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UNIDADE Consolidação da Independência do Brasil Introdução A situação do Brasil no Período Regencial era de extrema gravidade. De um lado tivemos uma série de questionamentos e revoltas que abalaram as estruturas do Império e colocaram em risco a integridade do Brasil; de outro, clamor de uma sociedade desi- gual e sofrida sedenta por maior liberdade e dignidade em que parcelas significativas da população buscavam sobreviver. É nesse cenário de reestruturação de um projeto em andamento e suas reconfigura- ções políticas que nos deteremos nesta unidade. Antes de entrarmos nos acontecimentos, é importante ressaltar que as diversas leituras historiográficas necessitam ser examinadas para compreender as diferentes ênfases dadas pelos pesquisadores ao longo do tempo sobre esse período. Na formação do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, que vimos na primeira unidade, a formação de uma História do Brasil deparou-se com a formação de uma so- ciedade brasileira ainda por acontecer, tanto no nível social quanto no nível psicológico. SOUZA R. L. de. 0 Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro: 0 conhecimento e 0 poder (1838-1945). Londrina: Eduel, 2021. Para se estabelecer tal sociedade, era imperiosa a construção de uma narrativa his- tórica através de processos educacionais de formação de uma mentalidade e de um sentimento de pertença à terra e à nação. Uma vez estabelecida essa forma de leitura do passado da nação, era necessária a consolidação da mesma pelo processo educacional, exaltando-se a origem mítica da na- ção e fincando-se as raízes da nacionalidade sob solo de uma história de lutas, vitórias e momentos de orgulho pátrio. Assim, a interpretação dos acontecimentos remetia a esse objetivo, e tudo que não coadunasse com essa forma de leitura era rechaçada como um desvio ou apresentado como uma anomalia de uma sociedade saindo da barbárie que relutava a abandonar práticas e aceitar progresso e a civilização representados pela ordem monárquica. Apesar da influência das ideias liberais, para alguns elas deveriam ser implementadas em uma etapa ainda a ser alcançada, em outro período, pois a necessidade de consoli- dação da nação exigia a manutenção de sua estrutura de produção, e mudanças sociais colocariam em risco toda a estrutura da mesma. Essa ideia permeava parte das elites, mas não era recepcionada por todos, muito pelo contrário. Havia aqueles que desejavam a instauração de uma nova ordem, com mais autonomia para as diversas províncias e com um poder central representativo e não autoritário. 8Cruzeiro do Sul Virtual Educação a distância Esses foram tidos no início do processo de produção historiográfica como exaltados, radicais e perigosos agitadores da ordem vigente. Porém, a ciência é feita de consensos e dissensos, e vozes discordantes do discurso dominante se levantaram e registraram suas opiniões sobre os acontecimentos. A visão historiográfica mudou radicalmente após a instalação da República. O que havia sido estabelecido como necessário e importante para Brasil no Império passou a ser altamente condenável na República, que reinterpretou tanto Primeiro Reinado quanto Segundo Reinado como causas do atraso do Brasil ante grandes países da Europa e Estados Unidos. Veja: NICODEMO, T. L.; SANTOS, C.; PEREIRA, de. Uma introdução à história da historiografia brasileira (1870-1970). Rio de Janeiro, FGV, 2018; LIMA, S.; LIMA, J. A. CARVALHO, R. G. de. Historiografia brasileira: uma breve história da história do Brasil. Curitiba: Intersaberes, 2018. Outra grande mudança de entendimento ocorreu na década de 1970, com ingresso de uma leitura marxista. Essa abordagem tentou entender a história do Brasil com base nos cânones marxistas, segundo os quais a formação do capitalismo no terceiro mundo se deu em um processo similar ao da Europa. DOWBOR, L. A formação do capitalismo dependente no Brasil. Brasília: Editora Brasiliense, 1978. A terceira mudança ocorreu a partir de 1985, quando trabalhos inspirados na corrente da terceira geração dos Annales, a Escola Nova, enfocando temas até então não aludidos, entram em cena e passam a orientar trabalhos e teses apresentados por diversos histo- riadores, como Ângela Alonso, José Murilo de Carvalho, Miriam Dolhnikoff, Maria de Fátima Silva, só para citar alguns nomes representativos. REIS, J. Escola dos Annales: a inovação em história. São Paulo: PAZ E TERRA, 2000; HUNT, L. A nova história cultural. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2001. Porém, é bom ressaltar novamente que a ciência é feita de consensos e dissensos, do convívio e debate contínuo de visões e leituras. A academia é grande palco das discussões e a crítica, seu cotidiano. A interação entre as diversas ciências, como a Antropologia, a Numismática, a Arque- ologia, a Heráldica e outras, que convergem e discutem entre si, traz novos elementos, novas informações ou indícios que ajudam no processo de formulação de novas teses ou na revisitação de teorias e teses que não ganharam relevância em sua época. 