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CARCINOGÊNESE . A carcinogênese, também conhecida como oncogênese, é o processo de formação do câncer. Geralmente, é um processo lento, que pode levar muitos anos para que uma célula cancerosa prolifere e dê origem a um tumor visível. A carcinogênese não costuma ser o resultado de um único evento, mas sim de uma combinação de causas ambientais (evitáveis) e não ambientais. Células Normais As células normais de um organismo vivo coexistem em perfeita harmonia citológica, histológica e funcional, orientada para a manutenção da vida. Elas estão agrupadas em tecidos que formam órgãos, conforme suas características morfológicas e funcionais determinadas por seus códigos genéticos. As células parecem reconhecer-se por processos de superfície que ditam que células semelhantes permaneçam juntas e interajam para executar funções orgânicas específicas. O crescimento celular normal é um processo cuidadosamente regulado que responde às necessidades específicas do corpo. Este crescimento envolve o aumento da massa celular, a duplicação do ácido desoxirribonucleico (ADN) e a divisão física da célula em duas células filhas idênticas (mitose). Ciclo Celular O ciclo celular é a sequência ordenada de eventos que ocorrem à medida que uma célula duplica seu conteúdo e se divide. É o ciclo de vida de uma célula, composto pela interfase e mitose. O ciclo celular possui cinco fases principais: G1, S, G2, M e G0. A duração de cada fase pode variar, mas os processos internos são os mesmos para todas as células. Etapas do Ciclo Celular Fase G1 (Gap 1): É o período pós-mitótico. Nesta fase, há preparação para a síntese de ADN, mobilizando bases púricas e pirimídicas, fosfatos e riboses para a síntese de nucleotídeos, e aminoácidos para a síntese de proteínas (incluindo enzimas). A síntese de ARN e proteínas é indispensável para a célula passar de G1 para a fase S. Ocorre intensa atividade bioquímica; a célula dobra de tamanho, sintetiza enzimas, ribossomos, organelas, sistemas de membranas e outras estruturas citoplasmáticas. Esta fase depende de fatores extracelulares. As células tomam a decisão de continuar se dividindo ou se tornar quiescentes, influenciadas por fatores de crescimento. Fase S (Síntese): Nesta fase, ocorre a duplicação do DNA. Uma proteína desencadeante é produzida para a interação entre o ADN e a enzima duplicase de ADN, resultando na duplicação completa do ADN. ● Também ocorre a síntese de histonas. ● Esta fase depende de fatores intracelulares. ● A fase S dura cerca de 10 a 12 horas ou 6-8 horas. Fase G2 (Gap 2): É o período pré-mitótico. A síntese de ADN está completa, e os cromossomos, em número dobrado, rearranjam-se, preparando o núcleo para a divisão celular. A produção de DNA é interrompida, mas a produção de RNA e proteínas é mantida. ● A célula verifica erros e repara o DNA nesta fase. ● A fase G2 dura cerca de 2 a 6 horas ou 3 a 6 horas. Fase M (Mitose): A fase M é curta, durando em média 1 a 2 horas ou 1 hora, e corresponde à divisão celular. Ocorrem movimentações cromossômicas e clivagem da célula, resultando na distribuição de pares de cromossomos para as duas células-filhas. Pode ser ininterrupta, como no epitélio da pele. É dividida em duas etapas principais: cariocinese (divisão do núcleo) e citocinese (divisão do citoplasma). Prófase: Cromossomos se condensam e se tornam visíveis. O envelope nuclear começa a desintegrar-se. O fuso mitótico começa a se formar. Metáfase: Cromossomos se alinham no plano equatorial da célula (placa metafásica). Cada cromossomo se liga ao fuso mitótico pelos cinetócoros. Anáfase: Os centrômeros