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8UNIDADE I Criminologia 1. CONCEITO, OBJETO E MÉTODO DA CRIMINOLOGIA 1.1. Conceito de Criminologia O ensino da Criminologia no Brasil ainda é incipiente. Isto é, poucas grades curricu- lares contemplam a referida disciplina. Bem, este não é o seu caso, pois, aqui você poderá esmiuçar essa ciência que vem atraindo cada vez mais pesquisadores e curiosos. Quando se fala em conceito, a primeira coisa que vem à mente é: algo será revela- do e delimitado. É importante considerar que há uma discussão profunda sobre as Ciências Humanas e as Ciências Sociais Aplicadas serem ou não ciências. É importante considerar que a Criminologia possui objeto e método próprio e isso já parece reforçar a ideia de que a Criminologia é uma ciência. De forma objetiva, a Criminologia seria uma ciência dotada de autonomia, empírica e interdisciplinar, cujo o enfoque é estudo do delito, do criminoso, da vítima e do controle social da conduta rotulada como criminosa, com o objetivo de prevenir a criminalidade (OLIVEIRA, 2020). A autonomia da disciplina decorre justamente do método empírico que ela possui. Acerca do método empírico, significa dizer que seu objeto deriva de uma observação da realidade, do que ocorre no meio social e como se comporta. A partir disso, é importante considerar que a criminologia não se apresenta como ciência exata, mas ao contrário, parcial, fragmentada e em constante mudança em virtude do que acontece no plano da realidade (SHECAIRA, 2014). Veja, se eu apresentar uma equação matemática a duas ou 9UNIDADE I Criminologia mais pessoas diferentes, todas deverão chegar ao mesmo resultado e isso não ocorrerá com a Criminologia, pois, caso eu coloque diversos sujeitos para observar determinado fato, certamente as suas conclusões serão distintas. Além de ser uma ciência empírica, a Criminologia é interdisciplinar. Essa afirmação decorre de que outros saberes (v.g. psiquiatria, política, economia, geografia e outros) po- dem contribuir com a Criminologia (VIANA, 2020). Todavia, essa contribuição não é passiva, mas uma contribuição que precisa de integração e análise crítica. Finalmente, é importante considerar que a Criminologia lida, sobretudo, com o humano, o inexato e suscetível a uma transformação. Em síntese, a Criminologia é uma ciência empírica e interdisciplinar que olhará para o fenômeno criminal (delinquente, crime, vítima e o controle social do comportamento delitivo) com suas variáveis. 1.2. Objeto da Criminologia: o delito, o criminoso, vítima e controle social O nascimento da Criminologia – item que será abordado mais adiante – se debruçava quase que exclusivamente sobre a pessoa do delinquente. Modernamente, compreende-se que o seu objeto é o delito, o criminoso, a vítima e o controle social. 1.2.1. Delito A Criminologia se ocupa do delito, todavia, é importante considerar que o Direito Penal, a Filosofia, a Sociologia e outras disciplinas também possuem interesse sobre esse fenômeno. Logo, surge um impasse: como definir o interesse da Criminologia pelo fenôme- no delito? Impera, frequentemente, o conceito de delito como aquele originário do Direito Penal que conceitua o crime/delito como fenômeno estritamente jurídico, ou seja, o crime como uma estrutura jurídica com elementos normativos e sem preocupação, a princípio, com o impacto fático de um conceito que coloca – muitas vezes – em segundo plano outros fatores. Para o Direito Penal, em um conceito formal, pode-se dizer que o crime seria um fato humano proibido pela lei penal e em sentido material, seria a lesão ou perigo de lesão a C R IM IN O LO G IA DELITO DELINQUENTE VÍTIMA CONTROLE SOCIAL 10UNIDADE I Criminologia um bem jurídico-penal (PRADO, 2011). Perceba que se trata de uma definição fria, técnica e em última medida, sem se preocupar em um primeiro momento com a realidade. Bem, mas o que seria o crime/delito (delito e crime são sinônimos aqui) para