a causa no limite da sua jurisdição, sem prejuízo do ajuizamento de uma nova ação, no juízo competente, para apreciação dos demais pedidos. Por fim, o fato de um procedimento ser compatível com os pedidos implica em dizer que uma ação de rito especial somente pode conter pedidos pertinentes ao seu rito. Caso o autor busque cumulação de pedidos que possuem ritos incompatíveis, deve optar pela ação de rito ordinário. Por exemplo: uma ação declaratória de paternidade não pode ser cumulada com uma ação de despejo, na qual o autor pretende que seja declarada a paternidade do réu e ao mesmo tempo que este também desocupe um imóvel que pertence ao autor. Atendidos os requisitos da cumulação de pedidos, cumpre analisar as espécies de cumulação, que são divididas em: simples; sucessiva; subsidiária/eventual; e alternativa. As cumulações simples e sucessivas são consideradas cumulações próprias, pois exigem a compatibilidade entre os pedidos. Por sua vez, as cumulações subsidiárias/eventuais, bem como as alternativas, são classificadas como impróprias, pois permitem a cumulação de pedidos incompatíveis uma vez que apenas um deles será acolhido. A cumulação simples de pedido é a formulação de tanto pedidos quanto o autor desejar (desde que atendidos os requisitos para tal cumulação), sendo que um é independe do outro, ou seja, é possível deferir apenas um deles, todos eles, ou alguns deles, sem que um afete o outro. Por exemplo: requerer a condenação do autor em danos morais, materiais e estéticos. Na cumulação sucessiva, o deferimento de um pedido depende do acolhimento do anterior. Por exemplo: o pagamento de pensão alimentícia depende do reconhecimento da paternidade. A cumulação subsidiária/eventual, como seu próprio nome define, trata da formulação de dois ou mais pedidos que podem ser incompatíveis entre si, ou seja, quando o autor pleiteia um pedido principal, e na remota hipótese de indeferimento desse, um segundo pedido é apresentado. No presente caso aplica-se o exemplo dado por Roque (2016) em que o autor busca a revisão de cláusulas contratuais e, na sua impossibilidade, a anulação do contrato. Por fim, na cumulação alternativa o autor apresenta dois ou mais pedidos, sem indicar qual deles tem preferência. Neste caso, o autor pode pedir a revisão do aluguel ou requerer o despejo do inquilino, se qualquer uma das opções lhe deixar satisfeito. 26 3.0 ESPÉCIES DE PEDIDO A doutrina e a jurisprudência classificam os pedidos em 3 espécies: (i) pedido genérico; (ii) pedido alternativo; e (iii) pedido relativo à obrigação indivisível. Vejamos cada um deles. 3.1 Pedido Genérico Nos termos do parágrafo 1º do artigo 324 do CPC, a formulação de pedido genérico pode acontecer em 3 hipóteses: (i) “nas ações universais, se o autor não puder individuar os bens demandados” (ii) “quando não for possível determinar, desde logo, as consequências do ato ou do fato” (iii) “quando a determinação do objeto ou do valor da condenação depender de ato que deva ser praticado pelo réu” Na primeira hipótese, trata-se da situação em que o autor desconhece a totalidade do bem pretendido, como por exemplo a herança. O autor não tem conhecimento da integralidade do patrimônio, mas tem direito à sua cota da herança. Se tiver conhecimento da integralidade de bens a serem inventariados, deve formular pedido certo. Na segunda hipótese, o autor desconhece a totalidade das consequências do bem jurídico tutelado, como por exemplo o pagamento de um tratamento. O autor requer que o Estado custeie um determinado tratamento, porém não possui elementos para mensurar quanto tempo este durará, e nem mesmo as providências necessárias para tanto, ou seja, não conhece os detalhes do tratamento nem o seu custo total. Por fim, na terceira hipótese, a determinação do objeto ou da condenação depende de ato a ser praticado pelo réu. Por exemplo: requerer a condenação do réu nos valores em que recebeu FIQUE DE OLHO Ainda que se mostrem semelhantes, a cumulação subsidiária/eventual diferencia da cumulação alternativa quanto ao direito de recorrer em face do pedido que foi rejeitado. Na cumulação subsidiária/eventual, como autor apresenta uma preferência em relação aos pedidos, caso o principal seja rejeitado, é possível recorrer buscando o deferimento do pedido principal. Por sua vez, na cumulação alternativa, como ambos os pedidos lhe satisfazem, o autor não pode recorrer buscando o deferimento do pedido que foi rejeitado. 