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3 A ESCOLHA PROFISSIONAL COMO PROCESSO Ao longo da vida várias decisões profissionais são tomadas que impactam na carreira e vida pessoal do indivíduo. A primeira grande decisão ocorre na adolescência, quando O jovem deve decidir qual pro- fissão/ocupação vai seguir. Em geral, a sociedade prepara muito pouco, ou quase nada, adolescente para essa decisão. A família, a escola e a sociedade estão sempre decidindo pela criança e pelo adolescente, impedindo que eles aprendam a lidar com situações de escolha. Entre- tanto, chega um determinado momento em que a família, a escola e a sociedade cobram e exigem do adolescente uma decisão com relação ao seu futuro profissional. O adolescente enfrenta, então, uma dura tarefa, e nem sempre sabe como realizá-la. Escolher uma profissão não é somente decidir O que fazer, mas principalmente, decidir quem ser. Escolher uma ocupação é escolher um estilo de vida, um modo de viver. Raramente adolescentes se dão conta de que essa decisão abrange muito mais do que a escolha de um simples título: enfermeiro, engenheiro, administrador... Quando escolhemos uma ocupação, escolhemos não só uma atividade de tra- balho, mas também tipo de lugar onde trabalharemos, a rotina diária 37Kathia Maria Costa Neiva Processos de Escolha e Orientação Profissional à qual vamos estar sujeitos, ambiente de trabalho do qual faremos Em meio a tal processo se instala, no adolescente, a necessidade de parte, companheiros de trabalho com quais nos relacionaremos, retornos que poderemos obter: salário, prestígio, promoção, etc. A estruturar um projeto profissional. Junto com novos papéis que vão se definindo pouco a pouco, está também de futuro profissional. O análise de todos esses fatores é essencial para que se tome uma decisão processo de identidade vocacional-ocupacionalé parte do processo de identidade madura e consciente. pessoal e está regido pelas mesmas leis e dificuldades deste último. Não se pode compreender um sem analisar O outro. As dificuldades que um QUEM ESCOLHE adolescente apresenta na elaboração da sua identidade pessoal, seja no A escolha profissional ocorre geralmente no período da adolescência, campo sexual, cognitivo, social ou afetivo, refletem-se na elaboração de período esse já conturbado por uma série de mudanças próprias dessa sua identidade vocacional-ocupacional. É muito importante compreen- fase. O termo adolescência, de origem latina, se refere a "crescer", "chegar à der processo como um todo, analisando cada um de seus aspectos. maturidade". A adolescência é caracterizada pelo desprendimento da infân- Bohoslavsky (1998) diferencia a identidade ocupacional da identidade voca- cia e pela entrada progressiva no mundo adulto. Ela é marcada por uma cional. A identidade vocacional constitui a resposta ao porquê e para quê se série de mudanças físicas, cognitivas, afetivas e sociais. Nessa fase, como escolhe uma determinada ocupação. Essa resposta nem sempre é clara e explica Moujan (1986), O adolescente percebe seu corpo como estranho, conhecida pelo adolescente. Muitas vezes ele conhece seus interesses, mas com novos impulsos e sensações, nota mudanças nas suas ideias, metas não as suas raízes. A escolha profissional é fruto de motivos conscientes e e pensamentos, e sente que outros já não O percebem como antes. inconscientes. Já a identidade adquirida quando 0 sujeito define Essas mudanças levam adolescente a reestruturar sua identidade que quer fazer, de que modo e em que contexto. Ela inclui, portanto, um pessoal, a se reconhecer com seu novo corpo, novas ideias e novas re- com quê, um como, um onde, um quando e um à maneira de quem. A identidade lações. Segundo Erikson (1987) sentimento de identidade pessoal se ocupacional é determinada pela identidade vocacional. baseia em duas observações: a percepção da mesmidade e continuidade Considera-se assim que O processo de escolha profissional implica da própria existência no tempo e no espaço e a percepção de que a elaboração de uma identidade vocacional-ocupacional, ou seja, a definição outros reconhecem essa mesmidade e continuidade. No processo de do que fazer, como e onde, e também a compreensão do por quê e para reestruturação da identidade, adolescente tem de separar-se de seus quê dessa decisão. aspectos infantis corpo infantil, mentalidade infantil, relações infantis As identificações que O indivíduo estabelece ao longo da vida contri- com pais e aceitar a perda deles. Este é chamado processo de luto buem essencialmente para a sua identidade pessoal e para a sua iden- do adolescente. O desenvolvimento da nova identidade requer não só a tidade vocacional-ocupacional. Vínculos positivos com pessoas que integração do novo, mas também a separação do velho. Esse processo desempenham determinados papéis profissionais levam O adolescente gera no adolescente uma tendência ao desprendimento, que vem acom- a querer ser como elas. Vemos, como exemplo, 0 adolescente que quer panhada de um temor diante da perda do conhecido. ser médico como tio ao qual é muito ligado desde criança e que admira Segundo Bohoslavsky (1998, 42), a identidade traduz-se: muito, ou aquele que quer ser professor de História como que teve no [...] em uma série de antíteses: sentimento de quem se é e de quem colégio, cujas aulas eram muito interessantes. As figuras parentais são não se é, quem se quer ser e quem não se quer ser, quem se crê que fonte importante de identificação. É muito comum O caso do filho que, deva ser e quem se crê que não deva ser, quem se pode ser e quem muito identificado com a figura paterna, quer seguir a carreira do pai. A não se pode ser, quem se permite ser e quem não se permite ser. vocacional-ocupacional pode ser assim compreendida como 38 39Kathia Maria Costa Neiva Processos de Escolha e Orientação Profissional a autopercepção, ao longo do tempo, em termos de papéis ocupacionais. Algumas vezes ocorrem perturbações na elaboração da identidade Ela é adquirida por meio da integração de diferentes identificações que vocacional-ocupacional. Existem diferentes tipos e graus de transtor- alcançam relativa autonomia. O adolescente passa das identificações nos. É normal e comum adolescente passar por uma desadaptação (ser como os outros) à elaboração da identidade (ser ele mesmo). transitória, uma expressão de sua luta pela identidade, da qual emerge Sempre que escolhemos uma profissão ou ocupação, eliminamos as de- com grau maior de integração. mais. Muitas vezes é difícil escolher, pois escolher requer renunciar algo. O Entretanto, esse período de desadaptação pode prolongar-se e agra- processo de identidade vocacional-ocupacional exige a elaboração de lutos var-se em alguns adolescentes. Perturbações importantes na elaboração específicos por objetos que se deve abandonar. Levenfus (1997a) discute da identidade vocacional-ocupacional são consequências de transtornos alguns desses lutos: pela perda das escolhas profissionais fantasiadas, pela na elaboração da identidade pessoal. Dois tipos de perturbações podem perda dos pais da infância, pela perda do corpo adolescente, pela perda das ser observados: identidades negativas e pseudoidentidades. identificações profissionais que abandona, pela perda do papel e identidade Na identidade negativa adolescente se identifica com objetos ou adolescente. Podemos acrescentar ainda lutos relacionados à vida escolar: aspectos mais indesejados, principalmente pelo grupo familiar. Ele pro- pela perda da escola de ensino médio e da segurança que ela oferece, pela cura ser O contrário do que 0 grupo familiar deseja para ele ou espera perda de professores já conhecidos, pela perda dos colegas que escolhem dele. Por exemplo, se a família espera que adolescente siga a tradição caminhos distintos. A elaboração dos lutos fica facilitada à medida que a familiar, estudando uma carreira de prestígio ou lucrativa, ele poderá decisão profissional vai se integrando à história do adolescente e que a sua não querer estudar, tornar-se um péssimo aluno e chegar até a fracassar, escolha passa a ser mais importante do que a sua renúncia. comportando-se de maneira oposta àquela que pais esperam dele. A elaboração dos lutos se expressa pelos sentimentos e com- Ele se identifica, assim, com valores rejeitados pelo grupo familiar. portamentos. Os sentimentos mais comuns são de tristeza, solidão, A identidade negativa pode surgir também da identificação com perso- ambivalência, culpa, e são observados na capacidade do adolescente nagens ou grupos marginalizados, delitivos. É a chamada identificação com de recordar e recuperar acontecimentos passados, ideias anteriores e agressor. Esse "agressor" externo representa uma característica interna projetos abandonados, integrando-os e vinculando-os a decisões atuais. temida pelo indivíduo. Nesse caso, adolescente decide ser 0 que não Bohoslavsky (1998) considera que processo de elaboração do luto deve ser, 0 que não quer ser e 0 que não se permite ser. passa por três fases: A pseudoidentidade poderia ser considerada como resultado de um 1. Lamentação: fase em que adolescente queixa-se do que não fez ou acordo entre a necessidade de adolescente elaborar sua identidade e de sua situação "se tivesse estudado em outro colégio", "se tivesse melhores obstáculos internos e externos que dificultam esse processo. Nesse caso a escolha profissional é uma máscara. O adolescente escolhe uma condições econômicas"; ocupação ou profissão que outros valorizam (pais, amigos, sociedade), 2. Decepção ou desespero: quando expressa sua impotência diante da situação para mascarar a própria incapacidade de assumir-se como pessoa e de- "não sei como resolver", "a sociedade não me dá garantias sobre 0 futuro"; cidir de maneira autônoma. Por exemplo, um adolescente pressionado pelo grupo familiar para seguir uma carreira universitária, sem a menor 3. Separação: quando passa a exprimir seus verdadeiros sentimentos pelas inclinação para tal, acaba escolhendo-a, mascarando assim a sua dificul- perdas, por aquilo que abandona; quando se permite reconhecer sua dade. Ou um adolescente que, incapaz de decidir-se, escolhe a carreira tristeza e seus medos. que está na ou que é socialmente valorizada. 40 41Kathia Maria Costa Neiva Processos de Escolha e Orientação Profissional É importante ressaltar que tanto a identidade negativa quanto a b) capacidades (13/14 anos): nessa etapa O adolescente introduz a pseudoidentidade podem ter características transitórias. O grave é quan- noção de habilidade nas considerações vocacionais, avaliando-as do um desses processos se instala. A identidade verdadeira pressupõe, nas áreas de interesse; assim, a elaboração e resolução dos conflitos inerentes ao processo de escolha. Ela requer, por parte do adolescente, reconhecimento de seus c) valores (15/17 anos): nesse estágio adolescente incorpora a ideia interesses, a clarificação dos motivos conscientes e inconscientes de suas do serviço à sociedade e desenvolve a perspectiva temporal que preferências, reconhecimento e a aceitação de suas habilidades e seus lhe permite antecipar futuro, especialmente as satisfações e valores, a construção de uma imagem discriminada e autêntica da realidade dificuldades inerentes ao exercício de uma determinada ocupação. profissional e a possibilidade de estabelecer um vínculo satisfatório com Nesta segunda etapa as escolhas são tentativas, refletindo uma a carreira escolhida. autoimagem que sofre mudanças. ETAPAS DO PROCESSO DE DESENVOLVIMENTO 3. Etapa de escolha realista. À medida que conflitos inerentes à crise da adolescência vão se resolvendo e que a autoimagem vai VOCACIONAL se estruturando em bases mais sólidas, adolescente abandona Ginzberg et al. (1951) e Super (1957) propõem distintas etapas e a fase de escolhas tentativas e enfrenta a necessidade de tomar períodos do desenvolvimento vocacional. Para Ginzberg et al. (1951) tal decisões imediatas, concretas e realistas sobre futuro profis- processo pode ser dividido em três grandes etapas: sional. A duração dessa etapa é variável, mas em geral vai dos 18 aos 24 anos. Nessa fase, é significativa a influência da estrutura e dinâmica da personalidade do adolescente, assim como das 1. Etapa de escolhas fantasistas. Esse período, que em geral vai dos 4 aos 10/11 circunstâncias ambientais. Alguns adolescentes enfrentam pro- anos, está ligado às primeiras identificações. Ele é regido pela fantasia, cesso de escolha sem grandes dificuldades, chegando sozinhos por meio da qual a criança assume distintos papéis. Ela pode ser O a uma decisão. Outros enfrentam sérias dúvidas e indecisões e médico ou paciente, professor ou aluno, etc. Ao desempenhar, em acabam necessitando de ajuda profissional para decidir-se. Há seus jogos, distintos papéis, a criança copia formas de comportamento ainda aqueles que, aparentemente, decidem sem maiores proble- observadas nos outros, principalmente nas figuras de identificação. Ela mas, mas acabam por realizar uma pseudoescolha que, às vezes, é vai assim progressivamente elaborando sua autoimagem em termos abandonada anos mais tarde. Só então buscam ajuda profissional profissionais. No final do período