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CONTABILIDADE PARA ENTIDADES DE INTERESSE SOCIAL AULA 6 Prof.ª Marineusa Andreico Rodrigues 2 CONVERSA INICIAL A compreensão das diferenças entre imunidade e isenção tributária é essencial para garantir que as entidades sem fins lucrativos possam operar de forma regular e sustentável, usufruindo dos direitos garantidos pela legislação. Nesta abordagem, vamos explorar o conceito de imunidade e isenção tributária, os requisitos para sua aplicação, os tributos abrangidos e os principais desafios enfrentados pelas entidades do terceiro setor na busca por esses benefícios. CONTEXTUALIZANDO Vamos começar refletindo sobre o conflito de interesse público e arrecadação tributária? Vamos lá! O Estado precisa arrecadar tributos para financiar serviços públicos essenciais, como saúde, segurança e educação. No entanto, quando concede imunidade ou isenção para determinadas entidades, ele renuncia a parte dessa arrecadação. Até que ponto esses benefícios são justificados? Há situações em que a concessão de imunidade e isenção pode ser prejudicial ao interesse público? TEMA 1 – ISENÇÃO E IMUNIDADE TRIBUTÁRIA No contexto da Contabilidade para Entidades de Interesse Social, compreender os mecanismos de isenção e imunidade tributária é fundamental. Neste cenário, é importante distinguir dois conceitos-chave: a imunidade tributária, prevista diretamente na Constituição Federal, e a isenção tributária, regulada por normas infraconstitucionais. A imunidade funciona como uma vedação constitucional à cobrança de determinados tributos, especialmente o IRPJ (Imposto de Renda das Pessoas Jurídicas), a CSLL (Contribuição Social sobre o Lucro Líquido), o PIS (Programa de Integração Social) e a Cofins (Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social). Já a isenção, embora também desonere a entidade, atua de forma distinta: o fato gerador1 1 No direito tributário, o fato gerador é o acontecimento real que, ao ocorrer, faz nascer a obrigação de pagar um tributo. Ele é a concretização de uma situação prevista em lei, ou seja, 3 ocorre e a obrigação tributária nasce, mas a lei ordinária afasta a exigibilidade do tributo, podendo abranger o IRPJ e outros tributos conforme a norma específica. Segundo Jochem (2021), a imunidade tributária representa uma hipótese de não incidência de tributos prevista diretamente na Constituição Federal. A Constituição Federal (CF), em seu art. 150, veda à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios cobrarem impostos sobre: a) Templos de qualquer culto; b) Patrimônio, renda ou serviços dos partidos políticos, inclusive suas fundações, das entidades sindicais dos trabalhadores, das instituições de educação e de assistência social, sem fins lucrativos, atendidos os requisitos da lei. Nesses casos, o fato gerador dos tributos abrangidos pela imunidade sequer chega a ocorrer, sendo juridicamente excluído do campo de incidência tributária. Explicando de forma simples: a imunidade é uma proteção garantida pela Constituição que impede o governo de cobrar certos tributos de algumas pessoas, instituições ou situações específicas. Por exemplo, templos religiosos, partidos políticos e entidades beneficentes sem fins lucrativos têm imunidade tributária. Isso significa que, mesmo que realizem atividades que normalmente gerariam impostos, a Constituição proíbe que esses tributos sejam cobrados, como uma espécie de “blindagem” legal. É diferente da isenção, que é um benefício dado por lei comum e pode ser alterado. A imunidade é mais forte, porque está diretamente na Constituição e serve para proteger direitos fundamentais, como a liberdade religiosa, a educação e a assistência social. É importante observar que a imunidade prevista na Constituição Federal se aplica exclusivamente aos impostos sobre o patrimônio, a renda e os serviços relacionados com as finalidades essenciais das entidades que são abrangidas pela imunidade citada no art. 150 da Constituição Federal. quando aquilo que a norma descreve como passível de tributação realmente acontece no mundo real. Exemplo: No caso do IRPJ, o fato gerador é o auferimento de renda por uma pessoa jurídica. 4 Ou seja, outras entidades sem fins lucrativos, como, por exemplo, um clube, que também não tem finalidade de lucros, mas não está elencado acima, não terá imunidade, e sim isenção. A isenção tributária decorre de norma infraconstitucional2 e atua de forma diferente: embora o fato gerador ocorra e a obrigação tributária surja, a isenção impede o surgimento do crédito tributário correspondente, ou seja, a exigibilidade do tributo é afastada por força de lei. Explicando de forma simples, a isenção é quando a lei libera alguém de pagar um tributo, mesmo que a situação que normalmente geraria esse imposto aconteça. O IPTU é um exemplo de imposto que incide sobre o patrimônio, o qual, de acordo com a Constituição Federal, não pode ser cobrado das entidades que são consideradas como imunes. Já as entidades que são apenas isentas, como no caso de um clube, dependerão de uma lei infraconstitucional do município que poderá ou não conceder isenção do IPTU sobre seu patrimônio. O gozo da imunidade está vinculado a algumas condições legalmente impostas, que precisam ser atendidas pelas entidades para que possam manter a imunidade, conforme podemos ver no art. 14 da Lei n. 5.172/1966, o Código Tributário Nacional (CTN): a) não distribuir qualquer parcela do seu patrimônio ou de sua renda, a qualquer título; b) aplicar integralmente no Brasil seus recursos na manutenção e desenvolvimento dos seus objetivos sociais; c) manter escrituração de suas receitas e despesas em livros3 revestidos de formalidades capazes de assegurar sua exatidão; d) realizar a retenção na fonte e o cumprimento de obrigações tributárias por terceiros. O parágrafo segundo do artigo acima citado ainda nos traz a seguinte orientação: 2 Normas infraconstitucionais são leis e regras que estão abaixo da Constituição Federal na hierarquia do sistema jurídico. Elas são criadas para detalhar, regulamentar e aplicar os princípios e direitos previstos na Constituição, funcionando como um complemento necessário para que a Constituição seja colocada em prática no dia a dia. Exemplos: Leis ordinárias, Leis complementares, Medidas Provisórias etc. 3 O CTN não especifica quais são os livros, mas pode-se inferir que se trata dos livros utilizados pelas entidades para a escrituração de suas receitas e despesas. 5 Parágrafo 2º Os serviços a que se refere a alínea c do inciso IV do art. 9º são exclusivamente os diretamente relacionados com os objetivos institucionais das entidades de que trata este artigo, previstos nos respectivos estatutos ou atos constitutivos. Contudo, o Supremo Tribunal Federal (STF) vem admitindo, e a RFB (Receita Federal do Brasil) acatando, que as receitas que não estejam diretamente relacionadas às finalidades essenciais da entidade também gozem da imunidade, desde que o valor seja aplicado nas atividades da entidade em questão, independentemente da origem desses recursos. Por exemplo, admite-se que as receitas de aluguel ou o ganho de capital na venda de imóveis gozem da imunidade, desde que os rendimentos auferidos sejam utilizados na manutenção e no desenvolvimento dos objetivos sociais da entidade. 1.1 Imunidade do IRPJ O gozo da imunidade do IRPJ está vinculado a algumas condições legalmente impostas, conforme relação a seguir. 1. Partidos Políticos e Sindicatos dos Trabalhadores: para os partidos políticos, inclusive suas fundações, e sindicatos dos trabalhadores usufruírem da imunidade dos impostos, é necessário acatar as exigências dispostas no art. 180 do Regulamento do Imposto de Renda (RIR) de 2018, sendo: a) não distribuir qualquer parcela do seu patrimônio ou dede agosto de 2001. Altera a legislação das contribuições para a Seguridade Social — Cofins, para os Programas de Integração Social e de Formação do Patrimônio do Servidor Público — PIS/PASEP e do Imposto sobre a Renda, e dá outras providências. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, 27 ago. 2001. Disponível em: . Acesso em: 27 jun. 2025. _____. Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional. Coordenação-Geral da Representação Judicial da Fazenda Nacional. Parecer PGFN/CRJ n. 2.112/2011. Dispõe sobre a obrigatoriedade de apresentação da Escrituração 38 Contábil Fiscal (ECF) por entidades imunes e isentas. Brasília, DF, 13 dez. 2011. Disponível em: . Acesso em: 27 jun. 2025. _____. Receita Federal do Brasil. Instrução Normativa RFB n. 1.252, de 1º de fevereiro de 2012. Dispõe sobre a obrigatoriedade de entrega da Declaração de Imposto de Renda da Pessoa Jurídica (DIPJ) e dá outras providências. Art. 4º, parágrafo 3º. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 1 fev. 2012. _____. Receita Federal do Brasil. Instrução Normativa RFB n. 1.700, de 14 de março de 2017. Dispõe sobre normas gerais de tributação relativas ao Imposto sobre a Renda das Pessoas Jurídicas, bem como sobre o regime de tributação dos lucros. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, 16 mar. 2017. Disponível em: . Acesso em: 27 jun. 2025. _____. Receita Federal do Brasil. Instrução Normativa RFB n. 2.005, de 26 de março de 2021. Dispõe sobre a obrigatoriedade da apresentação de documentos fiscais eletrônicos e dá outras providências. Art. 3º, inciso I. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 26 mar. 2021. _____. Receita Federal do Brasil. Instrução Normativa RFB n. 2.003, de 18 de janeiro de 2021. Dispõe sobre a Escrituração Contábil Digital (ECD). Diário Oficial da União, Brasília, DF, 20 jan. 2021. Disponível em: Receita Federal. Acesso em: 27 jun. 2025. _____. Receita Federal do Brasil. Solução de Consulta COSIT n. 26, de 19 de fevereiro de 2018. Coordenação-Geral de Tributação (COSIT). Disponível em: . Acesso em: 27 fev. 2025. _____. Receita Federal do Brasil. Solução de Consulta COSIT n. 243, de 20 de agosto de 2019. Trata da tributação da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins sobre a receita financeira de entidades isentas. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, 22 ago. 2019. Disponível em: . Acesso em: 27 jun. 2025. 39 _____. Receita Federal do Brasil. Solução de Consulta COSIT n. 244, de 22 de setembro de 2023. Dispõe sobre a obrigatoriedade de apresentação da Escrituração Contábil Fiscal (ECF) por entidades imunes e isentas. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, 25 set. 2023. Disponível em: . Acesso em: 27 jun. 2025. _____. Receita Federal do Brasil. Solução de Consulta COSIT n. 43, de 2 de março de 2018. Trata da obrigatoriedade de apresentação da EFD- Contribuições por entidades imunes e isentas. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, 6 mar. 2018. Disponível em: . Acesso em: 27 jun. 2025. _____. Receita Federal do Brasil. Solução de Consulta DISIT/SRRF01 n. 36, de 8 de agosto de 2013. Trata da base de cálculo da contribuição para o PIS/Pasep sobre a folha de salários, especificamente em relação ao pagamento a pessoa sem vínculo empregatício. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, 11 ago. 2013. Disponível em: . Acesso em: 27 jun. 2025. _____. Receita Federal do Brasil. Solução de Consulta DISIT/SRRF01 n. 37, de 19 de fevereiro de 2014. Trata da substituição tributária do Imposto de Renda da Pessoa Jurídica (IRPJ) e da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL), especificamente sobre a receita bruta e o destaque do tributo. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, 10 mar. 2014. Disponível em: . Acesso em: 27 jun. 2025. JOCHEM, L. Contabilidade das Entidades do Terceiro Setor. 1. ed. Pinhais, 2021. SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. Ação Direta de Inconstitucionalidade n. 1.802/DF. Relator: Min. Carlos Velloso. Brasília, DF, julgado em 13 maio 2004. Diário da Justiça, Brasília, DF, 27 ago. 2004. Disponível em: . Acesso em: 27 jun. 2025. 40 GABARITO 1. A Associação Comunitária Esperança deve continuar recebendo os benefícios fiscais? Por quê? Resposta: A continuidade dos benefícios fiscais deve estar condicionada à comprovação de que a entidade realmente cumpre seu papel social. Caso a Associação consiga esclarecer as inconsistências apontadas e demonstrar que os recursos são aplicados corretamente, o benefício pode ser mantido. Caso contrário, medidas corretivas ou até a revogação da isenção podem ser necessárias. 2. Quais medidas podem ser adotadas para garantir maior transparência na gestão de entidades isentas de tributos? Resposta: Algumas medidas incluem a exigência de auditorias independentes, a publicação periódica de relatórios financeiros detalhados, a criação de órgãos de controle específicos para o Terceiro Setor e a implementação de um sistema de prestação de contas acessível ao público. 3. Como equilibrar a fiscalização rigorosa sem prejudicar o funcionamento de entidades que realmente cumprem seu papel social? Resposta: A fiscalização deve ser criteriosa, mas também proporcional à realidade das entidades. A adoção de um sistema de avaliação baseado em impacto social, o fornecimento de suporte técnico para aprimoramento da gestão e a diferenciação entre falhas administrativas sanáveis e irregularidades graves podem ajudar a garantir que a fiscalização não prejudique entidades comprometidas com o bem-estar público.sua renda, a qualquer título; b) aplicar integralmente no Brasil seus recursos na manutenção e desenvolvimento dos seus objetivos sociais; c) manter escrituração de suas receitas e despesas em livros revestidos de formalidades capazes de assegurar sua exatidão; d) realizar a retenção na fonte e o cumprimento de obrigações tributárias por terceiros. 2. Entidades de Educação e Assistência Social: para que as entidades de educação ou assistência social mantenham a imunidade, devem atender aos seguintes requisitos, RIR/2018, art. 181, parágrafo 3º: a) não remunerar, por qualquer forma, seus dirigentes pelos serviços prestados; 6 b) aplicar integralmente seus recursos na manutenção e desenvolvimento dos seus objetivos sociais; c) manter escrituração completa de suas receitas e despesas em livros revestidos das formalidades que assegurem a respectiva exatidão; d) conservar em boa ordem, pelo prazo de cinco anos, contado da data da emissão, os documentos que comprovem a origem de suas receitas e a efetivação de suas despesas, bem assim a realização de quaisquer outros atos ou operações que venham a modificar sua situação patrimonial; e) apresentar, anualmente, a Escrituração Contábil Fiscal (ECF), em conformidade com o disposto em ato da RFB, atualmente regulado pela Instrução Normativa RFB n. 2.004/2021; f) recolher os tributos retidos sobre os rendimentos por elas pagos ou creditados e a contribuição para a Seguridade Social relativa aos empregados, bem como cumprir as obrigações acessórias daí decorrentes; g) assegurar a destinação de seu patrimônio a outra instituição que atenda às condições para gozo da imunidade, no caso de incorporação, fusão, cisão ou de encerramento de suas atividades, ou a órgão público. Porém, ao analisar a imunidade, a entidade não pode chegar ao extremo de considerar que toda e qualquer renda de outras atividades não relacionadas com aquelas essenciais da entidade esteja, indistintamente, acobertada pela imunidade, apenas porque o seu produto é destinado à própria instituição. O cuidado que se deve ter aqui é para que a entidade não goze de favores fiscais que não são igualmente aplicados a outras empresas que operem no mesmo ramo de atividade, mas que paguem seus tributos, pois assim os favores fiscais estariam ferindo o princípio constitucional da livre concorrência do art. 170 (Vieira; Silva, 2019). Dito isso, é admissível compreender que as entidades imunes aos impostos não fiquem sujeitas ao pagamento de IRPJ sobre rendimentos advindos de serviços prestados, doações e subvenções recebidas, receitas financeiras, entre outras, desde que sejam considerados os dispostos acima. 7 1.2 Isenção IRPJ De acordo com o art. 184 do RIR/2018, ficam isentas do imposto sobre a renda as instituições de caráter filantrópico, recreativo, cultural e científico e as associações civis que prestem os serviços para os quais foram instituídas e os coloquem à disposição do grupo de pessoas a que se destinam, sem fins lucrativos. Você pode perceber que a isenção do IRPJ abrange as entidades sem fins lucrativos que não estão contempladas pela imunidade, mas sim pela isenção. Para a manutenção da isenção, aplicam-se as seguintes regras, segundo Jochem (2021): a) Não remunerar, por qualquer forma, seus dirigentes pelos serviços prestados, exceto no caso de associações, fundações ou organizações da sociedade civil, sem fins lucrativos, cujos dirigentes poderão ser remunerados, desde que atuem efetivamente na gestão executiva e desde que cumpridos os requisitos previstos nos Arts. 3º e 16º da Lei n. 9.790/1999 (Lei das OSCIP), respeitados como limites máximos os valores praticados pelo mercado na região correspondente à sua área de atuação, devendo seu valor ser fixado pelo órgão de deliberação superior da entidade, registrado em ata, com comunicação ao Ministério Público, no caso das fundações; b) Aplicar integralmente seus recursos na manutenção e desenvolvimento dos seus objetivos sociais; c) Manter escrituração completa de suas receitas e despesas em livros revestidos das formalidades que assegurem a respectiva exatidão; d) Conservar em boa ordem, pelo prazo de cinco anos, contado da data da emissão, os documentos que comprovem a origem de suas receitas e a efetivação de suas despesas, bem como a realização de quaisquer outros atos ou operações que venham a modificar sua situação patrimonial; e) Apresentar, anualmente, Declaração de Rendimentos, em conformidade com o disposto em ato da Secretaria da Receita Federal. Ressalta-se que não estão abrangidos pela isenção do imposto de renda os rendimentos e ganhos de capital auferidos em aplicações financeiras. Fique atento Em relação à remuneração dos dirigentes, cabe aqui um adendo, pois essa exigência não impede que as associações, fundações ou organizações da sociedade civil remunerem seus dirigentes pelos serviços prestados, desde que atuem efetivamente na gestão executiva, respeitados os limites impostos pela 8 Lei. Falamos sobre esse assunto em conteúdos anteriores. Se você quiser relembrar, retome o conteúdo (Instrução Normativa RFB n. 1.700/2017, art. 10, parágrafo 3º, inciso I e parágrafos 4º a 7º). 