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Trabalho de Direito Penal - Arthur Silva Asperti - RA 1794_ Trabalho 2

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Trabalho de Direito Penal – FPG
Professor: Pedro Lazarini Neto
Aluno: Arthur Silva Asperti RA 1794
Turma: DIR 1A
Dolo natural 2 Jurisprudências:
PROCESSO
HC 757467
RELATOR(A)
Ministro OTÁVIO DE ALMEIDA TOLEDO (DESEMBARGADOR CONVOCADO DO TJSP)
DATA DA PUBLICAÇÃO
DJe 18/10/2024
DECISÃO
HABEAS CORPUS Nº 757467 - PR (2022/0223585-8)
DECISÃO
Trata-se de habeas corpus, com pedido liminar, impetrado em favor de RODRIGO AMORIN ROSA contra acórdão proferido pelo Tribunal de Justiça do Estado do Paraná (Apelação Criminal n. 0011923-80.2011.8.16.0013), nos termos do acórdão assim ementado (fl. 20/21):
APELAÇÃO CRIME - SENTENÇA ABSOLUTÓRIA - APELAÇÃO 01 REFERENTE AO CRIME DE ROUBO DUPLAMENTE MAJORADO (ART. 157, §2º, INCISO II, DO CÓDIGO PENAL) COM RESPALDO NO ART. 386, VII, DO CPP - PRETENSÃO DE RETIFICAÇÃO DO FUNDAMENTO LEGAL MEDIANTE INCIDÊNCIA DO INCISO IV DO ART. 386 DO CPP - NÃO ACOLHIMENTO - MATERIALIDADE DO CRIME DEVIDAMENTE COMPROVADA - DÚVIDA ACERCA DO ENVOLVIMENTO DO APELANTE NO CRIME A ELE IMPUTADO - MANUTENÇÃO DA SENTENÇA - RECURSO NÃO - - SENTENÇA CONDENATÓRIA PROVIDO APELAÇÃO 02 REFERENTE AO CRIME DE ROUBO DUPLAMENTE MAJORADO (ART. 157, §2º, INCISO II, DO CÓDIGO PENAL) - PRELIMINAR - NULIDADE DO RECONHECIMENTO DO RÉU OPERADO POR FOTOGRAFIA - NÃO OBSERVÂNCIA ESTRITA DO DISPOSTO NO ART. 226 DO CPP - NULIDADE - NÃO OCORRÊNCIA - CONDENAÇÃO EMBASADA EM AMPLO CONJUNTO PROBATÓRIO - ADMISSIBILIDADE - PRECEDENTES - PLEITO ABSOLUTÓRIO COM BASE NO PRINCÍPIO - IN DUBIO PRO REO DESCABIMENTO NA ESPÉCIE - MATERIALIDADE E AUTORIA DELITIVAS AMPLAMENTE COMPROVADAS - VERSÃO DEFENSIVA ISOLADA NOS AUTOS - ART. 156 DO CPP - IMPORTÂNCIA DA PALAVRA DA VÍTIMA EM CRIMES CONTRA O PATRIMÔNIO - NARRATIVAS DOS OFENDIDOS CORROBORADAS PELOS DEPOIMENTOS DO POLICIAL ATUANTE NO CASO E CONFISSÃO EXTRAJUDICIAL - VALIDADE - CONDENAÇÃO MANTIDA - DOSIMETRIA DA PENA - PLEITO DE REDUÇÃO DA PENA-BASE AO PATAMAR MÍNIMO LEGAL - IMPOSSIBILIDADE - VALORAÇÃO NEGATIVA DAS VETORIAIS DOS ANTECEDENTES, DA CONDUTA SOCIAL E DAS CIRCUNSTÂNCIAS DO CRIME - IDONEIDADE - PEDIDO GENÉRICO DE AFASTAMENTO DAS AGRAVANTES - INADMISSIBILIDADE - RÉU REINCIDENTE - RECURSO NÃO PROVIDO.
AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. ROUBO MAJORADO TENTADO.
CONDENAÇÃO. NULIDADE. INOBSERVÂNCIA DO ART. 226 DO CPP.
RECONHECIMENTO FOTOGRÁFICO CORROBORADO POR OUTRAS PROVAS.
ILEGALIDADE. NÃO OCORRÊNCIA. REEXAME FÁTICO-PROBATÓRIO.
IMPOSSIBILIDADE.
1. "O reconhecimento de pessoa, presencialmente ou por fotografia, realizado na fase do inquérito policial, apenas é apto, para identificar o réu e fixar a autoria delitiva, quando observadas as formalidades previstas no art. 226 do Código de Processo Penal e quando corroborado por outras provas colhidas na fase judicial, sob o crivo do contraditório e da ampla defesa." (HC n. 598.886/SC, relator Ministro Rogerio Schietti Cruz, Sexta Turma, julgado em 27/10/2020, DJe 18/12/2020.)
2. Consoante o acórdão recorrido, "em sede policial, não se tratou de reconhecimento fotográfico, mas sim de auto de reconhecimento pessoal positivo", tendo em vista que o agravante foi preso em flagrante.
3. O Tribunal de origem, soberano na análise de questões fático-probatórias dos autos, analisando os elementos probatórios colhidos nos autos, sob o crivo do contraditório, concluiu pela comprovação da autoria do delito de roubo majorado.
4. Assim, verifica-se que a mudança da conclusão alcançada no acórdão impugnado, para o fim de acolher a tese defensiva, exige o reexame de fatos e provas, o que não se coaduna com a via eleita.
5. Agravo regimental desprovido.
(AgRg no HC n. 916.510/SP, relator Ministro Antonio Saldanha Palheiro, Sexta Turma, julgado em 27/8/2024, DJe de 2/9/2024, grifamos).
Ante o exposto, denego a ordem de habeas corpus.
Publique-se e intimem-se.
Brasília, 17 de outubro de 2024.
Ministro OTÁVIO DE ALMEIDA TOLEDO (Desembargador Convocado do TJSP)
Relator
PROCESSO
HC 906098
RELATOR(A)
Ministro JOEL ILAN PACIORNIK
DATA DA PUBLICAÇÃO
DJe 22/04/2024
DECISÃO
HABEAS CORPUS Nº 906098 - BA (2024/0131291-0)
DECISÃO
Trata-se de habeas corpus, com pedido liminar, impetrado em favor de EDUARDO LIMA VASCONCELOS contra acórdão do TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DA BAHIA na Ação Penal n. 8026381-88.2023.8.05.0000.