27 indevidamente por um serviço parcialmente prestado. Será apurado o quanto foi executado do serviço, e o réu deverá devolver ao autor o valor pago a mais. 3.2 Pedido alternativo Com previsão no artigo 325 do CPC, o pedido será alternativo quando, pela natureza da obrigação a ser cumprida, poderá o devedor cumpri-la de mais de uma forma, ou seja: a obrigação poderá ser extinta de diversas maneiras sem que se altere o resultado. O parágrafo único do mesmo dispositivo legal traz a possibilidade de o juiz assegurar ao devedor o direito de escolha na forma de cumprimento da obrigação, ainda que não formulado o pedido alternativo pelo credor, quando tratar-se de previsão legal ou contratual. Importante mencionar que o pedido alternativo não se confunde com a cumulação alternativa. Nos dizeres de Roque (2016, p. 31): Essa hipótese não se confunde com a prevista no art. 326, parágrafo único, em que o autor formula mais de um pedido para que o juiz acolha um deles, sem estabelecer qualquer preferência (cumulação alternativa de pedidos). Aqui, a origem da alternatividade está no próprio direito material, que admite o adimplemento da obrigação de mais de um modo. É exemplo de pedido alternativo a hipótese do art. 500 do Código Civil, em que se admite que, não sendo possível o complemento da área na venda de imóvel cujo preço foi estipulado por medida de extensão, o comprador exija do vendedor a resolução do contrato ou o abatimento proporcional do preço. 3.3 Pedido relativo à obrigação indivisível O pedido relativo à obrigação indivisível está expresso no artigo 328, CPC, que assim preceitua: “na obrigação indivisível com pluralidade de credores, aquele que não participou do processo receberá sua parte, deduzidas as despesas na proporção de seu crédito”. Nesse tipo de pedido, o credor de parte de um todo pode ajuizar a demanda sozinho, mas somente poderá levantar a parte que lhe couber. Os demais credores que não participaram da demanda podem levantar a sua parte, mesmo não tendo participado do processo, em decorrência da natureza da obrigação. 3.4 Interpretação do Pedido e Pedido Implícito Além das espécies de pedidos narradas, há situações em que o julgador não deve se ater apenas àquilo que foi expressamente pedido pelo autor, encontrando respaldo legal para essa interpretação ampliativa.3.5 Interpretação do Pedido O CPC prevê situações em que, ainda que não esteja expresso no capítulo dos pedidos, há 28 pedidos implícitos que devem ser considerados, além da hipótese de interpretação do pedido. No antigo Código de Processo Civil, o legislador vedava a interpretação ampliativa do pedido, atendo-se ao pedido de forma restritiva. Em outras palavras, apenas o pedido expresso poderia ser considerado. No atual CPC, o legislador inovou por entender que essa interpretação ampliativa do pedido confere maior efetividade ao processo. Nessa linha, o artigo 322, § 2º, CPC, dispõe que se deve interpretar o pedido em consonância com os fatos e direito narrados na exordial e em atendimento ao princípio da boa-fé. Em suma, implica em dizer que os pedidos não devem ser analisados de forma isolada, mas sob o contexto da petição inicial. Esse entendimento advém do entendimento sedimentado do Superior Tribunal de Justiça que assim defendia: (...) o pedido não deve ser extraído apenas do capítulo da petição especificamente reservado aos requerimentos, mas da interpretação lógico-sistemática das questões apresentadas pela parte ao longo da petição” (STJ, REsp 967.375, 2.ª T., rel. Min. Eliana Calmon, j. 02.09.2010, v.u., DJ 20.09.2010). 3.6 Pedido implícito Por pedido implícito, entende-se aquele que não conste expressamente na inicial, mas que estará presente por expressa previsão legal, como é o caso dos honorários advocatícios, correção monetária e juros leais. Eis os ensinamentos de Roque (2016, p. 23): Como temperamento à regra geral de que o pedido deve ser expressamente formulado, são estabelecidas algumas hipóteses de pedidos implícitos, os quais, sob pena de omissão, devem ser apreciados mesmo não tendo sido pleiteados pelo autor na petição inicial. O pedido que envolva prestações de trato sucessivo entende como implícito as prestações vincendas, conforme expressa previsão legal (artigo 323, CPC). 