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SAPIRO, G (ed.). Dicionário Internacional Bourdieu . Paris: Edição CNRS, 2020. CAPITAL: O conceito de capital, que, juntamente com habitus e campo, constitui o cerne da sociologia de Pierre Bourdieu, tem origem em pesquisas inicialmente conduzidas no campo da cultura, campo que, desde a década de 1960, interessou e até fascinou o jovem Bourdieu. A publicação, em 1979, de La Distinction marca um passo importante na construção do sistema conceitual de Bourdieu. A obra poderia, de fato, ter sido intitulada Capital Cultural, considerando a importância das referências, no índice remissivo ao final do livro, ao verbete "capital". Uma Teoria do Capital A partir das análises resultantes dos inúmeros levantamentos realizados ao longo de duas décadas, o livro constrói, capítulo por capítulo, uma teoria do capital que se concentra, não no capital econômico como Karl Marx, mas no que ele chama de capital cultural. A partir dessa teoria, Bourdieu propõe uma nova teoria das classes em um momento em que se disseminava, inclusive nas ciências sociais, um discurso semi-acadêmico que previa o fim das classes sociais e da luta de classes. Bourdieu mostra que as "classes sociais" não estão desaparecendo, mas têm uma dimensão cultural cada vez mais decisiva. Quanto à "luta de classes", ela está mudando: os confrontos brutais e assassinos que caracterizavam as lutas sociais nas sociedades industriais emergentes estão gradualmente sendo substituídos por confrontos simbólicos. A luta agora assume a forma eufemística de uma oposição sobre classificações sociais, cujo princípio reside na crescente parcela de capital cultural que é, por assim dizer, gerada mecanicamente pelo desenvolvimento do processo de escolarização observável nas sociedades modernas. Em outras palavras, ao se basear em seu trabalho anterior sobre o sistema escolar, Bourdieu reintroduz a Escola no cerne da análise das classes sociais, o que, na época, pode ter parecido paradoxal ou mesmo escandaloso, dada a força da ideologia então dominante da Escola "libertadora", "emancipatória", "meritocrática e igualitária". A teoria do capital construída em La Distinction é o ápice de pesquisas realizadas, desde o início da década de 1960, sobre o papel do que ele então chamava de "fator cultural" na eliminação escolar e sobre as "práticas culturais" (os usos sociais da fotografia, a frequência a museus), tendo essas duas áreas em comum o fato de serem investidas por ideologias naturalizantes particularmente fortes, a saber, a ideologia da dádiva e a ideologia da excelência natural. Para melhor compreender a construção progressiva da noção de capital, não há método melhor do que acompanhar a gênese do conceito em Bourdieu e sua progressiva conexão com outros conceitos. A primeira análise do capital cultural – a noção ainda não era designada como tal e ainda não tinha a complexidade que adquiriria posteriormente – foi encontrada, já em 1964, na obra intitulada Les Héritiers, da qual Bourdieu foi coautor com Jean-Claude Passeron. Os autores então se propuseram a SAPIRO, G (ed.). Dicionário Internacional Bourdieu . Paris: Edição CNRS, 2020. explicar a eliminação educacional destacando o papel desempenhado pelo que chamaram de "patrimônio cultural". A ideologia da promoção pela escola e a ideologia do dom propunham, como todas as explicações ideológicas, uma explicação aparente e puramente tautológica do sucesso acadêmico: alguém tem sucesso porque é dotado para ter sucesso, o que equivale a invocar o determinismo biológico e, portanto, a rejeitar desde o início qualquer explicação sociológica. Bourdieu e Passeron demonstram, com pesquisas em apoio, que o principal fator explicativo reside nas desigualdades culturais e no domínio desigual da linguagem escolar. "Todo ensino", escrevem eles, "e mais particularmente o ensino da cultura (mesmo científico), pressupõe implicitamente um corpo de conhecimento, de saber-fazer e, sobretudo, de saber-fazer que constitui o patrimônio das classes educadas" [H: 36]. Nessas análises, ainda não se coloca a questão do "capital cultural", ou apenas de forma marginal, sem que a expressão signifique outra coisa senão "patrimônio cultural". Os conceitos então mobilizados na análise são "privilégio cultural", "classes culturalmente desfavorecidas", "cultura erudita", "cultura escolar", "transmissão do patrimônio cultural" ou mesmo "desigualdades em face da cultura", expressões que tentam apreender o fenômeno, mas que o designam mais do que o constroem completamente. Se existem diferenças intrínsecas entre culturas (no sentido etnográfico), estas não devem ser confundidas com a existência, entre essas culturas, de uma hierarquia estritamente social, que varia de acordo com a sociedade. É esse fato social que Bourdieu leva em conta com a noção de capital cultural que, diferentemente da noção de patrimônio cultural utilizada anteriormente, nos lembra que a cultura não é apenas um patrimônio que se transmite; é também um bem que possui um valor social diferencial. A pesquisa sobre práticas culturais, realizada paralelamente às investigações sobre o sistema educacional, fornece um certo número de elementos decisivos para a construção subsequente da noção de capital. A investigação sobre os usos sociais da fotografia [A Medium Art], publicada em 1965, tratava, de fato, de uma prática cultural teoricamente interessante pela posição intermediária que ocupa no campo das práticas culturais: nem totalmente legítima culturalmente, nem totalmente ilegítima, situa-se num meio-termo que nos permite apreender in vivo o próprio processo de legitimação cultural. Esta investigação, que analisa, na sua própria diversidade, a prática da fotografia, desde os seus usos sociais mais funcionais e menos culturais em sentido estrito (fotografias de família e de férias que celebram o grupo ou atestam uma posição social) até às virtuosidades estetizantes observáveis nos clubes de fotografia artística , permitiu introduzir uma noção essencial na obra futura de Bourdieu, nomeadamente a noção de legitimidade (no sentido que Max Weber lhe deu [Weber 2003; SAPIRO, G (ed.). Dicionário Internacional Bourdieu . Paris: Edição CNRS, 2020. 