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DOR ONCOLÓGICA A própria noite penetra meus ossos; Minhas dores me torturam sem cessar. (Livro de Jó; CAP 30, vers 17) 1. Compreenda a Dor Oncológica: A) Conceito. O termo “dor do câncer" não possui definição específica, inclusive porque o câncer não pode ser considerado como uma única doença, uma vez que existem mais de 100 diferentes tipos de neoplasias malignas. Dor oncológica é qualquer dor relacionada à experiência de uma doença oncológica, seja causada pelo tumor, seu diagnóstico ou seu tratamento. Um dos tipos mais comuns de dor mista é a oncológica. DOR MISTA: coexistência de dor de mecanismos distintos na mesma área do corpo, causada pela mesma doença. (Nociceptiva + neuropática) – Não controlar a dor no CA pode aumentar os níveis de depressão, ansiedade e somatização no paciente oncológico. B) Etiologia. Pode ser classificada, de acordo com o tempo do sintoma, em aguda ou crônica; de acordo com a característica, localizada, irradiada ou referida; quanto ao tipo, nociceptiva somática, nociceptiva visceral, neuropática e mista; quanto à intensidade, leve, moderada e intensa. A dor apresenta elevada prevalência no câncer, ocorrendo em um terço dos pacientes recebendo tratamento oncológico ativo e em dois terços daqueles com doença avançada? ● 28% dos pacientes com câncer sofrem de dor decorrente de metástases intra-abdominais. ● Mais de 50% dos pacientes internados com câncer relatam dor, sendo que 81% deles relatam dor em duas ou mais localizações, que pode ser de natureza nociceptiva, neuropática e mista. ● A dor moderada a intensa: relatada por 38% de todos os pacientes. Relembrando: ● Dor nociceptiva é a dor originária de dano real ou potencial ao tecido não neural, e ocorre por ativação de nociceptores”. Descrever a dor que ocorre com um sistema nervoso somatossensorial funcionando normalmente, em contraste com a função anormal observada na dor neuropática. ● Dor neuropática é a dor causada por uma lesão ou doença do sistema nervoso somatossensorial, pode ocorrer em várias doenças que acometem tanto o sistema nervoso central e/ou periférico. 1 ● Dor mista: coexistência de dor de mecanismos distintos na mesma área do corpo, causada pela mesma doença. A dor oncológica é um dos tipos mais comuns de dor mista. Dor oncológica: mecanismo misto de dor, e não um estado isolado de dor somática, visceral ou neuropática. Dor oncológica: envolve diversos mecanismos (inflamatórios, isquêmicos, neuropáticos e compressivos) em múltiplos locais, e que é modificado pelo humor, expectativas, aspectos históricos, genéticos e culturais. Mudanças induzidas por inflamação podem ser causadas por dano tecidual resultante do crescimento tumoral e pela liberação de substâncias mediadoras envolvidas na produção e transmissão de dor pelas células tumorais. O paciente oncológico com frequência apresenta mais de um tipo de dor ao mesmo tempo. Alguns tipos de dor podem ou não ter relação temporal direta com um evento desencadeante (exemplo, cirurgia ou constipação intestinal), outros tipos surgem dias ou meses após um evento inicial e agravam-se com o passar do tempo (exemplo, neuropatias induzidas por quimioterapias), outros podem ser constantes, intermitentes. Dor não controlada torna-se incapacitante e interfere sobre enfrentamento, adaptação e qualidade de vida. EPIDEMIOLOGIA ● Entre os pacientes com câncer, a prevalência de dor é de 50,0% no curso da doença, podendo estar presente em até 90,0% dos indivíduos na fase avançada da doença neoplásica – OMS → Um quarto dos pacientes estudados apresentam dois ou mais tipos de dor → Mais de 90% apresentavam uma ou mais dores relacionadas ao tumor → 21% apresentavam uma ou mais dores relacionadas ao tratamento oncológico. → Dor do tipo somática (71%) se mostrou mais comum do que dor do tipo neuropático (39%) ou visceral (34%). C) Fisiopatologia (Vias). A estimulação mecânica, elétrica ou química, lesiva ou potencialmente lesiva, de intensidade e duração características é convertida em potencial de ação pelas terminações nervosas livres das fibras amielínicas (C), ou mielínicas finas (A- delta) do Sistema Nervoso Periférico (SNP). A partir das lâminas I, IV, V e VI, surgem os tratos ascendentes que predominantemente cruzam a linha média, através da comissura medular branca anterior e constituem, no quadrante ântero-lateral oposto, o trato neoespinotalâmico e o trato reticuloespinotalâmico. 