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C O R P O D E B O M B E I R O S M I L I T A R RECURSOS HUMANOS CURSO SUPERIOR DE BOMBEIRO MILITAR 2026 MÓDULO I CSBMCSBM INTRODUÇÃO Esta disciplina tem por objetivo contribuir com a formação e capacitação dos futuros oficiais do último posto do CBMRO, bem como de instituições co- irmãs que participam desta capacitação imprescindível para a gestão estratégica nas corporações bombeiro militares. A presente apostila foi elaborada com base em livros e artigos relacionados a Gestão de Recursos Humanos, tema extremamente caro em nossas instituições. Gerir pessoas é um desafio em qualquer organização, e embora pareça relativamente mais simples, a vida castrense possui características próprias, que em dados momentos facilita a gestão de pessoas, mas em outros aspectos, é extremamente engessada. Convidamos os caros alunos a conhecer ferramentas mundialmente conhecidas, e ao final da presente disciplina, os futuros coróneis possam usufruir de maior conhecimento no que tange à gestão de pessoas, em especial a gestão de competências. 2 1. HISTÓRICO A Gestão de Recursos Humanos (GRH) é uma área essencial nas organizações modernas, responsável por gerenciar os recursos humanos para alcançar objetivos estratégicos. Sua evolução ao longo dos séculos reflete mudanças significativas nas relações de trabalho, tecnologia e valores sociais e mesmo instituições militares não passaram incólumes por essa evolução. Antes de avançarmos para as eras históricas, é importante registrar que a evolução do campo não ocorre apenas por mudança de nomenclatura. Ao longo do tempo, o que se transforma é o foco da área, o tipo de entrega esperada e o grau de integração com a estratégia institucional. Em outras palavras, “recursos humanos” deixa de ser visto como uma função restrita a rotinas administrativas e passa a ocupar um papel articulador de capacidades e resultados, especialmente quando a organização depende fortemente de coordenação, disciplina, prontidão e padrões — atributos que, no caso de instituições militares, tornam a gestão de pessoas simultaneamente mais sensível e mais decisiva. À medida que a gestão de pessoas assume uma lógica estratégica e integrada, aumenta a distância entre “definir” diretrizes e “fazer acontecer” no cotidiano. Nesse ponto, a liderança torna-se variável crítica porque é no nível gerencial que as políticas se convertem em prática: são as chefias que priorizam, orientam, acompanham, reforçam padrões e dão sentido às metas institucionais. Ao mesmo tempo, liderança, sozinha, não resolve; ela precisa operar apoiada por práticas e processos claros, coerentes e compartilhados. Em outras palavras, a efetividade da gestão de pessoas depende da combinação entre um conjunto consistente de práticas institucionais e uma atuação gerencial capaz de implementá-las de modo contínuo e alinhado ao objetivo organizacional. Em contextos civis e militares, esse elo é especialmente relevante, pois a própria dinâmica institucional atribui grande importância aos profissionais “à frente” 3 das organizações para viabilizar mudanças e resultados, reforçando que Gestão de Pessoas não é atividade exclusiva do setor de pessoal, mas um processo que exige condução gerencial no cotidiano. Era Pré-Industrial (Séculos XVIII-XIX) Até a Revolução Industrial, a gestão de recursos humanos era informal e baseada em relações pessoais. Ou seja, não havia uma gestão em si, o foco era apenas e simplesmente em função da produção, que era artesanal e os trabalhadores considerados "mãos" para realizar tarefas específicas. Era Industrial (Séculos XIX-XX) Com a Revolução Industrial, e o conseqüente surgimento de fábricas, surgiu a necessidade de gerenciar grandes grupos de trabalhadores. A abordagem Taylorista (Frederick Winslow Taylor, 1911), conhecida Administração Científica enfatizava a eficiência, produtividade e divisão do trabalho."Ciente de que o trabalhador era visto como uma peça da máquina, Taylor buscou criar condições para que o trabalhador se adaptasse à máquina." (Chiavenato, 2000, p. 23). Taylor acreditava que o desempenho humano podia ser aprimorado por meio da aplicação de métodos científicos ao trabalho. Ele argumentava que as organizações poderiam ser geridas como máquinas, otimizando cada tarefa para reduzir desperdícios e aumentar a produção. Neste período também se destacou a Administração Clássica introduzida por Henry Fayol, embora também se desenvolva no mesmo contexto industrial de Taylor, Fayol focou no nível gerencial da organização, propondo que a administração deveria ser estudada como disciplina própria, aplicável a qualquer organização. Escaneie o qrcode ou a lado ou acesse https://www.youtube.com/watch?v=q7jRIxZzeLA e assista a um breve resumo muito didático sobre as duas teorias acima, embora remonte ao nascimento https://www.youtube.com/watch?v=q7jRIxZzeLA 4 da administração como disciplina, tem total relação com a origem da gestão de pessoas. Era das Relações Humanas (Século XX) A abordagem das Relações Humanas, desenvolvida por Elton Mayo no século XX, emergiu como uma resposta às limitações da administração científica de Frederick Taylor, que priorizava a eficiência e a produtividade através de métodos mecanicistas e impessoais. Mayo, a partir de suas pesquisas, como os Experimentos de Hawthorne (1924-1932), destacou a importância das relações interpessoais no ambiente de trabalho e os efeitos psicossociais que estas possuem sobre os funcionários. A principal premissa da teoria de Mayo é que os trabalhadores não são apenas seres racionais e motivados por incentivos econômicos, como sugerido pela abordagem científica. Em vez disso, eles são influenciados por aspectos emocionais, sociais e psicológicos, e sua produtividade e bem-estar estão intimamente ligados à forma como são tratados no ambiente organizacional. Mayo observou que fatores como o reconhecimento, a consideração das necessidades humanas e a formação de grupos de trabalho coesos aumentavam a motivação dos empregados, melhorando, consequentemente, o desempenho. A teoria das Relações Humanas enfatiza que a gestão deve valorizar as relações interpessoais, promovendo um ambiente de trabalho colaborativo e de apoio mútuo. Quando os trabalhadores se sentem valorizados e respeitados, suas atitudes e comportamentos tendem a ser mais positivos, o que reflete em melhores resultados organizacionais. Mayo também enfatizou a importância da comunicação dentro das organizações, sugerindo que um bom fluxo de informações e um ambiente de confiança são fundamentais para a eficácia das equipes. Sua abordagem, portanto, 5 revolucionou a maneira de enxergar o trabalhador, tornando-o não apenas uma parte de um sistema produtivo, mas um ser humano com necessidades emocionais que, quando atendidas, favorecem o sucesso organizacional. Era da Administração de Recursos Humanos (Século XX) A Administração de Recursos Humanos surgiu nos anos 1950, com foco em: 1. Seleção e treinamento. 