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1. Conceituar choque e seus tipos. DEFINIÇÃO O choque, que é uma disfunção circulatória aguda que resulta em perfusão tecidual inadequada, é uma emergência clínica que exige diagnóstico e intervenção imediatos para evitar colapso circulatório, falência de múltiplos sistemas de órgãos e morte. As quatro categorias principais de choque são cardiogênica, distributiva, hipovolêmica e obstrutiva (Figura 98.1). O choque cardiogênico é decorrente de uma falha da bomba causada mais comumente por isquemia miocárdica aguda, mas também por disfunção valvar aguda, arritmias, miocardite ou ruptura da parede ventricular. O choque distributivo é causado pela perda do tônus vasomotor periférico, mais comumente em razão de sepse. As causas mais raras de choque distributivo incluem o choque neurogênico, geralmente após lesão grave da medula espinal e anafilaxia. O choque hipovolêmico é causado por perda de volume circulante por desidratação, extravasamento vascular profundo (p. ex., secundário ao extravasamento endotelial mediado por toxina do vírus da dengue) ou hemorragia (p. ex., secundária a traumatismo, sangramento peroperatório ou gastrintestinal, ou ruptura de um aneurisma aórtico). O choque obstrutivo, que é menos comum, é causado pelo bloqueio intrínseco de um vaso importante, como embolia pulmonar em sela, ou compressão extrínseca, como tamponamento cardíaco, estado de mal asmático ou pneumotórax hipertensivo. 1 FIGURA 98.1 As causas, os achados cardiovasculares e o suporte hemodinâmico para diferentes tipos de choque. Nos achados cardiovasculares, setas bidirecionais indicam variação dos achados em pacientes com o tipo específico de choque. No suporte hemodinâmico, o número de sinais + indica a importância da terapia. A combinação de + e – indica que a intervenção ajuda alguns pacientes, mas deve ser usada com cautela. BIOPATOLOGIA O choque é classicamente descrito em termos de fisiopatologia cardiovascular quando a oferta de oxigênio aos tecidos é inadequada devido ao débito cardíaco reduzido (hipovolêmico, cardiogênico ou obstrutivo) ou tônus vasomotor prejudicado (distributivo). No entanto, essas alterações macrocirculatórias são frequentemente acompanhadas por importantes alterações biopatológicas nas células e leitos de tecidos de órgãos vitais. Fisiopatologia cardiovascular No choque hipovolêmico, a diminuição do volume sanguíneo circulante reduz o retorno venoso e, portanto, a pré-carga cardíaca. À medida que a pré-carga diminui, o coração se desloca para a esquerda na curva de Starling até o ponto em que o volume sistólico e, portanto, o débito cardíaco e o fornecimento de oxigênio caem. As reduções no débito cardíaco e na oferta de oxigênio são detectadas por um sistema complexo de barorreceptores e quimiorreceptores que estimulam alterações compensatórias autonômicas e endócrinas no coração e na vasculatura. O tônus vasomotor periférico é aumentado nos vasos de capacitância arterial e venosa, reduzindo, assim, a capacitância total e aumentando efetivamente o volume circulante, o retorno venoso e a pré-carga. As mudanças seletivas autorregulatórias também redistribuem o fluxo sanguíneo preferencialmente para órgãos vitais (p. ex., coração e cérebro) à custa dos leitos vasculares esplâncnicos, musculares e cutâneos. Além disso, a estimulação simpática do coração gera taquicardia e aumenta o inotropismo para aumentar o débito cardíaco. A compensação inicialmente sustenta o fornecimento efetivo de oxigênio. No entanto, à medida que o volume sanguíneo diminui, a compensação falha e ocorre a hipoperfusão dos tecidos dos órgãos vitais. No choque cardiogênico, o débito cardíaco cai em razão da falha da bomba primária, em vez de redução da pré-carga. Quando predomina a insuficiência ventricular esquerda, o edema pulmonar associado pode levar à hipoxemia arterial, que compromete ainda mais a oferta de oxigênio. Os mecanismos compensatórios periféricos e centrais são semelhantes aos do choque hipovolêmico, com a ressalva de que o aumento do impulso simpático para elevar a contratilidade miocárdica tem efeito limitado. No choque obstrutivo, o mecanismo que reduz o débito cardíaco depende da causa: embolia pulmonar maciça aumenta a pós-carga do ventrículo direito, mas reduz a pré-carga do ventrículo esquerdo, enquanto o pneumotórax hipertensivo (Capítulo 92) e o tamponamento cardíaco reduzem principalmente o débito cardíaco via pré-carga reduzida, de modo semelhante ao choque hipovolêmico. Tal como acontece com o choque cardiogênico, o choque obstrutivo pode ser acompanhado por oxigenação prejudicada, comprometendo ainda mais o fornecimento de oxigênio. 2 No choque distributivo, a autorregulação do tônus vasomotor periférico está prejudicada. Por exemplo, o choque neurogênico após a lesão aguda da medula espinal surge em razão da perda do tônus simpático, levando, assim, a dilatação dos vasos de capacitância, aumento do shunt arteriovenoso e perda da autorregulação seletiva. A pré-carga é reduzida, mas a pós-carga também é reduzida. Os mecanismos compensatórios, como taquicardia reflexa, dependem do nível da lesão raquimedular. Assim, os efeitos sobre o débito cardíaco são variáveis (e o débito cardíaco pode até ser aumentado), mas o fornecimento efetivo de oxigênio aos órgãos vitais ainda pode ser comprometido. O choque séptico é basicamente uma forma de choque distributivo desencadeado inicialmente pela liberação de mediadores circulantes que têm efeitos locais nos vasos periféricos, causando vasodilatação e extravasamento vascular. Esses efeitos prejudicam a autorregulação, aumentam a capacitância e reduzem o volume de sangue circulante absoluto e eficaz, reduzindo, assim, pré-carga e pós-carga, com efeitos variáveis no débito cardíaco. Os mediadores inflamatórios liberados na sepse também têm efeitos depressores miocárdicos diretos. É importante ressaltar que, devido à redução da redistribuição de fluxo e à extração de oxigênio do tecido prejudicada, o choque distributivo pode persistir apesar do aporte de oxigênio aparentemente adequado, e o sangue que retorna dos leitos periféricos pode ter um conteúdo de oxigênio normal ou elevado. Biopatologia celular e dos órgãos Conforme o aporte de oxigênio diminui, os leitos teciduais hipoperfundidos aumentam a extração de oxigênio, o que diminui o conteúdo de oxigênio venoso, mas preserva o metabolismo aeróbico. Com a redução adicional do fornecimento de oxigênio, as células mudam para a glicólise, gerando ácido láctico e um déficit de base. Um ambiente ácido ajuda o oxigênio a se dissociar da hemoglobina, compensando parcialmente as consequências da redução do fornecimento de oxigênio. As células também diminuem a atividade mitocondrial, uma forma de hipometabolismo protetor para diminuir a demanda de oxigênio. No entanto, esses mecanismos compensatórios podem ser sobrepujados, resultando em aprofundamento da isquemia e da acidose. Quando as células estão estressadas ou lesadas pela isquemia, elas liberam moléculas que sinalizam por meio de receptores de padrão molecular associado a danos (DAMP), que estimulam as células imunes inatas a liberar uma cascata de mediadores inflamatórios que alteram a função endotelial e a permeabilidade, a coagulação e a fibrinólise e o recrutamento e a atividade dos leucócitos. Essas alterações interrompem o fluxo microvascular e aumentam o edema e a hipoxia dos tecidos. A hipóxia tecidual também estimula diretamente a liberação de mediadores vasoativos, como óxido nítrico e adenosina, contribuindo ainda mais para a desregulação vasomotora. A redução da atividade mitocondrial também pode ser mal adaptativa, com a utilização prejudicada de oxigênio exacerbando a lesão celular. Após isquemia prolongada, a reperfusão pode agravar esses efeitos por meio de espécies reativas de oxigênio, que induzem a lesão de isquemia-reperfusão local. Assim, independentemente da causa inicial do choque, a isquemia tecidualda perfusão adequada do tecido cerebral. Importante aplicar a escala de Glasgow atualizada. (E) – EXPOSIÇÃO TOTAL DO PACIENTE A análise da extensão das lesões e o controle do ambiente com prevenção da hipotermia são as principais medidas realizadas. O socorrista deve analisar, entre outros pontos, sinais de trauma, sangramento e manchas na pele. 🚑 Atendimento inicial ao politraumatizado (ATLS – abordagem primária) 🔒 Antes de tudo: segurança da cena ● Garantir que o ambiente é seguro (trânsito, fogo, eletricidade, armas). ● Uso de EPI (luvas, máscara, óculos, colete). ● Sinalizar a cena (cones, fita de isolamento). 👉 Só depois disso o socorrista se aproxima da vítima. 🔢 Protocolo XABCDE Ordem de prioridade para salvar vidas: (X) – exsanguinação ● Controle imediato de hemorragia externa maciça (a maior causa de morte evitável no trauma). ● Técnicas: compressão direta, torniquete, curativo compressivo. ● Faz-se antes mesmo das vias aéreas. 34 (A) – Airway (vias aéreas) + proteção da coluna cervical ● Avaliar e manter via aérea pérvia. ● Manobras: ○ Chin lift (elevação do queixo). ○ Jaw thrust (anteriorização da mandíbula). ○ Aspiração de secreções. ○ Uso de cânula orofaríngea (Guedel) se indicado. ● Sempre considerar lesão cervical → imobilizar com colar cervical e prancha rígida. (B) – Breathing (respiração) ● Avaliar se o paciente ventila bem: ○ FR, movimentos torácicos, uso de musculatura acessória. ○ Cianose, desvio de traqueia, sons respiratórios. ● Expor o tórax e realizar inspeção, palpação, ausculta e percussão. ● Tratar causas imediatas de insuficiência respiratória (pneumotórax hipertensivo, hemotórax maciço, tórax instável). (C) – Circulation (circulação e controle de hemorragias internas) ● Verificar pulso, perfusão periférica, enchimento capilar, nível de consciência. ● Pesquisar sangramentos não visíveis: pelve, abdome, retroperitônio, ossos longos. ● Reposição volêmica: ○ Ringer Lactato = solução de escolha. ○ Lembrar: não repõe hemácias nem fatores de coagulação → não resolve a hipóxia nem a coagulopatia. ● Se choque hemorrágico grave → transfusão precoce (hemocomponentes). (D) – Disability (disfunção neurológica) ● Avaliar estado neurológico: ○ Escala de Glasgow. ○ Pupilas (tamanho, simetria, reatividade). ○ Sinais de lateralização ou hérnia cerebral. ● Objetivo: evitar lesão cerebral secundária → manter perfusão e oxigenação adequadas. (E) – Exposure (exposição e prevenção da hipotermia) ● Expor totalmente o paciente para procurar lesões ocultas. ● Mas sempre prevenir hipotermia (cobertores, manta térmica, aquecimento de fluidos). ● Procurar hematomas, ferimentos, deformidades. 35 4. Definir: traumatismo toracoabdominal fechado e relacionar com suas repercussões. O trauma abdominal é o sofrimento resultante de uma ação súbita e violenta, exercida contra o abdome por diversos agentes causadores: mecânicos, químicos, elétricos e irradiações. Já o Trauma torácico é qualquer lesão física que ocorre no peito (incluindo costelas, coração e pulmões). Os traumatismos podem ser classificados em contusões (traumatismos fechados) e ferimentos (traumatismos abertos). O traumatismo aberto existe solução de continuidade da pele; enquanto que no fechado, também denominado contusão abdominal, a pele está íntegra, sendo que os efeitos do agente agressor são transmitidos às vísceras através da parede abdominal, ou se dão por contragolpe ou desaceleração. TRAUMA TORÁCICO: O trauma torácico é uma causa importante de morte. Menos de 10% dos traumatismos fechados do tórax e somente 15 a 30% das lesões penetrantes necessitam de tratamento cirúrgico (toracoscopia ou toracotomia). Hipóxia, hipercapnia e acidose são resultados frequentes do trauma torácico. A hipóxia tecidual resulta de oferta inadequada de oxigênio aos tecidos causada pela hipovolemia (perda de sangue), por alteração da relação ventilação/perfusão pulmonar (contusão, hematoma, colapso alveolar) e por alterações nas relações pressóricas intratorácicas (pneumotórax hipertensivo, pneumotórax aberto). A acidose metabólica é causada pela hipoperfusão dos tecidos. A hipercapnia como consequência de uma acidose respiratória é decorrente, frequentemente, de ventilação inadequada resultante das alterações nas relações pressóricas intratorácicas e de um rebaixamento do nível de consciência. O atendimento inicial do doente com traumatismo torácico consiste em avaliação primária, normalização dos sinais vitais, avaliação secundária pormenorizada e tratamento definitivo. Como a hipóxia é a característica mais grave da