1.3 Imunidade e isenção das contribuições sociais As contribuições sociais são espécies de tributos previstas no art. 149 da Constituição Federal, com finalidades específicas. Entre elas destacam-se as seguintes contribuições: • Contribuições para a Seguridade Social (art. 195 da CF); • PIS – Programa de Integração Social; • Cofins – Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social; • CSLL – Contribuição Social sobre o Lucro Líquido. Vamos começar falando das contribuições sociais para a Seguridade Social? Vamos lá! a) Contribuições para a Seguridade Social (art. 195 da CF) As entidades sem fins lucrativos, embora possam usufruir de benefícios fiscais relacionados a outros impostos, são tratadas como empresas no que tange às contribuições previdenciárias, salvo quando possuem um certificado de isenção em virtude do seu caráter beneficente, conforme a Lei Complementar n. 187/2021. Para fins previdenciários, as entidades sem fins lucrativos devem realizar o pagamento das contribuições previdenciárias patronais de acordo com o seu fato gerador, conforme contribuições abaixo: Lei n. 8.212/1991; art. 22; IN RFB n. 2.110/2022, art. 81. • Contribuição Previdenciária Patronal (CPP) de 20% sobre o valor pago aos empregados, contribuintes individuais e trabalhadores avulsos. • Riscos Ambientais do Trabalho (RAT) de 1%, 2% ou 3%, sobre o valor pago aos empregados e trabalhadores avulsos, de acordo com a atividade preponderante; • Outras Entidades e Fundos (Terceiros) de 5,80% sobre o valor pago aos empregados e trabalhadores avulsos. 9 • Descontar as contribuições previdenciárias dos empregados de acordo com a faixa salarial (7,5%, 9%, 12% e 14%), nos moldes do art. 198 do Decreto n. 3.048/1999; • Descontar as contribuições previdenciárias dos contribuintes individuais (11%), nos moldes do art. 216, parágrafo 26, do Decreto n. 3.048/1999. Fique atento Sobre a remuneração paga aos dirigentes, a entidade sem fins lucrativos fica obrigada a descontar a contribuição previdenciária de 11% e a realizar o recolhimento da cota patronal de 20%, nos termos do art. 216, parágrafo 26, do Decreto n. 3.048/1999 e do art. 22, inciso III, da Lei n. 8.212/1991. Porém, cabe destacar que as entidades públicas de direito privado certificadas como beneficentes de assistência social, tendo como finalidade a prestação de serviços nas áreas de assistência social, saúde e educação, fazem jus à imunidade/isenção do pagamento da contribuição previdenciária patronal, nos termos do art. 195, parágrafo 7º da Constituição Federal. Sendo assim, essas entidades ficam isentas das seguintes contribuições:• Contribuição Patronal Previdenciária (CPP) de 20%; • Contribuição para Riscos Ambientais do Trabalho (RAT), com alíquotas de 1%, 2% ou 3%; • Contribuição para outras entidades e fundos (terceiros) de 5,8%. Contudo, é importante ressaltar que a isenção não se aplica aos valores descontados das contribuições previdenciárias devidas pelos empregados que prestam serviços para a entidade. b) Programa de Integração Social (PIS) O Programa de Integração Social (PIS) é uma contribuição social de natureza tributária instituída pela Lei Complementar n. 7, de setembro de 1970. Seu objetivo principal é financiar o pagamento do seguro-desemprego, do abono salarial e de outros benefícios para os trabalhadores do setor privado, por meio do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT). Na legislação brasileira, temos o PIS sobre o faturamento e o PIS sobre a folha de pagamento. 10 As entidades imunes ou isentas não são contribuintes do PIS sobre faturamento, seja sobre as suas atividades próprias ou não. Instrução Normativa RFB n. 2.121/2022, art. 8º, inciso IV. Já o PIS sobre a folha de pagamento está compreendido no art. 195, inciso I, alínea “a”, da Constituição Federal de 1988 e é obrigatória para as entidades listadas abaixo, sejam imunes ou isentas. Instrução Normativa RFB n. 2.121/2022, arts. 8º e 301. • templos de qualquer culto; • partidos políticos; • instituições de educação e de assistência social imunes do IRPJ; • instituições de caráter filantrópico, recreativo, cultural, científico e as associações; • sindicatos, federações e confederações; • serviços sociais autônomos, criados ou autorizados por lei; • conselhos de fiscalização de profissões regulamentadas; • fundações de direito privado; • fundações públicas instituídas ou mantidas pelo Poder Público; • condomínios de proprietários de imóveis residenciais ou comerciais; • Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB); • as Organizações Estaduais de Cooperativas. Contudo, as entidades beneficentes constituídas como organização sem fins lucrativos e que cumulativamente possuam Certificação das Entidades Beneficentes de Assistência Social na área da Educação (Cebas), atuantes nas áreas da saúde, da educação e da assistência social, possuem imunidade da incidência dessa contribuição. Instrução Normativa n. 2.121/2022, art. 301. A contribuição para o PIS/Pasep incide sobre a folha de salários mensal, que corresponde ao total das remunerações pagas ou creditadas durante o mês aos empregados que prestem serviços no percentual de 1%. Importante ressaltar que, na base de cálculo, não serão incluídos os pagamentos efetuados às pessoas sem vínculo de emprego, considerando os entendimentos externados pela RFB nas Soluções de Consulta Disit/SRRF01 n. 36/2014 e n. 37/2014. 11 c) Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins) A Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins) é um tributo federal brasileiro criado para financiar a Seguridade Social, que inclui saúde pública, previdência social e assistência social. A Lei n. 10.833/2003 e a Medida Provisória n. 2.158, de 24 de agosto de 2001, prevê no item X do art. 14 que estão isentas da Cofins as receitas relativas às atividades próprias, que são aquelas especificadas em seu estatuto, ou derivadas das atividades próprias, das seguintes entidades: a) Templos de qualquer culto; b) Partidos políticos; c) Instituições de educação e de assistência social; d) Instituições de caráter filantrópico, recreativo, cultural, científico e as associações; e) Sindicatos, federações e confederações; f) Serviços sociais autônomos, criados ou autorizados por lei; g) Conselhos de fiscalização de profissões regulamentadas; h) Fundações de direito privado e fundações públicas instituídas ou mantidas pelo Poder Público; i) Condomínios de proprietários de imóveis residenciais ou comerciais; j) A Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB) e as Organizações Estaduais de Cooperativas. Essas entidades, para efeito de gozo da isenção da Cofins, deverão observar os requisitos exigidos no Regulamento do Imposto de Renda conforme citado no tópico 1. Fique atento Mesmo que determinada atividade não seja a finalidade principal da entidade, ela pode ser considerada como derivada de suas atividades próprias. É o caso, por exemplo, de uma sociedade religiosa que mantém, anexa ao templo, uma livraria para venda de livros religiosos, didáticos, discos com temas religiosos e artigos de papelaria. Embora a venda desses itens não seja a atividade precípua da organização, ela visa à divulgação do Evangelho, estando alinhada aos seus objetivos institucionais. Nessa situação, a receita obtida com 12 essas vendas não sofre incidência de Cofins, por se enquadrar como atividade própria de entidade isenta do IRPJ. Já as receitas oriundas de atividades não discriminadas em seus documentos constitutivos terão incidência da Cofins, conforme segue: • As entidades imunes, a alíquota é de 3%, correspondente à Cofins em sua forma cumulativa; • As entidades isentas, a alíquota é de 7,6%, aplicável sobre sua forma não cumulativa. Algumas receitas possuem tributação diferenciada da Cofins para essas entidades, como é o caso das receitas de aplicações financeiras. As receitas financeiras das entidades do terceiro setor terão o seguinte tratamento (Solução de Consulta Cosit n. 243 de 20/2008/2019): • As entidades imunes não terão tributação; • As entidades isentas terão a tributação da Cofins à alíquota de 4%. d) Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) A Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) é um tributo federal criado pela Lei n. 7.689, de 15 de dezembro de 1988, com o objetivo de financiar a Seguridade Social no Brasil, especialmente nas áreas de saúde, previdência e assistência social. A CSLL segue essencialmente as mesmas diretrizes do Imposto de Renda no que diz respeito às entidades sem fins lucrativos. Por isso, não há grandes distinções a destacar. Tanto as entidades imunes quanto as isentas estão dispensadas do recolhimento da CSLL, desde que cumpram os critérios legais aplicáveis, já mencionados anteriormente. No caso das entidades isentas do IRPJ, a isenção da CSLL ocorre por extensão, conforme estabelece o art. 15 da Lei n. 9.532/1997. Já para as entidades imunes, a Instrução Normativa RFB n. 2.121/2022, art. 26, confirma expressamente que não há incidência da CSLL sobre suas receitas. Vamos resumir todas essas operações nos quadros abaixo: 13 Quadro 1 – Resumo do tratamento das contribuições sociais das entidades imunes Entidade Tratamento das contribuições sociais Pessoa jurídica de direito privado, sem fins lucrativos, que cumulativamente preste serviços nas áreas de assistência social, de saúde ou de educação e que esteja certificada no Cebas. Imune de CSLL, PIS/Pasep e Cofins Partidos políticos, inclusive suas fundações; entidades sindicais dos trabalhadores; instituições de educação e de assistência social, quando não enquadradas no art. 195, parágrafo 7º da CF. Não contribuinte do PIS/Pasep sobre faturamento Isenta da Cofins sobre as atividades próprias Isenção da CSLL Entidades religiosas e templos de qualquer culto. Não contribuinte do PIS/Pasep sobre faturamento Isenta da Cofins sobre as atividades próprias Não contribuinte da CSLL desde 26.03.2021 Fonte: Rodrigues, 2025. Quadro 2 – Resumo do tratamento das Contribuições Sociais das Entidades Isentas Tratamento dos tributos Isenta Não contribuinte do PIS/Pasep sobre faturamento Isenta da Cofins sobre as atividades próprias Isenta de CSLL Fonte: Rodrigues, 2025. 