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Máyra Dias T-38 Estômago, Intestino Delgado e Grosso 1. Organização Peritoneal e Relações Anatômicas 1.1 Conceitos fundamentais Peritônio parietal: recobre a parede abdominal interna. Peritônio visceral: recobre diretamente as vísceras. Espaço peritoneal: espaço virtual com filme de líquido seroso que facilita o deslizamento. Cavidade abdominal ≠ cavidade peritoneal: a peritoneal é o espaço virtual entre as lâminas. 1.2 Posição dos órgãos Intraperitoneais: mais móveis (ex.: estômago, alças do intestino delgado, fígado, baço). Retroperitoneais: fixos, pouca mobilidade, sem ou com cobertura peritoneal parcial (ex.: rins, pâncreas, aorta, VCI, suprarrenais). 1.3 Pregas peritoneais e espaços Meso: dupla lâmina parede ↔ víscera (ex.: mesentério, mesocólon). Omento (epíploon): dupla lâmina víscera ↔ víscera. Omento menor = lig. hepatogástrico + hepatoduodenal (contém tríade portal: artéria hepática, veia porta, ducto colédoco). Omento maior: “avental gorduroso” que recobre vísceras até o cólon; função imunológica (adere a áreas inflamadas – “polícia abdominal”). Bolsa omental (saco menor): atrás do estômago; comunica-se com a cavidade peritoneal pelo forame epiploico de Winslow → relevância em abscessos retrocavitários e acesso ao pâncreas. 1.4 Clínica Processos inflamatórios (ex.: apendicite, peritonite) iniciam com dor visceral difusa e evoluem para dor localizada quando o peritônio parietal é acometido (inervação somática). 2. Estômago 2.1 Topografia e projeções de superfície Local: epigástrio e hipocôndrio esquerdo. Óstio cárdico: nível T11, atrás da 6ª cartilagem costal esquerda. Fundo gástrico: sob a cúpula diafragmática esquerda. Óstio pilórico: nível L1 (plano transpilórico). Variações por biótipo: Hiperestênico → estômago alto, mais transversal. Astênico → estômago baixo, mais vertical. 2.2 Morfologia externa Órgão muscular em forma de “J”: armazenamento temporário e digestão mecânica/química. Óstios: Cárdia (entrada do esôfago). Piloro (saída para duodeno; esfíncter pilórico anatômico com contração tônica e esvaziamento intermitente). Partes: cárdia, fundo, corpo, antro → canal pilórico → piloro. Curvaturas: menor (direita, contínua com esôfago) e maior (esquerda, convexa). Incisuras: cárdica (ângulo de His/Riess) e angular (referência corpo ↔ antro). 2.3 Morfologia interna e histologia Pregas gástricas (rúgulas): distensão e orientação do fluxo ao piloro. Transição esôfago–estômago: linha Z (epitélio pavimentoso estratificado → colunar). Linha Z normal: ao nível do hiato esofágico. Linha Z deslocada para cima: hérnia de hiato, risco de DRGE/esofagite. Camadas da parede: Mucosa (epitélio colunar secretor + glândulas). Submucosa (tecido conjuntivo; plexo de Meissner). Muscular: longitudinal (ext.), circular (média) e oblíqua (int.) → exclusiva do estômago (trituração/mistura). Serosa (peritônio visceral). Barreira antirrefluxo: não há esfíncter anatômico verdadeiro no cárdia; é uma barreira fisiológica. 2.4 Vascularização, drenagem e inervação Artérias (5 conjuntos): gástrica esquerda, gástrica direita, gastromentais (direita/esquerda; = gastroepiploicas), gástricas curtas. Anastomoses abundantes → viabilidade mesmo com 1 artéria preservada. Veias: drenam para o sistema porta (via esplênica ou mesentérica sup.). Linfáticos: gástricos, esplênicos, pancreatoduodenais. Inervação: Parassimpática: nervos vagos (X) → motilidade/segregação. Simpática: esplâncnicos maiores → plexo celíaco (vasomotricidade). 2.5 Clínica, endoscopia e cirurgia Endoscopia: retrovisão para observar o fundo. Gastrectomias: parcial/total em neoplasias; atenção à preservação vascular. Esofagectomia: estômago pode substituir o esôfago (anastomose faringogástrica). Alternativa: interposição colônica. Cirurgias bariátricas: Sleeve (gastrectomia vertical): restritiva, pode dilatar com o tempo. Bypass gástrico: bolsa ~50 ml + derivação intestinal → restritivo + disabsortivo; trânsito mais rápido ao íleo. Pós-operatório: “dieta de copinhos”. Patologias: DRGE (barreira cárdica incompetente), úlcera péptica, câncer gástrico. 