lesão torácica, devem ser tomadas medidas precoces para evitá-la ou corrigi-la. As lesões com risco iminente à vida são tratadas da forma mais rápida e mais simples possível. A maioria das lesões torácicas com risco à vida é tratada pela permeabilização da via aérea ou pela inserção apropriada de um dreno de tórax ou de uma agulha. A avaliação secundária é orientada pela história e alto índice de suspeita da presença de uma lesão específica. Os traumatismos torácicos podem ser classificados em contusões (traumatismos fechados) e ferimentos (traumatismos abertos). TRAUMATISMOS FECHADOS (CONTUSÃO TORÁCICA): Os principais agentes causadores de contusão torácica são os acidentes automobilísticos, além das ocorrências domésticas, como a síndrome do tanque solto. A contusão torácica pode resultar em fraturas simples e múltiplas de costelas, fratura do esterno, hemotórax, pneumotórax, síndrome do desconforto respiratório, ruptura traqueobrônquica cervical ou torácica, ruptura traumática de aorta e tamponamento cardíaco. ● Fratura simples de costela: É a mais comum das lesões ósseas da parede torácica, podendo ocorrer isoladamente ou associada a pneumo ou hemotórax. ● Fraturas múltiplas de costelas: Também denominadas afundamento torácico, estão associadas aos traumatismos mais graves do tórax e, frequentemente, de outros órgãos. São 36 definidas como fraturas múltiplas as fraturas de dois ou mais arcos costais em mais de um local diferente, o que determina perda da rigidez de parte ou de todo o envoltório ósseo torácico, fazendo com que essa parte do tórax possa se movimentar de maneira diferente do restante (movimento paradoxal do tórax). Tórax Instável (Retalho Costal Móvel) = O tórax instável (retalho costal móvel) ocorre quando um segmento da parede torácica não tem mais continuidade óssea com a caixa torácica e geralmente é consequente a um trauma que provoca múltiplas fraturas de arcos costais, ou seja, duas ou mais fraturas em dois ou mais lugares. A presença de um segmento torácico instável resulta em grave prejuízo dos movimentos normais da parede torácica. ● Fratura do esterno: Decorrente da compressão anteroposterior do tórax, pode estar associada à contusão cardíaca. O principal mecanismo é a batida do tórax sobre o volante do automóvel, nos acidentes automobilísticos. ● HEMOTÓRAX: É a presença de sangue na cavidade pleural, resultante de lesões do parênquima pulmonar, de vasos da parede torácica ou de grandes vasos, como aorta, artéria subclávia e artéria pulmonar ou mesmo do coração. ● PNEUMOTÓRAX: É a presença de ar na cavidade pleural, podendo levar à compressão do parênquima pulmonar e à insuficiência respiratória. Nas contusões, dois mecanismos podem ser responsáveis pela lesão pulmonar com extravasamento de ar para a pleura: uma laceração do pulmão pela compressão aguda do tórax ou uma espícula óssea, de uma costela fraturada, perfurando o pulmão. Obs. Se houver fístula de parênquima pulmonar com mecanismo valvulado, o pneumotórax pode se tornar hipertensivo, com desvio do mediastino para o lado contralateral, torção das veias cavas e choque. Se não for rapidamente tratado, pode levar à morte. Pneumotórax Hipertensivo = O pneumotórax hipertensivo ocorre quando há vazamento de ar, tanto do pulmão como através da parede torácica, parao espaço pleural por um sistema de "válvula unidirecional". O ar entra para a cavidade pleural sem possibilidade de sair, colapsando completamente o pulmão. O mediastino é deslocado para o lado oposto, diminuindo o retorno venoso e comprimindo o pulmão contralateral. A causa mais comum de pneumotórax hipertensivo é a ventilação mecânica com pressão positiva em doentes com lesão da pleura visceral. No entanto, o pneumotórax hipertensivo pode constituir-se em complicações de um pneumotórax simples devido a trauma penetrante ou fechado do tórax no qual não ocorreu o fechamento da lesão do parênquima pulmonar ou após tentativas mal direcionadas de inserção de cateter venoso central, seja por via subclávia ou jugular interna. RUPTURA TRAUMÁTICA DA AORTA: Ocorre em acidentes envolvendo altas velocidades ou quedas de grandes alturas, nas quais há o mecanismo de desaceleração súbita. Aproximadamente 90% das vítimas de ruptura de aorta morrem no local do acidente, apenas 10% chegam vivas ao hospital e, destas, 50% falecem nas primeiras 2 horas após a admissão, se a conduta correta não for adotada. A ruptura incide mais na região do istmo aórtico, ou seja, logo após a emergência da artéria subclávia 37 esquerda, e ocasiona enorme hemotórax. Os sobreviventes mantêm-se vivos por um período, pois há formação de grande hematoma periaórtico, tamponado temporariamente pela pleura mediastinal e pelo pulmão. O diagnóstico e a conduta cirúrgica devem ser feitos rapidamente. TAMPONAMENTO CARDÍACO: Trata-se da presença de líquido na cavidade pericárdica, o qual comprime as câmaras cardíacas, promovendo restrição diastólica e colapso circulatório. Nas contusões, sua origem pode ser a ruptura cardíaca ou a lesão de vasos sanguíneos cardíacos ou pericárdicos. Tríade de Beck 1) Turgência jugular: em decorrência do aumento da pressão venosa – o sangue não é corretamente bombeado para o sistema arterial. 2) Abafamento de bulhas cardíacas: uma vez que haverá sangue ao redor do coração, haverá um isolamento acústico. 3) Hipotensão: também em decorrência do não adequado funcionamento do bombeamento cardíaco – reduzindo a pressão arterial. TRAUMA ABDOMINAL: O abdome é um dos locais mais frequentemente acometidos nas pacientes vítimas de trauma. Por sua grande área e principalmente por abrigar órgãos e estruturas vitais no seu interior, o traumatismo abdominal merece destaque no estudo do paciente traumatizado. Didaticamente, pode-se dividir o traumatismo abdominal em dois grandes grupos: traumatismo abdominal fechado (TAF), também chamado de contusão abdominal, e traumatismo abdominal penetrante (TAP). No TAF, não ocorre solução de continuidade da pele, diferentemente do que ocorre com os ferimentos abdominais penetrantes, e as lesões internas abdominais que podem ocorrer devem-se a mecanismos diretos (p.ex., trauma na região do hipocôndrio direito com lesão hepática direta) ou indiretos (p.ex., trauma no hipocôndrio direito com fraturas de arcos costais com fragmento ósseo levando à lesão hepática) sobre a cavidade abdominal. Em virtude do grande número de estruturas intra-abdominais, como órgãos parenquimatosos (fígado, baço, rim e pâncreas), ocos (esôfago distal, estômago, intestino delgado e grosso, ureteres e bexiga) e retroperitoneais (duodeno, pâncreas e rins) e vasos abdominais (aorta, cava e vasos ilíacos), os pacientes traumatizados podem apresentar tanto quadros hemorrágicos graves, resultantes de lesão de órgãos parenquimatosos (principalmente fígado e baço) ou de grandes 38 vasos abdominais, quanto quadros de difícil diagnóstico, como nas lesões de vísceras ocas e órgãos retroperitoneais. Frequentemente, as lesões de órgãos parenquimatosos, como fígado e baço, são as mais encontradas e, nas lesões complexas do paciente, geralmente apresentam alteração hemodinâmica. Externamente, o abdome pode ser dividido em três principais áreas: abdome anterior, flanco e dorso. O abdome anterior estende-se superiormente do 4° espaço intercostal (limitado por uma linha imaginária que passa pelos mamilos), do ligamento inguinal e da sínfise púbica inferior e lateralmente, limitado pelas linhas axilares anteriores de cada lado. O flanco compreende a área localizada no 6° espaço intercostal superiormente até a asa do osso ilíaco inferiormente e entre as linhas axilares anterior e posterior. O dorso, por sua vez, é limitado superiormente pela borda inferior da escápula e pela crista ilíaca inferior e lateralmente entre as linhas axilares posteriores. Obs. A transição toracoabdominal é a área localizada abaixo da linha transmamilar, anteriormente, a linha infraescapular, posteriormente, e arcos costais, superiormente. Essa área, embora protegida pelos ossos do tórax, inclui diafragma, fígado, baço e estômago. Uma vez que o diafragma se eleva para o quarto espaço intercostal na expiração completa, fraturas dos arcos costais inferiores ou ferimentos penetrantes abaixo da linha do mamilo podem acarretar lesões de vísceras abdominais. Trauma Fechado: Um impacto direto, como o contato do abdome com o volante ou com a intrusão da porta em uma colisão de veículos, pode causar compressão ou esmagamento de vísceras abdominais e da pelve. Tais forças deformam os órgãos sólidos e vísceras ocas, podendo causar sua ruptura, acarretando hemorragia secundária, contaminação pelo conteúdo intestinal e, consequentemente, peritonite. O cisalhamento é uma forma de lesão por esmagamento que pode ocorrer quando um dispositivo de segurança e de restrição é usado de forma inadequada. Doentes vítimas de acidentes automobilísticos podem sofrer lesões decorrentes das forças relacionadas à desaceleração nas quais as estruturas fixas e não fixas do corpo sofrem movimentos em sentidos opostos. Exemplos desses tipos de lesões incluem as lacerações do fígado e do baço (órgãos móveis) nos locais de inserção de seus ligamentos de sustentação (estruturas fixas). Lesões extensas do mesentério do intestino delgado também são exemplos de lesões por desaceleração. Nos doentes vítimas de trauma fechado, os órgãos mais frequentemente acometidos são o baço (40 a 55%), o fígado (35 a 45%) e o 39 intestino delgado (5 a 10%). Além disso, observa-se também uma incidência de 15% de hematoma retroperitoneal nos doentes com trauma fechado submetidos a laparotomia. Adendo sobre o baço: O baço é o órgão mais frequentemente comprometido no trauma abdominal fechado. A maioria desses pacientes são adultos jovens do sexo masculino, muitas vezes envolvidos em acidentes com motocicletas. Nessa condição, é muito comum existirem lesões associadas no fígado, nas costelas, no rim esquerdo e no pâncreas. Também podem ser observadas lesões esplênicas nos ferimentos abdominais penetrantes, especialmente quando localizados no flanco e no hipocôndrio esquerdos. O baço possui função importante no sistema de defesa, realizando o clareamento de bactérias, especialmente dos germes encapsulados (p.ex., Haemophilus influenzae, Streptococcus pneumoniae e Meningococcus sp). Esse órgão, quando o contato com as bactérias estimula a produção de anticorpos IgM, primeira linha de defesa do organismo, ativa o sistema complemento por meio da via clássica. Nesse órgão, também são produzidos agentes opsonisadores, como a tuftsina e a properdina, que auxiliam e amplificam a resposta aos agentes agressores. Trauma Penetrante: Ferimentos por arma branca e projéteis de baixa velocidade causam danos aos tecidos por corte e laceração. Ferimentos por projéteis de alta velocidade transferem mais energia cinética às vísceras abdominais. Esse tipo de projétil pode aumentar os danos ao longo do seu trajeto devido a cavitação temporária. Ferimentos por arma branca atravessam as estruturas abdominais adjacentes e geralmente envolvem o fígado (40%), o intestino delgado (30%), o diafragma (20%) e o cólon (15%). Ferimentos por arma de fogo podem causar lesões intra-abdominaisadicionais em decorrência de sua trajetória, do efeito de cavitação e da possível fragmentação do projétil. Ferimentos por arma de fogo frequentemente acometem mais o intestino delgado (50%), o cólon (40%), o fígado (30%) e as estruturas vasculares abdominais (25%). As lesões decorrentes de arma tipo escopeta ou espingarda dependem do tipo de munição utilizada e da distância entre a arma e o doente. Definição 👉 O traumatismo toracoabdominal fechado é aquele em que há ação de uma força externa sobre o tórax ou o abdome sem ruptura da pele (ou seja, sem solução de continuidade). ● O agente agressor transmite a energia através da parede torácica/abdominal, podendo gerar lesões internas graves mesmo com aspecto externo discreto. ● Os mecanismos envolvidos são principalmente: compressão, esmagamento, desaceleração e cisalhamento. ● Ocorre muito em acidentes automobilísticos, quedas de altura, atropelamentos e agressões. Repercussões Torácicas (Trauma Fechado do Tórax) Podem levar a insuficiência respiratória e circulatória, principais causas de morte precoce. 