2. Desenvolvimento de carreiras. 3. Avaliação de desempenho. 4. Remuneração e benefícios. Chiavenato (2000) define Administração de Recursos Humanos como "o processo de planejar, organizar, dirigir e controlar os recursos humanos para alcançar os objetivos organizacionais". Vejamos que encontramos aqui, o cerne do que a vida na caserna nos exige desde os primeiros dias do oficialato, afinal, planejar, organizar, dirigir e controlar homens e mulheres sob comando, com uma missão fim, seja ela administrativa ou operacional é a essência da função de um oficial. Nesta fase de desenvolvimento a Administração de RHrefletia a necessidade de se adaptar às mudanças do mercado de trabalho e as necessidades organizacionais. Era da Gestão de Recursos Humanos Estratégica (Século XXI) A GRH Estratégica integra os recursos humanos aos objetivos organizacionais, enfatizando: 6 1. Planejamento estratégico. 2. Desenvolvimento de competências. 3. Gestão de talentos. 4.Diversidade e inclusão. 5. Tecnologia e inovação. "A Gestão de Recursos Humanos Estratégica é um processo contínuo que busca alinhar os recursos humanos aos objetivos organizacionais." (Armstrong, 2011, p. 12) Neste período encontramos modelos modernos e focados na estratégia, tais como: 1. Modelo de GRHE (David Ulrich, 1997): Foca na estratégia, organização, liderança e desenvolvimento. 2. Teoria das Competências Essenciais (Gary Becker, 1993): Destaca a importância das habilidades-chave. 3. Modelo de Desenvolvimento de Talentos (Marcus Buckingham, 2001): Foca no desenvolvimento de potencial. A modernização das práticas organizacionais e a administração de recursos humanos passou a incorporar aspectos relacionados ao comportamento humano, como motivação e qualidade de vida no trabalho. No contexto militar, a gestão de pessoas também evoluiu para responder às demandas operacionais e estratégicas, enfatizando disciplina, treinamento e desenvolvimento de competências. O Corpo de Bombeiros Militar exemplifica essa evolução ao implementar políticas que alinham a gestão de pessoas às suas missões institucionais. Essa transformação reflete a crescente valorização do capital humano como um recurso estratégico para alcançar os objetivos organizacionais. 7 2. ADMINISTRAÇÃO X GESTÃO DE PESSOAS Em muitas das organizações públicas brasileiras, as áreas que cuidam da gestão de pessoal ainda se dedicam principalmente às atividades relacionadas à folha de pagamento, benefícios da aposentadoria e afins, proposição de leis, regras e regulamentos, além de desenvolver algumas ações pontuais e emergenciais de treinamento e capacitação. A forma de atuação das áreas é geralmente reativa, respondendo quando acionadas pelas demandas das outras áreas da organização e funcionários, indicando que elas não possuem o controle dos assuntos que estariam afetos à sua responsabilidade. O foco nessas demandas prioriza as questões emergenciais, relegando a segundo plano as atividades estratégicas como o estabelecimento de objetivos e metas alinhados com as definições da organização, o planejamento de ações e a definição de políticas como, por exemplo, a de contratação, capacitação e remuneração de pessoal, entre outras. Além disso, muitas organizações públicas ainda não vinculam a realização do trabalho com o adequado desempenho, e este, por sua vez, está desvinculado dos mecanismos de remuneração. O fato de haver pouca ou nenhuma ênfase no desempenho, no resultado e nos critérios de mérito é refletido pela falta de mecanismos para o desenvolvimento profissional contínuo e permanente e pelo pouco estímulo à rotação de funções. Cabe salientar também que, embora não exista um conjunto de regras que possa ser denominado efetivamente de “política de gestão de pessoas”, as normas e definições existentes, principalmente aquelas constantes nos planos de cargos, 8 podem suscitar a acomodação dos funcionários. Entre elas se destacam a utilização do tempo de serviço como critério prioritário para a progressão e a utilização da gratificação como forma improvisada de compensação à impossibilidade de aumento salarial. A descrição de cargos, da forma como é realizada, limita o escopo de atuação dos funcionários, desestimulando a multifuncionalidade e a visão sistêmica, e configura com frequência os desvios de função que são muito comuns nos diversos órgãos públicos em todos os âmbitos. O recrutamento e a seleção realizados por concursos têm foco baseado em cargos e, não, em competências. A forma genérica como os cargos são descritos possibilita a alocação das pessoas em áreas com características muito diferentes, mas, de fato, não supre as reais necessidades em relação às competências necessárias para a realização de suas atividades típicas. As características aqui descritas correspondem ao perfil de uma área denominada de ‘departamento de pessoal’, que realiza a administração de pessoal. Mesmo considerando as iniciativas adotadas por diversas organizações públicas brasileiras no sentido de transformar os ‘departamentos de pessoal’ em autênticas unidades de gestão de pessoas, esse novo perfil de gestão estratégica precisa ser consolidado com a efetiva realização de suas atividades típicas. Esse retrato ajuda a compreender por que a simples mudança de nome da área não garante a mudança de prática. O que diferencia a administração de pessoal da gestão de pessoas (e, mais adiante, da gestão estratégica de pessoas) é, principalmente, o foco, a natureza das entregas e o grau de integração com objetivos organizacionais. Para tornar esse salto conceitual mais visível, segue um quadro de marcos que sintetiza a transição e prepara o raciocínio para a seção seguinte. Nota-se que em muitos casos, embora a estrutura organizacional tenha sido modificada, incluindo áreas que realizam atividades típicas de gestão de pessoas, na prática esses campos não têm funcionado em plenitude, com a abrangência e profundidade necessárias. 9 A substituição da administração de pessoal pela gestão de pessoas implica a implementação de mudanças que no seu conjunto constituirão o que denominamos de gestão estratégica de pessoas. 