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P A R A D IG M A S N O V O S P A R A D IG M A S E D U C A C IO N A IS ISBN 978-65-5821-006-1 9 7 8 6 5 5 8 2 1 0 0 6 1 Código Logístico 59804 LU C IA N A D E LU C A D A LL A VA LLE Novos paradigmas educacionais Luciana de Luca Dalla Valle IESDE BRASIL 2021 © 2021 – IESDE BRASIL S/A. É proibida a reprodução, mesmo parcial, por qualquer processo, sem autorização por escrito do autor e do detentor dos direitos autorais. Projeto de capa: IESDE BRASIL S/A. Imagem da capa: Prostock-studio/Shutterstock Todos os direitos reservados. IESDE BRASIL S/A. Al. Dr. Carlos de Carvalho, 1.482. CEP: 80730-200 Batel – Curitiba – PR 0800 708 88 88 – www.iesde.com.br CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ V272n Dalla Valle, Luciana de Luca Novos paradigmas educacionais / Luciana de Luca Dalla Valle. - 1. ed. - Curitiba [PR] : IESDE, 2021. 100 p. : il. Inclui bibliografia ISBN 978-65-5821-006-1 1. Professores - Formação. 2. Prática de ensino. I. Título. 21-69248 CDD: 370.71 CDU: 37.026 Luciana de Luca Dalla Valle Mestre em Engenharia de Produção pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Especialista em Educação Infantil e em Psicopedagogia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) e graduada em Pedagogia pela mesma universidade. É autora de livros para formação de professores e sobre desenvolvimento infantil, tendo sido agraciada, em 2010, com o Prêmio Jabuti, na categoria material didático. Possui experiência como docente e pesquisadora na área de capacitação de professores na graduação e pós-graduação. Atuou, ainda, como professora de educação básica, professora universitária, coordenadora pedagógica e diretora de instituição de ensino superior. Minicurrículo Apresenta as principais qualificações e a trajetória profissional do autor, destacando sua formação acadêmica, experiências relevantes e áreas de atuação. Apresentação Apresenta os temas centrais e o propósito do livro, explicando sua importância e a abordagem adotada. É o primeiro contato com o conteúdo, convidando o leitor a mergulhar nas reflexões e descobertas que virão ao longo dos capítulos. Objetivos de aprendizagem Descrevem o que se espera que o leitor seja capaz de saber ou fazer após o estudo do capítulo. Funcionam como um guia para quem aprende, indicando as competências, habilidades e conhecimentos que devem ser desenvolvidos. Seções do capítulo O conteúdo, estruturado para facilitar o aprendizado, é organizado em seções de modo claro, didático e acessível. Traz exemplos contextualizados, práticas criativas e inovadoras, recursos visuais diversificados e atividades que estimulam o engajamento, conectando a teoria à prática. Recursos visuais diversificados Recursos visuais como figuras, quadros, diagramas, mapas e infográficos facilitam a compreensão de conceitos complexos, reforçam a aprendizagem e auxiliam na memorização, organizando informações de modo sintético e atendendo a diferentes estilos de aprendizagem. Atividades Estimulam o raciocínio e promovem a aprendizagem ativa, permitindo aplicar conceitos na prática e desenvolver habilidades como pensamento crítico e resolução de problemas, consolidando a compreensão e tornando o aprendizado mais profundo e duradouro. Referências Listam as obras que fundamentam as explicações de cada capítulo, oferecendo ao leitor a oportunidade de consultar as fontes originais e explorar os assuntos com maior profundidade. Resolução de atividades Localizada ao final do livro, essa seção apresenta as respostas e soluções comentadas dos exercícios e atividades propostas nos capítulos, permitindo comparar respostas, verificar o aprendizado, analisar diferentes estratégias de resolução e identificar pontos a revisar, favorecendo a autonomia e transformando erros em oportunidades de crescimento. Conteúdos extras Incluem dicas, curiosidades, explicações complementares, reflexões sobre os temas abordados, exemplos práticos e estudos de casos, sinalizados por ícones. Conheça este livro Antes de iniciar a leitura, convidamos você a conhecer todos os elementos que compõem esta obra, desenvolvidos para facilitar e enriquecer seu aprendizado. QR Code Presente no início de cada seção, este recurso permite acessar rapidamente os vídeos do livro, que são enriquecidos com diversos recursos digitais. Para assistir, basta aproximar a câmera do seu smartphone ou tablet do QR Code e abrir o link que aparecerá na tela. SUMÁRIO 1 Propósito educativo e desafios cotidianos 9 1.1 Paradigmas educacionais da contemporaneidade 10 1.2 Qual é o propósito educativo? 17 1.3 Flexibilidade e adaptação docente 22 1.4 Desafios cotidianos do trabalho docente 25 2 A vida presente na escola 31 2.1 Educação disruptiva 32 2.2 Repensando o mindset educacional 37 2.3 Dá para viver sem tecnologia na escola? 44 3 Planejamento e uso criativo de ferramentas digitais 53 3.1 Curadoria de conteúdo 54 3.2 Criatividade no uso das tecnologias na escola 60 3.3 Metodologias ativas 68 4 Professor como sujeito da práxis docente 76 4.1 Afetividade e qualidade 77 4.2 Protagonismo e autonomia 84 4.3 Criticidade e reflexão 91 5 Gabarito 98 Falar sobre educação contemporânea é refletir sobre mudanças e quebras de paradigmas. Esta é a proposta deste livro: contribuir para a percepção de que a escola, em seus processos pedagógicos, precisa estar antenada com seu tempo e disposta a refletir sobre temas que estão presentes no dia a dia da sociedade e que também influenciam o ambiente escolar. O primeiro capítulo propõe reflexões sobre os propósitos da educação na contemporaneidade e dos novos paradigmas vigentes, elencando pontos essenciais na atuação dos professores para a efetivação de uma educação de qualidade e, dessa forma, fortalecendo o profissional para os desafios de seu cotidiano. Oferecendo percepções para suscitar pensamentos sobre a importância do mindset dos educadores, com atualização de conceitos, o segundo capítulo interliga teoria com exemplos e vivências, ao mesmo tempo em que oferece aos educadores um repensar das suas próprias convicções sobre a escolha de recursos e metodologias para seus programas pedagógicos. O uso de ferramentas digitais e a importância de um planejamento com curadoria de conhecimentos consciente é o tema das reflexões do terceiro capítulo, que também propõe o uso de metodologias ativas e projetos colaborativos nas realidades educacionais. O quarto e último capítulo propõe um refletir sobre aspectos intrínsecos da atuação do professor: afetividade, autonomia e criticidade, principalmente com vistas à qualidade de seu desempenho profissional. Nesse capítulo a percepção do protagonismo na educação é estudado sob o ponto de vista do professor e do aluno. A educação precisa ser pensada sob óticas modernas e esperamos que este livro possa desencadear mudanças de paradigmas, bem como ações conscientes que ajudem a fazer a educação melhor no nosso país. Que você possa pensar, desafiar-se, mudar e agir. APRESENTAÇÃO Vídeo Propósito educativo e desafios cotidianos 9 1 Propósito educativo e desafios cotidianos O pensador aponta sua luneta para o céu e questiona uma verdade absoluta: a Terra não é o centro do Universo. É a Terra que gira em torno do Sol, e não o contrário. Estuda, calcula, refaz cálculos, anota, compara. Apropria-se das ideias de outro pensa- dor para fortalecer as suas. E comprova! A história estava prestes a mudar. Publica o livro, desafia as ideias e as instituições vigentes e é duramente criticado por isso. Será morto se não alterar suas ideias e dizer estar equivocado. Muda as ideias e permanece vivo, mas em prisão domiciliar. Impedido de pesquisar e aprofundar seus estudos, é renegado à situação de ser alguém que publica here- sias. Morre cego, preso e sem ver suas ideias serem reconhecidas,países. A isso correspondem mais de 180 milhões de visitantes nas listagens da empresa em todo o mun- do. No Brasil, segundo dados de 2017, a comunidade do Airbnb con- tava com cerca de 123.000 anúncios, sendo que no ano anterior, em 2016, registrou a chegada de mais de um milhão de hóspedes no país (SALOMÃO, 2017). Assim, perceba como uma ideia inovadora de hospe- dagem também ajudou a desenvolver o turismo. Só para valer o desafio, que tal comparar a pequena pesquisa de hospedagem em hotel a qual foi desafiado a fazer com os valores prati- cados pelo Airbnb na mesma cidade? Há diferenças nos valores? Claro que é preciso compreender que há diferenças também na oferta uma vez que são hospedagens diferentes. Não é o caso aqui de comparar as facilidades ou vantagens de uma ou outra hospedagem. Estamos somente destacando que são propostas diferentes para um mesmo fim. A ideia de que durante uma viagem de lazer a hospedagem só 34 Novos paradigmas educacionais podia ser realizada em hotéis foi rompida e inovada com a proposta de hospedagem em casas de famílias. Como toda proposta diferente, algumas vão agradar um público, outras vão agradar outro. É normal que seja assim. Não se pretende, neste capítulo, direcionar você, leitor, a entender o quão vantajoso é este ou aquele formato de hospedagem; isso é muito particular. A ideia é só fazê-lo pensar que há sempre um outro jeito de fazer as coisas, aqui representado pelo exemplo da hospedagem em outro continente. Ao romper com o que era normal, com o que era estabelecido, os rapa- zes conseguiram criar um negócio muito lucrativo que é reconhecido e utilizado em todo o mundo, além de revolucionarem a forma de fazer alguma coisa, no caso, de hospedar pessoas. Amplie o pensamento em direção à disrupção: há sempre outra maneira de romper com o que está sendo feito e fazer diferente e, ao fazê-lo, podem surgir grandes inovações, como foi o caso do exemplo apresentado. Mas o que isso tem a ver com a educação? Na essência, tem tudo a ver. Estamos falando de romper com práticas estabelecidas e tidas como normais para recriar uma outra forma de fazer. Essa é a proposta da disrupção que vai ao encontro da demanda de atualização, de ino- vação, de práticas modernas de que carece a educação. O conceito de inovação disruptiva, dessa forma, invade o campo educacional e apre- senta uma nova ótica: a educação disruptiva. Um dos maiores exemplos que temos de educação disruptiva é a Escola da Ponte, em Portugal, que rompeu com as bases de uma educação tradicional ao eliminar classes, séries e disciplinas, integrando os alunos em salas únicas e baseando a aprendizagem partindo do interesse deles. Essa escola revolucionou o formato da aprendizagem ao reformular sua proposta pedagógica e até hoje é exemplo para muitas outras escolas. É importante frisar aqui que romper com o já estabelecido não sig- nifica dizer que tudo na educação precisa ser esquecido ou descartado. Isso depende do local onde você está, do objetivo do rompimento. O que pretendemos com a educação disruptiva é romper com práticas tradicionais estabelecidas, as quais ainda imperam na escola e levam sempre a resultados iguais (muitas vezes que não são mais satisfató- Sobre a Escola da Ponte, há muito material produzido, mas uma boa referência é uma entrevista do criador dessa ideia, José Pacheco, que foi diretor da escola e responsável pela dis- rupção. Disponível em: https://novaescola. org.br/conteudo/335/jose- pacheco-e-a-escola-da-ponte. Acesso em: 9 fev. 2021. E também o livro A escola com que sempre sonhei sem imaginar que pudesse existir, escrito por Rubem Alves, que trata da visita do autor à escola. ALVES, R. 11. ed. São Paulo: Papirus, 2008. Leitura https://novaescola.org.br/conteudo/335/jose-pacheco-e-a-escola-da-ponte https://novaescola.org.br/conteudo/335/jose-pacheco-e-a-escola-da-ponte https://novaescola.org.br/conteudo/335/jose-pacheco-e-a-escola-da-ponte A vida presente na escola 35 rios para as necessidades do mundo contemporâneo) e ousar em no- vas possibilidades. Não se trata também de considerar a educação disruptiva apenas como um conjunto de práticas novas; seria muito mais coerente dizer que ela é uma possibilidade de repensar (e refazer) tudo que envolve o processo de ensinar e aprender: as práticas metodológicas, os concei- tos, os conteúdos, o uso das tecnologias no ambiente escolar, enfim, a educação como um todo. Mas só repensar não adianta, é preciso rom- per, ousar e fazer! Essa é a ideia presente quando utilizamos o conceito em questão: é preciso olhar para os elementos que compõem um processo educativo sob a ótica da análise e assim verificar o que não está funcionando, o que pode ser mudado, interrompido e redirecionado, o que precisa ser modernizado e de que modo a inovação pode fazer parte da realidade existente. Disrupção, então, está intrinsecamente ligada à inovação. O rompimento acontece para dar lugar à inovação. Sobre inovação é preciso destacar: inovar não é necessariamente fazer algo que nunca foi feito em lugar nenhum. É fazer algo diferen- te na sua realidade. Mas o diferente para uma escola pode já ser o cotidiano de outra, percebe? Há muitas escolas que se inspiraram na Escola da Ponte, por exemplo, e igualmente obtiveram sucesso. Outras escolheram modelos diferentes que também deram certo. O importante é considerar que temos muita disparidade (de educação, de recursos, de qualidade educativa) entre as escolas brasileiras e, por isso, algumas são mais avançadas em práticas mais modernas de educação, assim podemos aprender com quem faz melhor do que já fazemos. Desse modo, não é preciso que a escola esteja sempre criando, em- bora, obviamente, é muito interessante a escola criar um modelo seu para educar. No entanto, às vezes as escolas precisam de ajuda para inovar, para criar, ou pelo menos para começar a inovar e a criar. Então, lembre-se: o que é inovação em uma escola, pode ser prática em outra. Em outras palavras, dá para aprender com os exemplos de sucesso que temos por aí. Só precisamos encontrá-los, estudá-los e colocá-los em prática. Perceba a importância da formação continuada do professor, da leitura, da pesquisa, as quais vão possibilitar que o docente encontre essas diferentes práticas e partilhe com colegas experiências diversas. Mudar por quê? Pense que se fizermos tudo do mesmo jeito, teremos sempre o mesmo resultado; essa é a lógica natural. Agora, foque nos resultados. Eles estão bons? Se os resultados não estão bons, será necessário alterar o modo de fazermos as coisas para chegar aos novos resultados tão desejados. Isso faz sentido para você? Para re�etir A proposta do livro Inova- ção na sala de aula: como a inovação disruptiva muda a forma de aprender é ampliar os horizontes do professor para que ele possa compreender como acontece uma edu- cação disruptiva, conside- rando a tecnologia como primordial para promover um ensino mais persona- lizado e moderno e com isso refletir sobre formas de superar alguns dos desafios da educação. CHRISTENSEN, C. M.; HORN, M. B.; JOHNSON, C. W. Porto Alegre: Bookman, 2012. Livro 36 Novos paradigmas educacionais Um dos pontos de maior destaque de inovação na esfera educa- cional e, por consequência, na educação disruptiva diz respeito ao uso de tecnologias. Todos concordamos que há vários anos as tecnologias revolucionam nossa forma de viver, estando presentes na nossa vida cotidiana. Se há tecnologias na vida, não há como imaginar que elas não estejam presentes na escola em projetos pertinentes. A questão não é a presença, é o bom uso. Acompanhe este exemplo: até aproximadamente duas décadas atrás, as aulas eram sempre ministradas pelo trio professor, quadro e giz; com a evolução, passaram a ser apresentadas aos alunos em trans- parências de retroprojetor e posteriormente em slides. Sem dúvida, foi uma evolução para a apresentação do conteúdo e essa evolução é bem-vinda.Aliás, não poderia ser diferente; se os recursos evoluem, é fundamental que o ambiente escolar faça uso deles. Então, atente-se para esta afirmação: evolução não é necessariamente disrupção. É preciso especial atenção para que o conceito de educação disruptiva não se confunda com o de evolução. Evolução é o processo de melhoria natural das coisas, o curso normal das práticas; disrupção é o rompi- mento de práticas ineficazes. Acontece que, numa grande parte dos casos, mesmo evoluindo no recurso, a apresentação dos conteúdos continua sendo feita da mesma maneira, como no exemplo do parágrafo anterior. Não houve ruptura com o modelo de aula expositiva (professor explicando e apre- sentando o conteúdo), somente uma evolução do meio de fazer isso. A essência do trabalho pedagógico continuou a mesma, mas agora com o professor explicando o que aparece nas telas do computador. Então, teoricamente continua o mesmo modus operandi 1 : o professor repassa ou apresenta as informações. E nos tempos atuais é isso que precisa ser questionado. De modo geral, é facilmente perceptível na prática que os resul- tados de aprendizagem da educação brasileira não melhoraram só porque os professores passaram a dar aulas usando telas de com- putador. Mas os testes são reveladores desse deficit: no ranking da avaliação do PISA (programa internacional de avaliação de estudan- tes, sigla em inglês), que avalia as habilidades dos alunos de leitura, matemática e ciências, o Brasil está em 57º lugar entre 79 países avaliados (O QUE…, 2019). Professores devem partilhar sua prática pedagógica em cursos e congressos, porque assim, além de refletirem sobre o que fazem, podem aprender com o fazer de outros profissionais e conhecer novas teorias. Qual é a importância dessa participação na sua opinião? Agora reflita: quantas vezes você já participou destes eventos? E profissionais da sua escola já apresentaram alguma experiência pedagógica nessas ocasiões? O que falta para mais professores participarem de eventos pedagógicos? Para re�etir Muitos professores desejam realizar práticas inovadoras nas suas salas de aula, mas nem sempre sabem como fazer isso. Então, aqui vai uma aju- da: acesse o texto do site Diário Escola e conheça cinco dicas para inovar na sua prática escolar. Disponível em: https://diarioescola. com.br/cinco-dicas-para-inovar- em-sala-de-aula/. Acesso em: 9 fev. 2021. Leitura Compare os resultados na sua realidade, ou até mesmo na sua prática como aluno: acredita que apresentar os conteúdos valendo-se de slides possibilite aprender mais? Os resultados provenientes do uso desse modelo são mais significativos? Para re�etir Expressão do latim que indica o modo utilizado para desenvolver ou realizar alguma coisa; proces- so de realização. 1 https://diarioescola.com.br/cinco-dicas-para-inovar-em-sala-de-aula/ https://diarioescola.com.br/cinco-dicas-para-inovar-em-sala-de-aula/ https://diarioescola.com.br/cinco-dicas-para-inovar-em-sala-de-aula/ A vida presente na escola 37 Então, voltamos ao início do raciocínio: o que é preciso fazer para melhorar a educação? Não basta só usar o recurso tecnológico en- tendendo que está inovando, é preciso romper com a prática do professor ser o centro do saber e buscar novas possibilidades de os alunos aprenderem. A função do professor é que vai ser alterada, de fornecedor de in- formações passa a ser o mediador delas, pois com o uso dos recursos tecnológicos as informações estão mais acessíveis do que nunca. E o uso desses recursos pode fazer muita diferença para a aprendizagem justamente porque permitem comparar e avaliar notícias, analisar pon- tos de vista etc. A inovação, portanto, sob o ponto de vista da educação disruptiva, precisa permitir um rompimento do que está estabelecido, mas não somente mudar o recurso usado para isso, e sim atualizar o recurso e mudar a prática, a fim de voltar-se para o aluno, com o intuito de que este possa adquirir as competências necessárias para viver no mundo de hoje, e assim romper com a educação tradicional e incorporar de vez o uso das tecnologias nos espaços escolares. Não pretendemos aqui esgotar o assunto da educação disruptiva. Objetivamos fazer você pensar na possibilidade real de fazer diferen- te do que vem fazendo, pesquisar sobre o tema, encontrar as suas respostas, seja nas práticas já desenvolvidas em outras escolas e por outros profissionais, seja porque inventou uma nova prática. A educa- ção precisa de muitos rompimentos e de profissionais corajosos para fazê-los. Novas práticas geram novos resultados e acreditar nisso é o primeiro passo da mudança. A educação disruptiva pode fazer parte da sua sala de aula? Como inserir a disrupção em sua escola? O texto Como aplicar inovação disruptiva em sala de aula aborda com clareza alguns pontos a serem consi- derados quanto ao uso da inovação disruptiva nas salas de aula e pode ajudar você a iniciar esse processo. Disponível em: https:// desafiosdaeducacao.grupoa.com.br/ inovacao-disruptiva-sala-de-aula/. Acesso em: 9 fev. 2021. Leitura 2.2 Repensando o mindset educacional Vídeo Na primeira reunião pedagógica, ainda na fase de planejamento das aulas daquele ano letivo, a coordenadora pedagógica da escola expli- cou que, somado às aulas habitualmente ministradas, a instituição in- cluiria um projeto de educação tecnológica, em que as crianças teriam um espaço no portal da escola para aprender mais e para, de certa ma- neira, a unidade de ensino acompanhar o desenvolvimento do mundo https://desafiosdaeducacao.grupoa.com.br/inovacao-disruptiva-sala-de-aula/ https://desafiosdaeducacao.grupoa.com.br/inovacao-disruptiva-sala-de-aula/ https://desafiosdaeducacao.grupoa.com.br/inovacao-disruptiva-sala-de-aula/ 38 Novos paradigmas educacionais contemporâneo em relação ao uso das tecnologias no ambiente esco- lar. Cabia, portanto, aos professores criarem as atividades e projetos que seriam realizados nesse espaço virtual. A notícia, comemorada por uns e temida por outros, provocou um desequilíbrio no grupo de professores. E agora? Como fazer uma edu- cação pela via tecnológica? A reação dos professores foi dividida em dois grupos. Havia aqueles que acharam a proposta dificílima e posicio- naram-se na reunião reclamando que não houve preparação, que não sabiam como fazer uma educação de qualidade utilizando elementos tecnológicos, que uma coisa era as crianças pesquisarem sobre algum tema nos tablets oferecidos pela escola, outra era fazer um espaço vir- tual a ser acessado da casa das crianças. Sendo assim, houve muita contrariedade e desconfiança na validade dessa educação. Professores diziam não serem capazes disso, que já estavam fazendo o trabalho há muito tempo de uma forma e que mudar agora era só modismo. O outro grupo, no entanto, encarou a proposta como um desafio que precisava ser vencido. Compreenderam a necessidade de se atua- lizar (alguns lamentaram não ter estudado formas de trabalho on-line antes) e de buscar respostas que pudessem ajudá-los a fazer os me- lhores projetos para seus alunos. Mesmo sem saber como fariam, essa era uma oportunidade única para uma educação diferente, como bus- cavam já há algum tempo. Os dois grupos que ilustram nosso exemplo tiveram posturas dis- tintas. Algo saiu diferente do que tinham planejado inicialmente, ou do que estavam acostumados a fazer nas salas de aula, e agora foram colocados em uma situação inédita, em que era preciso reinventar suas práticas educativas. De um lado, estavam aqueles que ao escutarem a proposta já se posicionaram contra, rejeitando a ideia e reclaman- do, enfatizando que uma proposta assim era fadada ao fracasso. Essa recusa abre espaço para uma reflexão: se o professor que será o pro- positor de projetos para crianças já começa rejeitando-o, como ele vai se empenhar para o sucesso do projeto? Se não acredita que pode dar certo, qual será sua motivação para buscar alternativas? Por outro lado,o grupo dos professores que aceitou o desafio (mes- mo sem saber ainda como realizá-lo) demonstrou uma outra faceta: encararam a questão com otimismo e se dispuseram a ir em busca Mesmo com tantas evidências da qualidade da educação que se pode realizar com o uso das tecnologias, ainda há muitos professores que apresentam resistência. O texto A resistência do professor diante das novas tecnologias trata desse assunto e oferece uma boa reflexão. Disponível em: https://meuartigo. brasilescola.uol.com.br/educacao/a- -resistencia-professor-diante-das- -novas-tecnologias.htm. Acesso em: 9 fev. 2021. Leitura https://meuartigo.brasilescola.uol.com.br/educacao/a-resistencia-professor-diante-das-novas-tecnologias.htm https://meuartigo.brasilescola.uol.com.br/educacao/a-resistencia-professor-diante-das-novas-tecnologias.htm https://meuartigo.brasilescola.uol.com.br/educacao/a-resistencia-professor-diante-das-novas-tecnologias.htm https://meuartigo.brasilescola.uol.com.br/educacao/a-resistencia-professor-diante-das-novas-tecnologias.htm A vida presente na escola 39 de alternativas, acreditaram que eram capazes de realizar a tarefa da melhor maneira possível. O comportamento diferenciado de cada um dos grupos retrata a maneira como lidaram com uma situação desafiadora, como demons- traram seu otimismo ou pessimismo em relação a uma proposta. Esse comportamento pode indicar o modo de reação geral dessas pessoas frente às dificuldades da vida. São as pessoas que sempre reclamam e não se acham capazes aquelas que possuem maior dificuldade em aceitar e se arriscar em propostas diferentes. Assim, os professores do nosso exemplo, com suas diferentes reações, demonstraram sua ma- neira de pensar, seu modelo mental. Há um termo da psicologia que define o modelo mental de cada um de nós: mindset. Original da língua inglesa, essa palavra é a junção das palavras mind, que significa mente em inglês, e set, que tem vários significados, mas nesse contexto utilizaremos apenas um deles, que é configuração. Então, de maneira geral, podemos dizer que mindset é a configuração da mente, a forma como organizamos nossos pensa- mentos e decidimos encarar as situações do cotidiano. Para esclarecer melhor esse conceito, acompanhe: Mindset é o conjunto de pensamentos e crenças que existe den- tro de nossa mente e que determina como nos sentimos e como nos comportamos. O Mindset é a forma como sua mente está programada para pensar sobre (qualquer) determinado assunto. (METRING, 2016, grifo nosso) No exemplo do início desta seção, percebemos diferentes mindsets entre os professores perante uma situação que gerou certo estresse. Cada grupo reagiu à sua maneira, de acordo com as configurações da sua mente, seja aceitando o que não era possível recusar e tentando encontrar um jeito de realizar a nova tarefa, seja reclamando e colocan- do empecilhos, os quais certamente tornaram mais difícil a realização do trabalho a ser feito. Foram reações diferentes que nos indicam que a mente deles estava também programada de modo diferente. Há duas formas de mindset: o fixo e o de crescimento (DWECK, 2017). Pessoas com mindset fixo acreditam que suas qualidades são imu- táveis e criam diariamente a necessidade de provar a si mesmo seu valor, como foi o caso do grupo de professores que refutou a proposta Quer saber um pouco mais sobre mindset? Acesse o texto Mindset – O que é e como ele determina os resultados da sua vida?, que contém um compilado interes- sante de ideias sobre o tema. Disponível em: https://administra- dores.com.br/artigos/mindset-o- -que-e-e-como-ele-determina- -os-resultados-da-sua-vida. Acesso em: 9 fev. 2021. Leitura https://administradores.com.br/artigos/mindset-o-que-e-e-como-ele-determina-os-resultados-da-sua-vida https://administradores.com.br/artigos/mindset-o-que-e-e-como-ele-determina-os-resultados-da-sua-vida https://administradores.com.br/artigos/mindset-o-que-e-e-como-ele-determina-os-resultados-da-sua-vida https://administradores.com.br/artigos/mindset-o-que-e-e-como-ele-determina-os-resultados-da-sua-vida 40 Novos paradigmas educacionais da coordenadora. Como não possuem habilidade tecnológica, ficaram com medo da exposição e do fracasso, com medo de fazerem papel de tolos, reforçando que já faziam uma educação de qualidade anterior- mente, então para que mudar? Pessoas com o mindset fixo estão constantemente achando que não são capazes de realizar propostas desafiadoras. Os sentimentos que estão por trás da recusa podem ser transformados em algumas frases, as quais, embora não sendo ditas, povoam a mente: “sou um fracas- sado, vou fazer papel de idiota porque os outros são melhores que eu nisso, querem acabar comigo, nada de bom me acontece, sou a pessoa mais sem sorte do mundo” (DWECK, 2017, p. 16-17). E como decidem não arriscar, acabam tomando atitudes compensatórias: não se esfor- çam para fazer o que é preciso, arrumam brigas com outras pessoas, discutem e, em alguns casos, podem usar o choro, o sono e a comi- da como elementos compensatórios. É preciso considerar que, para as pessoas com mindset fixo, não é o suficiente ser bom, é “necessá- rio ser praticamente perfeito, sempre perfeito”, “especial, melhor que os outros” (DWECK, 2017, p. 32). Assim, essas pessoas não arriscam, não se empenham em fazer nada que saia da sua zona de conforto, porque dentro do que estão confortáveis, são perfeitos. E acabam fa- zendo tudo sempre da mesma forma. Com isso, também sofrem, pois falta-lhes a confiança necessária para ousar (seja quando é preciso por contingências da vida, seja quando podia ser uma escolha que geraria crescimento). O mindset fixo dificulta o desenvolvimento e a mudança já que, nessa posição, o esforço é visto como algo ruim, uma vez que re- força esta ideia equivocada: quem é inteligente não precisa se esforçar. Por outro lado, pessoas com o mindset de crescimento são otimis- tas, acreditam em suas habilidades e estão dispostas a correr riscos. O mindset de crescimento é um ponto de partida para a mudança. As- sim, mesmo que as pessoas acreditem não saberem fazer determinada coisa (como implementar projetos com o uso da tecnologia), podem realizá-la se houver empenho e perseverança. Nem tudo dará certo, é verdade, mas o fracasso para essas pessoas é encarado como oportu- nidade de crescimento. “Essa é a característica maravilhosa do mindset de crescimento, você não precisa achar que é competente em algo para desejar fazê-lo e ter prazer nisso” (DWECK, 2017, p. 61, grifo nosso). É importante destacar que a programação mental, o mindset das pessoas, vai se formando à medida que vão interagindo com o meio Na série Anne with an E você conhecerá Anne, uma menina órfã que, ao ser adotada, revoluciona a forma de vida de uma comunidade e faz as pessoas repensarem suas verdades estabelecidas. Anne é um grande exemplo de uma pessoa otimista, com o mindset de crescimento. Criação: Moira Walley-Beckett. Canadá: Pelican Ballet; Northwood Entertainment, 2017-2019. Série Você conhece pessoas que mes- mo nas dificuldades encaram tudo com otimismo e sempre com boa vontade, buscando opções para fazer dar certo? E pessoas que ao menor sinal de mudança reagem apontando as dificuldades, reclamam e sempre focam na parte negativa das situações? Em qual configuração mental você se encaixaria? Para re�etir A vida presente na escola 41 em que vivem, na forma como são criadas, nas respostas que ouvem quanto aos seus posicionamentos e ações, principalmente na infância. É claro que existem traços de personalidade que nos definem: se você é professor já deve ter se deparado com alunos que mesmo pe- quenos são mais sérios, outros mais risonhos, alguns que têm muita fa- cilidade de relacionamento, outros precisam de mais ajuda. As pessoas são diferentes. Mas a reação das pessoas com as quais convivemos ao longo da nossa vida, inclusive os professores, é que formará aos pou- cos nosso modelo mental. Então, considerandoque as pessoas são diferentes, aprendem de maneira diferente, têm habilidades diferentes, reagem de modo dife- rente, há ligação desse jeito de ser, que é a nossa personalidade, com a nossa aprendizagem? Somos mais ou menos inteligentes se temos esta ou aquela forma de aprender e de nos relacionarmos com os outros? Qual é a relação do mindset com a nossa inteligência? Para falar sobre inteligência, é preciso destacar os trabalhos de um dos estudiosos mais reconhecido nessa área, Howard Gardner, psicólo- go e professor norte-americano que impactou o mundo e teve grande influência nas propostas educativas com suas pesquisas sobre as múl- tiplas inteligências na década de 1990. Estudando o comportamento humano, Gardner realizou um ma- peamento que revolucionou a forma como a inteligência humana era entendida até então, e apresentou sua teoria ao mundo explicando que as pessoas têm habilidades diferentes e que não existe apenas uma forma de inteligência. Lembre-se de que, até essa época, todas os estu- dos direcionavam para o entendimento da inteligência como passível de ser medida pelos famosos testes de quociente de inteligência (QI) 2 , em que eram aplicados alguns testes nas crianças ou adultos e com o resultado numérico obtido pelo desempenho determinava-se o grau de inteligência daquela pessoa. Assim, o normal era a pessoa ser encai- xada numa escala numérica que caracterizava sua inteligência. Nesse contexto, os estudos de Gardner causaram uma revolução, uma vez que os resultados apontavam para a certeza (com compro- vação) de que havia sete formas diferentes de inteligência: lógico-ma- temática, linguística, espacial, cinestésica, interpessoal, intrapessoal e musical (GARDNER, 1995). Pela primeira vez se percebia que as pessoas Você pode saber mais sobre a criação dos testes de QI acessando o texto Como a ciência define inteligência?, publi- cado pela Revista Super Interessante. Nele, há um panorama histórico que indica quais foram as necessidades da criação dessa forma de testagem e quem foi o criador da escala de inteligência co- nhecida no mundo todo. Disponível em: https://super.abril. com.br/ciencia/o-cerebro-numa- regua/. Acesso em: 9 fev. 2021. Curiosidade Conjunto de testes usados para avaliar a capacidade cognitiva do ser humano. O resultado dessa testagem era numérico e a este correspondia uma tabela em que as pessoas eram classificadas de deficiente mental a inteligência muito superior. 