40 ● Fraturas de costelas → dor intensa, risco de pneumotórax/hemotórax. ● Tórax instável (retalho costal móvel) → movimento paradoxal, prejuízo ventilatório. ● Fratura do esterno → pode vir com contusão cardíaca. ● Hemotórax → sangue na cavidade pleural → compressão pulmonar e choque. ● Pneumotórax simples ou hipertensivo → ar no espaço pleural → colapso pulmonar e desvio de mediastino (hipertensivo é emergência vital). ● Ruptura traumática da aorta → geralmente fatal, hemotórax maciço. ● Tamponamento cardíaco → líquido no pericárdio, impedindo enchimento diastólico. Tríade de Beck: turgência jugular + abafamento de bulhas + hipotensão. ⚠ Consequências principais: ● Hipóxia (alteração ventilação/perfusão, colapso alveolar, pneumotórax). ● Hipercapnia (ventilação inadequada). ● Acidose metabólica (hipoperfusão) ou respiratória (retenção de CO₂). Repercussões Abdominais (Trauma Abdominal Fechado – TAF) Podem levar a hemorragia interna e peritonite. ● Órgãos mais afetados: ○ Baço (mais comum – risco de choque hemorrágico). ○ Fígado (laceração → sangramento maciço). ○ Intestino delgado (perfuração → peritonite). ○ Rins/pâncreas/duodeno (retroperitoneais, diagnóstico mais difícil). ● Mecanismos de lesão: ○ Impacto direto → compressão/esmagamento (ex.: volante contra abdome). ○ Desaceleração/cisalhamento → ruptura de órgãos móveis em pontos de fixação (ex.: fígado, baço, mesentério). ● Complicações graves: ○ Hemorragia maciça (parênquima ou grandes vasos). ○ Peritonite (perfuração de víscera oca). ○ Hematoma retroperitoneal (difícil diagnóstico). ⚠ Importante: o trauma abdominal fechado pode parecer “silencioso” no início, mas evoluir rapidamente com instabilidade hemodinâmica e choque hipovolêmico. 41 5. Entender as diferenças entre os hemocomponentes e hemoderivados correlacionando com a prática clínica. São denominados HEMOCOMPONENTES os produtos gerados um a um nos serviços de hemoterapia, a partir do sangue total, por meio de processos físicos (centrifugação, congelamento). Existem duas formas para obtenção dos hemocomponentes. A mais comum é a coleta do sangue total. A outra forma, mais específica e de maior complexidade, é a coleta por meio de aférese, procedimento no qual um componente sanguíneo é separado e removido do organismo através da utilização de um equipamento automatizado. O processamento é feito por meio de centrifugação refrigerada, por processos que minimizam a contaminação e proliferação microbiana, nos quais se separa o sangue total em hemocomponentes eritrocitários, plasmáticos e plaquetários. CENTRIFUGAÇÃO: em função das diferentes densidades e tamanhos das células sanguíneas, o processo de centrifugação possibilita a separação do sangue total em camadas, sendo que as hemácias ficam depositadas no fundo da bolsa. Acima delas forma-se o buffy coat (camada leucoplaquetária), ou seja, uma camada de leucócitos e plaquetas. Acima do buffy coat fica a camada de plasma que contém plaquetas dispersas. CONGELAMENTO: Soluções anticoagulantes-preservadoras e soluções aditivas são utilizadas para a conservação dos produtos sanguíneos, pois impedem a coagulação e mantêm a viabilidade das células do sangue durante o armazenamento. SOLUÇÕES ANTICOAGULANTES-PRESERVADORAS: O sangue total coletado em solução CPDA-1 (ácido cítrico, citrato de sódio, fosfato de sódio, dextrose e adenina) tem validade de 35 dias a partir da coleta e de 21 dias quando coletado em ACD (ácido cítrico, citrato de sódio, dextrose), CPD (ácido cítrico, citrato de sódio, fosfato de sódio, dextrose) e CP2D (citrato, fosfato e dextrose-dextrose). AS SOLUÇÕES ADITIVAS: são utilizadas para aumentar a sobrevida e a possibilidade de armazenamento das hemácias por até 42 dias em 4 ± 2 °C. Um exemplo de solução aditiva é o SAG-M composto por soro fisiológico, adenina, glicose e manitol. 42 EMPREGADOS NA PRÁTICA CLÍNICA. CONCENTRADO DE HEMÁCIAS: A transfusão de concentrado de hemácias (CH) deve ser realizada para tratar, ou prevenir iminente e inadequada liberação de oxigênio (O2) aos tecidos, ou seja, em casos de anemia, porém nem todo estado de anemia exige a transfusão de concentrado hemácias. Em situações de anemia, o organismo lança mão de mecanismos compensatórios, tais como a elevação do débito cardíaco e a diminuição da afinidade da hemoglobina (Hb) pelo O2, o que muitas vezes consegue reduzir o nível de hipóxia tecidual. → DOSE E MODO DE ADMINISTRAÇÃO Deve ser transfundida a quantidade de hemácias suficiente para a correção dos sinais/sintomas de hipóxia, ou para que a Hb atinja níveis aceitáveis. Em indivíduos adultos de estatura média, a transfusão de uma unidade de CH normalmente eleva o Ht em 3% e a Hb em 1 g/dL. Em pacientes pediátricos, o volume a ser transfundido para obtenção dos mesmos resultados deve ser de 10 a 15mL/kg. O tempo de infusão de cada unidade de CH deve ser de 60 min a 120 minutos (min) em pacientes adultos. Em pacientes pediátricos, não exceder a velocidade de infusão de 20-30mL/kg/hora. A avaliação da resposta terapêutica à transfusão de CH deve ser feita através de nova dosagem de Hb ou Ht 1-2 horas (h) após a transfusão, considerando também a resposta clínica. Em pacientes ambulatoriais, a avaliação laboratorial pode ser feita 30min após o término da transfusão e possui resultados comparáveis. 43 CONCENTRADO DE PLAQUETAS: Basicamente, as indicações de transfusão de CP estão associadas às plaquetopenias desencadeadas por falência medular (doenças hematológicas e/ou quimioterapia e radioterapia), raramente indicamos a reposição em plaquetopenias por destruição periférica ou alterações congênitas de função plaquetária. DOSE E MODO DE ADMINISTRAÇÃO A dose preconizada é de 1 unidade de CP para cada 7 a 10 kg de peso do paciente, porém pode-se considerar também a contagem de plaquetas desejada dependendo da presença ou ausência de sangramento como segue: Transfusões terapêuticas (contagem desejada superior a 40.000/µL): • Adultos > 55kg de peso – dose mínima de 6,0 x 1011 (8-10U de CP unitários ou 1U CP obtidos por aférese). • Pacientes 15-55 kg de peso – dose mínima de 3,0 x 1011 (4-6U de CP unitários ou 0,5-1U CP obtidos por aférese). • Crianças 55 kg de peso – dose mínima de 4,0 x 1011 (6-8U de CP unitários ou 1U CP obtidos por aférese). • Pacientes menores – dose 1U de CP unitários para cada 10 kg de peso. A dose de plaquetas pode ser calculada de maneira mais detalhada ou precisa, identificando-se o incremento plaquetário desejado (IP) e levando-se em conta a volemia sanguínea (VS) e o sequestro esplênico estimado (aproximadamente 33%), utilizando-se para isso a fórmula abaixo: Doses menores (1,5 x 1011 ou 3-4U de CPunitárias) podem ser utiliza- das nos casos de transfusões profiláticas em pacientes estáveis sem sangramento e mantidos em ambiente hospitalar com acompanhamento próximo. Nesta situação, a necessidade transfusional é mais frequente, porém tem se demonstrado bastante segura. O tempo de infusão da dose de CP deve ser de aproximadamente 30 min em pacientes adultos ou pediátricos, não excedendo a velocidade de 44 infusão de 20-30mL/kg/hora. A avaliação da resposta terapêutica a transfusão de CP deve ser feita através de nova contagem das plaquetas 1 hora após a transfusão, porém a resposta clínica também deve ser considerada. Em pacientes ambulatoriais, a avaliação laboratorial 10min após o término da transfusão pode facilitar a avaliação da resposta e possui resultados comparáveis. Dois indicadores podem ser calculados e são úteis no acompanhamento da eficácia transfusional principalmente em transfusões profiláticas: Utilizando estes indicadores, define-se como uma transfusão de CP eficaz resultados de R(%) superiores a 30% em 1h e a 20% em 20-24h após a transfusão ou de ICC superiores a 7,5 em 1h e a 4,5-5,0 em 20-24h. Esta avaliação é útil na prática clínica para o diagnóstico de refratariedade plaquetária. PLASMA: As indicações para o uso do plasma fresco congelado (PFC) são restritas e correlacionadas a sua propriedade de conter as proteínas da coagulação. O componente deve ser usado, portanto, no tratamento de pacientes com distúrbio da coagulação, particularmente naqueles em que há deficiência de múltiplos fatores e apenas quando não estiverem disponíveis produtos com concentrados estáveis de fatores da coagulação e menor risco de contaminação viral. Portanto, as indicações são: 45 • Sangramento ou risco de sangramento causado por deficiência de múltiplos fatores da coagulação: Hepatopatia; Coagulação Intravascular Disseminada (CID). • Sangramento severo causado por uso de anticoagulantes orais antagonistas da vitamina K (Warfarina) ou necessidade de reversão urgente da anticoagulação. • Transfusão maciça com sangramento por coagulopatia. • Sangramento ou profilaxia de sangramento causado por deficiência isolada de fator da coagulação para a qual não há produto com menor risco de contaminação viral (concentrado de fator da coagulação) disponível. • Púrpura trombocitopênica trombótica (PTT) • Plasma isento de crioprecipitado (PIC) e plasma fresco congelado de 24 horas (PFC24) • Compatibilidade ABO e RhD: O crioprecipitado contém anticorpos ABO, portanto sempre que possível utilizar componente ABO compatível. Quando não houver disponibilidade de bolsa ABO compatível, todos os grupos ABO serão aceitos para transfusão, exceto em crianças. → DOSE E MODO DE ADMINISTRAÇÃO O volume a ser transfundido depende do peso e da condição clínica e hemodinâmica do paciente. A utilização de 10-20 mL de PFC por quilo de peso aumenta de 20% a 30% os níveis dos fatores de coagulação do paciente, chegando a níveis hemostáticos. Antes de ser utilizado para transfusão, o PFC deve ser completamente descongelado em banho-maria a 37°C ou em equipamentos apropriados para este fim. Caso seja descongelado em banho-maria, deve ser envolto em saco plástico, de modo a evitar o contato direto da bolsa, especialmente do ponto de entrada, com a água. O banho-maria deve ser limpo diariamente e a água deve ser substituída. Uma vez descongelado, deve ser usado o mais rápido possível, em, no máximo, 6 horas após o descongelamento se mantido à temperatura ambiente ou até 24 horas se mantido em refrigeração (2-6°C). Depois de descongelado não pode haver recongelamento. CRIOPRECIPITADO: está indicado no tratamento de hipofibrinogenemia (doença hemorrágica com deficiência na produção do fibrinogênio) congênita ou adquirida. A hipofibrinogenemia adquirida pode ser observada após tratamento trombolítico, transfusão maciça ou coagulação intravascular disseminada (CID). Pode ser útil também no tratamento de sangramento ou no procedimento invasivo em pacientes urêmicos, com o intuito de diminuir o tempo de sangramento (TS) e diminuir o sangramento, mas esta opção tem sido substituída pelo tratamento com eritropoetina, acetato de desmopressina (DDAVP) ou estrógeno conjugado. Antes da infusão, o crioprecipitado deve ser descongelado entre 30°C e 37°C no prazo de até 15 minutos e transfundido imediatamente. O descongelamento em banho-maria deve ser realizado utilizando bolsa plástica e protegendo contra contaminação bacteriana. Se o produto descongelado não for utilizado imediatamente, poderá ser estocado por até 6 horas, em temperatura ambiente (20-24°C) ou por até 4 horas quando o sistema for aberto ou realizado em pool (obedecendo ao primeiro horário da primeira unidade). Cada unidade aumentará o fibrinogênio em 5-10mg/dL em um adulto médio, na ausência de grandes sangramentos ou de consumo excessivo de fibrinogênio. O nível hemostático é de 70-100 mg/dL. As unidades de CRIO são infundidas por meio de filtro padrão de transfusão (170µ). 46 O cálculo da quantidade de bolsas necessária para correção de hipofibrinogenemia dependerá da natureza do episódio de sangramento e da gravidade da deficiência inicial. O cálculo do número de unidades de CRIO necessário para correção da queda de fibrinogênio (níveis inferiores a 70-100mg/dL) está descrito abaixo: • Peso (kg) x 70 mL/kg = volume sanguíneo (mL). • Volume sanguíneo (mL) x (1,0 – hematócrito) = volume plasmático (mL). • mg de fibrinogênio desejado = [nível de fibrinogênio desejado (mg/dL)] – fibrinogênio inicial (mg/dL) x volume plasmático (mL) / 100 mL/dL. • Número de bolsas necessárias = mg de fibrinogênio desejado dividido por 250 mg de fibrinogênio/bolsa. Esse cálculo assume que 100% do fibrinogênio administrado são recuperados no espaço intravascular, porém convém lembrar que a quantidade em cada bolsa pode ser variável. Outra forma mais prática para tratar os pacientes com hipofibrinogenemia ou disfibrinogenemia e deficiência de Fator XIII é o cálculo de 1.0-1.5 bolsas de crioprecipitado por cada 10kg de peso do paciente com a intenção de atingir nível de fibrinogênio hemostático de 100mg/ dL, reavaliando a cada 3-4 dias. A quantidade de crioprecipitado pode ser diminuída quando houver administração concomitante de concentrado de hemácias e/ou de plaquetas porque estes produtos contêm 2-4mg de fibrinogênio/mL, que corresponde a 2U de crioprecipitado. 