Logo Passei Direto
Buscar

Ofensiva neoliberal e as implicações na área educacional

Ferramentas de estudo

Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.

Prévia do material em texto

Ofensiva neoliberal e as implicações na área educacional 
Renata Bento Leme 
Doutoranda (PPGE/Unesp) 
 
Marluce Silva Valente 
Mestranda (PPGE/Unesp) 
 
A oferta da educação pública sofre alterações conforme o sistema capitalista passa 
por suas crises cíclicas. A classe dominante, detentora dos meios de produção, 
encontrou no campo educacional um meio de difundir suas ideias e de perpetuar a 
estrutura da sociedade que é pautada no modo de produção capitalista. Os 
defensores do neoliberalismo acabam por desqualificar a escola pública, colocando 
a necessidade de renovação da escola para uma lógica mercantil e de privatização. 
Assim, a oferta de ensino acaba por beneficiar a classe dominante em três aspectos: 
 
1. ajuda a moldar a consciência dos sujeitos componentes da classe 
trabalhadora para colocar em prática os interesses da burguesia; 
2. o ensino compulsório profissionalizante, que qualifica precariamente para o 
mercado de trabalho a formação de mão de obra; e 
3. abre espaço para os empresários da Educação, e o setor privado é 
beneficiado tanto com a venda de material didático quanto com as verbas 
públicas. 
 
Para compreender a lógica mercantil na área educacional, faz-se necessário 
analisar as implicações que as crises cíclicas do sistema capitalista acarretam para 
a educação. Sendo a escola uma reprodutora das relações de classe, o 
entendimento do sistema político e econômico ajuda a compreender os vínculos 
estabelecidos entre o Estado e os representantes da classe dominante. O notório é 
que o Estado tem perpassado seu papel. 
 
De acordo com Octávio Ianni, o Estado não é um órgão apenas de 
mediação nas relações de classe. Ele é elemento de preservação do 
predomínio de uma sobre outra classe (Ianni, 1989, p. 240). Para ele, a 
função primordial do Estado é a garantia das condições de produção e 
expropriação. Porém, com os processos de estatização ocorridos no 
século XX, o Estado também se inseriu nas condições de produção (Ianni, 
1989, p. 258), o que se convencionou chamar Estado-empresário (Novaes; 
Okumura, 2021, p. 162). 
 
Como afirma Ball (2001), dentro do contexto da globalização, com as 
transformações econômicas fica a dúvida quanto à capacidade individual dos países 
na condução e gestão de suas próprias economias. A perda de autonomia dos 
países periféricos ocorre devido ao poder das corporações multinacionais, ao 
mercado financeiro global e ao avanço das indústrias dos países centrais. Como 
indaga Ball (2001, p.101): “Além disto, perdem também esses Estados nações 
individuais a sua autonomia política e econômica perante a crescente amplitude e 
influência das organizações supranacionais?”. Como notado historicamente, os 
países periféricos não possuem o controle; no caso do Brasil, nos poucos governos 
que adotaram mínimas políticas que beneficiavam a classe trabalhadora, houve 
intervenção dos países centrais – a exemplo de 1964, quando Joao Goulart foi tirado 
do poder, e 2016, quando Dilma Rousseff sofreu o golpe institucional. 
 
O neoliberalismo foi formulado com base na necessidade do capitalismo de se 
refazer em suas constantes crises. De acordo com Novaes e Okumura (2021), com 
a mundialização do capital, configurada pelo desemprego estrutural, pela destruição 
da biodiversidade, pelo desmatamento, pelo aumento da pobreza etc., o sistema 
econômico passou a ter a ditadura do capital financeiro. A mundialização, inerente 
ao modo de produção capitalista, buscou alastrar o comércio internacional e 
intensificou o mercado global, aprofundou a competitividade no mercado 
internacional e trouxe como objetivo crucial a necessidade de mudanças que 
sustentaram as reformas políticas adotadas na década de 1990. A competitividade 
no mercado internacional, com a intensificação da mundialização, foi uma fonte 
encontrada para o avanço do modo de produção capitalista. Entretanto, uma nova 
configuração do Estado era necessária para que passasse a funcionar como um 
mercado, diminuindo gastos e passando para outros setores os serviços gestão dos 
serviços públicos. O Estado mínimo era necessário para que fosse superada a crise 
do capital; assim, prevaleceu a ideia de que o mercado deveria suprir as falhas do 
Estado para que ele fosse eficiente e produtivo. 
 