1.4 Retenções na fonte de impostos e contribuições As retenções na fonte são consideradas antecipações dos tributos devidos, cabendo à fonte pagadora dos serviçosefetuar o recolhimento da retenção na fonte com seus dados de tomador, e, assim, quitar a prestação de serviço contratada pelo valor líquido. 14 Exemplo: Uma entidade imune/isenta contrata uma pessoa jurídica para prestação do serviço de auditoria. Este serviço, de acordo com o art. 178 do RIR/2018, está sujeito à retenção na fonte do imposto de renda na alíquota de 15% e também fica sujeito à retenção das Contribuições Sociais Retidas na Fonte (CSRF) na alíquota de 4,65%, conforme determina o art. 30 da Lei n. 10.833/2003. Supondo que o valor do serviço fosse de R$ 10.000,00, as retenções seriam: a) IRRF: 10.000 x 15% = R$ 1.500 b) CSRF: 10.000 x 4,65% = R$ 465 Neste caso, o valor que a entidade pagaria ao prestador do serviço seria de R$ 8.035 (R$ 10.000 – R$ 1.500 – R$ 465), ou seja, a entidade tomadora do serviço deduz o valor do IR e da contribuição do valor a ser pago ao prestador do serviço e efetua o recolhimento ao Governo em seu nome e CNPJ, como uma antecipação do imposto devido. 1.5 Desvio de finalidade Para que a entidade possa usufruir da isenção/imunidade, é fundamental que não haja desvio de finalidade, ou seja, a entidade não deve desvirtuar suas atividades essenciais para explorar atividades econômicas que a coloquem em concorrência direta com outras entidades que pagam tributos normalmente, conforme trata o Parecer Normativo CST n. 162/1974. Porém, cabe esclarecer que a exploração de atividades econômicas não é proibida, desde que permaneça dentro dos limites da finalidade filantrópica ou social da entidade. Para usufruir da isenção, é importante destacar que “é necessária a observância dos requisitos legais em sua totalidade, já que o descumprimento parcial das condições é suficiente para a inaplicabilidade total da isenção”. Ao tratar do caso particular das igrejas, a Solução de Consulta Cosit n. 244/2023 foi nessa mesma linha de raciocínio, em que é possível haver exploração econômica, desde que: a) os resultados dessas atividades econômicas sejam aplicados integralmente nos objetivos sociais da entidade imune; 15 b) no caso concreto, a exploração de atividade econômica não pode representar prejuízo ao princípio da proteção à livre concorrência. A Solução de Consulta Cosit n. 244/2023 exemplifica a inocorrência do desvio de finalidade quando um prédio de igreja (entidade imune) possui uma pequena livraria para o comércio de livros voltados às práticas religiosas, desde que tais recursos sejam aplicados de forma integral nos objetivos sociais da entidade imune e não firam o princípio da livre concorrência. O próprio Parecer Normativo CST n. 162/1974 estabelece o limite legal para exploração de atividades econômicas, conforme o quadro abaixo: Quadro 3 – Exemplo de receitas que prejudicam ou não a isenção/imunidade Entidade Receitas Próprias Receitas que não prejudicam a isenção Receitas que prejudicam a isenção Clube esportivo Mensalidades, doações, taxas Venda de alimentos e bebidas nas dependências do clube aos usuários Serviço de exploração de linha de ônibus Sociedades religiosas Ofertas e doações Venda de livros e artigos religiosos Compra e venda de bens não relacionados à finalidade religiosa Instituição filantrópica que mantém creche Doações Mensalidades de alunos, desde que também faça atendimento gratuito, mantendo a igualdade de tratamento Mensalidade de 100% dos alunos, sem atendimento gratuito Fonte: Rodrigues, 2025. TEMA 2 – ASPECTOS TRIBUTÁRIOS RELACIONADOS A SUBVENÇÕES RECEBIDAS DO PODER PÚBLICO As subvenções governamentais são recursos financeiros concedidos pelo poder público a entidades privadas, incluindo organizações do terceiro setor, para apoiar a execução de atividades de interesse social, como saúde, educação e assistência social. Esses repasses podem ocorrer por meio de convênios, termos de colaboração, termos de fomento ou contratos de gestão, podendo ser classificados em (Lei n. 4.320/1964, art. 12): 16 a) Subvenções para custeio: destinadas à manutenção das atividades da entidade (exemplo: pagamento de salários, compra de materiais, despesas operacionais). b) Subvenções para investimento: destinadas à aquisição de bens duráveis, como equipamentos, construção ou reforma de instalações. Jochem (2021) define a subvenção governamental da seguinte forma: Subvenção governamental: é uma assistência governamental, geralmente na forma de contribuição de natureza pecuniária, mas não restrita a ela, concedida a uma entidade normalmente em troca do cumprimento passado ou futuro de certas condições relacionadas às atividades operacionais da entidade. Não são subvenções governamentais aquelas que não podem ser razoavelmente quantificadas em dinheiro e as transações com o governo que não podem ser distinguidas das transações comerciais normais da entidade. Conforme Jochem (2021), a entidade também pode receber subvenções governamentais vinculadas à aquisição de ativos, cujo principal requisito para concessão é que a beneficiária adquira, construa ou de alguma forma obtenha ativos de longo prazo. Essas subvenções podem incluir condições adicionais, como restrições quanto ao tipo ou à localização dos ativos, ou ainda quanto ao prazo para sua aquisição ou manutenção. É possível, inclusive, que a subvenção seja concedida diretamente na forma de um ativo. De acordo com o CPC 07 e ITG 2002, na contabilidade das entidades, ambas são registradas como receitas restritas e reconhecidas conforme o cumprimento das condições contratuais. Em relação aos aspectos tributários, as subvenções recebidas que sejam aplicadas no objeto social da entidade para manutenção de suas atividades não sofrem a tributação do IRPJ nem da CSLL, de acordo com a Instrução Normativa RFB 1.700/2017, desde que os requisitos da Lei Complementar n. 187/2021 sejam cumpridos, tais como: aplicação integral dos recursos na manutenção dos objetivos institucionais; não distribuição de lucros ou excedentes; escrituração contábil regular demonstrando a destinação dos recursos. Em relação ao PIS e Cofins, as receitas de subvenções não são tributadas por essas contribuições, de acordo com a Medida Provisória n. 2.158-35/2001, arts. 13 e 14. 17 Fique atento As entidades que recebem subvenções devem: • Manter controle detalhado da aplicação dos recursos para evitar questionamentos fiscais; • Cumprir as regras do convênio ou termo firmado com o poder público; • Apresentar prestações de contas dentro dos prazos estabelecidos, detalhando como os recursos foram utilizados; • Atender às exigências do Tribunal de Contas e da Receita Federal, especialmente no caso de entidades que possuem benefícios fiscais. O descumprimento dessas regras pode levar à perda da subvenção, exigência de devolução dos valores e até questionamentos tributários. Quadro 4 – Resumo: subvenções para investimento x subvenções para custeio Aspecto Subvenção para Custeio Subvenção para Investimento Finalidade Cobre despesas operacionais (exemplos: salários, aluguel etc.) Cobre aquisição de ativos permanentes (exemplos: imóveis, equipamentos) Reconhecimento Contábil Reconhecida como receita operacional no período de recebimento Registrada como passivo e reconhecida como receita ao longo do tempo Impacto Tributário Não sujeita a PIS e Cofins para entidades imunes ou isentas Não sujeita a PIS e Cofins para entidades imunes ou isentas Exemplo de Uso Custos com operação do serviço (exemplo: pagamento de funcionários) Aquisição de bens duráveis (exemplo: compra de equipamentos) Fonte: Rodrigues, 2025. As subvenções recebidas do poder público devem respeitar estritamente o que foi pactuado com o órgão público concedente, especialmente nos seguintes documentos: plano de trabalho; objetoda parceria; metas e etapas de execução; categoria econômica das despesas autorizadas (custeio/investimento). Ou seja, no caso, por exemplo, de uma despesa de folha de pagamento, o plano de trabalho deverá aprovar o uso da subvenção para pagamento de pessoal. A Lei n. 13.019/2014 considera como despesa adequada a remuneração da equipe executora da parceria, e os custos administrativos (como folha) são permitidos, desde que diretamente ligados ao cumprimento do objeto. 