2 As fibras neoespinotalâmicas fazem sinapse nos núcleos talâmicos específicos (ventralposteromedial e ventralposterolateral) e através deles, se projetam nas áreas sensitivas S-I e S-II do córtex cerebral. Em todas as etapas, desde a estimulação dolorosa até a efetiva consciência de sensação desagradável, a informação é transduzida perifericamente, depois é transmitida pelas vias e submetida a um complexo processo de modulação. REFERÊNCIA: Artigo: Dor oncológica de José Oswaldo de Oliveira Jr. FISIOPATOLOGIA DA DOR ONCOLÓGICA A dor oncológica segue o mesmo processo neurofisiológico da dor não oncológica. Este processo de nocicepção envolve a ativação dos aferentes sensoriais por estímulos nociceptivos persistentes, transdução, transmissão, modulação e percepção. Os estímulos causados pela lesão tecidual ativam os neurônios aferentes primários chamados nociceptores, encontrados na pele, músculos, articulações e alguns órgãos viscerais. Os nociceptores são receptores de alto limiar que permanecem silenciosos até serem significativamente estimulados. A maioria dos nociceptores é polimodal, e responde a estímulos térmicos, físicos e químicos. Os corpos das células neuronais estão localizados dentro das lâminas superficiais dos gânglios da raiz dorsal e dos gânglios trigeminais. Uma vez despolarizada, a transmissão ocorre proximalmente através das fibras mielinizadas A-8 (rápidas) ou pelas fibras C não mielinizadas (lentas). interneurônios dentro das lâminas I e Il do corno dorsal amplificam ou atenuam a neurotransmissão. Os axônios aferentes terminam na lâmina lou ll e os neurônios aferentes de segunda ordem atravessam a linha média, e ascendem até o tronco encefálico e 0 tálamo no quadrante anterolateral da metade contralateral da medula espinhal. Juntamente com os axônios dos neurônios de segunda ordem da lâmina I, estas fibras formam o trato espinotalâmico, que é a principal via ascendente que permite obter informações sobre a dor e a temperatura. As fibras sensoriais associadas a respostas afetivas também ascendem na medula dorsolateral contralateral ao tálamo mediano ou tronco cerebral, e então, ao córtex cingulado e ao lobo límbico. já a modulação descendente ocorre através da medula cinzenta periaquedutal e da medula ventral rostral com axônios que atravessam o funículo lateral dorsal. Estas estruturas modulam a dor diretamente por conexões dos neurônios aferentes secundários no corno dorsal ou através de conexões com interneurônios nas lâminas l ou ll. REFERÊNCIA: Tratado da dor Volume 1, 2017. MECANISMOS FISIOPATOLÓGICOS 1- Infiltração óssea Causa mais comum de dor no câncer, podendo manifestar-se no local ou à distância (mecanismo da dor referida). Essa dor ocorre por conta da estimulação nociva nos nociceptores no periósteo (membrana que envolve o osso). O crescimento tumoral ou as fraturas secundárias podem causar lesão, compressão, tração ou laceração de estruturas nervosas, podendo ocasionar dor 3 isquêmica, dor neuropática periférica ou dor mielopática. DOR ÓSSEA - sensação de dolorimento constante, profundo, às vezes continuo, e que surge com os movimentos (dor incidental). 2- Compressão ou infiltração dos nervos periféricos: A infiltração ou compressão de troncos, plexos e/ou raízes nervosas pelo tumor, linfonodos e/ou fraturas ósseas metastáticas.DOR: dor neuropática, direta no nervo - SNP. Dor aguda de forte intensidade, resultando em dor na distribuição da estrutura nervosa acometida, com apresentação de dor em queimação, contínua, hiperestesia, disestesia e perda progressiva da sensibilidade. A síndrome de Horner pode surgir quando houver invasão ou irradiação da cadeia simpática cervical (inervação simpática ascende do pescoço para a cabeça junto à carótida), ocorrendo o fenômeno d. anidirase, enoftalmia, ptose palpebral e midríase do lado acometido. 3- Infiltração do neuroeixo (SNC): Pode ocorrer dor por invasão tumoral na medula espinhal, no encéfalo e em suas meninges. DOR RADICULAR: (está no nível da raiz do nervo espinhal) com alteração motora, sensitiva e autonômica distais ao local da lesão. Além da dor radicular, que é a primeira manifestação do comprometimento raquimedular, a dor mielopática localizada e a dor fantasma. OBS: A compressão medular é uma urgência médica, necessitando de radioterapia ou descompressão cirúrgica, pois gera fraqueza de membros inferiores, diminuição do tato e disfunção de esfíncteres. 