realismo é maior. O treinamento para reestruturá-la. escolar a ajuda a descobrir interesses, a aperfeiçoar habilidades, a ex- A etapa de escolha realista é composta de três estágios: perimentar êxitos e fracassos, contribuindo para estabelecimento de a) exploração: adolescente seleciona, entre as várias opções, aquelas um primeiro vínculo com a realidade. que lhe interessam realmente, revisa decisões passadas, compre- 2. Etapa de escolhas tentativas. Esse período vai dos 10/11 aos 16/17 anos ende a importância da decisão e a assume como própria; e se divide em três estágios: b) cristalização: adolescente analisa os diversos fatores que influen- ciam sua escolha, por exemplo: interesses, habilidades, mercado a) interesses (11/12 anos): nessa fase, a escolha do adolescente se baseia de trabalho, duração e custo dos estudos, e afirma sua decisão e quase que exclusivamente no que ele gosta, no que lhe interessa; seu comprometimento com a escolha; 42 43Kathia Maria Costa Neiva Processos de Escolha e Orientação Profissional c) especificação: esta é a fase de delimitação da escolha, do início dos ambíguos e a ansiedade baixa. As defesas são fortes. Ocorre frequen- estudos, da seleção de um emprego ou de uma área de especiali- temente a negação: "Não tenho problemas; os outros é que se preocupam." zação e dos primeiros passos profissionais. Em geral depositam nos pais a preocupação da escolha. É importante destacar que essas três etapas compõem O processo 2. Situação dilemática. O adolescente já percebe a necessidade de escolher. de escolha profissional realizado na adolescência, mas não esgotam Os conflitos são confusos e ambivalentes. O adolescente confunde: processo de desenvolvimento vocacional. Este último, como enfatiza profissões e matérias, emprego e estudo, pais e professores, interesses Super (1953), acompanha as distintas etapas da vida. Para compreendê- e habilidades. Ainda não discrimina bem diferentes aspectos da três outras etapas devem ser consideradas: escolha; ele tem várias opções profissionais, mas não discrimina as 4. Estabelecimento: ocorre na idade adulta e pode ser dividido em duas diferenças entre elas. O nível de ansiedade é moderado. fases: experiência (25-30 anos) e estabilização (31-44 anos); 3. Situação problemática. O adolescente está realmente preocupado. Ele 5. Permanência: corresponde à maturidade (45-64 anos); discrimina melhor, está menos confuso, mas ainda não há integração. 6. Declínio (ou desengajamento): corresponde à velhice e se divide em duas fa- Os conflitos são geralmente bivalentes: "Esta profissão me agrada, mas ses: enfraquecimento (65-70 anos) e aposentadoria (71 anos em diante). não a meus pais." "Gosto desta profissão, mas ela não dá facilidade para este trabalho, mas ele não me interessa muito." O grau de O processo de desenvolvimento vocacional compreende, portan- ansiedade é moderado. to, toda a vida, começando na infância e estendendo-se até a velhice, passando por etapas com características distintas. É geralmente na 4. Situação de resolução. O adolescente se mobiliza para encontrar uma adolescência que se instala processo de escolha profissional propria- solução, elaborar seus lutos, abandonar projetos e tomar uma decisão. mente dito, processo este que, muitas vezes, é reeditado em outros Os conflitos são ambivalentes e combivalentes. São ambivalentes quando períodos da vida: na saída da universidade, quando se escolhe uma se ama e se odeia que se abandona e combivalentes quando se área de especialização, um campo de trabalho, primeiro emprego; passa a integrar esse objeto, que já não se ama nem odeia, mas que em momentos da carreira profissional: mudança de cargo ou emprego, se reconhece. Nessa situação podem ocorrer regressões esporádicas. situação de desemprego e, finalmente, na aposentadoria, quando indi- O adolescente, sentindo a responsabilidade da decisão e sua solidão víduo estabelece novos projetos para a sua vida pessoal e profissional. diante da escolha de seu futuro, abandona momentaneamente a esco- lha já elaborada. Pode-se observar também a expressão da onipotência SITUAÇÕES VIVIDAS POR QUEM ESCOLHE na ideia de querer seguir várias carreiras, uma depois da outra, ou ainda a esquiva das carreiras abandonadas, do colégio abandonado. Tais comportamentos são defesas que adolescente utiliza para lidar Segundo Bohoslavsky (1998), durante processo de escolha profis- com a ansiedade provocada pela situação. sional propriamente dito, adolescente passa por quatro situações, que Assim, para escolher uma profissão, O adolescente passa por dife- se distinguem pelo tipo de ansiedade, defesa e conflito evidenciados em rentes etapas, diferentes situações e diferentes processos. No próximo seu comportamento: capítulo serão discutidos distintos aspectos que devem ser conhe- 1. Situação pré-dilemática. Nessa fase adolescente ainda não se deu conta cidos, analisados e integrados pelo adolescente durante 0 processo de que deve escolher. Ele ainda está muito imaturo. Os conflitos são escolha profissional. 44 454 A ESCOLHA PROFISSIONAL: ASPECTOS A CONHECER, ANALISAR E INTEGRAR Uma escolha profissional madura e consciente requer adquirir, ana- lisar e integrar conhecimentos, desenvolvendo atitudes e habilidades mentais que permitam aprender a decidir. Dois tipos de conhecimento são importantes: O que se refere aos aspectos internos e pessoais de quem escolhe (quem eu sou), e O que se refere aos aspectos externos a quem escolhe (como é a realidade educativa e socioprofissional). CONHECIMENTO DE ASPECTOS INTERNOS Conhecer-se é essencial para escolher uma profissão ou ocupação. Saber quem eu sou e como sou é que permite escolher O que fazer e como fazer. É com processo de autoconhecimento que se constrói uma autoima- gem autêntica, isenta de distorções. Super (1957, 1962) enfatiza a im- portância do desenvolvimento do autoconceito no processo da escolha profissional. À medida que adolescente desenvolve esse autoconceito e alcança a integração de sua personalidade, ele vai formulando aspirações profissionais realistas e compatíveis com a imagem que tem de si mesmo. 47Kathia Maria Costa Neiva Processos de Escolha e Orientação Profissional Para tanto, é imprescindível conhecimento das características pessoais exemplo, muitos adolescentes se consideram tímidos e veem essa carac- (positivas e negativas), das motivações e interesses, das potencialidades terística como negativa. É importante que eles percebam lado positivo e habilidades, dos valores e aspirações, dos conflitos, dos medos e das da timidez e que esta é muito frequente no período da É ansiedades vinculados ao processo de escolha, das expectativas com ela que permite reconstruir a individualidade e unidade necessárias ao relação ao futuro profissional. Esses pontos serão analisados a seguir. processo de identidade. O isolamento buscado pelos adolescentes pro- picia processo de reflexão, reconhecimento e integração de sua nova CARACTERÍSTICAS PESSOAIS identidade. Perceber os aspectos positivos das características negativas, Conhecer as características da personalidade, ou seja, aspectos posi- ou os aspectos negativos de algumas características positivas, facilita tivos e negativos, as qualidades e defeitos, é fundamental para a formação a aceitação e integração das mesmas em uma autoimagem autêntica. da autoimagem. É importante distinguir três diferentes percepções: (1) MOTIVAÇÕES E INTERESSES que eu penso que sou, (2) que eu penso que outros pensam que sou e (3) que outros realmente pensam de mim. Muitas vezes é difícil A motivação é elemento que coloca organismo em movimento. perceber ou reconhecer algumas características, principalmente as nega- É ela que leva indivíduo a fixar objetivos, construir projetos e realizá- tivas. É muito comum um adolescente se descrever como organizado ou -los. Ela se origina das necessidades do indivíduo e se diferencia por alegre, porém, ao refletir sobre como seus pais veem, comentar: "Me meio da relação dinâmica que ele estabelece com meio em que vive. acham bagunçado porque nunca arrumo 0 quarto." Ou: "Dizem que estou sempre Motivação e interesse estão relacionados e são muitas vezes confundidos. de mau humor. "Se vão mais longe e buscam a verdadeira percepção dos A motivação é porquê da conduta, enquanto interesse é a tradução pais, podem encontrar respostas distintas. A percepção, real ou fantasiada da motivação em um objeto concreto. O interesse designa uma "[...] pelo adolescente, de como familiares, professores e amigos veem, correspondência entre certos objetos e tendências peculiares do indiví- contribui significativamente para a formação de sua autoimagem. duo interessado por esses objetos, os quais, desse modo, lhe atraem a O adolescente que, desde criança, percebe por meio dos comentá- atenção e orientam atividade" (PIERON, 1993, p. 292). Os motivos rios de seus pais ou de seus professores, que estes consideram pouco muitas vezes são inconscientes, enquanto os interesses geralmente são capaz, pouco hábil, independentemente de que esse fato seja verdadeiro conhecidos pelo sujeito. ou não, incorporará essa ideia à sua autoimagem. A autoimagem é es- Os interesses ocupacionais evoluem com a idade. Já se observam tabelecida a partir das retroalimentações que adolescente recebe das nas crianças preferências por determinados jogos e atividades. Alguns pessoas que O rodeiam. dos interesses infantis se mantêm e se desenvolvem, outros são aban- Por isso é muito importante distinguir a fantasia da realidade. Muitas donados. Em geral eles se tornam mais claros por volta dos 14-15 anos vezes adolescente imagina ter características que na realidade não possui, e se estabilizam um pouco mais tarde. Em alguns casos eles podem ou vice-versa. Uma autoimagem real e autêntica permite desenvolvi- manifestar-se muito cedo, como interesses artísticos. mento de um nível de aspiração profissional coerente com a mesma. O É muito importante que adolescente conheça e diferencie as ativi- adolescente que tem consciência de suas possibilidades e também de dades que lhe interessam das que não despertam seu interesse. Procurar suas limitações as levará em conta ao estabelecer seu projeto profissional. compreender por que algumas atividades lhe dão prazer e outras não, Algumas vezes adolescente considera como negativas características é essencial. Também é importante distinguir os interesses centrais dos que, vistas de outro ângulo, são tidas como positivas, ou vice-versa. Por interesses complementares. Muitos adolescentes que se interessam por 48 49Kathia Maria Costa Neiva Processos de Escolha e Orientação Profissional uma atividade artística ou esportiva se questionam se querem realizar a fazer um esforço para desenvolvê-la, até 0 ponto máximo permitido essa atividade profissionalmente ou de forma paralela. Examinar a pelo seu potencial. profundidade dos interesses é fundamental para estabelecer prioridades. Bonelli (1989), examinando a relação entre interesses e habilidades, É muito comum encontrar pessoas que, após a dedicação plena a uma considera seguintes casos: atividade profissional, realizam com intensidade uma atividade que por 1. Boa relação entre interesses e específicas. Por exemplo, um jovem muito tempo foi considerada complementar. interessado em seguir Engenharia Mecânica e que possui uma forte É importante considerar que interesses não são estáticos. Os in- habilidade mecânica. teresses estão associados a objetos que podem ser conhecidos ou não, percebidos ou não, pelo sujeito. Ao longo da vida podemos descobrir 2. Interesse alto em uma área para a qual não existe específica. Esses inte- novos interesses e integrá-los aos já existentes. resses geralmente têm caráter compensatório. Por exemplo, um jovem com interesse em Comunicação, mas com forte inibição nessa área. POTENCIALIDADES E HABILIDADES 3. Habilidade superior em atividades que não são objeto de interesse. Por exemplo, É importante distinguir esses dois termos. Um indivíduo nasce com um jovem com grande facilidade para desenho, mas sem interesse potencialidades que podem vir ou não a serem desenvolvidas ao longo da por profissões que requeiram essa habilidade. vida. As habilidades são potencialidades desenvolvidas ou que passaram por algum treinamento. Elas resultam de uma complexa interação entre É muito mais fácil escolher uma profissão/ocupação quando existe a herança do indivíduo e a estimulação do ambiente. boa integração entre esses dois aspectos, mas nem sempre é O que Muitas potencialidades são desenvolvidas desde a infância, enquanto sucede. Nesse caso é necessário avaliar, dentro do processo de decisão, outras podem ficar latentes, em forma potencial, até que indivíduo qual desses aspectos é prioritário para adolescente. Além disso, deve-se tenha a oportunidade de estimulá-las e desenvolvê-las. Muitas pessoas, ter consciência de que as habilidades podem ser desenvolvidas mediante em um dado momento da vida, descobrem uma potencialidade para treinamento, quando O indivíduo se sente motivado suficiente para pintar, escrever ou praticar um esporte e decidem desenvolvê-la. Claro realizar um esforço nesse sentido. que não podemos negar a parte hereditária