Consta dos autos que o Ministério Público ofereceu denúncia contra o paciente, Prefeito do Município de Brumado-BA, pela prática de dois delitos de difamação (art. 139, caput, c.c. o art. 141, II e § 2°, ambos do Código Penal), tendo como vítima o "Sr. Rui Costa dos Santos, à época, Governador do Estado da Bahia" (fl. 453).
A denúncia foi recebida nos termos da seguinte ementa:
"AÇÃO PENAL ORIGINÁRIA CONDICIONADA À REPRESENTAÇÃO. DENÚNCIA OFERECIDA PELO MINISTÉRIO PÚBLICO ESTADUAL EM DESFAVOR DE EDUARDO LIMA VASCONCELOS, PREFEITO DO MUNICÍPIO DE BRUMADO, APONTANDO-0 COMO INCURSO NAS PENAS DO ART. 139, CAPUT (DUAS VEZES) C/C ARTIGO 141, II, E 141, § 2°, DO CÓDIGO PENAL, EM CONCURSO MATERIAL (ARTIGO 69 DO CÓDIGO PENAL). CRIME CONTRA A HONRA. PRELIMINAR DE ILEGITIMIDADE ATIVA. CRIME DE DIFAMAÇÃO PRATICADO CONTRA FUNCIONÁRIO PÚBLICO EM RAZÃO DE SUAS FUNÇÕES. LEGITIMIDADE CONCORRENTE DO MINISTÉRIO PÚBLICO. SÚMULA 714 DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. PRELIMINAR REJEITADA. MÉRITO. QUANDO DO OFERECIMENTO DE DENÚNCIA, O ACUSADO SE DEFENDE DOS FATOS NARRADOS E TIDOS COMO CRIMES, OS QUAIS, NO CASO CONCRETO, FORAM DESCRITOS, ACOMPANHADOS DE CONSISTENTE ACERVO PROBATÓRIO. PRESENÇA DE JUSTA CAUSA QUE AUTORIZA A INSTAURAÇÃO DE AÇÃO PENAL PÚBLICA. PEÇA ACUSATÓRIA QUE OBSERVA OS REQUISITOS POSITIVOS EXIGIDOS NO ART. 41 DO CPP. COMPROVAÇÃO DA MATERIALIDADE DO FATO, QUE SE CONSTITUI EM UMA INFRAÇÃO PENAL. EXISTÊNCIA DE FORTES INDÍCIOS DA AUTORIA DELITIVA. DENÚNCIA RECEBIDA NOS TERMOS EM QUE FOI OFERECIDA PELO ÓRGÃO MINISTERIAL, SEM DECRETAR O AFASTAMENTO DO GESTOR MUNICIPAL DENUNCIADO DO EXERCÍCIO DO CARGO DE PREFEITO DO MUNICÍPIO DE BRUMADO". (fl. 451) A impetrante sustenta que, "para a caracterização dos crimes contra a honra faz-se necessário, além do dolo natural, a presença do elemento subjetivo do injusto, ou seja, o dolo específico de ofender ou macular a honra da vítima" (fl. 9), inexistente no caso em análise, visto que o paciente apenas teceu críticas duras acerca do pronunciamento do Sr. Rui Costa sobre o tráfico de drogas, durante "embate político travado no curso do pleito de 2022" (fl. 15).
Também alega nulidade decorrente do indeferimento do pedido de intimação pessoal de testemunhas.
Requer, em liminar, a suspensão da ação penal, inclusive da audiência designada para o dia 30/4/2024, bem como a nulidade da decisão que indeferiu a intimação pessoal das testemunhas. No mérito, busca o trancamento da ação penal.
É o relatório.
Decido.
No caso, ao menos em juízo perfunctório, não é possível identificar de plano o constrangimento ilegal aventado ou, ainda, a presença do fumus boni iuris e do periculum in mora, elementos autorizadores para a concessão da tutela de urgência.
Destarte, a pretensão será analisada mais detalhadamente na oportunidade de seu julgamento definitivo, após as informações devidamente prestadas, bem como da manifestação do Parquet federal.
Por tais razões, indefiro o pedido de liminar.
Oficie-se à autoridade coatora, a fim de requisitar-lhe, no prazo legal, as informações pertinentes, a serem prestadas, preferencialmente, pela Central do Processo Eletrônico - CPE do STJ.
Requisite-se, também, o envio de senha para acesso ao processo no site do Tribunal, se for o caso.
Após, encaminhem-se os autos ao Ministério Público Federal para parecer.
Publique-se.
Intimem-se.
Brasília, 19 de abril de 2024.
JOEL ILAN PACIORNIK
Relator
Dolo normativo 2 Jurisprudências:
PROCESSO
REsp 1751111
RELATOR(A)
Ministro NEFI CORDEIRO
DATA DA PUBLICAÇÃO
DJe 28/08/2018
DECISÃO
RECURSO ESPECIAL Nº 1.751.111 - RO (2018/0154964-7)
DECISÃO
Trata-se de recurso especial interposto em face de acórdão que negou provimento ao recurso de apelação da defesa, mantendo a sentença que o condenara pela prática do crime previsto no art. 180, caput, do Código Penal, à pena de3 anos de reclusão e 20 dias-multa.
Sustenta o recorrente violação dos arts. 59 e 67, ambos do Código Penal, ao argumento de serem inidôneos os fundamentos para a exasperação da pena-base, bem como ser excessivo o quantum de aumento imposto para cada uma das circunstâncias judiciais desfavoráveis. Alega ser cabível a compensação da agravante da reincidência com a atenuante da confissão.
Requer o provimento do recurso para que seja fixada a pena-base no mínimo legal e compensadas a reincidência com a confissão, na segunda fase da dosagem da pena.
Contrarrazoado e admitido na origem, manifestou-se o Ministério Público Federal pelo improvimento do recurso.
É o relatório.
Decido.
Insurge-se o recorrente contra a dosagem da pena, por considerar inidôneos os fundamentos para a exasperação da pena-base e excessivo o quantum de aumento imposto para cada uma das circunstâncias judiciais consideradas desfavoráveis, bem como pela não compensação da reincidência com a confissão espontânea, Manifestou-se o Tribunal a quo, quanto aos pontos, nos seguintes termos (fls. 155/156):
A defesa afirma que na análise da culpabilidade não foi levado em conta a intensidade do dolo na conduta praticada, e que o objeto do crime não pode ser considerado para a exasperação da pena.
Todavia, razão não assiste ao recorrente.