18 Importante ressaltar que as despesas não previstas no plano de trabalho podem ser glosadas pela concedente e exigidas de volta. Abaixo, vamos analisar um quadro com exemplos de rubricas salariais que podem ser custeadas com o valor recebido das subvenções: Quadro 5 – Rubricas de Folha Financiáveis com Subvenção Pública (Lei n. 13.019/2014) Cargo/Função Vínculo com o objeto da parceria Pode ser custeado com subvenção? Observações Coordenador do projeto Responsável técnico pelo cumprimento do plano de trabalho Sim Deve constar no plano de trabalho, com atividades detalhadas Educador social Atua diretamente com o público-alvo do projeto Sim Prever carga horária, atribuições e metas vinculadas Psicólogo do programa Atende beneficiários conforme previsto no objeto da parceria Sim Função técnica essencial — justificar no plano Auxiliar administrativo do projeto Apoio logístico exclusivo ao projeto Sim Desde que vinculado ao projeto, e não à estrutura geral Contador da entidade Atua em toda a contabilidade institucional Parcial ou não Só se parte do tempo for dedicada ao projeto (justificar rateio) Faxineira da sede da entidade Serviço geral da organização, sem vínculo com o projeto Não Considerado custo institucional — só pode via custos indiretos (se previstos) Diretor da OSC Gestão estratégica da entidade Não Mesmo sem remuneração, não pode ser custeado com recursos do convênio Fonte: Rodrigues, 2025. TEMA 3 – OUTROS TRIBUTOS INCIDENTES Além dos tributos aqui já citados, que podem ou não recair sobre as entidades sem fins lucrativos, ainda temos que analisar alguns tributos específicos das áreas estaduais/distritais e municipais. É importante ressaltar que a imunidade constitucional estabelecida pelo art. 150, VI, “c”, da Constituição Federal, é prevista apenas para as hipóteses em 19 que os impostos recaem diretamente sobre o patrimônio, a renda e os serviços das instituições sem fins lucrativos. Vamos começar então falando do ICMS (Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços). Trata-se de um imposto estadual, porém é um imposto que deixará de existir com a reforma tributária, aprovada pela Emenda Constitucional n. 132/2023. A partir de 2026, inicia-se um período de transição em que o ICMS será gradualmente substituído pelo Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) — um tributo de competência compartilhada entre estados e municípios. O objetivo dessa mudança é simplificar o sistema tributário, eliminando a complexidade das múltiplas alíquotas e legislações estaduais que hoje dificultam o cumprimento das obrigações fiscais. A substituição será feita de forma progressiva até 2032, quando o ICMS será extinto por completo, dando lugar a um modelo mais uniforme e transparente de tributação sobre o consumo. Segundo Jochem (2021), o ICMS incide, além dos serviços de transporte intermunicipal e interestadual e de comunicação, principalmente sobre as operações que envolvem a circulação de mercadorias. Por esse motivo, não se enquadra como um imposto sobre patrimônio, renda ou serviços. Para efeito de caracterização como contribuinte do ICMS, considera-se o intuito comercial, que é identificado pela habitualidade ou volume das operações com mercadorias — independentemente do caráter assistencial, educacional ou sem fins lucrativos da entidade que as realiza. Assim, ao realizar operações de circulação de mercadorias, a entidade, ainda que imune ou isenta, será considerada contribuinte do ICMS. Com isso, estará obrigada à inscrição prévia no cadastro de contribuintes do Estado e ao cumprimento das obrigações principais e acessórias previstas na legislação estadual do imposto. Por exemplo, uma igreja que possui em anexo uma loja onde vende artigos religiosos poderá ou não pagar o ICMS, dependendo da forma como essa venda é realizada, pois a imunidade tributária das igrejas, prevista no art. 150, inciso VI, alínea “b” da Constituição Federal, protege contra a cobrança de impostos sobre patrimônio, renda e serviços relacionados com suas finalidades essenciais. No entanto, essa imunidade não se aplica automaticamente ao ICMS, que incide sobre a circulação de mercadorias. Desta forma, se a igreja vende artigos religiosos, como bíblias, hinários, velas etc., com fins comerciais, ou seja, com lucro ou valor superior ao custo, 20 essa operação pode sim ser tributada pelo ICMS, pois se caracteriza como atividade econômica. Por outro lado, se a venda for feita diretamente pelo templo, com valor simbólico ou igual ao custo, e os produtos forem essenciais à prática do culto, há entendimento de que a imunidade pode ser aplicada, desde que comprovado o vínculo com a finalidade religiosa e o uso dentro do templo. Ou seja, não é a natureza do produto que define a imunidade, mas sim a finalidade da operação e sua relação com os objetivos essenciais da entidade religiosa. Segundo Jochem (2021), os impostos estaduais, como o ICMS (Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços), o IPVA (Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores) e o ITCMD (Imposto sobre Transmissão Causa Mortis e Doação), seguem duas lógicas distintas quanto ao tratamento concedido às entidades sem fins lucrativos: a) As entidades alcançadas pela imunidade prevista no art. 150 da Constituição Federal são dispensadas do pagamento desses tributos, desde que atendam aos requisitos constitucionais e legais aplicáveis à imunidade tributária; b) Já para as entidades isentas, a aplicação do benefício depende da legislação específica de cada Estado. Em geral, é possível obter a isenção mediante requerimento formal e o devido processo administrativo junto ao fisco estadual. Em relação aos impostos municipais, segundo o inciso III do Art. 150 da Constituição Federal, é vedado aos municípios instituir impostos sobre: 1. Templos de qualquer culto; 2. Patrimônio, renda ou serviços dos partidos políticos, inclusive suas fundações, das entidades sindicais dos trabalhadores, das instituições de educação e de assistência social, sem fins lucrativos, atendidos os requisitos da lei. Entre os impostos municipais, temos o IPTU (Imposto Predial e Territorial Urbano), que é um imposto de competência municipal que incide sobre a propriedade de imóveis urbanos. No caso das entidades sem fins lucrativos, o 21 tratamento tributário varia de acordo com a natureza da entidade, se imune ou isenta, e o uso efetivo do imóvel. Conforme Jochem (2021), são imunes ao IPTU os imóveis de propriedade de instituições sem fins lucrativos nas áreas de educação ou assistência social, desde que utilizados exclusivamente nas finalidades essenciais da entidade, como escolas, hospitais, abrigos ou sedes administrativas, e que cumpram os requisitos legais, como: proibição de distribuição de lucros; escrituração contábil regular e aplicação dos recursos nas atividades institucionais. Fique atento “Ainda quando alugado a terceiros, permanece imune ao IPTU o imóvel pertencente a qualquer das entidades referidas pelo art. 150, VI, ‘c’, da Constituição, desde que o valor dos aluguéis seja aplicado nas atividades essenciais de tais entidades” (Súmula n. 724 do Supremo Tribunal Federal – STF). Já a isenção do IPTU, para Jochem (2021), éuma faculdade atribuída aos municípios por meio de lei local. Ou seja, ao contrário da imunidade, a isenção não é garantida pela Constituição, mas pode ser concedida por legislação municipal. Os municípios podem conceder isenção a outras entidades sem fins lucrativos, como as de cunho cultural, religioso ou na área da saúde, mesmo que não se enquadrem nas hipóteses constitucionais de imunidade. Essa concessão depende do cumprimento de critérios específicos, definidos em cada município. Os critérios mais comuns para concessão da isenção são: uso direto e exclusivo do imóvel nas atividades da entidade; comprovação de finalidade não lucrativa (CNPJ e estatuto); apresentação de requerimento formal (geralmente anual); regularidade fiscal e funcional da instituição. Em relação ao ISS (Imposto Sobre Serviços de Qualquer Natureza), o qual incide sobre a prestação de serviços constantes da Lista de Serviços da Lei Complementar n. 116/2003, diferente do IPTU, a Constituição Federal não prevê imunidade a este imposto (Constituição Federal, art. 150). Mesmo as entidades imunes ao IRPJ e ao IPTU, como escolas ou hospitais sem fins lucrativos, podem ser obrigadas a pagar ISS, se prestarem serviços onerosos, ainda que voltados às suas finalidades institucionais. 22 Exemplo: Uma entidade de assistência social que celebra contrato de prestação de serviço médico com cobrança direta dos usuários poderá ser tributada com ISS, mesmo sendo imune ao IRPJ. Isso ocorre porque a imunidade se aplica ao patrimônio, renda e serviços próprios da entidade, mas não alcança a prestação onerosa de serviços a terceiros (Constituição Federal, art. 150). Segundo Jochem (2021), para as entidades isentas do IRPJ, a isenção do ISS é possível, desde que prevista em lei municipal específica, pois os municípios têm competência para conceder isenção total ou parcial do imposto a entidades sem fins lucrativos, conforme critérios próprios, sendo os critérios mais comuns exigidos pelas prefeituras para isenção do ISS os seguintes: • Comprovação de finalidade não lucrativa (CNPJ, estatuto); • Uso do serviço exclusivamente para fins institucionais e não comerciais; • Apresentação de requerimento formal à prefeitura; • Regularidade fiscal; • Vedação à remuneração de dirigentes e distribuição de lucros. Exemplo: Em muitos municípios, entidades de assistência social ou religiosas são isentas do ISS quando as receitas são oriundas de serviços gratuitos, convênios com o poder público ou ações assistenciais sem cobrança ao público. O quadro abaixo resume o tratamento do ISS e do IPTU para entidades sem fins lucrativos, considerando os casos de imunidade e isenção conforme a legislação vigente. Quadro 6 – Resumo tributário: ISS e IPTU para entidades sem fins lucrativos Tributo Situação da Entidade Tributo é devido? Observações/Base Legal IPTU Entidade imune (educação/assistência), imóvel usado para fim institucional Não CF/88, art. 150, VI, “c”. Requer uso direto e cumprimento dos requisitos legais. IPTU Entidade imune, imóvel alugado ou com uso comercial Não Súmula n. 724 do Supremo Tribunal Federal (STF) IPTU Entidade isenta conforme lei municipal Não (condicionado) Depende de lei local, com critérios como pedido formal e uso direto nas atividades. 