se dividem, e as cromátides irmãs (agora chamadas cromossomos filhos) são puxadas para polos opostos da célula pelo encurtamento dos microtúbulos e ação de proteínas motoras. Telófase: O envelope nuclear se reforma ao redor de cada conjunto de cromossomos. ● Cromossomos descondensam. ● Nucléolos se formam. Citocinese: Divisão física do citoplasma em duas células filhas. Em células animais, forma-se um sulco de clivagem por um anel de actina e miosina (divisão centrípeta). Fase G0 (Quiescência celular): É um estado de repouso prolongado, onde as células não estão ativamente se dividindo, mas permanecem metabolicamente ativas. Células em G0 são sempre derivadas de células em G1. Células diferenciadas, como neurônios, frequentemente entram nesta fase. As células podem deixar o ciclo celular devido à falta de nutrientes ou fatores de crescimento, mas podem reentrar se as condições forem favoráveis. Genes que Participam e Regulação do Ciclo Celular A progressão do ciclo celular é regulada por mecanismos intracelulares que envolvem a ativação sequencial de uma família de proteínas. CDKs (Cyclin-Dependent Kinases): São enzimas que funcionam como "chaves" que precisam ser ligadas para ativar processos do ciclo celular. Elas fosforilam (adicionam grupos fosfato) em aminoácidos chamados serina e treonina de outras proteínas, alterando suas funções. Ciclinas: São proteínas que se ligam às CDKs, ativando-as. Sem ciclinas, as CDKs ficam inativas. As ciclinas + CDKs formam um complexo chamado Ciclina-CDK. Esses complexos controlam o avanço das fases do ciclo celular. Sem esses complexos, a célula não se divide. Inibidores de CDKs (CKIs) As CKIs são proteínas que freiam o ciclo celular. Elas impedem que as CDKs funcionem, barrando a divisão quando algo está errado (como dano no DNA). Existem duas famílias principais de CKIs: ➔ Família INK4: Ex: p15 e p16. Elas impedem que a ciclina se ligue à CDK4/6, bloqueando a transição de G1 para S. O mais famoso é o p16INK4a, que inibe o complexo ciclina D–CDK4/6, essencial para o início da divisão. ➔ Família Cip/Kip: Ex: p21, p27 e p57. Elas bloqueiam várias CDKs (CDK1, CDK2, CDK4, CDK6), impedindo o ciclo em várias fases. A p21 é muito importante: ela é ativada pelo p53 quando há dano no DNA e é responsável por parar o ciclo celular para o reparo. Se não funcionar direito, pode levar à formação de tumores. Proteína Rb (Retinoblastoma) É um gene supressor de tumor. Sua função é impedir que a célula entre na fase S se não estiver pronta. ➔ Quando está ativa, a proteína pRb se liga aos fatores de transcrição E2F. ➔ E2F ativa genes que fazem a célula entrar na fase S (como o gene da DNA polimerase e c-myc). Quando chega a hora de a célula se dividir, complexos Ciclina D-CDK4/6 e Ciclina E-CDK2 fosforilam a Rb, desligando-a. A pRb então libera o E2F, e o ciclo pode seguir para a fase S. Proteína p53 Outro gene supressor de tumor extremamente importante. Atua como um "guardião do genoma". Ele monitora o DNA da célula. Se houver danos (como mutações ou quebras), a p53 interrompe o ciclo celular na fase G1, para que a célula tente reparar o dano. O que ela faz: ➔ Ativa a p21 (a CKI citada antes), que bloqueia CDKs. ➔ Se o DNA não puder ser reparado, a p53 ativa genes da apoptose (morte celular programada), evitando que uma célula com DNA defeituoso se divida. ➔ Mutação na p53 = célula perde esse controle, e o risco de câncer aumenta muito. Mais de 50% dos tumores humanos têm mutações no gene TP53. SCF e APC/C (Complexos de Ubiquitinação) Estes dois complexos enzimáticos regulam a destruição de proteínas que controlam o ciclo celular. Eles ligam uma molécula chamada