2014]), noção que nos permite escapar aos juízos de valor inconscientes que o sociólogo corre sempre o risco de importar, contrabandeados, para as suas análises, tendo em conta que, nas sociedades socialmente hierárquicas e desiguais, nem todas as culturas são socialmente iguais. "Numa dada sociedade, num dado momento", escreve Bourdieu, "nem todos os significados culturais [...] são equivalentes em dignidade e valor. [...] Os diferentes sistemas de expressão, do teatro à televisão, são objetivamente organizados segundo uma hierarquia independente das opiniões individuais, que define a legitimidade cultural e os seus graus" [AM: 134-135]. O inquérito sobre a frequência de museus [L'Amour de l'art], publicado em 1966, centra-se mais especificamente na cultura "cultivada", isto é, numa cultura socialmente muito "legítima". Bourdieu estabelece empiricamente, contra as percepções comuns de cultura, dois factos principais. O primeiro é, novamente, a observação da frequência desigual de museus, que está correlacionada com a distribuição desigual do capital cultural (medido pelo nível de educação). Contra a ideologia do acesso imediato às obras culturais pelo simples fato de a beleza se apresentar espontaneamente a todos, Bourdieu multiplica evidências empíricas e pesquisas de campo para estabelecer indiscutivelmente (daí a própria natureza objetivista dessa pesquisa) o que o senso comum culto não quer, ou não pode, reconhecer, a saber, que existem condições propriamente sociais de possibilidade da prática cultural. A principal diferença conceitual entre as primeiras análises de Bourdieu em termos de "cultura" ou " patrimônio cultural" e aquelas que ele desenvolverá progressivamenteem termos de "capital cultural" reside precisamente na conexão entre o patrimônio cultural adquirido pelos indivíduos e um dado estado da estrutura social. Em outras palavras, a noção de cultura permaneceu, em parte, um conceito estático e até substancialista, no sentido de que era usada no registro do descritivo, da observação estatística, enquanto o conceito de "capital cultural" é, desde o início, uma noção relacional que se refere aos usos sociais da cultura, isto é, ao seu valor social, variável segundo as sociedades e as épocas. O conceito de capital nos lembra que os traços culturais não têm significado em si mesmos, mas apenas aquele que a luta social lhes confere em um dado momento, no âmbito de uma economia geral de práticas. Em outras palavras, propriedades sociais (ter uma certa origem social, ter obtido um certo diploma, etc.) e propriedades naturais (ter uma certa origem étnica, ser homem ou mulher, ser alto ou baixo, etc.) podem funcionar como "capital" desde que a sociedade lhes atribua algum valor que a análise sociológica, sempre a ser feita e refeita, deve estabelecer para cada configuração social em cada época. Classes Sociais e Espécies de Capital Definido assim o conceito de capital, torna-se possível, entre outras coisas, repensar o problema das classes SAPIRO, G (ed.). Dicionário Internacional Bourdieu . Paris: Edição CNRS, 2020. sociais. Três espécies de capital, em nossas sociedades, podem ser socialmente acumuladas e reproduzidas, e estão na base da existência de uma hierarquia social: capital econômico, capital cultural e capital social. Para definir classes homogêneas em termos das condições de produção do habitus, Bourdieu constrói um espaço tridimensional, a saber, respectivamente, o volume total de capital, a estrutura do capital e a evolução ao longo do tempo dessas duas propriedades. Em nossas sociedades, as posições sociais dos indivíduos são distribuídas, primeiramente, de acordo com o volume total de capital que possuem, considerando todas as espécies combinadas. Podemos, portanto, inicialmente, distinguir, grosso modo, entre classes com alto volume de capital (ou classe dominante), classes com baixo volume (ou classes dominadas) e, entre as duas, uma classe intermediária composta por uma alta proporção de indivíduos em ascensão ou descida social que estão engajados em um processo de acumulação primitiva de capital ou, inversamente, em um processo de desaceleração de um declínio social. Se considerarmos a estrutura do capital, ou seja, a respectiva parcela de capital econômico e capital cultural, a análise mostra que devemos distinguir, para cada classe, "frações de classe", as frações relativamente mais ricas em capital cultural em oposição às frações mais ricas em capital econômico. A estabilização do conceito, efetiva e visível em La Distinction, possibilita sua posterior declinação, que leva em conta o processo de diferenciação social e de relativa autonomização de um certo número de setores do mundo social. O conceito de capital, que inicialmente servira para definir classes de habitus homogêneo, designará também a cultura específica de cada campo, ou seja, para usar uma metáfora de Bourdieu, os bens necessários para jogar um dado jogo social: tantos jogos sociais (ou seja, campos), quantos tipos de bens (ou seja, espécies de capital). Construído a partir de fenômenos culturais, o conceito de capital é, portanto, generalizado para tudo o que pode ter valor social. Às três grandes espécies de capital – capital cultural (que tem a propriedade específica de ser amplamente incorporado), capital econômico e capital relacional (ou social) – Bourdieu acrescenta o que ele chama de capital simbólico, esse tipo de capital imaterial que surge da relação entre qualquer tipo de capital e agentes socializados de forma a conhecê-lo e reconhecê-lo. O capital simbólico situa-se na ordem do conhecimento e do reconhecimento, ou, se preferir, das estruturas mentais (isto é, do habitus). É a adesão, o reconhecimento, a legitimidade, que permite à instituição que o detém consagrar , homologar, ratificar, legalizar, regularizar situações e atos, mover as coisas no mundo social do estado contingente e não oficial para o oficial, conhecido, reconhecido e público. Bourdieu descreve o lento processo durante o qual passamos de sociedades, como a sociedade cabila, com suas questões de honra [Esboço de SAPIRO, G (ed.). Dicionário Internacional Bourdieu . Paris: Edição CNRS, 2020. uma Teoria da Prática: 19-60], baseadas em um capital simbólico difuso e frágil, fundado no reconhecimento coletivo mútuo, para sociedades modernas com capital simbólico objetivado, codificado, delegado, garantido pelo Estado que ratifica hierarquias e as oficializa, emite títulos e pune usurpações; sendo o Estado, segundo a expressão adequada de Bourdieu, uma espécie de "banco central do capital simbólico", o lugar onde todas as moedas fiduciárias que circulam no mundo social são geradas e garantidas [Sobre o Estado]. Patrick Champanhe ☛ ACÚMULO, MEMBROSIA , AMOR À ARTE , AUTONOMIA, CAPITAL CULTURAL, CAPITAL ECONÔMICO, CAPITAL SOCIAL, CAPITAL SIMBÓLICO, CAMPO, CLASSE(S), CLASSE(S) SOCIAL(IS), CULTURA, DIFERENCIAÇÃO, DISTINÇÃO , DOM NATURAL, INVESTIGAÇÃO, ENSINO, ESPAÇO SOCIAL, ESTADO, HABITUS, HERANÇA, HERDEIRO(S), HIERARQUIA, IDEOLOGIA, JOGO(S), LEGITIMAÇÃO, LUTA(S), MUSEU(S), OPINIÃO(ÕES), PASSERON, FOTOGRAFIA, POSIÇÃO(ÕES), PRÁTICA, RECONHECIMENTO, UM MEIO DE ARTE, CAPITAL BUROCRÁTICO WEBER ☛ CAPITAL POLÍTICO, CAMPO BUROCRÁTICO CAPITAL CULTURAL : Se o capital econômico é o princípio dominante de dominação nas sociedades capitalistas, Pierre Bourdieu demonstra que o capital cultural, particularmente na forma de capital educacional, é o outro princípio fundamental de poder nas sociedades modernas. Ele introduziu o conceito de "capital cultural" em meados da década de 1960, ao retomar a análise das desigualdades educacionais desenvolvida em "Les Héritiers" [Heilbron, 2011]. No