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Doenças arteriais das extremidades Mark A. Creager, Joseph Loscalzo DOENÇA ARTERIAL PERIFÉRICA A doença arterial periférica (DAP) é definida como um distúrbio clínico no qual há uma estenose ou oclusão na aorta ou nas artérias dos membros. A aterosclerose é a principal causa da DAP em pacientes com > 40 anos. Outras causas são trombose, embolismo, vasculite, displasia fibromuscular, compressão, doença cística da adventícia e traumatismo. A maior prevalência da DAP aterosclerótica ocorre entre a 6ª e a 7ª décadas de vida. Assim como em pacientes com aterosclerose da vasculatura coronária e cerebral, há um aumento no risco de desenvolver DAP em fumantes e em indivíduos com diabetes melito, hipercolesterolemia, hipertensão ou insuficiência renal. Patologia (Ver também Cap. 291e da 19ª edição do Medicina interna de Harrison) As lesões segmentares que causam estenose ou oclusão em geral estão localizadas em vasos de tamanho médio a grande. A patologia das lesões inclui placas ateroscleróticas com depósito de cálcio, adelgaçamento da média, destruição macular dos músculos e das fibras elásticas, fragmentação da lâmina elástica interna e trombos compostos por plaquetas e fibrina. Os principais locais de envolvimento são a aorta abdominal, as artérias ilíacas (30% dos pacientes sintomáticos), as artérias femorais e poplíteas (80 a 90% dos pacientes), bem como os vasos mais distais, como as artérias tibiais e fibulares (40 a 50% dos pacientes). As lesões ateroscleróticas ocorrem preferencialmente nos pontos de ramificação arterial, que são locais de grande turbulência, alteração do estresse de cisalhamento e lesão da íntima. O envolvimento da vasculatura distal é mais comum em indivíduos idosos e em pacientes com diabetes melito. Avaliação clínica Menos de 50% dos pacientes com DAP são sintomáticos, porém muitos exibem marcha lenta ou deficiente. O sintoma mais comum é a claudicação intermitente, definida como dor, incômodo, cãibra, dormência ou sensação de fadiga muscular, e ocorre durante o exercício, sendo aliviada com o repouso. O local da claudicação é distal à localização da lesão oclusiva. Por exemplo, o desconforto nas nádegas, nos quadris, nas coxas e nas panturrilhas ocorre em pacientes com doença aortoilíaca, enquanto a claudicação na panturrilha acomete pacientes com doença femoropoplítea. Os sintomas são muito mais comuns nos membros inferiores do que nos superiores devido à maior incidência de lesões obstrutivas na região inferior. Nos pacientes com doença oclusiva arterial grave, nos quais o fluxo sanguíneo em repouso não consegue atender as necessidades nutricionais basais dos tecidos, pode ocorrer isquemia crítica dos membros. Os pacientes se queixam de dor em repouso, sensação de frio ou dormência nos pés e nos dedos dos pés. Frequentemente, esses sintomas ocorrem à noite, quando as pernas estão na horizontal, e melhoram quando as pernas estão na posição pendente. Com a isquemia grave, a dor pode ser persistente. Os achados físicos importantes da DAP consistem em diminuição ou ausência de pulsos distais à obstrução, presença de sopros sobre a artéria estenosada e atrofia muscular. Na doença mais grave, são sinais comuns queda de cabelos, unhas espessadas, pele lisa e brilhante, diminuição da temperatura cutânea e palidez ou cianose. Nos pacientes com isquemia crítica de membro, podem ocorrer úlceras ou gangrena. A elevação das pernas e a flexão repetida dos músculos da panturrilha produzem palidez das plantas dos pés, enquanto um rubor, secundário à hiperemia reativa, pode ocorrer quando as pernas estão pendentes. O tempo necessário para o surgimento do rubor ou para o enchimento das veias dos pés quando as pernas do paciente são transferidas de uma posição elevada para outra inferior está relacionado com a gravidade da isquemia e a presença de vasos colaterais. Os pacientes com isquemia grave podem ter edema periférico devido à permanência das pernas na posição pendente na maior parte do tempo. Neuropatia isquêmica pode resultar em dormência e hiporreflexia. Exames não invasivos A anamnese e o exame clínico costumam ser suficientes para estabelecer o diagnóstico de DAP. Uma avaliação objetiva da presença e da gravidade da doença é obtida por meio de técnicas não invasivas. A pressão arterial pode ser avaliada de maneira não invasiva nas pernas por meio da colocação de manguitos de esfigmomanômetros nos tornozelos e do uso de um instrumento de Doppler para auscultar ou registrar o fluxo sanguíneo a partir das artérias dorsal do pé e tibial posterior. Em geral, a pressão sistólica é similar nas pernas e nos braços. Na verdade, a pressão no tornozelo pode ser ligeiramente mais alta do que a pressão no braço devido a uma amplificação da onda de pulso. Na presença de estenoses hemodinamicamente significativas, a pressão sistólica na perna fica diminuída. Por isso o coeficiente entre as pressões arteriais do tornozelo e do braço (chamada de índice tornozelo-braquial [ITB]) é de 1 a 1,40 em indivíduos normais. Os valores do ITB de 0,91 a 0,99 são considerados “limítrofes” e aqueles 1,40 indicam artérias não compressíveis secundárias à calcificação vascular. Outros exames não invasivos incluem mensurações da pressão segmentar, registros do volume do pulso segmentar, ultrassonografia com Doppler (que combina imagens no modo B e exame da análise de forma de onda com Doppler e velocidade de fluxo), oximetria transcutânea e teste de esforço (em geral usando uma esteira). A colocação de manguitos pneumáticos possibilita a avaliação da pressão sistólica ao longo das pernas. A presença de gradientes de pressão entre os manguitos sequenciais fornece evidências da presença e da localização de estenoses hemodinamicamente significativas. Além disso, a amplitude do contorno do volume de pulso torna-se atenuada na presença de DAP significativa. A ultrassonografia com Doppler é usada para fazer imagens, bem como detectar lesões estenóticas nas artérias nativas e nos enxertos de revascularização. O exame com esteira possibilita ao médico avaliar as limitações funcionais de maneira objetiva. O declínio do ITB imediatamente após o esforço fornece suporte adicional para o diagnóstico de DAP em pacientes com sintomas e achados discrepantes no exame. A angiorressonância magnética (angio-RM), a angiotomografia computadorizada (angio-TC) e a angiografia convencional por cateter não devem ser usadas para o exame diagnóstico de rotina, mas são realizadas antes de potencial revascularização (Fig. 275-1). Cada exame é útil na definição da anatomia para ajudar a planejar os procedimentos de revascularização endovascular e cirúrgica. FIGURA 