A educação escolar é um meio de manutenção do sistema capitalista que ocorre 
desde moldar os sujeitos, com instruções comportamentais, até as instruções 
mínimas requeridas no mundo do trabalho. Além disso, a inconstância com as 
reformulações para a saída das crises cíclicas acaba por modificar o currículo nas 
escolas públicas. Os avanços do pensamento neoliberal sustentam a nova gestão 
pública por meio das parcerias público-privadas; mais precisamente, a publicização 
tem sido o meio de empresários tomarem posse da gestão escolar. 
 
Este texto tem por objetivo discutir as reformulações que a mundialização do capital 
trouxe para a área educacional; com ela, os empresários da Educação adentraram 
os espaços escolares. Para isso, o texto segue dividido em duas partes: a primeira 
analisa o avanço do neoliberalismo e a reforma do Estado no Brasil em 1995; na 
segunda, discute-se a relação dos empresários no gerencialismo da Educação. 
 
 
 
O Estado e o desenvolvimento capitalista 
O capitalismo, pautado no modo de produção que visa à acumulação de capital por 
pequena parcela da população (classe dominante), passa por constantes crises 
desde sua origem, as chamadas “crises cíclicas” provocadas por excesso de 
produção. Para entender como o próprio sistema cria mecanismos para dar 
continuidade à acumulação de capital via modo de produção capitalista, é preciso 
recorrer às correntes do liberalismo clássico e neoliberalismo. De acordo com 
Moraes (2001), o teórico do liberalismo clássico, Adam Smith, acreditava que a livre 
iniciativa era o caminho para o desenvolvimento econômico e que o Estado não 
deveria intervir nas relações econômicas. Segundo Moraes (2001, p. 5), 
 
prega a necessidade de desregulamentar e privatizar as atividades 
econômicas, reduzindo o Estado a funções definidas, que delimitassem 
apenas parâmetros bastante gerais para as atividades livres dos agentes 
econômicos. São três as funções do governo na argumentação de Smith: 
a manutenção da segurança interna e externa, a garantia da propriedade 
e dos contratos e a responsabilidade por serviços essenciais de utilidade 
pública. 
 
Dois fenômenos distintos surgiram em períodos de profundas crises econômicas em 
algumas regiões do mundo. Na primeira grande crise, alguns países adotaram o 
Estado de Bem-Estar Social para prover bens sociais para a população, pautado no 
keynesianismo, em que se veiculava a ideia de pleno emprego. Já o neoliberalismo 
surgiu após a Segunda Guerra Mundial em alguns países da Europa e na América 
do Norte. Seu teórico percussor foi Friedrich Hayek, com o livro O caminho da 
servidão, escrito em 1944, o qual buscou no liberalismo clássico o embasamento 
para a concepção do neoliberalismo. Configurou-se como uma reação contra o 
intervencionismo do Estado de Bem-Estar Social, que, para Hayek, ameaçava a 
liberdade econômica e política, assim como o igualitarismo promovido pelo Estado 
que destruía a liberdade dos cidadãos. 
 
Uma sociedade livre, sem planejamento e sem coerção estatal, utiliza mais 
conhecimento e, portanto, é mais flexível, eficiente, livre, plural e criativa. 
Essas ideias são elaboradas por Hayek já nos anos 30, como base de sua 
defesa do liberalismo e como instrumento de ataque à planificação e ao 
intervencionismo estatal (Moraes, 2001, p. 24). 
 
Como corrobora Anderson (1995), para o teórico Hayek as raízes das crises 
estavam localizadas no poder excessivo dos sindicatos e no movimento dos 
operários que haviam corroído as bases de acumulação capitalista com as 
reivindicações por melhorias de salários, condições melhores de trabalho; isso, paraos defensores do neoliberalismo, era uma pressão parasitária que fazia com que o 
Estado aumentasse os gastos com serviços sociais. Hayek e outros teóricos ligados 
à escola de Chicago, Virgínia e a escola austríaca, foram os difusores do 
pensamento de combate ao keynesianismo e solidarismo adotado por algumas 
nações para reerguerem-se nos tempos de crise (Anderson, 1995, p. 10). Em suma, 
os governos que adotaram o sistema econômico neoliberal usaram estratégias 
como: contrair a emissão monetária; baixar os impostos de rendimentos mais altos; 
criar níveis de desemprego massivos; cortar gastos sociais; e lançar um amplo 
programa de privatizações. 
 