contexto de um diálogo com economistas, durante uma conferência interdisciplinar que organizou com Alain Darbel em Arras, em 1965, propôs essa noção com o objetivo de conceituar com mais rigor o que havia descrito anteriormente em termos de "privilégio" e " patrimônio cultural", ou " desigualdades perante a cultura". Ele resume a ideia da seguinte forma: "Cada família transmite aos seus filhos, por canais indiretos e não diretos, um certo capital cultural e um certo ethos, um sistema de valores implícitos e profundamente internalizados, que contribui para definir, entre outras coisas, as atitudes em relação ao capital cultural e à instituição educacional. A herança cultural, que difere, em ambos os aspectos, de acordo com a classe social, é SAPIRO, G (ed.). Dicionário Internacional Bourdieu . Paris: Edição CNRS, 2020. responsável pela desigualdade inicial das crianças diante dos testes escolares e, portanto, pelas taxas desiguais de sucesso" [PB 1966c: 388; 1966g: 325-326]. O uso da noção econômica de "capital" rompe com a visão encantada da educação e da cultura como universos regidos pelo desinteresse e pelo mérito. Também nos permite diferenciar e retificar a análise econômica. Numerosos estudos mostram que as desigualdades na educação e na cultura não estão primariamente ligadas a diferenças de renda ou riqueza econômica, mas à distribuição desigual de bens culturais [H; Uma Arte Média; O Amor à Arte]. Outra ruptura com a análise econômica padrão: a transmissão e a gestão do capital cultural, longe de obedecer à lógica do cálculo racional, operam com base em um "ethos" específico resultante da socialização diferencial dos agentes. O conceito de "capital cultural" distingue-se, portanto, da noção aparentemente semelhante de "capital humano" proposta por economistas como Gary Becker [General Sociology 2: 247-254]. A transferência de uma noção econômicapara a análise sociológica também ilustra a ambição subjacente de Bourdieu de ir além das divisões artificiais entre disciplinas acadêmicas e especialidades de pesquisa. Baseando-se em pesquisas sobre educação e práticas culturais, Bourdieu elabora e refina a noção; ao mesmo tempo, ampliou sua abordagem para outros tipos de capital, o capital simbólico e o capital social [PB 1986h]. Retomando e sistematizando todo esse trabalho em La Distinction (1979), propôs seu modelo tridimensional de espaço social. Em sociedades diferenciadas, as relações sociais baseiam-se, em primeiro lugar, no volume total de capital disponível para os agentes sociais. As classes sociais assim construídas são então diferenciadas de acordo com a estrutura do capital, isto é, em frações mais ricas em capital econômico do que em capital cultural, e vice-versa. A evolução ao longo do tempo dessas duas propriedades, que pode ser observada através da trajetória dos agentes, constitui a terceira dimensão. O valor do capital cultural não é fixo. Depende das condições sociais de sua utilização, isto é, em primeiro lugar, do estado do equilíbrio de poder dentro do campo de poder entre as frações econômicas da classe dominante e as frações menos ricas economicamente, mas mais bem dotadas de recursos culturais. Seu valor social então flutua de acordo com os campos em que assume formas específicas. No campo econômico, por exemplo, o capital cultural assume a forma de capital tecnológico, jurídico e organizacional [PB 1997c; The Social Structures of the Economy], enquanto no campo acadêmico, é necessário diferenciar pelo menos entre capital científico e capital literário, e levar em conta a evolução histórica de sua taxa de conversão [SG 1: 524-525]. Comparado ao capital econômico, o capital cultural tem propriedades particulares. Bourdieu distingue as três modalidades que ele pode assumir [PB 1979b]. Este capital existe primeiro em um estado SAPIRO, G (ed.). Dicionário Internacional Bourdieu . Paris: Edição CNRS, 2020. incorporado, isto é, internalizado na forma de disposições duradouras (habitus). Ao contrário do capital econômico, ele está de fato ligado ao corpo da pessoa que o detém, não é instantaneamente transmissível e sua acumulação requer investimento pessoal. Por ser percebido como ligado à pessoa, confere à herança a aparência de inatismo (dom) e as virtudes do talento adquirido (mérito). Bens culturais (pinturas, instrumentos musicais, livros, etc.) representam capital cultural em um estado objetificado. Embora sejam instantaneamente transmissíveis, sua apropriação e usos legítimos estão sujeitos às mesmas leis de transmissão que o capital cultural em um estado incorporado. Finalmente, o capital cultural existe na forma institucionalizada de títulos, particularmente acadêmicos. A forma certificada do capital cultural nos leva a questionar o sistema educacional e sua posição no espaço social. Em algumas de suas obras, Bourdieu propõe a noção de "capital informacional", que ele pretende que seja mais geral do que a de capital cultural. Ela abrange todos os conhecimentos, know-how e estruturas para perceber e apreciar esse conhecimento [SG 2: 471]. A introdução do conceito de capital cultural e seus usos em pesquisas em uma ampla variedade de campos deram origem a um considerável corpo de literatura, tanto na França quanto no exterior [Coulangeon e Duval 2013; 2014; Duval 2011]. Alguns aspectos desse vasto debate podem ser brevemente mencionados. O primeiro diz respeito à questão dos indicadores. Embora os índices de capital econômico sejam relativamente simples porque o dinheiro é um quantificador geral, a mensuração do capital cultural é mais complexa. Parte do debate, portanto, diz respeito aos seus vários componentes e indicadores. Enquanto na França o diploma é frequentemente usado como o principal indicador, seus vários componentes e efeitos específicos são objeto de debate na literatura internacional [Serre 2012]. Um segundo aspecto, ligado ao primeiro, diz respeito a questões comparativas. O peso relativo e as diferentes formas de capital cultural tendem a variar de acordo com os contextos nacionais [Serre e Wagner 2015]. Muitos países têm um sistema escolar semelhante ao da França, outros têm um sistema mais igualitário, sem Grandes Écoles como os países escandinavos, mas dentro do qual outros organismos podem cumprir funções sociais homólogas [Börjesson et al. 2015; Hjellbrekke et al. 2018]. Um terceiro aspecto do debate diz respeito às mudanças históricas que ocorreram desde as décadas de 1960 e 1970, um período de referência em várias obras de Bourdieu [Di, La Noblesse d'État]. O sociólogo e seus colegas mostram que a ascensão do "neoliberalismo", que representa uma "revolução conservadora", envolveu uma crescente dominação do capital econômico e financeiro dentro do campo do poder [Contre-feux 1 e 2; Denord et al. 2011], bem como uma crescente heteronomia dos campos da produção cultural; Neste SAPIRO, G (ed.). Dicionário Internacional Bourdieu . Paris: Edição CNRS, 2020. último, o polo econômico foi significativamente fortalecido [PB 1999a]. Outros estudos exploraram a recomposição do capital cultural, por exemplo, aquela que emergiu com a internacionalização [Wagner 2007]. A diversificação da oferta cultural e o surgimento de novas mídias finalmente provocaram um debate sobre a questão de saber se as diferenças entre classes e grupos sociais tendem a se estreitar ou, ao contrário, a persistir; se as práticas culturais permanecem distintas ou se tornam "ecléticas" e "onívoras" [Coulangeon e Duval 2013; 2014]. Johan Heilbron BÖRJESSON M. e D. BROADY, 2015, “Estratégias de elite em um sistema unificado de ensino superior: o caso da Suécia”, L'Année sociologique, vol. 65, n.