🔹 Diferenças Fundamentais ● Hemocomponentes ○ Obtidos diretamente do sangue total por processos físicos (centrifugação, congelamento ou aférese). ○ Produzidos em serviços de hemoterapia/bancos de sangue. ○ Uso imediato na prática clínica, em situações agudas. ● Hemoderivados ○ Obtidos por processos industriais (fracionamento e purificação do plasma em larga escala). ○ Produzidos em indústrias farmacêuticas com alto rigor tecnológico. ○ Uso mais específico, muitas vezes como medicação crônica. 47 🩸 Hemocomponentes – prática clínica 1. Concentrado de hemácias (CH) ○ Função: restaurar transporte de O₂. ○ Indicações: anemia sintomática, hemorragia aguda, choque hemorrágico. ○ Efeito: ↑ Hb em 1 g/dL e ↑ Ht em 3% por unidade em adulto. 2. Concentrado de plaquetas (CP) ○ Função: corrigir trombocitopenia ou disfunção plaquetária. ○ Indicações: plaquetopenia por falência medular, prevenção/tratamento de sangramento. ○ Dose: 1 U/7–10 kg (crianças) ou 6–10 U em adultos. 3. Plasma fresco congelado (PFC) ○ Função: repor múltiplos fatores de coagulação. ○ Indicações: hepatopatias, coagulação intravascular disseminada (CID), reversão de anticoagulação por varfarina, transfusão maciça. ○ Dose: 10–20 mL/kg → ↑ 20–30% dos fatores de coagulação. 4. Crioprecipitado (CRIO) ○ Função: rico em fibrinogênio, fator VIII, XIII e vWF. ○ Indicações: hipofibrinogenemia, hemofilia A (quando não disponível fator VIII concentrado), sangramento em uremia. ○ Dose: 1–1,5 U/10 kg paraatingir fibrinogênio >100 mg/dL. 🧪 Hemoderivados – prática clínica 1. Albumina ○ Mantém pressão oncótica. ○ Indicações: choque hipovolêmico refratário a expansores, grandes queimados, hipoalbuminemia grave. 2. Imunoglobulinas (IVIG) ○ Fornecem anticorpos prontos. ○ Indicações: imunodeficiências primárias, doenças autoimunes, síndrome de Guillain-Barré, púrpura trombocitopênica imune (PTI). 3. Concentrados de fatores de coagulação (VIII, IX, VII recombinante etc.) ○ Uso direcionado. ○ Indicações: hemofilias, doença de von Willebrand grave, deficiências hereditárias de fatores específicos. 48 📌 Choque: conceito e tipos 🔎 Definição ⚡ Principais tipos de choque (4 categorias) 1. Choque Hipovolêmico 2. Choque Cardiogênico 3. Choque Obstrutivo 4. Choque Distributivo 🔬 Fisiopatologia celular 🧬 Aspectos genéticos 🚑 Atendimento inicial ao politraumatizado (ATLS – abordagem primária) 🔒 Antes de tudo: segurança da cena 🔢 Protocolo XABCDE (X) – exsanguinação (A) – Airway (vias aéreas) + proteção da coluna cervical (B) – Breathing (respiração) (C) – Circulation (circulação e controle de hemorragias internas) (D) – Disability (disfunção neurológica) (E) – Exposure (exposição e prevenção da hipotermia) Definição Repercussões Torácicas (Trauma Fechado do Tórax) Repercussões Abdominais (Trauma Abdominal Fechado – TAF) 🔹 Diferenças Fundamentais 🩸 Hemocomponentes – prática clínica 🧪 Hemoderivados – prática clínicaprolongada gera alterações locais características do choque distributivo, e essas alterações podem persistir por horas ou dias após a reanimação. A isquemia prolongada não tratada acaba esgotando as reservas de trifosfato de adenosina (ATP); como resultado, as células do tecido sofrem falha bioenergética, o que desencadeia morte celular apoptótica e necrótica generalizada. 3 Suscetibilidade genética Muitas condições que predispõem ao choque têm etiologia multifatorial que inclui um componente genético. Por exemplo, variantes genéticas em mais de 50 loci estão associadas à DAC, a principal causa de choque cardiogênico. Os indivíduos com alta carga de risco genético (medida composta da variação dos 50 loci genéticos) têm o dobro do risco de eventos coronários graves, como IAM ou morte relacionada ao coração.3 Da mesma maneira, a asma (Capítulo 81; um fator de risco para choque obstrutivo) tem uma forte base genética, e estudos de associação genômica ampla (GWAS) recentes mostram uma associação entre polimorfismos de nucleotídio único (SNPs) em 5 genes (gasdermina B, interleucina-33, proteína de reparo de DNA RAD50, interleucina 1 semelhante ao receptor 1 e codificador de membro da família relacionado à caderina 3) e a probabilidade de ser hospitalizado por exacerbações graves de asma, incluindo estado de mal asmático. A suscetibilidade e o desfecho do choque séptico também foram associados a variações genéticas, como repetições em tandem de número variável, em genes envolvidos na detecção de produtos microbianos (p. ex., lectina-2 de ligação da manose e receptor tipo Toll 4 [TLR-4]), ativação da cascata inflamatória (p. ex., fator de necrose tumoral alfa) e eventos a jusante, como recrutamento de leucócitos (p. ex., fator 1 inibidor da migração de macrófagos) e ativação da coagulação (p. ex., inibidor do ativador do plasminogênio tipo 1). Por exemplo, essas correlações são bem documentadas em estudos familiares e de irmãos sobre doença meningocócica (Capítulo 282). A variação genética também foi descrita em outros componentes da resposta do hospedeiro ao choque, como os receptores simpáticos na vasculatura periférica que são responsáveis pela regulação do tônus vasomotor (p. ex., gene do receptor alfa 1B adrenérgico), a resposta imune inata aos DAMPs (p. ex., sinalização TLR) e ativação da imunidade adaptativa.4 Essas variações podem afetar a trajetória e o desfecho do choque, bem como a resposta terapêutica a diversos agentes, como os vasopressores adrenérgicos, usados no tratamento do choque. No entanto, nenhuma das variações descritas resultou em uma abordagem clínica específica para o manejo do choque. 📌 Choque: conceito e tipos 🔎 Definição Choque é uma síndrome clínica de disfunção circulatória aguda, caracterizada por perfusão tecidual inadequada, levando à hipóxia celular, falência de múltiplos órgãos e, se não tratado rapidamente, à morte. 👉 É uma emergência médica, exigindo diagnóstico rápido e intervenção imediata. 4 ⚡ Principais tipos de choque (4 categorias) 1. Choque Hipovolêmico ● Causa: perda de volume circulante efetivo. ● Exemplos: hemorragia (trauma, ruptura de aneurisma, sangramento GI), desidratação grave, extravasamento vascular (dengue grave). ● Fisiopatologia: a diminuição do retorno venoso leva à redução da pré-carga, o que consequentemente reduz o débito cardíaco e, por fim, resulta em queda da perfusão tecidual. ● Compensação: taquicardia, vasoconstrição periférica, redistribuição de fluxo para cérebro e coração. 2. Choque Cardiogênico ● Causa: falha da bomba cardíaca. ● Exemplos: IAM extenso, miocardite, arritmias graves, disfunção valvar aguda, ruptura de parede ventricular. ● Fisiopatologia: o coração não consegue gerar um débito adequado, o que leva à congestão pulmonar, hipóxia e redução do débito sistêmico. ● Compensação: ativação simpática (taquicardia, ↑ contratilidade), mas com pouca eficácia. 3. Choque Obstrutivo ● Causa: impedimento mecânico ao enchimento ou ejeção cardíaca. ● Exemplos: ○ Embolia pulmonar maciça → ↑ pós-carga do VD. ○ Tamponamento cardíaco → ↓ enchimento ventricular. ○ Pneumotórax hipertensivo → compressão do retorno venoso. ● Fisiopatologia: apesar do coração estruturalmente íntegro, há barreira física que reduz o débito cardíaco. 4. Choque Distributivo ● Causa: perda do tônus vasomotor periférico e/ou aumento da permeabilidade vascular. ● Exemplos: ○ Sepse (mais comum). ○ Anafilaxia. ○ Choque neurogênico (lesão medular aguda). ● Fisiopatologia: a vasodilatação provoca uma diminuição da resistência vascular sistêmica, o que reduz tanto a pré-carga quanto a pós-carga, resultando em uma distribuição inadequada do fluxo sanguíneo. ● No séptico, ainda há depressão miocárdica induzida por mediadores inflamatórios. 5 🔬 Fisiopatologia celular A hipoperfusão leva à redução do oxigênio disponível nos tecidos. Inicialmente, o organismo compensa esse déficit aumentando a extração de oxigênio, o que permite a manutenção do metabolismo aeróbio. Porém, se essa condição se prolonga, ocorre a transição para o metabolismo anaeróbio, com consequente acúmulo de ácido láctico e desenvolvimento de acidose metabólica. Nesse processo, surgem alterações importantes, como disfunção endotelial, prejuízo da microcirculação, inflamação exacerbada, hipóxia celular e falência mitocondrial. A evolução final desse quadro pode culminar em falência múltipla de órgãos e, por fim, morte. 🧬 Aspectos genéticos ● Fatores genéticos influenciam a susceptibilidade e evolução do choque (ex.: polimorfismos ligados a resposta inflamatória, receptores simpáticos, risco de sepse grave). ● Ainda não há condutas clínicas específicas baseadas nessa variabilidade genética. Referência: Goldman-Cecil Medicina Choque é a expressão clínica da hipóxia celular, tecidual e orgânica. É causado pela incapacidade do sistema circulatório de suprir as demandas celulares de oxigênio, por oferta inadequada de oxigênio (DO2) e/ou por demanda tecidual aumentada de oxigênio (VO2). O choque é uma condição de falência circulatória ameaçadora à vida devido à distribuição inadequada de oxigênio. Pode então ser definido como um desequilíbrio entre a oferta e a demanda de oxigênio, produzindo assim, hipóxia celular e tecidual. Os efeitos do choque são reversíveis inicialmente, mas rapidamente se tornam irreversíveis, levando à síndrome de disfunção de múltiplos órgãos. Logo, fica evidente que quanto mais precocemente for instituída a terapia, melhor será o prognóstico para o paciente. CLASSIFICAÇÃO E ETIOLOGIA Existem quatro tipos de choques reconhecidos, são eles: distributivo, cardiogênico, hipovolêmico e obstrutivo. No entanto, vale lembrar que muitos pacientes apresentam mais de um “tipo” de choque ao mesmo tempo, levando assim, à uma falência circulatória. Distributivo É caracterizado por uma vasodilatação severa e pelos mecanismos/moléculas responsáveis por essa vasodilatação dependem da etiologia. • Choque séptico: A sepse é definida como uma resposta desregulada do hospedeiro contra a infecção, que resulta em ameaça à vida e disfunção orgânica . É a causa mais comum de choque distributivo. O choque séptico está relacionado com uma alta taxa de mortalidade, cerca de 40 – 50% dos pacientes. 6 • Síndrome da resposta inflamatória sistêmica (SIRS): Uma síndrome clínica caracterizada por uma robusta resposta inflamatória, causada por um grande insulto corporal, que pode ser infeccioso ou não. São exemplos de condições não infecciosas que podem evoluir com SIRS – pancreatite, queimaduras, hipoperfusão causada por trauma, embolia de líquido amniótico, embolia gordurosa e outros. • Choque neurogênico: Os pa cientes com uma lesão traumática no cérebro ou na medula espinal, apresentam uma interrupção nas vias autonômicas, o que leva a uma diminuição na resistência vascular e alteração no tônus vagal, sendo eles osresponsáveis pelo choque distributivo ocasionado. • Choque anafilático: O choque anafilático é mais comumente encontrado nos pacientes com reações alérgicas graves, mediadas pelo IgE, como a picadas de insetos, alimentos e drogas. Além disso, vale lembrar que o termo anafilaxia também se aplica aos casos de liberação direta de mediadores inflamatórios dos mastócitos e basófilos produzidos por vários gatilhos, como exercícios, látex ou idiopático. • Choque induzido por drogas e toxinas: Algumas reações medicamentosas ou à toxinas podem estar associadas ao choque ou a síndrome do tipo SIRS-like, como por exemplo: overdose por narcóticos, mordidas de cobra, envenenamento por escorpião ou aranhas, reações transfusionais, envenenamento por metais pesados e infecções associadas com síndrome de choque tóxico (Streptococcus e Escherichia spp). • Choque endócrino: As crises adisonianas (falência da adrenal) e mixedema podem ser associadas à hipotensão e estados de choque. Nas situações de deficiência de mineralocorticóides, pode ocorrer uma vasodilatação devido à alterações no tônus vascular e a deficiência de aldosterona pode mediar uma hipovolemia. Cardiogênico O choque cardiogênico é aquele causado por alguma alteração intracardíaca que leva à falência da bomba cardíaca, resultando em débito cardíaco reduzido. São várias as causas de falência de bomba, mas elas podem ser divididas em 3 grandes grupos. • Cardiomiopatia: Nesse grupo estão incluídos: infarto miocárdico (que envolve mais de 40% do miocárdio ventricular), infarto