Após a crise de acumulação de capital ocorrida na década de 1970, a burguesia 
adotou as políticas neoliberais como meio de superação dos problemas econômicos 
e de produção. A implantação do neoliberalismo trouxe fatores que impactaram as 
condições de vida da classe trabalhadora. Nos países periféricos, ocorreu com 
maior intensidade e ritmo o aumento das jornadas de trabalho, em contrapartida ao 
número elevado de desempregados, baixa remuneração e diminuição dos direitos 
trabalhistas. 
 
Em 1974, registrou-se pela primeira vez a estagflação – um misto de 
inflação alta e estagnação que afetava o conjunto dos países capitalistas 
desenvolvidos. Crescia o mercado financeiro paralelo que desafiava as 
regulamentações nacionais: comércio de ações, de títulos públicos, de 
divisas, as formas de riqueza intangível e líquida do capitalismo de papel. 
Mas ainda seriam necessários alguns anos de crise e de insistente 
pregação para que o novo ideário impusesse sua hegemonia (Moraes, 
2001, p. 16). 
 
Como corroboram Novaes e Okumura (2021), no Brasil o governo ditatorial entre 
1964 e 1985 deu início à barbárie inerente ao sistema capitalista. Ao mesmo tempo 
que ocorria a ascensão de governos neoliberais pelo mundo, como Margareth 
Thatcher 1979 na Inglaterra e Ronald Reagan em 1980 nos Estados Unidos, os 
países periféricos passavam por governos autoritários que desmontaram a 
democracia parlamentar, perseguiram opositores da esquerda, torturaram 
trabalhadores que não aceitavam as políticas austeras adotadas pelos militares 
apoiados pelos EUA. 
 
A rigor, porém, as primeiras grandes experiências de "ajuste" neoliberal 
foram ensaiadas na América Latina: em 1973, no Chile, com Pinochet, e 
em 1976, na Argentina, com o general Videla e o ministério de Martinez de 
Hoz. Nos anos 80, os programas neoliberais de ajuste econômico foram 
impostos a países latino-americanos como condição para a renegociação 
de suas dívidas galopantes. Daí se passou à vigilância e ao efetivo 
gerenciamento das economias locais pelo Banco Mundial e pelo FMI: 1985, 
Bolívia; 1988, México, com Salinas de Gortari; 1989, novamente a 
Argentina, dessa vez com Menen; 1989, Venezuela, com Carlos Andrés 
Perez; 1990, Fujimori, no Peru. E, desde 1989, o Brasil, de Collor a 
Cardoso (Moraes, 2001, p. 16). 
 
No Brasil, o Estado neoliberal se fixou num momento em que o país passava por 
um processo de conquistas de direitos dos trabalhadores. Desde então, as políticas 
públicas vêm passando por mudanças no que se refere à implementação e à gestão. 
A grande ofensiva neoliberal ocorreu no início da década de 1990; no primeiro 
momento, considerando o Estado ineficaz e parasitário, os representantes da 
burguesia alegavam que era preciso reduzir a intervenção do Estado ao mínimo 
possível para que ocorresse o funcionamento do mercado. As agências multilaterais, 
como Banco Mundial (BM), Organização para Cooperação e Desenvolvimento 
Econômico (OCDE), Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento 
(BIRD) etc., pressionaram para que ocorresse a reforma do Estado na segunda 
metade da década de 1990. Surgiu a ideia de que o Estado poderia ser reformado 
e que a sociedade civil seria a parceira para atuar nas áreas sociais, ou seja, um 
“terceiro setor” seria o responsável por suprir as necessidades básicas da população 
menos favorecida, pois o Estado não deveria prover os bens sociais. 
 
Um outro dado que merece ser levado em consideração é que o terceiro 
setor ressurge num contexto de crise econômica em que muitas das 
entidades são organizadas para responder ao desamparo dos 
trabalhadores e das suas famílias frente ao desemprego e ao processo de 
reestruturação produtiva. Isso, no entanto, não significa que haja 
competição entre o Estado e o terceiro setor. Há, pelo contrário, uma 
interdependência que pouco tem mudado nestes últimos anos, embora 
permaneça uma certa ambiguidade nessa relação, em que limites entre o 
Estado e o terceiro setor ainda não estão claros, o que tem refletido, dentre 
outras, a tensão do Estado nas suas opções de intervenção no campo 
econômico e social (Santos, 1998). Portanto, é importante o alerta de 
Petras (1996) para o papel ideológico que cumpre a valorização do terceiro 
setor na legitimação das políticas neoliberais nos países periféricos (Silva, 
2001, p. 3). 
 