º 2, pp. 115-146. – DENORD F., P. LAGNEAU-YMONET e S. THINE, 2011, “O campo do poder na França”, ARSS, n.º 190, pp. 24-57. – SERRE D. e A.-C. WAGNER, 2015, “Para uma abordagem relacional do capital cultural: um conceito testado pelas mudanças no espaço social francês”, The Sociological Review, vol. 63, n.º 2, pp. 433-455. – WAGNER A.-C., 2007, Classes sociais na globalização, Paris, La Découverte. ☛ ACÚMULO, AMOR À ARTE (A ) , BECKER (G.), CAPITAL, CAPITAL ECONÔMICO, CAPITAL SOCIAL , CAPITAL SIMBÓLICO, CAPITALISMO, CAMPO, CAMPO ACADÊMICO, CAMPO(S) DE PRODUÇÃO CULTURAL, CAMPO DE PODER, CAMPO ECONÔMICO, CLASSE(S) DOMINANTE(S), CLASSE(S) SOCIAL(AIS), CONVERSÃO DE CAPITAL, CORPO, CULTURA, DARBEL, DIFERENÇA, DIFERENCIAÇÃO, DISTINÇÃO (A), DOMINAÇÃO, DOM NATURAL, ENSINO, ESPAÇO SOCIAL, ETHOS, HABITUS, HERANÇA, HERDEIRO(S), HETERONOMIA, INCORPORAÇÃO, INTERIORIZAÇÃO, INTERNACIONALIZAÇÃO, NEOLIBERALISMO, NOBREZA DO ESTADO (A), RECONVERSÃO, REVOLUÇÃO CONSERVADORA, TÍTULO(S), TRAJETÓRIA(S), UMA ARTE MÉDIA CAPITAL ECONÔMICO: Sem ter realmente dedicado qualquer reflexão sistemática a ele, Pierre Bourdieu lançou um olhar particular sobre o capital econômico, pensando-o como uma "forma de capital" [PB 1986h]. Ele o vê como um poder sobre o mundo social que tem a particularidade de se basear na posse de recursos materiais, externos ao seu detentor e de ser, por conseguinte, mais facilmente transmissível do que o capital "cultural" SAPIRO, G (ed.). Dicionário Internacional Bourdieu . Paris: Edição CNRS, 2020. ou "social". O capital econômico também tem a característica de ser mais socialmente objetificado. O dinheiro é sua "realização" [Things Said: 131]. É, como ele, um fenômeno histórico. O capital econômico, de fato, não é objeto da mesma objetificação e do mesmo reconhecimento social em todas as sociedades [Sobre o Estado: 303]. Nas sociedades pré- capitalistas, ele pode desempenhar um papel muito menor do que a honra e ser eficaz apenas sob a condição de assumir a forma eufemística de capital simbólico [Le Sens pratique]. A busca pelo capital econômico como tal, e sua acumulação,só se tornaram possíveis de forma muito gradual: é a constituição, em nossas sociedades modernas, de um "cosmos econômico" governado por uma "economia econômica" que conferiu ao capital econômico um papel crescente, o que se deve, sem dúvida, em parte ao fato de ser "mais fácil de administrar racionalmente" do que, por exemplo, a honra [CD: 131]. A autonomização do campo econômico (e do capital) contribui, no entanto, para o ressurgimento de lógicas pré-capitalistas no interior de universos sociais que, como os campos da produção cultural, tendem a se organizar em torno de capitais específicos, mantendo uma relação muito ambígua com o capital econômico. Sua acumulação exige, de fato, a renúncia aos lucros econômicos, mas pressupõe um capital econômico mínimo, aquele que permite o distanciamento da necessidade econômica exigido pela constituição do capital cultural ou do capital simbólico apenas entre pares. Esses capitais específicos podem ser analisados, em grande medida, como formas de capital econômico negadas [As Regras da Arte]. Construindo o espaço social no contexto da França contemporânea, Bourdieu mostra a importância de levar em conta os diferentes tipos de capital, ao mesmo tempo em que enfatiza que o capital econômico tende a ser o tipo mais seguro e poderoso: no campo do poder, as frações mais ricas em capital econômico são dominantes em comparação com aquelas cuja reprodução depende principalmente do capital cultural e, no campo cultural, por exemplo, a apropriação simbólica de obras, baseada no capital cultural, continua sendo um substituto para a apropriação material que o capital econômico permite [A Distinção]. O capital econômico é o tipo de capital mais líquido, mas só pode, em muitos casos, e por exemplo no mercado escolar, ser eficiente sob a condição de ser convertido em outros tipos de capital, o que supõe uma espécie de perda. O campo econômico em si não pode ser considerado inteiramente governado pelo capital econômico. Bourdieu mostra, por exemplo, que o acesso a posições de poder econômico, que antes eram sujeitas à transmissão direta, tende a ser cada vez mais subordinado à posse de qualificações acadêmicas [La Noblesse d'État]. Ele também chama a atenção para o papel que o capital simbólico ou reputacional, irredutível a uma simples expressão do SAPIRO, G (ed.). Dicionário Internacional Bourdieu . Paris: Edição CNRS, 2020. capital econômico, desempenha no mundo econômico e observa que as grandes empresas são elas próprias atravessadas pela oposição entre os detentores do capital econômico (que permite a propriedade dos meios de produção) e os grupos sociais que, como os engenheiros, possuem sobretudo o capital cultural ou informacional que lhes permite operar os meios de produção [Di: 348]. A análise do campo econômico também leva a levar em conta o fato de que o capital econômico assume formas diferenciadas (por exemplo, capital financeiro, capital comercial [The Social Structures of the Economy: 237]) que, entre outras coisas, não apresentam todas no mesmo grau as propriedades (segurança, liquidez) que podem ser atribuídas como uma primeira aproximação ao "capital econômico" [PB 1986h]. Julien Duval ☛ ACUMULAÇÃO, AUTONOMIA, CAPITAL, CAPITAL CULTURAL, CAPITAL SOCIAL, CAPITAL SIMBÓLICO, CAMPO(S) DE PRODUÇÃO CULTURAL, CAMPO DE PODER, CAMPO ECONÔMICO, CONVERSÃO DE CAPITAL, DIFERENCIAÇÃO, HONRA, OBJETIVAÇÃO, RECONHECIMENTO, TÍTULO(S) CAPITAL POLÍTICO : É essencialmente em "Representação Política" [Linguagem e Poder Simbólico: 213-258] que Pierre Bourdieu define capital político como "uma forma de capital simbólico", um "crédito baseado nas inúmeras operações de crédito pelas quais agentes conferem a uma pessoa (ou a um objeto) socialmente designado como digno de crédito os próprios poderes que reconhecem nele" [LPS: 241]. Embora ele obviamente não ignore outros constituintes do capital político (domínio da linguagem política, programas, recursos econômicos, capital social, mesmo aqueles tipos de direitos de entrada no campo conferidos por certas escolas – Sciences Po Paris, École nationale d'administration – ou a arte de ser um bom "ator" dado o peso crescente