23 IPTU Entidade sem isenção e imóvel sem uso institucional Sim Regra geral: IPTU devido. ISS Entidade sem fins lucrativos prestando serviço com cobrança Sim Não há imunidade constitucional. Pode ser isento por lei municipal. ISS Entidade prestando serviços gratuitos ou via convênios públicos Pode ser isento Possibilidade de isenção por lei municipal, conforme critérios locais. ISS Entidade imune (educação/assistência) prestando serviços a terceiros Sim Mesmo imune ao IR e IPTU, ISS pode ser exigido se houver prestação onerosa. Fonte: Rodrigues, 2025. TEMA 4 – TRIBUTAÇÃO DE OUTRAS RECEITAS Uma entidade sem fins lucrativos pode contar com receitas próprias, como doações, subvenções e outros tipos de arrecadação obtidos de diferentes formas, por exemplo, rendimentos de aplicações financeiras, lucros com a venda de bens ou receitas provenientes de eventos, como festas juninas, bingos e afins. Não há impedimento legal para que essas organizações obtenham lucro por meio de investimentos ou atividades eventuais. Isso não compromete sua imunidade, desde que os recursos arrecadados sejam integralmente aplicados na consecução de seus objetivos sociais. A seguir, abordaremos separadamente algumas receitas que, embora não sejam consideradas próprias dessas entidades, são comumente observadas em sua atuação. a) Receitas de rendimentos de aplicações financeiras Para as entidades consideradas imunes, com relação aos rendimentos e ganhos auferidos em aplicações financeiras de renda fixa ou de renda variável, embora a Lei n. 9.532/1997 mencione que tais rendimentos não se beneficiam da imunidade tributária, o STF (Supremo Tribunal Federal) posicionou-se contrário por meio da Ação Direta de Inconstitucionalidade n. 1.802/DF, aplicando a imunidade também às receitas financeiras auferidas por instituição de educação ou de assistência social, alegando que o dispositivo que suprime a imunidade sobre essas receitas é inconstitucional. 24 Diante dessa compreensão, a PGFN (Procuradoria Geral da Fazenda Nacional), reconhecendo que todos os argumentos que poderiam ser levantados em defesa dos interesses da União foram rechaçados pelo STF, impossibilitando a modificação de seu entendimento, emitiu o Parecer PGFN/CRJ n. 2.112/2011, o qual prevê a dispensa de apresentação de recursos e a desistência dos já interpostos nas ações judiciais em que se discute a imunidade dos rendimentos e ganhos de capital auferidos em aplicações financeiras pelas entidades de educação e de assistência social, sem fins lucrativos. Ou seja, fica definido nesse parecer que a Fazenda Nacional não terá êxito nas ações de cobrança de impostos sobre receitas financeiras para entidades de educação e assistência social, uma vez que o entendimento da cobrança é inconstitucional. Porém, é importante ressaltar que, para que a entidade não sofra a retenção do IRRF na fonte sobre as receitas de aplicações financeiras, é necessário informar à instituição financeira, através de uma declaração impressa em duas vias, assinada pelo representante legal, segundo o modelo estabelecido na Instrução Normativa RFB n. 1.585/2015, Anexo III (Instrução Normativa RFB n. 1.585/2015, art. 72, parágrafo 1º). Já no caso das entidades isentas, os rendimentos obtidos em aplicações financeiras de renda fixa e de renda variável estão sujeitos à incidência do imposto de renda na fonte (IRRF), conforme as alíquotas: (RIR/2018, arts. 184, parágrafo 1º e 790; Lei n. 9.532/1997, art. 15, parágrafo 2º; Instrução Normativa RFB n. 1.585/2015, art. 46): i. 22,5% em aplicações com prazo de até 180 dias; ii. 20% em aplicações com prazo de 181 dias até 360 dias; iii. 17,5% em aplicações com prazo de 361 dias até 720 dias; iv. 15% em aplicações com prazo acima de 720 dias. Fique atento Quando ocorrer o resgate de rendimentos, cuja retenção de IRRF tenha sido efetuada pela instituição financeira, este imposto será tratado como definitivo pela entidade, ou seja, não poderá ser recuperado em operações seguintes (RIR/2018, art. 790). A retenção do imposto tem como fato gerador a alienação, que compreende qualquer forma de transmissão da propriedade, bem como a 25 liquidação, o resgate, a cessão ou a repactuação do título ou aplicação; já a base de cálculo será a diferença positiva entre o valor da alienação, líquido do IOF, e o valor da aplicação financeira (RIR/2018, arts. 793 e 795, inciso II; Instrução Normativa RFB n. 1.595/2015, art.46, parágrafos 1º e 2º). Além do Imposto de Renda, em alguns casos também há a incidência de contribuições sociais, como o PIS e a Cofins, sobre as receitas provenientes de aplicações financeiras. No que diz respeito à tributação do PIS e da Cofins, existem dois regimes distintos: o cumulativo e o não cumulativo. A principal diferença entre eles é que, no regime cumulativo, apenas as receitas próprias são tributadas, enquanto no regime não cumulativo todas as receitas auferidas são tributadas, independentemente de sua natureza. E como isso impacta as entidades imunes e isentas? As entidades imunes seguem o regime cumulativo, enquanto as entidades isentas estão sujeitas ao regime não cumulativo. Vale lembrar que, conforme já mencionado, tanto as entidades imunes quanto as isentas não recolhem PIS sobre receitas — apenas sobre a folha de pagamento. Sendo assim, resta analisar a incidência da Cofins. No caso das entidades imunes, por estarem no regime cumulativo e gozarem de imunidade sobre suas receitas próprias, não recolherão a Cofins sobre nenhum tipo de receita, desde que os recursos sejam aplicados em suas finalidades institucionais. Já as entidades isentas, por estarem no regime não cumulativo, estão sujeitas à incidência de Cofins sobre receitas que não sejam consideradas próprias — como, por exemplo, os rendimentos de aplicações financeiras — à alíquota de 4,00%. Contudo, é importante destacar que as entidades que cumulativamente prestem serviços nas áreas de assistência social, saúde ou educação e que estejam certificadas no CEBAS possuem a imunidade da Cofins. Já os templos de qualquer culto, partidos políticos, sindicatos dos trabalhadores e as entidades de educação e assistência social, quando não enquadradas no art. 195, parágrafo 7º da CF, possuem a isenção da Cofins. b) Ganho na venda de ativo A imunidade do IRPJ abrange também as receitas, como a venda de ativo imobilizado, as quais estão relacionadas em dois entendimentos da RFB, que 26 possuem efeito vinculante e respaldam o contribuinte em relação à não tributação do IRPJ: Instrução Normativa RFB n. 2.058/2021, art. 33. Quadro 7 – Entendimentos da Receita Federal Operação Entidade Solução de Consulta Imunidade do IRPJ sobre ganho de capital na venda de imóvel. Entidade de assistência social. Solução de Consulta Cosit n. 26/2018 Imunidade do IRPJ sobre o ganho de capital na venda de imóvel. Sindicato dos Trabalhadores. Solução de Consulta Cosit n. 43/2018 Fonte: Rodrigues, 2025. Já em relação às entidades isentas, a isenção do imposto de renda abrange apenas as receitas próprias da entidade, diferentemente do que vimos na entidade imune. Contudo, temos algumas exceções, como neste caso de ganho de capital na venda de bens do ativo imobilizado, que não são tributadas pelo imposto de renda, desde que sejam integralmente aplicadas nas atividades essenciais da entidade. Caso contrário, o imposto será devido (Solução de Consulta Cosit n. 70/2017). Exemplo: Uma entidade isenta vende um veículo por R$ 60.000, adquirido por R$ 40.000. Há um ganho de capital de R$ 20.000. • Se ela usar os R$ 60.000 para comprar materiais pedagógicos para seus projetos educacionais: não haverá incidência de IR. • Se ela usar parte do dinheiro para pagar bônus a diretores ou fazer aplicações financeiras alheias à finalidade essencial: perderá a isenção sobre essa receita, e o ganho de capital será tributado. c) Receitas de eventos É muito comum as entidades promoverem eventos como bingos beneficentes, festas juninas, entre outros, para conseguirem arrecadar mais receitas. As receitas arrecadadas nesses eventos não serão tributadas de imposto de renda, tanto nas entidades imunes como isentas, desde que utilizem essas receitas em suas atividades fins. 27 Em relação à Cofins, as entidades imunes possuem a extensão da imunidade a essas receitas, desde que atendam o requisito mencionado no parágrafo anterior. Já as entidades isentas não possuem esse mesmo privilégio, ou seja, são obrigadas a recolher a Cofins sobre as receitas arrecadadas nesses