2 https://super.abril.com.br/ciencia/o-cerebro-numa-regua/ https://super.abril.com.br/ciencia/o-cerebro-numa-regua/ https://super.abril.com.br/ciencia/o-cerebro-numa-regua/ 42 Novos paradigmas educacionais tinham facilitadores de aprendizagem, ou seja, aprendiam mais e me- lhor algumas coisas do que outras, de acordo com suas habilidades. Portanto, os estudos desse autor provaram ser injusto e parcial que a inteligência humana (e vamos considerar aqui que isso era feito com as crianças na escola) fosse medida por uma escala de testes que prioriza- vam apenas as áreas lógico-matemática e de linguagem. Aliás, no seu livro, Gardner (1995) justamente propõe o termo inteligências múltiplas. Então, voltamos ao cerne da questão ligando o mindset com as in- teligências múltiplas. Se já está provado por Gardner que temos inte- ligências múltiplas e aprendemos de modos diversos, relacionados a essas inteligências, não parece claro que a escola precisa usar formas diferentes para ensinar, garantindo assim que todos os alunos possam aprender mais e melhor? E aí que entra o mindset: se a programação mental deste ou da- quele professor pender para o mindset fixo, a possibilidade de propor atividades diferenciadas é muito, muito pequena. E como irá propor apenas atividades que combinam com seu pensamento, correrá o risco de não atingir todos os alunos, ou, ainda pior, dizer frases e demons- trar decepção com aqueles que não aprenderam. E essa decepção vai formar o mindset daquele aluno. É um ciclo perigoso. Percebe por que a configuração da mente do professor é um ponto importante no de- sempenho das suas atividades? É fato que o mindset de um professor pode (e possivelmente vai) influenciar o dos seus alunos. É o que ocorre quando os professores cometem um dos erros mais comuns em suas práticas: o elogio da apti- dão. Sabemos que há alunos com aptidões diversas, como aqueles que têm incrível facilidade em estudar e aprender matemática, que muitas vezes são elogiados por essa facilidade. Mas o que esse elogio realmen- te sinaliza para a criança? Algo como: que bom que você nasceu com essa habilidade, pois o sucesso virá apenas para quem nasceu com ela. Igualmente sinalizará aos demais alunos (principalmente aos sem habilidade em matemática) que são fracassados, que infelizmente por não terem nascido com tal habilidade não merecem elogios, não são dignos do reconhecimento do professor. E isso não é verdade! Por isso, o elogio da aptidão (“nossa, como você desenha bonito, sua colagem está linda!”) deve ser evitado ou vir também acompanhado do elogio do esforço (“eu acredito em você, olhe como sua escrita melhorou desde o início do ano, reconheço seu esforço para resolver essa questão mate- Se você se interessa pelos testes que foram criados pela humanidade para testar a inteligência humana, precisa ler o livro História dos testes psicológicos: origens e transformações. São sete capítulos dedicados a refazer os caminhos que levaram a proposta de medição da inteligência humana. SILVA, M. C. de. V. M. São Paulo: Vetor, 2001. Livro A vida presente na escola 43 mática”). Por vezes, só mudando a forma de falar, teremos outro resul- tado e aquela criança passará a se tornar mais segura (DWECK, 2017). O elogio do esforço está vinculado ao processo, não somente ao re- sultado. Claro que o resultado é importante, mas nem todas as pessoas chegarão a ele, correto? Às vezes não conseguimos realizar aquilo que gostaríamos. Todas as pessoas fracassam em algum momento. O que faz diferença é que nem todas encaram o fracasso como algo limitador. Para algumas é o resultado possível, para outras é a plataforma de continuida- de (“não consegui ainda tal coisa, posso melhorar, vou tentar de novo!”). Assim, não se trata somente de elogiar o processo das coisas, e sim de vincular tal processo ao resultado, à aprendizagem da criança ou ao progresso das suas conquistas (DWECK, 2017). A mensagem a ser repassada é: com o seu esforço, dedicação e perseverança, você con- seguiu um resultado diferente e está no caminho de algo muito maior. Lembre-se ainda de que não precisamos sempre elogiar. É importante também interessar-se verdadeiramente sobre o progresso da criança. A boa notícia é que qualquer pessoa pode mudar seu mindset. Pense sobre suas atitudes, analise como reage aos desafios, observe como conduz a relação com seus alunos. Qual é a base disso tudo? Um mindset fixo? Ou um de crescimento? Lembre-se de que mindsets de crescimento mudam o significado de fracasso e de esforço, de capaci- dade e de limitações. E isso muda as realidades e as práticas. O professor não deve esquecer que cada palavra e ato seu envia uma mensagem ao aluno. Ao elogiar a inteligência ou o talento, ele está mandando uma mensagem de mindset fixo, como se só os que nascem com determinado talento terão sucesso – o que não é verdade, pois o esforço pode levar a um grande resultado. Que tal algumas reflexões para usar seu mindset de crescimento e ajudar seus alunos a desenvolverem os deles? • Elogiar a inteligência ou o talento de uma criança é tentador, mas isso a torna frágil nos quesitos de confiança e motivação. É como se você dissesse que ela só terá sucesso porque tem talento. Mas lembre-se de que nós não temos tantos talentos. Por isso, elogiar o esforço da criança é muito melhor. Um desenho feito pelos pe- queninos não precisa ser a todo momento elogiado como bonito, lindo; em vez disso você pode conversar com a criança sobre o que ela desenhou,o porquê, que escolha de cores fez etc. Esta dica é para quem quer conhecer a fundo a teoria das inteligências múltiplas. Nada melhor do que ir direto no livro do próprio autor da teoria, não é? O livro Inte- ligências multiplas: a teoria na prática é de 1995, mas vale a leitura. Agora, se você pesquisar, vai ver que esse autor escreveu muitos outros livros depois desse, os quais aprofundam o assunto e são materiais muito bons. Um deles vai ajudar você. GARDNER, H. Porto Alegre: Artmed, 1995. Livro 44 Novos paradigmas educacionais • Coloque objetivos para seus alunos, mas se lembre de não os vincular ao talento. Nada de “vamos ver quem consegue a letra mais bonita” ou “quem consegue pintar somente dentro do dese- nho”, porque você já sabe que há crianças que não vão conseguir. Qual é a ideia por trás disso? Quem não consegue não é capaz, é fracassado. E o objetivo era esse? Por que não dizer “vamos ver quem faz o seu melhor”, “percebo que você se esforçou para conseguir” ou “viu só como sua pintura melhorou do começo do mês para cá?”? • Cuidado com o que você pensa sobre os alunos que não conse- guem aprender com as estratégias propostas por você. No lugar de considerá-los inaptos, que tal mudar as estratégias? Procure imaginar o porquê de eles não aprenderem. Não use mindset fixo: lembre-se de que todos podem aprender. Descubra como! • Como professores, nossa missão é desenvolver o potencial das pessoas, mesmo que para isso você tenha que abaixar um pouco seus padrões de exigência para elevar a autoestima de seus alu- nos. Use tudo que puder nesse sentido, inclusive seu mindset de crescimento. As crianças precisam ser incentivadas, não só elo- giadas. Reconheça o esforço, aproxime-se mais de seus alunos e compreenda o que eles sentem (DWECK, 2017). Conhecimento e análise sobre mindset podem ajudar o professor a realizar um trabalho incrível em sala de aula, mas isso envolve análise e mudança de crenças individuais. Quanto mais se conhecer, mais o professor poderá ajudar seu aluno. 2.3 Dá para viver sem tecnologia na escola? Vídeo Quantas vezes por dia você se depara com a tecnologia em seu co- tidiano? A quantos elementos tecnológicos já se acostumou? Lembra quando não existia um aplicativo de mensagens em que você podia comunicar-se em tempo real com as pessoas? Como seria sua vida hoje sem tecnologia? Essas perguntas são pura retórica, mas fazem pensar. Não há como conceber a hipótese de viver sem tecnologia. Seja na simples atitude de identificar que horas são, para comprar algo sem sair da sua casa ou ouvir música em um carro que conecta automaticamente seu celular com o rádio, a tecnologia está presente das mais variadas formas em O filme Um sonho possível conta a história de um ra- paz que foi adotado por uma família e, estimulado, viveu uma das maiores experiências da sua vida, tornando-se um astro de futebol americano. Um bom exemplo de como incentivos e boas palavras geradas pelo mindset da mãe ajudaram um filho a conquistar seu espaço. Direção: John Lee Hancock. EUA: Warner Bros, 2010. Filme A vida presente na escola 45 nossa vida: nos exames que realizamos, na comida que compramos, no acesso aos andares do prédio em que moramos, no GPS 3 que indica qual o caminho a seguir. É possível afirmar que a tecnologia mudou a forma como nos rela- cionamos uns com os outros e a própria maneira como vivemos, a tal ponto que fica muito difícil considerar a vida sem todos os recursos tec- nológicos e imaginar os que ainda vão surgir (talvez um carro voador?). Considerando essa presença tão intrínseca da tecnologia na socie- dade, como podemos conceber uma escola sem recursos tecnológicos? Impossível! Assim, a pergunta que ilustra esta seção tem uma resposta muito direta: não, não dá para viver sem tecnologia na escola. Mas por que então temos tantas escolas ainda sem utilizá-las? Por que as tecno- logias ainda não estão presentes em muitos dos projetos que ilustram o cotidiano das escolas? Por que ainda há professores que resistem ao uso da tecnologia? São questões que serão discutidas nos próximos parágrafos. A reflexão inicial consiste não só em aceitar que as tecnologias são parte do mundo em que vivemos e, por consequência, devem igual- mente estar no ambiente escolar, mas também em entender que é pre- ciso pensar em como vamos integrá-las às ações educativas para que possam ajudar alunos a aprender mais e melhor. Já é consenso que muitos professores precisam reinventar o modo como abordam seus conteúdos, uma vez que um ensino basicamente de transmissão de informação, unicamente centrado no conhecimento do professor, tem se mostrado ineficiente, sendo inclusive motivo de insatisfação e de não aprendizagem por parte dos alunos. A pergunta surge naturalmente: como pode a escola diante de tantos avanços tec- nológicos e científicos ainda ter como base um modelo de aula em que se privilegia somente o ensino oral e escrito? Há ainda um agravante: em salas de aula em que o professor é o centro do processo educati- vo, apresentando-se como detentor do conhecimento, dificilmente os alunos participam ativamente, pois têm medo de errar, de arriscar e de participar (CAMARGO, 2018). Então parece uma incongruência. Os estu- dos modernos sobre educação apontam para atividade prática, ação do aluno, metodologias ativas e participativas, e muitas escolas ainda insis- tem nas práticas centralizadas no professor e pouco uso das tecnologias. Sigla em inglês para Global Positioning System; no Brasil, Sistema de Posicionamento Global. Sistema de navegação que permite, por meio de saté- lites, obter informações sobre localizações geográficas. 3 46 Novos paradigmas educacionais A Base Nacional Comum Curricular – BNCC (BRASIL, 2018) também ressalta a importância de a tecnologia estar presente nas salas de aula, nos mais diferentes contextos pedagógicos. Ao citar as competências gerais que os alunos devem desenvolver ao longo de toda a educação básica, o documento inclui especificamente uma para retratar a ques- tão tecnológica. Num rol de 10 competências, a de número 5 é: compreender, utilizar e criar tecnologias digitais de informação e comunicação de forma crítica, significativa, reflexiva e ética nas diversas práticas sociais (incluindo as escolares) para se comuni- car, acessar e disseminar informações, produzir conhecimentos, resolver problemas e exercer protagonismo e autoria na vida pessoal e coletiva. (BRASIL, 2018, p. 9) Assim, para garantir que o aluno tenha desenvolvido suas compe- tências para compreensão, uso e criação de tecnologias, é preciso ex- perienciar isso nas salas de aula, desde a mais tenra idade. A BNCC, pela quantidade de vezes que aborda o tema, demonstra a importân- cia deste para a educação brasileira: o termo tecnologia é citado 220 vezes no documento, distribuído entre a parte teórica das disciplinas e as indicações das competências a serem trabalhadas com os alunos de todos os níveis, para citar só alguns momentos. Então, não se trata de querer usar a tecnologia na escola ou não; tais elementos precisam estar na escola também por uma imposição do texto legal. A questão é que não basta estar escrito na lei. É preciso estar re- conhecido no dia a dia escolar, nas ações dos professores. E quando tratamos do professor utilizar recursos tecnológicos em suas aulas, es- tamos falando de um repensar no formato das aulas que vêm sendo ministradas, uma inovação, não no uso puro e simples. O recurso tecnológico não é o ponto principal dessa questão, é o professor quem é, juntamente às suas escolhas metodológicas e ao seu processo educativo. É o professor que precisa buscar uma alterna- tiva dinâmica, moderna e em consonância com seu tempo para educar mais e melhor, e os recursos tecnológicos podem ajudar nisso. Então, apresenta-se a seguinte situação: a tecnologia faz parte da vida diária do aluno, impõe mudanças cada vez mais fortes na forma como nos comunicamose nos relacionamos com as pessoas e não pode mais ser coadjuvante nas aulas. Estas, por sua vez, precisam mu- dar de formato com o uso das tecnologias e deixar de ser centradas em professores e seus saberes, para focar nos saberes e necessidades dos A vida presente na escola 47 alunos e nos elementos que fazem parte do cotidiano deles, como os recursos tecnológicos. Se você perguntasse para um aluno de ensino fundamental ou do ensino médio com acesso à tecnologia aonde ele vai para buscar res- postas quando tem dúvidas sobre algum assunto, acreditamos que ele não dirá que vai à escola, porque esta não é mais o local que contém as respostas – esse papel agora é dos sites de busca, da internet. A escola, principalmente a sala de aula, precisa ser reformulada para ocupar o papel de refinar as perguntas, de questionamento, de descobrimento. E os recursos tecnológicos serão protagonistas dessa renovação. Muito já se falou e há igualmente muitos estudos sobre modos di- ferentes de se aprender, e todas as respostas apontam para o fim da passividade gerada pelas aulas tradicionais. Direcionam para a busca do conhecimento, do desafio, da pesquisa, da movimentação do alu- no em prol do conhecimento e em detrimento à passividade. Enfim, indicam o fato de o aluno aprender ativamente. E os recursos das tecnologias digitais da informação e da comunicação (TDICs) podem ajudar nesse movimento. Por causa da rapidez de processamento das informações, da quan- tidade de informação disponível, da atração natural que a tecnologia exerce pela junção de cores, sons, palavras, textos, imagens que for- necem ricos estímulos sensoriais, além é claro da funcionalidade, os recursos tecnológicos são, por natureza, elementos fundamentais para fomentar e facilitar a aprendizagem. Mas de nada adianta que as tec- nologias estejam na escola se as ações educativas continuarem sendo pautadas por transmissão de conhecimento e passividade dos alunos. Não se trata, assim, de ter as TDICs como meio para a aprendiza- gem, mas como parte integrada dela. As tecnologias digitais não se tornam invisíveis, para deixar inalteradas as práticas atuais, nem se tornam o centro, para diminuir a importância das práti- cas pedagógicas. As tecnologias digitais tornam-se um fator de mudança dos processos de ensino-aprendizagem. (ROSA, 2015) As tecnologias digitais da informação e comunicação vieram para fazer a escola mudar de postura e para serem incorporadas em um programa de ensino que se fortalece na pesquisa, na busca, no pro- tagonismo do aluno e, ao mesmo tempo, oportuniza ao professor a mudança de sua prática. Que tal usar o celular para aprender Matemá- tica? Foi isso que fez um professor de uma escola aqui no Brasil. Acesse o texto publicado pelo G1 e conheça a história, quem sabe não dá para propor isso na sua escola? Disponível em: http:// g1.globo.com/distrito-federal/ noticia/2014/11/colegio-do- df-adota-telefone-celular-para- ensinar-matematica.html. Acesso em: 9 fev. 2021. Leitura Quando falamos de ação do aluno, estamos considerando que ele não pode mais apenas ouvir passivamente, mas precisa buscar respostas, perguntar, pesquisar, analisar, comparar dados. Atenção http://g1.globo.com/distrito-federal/noticia/2014/11/colegio-do-df-adota-telefone-celular-para-ensinar-matematica.html http://g1.globo.com/distrito-federal/noticia/2014/11/colegio-do-df-adota-telefone-celular-para-ensinar-matematica.html http://g1.globo.com/distrito-federal/noticia/2014/11/colegio-do-df-adota-telefone-celular-para-ensinar-matematica.html http://g1.globo.com/distrito-federal/noticia/2014/11/colegio-do-df-adota-telefone-celular-para-ensinar-matematica.html http://g1.globo.com/distrito-federal/noticia/2014/11/colegio-do-df-adota-telefone-celular-para-ensinar-matematica.html 48 Novos paradigmas educacionais É fato que é mais fácil escrever ou falar sobre a inserção da tecno- logia e a responsabilidade do professor do que realizar isso na prática, porque é uma verdadeira revolução, uma desconstrução do modelo de aula a que o professor esteve sempre vinculado. E as tecnologias inva- diram a sala de aula de tal forma que muitos professores se sentiram ameaçados, inseguros, impactados com tal presença. Mas, assim como essa invasão foi inevitável (qual professor nunca teve de lidar com alu- nos que acessam o celular durante as aulas?), também será inevitável, se desejamos uma educação de qualidade e antenada com os tempos modernos, a mudança do formato das aulas. Então, não dá mais para resistir. É melhor os professores rapidamente reverem suas práticas e compreenderem que precisam se atualizar, que necessitam de novas competências para essa nova forma de educação. Um outro ponto de vista precisa ser incluído aqui. É preciso que o uso das tecnologias não seja visto somente como recurso às aulas, mas também como um tema sobre o qual os alunos vão construir conhecimentos. Assim, além de usar as tecnologias para suas apren- dizagens, os alunos também vão aprender sobre as tecnologias, os seus usos, as suas limitações, a ética que envolve as postagens, a análise de comportamento e muitos outros temas, a depender da idade dos alunos e da criatividade do professor. Para ser esse profissional que vai usar as tecnologias em seu co- tidiano e explorar novas possibilidades dentro das aulas, o professor também precisa desenvolver suas capacidades frente ao novo. Com base em Bates (2016), indicamos sete pontos que o professor pode me- lhorar para corresponder aos novos tempos: 1. Desenvolvimento de habilidades de comunicação 2. Capacidade de aprender de modo independente 3. Respeito à ética e responsabilidade 4. Trabalho em equipe e flexibilidade 5. Desenvolvimento e habilidades de pensamento 6. Desenvolvimento de competências digitais 7. Gestão do conhecimento No vídeo Especial Tecno- logia na Educação – Por que usar tecnologia?, pu- blicado pelo canal Porvir Educação, Anna Penido, diretora do Instituto Ins- pirare, fala do impacto da tecnologia na educação e por que é urgente adotá- -la na realidade brasileira. É um vídeo curto, com muitas informações. Não deixe de assistir! Disponível em: https://youtu.be/ IzsHAiCvxR8. Acesso em: 9 fev. 2021. Como estão as suas competências digi- tais? Quer fazer uma autoavaliação sobre isso? Acesse o site Guia Edutec e verifique no que você precisa desenvolver-se profissionalmente para ser considerado um educador competente tecnologicamente. Disponível em: https://guiaedutec. com.br/educador. Acesso em: 9 fev. 2021. Dica Vídeo https://youtu.be/IzsHAiCvxR8 https://youtu.be/IzsHAiCvxR8 https://guiaedutec.com.br/educador https://guiaedutec.com.br/educador A vida presente na escola 49 Vejamos com mais detalhes cada um deles. Hoje em dia, as formas de comunicação mudaram muito, então o professor precisa incluir no seu rol de competências, além de ler, falar e escrever com coerência e clareza, capacidades como gravar um vídeo, escrever num blog, propor chats e fóruns virtuais, com- partilhar informações de diferentes formas, até realizar pequenas edições de vídeo. Claro que ele não precisa obrigatoriamente fazer tudo isso, porque não se espera dele que seja um design instrucional. Mas o professor precisa conhecer as diferentes linguagens e assim desenvolver suas habilidades de comunicação – mesmo que seja para explicar a quem vai fazer o trabalho de edição, por exemplo, o que ele deseja. Não vamos descaracterizar a função do professor, apenas sugerimos que ele esteja aberto a conhecer e a desenvolver suas competências digitais. Não se trata também de deixar o recur- so ficar mais importante que o discurso, mas cada nova ferramenta requer uma linguagem própria e é sobre conhecer essa nova lingua- gem que estamos falando. O professor precisa trabalhar a sua capacidade de aprender de modo independente, saber onde buscar as novas informações, seja com o aprendizado de manejo de diferentes objetos (computador, celular, impressora,scanner) ou novas teorias (nos cursos especí- ficos ou de formação continuada, ou nas palestras de autores que tratam de temas contemporâneos). É o professor que deve assumir a responsabilidade de sua formação. Lidar com o mundo tecnológico requer muito cuidado com a ex- posição que ele gera. Por isso, responsabilidade redobrada e atenção à ética são pontos relevantes nas novas competências do professor. O mundo virtual possibilita contatos que podem fazer a diferen- ça para a realização de um trabalho. Por isso, a atuação colaborati- va, com trabalho em equipe e partilhado, é muito melhor do que o trabalho isolado. Essa é outra grande competência do mundo tec- nológico: o trabalho colaborativo. Aliado ao trabalho que se realiza em conjunto vem a flexibilidade dessa relação: é possível contatar professores do Brasil todo (e com recursos de tradução, do mun- do todo) e conhecer experiências em espaços virtuais acessados a qualquer tempo e local. O professor torna-se mais flexível com as O Currículo de Referência em Tecnologia e Computa- ção é um material muito interessante, elaborado pelo Centro de Inovação para a Educação Brasi- leira (CIEB) e que pode ajudar os profissionais na composição de um currí- culo o qual contemple o uso ativo das TDICs nas escolas. É um documento bem completo que conta inclusive com a listagem de habilidades a serem desenvolvidas nos alunos de acordo com a BNCC. Além disso, orienta todos os passos para montar um currículo contem- plando a adoção das tecnologias. Não deixe de conhecer esse material. Disponível em: https://curriculo. cieb.net.br/. Acesso em: 9 fev. 2021. Leitura https://curriculo.cieb.net.br/ https://curriculo.cieb.net.br/ 50 Novos paradigmas educacionais ideias (uma vez que amplia significativamente seu campo de conhe- cimento), com o gerenciamento de tempo (porque pode acessar nos seus horários possíveis) e de local (porque o espaço geográfico não é significativo nas tecnologias digitais). A flexibilidade é uma compe- tência a ser adquirida quando em contato com tecnologias digitais, pois elas poderão abrir novas oportunidades. O desenvolvimento de habilidades de pensamento é muito neces- sário no contexto da modernidade, pois elas permitem que o pro- fessor possa ter pensamento crítico, resolver problemas com mais facilidade, demostrar criatividade, compor seu trabalho com origina- lidade e elaborar estratégias eficientes para cumprir seus objetivos. Se há uma competência que o professor precisa muito desen- volver é a de conhecer recursos tecnológicos que possam ajudar na sua área. Não se trata só de usar ou não o computador, e sim de co- nhecer programas, sites, fóruns de discussão que possam fomentar cada vez mais os assuntos sobre os quais leciona, tanto para a sua formação pessoal quanto para a formação de seus alunos. Então, a competência digital não requer só o conhecimento do recurso, mas também o bom uso dele. Nunca a frase “o conhecimento pode ser ampliado rapidamente” teve tanto sentido quanto atualmente. Os recursos tecnológicos dão uma dimensão tão rápida de como encontrar tudo sobre qualquer assunto que é fácil se perder em meio a tanta informação, inclusive sobre notícias não verdadeiras, as chamadas fake news. É por isso que a gestão do conhecimento é uma competência necessária ao professor; é preciso que ele saiba como encontrar, avaliar, analisar, aplicar e divulgar as informações de determinado contexto, e possa ensinar isso aos seus alunos. Trata-se de novas competências para um novo professor, aque- le que atuará em consonância com seu tempo, atento ao contexto atual, lecionando com recursos tecnológicos que fazem parte da sua vida e principalmente da vida de seus estudantes. Aquele entende- dor de que a aprendizagem pode se tornar muito mais envolvente se realizada com recursos que, além de encantar, desafiam e es- timulam. Então, não esqueça: a experiência de aprender pode ser ampliada significativamente com o uso dos recursos tecnológicos. Certamente, nunca as habilidades de comunicação e as competências digitais dos professores no nosso país tinham sido tão exigidas como quando precisaram passar a dar aulas on-line por causa da pandemia do coronavírus. E você? Teve que se adaptar a essa realidade como professor? Como aluno? Como pai ou mãe? Como foi essa experiência? Para re�etir A vida presente na escola 51 Ampliando seus conhecimentos • Filme O filme Sociedade dos poetas mortos é um clássico! Lançado em 1989, ainda tem muito a ensinar. Mostra as ações do professor John Keating na tentativa de revolucionar a forma de ensinar em uma escola muito tradicional dos Estados Unidos. Um excelente exemplo da educação disruptiva, incluindo as dificuldades de fazer isso acontecer. Direção: Peter Weir. Estados Unidos: Disney; Buena Vista, 1989. • Livro Uma das maiores estudiosas sobre mindset é a psi- cóloga Carol Dweck. No livro Mindset: a nova psico- logia do sucesso você vai encontrar, além de muitos exemplos, alguns testes para identificar e desenvol- ver a sua configuração mental. DWECK, C. S. Rio de Janeiro: Objetiva, 2017. CONSIDERAÇÕES FINAIS Romper com o estabelecido e implantar o novo na escola pode fazer a di- ferença na qualidade da educação ministrada. A chamada educação disruptiva surge como uma alternativa para que a escola possa eliminar de vez práticas ultrapassadas, rompendo com paradigmas e estereótipos e inovando. É preciso, no entanto, que o profissional envolvido não meça esforços para conseguir a mudança por meio da inovação, inclusive programando seu modelo mental para um crescimento cada vez maior, e igualmente ajudando a desenvolver atitudes de mindset de crescimento nos seus alunos também. O profissional com esse tipo de configuração mental terá infinitas possibili- dades de fazer um trabalho diferenciado na escola e de colher resultados melhores na instituição de ensino inovadora que deseja. Não dá para considerar uma escola inovadora apenas pelo uso de tec- nologias como notebooks, tablets, telefones celulares ou computadores. Por outro lado, também não dá para considerá-la inovadora se não utilizar ne- nhum desses elementos tecnológicos. Como equacionar tudo isso? É preci- so que a prática pedagógica proposta com esses recursos faça a diferença. Inovar, portanto, não é somente implementar novas tecnologias no cotidiano escolar, e sim garantir que o uso dessas tecnologias esteja aliado a um pro- jeto pedagógico eficiente, a fim de assegurar o desenvolvimento das compe- tências que os alunos precisam para viver no mundo contemporâneo. 