do jornalismo na vida política, etc.), Bourdieu enfatiza a dimensão simbólica do capital político na medida em que a política é uma luta por ideias de um tipo muito particular, "a saber, ideias-chave" [Comentários sobre o campo político: 63]. Para o político, esse capital reputacional específico, extremamente instável e vulnerável a suspeitas, calúnias, escândalos e boatos, leva-o a acumular crédito e a evitar qualquer descrédito, refugiando-se na prudência e no eufemismos. Bourdieu distingue dois tipos principais de capital político: aquele que se pode deter pessoalmente e aquele que se recebe por delegação como representante de uma organização "que detém SAPIRO, G (ed.). Dicionário Internacional Bourdieu . Paris: Edição CNRS, 2020. capital político acumulado durante lutas passadas" [LPS: 244]. O capital pessoal de notoriedade, "frequentemente produto da reconversão de capital de notoriedade acumulado em outras áreas" [LPS: 244], resulta de uma acumulação lenta e contínua que pode levar uma vida inteira. Pode ser distinguido do capital pessoal heroico ou profético, que, ao contrário, é o produto de uma ação inaugural realizada em uma situação de crise "no vazio e no silêncio das instituições" [LPS: 244]. Diferentemente do capital político ligado à pessoa, e que desaparece com ela, "o capital delegado da autoridade política é, como o do padre, do professor e, mais geralmente, do funcionário público, o produto da transferência limitada e temporária (embora renovável, às vezes vitalícia) de um capital detido e controlado pela instituição e somente por ela. É o partido que, pela ação de seus executivos e de seus militantes, acumulou ao longo da história um capital simbólico de reconhecimento e lealdade e que se dotou, para e por meio da luta política, de uma organização permanente de quadros permanentes capaz de mobilizar os militantes, os membros e os simpatizantes, e de organizar o trabalho de propaganda necessário para obter os votos e, assim, os cargos que permitam manter e manter os quadros permanentes a longo prazo" [LPS: 245]. Esse aparato de mobilização baseia-se tanto em estruturas objetivas, como a burocracia da própria organização (cargos oferecidos, tradições de recrutamento, seleção e treinamento, etc.), quanto em disposições, "seja a lealdade ao partido ou os princípios incorporados de divisão do mundo social que os dirigentes, quadros permanentes ou militantes implementam em sua prática cotidiana e em sua ação estritamente política" [LPS: 245]. Entra então em cena a investidura. Um ato verdadeiramente mágico de instituição, ela marca a transmissão de capital político, pelo qual o partido consagra oficialmente o candidato oficial para uma eleição. Esse capital político de função é tal que seu beneficiário pode ser privado de qualquer outro recurso, a ponto de "continuar sendo a instituição que controla o acesso à notoriedade pessoal, controlando, por exemplo, o acesso aos cargos de maior destaque (o de secretário-geral ou porta-voz) ou a lugares de grande visibilidade (como os grandes "programas" de rádio ou televisão ou as coletivas de imprensa da atualidade)" [LPS: 247]. O detentor do capital delegado pode, no entanto, obter capital pessoal. Por fim, a delegação de capital político pressupõe a objetivação desse tipo de capital, sua institucionalização, ou seja, sua materialização em "máquinas" políticas, em posições e instrumentos de mobilização, e sua reprodução contínua por mecanismos e estratégias específicas. De modo geral, o volume de capital político de um agente político refere-se ao peso político do partido ao qual pertence e ao seu peso específico no partido em questão [PCP: 65]. A análise relacional do capitalpolítico SAPIRO, G (ed.). Dicionário Internacional Bourdieu . Paris: Edição CNRS, 2020. e a variabilidade dos recursos que ele pode mobilizar raramente são tão claramente visíveis como quando Bourdieu é desafiado a transpor sua concepção de espaço social estruturado em dois eixos (econômico e cultural) para as sociedades soviéticas. Observando que o capital econômico e o capital cultural não os estruturam, ele sugere então a substituição do capital político (que inicialmente chamou de "capital burocrático" durante uma conferência proferida na RDA em 1989) como princípio organizador e hierárquico, e propõe o desenvolvimento de um índice desse capital (baseado, em particular, na posição no partido e na antiguidade), uma hipótese particularmente heurística, que se mostra mais frutífera para explicar o caráter sociobiocrático dos mundos comunistas (partidos e sociedades) [Razões práticas: 31-35]. Neste último caso, propriedades geralmente desacreditadas (como origem social de classe trabalhadora ou ausência de diploma) podem ser eficientes. O valor heurístico do capital político foi demonstrado em múltiplos estudos, notadamente sobre partidos políticos [Offerlé 2008; Pennetier e Pudal 2002] e sobre relações com a política [Gaxie 1978]. Bernardo Pudal OFFERLÉ M., 2008, Partidos políticos, Paris, PUF. – GAXIE D., 1978, O censo oculto, Paris, Seuil. – PENNETIER C. e B. PUDAL, 2002, Autobiografias, autocríticas, confissões no mundo comunista, Paris, Belin. ☛ ACUMULAÇÃO, APARELHO, CAPITAL, CAPITAL ECONÔMICO , CAPITAL CULTURAL, CAPITAL SOCIAL, CAPITAL SIMBÓLICO, CAMPO BUROCRÁTICO, CAMPO POLÍTICO, COMUNISMO, DELEGAÇÃO, PROVISÃO(ÕES), EUFEMIZAÇÃO, FUNCIONÁRIO PÚBLICO, INSTITUIÇÃO(ÕES), LINGUAGEM E PODER SIMBÓLICOS, LUTA(S), OBJETIVAÇÃO, POSIÇÃO(ÕES), SACERDOTE, PROFESSORES, RECONVERTIMENTO, RECONVERSÃO, REPRESENTAÇÃO(ÕES), ESTRATÉGIA(S), ESTRUTURA(S) CAPITAL SOCIAL: Ao lado do capital econômico e cultural, o capital social é um dos três principais tipos de capital que, segundo Pierre Bourdieu, permitem a construção de um espaço social [PB 1986h]. A expressão se refere à “soma de recursos, reais ou virtuais, que advêm a um indivíduo ou grupo como resultado da posse de uma rede duradoura de relacionamentos” [Respostas: 167]. Essa definição de capital social contrasta com outras SAPIRO, G (ed.). Dicionário Internacional Bourdieu . Paris: Edição CNRS, 2020. conceituações sociológicas. A expressão, de fato, foi usada diversas vezes antes de Bourdieu [Ponthieux 2006], na maioria das vezes de maneira relativamente assistemática. Já na década de 1920, algumas pessoas falavam de capital social em relação às “substâncias tangíveis que mais contam na vida cotidiana das pessoas, isto é, boa vontade, camaradagem, simpatia e relacionamentos sociais entre indivíduos e famílias que formam uma unidade social” [Méda 2002: 37]. Mais recentemente, a noção de capital social tornou-se amplamente disseminada graças aos esforços de Robert Putnam [2000], transmitidos por instituições como o Banco Mundial. Segundo ele, capital social refere-se à existência de redes sociais, normas de reciprocidade e confiança [Putnam 2000]. A concepção de capital social de Bourdieu faz parte de uma teoria geral do capital. Ela tem suas origens nos