a Cri- minologia? Bem, a Criminologia encarará o tema como um problema social e comunitário, vez que afeta toda a sociedade, as instâncias oficiais de poder (Polícia, Ministério Público, Poder Judiciário etc) e, ainda, causa dor (GARCÍA-PABLOS DE MOLINA; GOMES, 1997). Pode soar estranho falar em dor quando se aborda um tema jurídico, mas a Criminologia denunciará que o delito causa dor a todos: o criminoso que receberá sua pena, a vítima e a comunidade. Consequentemente, o delito acaba não sendo apenas de interesse do sistema legal (Polícia, Ministério Público, Poder Judiciário etc). Veja a situação de um feminicídio. Este crime ocorre quando alguém mata uma mulher por condição do sexo feminino, seja em uma situação de violência doméstica e familiar ou por menosprezar ou discriminar a condição de mulher (conceito que se encontra no artigo 121, §2º-A do Código Penal). Imagine a seguinte situação: um ex-marido não se conformando com o divórcio, vai até a casa da ex-esposa e dispara uma pistola por 3x contra a mulher na frente dos dois filhos de 7 (sete) e 5 (cinco) anos. A mulher é imedia- tamente socorrida e sobrevive, mas fica com dificuldades para se locomover em virtude dos ferimentos. A Criminologia, nesse caso, olharia para a situação e veria uma afetação ampla. Primeiro, a vítima experimentou a dor (física e emocional) de quase ser morta, o delinquente sofrerá as punições devidas, os filhos que presenciaram a situação também serão afetados e a comunidade já sofre com uma alta incidência desse tipo de crime. Ainda, quanto ao delito, a Criminologia passaria a questionar qual seria o método mais eficaz de intervenção e combate ao delito (SHECAIRA, 2014). Vide o caso do álcool que é uma droga lícita (lícita, pois, possui autorização estatal para sua comercialização, diferentemente de outras substâncias) apta a causar dependência e efeitos nefastos para os dependentes. Pense no exemplo do feminicídio acima e adicione a informação de que o autor dos disparos é alcoólatra e isso potencializou a situação. Agora reflita, qual seria a intervenção mais eficaz em um caso como esse? A prisão? O tratamento do alcoolismo do autor? Uma assistência psicológica/psiquiátrica para o autor, vítima e os filhos? Bem, o problema é complexo e exige, igualmente, uma reflexão longa. Perceba que o conceito criminológico de delito possui um olhar mais abrangente para o crime e se afasta daquele conceito do Direito Penal que encara a situação quase de forma matemática (crime = castigo). 11UNIDADE I Criminologia 1.2.2. O criminoso O segundo objeto da Criminologia, será, sem dúvidas, o criminoso ou também cha- mado de delinquente, isto é, o protagonista do fato entendido como crime. Bem, a primeira ideia é que o criminoso é um ser real, complexo e enigmático. Na maior parcela de tempo, o criminoso é um ser absolutamente normal, mas não se pode ignorar que o mesmo possa estar sujeito às influências do seu meio (SHECAIRA, 2014). Isso pode soar estranho, mas o que se quer dizer é que o homem é capaz de se determinar sozinho e, ao mesmo tempo, pode estar sujeito a reprodução de comportamentos do meio em que se encontra. Vou trabalhar com dois exemplos: Exemplo 1: Pense em Welington que mora em uma comunidade extremamente carente com a ausência do Estado que não entrega saúde, assistência social e educação adequada. Wellington está desempregado e sua esposa sai cedo para trabalhar como diarista em um bairro nobre da cidade e ele precisa cuidar dos outros 6 (seis) irmãos. No fim do mês, o dinheiro que sua esposa recebe não dá para comprar sequer a alimentação básica da família. Ao mesmo tempo, o traficante dono do morro está aliciando pessoas para que façam a função de olheiro e avisarem quando a Polícia Militar aparecer para uma operação. Wellington, pai de família, vê que alguns colegas que entraram para o esquema estão levando dinheiro para casa e, assim, decide ingressar na organização