9UNIDADE Consolidação da Independência do Brasil Em que pese sempre a hegemonia de um tipo de leitura ao longo de algumas gera- ções, outras interpretações e opiniões testam essa hegemonia tempo todo, e assim se faz progresso da ciência. Consolidação do Estado Segundo historiadores, como Caio Prado Júnior, para entender todo processo desse período, é necessário observar acontecimento da independência do Brasil como uma ação possível graças à constituição de uma elite colonial que almejava maior poder po- lítico e que a vinda da família real (1808) ajudou na dinâmica desse processo que cada vez mais fortaleceu a luta pela independência. Veja: MALERBA, J. corte no exílio: civilização e poder no Brasil às vésperas da Inde- pendência (1808-1821). São Paulo: Companhia das Letras, 2000; VAINFAS, R. Dicionário do Brasil Joanino. Rio de Janeiro: Objetiva, 2008; SCHIAVINATTO, I. L. Pátria coroada: 0 Brasil como corpo político autônomo (1780-1831). São Paulo, Edunesp, 1999. Após a independência, iniciou-se uma etapa de constituição de um novo Brasil, a qual demonstrava as contradições e jogo de interesses entre os que estavam ao lado do imperador e que tinham outras ideias para Brasil. Dom Pedro I convocou as eleições para a composição de uma Assembleia Cons- tituinte (1823), momento que essas contradições afloraram e os debates dividiram os diversos grupos políticos, classificados em Conservadores, Liberais Moderados e Liberais Exaltados. Os Liberais (Moderados e Exaltados) desejavam restringir poder do imperador e a in- tervenção do Estado na economia e na política da nação, mas estavam divididos em ques- tões sociais e de amplitude da cidadania, bem como na manutenção do sistema escravista. No outro espectro havia OS Regressistas e OS Moderados, que buscavam a manutenção do sistema, mas discordavam da estrutura para alcançar essa estabilidade. Os Regressistas defendiam retorno de Dom Pedro I ao Brasil e um Governo Impe- rial centralizado e forte. Já Moderados buscaram em um primeiro momento um modelo de poder com- partilhado entre Estados e poder central, mas na figura de um político, em que controle de fato se daria pela Câmara e pelo Senado, sem a ideia de um imperador forte. Dessa forma, as ideias de poder eram comuns a todos grupos, mas de acordo com seus próprios interesses. Quando Dom Pedro I percebeu jogo, tentou abafar todos os movimentos a partir de uma demonstração de força que foi efetiva e eficaz em um primeiro momento, mas não 10Cruzeiro do Sul Virtual Educação a distância conseguiu consolidar esse movimento, e diversas contestações e rebeliões ocorreram pelo Brasil, desgastando governo e a base de sustentação política do imperador. A estrutura do governo, conforme a Constituição aprovada após a ação enérgica do imperador, garantiu suas intenções e possibilitou o controle da Câmara e do Senado pela criação de um quarto poder, denominado de poder moderador. Vejamos em esquema essa estrutura (Figura 1). Rei Poder Moderador Conselho de Legislativo Judiciário Executivo Estado Câmara STF presidente das provinciais conselhos Senado provinciais Figura 1 Esquema da estrutura de governo no Império Fonte: Adaptada de HEIZER, 2001; HOLANDA, 1976; COSTA, 2007 e 1979; SOUZA, 1978; DORIGO, 1997 O Poder Moderador garantia ao imperador controle do Estado, pois, em suas prerrogativas constitucionais, lhe possibilitava nomear e demitir ministros, convocar a Assembleia Geral (Senado e Câmara), dissolver a Câmara, suspender magistrados, ou- torgar perdão a presos e condenados, conceder anistias e vetar decisões do Legislativo e nomeações de senadores, indicados por lista tríplice. Os Liberais criticavam esse instrumento político e denunciavam seu uso para ações polí- ticas com interesses particulares, dando ao imperador um poder que distorcia a autonomia dos outros poderes. Fábio Konder Comparato, ao analisar Poder Moderador, afirma: Durante o regime monárquico, aliás, a predominância inconteste da von- tade imperial sobre todos os órgãos do Estado, e até mesmo acima da vontade popular, pelo exercício do Poder Moderador, era bem conhecida. Como frisou o Marquês de Itaboraí (Rodrigues Torres), imperador reina, governa e administra". Sua Majestade concentrava em mãos todas as prerrogativas do Poder Executivo, o qual, como reconheceu Joaquim Nabuco, sempre foi onipotente, sendo essa onipotência em suas pala- vras, traço saliente do nosso sistema político". Não era, assim, de ad- mirar que durante todo período imperial Judiciário se apresentasse como fiel servidor do governo. (COMPARATO, 2004, 154). As revoltas, a crise econômica, a pressão de Portugal, entre outros problemas, fizeram Dom Pedro I abdicar do trono (1831) em favor de seu filho, infante Pedro de Alcântara. 