275-1 Angiorressonância magnética de paciente com claudicação intermitente, mostrando estenoses da aorta abdominal distal e da artéria ilíaca comum direita (A) e estenoses das artérias femorais superficiais direita e esquerda (B). (Cortesia do Dr. Edwin Gravereaux; com permissão.) Prognóstico A história natural dos pacientes com DAP é influenciada principalmente pela extensão das patologias vasculares coronarianas e cerebrovasculares coexistentes. Cerca de 33 a 50% daqueles com DAP sintomática apresentam evidências de doença arterial coronariana (DAC) com base na apresentação clínica e no eletrocardiograma, e mais de 50% apresentam DAC significativa com base na angiografia coronariana. Os pacientes com DAP apresentam uma taxa de mortalidade em 5 anos de 15 a 25% e um risco 2 a 6 vezes maior de morte devido à doença cardíaca coronariana.As taxas de mortalidade são mais altas naqueles com a DAP mais grave. A medida do ITB é útil para a detecção de DAP e para a identificação de pessoas em risco de futuros eventos aterotrombóticos. A probabilidade de progressão sintomática da DAP é menor do que a chance de sucumbir à DAC. Cerca de 75 a 80% dos pacientes não diabéticos que apresentam claudicação intermitente leve a moderada permanecem sintomaticamente estáveis. A deterioração é provável de ocorrer no restante, e cerca de 1 a 2% do grupo por fim desenvolvem isquemia crítica de membro a cada ano. Aproximadamente 25 a 30% dos pacientes com isquemia crítica de membro submetem-se à amputação no período de 1 ano. O prognóstico é pior em pacientes que continuam a fumar cigarros ou têm diabetes melito. TRATAMENTO Doença arterial periférica Os pacientes com DAP devem receber terapias para reduzir o risco de eventos cardiovasculares associados, como infarto agudo do miocárdio (IAM) e morte, bem como para melhorar os sintomas nos membros, evitar a evolução para isquemia crítica de membro e preservar a viabilidade do membro. A modificação dos fatores de risco e a terapia antiplaquetária devem ser iniciadas para melhorar os desfechos cardiovasculares. A importância da cessação do tabagismo deve ser enfatizada. O médico deve assumir um papel nessa mudança de hábito de vida. O aconselhamento e a terapia medicamentosa adjuvante com adesivo de nicotina, bupropiona ou vareniclina aumentam as taxas de cessação do tabagismo e reduzem as recidivas. É importante controlar a pressão arterial nos pacientes hipertensos. Os inibidores da enzima conversora da angiotensina e os bloqueadores do receptor de angiotensina podem reduzir o risco de eventos cardiovasculares nos pacientes com DAP sintomática. Os bloqueadores β-adrenérgicos não pioram a claudicação, podendo ser usados para tratar hipertensão, especialmente em pacientes com DAC coexistente. O tratamento da hipercolesterolemia com estatinas é defendido para reduzir o risco de IAM, acidente vascular cerebral (AVC) e morte. As diretrizes do American College of Cardiology (ACC)/American Heart Association (AHA) de 2013 sobre tratamento de colesterol sanguíneo para reduzir o risco cardiovascular aterosclerótico em adultos recomendam tratamento de alta intensidade com estatinas em pacientes com distúrbios ateroscleróticos, incluindo DAP. Os inibidores plaquetários, incluindo o ácido acetilsalicílico e o antagonista do ADP clopidogrel, reduzem o risco de eventos cardiovasculares adversos em pacientes com aterosclerose e são recomendados a pacientes com DAP sintomática, incluindo aqueles com claudicação intermitente ou isquemia crítica do membro ou revascularização prévia da extremidade inferior. Os resultados com o ticagrelor são similares àqueles do clopidogrel. O benefício da terapia antiplaquetária dupla com ácido acetilsalicílico e clopidogrel comparado com o do ácido acetilsalicílico isolado na redução das taxas de morbidade e mortalidade cardiovascular em pacientes com DAP é incerto. Quando adicionado a outra terapia antiplaquetária, o vorapaxar, um antagonista do receptor-1 da protease ativada que inibe a ativação das plaquetas mediada pela trombina, diminui o risco de eventos cardiovasculares em pacientes com aterosclerose, incluindo a DAP. Ele também reduz o risco de isquemia aguda do membro e revascularização periférica; todavia, o fármaco está associado com uma taxa aumentada de sangramento moderado. O anticoagulante varfarina é tão efetivo quanto a terapia antiplaquetária na prevenção de eventos cardiovasculares adversos, mas causa mais episódios de sangramento importante; portanto, não é indicado para melhorar os desfechos em pacientes com DAP crônica. A combinação de um inibidor do fator Xa por via oral (VO) em baixa dose, rivaroxabana, com o ácido acetilsalicílico melhora os desfechos cardiovasculares em pacientes com aterosclerose estabelecida, incluindo DAP, mas está associada com um risco aumentado de sangramento. As terapias para claudicação intermitente e isquemia crítica de membro incluem medidas de suporte, medicamentos, exercícios, intervenções endovasculares e cirurgia. As medidas de suporte consistem em cuidado meticuloso dos pés, os quais devem ser mantidos limpos e protegidos contra ressecamento excessivo com cremes hidratantes. Aconselha-se o uso de calçados bem-adaptados e protetores para reduzir traumatismos. A meia elástica deve ser evitada, pois reduz o fluxo sanguíneo para a pele. Nos pacientes com isquemia crítica de membro, a colocação de blocos para o amortecimento de impacto embaixo da cabeceira da cama, juntamente com uma cobertura acima dos pés, pode melhorar a pressão de perfusão e um pouco da dor ao repouso. Os pacientes com claudicação devem ser incentivados a se exercitar regularmente e em níveis progressivamente mais extenuantes. Os programas de treinamento de exercício supervisionado em sessões de 30 a 45 minutos, 3 a 5 vezes por semana por pelo menos 12 semanas, aumentam a distância da caminhada. O efeito benéfico do treinamento de exercício supervisionado sobre o desempenho da caminhada em pacientes com claudicação muitas vezes é similar ou maior do que o realizado após um procedimento de revascularização. Os programas de exercício estruturado domiciliar e comunitário também são efetivos. O tratamento farmacológico da DAP não tem sido tão bem-sucedido quanto o tratamento clínico da DAC (Cap. 267). Os vasodilatadores, em particular, como uma classe, têm se mostrado ineficazes. Durante o exercício, ocorre vasodilatação periférica em locais distantes da estenose arterial significativa. Como resultado, ocorre uma queda na pressão de perfusão, frequentemente a níveis inferiores aos gerados no tecido intersticial pelos músculos em exercício. Fármacos como os bloqueadores α- adrenérgicos, os antagonistas dos