2.1 GESTÃO ESTRATÉGICA DE PESSOAS O conceito de gestão estratégica se refere a um tipo de gestão que se preocupa com os objetivos e metas da organização e com o desempenho e as formas de atuação mais adequados para concretizá-los, considerando-se o curto, o médio e o longo prazos. O foco é a definição dos resultados esperados, o planejamento e o monitoramento das ações para seu alcance. O desempenho diz respeito não só à organização, mas também às pessoas que nela atuam. O planejamento estratégico da organização, em que são definidas as diretrizes para desempenho, é desdobrado nos diversos níveis organizacionais até o individual. O modelo de gestão estratégica de pessoas inclui a definição dos perfis profissionais e da quantidade de pessoas com tais perfis, necessários para atuar na organização. Além disso, abrange o estabelecimento de uma política que oferecerá o respaldo adequado para a sustentabilidade da gestão. Essa política deverá contemplar os aspectos relativos ao recrutamento de pessoal, à estratégia de desenvolvimento profissional e pessoal, à estratégia de realocação e redistribuição do pessoal, à avaliação de desempenho, à estrutura de carreira, à remuneração e aos incentivos, entre outros. Cabe ressaltar que a definição dessas políticas não se restringe ao estabelecimento de regras aleatórias para cada tema. Elas devem ser integradas de modo a imprimir consistência e coerência. Tal integração deve se basear em um conjunto básico de premissas a serem utilizadas como diretriz para o enunciado de todas as definições incluídas no conjunto de políticas de gestão de pessoas. Os principais aspectos a serem contemplados por essa política incluem: 10 • A definição de critérios para o recrutamento de pessoal, baseado nas competências necessárias à organização; • O estabelecimento de uma estratégia de desenvolvimento profissional e pessoal que possibilite o aprimoramento contínuo do quadro de pessoal; • A estruturação da avaliação do desempenho que permita, além da vinculação à progressão do funcionário, a identificação das necessidades de capacitação; • A definição de critérios para a criação de carreiras que estimulem o desenvolvimento profissional e o desempenho; • O estabelecimento de uma estratégia de realocação e de redistribuição de funcionários que seja compatível com os perfis e quantitativos necessários à organização. A consolidação desses aspectos não ocorre apenas pela existência formal de uma política. Para que a gestão estratégica de pessoas se torne efetiva, as políticas e práticas precisam ser compreendidas como um sistema integrado e, principalmente, colocadas em prática de forma consistente no cotidiano. É nesse ponto que se evidencia um elo decisivo entre a formulação do que deve ser feito e a realizaçãodo que, de fato, é feito: a atuação do líder no nível de execução. É nesse contexto que entra a gestão estratégica de pessoas que, alinhada aos objetivos e metas da organização, se preocupa com o perfil e com o quantitativo adequados ao quadro de pessoal, para realizar as atividades que lhe são atribuídas, garantindo o desempenho esperado. Ao tratar a gestão estratégica de pessoas como uma gestão alinhada a objetivos e metas, é importante reforçar que esse alinhamento não ocorre apenas por intenção ou por declarações formais. Ele se materializa quando a organização consegue transformar diretrizes em práticas integradas, capazes de sustentar o desempenho esperado no curto, médio e longo prazos. Assim, a gestão estratégica 11 de pessoas pode ser compreendida como uma abordagem que relaciona o que a corporação pretende alcançar com a forma como estrutura, desenvolve e mobiliza seu quadro de pessoal, buscando garantir que os perfis existentes e as capacidades em desenvolvimento sejam compatíveis com as necessidades do serviço. Nessa perspectiva, a gestão estratégica de pessoas envolve mais do que dimensionar quantitativos e definir perfis. Ela pressupõe coerência entre decisões e práticas que, em conjunto, direcionam o funcionamento do sistema de gestão de pessoas. Isso significa que recrutamento, desenvolvimento, movimentação, avaliação e incentivos não devem operar como iniciativas isoladas, pois ações fragmentadas tendem a gerar sinais contraditórios e resultados instáveis. Ao contrário, a consistência e a coerência da política de gestão de pessoas dependem de integração: as escolhas feitas em um processo precisam estar conectadas aos demais, formando um conjunto que sustente padrões de atuação e condições para o alcance dos resultados. De modo complementar, a gestão estratégica de pessoas também pode ser entendida como um esforço contínuo de alinhar três dimensões: (1) a direção estratégica da organização; (2) a coerência interna das práticas de gestão de pessoas; e (3) a coerência externa com os resultados esperados. Quando essas dimensões não se conectam, observa-se um descompasso entre o que se planeja e o que se executa. Por exemplo, pode haver metas institucionais bem definidas, mas práticas de desenvolvimento desarticuladas; ou processos de avaliação formalmente instituídos, mas desconectados do aprimoramento contínuo e da identificação de necessidades de capacitação. Portanto, a ênfase estratégica exige que o conjunto de práticas seja organizado de modo a sustentar, de forma sistemática, o desempenho organizacional e o desempenho individual. A premissa do desempenho e do alcance dos resultados esperados implica uma série de mudanças na forma de agir do atual ‘departamento de pessoal’, por 12 meio de um modelo de gestão estratégica de pessoas, transformando-o em uma área de ‘gestão estratégica de pessoas’. 2.2 MECANISMOS DA GESTÃO ESTRATÉGICA DE PESSOAS Os principais mecanismos e instrumentos da gestão estratégica de pessoas são: a) Planejamento de recursos humanos; b) Gestão de competências; c) Capacitação continuada com base em competências; e d) Avaliação de desempenho e de competências. Esses elementos guardam uma relação de dependência entre si. Para visualizar essa relação de dependência de forma sistêmica, é útil enxergar os mecanismos como um ciclo contínuo, no qual cada etapa produz insumos para a seguinte e, ao mesmo tempo, recebe retorno para correções e ajustes. Em vez de iniciativas isoladas, a lógica da gestão estratégica de pessoas pressupõe encadeamento: o planejamento orienta o que deve ser priorizado, a gestão de competências esclarece “o que é necessário”, a capacitação desenvolve “o que falta”, e a avaliação verifica “o que foi efetivamente alcançado”, retroalimentando o planejamento com evidências. Fluxo sistêmico dos mecanismos (ciclo de retroalimentação) Planejamento de Recursos Humanos → Gestão de Competências (definição de competências e perfis) → Capacitação Continuada (desenvolvimento com base nas competências) → Avaliação de Desempenho e de Competências (verificação de efetividade) → Retroalimentação do Planejamento (ajustes de prioridades, perfis e ações) Nesse ciclo, o Planejamento de Recursos Humanos dá direção e organiza o suprimento do quadro, pois explicita necessidades futuras e orienta decisões sobre quantitativo e alocação. A Gestão de Competências funciona como eixo estruturante, 13 porque traduz necessidades da organização em competências e perfis profissionais, permitindo que o planejamento deixe de ser genérico e se torne aderente ao que a organização precisa executar. A Capacitação Continuada, quando