do miocárdio de qualquer tamanho quando acompanhado de isquemia extensa devido à doença arterial coronariana, infarto ventricular direito severo, exacerbação da insuficiência cardíaca, miocárdio atordoado após uma parada cardíaca, depressão miocárdica devido ao choque séptico ou neurogênico e miocardites. • Arrítmica: As taquiarritmias e bradiarritmias, tanto atrial quanto ventricular podem induzir a hipotensão, contribuindo assim para os estados de choque. No entanto, quando o débito cardíaco é 7 prejudicado de forma severa devido às arritmias, os pacientes podem apresentar o choque cardiogênico. • Mecânica: As causas mecânicas incluem: insuficiência severa das válvulas aórtica ou mitral e defeitos valvulares agudos devido à ruptura do músculo papilar ou das cordas tendíneas ou dissecção retrógrada da aorta ascendente no anel valvar aórtico ou um abscesso do anel aórtico. Além disso, outras possíveis causas são: defeitos severos no septo ventricular ou ruptura aguda do septo interventricular e mixomas atriais. A estenose aórtica ou mitral raramente leva ao choque cardiogênico, mas frequentemente contribuem para a hipotensão nos casos de choque por sepse ou hipovolemia. Hipovolêmico É o choque ocasionado por uma redução no volume intravascular, o que reduz o débito cardíaco. Esse tipo de choque pode ser dividido em duas categorias. • Hemorrágico: A perda de sangue resulta em uma redução no volume intravascular, o que pode resultar em choque. Existem múltiplas causas para isso, dos quais o trauma (contuso ou penetrante) é o mais comum, seguido por hemorragia varicosa e sangramento intestinal inferior. Dentre as causas menos comuns estão: sangramento pós-operatório, ruptura da aorta abdominal, fístula aórtica-entérica, pancreatite hemorrágica e outras. Além disso, o choque hemorrágico pode ser classificado em quatro classes. A classe I consiste em perda menor que 15% da volemia, cursando com sintomas mínimos, sem alterações nos dados vitais e sem necessidade de reposição volêmica. Porém, é importante atentar-se ao controle do sangramento para não agravar o quadro. No choque classe II, a perda é estimada entre 15-30%, com diminuição da pressão arterial e aumento discreto nas frequências cardíaca e respiratória, sendo o tratamento a infusão de cristaloides. Na classe III, a perda é estimada entre 31-40%, com repercussões nos sinais vitais, repercussões neurológicas como agitação psicomotora e o tratamento requer sangue e derivados. Por fim, o choque classe IV, é o mais grave devido a perda estimada em mais que 40% da volemia, com alterações importantes nos sinais vitais e repercussões neurológica, como rebaixamento do nível de consciência e o tratamento deve consistir em estabilização do paciente e controle imediato do sangramento, além das medidas já citadas. • Não hemorrágico: Ocorre pela diminuição do volume intravascular por perda de algum fluido que não seja sangue. Ou seja, mais comumente ocasionado pela perda de sódio ou de água, em vários sítios anatômicos, como: o trato gastrointestinal (diarréia, vômitos), pele (queimaduras, condições dermatológicas severas como a síndrome de Stevens-Johnson), perdas renais (uso excessivo de diuréticos, nefropatias) e outras. Obstrutivo 8 O choque obstrutivo é ocasionado, frequentemente, por causas extracardíacas, que levam à uma falência da bomba e é muito associado a um baixo débito cardíaco direito. As causas desse tipo de choque podem ser divididas em duas categorias. • Pulmonar vascular: Muitas vezes o choque obstrutivo ocorre devido à falência ventricular direita que é resultado de duas condições principais, a embolia pulmonar e a hipertensão pulmonar. Nesse sentido, a falha do ventrículo é decorrente da alta pressão pulmonar, fazendo com que a sístole ventricular não vença essa pressão aumentada. Além disso, os pacientes com estenose grave ou com quadro agudo de obstrução da válvula pulmonar ou tricúspide também podem ser enquadrados nessa categoria. • Mecânico: Os pacientes dessa categoria desenvolvem o choque devido ao distúrbio que leva a uma diminuição da pré-carga, ou seja, o retorno venoso é prejudicado e assim a bomba não tem “substrato” para bombear. São exemplos: pneumotórax, tamponamento cardíaco, cardiomiopatia restritiva e pericardite constritiva. FISIOPATOLOGIA O processo de utilização do oxigênio tecidual envolve quatro passos principais: • Difusão do oxigênio dos pulmões ao sangue. • Ligação do oxigênio à hemoglobina. • Transporte de oxigênio pelo débito cardíaco para periferia. • Difusão de oxigênio para a mitocôndria. Passo 1: difusão do oxigênio dos pulmões ao sangue O oxigênio (O2) atmosférico entra nos pulmões a partir da pressão negativa gerada pela inspiração. Posteriormente, o O2 alveolar se difunde para o sangue capilar pulmonar. A quantidade de O2 que é transferida para o sangue depende da relação ventilação-perfusão e da concentração de oxigênio inspirado (FiO2). Outros fatores importantes são a membrana alvéolo-capilar, a concentração de hemoglobina no sangue e sua afinidade pelo O2. Passo 2: ligação do O2 à hemoglobina É importante salientar que aproximadamente 98% do O2 no sangue está ligado à hemoglobina e apenas 2% está dissolvido no plasma. O principal carreador do O2 é a hemoglobina, um complexo proteico composto por quatro cadeias polipeptídicas (normalmente, duas cadeias alfa e duas beta), cada uma ligada a um grupo heme por ligações não covalentes. Cada grupo heme possui um anel porfirínico ligado a um átomo de ferro em estado reduzido (ferroso ou Fe2+), ao qual o O2 se liga. Assim, cada molécula de hemoglobina consegue carregar quatro moléculas de oxigênio (Figura 2). 9 A afinidade da hemoglobina pelo O2 aumenta na medida em que o complexo com a hemoglobina se satura. Essa habilidade da hemoglobina de alterar sua afinidade pelo O2 a torna um carregador ideal. Nos capilares pulmonares, a ligação do oxigênio à hemoglobina é facilitada, enquanto nos capilares periféricos, a dissociação do O2 é promovida. Algumas situações aumentam ou diminuem a afinidade da hemoglobina pelo oxigênio e influenciam esse processo (Figura 3). ▷ FIGURA 2 Estrutura da hemoglobina. Em A, a molécula de hemoglobina é composta por quatro cadeias de globina, cada uma circundando um grupo heme central. Em B, cada grupo heme consiste em um anelporfirínico com um átomo de ferro no centro. 10 ▷ FIGURA 3: Curva de dissociação da hemoglobina. 2-3 DPG: 2,3-difosfoglicerato; O2: oxigênio; PaCO2: pressão parcial de CO2. Passo 3: transporte de oxigênio pelo débito cardíaco para periferia O transporte de O2 aos tecidos depende da quantidade de oxigênio presente no sangue e do débito cardíaco. O conteúdo de oxigênio no sangue (em mL de O2/dL de sangue) pode ser expresso, então, pela seguinte fórmula: Conteúdo arterial de oxigênio = (1,39 × Hb × Sat artO2) + 0,0031 × PaO2 (normal 16-22 mL/dL) Conteúdo venoso de oxigênio = (1,39 × Hb × Sat venO2) + 0,0031 × PvO2 (normal 12-17 mL/dL) Assim, os dois principais componentes do conteúdo de O2 no sangue são a quantidade de hemoglobina e sua saturação, já que o O2 dissolvido no plasma representa uma ínfima parcela do conteúdo total. Já o transporte de oxigênio aos tecidos depende do débito cardíaco (DC) do paciente. Portanto, a oferta de O2 (DO2) é dada pela seguinte fórmula: Oferta de oxigênio (mL O2/min) = CaO2 × DC × 10 (normal 700-1.400 mL/min) Fica evidente a importância do débito cardíaco para o transporte de O2 para os tecidos. Quedas agudas da saturação ou anemias agudas podem ser compensadas por imediato aumento do débito cardíaco. Passo 4: difusão de oxigênio para a mitocôndria O O2 posteriormente é transferido do sangue para a mitocôndria por um simples princípio de difusão. Nesse processo, também são importantes os mecanismos de controle da microcirculação local que controlam o fluxo total, tempo de trânsito e recrutamento capilar. Fatores autonômicos neurais e metabólicos regulam os esfíncteres arteriolares de tal forma a aumentar a densidade capilar. Órgãos com pouca reserva capilar apresentam-se em desvantagem durante a hipóxia. Uma vez que o O2 chega à mitocôndria, ele deve funcionar como receptor final de elétrons provenientes do metabolismo aeróbico. Mesmo após entrar na mitocôndria, diversos mecanismos em determinadas patologias promovem a má utilização do oxigênio no metabolismo, levando a uma utilização glicolítica anaeróbica da glicose e hiperlactatemia para geração de ATP, apesar da presença de O2. O consumo de oxigênio (VO2) é definido pela equação de Fick: Consumo de oxigênio (mL O2/min) = (CaO2 – CvO2) × DC × 10 (normal 180-280 mL/min) 11 A taxa de extração de O2 pelos tecidos descreve a habilidade da periferia em remover o O2 do sangue: Taxa de extração de oxigênio = VO2/DO2 ou = (Sat arterial O2 – Sat venosa O2) / Sat arterial O2 (normal 20-25%) DIAGNÓSTICO Critérios clínicos O choque deve ser suspeitado em pacientes com sinais de hipoperfusão tecidual (Tabela 1). A hipotensão arterial geralmente está presente no choque, mas pode estar ausente, especialmente em pacientes portadores de hipertensão arterial sistêmica. Em adultos com quadro de choque, a pressão arterial sistólica tipicamente é menor que 90 mmHg ou a pressão arterial média é menor que 70 mmHg, com taquicardia associada. A combinação de tempo de enchimento capilar > 2 segundos, livedo e diminuição da temperatura da pele pode predizer baixo índice cardíaco e, em última análise, choque com especificidade de 98%. Outros estudos mostraram que o tempo de enchimento capilar > 3 segundos é associado com piora de perfusão tecidual (motting) e pior prognóstico. A área de livedo reticular ao redor do joelho está diretamente relacionada à mortalidade, sendo um marcador importante de hipoperfusão tecidual no exame físico (Figura 5). 12 FIGURA 5 Mottling score. (Esquerda) Definição do escore pela presença de livedo a partir do joelho do paciente. (Direita) Sobrevida dos pacientes em função do escore encontrado. Existem três janelas de perfusão tecidual, que identificam os danos que o choque causou no organismo (Figura 6): ● Pele: pele fria e úmida, cianose, palidez, livedo, tempo de enchimento capilar prolongado. ● Rim: débito urinário 2 mmol/L ou >18 mg/dL) no choque. O lactato durante décadas foi considerado exclusivamente o produto final da degradação parcial da glicose por mecanismo anaeróbico devido à hipóxia mitocondrial. No entanto, pesquisadores têm proposto que a produção de lactato retarda, e não causa a acidose. Assim, a acidose seria causada por reações que não são a produção de lactato. Por exemplo, toda vez que o ATP é dividido em ADP e fosfato, um próton (H+) é liberado. Quando a demanda de ATP é atendida pela respiração 13 mitocondrial, não há acúmulo de prótons na célula, pois os prótons são usados pela mitocôndria. Em condições de hipóxia, o ATP que é fornecido a partir de fontes não mitocondriais aumenta a liberação de prótons e causa a acidose. A produção de lactato aumenta nessas condições celulares para evitar o acúmulo de piruvato e fornecer o NAD + necessário para a glicólise. Assim, o aumento da produção de lactato coincide com a acidose celular e permanece como um bom marcador indireto para condições metabólicas celulares que induzem a acidose metabólica. Devemos lembrar também que o lactato pode aumentar em situações não relacionadas à hipóxia, como disfunção hepática e uso de algumas medicações (como metformina e linezolida). MECANISMOS DE CHOQUE Existem quatro mecanismos clássicos de choque (Tabela 4) (Figura 8). Os três primeiros mecanismos, representados na Tabela 3, são caracterizados por baixo débito cardíaco e, portanto, por transporte inadequado de oxigênio. No mecanismo distributivo existe diminuição da resistência vascular sistêmica e alteração da extração de oxigênio; nesses casos, o débito cardíaco costuma ser inicialmente alto, embora possa reduzir como resultado de depressão miocárdica associada. 