11UNIDADE Consolidação da Independência do Brasil A renúncia do imperador, em vez de acalmar ânimos, foi estopim para outras revoltas e movimentos de contestação contra poder central, agora organizado em regência trina provisória (conforme a Carta Magna, no seu artigo 123), que foi transfor- mada em una e definitiva logo depois, sob comando do Padre Feijó. Em um avanço dos Liberais, foi aprovado Ato Adicional (1834), que dava maior poder às províncias e criava as assembleias legislativas provinciais, no intuito de alcançar a paz desejada; porém, isso ampliou ainda mais as crises e as desavenças regionais pelas disputas de poder e pelo agravamento da situação social de uma sociedade que não con- seguia mais dar conta das demandas e da manutenção do sistema escravista. Em 1837, Feijó não resiste à pressão política e às críticas à sua condução administra- tiva e cede lugar a Pedro de Araújo Lima, que nomeia Bernardo Pereira de Vasconcelos para a pasta da Justiça. Vasconcelos, um grande líder do Partido Liberal que participou da elaboração do projeto do Ato Adicional, acabou por se desiludir com seus efeitos, dado que as crises se agravaram a partir da sua aprovação. Dessa forma, ele acabou se aproximando dos Conservadores e dos Regressistas. Ao examinarmos a situação de Bernardo Pereira de Vasconcelos, é significativo que, em um dos discursos sobre assunto, ele afirmou: Guardar e fazer guardar a Constituição, Ato Adicional e as leis sendo a condição devida de qualquer administração brasileira, ocioso se torna dizer que será a do atual governo. Todavia, para que as nossas institui- ções liberais produzam os esperados frutos, para que da sua leal e plena execução resulte a liberdade e a ordem, é mister que governo tenha a necessária força; porque é só assim que ele pode fazer bem e prevenir mal. (VASCONCELOS apud MARTINS, 1978, p. 242). Em 1838, em um discurso na Câmara, Bernardo Pereira de Vasconcelos disse: Eu não mudei de opinião, eu quero Ato Adicional entendido literal- mente: só me desviarei de sua letra quando as regras da hermenêutica, quando bem público exigirem que seja interpretado, a fim de que não seja, como algum dia suspeitei, em vez da carta de liberdade, uma carta de anarquia. (VASCONCELOS apud MARTINS, 1978, 253). Ainda mais significativa é a fala de Bernardo Pereira de Vasconcelos, quando o mesmo faz um balanço de sua posição e diz: Fui liberal; então a liberdade era nova no país, estava nas aspirações de todos, mas não nas leis, não nas ideias práticas; o poder era tudo: fui liberal. Hoje, porém, é diverso aspecto da sociedade: os princípios democráticos tudo ganharam e muito comprometeram; a sociedade que então corria risco pelo poder, corre agora risco pela desorganização e pela anarquia. Como então quis, quero hoje servi-la, quero salvá-la, e por isso sou regressista. Não sou trânsfuga, não abandono à causa que defendi, no dia seguinte do seu perigo, de sua fraqueza; deixo-a no dia que tão seguro é seu triunfo que até excesso compromete. Quem 12Cruzeiro do Sul Virtual Educação a distância sabe se, como hoje defendo país contra a desorganização, depois de o haver defendido contra despotismo e as comissões militares, não terei algum dia de dar outra vez a minha VOZ ao apoio e à defesa da liberdade? Os perigos da sociedade variam; vento das tempestades nem sempre é mesmo; como há de político, cego e imutável, servir seu país? (VASCONCELOS apud MARTINS, 1978, 230). Em 1840, Brasil se encontrava em uma grande crise econômica, social e política, e nessa crise ainda havia uma querela entre Estado Brasileiro e a Santa Sé. Veja: ARAÚJO, J.C. Igreja Católica no Brasil: um estudo de mentalidade ideológica. São Paulo: Paulinas, 1986; MAINWARING, S. Igreja Católica e política no Brasil (1916-1985). São Paulo: Brasiliense, 1989. A espiral inflacionária era agravada pelas diversas rebeliões, lutas e guerras travadas. Assim, política e economia alimentavam uma crise de grandes proporções. Em maio de 1840 projeto de interpretação do Ato Adicional foi aprovado e com ele limitou-se poder provincial e definiram-se as competências das Câmaras Municipais e das províncias. Ainda assim, era insuficiente para resolver todas as questões, e começou a ganhar força a ideia de antecipar a ascensão do infante Pedro de Alcântara para tentar mudar a situação e o impasse político. Evidentemente, vozes se levantaram contra essa opção e esse caminho, entre elas a de Aureliano Cândido Tavares Bastos, um dos grandes líderes liberais e defensor do poder provincial. Para ele: A lei de interpretação de 1840 foi "ato mais enérgico da reação conser- vadora", pois limitou em muito poder das assembleias provinciais e que não se interpretava, amputava-se ato adicional; e tudo sem os trâmites de uma reforma constitucional: obra por esses dois motivos igualmente odiosa. (BASTOS, 1975, 67). Golpe Parlamentar da Maioridade: construção da ordem Imperial. Disponível em: https://bityl.co/8tvw Mas a grave crise em curso e a pressão de diversos setores se fizeram sentir de forma contundente. Os grandes proprietários de terras e de escravos não aceitavam processo de des- centralização político-administrativa iniciado pelas autoridades do período regencial, por temerem que a libertação dos escravos ocorresse logo em seguida. 