Para os que comungam com a teoria clássica do dolo normativo, inserido na culpabilidade, até se admite falar em intensidade do dolo. Mas para quem, como eu, filia-se à teoria finalista do dolo natural, onde este sai da culpabilidade para integrar o injusto penal (especificamente no tipo), não há o que se falar em intensidade do dolo, pois a consciência da ilicitude é insita da culpabilidade (estrito lato), ou seja, já constitui elemento do conceito analítico de crime. Portanto, não poderia mesmo o magistrado fundamentar a culpabilidade tendo em conta a intensidade do dolo.
Por outro lado, o valor do bem deve sim ser considerado neste momento. Não se trata do bem em si (motocicleta), visto que constitui o objeto do crime. Mas, ao saber que uma motocicleta tem, presumidamente, valor expressivo, torna a ação ainda mais reprovável, pois denota a característica gananciosa do réu.
No que tange ao antecedente criminal, o magistrado não fez ponderação negativa, reservando-o para a segunda fase.
Os motivos e as circunstâncias do crime também não foram sopesados em desfavor do apelante.
Já as consequências, tal como fundamentadas, a defesa argumenta que devem ser consideradas neutras, porquanto inerentes ao tipo penal. O que discordo.
As consequências extrapenais do crime de receptação são muito danosas, na medida em que fomenta a prática de outros delitos patrimoniais (furto, roubo, estelionato, etc.). Quando se trata de receptação de veículo praticada em cidade limítrofe a outro país (Bolívia) sabidamente marcado pela produção e venda de drogas para o Brasil, e não raras as vezes esse entorpecente é trocado por carros e motos produto de ilícito, as consequências são inevitáveis e graves, pois estimulam o comércio de droga, transformando a cidade de Guajará-Mirim/RO em um verdadeiro corredor do tráfico.
A propósito, sobre as consequências do crime, lapidar o ensinamento de E. Magalhães Noronha (Direito Penal, v. 1, Ed. Saraiva, 3 ia ed.
P. 243):
[...]
Efeitos ainda mais afastados não são senão aqueles prospectivos que acabei de mencionar.
Portanto, a despeito de a pena-base ter se afastado do mínimo legal em 1 (um) ano e 6 (seis) meses de reclusão, não vejo como acolher o pleito da defesa, porque o magistrado o fez de forma fundamentada e condizente com a reprovabilidade da conduta praticada. Além disso, a jurisprudência consolidada admite que uma só circunstância judicial desfavorável é o quanto se basta para justificar o aumento da pena-base.
Conforme se observa no acórdão recorrido, a sentença, mantida pelo acórdão, valorou negativamente as circunstâncias judiciais da culpabilidade e das consequências do delito.
A culpabilidade foi negativamente valorada dada a maior reprovabilidade da conduta, por se tratar de receptação de veículo automotor, bem de maior expressão econômica.
No entanto, a jurisprudência desta Corte firmou-se no sentido de que, no crime de receptação, o simples fato de o bem receptado tratar-se de veículo automotor não constitui fundamento suficiente, por si só, para elevar a pena-base, porquanto o prejuízo material é atributo ínsito aos delitos patrimoniais, de modo a não desbordar da reprovabilidade comum ao tipo penal. Nesse sentido o AgRg no HC 347.280/SP, de minha relatoria, SEXTA TURMA, julgado em 30/03/2017, DJe 07/04/2017, e o AgRg no REsp 1715692/SP, Rel. Ministro REYNALDO SOARES DA FONSECA, QUINTA TURMA, julgado em 03/04/2018, DJe 13/04/2018.
Quanto às consequências do delito, verifica-se que o desvalor da conduta está fundado na gravidade abstrata do crime, não tendo sido avaliados os efeitos danosos concretamente provocados pela conduta do agente que ultrapassassem àqueles inerentes ao tipo penal em questão: receptação. Nesse sentido:
PROCESSO PENAL. EMBARGOS DE DECLARAÇÃO NO AGRAVO REGIMENTAL NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. AUSÊNCIA DE OMISSÃO, CONTRADIÇÃO OU OBSCURIDADE. REVISÃO DO JULGADO. IMPOSSIBILIDADE. EMBARGOS REJEITADOS. FLAGRANTE ILEGALIDADE. CONCEDIDO HABEAS CORPUS DE OFÍCIO PARA REDIMENSIONAR A PENA-BASE.
[...]
3. Em que pese a existência de certo grau de discricionariedade do julgador no cálculo da pena, verifica-se que não houve a indicação de elementos idôneos para a majoração da pena-base no tocante a diversas circunstâncias do artigo 59 do código Penal.
4. No sopesamento dos referidos vetores, as instâncias antecedentes se valeram de argumentos genéricos quanto à gravidade abstrata do delito de tráfico de drogas e de dados próprios do tipo penal, tais como a busca do lucro fácil e consciência da ilicitude, sem a devida particularização no contexto fático dos autos, em manifesto confronto com a jurisprudência desta Corte.
[...]
6. No sopesamento das consequências, os argumentos foram genéricos, utilizando-se dados próprios do tipo penal, tais como serem condutas nefastas "para a sociedade, pois de grande potencial, é responsável pela ruína de diversos jovens e famílias, sedo também o móvel de diversos outros crimes", em manifesto confronto com a jurisprudência desta Corte.
[...]
8. Embargos de declaração rejeitados, concedido habeas corpus de ofício para o redimensionamento da reprimenda do embargante para 4 anos, 11 meses e 15 dias mais o pagamento de 50 dias-multa a ser cumprida em regime fechado.
(EDcl no AgRg no AREsp 178.922/RN, Rel. Ministro RIBEIRO DANTAS, QUINTA TURMA, julgado em 12/12/2017, DJe 19/12/2017) Desse modo, afastadas as duas vetoriais consideradas negativamente pelas instâncias ordinárias, a pena-base deve ser reduzida ao mínimo legal.
Pretende, ainda, o recorrente a compensação da agravante da reincidência com a atenuante da confissão. No entanto, referida tese não foi apreciada pelo Tribunal a quo nem foram manejados embargos de declaração para suprir a omissão, ressentindo-se do indispensável requisito do prequestionamento.
Incidem, à espécie, as Súmulas 282 e 356 do Supremo Tribunal Federal, aplicáveis, por analogia, respectivamente: É inadmissível o recurso extraordinário, quando não ventilada, na decisão recorrida, a questão federal suscitada; e O ponto omisso da decisão, sobre o qual não foram opostos embargos declaratórios, não pode ser objeto de recurso extraordinário, por faltar o requisito do prequestionamento.
De todo modo, ainda que assim não fosse, o entendimento firmado pela Terceira Seção, de ser cabível a compensação da agravante da reincidência com a atenuante da confissão, sofre alteração na hipótese de réu multirreincidente, em que não é devida a compensação integral entre elas, por evidenciar maior reprovabilidade da conduta, conforme precedentes desta Corte, no sentido de que, muito embora se reconheça a compensação da confissão espontânea com a reincidência, em se tratando de réu multirreincidente, a compensação integral implicariaofensa aos princípios da individualização da pena e da proporcionalidade, mormente porque a multirreincidência exige maior reprovação, devendo, pois, prevalecer sobre a atenuante (AgRg no AREsp 585.654/DF, Rel. Ministro FELIX FISCHER, QUINTA TURMA, julgado em 16/02/2016, DJe 26/02/2016). Nesse mesmo sentido:
AgRg no REsp 1493053/DF, Rel. Ministro ROGERIO SCHIETTI CRUZ, SEXTA TURMA, julgado em 19/11/2015, DJe 03/12/2015.
Passo, assim, à dosagem da pena.
Considerando o afastamento das duas circunstâncias judiciais, reduzo a pena-base, proporcionalmente, a 1 ano de reclusão e 10 dias-multa, que se agrava em 1/6, pela reincidência, perfazendo, assim, 1 ano e 2 meses de reclusão e 11 dias-multa, as quais se tornam definitivas, ante a ausência de outras causas modificativas, mantido, no mais, o acórdão.
Ante o exposto, dou parcial provimento ao recurso especial para reduzir a pena imposta ao recorrente à 1 ano e 2 meses de reclusão e 11 dias-multa.
Intimem-se.
Publique-se.
Brasília, 07 de agosto de 2018.
MINISTRO NEFI CORDEIRO Relator
PROCESSO
AREsp 1322846
RELATOR(A)
Ministra ASSUSETE MAGALHÃES
DATA DA PUBLICAÇÃO
DJe 09/12/2019
DECISÃO
AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL Nº 1.322.846 - RS (2018/0167905-1)
DECISÃO
Trata-se de Agravo, interposto por ZILMAR VARONES HAN, contra decisão do Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul, que inadmitiu o Recurso Especial interposto contra acórdão assim ementado:
"APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO CIVIL PÚBLICA. IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA.
PREFEITO MUNICIPAL. COMPRAS FRACIONADAS DE BENS DE UTILIZAÇÃO ROTINEIRA. FRACIONAMENTO PARA CONTORNAR A NECESSIDADE DE LICITAÇÃO, E, ASSIM, ESCOLHER PESSOALMENTE DE QUEM COMPRAR. IMPROBIDADE CARACTERIZADA PELO ART. 11, CAPUT, DA LEI 8.429/92, TENDO EM CONTA QUE O AUTOR NÃO APELOU DA PARTE DA SENTENÇA QUE NÃO RECONHECEU PREJUÍZO AO ERÁRIO. ADEQUAÇÃO DOS SANCIONAMENTOS.
POR MAIORIA, APELAÇÃO PROVIDA EM PARTE" (fl. 2.320e).
Sustenta a parte agravante, que:
"Há um importante registro a ser, desde já, lavrado: não se roga uma nova instrução probatória. Entretanto, é possível conferir outra conclusão relativa ao conjunto das provas. Tal situação é inata ao próprio 'ato de julgar', não podendo ser excluída por qualquer decisão ou orientação jurisprudencial, sob pena de grave afronta ao princípio da ampla defesa e do contraditório.
As provas já chegaram nesse Tribunal, conforme a apuração realizada, normalmente, em primeira instância, o que também acontece quando a ação é, originariamente, apreciada pelo Tribunal a quo.
Nenhuma decisão judicial prescinde do fato. Foi somente esse o ocorrido no Recurso Especial. Foram expostos os fatos já carreados aos autos e inclusive expressamente citados e, alguns até mesmo incontroversos no próprio Acórdão ora em debate.
Ademais os fatos existentes no mundo real - e a sua exposição sistemática no 'mundo jurídico-judicial' são indispensáveis para que o Poder Judiciário, em qualquer de suas facetas, possa exercer a judicatura.
Impossível qualquer ação basear-se exclusivamente no âmbito normativo, bem como em um utópico julgamento meramente 'de direito'.
A ação ou omissão humana (fatos) são indispensáveis para a condução do próprio Judiciário e se constituem como fundamento do exercício jurisdicional.
Ainda, o STJ pode e deve promover sua ,análise a fim de alcançar os elementos de estrutura e circunstâncias. A decisão impugnada é devolvida ao Tribunal Superior para reexame, sendo vedado nos termos da Súmula n° 7, a pretensão do simples reexame da prova.
In casu, ao contrário do que referido pela decisão monocrática ora agravada, não há nenhuma afronta à referida Súmula, pois não foi solicitada ou requerida uma nova instrução probatória visando demonstrar a ocorrência ou não dos fatos apurados neste processo.
O que se fez, e foi mal interpretado pelo Tribunal a quo, foi tão somente trazer os fatos para que se pudesse, legítima e constitucionalmente, solicitar o reexame da questão jurídica da interpretação do processo judicial.
(...)
O caso ora analisado, ao contrário do que referido pela decisão monocrática ora agravada, não contém nenhuma afronta à Súmula 7 do STJ, pois não foi solicitada ou requerida uma nova instrução probatória visando demonstrar a ocorrência ou não dos fatos que restaram por julgar procedente a demanda ministerial.
Apenas se demonstrou, sob o prisma jurídico, que a interpretação dada pelo TJRS não foi a riais adequada, pois imputou como ímprobas condutas claramente praticadas de acordo com a legislação e com os princípios constitucionais.
(...)
Os tribunais outrora já firmaram entendimento no sentido de se exigir a prova de dolo específico para a responsabilização civil do agente público, ou seja, a má-fé. Depreende-se da leitura de diversos julgados que isto corresponde ao que o direito penal chama de dolo normativo, no qual além da consciência e vontade exige-se também a consciência atual da ilicitude (dolus malus) Assim, conquanto persista a discussão acerca da natureza do elemento subjetivo da improbidade administrativa, existindo divergência no próprio Superior Tribunal de Justiça - que já decidiu tanto pela imprescindibilidade da prova de má-fé, como pela suficiência de dolo genérico - é preciso que os Tribunais Superiores manifestem-se claramente sobre o assunto.
A alegação de que para firmar tal entendimento se faz necessário o reexame das provas também não pode prosperar. O que se.busca não é uma análise caso a caso de todos os processos de improbidade administrativa, pelo contrário, é de que haja entendimento claro o suficiente para que não paire mais dúvida sobre as provas necessárias para o enquadramento legal.
(...)
A questão de fundo daquele Recurso Especial, além da averiguação quanto ao elemento subjetivo da conduta, é a compreensão de se o agir descrito no artigo 11 da LIA é, ou não, tipo incongruente. Já que o conceito de dolo é oriundo do Direito Penal, e nesta; temática há a diferenciação dos tipos, nada mais lógico que o esclarecimento deste ponto.
(...)
In casu, não se requer a simples REANÁLISE de provas, mas que apenas seja feita a REVALORAÇÃO da prova colhida, oportunidade em que a partir deste momento, restará visível o afastamento da incidência dos dispositivos da própria Lei 8429/92, eis que INEXISTENTE QUALQUER IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA que pudesse ter sido imputada para este Agravante" (fls. 2.412/2.417e).
Requer, ao final, o provimento do Agravo.
Contraminuta às fls. 2.424/2.429e.
Esta Relatoria, por meio da decisão de fls. 2.437/2.440e, concluiu que a tese apresentada pela parte recorrente, nas razões do Recurso Especial, teve repercussão geral reconhecida, pelo Plenário do STF, nos autos do RE 976.566/PA (tema 576, Relator Ministro ALEXANDRE DE MORAES), que trata da questão relativa à possibilidade, ou não, de processamento e julgamento de prefeito por atos de improbidade administrativa, com base na Lei 8.429/92, razão pela qual determinou a devolução dos autos ao Tribunal de origem, para que o processo permanecesse suspenso até a publicação do acórdão do referido Recurso Extraordinário.
O Tribunal a quo, por sua vez, entendeu que a referida matéria não foi objeto de irresignação nas razões de Apelação do recorrente, configurando inovação recursal, concluindo que, por não se enquadrar o presente recurso no Tema 576 do STF, deveria haver a devolução dos autos a esta Corte para prosseguimento da demanda.
A irresignação não merece conhecimento.
Do exame dos autos, verifica-se que os fundamentos da decisão agravada, para inadmitir o Recurso Especial, são os seguintes: a) "a apreciação da ausência de dolo na conduta do Recorrido exige o reexame do contexto fático-probatório, o que esbarra na Súmula 7 do Superior Tribunal de Justiça, cujo teor 'A pretensão de simples reexame de prova não enseja recurso especial'. Com afeito, a Câmara Julgadora procedeu ao exame das provas, concluindo que 'A prova dos autos desautoriza que se tenha qualquer dúvida em relação à má-fé e o dolo no agir do denunciado, elementos essenciais para que se caracterize ato de improbidade administrativatipificado no art. 11 da Lei n° 8.429/92' (fl. 1.886). Assim, não há falar em responsabilização objetiva" (fl. 2.392e); b) "a apreciação da violação aos princípios da proporcionalidade e razoabilidade na fixação da sanção exige o reexame do contexto fático-probatório, o que esbarra na Súmula 7 do Superior Tribunal de Justiça, a cujo teor 'A pretensão de simples reexame de prova não enseja recurso especial'. Com efeito, o Órgão Julgador procedeu ao exame das provas, concluindo pela fixação da sanção com base no artigo 12 da Lei n.° 8.429/92" (fl. 2.400e).
O recorrente, no entanto, no Agravo, não cuidou de impugnar a decisão quanto à incidência da Súmula 7/STJ, especialmente no tocante ao fundamento de que a apreciação da violação aos princípios da proporcionalidade e razoabilidade na fixação da sanção exige o reexame do contexto fático-probatório dos autos.
Com efeito, "não basta a assertiva genérica de que é desnecessária a análise de prova, ainda que seja feita breve menção à tese sustentada. É imprescindível o cotejo entre o acórdão combatido e a argumentação trazida no recurso especial que pudesse justificar o afastamento do citado óbice processual" (STJ, AgInt no AREsp 1.067.725/SP, Rel. Ministro OG FERNANDES, SEGUNDA TURMA, DJe de 20/10/2017). Nesse sentido:
"PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO REGIMENTAL NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL.
MANDADO DE SEGURANÇA. FORNECIMENTO DE MEDICAMENTO. VIOLAÇÃO AO ART. 535 DO CPC/1973. NÃO OCORRÊNCIA. IMPUGNAÇÃO GENÉRICA. SÚMULA 182 DO STJ. INCIDÊNCIA. ALEGAÇÃO DE AUSÊNCIA DE DIREITO LÍQUIDO E CERTO.
APLICAÇÃO DA SÚMULA 7 DO STJ.
1. O Plenário do STJ decidiu que 'aos recursos interpostos com fundamento no CPC/1973 (relativos a decisões publicadas até 17 de março de 2016) devem ser exigidos os requisitos de admissibilidade na forma nele prevista, com as interpretações dadas, até então, pela jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça' (Enunciado Administrativo n. 2).
2. Conforme reiterada jurisprudência desta Corte de Justiça, o agravante deve infirmar, nas razões do regimental, todos os fundamentos da decisão impugnada, sejam eles autônomos ou não, sob pena de não ser conhecido o seu recurso, a teor do disposto na Súmula 182 do STJ.
3. Hipótese em que o recorrente não se desincumbiu do ônus de impugnar, de forma clara e específica, todos motivos da decisão ora agravada, limitando-se a alegar, genericamente, ofensa ao art. 535 do CPC/1973, sem explicitar os pontos em que teria sido omisso o acórdão recorrido, em flagrante desrespeito ao principio da dialeticidade.
4. No tocante à incidência da Súmula 7 do STJ, a mera referência a julgados desta Corte favoráveis à revaloração do conjunto probatório, mas sem nenhuma identidade fática com o caso em análise, não tem o condão de ilidir os fundamentos da decisão agravada.
5.Agravo regimental não conhecido" (STJ, AgRg no AREsp 721.539/PE, Rel. Ministro GURGEL DE FARIA, PRIMEIRA TURMA, DJe de 18/08/2016).
"PROCESSUAL CIVIL. AGRAVOS REGIMENTAIS. ARESP. RAZÕES DE AGRAVO QUE NÃO TRATAM DOS ARGUMENTOS DA DECISÃO QUE NEGA SEGUIMENTO A RECURSO ESPECIAL. SÚMULA N. 182 DESTA CORTE SUPERIOR E ART. 544, § 4º, INC.
I, CPC.
1. Não se pode conhecer do agravo regimental apresentado pelo Parquet estadual, uma vez que compete ao Ministério Público Federal a representação do Ministério Público no Superior Tribunal de Justiça nos termos da Lei Complementar n. 75/93 e da Lei n. 8.625/93.
2. No mais, trata-se, originalmente, de agravo interposto contra decisão da instância ordinária que negou admissibilidade a recurso especial com base nos seguintes argumentos: (i) inexistência de ofensa ao art. 535 do CPC e (ii) aplicação da Súmula n. 7 desta Corte Superior.
3. Nas razões de agravo (ARESP), a parte agravante não combateu todos os motivos que ensejaram a negativa de seguimento ao recurso especial (decisão agravada): afirmou-se não se pretender a análise de fatos e provas (com conseqüente não-incidência da Súmula n. 7/STJ), sem, contudo, demonstrar tal assertiva - trascrevendo, por exemplo, trechos do acórdão recorrido em que tenha sido travada a discussão do especial, para provar que não são necessários novos aportes de fatos e provas não contidos no acórdão. Combate deste tipo é genérico e não se presta como impugnação à decisão agravada.
4. Incidem, no caso, a Súmula n. 182 desta Corte Superior (por analogia), segundo a qual '[é] inviável o agravo do art. 545 do CPC que deixa de atacar especificamente os fundamentos da decisão agravada' e o art. 544, § 4º, inc. I, segunda parte, do CPC.
5. Agravo regimental do Ministério Público estadual não conhecido.
Agravo regimental do Ministério Público Federal não provido" (STJ, AgRg no AREsp 27.323/GO, Rel. Ministro MAURO CAMPBELL MARQUES, SEGUNDA TURMA, DJe de 01/12/2011).
Registre-se que a parte, ao recorrer, deve buscar demonstrar o desacerto do decisum contra o qual se insurge, refutando todos os óbices por ele levantados, sob pena de vê-lo mantido.
Tal entendimento, inclusive, está consolidado na Súmula 182/STJ, segundo a qual o recorrente deve infirmar, especificamente, os fundamentos da decisão impugnada, mostrando-se inadmissível o Agravo que não se insurge contra todos eles.
Em face do exposto, com fundamento no art. 932, III, do CPC/2015 e art. 253, parágrafo único, I, do RISTJ, não conheço do Agravo.
Não obstante o disposto no art. 85, § 11, do CPC/2015 e no Enunciado Administrativo 7/STJ ("Somente nos recursos interpostos contra decisão publicada a partir de 18 de março de 2016 será possível o arbitramento de honorários sucumbenciais recursais, na forma do art. 85, § 11, do NCPC"), deixo de majorar os honorários advocatícios, tendo em vista que, na origem, não houve prévia fixação de honorários sucumbenciais.
I.
Brasília (DF), 02 de dezembro de 2019.
MINISTRA ASSUSETE MAGALHÃES Relatora
Culpa própria Jurisprudência:
PROCESSO
AgInt no AREsp 1656657 / MG
AGRAVO INTERNO NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL
2020/0022643-3
RELATOR
Ministro HERMAN BENJAMIN (1132)
ÓRGÃO JULGADOR
T2 - SEGUNDA TURMA
DATA DO JULGAMENTO
12/04/2021
DATA DA PUBLICAÇÃO/FONTE
DJe 03/08/2021
EMENTA
PROCESSUAL CIVIL E DIREITO AMBIENTAL. PARQUE ESTADUAL DE SERRA NOVA E TALHADO. RESERVA DA BIOSFERA DA SERRA DO ESPINHAÇO. PROTEÇÃO JURÍDICA ESPECIAL DOS ECÓTONOS E DO BIOMA DOS CAMPOS RUPESTRES. SISTEMA NACIONAL DE UNIDADES DE CONSERVAÇÃO - SNUC. ARTS. 2º, XVII, 3º, 27, 28, PARÁGRAFO ÚNICO, E 41, § 3º, DA LEI 9.985/2000. PLANO DE MANEJO. PREVENÇÃO, PRECAUÇÃO E IN DUBIO PRO NATURA. DEVER ESTATAL DE CRIAÇÃO E GESTÃO ADEQUADA DE UNIDADES DE CONSERVAÇÃO. OMISSÃO DO ESTADO. ALEGAÇÃO DE DISCRICIONARIEDADE ADMINISTRATIVA. PAPEL DO JUIZ NA DEGRADAÇÃO AMBIENTAL. IMPOSSIBILIDADE DE REVOLVIMENTO DE PROVAS. SÚMULA 7/STJ.
HISTÓRICO DA DEMANDA
1. Na origem, o Ministério Público estadual propôs Ação Civil Pública contra o Estado de Minas Gerais e o Instituto de Florestas - IEF com pedido, quanto ao principal, de que os réus, em 24 meses, tomem providências para regularização fundiária e elaboração do Plano de Manejo do Parque Estadual de Serra Nova e Talhado. A sentença de procedência parcial foi confirmada pelo Tribunal de Justiça, apenas reduzida a multa diária (astreinte).
2. Com 49.890 hectares no semiárido do extremo Norte do Estado de Minas Gerais, o Parque Estadual de Serra Nova e Talhado, criado em 2003 e expandido em 2008, incorpora significativo fragmento da Cadeia do Espinhaço, maciço montanhoso de cerca de 1.200km de extensão e 120km de largura média (o segundo maior da América do Sul). Em 2005, a Unesco reconheceu a Reserva da Biosfera da Serra do Espinhaço (ampliada em 2019), máxime em razão das características ecológicas emblemáticas, um dos ambientes da Terra mais antigos, megadiversos e ameaçados.
3. O Parque abriga extraordinário Ecótono (ou Zona de Transição), produto de colisão, coexistência e infinitas interações - sob condições adversas e intricadas de clima, hidrologia, solo e fogo ocasional - entre os enormes biomas do Cerrado, Caatinga e Mata Atlântica. A mosaico ecológico e biota superlativos e únicos em todos os sentidossomam-se paisagens espetaculares, representadas por geofisionomias multifacetadas de grande beleza, casadas com nascentes de córregos e rios, ouro hidrológico em região assolada por longos períodos de estiagem e implacáveis secas periódicas. Em suma, um conjunto de atributos naturais complexos que realçam a infungibilidade e o valor ético-jurídico incalculável dos bens ambientais lá existentes.
4. Destaque à parte merece a vegetação do Parque, com predominância de Campos Rupestres (ou rupícolas, sobre rochas, do lat. rupes,is 'rochedo'), bioma heterogêneo, raro e escassamente pesquisado, acerca do qual tudo se anuncia no superlativo, seja pela opulência ecológica do espaço, seja pelo paradoxal descaso científico, jurídico e administrativo com patrimônio natural de tamanho interesse para a humanidade. Um universo florístico precioso e de idiossincrasias hiperbólicas por qualquer ângulo que se encare, a começar pela megadiversidade de plantas, reputada uma das maiores do mundo, sobretudo no estrato herbáceo e arbustivo. Estima-se que o domínio de Campos Rupestres - uma área total de menos de 1% do nosso território - concentre algo em torno de 15% das espécies da flora brasileira. Isso sem esquecer a colossal endemia desse bioma, correspondente à cifra impressionante de mais de um terço das espécies, muitas delas, por infelicidade, já oficialmente listadas como em risco de extinção. DEVER DE ELABORAÇÃO DO PLANO
DE MANEJO E OMISSÃO DO ESTADO
5. O Plano de Manejo traduz documento essencial à gestão das Unidades de Conservação, sua Carta Magna dinâmica. Por isso, a Lei 9.985/2000 estipula sua elaboração, guiada pelo princípio do manejo adaptativo, nos cinco anos seguintes ao estabelecimento da área protegida. O imperativo legal pressupõe atuação do Estado com quatro eixos medulares distintos, mas inter-relacionados: elaboração inicial, avaliação permanente, atualização periódica e implementação ativa.
6. Com o evidente propósito de se anteciparem à dilapidação do acervo ambiental e cultural do Parque Estadual, de modo correto procederam as duas instâncias da Justiça mineira, porquanto identificaram, no Plano de Manejo, mecanismo de planejamento e zoneamento, vale dizer, de inibição de ataques aos bens jurídicos salvaguardados pela lei. Pelo prisma do meio ambiente, a atuação mais eficaz, efetiva e eficiente do Estado vem a ser chegar antes da perda ecológica, celeridade inspirada nos princípios da prevenção, precaução e in dubio pro natura.
7. Apesar do festival de normas constitucionais e legais "voltadas à proteção dos demais seres vivos, ainda nos encontramos em um processo de construção de uma consciência ecológica" (REsp 1.797.175/SP, Rel. Min. Og Fernandes, Segunda Turma, DJe 28.3.2019).
Os campos rupestres retratam a amostra mais saliente da falta de "consciência ecológica" dos brasileiros, inclusive do Estado.
8. Em relação à possibilidade de controle judicial de políticas públicas, o STJ tem decidido que "a discricionariedade cede às opções antecipadas pelo legislador, que vinculam o executor e autorizam a apreciação judicial de sua implementação" (REsp 1.733.412/SP, Rel. Min. Og Fernandes, Segunda Turma, DJe 20.9.2019;
cf., na mesma linha, RO 213/DF, Rel. Min. Mauro Campbell Marques, Segunda Turma, DJe 12.12.2019; REsp 1.586.142/SP, Rel. Min. Humberto Martins, Segunda Turma, DJe 18.4.2016; AgInt no REsp 1.373.051/SC, Rel. Min. Gurgel de Faria, Primeira Turma, DJe 19.12.2018; AREsp 1.069.543/SP, Rel. Min. Benedito Gonçalves, Primeira Turma, DJe 2.8.2017. RESPONSABILIDADE CIVIL POR OMISSÃO ESTATAL CONSTATADA PELAS
INSTÂNCIAS ORDINÁRIAS: SÚMULA 7/STJ
9. É impossível, em face da Súmula 7/STJ, examinar a tese de inexistência de omissão estatal assim como a gestão adequada e eficiente da Unidade de Conservação em litígio. Destarte, para afastar a responsabilidade civil do Estado por omissão de cumprimento de dever legal expresso, inarredável seria rever o conjunto probatório dos autos e as premissas fáticas do acórdão recorrido em sentido inverso ao defendido pelos recorrentes.
CONCLUSÃO
10. Agravo Interno não provido.
ACÓRDÃO
Vistos e relatados estes autos em que são partes as acima indicadas, acordam os Ministros da Segunda Turma do Superior Tribunal de Justiça, por unanimidade, negar provimento ao recurso, nos termos do voto do Sr. Ministro Relator.
Os Srs. Ministros Francisco Falcão, Og Fernandes, Mauro Campbell Marques e Assusete Magalhães votaram com o Sr. Ministro Relator.
Presidiu o julgamento o Sr. Ministro Herman Benjamin.
NOTAS 
Tema: Meio Ambiente.
INFORMAÇÕES COMPLEMENTARES À EMENTA 
"Por defluência da riqueza e infungibilidade ecológicas do bioma, estamos diante, portanto, de regime jurídico especialíssimo e rigorosíssimo, vocalizado por meio de garantias de preservação perpétua. Para tanto, por óbvio, não se convoca a intermediação obrigatória do legislador infraconstitucional, pois o dever genérico de preservação se acha estampado na Constituição: uma prescrição constitucional autoexecutável e inderrogável, que invoca objetivos e princípios caros ao coração do Direito Ambiental, como prevenção, precaução, 'in dubio pro Natura', manutenção de ecossistemas frágeis e invulgares.
No que tange à área aqui em discussão (Parque Estadual de Serra Nova e Talhado), equivocado sustentar que os Campos Rupestres geograficamente inseridos no Cerrado ou na Caatinga façam parte dessas fitofisionomias e, 'a fortiori', sigam em tudo e por tudo os preceitos legais a elas aplicáveis, regramento que oferece salvaguarda muito inferior à prevista para os biomas da Mata Atlântica e da Amazônia. Aliás, quanto à Mata Atlântica, a 'vis atractiva' e a correlata submissão à disciplina unificada explicam-se por haver legislação específica dispondo, deliberadamente - com o desiderato de ampliar, e não de reduzir a tutela administrativa e judicial -, que no bioma se incluem os chamados 'ecossistemas associados' (art. 2º da Lei 11.428/2006), o que seguramente abarca os Campos Rupestres, sem prejuízo de restrições mais rigorosas, como o tratamento dado a Áreas de Preservação Permanente (Código Florestal).
O regime jurídico dos Campos Rupestres possui conteúdo jurídico-ecológico 'sui generis', separado daquele do Cerrado e da Caatinga. Calcado em mandamento constitucional direto, assim como sucede com os Ecótonos em geral, reclama a mais elevada medida de salvaguarda ecológica existente no Direito Ambiental brasileiro.
Afinal, o que mais se qualificaria como 'processos ecológicos essenciais' do que biomas e ecossistemas distinguidos pela antiguidade, raridade, endemismo, infungibilidade, baixa resiliência e diversidade florística inimaginável, verdadeiros 'bancos 'in situ' de germoplasma', simultaneamente laboratório, museu e biblioteca natural de estoque de informações genéticas sem-par, produto de centenas de milhares de anos de evolução?"