52 Novos paradigmas educacionais ATIVIDADES 1. O que é mindset e qual é a diferença entre mindset fixo e de crescimento? 2. O que é educação disruptiva? Qual é a relação da educação disruptiva e da tecnologia? 3. Cite dois pontos favoráveis que justifiquem a implantação das tecnologias na escola. REFERÊNCIAS BATES, T. Educar na era digital: design, ensino e aprendizagem. São Paulo: Artesanato Educacional, 2016. BRASIL. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, DF: Ministério da Educação, 2018. Disponível em: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/images/BNCC_EI_EF_110518_ versaofinal_site.pdf. Acesso em: 9 fev. 2021. CAMARGO, F. A sala de aula inovadora: estratégias pedagógicas para fomentar o aprendizado ativo. Porto Alegre: Penso, 2018. CHRISTENSEN, C. M.; HORN, M. B.; JOHNSON, C. W. Inovação na sala de aula: como a inovação disruptiva muda a forma de aprender. Porto Alegre: Bookman, 2012. DWECK, C. S. Mindset: a nova psicologia do sucesso. Rio de Janeiro: Objetiva, 2017. GARDNER, H. Inteligências múltiplas: a teoria na prática. Porto Alegre: Artmed, 1995. METRING, N. Mindset: o que é e como ele determina os resultados da sua vida? Administradores.com, 28 nov. 2016. Disponível em: https://administradores.com.br/ artigos/mindset-o-que-e-e-como-ele-determina-os-resultados-da-sua-vida. Acesso em: 9 fev. 2021. O QUE os dados do Pisa 2018 dizem sobre a educaçãono Brasil. Desafios da educação, 3 dez. 2019. Disponível em: https://desafiosdaeducacao.grupoa.com.br/pisa-2018- educacao-brasil/. Acesso em: 9 fev. 2021. ROSA, F. R. Aprendizagem móvel no Brasil: gestão e implementação das políticas atuais e perspectivas futuras. São Paulo: Zinnerama, 2015. SALOMÃO, K. De desempregado a bilionário: a vida do CEO do Airbnb. Exame, 20 out. 2017. Disponível em: https://exame.com/negocios/de-desempregado-a-bilionario-a-vida- do-ceo-do-airbnb/. Acesso em: 9 fev. 2021. http://basenacionalcomum.mec.gov.br/images/BNCC_EI_EF_110518_versaofinal_site.pdf http://basenacionalcomum.mec.gov.br/images/BNCC_EI_EF_110518_versaofinal_site.pdf https://administradores.com.br/artigos/mindset-o-que-e-e-como-ele-determina-os-resultados-da-sua-vida https://administradores.com.br/artigos/mindset-o-que-e-e-como-ele-determina-os-resultados-da-sua-vida https://desafiosdaeducacao.grupoa.com.br/pisa-2018-educacao-brasil/ https://desafiosdaeducacao.grupoa.com.br/pisa-2018-educacao-brasil/ https://exame.com/negocios/de-desempregado-a-bilionario-a-vida-do-ceo-do-airbnb/ https://exame.com/negocios/de-desempregado-a-bilionario-a-vida-do-ceo-do-airbnb/ Planejamento e uso criativo de ferramentas digitais 53 3 Planejamento e uso criativo de ferramentas digitais A professora Gisele planejava uma aula significativa sobre as di- ferentes estações do ano. Consultando alguns materiais didáticos, encontrou dificuldades pois percebeu que eles indicavam que ela deveria incluir informações sobre trajes adequados às diferentes estações climáticas. Estava posto o problema: Gisele e seus alunos moram no Nordeste brasileiro, região em que mesmo no inverno faz calor de 26 a 30 graus, e dessa forma certamente os trajes uti- lizados pelas pessoas não se assemelhavam aos propostos pelo material didático disponível. O inverno quente no Nordeste foi a oportunidade para que os alunos pesquisassem sobre as estações climáticas e, compartilhan- do os resultados, pudessem analisar e descobrir que, no Brasil, as di- ferentes estações do ano não são claramente percebidas em todas as regiões (variando até mesmo entre estados da mesma região). A professora publicou um texto em suas redes sociais e no ou- tro lado do país, morando na região Sul, a professora Carla pela primeira vez pensou que precisava explicar aos seus alunos a di- ferença de temperatura presente no Brasil. Assim, um conteúdo tão simples foi sendo tomado pelo viés da pesquisa e da reflexão, primeiro porque houve um questionamento por parte de uma professora e depois, com a ajuda das tecnologias, houve a possibi- lidade de que essa nova percepção alcançasse outras realidades. Quer repensar algumas práticas? Então vem com a gente na direção da reflexão sobre curadoria de conteúdo e propostas me- todológicas ativas e colaborativas. 54 Novos paradigmas educacionais 3.1 Curadoria de conteúdo Vídeo Você consegue imaginar algum assunto que não esteja incluído num site de pesquisa, especialmente no maior de todos, o Google? É tão difí- cil encontrar isso que a expressão “dar um google” já se tornou popular quando desejamos saber mais sobre qualquer assunto, correto? Agora imagine que você precise fazer uma lista manual de tudo o que já pesquisou nos sites de busca. Que tamanho ela teria? Não é preciso ser muito bom em adivinhação para dizer que esse seria um trabalho que demandaria muita energia e tempo e resultaria numa lis- ta imensa, pois provavelmente, como nativo digital, você já fez as mais variadas pesquisas no Google. Mas poderíamos propor que você categorizasse as suas buscas; por exemplo, você já pesquisou sobre: receitas de comidas, modelos de plano de aula, terapias alternativas, locais para viagens em famí- lia. Assim, embora a lista ainda continue muito grande, já é possível fazer uma prévia de quanto conteúdo nos cerca, não é? E princi- palmente quais são os conteúdos de seu interesse. Então, vamos ampliar o assunto para o tema principal da discussão: estamos cer- cados de conteúdo e de informação por todos os lados, e as tecno- logias digitais ajudaram a tornar isso cada vez mais evidente, seja em sites específicos de geração de conteúdo, seja em publicidade e propaganda, ou em jogos; em qualquer lugar que se procure no mundo virtual há uma informação ou um conteúdo (ou mais, simul- taneamente) sendo divulgado. Voltando um passo na reflexão, para antes das tecnologias digitais, a bem da verdade, é preciso considerar que sempre estivemos cercados de conteúdo e de informação, desde as conversas com idosos, que nos povoavam a mente com reflexões da vida da época deles, e as histórias dos mais variados assuntos nos livros e nos filmes, até em cadernos de receita familiares, que passaram de geração em geração e ainda trazem um gostinho de infância quando os pratos são preparados. Os conteú- dos e as informações sempre estiveram em nosso entorno. Mas hoje é diferente. O que mudou? Sem dúvida a velocidade com que as informações e o conteúdo são propagados e a quantidade dis- ponível, sem contar a facilidade de conseguir acesso aos mais variados assuntos e temas. Veja só: é possível aprender pratos de culinária de O Google processa mais de 40 mil consultas de pesquisa a cada segundo, o que significa que há mais de 3,5 bilhões de pesquisas sendo feitas por dia e 1,2 trilhão de pesquisas por ano em todo o mundo. Apenas para você entender o crescimento da plataforma, em setembro de 1998, quando foi criado, o Google processava 10 mil consultas por dia. Em 2006, esse número era processado em um único segundo. Curiosidade Os conteúdos que nos cercam no mundo digital não estão disponíveis apenas em sites de busca como o Google. Eles tam- bém estão presentes nas redes sociais, por exem- plo, Facebook, Instagram, Pinterest, Snapchat (para citar só alguns). O documentário O dilema das redes sociais propõe uma reflexão sobre o uso desses recursos e o quanto podemos estar expostos com seu uso desmedido. Imperdível, é um documentário que inspira reflexão sobre o tema. Direção: Jeff Orlowski. Estados Unidos: Exposure Labs; Argent Pictures; The Space Program, 2020. Documentário Planejamento e uso criativo de ferramentas digitais 55 chefes de cozinha apenas acessando as receitas, que vêm também com vídeos que explicam como fazê-las. É possível aprender a consertar sua máquina de lavar (com alguma habilidade, é verdade), e somente assis- tindo aos vídeos de pessoas comuns é capaz de aprender técnicas de decoração e maneiras de mudar ambientes em sua própria casa. Abso- lutamente tudo se encontra on-line, bem explicado e fácil de achar. Assim, graças à disseminação propagada pelas tecnologias digitais da informação e da comunicação (TDICs), temos hoje disponíveis uma infinidade de informações sobre tudo que se pensar. Se a quantidade de assuntos e de informações disponíveis modifi- ca nosso modo de viver, é natural que mude também nosso modo de educar. Por isso, afirmamos que essa quantidade de informações e de conteúdos disponíveis on-line não passou ilesa à escola, ao contrário, afetou sensivelmente o ambiente escolar. De certa forma, essa possi- bilidade de saber sobre qualquer assunto e em qualquer tempo – bas- tando ter acesso à internet – retirou da escola a posição de detentora das informações e, com isso, gerou certa reestruturação no formato das aulas. Em alguns casos, a escola “briga” com a tecnologia, tentando ignorar seu poder e suas possibilidades, mas nas instituições que já entenderam que não é possível educar sem tecnologia, esta permitiu avanços e questionamentos. Sem entrarmos aqui no mérito da qualidade de todas as informa- ções disponíveis e atentando para o fato de que há a necessária media- ção dos professores para o bom uso das tecnologias na escola, o que pretendemos destacar é que diante de tanta informação disponível a escola e os sistemas de ensino precisaram repensar suas escolhas de conteúdos, além, é claro, da forma como os disponibilizarãoa seus alu- nos, tendo o tempo destinado a essas ações e a profundidade do ensi- no como base para essa função. É importante destacarmos que a decisão das aprendizagens que os alunos devem desenvolver nas escolas e nos sistemas de ensino é de- terminada pela Base Nacional Comum Curricular – BNCC (BRASIL, 2018). Ela é um documento normativo que define o conjunto de aprendiza- gens essenciais que todos os alunos devem desenvolver ao longo da educação básica. Observe que a BNCC não é um currículo único para todos os estados do país, e sim um conjunto de referências e normas para que cada estado, escola ou sistema de ensino crie seu currículo. Para prender a atenção dos alunos no mundo contemporâneo, é preci- so uma escola inovadora em metodologias que incluam tecnologias que tornem o ensino cada vez mais atual e moder- no. O texto Entenda a importância da tecnologia na educação atual elenca alguns benefícios que a tecnologia pode disponi- bilizar para a educação nos dias de hoje. É uma leitura rápida e esclare- cedora. Disponível em: https://catracalivre. com.br/educacao/entenda-a- importancia-da-tecnologia-na- educacao-atual/. Acesso em: 9 fev. 2021. Leitura https://catracalivre.com.br/educacao/entenda-a-importancia-da-tecnologia-na-educacao-atual https://catracalivre.com.br/educacao/entenda-a-importancia-da-tecnologia-na-educacao-atual https://catracalivre.com.br/educacao/entenda-a-importancia-da-tecnologia-na-educacao-atual https://catracalivre.com.br/educacao/entenda-a-importancia-da-tecnologia-na-educacao-atual 56 Novos paradigmas educacionais A Base estabelece conhecimentos, competências e habilidades que se espera que todos os estudantes desenvolvam ao longo da escolaridade básica. Orientada pelos princípios éticos, políticos e estéticos traçados pelas Diretrizes Curriculares Nacionais da Educação Básica, a BNCC soma-se aos propósitos que direcionam a educação bra- sileira para a formação humana integral e para a construção de uma sociedade justa, democrática e inclusiva. Dessa forma, mesmo com um documento com referências com- pletas sobre as competências necessárias para a construção de sabe- res na educação básica, sobra muito espaço para as escolas trazerem conteúdos e metodologias de interesse dos alunos que possibilitem ensino com significado e, assim, com melhor qualidade. E é isto que diferenciará uma escola da outra: o que ela fará a mais, o que trará com mais profundidade, os formatos diferentes de ensino e a escolha significativa de conteúdo. Neste momento entra a importância da curadoria de conteúdo, cujo conceito precisa ser bem entendido: “a palavra curadoria tem origem epistemológica na expressão que vem do latim curator, que significa tutor, ou seja, aquele que tem uma administração a seu cuidado, sob sua responsabilidade” (MARTINS, 2006, p. 4). O ato de curar aqui explorado está ligado ao cuidado, à atenção e à responsabilidade. Abra o pensamento, não estamos falando de curar como algo que foi machucado ou ofendido e precisa de cura, mas de outro aspecto da palavra curar, que envolve cuidado, atenção e esco- lha. Nesse caso, pense, por exemplo, num curador de obras de arte, que em linhas gerais é quem seleciona as obras e organiza uma mostra de algum artista ou de uma galeria de arte. Ou um curador das músi- cas de alguma novela ou série que está sendo transmitida: aquele que escolherá quais músicas farão parte do repertório, qual agradará mais, qual combina com a personagem em questão. Não são escolhas alea- tórias, tal profissional precisa conhecer o artista que vai representar para escolher as suas obras, compreender o perfil do público, além de entender da própria organização do material disponível. Esse é o cura- dor de conteúdo. É sob esse ponto de vista que propomos o conceito de curadoria de conteúdo na escola, a chamada curadoria educacional. Caberá ao Para conhecer o texto da BNCC, acesse o site a seguir. Disponível em: http:// basenacionalcomum.mec.gov.br/. Acesso em: 9 fev. 2021. Site http://basenacionalcomum.mec.gov.br/ http://basenacionalcomum.mec.gov.br/ Planejamento e uso criativo de ferramentas digitais 57 professor, junto à equipe pedagógica, a escolha dos conteúdos a serem trabalhados nas salas de aula, obviamente, como já destacamos, levan- do em consideração os preceitos legais, no caso, respeitando a BNCC. Essa escolha de conteúdo pressupõe o conhecimento do interesse dos alunos, o tempo destinado a cada conteúdo trabalhado, a relação de conteúdo com as aprendizagens diversas dos alunos e, principalmente, a dedicação, o critério e o conhecimento para trazer aos alunos con- teúdos significativos e atuais que não só transmitam informações, mas também possam gerar reflexão. As reflexões caminham em direção às seguintes questões: o que pode ser interessante a este grupo? Por que escolher este ou aquele conteúdo? Qual é o perfil do público que de- sejo atingir? E quais projetos posso elaborar para tornar significativa a aprendizagem de meus alunos? Essas são perguntas que devem nor- tear o trabalho. A curadoria de conteúdo pode parecer simples, mas precisa ser en- carada como um trabalho muito sério. Considere que a facilidade de acesso a uma quantidade imensa de conteúdo e de informações e a velocidade com que isso é feito poderão ter como resposta alunos (e professores) perdidos no meio de tanta informação. Uma coisa é certa: não há como conceber uma educação moderna, hoje em dia, que não esteja conectada à realidade tecnológica. Assim, as redes sociais, os sites de busca e os aplicativos fornecerão aos alu- nos muito mais informação do que qualquer professor possa pensar. Como lidar com tudo isso? Como evitar que a grande quantidade de informação disposta na internet não acabe causando mais confusão do que educação? O montante de informações disponíveis requererá do professor um trabalho de curadoria. Fará diferença a forma com que ele escolherá potencializar suas aulas: os recursos, as imagens, as experiências pro- postas e disponibilizadas; aquilo que trará ao aluno condições de refle- tir, de pensar, de formar um conhecimento sólido – mais crítico –, o que se transformará em uma experiência de aprendizagem. É preciso considerar que fazer o aluno refletir, experienciar, pensar e seguir linhas de seu interesse não é, por assim dizer, novidade nos preceitos educacionais. A proposta educativa da escola nova já preconi- zava a importância da experiência do aluno em sobreposição à simples fala do professor nas aulas tradicionais. Naquele contexto, destacava- 58 Novos paradigmas educacionais -se que as palavras do educador nunca seriam maiores que as expe- riências do educando frente àquilo que se busca conhecer. Os tempos mudaram, outras propostas pedagógicas foram surgindo, mas a ideia de que o aluno precisa aprender sendo sujeito de sua aprendizagem permanece e pode encontrar seu lugar com o uso das tecnologias no ambiente escolar. Há um passo importante a ser dado no sentido de educar com tecnologias: a superação do simples consumo de informação para a transformação obtida com a aprendizagem. Esta precisa ter sen- tido, e o papel dos professores cada vez mais se direciona para ajudar seu aluno a construir sua autoria, sua criticidade, não só a consumir informações. Existe um outro ponto que merece destaque na reflexão sobre as informações disponíveis por meio dos recursos tecnológicos. Os alunos – assim como as outras pessoas da comunidade escolar – não serão meros expectadores, nem apenas consumidores das informações/con- teúdos; eles serão também produtores de conteúdo, uma vez que as tecnologias oferecem cada vez mais essa possibilidade. Os alunos pro- duzem lives, vídeos, são youtubers, portanto, ao fazer sua curadoria, o professor precisa incluir espaços de criação. Lembre-se de que, atual- mente, qualquer pessoa com um smartphone em mãos pode produ- zir conteúdo e ressignificar informações. A ideia é ensinar ou explorar esse conhecimento doaluno para aprendizagens e reflexões positivas que possam de fato suscitar aprendizagens. Quando faz uma curadoria de conteúdo, o professor é capaz de agregar novas e inusitadas perspectivas à informação, ofere- cendo a seus alunos a surpresa, o inesperado ou aquilo que eles nem imaginariam existir no mundo: a ampliação de sua realidade (SOUZA; VIEIRA, 2016). Isso fará nascer possibilidades de compreen- sões de mundo que levarão à criticidade e à reflexão e, em conse- quência, a cidadãos mais engajados, seres pensantes, não apenas consumidores desenfreados. Essa curadoria é realmente uma escolha. Talvez seja melhor dizer “A” escolha, enfatizando a importância desta. Trata-se de o professor escolher como serão as aulas, como será o caminho da aprendizagem de cada conteúdo, como serão as atividades propostas e como a tecno- logia potencializará a educação. Planejamento e uso criativo de ferramentas digitais 59 Mas isso não é o que o professor já faz? Não é o planejamento? Talvez você pense que essa escolha já é feita, que há uma curado- ria de informações e conteúdos quando o professor planeja uma aula, pois ele escolhe as informações que disponibilizará aos alunos e a forma como trabalhará cada conteúdo. Esse pensamento está correto; o professor faz uma curadoria quando planeja. O que está se propondo aqui é a curadoria de conteúdo aliada à potência dos recursos digitais. Nesse caso, a noção de aula é ampliada: de apenas um encontro para transmissão de conteúdo, para uma experiência diferenciada que envolve a pesquisa do professor, a prévia seleção de materiais e, se preciso, certa adaptação do que será ofertado e principalmente a ação do aluno (LOPES; SOMMER; SCHMIDT, 2014). A curadoria de conteúdos propõe um desafio e novas possibilida- des ao professor. Estamos vivenciando a era digital, já percebemos que o digital é parte importante e relevante da aprendizagem hu- mana, seja ela formal ou não formal. Então, é hora de escolhermos propostas interessantes de educação que envolvam essa tecnologia e suas milhares possibilidades. É hora de envolvermos a participa- ção e a interatividade dos alunos em projetos de comunicação que gerarão interesse, farão as aulas serem mais criativas, interessantes e com muito maior chance de gerar aprendizagens reais, explorando as competências digitais dos alunos. Fazer o trabalho de curadoria educacional é considerar trabalhar com projetos que se ampliam pela pesquisa, otimizados pela media- ção tecnológica. Isso exigirá dos professores inovação, não apenas no discurso, mas na prática pedagógica (GARCIA; CZESZAK, 2020). É preciso refletir que para alguns professores isso é desafiador, realmente, e difícil. Sim, é difícil trabalhar com o que não estamos acostumados, com o que não dominamos ou conhecemos na pro- fundidade. Muitos de nós, professores, nascemos quando não havia celular, não havia grupo de mensagens, nem a possibilidade de pes- quisar na internet. Nossas pesquisas foram feitas em livros grossos nas bibliotecas das escolas ou em casa nas enciclopédias com mui- tos volumes que as famílias compravam e ostentavam na sala. O saber que conhecíamos estava escrito ali, as informações que rece- bíamos eram repassadas por jornal ou rádio (sim, alguns nasceram 60 Novos paradigmas educacionais antes da televisão). Logo, pode ser difícil para alguns de nós traba- lhar com tecnologias digitais e é compreensível que seja. A questão é que é necessário. Diante disso, o que fazer? Sem dúvida, encarar a modernidade. Quando uma pessoa escolhe ser professor, sabe da necessidade in- trínseca de formação e de atualização constante. Entende que preci- sará pesquisar e adequar suas propostas educativas à geração que pretende educar. E é isso que a curadoria de conteúdo e a potencia- lidade da educação digital oportunizarão. 3.2 Criatividade no uso das tecnologias na escola Vídeo Falar em criatividade no ambiente educacional não é somente tratar de aulas divertidas. É considerar, especialmente, aulas que têm como proposta ensinar ao mesmo tempo em que retiram o alu- no da posição de passividade. Observe que a palavra criatividade é uma junção de duas ideias: criar e atividade. Isso já deve fornecer ao professor pistas de como deve ser o trabalho educativo: envolvendo criação e ação. Mas quem deve ser o protagonista destas? É aí que impera a diferença. Por muito tempo na escola o prota- gonista da aula foi o professor. No caso dos professores de crian- ças da educação básica, isso foi mais relevante ainda: o professor explicava, levava material para o aluno colorir, recortar ou após a sua explanação solicitava um registro no caderno, mas sob todos os pon- tos de vista era o professor quem dominava a aula. Cabia aos alunos somente ouvir e reproduzir o que o professor pedia. Mas a concepção dessa aula mudou. O papel de protagonista está cada vez mais sendo ofertado ao aluno, de maneira que ele possa ser desafiado, buscar respostas, construir seu conhecimento. É para esta direção que apontam as pesquisas e os estudos mais moder- nos: o aluno precisa ser protagonista de sua própria aprendizagem. Mas isso não significa que o papel do professor foi ou será extinto. O papel do professor é importantíssimo, pois é ele quem ofertará as experiências para que a aprendizagem do aluno aconteça. O pro- fessor é o mediador do conhecimento do aluno. O uso de recursos tecnológicos na escola precisa tirar o professor da função de protagonista da aula e deixar o aluno descobrir, pesquisar e ser sujeito da sua própria aprendizagem. Atenção Planejamento e uso criativo de ferramentas digitais 61 Cabe, portanto, ao professor ser criativo na escolha dos recursos para ensinar, na oferta de propostas pedagógicas e na curadoria de conteúdo. As aulas precisam ser criativas e interessantes. Lembre-se: criar em atividade. As propostas educativas precisam esquecer a ideia de alunos apenas ouvindo o professor ou assistindo a aulas expositi- vas; eles precisam participar. Crianças aprendem em movimento. E não se trata somente de movimento físico, embora este também seja muito importante, mas o movimento mental de procurar, questionar, refletir, pensar sobre de- terminado assunto, elaborar estratégias, levantar hipóteses. O aluno passivo tem menos chances de aprender do que aquele que está em movimento – realizando tarefas, buscando informações, analisando pontos de vistas diferentes. Entendemos que o uso das tecnologias da informação e comunica- ção é uma das melhores formas de fazer com que a criatividade seja exercitada. As ferramentas digitais podem trazer grande vantagem às aulas porque fazem com que o aluno seja instigado a buscar, a pes- quisar, a saber mais. E por serem atraentes aos alunos, trazem mais possibilidades de interesse e desafios aos que aprendem. É necessário pontuarmos que as tecnologias digitais da informação e da comunicação, as chamadas ferramentas digitais, devem ser aliadas da educação presencial. Precisamos lembrar que a educação de crian- ças não foi feita para ser a distância ou virtual, ao contrário, ela requer proximidade, afeto, toque, presença real. Mas é primordial considerar que a força das tecnologias é tão intensa na sociedade que a escola necessita adaptar algumas de suas propostas e inserir tais tecnologias como parte de seu processo educativo. O digital está presente em to- dos os aspectos da vida humana, não há como ignorá-lo. Na escola da educação básica, ensinar e aprender sem o digital é como privar os estudantes de ricas oportunidades de vivências importantes que farão diferença em sua vida pessoal, profissional (no caso dos alunos do en- sino médio) e social (MORAN, 2020). A experiência vivida no Brasil a partir de março de 2020 requereu dos professores de crianças muito estudo e dedicação. Rapidamen- te as escolas de todo o país foram fechando suas portas, pois com a periculosidade da Covid-19 não se podia permitir mais o contato entre as pessoas. 62 Novossem saber que seu estudo não apenas questionou o paradigma vigente, mas também serviu de base para diversos outros estudos e, com isso, para o avanço da ciência. Certamente você reconhece que estamos falando de Galileu Galilei, físico italiano cujos estudos revolucionaram o que se co- nhecia sobre astronomia e física. A história de Galileu ilustra nosso raciocínio sobre mudanças de pensamento necessárias e nos re- mete às dificuldades encontradas para fazê-lo. Assim também ocorre no campo educacional, em que desafios estão constantemente surgindo, fazendo com que professores e equipes pedagógicas constantemente repensem seus propósitos e sua conduta. A dificuldade e o desafio de repensar e a necessidade de flexibilidade na atuação docente serão os temas tratados ao longo deste capítulo. 