De acordo com Silva (2001), no Brasil, o marco institucional da reforma do Estado 
ocorreu com a “criação Ministério da Administração e Reforma do Estado e a 
elaboração do Plano Diretor da Reforma do Aparelho de Estado”. O governo de 
Fernando Henrique Cardoso assumiu o discurso de que o pressuposto do modelo 
de Estado interventor na economia e nos gastos públicos tinha gerado uma crise e 
por isso havia necessidade de reformar o Estado. O ministro Bresser Pereira 
apresentou uma proposta de Estado social-liberal; nessa proposta, o Estado não 
seria nem social-burocrático referente a contratações, nem neoliberal que se 
desresponsabiliza de prover os bens sociais. 
 
Entretanto, havia quatro problemas a serem enfrentados pelo governo para que se 
viabilizasse a reconstrução do Estado: “o tamanho do Estado, a necessidade de 
redefinição do papel regulador do Estado; a recuperação da governança e 
governabilidade” (Silva, 2001, p. 5). Para resolver tais problemas, o governo realizou 
as parcerias público-privadas, com programas sociais que descentralizavam a 
administração para esferas subnacionais em parceria com o terceiro setor. Com 
essas medidas, a reforma do Estado foi formulada em três eixos: privatização, 
publicização e terceirização: “O terceiro eixo básico é a terceirização através da qual 
o Governo transfere para o setor privado, mediante contratos, serviços auxiliares ou 
de apoio como a limpeza, o processamento de dados e o transporte” (Silva, 2001, 
p. 6). 
 
Com a mundialização, fenômeno que marcou a década de 1990, no Brasil ocorreram 
mudanças no papel do Estado no que diz respeito à capacidade de prover serviços 
sociais que amenizassem os efeitos da acumulação de capital. Uma das formas 
encontradas para reformular a acumulação de capital foi pautada na chamada 
“terceira via”, inspirada na sociologia de Anthony Giddens. Sua proposta apontava 
para novas atribuições da sociedade civil e do Estado no que se refere a políticas 
sociais e educacionais. A terceira via foi uma forma encontrada para flexibilizar 
alguns dogmas do neoliberalismo; paradoxalmente, foi disseminada por partidos 
políticos tidos como “progressistas” e “de esquerda”. 
 
Como afirmam Groppo e Martins (2008), a sistematização da doutrina política de 
Giddens tinha como proposta contrabalançar (e não combater) o poder do mercado; 
a atuação do Estado com parceria da sociedade civil poderia ser composta por 
sujeitos individuais ou associações voluntárias, como as organizações não 
governamentais (ONG), que atuariam na execução de políticas de assistência social 
e de educação. Como meio de colocar em prática a lógica neoliberal de que o Estado 
não deve prover serviços sociais públicos, encontram-se meios de descentralizar a 
responsabilização; a sociedade civil, por meio de organizações sociais, passa a 
suprir as necessidades da população. Advoga-se que o sujeitodeve ser apto e 
capaz de assumir a responsabilidade por seu meio de sobrevivência, mas isso é 
apenas uma forma de adequar a população a novos meios no modo de produção 
capitalista para acumulação de capital. 
 
Ele foi quem mais a assumiu e organizou como ideologia política, ao 
mesmo tempo que explanou, em linguagem coloquial, o neoliberalismo da 
terceira via. Essa discussão ocupa a maior parte do texto, passando por 
um olhar sobre a teoria sociológica de Giddens e, em especial, suas 
propostas de contrabalançar – mas nunca combater – o poder do mercado 
pela atuação “positiva” do Estado e da “sociedade civil”. Esta [é] composta 
por atores individuais e associações voluntárias do tipo organizações não 
governamentais (ONG), cujas atribuições incluiriam a parceria com o 
Estado na execução de políticas sociais, em especial na área da 
assistência social e da educação (Groppo; Martins, 2008, p. 216). 
 