4- Infiltração e oclusão de vasos sanguíneos e linfáticos: Pelas células tumorais, ocasionando vasoespasmos, linfangite e possível irritação nos nervos aferentes perivasculares. DOR: lancinante (devido a isquemia), linfangite, vasoespasmo, edema, ruborização, trombose. A isquemia causa dor e claudicação. A estase venosa produz edema nas estruturas supridas e a oclusão arterial produz isquemia e hipóxia com destruição celular. 5- Infiltração de vísceras ocas ou invasão de sistemas ductais de vísceras sólida: Oclusão de órgãos dos sistemas digestório, urinário e reprodutivo produz obstrução do esvaziamento visceral e determina contratura da musculatura lisa, espasmo muscular e isquemia. DOR: Produzindo dor visceral difusa (tipo cólica) constante, com sensação de peso ou pobremente localizada, referida nas áreas de inervação da víscera com prometida. 6- Dor decorrente do tratamento: 4 → Dor pós-cirúrgica: Fase aguda a dor decorre do processo inflamatório traumático de cirurgias. Fase crônica a dor ocorre devido ao câncer recidivado (reaparecer) localmente. → Dor pós-radioterapia: exacerbação aguda de dor crônica relacionada ao posicionamento da radioterapia. → Dor pós-quimioterapia: A dor pode ocorrer por polineuropatias periféricas, causadas por drogas imunossupressoras podendo ser de caráter transitório ou definitivo. Complemento: Dor não relacionada ao câncer ou ao seu tratamento: osteomielite, cefaléia tensional, osteoartrite, hérnia discal, entre outras, sem relação com a dor ocasionada pelo câncer. D) Quadro clínico. Os sintomas álgicos somam-se às incapacidades primariamente relacionadas à neoplasia e seu tratamento e podem ser causa de insônia, anorexia, confinamento ao leito, perda do convívio social, redução das atividades profissionais e de lazer. A dor no câncer geralmente é mista, podendo estar presente os dois mecanismos básicos de produção de dor: excesso de nocicepção (dor nociceptiva) e desaferentação (dor neuropática). → Dor nociceptiva: É a mais comum no câncer. É causada por processos inflamatórios ou infiltração de tecidos pelo tumor. Essa dor ocorre como resultado da ativação e sensibilização dos nociceptores em tecidos cutâneos e profundos, localizados preferencialmente na pele, músculos, tecido conjuntivo, osso e víscera torácica ou abdominal. → Dor neuropática: Se ela for mantida por processos somatossensoriais anormais no sistema nervoso periférico ou central. Ela surge quando há disfunção do SNP e/ou SNC, por invasão tumoral ou pelo tratamento do câncer. Essa dor é uma manifestação dolorosa crônica, ocasionada pela disfunção das vias que transmitem dor, levando a uma transmissão crônica dos sinais dolorosos. → Dor psicogênica: Ocorre se houver evidência de que fatores psicológicos predominam na manutenção do sintoma sem nenhuma evidência de causa orgânica. → Dor incidental ou breakthrough pain: Ocorre quando o controle da dor basal é alcançado, e, ainda, o paciente apresenta episódios de dor em picos. E) Diagnóstico. Avaliação do paciente exige história clínica (compreendendo a evolução da doença), anamnese e exame físico adequados, incluindo histórico sobre eficácia e efeitos adversos de fármacos previamente usados, e exames complementares. Informações complementares podem ser obtidas considerando idade, tipo de dor e dificuldade de comunicação. Avaliação funcional, influência de componentes psicossociais e identificação de sinais e sintomas associados como fadiga, constipação intestinal, transtorno do humor e distúrbios do sono, complementam a avaliação. Avaliação adequada da dor contribui para direcionar o tratamento. F) Tratamento (escada analgésica). O método da OMS para o alívio da dor no câncer pode ser resumido em cinco fases: a administração de analgésico deve ser feita 5 por via oral, ou seja, “pela boca”, “pelo relógio”, “pela escada analgésica”, “segundo a pessoa” e a “atenção ao detalhe”. Essas cinco expressões englobam o conceito de que a terapia com analgésicos é essencial para o tratamento da dor na maioria dos pacientes com câncer; que