10 Novos paradigmas educacionais 1.1 Paradigmas educacionais da contemporaneidade Vídeo Ao longo de sua história, a educação adotou vários formatos, de- pendendo da época e das ideias vigentes. Convidamos você a relem- brar a educação pelo debate de ideias, defendida pelo filósofo grego Sócrates (470-399 a.C.), em que o diálogo era pano de fundo para que as pessoas, de modo geral, pensassem por si mesmas e sobre si mesmas. Considere na sua lembrança que Sócrates tinha um método diferenciado de ensinar, que pregava a reflexão oral sobre os temas, especialmente sobre aqueles de natureza humana. Quando era ques- tionado por seus discípulos, respondia às dúvidas com outras pergun- tas, que, segundo ele, faziam seus alunos pensarem sobre o assunto discutido e encontrarem suas próprias respostas. Sócrates acreditava que a educação deveria despertar nas pessoas um repensar de suas próprias ideias, no intuito de que somente o conhecimento interior poderia levar à construção de conceitos (FRAZÃO, 2019). Como não deixou nenhum texto escrito, suas ideias foram difundidas pelos seus mais conhecidos discípulos, Platão e posteriormente Aristóteles, que mesmo nascendo 15 anos após o falecimento de Sócrates, foi um im- portante estudioso da obra deste. Num salto histórico, há o grande período em que os jesuítas im- primiram no mundo sua forma de educar, tendo como argumento e modelo principal a formação moral e religiosa atrelada à educacional. A Companhia de Jesus, ordem religiosa fundada em 1534, destacava que a religião deveria ser um dos pilares de toda a instrução jesuítica, como destacado no documento Ratio Studiorum, cuja primeira edição data de 1599. O Ratio Studiorum foi escrito como um conjunto de nor- mas para regulamentar o ensino dos colégios jesuítas no mundo. Nele, os preceitos da educação jesuíta foram defendidos e explicados em 467 regras (TOYSHIMA; MONTAGNOLI; COSTA, 2012). Observe que os jesuítas foram considerados arrojados em sua pro- posta educativa no Ratio Studiorum, pois defendiam a ideia de que era necessário elogiar e incentivar as produções dos alunos, em detrimen- to dos castigos físicos permitidos na época. Não que eles tivessem de fato eliminado todo castigo (a palmatória era utilizada), mas a inovação estava realmente na ideia do incentivo, da premiação dos melhores Propósito educativo e desafios cotidianos 11 alunos e de sua dedicação. Você pode estar pensando que hoje obvia- mente se entende como melhor a ideia de incentivar os alunos no lugar de castigá-los por não corresponderem ao que se espera, mas volte no tempo em que essas ideias foram propostas, 1599, e aí sim essas palavras terão outro peso. Para saber mais sobre o documento com os preceitos da educação jesuítica, acesse o artigo de Ana Maria da Silva Toyshima e Célio Juvenal Costa intitu- lado O Ratio Studiorum e seus preceitos pedagógicos, apresentado e publicado no Seminário de Pesquisa do Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade Estadual de Maringá. Acesso em: 9 fev. 2021. http://www.ppe.uem.br/publicacoes/seminario_ppe_2012/trabalhos/co_05/104.pdf Artigo Ao trazer à tona dois modelos de educação ao longo da história – sendo o primeiro de Sócrates, que defendia o método oral da reflexão, e o segundo dos jesuítas, focado na instrução atrelada à religiosidade –, não se pretende apenas uma pequena retrospectiva histórica, mas sim destacar a você a importância da compreensão de que nos diferentes períodos históricos houve diferentes formatos de educação. A escolha de um formato de educação destinado a uma sociedade depende em grande parte dos valores que são comungados por ela, do acesso à informação e do que aquela sociedade “pensa”. Assim, ressaltamos que em tempos diferentes a educação apresentou dife- rentes formatos e, da mesma forma, soluções diferentes para seus problemas. Vamos, portanto, evidenciar que há diferentes formatos de educação, considerando aqui que a educação é diferente em cada tempo histórico e que esses modelos são influenciados – e em alguns casos criados – pela sociedade da época. Também deve ficar nítido que não é só a época que define o formato da educação: ele também é definido pelo acesso às informações, pela atualização profissional e pela percepção da necessidade de mudança. Essa relação entre época, valores praticados e acesso à informação precisa ser compreendida para que possamos avançar na definição do que estamos chamando aqui de paradigmas educacionais. Tome como exemplo a instrução formal das mulheres no Brasil. No período colonial, a educação feminina era totalmente realizada no lar e voltada às atividades domésticas, porque se acreditava que a função http://www.ppe.uem.br/publicacoes/seminario_ppe_2012/trabalhos/co_05/104.pdf 12 Novos paradigmas educacionais das mulheres era cuidar bem do seu lar e posteriormente de sua fa- mília. Somente a partir do século XIX as mulheres abastadas puderam frequentar colégios, para que pudessem aprender a se comportar na sociedade e respeitar o outro, em especial o seu companheiro, po- rém não estudavam nenhuma disciplina que envolvesse cálculo; essas eram destinadas somente aos homens. Perceba a ideia implícita da mulher como alguém com capacidade inferior ao homem. Somente em 1880 foram instauradas escolas para formar professoras (novamente apenas mulheres oriundas de classe social abastada), e outra vez a ideologia restringia à mulher somente tarefas de cuidados das crian- ças pequenas, seja em casa ou na escola (RIBEIRO, 2000). As mulheres também não tiveram acesso a cursos superiores ou a qualquer ativi- dade relacionada à política até fins do século XIX (STAMATTO, 2002), e, em pleno século XXI, você certamente continua escutando nas pro- pagandas eleitorais frases sobre a importância das mulheres na polí- tica, o que demonstra que ainda há muito a conquistar e consolidar sobre essa questão. Obviamente há uma história de emancipação das mulheres em nos- so país que merece ser destacada, mas é relevante relembrar o peso desse paradigma de inferioridade, que faz com que algumas pessoas considerem que apenas cabe às mulheres (não por escolha própria, porque nesse caso não seria um problema) a tarefa de cuidar da família e da casa ou, quando estudadas, de lecionar. Desafiamos você com algumas perguntas: quantas mulheres engenhei- ras você conhece? Quantas meninas que desejam ser engenheiras que você conhece relatam ter o apoio e incentivo dos pais ou familiares? Não se trata aqui de colocar em posição melhor os cursos de engenharia em relação aos de licenciatura, claro. Trata-se do desafio de quebrar as ideias ainda vigentes na sociedade de que profissões envolvendo cálculo não são adequadas para mulheres; ideias essas que impedem muitas pessoas de olhar para as mulheres como igualmente capazes em relação aos homens e, claro, eficientes nas atividades que envolvam cálculos matemáticos. Com o avançar dos séculos e estudos, muita coisa mudou na reali- dade feminina, mas a luta das mulheres para que suas escolhas profis- sionais possam ser equiparadas as dos homens ainda é grande. Nos tempos atuais há muitos modelos de educação, e eles tambémparadigmas educacionais Sistemas de ensino precisaram se organizar para dar aulas virtuais transmitidas para os alunos por meio de plataformas on-line – algumas ao vivo, outras disponibilizadas por gravações. E esse entendimento não foi fácil de aceitar. De uma hora para outra, professores do país todo tiveram que aprender a lidar com ferramentas digitais, com au- las planejadas de modo diferenciado, compreendendo que a educação precisava deles e eles não podiam abandonar os alunos. Seguramente a ideia de realizar aulas remotas para crianças da edu- cação básica não seria a proposta adequada em condições normais. Mas a situação vivida – no mundo, é preciso pontuar – não foi um con- texto normal, e sim totalmente atípico, que precisava de ações rápidas e diferenciadas. O que poderia ser pior: ministrar aulas em que as crianças estariam de certa forma em contato com sua escola e seus colegas, ou simples- mente deixá-las em quarentena, sem contato com o mundo escolar? Com certeza, e muitos especialistas da educação concordaram, as au- las remotas foram a melhor forma encontrada para dar às crianças uma oportunidade de convívio, mesmo que a distância, com aquilo que era parte da vida delas, da sua segurança: sua escola, seus professores, seus colegas. Obviamente as mudanças trazidas por esse novo modelo de ensino impactaram todos os envolvidos: profissionais da educação, estudan- tes e famílias. A pandemia da Covid-19 criou necessidades escolares que sequer seriam imagináveis em situação normal. Mas era preciso e assim foi. O que ficou disso tudo? O que aprendemos? Uma situação inusitada se instalou em algumas escolas: na educação antes da pan- demia, professores impediam o uso dos celulares em sala de aula, e com a pandemia esses aparelhos se tornaram aliados, pois, para mui- tos brasileiros, foi a única forma de assistir às aulas. E agora? Voltamos às aulas e ignoramos tudo isso? Cremos que esse não é o caminho. Por mais árduo que tenha sido o trabalho com a tecnologia, ele se impôs e nos mostrou novas possibilidades. Uma reflexão precisa ser feita: evidentemente muitas crianças fi- caram sem acesso às aulas por ausência de internet e de ferramentas apropriadas. Não se pretende aqui discutir sobre isso por não ser o assunto da seção, mas é importante ter em mente que há uma necessi- dade de melhorar a infraestrutura brasileira nesse sentido. Planejamento e uso criativo de ferramentas digitais 63 Uma coisa é certa: a escola nunca mais será a mesma depois dessa pandemia. E isso pode ser bom! Quando perdemos os pilares da edu- cação que conhecíamos, precisáramos criar outros e é nessa recriação dos pilares que inserimos a tecnologia na escola com ferramenta para a produção do conhecimento. É preciso fundir tecnologias a outros meios e processos de ensino-aprendizagem. As propostas que envolvem a educação com o uso de tecnologias digitais não devem florescer em detrimento de prá- ticas presencias que envolvem afeto, toque e presencialidade; é neces- sário considerar que as TDICs vieram para somar e modernizar, não para substituir. Se sozinhas não conseguem mudar a escola, podem fazer maravilhas se conectadas a um projeto educativo competente. Então é uma oportunidade única para recriar a escola, não voltar simplesmente às práticas que careciam de atualização. Sem dúvida o fator novidade da tecnologia é relevante, mas se isso não acarretar numa melhora da aprendizagem, de nada servirá. Não é a tecnologia por ela mesma, é o uso tecnológico a serviço de um planejamento edu- cacional e, nesse contexto, é preciso criar oportunidades de estudo, de crescimento, de aprendizagem para formar sujeitos antenados a seu tempo, com opinião, responsabilidade e ética. Você certamente fez alguma pesquisa quando era aluno em sala de aula, então acom- panhe este exemplo: na década de 1980, uma professora pediu para crianças de uma sala de 23 alunos do terceiro ano do ensino fundamental fazerem uma pesquisa sobre Dom Pedro II. Como as pesquisas eram feitas nos mesmos livros que estavam na bi- blioteca, grande parte (para não dizer todas) das crianças copiaram o mesmo texto. O trabalho foi entregue copiado na folha de papel almaço, com capa, da forma que a professora pediu. Ninguém aprendeu nada com isso, e a professora teve um trabalhão para corrigir 23 trabalhos iguais. Naquele contexto, pesquisar era coletar informações prontas. Mas como essa atividade poderia ser feita hoje em dia? Vamos propor essa atividade de modo diferente? O que exatamente a professora gos- taria que os alunos aprendessem sobre D. Pedro II? Que tal dividir a sala em grupos e cada um deles pesquisar sobre um aspecto do tema? Por exemplo, um grupo pesquisará curiosidades sobre a vida do príncipe, outro grupo sobre a vida pessoal dele, outro so- bre o contexto político que se formou quando do seu reinado, mais um grupo poderia pesquisar sobre hábitos da realeza, sobre alimentação da época. Há muita informação disponível na internet e cada uma delas fará os alunos entenderem o contexto da época. (Continua) Para re�etir Um panorama dos sentimentos vividos pelos professores pode ser conhecido na pesquisa Educação, Docência e a COVID-19, que explorou com os professores do Estado de São Paulo como eles se sentiam com relação a desafio, aprendizado e inova- ção no que se refere à educação mediada por tecnologia. Disponível em: http://www.iea.usp. br/pesquisa/projetos-institucionais/ usp-cidades-globais/pesquisa- educacao-docencia-e-a-covid-19. Acesso em: 9 fev. 2021. Leitura http://www.iea.usp.br/pesquisa/projetos-institucionais/usp-cidades-globais/pesquisa-educacao-docencia-e-a-covid-19 http://www.iea.usp.br/pesquisa/projetos-institucionais/usp-cidades-globais/pesquisa-educacao-docencia-e-a-covid-19 http://www.iea.usp.br/pesquisa/projetos-institucionais/usp-cidades-globais/pesquisa-educacao-docencia-e-a-covid-19 http://www.iea.usp.br/pesquisa/projetos-institucionais/usp-cidades-globais/pesquisa-educacao-docencia-e-a-covid-19 64 Novos paradigmas educacionais Após a pesquisa, pode-se proporcionar uma interação dos grupos para que cada um conte aos demais o que encontrou. Uma pequena reunião que gerará perguntas ou con- siderações que posteriormente serão colocadas para todos os alunos num seminário. Por exemplo: sabiam que a cidade de Petrópolis tem esse nome em homenagem a ele? E muitas curiosidades que serão percebidas nas pesquisas. Os resultados das pesquisas poderão fazer surgir comparações e análises, diferenciando o tempo antigo do atual, ou comparar se ainda há monarquias no mundo atualmente. Enfim, um projeto abre portas para muitos outros. Ao pedir que cada grupo pesquise sobre um aspecto do que se pretende estudar, a professora não receberá uma série de trabalhos iguais, possibilitará o uso de recursos tecnológicos, ensinará os alunos a lidarem com muitas informações e proporcionará que eles se empenhem e se movimentem em direção ao conhecimento, seja este o da sua pesquisa, ou o da pesquisa dos outros grupos. Mas que ferramentas podem ser utilizadas na intenção de educar crianças com tecnologia? Vamos a algumas sugestões: 1. AVA: é a sigla para Ambiente Virtual de Aprendizagem, um espaço virtual em que é possível disponibilizar conteúdos, propostas educativas, jogos, videoaulas. O AVA é o ambiente em que o aluno vai “entrar” com seu login e sua senha. Ele é preparado pelos professores e pela equipe da escola de acordo com as necessidades. Para a educação de crianças, pode funcionar como recurso para revisão e fixação de conteúdo visto em sala de aula. Para isso, deve compor seu espaço com videoaulas, exercícios ou fóruns. O AVA precisa de ferramentas que promovam a interação dos alunos entre si e com os professores; não dá para deixar a criança solta no ambiente, é preciso indicar o que ela deve fazer e estar disponível para conversar. Por exemplo: estão estudando um determinado autor? Que tal disponibilizar o vídeo de uma entrevista com esseautor no AVA? Assim, as crianças podem conhecer mais sobre ele, ouvindo suas ideias e conhecendo sua pessoa. 2. Microlearning: é uma metodologia da educação que facilita o processo de aprendizagem em doses pequenas de maneira objetiva e direta. Em geral, separa o conhecimento em pequenas lições, com duração entre 2 e 5 minutos, sintetizando a informação. Claro que não dá para esperar que os vídeos curtos cumpram uma missão completa de ensino em termos de competência. Mas são parte de um trabalho maior. O professor pode elaborar um conteúdo macro que pode ser fragmentado em microvídeos O Ministério da Educação tem um Ambiente Virtual de Aprendizagem com muitas opções de cursos gratuitos para a formação continuada de professo- res, inclusive alguns que tratam do uso da tecnolo- gia em sala de aula. Para cursar e conhecer mais acesse o link a seguir. Disponível em: https://avamec.mec. gov.br/#/. Acesso em: 8 fev. 2021. Site https://avamec.mec.gov.br/#/ https://avamec.mec.gov.br/#/ Planejamento e uso criativo de ferramentas digitais 65 ou tarefas complementares. Uma sugestão de atividade é pedir aos alunos um determinado trabalho – lembre-se de não pedir a mesma coisa para todos os alunos, mas sim aspectos diferentes de um mesmo assunto – e fazer um seminário on-line, em que os alunos gravarão pequenos vídeos de apresentação dos trabalhos. Esses vídeos podem ser postados no AVA da escola, ou enviados por meio de um grupo de aplicativo de mensagem, depende da criatividade do professor. Explique a eles que trabalharão com a técnica de microlearning, eles vão gostar de saber que suas aulas estão inseridas na tecnologia. Também é possível aproveitar stories das redes sociais ou vídeos gravados em aplicativos de celular para reproduzir aspectos da cultura, por exemplo, com músicas, trajes, movimentos. Além de se divertirem, os alunos aprenderão. 3. Gameficação: é uma ideia de muito sucesso. Consiste na utilização de jogos digitais como recurso auxiliar da aprendizagem de maneira lúdica e significativa, como jogos de perguntas e respostas com pontuação. Jogos são uma forma muito interessante de aprender e os virtuais podem fazer esse papel. Para usar a gameficação há muitas possibilidades, uma delas é a escola criar um rol de quizzes (exercícios) no AVA com perguntas sobre os temas estudados e solicitar aos alunos que os respondam – dar a eles uma semana, por exemplo. Não se trata de fazer um ranking de quem conseguiu acertar mais, mas sim de estimular, por exemplo, que a cada rol de respostas certas os alunos tenham uma determinada pontuação que possa influenciar na sua nota final. O professor pode pensar que os alunos terão tempo para partilhar as informações entre si e isso é real, mas olhando por outro lado, não será também uma forma de estudar em grupo? 4. GoCongr: é uma ferramenta gratuita em que o professor pode criar grupos de estudo e compartilhar materiais com seus alunos, especialmente fluxogramas, gráficos e diagramas. Eles, por sua vez, podem produzir conteúdo criando mapas mentais, quizzes, flashcards, slides e anotações. É uma ferramenta muito interessante com muitas possibilidades, basta o professor criar uma conta e explorar. Embora os flashcards propostos aqui sejam um recurso próprio do GoCongr, é importante destacar que esse é um recurso utilizado há muito tempo como fixação de aprendizagem. Sem o uso da tecnologia digital, consistia no Você consegue imaginar uma escola que baseia todo seu currículo em jogos? Sim, ela existe e é um exemplo a ser conhecido. Está em Nova York e educa crianças de 8 a 12 anos usando a gameficação para aumentar o engajamento e a motivação dos alunos e potencializar o apren- dizado. Para conhecer mais, acesse o texto Gamificação e Educação: Estudo de caso da Escola Quest to Learn. Disponível em: http://www. sbgames.org/sbgames2016/ downloads/anais/157723.pdf. Acesso em: 9 fev. 2021. Leitura Com relação ao uso das redes sociais, é preciso considerar o cuidado de que haja autorização da escola para seu uso e que seja feito somente em uma rede oficial da escola (ou criada oficialmente para tal função, como um perfil dedicado a um projeto dos alunos, com tempo de duração, grupo fechado e que deve ser extinto ao final da proposta). Isso porque pode acontecer de o espaço ser erroneamente utilizado para reclamações ou ponderações sobre temas diversos envolvendo a escola, e então o que era pedagógico perde totalmente o sentido. Portanto, use o recurso com cuidado e responsabilidade. Atenção http://www.sbgames.org/sbgames2016/downloads/anais/157723.pdf http://www.sbgames.org/sbgames2016/downloads/anais/157723.pdf http://www.sbgames.org/sbgames2016/downloads/anais/157723.pdf 66 Novos paradigmas educacionais uso de pequenos cartões escritos com conceitos que se queria aprender (alguns até para decorar), sejam fórmulas matemáticas, ou de um lado perguntas e de outro respostas, enfim, para os mais diversos assuntos e aprendizagens. Na ferramenta, é uma forma de construir pequenos slides de lembretes com pouco texto para relembrar alguns tópicos de conteúdos escolhidos. 5. Khan Academy: surgiu quando um rapaz começou a dar aulas virtuais para um primo que estava com dificuldades em matemática. O primo repassou os vídeos para outros colegas e as aulas “viralizaram”. Salma Khan, o rapaz que foi professor das aulas, acabou postando-as no YouTube e, com o sucesso, posteriormente criou sua própria instituição sem fins lucrativos, que tem como objetivo proporcionar educação de qualidade a todos os alunos. O site contém espaços para formação de professores, videoaulas e exercícios que podem ser usados em sala de aula. Quando os alunos logam no site, recebem ajuda personalizada com os assuntos que estiverem estudando ou até para aprender algo totalmente novo. O próprio site salva o progresso do aluno, o que também o incentiva a participar. Lembre-se que o simples uso do recurso das ferramentas digitais não será suficiente para que o aluno aprenda. O que o movimentará em direção à aprendizagem é o fato de ele usar recursos tecnológi- cos direcionados para a pesquisa e a reflexão aliados a um projeto educativo em que o professor será o mediador. Se o professor esco- lheu o melhor recurso tecnológico e fez apenas uma apresentação dos conteúdos, e coube ao aluno somente assistir, essa não é uma aula criativa, mesmo que o recurso tecnológico tenha sido usado. Por isso, é preciso entender que a criatividade aqui está sendo co- locada na junção com os recursos tecnológicos como alternativa para que as aulas sejam realmente capazes de mobilizar conhecimentos e competências dos alunos. Não há regra para seguir ao montar uma aula com recursos tecnológicos e o professor pode usar sua criatividade nas propostas, mas há alguns passos que podem ajudar na escolha (curadoria) das informações que serão repassadas e mediadas junto aos alunos por meio digital e que podem auxiliar na elaboração de um projeto de aula diferenciado. Conheça o site Devora- dores de livros, em que adultos e crianças encon- tram livros para leitura off-line, quizzes sobre eles e até prêmios. É uma pro- posta muito interessante para incentivar a leitura e erradicar o analfabetismo funcional. As escolas podem associar-se para ter acesso ao conteúdo completo, mas é possível realizar algumas ativida- des gratuitamente. Desa- fiamos você a responder a um quiz sobre algum livro disponível. Disponível em: http://www. devoradoresdelivros.com.br/. Acesso em: 9 fev. 2021. Site Pesquisador da área de tecnologia na educação, Leo Burd destaca novas abordagens, concepções e tecnologias no processo educacional e afirma que o mais importante para um trabalho de sucesso não é o uso de equipa- mentos, mas o trabalho do professor. As opiniões desse pesquisador são muito relevantes, vale a leitura! Disponível em: https:// revistaeducacao.com. br/2015/03/02/incentivar-a- criatividade-e-o-caminho-para-trabalhar-a-tecnologia-na-sala-de- aula-afirma-pesquisador-do-mit/. Acesso em: 9 fev. 2021. Leitura http://www.devoradoresdelivros.com.br/ http://www.devoradoresdelivros.com.br/ https://revistaeducacao.com.br/2015/03/02/incentivar-a-criatividade-e-o-caminho-para-trabalhar-a-tecnologia-na-sala-de-aula-afirma-pesquisador-do-mit/ https://revistaeducacao.com.br/2015/03/02/incentivar-a-criatividade-e-o-caminho-para-trabalhar-a-tecnologia-na-sala-de-aula-afirma-pesquisador-do-mit/ https://revistaeducacao.com.br/2015/03/02/incentivar-a-criatividade-e-o-caminho-para-trabalhar-a-tecnologia-na-sala-de-aula-afirma-pesquisador-do-mit/ https://revistaeducacao.com.br/2015/03/02/incentivar-a-criatividade-e-o-caminho-para-trabalhar-a-tecnologia-na-sala-de-aula-afirma-pesquisador-do-mit/ https://revistaeducacao.com.br/2015/03/02/incentivar-a-criatividade-e-o-caminho-para-trabalhar-a-tecnologia-na-sala-de-aula-afirma-pesquisador-do-mit/ https://revistaeducacao.com.br/2015/03/02/incentivar-a-criatividade-e-o-caminho-para-trabalhar-a-tecnologia-na-sala-de-aula-afirma-pesquisador-do-mit/ Planejamento e uso criativo de ferramentas digitais 67 Quadro 1 Como elaborar um projeto de aula diferenciado. Buscar Busque um tema interessante! A escolha do tema aqui pode ser do professor ou pode surgir fundamentada em questio- namentos dos alunos. A importância disso é que buscar o tema que mobilizará a turma fará toda a diferença no grau de interesse e na aprendizagem. Filtrar e selecionar Filtre subtemas e selecione o que será estudado dentro da pro- posta. Atenção à qualidade do assunto, à originalidade do es- tudo e à relevância dessa aprendizagem para os alunos! Lem- bre-se de que quanto mais interessante, mais significativa a aprendizagem será. Por isso, escolha com base em conteúdos e desenvolvimento de competências que façam a diferença. Contextualizar o conteúdo Contextualize o assunto. Por que estudar isso? Qual a rele- vância? Não proponha assuntos que “caíram do céu”, pro- cure explicar aos alunos o porquê, chame atenção deles com perguntas, músicas, vídeos. Crie um clima facilitador de aprendizagem. Relacione o tema a ser estudado à vida real. Invista na contextualização, ela ajudará seus alunos a enten- derem o assunto mais facilmente. Arranjar/ formatar/ classificar o conteúdo Observe a classificação dos conteúdos. Hoje em dia, a quan- tidade de conteúdos disponíveis pode confundir ou desviar o foco dos estudos; por isso, classifique, formate de modo que seus alunos possam entender o nível de importância de determinada informação, assim como a desviar-se de con- ceitos inadequados. Criar O uso das tecnologias permite uma variedade de criações tanto para a busca de informações quanto para a propaga- ção delas. Então, confie nas crianças e nos jovens (que co- nhecem muitos programas) e aventure-se na criação de um trabalho que envolva aplicativos, pesquisas, redes sociais ou até mesmo aplicativos de mensagem. Se seus alunos não têm esse conhecimento, é a sua hora, professor. Estude, busque, reinvente e faça acontecer o uso das tecnologias na escola. Compartilhar Compartilhe as informações pesquisadas e os conceitos aprendidos. Descubra qual mídia seus alunos usam e se en- gaje. Participe com eles, mostre que a escola pode ser um lugar de tecnologias e de aprendizagem. Pode ser num semi- nário ou numa página de blog, o importante é que as infor- mações sejam disponibilizadas e compartilhadas, isso dará maior peso à informação. Monitorar Essa é uma função muito importante. Embora as aulas com tecnologias tendam a ser mais participativas e mais soltas, é preciso não se esquecer de que há um trabalho pedagógico a ser feito. Então, monitore o engajamento e o desenvolvimento de todos os alunos, especialmente daqueles que não estão muito familiarizados com a tecnologia escolhida. Medeie, mas não deixe de monitorar para que cada aluno dê o seu melhor. Fonte: Adaptado de Weisgerber, 2011. 68 Novos paradigmas educacionais Assim, vamos deixar claro: a tecnologia precisa ser usada em propos- tas criativas de trabalho, que o professor com sua curadoria de conteúdos proporá. Essa criatividade envolve a escolha de ações em que o aluno seja sujeito ativo, busque seu conhecimento, participe da construção deste. Então, a parte mais importante não é o uso do recurso, mas o trabalho do professor! Estamos num momento em que é preciso “pensar fora da caixa”, como diz a expressão popular, para propormos alternativas peda- gógicas que realmente desenvolvam competências e proporcionem co- nhecimento utilizando os recursos tecnológicos com criatividade. 3.3 Metodologias ativas Vídeo Consegue imaginar qual foi sua primeira aprendizagem? Essa é uma pergunta cuja resposta vai levá-lo novamente a sua mais tenra infância, correto? E é isso mesmo, desde que nasce, o ser humano vai aprenden- do ativamente. A vida é um eterno aprender. Como você aprendeu a andar de bicicleta? Como aprendeu a ler? Como aprendeu a falar? Na sequência, as respostas poderiam ser simplesmente: andando, primei- ro com auxílio das rodinhas e depois, já com mais habilidade, em duas rodas; lendo as imagens, depois reconhecendo letras e sons e final- mente com consciência fonológica; e falando, reproduzindo sons ouvi- dos, aprendendo a comunicar ideias. Logo, de um modo bem simples, é possível dizer que aprendemos a fazer as coisas, fazendo-as! Observe como desse modo o conceito de aprendizagem ao longo da vida está relacionado ao de atividade, de movimento. Não que não seja possível aprender por meio da transmissão, mas temos percebido que aprendizagens por questionamentos e experimentação são mais rele- vantes para compreensão mais ampla e profunda. Assim, ações que en- volvam perguntas, pesquisas, projetos e desafios têm se mostrado mais eficientes no processo de aprendizagem das pessoas (MORAN, 2018). E como a escola, que é o local onde a aprendizagem mais deve flo- rescer, pode ignorar essa constatação? Se considerarmos que as me- todologias para a aprendizagem consistem “em uma série de técnicas, procedimentos e processos usados pelos professores durante as aulas, a fim de auxiliar a aprendizagem do aluno” (VALENTE, 2018, p. 28), e re- conhecermos o fato de que a aprendizagem se dá com mais facilidade quando nos pomos em ação, em atividade, parece uma resposta natural que a escola lance mão das chamadas metodologias ativas para que os Planejamento e uso criativo de ferramentas digitais 69 alunos sejam sujeitos de sua aprendizagem. Note que ao usar essa ex- pressão – sujeitos de sua aprendizagem – estamos falando de responsabi- lidade, de protagonismo do aluno, não somente de alunos que repetem e realizam o que o professor pede. As práticas das metodologias ativas estão relacionadas ao tanto que elas envolvem e possibilitam que os alu- nos estejam engajados em atividades práticas. Adaptando as ideias de Dias (2016), podemos citar algumas caracte- rísticas que compõem as metodologias ativas: • São centradas nos alunos. • Envolvem métodos e técnicas que estimulam a interação aluno x professor, aluno x aluno e aluno x material didático e outros recursos de aprendizagem. • Opõem-se a métodos e a técnicas que enfatizam a transmissão do conhecimento. • Estimulam uma aprendizagem fundamentada na reflexão – cola- borativa e significativa. • Oportunizam reflexão crítica sobre a experiência de aprendizagem. • Permitem maior apropriação e divisão das responsabilidades no processo de ensino-aprendizagem. • Favorecem o desenvolvimento de capacidade para autoaprendizagem. • Favorecem maior retenção do conhecimento. • Produzem melhoria no relacionamento interpessoal. É dentro dessas características que se propõe o conceito de meto- dologias ativas para que os alunos aprendam participando de maneira autônoma, por meio de situações reais. Nessa proposta, o aluno fica no foco central da aprendizagem e é responsável pela construção do seu conhecimento. Em parte das escolas, issoseria renunciar às práticas de memoriza- ção, repetição e controle, para ousar em práticas mais relacionadas à vida das pessoas e às expectativas de cada um (MORAN, 2018). As me- todologias ativas contrastam com a abordagem do ensino tradicional, a qual é centrada no professor. Podemos apresentar uma diferenciação entre professores que tra- balham por metodologias ativas e professores que trabalham no mé- todo tradicional: 70 Novos paradigmas educacionais Quadro 2 Diferença entre professores no ensino tradicional e no ensino de metodologias ativas Professor no ensino tradicional Professor no uso de metodologias ativas Transmissor do conhecimento e cen- tro do processo. Orientador, tutor; conduz à aprendizagem. Trabalho individual. Trabalho em equipe. Conteúdos organizados em aulas expositivas. Curso organizado em situações reais. Trabalho individual por disciplina. Estímulo ao trabalho interdisciplinar. Fonte: Dias, 2016. Nos alunos são percebidas as seguintes diferenças: Quadro 3 Diferença entre alunos no ensino tradicional e no ensino de metodologias ativas Aluno no ensino tradicional Aluno no uso de metodologias ativas Receptor passivo da informação. Valoriza conhecimento prévio. Participa isoladamente do processo. Interação aluno x aluno, aluno x pro- fessor, aluno x materiais didáticos. Transcreve, memoriza, repete, faz ava- liações. Constrói conhecimentos, questiona e equaciona problemas. Aprendizagem individualista/competitiva. Aprendizagem em ambiente colaborativo. Avaliação em conteúdos limitados. Análise e solução de problemas em um contexto. Avaliação pelo professor. Aluno + grupo avalia contribuições. Fonte: Dias, 2016. Segundo Moran (2018), uma escola que adote práticas de metodo- logias ativas terá como resultado: • integração maior entre as áreas de conhecimento (interdisciplinaridade); • destaque à importância do protagonismo e participação do aluno; • continuidade da formação dos professores; • planejamentos mais flexíveis. Diversas estratégias podem ser utilizadas para que as metodolo- gias ativas possam fazer o aluno ser construtor do seu conhecimen- to, mas é preciso que o professor conheça alguns de seus modelos, de modo que possa personalizar esse formato educativo dando ao aluno mais autonomia. Não se trata de o professor abster-se do pro- cesso educativo, e sim reconfigurar seu papel como mediador. Planejamento e uso criativo de ferramentas digitais 71 A tecnologia digital é uma das aliadas do desenvolvimento das me- todologias ativas e, pela sua presença acentuada na nossa sociedade desde a mais tenra idade dos alunos, tem alterado significativamente a dinâmica da escola e das salas de aula. A integração das tecnolo- gias digitais da informação e da comunicação no desenvolvimento das metodologias ativas tem proporcionado o que é conhecido como blended learning, ou ensino híbrido (VALENTE, 2018), no conceito de mesclado, misturado. Vamos apresentar alguns tipos de metodologias ativas, mas des- tacamos a responsabilidade do professor como executor delas. Para colocá-las