das habilidades, tampouco VALORES E ASPIRAÇÕES podemos ignorar a importante influência do ambiente no desenvolvi- mento destas. Ao escolher uma profissão é muito importante perguntar-se: "O As habilidades devem ser consideradas no processo de escolha que quero da vida? O que quero da minha futura profissão?" Aqui entra outro profissional e constituem um dado prognosticador para desempe- fator de influência: O sistema de valores do indivíduo. O ambiente em nho na profissão. É muito importante que O adolescente reflita sobre que vivemos contribui substancialmente para a construção de nossos quais são as suas habilidades mais fortes, médias e deficientes. Além valores. Eles são incorporados a partir da sociedade, da classe social, da disso, ele deve ter consciência da possibilidade de desenvolvê-las e da escola, dos amigos e, principalmente, da família da qual fazemos parte. importância de seu esforço nesse sentido. Aqui entra em ação 0 fator Serão apresentadas, em seguida, algumas categorias de valores: interesse. Um forte interesse por uma área, que exija uma determinada valores morais e intelectuais: realização pessoal, desenvolvimento pessoal, habilidade eventualmente deficiente no adolescente, pode impulsioná-lo realização profissional, aprendizagem, cultura, etc.; 50 51Kathia Maria Costa Neiva Processos de Escolha e Orientação Profissional valores altruístas: ajuda, cura, amor ao próximo, etc.; -ocupacional, indivíduo enfrenta a resolução de conflitos, mais graves valores materiais financeiros: dinheiro, estabilidade financeira, conforto ou menos graves. Os conflitos existentes na aquisição da identidade pessoal repercutirão na aquisição da identidade vocacional-ocupacional. material, etc.; A resolução desses conflitos é condição sine qua non para uma identida- valores sociais: status social, prestígio, poder, reconhecimento público, etc.; de autêntica e, consequentemente, uma escolha profissional madura. valores espirituais: felicidade, amor, paz, liberdade, justiça, etc.; Eis, a seguir, alguns tipos de conflito observados frequentemente valores estéticos: beleza, harmonia estética, elegância, etc. no processo de escolha profissional e que dizem respeito à identidade vocacional-ocupacional: Mais uma vez cabe enfatizar que a escolha profissional implica a escolha de um estilo de vida. É importante que a profissão escolhida entre interesses distintos: quando um jovem se interessa por atividades propicie que buscamos na vida, que aspiramos. Para isso temos de profissionais distintas; saber que buscamos. O que é mais importante: ter dinheiro, ter poder, entre interesses e habilidades: quando um jovem se interessa por uma ser culto? Cada pessoa, além de ter valores distintos, atribui diferente importância a eles. Um adolescente, cujo valor principal é dinheiro, profissão, mas não tem desenvolvidas as habilidades necessárias; provavelmente escolherá uma carreira que seja bem remunerada. Ou- entre interesses e valores: quando, por exemplo, principal valor de tro, que tenha fortes valores altruístas, é bem possível que escolha uma um jovem é O econômico e ele se interessa por uma profissão cuja profissão que lhe permita ajudar, cuidar ou curar próximo. remuneração é baixa; Outro aspecto a ser considerado é nível de aspiração que cada um estabelece em sua vida pessoal e profissional. Esse nível se baseia nas entre a escolha do adolescente e os desejos da família: quando, por exemplo, possibilidades e limitações do indivíduo. Conhecer as características um jovem se interessa por uma profissão que é desvalorizada ou pessoais, interesses, habilidades e valores permite estabelecimento não aceita pela família, ou quando se interessa por duas profissões, de um nível de aspiração compatível com a realidade. As pessoas que sendo que uma representa O desejo do pai e outra desejo da mãe; têm um nível de aspiração muito alto para suas habilidades certamente passarão sua vida insatisfeitas e frustradas por não alcançarem as metas entre a imagem idealizada que 0 adolescente tem de si mesmo e a imagem real: a que se propõem. As que estabelecem um nível de aspiração inferior quando a imagem idealizada que O adolescente tem de si mesmo é às suas possibilidades provavelmente se verão acomodadas, estagnadas muito distinta da realidade, como no caso de um adolescente que se e muitas vezes insatisfeitas. Esse tipo de pessoa, geralmente, tem pouca vê em condições de passar no vestibular para Medicina e ter êxito confiança em si mesmo, que impede de aspirar mais alto. nesse curso, mas seu histórico acadêmico mostra dificuldades O desenvolvimento de uma autoimagem autêntica é imprescindível importantes na área escolar. para O estabelecimento de um nível de aspiração compatível com ela. Todo conflito gera ansiedade e nem sempre se consegue resolvê-lo FONTES DE ANSIEDADE: CONFLITOS E MEDOS sozinho. Frequentemente é preciso ajuda profissional para solucioná-lo. Pieron (1993, p. 106) define conflito como "estado do organismo O adolescente pode apresentar, no decorrer do processo de escolha submetido à ação de motivações Durante processo profissional, várias fantasias e temores que constituem fontes de ansie- de escolha profissional e desenvolvimento da identidade vocacional- dade (DUARTE apud BOHOSLAVSKY, 1998, p. 80-81): 52 53Kathia Maria Costa Neiva Processos de Escolha e Orientação Profissional referentes à autoimagem: sentimentos de impotência, onipotência, de- Outro aspecto relevante é que diz respeito às fantasias do adoles- pendência, desvalorização, insegurança, etc.; cente em relação às profissões de sua preferência e à sua vida profissional futura. A sociedade, a mídia e as pessoas que nos circundam são fontes de referentes à escola de ensino médio: dificuldade em discriminar matéria- informação sobre a realidade profissional. Essas informações são, muitas -professor, matéria-profissão ou matérias de que mais gosta das vezes, estereotipadas e distorcidas. A partir delas construímos nossas matérias que tem mais facilidade, medo de não poder suportar a fantasias sobre as profissões, sobre mercado de trabalho e finalmente separação dos colegas, medo do despreparo acadêmico, etc.; sobre O nosso futuro profissional. Tais fantasias são também fruto de referentes à vida universitária: medo de não passar no vestibular, de ser nossas necessidades internas e de nossos desejos. É essencial examiná-las brado em excesso, de não ter um desempenho acadêmico satisfatório, e contrastá-las com a realidade, para evitar distorções e ilusões falsas. de não se adaptar ao ambiente universitário, de não se graduar, etc.; Conhecer, organizar e integrar vários elementos discutidos anterior- mente constitui uma etapa importante do processo de escolha profissional, referentes ao futuro profissional: medo de fracasso e erros no exercício da que propicia O estabelecimento de critérios pessoais, para a tomada de profissão, medo de ser um profissional medíocre, medo de aborrecer- uma decisão. Para isso adolescente deve relacionar seus aspectos inter- -se, frustrar-se, medo da rivalidade, da inveja, etc. nos (interesses, habilidades, valores, etc.) com as condições de trabalho Essa última fonte de ansiedade será analisada com mais detalhes a seguir. na realidade concreta. Assim, é essencial que ele defina seus critérios de escolha profissional tomando como referência OS seguintes aspectos: EXPECTATIVAS RELACIONADAS AO FUTURO PROFISSIONAL 1. Ambiente de trabalho O futuro é incerto. Por mais que tentemos fazer previsões, a rea- Onde quer trabalhar: escola, hospital, empresa, fábrica, restaurante, lidade não nos dá garantias. Não podemos garantir nem que seremos hotel, etc. mesmos nem que a realidade profissional O será. Ninguém pode saber exatamente O que sucederá dentro de quatro, cinco anos, ou até Em que tipo de ambiente de trabalho: interno, externo, cooperativo, com- petitivo, formal, informal, etc. menos. O adolescente, ao escolher sua futura profissão, tem de convi- ver com essa incerteza e aprender a suportá-la. Ele constrói uma série 2. Objetos/ conteúdos de trabalho de expectativas em relação ao futuro profissional, que podem ser, por Com 0 que quer trabalhar: pessoas, animais, números, máquinas, ins- exemplo, de êxito, de sucesso, mas também de fracasso e de dificuldades. trumentos... matemática, química, biologia, história, etc. Os medos e incertezas são muitos e O levam a vários questionamentos: 3. Atividades de trabalho "Serei capaz de entrar neste curso universitário e de cursá-lo?" "Encontrarei emprego facilmente?" "Serei um profissional competente?" "Me realizarei nesta profissão?" Fazendo 0 que e como: contatos, vendas, escrever, criar, desenhar, pesqui- "Terei 0 retorno financeiro que desejo?" sar... com risco, com autonomia, dirigindo, obedecendo a ordens, etc. Conhecer as expectativas e medos, assim como projetar possíveis 4. Rotina de trabalho dificuldades e formas de solucioná-las, ajuda a suportar a incerteza e a ambiguidade inerentes ao futuro e aceitar melhor riscos inerentes a Como quer viver a rotina de trabalho em termos de: horário, ritmo, deslo- qualquer escolha. camentos físicos, viagens, etc. 54 55Kathia Maria Costa Neiva Processos de Escolha e Orientação Profissional 5. Retornos do trabalho b) concomitante, no mesmo estabelecimento de ensino ou em insti- tuição de ensino distinta; que quer obter com 0 trabalho: realização profissional, cultura, poder, prestígio, dinheiro, etc. c) subsequente, oferecida a quem já tenha cursado O nível médio. O estabelecimento desses critérios é muito importante para a elabo- A Resolução CNE/CEB n° 04/1999 institui as Diretrizes Curricula- ração de uma escolha madura e consciente, mas não é suficiente. Entra res Nacionais para a Educação Profissional de Nível Técnico (BRASIL, aqui um complemento importante do processo de escolha da profissão: 1999) e a Resolução CNE/CEB n° 04/2012 traz a atualização mais conhecimento da realidade educativa e socioprofissional. recente do Catálogo Nacional de Cursos Técnicos de Nível Médio CONHECIMENTO DE ASPECTOS EXTERNOS: (BRASIL, 2012). A nova versão do catálogo inclui 220 cursos distribu- ídos em treze eixos tecnológicos. REALIDADE EDUCATIVA E SOCIOPROFISSIONAL 3. Educação profissional tecnológica de graduação e de pós-graduação. O conhecimento de dois aspectos externos deve ser estimulado: realidade educativa e realidade socioprofissional. A educação profissional de graduação está dividida em: a) Cursos superiores de tecnologia CONHECIMENTO DA REALIDADE EDUCATIVA BRASILEIRA Os cursos superiores de tecnologia abrangem diversos setores da Com relação à realidade educativa é importante que 0 adolescente economia, oferecendo uma formação direcionada para a aplicação, de- conheça vários níveis de formação existentes na estrutura educa- senvolvimento e difusão de tecnologias e para a gestão de processos de cional brasileira. De acordo com O Decreto n° 5.154, são três níveis produção de bens e serviços. O Parecer CNE/CES n° 277/2006 traz a de educação profissional, existentes na atual legislação brasileira nova forma de organização da Educação Profissional e Tecnológica de (BRASIL, 2004): Graduação (BRASIL, 2006a) em eixos temáticos. O Catálogo Nacional 1. Formação inicial e continuada de trabalhadores dos Cursos Superiores de Tecnologia foi implantado pelo Decreto n° Os cursos que se incluem nesta formação objetivam a qualificação 5.773, de 9 de maio de 2006 (BRASIL, 2006b). para trabalho e a elevação do nível de escolaridade do trabalhador. A última versão do catálogo lançada em 2010 apresenta denomina- ções, sumário de perfil do egresso, carga horária mínima e infraestrutura 2. Educação profissional técnica de nível médio recomendada de 112 graduações tecnológicas organizadas em treze eixos A articulação entre a educação profissional técnica de nível médio e O (BRASIL, 2010): 1) Ambiente e Saúde; 2) Apoio escolar; 3) Controle e ensino médio pode ocorrer de três formas, de acordo com a Resolução Processos Industriais; 4) Gestão de Negócios; 5) Hospitalidade e Lazer; CNE/CEB 1/2005 (BRASIL, 2005): 6) Informação e Comunicação; 7) Infraestrutura; 8) Militar; 9) Produção a) integrada, ou seja, no mesmo estabelecimento de ensino e com Alimentícia; 10) Produção Cultural e Design; 11) Produção Industrial; matrícula única; 12) Recursos Naturais; 13) Segurança. 