3.7 Ampliação da Demanda O CPC, em seu artigo 329, inciso I, prevê a possibilidade de o autor emendar a inicial antes da citação do réu. Essa previsão autoriza que o autor amplie os pedidos, formule novos ou os exclua, bem como amplie ou reduza o objeto da lide, respeitados os requisitos de cumulação de pedidos já estudados. 29 Por sua vez, o inciso II do mesmo dispositivo legal autoriza a alteração do pedido após a citação, desde que o réu concorde com tal alteração. Em caso de concordância, deverá ser concedido novo prazo para o réu se defender de tal aditamento. Didier (2015) defende que, quando se tratar de um novo pedido conexo ao originário ou de fato constitutivo superveniente, deve ser autorizada a ampliação da lide em qualquer estágio do processo, sob pena de tornar inócuas diversas outras previsões do próprio CPC, e que não estão limitadas à ampliação da lide trazida pelo artigo 329. Nessa toada, percebe-se que há possibilidade de ampliação da demanda para além daquelas expressamente previstas no artigo 329, CPC. 3.8 Alteração Objetiva da Demanda De acordo com o já mencionado artigo 329 do CPC, as alterações objetivas da demanda somente podem ser feitas até o saneamento do processo. Por alterações objetivas entende-se o pedido e a causa de pedir. Nessa linha, não pode haver alteração da demanda em fase recursal, pois implicaria em supressão de instância. Essa vedação decorre da necessidade de se estabilizar a demanda e garantir o contraditório e ampla defesa do réu. Não pode o autor, a qualquer tempo, alterar a demanda. No entanto, como o CPC traz uma postura mais mediadora, incentivadora de acordos, há entendimentos na doutrina de que, em caso de autocomposição, pode haver a ampliação objetiva da demanda, pois autor e réu estarão transigindo sobre seus direitos de forma espontânea e a solucionar a lide. 30 Nesta unidade, você teve a oportunidade de: • Entender que a petição inicial é o meio pelo qual a demanda se expressa, sendo que o processo é inaugurado pelo protocolo da peça inaugural, a qual deverá obedecer aos requisitos dos artigos 319 e 320 do CPC. • Compreender que caso o autor não observe tais requisitos, o juiz poderá determinar a emenda da petição inicial. Caso o vício seja insanável ou o autor não se manifeste no prazo concedido, a petição inicial será indeferida liminarmente, sem a citação do réu, fundamentando-se o magistrado nas causas elencadas no artigo 330 do CPC. • Diferenciar os requisitos da petição inicial. O principal deles é o pedido, o qual expressa claramente o bem jurídico ao qual se pretende a tutela jurisdicional. Além disso, é ele que definirá os limites e o objeto da decisão final de mérito que será proferida pelo juiz, após instaurado o contraditório. • Entender que a formulação dos pedidos deve obedecer aos requisitos dos artigos 322 e 324 do CPC. Os pedidos podem ser cumulados de modo simples, sucessivamente, subsidiariamente e alternativamente, desde que os pedidos não sejam contraditórios entre si. • Conhecer os pedidos e suas classificações. Devem ser certos, mas podem ser genéricos, tanto nos termos do artigo 324 do CPC, alternativos, quanto nos termos do artigo 325 do CPC, relativos à obrigação indivisível; nos termos do artigo 328 do CPC; ou implícito, nos termos do artigo 322 do CPC. PARA RESUMIR ALVIM, A. Manual de direito processual civil: teoria do processo e processo de conheci- mento. 17. ed. rev., atual. e ampl. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2017. BRASIL. Lei nº 13.105, de 16 de março de 2015. Presidência da República, Secretaria Geral, Subchefia para Assuntos Jurídicos. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13105.htm. Acesso em: 12 nov. 2019. BUENO, C. S. (Coord.) Comentários ao código de processo civil – Vol. 2. São Paulo: Sarai- va, 2017. DIDIER JR., F. Curso de direito processual civil: introdução ao direito processual civil, par- te geral e processo de conhecimento – Vol. 1. 17. Ed. Salvador: Jus Podivm, 2015. GAJARDONI, F. F.; DOLLORE, L.; ROQUE, A. V; OLIVEIRA JR., Z. D. Processo de conheci- mento e cumprimento de sentença: comentários ao CPC de 2015. Rio de Janeiro: Foren- se; São Paulo: Método, 2016. WAMBIER, T. A. A. et al. Primeiros comentários ao novo Código de processo civil: artigo por artigo. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2015. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS UNIDADE 2 Desenvolvimento do contraditório Olá, O processo para que produza uma decisão válida deve ser desenvolvido em contraditório, o que significa que às partes deve ser dada a oportunidade de participar do processo e de influenciar na decisão final que será produzida pelo juiz. Nesta presente unidade, estudaremos o desenvolvimento do contraditório, caracterizado pelos seguintes fatores: (i) a forma e o modo de comunicação dos atos processuais às partes; (ii) as formas e efeitos da comunicação da instauração do processo ao réu, (iii) a realização de audiência preliminar de conciliação e mediação e; (iv) as possíveis respostas do réu e o efeito da ausência de resposta. Bons estudos! Introdução 35 1.0 ATOS PROCESSUAIS E A COMUNICAÇÃO DE ATOS PROCESSUAIS O artigo 188 do CPC dispõe que “os atos e os termos processuais independem de forma determinada, salvo quando a lei expressamente a exigir, considerando-se válidos os que, realizados de outro modo, lhe preencham a finalidade essencial”. Em consonância com os artigos 189 a 192, CPC, há regras gerais a serem respeitadas, tais como a utilização da língua portuguesa, a publicidade dos atos e o atendimento aos prazos legais. Porém, o CPC prestigia o princípio da instrumentalidade das formas. Nesse sentido, tem-se que a instrumentalidade dos atos deve ser respeitada, porém, não deve haver um excesso de formalismo que obstaculize a efetividade e celeridade processual. Assim, mesmo que um ato não tenha sido realizado na forma estipulada pela lei, ele poderá ser aceito desde que atinja a sua finalidade. Também há situações em que as partes podem, de comumacordo, estabelecer a forma, o tempo e a comunicação dos atos processuais. Sobre o tema, destaca-se importante lição de Wambier (2015, p. 347-348): O art. 188 do NCPC reitera o conteúdo do consagrado art. 154 do CPC/73 e prestigia o princípio da instrumentalidade das formas. É consagrada no direito processual civil a ideia de que processo é instrumento, não um fim em si mesmo. O processo judicial, como método destinado à prestação da tutela jurisdicional, não existe por si só, exaurindo-se de maneira autossuficiente; o processo é acessório, no sentido de servir à aplicação do direito material: o processo é veículo, conduto, instrumento de incidência do direito material a determinada situação concreta da vida. E esta é precisamente a beleza do processo: ser instrumento do direito material, relevando a finalidade (resolução da controvérsia no campo do direito material, em regra). Esta é a ratio essendi do direito processual: instrumentalidade. Nenhum demérito decorre desta afirmação: o direito material ganha efetividade porque existe o processo! Não obstante, o princípio da instrumentalidade insculpido no art. 188 do NCPC não pode ser entendido como autorizador do desapego à forma. Não se trata, com efeito, de interpretar o art. 188 em análise como desprestigiador da forma processual: esta é relevante (relevantíssima, aliás), dado que sinônimo de o processo se desenvolverá de maneira segura. O que o art. 188 quer dizer é que sempre haverá se observar alguma forma na prática dos atos e termos processuais, preferencialmente a forma preconizada em lei, porém se darão por válidos e úteis os atos e termos processuais que, ainda que praticados de forma distinta daquela prevista, atinjam sua finalidade essencial. 36 A essência do princípio da instrumentalidade emanado do art. 188 do NCPC admite a seguinte síntese: em regra não é relevante, para fins de validade do ato processual, se foi estritamente observada a forma específica estabelecida em lei; ainda que seja levado a cabo de outra forma (portanto, de alguma forma), o ato e o termo processual serão considerados válidos desde que atingida sua finalidade. Os atos e termos processuais, portanto, independem de forma determinada, em regra, desde que se realizem de alguma forma e atinjam o fim que deles se espera. Em relação à prática eletrônica de atos processuais, o CPC traz uma regulamentação genérica nos artigos 193 a 199, cabendo a cada tribunal adotar as regras específicas, dentre elas o sistema a ser utilizado. Fonte: iStock, 2020 #PraCegoVer: juiz em imagem desfocada. Ele está sentado e segurando o martelo. Ao fundo, duas pessoas estão de pé. Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: 37 1.1 Do tempo e do lugar dos atos processuais O tempo e o lugar dos atos processuais estão regulamentos pelos artigos 212 a 217 do CPC. De acordo com tais regras, os atos processuais somente podem ser realizados em dias úteis, das 06h às 20h. Caso o ato processual tenha início antes das 20h, seu término pode ocorrer após tal horário. Durante as férias forenses e nos feriados, não serão praticados os atos processuais, a exceção das regras previstas nos artigos 212, § 2º, 214 e 215, CPC. Entende-se por feriado, além dos expressamente previstos em lei, os sábados, domingos e dias em que não houver expediente forense. Estabelecendo uma regra territorial, o artigo 217 determina que “os atos processuais realizar- se-ão ordinariamente na sede do juízo, ou, excepcionalmente, em outro lugar em razão de deferência, de interesse da justiça, da natureza do ato ou de obstáculo arguido pelo interessado e acolhido pelo juiz”. FIQUE DE OLHO Quando o ato processual tiver que ser praticado por meio de petição, se o processo for físico, o protocolo deverá ser feito de acordo com o expediente estabelecido por cada fórum ou tribunal. Caso o processo seja eletrônico, poderá ser feito em qualquer horário, até as 24h do último dia do prazo (art. 212, § 3º, e art. 213, CPC). FIQUE DE OLHO Cada Tribunal possui um regulamento próprio que autoriza o protocolo integrado. Em outras palavras, permitem que o protocolo de petições de primeiro grau seja feito em fórum ou comarca distinto da sede do juízo da demanda, desde que sob a mesma jurisdição do Tribunal. Ainda, alguns Tribunais possuem postos autorizados espalhados pelo Estado, permitindo que os protocolos direcionados à segunda instância sejam feitos fora do Tribunal em cidades do interior. 38 1.2 Comunicação dos atos processuais: citação, intimação e cartas A forma de comunicação dos atos processuais está prevista nos artigos 236 a 275, CPC, sendo possível a comunicação através de citação, intimação e carta. Nos termos do CPC, as comunicações serão feitas por: a) Citação: é exclusiva para a convocação do réu, do executado ou do interessado para integrar a relação processual. É com a citação que se forma a triangulação processual (autor, juízo, réu) b) Intimação: “é o ato pelo qual se dá ciência a alguém dos atos e dos termos do processo (art. 269, CPC) c) Carta: é a forma em que o ato será praticado fora dos limites territoriais do tribunal, da comarca, da seção ou subseção judiciárias. Pela sua complexidade e importância, a citação será abordada em tópico apartado. Merecem atenção especial as cartas que podem ser de ordem, rogatória ou precatória (arts. 260 a 268, CPC), sendo assim definidas por WAMBIER (2015, p 444). As cartas precatórias consistem na requisição da prática de determinado ato processual (atos instrutórios, decisões concessivas de tutelas de urgência etc.) de um juízo a outro, sendo ambos do mesmo grau de jurisdição, porém com distintas competências territoriais. As cartas de ordem consistem em requisição da prática de determinado ato processual remetida por um juízo de instância superior a um juízo de instância inferior. Em geral, as cartas de ordem são provenientes do tribunal, no qual tramita determinado recurso ou determinada ação de sua competência originária, e destinadas ao juízo de primeiro grau subordinado a este tribunal, para que se dê o cumprimento de determinado ato processual. As cartas rogatórias, por sua vez, destinam-se à requisição, pelo órgão jurisdicional brasileiro, da prática de atos processuais à Justiça de outro país. Ainda, há alguns requisitos a serem preenchidos para que as cartas possuam validade, conforme preceitua o artigo 260, CPC: “I - a indicação dos juízes de origem e de cumprimento do ato; II - o inteiro teor da petição, do despacho judicial e do instrumento do mandato conferido ao advogado; III - a menção do ato processual que lhe constitui o objeto; IV - o encerramento com a assinatura do juiz.” Em relação à intimação, a lei preceitua casos em que a intimação deve ser pessoal, sendo a regra geral a intimação eletrônica, ou seja, através do sistema eletrônico, utilizado pelo Tribunal. 