em prática em suas salas de aula é preciso conhecer bem, então,desejamos que a leitura desta seção seja ao mesmo tempo des- mistificadora, mostrando que é possível fazer esse ensino na educação básica, e desafiadora – afinal, para realizar essas metodologias é preciso ler e estudar sobre elas, para fazer as melhores escolhas. Entre os diversos tipos de metodologias ativas destacamos: • Problem Based Learning ou Aprendizagem Baseada em Pro- blemas: mais conhecida pela sigla em inglês PBL. Consiste nos alunos trabalharem em equipes para a resolução de um proble- ma gerador. É muito importante que o problema seja percebido pelos estudantes como carente de solução, para que o envolvi- mento seja mais intenso. Nem sempre o mesmo problema pre- cisa ser destinado a toda a turma. É possível que cada grupo de alunos (ou até mesmo indivíduos, no caso de alunos mais velhos) pesquise, estude, analise um problema específico e partilhe sua experiência com o grupo. Na aprendizagem baseada em problemas, o entendimento da situação desafiadora surge por meio da interação dos alunos; é preciso que haja algum conflito de opinião para estimular a aprendizagem. Nem sempre haverá uma única resposta para o problema colocado e isso também fará bem aos alunos, uma vez que aprendem a lidar com a opinião do outro. • Aprendizagem Baseada em Projetos: essa metodologia faz com que os alunos construam seus saberes de maneira colaborativa, por meio da pesquisa, de grupos de trabalho, da força de equipe. Reforçada pela BNCC, a metodologia de projetos tem a proposta de estimular habilidades, desenvolver competências e integrar alunos em propostas interdisciplinares. Para alguns autores, a Você sabe quanto uma girafa precisa dormir? E um gato? E quantas horas eles passam acordados por dia? Essas foram algu- mas das perguntas-pro- blema que originaram o quebra-cuca matemático. Quer conhecer uma expe- riência bem interessante sobre aprendizagem baseada em resolução de problemas? Então, acesse o texto Como a resolução de problemas pode melho- rar as aulas de Matemática, publicado pela Revista Nova Escola. Disponível em: https://novaescola. org.br/conteudo/11767/como-a- resolucao-de-problemas-pode- melhorar-as-aulas-de-matematica. Acesso em: 9 fev. 2021. Leitura https://novaescola.org.br/conteudo/11767/como-a-resolucao-de-problemas-pode-melhorar-as-aulas-de-matematica https://novaescola.org.br/conteudo/11767/como-a-resolucao-de-problemas-pode-melhorar-as-aulas-de-matematica https://novaescola.org.br/conteudo/11767/como-a-resolucao-de-problemas-pode-melhorar-as-aulas-de-matematica https://novaescola.org.br/conteudo/11767/como-a-resolucao-de-problemas-pode-melhorar-as-aulas-de-matematica 72 Novos paradigmas educacionais aprendizagem baseada em projetos é uma evolução da aprendi- zagem baseada em problemas, pois nas duas o início é dado com um problema ou uma questão desafiadora, mas cuja resposta instigue o aluno a pesquisar, a descobrir ou a criar. • Sala de aula invertida ou Flipped classroom: é uma metodolo- gia que propõe inverter a lógica conhecida das aulas. Na maioria das aulas que conhecemos, o assunto a ser estudado é apresen- tado pelo professor em sala e após tal apresentação – que pode ser feita em vídeos, em exposição oral ou em qualquer outra for- ma – os alunos são convidados a realizar exercícios, debates ou pesquisas mais aprofundadas. Essa é a lógica que a metodologia da sala de aula invertida quer inverter. Nessa proposta, os professores disponibilizam aos alunos – via tecnologia – materiais para que sejam assistidos ou exercícios a se- rem realizados antes da explicação do assunto que será o tema da aula. Se a escola não dispõe de tecnologia, os materiais podem ser entregues impressos, mas a proposta é a utilização das tecnologias para tal. A ideia principal é a compreensão de que o tempo de aula é mais bem gasto com o professor orientando sobre temas que os alunos já conhecem previamente. Com a ajuda da tecnologia, po- dem-se disponibilizar vídeos para que os alunos se envolvam com a teoria em momentos distintos, liberando o tempo da aula para uma exploração mais profunda do conteúdo (FAVA, 2018). Em linhas gerais, a sala de aula invertida propõe a exploração conceitual com conteúdos em websites, vídeos, áudios, simula- ções e textos para leituras e, na reunião de alunos e de profes- sores, reflexões sobre o que estudaram. Essas reflexões não são vagas, pois o professor ouvirá as dúvidas, os questionamentos, e criará situações de desafio aos alunos. Juntos podem criar tex- tos, podcasts, fóruns de discussão (FAVA, 2018), tudo com base na interdisciplinaridade. O uso da sala de aula invertida requer do professor um compor- tamento diferenciado: planejamento, escolha adequada e inte- ressante de materiais, feedback aos alunos, vínculo do material on-line a toda a discussão da sala de aula. De modo geral, todasas metodologias ativas requerem do professor um conhecimento sobre aprendizagem colaborativa. Esse conceito envol- ve a interação e a participação dos alunos, não só respondendo ao que o Com uma produção super cuidadosa, o infográfico Mão na Massa apresenta algumas experiências de escolas brasileiras com o uso de metodologias ativas, especialmente por projetos. É um docu- mento interessante que possibilita vários passeios (e aprendizagens) virtuais. Não dá para perder. Uma dica? Clique em “caixa de ferramentas” e divirta-se. Disponível em: https:// maonamassa.porvir.org/. Acesso em: 9 fev. 2021. Dica https://maonamassa.porvir.org/ https://maonamassa.porvir.org/ Planejamento e uso criativo de ferramentas digitais 73 professor pergunta ou sugere como atividade, mas também colaborando para o aprendizado das outras pessoas. Colaborar é palavra de ordem nas metodologias ativas, é um princípio do trabalho. O professor, nesse caso, incentiva a colaboração dos alunos e igualmente colabora com eles, agindo como um orientador, um mediador da aprendizagem. Via de regra, o uso do princípio da aprendizagem colaborativa me- lhora a dinâmica da sala de aula, pois cria um clima de trabalho em equipe de respeito, de ajuda mútua, que desenvolve tanto as com- petências de comportamento do indivíduo quanto as cognitivas (de aprendizagem dele). Os relacionamentos interpessoais na proposta da metodologia colaborativa tendem a ser mais fáceis, visto que aos pou- cos os alunos vão aprendendo a lidar com pontos de vistas diferentes do seu, mas igualmente importantes. Mas voltamos a ressaltar: é o professor com seu planejamento, organização e estudo quem será o condutor dessas experiências de metodologias ativas. Caberá a esse profissional reorganizar sua visão educativa e ousar a modernidade, na compreensão de que em movi- mento os alunos aprendem mais e melhor. Ampliando seus conhecimentos • Leitura Conheça um exemplo muito interessante de trabalho de uma escola brasileira com a metodologia de projetos no texto Quando a tecnologia transforma toda a escola, que conta como uma escola pública gaúcha da zona rural revolucionou o currículo para aproveitar melhor os re- cursos digitais. Disponível em: https://novaescola.org.br/conteudo/16479/quando-a- -tecnologia-transforma-toda-a-escola. Acesso em: 9 fev. 2021. • Vídeo Para saber mais sobre as metodologias ativas, acesse a série Reapren- dendo a Aprender, produzida pela Microsoft, que oferece reflexões so- bre as transformações na educação, bem como sobre a necessidade de colocar o aluno no centro da aprendizagem por meio do uso da tecnologia. São quatro vídeos com os temas: metodologias ativas e aprendizagem baseada em projetos, games e gamificação e pensamen- to computacional, ensino híbrido e novo ensino médio. Imperdível! Disponível em: https://education.microsoft.com/pt-br/learningPath/ d6c298d3. Acesso em: 9 fev. 2021. (Continua) https://novaescola.org.br/conteudo/16479/quando-a-tecnologia-transforma-toda-a-escola https://novaescola.org.br/conteudo/16479/quando-a-tecnologia-transforma-toda-a-escola https://education.microsoft.com/pt-br/learningPath/d6c298d3 https://education.microsoft.com/pt-br/learningPath/d6c298d3 74 Novos paradigmas educacionais • Entrevista Jonathan Bergmann é um entusiasta da proposta da sala de aula inver- tida por entender que ela melhora a aprendizagem e o interesse dos alunos. Nessa entrevista, ele pondera a questão da pandemia, o mo- delo híbrido que a escola teve que realizar, e reforça a necessidade de a escola ir além das aulas expositivas para envolver crianças e jovens em propostas de aprendizagem. BERGMANN, J. de. O momento reforça a necessidade de ir além da aula expositiva, diz Jon Bergmann. Porvir: Inovações em Educação, 26 ago. 2020. Disponível em: https://porvir.org/momento-reforca-a-necessidade-de-ir- -alem-da-aula-expositiva-diz-jon-bergmann/. Acesso em: 9 fev. 2021. CONSIDERAÇÕES FINAIS Diante de tantas informações disponíveis, em especial por meio das tecno- logias digitais da informação e da comunicação, o professor precisa escolher bem o que ensinar. Mesmo seguindo as necessárias determinações da Base Nacional Comum Curricular, caberá a cada professor fazer a curadoria dos conteúdos, a escolha cuidadosa dos temas e do formato de seu ensino. Essa escolha precisa contemplar conteúdos e metodologias que propiciem uma bela experiência de educação. Então, planejar suas propostas educativas e escolher sons, imagens e textos é uma tarefa que precisa de um professor comprometido em fazer o seu melhor pelos seus alunos usando sua compe- tência e sua criatividade para isso. A criatividade do professor precisa contemplar também o uso dos recursos tecnológicos, visto a relevância destes na nossa sociedade. Esse uso dentro da escola ajudará a colocar o aluno na função de protagonista de sua aprendiza- gem, pois o instiga a pesquisar. Assim, as informações disponibilizadas pela tecnologia e as possibilidades de produção de conteúdo por meio delas ajuda- rão o professor a reconstruir sua aula desvinculando-se do ensino tradicional, em que as informações somente eram repassadas pelo professor. Hoje, o pro- fessor é mediador do conhecimento dos alunos; as informações estão dispo- níveis e caberá ao professor ajudar seus alunos a lidar e a aprender com elas. Uma das formas mais modernas de conceituar ensino-aprendizagem hoje em dia é fazê-lo sob a ótica das metodologias ativas. De maneira colaborativa e com propostas diferenciadas o aluno estará em movimento, em atividade em direção à sua aprendizagem. Ensinar por meio das metodologias ativas, porém, aponta para a necessidade de um professor comprometido com um ensino de protagonismo do aluno. Dessa forma, caberá a cada profissional romper seus paradigmas e mergulhar nas metodologias ativas. https://porvir.org/momento-reforca-a-necessidade-de-ir-alem-da-aula-expositiva-diz-jon-bergmann/ https://porvir.org/momento-reforca-a-necessidade-de-ir-alem-da-aula-expositiva-diz-jon-bergmann/ Planejamento e uso criativo de ferramentas digitais 75 ATIVIDADES 1. Qual é a importância da curadoria de conteúdo para o ensino atual? 2. Por que o professor deve usar recursos digitais em suas aulas? 3. O que caracteriza as metodologias ativas? REFERÊNCIAS BRASIL. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, DF: Ministério da Educação, 2018. Disponível em: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/images/BNCC_EI_EF_110518_ versaofinal_site.pdf. Acesso em: 9 fev. 2021. DIAS, M. M. Metodologias Ativas: Parte 1. Blog Tecnologia e Educação Unifenas, 13 abr. 2016. Disponível em: http://ned.unifenas.br/blogtecnologiaeducacao/educacao/metodologias- ativas-parte-1/. Acesso em: 9 fev. 2021. FAVA, R. Trabalho, educação e inteligência artificial: a era do individuo versátil. Porto Alegre: Penso, 2018. GARCIA, M. S. dos S.; CZESZAK, W. Curadoria educacional. Práticas pedagógicas para tratar (o excesso de) informação e fakes news em sala de aula. São Paulo: SENAC, 2020. LOPES, D. de Q; SOMMER, L. H.; SCHMIDT, S. Professor-Propositor: A Curadoria como Estratégia para a Docência On-Line. Revista Educação & Linguagem, v. 17, n. 2, p. 54-72. jul./ dez. 2014. Disponível em: http://dx.doi.org/10.15603/2176-1043/el.v17n2p54-72. Acesso em: 9 fev. 2021. MARTINS, M. C. (coord.). Curadoria educativa: inventando conversas. Reflexão e Ação – Revista do Departamento de Educação/UNISC, Santa Cruz do Sul, v. 14, n. 1, p. 9-27, jan./jun. 2006. Disponível em: https://www.academia.edu/34044268/Canal_do_Educador_Texto_ Curadoria_Educativa. Acesso em: 9 fev. 2021. MORAN, J. A culpa não é do online: contradições na educação evidenciadas pela crise atual. Porvir: Inovações em Educação, 29 jun. 2020. 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Respirou fundo, estava prestes a tomar uma decisão. Continuar ou desistir? Pensou na sala de aula, nos colegas e nas vezes em que se sentiu inferior a eles. Pensou na quantidade de tempo em que frequentava a es- cola e sentiu-se derrotada. Sem dúvida, acumulava mais fracassos do que vitórias. Pensou seriamente em desistir. Mas lembrou do sorriso da professora, da boa vontade dela em lhe explicar tudo incansavelmente quando percebia que não tinha entendido. E em como a professora foi incrível em fazer isso discretamente, em sua carteira, sem chamar a atenção dos demais colegas para seu fra- casso. A menina sorriu. Decidiu ir à escola mais um dia. Ia vencer. A professora merecia seu sucesso. A professora acreditava nela. A menina (ou quem sabe um menino) do parágrafo anterior pode estar na sua sala de aula, ou talvez dentro de você. Medrosa, afetada por fracassos que, mesmo parecendo pequenos a outros olhos, afetaram-na sensivelmente e a fizeram quase desistir do ambiente escolar. Apoiar-se nas ações da professora fortaleceu sua decisão de continuar. A proposta deste capítulo é refletir sobre o papel do professor. Não só como alguém que sabe o conteúdo e é formado para ensi- nar conceitos, mas como alguém que entende que afeta a vida do outro e, dessa forma, dispõe-se a educar, no sentido mais amplo da palavra: o de dar um direcionamento diferente, fazer o outro perceber que pode ser muito melhor, que há diversas possibili- dades e não uma só resposta. E este é o convite lançado: rever seus paradigmas e suas escolhas sobre ser professor. Não temos todas as respostas, mas podemos ajudar a elaborar perguntas e lhe mostrar alguns caminhos. Professor como sujeito da práxis docente 77 4.1 Afetividade e qualidade Vídeo Não é novidade para nenhum educador, especialmente aqueles que trabalham com as crianças pequenas, a relevância da afetividade no processo de ensino aprendizagem. Há décadas, esse tema vem sen- do abordado nas teorias que sustentam as propostas pedagógicas des- tinadas à educação das crianças. As teorias mais respeitadas no mundo acadêmico reforçam a importância da afetividade e do contato com o outro (ou com o objeto de aprendizagem) para a efetivação da apren- dizagem, como as de Piaget, Vygotsky e Wallon (LA TAILLE; OLIVEIRA; DANTAS, 1992). O que se pretende nesta sessão é ampliar a discussão e articular uma reflexão na direção da afetividade e da qualidade edu- cativa sob o ponto de vista da ação do professor. Vamos começar analisando o sentido da palavra afetividade, que está descrita no dicionário como “a capacidade do ser humano de rea- gir prontamente às emoções e aos sentimentos” (MICHAELIS, 2021). É preciso considerar aqui como elemento da nossa análise que essa defi- nição não se refere somente a bons sentimentos, ela trata de qualquer sentimento, os bons e os ruins, os agradáveis e aque- les que não são fáceis de sentir, como medo, apreensão, inse- gurança e raiva. Propomos, com esse raciocínio, encarar a afetividade sob o ponto de vista do verbo afetar: da quantidade e profundidade com que algo nos afeta e, igualmente, da forma como nos afeta. Isso tem tudo a ver com o conceito de aprendizagem da contemporaneidade. Observe: quando o termo educar corres- pondia somente à ideia de repassar ou transmitir informações (por parte do professor) e decorar e repetir padrões (por par- te do aluno), o sentimento envolvido nesse processo não era relevante, embora mesmo assim ele se fizesse presente. Mas atualmente a evolução do conceito de educar permite pensar que, além de lidar com conteúdos, auxiliando a construção de conhecimento, é preciso ajudar o outro a tomar consciência de si mesmo, a encontrar suas possibilidades, que são dife- rentes de pessoa para pessoa, é ajudar o outro a encontrar o seu melhor, as suas possibilidades. E não há como educar sob essa perspectiva moderna sem levar em conta os sentimentos Leitura Henri Wallon (1879- 1962), psicólogo francês, é uma das maiores refe- rências de estudo quan- do se trata de afetividade e crianças. É ele quem destaca a necessidade da compreensão da parte emocional (afetiva) das crianças e da sua rele- vância na formação das pessoas, indicando que o estudo da emoção deve ser tão relevante quanto o estudo de outros aspectos da inteligência humana. Para saber mais sobre ele, acesse o link a seguir e leia o texto O conceito de afetividade de Henri Wallon. Disponível em: https://novaescola. org.br/conteudo/264/0-conceito- de-afetividade-de-henri-wallon. Acesso em: 9 fev. 2020. https://novaescola.org.br/conteudo/264/0-conceito-de-afetividade-de-henri-wallon https://novaescola.org.br/conteudo/264/0-conceito-de-afetividade-de-henri-wallon https://novaescola.org.br/conteudo/264/0-conceito-de-afetividade-de-henri-wallon 78 Novos paradigmas educacionais envolvidos nesse processo. Educar, portanto, está relacionado a sen- timento, pois envolve reflexões sobre como me sinto com relação a alguns conceitos, o que me afeta mais ou menos, o que posso aprender com mais facilidade e a que precisarei dedicar mais estudo e atenção. Logo, há muita relevância em considerar a dimensão afetiva no trabalho pedagógico, pois o que o professor faz afeta o aluno em di- ferentes proporções, e isso realmente precisa ser considerado pelo profissional da educação. É importante reforçar a ideia de que a afetividade envolve a reação das pessoas a qualquer sentimento, e é isso que a torna tão relevante para o processo educativo, porque aprender envolve a sensação de fra- casso, de vitória e de perseverança. Aprender é recheado de emoção e, por assim dizer, de afetividade. Então, se considerarmos que para aprender é preciso envolver sentimentos, estamos reconhecendo que a afetividade está presente em todas as faixasetárias em que há apren- dizagem. Não é uma especificidade das crianças pequenas, mas sim das pessoas. Daí a necessidade de articular a dimensão afetiva com propostas pedagógicas coerentes, em que principalmente as ações dos professores possam levar em conta esses sentimentos. De fato, a teoria de Vygotsky (1984) já preconizava a ideia de que para aprender é preciso se relacionar com o outro. Para esse autor, nossa aprendizagem vai se formando por meio dos relacionamentos que te- mos na nossa vida, nas interações e principalmente na linguagem. Com essa perspectiva de raciocínio, podemos dizer que faz diferença a forma como um professor fala (e trata) com seus alunos? A forma como esco- lhe direcionar-se a eles, além propriamente do fato de ensinar? Observe que aqui não estamos falando somente da metodologia que o professor escolheu para ensinar (e ela também faz diferença), mas nas pequenas ações que demonstram que o professor acredita nos alunos, nos comen- tários que faz instigando a descoberta, aceitando a dúvida, entendendo quando os alunos têm dificuldades como parte de um processo normal. Sim, faz diferença. A aprendizagem inclui a relação entre as pes- soas, e uma das relações mais fortes é entre professores e seus alunos. Talvez seja o caso de perguntar aos professores, e aqui transferimos a pergunta a você, se acreditam realmente que da forma como estão ensinando e com os comentários que estão fazendo seus alunos têm todas as possibilidades de aprender. Têm? Você acredita nisso? Professor como sujeito da práxis docente 79 Talvez para entender isso em profundidade seja necessário voltar ao tempo em que se era criança e relembrar os comentários incentivadores de seus professores. Esqueça as aulas que foram dadas à turma toda, lembre as vezes em que seus professores se dirigiram a você especifi- camente. O que de fato fez diferença na sua formação, no seu aprendi- zado? O que afetou você? Um professor que foi até você e lhe explicou novamente a matéria, sem julgamentos; um comentário escrito na sua avaliação, elogiando seu desempenho; um sorriso de algum professor, demonstrando cumplicidade? Ou talvez um comentário grosseiro e in- feliz que só fez você desacreditar no seu potencial? Quais experiências educativas envolvendo sentimentos estão vívidas na sua memória? Reviver essas lembranças não tem outra finalidade senão a de co- locar você em contato com suas emoções, para que retome a temática desta seção: somos realmente afetados pela relação entre as pessoas, inclusive no ato de ensinar, principalmente na relação professor-aluno. Afetividade, portanto, é realmente sentir-se afetado por algo ou por alguém (WALLON, 1995). E com certeza você não passou imune às si- tuações que vivenciou. Seu aluno também não passará. Se consideramos que o professor deve ser um facilitador da apren- dizagem, um mediador do processo de ensino-aprendizagem, como podemos conceber que não leve em conta que a afetividade é fator primordial para o sucesso e a qualidade do processo? Considere que desenvolver habilidades interpessoais também se aplica ao quesito aprendizagens que os alunos adquirirão ao longo dos anos de convívio escolar. E como desenvolver essas habilidades? Exercitando-as em sala de aula, aprendendo com o exemplo de seus professores. Essa não é a única forma, claro. Outros grupos sociais, entre eles fortemente o familiar, também exercem relevância para esse aprendizado, mas a relação professor-aluno é algo muito importante nessa esfera e recebe destaque por ser objeto de estudo desta seção. As diferentes modulações da voz de um professor, como quando ele fala alto (ou até grita) com seu aluno, podem ser fatores que geram an- siedade ou intranquilidade. E isso pode afetar a compreensão do que está sendo dito. Sim, o aluno pode não entender o que está sendo dito quando a voz é muito alta ou gritada, porque fica tão nervoso com a situação que simplesmente bloqueia o conteúdo e foca só a forma. Ao contrário, quando o professor se dirige aos seus alunos com calma, mes- mo que para chamar sua atenção, há uma nítida percepção de senti- 80 Novos paradigmas educacionais mentos de consideração e respeito e, sentindo-se respeitado, o aluno ouve e acolhe a mensagem. Não se trata, portanto, de aceitar tudo que os alunos fazem, mas sim de lidar com o que eles fazem de maneira res- peitosa e profissional e ajudá-los a lidar com as situações mais difíceis. E isso vale para qualquer aluno de qualquer idade (TESSONI; LEITE, 2013). Vamos abrir um outro ponto de reflexão aqui: os resultados não intencionais de uma relação professor-alunos, ou a aprendizagem que ocorre no ambiente escolar sem que seja essa a intenção do professor. Observe: podemos chamar de “normal” (entre aspas por suscitar uma série de interpretações, mas usando-a especificamente com aproxima- ção da palavra rotineira) a situação intencional em que um professor planeja a aula e utiliza metodologias e conhecimentos pedagógicos para que aquele conteúdo seja transformado em aprendizagem pelo seu aluno. Isso é uma normalidade, uma rotina no dia a dia escolar. Mas existe uma forma de aprendizagem que está presente nessa rela- ção, que não foi planejada e por vezes nem considerada pelo professor: o que chamamos de aprendizagem não intencional. Dela fazem parte aspectos que são percebidos pelos alunos sem que tenham sido inten- cionadamente destinados a educar, como pouca energia por parte do professor ao explicar, má vontade de ambas as partes para lidar com as dificuldades do processo de aprendizagem, entre outros exemplos. Sim, há aprendizagem também em cada uma dessas coisas que foge à “normalidade” daquilo que foi planejado (MORALES, 2006). Vamos transformar isso em um exemplo? Numa sala de ensino mé- dio, o professor escreveu no quadro e explicou uma expressão mate- mática e metade da sala não entendeu. Um aluno levanta a mão e diz em voz alta que não entendeu nada, outros alunos riem da situação, e a reação e a resposta do professor assumem um tom de voz mais enér- gico, um pouco desdenhando da falta de entendimento do aluno, lem- brando a ele de que, enquanto explicava, percebeu que o aluno estava desenhando no caderno. Isso tudo em voz alterada e diante da sala toda. Ora, essa reação do professor acabou de gerar em boa parcela da sala que não havia entendido a explicação a aprendizagem e a per- cepção de que não se deve perguntar nada, que não se deve mostrar frágil perante esse professor, pois se corre o risco de ser ridicularizado Professor como sujeito da práxis docente 81 em voz alta na frente de todos os alunos da sala. Esse foi o aprendiza- do não intencional. É prejuízo, certamente, para ambas as partes. O professor, frustrado porque não conseguiu cumprir seu objetivo, e os alunos, que com a não aprendizagem podem reforçar a ideia de que não entendem nada dessa matéria, não servem para estudar, e esses pensamentos são passaportes para a evasão escolar. Observe que alunos entendem rapidamente que na dinâmica do processo de ensino-aprendizagem não devem levar em conta somente o que o professor fala, mas sim a forma como fala e como demostra o que sente. As atitudes dos professores de fato demonstram se eles acreditam no potencial dos seus alunos e eles percebem isso. Aprendizagens não intencionais ocorrem o tempo todo e devem servir como reflexão para os professores pensarem na importância de serem modelos de identificação para seus alunos. Acompanhe nos quadros a seguir uma reflexão sobre o tema: O aluno aprende: intencionalmente, porque quer aprender O aluno aprende: sem intenção, mesmo sem querer aprender O aluno NÃO aprende O professor ensina: intencio- nalmente, porque quer ensinar A B C O professor ensi- na: sem intenção, sem pretender isso D E F Não há professor, ninguém ensina G H I Quadro 1 Ensino e aprendizado intencionais e não intencionais (estrutura) Fonte: Morales, 2006, p. 19-20. 82 Novos paradigmas educacionaisQuadro 2 Ensino e aprendizado intencionais e não intencionais (conteúdo) O aluno aprende... A relação professor-aluno O professor ensina... Intencionalmente, porque quer aprender... Não intencionalmente, mesmo sem querer aprender... Intencionalmente, porque quer ensinar... Áreas que ocupam nossa atenção consciente, dimensão formal... Ênfase nos conheci- mentos da matéria A Área normal: processos habituais de ensino-aprendi- zado; o aluno médio estuda, trabalha, aprende... B Problemas de aprendizado, de moti- vação... Mas, graças aos exercícios, avaliações... há alunos que acabam aprendendo, apesar de sua pouca vontade... Sem intenção, sem pretender ensinar ou sem se dar conta... Áreas que podem fugir mais à nossa atenção consciente, dimensão informal... Área de influência predominante: valo- res, atitudes, motiva- ção... D Modelos de identificação: o aluno quer ser como... A figura do professor o trans- forma em modelo de identifi- cação. Muitos aprendizados importantes para a vida (valores, atitudes, condutas) se aprendem pela imitação dos modelos apresentados pela mídia... E Ensinamos coisas mais importantes que nossa matéria, com o que somos, com nosso modo de relacionamento com os alunos, com comentários inciden- tais... O interesse e o desinteresse, a autoestima, as ilusões... são ensinados e aprendidos... Fonte: Morales, 2006, p. 19-20. Modelos de identificação, como o nome sugere, são aquelas pes- soas com as quais os alunos se identificam, com as quais nós, adultos, nos identificamos. Analise a sua vida: quem são ou foram os seus mo- delos? Claro que não temos um único modelo e talvez nem o tenhamos pela vida toda. Podemos nos identificar com a forma como uma pessoa da nossa família se relaciona com as outros, talvez aquela tia querida que sempre recebe você com tanto amor ou aquele chefe que orien- ta seu trabalho com explicações que fazem sentido sem fazer você se sentir diminuído. Os modelos de identificação aparecem a todo mo- mento e traçam grande importância nas nossas vidas. Então perceba a importância de ser professor: muitos professores são modelos de identificação de seus alunos. Há duas características que podem fazer um professor se tornar modelo de identificação para seus alunos, a primeira diz respeito a ser um bom professor, aquele que sabe a matéria e dá boas aulas; e a segunda diz respeito à aceitabilidade desse profissional, que quanto Professor como sujeito da práxis docente 83 mais querido e estimado for pelo seu grupo, mais mensagens valiosas passará aos seus alunos. Esse aceite emocional do professor por parte dos alunos não deve ser desconsiderado pelos profissionais da educa- ção (MORALES, 2006). Por isso, é importante que seu trabalho educa- tivo e intencional canalize a afetividade para que seja mobilizadora de aprendizagem, em que atenção, paciência e respeito à individualidade devem estar muito presentes, bem como respeito aos ritmos, erros e avanços dos seus alunos (MAHONEY; ALMEIDA, 2009). Lembre-se de que as suas ações deixarão marcas nos seus alunos. “O professor autoritário, o professor licencioso, o professor competente, sério, o professor incompetente, irresponsável, o professor amoroso da vida e das gen- tes, o professor mal-amado, sempre com raiva do mundo e das pessoas, frio, burocrático, racionalista, nenhum deles passa pelos alunos sem deixar sua marca” (FREIRE, 1996, p. 73). Vamos trazer aqui uma pesquisa realizada pela autora Alicia Fer- nandes (1994), psicopedagoga argentina que trata de crianças e jovens com problemas de aprendizagem. Ela percebeu que a maioria (de 75 a 80%) das crianças que chegava para tratar os problemas para apren- der era composta de meninos e questionou-se por que isso acontecia. Pesquisando, percebeu que a maioria das pessoas que educava esses meninos era composta de mulheres e, aprofundando seus estudos, detectou uma certa dificuldade dessas mulheres em fazê-lo. Isso por- que havia padrões estabelecidos do que deveria ser um “bom aluno”, e esses padrões eram feitos e baseados nas expectativas das mulheres e muitas vezes não combinavam com a forma de ser dos meninos. O fracasso escolar de ambas as partes era iminente. Para a pesquisadora, as professoras é que apresentavam dificuldades para lecionar aos que eram diferentes delas, no que chamou de dificuldades de ensinagem. Observe que a escola havia previsto metas de desenvolvimento que combinavam com alunos quietos, passivos, que não questionavam, que realizavam tudo que era pedido pelo professor, e isso era o con- trário do que estavam vivendo na prática. Logo, como não alcançavam as metas, os alunos com problemas (e naquele contexto eram em sua maioria meninos) acabavam engrossando a estatística de alunos com problemas de aprendizagem. É muito importante frisar que não tratamos do gênero. Não estamos destacando o que é (ou deve ser) parte da educação dos meninos ou A expressão dificuldade de ensinagem está presente na versão argentina do livro de Alicia Fernandes e foi mantida assim nas traduções brasileiras, revelando uma dificuldade do professor em lecionar quando suas expectativas e a realidade que encontra em sala de aula são diferentes, e justamente por isso entram em choque. O termo ficou famoso no ambiente educacional e está presente aqui para fazer o professor pensar, além das suas técnicas de ensino, com igual in- tensidade nas suas expectativas com relação ao desempenho, ao comportamento e às atitudes de seus alunos. Estarão adequadas à faixa etária e ao contexto de seus alunos? Para re�etir 84 Novos paradigmas educacionais das meninas, pois as conquistas da igualdade de gênero merecem ser respeitadas. Apenas estamos refletindo que há pessoas diferentes, se- jam meninas ou meninos, que são mais agitadas, menos concentradas, pessoas que precisam de mais ação, que se entediam, que precisam de movimento. Enquanto para umas há necessidade de uma explicação e atenção mais detalhada, para outras bastam explicações orais. E nenhu- ma é melhor que outra, são apenas diferentes. A pesquisa de Fernandes (1994) foi trazida para este livro para ini- ciar uma discussão que fortaleça que a educação deve ser pensada para todas as pessoas, mas sob o ponto de vista delas, não do profes- sor. Senão corremos o risco de repetir o que a pesquisa mostrou, pro- fessoras caracterizando como problemas de aprendizagem dos alunos algo que era uma dificuldade delas. A pesquisa aponta que as dificul- dades de ensinagem podem nos ensinar algo: será que você percebe essa dificuldade ao seu redor? Ou em você mesmo? Quais são as suas dificuldades de ensinagem? Então, professor, ampliamos as questões: qual é a sua concepção de “bom aluno”? Como estão suas expectativas com relação à aprendiza- gem de seus alunos? O que você faz para atender às diferenças deles? Afetividade, tornar-se afetado, afetar alguém. Pense nisso com mui- ta profundidade. Não importa em que nível educacional você trabalhe, sua presença e suas ações sempre afetarão seus alunos intencional e não intencionalmente. O que você diz é importante, o que você demos- tra talvez seja mais ainda. Sim, é preciso incorporar práticas pedagógicas que possibilitem in- teração e crescimento. É preciso estudar, ler e melhorar para poder fazer o outro crescer, para ser lembrado como diferencial na vida de alguém. Para realmente ser professor hoje em dia, é preciso considerar o que você sabe e o que você faz. 4.2 Protagonismo e autonomia Vídeo Os dois termos que intitulam esta seção possibilitam uma grande reflexão sobre o ato educativo da contemporaneidade. Vamos explorar os dois conceitos, iniciando com o de protagonismo. O que é ser protagonista? Segundo o Michaelis on-line, protagonis- ta é “o principal personagem de um filme, o participante ativo ou de A pesquisa da Alicia Fernandes resultou no livro A mulher escondida na professora: uma leitura psicopedagógica do ser mulher,da corporalidade e da aprendizagem, em que a autora discute o papel feminino na educação. O livro diz muito sobre o pa- pel da mulher professora e alguns estereótipos que permeiam esse trabalho, tanto do lado da ação da professora quanto do lado da aprendizagem dos alunos. Uma leitura muito interessante e de muito crescimento para todas as mulheres pro- fessoras, sem dúvida. FERNANDES, A. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 1994. Livro Professor como sujeito da práxis docente 85 destaque de um acontecimento” (MICHAELIS, 2021). Relacionando esse conceito ao processo de ensino-aprendizagem, poderíamos considerar que por muitos anos coube ao professor o papel de protagonista. Era o professor quem detinha as informações, o conhecimento, quem de- veria organizar a forma de repassar o conhecimento para os alunos, o responsável pelas escolhas da metodologia e do conteúdo a ser ensina- do. Muito do processo de ensino-aprendizagem era protagonizado pelo professor. Veja, quando colocamos o verbo no passado – “era” protago- nizado –, estamos concebendo que esse processo passou por uma evo- lução. Mas é preciso reconhecer que, parte pela dimensão continental e formação cultural das pessoas e parte por desatualização profissional de alguns grupos, em muitos lugares ainda existe um protagonismo quase absoluto do professor no processo de ensino-aprendizagem. Reconhecido aqui que as regiões do Brasil não trabalham com a mesma concepção de ensino e que enfrentamos desigualdade tam- bém no aspecto do processo de ensino-aprendizagem – e não somente no aspecto social, amplamente divulgado –, seguimos na reflexão da questão do protagonismo do professor. Com os avanços dos estudos que indicam quais as melhores formas de ensinar, principalmente amparados pela questão do movimento do aluno e da não passividade, aos poucos o professor deixa de ser o protagonista do ato educativo, ou talvez seja melhor dizer o único pro- tagonista. É preciso abrir aqui um adendo explicando que obviamente não estamos colocando num plano rebaixado a função de professor, deixando de entendê-la como protagonista. Não é ser menor em ab- solutamente nada, é apenas olhar o processo de ensino-aprendizagem sob a ótica da sua função maior: em linhas bem claras, qual é para você a função maior do processo de ensino-aprendizagem? Talvez fa- cilmente você tenha pensado na resposta: que o aluno aprenda! Não só o conteúdo, mas aprenda a ser melhor, a usar o conteúdo que está sendo debatido em sala de aula para melhorar sua vida, para resolver seus problemas. Então nos parece claro que o professor não pode ser o único prota- gonista dessa relação. E é sob essa ótica que propomos a reflexão: as escolhas metodológicas, o planejamento do professor na curadoria de conteúdo, o tempo destinado a cada estudo, alguns dos projetos que farão parte da caminhada daquela turma são parte do protagonismo 86 Novos paradigmas educacionais dos professores, mas precisam ser pensados de maneira que sejam também destinados ao protagonismo dos alunos. Não ache que do protagonismo único do professor passaremos ago- ra ao protagonismo único dos alunos, como se somente eles pudessem (e devessem) escolher o que devem estudar e de quais formas. Não é bem assim. Em primeiro lugar é preciso reforçar que considerar o alu- no como protagonista de sua aprendizagem é de certa maneira colocá- -lo no centro do projeto educativo, é pensar uma educação para ele; é deslocar o professor da posição do “eu decido” para a posição do “eu penso em você”. Trata-se de uma mudança significativa que abre precei- tos para considerarmos o processo de ensino-aprendizagem como algo que é feito em parceria. Não de um para outro, mas de professores e alunos em relação à descoberta que a aprendizagem possibilitará. Mas colocar os alunos no centro do processo de ensino-aprendiza- gem, dar a eles parte do protagonismo do professor tão difundido no imaginário de muitos, só será possível se os educadores mudarem a for- ma como percebem e interagem com os alunos, acreditando e partindo da ideia de que todos têm capacidade de aprender (PENIDO, 2017). Essa tarefa não é fácil. Muitos professores foram condicionados a achar que alguns alunos não têm jeito, não servem para estudar, não se dedicam com afinco. Sem procurar as causas, valorizam muito os sintomas (conversa durante as aulas, desinteresse etc.). Mudar esse pensamento é acreditar no potencial de cada um, mas isso requer um professor, por assim dizer, com um melhor preparo intelectual, que conhece teorias, que estuda e que se desafia. Não dá para continuar fazendo a mesma coisa e apenas querer mudar. É preciso mudar as crenças e atualizar os valores. Uma mudança de concepção de aprendizagem requer algumas ações, como as listadas a seguir, que podem ajudar o professor a fazer com que os alunos ocupem um lugar de protagonistas no processo de ensino-aprendizagem. De acordo com Penido (2017): • Conhecer os alunos: educadores precisam saber quem são seus alunos para entender melhor o seu perfil e as condições que fa- vorecem ou dificultam a sua aprendizagem. O objetivo desse co- nhecimento não é o de rotular os alunos ou decidir o que eles podem ou não aprender, é realmente utilizar essa informação a Professor como sujeito da práxis docente 87 favor da aprendizagem deles: conhecer o que gostam, que músi- cas ouvem, que gírias falam etc. • Reconhecer: educadores precisam reconhecer os limites e o po- tencial de cada aluno. Esse reconhecimento pode ser perigoso para a educação se para o professor não estiver claro que todos os alunos podem aprender. Não se trata de repetir concepções antigas que diziam “fulano não consegue aprender”, “a escola não foi feita para ele”, trata-se de (porque a concepção de educação é diferente e o aluno é igualmente protagonista) encontrar uma forma de ensinar aquele aluno, estabelecer qual metodologia será um sucesso, ajudá-lo a entender quais são suas melhores habilidades, como ele pode melhorar suas competências. Reco- nhecer o diferencial dos estudantes dá à educação um caráter único e acaba por elevar a autoconfiança deles, o que é importan- tíssimo para a aprendizagem. • Relacionar: educadores precisam construir relações de confian- ça com seus alunos. É importante lembrar ao professor que a concessão com seus alunos precisa estar em sintonia. É mais fá- cil aprender quando temos um bom relacionamento com aquele que de certa maneira está nos apresentando o conteúdo ou nos ajudando a chegar até ele. Não confunda, porém, com o fato de o professor ser mais bonzinho ou mais divertido. A conexão com professores de personalidades diferentes também mostrará aos alunos que é possível aprender com pessoas diferentes. A ques- tão maior aqui é a de profundidade na relação com o professor, pois quanto mais próximos os alunos se sentem dele, mais chan- ces têm de estabelecer confiança e superar seus limites. • Planejar: educadores precisam planejar suas práticas pedagógi- cas em função do perfil e das necessidades de seus alunos. Esse item não é novidade para nenhum professor, pois a cada início de período letivo (seja anual, semestral ou bimestral) todos os professores passam pelo ritual do planejamento, e para muitos é até mesmo um momento em que reforçam suas ideias de anos anteriores. O que precisa ser considerado é: essa etapa é muito importante e precisa contemplar o perfil dos alunos, práticas di- versificadas, divisão do tempo em atividades diversas, divisão da turma em subgrupos para maior produtividade. Planejar é real- mente uma etapa de escolhas e é o professor quem fará essas Sabemos que é importante que o professor conheça características dos seus alunos para que possa ajudá-los a melhor aprender. Porém, muitos professores acabam destacando características não tão rele- vantes para a aprendizagem, especialmente nos alunos tidos como mais difíceis. O desafio da reflexão é: você saberia dizer uma característicaboa (pense num elogio) que poderia fazer a todos os seus alunos, individualmente? Para re�etir A série Merlí é sobre um professor de Filosofia que é uma grande inspiração para seus alunos no ensino médio. Utilizando metodologias que não são muito ortodoxas, o professor não passa des- percebido na escola onde leciona, nem no grupo de pais. Vale assistir para perceber a incrível cone- xão que esse professor tem com seus alunos. A série diverte e ensina aos professores muito sobre conhecer e conectar-se com os alunos. Criação: Héctor Lozano; Eduard Cor- tés. Espanha: Televisió de Catalunya, 2015-2018. Série 88 Novos paradigmas educacionais escolhas. Você se orgulha das escolhas que fez em seus últimos planejamentos? • Engajar: educadores precisam engajar seus alunos para que se sintam comprometidos com o seu processo de aprendizagem e encorajados a continuar se desenvolvendo. Essa é uma proposta bastante desafiadora e moderna. Todos os estudos atuais apon- tam para a questão das metodologias ativas, que, como o nome já indica, tratam das propostas pedagógicas que colocam os alu- nos em atividade, em movimento. Para que essas metodologias de fato funcionem, a proposta tem que ser muito boa, suficiente para engajar os alunos em projetos pertinentes, que não somen- te tragam conteúdos a serem aprendidos, mas conteúdos inte- ressantes a serem vivenciados. • Acompanhar e avaliar: educadores precisam acompanhar e avaliar o desenvolvimento dos seus alunos para assegurar que todos aprendam. É como se neste item disséssemos: nenhum aluno ficará para trás na aprendizagem. A reflexão aponta para o acompanhamento dos alunos de maneira que o professor possa perceber a tempo o que fazer para ajudá-los. Para isso é preciso estar atendo à participação e ao comportamento dos alunos, va- riar a forma de avaliação para não privilegiar determinadas ha- bilidades, manter a parceria com os alunos mesmo quando os resultados não forem os esperados e valorizar cada conquista, mostrando que se está atento ao desenvolvimento deles. Relembre que, ao iniciarmos esta seção, nos comprometemos a tratar de dois conceitos, e agora cumpre falarmos sobre o segundo: autonomia. O conceito de autonomia, em linhas gerais, indica alguém que tem capacidade de se autogovernar, que tem vontade própria. Ser autônomo é fazer suas escolhas. E, assim, certamente você reconhe- cerá que, ao falarmos sobre o protagonismo do professor (que deve ser dividido com o aluno), falamos também sobre as escolhas que esse professor deve fazer para que isso aconteça. Esse é um dos pontos que gostaríamos de destacar ao abordar a au- tonomia nesta seção. O professor precisa aprender realmente a fazer suas escolhas e ser autônomo nas suas decisões. Entendemos o peso dessas palavras, mas reflita que é comum professores dizerem que optaram por essa ou outra prática porque só conheciam essa forma Professor como sujeito da práxis docente 89 de fazer, ou porque a escola sugeria que fizessem assim. Desse modo, novamente retomamos o conceito: autonomia é fazer suas escolhas. Obviamente não estamos tratando de o professor deixar de lado as orientações do sistema de ensino ao qual está vinculado, mas ele pode e deve, dentro do que é possível, escolher alternativas modernas para a educação de seus alunos, ampliando aquilo que recebe como orienta- ção por parte das escolas. São escolhas. Grande parte dessas escolhas passa pelo conhecimento do professor, pela leitura de materiais perti- nentes, pelo estudo dos assuntos e pela atualização profissional. Infe- lizmente ainda é possível encontrar profissionais que repetem apenas o que fizeram no ano anterior ou práticas pedagógicas que vivencia- ram como alunos. É preciso que fique claro que isso deve ser encarado como uma escolha do professor. Atualmente o contato com matérias diversificadas é bastante democrático e todos os professores podem melhorar suas práticas. O professor precisa usufruir de seu direito de escolha, de sua au- tonomia. Sugerir práticas, escolher como vai tratar seus alunos, é isso que fará a diferença na educação. Mas, para isso, precisa fazer a sua parte: conhecer mais, ter opções. Formação continuada, portanto, pa- rece ser a melhor opção, mas não somente aquela oferecida por seu sistema de ensino: formação continuada é toda formação que você faz, e isso vale para as pesquisas sobre determinados assuntos e meto- dologias. Vale, portanto, exercitar sua autonomia de escolha também sobre o que estudar. É preciso procurar novas possibilidades e combinações, considerar formas diferentes de atingir o mesmo resultado, envolver as pessoas (sejam alunos, colegas, pais ou equipe diretiva da escola) para contar com seu apoio e potencial de ação. Muitas vezes parece impossível mudar determinada estrutura, mas com autonomia, senso crítico e aprofundamento do tema você pode ter uma surpresa com as possibi- lidades que surgirão (NELSON, 2003). Um outro ponto de destaque para o conceito de autonomia diz res- peito às propostas pedagógicas sugeridas pelo professor que levam em conta a autonomia por parte dos alunos. Isso mesmo, vamos pro- por atividades que possibilitem o desenvolvimento da autonomia das crianças e jovens. Procure nos documentos pedagógicos da sua escola 90 Novos paradigmas educacionais termos como alunos autônomos, certamente a ideia estará lá. Mas e o conceito na prática será encontrado? Pense em dois níveis de autonomia que podem ser partilhados com seus alunos: a escolha e a opinião. Na autonomia da escolha, permita que seu aluno escolha algumas atividades a serem realizadas na esco- la. Pode até ser o livro que ele deseja ler; em vez de a escola indicar, por que não aceitar a indicação dos alunos? Pode ser um profissional que será entrevistado pela escola para alguma atividade. Sejam as pe- quenas ou as grandes escolhas, o que importa aqui é a percepção do aluno de que ele tem autonomia para a escolha, que suas propostas são consideradas pelo professor. Ouça e considere a opinião de seus alunos. Estimule que façam isso com a opinião dos outros também. Mas aproveite para lembrá-los (e aí está um ensinamento muito importante) de que nossas opiniões de- pendem da nossa vivência e do nosso conhecimento, portanto podem ser alteradas. Então, faça-os refletir sobre o que pensam, oferecendo- -lhes vivências diferenciadas, opiniões de pessoas diferentes e pontos de vista que mereçam destaque. Lendo, ouvindo e comparando as ideias, eles podem formar melhor as suas próprias. Uma das formas de trabalhar com a autonomia na sala de aula e contar com o interesse dos alunos é por meio de conteúdos interes- santes à faixa etária que você educa. Seu aluno tem quantos anos? O que pensa uma criança ou um jovem dessa idade? Por quais coisas se interessa? Quando você for conhecer do que seu aluno gosta, resista àquela frase “no meu tempo não era assim”, pois não era mesmo, mas agora é. E estamos educando agora, por isso precisamos conhe- cer este tempo. Então retomamos: quais são os interesses da faixa etária da sua sala de aula? Invista suas aulas nesses interesses e dê aos alunos a autonomia da escolha de algumas práticas. O resultado pode ser surpreendente. O princípio da autonomia é destacado na Base Nacional Comum Curricular (BRASIL, 2018) como uma das dez competências a serem ad- quiridas pelos alunos na educação básica. O destaque dado à questão da autonomia reforça que as crianças e os jovens precisam exercer a autonomia individual, ou seja, as suas escolhas pessoais, mas não per- der de vista a autonomia coletiva, na qual a opinião e a escolha de uma equipe também devem ser consideradas. De acordo com a lei, é pre- A partir de março de 2020, as escolas brasilei- ras tiveram que reinven- tar práticas educativas para atender aos alunos que não podiam mais frequentar espaços esco- lares. A Covid-19 alterou as práticas escolares e desafiou os profissionais da escola a trabalhar com práticasestão atrelados ao pensamento vigente, ao desenvolvimento científi- Sabia que existe uma data de co- memoração mundial específica para as mulheres na engenharia? É o dia 23 de junho. Segundo os organizadores, a data tem como objetivo fortalecer o espaço que as engenheiras vêm ganhando na profissão, antes majoritariamente ocupada por homens. Essa data foi proposta pela Women’s Engineering Society, que reúne engenheiras, cientistas e tecnólogas para trabalhos em parceria. Curiosidade Propósito educativo e desafios cotidianos 13 co e tecnológico e às premissas pedagógicas de determinado grupo. Assim, é correto afirmar que todo modelo educacional corresponde a alguma vertente de pensamento que aquela sociedade tem sobre os assuntos que a circundam. Convencionou-se chamar esses “modelos” de paradigmas. Segundo sua etimologia, um paradigma, do grego paradeigma (modelo ou pa- drão), corresponde a modelos que são vigentes em determinado tem- po e situação (ROMANO, 1998). Observe que quando utilizada no campo educacional, a palavra pode ser considerada como sinônimo de modelo mental, desde que considerada dentro de um período histórico. Então, paradigmas são os delimitadores, verdades geradas em determinados períodos históricos, que definirão as ações da sociedade daquela época. Tome como exemplo Galileu Galilei (1564-1642), cuja história ilustra o início deste capítulo. Com suas descobertas, revolucionou a história da astronomia ao comprovar que a teoria geocêntrica (que conside- rava a Terra como o centro do Universo) não era verdadeira. Galileu reafirmou a teoria de Nicolau Copérnico de que o Sol era o centro do Sistema Solar (teoria heliocêntrica). A questão que queremos desta- car aqui não é a simples substituição de uma teoria pela outra (o que poderia ser considerado sob o ponto de vista da evolução da ciência sobre a religião), mas sim a dificuldade das pessoas da época para mu- dar os modelos vigentes que existiam. As conclusões de Galileu foram duramente questionadas pela Igreja Católica, porque contrariavam as Escrituras Sagradas, e o estudioso foi condenado à prisão domiciliar, onde morreu cego e sem o reconhecimento por seus estudos. Aliás, só não foi morto na fogueira (pena para quem cometia heresia) porque refutou seus conhecimentos e fez uma confissão admitindo que estava errado, mesmo sabendo que estava certo. Mas os estudos científicos de Galileu estavam corretos, e assim o desenvolvimento aprofundado da teoria científica mudou os paradig- mas vigentes e possibilitou avanços da ciência tanto no campo da astro- nomia quanto na física e na matemática, para citar só algumas áreas. Compreenda que naquela época, e por muito tempo depois, ques- tionar os paradigmas da fé com a ciência era algo inimaginável. Não é o caso aqui trazer a discussão de fé versus ciência; o que se pretende é alcançar um raciocínio de que a quebra de paradigmas pode ser difícil 14 Novos paradigmas educacionais e morosa, a depender do assunto, das pessoas envolvidas e, conse- quentemente, do quanto esse paradigma afeta a vida dessas pessoas e mexe com suas verdades. No caso de Galileu Galilei, foram necessários 350 anos da morte do estudioso para que a Igreja reconhecesse que ele havia sido condena- do injustamente e que as ideias por ele defendidas eram verdadeiras. Thomas Kuhn, em seu livro A estrutura das revoluções científicas, tra- ta dos paradigmas reconhecendo-os como as “realizações científicas universalmente reconhecidas que, durante algum tempo, fornecem problemas e soluções modelares para uma comunidade” (KUHN, 1997, p. 13). Vamos destacar nas ideias de Kunh as expressões universalmen- te reconhecidas, que indica que paradigmas precisam ser reconhecidos como eficientes por uma grande parcela da população, e durante algum tempo, que mostra que as verdades não são absolutas, e sim mutáveis. Paradigmas, portanto, são temporários. Em seu livro, o autor defende a ideia de que a ciência vai seguindo seu curso até que problemas surgem e levam a um repensar. Esse re- pensar desafia as verdades que até então eram sustentadas e obriga os pesquisadores a buscarem novas respostas para as novas dúvidas. Para isso, é preciso que formulem novas estratégias de resolução. Isso faz com que pensem de maneira diferente, muitas vezes ampliando o que pensavam anteriormente sob outras perspectivas. Esse repensar vai gerar outros modelos mentais que vão direcionar novas pesquisas e, consequentemente, a ampliação do que já se sabia ou a alteração do que se pensava como “verdade”. É esta relação que se deseja estabelecer aqui: o entendimento de que os paradigmas, sendo modelos estabelecidos, em certo tem- po serão alterados, pois esse é o curso natural. Porém, é importante lembrar que o entendimento do que se considera um paradigma não implica na facilidade de superação ou substituição dele. A história tem nos mostrado como é elaborada e por vezes morosa a aceitação da mudança de um paradigma, talvez porque aceitar a mudança significa sair da posição confortável de conhecimento da realidade e se lançar ao novo. Desafiamos você a pensar na sua mudança pessoal de paradigmas. Certamente há verdades estabelecidas em sua vida, algumas já altera- das, outras em processo de dúvidas. Vamos a uma pergunta que ainda Para saber mais sobre o impor- tante pensador Galileu Galilei, recomendamos o acesso a este site: https://history.uol.com.br/ biografias/galileu-galilei. Acesso em: 9 fev. 2021. Site https://history.uol.com.br/biografias/galileu-galilei https://history.uol.com.br/biografias/galileu-galilei Propósito educativo e desafios cotidianos 15 gera controvérsias em nosso país: o que você pensa sobre professores homens na educação infantil? De acordo com o Censo Educacional da Educação Básica de 2017, dentre os 443.405 profissionais da educação infantil brasileira, ape- nas 13.516 (3%) são homens (PENZANI, 2017). Qual será a causa dessa pequena porcentagem? Será que no seu pensamento não apa- receram os seguintes questionamentos: isso é trabalho feminino? Estamos ainda em um paradigma no qual há diferenciação na qua- lidade do profissional por gênero? Será que para todas as pessoas essa quebra de paradigmas da docência na educação infantil é aceita facilmente? Não esqueça que repensar um paradigma significa estar disposto a refletir sobre o assunto, ponderar, renunciar a uma verda- de que se achava estabelecida. Esse movimento, mesmo que difícil, é necessário. Poderíamos listar aqui uma infinidade de modelos que inconscien- temente fazem parte das verdades de cada um de nós. Poderemos afir- mar que estamos dispostos a renunciar a algumas verdades e talvez ainda não estejamos preparados para mudar outras no campo pes- soal. No entanto, como profissionais da educação, não é correto que- rermos estar sempre atualizados? Romper com paradigmas estabelecidos é resultado de fatores dife- renciados, entre eles o tempo e as circunstâncias sociais. É também fru- to de avanços de estudos da ciência e, no caso da educação, de ciências que podem apoiar a ação educativa, como a psicologia, a sociologia, a biologia, entre outras, além dos estudos específicos sobre a didática envolvida no processo de ensino-aprendizagem. Mas quais são os paradigmas da contemporaneidade? Para Behrens (2013), há dois tipos de paradigmas educacionais re- conhecidos ao longo da história da educação brasileira: • Paradigmas conservadores: são aqueles que se embasam na re- produção do conhecimento, feita de modo linear, com acúmulo de informações repassadas pelo professor, em geral sem envol- ver afeto e sentimento dos alunos e, dessa forma, com pouca incidência de compreensão. Podem ser encontrados nas teorias tradicional e tecnicista e na escola nova. Esta, mesmo sendo uma teoria cuja base era romper com o ensino tradicional e dar mais voz aos alunos, não foi imediatamente aceita e difundida por Será que a porcentagem pe- quena de professores brasileiros lecionandoautônomas de estudo. Este artigo lança luz sobre Como desenvol- ver a autonomia no ensino remoto ou híbrido?. É uma interessante e importante leitura e reflexão. Disponível em: https://novaescola. org.br/conteudo/19847/ como-desenvolver-a-autonomia- das-criancas-no-ensino-remoto- ou-hibrido. Acesso em: 9 fev. 2021. Leitura https://novaescola.org.br/conteudo/19847/como-desenvolver-a-autonomia-das-criancas-no-ensino-remoto-ou-hibrido https://novaescola.org.br/conteudo/19847/como-desenvolver-a-autonomia-das-criancas-no-ensino-remoto-ou-hibrido https://novaescola.org.br/conteudo/19847/como-desenvolver-a-autonomia-das-criancas-no-ensino-remoto-ou-hibrido https://novaescola.org.br/conteudo/19847/como-desenvolver-a-autonomia-das-criancas-no-ensino-remoto-ou-hibrido https://novaescola.org.br/conteudo/19847/como-desenvolver-a-autonomia-das-criancas-no-ensino-remoto-ou-hibrido Professor como sujeito da práxis docente 91 ciso: “Agir pessoal e coletivamente com autonomia, responsabilidade, flexibilidade, resiliência e determinação, tomando decisões com base em princípios éticos, democráticos, inclusivos, sustentáveis e solidá- rios” (BRASIL, 2018, p. 10). Como essa é uma competência a ser adquirida durante toda a edu- cação básica, é preciso começar desde a educação infantil, aumentan- do e diferenciando as práticas no ensino fundamental e reforçando-as no ensino médio. Todos os níveis devem ter atividades que privilegiem a autonomia. A autonomia, portanto, precisa estar na escola tanto do ponto de vista das escolhas do professor nas suas práticas metodológicas quan- to na prática dos alunos. Entendemos que um professor que exerce sua autonomia tem mais probabilidade de ajudar seus alunos a desen- volverem a deles também. 