baseada em competências, deixa de ser episódica e passa a ter foco: desenvolve lacunas identificadas e reforça padrões de atuação desejados. Por fim, a Avaliação de Desempenho e de Competências produz evidências: mede como as pessoas estão atuando, se as competências previstas estão sendo mobilizadas e se a capacitação está gerando efeitos reais, fornecendo informações para correção de rotas. Quando um mecanismo falha, o sistema tende a produzir “efeitos colaterais” que prejudicam a coerência do conjunto. Um exemplo típico ocorre quando se capacita sem diagnóstico: a organização investe tempo e recursos em ações formativas que não atacam as lacunas relevantes, gerando baixa aplicação prática e pouca melhoria no desempenho, o que enfraquece a confiança na própria política de capacitação. Esse exemplo pode ser encontrado em nossas instituições, pois não é incomum que corporações bombeiros militares invistam em capacitações de militares, muitas vezes a custos altíssimos, que não se traduzem em efeito multiplicador institucional, ou seja, não se transformam em mecanismo de melhoria para a sociedade, permanece como um mero certificado ou brevê. Outro exemplo aparece quando se avalia sem critérios claros e conectados às competências: a avaliação vira formalidade, não produz insumos úteis para desenvolvimento e não orienta decisões, tornando difícil identificar necessidades de capacitação e ajustar perfis, quantitativos e prioridades. As avaliações de fichas individuais para promoções por merecimento por exemplo, costumeiramente não traduzem a realidade avaliativa de competência. Com essa visão de ciclo, fica mais fácil compreender por que a integração entre mecanismos é indispensável: cada etapa depende da qualidade da anterior e fornece condições para a próxima. É nesse sentido que, na sequência, detalha-se como a Gestão de competências define as competências e os perfis profissionais 14 necessários à organização e como essas definições orientam o planejamento, a alocação, a avaliação e a capacitação continuada. a) Planejamento de Recursos Humanos: Considerando que as necessidades de pessoal em uma organização variam ao longo do tempo, o Planejamento de recursos humanos visa sistematizar a avaliação das necessidades futuras de pessoas na organização, com o objetivo de supri-la com um quadro de pessoal adequado em relação ao perfil profissional e à composição quantitativa e qualitativa. Ele inclui a definição de estratégias e ações para viabilizar o suprimento dessas necessidades, alinhadas aos objetivos e metas organizacionais, integradas ao seu planejamento estratégico, vinculadas às disponibilidades orçamentárias e dentro das exigências legais. O Planejamento de recursos humanos tem como pressuposto o envolvimento da alta direção e dos diversos níveis gerenciais, além de representantes de todas as áreas da organização. Ele também pressupõe a construção de um cenário futuro para a definição de perfis profissionais e composição qualitativa e quantitativa do quadro de pessoal. Para isso, é realizada uma avaliação de possíveis mudanças no contexto interno e externo à organização, a fim de identificar os gaps de competências e desenvolver estratégias para o suprimento desses. Salienta-se que esse planejamento é um processo contínuo que deveser revisto periodicamente, uma vez que as necessidades mudam ao longo do tempo e os perfis profissionais, composição e quantitativo, devem acompanhar essas alterações. A utilização contínua desse processo propiciará a adequação do dimensionamento do quadro de pessoal no serviço público. 15 Para que esse processo contínuo se traduza em decisões objetivas, o Planejamento de recursos humanos precisa ser operacionalizado com perguntas-guia, critérios mínimos e evidências registráveis. Em organizações públicas, especialmente aquelas com atividades finalísticas críticas, como são os corpos de bombeiros militares, uma forma prática de dar concretude ao planejamento é estruturar um ciclo curto de “levantamento de demanda de serviços e de pessoal”, articulado com metas institucionais e com as possibilidades legais de provimento e movimentação. Como exemplo aplicado, considere as unidades operacionais da sua corporação distribuídas territorialmente e com variações sazonais de demanda (período de estiagem por exemplo). O ponto de partida é descrever, por unidade e por processo de trabalho, quais entregas são esperadas no período (por exemplo: atendimento de ocorrências, ações preventivas, fiscalização, atividades administrativas de suporte). Em seguida, o gestor consolida as perguntas essenciais: (1) quais atividades tendem a crescer, reduzir ou mudar por fatores internos e externos; (2) quais perfis profissionais são indispensáveis para cumprir as metas; (3) onde há sobrecarga, ociosidade, lacunas críticas ou redundâncias; (4) quais restrições existem (orçamento, legislação, lotação, escalas, jornada, qualificações obrigatórias); e (5) que alternativas são viáveis (redistribuição interna, remanejamento, recomposição gradual, contratações temporárias quando cabíveis, terceirização de apoio, ou reforço por capacitação). b) Gestão de Competências: Para tratar desse tema é necessário definir competência e, para isso, entre as diversas definições existentes, destacamos a definição de Fleury (2000)3, apresentada a seguir: “Competência é um saber agir responsável e 16 reconhecido, que implica mobilizar, integrar, transferir conhecimentos, recursos, habilidades, que agreguem valor econômico à organização e valor social ao indivíduo.” Essa definição pressupõe a aplicação dos conhecimentos, habilidades e atitudes do indivíduo na organização. Entretanto, a materialização dessa aplicação, segundo Dutra (2001), ó se realiza efetivamente se o indivíduo realmente entregar suas competências à organização. O conceito de entrega, proposto por Dutra, complementa a definição de competência apresentada, e inclui a capacidade de entrega como um fator condicionante à genuína aplicação dos conhecimentos, habilidades e atitudes individuais. A importância desse mecanismo de gestão é tamanha, que dedicamos um capítulo deste material exclusivamente para abordar e conhecer melhor o tema. c) Capacitação Continuada baseada em Competências: A intenção da capacitação é o desenvolvimento de um quadro de pessoal com as competências necessárias para satisfazer às necessidades e aos objetivos da organização, de modo a garantir seu bom desempenho e o alcance dos resultados e metas estabelecidos no planejamento estratégico. Ela deve se basear no mapeamento das competências necessárias à organização e nas existentes no quadro de pessoal, identificando os gaps entre o necessário e o existente. Deve também utilizar os resultados da avaliação de desempenho, que constitui uma rica fonte de informação sobre as necessidades