criminosa. Perceba neste caso que Wellingtonsabe muito bem o que faz e, ao mesmo tempo, o meio que se encontra (ausência de Estado e uma existência de uma rede criminosa) coexistem. Como resolver essa situação? É mais uma pergunta complexa que você precisa refletir. Exemplo 2: Tomás é um jovem executivo que passou pelas melhores faculdades do mundo como Harvard e Yale estudando economia e administração. Regressou recentemen- te ao Brasil e foi contratado por uma empresa responsável pela venda de ações na bolsa de valores. Ao ingressar na empresa, Tomás percebe que os negócios não são nada lícitos, pois, a empresa cria uma imensa bolha de ações que não existem e as comercializam, isto é, vendem o que não existe. Tomás, sabendo que aquilo é contra as normas legais, decide reproduzir o mesmo comportamento dos demais executivos. Bem, novamente, perceba que Tomás possui consciência de que o que faz é errado e, igualmente, acaba sendo influenciado pelo meio executivo. Os dois exemplos acima retratam criminosos, não é mesmo?! Agora pense o se- guinte: quem é o delinquente preferido do sistema criminal? Seria o “olheiro” do morro ou executivo engravatado? Esta é uma pergunta que a Criminologia vai tentar responder com uma série de problematizações, a saber, como se constrói e/ou escolhe o criminoso? Mais adiante eu retornarei nestas questões. 12UNIDADE I Criminologia 1.2.3. A vítima O terceiro objeto da Criminologia será a vítima. Tal figura, nos últimos dois séculos, foi verdadeiramente abandonada pelo Direito Penal. Há um consenso de que há três mo- mentos do estudo da vítima no campo penal: a “idade de ouro” da vítima; a neutralização do poder da vítima; e a revalorização do papel da vítima (SHECAIRA, 2014). Veja: Quadro 1 - As Fases da Vítima Dentro do Sistema Penal Idade de ouro da vítima Neutralização do poder da vítima Revalorização do poder da vítima Ideia A vítima era protagonista dos estudos criminais. Caso algum criminoso praticasse algum delito, a vítima poderia se vin- gar, bem como, a cole- tividade. A punição era baseada em modelo pri- vado. Com o monopólio Es- tatal do direito de punir, a vítima perde espaço, proibindo que a vítima se vingue do agressor. Até mesmo a legítima defesa possui regras para serem invocados. A punição é baseada em um sistema público (Es- tado). Trata-se do movimento em que insere a ciência da Vitimologia que pre- tende analisar o papel da vítima no fato criminoso. Possui como marco his- tórico o sofrimento expe- rimentado pelos judeus em virtude das atrocida- des cometidas por Adolf Hitler e seus séquitos. Período Primórdios da Civiliza- ção até o fim da Alta Ida- de Média. Baixa idade média até os dias atuais. A partir da II Guerra Mun- dial até os dias atuais. Informações adicionais O declínio desse sistema se deu porque o Estado passou a monopolizar a possibilidade punir, sen- do que a vítima passou a ser apenas o sujeito pas- sivo do delito. Este sistema ainda per- manece vivo nos dias atuais. Evidentemente, a vítima, nos dias atuais, já não é apenas um sujeito passivo, mas é inegável que o Estado ainda fun- ciona como verdadeiro regulador. É importante considerar que o movimento não pretende retornar àquela ideia de vingança priva- da. Por exemplo, como fruto da Vitimologia, a Lei 9.099/95 (Lei dos Juiza- dos) propõe que a vítima seja ressarcida pelos da- nos sofridos. Fonte: a autora. 1.2.4. O Controle social Por fim, a Criminologia vai se preocupar com o Controle Social. O controle social seria aquele que objetiva submeter o sujeito aos modelos e normas comunitárias. Neste sentido, o controle social busca atingir o seu objetivo a partir de dois eixos: a) controle social informal exercido pela família, profissão, opinião pública, escola etc; b) controle social formal exercido pelo o Estado como a Polícia, Ministério Público, Poder Judiciário, Administração Penitenciária e outros (SHECAIRA, 2014). 