ubiquitina às ciclinas, CDKs ou CKIs. Essa ubiquitina marca essas proteínas para serem destruídas pelo proteassoma (uma "máquina" celular de degradação de proteínas). Impedem que ciclinas ou CDKs fiquem ativas por mais tempo que o necessário. Permitem que a célula avance ou finalize corretamente o ciclo. Pontos de Controle(Checkpoints) Durante o ciclo celular, vários pontos de controle garantem a integridade e a correta duplicação do material genético. Esses checkpoints são controlados principalmente por CDKs, ciclinas, inibidores de CDK (CKIs) e por proteínas de vigilância do DNA como p53 e RB. Checkpoint G1/S (o mais importante e irreversível) ❖ Função: decidir se a célula vai entrar em fase S (duplicar DNA) ou não. ❖ Local: final da fase G1. Freios do checkpoint: ● p16INK4a → CKI que inibe CDK4/6 → impede fosforilação de RB. ● p53 → se detecta dano no DNA, ativa p21, que bloqueia CDK2 e CDK4/6. Sem CDKs → RB fica ativa, segurando E2F → célula não entra em S. No câncer: ➔ Perda de p16 ou p53 → CDKs ficam ativas o tempo todo. ➔ RB mutada → não segura E2F → célula avança mesmo sem sinal. Checkpoint G2/M ❖ Função: verificar se o DNA duplicou corretamente antes da mitose. ❖ Local: final da fase G2. Freios do checkpoint: ● Se houver dano no DNA, proteínas ATM e ATR ativam Chk1/Chk2. ● Chk1/Chk2 inativam Cdc25 → CDK1 permanece inativa → mitose bloqueada. No câncer: ● Mutação em ATM/ATR/Chk1/Chk2 → célula entra em mitose mesmo com DNA danificado. Checkpoint M (metáfase-anáfase) ❖ Função: garantir que todos os cromossomos estão ligados corretamente ao fuso mitótico antes da separação. No câncer: ● Perda de Mad/Bub → segregação desigual de cromossomos → aneuploidia. Células Cancerosas Nas células cancerosas, ocorre uma ruptura dos mecanismos reguladores da multiplicação celular. A divisão celular descontrolada é uma característica comum a todos os tipos de tumores humanos. ● Insensibilidade aos Mecanismos Reguladores Normais ● Ignoram Sinais de Interrupção ● Ausência de Apoptose (Imortalidade Replicativa) ● Perda da Inibição por Contato ● Acúmulo de Alterações Carcinogênese A carcinogênese é um processo complexo que envolve múltiplas etapas fenotípicas e genéticas. Fisiopatologia da Carcinogênese Uma célula normal pode sofrer uma mutação genética ou alterações no DNA dos genes. As células com DNA alterado passam a receber instruções erradas para suas atividades. Elas conseguem escapar dos controles do ciclo celular e evitar a apoptose. Essas mutações podem ser adquiridas por agentes ambientais (substâncias químicas, radiação), de origem espontânea ou por herança germinativa. As alterações na via da p53 ocorrem em mais de 50% dos tumores humanos, e a via pRb está alterada em 90% dos tumores, sendo o p16INK4a o principal alvo de mutações. Etapas da Carcinogênese De acordo com o Ministério da Saúde, a carcinogênese é dividida em três etapas: Iniciação, Promoção e Progressão. Outros materiais podem mencionar quatro etapas (Iniciação, Promoção, Conversão e Progressão). Iniciação: É o processo que envolve a exposição das células a agentes carcinogênicos (iniciadores) que causam danos irreversíveis nos genes, levando à ativação de oncogenes e/ou inativação de genes supressores de tumor. ➔ A mutação dos ácidos nucleicos é o fenômeno central desta etapa. ➔ As células mais sensíveis são as que estão em síntese ativa de DNA. ➔ Esta etapa tem baixa frequência e depende diretamente da dose de carcinógeno. ➔ As células "iniciadas" podem permanecer latentes se não forem estimuladas a se dividir. ➔ Agentes iniciadores têm ação irreversível e efeitos cumulativos. O iniciador é sempre uma substância