canais de cálcio e outros vasodilatadores não mostraram eficácia nos pacientes com DAP. O cilostazol, um inibidor da fosfodiesterase com propriedades vasodilatadoras e antiplaquetárias, aumenta em 40 a 60% a distância até a claudicação e melhora as medidas da qualidade de vida. Contudo, o mecanismo de ação responsável por seus efeitos benéficos não é conhecido. A pentoxifilina, um derivado da xantina substituída, aumenta o fluxo sanguíneo para a microcirculação e melhora a oxigenação tecidual. Embora vários estudos controlados com placebo tenham concluído que a pentoxifilina aumenta de forma modesta a duração do exercício, sua eficiência não foi confirmada em outros ensaios clínicos. As estatinas pareceram efetivas para o tratamento da claudicação intermitente nos estudos clínicos iniciais, mas são necessários mais estudos para confirmar a eficácia dessa classe de fármaco. Não há terapia clínica definitiva para a isquemia clínica do membro. As prostaglandinas vasodilatadoras não são efetivas no alívio dos sintomas ou na prevenção da perda do membro. O entusiasmo com o tratamento com fatores de crescimento angiogênicos diminuiu quando estudos clínicos de transferência gênica intramuscular de DNA que codifica o fator de crescimento endotelial vascular, o fator de crescimento dos fibroblastos, o fator de crescimento dos hepatócitos ou o fator 1α indutor de hipoxia não demonstraram melhora nos sintomas ou resultados em pacientes com claudicação intermitente ou isquemia crítica de membro. A maioria dos estudos de células progenitoras vasculares derivadas da medula óssea para promover angiogênese e preservar a viabilidade do membro em pacientes com isquemia crítica do membro falhou em demonstrar benefício, emborauma metanálise desses estudos tenha sugerido uma redução modesta no risco de amputação. Essa permanece uma área ativa de investigação pré-clínica e clínica. REVASCULARIZAÇÃO Os procedimentos de revascularização, incluindo intervenções cirúrgicas e por cateter, geralmente são indicados para pacientes com sintomas graves, progressivos ou incapacitantes de claudicação intermitente a despeito de tratamento clínico de modo a melhorar a distância caminhada e a capacidade funcional. Também estão indicados em pacientes com isquemia crítica do membro para aliviar a dor e prevenir a perda do membro. A angio-RM, a angio-TC ou a angiografia convencional com contraste devem ser feitas para avaliar a anatomia vascular nos candidatos à revascularização. Intervenções endovasculares incluem angioplastia transluminal percutânea por balão (incluindo balões revestidos por fármacos), colocação de stent (incluindo stents farmacológicos), enxertos com stent e aterectomia (Cap. 270). Quando a intervenção endovascular é realizada com um programa de exercícios supervisionado, a distância caminhada melhora mais do que o treino de exercícios isoladamente. A angioplastia transluminal percutânea por balão e a colocação de stent na artéria ilíaca estão associadas a um maior grau de sucesso do que nas artérias femoral e poplítea. Aproximadamente 90 a 95% das angioplastias transluminais percutâneas por balão ilíacas são eficazes inicialmente e a taxa de patência após 3 anos é > 75%. As taxas de patência poderão ser mais elevadas se for colocado um stent na artéria ilíaca. As taxas de sucesso inicial para angioplastia transluminal percutânea por balão e colocação de stent femoropoplíteo são de aproximadamente 90%, com taxa de patência após 3 anos de 60%. Os resultados após a colocação do stent em lesões femoropoplíteas mais longas (> 5-10 cm) geralmente são melhores do que após a angioplastia transluminal percutânea por balão. Vários estudos clínicos encontraram taxas de reestenose mais baixas com balões revestidos com fármacos do que com angioplastia transluminal percutânea por balão e taxas mais baixas com stents farmacológicos do que com stents de metal sem revestimento. As taxas de patência são influenciadas pela gravidade e pelo comprimento das estenoses pré- tratamento; o prognóstico das lesões oclusivas é pior do que o das lesões estenóticas não oclusivas. Intervenções endovasculares das artérias infrapoplíteas, tibiais e fibulares, frequentemente com o tratamento de lesões mais proximais, podem ser usadas para tratar isquemia crítica dos membros e prevenir perda do membro. Vários procedimentos cirúrgicos estão disponíveis para o tratamento dos pacientes com doença arterial aortoilíaca e femoropoplítea. O procedimento cirúrgico preferido depende da localização e da extensão da obstrução, bem como do estado geral do paciente. Os procedimentos cirúrgicos para as doenças aortoilíacas incluem os bypases aortobifemoral, axilofemoral e femorofemoral e a endarterectomia aortoilíaca. O procedimento utilizado com mais frequência é o bypass aortobifemoral, empregando enxertos de malha Dacron. A patência imediata dos enxertos aproxima-se de 99%, e a patência dos enxertos após 5 e 10 anos é > 90 e 80%, respectivamente. As complicações cirúrgicas consistem em IAM e AVC, infecção do enxerto, embolização periférica e disfunção sexual por interrupção dos nervos autonômicos da pelve. A taxa de mortalidade cirúrgica varia entre 1 e 3%, principalmente em razão de cardiopatia isquêmica. O tratamento cirúrgico para as doenças arteriais do segmento femoropoplíteo consiste em confecção de bypass com enxertos autógenos in situ ou reversos com veia safena; enxertos de politetrafluoroetileno (PTFE) ou outros enxertos sintéticos; e tromboendarterectomia. A taxa de mortalidade cirúrgica varia entre 1 e 3%. A taxa de patência em longo prazo depende do tipo de enxerto utilizado, da localização da anastomose distal e da patência dos vasos de efluxo distais à anastomose. A taxa de patência dos enxertos de veia safena no segmento femoropoplíteo após 1 ano aproxima-se de 90% e, após 5 anos, de 70 a 80%. As taxas de patência após 5 anos dos enxertos de veia safena no segmento infrapoplíteo são de 60 a 70%. Em contrapartida, a taxa de patência após 5 anos dos enxertos de PTFE infrapoplíteos é existe infiltração de leucócitos polimorfonucleares nas paredes das artérias e veias de pequeno e médio calibres. A lâmina elástica interna é preservada e há desenvolvimento de trombo celular e inflamatório no lúmen vascular. Com a progressão da doença, células mononucleares, fibroblastos e células gigantes substituem os neutrófilos. Nos estágios subsequentes, a doença caracteriza-se por fibrose perivascular, trombo organizado e recanalização. As manifestações clínicas da tromboangeíte obliterante frequentemente incluem uma tríade de claudicação intermitente no membro acometido, fenômeno de Raynaud e tromboflebite migratória de veias