eventos. d) Receitas de locação de imóveis próprios Em se tratando de uma entidade imune, a imunidade do IRPJ, CSLL e Cofins se estende para as rendas e as receitas decorrentes do aluguel de bens imóveis, quando forem atendidos os requisitos legais (Solução de Consulta Cosit n. 639/2017): I. A pessoa jurídica em questão destine as referidas receitas às suas finalidades essenciais; II. Os objetivos sociais da pessoa jurídica em questão não se desvirtuam; III. O aluguel dos bens imóveis em questão não afronta o princípio da livre concorrência. Neste sentido, considerando que sejam atendidos os requisitos acima, o valor do aluguel auferido não será tributado pela entidade imune, nem implicará perda da sua condição de imunidade. Em relação às entidades isentas que recebem aluguéis, é importante primeiramente verificar se essa atividade está prevista no seu estatuto como uma atividade secundária, pois, para a fruição da extensão da isenção do IRPJ e da Cofins sobre essas receitas, será necessário que a receita de aluguel de imóveis próprios esteja mencionada em seu estatuto. Isso ocorre porque a Instrução Normativa RFB n. 2.121/2022 informa que também são consideradas receitas derivadas das atividades próprias aquelas decorrentes do exercício da finalidade precípua da entidade, ainda que auferidas em caráter contraprestacional. Caso obtenha outras receitas que não sejam as citadas acima, não estando previstas em seu estatuto, estarão sujeitas à incidência da Cofins com alíquota de 7,6%, pelo regime não cumulativo, em regra geral. 28 Fique atento A entidade isenta que recebe aluguel mantém a isenção quanto ao IRPJ, prevista no art. 15 da Lei n. 9.532/97, desde que cumpridos os requisitos legais para fruição desse benefício e que a atividade de locação constitua atividade acessória, não configure ato de natureza econômico-financeira, não desvirtue seu objeto social, nem caracterize concorrência com as demais pessoas jurídicas que não gozem de isenção, e que a correspondente receita seja aplicada integralmente na manutenção e desenvolvimento dos seus objetivos institucionais (Solução de Consulta Cosit n. 218/2021). TEMA 5 – OBRIGAÇÕES ACESSÓRIAS DAS ENTIDADES IMUNES E ISENTAS Obrigações acessórias são deveres legais atribuídos aos contribuintes — pessoas físicas ou jurídicas — com a finalidade de fornecer informações ao Fisco, auxiliando na fiscalização, arrecadação e controle dos tributos. Elas consistem no cumprimento de formalidades exigidas pela legislação, como a entrega de declarações, a emissão de documentos fiscais e a manutenção de livros contábeis e fiscais. Um exemplo comum é a emissão de notas fiscais, que permite ao Fisco acompanhar as operações realizadas pelos contribuintes. Para as entidades sem fins lucrativos, não é diferente. O fato de serem imunes ou isentas do Imposto de Renda não as desobriga do cumprimento dessas obrigações. No entanto, cada tipo de obrigação possui legislação própria, o que pode levar, em alguns casos, à dispensa de determinadas exigências. Dessa forma, a partir de agora, analisaremos cada uma dessas obrigações, com foco exclusivo nas entidades sem fins lucrativos. a) Declaração de Débitos e Créditos Tributários Federais (DCTFWeb) – Instrução Normativa RFB n. 1.787/2018 A DCTFWeb é a Declaração de Débitos e Créditos Tributários Federais online, onde há a confissão de débitos de contribuições previdenciárias e as destinadas a terceiros (outras entidades), e informa a retenção do Imposto sobre a Renda Retido na Fonte da relação de trabalho, com previsão para a transmissão do IRPJ, CSLL, PIS/Pasep e Cofins. 29 Saiba mais Se a entidade é imune/isenta, por que ela deve transmitir essa declaração?Como falamos anteriormente, as entidades sem finalidade de lucro podem ficar sujeitas à apuração de alguns impostos e contribuições sociais, como o PIS sobre a folha de pagamento, as contribuições previdenciárias relativas aos seus funcionários, imposto de renda retido na fonte relativo a serviços tomados por ela, entre outros, que são situações que obrigam essas entidades a cumprirem essa obrigatoriedade. Contudo, as entidades que não possuam nada a declarar na DCTFWeb, ou seja, estão sem movimento, também precisam entregá-la, mas com algumas regras específicas. A Receita Federal esclarece essas regras no Manual da DCTFWeb: Transmitida a DCTFWeb sem movimento, esta terá efeito até que ocorra nova obrigatoriedade de declarar. Se o contribuinte continuar inativo, NÃO há mais necessidade de enviar nova DCTFWeb sem movimento no PA de JANEIRO dos anos seguintes. Mas o que isso significa na prática? Significa que a DCTFWeb sem movimento precisa ser entregue apenas uma única vez, quando a entidade se tornar inativa ou sem débitos a declarar. Enquanto essa condição persistir, não é necessário reenviar a declaração todo mês ou todo ano (nem mesmo em janeiro), e uma nova entrega só será exigida quando a entidade voltar a ter débitos a declarar ou se houver movimentação tributária, como folha de pagamento, retenções etc. b) Escrituração Fiscal Digital de Retenções e Outras Informações Fiscais – (EFD REINF) – Instrução Normativa RFB n. 2.043/2021 A EFD-Reinf é um dos módulos do Sistema Público de Escrituração Digital (SPED) e tem como objetivo substituir a entrega de várias obrigações acessórias, reunindo informações fiscais que não são transmitidas pelo eSocial (Sistema de Escrituração Digital das Obrigações Fiscais, Previdenciárias e Trabalhistas). De acordo com a instrução normativa acima citada, na EFD-REINF, são informados os pagamentos ou créditos de rendimentos sujeitos à retenção do Imposto de Renda Retido na Fonte (IRRF) e das Contribuições Sociais Retidas na Fonte (CSRF). 30 Desta forma, se a entidade pagou rendimentos com retenção do IRRF e/ou da CSRF, ainda que em um único mês do ano-calendário, ela fica obrigada à entrega. A entrega ocorre todo mês, até o dia 15 do mês seguinte ao da ocorrência dos fatos geradores. c) Escrituração Fiscal Digital das Contribuições incidentes sobre a Receita – (EFD-Contribuições) – Instrução Normativa RFB n. 1.252/2012 A EFD-Contribuições é um arquivo digital instituído no Sistema SPED Público de Escrituração Digital (SPED), a ser utilizado pelas pessoas jurídicas de direito privado na escrituração da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins, nos regimes de apuração não-cumulativo e/ou cumulativo, com base no conjunto de documentos e operações representativos das receitas auferidas, bem como dos custos, despesas, encargos e aquisições geradores de créditos da não- cumulatividade. A pessoa jurídica imune ou isenta do IRPJ deverá apresentar a EFD- Contribuições se o montante total mensal apurado a título de PIS/Pasep e/ou da Cofins incidentes sobre a receita ou de CPRB for superior a R$ 10.000,00. Conforme a legislação acima citada, a pessoa jurídica imune ou isenta ao IRPJ, que estiver dispensada de apresentar a EFD-Contribuições por não ultrapassar aquele limite, passará a ter a obrigação de apresentá-la a partir do mês do ano em curso em que o valor das contribuições nele apuradas for superior a R$ 10.000,00, permanecendo assim obrigada por todos os meses subsequentes, ainda que o montante apurado em qualquer deles seja igual ou inferior ao limite. Segundo o art. 7º desta Instrução Normativa, a EFD-Contribuições será transmitida mensalmente ao SPED até o 10º dia útil do 2º mês subsequente ao que se refira a escrituração. d) Escrituração Contábil Digital (ECD) – Instrução Normativa RFB n. 2.003/2021 A ECD é parte do projeto do SPED e tem por objetivo substituir a escrituração em papel, ou seja, corresponde à obrigação de transmitir, em versão digital, os seguintes livros: • Livro Diário e seus auxiliares, se houver; • Livro Razão e seus auxiliares, se houver; 31 • Livro Balancetes Diários, Balanços e fichas de lançamento comprobatórias dos assentamentos neles transcritos. Segundo a Instrução Normativa citada, estão obrigadas a adotar a ECD as pessoas jurídicas e equiparadas, portanto, as entidades imunes e isentas também ficam obrigadas a entregar, porém, desde que aufiram, no ano- calendário, receitas, doações, incentivos, subvenções, contribuições, auxílios, convênios e ingressos assemelhados, cuja soma seja igual ou superior a R$ 4,8 milhões, ou ao valor proporcional ao período a que se refere a escrituração contábil. A ECD será transmitida anualmente ao SPED até o último dia útil do mês de junho do ano seguinte ao ano-calendário a que se refira a escrituração. e) Escrituração Contábil Fiscal (ECF) A ECF é uma obrigação acessória entregue anualmente pelas pessoas jurídicas ao SPED e substituiu a antiga Declaração de Imposto de Renda da Pessoa Jurídica (DIPJ), com o objetivo principal de demonstrar à Receita Federal a apuração do superávit ou déficit da entidade. A legislação não traz nenhuma condição de dispensa de entrega dessa obrigação para as entidades imunes ou isentas; desta forma, todas as pessoas jurídicas imunes ou isentas também estão obrigadas a entregar a ECF. Conforme a Instrução Normativa RFB n. 1.633/2016, o prazo para a transmissão da ECF ao SPED é até o último dia útil do mês de julho do ano seguinte ao ano-calendário a que se refira. f) Sistema de Escrituração Digital das Obrigações Fiscais, Previdenciárias e Trabalhistas (eSocial) O eSocial é um sistema do governo