mutagênica. Promoção: Estimula o crescimento da célula que sofreu mutação. Compreende a expansão clonal das células iniciadas até formar tumores visíveis, geralmente lesões benignas ou focos de células pré-neoplásicas. ➔ É um processo de crescimento exponencial devido a fatores de crescimento e agentes químicos (promotores). ➔ Os agentes promotores não têm ação mutagênica nem carcinogênica por si mesmos, mas induzem a formação tumoral quando combinados com um iniciador. ➔ É a grande diferença em relação ao agente carcinogênico: a promoção é reversível se a exposição ao agente promotor for suspensa. ➔ A multiplicação das células iniciadas é indispensável para a "fixação" da alteração genômica e aumenta a probabilidade de novas mutações. Progressão: Caracteriza-se pela multiplicação descontrolada e irreversível das células alteradas. Nesta fase, as células neoplásicas adquirem alterações fenotípicas malignas que promovem invasão, competência metastática e tendência de crescimento autônomo, além de maior instabilidade do cariótipo. O câncer já está instalado e evoluindo até o surgimento das primeiras manifestações clínicas da doença. A progressão tumoral depende de fatores do hospedeiro, como a resposta imunitária e o estado hormonal. O fumo é um agente carcinógeno completo, atuando em todos os três estágios. Tipos de Neoplasias As neoplasias são classificadas principalmente pelo seu comportamento biológico (benigno ou maligno) e pela histogênese (tecido de origem). Tumores Benignos: Geralmente não são letais nem causam sérios transtornos ao hospedeiro, podendo evoluir por muito tempo sem risco de vida. Permanecem localizados e geralmente podem ser removi A nomenclatura geralmente envolve o nome do tecido de origem acrescido do sufixo "-oma" (ex: condroma, lipoma, adenoma). Tumores Malignos (Cânceres): Crescimento rápido, desordenado e infiltrativo. Podem invadir e destruir estruturas adjacentes e se disseminar (metastatizar) para sítios distantes, podendo causar a morte. As células apresentam menores graus de diferenciação e não reproduzem as características dos tecidos de origem. Mostram caracteres morfológicos que se afastam da célula de origem, com alterações anaplásicas mais evidenciadas nos núcleos (pleomorfismo nuclear, variação de forma, tamanho, cromatismo, proeminência de nucléolos, espessamento da membrana nuclear). A metástase é a principal característica do câncer. Disseminação Tumoral (Metástase) A metástase é o comprometimento à distância de uma parte do tumor que não guarda relação direta com o foco primário. As vias de disseminação são: ➔ Transcavitária (ou Transcelômica): Células de um tumor maligno penetram e crescem em cavidades corporais, como a peritoneal, pleural, pericárdica, subaracnóidea e articular. ➔ Linfática: Padrão inicial de disseminação de neoplasias epiteliais. Seguem a drenagem linfática normal, ocupando os linfonodos mais próximos. Os linfonodos podem, por um tempo, impedir a disseminação, pois as células tumorais entram em contato com células do sistema imunológico e podem ser destruídas. ➔ Sanguínea (Hematogênica): Inicia-se quando células tumorais invadem vasos sanguíneos, sendo veias e vênulas mais facilmente penetradas. Órgãos mais vascularizados como pulmão, fígado, ossos e cérebro são os mais comprometidos. Há um tropismo seletivo, onde locais específicos são preferidos pelas células tumorais circulantes, como o câncer de próstata para ossos ou câncer de cólon para o fígado. Proto-oncogenes: São promotores do crescimento celular. ➔ São as formas normais, ainda não mutadas, de genes que regulam a divisão celular. ➔ Quando ativados por mutação, transformam-se