13UNIDADE I Criminologia 2. DO NASCIMENTO DA CRIMINOLOGIA 2.1. A fase pré-científica As pessoas consumam atribuir como pai da Criminologia, o médico italiano Cesare Lombroso que publicou a sua obra o Homem Delinquente em 1876, sendo suas pesquisas consideradas o marco científico criminológico. Na chamada fase pré-científica, encontra-se uma verdadeira aproximação entre as pseudociências (ou ciências ocultas) como antece- dentes do pensamento criminológico científico (VIANA, 2020). Como primeira manifestação antecedente, pode-se citar a Demonologia que pretendia explicar o mal por meio do demônio. Por ausência de qualquer cientificidade, as pessoas com doenças mentais eram confundidas com endemoniados e possuídos. Além disso, sem qualquer apego à ciência propriamente dita, submetiam as pessoas que eram supostamente possuídas a tratamentos cruéis com base em fogo e gelo. Tais diagnósticos e medidas curativas perduraram até o desenvolvimento da Psiquiatria por Philippe Pinel (VIANA, 2020). Outra vertente pré-científica digna de menção é a Fisionomia que possivelmente é a pseudociência que mais se aproxima do positivismo criminológico que seria proposto por Cesare Lombroso. Como o próprio nome diz, o objetivo da Fisionomia, cujo os principais expoentes são Della Porta (1535-1616) e Johann Kaspar Lavater (1741- 1801), é avaliar a aparência do indivíduo como ponto de conexão entre o físico e o psíquico (VIANA, 2020). O objetivo era identificar perfis de índole criminosa, onde o pesquisador Johann Kaspar 14UNIDADE I Criminologia Lavater esculpiu o denominado “homem de maldade natural” levando em consideração o comportamento humano e o dos animais. Esse homem de maldade natural assim o seria: Esse homem de maldade natural tem o rosto disforme e pequeno; os olhos grandes e ferozes, brilhantes; ao lado dos olhos pequenas manchas de cor amarela e, dentro, pequenos grãos cor de sangue, brilhante como fogo (VIA- NA, 2020). O estudo da Fisionomia se ramificou na Cranioscopia, cujo o desenvolvedor foi Franz Joseph Gall (1758-1828) por volta de 1800. A proposta consistia em medições ex- ternas da cabeça com o objetivo de traçar a personalidade, bem como, o desenvolvimento das faculdades mentais e morais. Posteriormente, a Cranioscopia evolui para a análise do interior da mente, dando origem à Frenologia, precursora das modernas Neurofisiologia e Neuropsiquiatria (SHECAIRA, 2014). Ademais, pode-se citar a Frenologia como antecedente do movimento científico da Criminologia. Essa pseudociência buscava explicar o comportamento delitivo com base no crânio. O comportamento delitivo estaria associado a más-formações cerebrais (OLIVEIRA, 2020). Por derradeiro, vale a pena mencionar a Psiquiatria que surge como ciência a partir do século XVIII com base nas ideias do médico francês Philippe Pinel que é respon- sável pelos primeiros diagnósticos que diferenciavam enfermos mentais e delinquentes, substituindo, consequentemente, o castigo por um tratamento (VIANA, 2020). 2.2. O movimento científico da Criminologia Feitos os aportes acerca da fase pré-científica, vale mencionar as correntes do pensamento filosófico-jurídico que repercutiram tanto sobre o Direito Penal quanto sobre a Criminologia: a Escola Clássica e a Escola Positivista. A Escola Clássica tomava como ponto de partida a racionalidade do homem que tomava como postulado: a) o método racional: transição de um pensamento mágico para um pensamento abstrato; b) normalidade do delinquente: o homem (ser racional) escolheu delinquir e assim, o objeto de análise seria o crime e não o criminoso; c) a irracionalidade do crime: o crime seria incompreensível em virtude do mau uso da liberdade; d) há um enfoque reativo em relação à questão criminal: não se investiga as razões do delito e sim o porquê da reação ao crime, servindo a chamada justiça retributiva (VIANA, 2020). Figuram como grandes nomes dessa vertente, Cesare Beccaria, Francesco Carrara e Giovanni Carmignani.