A partir da reforma do Estado, as parcerias público-privadas intensificaram a oferta 
dos serviços públicos. O papel do Estado como provedor de serviços foi redefinido, 
pautado na lógica de que a intervenção do Estado ameaçava a liberdade econômica 
e política. Assim, a partir do Plano Diretor (1995), idealizado pelo então ministro 
Bresser Pereira, as políticas sociais foram repassadas para as organizações sociais. 
A propriedade estatal foi deslocada para o chamado público não estatal. Há uma 
nova configuração: a propriedade continua sendo pública, mas com parceria privada 
para gestão. A relação entre público e privado muda, e assim é redefinido também 
o papel do Estado. As consultorias de empresas privadas têm sido usadas para 
demonstrar a ineficácia do Estado. 
 
Montaño (2002) observa que o objetivo de retirar do Estado (e do capital) 
a responsabilidade de intervenção na questão social e de transferi-los para 
a esfera do terceiro setor não ocorre por motivos de eficiência (como se as 
ONGs fossem naturalmente mais eficientes que o Estado) nem apenas por 
razões financeiras: reduzir os custos necessários para sustentar essa 
função estatal. O motivo é fundamentalmente político-ideológico: retirar e 
esvaziar a dimensão do direito universal do cidadão quanto a políticas 
sociais (estatais) de qualidade; criar uma cultura de autoculpa pelas 
mazelas que afetam a população e de autoajuda e ajuda mútua para seu 
enfrentamento, desonerar o capital de tais responsabilidades, criando, por 
um lado, uma imagem de transferência de responsabilidades e, por outro, 
a partir da precarização e focalização (não universalização) da ação social 
(Novaes; Okumura, 2021, p. 177). 
 
Para que ocorra a desmoralização da eficiência dos serviços públicos, há inúmeros 
documentos de consultorias de empresas privadas que, aliadas a governos, são 
contratadas para dar prestígio ao setor privado ao mesmo tempo que trazem em 
seus diagnósticos a ineficácia dos setores públicos. 
 
O Estado e o gerencialismo da educação 
Os chamados reformadores empresariais da Educação apresentam-se como a 
forma adequada de consertar o sistema educacional via iniciativa privada. Como 
afirma Freitas (2012), nos EUA, o movimento surgiu em 1980 com a publicação do 
relatório Nation at Risk pela National Commission on Excellence in Education, em 
1983. No relatório estava descrita a situação de caos em que as escolas 
estadunidenses se encontravam, o que os empresários, definiam como grande 
comprometimento na competitividade dos rankings internacionais. A vinculação de 
empresários às políticas educacionais transformou o novo sistema educacional 
norte-americano, pautado em testes padronizados, em um negócio lucrativo. Para 
isso, foi criada uma crise dentro de um contexto específico que colocou os 
educadores como os causadores do caos educacional. As técnicas usadas para 
avaliar a situação das escolas eram questionáveis, os métodos e a análise de dados 
eram enganosos, o que ocasionou distorção dos resultados de relatórios e 
consequentemente esquemas equivocados para reformar a educação; tais 
esquemas só trariam prejuízos ao sistema educacional. De acordo com Ball (2013, 
p. 178), 
 
há agora várias manifestações de heterarquias políticas na Educação, em 
muitos contextos diferentes (diferentes partes do setor público, setores de 
Educação, regiões e localidades, Estados-nações – alguns são 
transnacionais), trabalhando e mudando o processo das políticas e as 
relações delas, cada um dos quais combina elementos de desestatização, 
e que envolvem uma gama limitada de novos jogadores, partes 
interessadas e interesses na educação estatal, planejamento e tomada de 
decisão na educação e conversações sobre política educacional. 
 
Em 2006, o governo do então presidente Luis Inácio Lula da Silva trouxe os 
empresários para participar ativamente da elaboração de políticas educacionais. 
Parecido com o movimento dos EUA, surgiu aqui no país o Movimento Todos pela 
Educação, formado por grandes instituições privadas e tendo como presidente Jorge 
Gerdau, do Grupo Gerdau. Tal movimento disputa a hegemonia do pensamento 
educacional; é uma tentativa de levar uma lógica mercantil de educação para as 
escolas públicas. O discurso dos empresários da Educação está em confluência de 
uma série de ciências, entre elas a Psicologia Behaviorista, as Ciências da 
Informação e a Neurociência. A partir desses campos, constrói uma cultura de 
auditoria que se refere a uma emergência de sistemas de regulação nos quais a 
qualidade está subordinada à lógica administrativa, tendo como foco o controle do 
controle. 
 