4.3 Criticidade e reflexão Vídeo As muitas informações e tecnologias produzidas na sociedade nas últimas décadas ajudaram a movimentar o campo escolar, inserindo novos estudos, possibilidades metodológicas e um eterno repensar: estamos realmente ensinando nossos alunos? Qual é a concepção de ensino que nos importa? As respostas a essas duas perguntas exigem um comportamento cada vez mais científico e crítico. É preciso estudar, conhecer teorias que possam ajudar a transformar a forma como en- sinamos e, com isso, melhorar a experiência da aprendizagem dos alu- nos, pesquisar estratégias e aprender com os resultados. As ideias do professor de apenas ter boas atitudes e gostar de crianças, ou aquele que simplesmente deixou de estudar após sua formação universitária, não podem mais fazer parte do dia a dia escolar; em seu lugar, cabe um professor questionador e reflexivo. A autonomia na escolha de metodologias ou na curadoria de con- teúdos pressupõe que o professor conheça o que tem disponível para escolher, e essa não é uma tarefa fácil de realizar, uma vez que envol- ve reconstruções de alguns modelos que foram formados ao longo da vida de todas as pessoas, inclusive dos professores. Então uma das pri- meiras coisas que os professores vão perceber é que dificilmente vão ensinar seus alunos da maneira como aprenderam. Não que aquela 92 Novos paradigmas educacionais forma não desse certo, algumas sob ressalvas, mas sim porque as pes- soas que são educadas hoje em dia são diferentes daquelas daquele tempo. Aliás, o tempo é diferente, os recursos são diferentes, a tec- nologia disponível é diferente, por que somente as práticas escolares precisam continuar da mesma forma? Não precisam e não devem! Sabemos da dificuldade de ser crítico do seu próprio trabalho, mas é preciso repensar as práticas, reavaliá- -las, aprender com o novo, aceitar que é preciso modernizar. Foi assim que aconteceu em uma escola no interior do estado de São Paulo. Dando aula no pré-1, a professora Lúcia conta que, quando começou a estudar para entender e optar por uma educação integral na sua escola, passou por um processo lento e dolorido. Admitiu que foi difícil levar em consideração o que pensam as outras pessoas, pois são todas diferentes e carregam fortemente em suas práticas os re- sultados das experiências do que já fizeram e até mesmo de quando eram alunas (PICARELLI, 2021). Mas quando a escola em que trabalha- va optou por transformar as aulas regulares em educação integral, foi necessário criar grupos de estudo e entender exatamente o que a pro- posta da integralidade podia oferecer aos alunos, algo muito maior que apenas o aumento da carga horária. Esse é o ponto da criticidade e da reflexão: ser crítico do seu trabalho só tem sentido se essa criticidade se revelar uma boa reflexão, que pos- sa impulsionar o ensino em direção a outros patamares. Nem sempre a tarefa é fácil, pois envolve, além dos saberes dos educadores envolvidos, suas expectativas, seus conceitos acerca da educação e seus paradigmas. Um dos pontos mais sensíveis dessa reflexão e no aprimoramento das técnicas destinadas à educação de crianças e jovens diz respeito ao uso de recursos tecnológicos. É sabido que eles facilitam a maneira como nos aproximamos das informações e como nos colocamos em contato com o mundo, mas, por outro lado, nem todos os professores têm a proximidade necessária com os instrumentos para estabelecer uma educação de qualidade. Então é preciso reforçar: quem não tem familiaridade com a tecnologia que se familiarize logo, pois as tecnolo- gias estão cada vez mais presentes no mundo e isso também se aplica à escola. As tecnologias digitais da informação e da comunicação (TDIC) pro- vocaram uma verdadeira revolução no ambiente escolar, mudaram As estratégias usadas para a alfabetização de crianças são constan- temente estudadas por diversos profissionais li- gados à escola e muito se tem escrito e produzido sobre a melhor forma de alfabetizar crianças. Hoje em dia sabemos que o letramento precisa estar presente nas alternativas de alfabetização. O texto Um decálogo para ensinar a escrever pode ajudar nessa escolha, pois apresenta a alfabetização com textos significativos e formatos diferentes para ensinar a escrever. Muito interessante! Disponível em: https://www. escrevendoofuturo.org.br/ arquivos/4928/um-decalogo- dolz-pasquier.pdf. Acesso em: 9 fev. 2021. Leitura https://www.escrevendoofuturo.org.br/arquivos/4928/um-decalogo-dolz-pasquier.pdf https://www.escrevendoofuturo.org.br/arquivos/4928/um-decalogo-dolz-pasquier.pdf https://www.escrevendoofuturo.org.br/arquivos/4928/um-decalogo-dolz-pasquier.pdf https://www.escrevendoofuturo.org.br/arquivos/4928/um-decalogo-dolz-pasquier.pdf Professor como sujeito da práxis docente 93 funções, refizeram a estrutura da aprendizagem e podem potencializar muito mais, basta que deixemos alguns preconceitos de lado e ouse- mos educar com elas. Observe no quadro a seguir uma comparação entre a função do professor antes e depois das TDICs. Quadro 3 Estrutura do aprendizado Antes das TDIC Depois das TDIC Professor Especialista Facilitador Aluno Receptor passivo Colaborador ativo Ênfase educacional Memorização de fatos Pensamento crítico Avaliação Do que foi retido Da interpretação Método de ensino Repetitivo Interacionista Acesso ao conhecimento Limitado ao conteúdo Ilimitado Fonte: Kalinke, 1999, p. 34. Analisando o quadro, consegue perceber como as tecnologias não modificaram somente as aulas? Modificaram também a estrutura do aprendizado. Fizeram o professor deixar de ser aquele que entendia unicamente do assunto para que ele pudesse ser um facilitador da aprendizagem (já que as informações estão disponíveis a quem quiser achar). O aluno deixa de somente assistir à aula e passa a participar dela, a opinar, a ter pensamento crítico, a entender que sua opinião pode divergir da opinião do outro, afinal hoje é possível conhecer pes- soas com opiniões diferentes com muito mais facilidade nas redes so- ciais. A avaliação passa a ter o caráter de interpretação, e não somente conteudista. Com o uso de tecnologias, o ensino pode passar a priori- zar a interação (do aluno com o objetode aprendizagem, com outras pessoas e com informações diversas sobre o tema), assim é possível dizer que temos uma educação com possibilidades ilimitadas. Claro, é preciso considerar que nem todas as escolas brasileiras têm disponível os mesmos recursos tecnológicos para a educação; por ou- tro lado, se há algum recurso disponível, ele pode e deve ser usado. O que não pode é um professor que, por não conhecer ou não entender, ou, ainda, não ser da geração tecnológica, recuse o uso de recursos que são tão presentes na vida de seus alunos. Seja você, professor, um crí- tico do seu trabalho. Está fazendo tudo que pode para que a educação 94 Novos paradigmas educacionais de seus alunos seja a melhor que você pode oferecer, de acordo com o grau de interesse deles? Compreende por que a reflexão é tão importante no contexto da formação e da ação do professor? Porque refletir sobre o que se pensa, sobre o que se faz, possibilita retomar, rever, alterar. Pensar sobre o que se faz é tão importante quanto fazê-lo, e estamos chamando esse pensar de prática reflexiva. Atualmente a prática reflexiva é primordial na ação do professor. Isso porque a rapidez com que as coisas mudam, com que novas práti- cas aparecem, com que novos recursos tecnológicos nos desafiam é ta- manha que geralmente é preciso parar e pensar se estamos realmente fazendo o melhor, da melhor maneira, e possibilitando a aprendizagem significativa de nossos alunos. Donald Schön é um dos autores que trabalha com a ideia de prá- tica reflexiva na ação docente. Para esse autor, quando o professor se forma no ensino superior – e por meio da observação dos outros professores em seus estágios –, vai moldando sua forma de ação, mui- tas vezes sem pensar muito a respeito do que faz. Especialmente pro- fessores que estão há muito tempo num determinado nível de ensino acabam por repetir práticas já conhecidas, porque elas lhes dão certa sensação de sucesso iminente. É como se dissessem (e algumas vezes dizem mesmo) que fazem sempre assim porque sempre dá certo. E não vamos questionar que por vezes dá certo mesmo, mas é preciso considerar que as práticas continuam iguais, mas os alunos mudaram muito. Então, o que dará certo em 100% das vezes nos primeiros alu- nos não se mostrará na mesma porcentagem com outras turmas, não porque a técnica ou metodologia utilizada não é boa, mas porque não é adequada àquela turma, ou seja, não evoluiu. É preciso pensar e refletir sobre essa prática. Para Schön (2000), as reflexões da prática podem se dar após a rea- lização desta, quando há a oportunidade de comparar resultados, re- visar o que não ficou a contento, atualizar metodologias; ou durante a prática, o que ele convencionou chamar de reflexão na ação. A últi- ma forma, que decorre de um professor que está muito atento ao que propõe a seus alunos, permite que, sem interromper a metodologia ou técnica utilizada, o professor reorganize alguns pontos de modo a redirecionar o que vem sendo feito para alcançar o melhor objetivo. Professor como sujeito da práxis docente 95 Seja após a prática ou na reflexão em ação, refletir sobre sua prática é possibilitar um olhar atento para o que vem sendo desenvolvido nos ambientes escolares. Não é fácil, convenhamos, que um profissional professor seja crítico do seu trabalho. Mas é necessário. E não será crítico sem uma reflexão profunda das suas ações, dos seus pensa- mentos, do que pensa sobre educação e de como esse pensamento é expresso em ações. Rever o que pensa é também uma forma de o professor encarar suas fortalezas e suas fragilidades. O que precisa ficar claro é que todos temos aspectos em que somos melhores e outros em que precisamos de mais ajuda. O que é relevante lembrar é que essas fortalezas e fra- gilidades não são uma decisão fechada, hermética; elas são passíveis de mudança. Então, é preciso primeiro acreditar no seu potencial como professor, depois fazer uma leitura honesta e crítica sobre suas facili- dades e dificuldades e por fim partir para a busca da melhoria. É preciso olhar para dentro com coragem, concentrar-se naquilo que não compreende, pensar em mudança, exercer autonomia, con- versar com quem conhece, pedir opinião, frequentar cursos e pesqui- sar sobre os temas, de fato entender como as coisas são para refletir sobre o que precisa ser feito para mudá-las. Reflexão e criticidade são duas faces de uma mesma ação que pode levar os professores a uma melhoria do que fazem e dos resultados escolares. O ensino prático reflexivo pode fazer muito por sua escola e acreditamos que é esse um dos caminhos para o crescimento da edu- cação que praticamos. Mas isso depende do professor: da vontade em analisar, crescer e movimentar sua prática, suas verdades e seus anseios. Depende também da força de cada um em aprender com os erros, não os repetir e acreditar que pensar sobre o que se faz é um dos meios de fazer melhor e ter melhores consequências. Esteja desafiado. CONSIDERAÇÕES FINAIS Considerar a afetividade na escola é considerar o que nos afeta, alunos e professores, na relação de aprendizagem. É considerar sentimentos, dos mais doces até os mais difíceis, sabendo que todos eles estão pre- sentes e influenciam o ato de aprender. Por isso, é papel dos professores considerar as relações interpessoais, principalmente a força e importân- 96 Novos paradigmas educacionais cia da relação professor-aluno para uma maior qualidade no processo de ensino-aprendizagem. O protagonismo do professor que sabia tudo e tinha todas as respos- tas está sendo colocado em xeque à medida que as mudanças do mundo apontam para recursos tecnológicos com grande poder de informação e comunicação. Hoje em dia, ressalta-se importância de o protagonismo do professor respeitar igualmente o protagonismo do aluno, cada um responsável por sua parte no processo de aprendizagem. Por isso, as ati- vidades deverão ser cada vez mais focadas no público-alvo, ou seja, no aluno, nas suas características e nos seus interesses. Isso não tirará dos professores a responsabilidade de educar, apenas os aproximará de seus alunos e dará mais oportunidades para o sucesso da educação. Para que o professor possa ter resultados diferentes em suas práticas, é muito importante que incorpore a reflexão no seu cotidiano, seja refle- tindo após sua prática, ou refletindo durante o seu trabalho. Pensar sobre o que se faz permite estabelecer estratégias, encontrar possíveis enganos e redirecionar sempre que necessário. Ao refletir, possivelmente o profes- sor estará pronto para ser um crítico permanente do seu próprio traba- lho. Não no sentido de encontrar erros, mas no sentido de ser corajoso em nunca se perder no caminho do fazer por fazer. A missão de professor precisa ser pensada com coragem e redirecionada quantas vezes forem necessárias, para que possa ajudar a formar gerações de pessoas críticas, antenadas com seu tempo. ATIVIDADES 1. A afetividade é mais importante em qual nível de ensino? Por quê? 2. Na relação professor-aluno, quem deve ser o protagonista da educação? Justifique. 3. Qual é a relevância de o professor conhecer suas fragilidades e fortalezas para a melhoria do processo de ensino-aprendizagem? REFERÊNCIAS BRASIL. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, DF: Ministério da Educação, 2018. Disponível em: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/images/BNCC_EI_EF_110518_ versaofinal_site.pdf. Acesso em: 9 fev. 2021.. Acesso em: 9 fev. 2021. FERNANDES, A. A mulher escondida na professora: uma leitura psicopedagógica do ser mulher, da corporalidade e da aprendizagem. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 1994. FREIRE, P. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 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Estudar continuadamente é um dos grandes desafios do professor, não só pelo acúmulo de cursos, mas pela própria reflexão que a pesquisa sobre resultados, atitudes e dificuldades dos seus alunos pode gerar. O professor tem que aprender com os seus resultados, e fará isso se comparar o que faz com as teorias que conhece, se buscar respostas diferenciadas para problemas que vão surgir. A formação continuada ocupa esse espaço de possibilitar a reflexão dos caminhos a serem adotados e é um desafio que se faz necessário o tempo todo nas tomadas de decisão do professor. 2 A vida presente na escola 1. Mindset é o modelo mental de cada pessoa, é a forma como as pessoas pensam sobre os diferentes assuntos. Há dois tipos: fixo, representado por pessoas pouco otimistas, com dificuldade de aceitar riscos e com baixa autoestima; e de crescimento, aquele em que as pessoas são otimistas, têm persistência, acreditam em suas habilidades e aceitam ousar e correr riscos. 2. Educação disruptiva é a ideia de romper com práticas ultrapassadas e ousar em propostas inovadoras na educação, principalmente com o uso das tecnologias. As tecnologias se tornam bons elementos para o rompimento com práticas ultrapassadas porque permitem Gabarito 99 a efetivação de uma educação interessante, baseada em pesquisa, discussão, levantamento de dados, reflexão etc. 3. As tecnologias estão presentes em todos os espaços da sociedade, então devem estar na escola também. Além disso, elas exercem grande atração sobre os alunos, o que facilitaria o seu uso em propostas escolares. 3 Planejamento e uso criativo de ferramentas digitais 1. A curadoria de conteúdo é fundamental para o ensino atual, pois é por meio dela que o professor definirá quais conteúdos serão trabalhados e o formato desse trabalho. É o momento em que o professor faz a escolha, com cuidado, para proporcionar uma experiência de aprendizagem a seus alunos, distanciando-se das aulas do modelo tradicional. 2. Primeiro pela relevância desses recursos na nossa sociedade; os recursos tecnológicos estão presentes em todos os aspectos da vida cotidiana. E segundo, o professor deve utilizá-los porque eles proporcionam experiências que instigam a pesquisar, a duvidar, a analisar e estes são elementos muito importantes numa aprendizagem significativa. Assim, recursos digitais são excelentes para otimizar o processo educativo. 3. A principal característica das metodologias ativas é que, contrariando a educação tradicional em que o professor era o transmissor do conhecimento e das informações, elas possibilitam aos alunos aprenderem em atividade. São atividades de pesquisa, de busca, acompanhadas de ações do professor que permitem reflexões e aprendizados significativos. 4 Professor como sujeito da práxis docente 1. A afetividade é importante em todos os níveis de ensino. Comumente se diz que a educação de crianças pequenas é mais afetiva, mas nesse caso é preciso considerar que o conceito de afetividade trata daquilo que nos afeta, de todos os sentimentos. Dessa forma, está presente em todas as pessoas, em qualquer nível de ensino. 2. Por muitos anos, acreditou-se que o protagonista era o professor. Hoje em dia, há protagonismo em ambas as partes, tanto naquela que ensina, que será sujeito das suas escolhas, quanto naquela que aprende, que será sujeito da sua aprendizagem. Mas caberá ao professor a missão 100 Novos paradigmas educacionais de realizar escolhas metodológicas que permitam que o aluno exerça sua autonomia, e não somente siga realizando tarefas e respondendo o que lhe é perguntado. O aluno também precisa ser ensinado a fazer as perguntas e a pensar com autonomia. 3. Todos temos algo no que somos bons e algo em que não somos tanto. São nossas fortalezas e nossas fragilidades. A relevância disso para o processo de ensino-aprendizagem é conhecer nosso potencial e saber no que precisamos melhorar para fazer uma educação de qualidade, lembrando sempre que essa não é uma situação estática. Fortalezas e fragilidades são mutáveis, e quanto mais o professor estudar e refletir sobre o que faz, mais se conhecerá e mais terá chance de fazer um trabalho de qualidade, refletindo sobre o que precisa alterar e o que deve continuar a fazer da forma como está fazendo. P A R A D IG M A S N O V O S P A R A D IG M A S E D U C A C IO N A IS ISBN 978-65-5821-006-1 9 7 8 6 5 5 8 2 1 0 0 6 1 Código Logístico 59804 LU C IA N A D E LU C A D A LL A VA LLE Página em branco Página em brancona educação infantil é fruto de um modelo mental que remete ao século XIX, em que “cuidar” de crianças era um trabalho feminino? Uma das autoras que estudou o processo da mudança de paradigmas no campo educacional é Marilda Behrens. Em seu livro O paradigma emergente e a prática pe- dagógica, ela nos convida a refletir sobre o papel de mediador e sua prática pedagógica com fortes raízes no tradicionalismo. Com reflexão e ciência, a autora oferece caminhos para mudar as práticas e possibilitar aos alunos uma aprendizagem significativa. BEHRENS, M. A. 5. ed. Petrópolis: Vozes, 2013. Livro Para re�etir 16 Novos paradigmas educacionais muitos professores, que não conseguiram romper com as práti- cas anteriores. • Paradigmas inovadores: apresentam-se sob outra perspectiva, rompendo com a visão descontextualizada do ensino e possibili- tando que conteúdos sejam trabalhados de maneira menos frag- mentada e reducionista. Esses paradigmas estão presentes nas novas teorias da educação lançadas no Brasil a partir da década de 1980, em que raciocínio e sentimentos devem ser levados em consideração, como a teoria histórico-crítica e o construtivismo. O artigo Paradigmas inovadores: novos desafios para a prática pedagógica do professor universitário, de Mari Regina Anastacio, faz uma importante reflexão de como é preciso refletir criticamente sobre os paradigmas da ciência e sua influência no processo educativo e, com isso, justificar a validade de se optar por paradigmas inovadores no contexto educacional, repensando o papel do professor e sua metodologia na atuação docente. Acesso em: 9 fev. 2021. https://educere.bruc.com.br/arquivo/pdf2011/5815_2745.pdf Artigo A autora ainda se posiciona no que considera ser o novo paradigma para o ensino e a aprendizagem: o paradigma emergente resultante de uma união entre diferentes abordagens de ensino, especialmen- te a sistêmica (que supera o ensino fragmentado e recupera a hu- manização no processo de aprendizagem) e o ensino com pesquisa (BEHRENS, 2013). Como é do seu conhecimento, a história da educação não é linear; mesmo com as políticas públicas apontando para uma direção de modernidade, as práticas pedagógicas se diferenciam muito no país. Mesmo com todos os estudos apontando para a falência do ensino no modelo tradicional, ainda é possível encontrar escolas que insistem em defender essa prática. Então, é correto afirmar que há paradigmas dife- renciados dentro do Brasil. Mas é importante refletir sobre as crenças; principalmente sobre o que as embasa. Por isso, é muito importante a formação continuada do professor para a atualização de ideias, para o contato com informações e estudos recentes que são capazes de melhorar sua prática pedagógica e que, em primeira instância, podem realmente alterar seu pensamento. Refletir sobre paradigmas da contemporaneidade é levar em con- sideração os avanços dos estudos sobre ensino, aprendizagem, co- Organize uma lista de suas cren- ças sobre educação, começando com a seguinte expressão: “Na educação, acredito que...”. Ao fazer esse exercício, seja sincero consigo mesmo. Depois de um tempo, releia a lista; será que algumas dessas crenças já não podem ser substituídas? Suas práticas educativas podem ser classificadas como conservado- ras ou inovadoras? Será que o avanço das pesquisas e o resul- tado da educação de modo geral não podem suscitar alguma mudança no seu pensamento e apontar para o paradigma emergente? Desafio https://educere.bruc.com.br/arquivo/pdf2011/5815_2745.pdf Propósito educativo e desafios cotidianos 17 nhecimento e contextualização. Isso envolve áreas como a biologia, a cognição, a sociologia, a psicologia e tantas outras. Paradigmas não são quebrados ou alterados pela simples opinião de alguém. É preci- so fundamentá-los com teorias que a ciência produziu, respostas que foram provadas, confirmadas e que, por não resultarem mais no que seria considerado um sucesso, precisam ser alteradas. 1.2 Qual é o propósito educativo? Vídeo Ao pensar sobre os paradigmas educacionais vigentes e sobre aque- les que norteiam sua práxis pedagógica, certamente você concordaria com esta afirmação: precisamos de práticas inovadoras na educação. Hoje em dia, falar sobre inovação é sem dúvida falar sobre experiências educativas de sucesso e de qualidade. Então, precisamos de sucesso e qualidade na educação. Assim, o fato de que a educação precisa de práticas de vanguarda e de modernidade parece ser um consenso no desejo de professores. Mas como chegar até elas? Há muitas formas metodológicas, evidente- mente, mas o desafio, em primeiro lugar, é cada professor pensar se- riamente no assunto, não só com respostas metodológicas que podem alternar para essa ou aquela prática, mas com estudos que permitam entender a razão dessas práticas, o fundamento por trás das ações. Que o professor não só busque em alguma rede social uma experiência que possa ser copiada e reproduzida na sua escola, mas sim se ocupe de pensar quais teorias sustentam tal prática e possa compor ele mes- mo as suas metodologias. Quando o entendimento da teoria for real, a mudança da prática se dará com mais facilidade. Considere a reflexão: muitas vezes, o pro- fessor que afirma ter dificuldades com as mudanças não é o mesmo que tece comentários sobre o atraso da educação brasileira? E a quem cabe a alteração das práticas? E a alteração das práticas não está de certa forma ligada a mudanças conceituais? Voltamos ao ponto que se pretende destacar: é preciso que o professor compreenda seu papel de estudioso, de fazedor de ciência da educação, e não seja apenas um reprodutor de práticas diferenciadas. Para ultrapassar paradigmas, o professor precisa de vontade docente, ação e conhecimento teórico. 18 Novos paradigmas educacionais Para tal entendimento, convidamos você a um passeio na con- figuração do que estamos chamando aqui de propósito educativo. Para nortear nosso raciocínio, começamos com a definição do termo propósito. Segundo o Dicio – Dicionário Online de Português (2021), o termo é entendido como “o que se quer alcançar; aquilo que se bus- ca atingir; objetivo”, e também está definido como “grande vontade de realizar ou de alcançar alguma coisa; desígnio”. Então, são lançadas as perguntas: o que se quer alcançar na edu- cação? O que se busca atingir com as práticas educativas? Qual é o objetivo de todo o trabalho que realizamos na escola? Em linhas gerais, as respostas apontariam para a aprendizagem dos alunos, correto? Ou você responderia com “que o conteúdo seja repassado”? Quais os pa- radigmas que norteiam nosso entendimento do propósito do que faze- mos? São paradigmas conservadores, como os relacionados às práticas de transmissão de conhecimento em detrimento da construção, ou são paradigmas inovadores, que relacionam o aprender a um processo pessoal, o qual depende em grande parte do envolvimento de quem deseja aprender com o objeto de estudo? Vamos analisar pelo ponto de vista dos paradigmas inovadores, em consonância com as ideias modernas de educação. É possível afir- mar que o desejo dos professores em relação às suas práticas (pelo menos da maioria dos professores que segue esses paradigmas) é a melhoria do conhecimento dos alunos acerca do que está sendo trabalhado. É o desejo de que a aprendizagem aconteça de fato, com significado. Mas existe realmente uma grande vontade, um empenho real por parte dos educadores, para realizar esse propósito? Conside- re que somente a intenção, o querer realizar, não vale como resposta. É preciso a ação. E para a ação, é preciso ter conhecimento de práticas e de teorias, é preciso sustentar o que se faz. Voltamos ao ponto: é preciso estudar. Assim, propósito é utilizado na educação como um objetivo a ser alcançado, aquilo que se quer realizar, mas que, para se efetivar, pre- cisa da ação. Mas qual a importância de se ter um propósito na vida e no trabalho? Para Cortella (2016),tão relevante quanto respirar é ser o autor da própria vida, decidir o que fazer e principalmente por que fazer. Para o autor, a ideia de propósito está também intrinsecamente ligada à ideia de valores, em que a escolha dos propósitos da vida, a Propósito educativo e desafios cotidianos 19 decisão dessa ou daquela opção, está relacionada aos valores que as pessoas possuem. Vamos ampliar um valor importante atualmente: ter uma profissão e ser bem-sucedido nela. Hoje em dia, diferentemente de tempos atrás, há uma grande movimentação das pessoas para a realização no seu trabalho, que não é visto apenas como um ganha-pão, mas sim como um espaço de realização pessoal, algo que dê sentido à existência hu- mana e, especificamente no caso da educação, algo que possa mudar a vida de outras pessoas. Professor é alguém que ganha a vida ajudando e oportunizando crescimento a outras pessoas (CORTELLA, 2016). Se esse raciocínio se aplica a trabalhos de modo geral, com certeza é mui- to adequado à relação de trabalhar com a docência ou dentro de um ambiente escolar, local por excelência destinado a oportunizar cresci- mento às pessoas. Ocorre que para a escola e, consequentemente, a educação pode- rem cumprir o seu propósito, ele precisa ser conhecido e vivenciado pelos educadores e por todas as pessoas que compõem a equipe peda- gógica. Se consideramos que tal propósito das ações pedagógicas seja a aprendizagem dos alunos, precisamos pensar sobre isso, refletir so- bre a melhor forma de ensinar, questionar nossas escolhas, ter ânimo para prosseguir mesmo quando as coisas não saem bem como esperá- vamos e alterar alguns paradigmas que já se encontram ultrapassados. Nem sempre isso é fácil, e algumas dificuldades podem aparecer nesse processo. Kofman (2018) lista quatro dificuldades que precisam ser enfrentadas quando há a intenção de mudança de paradigma para alcançar um propósito 1 : • Descomprometimento: é impossível fazer os outros se com- prometerem com um projeto educativo moderno e arrojado se você mesmo não estiver 100% comprometido. Um líder precisa estar ciente da sua posição dentro da sua equipe, assim como um professor dentro da sua sala de aula. Comprometer-se com um processo educativo de qualidade é uma premissa que precisa ficar clara para todas as pessoas envolvidas, especialmente para o professor. • Desorganização: para dar certo, um projeto pedagógico inovador precisa que a equipe esteja coesa, partilhe as decisões e, com isso, as vitórias e os fracassos. Se cada pessoa da escola resolve Muitos professores serão também gestores em suas instituições de ensino. Para eles, e para aqueles que acreditam que bons professores devem ser bons líderes, sugerimos a leitura do livro Liderança e propósito: o novo líder e o real sig- nificado do sucesso, que, com histórias e reflexões de líderes, oferece uma grande oportunidade para adquirir informa- ções sobre propósito, liderança e quebra de paradigmas. Kofman, F. Rio de Janeiro: Harper Collins, 2018. Livro No livro citado, Kofman escreve para gestores empresariais; assim, aqui foi feita uma relei- tura das ideias dele no âmbito educacional. 