o opióide forte é absolutamente necessário para o controle da dor severa na maioria das pessoas; e que avaliações contínuas e a abordagem interdisciplinar têm fundamental importância. O primeiro degrau da escada analgésica preconizada pela OMS sugere a utilização de medicamentos não-opióides associados aos coadjuvantes para dores de fraca intensidade. O segundo degrau recomenda a utilização de analgésicos opióides fracos associados ou não aos medicamentos não-opióides e aos coadjuvantes para as dores de moderada intensidade. O terceiro degrau sugere a utilização de opióides fortes associados ou não aos medicamentos não opióides e aos coadjuvantes para dores de forte intensidade. Os três degraus da escada analgésica sugerem classes de medicamentos e não drogas específicas, oferecendo ao clínico a liberdade para sua utilização. Vias de administração No tratamento da dor no câncer, podem ser utilizadas as mais diversas vias de administração: intravenosa (infusão contínua, utilização de bombas de infusão ou uso de sistema PCA |pacient control analgesia]), intramuscular, oral, subcutânea, transdérmica (através da utilização de patchs), retal ou peridural. A via de administração é escolhida levando-se em conta as condições clínicas e/ou características do tumor e as condições sociais e econômicas do paciente. Devem ser também consideradas as condições do serviço onde ele é atendido e, ainda, se esse atendimento é em regime de internamento hospitalar, domiciliar ou ambulatorial. A via de administração de escolha para o tratamento da dor oncológica sempre que possível deve ser a oral, por ser mais segura, menos invasiva, apresenta boa tolerabilidade, promover analgesia satisfatória e ter baixo custo. Os opióides parenterais podem ser administrados por via intravenosa (IV), 6 subcutânea (SC) ou intramuscular (IM). Se a via intravenosa não estiver disponível, a administração subcutânea (hipodermóclise) de opióides é satisfatória, apesar de os níveis séricos não serem estáveis e de depender da absorção e perfusão local. A via SC estabelece limite do volume da medicação que deve ser administrada; desse modo, volumes maiores que 10 m L/h podem causar irritação local e má absorção. Existem alguns cuidados na utilização da via SC, com o observar diariamente sinais de inflamação, hematoma ou suspeita de infecção local. O tempo médio de um mesmo sítio é de 2 a 3 dias, mesmo sem sinais de alterações; porém a infusão exclusiva de morfina permite a manutenção no mesmo local de punção por até duas semanas. Os principais sítios de punção estão situados na região peitoral,deltóide, mesogástrica e coxofemoral. ATENÇÃO: A via IM deveria ser proscrita, por ser irritante, dolorosa, pode causar necrose tecidual, sendo, portanto, desaconselhável a sua utilização. 2. Discorra sobre a metástase, relembrando suas vias de disseminação. 3. Entenda a metástase óssea, citando seus sítios primários, tipos de lesões, mecanismos de dor e os exames que auxiliam na determinação da origem do tumor. As metástases de carcinoma representam a neoplasia mais frequente no tecido ósseo, acometem principalmente o esqueleto axial (crânio, costelas, coluna vertebral e bacia) e parte proximal dos membros (úmero e fêmur), raramente acomete além do cotovelo ou do joelho. Os principais sítios primários das metástases ósseas são: mama, pulmão, próstata,tireoide e rim. Em geral, o acometimento ósseo nessas neoplasias sugere doença disseminada, com outros órgãos provavelmente acometidos. Clinicamente, a dor é o principal sintoma, pode estar acompanhada de edema local. Entretanto, em vários casos, a primeira manifestação é uma fratura do osso patológico, os locais mais acometidos são as costelas e vértebras. A evolução da doença com acometimento disseminado envolve sintomas vagos, como queda do estado - geral, mal-estar, anemia e febre. Para fins diagnósticos, a cintilografia óssea é um importante instrumento. Trata-se de um exame facilmente feito, com alta sensibilidade, permite não apenas a localização da lesão, mas também a avaliação de lesões múltiplas. Considerando o fato de que as variações do metabolismo ósseo se estabelecem precocemente, as alterações cintilográficas podem preceder as radiográficas em até quatro meses. Nesse contexto, a radiografia simples se mostra válida em lesões com alteração da estrutura acima de 25 a 30%, sem a possibilidade de avaliação adequada de tecidos moles. Já a tomografia computadorizada e a ressonância nuclear magnética apresentam maior sensibilidade, permitem o estudo em diversos planos, com alta resolução e melhor contraste das partes moles. 