em oncogenes, responsáveis pela cancerização. ➔ Muitas proteínas que transmitem sinais de fatores de crescimento são codificadas por proto-oncogenes. Se uma delas ficar hiperativa por mutação, ela transmite sinais mesmo sem o fator de crescimento. São genes dominantes, o que significa que a mutação em apenas um alelo já pode manifestar a carcinogênese. RAS: É um proto-oncogene e transdutor de sinais. O gene RAS mutado (ex: por uma mutação em ponto, uma alteração genética precoce em tumores foliculares da tireoide) fica sempre na forma ativa, transmitindo um sinal de proliferação mesmo sem fator de crescimento, ativando a via da MAP-quinase e estimulando o núcleo à transcrição. Mutações em KRAS são presentes em35% a 45% dos tumores de câncer colorretal metastático. BRAF: Mutações em BRAF são encontradas em 8% das neoplasias e estão associadas a diversos cânceres como melanoma maligno, carcinoma papilar da tireoide, linfoma não-Hodgkin, e adenocarcinoma pulmonar. A mutação V600E do BRAF está associada à leucemia de células pilosas. c-myc, fos e jun: Família de fatores de transcrição que regulam o crescimento, proliferação, diferenciação celular e angiogênese. ERG (ETS-related gene): Proto-oncogene da família ETS, superexpresso em 50% dos cânceres de próstata e acelera a carcinogênese, especialmente após perda de PTEN. Genes Supressores de Tumor (Anti-oncogenes): São reguladores negativos que bloqueiam a progressão do ciclo celular e regulam a apoptose. Previnem a formação de tumores quando funcionam corretamente. São genes recessivos, ou seja, mutações precisam ocorrer em ambos os alelos para que a carcinogênese se desenvolva. Exemplos: Rb, TP53, P73, BRCA-1 e BRCA-2, NF-1, APC, PTEN, CHD1, SPOP. BRCA-1 e BRCA-2: Genes supressores de tumor fundamentais na reparação do DNA e manutenção da integridade do genoma. Homens com mutação nesses genes têm maior risco de câncer de próstata mais agressivo. Mutações em BRCA-1 aumentam em 3x o risco, e em BRCA-2 em 8x. PTEN: Gene supressor de tumor que regula negativamente a via PI3K/AKT, estimulando a apoptose e bloqueando a proliferação celular. Sua ausência leva à ativação descontrolada da via e à tumorigênese. SPOP: Gene que codifica uma proteína importante na regulação da degradação de proteínas e supressão tumoral. P15 e P16: Inibidores que bloqueiam componentes essenciais para a progressão do ciclo celular da fase G1 para S. O p16INK4a é o principal alvo de mutações em 90% dos tumores. P21: Inibidor de quinases dependentes de ciclinas (WAF1 ou CIP1), codifica uma proteína que provoca a parada do ciclo celular na fase G1. Alterações nos níveis de P21 são comuns em diversos tipos de tumores. Genes Reguladores da Apoptose: Alguns inibem a apoptose (ex: bcl-2, bcl-xl), enquanto outros a favorecem (ex: bax, bad, bcl-xS). ➔ Bcl-2: Gene antiapoptótico que ajuda as células a sobreviverem. Quando modificado, causa resistência à apoptose e estimula a angiogênese tumoral. Fluxograma de como tudo ocorre normalmente no ciclo celular 1. Fator de crescimento (ex.: EGF, PDGF, FGF, VEGF) → se liga ao receptor tirosina-quinase de membrana (ex.: HER2/ERBB2, EGFR/ERBB1, PDGFR). 2. Ativação do receptor → autofosforilação → recrutamento de proteínas adaptadoras (ex.: GRB2, SOS). 3. Ativação de vias de sinalização intracelular: ➔ Via MAPK/ERK: RAS → RAF (ex.: ARAF, BRAF, CRAF) → MEK1/2 → ERK1/2 → vai para o núcleo. ➔ Via PI3K/AKT/mTOR: PI3K → conversão de PIP2 em PIP3 → AKT → mTOR → síntese de proteínas e sobrevivência celular. 