de capacitação. Para que essa lógica se traduza em ações efetivas, é necessário transformar o diagnóstico de lacunas (gaps) em um plano de capacitação com prioridades, objetivos claros e critérios de acompanhamento. Em termos práticos, a capacitação baseada em lacunas parte de uma pergunta central: quais competências precisam ser desenvolvidas primeiro para sustentar os 17 resultados e metas do planejamento estratégico? A resposta não deve ser genérica; ela exige priorização por criticidade (impacto no serviço), urgência (necessidade imediata) e abrangência (quantas unidades ou funções são afetadas), evitando ações dispersas que não reduzem as lacunas relevantes. A capacitação deve ser um processo contínuo, uma vez que à medida que a organização evolui, acompanhando as mudanças das demandas externas, surgem novas necessidades em termos de competências que devem ser supridas com o fornecimento de novos programas de capacitação. Ela deve ser um dos principais mecanismos para o desenvolvimento profissional do quadro de pessoal e deverá ser um dos fatores a serem considerados para o estabelecimento do mérito e para a progressão na carreira. Esta última, entretanto, considera também, para efeito de evolução na carreira, outros quesitos como a realização de cursos de formação e de pós-graduação em assuntos compatíveis com as competências essenciais, ligadas à missão da organização. d) Avaliação de Desempenho e Competências: A avaliação de desempenho, que também é objeto de abordagem específica no capítulo quatro, é um sistema formal de gerenciamento que rovê a avaliação da qualidade do desempenho individual e/ou institucional m uma organização. Assim, ela pode visar apenas o indivíduo ou também as equipes, as áreas e a organização. A avaliação de desempenho institucional pode ser um elemento de complementaridade da avaliação individual, fortalecendo o trabalho em equipe e facilitando o alcance das metas definidas. Ela não deve ser utilizada isoladamente, pois pode causar uma visão distorcida em relação ao desempenho individual, uma vez que oferece os dados consolidados 18 referentes a uma equipe ou área e esses nem sempre coincidirão com os resultados individuais. A adoção de uma política de avaliação de desempenho representa uma ferramenta importante para o desenvolvimento de uma cultura voltada para resultados. Tal afirmação é baseada no pressuposto de que o alinhamento de objetivos individuais e das equipes às metas da organização implica o maior envolvimento dos funcionários de todos os níveis, os quais passam a se sentir pessoalmente responsáveis pelo desempenho da organização. Em que pese a discussão a respeito da subjetividade de determinados critérios adotados e a tendência à complacência por parte dos avaliadores, se bem utilizada, a avaliação de desempenho é uma das ferramentas mais poderosas de uma organização. Visa o desenvolvimento profissional e das competências individuais e organizacionais que possibilitem o alcance de metas estratégicas. 19 3. CONTEXTO NA GESTÃO PÚBLICA A sociedade tem exigido que o poder público seja cada vez mais não apenas eficiente, mas também eficaz e efetivo. Não basta apenas buscar o melhor custo- benefício, se os resultados não forem alcançados e se não atenderem às necessidades reais das pessoas. Os cidadãos estão mais exigentes quanto à qualidade dos serviços públicos. Hoje, a qualidade e a adequação dos serviços às necessidades da população são essenciais para o bom desempenho de qualquer órgão público. Além disso, há uma cobrança maior por transparência, ética, e pela gestão responsável dos recursos, que estão cada vez mais escassos. Esse cenário torna evidente que a gestão de pessoas no setor público não pode ser analisada de forma abstrata: ela depende diretamente do contexto institucional, normativo e cultural em que o órgão está inserido. Por isso, ao tratar de eficiência, eficácia e efetividade, é preciso reconhecer que a implantação de práticas de gestão (inclusive as orientadas por competências) encontra condicionantes específicos que influenciam o ritmo, a profundidade e a consistência das mudanças, em especial na caserna. Condicionantes do setor público e implicações na gestão de pessoas: 1) Ênfase em conformidade e formalismo: tende a concentrar energia em procedimentos e controles, exigindo que iniciativas de gestão sejam traduzidas em regrasclaras e rotinas institucionalizadas para ganhar estabilidade. 2) Rigidez normativa e limites à flexibilidade: muitas soluções gerenciais dependem de adequações normativas e de alinhamento com instâncias decisórias, o que demanda planejamento, articulação e persistência na implementação. 20 3) Baixa ênfase histórica no desempenho: dificulta consolidar cultura de resultados, feedback e responsabilização, tornando essencial explicitar critérios, metas e formas de acompanhamento do trabalho. 4) Rotatividade e alternância de prioridades na chefia: pode interromper ciclos de melhoria e gerar descontinuidade, reforçando a necessidade de registrar decisões, padronizar processos e manter uma agenda mínima de gestão de pessoas 5) Estruturas e mobilidade funcional restritas: limitam realocações e ajustes rápidos, exigindo foco em desenvolvimento contínuo e no uso mais inteligente das competências já existentes. Para apoiar a leitura desse contexto, recomenda-se um exercício simples de maturidade de implantação, com foco em ações concretas por ator organizacional. Atividade — Maturidade em gestão de pessoas orientada a resultados e competências: Nível 1 (Inicial): práticas dispersas e reativas. Alta gestão: define prioridades mínimas e patrocina uma agenda anual de gestão de pessoas. Gestores: estabelecem rotinas básicas de acompanhamento do trabalho e orientação da equipe. RH: organiza informações essenciais (perfis, necessidades e capacitações) e padroniza procedimentos. Nível 2 (Em consolidação): práticas integradas e acompanhadas. Alta gestão: cobra indicadores simples e revisões periódicas. Gestores: aplicam feedback e articulam necessidades de capacitação com resultados. RH: estrutura processos contínuos (avaliação, capacitação e desenvolvimento). Nível 3 (Avançado): cultura de resultados e melhoria contínua. Alta gestão: sustenta políticas e garante continuidade. Gestores: alinham equipe às metas e reduzem lacunas de desempenho. RH: conecta planejamento, avaliação e capacitação em ciclo permanente, reforçando a lógica de competências. 