13UNIDADE Consolidação da Independência do Brasil Como essa era uma pauta e uma reivindicação comum na maioria das revoltas, as elites agrarias exigiam providencias e a garantia da paz. Assim, formava-se um consenso político de que essa ação de golpe contra a ordem constitucional seria único caminho viável para restabelecimento da autoridade, a contenção dos excessos dos poderes locais e controle das dissensões e revoltas. Os Liberais desejavam profundas reformas do sistema, mas alguns achavam que isso só seria possível através de uma articulação para a manutenção do sistema de plantantion. Já Conservadores, e mesmo os Regressistas, desejavam a manutenção do Império para garantir que não houvesse nenhuma surpresa e nenhuma mudança na estrutura de produção e no status quo. Assim, componentes do Clube da Joana desejavam controle dos excessos de liberdade permitidos pelo Ato Adicional para alcançar, a um só tempo, paz social, ma- nutenção do sistema de produção e maior espaço de poder através de uma figura repre- sentativa, mas não tão forte a ponto de impedir controle das elites políticas em relação aos destinos da nação. Dessa forma, em 1840, foi criada a Sociedade Promotora da Maioridade, depois chamada de Clube da Maioridade. Esse grupo começou a fazer uma campanha para convencer a Câmara, Senado e povo de que essa seria a solução. Todas as providências foram tomadas, inclusive a apresentação de um projeto de declaração da maioridade. Em 23 de julho de 1840, Dom Pedro II prestou juramento à Assembleia Geral. Essa ação trouxe a estabilização política do país, galvanizando as atenções. Nessa época ainda persistiam algumas revoltas, como a Balaiada, que se encerrou em 1841, e a Far- roupilha, que foi resolvida em 1845. É evidente que tal decisão conseguiu ser implementada, mas trouxe diversos descon- tentamentos, e isso provocou reações. Talvez a mais significativa tenha sido episódio da Revolução Praieira, que ocorreu em Pernambuco. Esse episódio, marcado pelo repúdio à Monarquia e pela defesa de um reformismo radical, tinha como pano de fundo social, econômico e político as camadas menos fa- vorecidas da Província de Pernambuco, oprimidas pela grande concentração fundiária nas mãos de poucos proprietários. O episódio também foi agravado pela rivalidade entre os portugueses, detentores do monopólio do comércio, e brasileiros, que se sentiam oprimidos e alijados das ativi- dades nessa área. Pernambuco se destacava das outras províncias por sua economia açucareira e pela longa história de revoltas políticas. Em 1840, uma nova revolta eclodiu na região, em virtude, principalmente, do predomínio do latifúndio, da dependência e marginalização do pequeno agricultor, do encarecimento dos gêneros de primeira necessidade, do papel monopolizador dos comerciantes portugueses, do êxodo rural, da crise da economia pernambucana. 14Cruzeiro do Sul Virtual Educação a distância Os líderes dos revoltosos pertenciam à facção mais radical dos Liberais. Como as reuniões do grupo se realizavam na sede do Diário Novo, localizada na rua da Praia, no Recife, grupo passou a ser denominado Partido da Praia. Origem do Partido Praieiro. Disponível em: https://bityl.co/8tvn Uma das fontes de descontentamento era a hegemonia e controle que portu- gueses exerciam sobre comércio local, controlando preços. Para muitos, era essa a causa do alto custo de vida e do desemprego urbano. No campo internacional, Brasil sofria a pressão da Inglaterra para a extinção do tráfico de escravos. Os ingleses conseguiram fazer aumentar preço dos escravos, cau- sando uma crise de escassez, prejudicando a todos os agricultores, mas principalmente pequenos e médios, que dependiam dessa mão de obra. Já os líderes e grandes proprietários, ligados aos Liberais e Conservadores, não foram atingidos, pois compravam escravos por contrabando e a preços melhores. Já proprietários rurais de menor posse (brasileiros) pagavam preços exorbitantes. Os rebeldes da Revolução Praieira denunciavam a situação no Diário Novo. Ti- nham como contraponto Diário de Pernambuco (dos Conservadores, também cha- mados de "gabirus"). Sentido Social da Revolução Praieira. Disponível em: https://bityl.co/8tvf Todas as denúncias eram divulgadas na imprensa. Quando as divergências se tornaram mais violentas, conflito foi deflagrado. O Partido da Praia (Conservador) queria a destituição do governador da província, pois era do Partido Conservador e distribuía melhores cargos administrativos aos membros de seu partido e a uma pequena cúpula do Partido Liberal, não compondo com os demais partidos. Para conter a revolta, Dom Pedro II destituiu governador da província, Antônio Pinto Chichorro da Gama, que era representante dos liberais. Essa ação gerou um caos administrativo, provocando altos gastos na administração pública e aumento de impostos para fazer frente a eles. Isso causou inflação, desabastecimento e insatisfação nas camadas populares, que passaram a promover saques e a depredar estabelecimentos comerciais que perten- ciam aos portugueses. Em abril de 1848, os setores radicais do Partido Liberal Pernambucano acusaram a destituição de Chichorro da Gama como mais uma arbitrariedade imperial, acusação que foi acolhida pela população. Em 7 de novembro a crise eclodiu sob a liderança de José Inácio de Abreu e Lima, de Pedro Ivo Veloso da Silveira, de Bernardo José da Câ- 15UNIDADE Consolidação da Independência do Brasil mara, todos militares, e do deputado liberal Joaquim Nunes Machado e Antônio Borges da Fonseca. Inicialmente, a revolta