superficiais. A claudicação em geral é confinada às panturrilhas e aos pés ou aos antebraços e às mãos, devido à tendência da doença de afetar primeiramente os vasos distais. Na presença de isquemia digital grave, podem-se desenvolver alterações ungueais tróficas, ulcerações dolorosas e gangrenas nas pontas dos dedos das mãos ou dos pés. O exame físico mostra pulsos braquiais e poplíteos normais, porém pulsos ulnares, radiais e/ou tibiais reduzidos ou ausentes. A angio-RM, a angio-TC e a arteriografia convencional ajudam a definir o diagnóstico. Lesões segmentares lisas e afiladas nos vasos distais são características dessa patologia, assim como vasos colaterais nos locais de oclusão vascular. A patologia aterosclerótica proximal em geral está ausente. O diagnóstico pode ser confirmado por meio de biópsia excisional e exame patológico de um vaso envolvido. Não existe tratamento específico, exceto a cessação do tabagismo. O prognóstico é pior nos pacientes que persistem no hábito, mas os resultados são desencorajadores mesmo nos que param de fumar. O bypass arterial dos grandes vasos pode ser utilizado em casos selecionados, assim como o desbridamento local, de acordo com os sintomas e a gravidade da isquemia. Os antibióticos podem ser úteis; os anticoagulantes e os glicocorticoides não ajudam. Se essas medidas falharem, a amputação poderá ser necessária. VASCULITE Outras vasculites podem afetar as artérias que suprem os membros superiores e inferiores. A arterite de Takayasu e a arterite de células gigantes (temporal) são discutidas no Capítulo 356. ISQUEMIA AGUDA DO MEMBRO A isquemia aguda do membro ocorre quando a oclusão arterial resulta da cessação abrupta do fluxo sanguíneo para os membros. A gravidade da isquemia e a viabilidade do membro dependem da localização e da extensão da oclusão, bem como da presença e subsequente desenvolvimento de vasos sanguíneos colaterais. As causas principais de oclusão arterial aguda incluem embolia, trombo in situ, dissecção arterial e traumatismo. As fontes mais comuns de embolia arterial são o coração, a aorta e as grandes artérias. Os distúrbios cardíacos que causam tromboembolismo incluem fibrilação atrial, IAM, aneurismas ventriculares, miocardiopatia, endocardite infecciosa e marântica; trombos associados a valvas cardíacas prostéticas; e mixoma atrial. A embolização para os vasos distais também pode se originar de locais proximais de aterosclerose e aneurismas da aorta e de grandes vasos. Menos frequentemente, uma oclusão arterial pode se originar paradoxalmente de um trombo venoso que penetrou no sistema arterial por meio de um forame oval patente ou outro defeito septal. Os êmbolos arteriais tendem a se alojar nas bifurcações dos vasos porque o calibre vascular diminui nesses locais; nos membros inferiores, os êmbolos costumam se alojar na artéria femoral, seguida pela artéria ilíaca, pela aorta e pelas artérias poplíteas e tibiofibulares. A trombose arterial aguda in situ ocorre com mais frequência nos vasos ateroscleróticos, no local de placa aterosclerótica ou aneurisma e nos enxertos de bypass arterial. O trauma a uma artéria pode interromper a continuidade do fluxo sanguíneo e ocasionar isquemia aguda do membro pela formação de um trombo arterial agudo ou pela perda de integridade da artéria e extravasamento de sangue. A oclusão arterial pode complicar punções arteriais e implantes de cateteres; ela também pode resultar da dissecção arterial se o flap da íntima obstruir a artéria. São causas menos frequentes a síndrome de compressão do desfiladeiro torácico, que acarreta a oclusão da artéria subclávia, e o aprisionamento da artéria poplítea por uma posição anormal da cabeça medial do músculo gastrocnêmio. Policitemia e distúrbios de hipercoagulação (Caps. 99 e 112) também estão associados à trombose arterial aguda. CARACTERÍSTICAS CLÍNICAS Os sintomas de uma oclusão arterial aguda dependem da localização, da duração e da gravidade da obstrução. Com frequência, dor, parestesia, dormência e baixa temperatura cutânea ocorrem na extremidade envolvida dentro de 1 hora. Paralisia pode ocorrer na presença de isquemia grave e persistente. Os achados físicos consistem em pulsos distais à oclusão impalpáveis, cianose ou palidez, pele mosqueada, diminuição da temperatura cutânea, rigidez muscular, perda de sensibilidade, fraqueza e/ou ausência de reflexos tendíneos profundos. Se a oclusão arterial aguda acontecer na presença de circulação colateral adequada, como frequentemente é o caso na oclusão aguda de enxerto, os achados e sintomas poderão ser menos expressivos. Nessa situação, o paciente se queixa de uma brusca diminuição na distância percorrida antes do início da claudicação ou dor e parestesia modestas. A palidez e o resfriamento são evidentes, mas as funções sensitivas e motoras geralmente são preservadas. A avaliação clínica inclui o exame por Doppler do fluxo sanguíneo periférico. O diagnóstico de isquemia aguda do membro costuma ser aparente a partir da apresentação clínica. Na maioria das ocasiões, angio-RM, angio-TC ou arteriografia por cateterismo são usadas para confirmar o diagnóstico, bem como para demonstrar o local e a extensão da oclusão arterial. TRATAMENTO Isquemia aguda do membro Uma vez estabelecido o diagnóstico, o paciente deve ser anticoagulado com heparina intravenosa (IV) para prevenir a propagação do coágulo e a embolia recorrente. Nos casos de isquemia grave de início recente, em particular quando a viabilidade do membro está ameaçada, a intervenção imediata para assegurar a reperfusão está indicada. Trombólise/trombectomia orientada por cateter, tromboembolectomia cirúrgica e procedimentos de bypass arterial são usados para restaurar imediatamente o fluxo sanguíneo à extremidade isquêmica, em particular quando um grande vaso proximal está ocluído. A terapia trombolítica intra-arterial com ativador tecidual de plasminogênio recombinante, reteplase ou tenecteplase é mais efetiva quando a oclusão arterial aguda é recente (menos de 2 semanas) e causada por um trombo em um vaso aterosclerótico, em um enxerto arterial ou em um stent ocluído. O tratamento trombolítico também está indicado quando a condição geral do paciente contraindica a intervenção cirúrgica ou quando os pequenos vasos estão ocluídos, impossibilitando, portanto, o acesso cirúrgico. É necessária meticulosa observação para prevenir complicações hemorrágicas durante o tratamento trombolítico intra- arterial. Outra abordagem endovascular para a remoção de trombo é a trombectomia mecânica percutânea que usa dispositivos empregando forças hidrodinâmicas ou cestos rotacionais para fragmentar e remover o coágulo. Esses tratamentos podem ser usados