Fundações, institutos e ONGs ganham enorme poder — como aparelhos 
privados de hegemonia — na formulação, implementação e avaliação de 
políticas públicas educacionais. Todos pela Educação, Instituto Ayrton 
Senna, Fundação Lehman, entre tantas outras, passam a controlar 
espaços estratégicos do Estado (Novaes; Okumura, 2021, p. 72). 
 
De acordo com Ball (2013), surgiram novas narrativas sobre o que é a boa educação 
articulada e validada, foi estabelecida então a narrativa de solução empresarial e 
empreendedora como meio de salvação para o setor educacional. A imagem de 
eficiência do setor privado passou a ser incorporada à implementação da gestão 
privada em setores públicos. A gestão gerencial/empresarial escolhida pelos 
reformadores traz a noção de que a gestão empresarial é a ideal para que a escola 
pública tenha bom desempenho. Na realidade, essa foi uma forma de os 
empresários da Educação adentrarem os espaços educativos e trazerem elementos 
da terceira via e do terceiro setor mediante articulações das políticas educacionais. 
Como afirma Ball (2013, p. 181), 
 
o setor público geralmente é influenciado e transformado por esses novos 
atores políticos, de fora para dentro e de dentro para fora. Uniões e 
alianças em torno de preocupações com as políticas se cruzam entre o 
setor público e privado. Novos valores e modos de ação são, portanto, 
criados e legitimados, e novas formas de autoridade moral são 
estabelecidas, e novamente outros são reduzidos ou ridicularizados. 
 
Nessa perspectiva, o Estado assumiu caráter gerencialista que prioriza a eficiência, 
reduz gastos com o setor público, controla e introduz métodos avaliativos de 
desempenho individual. O gerenciamento está embasado no controle de qualidade 
que visa estabelecer padrões; o gerenciamento se divide em dois tipos: controle 
cotidiano por meio de processos repetitivos, que requer planejamento e execução; 
o outro visa a construção da organização, busca a melhoria dos processos e do 
enfrentamento à competição. 
 
No contexto do gerencialismo, a lógica do mercado se inseriu, cada vez 
mais, nos espaços públicos, num processo em que o setor público tem 
incorporado na sua dinâmica de funcionamento aspectos da cultura 
empresarial competitiva. Têm-se, dessa forma, as bases do gerencialismo 
que irá orientar a reorganização dotrabalho, tanto no setor produtivo, no 
mundo da produção e circulação de mercadorias, quanto na organização 
e funcionamento do Estado no contexto da globalização e do avanço do 
ideário neoliberal (Silva; Carvalho, 2014, p. 217). 
 
O campo educacional sofreu com essas novas formas de gestão. Os ministros da 
América Latina reconheceram, na Declaração de Quito (1991), que a Educação teria 
alcançado importante avanço na expansão educacional, porém as formas 
tradicionais dos sistemas educacionais estavam esgotando as possibilidades de 
alinhar quantidade com qualidade. Houve necessidade de refazer a gestão para que 
se permitisse articular a educação com as demandas econômicas, sociais e 
políticas. 
 
Aqui, é importante frisar que a política educacional e a política de 
qualificação acompanham a desestruturação do mercado de trabalho. Elas 
são muito fortemente determinadas pelas mudanças do mundo do 
trabalho, num país onde o capitalismo é dependente e associado (Novaes; 
Okumura, 2021, p. 74). 
 
A escola pública estatal sofreu alterações no currículo, nas formas de avaliação e 
de organização do trabalho educativo: “o Estado avaliador e, consequentemente, o 
Estado regulador, está presente de várias formas na realidade educacional, mas, 
principalmente, nas avaliações externas” (Silva; Carvalho, 2014, p. 220). As 
avaliações tornaram-se meio de regulação da educação. Os instrumentos 
avaliativos seguem a lógica do “quase mercado” e colocam critérios de eficiência, 
produtividade e competitividade nos espaços educativos. Os resultados são 
privilegiados, e a classificação da escola nos testes padronizados aparece como 
uma amostragem falaciosa de meritocracia. A qualidade está ligada e subordinada 
à competitividade, que considera apenas os aspectos quantitativos descarta, 
através de testes padronizados, as verdadeiras causas dos problemas enfrentados 
pelas escolas públicas, pois o objetivo é apresentar em números a ineficiência do 
serviço público. 
 