39 Quando não for pessoal ou na forma eletrônica, a intimação se dará por meio de órgão oficial, por exemplo, publicação em diário oficial. A intimação é importante pois é a partir dela que as partes tomam ciência dos atos processuais praticados e a serem praticados, dando início aos prazos processuais. Citação Depois de tratar dos meios de comunicação dos atos processuais vamos estudar o mais importante deles: a citação. A citação é o ato que inaugura o contraditório, convidando o réu a integrar a lide e apresentar sua resposta à pretensão do autor, iniciando o diálogo processual manifesto pela garantia constitucional da ampla defesa. Conforme veremos a seguir a citação – tema tratado entre os artigos 238 e 259 do CPC – é requisito de validade processual, pode ocorrer por diferentes modalidades e produz diversos efeitos processuais. Noções Gerais e Pessoalidade da Citação A citação é, conforme o artigo 238 do CPC, “o ato pelo qual são convocados o réu, o executado ou o interessado para integrar a relação processual”, constituindo condição de validade do processo, ressalvadas as hipóteses em queo contraditório nem chega a ser instaurado, conforme já estudamos (indeferimento da petição inicial e improcedência liminar do pedido). O fato é que, por se tratar de um ato formal, este pode ser substituído por outro ato que tenha o mesmo efeito, como é o caso do comparecimento espontâneo do réu (§1º, artigo 239), sendo que em sua resposta o réu poderá alegar nulidade da citação. Caso a preliminar de nulidade não seja acolhida e o réu tenha perdido o prazo de resposta, ele será considerado revel no processo de conhecimento (§2º do artigo 239). Não obstante a citação inaugure o contraditório e possibilite ao réu participar do processo como parte, não é condição de existência do processo, pois o processo existe mesmo sem que o réu tenha conhecimento. Nos termos do art. 239 a citação é condição de validade do processo e de eficácia perante ao réu. Nos dizeres de DIDIER (2015, p. 608): Se há processo antes da citação – que, a propósito dá-se em seu bojo –, não se pode considerar como pressuposto de existência fato que está, na linha do tempo, em momento posterior à existência daquilo que se pretende condicionar.[...] Não é por acaso que o artigo 238 do CPC conceitua a citação como ato que convoca alguém para integrar a relação jurídica processual que, obviamente, preexiste à convocação. 40 Como condição de validade do processo, para que a citação seja considerada eficaz ela deverá ser pessoal, feita na pessoa do réu, executado, interessado, representante legal ou procurador que possua poderes para recebê-la (art. 242, CPC). Quanto à pessoalidade da citação, os parágrafos do artigo 242 apresentam exceções à regra, sendo as seguintes: (i) no caso de ausência do citando, quando possível, nos termos do §1º do artigo 242, a citação será feita na pessoa de seu mandatário, administrador, preposto ou gerente; (ii) no caso de locador que se ausentar do Brasil, a representação legal é presumida, caso em que o administrador do imóvel poderá ser citado no lugar do locador ausente (§2º); (iii) a citação dos entes federativos, suas autarquias e fundações de direito público serão citados perante o órgão de advocacia pública responsável pela representação judicial (§3º). Quando o citando estiver incapacitado de receber a citação, nos termos do artigo 245 e seus parágrafos, o juiz procederá aos procedimentos dos §§ 1º a 3º e nomeará em seguida um curador ao citando, observando a preferência estabelecida em lei, de modo que a citação será feita na pessoa do curador nomeado (§5º do atigo 245). Efeitos da Citação Nos termos já tratados, a citação inaugura o contraditório. Isso que quer dizer que o réu passa a integrar a causa em litígio, integrando a relação jurídico-processual. Neste caso, para o réu, consideram-se os termos do artigo 240: (i) os efeitos da litispendência passam a produzir efeitos para o réu, ainda que o juízo seja incompetente; (ii) o direito discutido passa a ser litigioso; (iii) o autor não pode mais alterar a demanda sem consentimento do réu; (iv) o devedor é constituído em mora. É importante destacar que, no caso da constituição do devedor em mora, trata-se de um efeito processual no âmbito do direito material. Conforme lição de DIDIER (2015, p. 613): A constituição em mora, pela citação, se dá no caso de cobrança de dívidas negociais sem termo certo para pagamento, em relação às quais o devedor não tenha sido constituído em mora pela prática de outro ato anterior. Mora é o retardamento ou imperfeito cumprimento da obrigação. Desse modo verifica-se que a citação não só constitui a relação jurídico-processual