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Conceitualizando a Psicologia Hospitalar Profa. Adrielly Martins Porto Netto Psicóloga CRP 23/1776 Despersonalização Psicoterapia Clínica x Psicologia Hospitalar O Setting terapêutico Realidade Institucional A conversa nada comum Escuta analítica e Manejo situacional Despersonalização do paciente O paciente passa por um processo total de “despersonalização", tende a perder sua identidade individual e se tornar um número de leito ou uma patologia específica. Despersonalização e fragmentação. Exemplo: José vira "leito 21A" ou "fratura de bacia do 6º andar". Ele não é mais visto como uma pessoa completa, mas como a representação de sua doença. (Angerami-Camon, 2002) Psicoterapia Clínica x Psicologia Hospitalar Psicoterapia: Processo terapêutico que busca autoconhecimento, crescimento emocional e alívio dos sintomas. Envolve uma decisão ativa do paciente em buscar ajuda e participar do tratamento. Psicologia Hospitalar: Atua dentro da realidade hospitalar, muitas vezes sem o paciente buscar ativamente ajuda. Foca na humanização do cuidado e no alívio do sofrimento relacionado à hospitalização. Exemplo: Enquanto a psicoterapia clássica envolve sessões programadas em consultório, a psicologia hospitalar pode ocorrer à beira do leito, com pacientes que não necessariamente buscaram esse apoio. (Angerami-Camon, 2002) Setting Terapêutico Conceito: O setting é o "espaço físico e simbólico" onde ocorrem as sessões terapêuticas. Ele envolve regras claras, como horário, frequência e privacidade. A sessão não deve ser interrompida, mantendo a proteção do vínculo e do conteúdo emocional trabalhado . Exemplo: Em consultório, o terapeuta não atende telefone nem interrompe a sessão. No hospital, o setting é adaptado — pode ser ao lado da cama, mas ainda assim preserva a privacidade e o vínculo. (Angerami-Camon, 2002) Realidade Institucional O hospital é uma "realidade institucional com características bastante peculiares", marcada por contradições sociais e estruturais. A formação do psicólogo muitas vezes não o prepara para essa prática, criando um "hiato entre a teoria e a prática". Exemplo: Enquanto alguns hospitais oferecem tecnologias avançadas, muitos pacientes enfrentam filas, precariedade e desumanização. O psicólogo, inserido nesse contexto, precisa atuar com "eficácia e respeito às condições institucionais" para minimizar o sofrimento. (Angerami-Camon, 2002) Realidade Institucional “E o psicólogo percebe no contexto hospitalar que os ensinamentos e leituras teóricas de sua prática acadêmica não serão, por maiores que sejam as horas de estudo e reflexão teórica sobre a temática, suficientes para embasar sua atuação. E aprende que terá de aprender apreendendo, como os pacientes, sua dor, angústia e realidade. E o paciente, de modo peculiar, ensina ao psicólogo sobre a doença e sobre como lidar como a própria dor diante do sofrimento”. (Angerami-Camon, p. 23, 2002) A conversa nada comum Conversa assimétrica, conteúdos pesados e carregados de sofrimento e dor. Ao escutar o psicólogo sustenta a angústia para que o paciente possa submetê-la ao trabalho de elaboração simbólica. (Simonetti, pág. 24, 2018) Escuta Analítica e Manejo Situacional Escuta Analítica: reúne as intervenções básicas da psicologia clínica, tais como escuta, associação livre, interpretação, análise da transferência, etc. Essas intervenções são familiares para o psicólogo, a novidade é o setting inusitado em que elas se dão — o hospital; (Simonetti, 2018) Escuta Analítica e Manejo Situacional Manejo Situacional: engloba intervenções direcionadas à situação concreta que se forma em torno do adoecimento. Eis alguns exemplos dessas intervenções: controle situacional, gerenciamento de mudanças, análise institucional, mediação de conflitos, etc. Todas essas ações são específicas à psicologia hospitalar, ou seja, geralmente o psicólogo não faz nada disso em seu consultório, mas no hospital é preciso sair um pouco da posição de neutralidade e passividade características da psicologia clínica. (Simonetti, 2018) A postura do profissional da saúde diante da doença e do doente Profa. Adrielly Martins Porto Netto Psicóloga CRP 23/1776 “Humanizar é eu me conhecer como humano e reconheço o outro como meu semelhante” Ex. de humanização Imprevisibilidade diante da morte. “o profissional da saúde com uma preparação adequada terá condições inclusive, para as possíveis imprevisibilidades surgidas ao longo do caminho” Postura do Profissional CALOSIDADE PROFISSIONAL DISTANCIAMENTO CRÍTICO EMPATIA GENUÍNA PROFISSIONALISMO AFETIVO (Angerami-Camon, 2013) É a "couraça emocional" que surge após anos de contato com a dor e o sofrimento dos pacientes. Assim como calos nos dedos endurecem a pele para proteger contra o atrito, o profissional desenvolve uma espécie de