A formulação, implementação e avaliação das políticas educacionais passa 
progressivamente para as mãos do chamado terceiro setor. Como ele não 
consegue se apropriar de todo o sistema educacional estatal, passa a 
direcionar o sentido das escolas estatais e em alguns ganhos controlar 
esses sistemas educacionais (Novaes; Okumura, 2021, p. 180). 
 
Entretanto, os professores perderam o controle do que ensinam em sala de aula, a 
Educação passou a ser mais pautada na competência humana. Diferencia-se o 
comportamento dos resultados do próprio comportamento, sendo necessário um 
reforço (premiar) para que se obtenham “resultados com valor”. O comportamento 
acaba sendo um fim para obter “sucesso” nas salas de aula, não é o meio para se 
alcançar o ensino-aprendizagem, ele é a própria aprendizagem. Busca-se o bom 
comportamento dos alunos, ao invés de lhes oferecer conteúdo. Os sujeitos são 
moldados e instruídos a adentrar um mercado de trabalho precário que, para se 
tornar atrativo, busca a modificação das nomenclaturas. 
 
Como parte do processo de mundialização do capital, um novo dicionário 
do capital foi criado. Termos como empregabilidade, flexibilidade, 
competências, sociedade do conhecimento, indústria 4.0, 
empreendedorismo, sustentabilidade, responsabilidade social, aprender a 
aprender passam a dar a tônica do debate na educação em geral, em 
especial na Educação Profissional (Novaes, Okumura, 2021, p. 180). 
 
Somado aos resultados dos testes padronizados, a escola tornou-se uma mera 
formadora de mão de obra para inserir sujeitos com pouca instrução, somente a 
necessária, como saber ler e escrever, no modo de produção capitalista. De acordo 
com Saviani (2011), no neotecnicismo o processo educativo é reorganizado a fim de 
torná-lo objetivo e operacional; inspirado no princípio da racionalidade, eficiência e 
produtividade, o processo define a função do professor e do aluno, partindo do 
pressuposto da neutralidade científica. 
 
Considerações finais 
Na década de 1980, o Brasil passou por intensas lutas pela redemocratização e pela 
participação dos trabalhadores na gestão pública. Vale ressaltar que, nesse mesmo 
período, o neoliberalismo se instalava fortemente no país, o que fez com que seus 
defensores cooptassem a luta pela gestão democrática e usassem tal bandeira na 
reforma do Estado para a descentralização das responsabilidades das unidades 
subnacionais. O neoliberalismo prega que a crise do capital é devida aos gastos e, 
consequentemente, ao endividamento do Estado com serviços públicos; a 
superação desse problema seria um Estado mínimo para execução e coordenação 
da sociedade, que passaria a ser gerida pelo mercado com parâmetros de eficiência 
e qualidade dos setores privados. 
 
No campo educacional, a meritocracia foi posta para que o alunado passasse a ser 
responsável por sua aprendizagem: se não apreende conteúdos e não consegue 
avançar nos níveis de estudos, é culpabilizado sem que sejam analisadas suas 
condições (ou falta delas) que impedem tal avanço. Além disso, o movimento 
neoliberal acaba por desqualificar a escola pública, colocando a necessidade de sua 
renovação para uma lógica mercantil e de privatização. Para os defensores do 
neoliberalismo, o Estado não pode ser responsável pela Educação, já que ela não 
traz lucros para o sistema capitalista; assim, é preciso dar à oferta de educação um 
meio utilitarista, seja por meio de formação de mão de obra para o mercado de 
trabalho, seja privatizando as escolas públicas. “Nesse modelo, a educação é 
considerada como um bem de capital” (Laval, 2004, p. 89). 
 
A escola perdeu sua função de formação emancipadora, e o professor tornou-se 
apenas um “treinador” de provas, pois a “qualidade” que os empresários buscam no 
ensino é medida por testes padronizados. A premiação para os “resultados com 
valor” leva à competição entre professores e escolas; não há ajuda mútua nos 
espaços educativos, pois a forma de premiar acaba por desarticular a classe de 
professores. A isso também é agregada a responsabilização dos sujeitos pelo 
fracasso escolar, assim como o sucesso escolar exposto como meritocracia, recai 
nos professores, alunos e escola. A responsabilização e a meritocracia têm papel 
fundamental para que os empresários da Educação possam se beneficiar da 
privatização ou da mercantilização da oferta de educação. 
 