3. Intestino Delgado 3.1 Duodeno Máyra Dias T-38 Comprimento: 25–30 cm; forma de C envolvendo a cabeça do pâncreas. Porções: - Superior (1ª): com ampola duodenal (lisa). - Descendente (2ª): papila duodenal maior = desembocadura da ampola hepatopancreática (de Vater), controlada pelo esfíncter de Oddi. Clínica: cálculo impactado → icterícia obstrutiva + pancreatite aguda - Horizontal (3ª): entre aorta e AMS → síndrome do ângulo aorto-mesentérico (emagrecimento súbito). - Ascendente (4ª): termina na flexura duodenojejunal (ângulo de Treitz), fixada pelo ligamento de Treitz. Referência clínica: ângulo de Treitz separa hemorragia digestiva alta × baixa. 3.2 Jejuno × Íleo Divisão convencional: 2/5 proximais = jejuno; 3/5 distais = íleo. Jejuno (proximal): Calibre maior, parede espessa. Pregas circulares altas e numerosas. Mucosa rósea. Vasa recta longos, poucas arcadas (mesentério). Íleo (distal): Calibre menor, parede fina. Pregas baixas/esparsas. Mucosa pálida. Placas de Peyer (tecido linfoide). Vasa recta curtos, múltiplas arcadas. Divertículo de Meckel (remanescente do ducto onfalomesentérico): Regra dos 2: 2% da população; a 2 pés (~60 cm) da válvula ileocecal; 2% sintomáticos (sangramento, inflamação). Clínica: sangramento oculto; pode simular apendicite. 4. Intestino Grosso 4.1 Características gerais e histologia Partes: ceco, cólon (ascendente, transverso, descendente, sigmoide), reto e canal anal. Diferenças do delgado: Tênias do cólon (mesocólica, omental, livre). Haustrações (saculações). Pregas semilunares. Apêndices epiplóicos (gordura). Maior calibre interno. Histologia: Sem vilosidades. Criptas longas e numerosas. Células caliciformes abundantes (muco → lubrificação do bolo fecal). 4.2 Ceco e apêndice Ceco: bolsa cega ~7,5 cm, intraperitoneal e móvel; óstio ileal com lábios e frênulo (válvula ileocecal) → evita refluxo ileocecal. Apêndice vermiforme: 6–10 cm, na convergência das tênias, rico em tecido linfoide (papel imunológico). Irrigação: artéria apendicular (ramo da ileocólica). Variações de posição: retrocecal, pélvico, subhepático. Clínica – Apendicite Dor: periumbilical (visceral) → migra para FID (parietal). Sinais semiológicos: McBurney, Blumberg, Rovsing, Psoas, Obturador. Gestantes: apêndice pode deslocar cranialmente → diagnóstico mais difícil. Diferencial: apendagite epiplóica (torção de apêndices epiplóicos) pode simular apendicite. 4.3 Reto e canal anal Reto: possui pregas transversas (válvulas de Houston). Canal anal: colunas + válvulas anais → linha pectínea. Acima da linha pectínea: epitélio colunar, drenagem portal, inervação visceral → hemorroidas internas (pouco dolorosas). Abaixo da linha pectínea: epitélio pavimentoso (não queratinizado até a linha anocutânea; abaixo queratinizado), drenagem sistêmica, inervação somática → hemorroidas externas (muito dolorosas). Oncologia: acima comporta-se como câncer de cólon (adenocarcinoma); abaixo, como carcinoma epidermoide cutâneo. 5. Clínica e Cirurgia – Pontos de Prova e Prática Linha Z deslocada: hérnia hiatal e DRGE. Papila maior/Oddi: cálculo impactado → pancreatite aguda e icterícia obstrutiva. Ângulo de Treitz: referência hemorragia alta × baixa. Divertículo de Meckel: causa de sangramento em jovens; simula apendicite. Apendicite: evolução da dor + sinais semiológicos clássicos. Linha pectínea: critérios oncológicos (adenocarcinoma × epidermoide). Fecaloma: causa de obstrução em idosos; TC típica em “piolho de pão”. Manobras cirúrgicas: Cattell–Braasch: mobilização do cólon direito. Mattox: mobilização do cólon esquerdo. Quadros de Revisão Rápida (sem excluir conteúdo) A. Jejuno × Íleo (anatomia, mesentério, mucosa) Jejuno: calibre ↑; pregas altas e numerosas; mucosa rósea; vasa recta longos, poucas arcadas. Íleo: calibre ↓; pregas baixase escassas; mucosa pálida; placas de Peyer; vasa recta curtos, múltiplas arcadas. B. Acima × abaixo da linha pectínea (clínica) Máyra Dias T-38 Acima: epitélio colunar; porta; visceral → hemorroida interna (pouca dor); adenocarcinoma. Abaixo: epitélio pavimentoso (queratiniza abaixo da linha anocutânea); sistêmica; somática → hemorroida externa (dor intensa); carcinoma epidermoide. C. Estômago – camadas e endoscopia Camadas: mucosa → submucosa (Meissner) → muscular (longitudinal/circular/oblíqua) → serosa. Linha Z: ao nível do hiato (normal); acima = hérnia hiatal. Fundo: exige retrovisão endoscópica. D. Duodeno – 4 porções e clínica 1) Superior (ampola); 2) Descendente (papila maior/Oddi); 3) Horizontal (entre aorta e AMS – síndrome aorto- mesentérica); 4) Ascendente (ângulo de Treitz). Cálculo em Oddi → icterícia + pancreatite. E. Apendicite – dor e sinais Dor: periumbilical → FID. Sinais: McBurney, Blumberg, Rovsing, Psoas, Obturador. Gestantes: apêndice pode subir.