4. No núcleo, ERK e AKT ativam fatores de transcrição: ➔ MYC → liga genes de proliferação. ➔ FOS e JUN (AP-1) → expressão de ciclinas e enzimas de replicação. ➔ 5. Expressão de proto-oncogenes: ➔ Ciclina D1 (CCND1) → ativa CDK4/6. ➔ Ciclina E (CCNE1) → ativa CDK2. ➔ Genes de síntese de DNA (ex.: DHFR, TK). 6. Ativação de CDKs → fosforilam RB → RB libera E2F → E2F ativa genes para entrar em fase S. 7. Checkpoints conferem se tudo está ok: ➔ G1/S: p53 → p21 → bloqueia CDK se houver dano no DNA. ➔ G2/M: ATM/ATR → Chk1/Chk2 → bloqueia Cdc25 se DNA não estiver pronto. ➔ M (metáfase-anafase): APC/C só ativa separação cromossômica quando tudo estiver alinhado. Fluxograma de alterações no ciclo celular 1. HER2 reconhece fator de crescimento → ativa cascata RAS/RAF/MEK/ERK. ➔ Alteração: amplificação do gene HER2 → receptor fica hiperativo mesmo sem fator de crescimento. 2. Mutação em BRAF → ex.: V600E → mantém RAF ativo mesmo sem RAS ativo → sinal MAPK sempre ligado. 3. MAPK ativa MYC de forma constante → expressão contínua de genes de proliferação. 4. MYC ativa ciclinas: ➔ Ciclina D1 → CDK4/6 sempre ativas → RB constantemente fosforilada → E2F liberado o tempo todo. 5. E2F ativa genes para fase S → duplicação de DNA sem parar. 6. Checkpoints burlados: ● p53 mutado (não ativa p21) → CDKs não são inibidas mesmo com DNA danificado. ● RB mutada (não segura E2F). ● p16INK4a deletada → CDK4/6 livres. 7. Outras mutações que intensificam o processo: ➢ EGFR mutado → envia sinal de proliferação sozinho ➢ PI3K mutada ou PTEN deletado → via AKT/mTOR ativa sempre → aumenta sobrevivência celular. ➢ BCR-ABL (LMC) → sinal de proliferação constante via tirosina-quinase. ➢ BCL-2 superexpresso → bloqueia apoptose → células defeituosas sobrevivem. Resultado final: crescimento celular contínuo, instabilidade genética, capacidade de invasão e, eventualmente, transformação neoplásica maligna. Fatores de Risco para a Carcinogênese A incidência e comportamento de cânceres estão relacionados a múltiplos fatores. A predisposição individual tem um papel decisivo. Radiação Ionizante: É o carcinógeno físico mais importante. Muito energética, excita elétrons do DNA e promove sua oxidação, causando mutações. Exemplos: raios X (alto poder de penetração, causam qualquer tipo de câncer), partículas alfa e nêutrons (mais carcinogênicas que raios X/gama), isótopos radioativos (Iodo-131 para câncer de tireoide, Estrôncio-90 para câncer de osso/leucemia, Césio-137). A dose de radiação está diretamente ligada à incidência de mutações. Radiação Ultravioleta (RUV): Proveniente do sol, causa câncer de pele. ➔ RUV-B (280-320 nm): Carcinogênicos, responsáveis por queimaduras solares e danos diretos ao DNA (formação de dímeros de pirimidina), podendo resultar em melanoma e carcinoma espinocelular. ➔ RUV-A (320-400 nm): Causam câncer de pele em altas doses e exposição prolongada, e podem causar danos ao DNA, envelhecimento precoce, carcinoma basocelular e carcinoma espinocelular. Tabaco: O calor da fumaça do cigarro aumenta o risco de câncer. Contém nicotina (problemas cardiovasculares, estimula adrenalina) e alcatrão (mistura de arsênio, níquel, substâncias radioativas, fósforo, hidrocarbonetos aromáticos como benzopireno que gera radicais livres). O monóxido de carbono causa carboxi-hemoglobina. É um carcinógeno completo. Outros Agentes: ● Azocorantes ● Aflatoxinas ● Benzeno ● Asbesto (amianto) ● Cloreto de vinil ● Carcinógenos Inorgânicos ● Hidrocarbonetos Policíclicos Aromáticos ● Álcool ● Pesticidas não arsenicais. ● Bifenilas policloradas. Hiper ou hipometilação: ➔ O que é metilação? O DNA é como um texto. A metilação é como colar post-its de “NÃO LER” em cima de certas palavras. ➔ Tecnicamente: adição de um grupo metil (-CH₃) à citosina no contexto CpG (dinucleotídeos