trabalhos do período argelino. Como ele frequentemente enfatizou a posteriori, nas sociedades tradicionais, "uma das únicas coisas que podem ser acumuladas [é] um capital de relacionamentos, dívidas, obrigações morais ou reais, às vezes legalmente garantidas" [Sociologia Geral 1: 526]. Até o início da década de 1970, Bourdieu utilizou as expressões "capital social" e "capital simbólico" indistintamente para designar as vantagens e restrições que surgem do pertencimento a um grupo. É sua pesquisa sobre a classe dominante que lhe permite explicar as especificidades do capital social. Em sociedades diferenciadas, as desigualdades sociais decorrem, em grande parte, de lacunas na herança econômica e cultural. No entanto, o que a linguagem cotidiana chama de "relações" também importa. Entre indivíduos comparáveis em termos de capital econômico e capital cultural, o capital social, como capital de relações, pode fazer a diferença [PB 1971g: 69]. Sua acumulação começa na família, "o capital social estando intimamente ligado à antiguidade na classe, através da notoriedade do nome e da extensão e qualidade da rede de relações" [La Distinction: 138]. Em seguida, frutifica graças a várias formas de cooptação que vinculam o destinatário a grupos: passagem por instituições estabelecidas, como as Grandes Écoles; ingresso nos principais órgãos do Estado, que criam uma forma de solidariedade entre aqueles que são ou foram membros deles; filiação a clubes ou organizações que erguem barreiras à sua entrada. Essas diferentes filiações, em última análise, permitem um aumento de dez vezes nos retornos sobre os recursos econômicos e culturais. O volume de capital social disponível para um indivíduo depende do número de posições que ocupa simultaneamente em diferentes campos, bem como da posição desses campos na hierarquia que estrutura a classe dominante. Como escreve Luc Boltanski [1973: 14], "o poder de um indivíduo em particular não é irredutível ao poder inscrito na posição que ocupa ou à soma de poderes resultante da adição dos poderes fragmentários vinculados a cada uma de suas posições: a SAPIRO, G (ed.). Dicionário Internacional Bourdieu . Paris: Edição CNRS, 2020. matemática do poder usa menos a adição do que a multiplicação, menos a subtração do que a divisão". Bourdieu usa a expressão "capital social" com parcimônia. Como multiplicador de recursos, ele nunca é, de fato, "completamente independente" [PB 1980a: 3] do capital econômico e cultural e, portanto, pode ser considerado secundário aos seus olhos. Se um grupo está unido, não é simplesmente porque fornece capital social aos seus membros, mas também porque esses membros possuem um certo número de propriedades que os unem objetivamente no espaço social. Assim, não há capital social que não seja também capital econômico, capital cultural ou o produto de ambos. Ter frequentado uma Grande École constitui, inseparavelmente, capital educacional e capital social, assim como ser diretor de uma empresa equivale a exercer uma forma de controle sobre uma ferramenta de produção e fazer parte de um grupo. O capital social continua sendo capital "adicional". Facilitador de transações econômicas, intelectuais, políticas etc., ele também pressupõe um "trabalho de estabelecimento e manutenção" que faz mais sentido para certas categorias sociais do que para outras [PB 1973a]. Falar de um capital de relações pressupõe que essas relações sejam importantes. O capital social pode então ser usado para explicar a desigualdade no desempenho de indivíduos de diferentes classes sociais, relacionando os lucros específicos que eles podem obter em diferentes mundos à distribuição de um capital de relações entre classes. A abordagem de Bourdieu ao capital social — capital no verdadeiro sentido do termo — apresenta várias vantagens em relação a outras teorizações das quais foi objeto. Contrasta com a normatividade da obra de Putnam: a definição do capital social que mobilizam permanece vaga. Essas obras reduzem o capital social a uma medida da intensidade da vida social, entendida por meio de indicadores tão gerais quanto a taxa de participação em eleições ou o número de membros de grandes associações nacionais; elas universalizam o ponto de vista de seu autor — sua crença na democracia liberal americana — para exaltar a "mentalidade cívica". Enquanto James Coleman [1988] — sobre quem Bourdieu ironicamente escreve ser "responsável" por lançar a noção de capital social "no mercado altamente protegido da sociologia americana" [The Social Structures of the Economy: 12] — considera o capital social um bem público,Bourdieu o vê como um potencial sujeito à monopolização. Em todos os grupos, existe a tentação de se apropriar do capital coletivo, e procedimentos também podem ser institucionalmente fornecidos para lidar com essa possibilidade. Enquanto a maioria dos teóricos do capital social, com a notável exceção de Nan Lin [1995], carece de uma teoria de grupos ou classes, Bourdieu o relaciona a outros tipos de capital disponíveis aos agentes sociais. Falar de "capital" social implica, de fato, questionar tanto o volume, a composição e o uso de um recurso mais ou SAPIRO, G (ed.). Dicionário Internacional Bourdieu . Paris: Edição CNRS, 2020. menos raro, considerado relevante em um determinado espaço, quanto situá-lo em relação a outros recursos (econômicos, culturais ou simbólicos). O capital social, tal como definido por Bourdieu, é, ao mesmo tempo, um recurso cuja posse está vinculada ao pertencimento a um ou mais grupos, cujos membros estão unidos por relações objetivas, e o produto de estruturas relacionais, dentro das quais é desigualmente distribuído. Com base na definição de capital cultural de Bourdieu [PB 1979b] e em seu trabalho sobre a classe dominante, poderíamos distinguir entre capital social herdado e parcialmente incorporado (relações familiares e conforto social), capital social objetivado (filiação a organizações, lista de endereços) e talvez também capital social institucionalizado, no caso da posse de certos títulos que oferecem reconhecimento e crédito. Esta é, sem dúvida, a razão pela qual Bourdieu afirma que "o capital social, como capital das relações, está espontaneamente predisposto a funcionar como capital simbólico" [Sobre o Estado: 303]. François Denord BOLTANSKI L., 1973, “Espaço posicional: multiplicidade de posições institucionais e habitus de classe”, Revue française de sociologie, no. 14, pp. 3-26. – COLEMAN J., 1988, “Capital social na criação de capital humano”, American Journal of Sociology, no. 94, supl., pp. 95-120. – LIN N., 1995, “Recursos sociais: uma teoria do capital social”, Revue française de sociologie, no. 36, pp. 685-704. – MÉDA D., 2002, “Capital social: um ponto de vista crítico”, L'économie politique, no. 14, pp. 36-47. – PONTHIEUX S., 2006, Le Capital social, Paris, La Découverte. – PUTNAM R., 2000, Jogando boliche sozinho: o colapso e o renascimento da comunidade