21 A partir dessa compreensão do contexto, torna-se mais claro porque a organização precisa se tornar mais flexível e rápida, inclusive com modernização de normas, estrutura e equipes, para alcançar melhores resultados. Embora essas mudanças não sejam novas nas empresas privadas, nas organizações públicas representam um grande desafio. Elas envolvem não só mudanças nas estruturas e na forma de funcionamento, mas também uma mudança na forma como servidores e a sociedade enxergam o que é público. Por isso, é necessário que os órgãos públicos repensem seus objetivos e ajustem suas estruturas e processos para alcançar melhores resultados. A transformação para um modelo focado em resultados exige abandonar alguns padrões antigos de gestão e repensar outros. É importante entender que não há mudanças significativas na sociedade e na administração pública sem considerar a história. A tradição de uma administração pública legalista e formal, combinada com a cultura de patrimonialismo e individualismo, cria um ambiente desafiador para a gestão de pessoas. Esse histórico resultou em um estilo de gestão historicamente autoritário, com relações excessivamente formais, mas sem a padronização necessária. Nesse tipo de organização, a busca pela eficiência muitas vezes leva a um modelo rígido, que não incentiva aqueles que trabalham no nível operacional a pensar em maneiras alternativas de gestão. Isso cria uma separação entre o trabalho operacional e o intelectual. Além disso, a dificuldade de mobilidade funcional e as estruturas organizacionais rígidas tornam difícil adaptar a organização às complexas demandas sociais e às necessidades dos servidores públicos, especialmente em relação a carreiras e reconhecimento profissional. 22 Era da Gestão de Recursos Humanos Estratégica (Século XXI) A forma como a gestão dos recursos humanos é realizada hoje se deve a um conjunto de características comuns à maioria das organizações públicas e que podem ser evitadas. Entre elas, destacam-se: a) Rigidez imposta pela legislação – nas entrevistas e discussões com o pessoal que atua em organizações públicas, percebe-se que eles têm, muitas vezes, ideias para solucionar os problemas que se apresentam, mas muitas das soluções esbarram na legislação, que os impede de implementá-las. No entanto, ainda que dependa de um processo legislativo complexo, é inerente à administração pública cogitar as hipóteses de mudança na legislação,inclusive como forma de preservar o interesse público; b) Desvinculação da visão do cidadão como destinatário do serviço público – em diversas organizações públicas ainda não é clara a ideia de que o cidadão é a razão de ser da organização, pois é para ele que qualquer serviço público trabalha. Por outro lado, o próprio cidadão desacredita o papel do serviço público como forma de solução para seus problemas. Como está muito arraigado na cultura da população, sugere-se a necessidade de mudança de mentalidade dos dois lados. c) Pouca ênfase no desempenho – muitas organizações públicas ainda não vinculam a realização do trabalho com o adequado desempenho. Apesar dos esforços orientados para a introdução dos valores da meritocracia que remontam à década de 1930 e dos movimentos mais recentes de avaliação de desempenho que alcançam a década de 1970, também por conta da falta de visão do cidadão como cliente, o desempenho nem sempre é considerado na realização do trabalho. Entenda-se por desempenho a realização do trabalho de forma eficiente, eficaz e efetiva. Em outras palavras, o trabalho sendo realizado da 23 melhor forma possível, direcionado para o alcance dos objetivos e metas da organização, atingindo os resultados desejados no prazo previsto e satisfazendo aqueles para os quais o trabalho é realizado de forma permanente e contínua. d) Mecanismos de remuneração que desvinculam os vencimentos do desempenho – os funcionários sentem-se pouco estimulados a melhorar seu desempenho, uma vez que a remuneração independe desse fator de um lado, pode-se referir que esse fenômeno é capaz de provocar a inércia e a falta de comprometimento dos funcionários. Por outro, entretanto,se tomado o fato de que desde a década de 1970 são experimentadas sucessivas frustrações em termos de propostas de remuneração associadas ao desempenho, então resta manifesto o imperativo de repensaras bases desses processos. e) Limites à postura inovativa – além da questão remuneratória, a própria rigidez da legislação estimula a inércia gerencial, uma vez que muitas iniciativas esbarram nas limitações da legislação. f) Poucos mecanismos de planejamento e pouca preocupação com a gestão – a fraca ênfase no desempenho conduz a uma atuação voltada para o cumprimento das tarefas do dia a dia, sem preocupação com um planejamento que contemple uma visão para o curto, médio e longo prazo. Por conta disso também não há uma cultura de monitoramento de resultados, feedback e envolvimento dos funcionários na melhoria contínua da gestão. g) Rotatividade na ocupação de posições de chefia – por conta da rotatividade, as posições de chefia podem apresentar intensa alternância entre os membros da equipe de trabalho ou do órgão. Nesse particular, todavia, caberia uma investigação empírica envolvendo o mapeamento dos fluxos, o destino daqueles que deixam as posições de chefia e da percepção das pessoas em relação ao impacto desses 24 condicionantes no desempenho da equipe, em particular no que diz respeito às medidas de responsabilização. h) O papel da gratificação – em muitas situações nas organizações públicas a gratificação é utilizada como forma improvisada de compensação à impossibilidade de aumento salarial. Tal fator constitui uma de formaçãoda verdadeira função da gratificação, que foi criada para contemplar funções desempenhadas que apresentam algum risco ou esforço adicional aos previstos naexecução da maior parte das tarefas da organização. 25 4. GESTÃO POR COMPETÊNCIA NA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA A gestão por competências é uma abordagem estratégica que busca alinhar as capacidades individuais e coletivas de uma organização com seus objetivos institucionais. Na administração pública, esse modelo é especialmente relevante para melhorar a eficiência, a eficácia e a qualidade dos serviços prestados à sociedade, atendendo às crescentes demandas por resultados e transparência. Ao final da Idade Média, o conceito de competência estava majoritariamente vinculado ao âmbito jurídico, referindo-se à autoridade ou capacidade atribuída a uma pessoa ou instituição para analisar e julgar determinadas questões. Com o tempo, o termo foi incorporado ao universo organizacional, passando a designar a capacidade de um indivíduo em desempenhar com eficiência uma atividade ou função específica, especialmente em um contexto institucional (Brandão, 2012; 2005). A busca das organizações por indivíduos capacitados para desempenhar suas funções de forma eficaz não é recente. Já no início do século XX, os estudos de Taylor destacavam a importância de identificar os chamados “homens eficientes”, ressaltando que a demanda por pessoas competentes era maior que a oferta disponível. Baseadas nos princípios tayloristas, muitas empresas direcionavam