insensibilidade emocional para se proteger psicologicamente. Com o tempo, essa defesa pode se transformar em indiferença, prejudicando o vínculo com o paciente e a qualidade do cuidado. CALOSIDADE PROFISSIONAL "... evitando entrar em contato com o possível sofrimento emocional do paciente" Um enfermeiro que, após anos vendo pacientes terminais, começa a evitar interações emocionais, limitando-se a procedimentos técnicos. Um médico que já não olha mais nos olhos dos pacientes e trata os diagnósticos de forma fria, sem considerar o impacto emocional da notícia. CALOSIDADE PROFISSIONAL DISTANCIAMENTO CRÍTICO É a capacidade do profissional de saúde de manter uma certa distância emocional diante da dor e do desespero do paciente, permitindo que ele compreenda e acolha o sofrimento sem se deixar desestabilizar. Diferente da calosidade profissional, onde há indiferença, o distanciamento crítico preserva a empatia, mas garante lucidez para que o profissional possa ajudar de forma efetiva, sem ser engolido pelo sofrimento do outro. Como desenvolver o distanciamento crítico: Autoconhecimento: Entender os próprios limites emocionais e reconhecer quando a dor do paciente começa a afetar o equilíbrio pessoal. Treinamento em empatia funcional: Praticar a escuta ativa e acolhedora sem se fundir emocionalmente com o sofrimento do outro. Reflexão contínua: Após atendimentos difíceis, tirar um momento para refletir sobre a situação e diferenciar o que é do paciente e o que é uma projeção emocional própria. Separação simbólica: Criar pequenos rituais ao fim do expediente (como trocar de roupa ou ouvir uma música específica) para marcar mentalmente o fim do contato com a dor dos pacientes e a retomada da vida pessoal. Rede de apoio profissional: Ter colegas e supervisores com quem possa conversar sobre casos difíceis, sem carregar o peso sozinho. Com distanciamento crítico: Um psicólogo que escuta o desabafo de um paciente terminal, sente empatia por sua dor, mas mantém a calma para conduzir a conversa de forma acolhedora e funcional, ajudando-o a encontrar alívio emocional. Com calosidade profissional: Um médico que comunica um diagnóstico grave de forma fria e automática, sem demonstrar sensibilidade para o impacto emocional da notícia. EMPATIA GENUÍNA É a capacidade do profissional de saúde de se conectar de forma autêntica e humana com o paciente, sem barreiras emocionais ou profissionais rígidas. Esse tipo de empatia vai além da compreensão intelectual da dor do outro — envolve sentir, compartilhar e reconhecer o sofrimento do paciente como uma experiência humana comum. Não compromete a eficiência profissional; pelo contrário, torna o cuidado mais profundo e significativo, pois envolve a totalidade da condição humana do profissional e do paciente. Empatia genuína: Uma enfermeira que, ao perceber a angústia de uma mãe após receber um diagnóstico grave do filho, segura sua mão, olha nos olhos e valida sua dor com presença e acolhimento verdadeiro — não como "profissional", mas como outro ser humano que compreende a profundidade daquela dor. Empatia superficial:Um profissional que diz "eu entendo o que você está passando" de forma automática, sem demonstrar envolvimento emocional real. Não se aprende academicamente. EMPATIA GENUÍNA É uma postura equilibrada em que o profissional de saúde, mesmo sem estabelecer uma empatia genuína, trata o paciente com respeito profundo pela sua dor e sofrimento. Essa abordagem envolve certo distanciamento emocional, mas sem cair na frieza ou indiferença. É uma atitude construída de forma reflexiva e sistematizada, com foco em garantir um cuidado humanizado e preservando a dignidade do paciente, mesmo quando o profissional não sente uma conexão emocional intensa. PROFISSIONALISMO AFETIVO Profissionalismo afetivo: Um médico que comunica um diagnóstico difícil de forma clara, cuidadosa e respeitosa, mesmo sem demonstrar envolvimento emocional visível, garantindo que o paciente se sinta acolhido e valorizado. Profissional distante: Um profissional que transmite informações de maneira técnica e fria, sem se preocupar em adaptar a comunicação para minimizar o impacto emocional no paciente. PROFISSIONALISMO AFETIVO 1.Respeito inegociável: Mesmo sem empatia profunda, garantir que cada paciente seja tratado com dignidade e consideração. 2.Comunicação humanizada: Escolher palavras e tom de voz que transmitam cuidado e evitem aumentar o sofrimento. 3.Olhar além da doença: Reconhecer o paciente como pessoa, não apenas como portador de uma patologia. 4.Postura ética e acolhedora: Demonstrar disponibilidade e atenção, mesmo sem se envolver emocionalmente de forma intensa. 5.Reflexão contínua: Revisar e ajustar a própria conduta para garantir que o respeito e a humanidade estejam sempre presentes no atendimento. Como desenvolver o profissionalismo afetivo: