Prévia do material em texto
1 LUIZ, M.C. Formação de diretores de escola: uma proposta metodológica em mentoria. São Carlos: Editora Pedro & João Editores, 2024. A RELAÇÃO COM O SABER E O APRENDER ACADÊMICO, PRÁTICO E RELACIONAL Maria Cecília Luiz Este segundo tópico, “A Relação com o Saber e o aprender acadêmico, prático e relacional”, trata de três temáticas importantes a serem discutidas: a) a Relação com o Saber (RcS); b) a distinção entre informação, saberes e conhecimentos; c) e as figuras do aprender acadêmicas, práticas e relacionais. Tem como objetivos: conceituar a Relação com o Saber, de Bernard Charlot (2000); compreender o que o autor define como informação, saberes e conhecimentos; e, conhecer as figuras do aprender acadêmicas, práticas e relacionais. A Formação em Mentoria de Diretores Escolares abarca o referencial teórico da cultura colaborativa, escuta ativa, feedbacks escrito e orais, e narrativas. Além disso, utiliza-se do estopo epistêmico da Relação com o Saber (RcS), constituído com base em escritos de Bernard Charlot (2000), principalmente, no que se refere a compreensão da relação com o aprender, pois esse autor diferencia o saber do aprender. Basicamente, tem-se no saber um caráter intelectual e no aprender uma abrangência maior, com múltiplas formas de possibilidades. Ao analisar as relações epistêmicas, sociais e identitárias que ocorrem em processos de ensino e de aprendizagem, Charlot (2000, p. 78) afirma que “a relação com o saber é relação de um sujeito com o mundo, com ele mesmo e com os outros”. 2 2 LUIZ, M.C. Formação de diretores de escola: uma proposta metodológica em mentoria. São Carlos: Editora Pedro & João Editores, 2024. Desde o nascimento, somos instigados a aprender e, para Charlot (2000), esse sentido move o ser humano para a compreensão de quem ele é, como se constitui o seu coletivo e o que pode aprender com o mundo, pois o Saber é resultado, e se perpetua a vida toda. Nascer para o ser humano é ver-se submetido à obrigação de aprender. A teoria da RcS está alicerçada na certeza de que todo ser humano aprende, visto que, do contrário, não subsistiria como humano. Para ocorrer o “aprender” existe um triplo processo: “hominização” – o sujeito nasce despreparado e frágil e torna-se homem por meio do aprender; “singularização” – acredita-se que cada sujeito é único e se torna um exemplar singular; e, “socialização” – apesar de ser único, todo sujeito se torna membro de uma comunidade, partilhando os valores que lá existem e ocupando um lugar. Para Charlot (2005), o que diferencia a teoria da RcS é o foco em uma sociologia do sujeito, utilizando a filosofia, sociologia, antropologia e a psicanálise para pensar a questão do ensino e aprendizagem na escola. Desta forma, compreende que o sujeito é composto por desejos, pois não há RcS se não houver a parte do sujeito, ou pressupostos na compreensão do ser (único). O desejo é considerado algo inatingível e substancial, o que caracteriza uma busca constante por algo, no caso da RcS, quando o sujeito atinge um objeto logo busca um novo objeto desejável e, assim, torna-se um ciclo constante. Tem-se que o sujeito é constituído a partir da apropriação de elementos humanos, de sua mediação com o outro, e da sua história de vida e das formas de atividades e objetos que Não nascemos prontos, o ser humano passa a vida aprendendo... 3 LUIZ, M.C. Formação de diretores de escola: uma proposta metodológica em mentoria. São Carlos: Editora Pedro & João Editores, 2024. satisfazem o seu desejo (Charlot, 2005). Nesse sentido, o desejo permeia o processo de apropriação da RcS e se faz mediado pelas relações preestabelecidas, conforme as trajetórias de vida e as variáveis que compõem este percurso. Na perspectiva do inventário das figuras do aprender, a RcS é uma relação epistêmica em três aspectos: aprender é passar da não posse a posse – da identificação de um saber virtual à sua apropriação real. Essa relação epistêmica é a relação de um saber-objeto: linguagem escrita. O movimento de um saber-objeto e um sujeito consciente de ter-se apropriado de tal saber. Aprender é dominar uma atividade – capacitar-se a utilizar um objeto de forma pertinente. Do não domínio ao domínio. Para Merleau- Ponty (2004), o corpo é um lugar de apropriação do mundo, um conjunto de significações vivenciadas. Existe um Eu que está imerso em cada dada situação, um Eu que é corpo, percepções, sistema de atos em um mundo correlato de seus atos. Essa relação epistêmica é a relação de um saber-prático, pois aprender é o domínio de uma atividade engajada no mundo. Aprender é ser solidário, responsável, paciente, etc., em suma, é entender as pessoas, conhecer a vida, saber quem se é. Essa relação epistêmica é a relação de um saber-relacional, em que se apropria de saberes de forma intersubjetiva, com certo controle de seu desenvolvimento pessoal, de maneira reflexiva, com uma imagem de si mesmo. Dominar uma relação consigo próprio e com os outros. Qualquer RcS é uma relação de identidade. Aprender faz sentido pela referência à história do sujeito, as suas expectativas, as suas concepções de vida, as suas relações com os outros, à imagem que tem de si aos outros, etc. Toda RcS é uma relação consigo próprio por meio do aprender, por tanto, sempre está em jogo a construção de si mesmo e seu eco reflexivo, a imagem de si. 4 LUIZ, M.C. Formação de diretores de escola: uma proposta metodológica em mentoria. São Carlos: Editora Pedro & João Editores, 2024. O fracasso causa grandes estragos na relação consigo mesmo (depressão, drogas, suicídio, etc.), visto que a sociedade impõe um saber-objeto como sucesso escolar para ser alguém. A RcS pode ocorrer na relação com o outro que auxilia a aprendizagem de um conteúdo de Matemática, Ciências etc. Esse sujeito pode ser alguém que se admira ou se detesta, por isso a relação com o saber-objeto de um conteúdo de Matemática está na dependência da relação do docente com o aluno e dele consigo mesmo. Essa RcS está na perspectiva do saber-relacional e faz parte da dimensão identitária. A RcS também é uma relação social. O “eu” que é sujeito, pode ser um aluno que ocupa uma posição social e escolar, possui uma história marcada por encontros, eventos, rupturas, esperanças, aspirações, e torna-se alguém. O “outro” são os familiares, os professores e qualquer outro que influencie este aluno. A RcS não deixa de ser uma relação social, embora sendo do sujeito. Dois pontos importantes são destaque: dimensão social não se acrescenta às dimensões epistêmicas e identitárias, ela contribui para dar-lhes uma forma particular. A preferência de um sujeito por tal ou qual figura do aprender pode ser posta em correspondência com sua identidade social. Essa identidade social pode influenciar nas figuras do aprender de um sujeito, mas o interesse por tal ou qual figura do aprender contribui para a construção da sua identidade. Existe uma posição social, mas a sociedade não é apenas um conjunto de posições, ela é também história. Leva-se em consideração a origem social, evolução no mercado de trabalho, sistema escolar, formas de cultura, etc. Nesse sentido, compreendem-se as figuras do aprender, conforme os diferentes conceitos que levam um sujeito ao ato de aprender (mobilização, atividade e sentido), a partir do desejo da completude como ser humano. Ao considerar a posição social de um diretor, por exemplo, verifica-se o lugar que ele ocupa na sociedade, suas figuras do aprender, 5 LUIZ, M.C. Formação de diretores de escola: uma proposta metodológica em mentoria. São Carlos: Editora Pedro & João Editores, 2024. e essa análise possibilita observar também a sua escolha pela profissão, desde a docência até assumir a direção da escola; suasrelações e concepções sobre a função, etc. Assim, nenhuma análise da RcS está relacionada somente a uma dimensão, como a relação social, mas, sim, deve ser feita em conformidade com as análises de outras dimensões (epistêmicas e identitárias). Toda RcS está vinculada com histórias sociais e não apenas com as posições ou trajetórias, pois o aprender possui forte relação com o modo como o sujeito se apropria do mundo, e não apenas com a forma de acesso ou posição social. Pensando na função de diretor, evidencia-se que esta posição exige demandas que perpassam diversas áreas, por isso, torna-se importante entender as suas RcS. Nesse sentido, de acordo com Charlot (2000): Adquirir saber permite assegurar-se um certo domínio do mundo no qual se vive, comunica-se com outros seres e partilhar o mundo com eles, viver certas experiências e, assim, tornar-se maior, mais seguro de si, mais independente. Existem outras maneiras, entretanto, para alcançar os mesmos objetivos. Procurar o saber é instalar-se num certo tipo de relação com o mundo, mas existem outros. Assim, a definição do homem enquanto sujeito de saber se confronta a pluralidade das relações que mantém com o mundo (Charlot, 2000, p. 60, grifos nossos). Os saberes são construções subjetivas, internas e devem ser estruturadas a partir das vivencias dos sujeitos. Charlot (2000, p. 61) afirma que: “[...] não há saber senão para um sujeito, não há saber senão organizado com relações internas, não há saber senão produzido em uma confrontação pessoal”. O saber precisa ter um sentido, pois uma informação sem sentido não é saber (Charlot, 2000). Para entender a produção de sentidos, o autor define três perspectivas importantes: informação, saberes e conhecimentos. A informação é algo que o ser humano recebe o tempo todo, por meio dos cinco sentidos e sua relação com o mundo. Tem-se 6 LUIZ, M.C. Formação de diretores de escola: uma proposta metodológica em mentoria. São Carlos: Editora Pedro & João Editores, 2024. um bombardeio e acúmulo de informações em uma sociedade tecnológica e, geralmente, o sujeito descarta aquilo que não lhe é interessante ou que não produz sentido. O saber é algo que impactou o sujeito, uma informação que fez sentido, por isso acaba transcendendo. O saber é apreendido em figuras acadêmicas, práticas e relacionais. Por fim, o conhecimento é algo subjetivo, pois diz respeito ao próprio sujeito e sua relação com aquele saber. Segundo Charlot (2000), o saber e a informação podem ser armazenados ou serem transferidos a outras pessoas, ou ainda serem arquivados, mas o conhecimento é a incorporação de saberes pelo sujeito. O conhecimento é a subjetivação desses saberes e, por isso, não pode ser transferido. É essencial analisar como os diretores compreendem o seu cotidiano no que se refere à informação, conhecimento e saber (Charlot, 2000), principalmente, em relação ao entendimento do que é participação, práticas escolares democráticas, gestão democrática, diálogo, colegiados da escola, etc. A relação que esse sujeito estabelece com o mundo, com os outros e consigo mesmo possibilita modificar e constituir saberes, por meio de sentidos e significados atribuídos. Ao observar o cotidiano da escola, muitas vezes, percebe-se a ausência de sentido, o que tem tumultuado a convivência em seus espaços. Segundo Charlot (2000), algo que não faz sentido, não tem RcS, pois o sujeito é a própria relação com o saber. Informações Saberes Conhecimentos 7 LUIZ, M.C. Formação de diretores de escola: uma proposta metodológica em mentoria. São Carlos: Editora Pedro & João Editores, 2024. Geralmente, quando não há discernimento sobre o que fazer em uma situação nova ou desafiadora, o caminho mais fácil é imitar alguém ou algo que já existe. Por isso, têm-se tantas escolas aceitando e imitando padrões estabelecidos, mas o problema é que imitar, muitas vezes, não faz sentido, e a escola vive situações que padroniza sem perceber exatamente o que está fazendo. Esta falta de sentido fortalece um contínuo de relações sem sentido e a complexidade é tamanha que as escolas ficam estagnadas com profissionais sem motivação realimentando esse ciclo, isto é, ficam desestimulados para resolver seus desafios e sentem angústia de estar na escola. Lefebvre (2006) em suas análises sobre a produção do espaço entende que o ser humano está o tempo todo em um vivido cotidiano, e esse vivido acaba por absorver, muitas vezes, o percebido, pois não se tem uma reflexão sobre esse vivido. A falta de entendimento sobre o vivido tem como consequência um concebido, um encaminhamento de escolhas ruins para enfretamentos. Será que os profissionais da educação têm a percepção de todo o vivido da escola? Ao refletir-se sobre o vivido, o percebido torna-se uma prática que auxilia os educadores a se conhecerem melhor, e de