explodiu em Recife, mas se propagou para a Zona da Mata, onde um líder popular, chamado Pedro Ivo Veloso da Silveira, mobilizou boiadeiros, pequenos arrendatários, escravos libertos, caboclos, índios e soldados. Em 1° de janeiro de 1849 lançaram Manifesto ao Mundo, no qual reivindicavam a nacionalização do comércio varejista, sufrágio universal, a liberdade de imprensa, a autonomia provincial e a extinção do poder moderador. A Praieira. Disponível em: https://bityl.co/8tvM Em fevereiro de 1848, com a adesão da população urbana que vivia em extrema po- breza, pequenos arrendatários, boiadeiros, mascates e libertos, praieiros marcharam sobre Recife com um contingente de quase dois mil e quinhentos integrantes, mas não obtiveram êxito em tomar a cidade. Chegaram a ocupar parte dela, mas não consegui- ram depor governo conservador. Mais de quinhentos foram mortos, trezentos acabaram presos e outros fugiram para exterior. Essa foi a última das grandes revoltas regionais brasileiras do tempo do Império. As Disputas entre Liberais e Conservadores Para entender as disputas ocorridas no Segundo Império em torno de mais auto- nomia e mesmo da mudança do sistema estrutural do Estado Brasileiro, é importante analisar a formação da mentalidade política do Brasil desde período colonial. Na sociedade brasileira a formação se deu a partir da formação de uma classe senho- rial que era definida a partir do antagonismo senhor-escravo. Ou seja, uma ordem social e econômica cujo sistema escravagista era denominador comum. O outro era escravo, seja índio, seja negro. Essa era a base que depois se ampliou para mulato, a mulher, pobre, estrangeiro. Na participação da cidadania política estavam de antemão excluídos escravos e parcialmente excluídos libertos, homens e mulheres, brancos e pardos livres submetidos a modos informais de domina- ção na lógica de exclusão financeira. Essa sociedade era extremamente desigual, com predomínio numérico de negros e pardos que não tinham acesso ao poder, mas estavam na base da produção da econo- mia. Segundo Mary del Priore e Renato Venâncio: Se analisarmos dados referentes à colonização da América portugue- sa, veremos que havia um forte desequilíbrio entre a população livre e a cativa. Assim, por exemplo, as estimativas relativas ao período de 1500 e 1822 sugerem que, no máximo, um milhão de portugueses vieram para Brasil, ao passo que número referente aos africanos é da ordem de três milhões. O período imediatamente posterior à independência não 16Cruzeiro do Sul Virtual Educação a distância corrigiu esse acentuando-o em uma escala nunca vista du- rante a época colonial: entre 1821 e 1830 chegavam anualmente 43 mil africanos em portos brasileiros, ao passo que a entrada de portugueses foi inferior a mil por ano. Nas duas décadas seguintes, o número destes últimos imigrantes dobrou, mas continuou ainda bastante inferior às mé- dias de desembarques anuais de africanos. Foram registradas até 1850 as chegadas de cerca de 33 a 37 mil escravos negros por ano. Além disso, um em cada três portugueses retornava a Portugal alguns anos depois de, como se dizia na época, "fazer Brasil". (VENÂNCIO; DEL PRIORE, 2010, 151). Nessa sociedade, havia concessões seletivas como a alforria, divórcio, e direitos formais de cidadania para libertos, porém que tornava uma pessoa cidadã plena era seu gênero (homem) e sua capacidade financeira. Assim, partindo do topo da pirâmide social, podemos entender a sociedade brasileira como uma sociedade de exclusão participativa em um processo de construção histórica que levou centenas de anos de luta para que grupos pudessem alcançar direitos de participação. Os fatores de exclusão estavam ligados às condições de gênero, econômicas, sociais, religiosas e culturais e alcançaram no Segundo Reinado (1840-1889) auge. Somente a partir dessa conjuntura é que podemos entender Brasil Imperial como um palco onde ideias liberais e conservadoras serviam como matrizes ideológicas para as disputas de poder: algumas foram assumidas de forma convicta e defendidas até mesmo com a própria vida; outras eram utilizadas de forma conveniente, ao sabor das situações e de acordo com interesses específicos (dependendo da situação, eram altera- das ou mesmo descartadas). Outro ponto importante é a questão da formação das classes cidadãs e processos de inclusão e exclusão dos direitos à cidadania, principalmente ligados ao exercício do voto. Porém, antes de avançarmos, é importante entender como tema foi tratado na his- toriografia. Ao examinarmos estudos sobre tema, podemos dividi-los, basicamente, em duas vertentes. A data de 1837 é apresentada como nascimento oficial do Partido Liberal Conser- vador, cujo fundador foi Bernardo Pereira de Vasconcelos, ao lado de outros políticos liberais moderados que haviam rompido com companheiros, desejando regresso de Dom Pedro I. Partido Liberal Conservador, ligado a grupos que tiveram participação no proces- da Independência, desejava, por um lado, maior autonomia para as províncias e um Estado que apoiasse a atividade agrícola e pecuária, mantendo modelo de plantantion e a matriz escravista, grande motor da economia. Assim, para