14 FIGURA 8 Mecanismos de choque. Choque hipovolêmico Acontece pela redução do volume intravascular (pré-carga reduzida) que, por sua vez, reduz o DC. O choque hipovolêmico pode ser dividido em duas categorias: hemorrágico e não hemorrágico. ● Hemorrágico: existem várias causas de choque hemorrágico, sendo o mais comum o trauma, seguido por hemorragia varicosa e úlcera péptica. Causas menos comuns incluem hemorragia perioperatória, aneurisma de aorta roto e iatrogênico. ● Não hemorrágico: volume intravascular reduzido por perda de fluidos que não sejam sangue. A depleção de volume pela perda de sódio e água pode ocorrer a partir de vários sítios anatômicos, como perdas gastrointestinais, perdas pela pele ou renais. Choque cardiogênico É causado por patologias cardíacas que levem à falência da bomba e à redução do débito cardíaco (DC). As causas de falha da bomba são diversas, mas podem ser divididas em três categorias: ● Cardiomiopatia: causas de cardiomiopatia induzindo choque incluem infarto do miocárdio envolvendo mais de 40% do miocárdio do ventrículo esquerdo, infarto do miocárdio de qualquer tamanho se for acompanhado por isquemia extensa e grave devido a doença coronariana multiarterial, infarto agudo do ventrículo direito, exacerbação da insuficiência cardíaca em pacientes com cardiomiopatia dilatada grave subjacente, miocárdio atordoadoapós parada cardíaca, isquemia prolongada ou circulação extracorpórea, depressão miocárdica por choque séptico ou neurogênico avançado e miocardite. ● Arrítmica: tanto as taquiarritmias atriais e ventriculares quanto as bradiarritmias podem induzir hipotensão. Quando o DC é gravemente comprometido por distúrbios significativos do ritmo (p. ex., taquicardia ventricular sustentada ou bloqueio atrioventricular total, por exemplo), os pacientes podem apresentar choque cardiogênico. ● Mecânica: insuficiência valvar aórtica ou mitral grave, defeitos valvares agudos, como a ruptura de um músculo papilar ou de cordoalhas tendíneas, dissecção retrógrada da aorta ascendente, ruptura aguda do septo interventricular, mixomas atriais e ruptura do aneurisma da parede livre ventricular são causas de choque cardiogênico. Choque distributivo É caracterizado por vasodilatação periférica grave com queda da resistência vascular sistêmica. ● Choque séptico: a sepse é definida como resposta desregulada do hospedeiro à infecção, resultando em disfunção orgânica com risco de morte. Choque séptico é sepse com hipotensão ou necessidade de terapia vasopressora e presença de níveis elevados de lactato 15 (> 2 mmol/L ou > 18 mg/dL), apesar da ressuscitação volêmica adequada. É o tipo mais comum de choque distributivo e tem mortalidade estimada em 30 a 50%. ● Choque neurogênico: ocorre geralmente em vítimas de traumatismo cranioencefálico grave e lesão da medula espinhal, sobretudo se esta for acima de T6, levando à interrupção das vias autonômicas, com diminuição da resistência vascular e alteração do tônus vagal. ● Choque anafilático: a anafilaxia está associada a mecanismos imunológicos (IgE mediado – alimento, inseto, látex – ou não IgE mediado – omalizumab, infliximab) e não imunológicos (exercício, frio, radiocontraste), todos levando à degranulação de mastócitos e/ou basófilos. Pode acometer diversos sistemas (cardiovascular, respiratório, pele, trato gastrointestinal e sistema nervoso central), no entanto, o choque e a obstrução de via aérea são as principais causas de morte. ● Choque por cianeto e por monóxido de carbono: choque por disfunção mitocondrial. No primeiro caso, o paciente possui O2, mas não consegue utilizá-lo por bloqueio da fosforilação oxidativa pelo cianeto. No segundo caso, além desse mecanismo, o monóxido de carbono tem muita afinidade pela hemoglobina, dificultando sua ligação ao oxigênio. ● Choque por etiologias endocrinológicas: crise addisoniana (insuficiência adrenal devido à deficiência mineralocorticoide) e coma mixedematoso podem estar associados à hipotensão e a estados de choque. Em estados de deficiência mineralocorticoide, a vasodilatação pode ocorrer devido ao tônus vascular alterado e à hipovolemia mediada pela deficiência de aldosterona. Os doentes com tireotoxicose podem desenvolver insuficiência cardíaca de alto débito e, com a progressão da doença, esses pacientes podem desenvolver disfunção sistólica do ventrículo esquerdo ou taquiarritmias, levando à hipotensão. Choque obstrutivo É causado principalmente por causas extracardíacas que culminam em insuficiência cardíaca. As causas de choque obstrutivo podem ser divididas em duas categorias: ● Vascular pulmonar: a maioria dos casos de choque obstrutivo é devido à insuficiência ventricular direita decorrente de tromboembolismo pulmonar hemodinamicamente significativo (TEP) ou hipertensão pulmonar grave (HP). Nesses casos, o ventrículo direito falha porque é incapaz de gerar pressão suficiente para superar a alta resistência vascular pulmonar. Se o paciente não apresenta disfunção de VD, o choque não pode ser explicado pelo TEP e outras causas devem ser pesquisadas. Em pacientes com hipertensão pulmonar preexistente e disfunção do VD, isquemia, sobrecarga de volume ou hipoxemia devem ser 16 evitadas, pois esses insultos podem resultar em disfunção ventricular direita crônica agudizada, resultando em colapso cardiovascular. ● Mecânica: apresentação clínica similar ao choque hipovolêmico, pois o distúrbio fisiológico primário é uma diminuição da pré-carga, em vez da falha da bomba (p. ex., redução do retorno venoso ao átrio direito ou enchimento inadequado do ventrículo direito). Causas mecânicas de obstrução de choque incluem: pneumotórax hipertensivo, pericardite constritiva e cardiomiopatia restritiva. O mecanismo e a etiologia do choque podem ser claros a partir da anamnese e do exame físico. Por exemplo, choque após trauma provavelmente será hipovolêmico, mas choque cardiogênico, choque obstrutivo ou mesmo choque distributivo também podem ocorrer, sozinhos ou em combinação, causados por condições como tamponamento cardíaco ou lesão da medula espinal. Assim, ressalte-se que a maioria dos pacientes com choque frequentemente tem uma combinação de mecanismos. A seguir, apresentamos um algoritmo adaptado que auxilia no diagnóstico diferencial do tipo predominante de choque (Figura 9). 17 FIGURA 9 Algoritmo diagnóstico do tipo de choque. ARV: alterações da repolarização ventricular; ECG: eletrocardiograma; IAM: infarto agudo do miocárdio; SCA: síndrome coronariana aguda; TEP: tromboembolismo pulmonar; TGI: trato gastrointestinal. Para entendermos a abordagem geral do choque, devemos nos lembrar de quais são os principais componentes do DO2 (oferta de O2) e do VO2 (consumo de O2), como descrito na seção de fisiopatologia. Para todo tipo de choque, devemos racionar no sentido de otimização da relação DO2 × VO2, como representado na Figura 10. Seguindo a Figura 10, a seguir, iremos descrever o passo a passo do manejo do choque. 18 FIGURA 10 Manejo geral do choque. DC: débito cardíaco; DO2: oferta de O2; Hb: hemoglobina; IAM: infarto agudo do miocárdio; PAM: pressão arterial média; PAS: pressão arterial sistêmica; SatO2: saturação de O2; TEC: tempo de enchimento capilar; POCUS: ultrassom point-of-care; VCI: veia cava inferior; VE: ventrículo esquerdo; VO2: consumo de O2. O passo inicial na abordagem do choque em um doente traumatizado é reconhecer a sua presença. Uma vez identificado o choque, inicie o tratamento baseado na provável causa. A definição de choque – uma anormalidade do sistema circulatório que resulta em perfusão orgânica e oxigenação tecidual inadequadas – também guia a equipe de trauma para seu diagnóstico e tratamento. O diagnóstico do choque no doente traumatizado é baseado em uma síntese de achados clínicos e exames laboratoriais. Nenhum sinal vital ou teste laboratorial isolado é capaz de diagnosticar o choque de forma definitiva. O segundo passo na abordagem do choque é identificar a sua provável causa e ajustar o tratamento adequadamente. Nos doentes traumatizados, esse processo está relacionado ao mecanismo de trauma. Em sua maioria, os traumatizados em choque apresentam hipovolemia. Podem, entretanto, apresentar também choque cardiogênico, obstrutivo, neurogênico e/ou, raramente, séptico. Como exemplo, o pneumotórax hipertensivo pode reduzir o retorno venoso e produzir choque obstrutivo. O tamponamento cardíaco também produz choque obstrutivo, pois a presença de sangue no interior do saco pericárdico inibe a contratilidade miocárdica e o débito cardíaco. Esses diagnósticos devem ser considerados pelos membros da equipe de trauma principalmente nos doentes com potenciais 19 lesões acima do diafragma. O choque neurogênico resulta de lesão extensa da medula cervical ou torácica alta, causado pela perda do tônus simpático e pela vasodilatação subsequente. O choque não resulta de trauma de crânio isolado, a menos que o tronco cerebral esteja envolvido, apresentando, neste caso, prognóstico reservado. As vítimas de lesão medular podem apresentar, inicialmente, choque por vasodilatação e hipovolemia, especialmente se houver múltiplas lesões associadas. O choque séptico é infrequente, entretanto deve ser considerado nos doentes cuja chegadaà sala de emergência tenha sido postergada por muitas horas. Nos doentes idosos, a razão subjacente ou a causa precipitante da lesão traumática pode ser uma infecção não reconhecida, mais comumente uma infecção do trato urinário. A responsabilidade do médico no atendimento do doente se inicia com o reconhecimento da presença do choque. Inicie o tratamento imediatamente e identifique a sua causa provável. A resposta do doente ao tratamento inicial, associada aos achados das avaliações primária e secundária, habitualmente fornece informações suficientes para determinar a causa do choque. A hemorragia é a causa mais comum de choque nos doentes traumatizados. Fisiopatologia do choque Fisiologia Cardíaca básica O débito cardíaco é definido como o volume de sangue bombeado pelo coração a cada minuto. Esse valor é determinado através da multiplicação da frequência cardíaca pelo volume sistólico (a quantidade de sangue ejetado a cada contração cardíaca). O volume sistólico é classicamente determinado pela pré-carga, pela contratilidade miocárdica e pela pós-carga (FIGURA 3-1). A pré-carga expressa o volume de retorno venoso para o coração e é determinada pela capacitância venosa, pelo estado da volemia e pela diferença entre a pressão venosa sistêmica média e a pressão do átrio direito. A diferença entre estas pressões determina o fluxo venoso. O sistema venoso pode ser considerado um reservatório ou um sistema de capacitância, dentro do qual o volume sanguíneo é dividido em dois componentes: 1. O primeiro componente representa o volume de sangue que permaneceria no circuito de capacitância caso a pressão do sistema fosse igual a zero. Esse componente não contribui para a pressão venosa sistêmica média. 2. O segundo componente representa o volume venoso que contribui para a pressão venosa sistêmica média. Estima-se que cerca de 70% do volume sanguíneo total esteja contido no circuito venoso. A complacência do sistema venoso envolve uma relação entre o volume venoso e a pressão venosa. Esse gradiente de pressão movimenta o fluxo venoso e, portanto, o volume de retorno venoso ao coração. A perda sanguínea espolia esse componente de volume venoso e reduz o gradiente de pressão; consequentemente, o retorno venoso é reduzido. 