56 57Kathia Maria Costa Neiva Processos de Escolha e Orientação Profissional b) Cursos de graduação: bacharelado, licenciatura e específicos. ORGANOGRAMA DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL BRASILEIRA Os cursos de graduação preparam para uma carreira acadêmica ou profissional podendo estar ou não vinculados a conselhos es- Formação inicial e continuada de trabalhadores pecíficos. São mais tradicionais e conferem diploma com grau de Bacharel (ex.: Bacharel em Física), Licenciado (ex.: Licenciado em Educação Física), ou título específico referente à profissão (ex.: Médico). O grau de Bacharel ou título específico referente Educação profissional técnica de nível médio à profissão habilitam portador a exercer uma profissão de nível superior; de Licenciado habilita portador para O magistério no ensino fundamental e médio. A Resolução CNE/CES n° 02/2007 dispõe sobre duração e procedimentos de integralização dos cursos Educação profissional tecnológica de graduação de bacharelado (BRASIL, 2007a). A Resolução CNE/CES n° 1/2001 (BRASIL, 2001) estabelece as normas de funcionamento da educação profissional de pós-graduação, que é dividida em: Bacharelado Superior de Licenciatura Tecnologia Cursos de pós-graduação lato sensu: São cursos de especialização que têm como objetivo aprimoramento acadêmico e profissional, com duração mínima de 360 horas. Nessa categoria se incluem cursos de especialização e aqueles designados como MBA Pós-Graduação (Master Business Administration) ou equivalentes. Os cursos de pós-graduação lato sensu são abertos a candidatos diplomados em cursos de graduação ou demais cursos superiores e exigem a rea- Stricto Sensu Lato Sensu lização de um Trabalho de Conclusão de Curso ou Monografia. A Resolução CNE/CES n° 01/2007 (BRASIL, 2007b) estabelece as normas de funcionamento de cursos de pós-graduação lato sensu, em nível de especialização. Mestrado Especialização, MBA, Residência Médica Cursos de pós-graduação stricto sensu: Compreendem programas de mestrado e doutorado e se destinam àqueles profissionais interes- sados em atuar na área acadêmica, no ensino superior e na pesquisa. A emissão de diploma de pós-graduação stricto sensu exige a defesa Doutorado de dissertação ou tese. Em seguida, apresenta-se organograma da educação profissional na atual realidade brasileira. 58 59Kathia Maria Costa Neiva Processos de Escolha e Orientação Profissional CONHECIMENTO DA REALIDADE SOCIOPROFISSIONAL BRASILEIRA Além disso, a internet permite acesso a vários websites que dispo- número de ocupações existentes alcança cifras importantes. A nibilizam informação sobre profissões, cursos e instituições de ensino. O Alguns deles trazem vídeos com depoimentos de profissionais de dife- Classificação Brasileira de Ocupações, documento que reconhece, nomeia e codifica títulos e conteúdos das ocupações do mercado rentes áreas. Segue abaixo alguns sites em funcionamento na atualidade, com a ressalva de que alguns deles podem não mais estar ativos no de trabalho brasileiro, contabilizava em 2002 (última versão publicada): momento da leitura deste livro: 596 famílias ocupacionais, em que se agrupam 2.422 ocupações e cerca de 7.258 títulos sinônimos (BRASIL, 2002). Desde então, certamente http://guiadoestudante.abril.com.br surgiram várias outras ocupações qua ainda não foram catalogadas. http://www.oestudante.com.br Não se pode escolher sem conhecer muito bem as possibilidades de http://www.liop.ufsc.br escolha que nos são oferecidas. Em primeiro lugar é de extrema impor- tância saber quais profissões existem. Algumas publicações existentes http://www.vestibular1.com.br/carreiras no mercado trazem informações sobre profissões, cursos, universidades e mercado de trabalho. Levenfus (2005) traz uma informação básica sobre várias profissões e é um material que tem como objetivo dar suporte ao orientador na fase de informação profissional. A Editora Abril publica periodicamente vários guias, entre eles: Guia do estudante: profissões que proporciona uma informação breve sobre profissões/cursos de nível superior, existentes na realidade brasileira; Várias instituições de ensino médio e superior trazem, também em Guia do estudante: educação à distância, que relaciona os cursos de gradu- suas home pages, guias de informação profissional. Novos sites aparece- ação à distância; Guia do estudante: pós-graduação & MBA, que informa rem a cada dia, enquanto outros são desativados. Portanto, uma breve sobre vários programas de pós-graduação. Esta editora publica ainda pesquisa com termo "guia de profissões" permite acesso à lista de a Revista Você S/A que traz pesquisas e matérias atuais sobre mercado sites que contemplam informação profissional. de trabalho e carreira. É importante que adolescente disponha de um mínimo de A Editora Segmento também publica vários guias de informação conhecimento sobre as profissões existentes ou pelo menos saiba qual é profissional, como: Guia de Ensino Técnico, Anuário Fera: Vestibular & a atividade principal de cada uma delas. Esse conhecimento mínimo lhe Carreiras, Guia de Cursos Superiores Tecnólogos, Guia de pós-graduação & permitirá eliminar algumas delas e motivar-se para aprofundar a infor- MBA, Guia de Educação à Distância. mação sobre aquelas de maior interesse. O conhecimento mais profundo Com relação aos Cursos Técnicos MEC lança, sistematicamente, das profissões de maior interesse deve abarcar os seguintes pontos: Catálogo Nacional de Cursos Técnicos de Nível Médio, sendo a.última objetivos da profissão; versão lançada em 2012. O mesmo acontece com Catálogo Nacional dos Cursos Superiores de Tecnologia, cuja última versão é de 2010. objetos de trabalho; Ambos podem ser acessados via internet no portal do MEC. atividades específicas (permanentes e ocasionais); 60 61Kathia Maria Costa Neiva Processos de Escolha e Orientação Profissional ambiente e rotina de trabalho; Finalmente, adolescente deve buscar um nível ainda mais profundo mercado de trabalho: quem emprega, oferta demanda de emprego, de informação sobre aquelas profissões que mais lhe interessam por meio faixas salariais, etc.; de entrevistas com profissionais e estudantes, assim como visitas a locais de trabalho e instituições de ensino. São estes últimos procedimentos retornos da profissão; que propiciam obter informações específicas e respostas a questões áreas de trabalho; pessoais. Deve-se evitar entrevistar um só profissional de cada área ou competências necessárias para esta profissão. visitar uma única instituição. Recolher opiniões variadas, impressões distintas e conhecer diferentes realidades profissionais e institucionais Além disso, é importante que jovem pesquise sobre a formação é que permite formular uma opinião própria sobre as profissões e ins- necessária para exercício das profissões de seu interesse, assim como as instituições de ensino que a oferecem. Para cada uma das profissões tituições educativas. A internet também é uma ferramenta que facilita enormemente essa tarefa. Pode-se buscar profissionais, entrevistá-los, cogitadas, é necessário saber: participar de chats ou consultar a home page das instituições educativas tipo de formação (curso técnico, tecnológico, graduação plena); para conhecer os cursos oferecidos, currículo dos cursos e a proposta instituições de ensino que oferecem O curso; pedagógica. proposta pedagógica e estrutura curricular de cada instituição de Esse contato com a realidade permite corrigir informações distorcidas, desmitificar as fantasias e perceber limitações ensino; e dificuldades, assim como vantagens e desvantagens das profissões e, duração do curso; principalmente, tomar consciência de que nenhuma profissão preenche turnos em que O curso é oferecido; completamente nossos critérios e requisitos. Temos de ser realistas e conscientes para encontrar a profissão que mais corresponda à nossa processo seletivo (concorrência, exigências); pessoa, à nossa forma de ser e ao que esperamos de nossa vida futura. qualidade do curso (reconhecimento, avaliações MEC, notas ENA- Mas, é importante levar em conta que O projeto profissional é passível DE e outras); de reformulações, tanto em função de mudanças pessoais como de infraestrutura oferecida pela instituição de ensino para curso (la- mudanças na realidade socioprofissional. Aliás, ao longo da carreira boratórios, salas, equipamentos); profissional, reformulações e transições são cada vez mais frequentes. Em geral adolescentes têm muito pouca consciência do que é estágio (carga horária, exigências...); importante conhecer, analisar, elaborar e integrar para chegar a uma nível de exigência do curso; decisão consciente e madura. Mesmo assim, a grande maioria, bem ou mal, acaba decidindo sozinha futuro profissional. Muitos adolescentes, áreas de especialização. entretanto, enfrentam sérias dificuldades para tomar uma decisão. Tais informações permitirão ao adolescente comparar as profissões As fortes mudanças na situação socioeconômica mundial, nos pro- e identificar aquela(s) que mais corresponde(m) a seus critérios pesso- cessos de industrialização e globalização têm provocado um aumento ais de escolha. A análise das instituições de ensino também permitirá considerável nas taxas de desemprego e, consequentemente, maior selecionar para quais instituições se candidatará. incerteza quanto ao futuro. Isso tem levado jovens a se deparar com 62 63Kathia Maria Costa Neiva uma grande contradição entre sistema de valores que lhes é transmitido pela geração adulta e a realidade socioprofissional que observam. De um lado, absorvem dessa geração a ideia de que O diploma universitário é muito importante e constitui a única saída para competir na sociedade e de outro constatam a existência de um grande número de profissionais 5 com nível superior, desempregados ou subempregados. Assim, eles se perguntam se é realmente necessário ter um diploma universitário e se este tem algum valor. Além disso, valores que costumavam ser atribuídos a determinadas profissões estão sendo questionados. Por exemplo, a Medicina, profissão tida como liberal, prestigiosa e bem remunerada pela geração adulta, está INFLUÊNCIA E PAPEL DAS sendo percebida hoje pelos jovens de forma distinta. O médico passou a ser um empregado das instituições e a ter a necessidade de contar com INSTITUIÇÕES NA ESCOLHA dois ou mais empregos para poder ter um salário razoável. A concepção de carreira profissional também mudou, assim como PROFISSIONAL: FAMÍLIA, GRUPO a responsabilidade pelo seu gerenciamento. Anteriormente, a carreira DE PARES, INSTITUIÇÃO DE era vista como uma estrutura pré-determinada, relativamente estável e previsível e passos e progressos na carreira dependiam primordial- ENSINO E SOCIEDADE mente do empregador. Na atualidade, a carreira passou a ser considerada como um projeto em constante construção, vinculado ao projeto de vida do indivíduo. A carreira está sujeita a instabilidades, mudanças e transições. Lidar com a imprevisibilidade requer do sujeito flexibilidade, A escolha profissional é uma tarefa que O indivíduo realiza dentro de adaptabilidade e amplo conhecimento de suas competências, pois seu sua realidade social e que, portanto, sofre influência das instituições que progresso vai depender essencialmente do gerenciamento que faz de a compõem: a família, O grupo de pares (amigos), a escola e, finalmente, sua carreira (RIBEIRO, 2009). a própria sociedade que, por sua vez, controla e influencia as relações Tais mudanças têm dificultado cada vez mais processo espontâneo entre as distintas instituições. Será analisado, em seguida, O papel dessas de decisão profissional e levado os jovens a buscar ajuda em processos instituições no processo de escolha profissional do adolescente. sistemáticos de orientação profissional. O papel da família, da escola e da sociedade na facilitação desse processo será discutido no próximo capítulo. A FAMÍLIA Durante a adolescência, período de reelaboração da identidade pes- soal, as relações familiares se modificam. O adolescente abandona pouco a pouco sua relação infantil com pais e aspira ser admitido e tratado como igual, com personalidade própria. Buscando ser independente, questiona OS valores e as normas familiares e põe em dúvida a infalibi- 64 65Kathia Maria Costa Neiva Processos de Escolha e Orientação Profissional lidade dos pais, apontando suas falhas e incoerências. As mudanças do bem-sucedido, se identifique com sua forma de ser e O admire como adolescente provocam diferentes reações nos pais, que veem a necessi- profissional, certamente construirá uma representação positiva desta dade de aceitar seus limites, seu envelhecimento e a futura perda do seu profissão e poderá vir a interessar-se por ela. poder sobre filho. Além disso, sentem a necessidade de revisar seus A família pode assumir diferentes posições no processo de escolha valores, suas concepções e suas interpretações da vida. As mudanças profissional do adolescente: nas relações familiares podem ser fontes de conflito quando pais não se mostram propensos a compreender O processo de crescimento do PRESSIONADORA filho e a reconhecer a sua nova identidade. Nesse tipo de família existe uma pressão de algum dos membros para Dentro do processo de reelaboração da identidade pessoal estrutura- que O jovem escolha ou não determinada profissão. Essa pressão pode -se a identidade vocacional-ocupacional. A família contribui de dis- ser de um ou de ambos pais, avós, irmãos ou até outros parentes. tintas maneiras para a formação dessa identidade. Seus membros são Pode ser direta ou indireta, consciente ou inconsciente. Nesse tipo de importantes fontes de identificação para O adolescente, principalmente família O adolescente é usado como depositário de desejos, aspirações as figuras paternas. O jovem pode incorporar O positivo ou O negativo ou frustrações dos pais e às vezes até de gerações anteriores (avós). dos modelos profissionais existentes na família; pode desejar seguir a Com frequência encontramos pais que sugerem diretamente que