americana, Nova York, Simon & Schuster. ☛ ACUMULAÇÃO, ARGÉLIA , BOLTANSKI, CAPITAL CULTURAL, CAPITAL ECONÔMICO, CAPITAL SIMBÓLICO , CAMPO, CLASSE(S) DOMINANTE(S), CLASSE(S) SOCIAL(IS), CORPO (EFEITO DE), ESPAÇO SOCIAL, FAMÍLIA, GRANDES ÉCOLES, PATRIMÔNIO, HIERARQUIA, POSIÇÃO(ÕES), RECONHECIMENTO, RELAÇÃO(ÕES) OBJETIVA(S), TÍTULO(S) CAPITAL SIMBÓLICO: Pierre Bourdieu cunhou o conceito de "capital simbólico" no início da década de 1970. Inicialmente pouco distinto do de capital social [PB 1973a: 66], refere-se aos benefícios que o pertencimento a uma linhagem ou grupo proporciona, em particular prestígio e renome. O interesse do adjetivo simbólico é duplo: sinaliza que o SAPIRO, G (ed.). Dicionário Internacional Bourdieu . Paris: Edição CNRS, 2020. valor de um indivíduo depende da percepção que os outros têm dele; permite, contra qualquer forma de etnocentrismo, estudar práticas que não têm o interesse econômico como única força motriz. Assim, o "senso de honra", central para a compreensão das rivalidades entre famílias e tribos, explica boa parte dos comportamentos que Bourdieu pôde observar em Cabília. Em uma economia pré-capitalista, a acumulação de capital econômico obedece a leis diferentes daquelas ensinadas pela ciência econômica, seja ela inspirada pelo marxismo ou pela teoria do homo oeconomicus. Os agentes podem buscar, por meio de sua clientela, acumular um capital de honra, que produz o grupo e possibilita transações que, se objetivamente econômicas, não são percebidas como tal. Permanecem enquadrados por normas de equidade e reciprocidade às quais se submetem escrupulosamente. Como membros de linhagens, herdam uma herança concreta (na maioria das vezes, terras), bem como uma herança simbólica, composta de relacionamentos e honra, que pode gerar lucros materiais. O capital simbólico é, por natureza, ambíguo. Segundo Bourdieu, "como o prestígio e a fama atribuídos a uma família e a um nome, [ele] se converte facilmente em capital econômico, [e] constitui talvez a forma mais valiosa de acumulação em uma sociedade onde a dureza do clima (grandes obras, aração e colheita, concentradas em um tempo muito curto) e a fragilidade dos meios técnicos (colheita feita com foice) exigem trabalho coletivo" [Esboço de uma Teoria da Prática: 367-368]. Paradoxalmente, aumentar esse capital de relações (e, portanto, de trabalho) exige investimentos significativos, na forma de presentes, tempo dedicado aos outros, gastos ostentosos, que não facilitam a aquisição racional de capital econômico. São, no entanto, a condição para isso. Pois, como a esfera econômica não é um campo autônomo, a riqueza permite comprar estima e crédito, sem os quais nenhuma riqueza futura é possível. Em uma sociedade pré-capitalista, o capital simbólico constitui, acima de tudo, um capital de relações e prestígio. Em relação às sociedades diferenciadas, Bourdieu gradualmente reserva o uso do termo para essa segunda dimensão, às vezes até mesmo usando a expressão "capital de prestígio" [PB 1971d: 113]. Produzido pelo pertencimento a um grupo de status ou pela posse de um sobrenome erigido como rótulo ou marca [PB 1975c], o capital simbólico proporciona consagração e legitimidade: "o peso dos diferentes agentes depende de seu capital simbólico, isto é, do reconhecimento, institucionalizado ou não, que recebem de um grupo", escreve Bourdieu [Linguagem e Poder Simbólico: 107]. E o que é válido dentro do espaço social como um todo – "a aquisição de uma reputação de competência e de uma imagem de respeitabilidade e honradez" [La Distinction: 331] – também é importante dentro de cada campo particular, cujo capital específico tem, na maioria das SAPIRO, G (ed.). Dicionário Internacional Bourdieu . Paris: Edição CNRS, 2020. vezes, uma dimensão simbólica. Falar de capital simbólico constitui, portanto, para Bourdieu, uma maneira de evocar o carisma, termo central na sociologia do poder e das religiões desde Max Weber, ao mesmo tempo em que enfatiza a dimensão relacional desse recurso, sua natureza cumulativa e suas potenciais reconversões [Le Sens pratique: 242- 243]. A reflexão de Bourdieu sobre o “poder simbólico” também lhe permite esclarecer a natureza do capital simbólico. Trata-se de um capital de base cognitiva, que se apoia em uma forma de conhecimento prático. Tomando o exemplo da nobreza, Bourdieu observa que “o capital simbólico é aquele poder propriamente mágico que surge na relação entre certas propriedades diferenciadas inscritas nas pessoas, suas ações, sua linguagem, suas vestimentas, seu corpo etc., e outras pessoas que têm um olhar, um olhar, categorias de percepção, apreciação e pensamento, em suma, um habitus, de tal forma que são capazes de apreender o que diferencia essas propriedades” [PB 1995i: 118]. Como o capital simbólico está, acima de tudo, ligado a um ato de reconhecimento, Bourdieu foi por vezes levado a relativizar sua importância teórica, particularmente no que diz respeito ao capital econômico, cultural e social. O capital simbólico é um capital que “além disso, é detido por qualquer detentor de capital” [Sobre o Estado: 303]. Se o poder simbólico é um poder muito real, o capital simbólico não constitui capital em si. É "qualquer tipo de capital (econômico, cultural, educacional ou social) quando percebido segundo categorias de percepção, princípios de visão e divisão, sistemas de classificação, esquemas classificatórios, esquemas cognitivos, que são, pelo menos em parte, o produto da incorporação das estruturas objetivasdo campo considerado, isto é, da estrutura da distribuição do capital no campo considerado" [Razões Práticas: 160-161]. O capital simbólico só funciona como capital se exercer uma forma de poder simbólico sobre receptores dispostos a considerá-lo como tal. Esta é, sem dúvida, a razão pela qual, em uma de suas últimas obras, Bourdieu explica que "seria melhor falar, a rigor, dos efeitos simbólicos do capital" [Meditações Pascalianas: 347]. Capital simbólico é "aquilo em que qualquer tipo de capital se torna quando é mal compreendido como capital, isto é, como força, poder ou capacidade de exploração (atual ou potencial), e, portanto, reconhecido como legítimo" [MP: 347]. Permanece que, embora mal-entendidos sejam sempre possíveis – capital simbólico girando fora de controle fora do campo onde foi acumulado, por exemplo –, ser sobrecarregado com capital simbólico negativo, de acordo com a lógica do estigma, ou não se beneficiar de nenhum capital simbólico, por ser desprovido de quaisquer recursos, priva-o de reconhecimento, autoestima e condena-o a ver o significado de sua existência determinado por outros. Como aponta Louis Pinto [1998: 172], "o capital simbólico, a medida última do SAPIRO, G (ed.). Dicionário Internacional Bourdieu . Paris: Edição CNRS, 2020. valor, é o elemento social que o indivíduo possui em seus aspectos mais íntimos, esse questionamento de si mesmo que as religiões vinculam ao problema da salvação: é um