1 20 Novos paradigmas educacionais fazer o trabalho por conta própria, sem se importar com o todo, as consequências dessa desorganização aparecerão como insu- cesso, sensação de desânimo e, com o tempo, talvez abandono da ideia original e volta aos paradigmas antigos. A organização e a coesão de uma equipe escolar são fundamentais para o suces- so do propósito educativo. • Desinformação: é preciso que o gestor escolar garanta que sua equipe tenha toda a informação de que precisa para a análise dos paradigmas latentes na escola e a definição clara do propósito educativo. Não basta receber um material pronto das entidades superiores ou do sistema de ensino do qual a escola faz parte (como Secretarias de Educação ou o próprio Ministério da Educa- ção) e repassar aos professores. É preciso estudar esse material, discutir como tais ideias serão incorporadas no ambiente escolar, viabilizar e otimizar as propostas. Nesse aspecto, a formação con- tinuada é fundamental para os professores, e ela também deve ser feita dentro do ambiente escolar. Sim, professores vão estu- dar o tempo todo, pois a excelência do trabalho educativo passa pela amplitude do conhecimento dos mestres. • Desilusão: alguns professores (e alunos) estampam em seu semblante aparente desilusão com a educação. Há explicações múltiplas para isso, inclusive o trabalho realizado numa equipe que não partilha dos mesmos ideais. Espaços de educação que contêm líderes (ou professores) que minam o comprometimen- to das pessoas, que seguem sendo controladores e arrogantes, promovem verdadeiras ondas de desilusão e podem causar um grande estrago a longo prazo. Quando os alunos seguem a lide- rança de um professor, ou professores seguem a liderança de seus coordenadores e diretores, é porque acreditam nele, e ele deve estar ciente da responsabilidade que exerce nesse contex- to; a desilusão precisa ser identificada e combatida. A equipe escolar precisa vibrar no mesmo tom para alcançar o sucesso de seu propósito. Especificamente sobre a relação de desilusão que quase sempre é acompanhada de desânimo, Cortella (2016, p. 56) destaca: um gestor dentro de uma organização precisa estar muito atento a esses sinais na equipe, não só em si mesmo. Quando se nota que a pessoa está desanimada, é preciso separar aquilo que é resultante da circunstância externa àquele emprego – como uma Propósito educativo e desafios cotidianos 21 crise econômica, por exemplo – do que é um desencanto com o trabalho. A coisa mais gostosa da vida é o encanto, ter um tra- balho encantador. Quando alguém perde esse encanto, que não é o encanto da novidade, mas o da vitalidade, começa a desistir. Não ter desafios é um fator de risco para a motivação. Ampliando a abrangência do texto do filósofo, vamos destacar que um professor também precisa ficar muito atento ao desempenho dos seus alunos, não só na execução do que é pedido a eles, mas na ener- gia que colocam nas suas atividades. O encanto da descoberta, a valo- rização do empenho e a busca por conhecimento precisam fazer parte da realidade das salas de aula, independentemente da disciplina ou do assunto que está sendo trabalhando. Este é o propósito da educação: a busca pelo conhecimento. Vamos analisar os propósitos docentes com base na intencionalida- de da ação do professor. É muito importante que as ações educativas dos professores estejam alinhadas com práticas modernas, atualizadas e que igualmente levem em conta o desenvolvimento das crianças e dos jovens que pretendem educar. É necessário compreender o como se faz (metodologia e intenção das ações educativas), o que se faz (quais são os temas relevantes ao desenvolvimento do meu grupo) e, principal- mente, o por que fazer (quais são os motivos que me levam a realizar essa prática); isso, em linhas gerias, definiria o propósito educativo. O caminho da reflexão é a busca das respostas, sem escolher somente buscar práticas novas sem entender por que as realizar. A diferença está em entender o todo que envolve a aprendizagem: o aprendente, o mediador e a própria relação entre eles e o objeto de aprendizagem 2 . Ou seja, é preciso compreender não apenas a busca por um conhecimento já estabelecido, mas a produção de um conhe- cimento que dependerá das propostas educativas vivenciadas. Para Behrens (2013, p. 55): o desafio […] do todo contamina a educação e instiga os profes- sores a buscarem uma prática pedagógica que supere a frag- mentação e a reprodução do conhecimento. O ensino como produção de conhecimento propõe enfaticamente o envolvimen- to do aluno no processo educativo. A exigência de tornar o sujeito Um livro leve e bem hu- morado sobre propósitos de vida e trabalho é o Por que fazemos o que fazemos? Aflições vitais sobre trabalho, carreira e realização,do filósofo brasileiro Mario Sérgio Cortella. Essa leitura vai prender sua atenção em pontos importantes para reflexão sobre o tema. CORTELLA, M. S. São Paulo: Planeta, 2016. Livro Se propósito é aquilo que se deseja alcançar, o professor deve se perguntar: tenho realmente vontade de fazer um trabalho educativo que realize determinado propósito? Invisto minha energia, meu tempo e minha dedicação em buscas de conteúdos e ações que podem fazer a diferença na formação e aprendizagem dos meus alunos? Por objeto de aprendizagem en- tende-se aquilo que se estuda, o que se busca aprender. 2 Para re�etir 22 Novos paradigmas educacionais cognoscente 3 valoriza a reflexão, a ação, a curiosidade, o espírito crítico, a incerteza, a provisoriedade, o questionamento e exige reconstruir a prática educativa proposta em sala de aula. A reflexão que se sugere complementa a frase que nomeia esta se- ção: a pergunta, após a leitura do texto, não deve ser mais qual é o pro- pósito docente, mas sim: qual é o seu propósito, docente? A inserção de uma palavra e uma vírgula muda o tom da pergunta e relembra ao professor a importância da compreensão de que ele é professor por algum motivo; ele pode dar uma contribuição única para seu espaço educativo, para a vida das pessoas envolvidas e para a educação como um todo, e esse propósito merece seu melhor esforço. 1.3 Flexibilidade e adaptação docente Vídeo Se fosse convidado a escolher um animal para representar você, qual seria? Um cachorro, pela lealdade ao dono? Um gato gentil e cari- nhoso? Um pássaro que voa livre? Um dinossauro poderoso? Ou talvez uma barata? Podemos apostar que pouquíssimos escolheriam a última opção. Mas leia com atenção: quando os dinossauros habitavam a Ter- ra, eram os maiores predadores. Mas foram eliminados. E as baratas, seres bem menores, sobreviveram. Aliás, elas estavam no mundo antes mesmo dos dinossauros. E estão até hoje 4 . Darwin explicou em sua teoria que a sobrevivência não era dos mais fortes, e sim dos mais aptos. Olhando por esse ponto de vista até dá para considerar ser representado por uma barata, não é? Um ser que se adaptou com os tempos e sobreviveu. Mas qual a relevância da relação entre baratas e dinossauros para os estudos desta seção? Ora, estamos falando de sobrevivência, e aqui especificamente trataremos de sobrevivência no ambiente de trabalho. Não literalmente, claro, mas na metáfora de que para sobrevivermos no mercado de trabalho, é preciso que sejamos seres adaptáveis e fle- xíveis e, com isso, mesmo com o passar dos tempos, sempre tenhamos no campo educacional professores e gestores adaptados ao tempo em que vivem. A palavra flexibilidade, num sentido figurado e utilizado na proposta deste livro, está sendo entendida como a capacidade das pessoas em compreender opiniões diversas, aceitar pontos de vista diferentes e buscar novas opções em suas ações pedagógicas. A palavra cognoscente aqui é entendida como atributo do sujeito que conhece, que se permite conhecer. 3 Mario Sérgio Cortella cita essa relação de sobrevivência da barata sobre os dinossauros numa entrevista concedida a Brisa Teixeira, do Jornal Gazeta do Povo, em 2017. Disponível em: https://www. gazetadopovo.com.br/educacao/ flexibilidade-e-uma-virtude- -para-o-trabalho-pedagogico- -br5k78aa5zp5akld8oicab0we/. Acesso em: 9 fev. 2021. 4 https://www.gazetadopovo.com.br/educacao/flexibilidade-e-uma-virtude-para-o-trabalho-pedagogico-br5k78aa5zp5akld8oicab0we/ https://www.gazetadopovo.com.br/educacao/flexibilidade-e-uma-virtude-para-o-trabalho-pedagogico-br5k78aa5zp5akld8oicab0we/ https://www.gazetadopovo.com.br/educacao/flexibilidade-e-uma-virtude-para-o-trabalho-pedagogico-br5k78aa5zp5akld8oicab0we/ https://www.gazetadopovo.com.br/educacao/flexibilidade-e-uma-virtude-para-o-trabalho-pedagogico-br5k78aa5zp5akld8oicab0we/ https://www.gazetadopovo.com.br/educacao/flexibilidade-e-uma-virtude-para-o-trabalho-pedagogico-br5k78aa5zp5akld8oicab0we/ Propósito educativo e desafios cotidianos 23 A flexibilidade é, portanto, uma das competências necessárias para o professor da contemporaneidade, uma vez que há um novo cotidia- no sendo construído nas escolas face às transformações vivenciadas na sociedade. Há avanço de tecnologias da informação, há mudança de pensamento e interesse dos alunos, há globalização e acesso fácil à informação e há, com tudo isso, a necessidade da revisão da ação docente, de modo que ela possa acompanhar (ou chegar perto disso) o que acontece na sociedade. Vamos tomar como exemplo a situação vivida no mundo e especi- ficamente no Brasil a partir de março de 2020, em que uma doença, a Covid-19, causada pelo Sars-CoV-2 e chamada de coronavírus, obrigou as escolas a repensarem suas práticas de contato social. Quem poderia imaginar uma situação como essa? Escolas tiveram que flexibilizar suas práticas e suas exigências até que pudessem reestruturar seus traba- lhos pedagógicos. Pela força com que essa situação ficou impressa no mundo todo, certamente teremos ao longo dos anos muito o que falar; por décadas essa situação não será esquecida e será pano de fundo para muitas reflexões na educação. Mas quem vivenciou isso tudo na prática docente precisou repensar e flexibilizar suas ações num perío- do muito pequeno de tempo. Acompanhe a história da professora Shirlei Ventorin (2020), que leciona para o ensino médio. Ela estava participando de uma propos- ta chamada Projetos de Vida, iniciativa em que professores trabalham com os alunos dos três anos do ensino médio. Segundo ela, no primei- ro ano do ensino médio se trabalha principalmente autoconhecimento e identidade do aluno, destacando o que é importante para cada um. A partir do segundo ano o enfoque muda para a relação do aluno ado- lescente com o mundo que o circunda e há a elaboração de um plano de ação que cada aluno cria para si mesmo. No terceiro ano o enfoque é dado ao caminho universitário, acadêmico, com visitas a faculdades, entrevistas e contato com profissionais e a retomada do plano que foi criado no ano anterior para comparação de crescimento ou para manutenção das ideias, de modo que o aluno possa compreender aos poucos a relação do mundo de trabalho que ele vai adentrar quando sair da escola. Ventorin tinha acabado de começar o projeto quando todas as au- las da escola foram mudadas para modelo remoto, em decorrência da pandemia do coronavírus. O pensamento dela foi imediato: havia ne- 24 Novos paradigmas educacionais cessidade de cancelar o projeto, uma vez que entendeu que, como es- sas aulas envolviam assuntos muito pessoais, não seria possível fazê-lo pelos meios digitais (exigência obrigatória por causa da situação), sem, portanto, contato físico e proximidade. Mas não foi bem assim: os alu- nos começaram a mandar mensagem, cobrando da professora a reto- mada do projeto. Com tudo que estava acontecendo, eles precisavam mais do que nunca contar com o apoio da professora e do projeto. E as- sim foi feito. Com o projeto retomado, realizado graças à tecnologia das salas de aula via Classroom 5 , a professora conta que já realizaram um bate-papo com psicólogos e até uma gincana virtual. Nada muito de- morado e nem exaustivo, como pedem as novas configurações de tra- balho virtual – o projeto foi adaptado para uma hora por semana, em que os alunos podem ligar a câmera e há até familiares que participam. Ventorin conta que percebeu que o projeto fez os alunos cresce- rem e os ajudou a passar pelo período de isolamento. Mas a mudan- ça real aconteceu com ela: com a convivência com os adolescentes, passou a entendê-los melhor, compreender suas ações e lembrar que muitas atitudes deles eram semelhantes às que ela tomava quando tinha essa idade. Se você conversar com professores que tiveram que reconfigurar suas aulas por causa da pandemia, vai encontrar muitos exemplos como o da professora Shirlei. Eles retratam o que estamos trabalhando aqui como flexibilizaçãodo docente; não só flexibilização das aulas e da metodologia, mas flexibilização das pessoas em sua disponibilidade de pensar diferente. No início, a professora não percebeu que o pro- jeto precisava ser feito mesmo que virtualmente, porque pensou só no projeto. Quando começou a receber pedidos dos alunos, mudou o foco do pensamento para os alunos e aí sim pode compreender como esses encontros verdadeiramente faziam diferença na vida deles e na dela. Por isso, é bom lembrar: todas as escolhas dos professores terão seu custo e seu benefício. Cumpre olhar para essas escolhas com olhos e disposição flexível para ousar, para se adaptar e para sempre fazer uma revisão e uma reflexão sobre elas. Classroom é um recurso da pla- taforma Google que possibilita gerenciamento de conteúdo a distância. 5 Para conhecer a história de Ventorin e seus alu- nos no Projetos de Vida, acesse: https://porvir.org/ com-projetos-de-vida-me- -transformei-como-profissio- nal-e-os-alunos-perceberam/. Acesso em: 9 fev. 2021. Dica https://porvir.org/com-projetos-de-vida-me-transformei-como-profissional-e-os-alunos-perceberam/ https://porvir.org/com-projetos-de-vida-me-transformei-como-profissional-e-os-alunos-perceberam/ https://porvir.org/com-projetos-de-vida-me-transformei-como-profissional-e-os-alunos-perceberam/ https://porvir.org/com-projetos-de-vida-me-transformei-como-profissional-e-os-alunos-perceberam/ Propósito educativo e desafios cotidianos 25 1.4 Desafios cotidianos do trabalho docente Vídeo Se fosse convidado a fazer uma listagem que inclua uma série de desafios que o professor enfrenta para desenvolver seu ofício, o que colocaria? Será que é possível listar quais são os desafios que um pro- fessor enfrenta atualmente para exercer seu trabalho? A lista seria fixa ou variável? Hoje em dia há muitos desafios, e sem dúvidas a lista pre- cisaria estar em constante atualização, mas, mesmo com esse entendimento, há dois temas que sempre estarão presentes na carreira 6 : a atualização profissional e a compreensão da realidade local. A atualização profissional é um ponto fundamental na car- reira de todo professor. E não se trata aqui de falar somente da formação superior básica exigida para exercer a função, e sim da importância de reciclar essa formação constantemente com cursos de capacitação continuada. É preciso destacar aqui as ideias de Antônio Nóvoa (2012), autor conhecido no campo da formação de pro- fessores: não é o acúmulo de cursos que fará o bom professor exercer com maestria sua ação docente, e sim a possibilidade de que esses estudos possibilitem ao professor um refletir sobre suas práticas. Óbvio que uma diversidade de cursos pode formar um professor multifacetado, mas para haver eco desses estudos na atualização de práticas, é preciso que o professor reconheça a importância do que estuda em comparação com a prática que exerce. Do contrário, pode- remos lidar com o profissional que frequenta os cursos sem conseguir aproveitar nada do que foi estudado, sem melhorar sua ação e, com isso, seu profissional. Outra atualização importantíssima diz respeito às políticas públicas, às legislações e aos documentos oficiais, por exemplo, a Base Nacio- nal Comum Curricular (BRASIL, 2018). Como pode um professor não conhecer tal documento? Simples: não pode. A atualização de docu- mentos precisa ser uma exigência do professor. Observe que não es- tamos dizendo que o professor precisa concordar com tudo, e sim que precisa conhecer. O conhecimento ajudará na análise da viabilidade da proposta, na adequação do que está escrito com sua realidade, na efe- tivação da melhoria na educação. 6 Não pretendemos aqui, pela especificidade do tema, esgotar a lista com os itens propostos. Ao contrário, entendemos que essa lista pode ser alterada pe- riodicamente. O que desejamos é refletir sobre esses temas. 26 Novos paradigmas educacionais Destacamos que o conhecimento – inclusive o docente – constrói- -se em hipóteses que se estruturam e se desestruturam. Há certezas que são quebradas e reconfiguradas, há convicções que são restabe- lecidas e que geram outras convicções, que vão ensinando, mudando as pessoas, desenvolvendo-as. É esse movimento que se espera do professor, um movimento de crescimento, amparado pelos estudos diversos que sempre deverão fazer parte da sua vida, não como obri- gação, não como fardo, mas como parte da essência de ser professor (MIZUKAMI, 2002). Com relação à compreensão da realidade local, não se esqueça de que a escola faz parte de uma realidade local e que ela precisa ser, além de respeitada, considerada como parte importante nos projetos pedagógicos. A cultura do local onde a escola está inserida é um grande ponto a ser considerado pelo professor. Em linhas gerais, não se trata de restringir as ações em função de a escola estar nessa ou naquela comunidade, mas de agregar conhecimento ao estilo de vida daquele local, e não criar entre escola e sociedade um muro de separação. A escola deve abrir suas portas e derrubar suas paredes não ape- nas para que possa entrar o que se passa além de seus muros, mas também para misturar-se com a comunidade da qual faz parte. Trata-se, “simplesmente”, de romper o monopólio do saber, a posição hegemônica da função socializadora, por parte dos professores, e constituir uma comunidade de aprendizagem no próprio contexto. (IMBERNÓN, 2000, p. 85) Considerar a cultura do local onde a escola está faz com que profes- sores redefinam o sentido social do seu trabalho, dando destaque nas suas competências a um necessário saber se relacionar – nesse caso, com os outros (NÓVOA, 2012). Analisando esse ponto de vista, numa escola em que as pessoas se relacionam bem com a comunidade, que tem projetos de parceria e em que uma parte acredita na outra, abrem- -se as portas para uma aprendizagem de verdade, real. Essa necessidade de relacionamentos com o externo, aqui aponta- do como a comunidade que circunda o ambiente escolar, faz com que a escola possa cumprir seu papel de educação verdadeira, que não se- para saberes da vida e saberes escolares e retira do ambiente escolar aquela aura de saber enclausurado, de não pertencimento. O fato é que entre comunidade (com destaque para as famílias dos alunos) e escola deve haver um elo de parceria, de respeito e de crescimento Propósito educativo e desafios cotidianos 27 mútuo. A parceria tem que servir para a escola poder apresentar seus objetivos, solicitar (e agradecer) apoio e explicar qual a relevância das ações pedagógicas realizadas. Claro que, ao abrir as portas para a co- munidade, a escola também fica mais vulnerável (e mais verdadeira), uma vez que aceita receber as críticas, os pedidos e a análise de quem vê a realização da tarefa educativa por outro ângulo. Não podemos esquecer que os pais também têm expectativas, e quanto mais a es- cola considerá-las, mais sucesso vai ter na sua empreitada. Por isso, podemos dizer que, ao ouvir sua comunidade, a escola se torna mais vulnerável a diferentes pontos de vista, mas essa vulnerabilidade não é ruim; é uma reconstrução de caminho, de função educativa e de função social do professor. A parceria com as comunidades não torna a escola menor (ou tira dela a autonomia), apenas a torna verdadeira, uma me- diadora cultural e organizadora de situações educativas que levam em conta que ela precisa do outro para realizar seu papel (NÓVOA, 2012). Vamos ao desafio: o que você conhece da escola dos seus filhos? Da escola em que você trabalha? Da escola do seu bairro? Conhecer aquele que se pretende educar e o local onde essa educação se dará parece ser uma alternativa segura e de qualidade para fundamentar as práticas educativas? As perguntas aqui listadas têm como função provocar você para a parceria, incluindo na reflexão um aspecto relevante: não basta só aproximar a comunidade da escola, é preciso conhecer essa comuni- dade. Acompanhe esta história: uma empresa cria uma linha novade calçados e manda dois vendedores para locais diferentes na tentativa de vender seus produtos. Depois de um tempo, recebe duas comuni- cações diferentes dos vendedores. O primeiro afirma: “não vamos con- seguir vender nada, aqui ninguém usa sapatos”. O segundo, animado, diz: “nós vamos vender muito nesse local, ninguém ainda usa sapatos”. Ora, se eram dois vendedores com o mesmo potencial, vendendo o mesmo produto em comunidades parecidas, o que mudou? O olhar do vendedor e a percepção de que era possível vencer os obstáculos e transformá-los em possibilidades com o conhecimento da realidade em que o negócio seria feito. Agora vamos trazer isso para o campo educativo. Imagine que a es- cola é uma empresa e que você precisa vender um determinado produ- to a um cliente; qual seria uma das melhores formas de fazer isso? Se você usou a lógica do vendedor de sapatos e disse: “conhecendo meu Escola e comunidade podem formar uma grande parceria. Para isso, a escola precisa propor alternativas interessantes para que a comunidade se perceba bem-vinda no ambiente escolar e possa de fato ajudar a instituição no projeto educativo. Quer algumas dicas de ações que podem aumentar a parceria da sua escola? Acesse: https://gestaoescolar.org.br/ conteudo/2175/escola-e-comu- nidade-9-acoes-para-comecar- -uma-boa-parceria. Acesso em: 13 nov. 2020. Preciosa é um filme que discute a importância da relação entre uma aluna e uma professora. Parece simples, mas é recheado de surpresas e de realidade e ensina que um bom professor, que conhece a realidade dos seus alunos, e uma boa proposta educativa podem fazer diferença na vida das pessoas, especialmente daquelas que mais precisam. Direção: Lee Daniels. Estados Unidos: Playarte Pictures, 2009. Filme Saiba mais https://gestaoescolar.org.br/conteudo/2175/escola-e-comunidade-9-acoes-para-comecar-uma-boa-parceria https://gestaoescolar.org.br/conteudo/2175/escola-e-comunidade-9-acoes-para-comecar-uma-boa-parceria https://gestaoescolar.org.br/conteudo/2175/escola-e-comunidade-9-acoes-para-comecar-uma-boa-parceria https://gestaoescolar.org.br/conteudo/2175/escola-e-comunidade-9-acoes-para-comecar-uma-boa-parceria 28 Novos paradigmas educacionais público e suas necessidades”, acertou. Essa é uma forma incrível de fazer a educação dar certo. Por isso, outro ponto que merece destaque na ação profissional é a realização de pesquisas que indiquem quais os desafios que são en- frentados por determinada escola em determinado local. E isso varia de escola para escola, claro. Vamos buscar pesquisas que nos apontem por que os alunos fracassam e o que precisamos alterar para que tenham sucesso – em que pese que a condição social muitas vezes influencia o desenvolvimento da parte educacional. Conhecer a realidade específica do local onde a escola está dará mais chances de a educação ser ver- dadeira e, com isso, respeitada. As escolas têm episódios de violência e indisciplina e apresentam índices de desigualdade, mas todos esses fenômenos podem ser estudados e pesquisados pela escola para fun- cionarem como combustível de crescimento, não de acomodação. Muitos dos desafios que o professor encontrará em seu cotidiano serão objetos de seu aprendizado e crescimento como profissional, desde que resultem em reflexão. Não basta passar pelas dificuldades; é preciso aprender com elas. Estudar, comparar, analisar os aconteci- mentos e conhecer a realidade em que se pretende educar são cami- nhos eficientes na busca de diminuição de problemas e efetivação de um excelente projeto educativo. Vamos encerrar este capítulo com uma frase, deixando aqui um es- paço para reflexão e relembrando o compromisso que o professor tem na construção do seu caminho profissional: “Ouça sempre. A experiên- cia tem valor, mas esteja atento a essa verdade pétrea […]: bons conse- lhos podem ser úteis, mas seu caminho será construído exclusivamente por você” (KARNAL, 2012, p. 16). Pense nisso! CONSIDERAÇÕES FINAIS Esperamos a esta altura do capítulo que você tenha se questionado, concordado e, também, discordado. Certamente essas páginas serviram para reflexão sobre o tema proposto. Esse é o caminho para a mudança de paradigmas, para a alteração dos modelos mentais que por muito tem- po fizeram a escola ser da mesma forma, sem considerar a necessidade da mudança, do fazer diferente. É preciso resgatar o real propósito da educação, da escola e dos pro- fissionais. Por que estamos fazendo esse trabalho? Qual é o caminho mais Antônio Nóvoa é um dos autores mais respeitados quando o assunto é formação de professores. Suas reflexões sobre o tema são sempre perti- nentes e desafiadoras. Recomendamos a leitura da obra do autor como um todo, mas aqui o destaque vai para o livro Formação de professores e trabalho pedagógico. NÓVOA. A. Lisboa: Educa, 2012. Livro Propósito educativo e desafios cotidianos 29 acertado? Será que existe um só caminho? As dúvidas não se encerram e nem podem acabar. São elas que em primeira instância inquietarão o pro- fessor e o farão avançar. Essa inquietude pode resultar num crescimento formidável. A flexibilização docente também é um ponto importante a se desta- car para que o profissional pense de maneira diferente, permita-se tes- tar novas possibilidades metodológicas e conheça diferentes alternativas teóricas. O professor precisa se adaptar às exigências de uma sociedade cada vez mais plural. Observe que é preciso antes de tudo considerar a necessidade dessa adaptação para a mudança que se deseja. Mas crescer e mudar requer esforço, dedicação, estudo e conheci- mento da realidade. A atividade docente, e seus desafios, é uma ativida- de profissional – por mais que haja grande relação de afetos, ela precisa ser desenvolvida por quem entende do assunto. O desafio maior é e sempre será de estudo, de capacitação e de profissionalização cada vez maior dos professores. ATIVIDADES 1. O que quer dizer propósito e como esse conceito é aplicado no campo da educação? 2. Há muitos paradigmas que circundam a prática profissional, e muitos deles acabam por impedir o avanço de atividades docentes mais modernas. O que o professor precisa fazer para superá-los? 3. Como a formação continuada pode ser considerada um desafio presente no cotidiano do professor? REFERÊNCIAS BEHRENS, M. A. O paradigma emergente e a prática pedagógica. 5. ed. Petrópolis: Vozes, 2013. BRASIL. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, DF: Ministério da Educação, 2018. Disponível em: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/images/BNCC_EI_EF_110518_ versaofinal_site.pdf. Acesso em: 9 fev. 2021. CORTELLA, M. S. 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Estavam os dois rapazes formados, desempregados e sem dinheiro para pagar o aluguel daquele mês. Precisavam ganhar algum dinheiro rapidamente e tiveram a ideia de inflar três colchões de ar e alugar um quarto em seu apartamento, visto que havia uma demanda de hospedagem na cidade em que moravam por conta de os hotéis estarem lota- dos naquele fim de semana. Essa história é verídica e aconte- ceu em 2008, na cidade de São Francisco, nos Estados Unidos. O projeto iniciado ali foi chamado de Air Bed & Breakfast, numa tradução livre “cama de ar e café da manhã”. Deu certo e eles re- ceberam um bom dinheiro na continuidade da proposta, a qual só se iniciou porque entenderam que havia uma outra forma de conceber hospedagem, diferente daquela que era praticada. O novo formato de hospedagem oferecido pelos recém- -formados rompeu com os paradigmas propostos do que se entendia como hospedagem até então. Romper com o que já existe e inovar. Essa é a proposição discutida ao longo desse capítulo, sob o ponto de vista da educação. A disrupção pode ser um caminho interessante e real para mudanças e cresci- mento e, dentro dessa ótica, convidamos você a pensar so- bre uma escola diferente, propostas pedagógicas inovadoras, uso de tecnologias na escola e, principalmente, em mudar seu mindset, repensar as suas escolhas metodológicas e otimizar o processo de ensino-aprendizagem. 32 Novos paradigmas educacionais 2.1 Educação disruptiva Vídeo O termo disruptivo indica uma ruptura, uma interrupção. Contudo, neste capítulo, a disrupção não será considerada no sentido de que alguma coisa seja interrompida e tenha fim, mas sim de que a inter- rupção de determinado ciclo é seguida do começo de outro. A questão é que o novo início precisa ser diferente do que vinha sendo feito. Sob essa ótica, a disrupção, então, está associada à ideia de mudança, de al- teração e principalmente de inovação. Em outras palavras, ao abordar- mos o termo sob esse ponto de vista, não estamos pensando apenas em romper ou interromper algo que vinha sendo feito, mas que essa interrupção precisa ter a função de permitir uma inovação. Não dá para romper e continuar fazendo a mesma coisa, é preciso romper e ousar inovar. Chamamos, então, de inovação disruptiva. A ideia de inovação disruptiva foi proposta na década de 1990 por Clayton Christensen, professor de Administração na Harvard Business School, e é embasada na ideia de que é preciso fazer diferente para ino- var e romper com o estabelecido. Fazer diferente de tudo que vinha sen- do feito e usar a tecnologia como elemento propulsor do seu sucesso é a proposta de inovar com disrupção (CHRISTENSEN; HORN; JOHSON, 2012). Vamos considerar a seguinte situação: supondo que desejemos fa- zer uma viagem ao continente europeu, há que considerar um bom planejamento e uma reserva considerável de recursos. É preciso prever que investimento será necessário para a concretização da viagem e um dos gastos mais efetivos, sem dúvida, será com a hospedagem. Aqui, no nosso exemplo, focaremos apenas nesse gasto, para contextualizar uma inovação que nasceu após uma ruptura. Convidamos você a fazer uma pequena busca em sites de reserva de hotéis das cidades europeias que deseja visitar. A ideia é pesquisar para fazer um panorama de valores. Então, dê uma paradinha na lei- tura deste texto e realize essa pesquisa em um site de busca. Quanto custa, por exemplo, se hospedar em hotéis da cidade de Paris? Fez a pesquisa? Ficou impactado com os resultados? Já havia previs- to? E se você pudesse reduzir os gastos em hospedagem? Na maioria dos casos isso impactaria em uma economia de valores que poderiam ser destinados a outras diversões na viagem, não acha? E se a sua hospedagem pudesse ser realizada num daqueles colchões de ar do A vida presente na escola 33 exemplo dado no início do capítulo? Fique tranquilo que não estamos propondo isso. A ideia aqui é dar significado ao conceito de disrupção, que envolve rompimento e inovação. Voltemos ao exemplo que inicia este capítulo e apresenta dois jovens recém-formados com um problema financeiro. Ao alugar um quarto com colchões de ar em seu apartamento, eles, além de arranjar uma forma de ganhar dinheiro, romperam com o estabelecido e criaram um modo inovador de conceber o que se entendia por hospedagem du- rante uma viagem. Sim, porque até aquele momento só se pensava em hospedagem (que não fosse na casa de amigos ou parentes, ob- viamente) em hotéis. Acontece que essa ideia inicial de disponibilizar hospedagem no apartamento deles se transformou em uma empresa conhecida e respeitada (e utilizada) em quase todos os lugares do pla- neta. Uma empresa que vale aproximadamente 25 bilhões de dólares (SALOMÃO, 2017). Se você não a identificou pelo nome, provavelmente reconhecerá estas letras: AIRBNB – Air Bed & Breakfast; lembra? O modelo de hospedagem proposto pelo Airbnb conecta consumi- dores que desejam alugar um espaço, por curto período, aos donos dos locais para essa hospedagem. Tudo isso feito por meio de um site re- conhecidamente seguro, com presença em quase todos os lugares do mundo. Alguns números impressionam: em 2017, o relatório do Airbnb indicava que haviam disponibilizados mais de 3 milhões de anúncios (de casas, quartos, apartamentos e até castelos) em mais de 65.000 cidades distribuídas em mais de 191