isoladamente, mas em geral são usados com trombólise farmacológica. A revascularização cirúrgica é preferida quando a restauração do fluxo sanguíneo tiver de ocorrer em 24 horas para prevenir a perda do membro ou quando os sintomas da oclusão estiverem presentespor mais de 2 semanas. A amputação é realizada quando o membro não for viável, como caracterizado por perda de sensibilidade, paralisia e ausência de fluxo sanguíneo detectado por Doppler nas artérias e veias. A anticoagulação prolongada está indicada quando a isquemia aguda do membro for causada por tromboembolismo cardíaco. A embolia resultante de endocardite infecciosa, a presença de valvas cardíacas prostéticas e o mixoma atrial requerem intervenção cirúrgica para remover a causa. ATEROEMBOLISMO O ateroembolismo é outra causa de isquemia do membro. Nessa condição, múltiplos e diminutos depósitos de fibrina, plaquetas e fragmentos de colesterol embolizam a partir de lesões ateroscleróticas proximais ou sítios de aneurismas. Os ateromas aórticos grandes e salientes são uma fonte de êmbolos que podem provocar isquemia do membro, bem como AVC e insuficiência renal. O ateroembolismo pode ocorrer após procedimentos intra-arteriais. Como os êmbolos tendem a se alojar nos vasos pequenos do músculo e da pele, podendo não ocluir os grandes vasos, os pulsos distais geralmente permanecem palpáveis. Os pacientes se queixam de dor aguda e sensibilidade no local da embolização. A oclusão vascular digital pode resultar em isquemia e na síndrome do “dedo azul”; pode haver desenvolvimento de necrose digital e gangrena (Fig. 275-2). Áreas localizadas de sensibilidade, palidez e livedo reticular (ver adiante) ocorrem nos locais de embolia. As biópsias cutânea ou muscular podem demonstrar cristais de colesterol. FIGURA 275-2 Ateroembolismo causando descoloração cianótica e necrose iminente dos dedos (síndrome do “dedo azul”). A isquemia resultante do ateroembolismo é notoriamente de difícil tratamento. O cuidado local dos pés e ocasionalmente a amputação podem ser necessários para tratar áreas necróticas. Os analgésicos estão indicados para alívio da dor. Em geral, nem os procedimentos de revascularização cirúrgica nem o tratamento trombolítico surtem efeito, devido à multiplicidade, à composição e à localização distal dos êmbolos. A terapia com fármacos antiplaquetários e estatinas melhora o desfecho cardiovascular em pacientes com aterosclerose, mas não está estabelecido se qualquer uma dessas classes de fármacos previne a recorrência de ateroembolismo. Do mesmo modo, não se sabe se a terapia anticoagulante é efetiva. A intervenção cirúrgica pode ser necessária para remover ou realizar bypass do vaso aterosclerótico ou aneurisma que causa ateroembolismo recorrente. SÍNDROME DE COMPRESSÃO DO DESFILADEIRO TORÁCICO Essa síndrome é um complexo de sintomas que resulta da compressão do feixe neurovascular (artéria, veia ou nervos) no desfiladeiro torácico, em seu trajeto pelo pescoço e ombro. Costelas cervicais, anomalias do músculo escaleno, proximidade da clavícula com a primeira costela ou inserção anormal do músculo peitoral menor podem comprimir a artéria subclávia, a veia subclávia e o plexo braquial, já que essas estruturas passam do tórax para o braço. Dependendo das estruturas acometidas, a síndrome de compressão do desfiladeiro torácico é dividida em forma arterial, venosa e neurogênica. Os pacientes com compressão neurogênica do desfiladeiro torácico podem desenvolver dor, fraqueza e parestesias no ombro e no braço. Os pacientes com compressão arterial podem sofrer claudicação, fenômeno de Raynaud e até perda tecidual isquêmica e gangrena. A compressão venosa pode causar trombose das veias subclávia e axilar, o que está frequentemente associado ao esforço e é chamado de síndrome de Paget-Schroetter. ABORDAGEM AO PACIENTE Síndrome da compressão do desfiladeiro torácico O exame de um paciente com a síndrome de compressão do desfiladeiro torácico costuma ser normal a menos que sejam efetuadas manobras provocativas. Às vezes, os pulsos distais estão ausentes ou diminuídos e pode haver cianose e isquemia digital. Várias manobras que sustentam o diagnóstico de síndrome de compressão do desfiladeiro torácico podem ser usadas para precipitar sintomas, causar sopro da artéria subclávia e diminuir os pulsos do braço. Essas manobras incluem o teste de abdução e rotação externa, no qual o braço afetado é abduzido em 90° com rotação externa do ombro; a manobra do escaleno (extensão do pescoço e rotação da cabeça para o lado dos sintomas); a manobra costoclavicular (rotação posterior dos ombros); e a manobra de hiperabdução (elevação do braço a 180°). Uma radiografia de tórax indicará a presença de costelas cervicais. A ultrassonografia com Doppler, a angio-RM e a angiografia com contraste podem ser realizadas durante manobras provocativas para demonstrar a compressão do desfiladeiro torácico da artéria subclávia. Exames neurofisiológicos, como eletromiografia, estudos de condução nervosa e dos potenciais evocados somatossensitivas, poderão ser anormais se o plexo braquial estiver envolvido, mas o diagnóstico de síndrome neurogênica do desfiladeiro torácico não estará necessariamente excluído se esses exames forem normais, devido à baixa sensibilidade. A maioria dos pacientes pode ser tratada de maneira conservadora. Eles devem ser orientados a evitar as posições que causam sintomas. Muitos se beneficiam de exercícios para o manguito rotador. Procedimentos cirúrgicos, como remoção da primeira costela e ressecção do músculo escaleno, podem ser necessários para alívio dos sintomas ou tratamento da isquemia. COMPRESSÃO DA ARTÉRIA POPLÍTEA A compressão da artéria poplítea afeta homens e mulheres jovens atléticos quando os músculos gastrocnêmio ou poplíteo comprimem a artéria poplítea e ocasionam claudicação intermitente. Pode ocorrer trombose, embolia ou aneurisma da artéria poplítea. O exame do pulso pode ser normal a menos que manobras provocativas como dorsiflexão do tornozelo e flexão plantar sejam executadas. O diagnóstico é confirmado por ultrassonografia com Doppler, angio-TC, angio-RM ou angiografia convencional. O tratamento envolve liberação cirúrgica da artéria poplítea ou reconstrução vascular. ANEURISMA DA ARTÉRIA POPLÍTEA Os aneurismas da artéria poplítea são os aneurismas arteriais periféricos mais comuns. Cerca de 50% são bilaterais. Os pacientes com aneurismas da artéria poplítea apresentam, com frequência, aneurismas de outras artérias, em especial da aorta. A apresentação clínica mais comum é a isquemia do membro secundária a trombose ou embolia. A ruptura ocorre com menos frequência. Outras complicações incluem compressão