historiadores como Raimundo Faoro, Partido Liberal Conservador era a própria expressão da monarquia portuguesa, colonizadora e civilizadora. Arquitetura espacial da plantation açucareira no Nordeste do Brasil (Pernambuco, século XX). Disponível em: https://bityl.co/8tvB 17UNIDADE Consolidação da Independência do Brasil Já Partido Liberal Radical ou Exaltado representaria a sociedade colonial, cuja base era a classe proprietária, com ligações ocasionais no caudilhismo e no banditismo. Contudo, essa não é a visão de Azevedo Amaral, que apresenta Liberais Conser- vadores como representantes dos grupos ligados à plantantion e Liberais Radicais como representantes de grupos intelectuais e marginais ao processo produtivo, mes- tiços urbanos. Para historiadores Fernando de Azevedo e João Camilo de Oliveira Torres a diferen- ça entre esses dois partidos estava na divisão de interesses e necessidades entre campo e cidade. Assim, Liberais Radicais representariam grupos urbanos e Liberais Conser- vadores, grupos rurais. Interessante e profunda é, também, a visão de José Murilo de Carvalho, que aponta uma complexa relação de interesses que se imbricavam na composição dos partidos políticos em que interesses regionais e nacionais muitas vezes se antagonizavam Assim, ao destrinchar essas composições, José Murilo de Carvalho aponta que Li- berais Conservadores eram compostos em parte por burocratas, magistrados, proprie- tários rurais e comerciantes das grandes cidades, enquanto Partido Liberal Radical era formado predominantemente por profissionais liberais, como advogados e jornalistas, mas nele havia, também, proprietários rurais. Para José Murilo de Carvalho não podemos falar da existência de partidos antes de 1837, mas de organizações políticas ou mesmo sociedades secretas, predominantemen- te sob influência maçônica. Veja: BASTIAN, Jean-Paul. (org.). Protestantes, liberales francmasones: sociedades de ideas modernidad en América Latina, siglo XIX. México: Cehila/Fondo de Cultura Eco- nómica, 1990; CARVALHO, J. de. A formação das almas: 0 imaginário da República no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1990. Isso teria mudado, segundo ele, com a Independência do Brasil e surgimento de grupos e associações mais abertos, como a Sociedade Defensora, a Sociedade Conser- vadora e a Sociedade Militar. Esses grupos não tiveram vida longa, pois com a morte do ex-imperador, sua causa se extinguiu. Para José Murilo de Carvalho: Os liberais eram por maior autonomia provincial, pela Justiça eletiva, pela separação da polícia e da Justiça, pela redução das atribuições do poder moderador. Os conservadores defendiam fortalecimento do poder central, controle centralizado da magistratura e da polícia, o fortaleci- mento do poder moderador. (CARVALHO, 2011, 206). Significativa, também, é a posição de Ilmar Mattos, que pontua as diferenças de formação e de projetos políticos dessas agremiações partidárias. Para ele, havia uma fluidez e uma grande aproximação entre as visões desses grupos que iam ao sabor das circunstancias. Segundo Ilmar de Mattos: 18Cruzeiro do Sul Virtual Educação a distância Entender os processos de construção do Estado imperial e de constitui- ção da classe senhorial como processos recíprocos é justamente compre- ender esta dupla dimensão do ato de governar, é ter em consideração o Estado em suas funções de dominação e de direção, é conceber a Coroa como um partido. (MATTOS, 1987, p. 169). Assim, para os Liberais Radicais, rei deveria reinar, mas não governar, pois isso cabia ao parlamento. A defesa desse grupo era a descentralização administrativa, fe- deralismo, com a valorização e direitos para cidadão, tendo como modelo sistema dos Estados Unidos. Em relação aos Liberais Conservadores, a centralização estava na figura do rei, que exercia plenamente controle administrativo e estatal em um estado centralizado com a autoridade do Ministro da Justiça, a independência da magistratura. Em torno das diferenças estava também a questão da integridade territorial. Para os Liberais Conservadores esse não era um problema maior do que outros, para Conservadores era problema central. Para ilustrar essas diferenças, citamos Ilmar de Mattos, que demonstra a discordância entre os dois principais agrupamentos políticos da época: Os Conservadores opunham-se aos Liberais por discordarem que aos Re- presentantes da Nação deveria caber a escolha da política a ser seguida "para fazer bem do país". Sustentavam que, se assim fosse, o Poder Executivo tornar-se-ia uma simples comissão do Poder Legislativo, e daí decorreria não só a confusão entre poderes, mas também à irrespon- sabilidade do Executivo; sustentavam também que, a prevalecer aquela opinião, Poder Moderador estaria atingido em sua definição constitucio- nal, pois não mais teria a necessária liberdade para demitir um ministro que estivesse executando uma política alheia. (MATTOS, 1987, p. 144). Outra vertente, representada principalmente pelos historiadores Oliveira Vianna, Caio Prado Júnior e Maria Isaura Pereira de Queiroz, advoga que, strictu sensu, não houve a formação de partidos políticos nesse período por causa de uma série