capital de razões para existir". Portanto, talvez não seja um dos principais tipos de capital que permitem ao sociólogo construir um espaço social, mas, como mediador entre esperanças subjetivas e chances objetivas, o capital simbólico ajuda a entender como a grandeza relativa de um indivíduo é medida e, dessa forma, nos permite questionar as relações entre imagem social e construção de identidade. François Denord ☛ ACUMULAÇÃO, CAPITAL CULTURAL, CAPITAL ECONÔMICO , CAPITAL SOCIAL, CATEGORIA ( S), CAMPO, CLASSE(S), CONSAGRAÇÃO, DIFERENCIAÇÃO, ESPAÇO SOCIAL, EXPECTATIVAS, ETNOCENTRISMO, FAMÍLIA, HABITUS, HONRA, INCORPORAÇÃO, CABÍLIA, LEGITIMAÇÃO, MARXISMO, CONCEITO EQUÍVOCO, NOBREZA, PERCEPÇÃO, PODER SIMBÓLICO, RECONHECIMENTO, RECONVERSÃO, ESQUEMA(S), SISTEMA, WEBER CAPITALISMO : Os primeiros textos de Pierre Bourdieu, desde Sociologia da Argélia (1958), situam-se explicitamente numa perspectiva weberiana de estudo do capitalismo, definido por instituições específicas (propriedade privada e investimento, banca, poupança, trabalho assalariado, etc.) e, sobretudo, por comportamentos específicos, qualificados como "racionais", a elas vinculados. O "cosmo" capitalista, contudo, não é uma realidade natural: é o resultado de um processo histórico de longa duração e de relações políticas, por vezes violentas, como no caso da colonização da Argélia pela França, que provocou um "choque de civilizações" [PB 1959c], opondo, de um lado, o mundo capitalista da metrópole e, de outro, a sociedade tradicional que, fundada numa lógica simbólica completamente diferente, é acompanhada por atitudes aparentemente "antieconômicas" e "irracionais" (no sentido da racionalidade capitalista, precisamente) muito distantes da busca coerente e sistemática de ganho futuro através da minimização de custos e esforços. Essa perspectiva é desenvolvida em seus artigos sobre a sociedade tradicional na Argélia [Esquisses algériennes] e, sistematicamente, na obra de síntese Algérie 60 (1977), focada na dimensão temporal das restrições impostas pelo mundo capitalista. Ainda mais do que para Max Weber, o capitalismo está, portanto, associado a uma "cultura" específica e não apenas a SAPIRO, G (ed.). Dicionário Internacional Bourdieu . Paris: Edição CNRS, 2020. mecanismos e instituições, a fortiori, à exploração no sentido marxista (mesmo que esta faça parte dela): essa "cultura" é imposta tanto pelo sistema escolar e estatal quanto pelo efeito da ascensão de poder dos atores capitalistas e das instituições que os caracterizam. O ethos capitalista, em particular as disposições voltadas para a acumulação e o cálculo voltado para o futuro, está, portanto, no cerne da reprodução do sistema econômico "moderno". A relação de dominação que liga o empregado ao patrão é constitutiva desse sistema em que os detentores da propriedade dos meios de produção dirigem todas as práticas e também determinam, em grande parte, os valores dominantes. A originalidade de Bourdieu reside, sem dúvida, em ter levado longe o estudo dos componentes, em particular temporais, do ethos capitalista, tanto em termos de produção (notadamente agrícola), trabalho, consumo e poupança, ao mesmo tempo em que destacava a diferenciação social do ethos ligada às posições ocupadas no sistema social. Afastou-se, portanto, de uma forma de economicismo associada à tradição marxista de análise das estruturas do capitalismo, que deriva da extorsão do trabalho excedente proletário todas as características do sistema. Não obstante, a noção de capitalismo está presente com conotações marxistas nos textos da década de 1970, por exemplo, no artigo sobre "estratégias de reconversão" coescrito com Luc Boltanski e Monique de Saint-Martin [PB 1973a]: longe de se opor à análise marxista da mais- valia, a perspectiva proposta por Bourdieu a integra de alguma forma como um elemento certamente muito importante, mas não exclusivo e, sobretudo, insuficiente para deduzir todas as manifestações do sistema econômico. A economia política, depois a ciência econômica, superestruturas ideológicas decorrentes das relações materiais para muitos marxistas, são para Bourdieu também parte dos componentes fundamentais do cosmos capitalista, fornecendo os instrumentos simbólicos que acompanham a dominação das elites industriais e, posteriormente, financeiras, e, no século XX, sua aliança com parte do alto escalão do funcionalismo público e das elites políticas. O ethos capitalista de Bourdieu não é apenas "sistêmico", como em Weber, mas também está desigualmente distribuído no espaço social, segundo uma lógica mais próxima das análises de Karl Marx, uma vez que o acesso ao ethos "econômico" racional depende intimamente das condições econômicas e sociais. O caso dos "subproletários" ilustra paradigmaticamente a impossibilidade de os mais desprovidos de todas as formas de capital (econômico, cultural em primeiro lugar) acessarem comportamentos sistematicamente organizados por um objetivo futuro mais ou menos distante, seja individual (capitalista) ou coletivo (socialista) [PB 1962e]. Neste último nível, Bourdieu descreve os sistemas "socialistas" existentes (o mundo soviético e seus derivados) como universos sociais onde SAPIRO, G (ed.). Dicionário Internacional Bourdieu . Paris: Edição CNRS, 2020. um tipo de capital, o capital burocrático (ou político), prevalece sobre o capital econômico até certo ponto [Practical Reasons: 31-35], diferentemente das economias de mercado. No entanto, ele não desenvolve a hipótese da existência de um ethos socialista que acompanharia o funcionamento de sociedades que romperam com certas características do sistema capitalista. Nas décadas de 1980 e 1990, o capitalismo globalizou-se e financeirizou- se: ao mesmo tempo, o ethos capitalista generalizou-se e ameaçou a autonomia dos campos de produção cultural, ilhas de resistência à economia [Antropologia Econômica], tanto quanto as conquistas sociais do movimento operário [Counter-fires 1: 108-119]. Esse capitalismo generalizado só é eficaz porque é amplamente internalizado na forma de disposições sociais inscritas na duração dos processos históricos. A noção está, contudo, mais presente em textos comprometidos com a oposição ao neoliberalismo, como Counter-fires 1, do que em análises acadêmicas agora centradas no conceito de campo econômico [PB 1997c] e na economia de bens simbólicos [The Social Structures of the Economy;RP: 175-217]. Frédéric Lebaron ☛ ACUMULAÇÃO, ARGÉLIA , ARGÉLIA 60, ANTROPOLOGIA ECONÔMICA , ATITUDE(S), AUTONOMIA, CÁLCULO, CAPITAL, CAPITAL CULTURAL, CAPITAL ECONÔMICO, CAPITAL POLÍTICO, CAMPO(S) DE PRODUÇÃO CULTURAL, CAMPO ECONÔMICO, BACKFIRE 1, DIFERENCIAÇÃO, DISPOSIÇÃO(ÕES), DOMINAÇÃO, ECONOMIA, ETHOS, FUNCIONÁRIO PÚBLICO, INSTITUIÇÃO(ÕES), INTERIORIZAÇÃO, MERCADO, MARXISMO, NEOLIBERALISMO, POSIÇÃO(ÕES), RACIONALIDADE, RECONVERSÃO, SOCIOLOGIA DA ARGÉLIA, SUBPROLETÁRIOS, ESTRATÉGIA(S), ESTRUTURAS SOCIAIS DA ECONOMIA (A), TEMPO, TRABALHO, WEBER