da veia poplítea adjacente ou do nervo fibular. O aneurisma da artéria poplítea pode ser detectado pela palpação e confirmado por ultrassonografia com Doppler. O reparo pode ser indicado para aneurismas sintomáticos ou quando o diâmetro exceder 2 a 3 cm, devido ao risco de trombose, embolia ou ruptura. FÍSTULA ARTERIOVENOSA Comunicações anômalas entre a artéria e a veia, contornando o leito capilar, podem ser congênitas ou adquiridas. As fístulas arteriovenosas congênitas são um resultado de vasos embrionários persistentes incapazes de se diferenciar em artérias e veias; elas podem estar associadas a marcas de nascença, podem localizar-se em quase qualquer órgão do corpo e ocorrem frequentemente nos membros. As fístulas arteriovenosas adquiridas podem ser criadas para prover acesso vascular necessário para hemodiálise ou ocorrem como resultado de lesão penetrante, como as feridas por armas brancas ou de fogo, ou por complicações de cateterismo arterial ou dissecção cirúrgica. Uma causa incomum de fístula arteriovenosa é a ruptura deum aneurisma arterial para dentro de uma veia. As manifestações clínicas dependem da localização e do tamanho da fístula. Frequentemente, uma massa pulsátil é palpável, e um sopro e um frêmito que persistem durante a sístole e a diástole estão presentes sobre a fístula. Nas fístulas de duração prolongada, as manifestações de insuficiência venosa crônica, como edema periférico, varizes grandes e tortuosas, além de pigmentação de estase, tornam-se aparentes devido à elevada pressão venosa. Podem ocorrer evidências de isquemia na parte distal do membro. A temperatura cutânea é mais elevada sobre a fístula arteriovenosa. Grandes fístulas arteriovenosas podem resultar em um aumento no débito cardíaco com consequente cardiomegalia e insuficiência cardíaca de alto débito (Cap. 252). O diagnóstico costuma ser evidente ao exame físico. A compressão de uma grande fístula arteriovenosa pode causar bradicardia reflexa (sinal de Nicoladoni-Branham). A ultrassonografia com Doppler pode detectar uma fístula arteriovenosa, em especial uma que afete a artéria e a veia femoral no local de acesso ao cateter. A angio-TC e a angiografia convencional podem confirmar o diagnóstico, sendo úteis na demonstração do local e do tamanho da fístula arteriovenosa. O tratamento das fístulas arteriovenosas pode envolver cirurgia, radioterapia ou embolização. As fístulas arteriovenosas congênitas são de difícil tratamento devido à possibilidade de comunicações numerosas e extensas, e novas comunicações frequentemente se desenvolvem após a ligadura das mais evidentes. Muitas dessas lesões são mais bem tratadas com medidas conservadoras, utilizando meias de contenção elástica para diminuir as consequências da hipertensão venosa. Às vezes, a embolização com material autólogo, como gordura ou músculo, ou com agentes hemostáticos, como esponjas de gelatina ou esferas de silicone, é utilizada para obliterar a fístula. As fístulas arteriovenosas adquiridas em geral são acessíveis ao tratamento cirúrgico, que envolve a separação ou a excisão da fístula. Por vezes, enxertos autógenos ou sintéticos são necessários para restabelecer a continuidade das artérias e das veias. FENÔMENO DE RAYNAUD Caracteriza-se por isquemia digital episódica, manifestada clinicamente pelo desenvolvimento sequencial de palidez, cianose e rubor dos dedos das mãos ou dos pés após exposição ao frio e reaquecimento subsequente. O estresse emocional também pode precipitar o surgimento do fenômeno de Raynaud. As alterações na cor costumam ser bem demarcadas e restritas aos dedos das mãos ou dos pés. Em geral, um ou mais dedos se tornarão esbranquiçados quando o paciente for exposto a um ambiente frio ou ao toque de um objeto frio (Fig. 275- 3A). O embranquecimento, ou palidez, representa a fase isquêmica do fenômeno e resulta do vasospasmo das artérias digitais. Durante a fase isquêmica, os capilares e as vênulas se dilatam, e a cianose resulta da desoxigenação do sangue presente nesses vasos. Uma sensação de frio, dormência ou parestesia dos dedos com frequência acompanha as fases de palidez e cianose. FIGURA 275-3 Doenças vasculares associadas à temperatura: A. fenômeno de Raynaud; B. acrocianose; C. livedo reticular; D. eritema pérnio; E. eritromelalgia; e F. lesão por congelamento. Com o reaquecimento, o vasospasmo digital regride e o fluxo sanguíneo nas arteríolas e nos capilares dilatados aumenta significativamente. Essa “hiperemia reativa” causa uma coloração avermelhada nos dedos. Além de rubor e calor, o paciente pode ter uma sensação latejante e dolorosa durante a fase hiperêmica. Embora a resposta de coloração trifásica seja típica do fenômeno de Raynaud, alguns pacientes podem apresentar somente palidez e cianose, e outros, apenas cianose. O fenômeno de Raynaud costuma ser dividido em duas categorias: a variedade idiopática, denominada fenômeno de Raynaud primário, e o fenômeno de Raynaud secundário, associado a outras doenças ou causas conhecidas de vasospasmo (Tab. 275-1). TABELA 275-1 ■ Classificação do fenômeno de Raynaud Fenômeno de Raynaud primário ou idiopático Fenômeno de Raynaud secundário Doenças vasculares do colágeno: esclerodermia, lúpus eritematoso sistêmico, artrite reumatoide, dermatomiosite, polimiosite, doença mista do tecido conectivo, síndrome de Sjögren Doenças arteriais oclusivas: aterosclerose dos membros, tromboangeíte obliterante, oclusão arterial aguda, síndrome do desfiladeiro torácico Hipertensão pulmonar Distúrbios neurológicos: doença do disco intervertebral, siringomielia, tumores da medula espinal, acidente vascular cerebral, poliomielite, síndrome do túnel do carpo, síndrome da dor regional complexa Discrasias sanguíneas: crioaglutininas, crioglobulinemia, criofibrinogenemia, distúrbios mieloproliferativos, linfoma linfoplasmacítico Traumatismo: lesão por vibração, síndrome da mão em martelo, choque elétrico, lesão pelo frio, digitação, tocar piano Fármacos e toxinas: derivados do ergot, metisergida, bloqueadores do receptor β-adrenérgico, bleomicina, vimblastina, cisplatina, gencitabina, cloreto de vinila Fenômeno de Raynaud primário Essa denominação é utilizada quando as causas secundárias do fenômeno de Raynaud foram excluídas. Mais de 50% dos pacientes com fenômeno de Raynaud apresentam a forma primária. As mulheres são acometidas aproximadamente cinco vezes mais do que os homens, e a idade de apresentação dos sintomas é, em geral, entre 20 e 40 anos. Os dedos das mãos costumam ser mais acometidos que os dos pés. Os episódios iniciais podem envolver somente as pontas de um ou dois dedos, mas as crises subsequentes podem acometer todo o dedo ou incluir todos