de requisitos formais não cumpridos, como a constituição de programas políticos específicos, estatutos, pro- cessos de filiação, entre outros necessários para a consolidação do processo partidário. Entre essas duas vertentes, há diversas variações importantes e vozes dissonantes. Elas apontam para a independência de certos atores políticos e variações políticas mino- ritárias, mas significativas, demonstrando como era complexa a política brasileira nesse período. Não teria havido apenas uma dicotomia entre uma ideologia e outra, mas uma gama de interpretações e manifestações. Nenhuma das duas vertentes está errada. Não é possível, strictu sensu, falar de partidos políticos como conhecemos ou conforme a análise das ciências políticas dos requisitos ne- cessários para a caracterização do que seja um partido político. Isso só viria a ocorrer a partir da metade de 1842. Porém, também é correto afirmar que esses partidos guardam sim, desde 1822, ligações com as forças políticas que buscaram se unir em determinados momentos em torno de causas de seu interesse, formando alianças momentâneas. 19UNIDADE Consolidação da Independência do Brasil A partir de 1831, as práticas e as experiencias políticas acumuladas vão se constituir em partidos políticos que têm como mote alvorecer do Segundo Reinado. Para utilizar uma expressão da época, não foram saquaremas e luzias que condu- ziram processos. Foram as lutas pelo poder que acabaram por moldar projetos, oportunizar surgimento de lideranças, fazer as arregimentações e criar as afinidades que desembocariam na formação dos partidos stricto sensu. Como todo processo complexo, com diversos atores e interesses, esse foi lento, engen- drando duas grandes vertentes partidárias que, somente em 1842, terão um modelo de organização política e um discurso ideológico capaz de apontar para um modelo de nação. O nascimento e desenvolvimento de uma nação tem períodos críticos que acabam sendo períodos de desenvolvimento acelerado pela precipitação dos fatos e das crises; via de regra, apresentam-se como oportunidades de transformação, e foi isso que ocor- reu no Brasil com a chegada da família real, em 1808, a emancipação a partir de 1820 e a Abdicação, em 1831. É nesse contexto que as mudanças revelam a tensão e a crise posterior à Abdicação, que acelerou surgimento de novos atores políticos e instituições. Antes no anonimato das agremiações secretas como a maçonaria, passaram a atuar na esfera pública, ante- cipando a formação partidária de forma definitiva. Assim, podemos afirmar que projetos para Brasil passaram a ter feições mais nítidas, orientadas pela conquista e participação no governo imperial, à medida que os atores se estabeleceram e as agremiações políticas se configuraram para se tornarem entidades políticas organizadas. Na metade de 1850, existem uma máquina burocrática e uma administração estatal consolidadas que abriam espaço suficiente para indivíduos das mais diferentes cores e matizes instituírem as regras, segundo as forças políticas. Verificamos que no acontecimento da Abdicação é que podem ser repensadas as rela- ções entre Estado e sociedade, entre governo e cidadãos no tocante à representação política. A Busca por Protagonismo e Manutenção dos Grupos de Poder É comum o estabelecimento de consensos historiográficos sobre períodos históricos. Uma vez estabelecidos, servem de base para entendimento e acabam por engendrar que futuros professores devem "saber" para "poder ensinar". O consenso sobre a administração política do Segundo Reinado é que Dom Pedro II, ao assumir ainda adolescente trono, foi devidamente assessorado pelo Senado vitalício e pelo Conselho de Estado, até alcançar plena maturidade e condições para dominar meandros do governo e exercer controle sobre sistema político, garantindo assim cumprimento de suas funções outorgadas pela Constituição de 1824. Assim, as institui- ções representativas no regime imperial eram submissas ao poder imperial e este ditou rumos do Brasil nesse período. 20Cruzeiro do Sul Virtual Educação a distância Ocorre que a complexidade da política não nos permite tais simplificações, e a histó- ria é um campo de análise que joga luz sobre as dissonâncias dos processos e composi- ções dos arranjos humanos e sociais. Ao examinarmos esse período e suas composições políticas, veremos que as inter- venções do Legislativo no Executivo, as ações do Judiciário sobre outros dois poderes e as diversas manobras políticas envolvendo Judiciário eram de tal ordem que não nos permitem simplificações. 