"[...] 'A criação de Unidades de Conservação não é um fim em si mesmo, vinculada que se encontra a claros objetivos constitucionais e legais de proteção da Natureza. Por isso, em nada resolve, freia ou mitiga a crise da biodiversidade diretamente associada à insustentável e veloz destruição de habitat natural, se não vier acompanhada do compromisso estatal de, sincera e eficazmente, zelar pela sua integridade físico-ecológica e providenciar os meios para sua gestão técnica, transparente e democrática. A ser diferente, nada além de um sistema de áreas protegidas de papel ou de fachada existirá, espaços de ninguém, onde a omissão das autoridades é compreendida pelos degradadores de plantão como autorização implícita para o desmatamento, a exploração predatória e a ocupação ilícita' [...]".
"Como qualquer texto normativo, requer concisão e clareza, o que não significa laconismo, admitindo remissão a documentos anexos, mais detalhados, e também a previsão de princípios gerais que confiram certa flexibilidade para acomodar e enfrentar fatos, circunstâncias e desafios porvindouros e imprevisíveis. Os preceitos da Lei 9.985/2000 não criam camisa de força para a Administração Pública,pois, desde que respeitados os objetivos, balizas, requisitos e padrões mínimos estabelecidos pelo legislador, fica a autoridade de regência da Unidade de Conservação com liberdade para encaminhar, de forma plausível, o processo de elaboração e de revisão do Plano de Manejo, adaptando-o às demandas e peculiaridades locais. A flexibilidade, contudo, requer indicação prévia de critérios para a escolha entre alternativas possíveis e razoáveis".
"[...] o STJ, ao cuidar de lide que envolvia precisamente o requisito de Plano de Manejo, já decidiu que, 'Havendo dever estatal específico e legalmente definido, inafastável a imputação objetiva e solidária ao Poder Público, decorrência, ademais, do microssistema jurídico especial de proteção do meio ambiente, que afasta a responsabilização com base em culpa, própria do regime comum aplicável à conduta omissiva do Estado em outros campos. Ser 'dominus' do bem público carrega obrigações incapazes de dissolução, contratual ou não, mesmo que o Estado não participe, não anua, não autorize ou não licencie condutas degradadoras do patrimônio ambiental e cultural, pois a falta ou a insuficiência de fiscalização e de exercício do poder de polícia, vale dizer, a omissão estatal, basta para a responsabilização, na condição de poluidor direto ou indireto (= 'a pessoa física ou jurídica, de direito público ou privado, responsável, direta ou indiretamente, por atividade causadora de degradação ambiental', art. 3º, IV, da Lei 6.938/1981)' [...]".
"[...] o Superior Tribunal de Justiça entende que o valor arbitrado a título de astreinte pode ser revisto, excepcionalmente, somente quando irrisório ou exorbitante, sob pena de ofensa ao disposto na Súmula 7 do STJ, o que não ocorre na espécie, visto tratar-se de execução de multa por injustificado descumprimento de ordem judicial pelos ora recorrentes [...]".
REFERÊNCIA LEGISLATIVA 
LEG:FED CFB:****** ANO:1988
***** CF-1988 CONSTITUIÇÃO FEDERAL DE 1988
 ART:00225 PAR:00001 INC:00001 INC:00002 INC:00003
LEG:FED LEI:009985 ANO:2000
 ART:00002 INC:00017 ART:00003 ART:00027 PAR:00003
 ART:00028 PAR:ÚNICO ART:00041 PAR:00003
LEG:FED SUM:****** ANO:****
***** SUM(STJ) SÚMULA DO SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA
 SUM:000007
LEG:FED LEI:011428 ANO:2006
 ART:00002
LEG:FED LEI:012651 ANO:2012
***** CFLO-12 CÓDIGO FLORESTAL DE 2012
LEG:FED LEI:006938 ANO:1981
***** LPNM-1981 LEI SOBRE A POLÍTICA NACIONAL DO MEIO AMBIENTE
 ART:00003 INC:00004
Culpa imprópria Jurisprudência:
PROCESSO
EDcl no HC 90431 / SP
EMBARGOS DE DECLARAÇÃO NO HABEAS CORPUS
2007/0215732-5
RELATOR
Ministro HAMILTON CARVALHIDO (1112)
ÓRGÃO JULGADOR
T6 - SEXTA TURMA
DATA DO JULGAMENTO
16/10/2007
DATA DA PUBLICAÇÃO/FONTE
DJe 14/04/2008
EMENTA
EMBARGOS NO HABEAS CORPUS. DIREITO PROCESSUAL PENAL. DEFERIMENTO DO APELO EM LIBERDADE. LIBERDADE PROVISÓRIA. CABIMENTO. RESIDÊNCIA FORA DO DISTRITO DA CULPA. IMPOSIÇÃO DE RESTRIÇÃO IMPRÓPRIA.
1. É cabível a aplicação analógica do parágrafo único do artigo 310 do Código de Processo Penal nos casos de deferimento do apelo em liberdade.
2. Em sendo a residência do agente em local diverso do distrito da culpa, imprópria a restrição "de se ausentar do distrito da culpa".
3. Embargos de declaração conhecidos como agravo regimental e provido parcialmente.
ACÓRDÃO
Vistos, relatados e discutidos os autos em que são partes as acima indicadas, acordam os Ministros da SEXTA TURMA do Superior Tribunal de Justiça, por unanimidade, acolher os embargos de declaração como agravo regimental e lhe dar parcial provimento, nos termos do voto do Sr. Ministro Relator. Os Srs. Ministros Paulo Gallotti, Maria Thereza de Assis Moura e Carlos Fernando Mathias (Juiz convocado do TRF 1ª Região) votaram com o Sr. Ministro Relator. Ausente, justificadamente, o Sr. Ministro Nilson Naves. Presidiu o julgamento a Sra. Ministra Maria Thereza de Assis Moura.
INFORMAÇÕES COMPLEMENTARES
 IMPOSSIBILIDADE, MAGISTRADO, IMPOSIÇÃO, RESTRIÇÃO, RÉU,
REFERÊNCIA, NECESSIDADE, COMUNICAÇÃO, AFASTAMENTO, DISTRITO DA CULPA
/ HIPÓTESE, DEFERIMENTO, DIREITO, APELAÇÃO EM LIBERDADE, E,
INEXISTÊNCIA, RESIDÊNCIA, RÉU, ÂMBITO, DISTRITO DA CULPA /
DECORRÊNCIA, IMPROPRIEDADE, RESTRIÇÃO.
REFERÊNCIA LEGISLATIVA 
LEG:FED DEL:003689 ANO:1941
***** CPP-41 CÓDIGO DE PROCESSO PENAL
 ART:00310 PAR:ÚNICO ART:00393 INC:00001 ART:00594

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