os dedos. Os dedos dos pés são acometidos em 40% dos pacientes. Apesar do vasospasmo dos dedos dos pés geralmente ocorrer em pacientes com sintomas nos dedos das mãos, ele pode ocorrer isoladamente. Raramente, os lóbulos das orelhas, a ponta do nariz, a língua, os mamilos ou o pênis estão envolvidos. O fenômeno de Raynaud ocorre com frequência nos pacientes que apresentam enxaqueca ou angina variante. A associação sugere que pode haver um componente predisponente ao vasospasmo. Os resultados do exame físico costumam ser normais; os pulsos radial, ulnar e podal mostram-se normais. Os dedos das mãos e dos pés podem estar frios entre os episódios e exibir sudorese excessiva. A capilaroscopia das dobras ungueais revela capilares superficiais normais, que aparecem como alças anguladas regularmente espaçadas. Espessamento e enrijecimento do tecido subcutâneo digital (esclerodactilia) acometem 10% dos pacientes. A angiografia dos dedos para fins diagnósticos não está indicada. Em geral, os pacientes com doença de Raynaud primária têm manifestações clínicas mais leves. Menos de 1% perde uma parte do dedo. Depois que o diagnóstico é estabelecido, a doença melhora espontaneamente em cerca de 15% dos pacientes e avança em aproximadamente 30%. Causas secundárias do fenômeno de Raynaud O fenômeno de Raynaud ocorre em 80 a 90% dos pacientes com esclerose sistêmica (esclerodermia) e é o sintoma de apresentação em 30% (Cap. 353). Pode ser o único sintoma da esclerodermia durante muitos anos. Nessa patologia, as anormalidades dos vasos digitais podem contribuir para o desenvolvimento do fenômeno de Raynaud. Úlceras isquêmicas das pontas dos dedos podem ocorrer e evoluir para gangrena e autoamputação. Cerca de 20% dos pacientes com lúpus eritematoso sistêmico (LES) apresentam o fenômeno de Raynaud (Cap. 349). Às vezes, uma isquemia digital persistente se desenvolve e pode evoluir para úlceras ou gangrena. Nos casos mais graves, os vasos pequenos são ocluídos por umaendarterite proliferativa. O fenômeno de Raynaud ocorre em cerca de 30% dos pacientes com dermatomiosite ou polimiosite (Cap. 358). Frequentemente, desenvolve-se nos pacientes com artrite reumatoide e pode estar relacionado com a proliferação da íntima que ocorre nas artérias digitais. A aterosclerose dos membros é uma causa comum do fenômeno de Raynaud em homens > 50 anos. A tromboangeíte obliterante é uma causa incomum do fenômeno de Raynaud, mas deve ser considerada em homens jovens, em particular nos fumantes. O desenvolvimento de palidez induzida pelo frio nessas doenças pode estar restrito a um ou dois dedos do membro envolvido. Ocasionalmente, o fenômeno de Raynaud pode acompanhar a oclusão aguda por um trombo ou êmbolo de uma artéria de grande ou médio calibre. A embolização de um fragmento ateroembólico pode causar isquemia digital. Esta última situação com frequência envolve um ou dois dedos, não devendo ser confundida com o fenômeno de Raynaud. Nos pacientes com a síndrome de compressão do desfiladeiro torácico, o fenômeno de Raynaud pode resultar de pressão intravascular diminuída, estimulação das fibras simpáticas do plexo braquial ou combinação de ambas. O fenômeno de Raynaud ocorre em pacientes com hipertensão pulmonar primária (Cap. 277), o que é mais do que uma simples coincidência, podendo refletir uma anormalidade neuro-humoral que afeta as circulações pulmonar e digital. Uma variedade de discrasias sanguíneas pode estar associada ao fenômeno de Raynaud. A precipitação de proteínas plasmáticas induzida pelo frio, a hiperviscosidade e a agregação de hemácias e plaquetas podem ocorrer nos pacientes com crioaglutininas, crioglobulinemia ou criofibrinogenemia. As síndromes de hiperviscosidade que acompanham os distúrbios mieloproliferativos e o linfoma linfoplasmacítico (macroglobulinemia de Waldenström) também devem ser consideradas na avaliação inicial dos pacientes com o fenômeno de Raynaud. O fenômeno de Raynaud é frequente nos pacientes cuja profissão requer o uso de ferramentas manuais vibratórias, como motosserras ou britadeiras. A frequência do fenômeno de Raynaud também parece ser maior nos pianistas e nos digitadores. Lesões por choque elétrico nas mãos ou ulcerações produzidas pelo frio podem levar ao desenvolvimento tardio do fenômeno de Raynaud. Vários fármacos foram implicados na etiologia do fenômeno de Raynaud. Eles incluem os preparados de ergot, a metisergida, os antagonistas dos receptores β-adrenérgicos e os quimioterápicos bleomicina, vimblastina, cisplatina e gencitabina. TRATAMENTO Fenômeno de Raynaud A maioria dos pacientes com o fenômeno de Raynaud apresenta apenas episódios leves e infrequentes. Esses indivíduos necessitam de tranquilização, devendo ser instruídos a vestir roupas quentes e evitar exposição desnecessária a temperaturas frias. Além do uso de luvas, o paciente deve proteger o tronco, a cabeça e os pés com roupas quentes para prevenir a vasoconstrição reflexa induzida pelo frio. O tabagismo é contraindicado. O tratamento farmacológico está reservado para casos graves. Os antagonistas dos canais de cálcio di- hidropiridinas, como o nifedipino, o isradipino, o felodipino e o anlodipino, diminuem a frequência e a gravidade do fenômeno de Raynaud. O diltiazém pode ser considerado, porém é menos eficaz. O antagonista α1-adrenérgico pós-sináptico prazosina foi utilizado com respostas favoráveis; a doxazosina e a terazosina também podem ser efetivas. Os inibidores da fosfodiesterase do tipo 5, como a sildenafila, a tadalafila e a vardenafila, podem melhorar os sintomas em pacientes com fenômeno de Raynaud secundário, como ocorre com a esclerose sistêmica. Há evidência limitada de que as preparações de nitroglicerina tópica são efetivas. A simpatetomia digital é útil em alguns pacientes que não respondem ao tratamento clínico. A injeção de toxina botulínica nos tecidos perivasculares do punho ou da palma melhoraram as manifestações isquêmicas do fenômeno de Raynaud grave em uma série de casos, mas faltam estudos clínicos controlados. ACROCIANOSE Nessa condição, verificam-se vasoconstrição arterial e dilatação secundária dos capilares e das vênulas com cianose persistente resultante nas mãos e, menos frequentemente, nos pés. A cianose pode ser intensificada por meio da exposição a ambiente frio. A acrocianose pode ser categorizada como primária ou secundária a um distúrbio subjacente. Na acrocianose primária, as mulheres são muito mais acometidas do que os homens e os sintomas surgem em geral antes dos 30 anos. Comumente, os pacientes são assintomáticos, mas procuram cuidados médicos devido à descoloração. O prognóstico é favorável e não ocorrem dor, úlceras e gangrena. O exame