como podem aprender e resolver situações novas. Isso é fundamental, pois o “percebido” remete o sujeito a várias reflexões sobre o que faz sentido em sua vida, ou na escola, etc. Quando o diretor tem a percepção de quem ele é, e de como está enfrentando as questões que permeiam a escola, passa do percebido para o concebido, que é a possibilidade de fazer escolhas preferíveis. Para isso, essa reflexão teria que começar com uma indagação: Quais são os saberes e os não saberes na minha concepção humana? Quando alguém sabe sobre um assunto, costuma facilmente expressar esse saber por meio da fala, ou da escrita, mas, ao contrário, 8 LUIZ, M.C. Formação de diretores de escola: uma proposta metodológica em mentoria. São Carlos: Editora Pedro & João Editores, 2024. quando não se sabe sobre algo, evita-se falar sobre. Em geral, as pessoas ignoram o que não sabem, perdendo um potencial incrível, pois além de oportunizar novas perspectivas, é um passo importante para a humildade. O pressuposto da Formação em Mentoria de Diretores é que todos aprendem, de maneiras diferentes, mas aprendem, por isso a RcS é importante. Nesse sentido, concepções preconceituosas de que um sujeito sabe mais que o outro não são aceitas, um sujeito sempre é capaz. Além disso, alerta-se o diretor ou os líderes da escola para não compartilharem e decidirem sobre assuntos da escola apenas com pessoas que pensam igual ou similar a eles, um erro comum de acontecer, mas perigoso para o coletivo. Parte-se do princípio de que todo mundo aprende, inclusive os sujeitos invisíveis na escola. O vivido da escola não permite a reflexão sobre o percebido e o concebido (as escolhas), e este acaba segregando alguns sujeitos invisíveis e seus saberes. A Formação em Mentoria de Diretores Escolares dá ênfase aos processos formativos, decorrentes de embasamentos teóricos, práticos e relacionais que abarcam: gestão democrática, respeito à diversidade de pessoas e ações, apreciação de aspectos organizacionais da escola, valorização do desejo e do sentido atribuído à vida e de como se pode compreender os desafios, etc. Traz-se aqui a perspectiva teórica da RcS como uma possibilidade de estabelecer uma nova forma de compreender o momento atual, ao que tem acontecido, as crescentes demandas que vêm sendo impostas à educação e ao diretor da escola pública. Esse profissional precisa iniciar sua reflexão sobre a função da escola contemporânea, admitindo o que não sabe. Para isso, precisa utilizar de sensibilidade e humildade para identificar e resolver os novos desafios da escola, preferencialmente, de forma coletiva. 9 LUIZ, M.C. Formação de diretores de escola: uma proposta metodológica em mentoria. São Carlos: Editora Pedro & João Editores, 2024. Solucionar os desafios dispende de grande responsabilidade para todos, mas, em especial, para o diretor que responde juridicamente pela escola. Nesse sentido, ao obter um olharmais pontual para as demandas formativas de diretores, verifica-se o quanto há necessidade de potencializar a formação com a RcS, com foco na cultura colaborativa, escuta ativa, etc. Escutar a comunidade escolar sobre demandas e necessidades da escola, sair do vivido para o percebido, com diálogo e escuta ativa, possibilita que as escolhas (concebido) sejam articuladas com participação de todos, consequentemente, isso trará decisões e intervenções com maior potencial para resoluções de problemas e desafios. Ao compartilhar, na mentoria, os diretores conseguem refletir sobre o vivido, percebem que há divergências que precisam ser percebidas, por isso torna-se mais fácil estruturar escolhas e viabilizar soluções, o que acaba por fortificar as relações com a comunidade escolar e externa. REFERÊNCIAS CHARLOT, B. Da relação com o saber: elementos para uma teoria. Porto Alegre: Artes Médicas, 2000. CHARLOT, B. Relação com o saber, formação dos professores e globalização: questões para a educação hoje. Porto Alegre: Artes Médicas, 2005. LEFEBVRE, Henri. A produção do espaço. Tradução de Doralice Barros Pereira e Sérgio Martins (La production de l’espace). 4e éd. Paris: Éditions Anthropos, 2000. MERLEAU-PONTY, M. Conversas – 1948. São Paulo: Martins Fontes, 2004.