citosina-fosfato-guanina). Hipermetilação ● excesso de metilação em regiões promotoras de genes. ● Efeito: o gene “desliga” → não é transcrito. ● No câncer: frequentemente silencia genes supressores tumorais (ex.: p16, MLH1, BRCA1). Exemplo: se o gene p16 for hipermetilado, CDK4/6 fica livre → RB é fosforilada → E2F liberado → célula entra em S sem controle. Hipometilação ● O que é: perda de metilação em regiões do DNA que normalmente são metiladas. ● Efeito: DNA fica mais ativo. ● No câncer: ativa proto-oncogenes (ex.: RAS, MYC) ou sequências repetitivas → aumenta instabilidade genética ● Também pode levar à expressão de genes embrionários que não deveriam estar ativos no adulto → facilita comportamento invasivo. Importante: Metilação não muda a sequência do DNA, muda apenas quais genes são lidos. Isso é reversível (por isso terapias epigenéticas existem, como inibidores de DNMT). Vírus Oncogênicos: 20% dos tumores humanos têm relação com vírus. Agem pela incorporação de seu DNA (ou DNA transcrito de RNA viral via transcriptase reversa) ao da célula hospedeira, inativando anti-oncogenes(inibindo apoptose) ou ativando proto-oncogenes (estimulando replicação celular). Necessitam de mutações adicionais, facilitadas pelas mitoses frequentes em células infectadas. Vírus de DNA: HPV (câncer de colo de útero, de glande peniana) EBV, HBV (câncer de fígado). Muitos forçam a célula a se multiplicar ativando a fase S do ciclo celular. As proteínas virais E6 e E7 do HPV são chave: E6 interage com p53 (promovendo degradação e perda de reparo/apoptose), e E7 interage com pRb e inibidores de Cdk (p21, p27), modulando o ciclo celular. Vírus de RNA (Retrovírus): Mais raramente associados ao câncer humano. HTLV-1 (leucemia/linfoma de célula T do adulto), HIV (sarcoma de Kaposi e linfoma não-Hodgkin). Fatores Psiconeuroimunológicos, Hormonais, Imunodepressão e Estresse Existe uma complexa comunicação entre os sistemas nervoso, endócrino e imunológico. Estresse (Psicológico e Físico): Psicológico: Ativa o SNC por mecanismos mentais (ex: brigas conjugais, luto). Associado a supressão generalizada da imunidade celular, crescimento tumoral e metástase. Físico: O organismo está diretamente envolvido (ex: correr uma maratona). A principal via de regulação neuroimunoendócrina durante o estresse é a ativação do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HPA), aumentando os níveis periféricos de cortisol, o principal glicocorticoide. O cortisol se liga a receptores nos leucócitos, ocasionando imunossupressão. Fatores Hormonais: Hormônios podem estimular as células a se dividir. A secreção anormal de fatores de crescimento resulta em doenças caracterizadas por resposta celular proliferativa ou fibrose, e a expressão aumentada de fatores de crescimento pode estar envolvida em neoplasias. Exemplo de hiperplasia endometrial estimulada por excesso de estrogênios. O desenvolvimento do câncer de próstata é dependente de androgênios e do receptor de androgênios (AR). Hormônios podem ser promotores na carcinogênese. Células Normais Ciclo Celular O ciclo celular é a sequência ordenada de eventos que ocorrem à medida que uma célula duplica seu conteúdo e se divide. Etapas do Ciclo Celular Genes que Participam e Regulação do Ciclo Celular Pontos de Controle (Checkpoints) Células Cancerosas Carcinogênese Fisiopatologia da Carcinogênese Etapas da Carcinogênese Tipos de Neoplasias Disseminação Tumoral (Metástase) Fluxograma de como tudo ocorre normalmente no ciclo celular Fluxograma de alterações no ciclo celular Fatores de Risco para a Carcinogênese Fatores Psiconeuroimunológicos, Hormonais, Imunodepressão e Estresse