7 A anatomia patológica tem papel fundamental no diagnóstico. Contudo, o uso apenas de métodos rotineiros normalmente limita-se a classificar histologicamente a neoplasia, não é capaz de estabelecer o sítio primário da lesão. O uso do estudo imuno-histoquímico constitui um importante instrumento nesse sentido. Duas classes principais de anticorpos são usadas: as citoqueratinas e os marcadores específicos de alguns órgãos. As citoqueratinas são divididas em alto e baixo peso, de acordo com as suas expressões em diferentes tecidos. As de baixo peso (CK8, CK18) são expressas em epitélios simples, como o glandular intestinal e hepatócitos, enquanto as de alto peso são expressas em epitélios complexos, como o escamoso estratificado e o transicional. Contudo, o painel básico de pesquisa de sítio primário começa com o uso de duas citoqueratinas: CK7 e CK20, que permitem uma discriminac¸ão muito útil dos carcinomas (tabela 1). Complementa-se então o estudo com o uso dos marcadores específicos de órgãos como: receptores de estrógeno, GCDFP-15 e mamoglobina A para mama; TTF-1 e Napsin A para pulmão; CDX2 e vilina para gastrointestinal; PSA e fosfatase ácida prostática para próstata; TTF-1 e tireoglobulina para tireoide; CD10 e RCC para rim. A definição do sítio primário permite o estabelecimento do tratamento adequado, bem como a avaliação prognóstica.9 Este estudo pretende determinar, em nosso meio, quais os sítios mais acometidos, a frequência de fratura em osso patológico como primeira manifestação da neoplasia e a contribuição da imuno-histoquímica na determinação do sítio primário da neoplasia. METÁSTASE ÓSSEA A metástase óssea é a neoplasia mais frequente do tecido ósseo, ocorre predominantemente no esqueleto axial e parte proximal dos membros. Acomete indivíduos de diversas faixas etárias, em nossa casuística variou de 28 a 87 anos, sem predilec¸ão por sexo (55% de mulheres e 45% de homens). De acordo com a literatura, a localização predominante é o esqueleto axial (crânio, costelas, coluna vertebral e bacia) e parte proximal dos membros (úmero e fêmur), raramente acomete além do cotovelo ou joelho. 8 REFERÊNCIA: Artigo: Metástase óssea como primeira manifestação de tumores: contribuição do estudo imuno-histoquímico para o estabelecimento do tumor primário. MECANISMOS FISIOPATOLÓGICOS DA DOR ÓSSEA Nos tumores ósseos há alteração no remodelamento tecidual por ação direta sobre osteoblastos e osteoclastos. Metástases de próstata têm características blásticas devido a fatores produzidos pelo tumor. O PSA não é somente um marcador, mas também potente ativador de osteoblastos. A interleucina-6, também produzida pelo tumor, estimula os osteoclastos e torna a lesão óssea mista (blástica e lítica). Metástases de pulmão, mama e rim, em geral, formam lesões ósseas mistas. As lesões líticas ocorrem frequentemente no mieloma múltiplo e sarcomas. No mieloma há produção de RANK-L, interleucina-6 e activina A, estimulando diferenciação osteoclástica. A produção de lL-6 estimula a proliferação de osteoclastos e do próprio mieloma. Em fraturas por insuficiência vertebral em homens na quinta década deve ter investigação para mieloma múltiplo. Nas lesões blásticas ocorre destruição direta de fibras nervosas Ósseas. O fator de transcrição ATF-3, recentemente descoberto, foi detectado em nervos e gânglios especificamente lesados por tumores. Nas neoplasias malignas, o rápido crescimento tumoral resulta em necrose e acidez tecidual. Células inflamatórias acidificam ainda mais a matriz óssea e ativam canais iônicos que excitam fibras aferentes de dor. Prostaglandinas, fator de necrose tumoral (TNF-cx), endotelinas (ET-1] e interleucinas também sensibilizam as fibras de dor no osso. INVESTIGAÇÃO POR IMAGEM A radiografia simples (AP e perfil] configura a avaliação inicial do paciente com dor óssea. Nesse estudo é possível avaliar o padrão radiológico lítico e/ou blástico, a quantidade de lesões e o grau de comprometimento regional. Demais exames como