revela pulso normal, cianose periférica e palmas úmidas (Fig. 275-3B). Alterações tróficas cutâneas e ulcerações não ocorrem. O distúrbio costuma ser distinguível do fenômeno de Raynaud porque é persistente e não episódico, a alteração da cor estende-se proximalmente a partir dos dedos e não ocorre palidez. A isquemia secundária à doença arterial oclusiva em geral é excluída pela presença de pulsos normais. Cianose central e diminuição da saturação de oxigênio não estão presentes. Os pacientes devem ser tranquilizados e orientados a vestir roupas quentes e evitar exposição ao frio. A intervenção farmacológica não é indicada. A acrocianose secundária pode resultar de hipoxemia, medicamentos vasopressores, doenças do tecido conectivo, ateroembolismo, anticorpos antifosfolipídeos, crioaglutininas ou crioglobulinas e está associada com anorexia nervosa e síndrome de taquicardia postural ortostática. O tratamento deve ser direcionado para o distúrbio adjacente. LIVEDO RETICULAR Nesse distúrbio, as áreas localizadas das extremidades desenvolvem uma aparência mosqueada ou reticulada (aparência de rede), com uma descoloração que varia de avermelhada a azulada (Fig. 275-3C). A aparência mosqueada pode ser mais proeminente após exposição ao frio. Há formas primárias e secundárias de livedo reticular. A forma primária, ou idiopática, desse distúrbio pode ser benigna ou associada a ulcerações. A forma benigna ocorre com mais frequência em mulheres do que em homens, e a idade mais comum de aparecimento é a partir dos 20 anos. Os pacientes com a forma benigna são geralmente assintomáticos e procuram auxílio devido a questões estéticas. Esses pacientes devem ser tranquilizados e orientados a evitar ambientes frios. Nenhum tratamento farmacológico está indicado. O livedo reticular primário com ulceração também é chamado de atrofia branca em placas. As úlceras são dolorosas, podendo levar meses para cicatrizar. O livedo reticular secundário pode ocorrer com ateroembolismo (ver adiante), LES e outras vasculites, anticorpos antifosfolipídeos, hiperviscosidade, crioglobulinemia e síndrome de Sneddon (AVC isquêmico e livedo reticular). Raramente há desenvolvimento de ulcerações cutâneas. ERITEMA PÉRNIO (GELADURA) O eritema pérnio é uma vasculite associada à exposição ao frio; formas agudas já foram descritas. As lesões eritematosas elevadas se desenvolvem na parte inferior das pernas e dos pés no clima frio (Fig. 275-3D). Elas estão associadas ao prurido e à sensação de queimação, podendo criar bolhas e ulcerar. O exame patológico mostra angeíte caracterizada por proliferação da íntima e infiltração perivascular dos leucócitos mononucleares e polimorfonucleares. As células gigantes podem estar presentes no tecido subcutâneo. Os pacientes devem evitar exposição ao frio e manteras úlceras limpas e protegidas com gazes estéreis. Fármacos simpaticolíticos e antagonistas dos canais de cálcio di-hidropiridínicos são eficazes em alguns pacientes. ERITROMELALGIA Esse distúrbio é caracterizado por dor em queimação e eritema das extremidades (Fig. 275-3E). Os pés costumam estar envolvidos mais frequentemente que as mãos, e os homens são mais acometidos que as mulheres. A eritromelalgia pode ocorrer em qualquer idade, porém é mais comum na meia-idade. Pode ser primária (também chamada de eritermalgia) ou secundária. Mutações no gene SCN9A, que codifica o canal de sódio controlado por voltagem Nav1.7 expresso nos nervos sensitivo e simpático, foram descritas em formas hereditárias de eritromelalgia. As causas mais comuns da eritromelalgia secundária são os distúrbios mieloproliferativos, como a policitemia vera e a trombocitose essencial. As causas menos comuns incluem fármacos, como bloqueadores dos canais de cálcio, bromocriptina e pergolida; neuropatias; doenças do tecido conectivo, como LES; e síndromes paraneoplásicas. Os pacientes se queixam de queimação nos membros precipitada por exposição a ambiente aquecido e agravada por uma posição pendente das pernas. Os sintomas são aliviados expondo a área afetada ao vento ou à água fria, ou por meio da elevação da perna. A eritromelalgia pode ser distinguida da isquemia secundária a DAPs porque os pulsos periféricos estão presentes. Não existe tratamento específico; o ácido acetilsalicílico pode produzir alívio nos pacientes com eritromelalgia secundária a distúrbios mieloproliferativos. O tratamento dos distúrbios associados na eritromelalgia secundária pode ser útil. LESÃO POR CONGELAMENTO Nesse distúrbio, a lesão tecidual resulta de exposição grave a ambientes gelados ou por contato direto com um objeto muito frio. A lesão tecidual ocorre devido ao congelamento e à vasoconstrição. A ulceração pelo frio geralmente afeta as partes distais dos membros ou as partes expostas da face, como orelhas, nariz, queixo e bochecha. Uma ulceração superficial envolve a pele e os tecidos subcutâneos. Os pacientes apresentam dor ou parestesia e a pele mostra-se esbranquiçada e cerosa. Após o reaquecimento, há cianose e eritema, formação de pápula urticariforme, edema e pústulas superficiais. O congelamento profundo envolve músculos, nervos e vasos sanguíneos profundos. Pode resultar em edema da mão ou do pé, vesículas e bolhas, necrose tecidual e gangrena (Fig. 275-3F). O tratamento inicial é o reaquecimento, efetuado em ambientes onde nova exposição ao frio extremo não ocorra. O reaquecimento é realizado pela imersão da área afetada em uma banheira com água em temperatura entre 40 e 44°C. Massagem, aplicação de água gelada e calor extremo são contraindicados. A área lesionada deve ser limpa com sabão ou antissépticos e deve ser coberta com curativos estéreis. Os analgésicos frequentemente são necessários durante o reaquecimento. Os antibióticos serão utilizados se houver evidências de infecção. A eficácia dos bloqueadores simpáticos ainda não foi estabelecida. Após a recuperação, o membro afetado pode exibir maior sensibilidade ao frio. LEITURAS ADICIONAIS Bonaca MP, Creager MA: Pharmacological treatment and current management of peripheral artery disease. Circ Res 116:1579, 2015. Creager MA et al: Acute limb ischemia. N Engl J Med 366:2198, 2012. Gerhard-Herman MD et al: 2016 AHA/ACC guideline on the management of patients with lower extremity peripheral artery disease: A report of the American College of Cardiology/American Heart Association Task Force on Clinical Practice Guidelines. Circulation 135:e726, 2017. Kullo IJ, Rooke TW: Peripheral artery disease. N Engl J Med 374:861, 2016. Olin JW et al: Fibromuscular dysplasia: State of the science and critical unanswered questions: A Scientific Statement from the American Heart Association. Circulation 129:1048, 2014.