O filho carreira do pai, ter prestígio do tio ou dinamismo da mãe, como siga sua profissão considerando que assim poderão ajudá-lo a ingressar pode também rejeitar modelos profissionais familiares, seguindo no mercado de trabalho e abrir portas para seu futuro profissional. um caminho oposto. Os valores familiares transmitidos ao adolescente Isso ocorre muito quando um dos pais é profissional liberal (médico, também influenciam profundamente a decisão. A escolha profissional advogado, dentista, etc.) ou quando possui algum negócio (comércio, pode incluir esses valores ou expressar a rejeição deles. empresa, fábrica, etc.), pois vê a possibilidade de O filho dar continuidade A própria problemática vocacional dos membros do grupo familiar ao seu projeto profissional. Nessa situação é comum a pressão direta pode afetar a escolha profissional do adolescente, pois com frequência dos pais, com frases do tipo: "Se você fizer medicina como eu fiz, toda os filhos são depositários das aspirações e frustrações familiares. Durante a minha clientela... "A fábrica tem que ficar na família, logo é melhor você fazer O processo de escolha profissional do filho, pais revivem conflitos vividos por eles próprios nessa fase de suas vidas. Entretanto, nem sempre a pressão é direta. Existem muitas famílias Dependendo de como viveram e resolveram essa situação poderão que inconscientemente influenciam projetos profissionais dos filhos, assumir diferentes posições diante da problemática de escolha do filho exprimindo constantemente mensagens ambíguas: de um lado dizem (DIAS, 1995). Por isso é importante analisar a relação do jovem com seus que apoiam qualquer decisão do adolescente e, de outro, expressam pais e as expectativas da família com relação ao seu projeto profissional. sutilmente seus desejos e expectativas com relação ao futuro profissional Vale ressaltar ainda, que as representações que jovem tem das dele. Muitos pais querem resgatar, por intermédio dos filhos, projetos profissões exercidas pelos membros da família (pais, avós, tios, primos) profissionais não realizados ou abandonados (SOARES, 2002a). Por podem influenciar sua escolha, tanto positiva quanto negativamente exemplo, um pai que não pôde cursar engenharia, pois não teve condi- (LUCCHIARI, 1997). Essas representações são influenciadas pelas ções financeiras para estudar em uma universidade, pode desejar que seu relações que ele estabelece com seus familiares, que são figuras poten- filho realize O projeto que não conseguiu cumprir e inconscientemente ciais de identificação. Um jovem que goste muito de seu tio, engenheiro influenciá-lo para que tome essa decisão. 66 67Kathia Maria Costa Neiva Processos de Escolha e Orientação Profissional Pode ocorrer ainda de um membro da família ser depositário do adolescente suas ideias, suas dúvidas, suas preocupações e expectativas. sintoma do grupo e constituir-se no "bode expiatório", carregando Ajuda-o a buscar informação profissional e motiva a participar de um conflito familiar e buscando solucioná-lo pela escolha profissional processo de orientação profissional, caso perceba que ele necessite. É (DIAS, 1995). Por exemplo, analisemos caso de uma família cujo pai aquela que respeita O adolescente e permite que ele elabore uma decisão foi assassinado em um assalto, quando filhos eram ainda crianças, madura e autônoma. que gerou muito sofrimento a todos seus membros. O filho mais Os dois primeiros tipos de família contribuem negativamente para O velho, ao entrar na adolescência, começou a pensar em estudar direito, processo de identidade vocacional-ocupacional do adolescente, podendo sendo incentivado pela mãe, pelos avós e pelos irmãos, constituindo- -se assim depositário do sintoma familiar. Às vésperas do vestibular levá-lo à elaboração de uma pseudoidentidade vocacional-ocupacional ou de uma identidade negativa. No caso da pseudoidentidade, a escolha entrou em crise, alegando medo de não se sair bem na profissão e seu pouco interesse pela leitura. Até então ele não havia tomado consciência do adolescente tem como objetivo agradar a família respondendo aos seus desejos e expectativas e, na identidade negativa, confrontá-la. Toda de quanto a família depositava nele a necessidade de fazer justiça pela morte violenta do pai. O projeto dos pais com relação aos filhos, com família deve avaliar a sua participação no processo de escolha profissional do adolescente. É importante pensar que O adolescente necessita ser frequência expressa desejos contraditórios, pois querem que "ao mes- mo tempo perpetuem a sua história e afirmem a sua individualidade" ajudado pela família e considerá-la como um espaço em que ele possa (SOARES, 2002a, p. 77). discutir sobre seus desejos, inquietudes, medos, expectativas e necessi- dades próprias do momento que atravessa. AUSENTE Por outro lado, todo adolescente deve tomar consciência do papel real É a família que não se interessa nem participa do processo de de- que sua família está desempenhando em seu processo de decisão pro- fissional. É frequente encontrar adolescentes cujo processo de decisão cisão do adolescente. Em geral se ausenta não só desse processo, mas está sendo influenciado pela fantasia que têm com relação à profissão de muitos outros da vida do adolescente. Não O pressiona, tampouco facilita ou participa de sua decisão. É importante ressaltar que esse tipo que seus pais gostariam que eles seguissem. Por isso, é necessário que existam discussões familiares sobre problema, e que sejam esclarecidas de reação familiar gera um sentimento de abandono no jovem, que as posições e percepções de cada um dos membros da família. necessita sentir desejos dos pais. Levenfus e Nunes (2010), em pesquisa feita com jovens sobre Na atualidade, as famílias devem estar atentas, pois a vida se tornou muito corrida, muitos pais têm rotinas de trabalho extenuantes e com principais temas abordados durante O processo de orientação profissio- nal, constataram que a influência dos pais é um tema muito frequente. frequência seus membros se isolam, cada um no seu quarto, no seu Os jovens, em geral, percebem uma influência ativa dos pais, que nem computador ou na sua televisão. Muitas famílias nem conseguem fazer sempre aparece sob a forma de indicação de profissões, mas muitas uma refeição juntas. Com isso se tornam raros OS momentos de diálogo, troca e interação familiar. vezes retrata O desejo de serem bem-sucedidos, trabalhando em grandes empresas e desfrutando de estabilidade. FACILITADORA É necessário também ressaltar O papel dos pais na aprendizagem do processo de decisão. Saber decidir requer treinamento e aprendiza- É a família que, sem pressionar, participa do processo de escolha gem, que devem começar muito cedo, na infância. Infelizmente, esse profissional do jovem. Ela está aberta e disponível para discutir com treinamento é pouco, ou quase nunca, realizado em nível familiar. Com 68 69Kathia Maria Costa Neiva Processos de Escolha e Orientação Profissional frequência, são pais que decidem pelos filhos: a roupa que vão vestir, A INSTITUIÇÃO DE ENSINO as atividades sociais que irão realizar, amigos que lhes convêm ter, cursos que deverão fazer, etc. São escassas as oportunidades pro- A instituição de ensino tem grande participação e responsabilidade porcionadas à criança de decidir e, consequentemente, de realizar uma no processo de escolha profissional de seus alunos. Em primeiro lugar aprendizagem do processo de decisão. Os pais acreditam que, tendo será analisado papel dos professores no processo. Estes, além de serem uma maior experiência, podem tomar decisões mais corretas para seus fontes importantes de identificação para seus alunos, contribuem na filhos. Esquecem que, com essa atitude, impedem que eles tenham transmissão de informação sobre a realidade socioprofissional. suas próprias experiências e que possam servir-se delas para aprender O desenvolvimento de interesses e de potencialidades está, em grande a decidir. É importante também pensar que, para muitos pais, permitir parte, associado à relação que alunos estabelecem com as disciplinas es- que seu filho tome determinadas decisões, pode ser vivenciado como tudadas ao longo do processo educativo e com seus respectivos professores. muito ameaçador em diferentes sentidos. Seus medos podem estar A figura do professor, sua relação com seu trabalho e O relacionamento representados em indagações do tipo: "E se a decisão dele não for a decisão que ele estabelece com aluno exercem grande influência no processo correta?" "E se ela não estiver de acordo com 0 que penso?" "E se daqui para frente de escolha profissional. É comum escutar de adolescentes frases do tipo: ele não precisar mais me consultar ao tomar suas decisões, para que eu vou servir?" "Detesto Química porque não suporto 0 professor" ou "Não vou bem em Física porque 0 professor ensina muito mal", como também "Comecei a interessar-me por Matemática GRUPO DE PARES depois que tive um professor que era muito bom e cujas aulas eram muito interessantes". A influência do grupo de pares e de seus valores pode chegar a ser O professor contribui ainda para a formação da autoimagem de cada mais imperativa que a do próprio grupo familiar. O grupo de pares aluno, pois constantemente emite opiniões e feedbacks com relação ao se reveste de grande importância para O adolescente que, em geral, se comportamento, aos interesses, habilidades, competências e atitudes de seus submete às suas normas, por receio de ser sancionado ou excluído. alunos. Muitos são jovens que se distanciam de uma área ou profissão Esse grupo permite dividir muitas inquietudes e medos do adolescen- por conta de um feedback negativo recebido de um professor: "Nem posso te com relação ao futuro, além de facilitar a troca de informação sobre mais pensar em fazer Direito pois meu professor me disse que sou péssimo em redação a realidade socioprofissional. Entretanto, ele também pode contribuir e que não vou conseguir Em contrapartida, OS feedbacks positivos negativamente, quando não permite ao adolescente manter sua própria desenvolvem a autoestima e autoconfiança e ajudam O jovem até a identifi- individualidade e desenvolver-se de forma autônoma. Este é O caso do car possíveis interesses: "Comecei a pensar em Jornalismo depois que professor adolescente que acaba escolhendo O que grupo escolhe, para acompa- elogiou a minha capacidade de organizar minhas ideias e a criatividade dos meus textos". nhar seus companheiros. Ele teme que, ao diferenciar-se em sua escolha Os professores também são fontes de informação sobre a realidade profissional, possa ser abandonado pelo grupo. Também é importante socioprofissional. Por meio dos conteúdos programáticos que ensinam, examinar a relação entre O grupo de pares e grupo familiar. Tal relação transmitem informações sobre processos sociais, relações de produção, é positiva quando existe integração, ou seja, quando ambos compartilham sistemas de trabalho, profissões e ocupações, mercado de trabalho, etc. mesmos valores. É negativa quando valores dos dois grupos são A quantidade e qualidade dessas informações são sua responsabilidade. contraditórios ou opostos, O que provoca uma dissociação da própria Além disso, na transmissão dessas informações, passam também seus identidade do adolescente, por identificar-se com dois grupos que não valores pessoais e da própria sociedade em que vivem, contribuindo consegue integrar. assim para a formação dos valores do adolescente. 