tomografia computadorizada (detalhamento da anatomia óssea), ressonância magnética (avaliação de partes moles) e cintilografia óssea (investigação de órgãos múltiplos) representam a sequência da investigação. TRATAMENTO O tratamento da dor dependerá do tipo de neoplasia, da localização e do comprometimento regional. Nos tumores refratários a tratamento por quimio-radioterapia, prioriza-se o controle da dor e a melhor preservação possível da capacidade funcional. TRATAMENTO FARMACOLÓGICO A “escada analgésica” da OMS deve ser respeitada. Prioriza a analgesia multimodal com o primeiro degrau em analgésicos e anti-inflamatórios, seguido de opioides fracos e com introdução de opioides potentes somente após os degraus analgésicos anteriores. Medicações coadjuvantes como 9 antidepressivos, anticonvulsivantes, neurolépticos e principalmente antirreabsortivos ósseos podem ser introduzidos a qualquer momento. Nas doenças ósseas metastáticas, o processo de perda óssea é agressivo, rápido e focal, tanto por ação tumoral quanto da radio e quimioterapia sobre o osso. Nesta situação, a utilização de antirreabsortivo endovenoso (ácido zoledrônico) pode ser empregada mensalmente para controle de dor óssea, ao passo que na osteoporose ele é indicado para uso somente uma vez ao ano. Anti-inflamatórios COX-2 têm maior eficácia no controle de dor oncológica que anti-inflamatórios não esteroides (AINES) tradicionais, menos complicações plaquetárias e gastrintestinais e tumores metastáticos expressam COX-2. O uso de anti-inflamatórios COX-2 inibe o crescimento tumoral e diminui a dor por inibir a destruição do osso pelo tumor. A COX-2 é expressa em 40% dos cânceres de mama e osso é o local primário de metástases”.A administração de COX-2 inibiu metastatização, sugerindo que a COX-2 produzida nas células tumorais de mama é importante na progressão de metástases. Ao contrário, morfina estimula angiogênese e crescimento tumoral em ratos”. A inibição COX-2 previne o crescimento tumoral sem comprometer a analgesia opióide. O tratamento crônico com morfina estimula a angiogênese em tumores de mama, aumento de metástase e redução de sobrevida. Ainda, a administração conjunta de morfina e celecoxibe causam melhor analgesia do que somente com um dos agentes isolados. A corticoterapia é usada no controle antálgico de metástases ósseas. Seu uso também é benéfico para respiração, apetite, náuseas e humor. Pode ser utilizada em doses baixas com bolus nas exacerbações da dor”. A dexametasona e prednisona são comuns para administração pela via oral e a metilprednisolona está indicada para uso peridural. REFERÊNCIA: Tratado da dor Volume 1, 2017. PÁGINA: 614. 4. Relembre sobre os cuidados paliativos. Cuidar de indivíduos no final da vida e de suas famílias, dia após dia é uma proposta desafiadora, enquanto profissionais e seres humanos que somos. Entender os desafios para fornecer cuidados de qualidade é o primeiro passo importante a fim de desenvolver abordagens adequadas para apoiar, educar e facilitar a capacidade de “cuidar no fim da vida”, e é isto que nos propomos a fazer, revisando e atualizando este capítulo nesta edição. que destaca a dor como um cuidado paliativo especializado. Os cuidados paliativos são uma abordagem de assistência médica destinada a melhorar a qualidade de vida de pacientes enfrentando doenças graves, crônicas ou ameaçadoras à vida, e de suas famílias. O objetivo central dos cuidados paliativos é proporcionar alívio dos sintomas, suporte emocional e espiritual, e promover a dignidade do paciente. Essa abordagem é aplicada em qualquer estágio da doença, desde o diagnóstico até o final da vida. Este modelo, que tem uma natureza colaborativa, insere-se em um conflituoso 10 campo de intervenções, que inclui também a obstinação terapêutica ou distanásía, a eutanásia e o suicídio assistido, diretivas antecipadas de vontade, sendo que todas estas têm repercussão na qualidade de vida do paciente e de seu entorno, com inegáveis implicações éticas. A prática colaborativa entre diferentes profissionais, por meio do entrelaçamento e da mistura de habilidades específicas oferecidas, têm demonstrado melhores resultados para os pacientes e suas famílias, que se beneficiam dos serviços de cuidados paliativos. REFERÊNCIA: Tratado da dor Volume 1, 2017. 11