seus esforços para desenvolver as habilidades técnicas de seus funcionários, centrando-se em funções específicas e nas exigências do cargo. Sob essa perspectiva, competência era entendida como o conjunto de conhecimentos e habilidades que habilitavam um profissional a exercer determinada atividade (Brandão, 2005). Com o avanço das demandas sociais e a crescente complexidade nas relações de trabalho, as organizações começaram a incluir, além de conhecimentos e habilidades, aspectos comportamentais e sociais no desenvolvimento de seus colaboradores. Zarifian (1996, apud Brandão, 2005) argumenta que, em um ambiente 26 competitivo e dinâmico, o trabalho não pode ser visto apenas como um conjunto de tarefas estáticas. Segundo ele, competência está relacionada à capacidade de assumir responsabilidades em situações complexas, aliada à reflexão sistemática sobre o trabalho, permitindo que o profissional enfrente situações inéditas e desafiadoras. O uso frequente do termo competência no contexto da gestão organizacional levou ao surgimento de várias interpretações. Brandão e Guimarães (2001) e McLagan (1997, apud Brandão, 2005) apontam que as abordagens modernas associam competência diretamente ao desempenho. Ropé e Tanguy (1997, apud Brandão, 2005) afirmam que competência só pode ser compreendida em conjunto com a ação. Dutra, Hipólito e Silva (1998) complementam ao definir competência como a capacidade de gerar resultados alinhados aos objetivos organizacionais. Nesse contexto, o desempenho surge como elemento-chave na discussão sobre competência. Freitas e Brandão (2006) reforçam essa conexão ao definir competência como a integração de conhecimentos, habilidades e atitudes, expressa no desempenho profissional dentro de um determinado ambiente organizacional. Assim, o desempenho reflete as competências desenvolvidas ao longo da trajetória profissional do indivíduo. Para Zarifian (1999), as competências são reveladas quando o profissional atua em situações reais de trabalho, conectando atributos individuais à estratégia organizacional (Prahalad; Hamel, 1990). Carbone et al. (2006) acrescentam que competência se manifesta por meio do desempenho do indivíduo em um contexto específico, traduzido em comportamentos e realizações, fruto da mobilização de conhecimentos, habilidades e atitudes. Apesar das diversas interpretações, dois aspectos se destacam como comuns em quase todas as definições: 1. Competências envolvem a mobilização integrada de conhecimentos, habilidades e atitudes. 27 2. Competências são observáveis e expressas por meio do comportamento e do desempenho individual. Portanto, as competências agregam valor econômico e valor social aos indivíduos e às organizações, na medida em que contribuem para a consecução de objetivos organizacionais e expressam o reconhecimento social sobre a capacidade de determinada pessoa, vejamos a ilustração: Elementos constitutivos da competência profissional. Fonte: Gestão por Competências – ENAP/20215 Para que essa compreensão deixe de ser apenas conceitual e se converta em prática de gestão, a implantação da gestão por competências precisa seguir uma lógica de etapas encadeadas. Em termos operacionais, o processo inicia com a mobilização interna (para alinhar entendimento e garantir participação), avança para o mapeamento (para explicitar o que é necessário), passa pelo diagnóstico de lacunas (para identificar diferenças entre o requerido e o existente), consolida-se na validação (para assegurar consistência e legitimidade) e, por fim, integra-se aos processos de gestão (para produzir efeitos contínuos no desempenho e na entrega institucional). No contexto militar, esse encadeamento se torna ainda mais perceptível. Uma corporação depende de padrões claros de atuação, disciplina de execução e coordenação entre áreas e equipes. Quando as competências individuais são desenvolvidas e mobilizadas de modo coerente com as necessidades institucionais, a 28 organização fortalece suas competências coletivas — na forma de rotinas mais eficazes, melhor integração entre setores e maior consistência na tomada de decisão. Antes de revisitar a evolução histórica do conceito, essa distinção ajuda a compreender por que a gestão por competências é tratada como abordagem estratégica e orientada a resultados. 29 4.1 DIMENSÕES DA COMPETÊNCIA Uma competência profissional resulta da mobilização, por parte do indivíduo, de uma combinação recursos. Le Boterf (1999) explica que a competência da pessoa é decorrente da aplicação conjunta, no trabalho, de conhecimentos, habilidades e atitudes, que representam os três recursos ou dimensões da competência. De acordo com Durand (2000), conhecimento corresponde a uma série de informações assimiladas e estruturadas pelo indivíduo, que lhe permitem “entender o mundo”. Referese ao saber que a pessoa acumulou ao longo da vida. Davenport e Prusak (1998) e Davis e Botkin (1994) explicam que o conhecimento deriva da informação, que, por sua vez, deriva de conjuntos de dados. Segundo esses autores, dados são séries de fatos ou eventos isolados; informações são dados que, percebidos pelo indivíduo, têm significado e relevância; e conhecimentos são conjuntos de informações reconhecidas e integradas pelo indivíduo dentro de um esquema pré-existente, causando impacto sobre seu julgamento ou comportamento. Essa dimensão, para Bloom et al. (1979) e Gagné et al. (1988), representa algo relacionado à lembrança de ideias ou fenômenos, alguma coisa armazenada na memória da pessoa. A habilidade, por sua vez, está relacionada ao saber como fazer algo (Gagné et al., 1988) ou à capacidade de fazer uso produtivo do conhecimento, ou seja, de instaurar conhecimentos e utilizá-los em uma ação (Durand, 2000). Segundo Bloom et al. (1979), uma definição operacional comum sobre habilidade é a de que o indivíduo pode buscar em suas experiências anteriores conhecimentos, sejam eles de fatos ou princípios, e técnicas apropriadas, para examinar e solucionar um problema qualquer. As habilidades podem ser classificadas como intelectuais, quando abrangerem essencialmente processos mentais de organização e reorganização de informações – por exemplo, em uma conversação ou na realização de uma operação matemática – e como motoras ou manipulativas, quando exigirem 30 fundamentalmente uma coordenação neuromuscular, como na realização de um desenho ou na escrita a lápis, por exemplo (Bloom et al., 1979; Gagné et al., 1988). Ao abordar as duas primeiras dimensões da competência (conhecimentos e habilidades), Durand (2000) utiliza a estruturade análise do conhecimento sugerida por Sanchez (1997), explicando que habilidade refere-se ao saber como fazer algo dentro de um determinado processo (know-how), enquanto conhecimento diz respeito ao saber o que e por que fazer (know-what e know-why), ou seja, à