70 71Kathia Maria Costa Neiva Processos de Escolha e Orientação Profissional Nesse sentido, é essencial que professores reflitam sobre como e alunos analisarem O problema de indisciplina de forma distinta. Eles quanto estão contribuindo para O processo de escolha profissional de passariam a estar sujeitos às suas próprias normas e punições, e não seus alunos e que repensem seu papel nesse processo. Por outro lado, àquelas estabelecidas pela instituição, que, provavelmente, provocaria todo adolescente deve avaliar a influência dos professores no seu proces- mudanças importantes de comportamento. de decisão profissional. Deve evitar absorver informações distorcidas, Além disso, poderíamos facilitar a aquisição de informação pessoal estereótipos, valores contraditórios e procurar não estabelecer falsas e profissional. Para tal poderíamos incluir, no desenvolvimento dos generalizações sobre seus interesses ou habilidades numa disciplina, a conteúdos programáticos das distintas disciplinas, atividades e discus- partir de uma experiência com determinado professor. sões específicas que propiciassem O aprofundamento do conhecimento Em segundo lugar será examinado O papel da instituição escolar em si pessoal e da realidade socioprofissional. Por exemplo, ao estudar corpo mesma no processo de escolha profissional dos alunos. Parece persistir, humano" em ciências naturais ou em biologia, poderiam ser incluídas, na maioria das instituições educativas, a tendência a dissociar intelectual de um lado, atividades que permitissem uma reflexão sobre O próprio do afetivo, O informativo do formativo, O pedagógico do psicológico. O desenvolvimento físico e psicológico e, de outro, informações sobre avanço tem sido importante no que se refere à utilização e ao desenvol- profissões cujas atividades estão relacionadas com corpo humano. vimento de novos programas pedagógicos, mas ainda é pouco que tem Assim, ficariam integradas à aprendizagem formal, aprendizagens espe- sido feito para facilitar ou desenvolver processos psicológicos. Nessa cíficas necessárias ao processo de decisão profissional dos alunos. Essa última situação encontra-se a orientação profissional. É de extrema im- integração deve começar cedo no processo educativo, permitindo assim portância que as escolas participem da facilitação do processo de escolha aos alunos adquirir conhecimento e desenvolver habilidades e atitudes profissional de seus alunos. O aluno necessita não só aprender bem, mas necessárias ao processo de escolha profissional. também saber onde e como pode melhor aproveitar essa aprendizagem. Finalmente, é de extrema importância que as instituições educativas Inicialmente vale ressaltar que muito poderia ser feito, dentro do ofereçam a seus alunos programas de orientação profissional que propi- sistema escolar e desde a educação infantil, para facilitar a aprendiza- ciem um espaço de reflexão, discussão e intercâmbio de dúvidas, inquie- gem do processo de decisão. Como no caso da família, a escola acaba tudes e expectativas relacionadas ao futuro profissional, que facilitem a assumindo uma posição essencialmente paternalista, decidindo com aprendizagem de processos de decisão e desenvolvam atitudes, habili- frequência por seus alunos: como devem vir vestidos, quais atividades dades e competências exigidas no mundo do trabalho nos dias de hoje. Já existem algumas iniciativas em incluir a orientação profissional vão realizar, quais alunos pertencerão a uma mesma turma, quais normas como tema transversal nas escolas. Aguiar e Conceição (2011) realizaram e regras deverão ser obedecidas etc. Pouco ou quase nada é permitido ao um curso com O objetivo de capacitar profissionais da educação e inte- aluno decidir. Aqui entra também O medo da instituição de ser ameaçada, ressados para pensarem a orientação vocacional como tema transversal. caso atribua certo poder de decisão aos alunos. Entretanto, vale a pena Em capítulo anterior foram apresentadas diferentes propostas de pensar que processo educativo poderia ser enriquecido se alunos orientação profissional. Cabe a cada instituição escolar utilizar, adaptar, pudessem participar de determinadas decisões institucionais. Tomando construir e desenvolver a proposta que melhor convier à sua realidade. como exemplo problemas disciplinares, tão frequentes nas escolas, Para a elaboração de um programa de orientação profissional é essencial poderíamos solicitar a participação dos alunos na elaboração das normas que se realize previamente um diagnóstico institucional (BONELLI, 1989; disciplinares e na definição das sanções e punições. Isso não só facilitaria MÜLLER, 1990; NEIVA e COLS, 2010). A elaboração desse diagnóstico a aprendizagem de processos de decisão como também permitiria aos requer conhecimentos específicos sobre diferentes aspectos da instituição: 72 73Kathia Maria Costa Neiva Processos de Escolha e Orientação Profissional origem e história; As mudanças históricas, sociais e econômicas afetam consideravel- finalidades e missão; mente as escolhas profissionais. De fato, as novas tecnologias demandam novos profissionais e criam novas carreiras. Entretanto, eliminam ou cultura e normas; reduzem vertiginosamente as ofertas de trabalho para muitas ocupações. quadro de pessoal, funções e organograma; As oportunidades do mercado de trabalho estão em mudança constante. infraestrutura e distribuição; Para O adolescente que decide é difícil, ou praticamente impossível, prever O mercado de trabalho futuro e, portanto, ter garantias de que seu serviços e clientela; projeto profissional será viabilizado. É elevado número de profissionais recursos materiais e financeiros; que se dedicam a uma área de trabalho distinta de sua área de formação. São muitos engenheiros que se transformam em administradores, necessidades na área de orientação profissional; as assistentes sociais que trabalham como secretárias e professores expectativas sobre O serviço de orientação profissional e papel do que se tornam vendedores. Durante percurso da carreira alguns ideais orientador; profissionais são abandonados e/ou novos ideais são identificados. disponibilidade de recursos humanos, financeiros e materiais para O jovem de hoje está enfrentando cada vez mais essa realidade, serviço de orientação profissional. que exige transições e reorientações ao longo da carreira profissional e, consequentemente, grande capacidade de adaptação e flexibilidade. Esse diagnóstico permitirá definir um projeto de orientação Mesmo que nada seja possível fazer para reduzir a quantidade e a profissional que constará de: 0 que fazer, para quê, com quem, como e com velocidade das transformações históricas, sociais e econômicas, algo quais recursos. A orientação profissional, em nível institucional, é geralmente realizada se pode realizar para conscientizar jovens desse problema e de suas em grupo. Pode ter caráter obrigatório e abarcar toda uma classe, ou pode ser consequências na realidade profissional. Por exemplo, a realização e divul- gação de pesquisas prospectivas sobre mercado de trabalho e novas áreas uma opção do aluno e ser realizada em pequenos grupos. Pode ser incluída no currículo escolar, como uma disciplina, ou pode ser oferecida como ati- profissionais ajudariam jovens a estabelecer projetos mais condizentes vidade extra. Pode implicar a participação de um só profissional, geralmente com a realidade ou a desenvolver estratégias para enfrentar melhor as psicólogo, ou ser tarefa de uma equipe multiprofissional. O diagnóstico dificuldades do mercado de trabalho. Permitiriam também que as insti- institucional será determinante para O estabelecimento do plano de ação. tuições educativas processassem mudanças, visando à criação de novos campos de estudo, novos cursos e, consequentemente, à preparação de A SOCIEDADE profissionais que atendessem melhor as necessidades atuais da sociedade. Finalmente, é importante que O jovem tenha consciência de que O seu As instituições analisadas anteriormente fazem parte de um contexto projeto profissional está não só delimitado por seus aspectos internos, social e reproduzem as pautas do mesmo. Elas são as microestruturas mas também pela realidade familiar, escolar, social, cultural, econômica que sustentam e são sustentadas pela macroestrutura. valores e política na qual ele está inserido. Entretanto, nesse emaranhado de representam e, ao mesmo tempo, decorrem dos valores da sociedade. relações todo adolescente deve abstrair algo essencial: Consequentemente, não se pode examinar problema da escolha pro- "Seu projeto profissional é único, pois é fruto de seu ser e representa 0 que e fissional sem analisar a realidade social na qual ele está inserido. quem ele quer ser." 74 756 INSTRUMENTOS UTILIZADOS PARA ORIENTAÇÃO PROFISSIONAL NA ATUALIDADE Neste capítulo serão apresentados brevemente alguns dos instru- mentos mais utilizados atualmente na área de orientação profissional na realidade brasileira (NEIVA, 2010a). Serão descritos alguns tes- tes psicológicos, jogos e técnicas. Vale ressaltar que a atividade de orientação profissional e de carreira é exercida por profissionais de diferentes formações: psicólogos, pedagogos, psicopedagogos, e ad- ministradores. Entretanto, apenas os psicólogos podem fazer uso de testes psicológicos, pois este tipo de instrumento é de uso exclusivo desta categoria profissional. TESTES PSICOLÓGICOS Com relação aos testes psicológicos, com parecer favorável no Sistema de Avaliação de Testes Psicológicos do Conselho Federal de Psicologia cfm) no início de 2013, os mais utilizados na área de orientação profissional são: 77Kathia Maria Costa Neiva Processos de Escolha e Orientação Profissional PARA DIAGNÓSTICO DA MATURIDADE PARA A ESCOLHA situacionais e identificar tipo psicológico tendo como base a teoria PROFISSIONAL Junguiana. Pode ser aplicado em indivíduos a partir do último ano do ensino fundamental. Sua aplicação pode ser individual ou coletiva e Escala de Maturidade para a Escolha Profissional (EMEP). Esta escala, demora cerca de 20 minutos. que tem como base as ideias de Super (1955) e Crites (1961,1965), foi desenvolvida por Neiva (1998, 1999, 2010b) com objetivo de avaliar Teste de fotos de profissões (BBTbr). É um teste projetivo que avalia a a maturidade para a escolha profissional. A escala é composta de cinco personalidade incluindo perfil pulsional da escolha profissional. Foi subescalas: (1) Determinação, (2) Responsabilidade, (3) Independência, construído por M. Achtnich (1991) a partir de oito tendências fatoriais (4) Autoconhecimento e (5) Conhecimento da Realidade Educativa e segundo a teoria de L. Szondi (1975), tendo sido adaptado para a re- Socioprofissional. As três primeiras se referem a atitudes e as duas últimas alidade brasileira por Jacquemin (2000) e Okino et al. (2006). O BBT aos conhecimentos necessários a uma tomada de decisão profissional consiste de dois conjuntos de 96 fotografias branco e preto, distribuídas madura e consciente. A escala possui normas brasileiras para alunos do em uma série masculina e feminina, retratando pessoas desempenhando ensino médio de escolas públicas e particulares (em breve serão publicadas diferentes atividades profissionais. Embora O BBT tenha sido desenvol- normas atualizadas que incluirão normas para alunos do 9° ano do ensino vido para O contexto de orientação profissional de adolescentes, também fundamental). Pode ser usada com as seguintes finalidades: diagnóstico pode ser empregado com adultos (WELTER, 2000; 2005). da maturidade para a escolha profissional, planejamento de programas HumanGuide. Trata-se de um instrumento de avaliação on-line com de orientação profissional, avaliação da evolução do orientando a partir objetivo de determinar O perfil de personalidade no contexto organi- de uma intervenção em orientação profissional e avaliação da eficácia de zacional por meio da apreensão da estrutura de necessidades pulsionais programas de orientação profissional. O instrumento pode ser aplicado in- segundo a teoria de Szondi (1975). As dimensões avaliadas pelo teste dividualmente e em grupo, sendo que a aplicação dura de 15 a 20 minutos. são: Sensibilidade, Força, Qualidade, Exposição, Estrutura, Imaginação, Estabilidade e Contatos. Foi desenvolvido na Suécia por R. Kenmo (2010) PARA AVALIAÇÃO DA CAPACIDADE INTELECTUAL com base na teoria de Leopold Szondi, tendo sido adaptado para a reali- WAIS III. Escala desenvolvida por D. Wechsler e adaptada para a rea- dade brasileira por Welter (2011). Os respondentes devem ter completado lidade brasileira por Nascimento (WECHSLER, 2004). Este instrumento O Ensino Médio e estarem familiarizados com O uso do computador. O avalia a capacidade intelectual de indivíduos entre 16 e 89 anos. A escala teste é feito de forma individual e on-line, sendo necessário um com- é constituída por duas subescalas: verbal e de execução. Cada subescala é putador com acesso à Internet, preferencialmente com banda larga. A composta de uma série de testes que avaliam diferentes funções intelectuais, duração média de realização é de 15 minutos, tendo limite máximo de 20 permitindo assim verificar quais as funções mais e menos desenvolvidas. minutos para responder ao teste. Para a aplicação é necessária a aquisição do convite eletrônico por parte do psicólogo responsável. A página de PARA AVALIAÇÃO DA PERSONALIDADE acesso ao HumanGuide é www.humanguide.com.br. Os seguintes instrumentos avaliam a personalidade, incluindo as Outros testes de personalidade também são utilizados por orientado- motivações profissionais: res profissionais, que embora não forneçam uma leitura específica das Questionário de Avaliação Tipológica Versão II (QUATI). Desenvolvido motivações profissionais, permitem extrair conclusões sobre a dinâmica por Zacharias (2003), permite avaliar a personalidade através de escolhas de personalidade do orientando. Alguns deles são: 78 79Kathia Maria Costa Neiva Processos de Escolha e Orientação Profissional Bateria Fatorial da Personalidade (BFP). Desenvolvido por Nunes, Hutz e Escala de Aconselhamento Profissional (EAP). Desenvolvida por No- Nunes (2010), este teste permite avaliar a personalidade a partir do mode- ronha, Santos e Sisto (2007), avalia as preferências por atividades pro- lo dos Cinco Grandes Fatores (CGF), que inclui as seguintes dimensões: fissionais (sete dimensões). Seu uso é indicado a partir de 17 anos e as (1) Neuroticismo (N1 Vulnerabilidade; N2 Instabilidade emocional; normas são expressas em percentil. N3 Passividade / Falta de Energia; N4 Depressão), (2) Extroversão (E1 Comunicação; E2 Altivez; E3 Dinamismo; E4 Interações Questionário de busca autodirigida (SDS). Trata-se da versão brasileira Sociais), (3) Socialização (S1 Amabilidade; S2 Pró-sociabilidade; do Self Direct Search de Holland e Powell, desenvolvida por Primi et S3 Confiança nas pessoas), (4) Realização (R1 Competência; R2 al. (2010). O questionário é organizado em quatro seções que abordam Ponderação / Prudência; R3 Empenho / Comprometimento), (5) questões referentes a atividades, competências, carreiras e habilidades. Abertura (A1 Abertura a ideias; A2 Liberalismo; A3 Busca por Pode ser aplicado a adolescentes e adultos. novidades). Pode ser aplicado a adolescentes e adultos. PARA A AVALIAÇÃO DE HABILIDADES Escala de Personalidade de Comrey (EPS). Este instrumento foi desenvol- vido por Costa (2009) com O objetivo de avaliar a personalidade. Possui Bateria de Provas de Raciocínio (A+B) (BPR 5). Desenvolvida por Al- dez escalas: Escala de Validade; de Tendenciosidade nas Respostas; de meida e Primi (2000), esta bateria permite estimativas do funcionamento Confiança X Atitude Defensiva; de Ordem X Falta de Compulsão; de cognitivo geral e das habilidades do indivíduo em cinco áreas específicas: Conformidade Social X Rebeldia; de Atividade X Falta de Energia; de Raciocínio Abstrato, Verbal, Espacial, Numérico e Mecânico. A bateria Estabilidade X Instabilidade Emocional; de Extroversão X Introversão; pode ser aplicada a adolescentes e adultos. de Masculinidade X Feminilidade; e de Empatia (altruísmo) X Egocen- trismo. Pode ser aplicada a indivíduos a partir de 18 anos. Teste de Habilidade para 0 Mental (HTM). Desenvolvido por Santarosa, Wainstein e Prado (2011), este teste avalia três raciocínios: NEO-PI-R e NEO-FFI-R. Estes testes são baseados no modelo de Lógico/Verbal; Lógico/Numérico e Lógico/Abstrato. O instrumento personalidade dos autores P. T. Costa Jr. e R. R. Crae: O 'Big O possui normas brasileiras para O ensino médio e superior e para diferentes NEO-FFI-R é a versão curta, constituída por um número menor de faixas etárias (17-22; 23-27; 27-33 e acima de 33 anos). Pode ser aplicado itens, que fornece uma medida breve e compreensiva dos cinco domí- de forma individual ou coletiva e O tempo de aplicação é determinado nios da personalidade. Na versão completa (NEO-PI-R), são avaliados em função da escolaridade do sujeito (variando de 10 a 20 minutos para vários aspectos de cada um dos domínios. A adaptação brasileira foi cada parte). Pode ser aplicado a adolescentes e adultos coordenada por Carmen E. Flores-Mendonza e publicada em 2007. Os testes se destinam a indivíduos a partir de 18 anos (COSTA JR., 2007). JOGOS PSICOPEDAGÓGICOS PARA A AVALIAÇÃO DE INTERESSES Com relação aos jogos mais utilizados pelos orientadores na atuali- Avaliação de Interesses Profissionais (AIP). Desenvolvido por Levenfus dade, descreveremos a seguir alguns deles: e Bandeira (2009), este instrumento tem como objetivo identificar Jogo Critérios para a Escolha Profissional. Este jogo foi desenvolvido campos de maior interesse profissional (dez campos). Seu uso é indicado por Neiva (2008, 2010c) com objetivo de facilitar a escolha profissional a partir de 17 anos e as normas são divididas por sexo e expressas em de jovens ou adultos, estimulando: (a) a ampliação do conhecimento de percentil. seus interesses e valores, (b) a reflexão sobre as suas expectativas com 80 81Kathia Maria Costa Neiva Processos de Escolha e Orientação Profissional relação ao futuro profissional, (c) a definição de critérios de escolha necessário inseri-la no momento adequado do programa de orientação profissional, (d) a identificação de profissões/ocupações que corres- profissional e/ou de carreira. pondam aos seus critérios, (e) a elaboração da identidade vocacional- Em Levenfus, Soares e cols. (2010) estão publicadas várias técnicas -ocupacional, e (f) a pesquisa sobre a realidade profissional. O jogo leva muito utilizadas na atualidade dentre elas: Autobiografia, Técnica dos bom- O orientando a estabelecer critérios para decisões profissionais, referentes bons, Técnica do círculo da vida, Narrativas de vida. Spaccaquerche e Fortim a cinco aspectos: (1) ambiente de trabalho, (2) objetos de trabalho, (3) (2009) descrevem várias técnicas interessantes como Reconbecendo quem atividades de trabalho, (4) rotina de trabalho e (5) retornos de trabalho. eu sou, que eu gosto de fazer (Lista de verbos), Meu jeito de ser, Curtograma. Em um segundo momento estimula a pesquisa das profissões/ocupa- Muitas são as técnicas descritas em Lucchiari (1993), Soares (2010) e ções de interesse tendo como referência estes mesmos aspectos, O que Lassance (2010) voltadas principalmente para a orientação profissional permite comparar as profissões/ocupações de interesses e estabelecer em grupo. Giacaglia (2003) também apresenta várias atividades para suas vantagens e desvantagens. O jogo pode ser utilizado por todos OS orientação profissional. profissionais que se proponham a auxiliar pessoas na escolha e planeja- Técnicas destinadas ao planejamento de carreira em universitários mento da carreira profissional: orientadores profissionais, orientadores são encontradas em Dias e Soares (2009). No livro AposentAÇÃO, So- educacionais, professores, profissionais que atuem nas áreas de gestão de pessoas, planejamento e desenvolvimento de carreira e coaching. ares e Costa (2011) trazem técnicas específicas para a preparação para a aposentadoria. Existe uma versão para aplicação individual e em pequenos grupos e outra para aplicação em grupos grandes (banners). A seguir apresentamos alguns materiais específicos que podem ser considerados como técnicas. Profissiogame. Trata-se de um jogo de tabuleiro desenvolvido por So- ares e cols. (2006), que facilita conhecimento do mundo do trabalho as Profissões com a Técnica R.O. Este material foi desenvol- e permite O questionamento sobre: valores, ética, direitos e deveres do vido por Coelho (2010) para a aplicação da Técnica R.O. de autoria de trabalhador. O jogo é indicado para jovens a partir de 14 anos e pode Nora Sturm e apresentada por Bohoslavsky (1998). A técnica R.O. tem ser aplicado individualmente e em grupo. como objetivo fundamental estimular, no adolescente, um contato ativo com a informação profissional e contribuir para a correção de imagens Jogo das Profissões. Este material foi desenvolvido por Bertelli (2007) e profissionais deficientes ou distorcidas, mediante uma atividade realizada tem como objetivo facilitar O conhecimento das profissões e mundo com cartões. O material desenvolvido por Coelho (2010) é composto do trabalho, podendo ser aplicado individualmente ou em grupo. de cartões com nomes de profissões/ocupações, contendo no verso de TÉCNICAS cada um deles um sumário das principais características da profissão. O kit é composto de quatro conjuntos de cartões: Ensino Superior (171 São muitas as técnicas publicadas em diferentes livros, 0 que por cartões); Ensino Tecnológico Superior (84 cartões); Educação Profis- um lado retrata a riqueza de materiais existentes na área, mas também sional Técnica (124 cartões); Carreiras Militares (22 cartões). Em geral, dificulta a escolha por parte dos profissionais. Portanto, é importante a aplicação do R.O. é realizada em duas sessões, individualmente ou em ter claro objetivo no momento de selecionar a técnica a ser utilizada. pequenos grupos. A autora apresenta ainda no manual, uma variação na Podemos facilmente nos interessar por uma técnica e não observar forma de aplicação da técnica, diferente da originalmente apresentada se a mesma permitirá O alcance do objetivo pretendido. Além disso, é por Bohoslavsky (1998). 82 83Kathia Maria Costa Neiva Matriz de habilidades e interesses profissionais. Este instrumento, desen- volvido por Magalhães (2011), pretende auxiliar pessoas a: (a) escolher e/ou planejar a carreira profissional tendo como objetivo avaliar com- petências profissionais relacionadas a um conjunto de 72 habilidades; (b) esclarecer e priorizar preferências por habilidades e áreas ocupacio- 7 nais; (c) identificar competências estratégicas para O sucesso na carreira; (d) definir metas de treinamento, desenvolvimento e educação de competências profissionais. Pode ser utilizado por orientadores profis- sionais, orientadores educacionais, profissionais de gestão de pessoas, consultores de desenvolvimento de carreiras em organizações de traba- lho, coaches de carreira e todos OS profissionais engajados na tarefa de ÁREAS DE ATUAÇÃO EM ORIENTAÇÃO auxiliar pessoas a escolher e/ou planejar a carreira. Pode ser aplicado PROFISSIONAL a partir de 16 anos. Procedimento de desenbos-estórias de profissionais. Trata-se de uma técnica projetiva desenvolvida por Lemos (2001) com O objetivo de abordar aspectos relativos às questões profissionais. Solicita-se que O orientando Como já foi explicado anteriormente O processo de desenvolvimento elabore quatro desenhos relacionados a situações profissionais e conte vocacional perpassa toda a vida. Logo, em vários momentos da vida, uma estória sobre cada um deles. Realiza-se um inquérito sobre cada decisões profissionais são tomadas pelos indivíduos, que muitas vezes estória. Os desenhos solicitados são: (a) desenhe um profissional fazendo necessitam de ajuda. A Orientação Profissional, portanto, pode ser re- alguma coisa; (b) desenhe um profissional bem-sucedido fazendo alguma alizada em qualquer destes momentos. Quando se trata da orientação coisa; (c) desenhe um profissional em crise, fazendo alguma coisa e (d) da primeira escolha na fase da adolescência, O termo Orientação Profis- desenhe você, na sua profissão futura, fazendo alguma coisa. sional é mais usado. Quando nos referimos à orientação de adultos já Certamente existem outros intrumentos publicados que não foram inseridos ou em vias de inserção profissional utilizamos a terminologia aqui mencionados. É importante que todos OS profissionais que atuam na Orientação ou Planejamento de Carreira e para aqueles que estão em área de Orientação Profissional e de Carreira busquem sempre atualizar- vias de se aposentar, O termo mais usado é Preparação ou Orientação -se através de cursos, participação em eventos científicos, consultas para a Aposentadoria. Apresentamos a seguir algumas áreas de atuação aos sites das editoras para ver novos lançamentos, leitura de livros e do Orientador Profissional e exemplos de intervenções realizadas. revistas especializadas. ORIENTAÇÃO PROFISSIONAL NA EDUCAÇÃO INFANTIL Pode-se pensar na orientação profissional desde início da escolari- zação, mas ainda são bem poucos trabalhos realizados junto a crianças na educação infantil. Pasqualini, Garbulho e Schut (2004) desenvolveram 84 85Kathia Maria Costa Neiva Processos de Escolha e Orientação Profissional uma intervenção junto a um grupo de crianças de uma creche pública, Na atualidade brasileira, algumas escolas particulares estão come- tendo como objetivo promover uma concepção ampliada do trabalho çando a se preocupar em desenvolver a orientação profissional ao e expandir conhecimento sobre as profissões e suas funções sociais. longo de várias séries, iniciando programas de orientação no ensino O trabalho incluiu encontros com pais, visando discutir seu papel fundamental e dando continuidade até terceiro ano do ensino médio. no processo de construção da identidade e formação de seus filhos. Lisboa e Mauro (1993) propuseram um trabalho de orientação inte- grando várias instâncias: alunos, instituição (professores, coordenadores ORIENTAÇÃO PROFISSIONAL NO ENSINO e dirigentes) e pais, a ser desenvolvido a partir da série/9° ano do ensino fundamental até 3° ano do ensino médio. FUNDAMENTAL O final do ensino fundamental é momento em que jovens têm ORIENTAÇÃO PROFISSIONAL NO ENSINO MÉDIO que decidir entre seguir ensino médio regular, ingressar em um curso técnico ou ingressar no mundo do trabalho. A primeira opção é a mais No final do ensino médio, os jovens são cobrados de uma decisão comum, principalmente entre jovens de classes econômicas mais com relação ao prosseguimento dos estudos superiores e qual profis- favorecidas. O ingresso no curso técnico, com frequência é sugerido são/curso seguir. É nesta fase, e principalmente no terceiro ano, que pelos pais, que veem esta opção como uma forma de inserção profis- muitos jovens procuram ajuda para a construção do projeto profissional sional mais fácil e rápida. A terceira opção, ocorre em famílias de classes e tomada desta primeira decisão. Da mesma forma, programas de econômicas menos favorecidas que necessitam que o(a) filho(a) custeie orientação profissional oferecidos pelas escolas na maioria das vezes se suas próprias despesas e contribua com as despesas familiares. destinam aos alunos do ensino médio. Alguns exemplos de programas O jovem chega ao final do ensino fundamental com 13-14 anos e ainda realizados com esta população: Oliveira (2000); Silva e Birk (2002); muito imaturo para tomar uma decisão. Com isso, facilmente se deixa Crestani (2010); Valore (2010a). influenciar pela opinião dos membros da família, em especial seus pais. A orientação profissional de alunos que frequentam cursos técnicos Portanto, é muito importante que seja oferecido um trabalho de orienta- também é muito importante. Estes jovens decidiram pela profissão téc- ção profissional aos jovens nesta etapa de suas vidas. Aguiar e Conceição nica muito precocemente, algumas vezes por influência da