federal criado para unificar o envio de informações por parte de empregadores, empresas, entidades públicas e privadas, inclusive do terceiro setor, sobre as relações trabalhistas, as contribuições previdenciárias, o FGTS, tributos incidentes sobre a folha e dados de saúde e segurança do trabalho (SST). Portanto, caso a entidade possua empregados ou tome serviços sobre os quais tenha retenção das contribuições, ela fica obrigada ao envio. Em relação aos prazos para entrega, esses dependerão do tipo de evento, conforme abaixo colocado: 32 Quadro 8 – Principais prazos por tipo de evento Descrição do Evento Prazo de Envio Eventos iniciais e tabelas Antes dos demais eventos Admissão de empregado Até um dia antes da admissão Remuneração dos trabalhadores Até o dia 15 do mês seguinte ao trabalhado Pagamento da remuneração Até o dia 15 do mês seguinte ao pagamento Fechamento da folha Até o dia 15 do mês seguinte Desligamento ou término de contrato Até 10 dias após a rescisão Afastamentos temporários Até 10 dias da ocorrência Fonte: Rodrigues, 2025. Quadro 9 – Prazos para eventos de SST (Segurança e Saúde no Trabalho) Descrição Prazo Comunicação de Acidente de Trabalho (CAT) Até o 1º dia útil seguinte ao da ocorrência Monitoramento da Saúde do Trabalhador Até o dia 15 do mês seguinte à realização do exame Condições Ambientais de Trabalho (PPP eletrônico) Até o dia 15 do mês seguinte ao início das condições Fonte: Rodrigues, 2025. Vamos resumir tudo isso? Abaixo, estou colocando um quadro resumo com todas essas informações das obrigações acessórias. Quadro 10 – Resumo das obrigações acessórias que devem ser entregues pelas entidades sem fins lucrativos Obrigação Acessória Obrigatoriedade p/ Ent. Sem Fins Lucrativos Base Legal DCTFWeb Sim, se houver fatos geradores Instrução Normativa RFB n. 2.005/2021 EFD-Reinf Sim, se houver retenções ou CPRB Instrução Normativa RFB n. 2.043/2021 EFD-Contribuições Sim, em geral obrigatória Instrução Normativa RFB n. 1.252/2012 ECD Sim, se obrigada a manter escrituração contábil Instrução Normativa RFB n. 2.003/2021 ECF Sim, se obrigada à entrega da ECDou se aufere receitas Instrução Normativa RFB n. 2.003/2021 eSocial Sim, se houver empregados ou prestadores com retenção Decreto n. 8.373/2014 33 TROCANDO IDEIAS No início desta abordagem, foi proposta uma reflexão. Vamos relembrar: O Estado precisa arrecadar tributos para financiar serviços públicos essenciais, como saúde, segurança e educação. No entanto, quando concede imunidade ou isenção para determinadas entidades, ele renuncia a parte dessa arrecadação. Até que ponto esses benefícios são justificados? Há situações em que a concessão de imunidade e isenção pode ser prejudicial ao interesse público? E aí, você já refletiu? Eu já refleti e cheguei à seguinte conclusão: A concessão de imunidades e isenções tributárias representa uma escolha deliberada do Estado em renunciar a parte de sua arrecadação em favor de valores e objetivos considerados prioritários para o interesse público. Essas medidas são justificadas quando visam estimular atividades de relevante função social, como educação, saúde, assistência social, cultura e liberdade religiosa — áreas que, muitas vezes, complementam ou até substituem a atuação estatal. A imunidade tributária, por exemplo, é uma limitação constitucional ao poder de tributar, prevista na Constituição Federal, e tem como finalidade proteger direitos fundamentais e garantir a atuação de instituições que promovem o bem comum. Já a isenção, concedida por lei infraconstitucional, pode ser usada como instrumento de política pública para incentivar determinados comportamentos ou setores. No entanto, esses benefícios devem ser criteriosamente avaliados e acompanhados, pois sua concessão indiscriminada ou sem controle pode gerar distorções, como a perda de arrecadação sem contrapartida social efetiva, a concorrência desleal com empresas do setor privado ou até o uso indevido por entidades que não cumprem sua finalidade institucional. Portanto, a justificativa desses benefícios está diretamente ligada à sua efetividade social. Quando bem aplicados, imunidades e isenções fortalecem o tecido social e aliviam a carga sobre o Estado. Mas, quando mal fiscalizados ou concedidos de forma ampla e sem critérios, podem, sim, comprometer o interesse público. 34 NA PRÁTICA Estudo de caso: imunidade e isenção tributária na associação comunitária esperança A Associação Comunitária Esperança é uma entidade sem fins lucrativos que atua há mais de 15 anos na assistência social e educação de crianças em situação de vulnerabilidade. Por estar enquadrada como entidade beneficente, a associação obteve imunidade tributária sobre impostos federais e isenção de tributos estaduais e municipais. Nos últimos anos, a associação expandiu suas atividades e começou a oferecer cursos profissionalizantes para jovens e adultos. Com isso, sua arrecadação de doações e parcerias aumentou significativamente. No entanto, uma fiscalização recente apontou inconsistências na prestação de contas, o que levantou questionamentos sobre a real destinação dos recursos isentos de tributos. Diante disso, o governo estadual iniciou uma revisão criteriosa dos benefícios concedidos à entidade, exigindo maior transparência e comprovação do impacto social de suas ações. O caso gerou debate sobre a necessidade de monitoramento contínuo e avaliação periódica das entidades beneficiadas por imunidade e isenção tributária. Diante disso, pergunta-se: 1. A Associação Comunitária Esperança deve continuar recebendo os benefícios fiscais? Por quê? 2. Quais medidas podem ser adotadas para garantir maior transparência na gestão de entidades isentas de tributos? 3. Como equilibrar a fiscalização rigorosa sem prejudicar o funcionamento de entidades que realmente cumprem seu papel social? FINALIZANDO Ao longo desta abordagem, tratamos dos principais aspectos da contabilidade aplicada ao terceiro setor, com destaque para as questões de isenção e imunidade tributária, que são fundamentais para a gestão financeira das entidades sem fins lucrativos. A compreensão e correta aplicação desses conceitos são essenciais para que as organizações possam cumprir suas 35 obrigações fiscais, ao mesmo tempo em que garantem a manutenção de sua missão social. Esperamos que este material tenha sido útil para o seu aprendizado e para a compreensão da contabilidade no contexto do terceiro setor, e que você possa aplicar os conhecimentos adquiridos de forma prática e eficiente em sua atuação profissional. 36 REFERÊNCIAS BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado Federal, 1988. _____. Decreto n. 3.048, de 6 de maio de 1999. Aprova o Regulamento da Previdência Social e dá outras providências. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, 7 maio 1999. Disponível em: . Acesso em: 27 jun. 2025. _____. Decreto n. 8.373, de 11 de dezembro de 2014. Institui o Sistema de Escrituração Digital das Obrigações Fiscais, Previdenciárias e Trabalhistas – eSocial e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 12 dez. 2014. Disponível em: Planalto. Acesso em: 27 jun. 2025. _____. Decreto n. 9.580, de 22 de novembro de 2018. Aprova o Regulamento do Imposto sobre a Renda e Proventos de Qualquer Natureza (RIR/2018). Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, 23 nov. 2018. Disponível em: . Acesso em: 27 jun. 2025. _____. Lei Complementar n. 116, de 31 de julho de 2003. Dispõe sobre o Imposto Sobre Serviços de Qualquer Natureza, de competência dos Municípios e do Distrito Federal, e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 1 ago. 2003. Disponível em: . Acesso em: 27 jun. 2025. _____. Lei Complementar n. 187, de 16 de dezembro de 2021. Dispõe sobre a certificação das entidades beneficentes de assistência social. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 17 dez. 2021. Disponível em: . Acesso em: 27 jun. 2025. _____. Lei n. 10.833, de 29 de dezembro de 2003. Altera a legislação tributária federal e dá outras providências. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, 30 dez. 2003. Disponível em: . Acesso em: 27 jun. 2025. 37 _____. Lei n. 13.019, de 31 de julho de 2014. Estabelece o regime jurídico das parcerias entre a administração pública e as organizações da sociedade civil, em regime de mútua cooperação, para a consecução de finalidades de interesse público e recíproco. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 1 ago. 2014. Disponível em: Planalto. Acesso em: 27 jun. 2025. _____. Lei n. 4.320, de 17 de março de 1964. Dispõe sobre normas gerais de direito financeiro para elaboração e controle dos orçamentos e balanços da União, dos Estados, dos Municípios e do Distrito Federal. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 18 mar. 1964. Art. 12. Disponível em: . Acesso em: 27 jun. 2025. _____. Lei n. 8.212, de 24 de julho de 1991. Dispõe sobre a organização da Seguridade Social, institui Plano de Custeio e dá outras providências. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, 25 jul. 1991. Disponível em: . Acesso em: 27 jun. 2025. _____. Lei n. 9.532, de 10 de dezembro de 1997. Altera a legislação tributária federal. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, 11 dez. 1997. Disponível em: . Acesso em: 27 jun. 2025. _____. Medida Provisória n. 2.158-35, de 24