0 Poder Judiciário no Brasil: Estrutura, Críticas e Controle. Disponível em: https://bityl.co/8tuw Quando analisamos período do Segundo Reinado, entre 1840 e 1889, verificamos que houve um grande revezamento de lideranças à frente do Executivo. A composição do governo assemelhava-se ao sistema parlamentarista. Isso se tornou possível a partir de 1847 pelo Decreto Executivo de Dom Pedro II, que criou cargo de presidente do Conselho de Ministros. Esse modelo, em um arranjo tipicamente brasileiro, estava acomodado nos interesses do imperador, mas ao mesmo tempo atendia ao clientelismo político das elites políticas. O funcionamento desse gabinete estava condicionado a um tênue e difícil jogo de interesses e apoios que o líder deveria conduzir entre a Câmara e imperador, pois a permanência no cargo de confiança dependia da maioria parlamentar. Assim, imperador usava as prerrogativas do Poder Moderador dissolvendo a Câ- mara, quando esta não apoiava gabinete de sua preferência, ou destituindo líder, quando este perdia a sua confiança. Ao mesmo tempo, esse cargo levava seu titular a buscar agradar diversos interesses, pois dependia do apoio parlamentar para continuar na função. Ao longo do tempo, sistema mostrou a fragilidade política e jogo de arranjos e rearranjos da atividade parlamentar. Foram trinta e sete gabinetes: uma média de um ano de permanência no poder para cada uma das formações governamentais. Dessa forma, Liberais e Conservadores alcançavam e perdiam postos, em uma alternân- cia muito grande, que revelava a instabilidade entre partidos no Legislativo (Câmara). Essa alternância se deu por conflitos entre Executivo e Legislativo em mais da metade dos episódios. A queda dos gabinetes era frequente e suas causas estavam asso- ciadas às instabilidades entre OS políticos, muito mais do que à intervenção do impera- dor, ainda que sua autoridade sobre outros poderes estivesse justamente no exercício do Poder Moderador, que a Constituição de 1834 lhe outorgava, garantindo à Coroa a supremacia sobre demais poderes. Outro ponto importante a esclarecer sobre a construção da ordem política imperial é a formação dos membros do Partido Conservador. Murilo Carvalho aponta que 21UNIDADE Consolidação da Independência do Brasil principais construtores do Estado constituíam uma classe social homogênea, tanto na socialização quanto no treinamento e na política. José Murilo de Carvalho indica fato de que muitos tiveram formação no exterior, principalmente na área jurídica, compartilhavam de opiniões semelhantes e participa- vam do gerenciamento dos negócios públicos, com grande circulação por todo terri- tório nacional. Sua experiência no exercício público fazia com que seus integrantes tivessem amplo conhecimento da máquina pública, além de estarem ligados às demandas agrário-expor- tadoras. Segundo José Murilo de Carvalho: Argumentamos, portanto, que a adoção de uma solução monárquica no Brasil, a manutenção da unidade da ex-colônia e a construção de um governo civil estável foram em boa parte consequência do tipo de elite política existente à época da Independência, gerado pela política colonial portuguesa. Essa elite se caracterizava sobretudo pela homogeneidade ideológica e de treinamento. (CARVALHO, 2011, p. 21). Dessa maneira, não é de estranhar que interesses agrário-exportadores da base econômica da Coroa, do Estado e da própria sociedade brasileira, conseguissem implan- tar um modelo de regime político e de dominação. Apesar de haver outras composições de forças e de ideologias, como liberalismo e sua defesa da federalização do Brasil, não conseguiram superar a conjuntura de forças que não estavam dispostas a arriscar outro modelo político. Porém, já em meados de 1860, as circunstâncias se alteram, com uma série de eventos, como a abertura de universidades, aumento do comércio e a expansão do sistema educa- cional, junto com a pressão cada vez maior por maior participação social e eleitoral. Isso foi possível por causa de medidas legislativas que, ao longo do tempo, se mos- traram efetivas. Em 1884, foi promulgada a Tarifa Alves Branco, que aumentou impostos dos artigos importados, estimulando a produção industrial nacional e dando origem à classe operária. A Tarifa Alves Branco. Disponível em: https://bityl.co/8tuf Ao mapear sistema econômico produtivo, percebemos uma sociedade agrária pu- jante, como a pecuária em diversas partes do Brasil, a produção de charque no Sul; no Norte, havia grande extração de látex; no Nordeste, havia produção de borracha; no Nordeste, a produção de açúcar era predominante. No Sudeste, cultivava-se algodão, com predominância em Minas Gerais; e no Pará e Nordeste (Maranhão, Bahia, Ceará, no centro e no sul da Bahia) destacava-se a plantação de tabaco. Além disso, a criação de universidades proporcionou a formação de novos profis- sionais, como advogados, médicos, jornalistas, alfaiates, agrimensores, a fundação de indústrias de diversos setores e a abertura de bancos e de companhias de navegação. 22Cruzeiro do Sul Virtual Educação a distância Veja: FÁVERO, L.A, Universidade do Brasil: das origens à construção. Rio de Janeiro: Editora UFRJ/INEP, 2000; MORONISI, M. (org.). universidade no Brasil: concepções e modelos. Brasília: Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, 2006. Esse período também ficou marcado pelo oferecimento de serviços públicos, como transporte, saneamento, iluminação, desenvolvimento dos sistemas de canalização de águas e iluminação a gás, e pela ampliação do comércio, de cafés e de confeitarias, Ou seja, a prosperidade em algumas partes do País foi visível; em outras, a vida per- maneceu inalterada, de forma que as contradições e as diferenças sociais se agravaram. 23

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