20 O volume de sangue venoso que retorna para o coração determina o comprimento das fibras musculares miocárdicas após o enchimento ventricular ao final da diástole. De acordo com a lei de Starling, o comprimento das fibras musculares está relacionado com as propriedades contráteis do músculo cardíaco. A contratilidade miocárdica é a bomba que movimenta o sistema. A pós-carga, também conhecida como resistência vascular periférica, é sistêmica. Simplificando, a pós carga é a resistência ao fluxo do sangue adiante. Fisiopatologia da perda sanguínea As respostas circulatórias iniciais à perda sanguínea são compensatórias e incluem a progressiva vasoconstrição das circulações cutânea, muscular e visceral para preservar o fluxo sanguíneo para os rins, o coração e o cérebro. A resposta habitual à perda aguda de volume circulante se dá por meio de um aumento da frequência cardíaca, na tentativa de preservar o débito cardíaco. Na maioria das vezes, a taquicardia representa o sinal circulatório mensurável mais precoce do choque. A liberação de catecolaminas endógenas aumenta a resistência vascular periférica, o que, por sua vez, aumenta a pressão sanguínea diastólica e reduz a pressão de pulso. No entanto, esse aumento da pressão não resulta em aumentos significativos na perfusão orgânica e na oxigenação tecidual. Para os doentes nas fases iniciais do choque hemorrágico, o retorno venoso é preservado até certo limite através do mecanismo compensatório da contração do volume sanguíneo no sistema venoso. Esse mecanismo de compensação é limitado. A maneira mais efetiva de restaurar o débito cardíaco, a perfusão aos órgãos alvo e a oxigenação tecidual, é o restabelecimento do retorno venoso ao normal, por meio da identificação e da interrupção da fonte de sangramento. A reposição volêmica permitirá a recuperação do estado de choque somente se o sangramento estiver controlado. A nível celular, as células inadequadamente perfundidas e oxigenadas ficam privadas de substratos essenciais para o metabolismo aeróbico normal e para a produção de energia. Inicialmente, a compensação ocorre através da mudança para o metabolismo anaeróbico, o que resulta na formação de ácido lático e no desenvolvimento de acidose metabólica. Caso o choque seja 21 prolongado, pode resultar em dano subsequente aos órgãos-alvo e em disfunção de múltiplos órgãos. A administração de quantidades apropriadas de soluções eletrolíticas isotônicas, de sangue e de hemoderivados ajuda a combater esse processo. O tratamento deve ser focado na reversão do estado de choque através da interrupção do sangramento e da promoção de oxigenação adequada, ventilação e apropriada reanimação volêmica. Acessos intravenosos devem ser obtidos rapidamente. O controle definitivo da hemorragia e a restauração do adequado volume circulante são os objetivos do tratamento do choque hemorrágico. Vasopressores são contraindicados como primeira linha de tratamento do choque hemorrágico, pois pioram a perfusão tecidual. Monitore frequentemente os índices de perfusão do doente, para que qualquer deterioração na sua condição possa ser detectada de forma mais precoce possível, tornando-se passível de reversão. A monitoração também permite a avaliação da resposta do doente ao tratamento. A reavaliação auxilia os médicos a distinguirem os doentes em choque compensado daqueles que não atingem uma resposta compensatória antes que o colapso circulatório ocorra. A maioria dos doentes traumatizados que estão em choque hemorrágico exige intervenção cirúrgica ou angioembolização precoces para que esse estado seja revertido. A presença de choque em um doente vítima de trauma requer o envolvimento imediato de um cirurgião. Considere providenciar a transferência precoce destes doentes para um centro de trauma quando estiverem recebendo atendimento inicial em hospitais despreparados para o tratamento dessas lesões. Avaliação inicial do doente Idealmente, deve-se reconhecer o estado de choque durante a avaliação inicial. Para tanto, é importante estar familiarizado com a diferenciação clínica das causas de choque – principalmente as causas hemorrágicas e as não hemorrágicas. Reconhecimento do Choque O profundo choque circulatório, evidenciado pelo colapso hemodinâmico com inadequada perfusão da pele, dos rins e do sistema nervoso central, é facilmente reconhecido. Após assegurar ao doente uma via aérea pérvia e uma adequada ventilação, os membros da equipe de trauma devem cuidadosamente avaliar as condições circulatórias do doente para identificar as manifestações iniciais do choque, como taquicardia e vasoconstrição periférica. Confiar exclusivamente na pressão sistólica como indicador de choque pode resultar em reconhecimento tardio deste estado, pois mecanismos compensatórios podem prevenir a queda mensurável na pressão sistólica até que uma perda de 30% da volemia do doente tenha ocorrido. Avalie cuidadosamente a frequência cardíaca, a qualidade do pulso, a frequência respiratória, a perfusão periférica e a pressão de pulso (diferença entre as pressões sistólica e diastólica). Na maioria dos adultos, a taquicardia e a vasoconstrição cutânea são os sinais mais precoces da perda sanguínea. Consequentemente, todo doente traumatizado que se apresentar com a pele fria e taquicárdico deve ser considerado em estado de choque, até prova em contrário. Ocasionalmente, a perda aguda de volume sanguíneo pode estar associada à frequência cardíaca normal ou, até mesmo, à bradicardia. Nestas circunstâncias, outros índices de perfusão devem ser monitorados. 22 A frequência cardíaca normal varia conforme a idade do doente. Considera-se como taquicardiauma frequência superior a 160 batimentos por minuto (bpm) no lactente, a 140 bpm nas crianças em idade pré-escolar, a 120 bpm até a puberdade e acima de 100 bpm no adulto. Os doentes idosos podem não apresentar taquicardia devido à sua limitada resposta cardíaca ao estímulo das catecolaminas ou ao uso de medicamentos, como agentes bloqueadores beta-adrenérgicos. A presença de marcapasso é outro fator que pode limitar a capacidade de aumentar a frequência cardíaca. A redução da pressão de pulso sugere perda sanguínea significativa e ativação de mecanismos de compensação. A perda sanguínea maciça pode produzir decréscimos mínimos nos valores iniciais de hematócrito e na concentração de hemoglobina. Assim, a presença de um nível muito baixo de hematócrito, obtido precocemente após o trauma, sugere uma perda sanguínea significativa ou uma anemia pré-existente; no entanto, um valor normal de hematócrito não descarta uma perda sanguínea significativa. Os valores do déficit de base e/ou do lactato sérico na gasometria arterial podem ser úteis para determinar a presença e a gravidade do choque. Avaliações seriadas desses parâmetros podem ser utilizadas para monitorar a resposta do doente ao tratamento instituído. Diferenciação Clínica das Causas de Choque No doente traumatizado, o choque pode ser classificado como hemorrágico ou não hemorrágico. Um doente, cujas lesões se situam acima do diafragma, pode apresentar evidências de perfusão orgânica e oxigenação tecidual inadequadas, devido a um desempenho cardíaco insuficiente causado por contusão miocárdica, tamponamento cardíaco ou pneumotórax hipertensivo, resultando na redução do retorno venoso (pré-carga). Para reconhecer e tratar todas as formas de choque, o médico deve estar constantemente alerta e observar cuidadosamente a resposta do doente ao tratamento inicial. A determinação inicial da causa do choque depende de uma história clínica apropriada e de um minucioso e cuidadoso exame físico. Exames diagnósticos complementares, como radiografias de tórax ou de pelve e a avaliação focada para o trauma com o uso de ultrassonografia (Focused Assessment with Sonography for Trauma – FAST), podem confirmar a causa do choque, entretanto não devem retardar a reanimação apropriada do doente. Visão Geral do Choque Hemorrágico A hemorragia é a causa mais comum de choque devido ao trauma e virtualmente todo doente politraumatizado tem um componente de hipovolemia. Assim, se sinais de choque estiverem presentes, o tratamento é instituído, tipicamente, como se o doente estivesse hipovolêmico. Entretanto, enquanto se inicia o tratamento, é importante identificar o pequeno número de doentes cuja causa do choque possui etiologia diversa (exemplo: uma condição secundária, como um tamponamento cardíaco, um pneumotórax hipertensivo, um traumatismo raquimedular ou uma contusão miocárdica), o que pode complicar a apresentação do choque hemorrágico. 23 Os aspectos específicos do tratamento do choque hemorrágico serão discutidos em detalhes na próxima seção deste capítulo, porém o objetivo principal da abordagem é identificar esse estado e interromper rapidamente a hemorragia. Fontes potenciais de perda sanguínea – tórax, abdome, pelve, retroperitônio, extremidades e sangramentos externos – devem ser rapidamente avaliadas através de exame físico e de exames complementares. Radiografias de tórax e de pelve, avaliação abdominal através do FAST ou do lavado peritoneal diagnóstico (LPD) e sondagem vesical de demora podem ser necessários para determinar a fonte do sangramento (n FIGURAS 3-2 e 3-3). 24 Visão Geral do Choque Não Hemorrágico A categoria de choque não hemorrágico inclui o choque cardiogênico, o tamponamento cardíaco, o pneumotórax hipertensivo, o choque neurogênico e o choque séptico. Apesar da ausência de perda sanguínea, a maior parte dos casos de choque não hemorrágico respondem de forma transitória à reanimação volêmica. Choque Cardiogênico A disfunção miocárdica pode ser causada por contusão cardíaca, tamponamento cardíaco, embolia gasosa, ou, raramente, por infarto agudo do miocárdio. Deve-se suspeitar de contusão cardíaca quando o mecanismo de lesão torácica envolve uma rápida desaceleração. Todos os doentes que apresentam trauma torácico contuso devem ser continuamente monitorados eletrocardiograficamente para identificar a presença de padrões de lesão ou de arritmias. O estado de choque pode ser secundário a um infarto agudo do miocárdio nos idosos e em outros doentes de alto risco, como os que apresentam intoxicação exógena por cocaína. Portanto, níveis de marcadores de necrose miocárdica (enzimas cardíacas) podem auxiliar no diagnóstico e no tratamento dos 25 doentes traumatizados na sala de emergência. Do mesmo modo, uma isquemia miocárdica aguda pode ser o fator desencadeante do trauma. Tamponamento Cardíaco Apesar de ser mais frequentemente encontrado em doentes que foram vítimas de ferimentos torácicos penetrantes, o tamponamento cardíaco também pode resultar de traumas torácicos contusos. Taquicardia, abafamento de bulhas cardíacas, e veias do pescoço dilatadas e engurgitadas (turgência jugular) com hipotensão e resposta insuficiente à reposição volêmica, sugerem tamponamento cardíaco. Entretanto, a ausência desses sinais clássicos não exclui a presença dessa condição. O pneumotórax hipertensivo pode simular um tamponamento cardíaco, através de achados que são comuns a ambos, como turgência jugular e desvio de traquéia. No entanto, a ausência de murmúrio vesicular e o timpanismo à percussão não estão presentes no tamponamento cardíaco. O ecocardiograma pode ser útil no diagnóstico do tamponamento cardíaco e de rupturas valvares, porém frequentemente não é viável e não se encontra imediatamente disponível na sala de emergência. O FAST realizado na sala de emergência é capaz de identificar um derrame pericárdico, o que sugere o tamponamento cardíaco como causa do choque. O tamponamento cardíaco é mais bem tratado através de intervenção cirúrgica formal (toracotomia), pois a pericardiocentese é uma manobra apenas temporária, quando a realização de cirurgia imediata não for possível. Pneumotórax Hipertensivo O pneumotórax hipertensivo é uma verdadeira emergência cirúrgica que requer diagnóstico e tratamento imediatos. Ele se desenvolve quando se forma um mecanismo de válvula, que permite a entrada de ar no espaço pleural, mas não a sua saída. A pressão intrapleural aumenta progressivamente, causando colapso total do pulmão e desvio do mediastino para o lado oposto, resultando em redução do retorno venoso e do débito cardíaco. Os doentes que estão ventilando espontaneamente, geralmente, manifestam extrema taquipneia e “fome de ar”, enquanto que os doentes que estão em ventilação mecânica frequentemente apresentam colapso hemodinâmico. A presença de insuficiência respiratória aguda, de enfisema subcutâneo, de ausência de murmúrio vesicular, de timpanismo à percussão e de desvio da traqueia corrobora com o diagnóstico de pneumotórax hipertensivo e exige a descompressão torácica imediata, sem esperar por uma confirmação radiológica. A descompressão por agulha ou toracocentese resolve temporariamente essa condição ameaçadora da vida. Na sequência, deve ser realizada a inserção de um dreno de tórax, utilizando técnica asséptica apropriada. Choque Neurogênico Lesões intracranianas isoladas não causam choque, a menos que haja envolvimento do tronco cerebral. Então, a presença de choque em um doente com trauma de crânio indica a necessidade de buscar outra causa de choque. Lesões na medula espinhal cervical ou torácica alta podem produzir hipotensão através da perda do tônus simpático, o que agrava os efeitos da hipovolemia. Por outro lado, a hipovolemia também acentua o efeito fisiopatológico da denervação simpática. A apresentação clássica do choque neurogênico é a presença de hipotensão com ausência de 26taquicardia ou de vasoconstrição cutânea. Os doentes portadores de traumatismo medular frequentemente apresentam lesões concomitantes no tronco; portanto, doentes com suspeita ou diagnóstico de choque neurogênico devem ser tratados inicialmente como portadores de hipovolemia. O insucesso no restabelecimento da perfusão orgânica e da oxigenação tecidual com a reposição volêmica sugere a presença de hemorragia contínua ou de choque neurogênico. A monitoração da pressão venosa central pode auxiliar na abordagem desse problema, muitas vezes complexo. Choque Séptico Choque causado por infecção, imediatamente após