compreensão do princípio teórico que rege esse processo e seu propósito. Finalmente, a atitude, terceira dimensão da competência, refere-se a aspectos sociais e afetivos relacionados ao trabalho (Durand, 2000). Gagné et al. (1988) comentam queatitudes são estados complexos do ser humano que afetam o seu comportamento em relação a pessoas, coisas e eventos, determinando a escolha de um curso de ação pessoal. Segundo esses autores, as pessoas têm preferências por alguns tipos de atividades e mostram interesse por certos eventos mais que por outros. O efeito da atitude é justamente ampliar a reação positiva ou negativa de uma pessoa, ou seja, sua predisposição, em relação à adoção de uma ação específica. Essa última dimensão está relacionada a um sentimento, uma emoção ou um grau de aceitação ou rejeição da pessoa em relação aos outros, a objetos ou a situações. Portanto, por analogia, atitude refere-se ao querer fazer. Vale ressaltar que a competência pressupõe interdependência e complementaridade entre conhecimentos, habilidades e atitudes, ou seja, requer a aplicação conjunta dessas três dimensões em torno de um objetivo no trabalho. Na prática, a ideia de Conhecimentos, Habilidades e Atitudes (CHA) se torna mais clara quando descrevemos a competência com foco em entrega (o que deve ser realizado no trabalho) e, em seguida, desdobramos os recursos que sustentam essa entrega. Abaixo seguem dois exemplos didáticos e um contraexemplo para evitar confusões comuns. 31 Exemplo 1 — Elaborar e manter uma escala de serviço com conformidade e equidade. Entrega: escala publicada dentro do prazo, sem conflito de lotação e respeitando critérios definidos. Conhecimentos: normas internas aplicáveis, regras de jornada/plantão, critérios de prioridade e restrições operacionais. Habilidades: organizar informações, conciliar demandas, registrar decisões, revisar inconsistências e comunicar ajustes. Atitudes: responsabilidade, imparcialidade, disciplina no cumprimento de prazos e disposição para corrigir falhas. Exemplo 2 — Conduzir orientação e feedback de desempenho na equipe. Entrega: devolutiva objetiva, com pontos fortes, pontos a melhorar e encaminhamentos acordados. Conhecimentos: padrões de desempenho esperados, atribuições da função, critérios de observação e registros do trabalho. Habilidades: escuta ativa, comunicação clara, registro de evidências, condução de conversa difícil e pactuação de ações. Atitudes: respeito, postura profissional, senso de justiça, foco no desenvolvimento e compromisso com o resultado do serviço. Contraexemplo — “Ter ensino superior” ou “ser proativo”. “Ter ensino superior” é um requisito (pode ser necessário, mas não descreve entrega no trabalho). “Ser proativo”, sozinho, é uma formulação vaga: não explicita comportamento observável nem resultado esperado. Para virar competência, precisa ser descrito como ação e entrega (por exemplo, “antecipar riscos operacionais e propor medidas de prevenção registradas e executáveis”). 32 Atividade (adaptada) — Classificando competências por CHA e por complexidade Leia as competências abaixo e responda: (1) qual dimensão tende a ser mais crítica (conhecimento, habilidade ou atitude); (2) qual nível de complexidade (básico, intermediário, avançado), justificando com base na entrega esperada. a) Aplicar corretamente um procedimento padronizado do setor. b) Analisar um problema recorrente e propor melhoria no fluxo de trabalho. c) Mediar conflito na equipe preservando disciplina e foco na missão. d) Planejar uma ação de capacitação alinhada a lacunas observadas no desempenho. Com esses exemplos em mente, fica mais simples compreender o CHA como ferramenta prática para descrever, desenvolver e avaliar competências no contexto institucional. Vamos nos aprofundar um pouco sobre esse tema? Conhecimentos, Habilidades e Atitudes (CHA). Fonte: Gestão por Competências – ENAP/20215 Convidamos o aluno assistir a uma breve explanação sobre o tema Conhecimentos, Habilidades e 33 Atitudes, o famoso CHA. Clique em https://youtu.be/TjUCJnnxyjo?si=J6cfbDteWpFM_WB8 ou leia o qrcode acima. Mas somos militares: em uma primeira leitura superficial, um futuro coronel poderia não compreender e imaginar como isso se relacionaria com nossa atividade na caserna. De que forma isso pode ser implementado em minha instituição? Então vamos aprender com quem já se debruçou sobre o tema e produziu um excelente material de pesquisa. Por enquanto, saia dessa apostila e procure a primeira atividade disponível no ambiente de aprendizagem virtual. https://youtu.be/TjUCJnnxyjo?si=J6cfbDteWpFM_WB8 34 CONCLUSÃO Encerramos esta disciplina reforçando a importância do tema, que desde o início da revolução industrial passou a ganhar contornos que adentraram em nas instituições castrenses. O desafio necessário em conhecer, detalhar e absorver o vasto conhecimento sobre gestão de pessoas em apenas 50 horas aulas depende muito mais da intenção do aluno em se aprofundar nesta área do conhecimento do que o material didático. Este, por sua vez foi elaborado de modo a se tornar um guia básico, para que o futuro coronel do Corpo de Bombeiros Militar, tenha conhecimento suficiente para estabelecer ferramentas modernas e construtivas para contribuir para a evolução da sua instituição. A bibliografia utilizada na produção desta apostila permitirá aos alunos um maior aprofundamento sobre a gestão dos nossos briosos combatentes do fogo. Bons estudos. Tadeu Sanchez Pinheiro – Cel BM (2026) “A reação mais comum da mente humana a uma conquista não é satisfação, e sim o anseio por mais.” Yuval Noah Harari 35 BIBLIOGRAFIA Armstrong, M. (2011). Gestão de Recursos Humanos. São Paulo: Atlas. Boson, G. M. S. (2024). A Gestão de Pessoas no Âmbito do Corpo de Bombeiros Militar da Bahia com Base na Gestão por Competência Chiavenato, I. (2000). Administração de Recursos Humanos. São Paulo: Atlas. Chiavenato, I. (2014). Gestão de Pessoas: O novo papel dos recursos humanos nas organizações Chiavenato (2000) critica essa abordagem por reduzir os trabalhadores a "meras máquinas". Dalmau, M. B. L., & Tosta, K. C. B. T. (2009). Estratégia de Gestão de Pessoas. Mayo, E. (1933). O Problema Humano da Organização Industrial. Pantoja, Maria Júlia - Gestão por competências / Maria Júlia Pantoja - Brasília: Enap, 2015 Sirênio; Alves; Hemerly. Atuação do Líder na Gestão Estratégica de Pessoas (RAC), combinação entre práticas/políticas e liderança atuante para efetividade. Taylor, F. W. (1911). Princípios da Administração Científica. INTRODUÇÃO 1. HISTÓRICO 2. ADMINISTRAÇÃO X GESTÃO DE PESSOAS 2.1 GESTÃO ESTRATÉGICA DE PESSOAS 2.2 MECANISMOS DA GESTÃO ESTRATÉGICA DE PESSOAS 3. CONTEXTO NA GESTÃO PÚBLICA 4. GESTÃO POR COMPETÊNCIA NA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA 4.1 DIMENSÕES DA COMPETÊNCIA CONCLUSÃO BIBLIOGRAFIA