família, e ao (2009) em pesquisa realizada com jovens no final do ensino fundamental final do curso, com frequência, se questionam se devem prosseguir com detectaram angústias semelhantes às dos alunos no final do ensino médio e os estudos, se devem seguir na mesma área, pois inclusive ao longo do reforçaram a importância de começar, desde cedo, a orientação profissional. curso identificam outros interesses, competências e valores. Oliveira e Na realidade brasileira Mansão (2000) e Crestani (2000), Affonso e Neiva (2013) desenvolveram uma intervenção em orientação profissional Sposito (2005), entre outros, desenvolveram propostas de orientação junto a um grupo de alunos da educação profissional. profissional para ensino fundamental. Pocinho (2011), em Portugal, desenvolveu um Programa de Educação para a Carreira (PEC) que foi ORIENTAÇÃO FRENTE À ANSIEDADE PROVOCADA aplicado em 20 escolas, envolvendo 1394 alunos do Ensino Fundamental, PELO VESTIBULAR do 1° ao 4° ano, com objetivo de desenvolver conhecimentos, atitudes e aptidões relativos à carreira, ao longo da escolaridade. O programa A preparação para vestibular exige muito estudo, dedicação e buscou promover autoconhecimento, a exploração educacional e disciplina dos jovens, que se cobram e são cobrados de obterem êxito, ocupacional e planejamento da carreira. principalmente nas universidades públicas e nas melhores universidades 86 87Kathia Maria Costa Neiva Processos de Escolha e Orientação Profissional particulares. Entretanto, não há vagas para todos e jovens sofrem REORIENTAÇÃO E ORIENTAÇÃO DE CARREIRA com medo da reprovação. Ansiedade, estresse, sintomas físicos como gastrite e acne, até mesmo depressão são quadros cada vez mais JUNTO A ESTUDANTES UNIVERSITÁRIOS frequentes no ano que antecede vestibular. Os problemas emocionais O índice de desistência e abandono de cursos universitários é con- afetam O momento da realização da prova, e muitos alunos, apesar de siderável, chegando em alguns cursos a alcançar cifras importantes. A preparados, não têm um bom desempenho no exame por conta da escassez de programas de orientação profissional no ensino fundamental ansiedade desencadeada neste momento. Tem-se constatado também e/ou médio leva muitos jovens a realizarem suas escolhas sem a devida que OS jovens que não têm claro seu projeto profissional, se desmotivam reflexão e maturidade. para estudos, pois não veem razão para dedicar-se tanto sem saber Além disso, com O aumento de oferta de vagas no ensino superior, para qual objetivo, e com isso também ficam mais ansiosos visto que a particularmente em instituições privadas, O acesso ao curso superior, na probabilidade de não serem aprovados aumenta. atualidade, está muito mais fácil. Entretanto, muitas pessoas ingressam É importante, portanto, que orientadores atuem junto aos em cursos sem na realidade terem realizado uma escolha profissional vestibulandos, ajudando-os a lidar melhor com medos, ansiedades madura e consciente. Escolhem muitas vezes, pela facilidade de acesso, e estresse vividos durante esta fase. Algumas pesquisas e intervenções pelo custo, pela localização da universidade e pelo desejo de obter um di- realizadas podem servir de exemplo, como: Soares (2002b); D'Avila e ploma. Mas, ao iniciarem curso acabam se desmotivando e desistindo. Soares (2003). É importante oferecer ajuda aos universitários que questionam sua escolha e buscam reorientação profissional. As propostas de Garcia ORIENTAÇÃO DE JOVENS PARA A INSERÇÃO NO (2000), Ghizoni e Teles (2005) e Palma, Palma e Brancaleoni (2005) são MUNDO DE TRABALHO exemplos de trabalho junto a esta população. Muitos jovens, principalmente aqueles de classes econômicas menos Durante curso universitário alunos começam a planejar suas favorecidas, se inserem no mundo do trabalho ainda no ensino médio. carreiras e refletir sobre as novas escolhas que deverão ser feitas ao fi- Várias instituições e ONGs desenvolvem ações socioeducativas no nal do curso como estágios, área de trabalho. São muitas as angústias e contra turno escolar, junto a jovens cursando ensino médio, visando conflitos que surgem nesta etapa. É importante, portanto, que programas prepará-los para a inserção ocupacional. Ministram cursos específicos específicos sejam oferecidos aos jovens adultos neste momento de suas e fazem convênios com empresas, encaminhando jovens para carreiras. Dias e Soares (2009) relatam a experiência de um programa de processos seletivos. Algumas instituições têm como população-alvo planejamento de carreira para estudantes universitários. jovens em situações de vulnerabilidade social. Mas, poucos são programas que promovem uma orientação de ORIENTAÇÃO DE CARREIRA NA VIDA ADULTA jovens para a inserção no mundo laboral. Sarriera, Câmara e Berlim Ao longo da vida profissional são muitas as transições de carreira a (2006), a partir de pesquisas realizadas, elaboraram um manual para que estamos sujeitos. As mudanças frequentes na conjuntura econômi- jovens à procura de emprego. Melo-Silva, Duarte e Oliveira (2003) e ca provocadas pela globalização e avanços na área tecnológica, geram Neiva, Caires e Souza (2010) descrevem intervenções realizadas com alterações no mundo do trabalho como: diminuição ou aumento de um grupo de jovens com objetivo de orientá-los para a inserção no empregos em algumas áreas; surgimento de novas profissões/ocupações mundo do trabalho. e desaparecimento de outras; mudanças nas relações de trabalho, etc. 88 89Kathia Maria Costa Neiva Processos de Escolha e Orientação Profissional Da mesma forma, indivíduos ao longo da vida identificam novos Seguem alguns exemplos de intervenções realizadas nesta área: Ca- interesses, desenvolvem novas competências, reorganizam seus valores nedo (2000), junto a mulheres aposentadas, Silva et al. (2005) junto a e buscam alinhar seu projeto profissional com as mudanças que vão funcionários públicos, e Soares e Costa (2011) que descrevem detalha- ocorrendo em sua vida pessoal. damente uma proposta de preparação para a aposentadoria. Com isso, cada vez mais tem se tornado importante indivíduo assumir gerenciamento de sua carreira, traçando metas e identificando ORIENTAÇÃO PROFISSIONAL DE INDIVÍDUOS estratégias para O desenvolvimento de sua carreira. Rocha (2010) discute COM DEFICIÊNCIA esta questão, assim como apresenta alguns modelos de plano de carreira. Durante O percurso profissional, são também várias as situações em que Os indivíduos com deficiência são aqueles com algum déficit físico ou sujeitos têm que tomar decisões e gerenciar conflitos, como: mudanças mental, que não podem satisfazer, seja total ou parcialmente, suas necessi- de emprego, desemprego, problemas na equipe de trabalho, insatisfação dades vitais e sociais. Nesta categoria se incluem as pessoas que apresentam com a atividade profissional, entre outras. Estas são situações em que OS deficiência física, auditiva, visual e/ou mental, de natureza permanente ou indivíduos, com frequência, necessitam orientação. Os seguintes projetos transitória (Ivatiuk e Yoshida, 2010). O processo de identidade pessoal e foram desenvolvidos neste âmbito: Combinato, Lunardelli e Garbulho vocacional-ocupacional de indivíduos com deficiência se vê certamente (2005) junto a um grupo de médicos do serviço público de saúde; Garbu- afetado pela própria vivência da deficiência e pelas limitações que podem lho, Pasqualim e Silva (2005), junto a educadoras de uma creche e Szanto, comprometer, eventualmente, suas possibilidades profissionais. Ajudar Dalsan e Garbulho (2005) junto a catadores de material reciclável. estas pessoas a construir um projeto profissional é fundamental. Hissa e Pinheiro (2005) descrevem uma proposta de orientação Ivatiuk e Yoshida (2010) ao revisarem a literatura entre 2000 e 2009, na terceira idade, realizada junto a pessoas acima de 50 anos em um detectaram a carência de publicações sobre intervenções em orientação instituto de gerontologia, com 0 objetivo de facilitar a identificação de profissional, realizadas junto a esta população. Entretanto vale ressaltar possíveis ocupações. alguns trabalhos como: Pigatto, Klein e Wisnesky (2000) junto a defi- cientes auditivos; Costa e Barros, junto a portadores de TDAH e Mota PREPARAÇÃO PARA APOSENTADORIA (2003), junto a deficientes físicos. A aposentadoria é uma etapa crítica no processo de desenvolvimento vocacional, pois é vista por muitas pessoas de forma negativa. Com ORIENTAÇÃO PROFISSIONAL A DESEMPREGADOS frequência, esta fase é vivida como um período de inatividade, improdu- Tanto a iminência do desemprego quanto a própria situação de desem- tividade e inutilidade perante a sociedade. A aposentadoria pode trazer prego geram forte ansiedade, sintomas físicos e com frequência depressão. consequências importantes para a saúde física e mental, assim como A orientação neste momento é fundamental, para que sejam trabalhados para as relações sociais e familiares do indivíduo. É um momento de OS sentimentos e ansiedades decorrentes da situação, elaborada a perda reestruturação da identidade pessoal e vocacional-ocupacional. Poucas do emprego e facilitado desenvolvimento de uma atitude pró-ativa na pessoas se preparam para a aposentadoria, estabelecendo novos projetos procura de uma nova colocação profissional. Os trabalhos desenvolvidos para esta fase da vida. Com isso, é importante que orientadores por Sarriera, Câmara e Berlim (2000) e Silva e Escalda (2005) tiveram como dediquem especial atenção a esta população, ajudando-a a enfrentar esta foco a população jovem. Moreno (2000) descreve uma intervenção com transição e a reestruturar suas vidas: pessoal e profissional. um grupo de ex-funcionários que haviam sido desligados de uma empresa. 90 91Kathia Maria Costa Neiva Processos de Escolha e Orientação Profissional ORIENTAÇÃO PROFISSIONAL A INDIVÍDUOS Citamos como exemplo jovens deliquentes internos em insti- tuições como a Fundação Centro de Atendimento Socioeducativo ao PORTADORES DE DOENÇA MENTAL OU DE Adolescente (CASA), que necessitam de uma orientação para que, ao DOENÇAS CRÔNICAS INCAPACITANTES alcançarem a maioridade e saírem da instituição possam já ter em mente Ao longo da vida profissional alguns indivíduos sofrem acidentes ou algum projeto profissional e, consequentemente, maiores condições de desenvolvem doenças que incapacitam a seguir na mesma atividade se reinserirem na sociedade. No mesmo sentido, egressos do siste- profissional. Nesta situação é importante rever projeto profissional ma prisional necessitam ajuda para traçarem planos profissionais que e encontrar novas alternativas profissionais, vinculadas aos interesses facilitem sua reinserção profissional e social. e habilidades, mas que sejam viáveis e tomem em conta as limitações A orientação profissional aos indivíduos com deficiência (física, au- impostas pela situação. Por outro lado, é responsabilidade das empresas ditiva, visual e mental) é também muito precária. Apesar da Lei de Cotas realocarem funcionários, que devido a sequelas de um acidente ou (lei 8.213/91) que obriga O empregador a ter um percentual de indivíduos doença, não podem reassumir a antiga atividade profissional. com deficiência no seu quadro de funcionários, pouco se faz para ajudar Nem sempre indivíduos nesta situação conseguem visualizar no- O deficiente no processo de inserção laboral, nem O empregador para vas possibilidades profissionais e elaborar luto da perda da atividade/ praticar efetivamente a inclusão do deficiente no sistema produtivo. projeto profissional em que estavam inseridos antes da situação que Constata-se que a carência de políticas públicas que incluam a Orien- gerou a incapacitação. Portanto, é necessário que orientadores pro- tação Profissional em vários setores não facilita O desenvolvimento de fissionais desenvolvam programas neste sentido. Entretanto, são poucos projetos nesta área, nem a contratação de profissionais que possam trabalhos junto a esta população. Brito e Barros (2008) relatam uma implementá-los. Resta continuar a luta para que a Orientação Profissional experiência com portadores de doenças crônicas e Sperb et al. (2005) seja reconhecida como uma área que pode prover uma grande ajuda à descrevem trabalho realizado em uma instituição com adolescentes sociedade, no âmbito escolar, social, do trabalho e contribuir assim para soropositivos ou filhos de pais com HIV. promover a saúde integral dos indivíduos. Com relação aos indivíduos portadores de doenças mentais, doenças estas que algumas vezes são desencadeadas pelo estresse da vida profis- sional, alguns trabalhos de orientação foram desenvolvidos por Ribeiro (1998, 2004) e Valore (2010b). OUTRAS POSSIBILIDADES DE ATUAÇÃO EM ORIENTAÇÃO PROFISSIONAL Na realidade, a orientação profissional se aplica a diferentes etapas da vida, a diferentes populações-alvo e em diferentes contextos. O orientador profissional deve estender seu olhar a outros segmentos da população que necessitam ou possam vir a necessitar sua ajuda (NEIVA, 2009). Alguns segmentos da população carecem de intervenção e devem, portanto, ser alvo de programas neste sentido. 92 93

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