o trauma, é incomum. Entretanto, esse problema pode ocorrer caso a chegada do doente ao serviço de emergência demore algumas horas. O choque séptico pode ocorrer particularmente em doentes com ferimentos penetrantes no abdome com contaminação peritoneal por conteúdo entérico. Os doentes sépticos que estão hipotensos e afebris são de difícil diferenciação daqueles em choque hipovolêmico, pois ambos os grupos podem apresentar taquicardia, vasoconstrição cutânea, diminuição do débito urinário, diminuição da pressão sistólica e diminuição da pressão de pulso. Na fase precoce do choque séptico, os doentes podem apresentar volume circulante normal, discreta taquicardia, pele aquecida, pressão sistólica próxima da normalidade e ampla pressão de pulso. Referência: ATLS (DÉCIMA EDIÇÃO) 2. Explicar choque hipovolêmico hemorrágico: conceito, fisiopatologia, quadro clínico, diagnóstico e tratamento A hemorragia é a causa mais comum de choque nos doentes traumatizados. A resposta do doente traumatizado à perda sanguínea torna-se mais complexa em virtude das transferências de fluidos entre os diferentes compartimentos do organismo, particularmente no compartimento extracelular. Lesões de partes moles, mesmo que não apresentem hemorragia severa, podem resultar em transferências de fluidos ao compartimento extracelular. A resposta à perda sanguínea deve ser considerada no contexto dessas transferências de fluidos. Devem ser consideradas, também, as alterações associadas ao estado de choque severo e prolongado, e aos resultados fisiopatológicos inerentes à reanimação e à reperfusão. Definição de hemorragia A hemorragia é definida como uma perda aguda de volume sanguíneo. Embora exista uma considerável variação individual, o volume sanguíneo de um adulto normal corresponde a aproximadamente 7% do seu peso corporal. Por exemplo, um indivíduo de 70 kg tem aproximadamente 5 litros de volume sanguíneo circulante. O volume sanguíneo nos adultos obesos é calculado de acordo com o seu peso corporal ideal, pois, se considerado o peso real, seu valor poderia ser superestimado de modo significativo. Para crianças, o volume sanguíneo é calculado como de 8 a 9% do seu peso corporal (80 a 90 ml/kg). 27 Classificação fisiológica Os efeitos fisiológicos da hemorragia são divididos em quatro classes baseadas em sinais clínicos; essa classificação é uma ferramenta útil para estimar a porcentagem de perda sanguínea aguda. Os sinais clínicos representam uma continuação da hemorragia em andamento e servem somente para guiar o início do tratamento. A reposição volêmica subsequente é determinada pela resposta do doente à terapia instituída. O sistema de classificação apresentado a seguir é útil para enfatizar os sinais precoces e a fisiopatologia do estado de choque: ● A hemorragia classe I é exemplificada pela condição do doador de uma unidade de sangue. ● A hemorragia classe II é representada pela hemorragia não complicada, mas na qual a reposição de cristalóides é necessária. ● A hemorragia classe III é um estado de hemorragia complicado, no qual é necessária a reposição de cristalóides e, possivelmente, de sangue. ● A hemorragia classe IV é considerada um evento pré-terminal; a menos que medidas agressivas sejam adotadas, o doente entrará em óbito dentro de poucos minutos. A transfusão sanguínea é necessária. Hemorragia Classe I: 40% de perda do volume sanguíneo O grau de exsanguinação da hemorragia classe IV constitui uma ameaça imediata à vida. Os sintomas incluem taquicardia acentuada, redução significativa da pressão sistólica e presença de uma pressão de pulso muito estreita ou de uma pressão diastólica não mensurável (a bradicardia pode se desenvolver nos doentes pré terminais). O débito urinário é desprezível e o estado de consciência está notadamente deprimido. A pele encontra-se fria e pálida. Os doentes com hemorragia classe IV frequentemente necessitam de transfusão sanguínea rápida e de intervenção cirúrgica imediata. Essas decisões baseiam-se na resposta do doente às técnicas de reanimação iniciais. Fatores de Confusão A classificação fisiológica do choque é útil, entretanto vários fatores podem confundir e alterar profundamente a clássica resposta hemodinâmica à perda aguda de volume sanguíneo circulante; todos os indivíduos envolvidos na abordagem e na reanimação inicial dos doentes traumatizados devem prontamente reconhecê-los: • Idade do doente • Gravidade da lesão, particularmente o tipo de trauma e a localização anatômica da lesão • Reposição volêmica no pré-hospitalar • Tempo decorrido entre a lesão e o início do tratamento • Medicamentos utilizados para doenças crônicas É perigoso aguardar que o doentetraumatizado se enquadre em uma classificação fisiológica precisa antes de iniciar a reanimação volêmica apropriada. O controle da hemorragia e a reposição volêmica balanceada devem ser prontamente iniciados tão logo haja suspeita ou presença de sinais e sintomas precoces de perda sanguínea – e não quando a pressão arterial já estiver em queda ou inaudível. Interrompa o sangramento. 30 Alterações hidroeletrolíticas secundárias À lesão de partes moles As lesões extensas de partes moles e as fraturas comprometem o estado hemodinâmico do doente traumatizado de duas maneiras. A primeira é a perda sanguínea no local lesado, principalmente no caso de fraturas graves. Por exemplo, uma fratura de úmero ou de tíbia pode ocasionar perdas equivalentes a 750 mL de sangue. Uma perda duas vezes maior, 1.500 mL, está comumente associada a fraturas de fêmur, e vários litros de sangue podem ser acumulados em um hematoma retroperitoneal consequente a uma fratura de pelve. Os doentes obesos apresentam risco para perdas sanguíneas extensas em lesões de partes moles, mesmo na ausência de fraturas. Os idosos também estão em risco devido à fragilidade da pele e do tecido subcutâneo, que são lesados mais rapidamente e são menos eficazmente tamponados, em adição às paredes inelásticas dos vasos sanguíneos que não sofrem espasmo ou trombose quando traumatizados ou seccionados. O segundo fator a ser considerado é o edema que ocorre nas partes moles traumatizadas, o qual constitui outra fonte de perda de fluidos. A extensão dessa perda adicional de fluidos é proporcional à magnitude da lesão de partes moles. A lesão tecidual acarreta a ativação de resposta inflamatória sistêmica e a produção e liberação de múltiplas citocinas. Muitas dessas substâncias são localmente ativas e exercem profundos efeitos no endotélio vascular, resultando no aumento da permeabilidade. O edema tecidual resulta da transferência de líquidos, fundamentalmente do plasma para o espaço extravascular, ou extracelular, como resultado das alterações na permeabilidade do endotélio. Esta transferência espolia ainda mais o volume intravascular. Abordagem inicial do choque hemorrágico O diagnóstico e o tratamento do choque devem ser realizados quase simultaneamente. Para a maioria dos doentes traumatizados, o tratamento é instituído inicialmente considerando que o choque seja hemorrágico, a não ser que existam claras evidências de outra etiologia que não a hipovolêmica. O princípio básico a ser seguido no tratamento é interromper o sangramento e repor as perdas volêmicas. Exame físico O exame físico é dirigido para o diagnóstico imediato das lesões que ameaçam a vida e inclui a avaliação dos ABCDE. O registro e a anotação das condições iniciais são importantes para a monitoração da resposta do doente ao tratamento. Avaliações repetidas dos sinais vitais, do débito urinário e do nível de consciência são medidas essenciais. A seguir, assim que as condições do doente permitirem, deve ser realizado um exame mais pormenorizado. Via Aérea e Respiração A primeira prioridade é o estabelecimento de uma via aérea pérvia com ventilação e oxigenação adequadas. Deve-se fornecer oxigênio suplementar para manter uma saturação de oxigênio superior a 95%. 31 Circulação: Controle da Hemorragia As prioridades para o manejo da circulação incluem o controle de hemorragias evidentes, a obtenção de acesso venoso adequado e a avaliação da perfusão tecidual. O sangramento por ferimentos externos nas extremidades geralmente pode ser controlado através da compressão direta do local, apesar de perdas sanguíneas maciças provenientes de extremidades poderem necessitar de torniquetes. Um lençol ou uma cinta pélvica podem ser utilizados para controlar o sangramento proveniente de fraturas pélvicas. Para o controle de hemorragias internas, intervenção cirúrgica ou angioembolização pode ser necessária. A prioridade é a interrupção do sangramento, e não o cálculo de perdas volêmicas. 3. Compreender o atendimento inicial ao politraumatizado segundo o ATLS. CONDUTAS DE SEGURANÇA NA FASE PRÉ-HOSPITALAR Antes de iniciar a abordagem XABCDE ao paciente vítima de trauma, é necessário atentar-se a itens essenciais para salvaguardar a vida da equipe, sendo eles: avaliação da segurança da cena, uso de EPI’s, sinalização da cena (ex: dispor de cones de isolamento na pista). O protocolo XABCDE do Trauma padroniza o atendimento inicial ao paciente e foi pensado para identificar lesões potencialmente fatais ao indivíduo. O protocolo é aplicável a todas as vítimas com quadro crítico, independentemente da idade. O mnemônico do trauma “abcde” ganhou, na 9ª edição do PHTLS 2018, no capítulo 6 , mais uma letra: o x, sendo ele referente à hemorragia exsanguinante ou hemorragia externa grave, passando a ser dado ênfase às grandes hemorragias externas, antes mesmo do controle cervical ou da abertura das vias aéreas. (X) – EXSANGUINAÇÃO - PRÉ HOSPITALAR A contenção de hemorragia externa grave deve ser feita antes mesmo do manejo das vias aérea, uma vez que, epidemiologicamente, apesar da obstrução de vias aéreas ser responsável pelos óbitos em um curto período de tempo, o que mais mata no trauma são as hemorragias graves. (A) – VIAS AÉREAS E PROTEÇÃO DA COLUNA VERTEBRAL Avaliação das vias aéreas e proteção da coluna cervical. Para manutenção das vias aéreas utiliza-se das técnicas: “chin lift”: elevação do queixo, uso de aspirador de ponta rígida, “jaw thrust”: anteriorização da mandíbula, cânula orofaríngea (Guedel). No atendimento pré-hospitalar, 66-85% das mortes evitáveis ocorrem por obstrução de vias aéreas. No A também, realiza-se a proteção da coluna cervical. Em vítimas conscientes, a equipe de socorro deve se aproximar da vítima pela frente, para evitar que ela mova a cabeça para os lados durante o olhar, podendo causar lesões medulares. A imobilização deve ser de toda a coluna, não se limitando à coluna cervical. Para isso, uma prancha rígida deve ser utilizada. 32 ATENÇÃO: Considere uma lesão da coluna cervical em todo doente com traumatismos multissistêmicos. (B) – BOA VENTILAÇÃO E RESPIRAÇÃO O socorrista deve analisar se a respiração está adequada e se atentar para: frequência respiratória, inspeção dos movimentos torácicos, cianose, desvio de traquéia e observação da musculatura acessória. Esses são parâmetros analisados nessa fase. Para tal, é necessário expor o tórax do paciente, realizar inspeção, palpação, ausculta e percussão. É preciso, também, verificar se a respiração é eficaz e se o paciente está bem oxigenado. (C) – CIRCULAÇÃO COM CONTROLE DE HEMORRAGIAS A circulação e a pesquisa por hemorragia são os principais parâmetros de análise. A maioria das hemorragias é estancada pela compressão direta do foco. A hemorragia é a principal causa de morte no trauma. A diferença entre o “X” e o “C” é que o X se refere a hemorragias externas, grandes hemorragias. Já o “C” refere-se a hemorragias internas, onde deve-se investigar perdas de volume sanguíneo não visível, analisando os principais pontos de hemorragia interna no trauma (pelve, abdômen e membros inferiores), avaliando sinais clínicos de hemorragia como: tempo de enchimento capilar lentificado, pele fria e pegajosa e comprometimento do nível e qualidade de consciência. Quais soluções empregar na reposição volêmica? O Soro Ringer com Lactato é a solução isotônica de escolha. Contudo, soluções cristaloides não repõem hemácias, portanto, não recuperam a capacidade de carregar O2 ou plaquetas necessárias no processo de coagulação e controle de hemorragias. 33 (D) – DISFUNÇÃO NEUROLÓGICA São feitas análises do nível de consciência, tamanho e reatividade das pupilas, da presença de hérnia cerebral e dos sinais de lateralização, bem como do nível de lesão medular. Nessa fase, o objetivo principal é minimizar as chances de lesão secundária pela manutenção