como apresenta diversos efeitos processuais e de direito material. A citação e a interrupção da prescrição pelo despacho citatório Além dos efeitos tratados, a citação também tem o condão de interromper a prescrição, a qual retroagirá à data de propositura da ação. A redação do § 1º do artigo 240 significa que o ato que determina a citação, ou seja, o despacho 41 citatório, caso ocorra após verificação dos pressupostos processuais e considere a causa válida, interrompe a prescrição, a decadência e os demais prazos extintivos (§4º), os quais retroagirão à data de propositura da demanda. Essa distinção é importante, pois outros despachos anteriores à admissibilidade da ação, como é o caso de determinação de emenda da inicial, não produzem o mesmo efeito. Conforme o §2º, para que a interrupção da prescrição retroaja, o réu deverá providenciar, no prazo de 10 (dez) dias, condições de viabilizar a citação, que são, conforme DIDIER (2015, p. 614), “juntar cópia da petição inicial para ser encaminhada ao réu, adiantar as despesas com citação e indicar o endereço do réu”. Entende-se que, cumpridas todas as determinações, a parte autora não poderá ser prejudicada pela demora do serviço judiciário (§3º). Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: 1.3 Modalidades O despacho que determina a citação induz à expedição de um mandado que poderá ser encaminhado ao citando por meio de correio, oficial de justiça ou meio eletrônico. Também pode ser certificada a citação por hora certa, pelo escrivão ou chefe de secretaria, ou por edital. Conforme o artigo 246 do CPC, a citação será efetivada: “I - pelo correio; II - pelo oficial de justiça; III - pelo escrivão ou chefe de secretaria, se o citando comparecer em cartório; IV - por edital e V - por meio eletrônico, conforme regulado em lei”. Correio A citação por meio de correio é a regra geral, nos termos do artigo 247 do CPC, sendo que sua 42 efetivação concreta depende da entrega da carta ao citando, com aposição de sua assinatura no Aviso de Recebimento, o qual será juntado aos autos para certificar a citação. Essa espécie de citação independe de emissão de carta precatória e poderá ser feita para qualquer comarca do país, exceto nas hipóteses elencadas nos incisos do artigo 247 do CPC, que são: (i) as ações de estado, exceto ações de família; (ii) ações cujo citando é manifestamente incapaz; (iii) quando o citando for pessoa de direito público; (iv) quando o local de domicílio do citando não for atendido pelo serviço postal; (v) quando o autor requerer que o réu seja citado por outro meio. Conforme já tratado, o autor deverá providenciar meios para que a citação se efetive. Por isso, o réu deverá receber, junto com a carta de citação, a qual deverá ser registrada, a cópia da petição inicial fornecida pelo autor, a cópia do despacho de citação ou de eventual decisão que tenha deferido a liminar, bem como as informações discriminadas no artigo 250 do CPC, além das já mencionadas. O artigo 250 do CPC trata dos requisitos formais de conteúdo da carta de citação, que deverá conter: (i) os nomes das partes envolvidas no litígio, com os respectivos endereços de domicílio; (ii) a finalidade da citação, conforme petição inicial, com menção do prazo para contestar ou embargar no caso de execução; (iii) a sanção cabível para o caso de descumprimento de ordem judicial quando, por exemplo, o juiz houver deferido pedido liminar que impute ao réu esta obrigação; (iv) intimação para que o réu compareça na audiência de conciliação nos casos em que houver designação; (v) assinatura do escrivão ou chefe de secretaria que declarará a ordem do juiz para o ato. Consoante já apontado, por se tratar de citação real, deverá ser feita na pessoa do citando, que deverá assinar o aviso de recebimento. No caso de recusa de recebimento ou de assinatura, a diligência será considerada não cumprida (§1º, art. 248, CPC). Caso o citando seja pessoa jurídica, conforme já tratado, a citação poderá ser recebida por pessoa com poderes de gerência ou administração geral, ou ainda outro funcionário responsável por receber correspondências (§2º, art. 248). Para que se considere efetivada a citação por carta e se inicie o prazo de resposta do réu, não basta que o réu receba a carta e assine o Aviso de Recebimento (AR): o ato só será considerado completo quando o AR for juntado aos autos (inciso