Uma vez em que se destrói a imagem da escola pública e coloca sobre ela um manto 
de ineficiência, a salvação surge da gestão privada, pois há uma visão equivocada 
de que as empresas privadas têm maior “sucesso” na gestão em comparação ao 
serviço público. Assim, o conceito público estatal e público não estatal abriram para 
a concessão da gestão dos serviços públicos por meio de empresas privadas e 
organizações sociais. As escolas continuam sendo gratuitas, porém o Estado passa 
a gestão para o setor privado. Outra forma de benefício dos empresários é através 
dos vouchers, mais conhecidas no Brasil com a terminologia “bolsas de estudos”; 
nessa modalidade o Estado paga determinado valor (referente ao curso escolhido 
pelo aluno) para escolas/universidades privadas. Ao invés de investir no aumento 
de vagas em universidades públicas, o Estado transfere verba pública para o setor 
privado de educação. 
 
Outra questão é que, no sistema capitalista, a desigualdade é encarada como algo 
positivo, uma vez que prega que cada sujeito social é responsável pelo seu bem-
estar e por sua condição financeira. Assim, o sujeito que não alcança determinada 
posição na sociedade é culpabilizado por sua condição, pois difunde-se que no 
capitalismo as pessoas são livres para trabalhar e adquirir os bens de consumo que 
lhes convêm. E quanto mais esforço um sujeito estiver apto a fazer, mais mérito terá. 
A essa lógica fica implícita a questão da acumulação de capital por parte de uma 
minoria que, consequentemente, deixa a maioriados cidadãos sem acesso aos 
bens elementares à condição de vida humana. 
 
Referências 
AFONSO, Almerindo Janela. Avaliação educacional: regulação e emancipação – para uma sociologia das políticas 
avaliativas contemporâneas. São Paulo: Cortez, 2000. 
 
ANDERSON, Perry. Balanço do neoliberalismo. In: SADER, Emir; GENTILI, Pablo (org.). Pós-neoliberalismo: as 
políticas sociais e o Estado democrático. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1995. p. 9-23. 
 
BALL, Stephen J. Diretrizes políticas globais e relações políticas locais em educação. Currículo sem Fronteira, Porto 
Alegre, v. 1, nº 2, p. 99-116, jul./dez. 2001. 
 
BALL, Stephen J. Novos Estados, nova governança e nova política educacional. In: APPLE, W.; BALL, S. J.; GANDIN, 
L. A. Sociologia da educação: análise internacional. Trad. Cristina Monteiro. Porto Alegre: Penso, 2013. p. 177-189. 
 
FREITAS, Luiz Carlos de. Os reformadores empresariais da educação: da desmoralização do magistério à destruição 
do sistema público de educação. Educ. Soc., Campinas, v. 33, nº 119, p. 379-404, abr./jun. 2012. 
 
GROPPO, Luís Antonio; MARTINS, Marcos Franscisco. Terceira via e políticas educacionais: um novo mantra para a 
educação. RBPAE, v. 24, nº 2, p. 215-233, maio/ago. 2008. 
 
LAVAL, Christian. A escola não é uma empresa: o neoliberalismo em ataque ao ensino público. Londrina: Planta, 
2004. 
 
MORAES, R. C. Neoliberalismo: de onde vem, para onde vai. São Paulo: Editora Senac, 2001. 
 
NOVAES, Henrique Tahan; OKUMURA, Julio Hideyshi. Introdução à política educacional em tempos de barbárie. São 
Paulo: Lutas Anticapital, 2021. 
 
SAVIANI, Dermeval. Pedagogia histórico-crítica: primeiras aproximações. 11ª ed. rev. Campinas: Autores Associados, 
2011. 
 
SILVA, Ilse G. A reforma do Estado brasileiro nos anos 90: processos e contradições. Revista Lutas Sociais, nº 7, 
2001. 
 
SILVA, M. S. P. da; CARVALHO, L. S. C. Faces do gerencialismo em educação no contexto da nova gestão pública. 
Revista Educação em Questão, Natal, v. 50, nº 36, p. 211-239, set./dez. 2014. 
 
Publicado em 30 de janeiro de 2024 
 
Como citar este artigo (ABNT) 
LEME, Renata Bento; VALENTE, Marluce Silva. Ofensiva neoliberal e as implicações na área educacional. Revista 
Educação Pública, Rio de Janeiro, v. 24, nº 3, 30 de janeiro de 2023. Disponível em: 
https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/24/3/ofensiva-neoliberal-e-as-implicacoes-na-area-educacional

Mais conteúdos dessa disciplina