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HISTÓRIA E ESTRUTURA ORGANIZACIONAL DA POLÍCIA CIENTÍFICA DE PERNAMBUCO RAFAEL LEITE FERREIRA RAFAEL PEREIRA DE ARRUDA 2025 Rua Tabira, 160 – Boa Vista – Recife – PE 2 EDITORIAL Governadora de Pernambuco Raquel Teixeira Lyra Vice-governadora de Pernambuco Priscila Krause Branco Secretário de Defesa Social Alessandro Carvalho Liberato Mattos Chefe da Polícia Civil Renato Márcio Rocha Leite Gerência da Polícia Científica Wagner Bezerra do Nascimento Coordenação de Ensino, Pesquisa e Gestão da Qualidade da Polícia Científica Natália Cybelle Lima Oliveira Diretora da ACADEPOL Sylvana Lellis Supervisora de Ensino Kássia Lúcia Vieira dos Santos Conteudista Rafael Leite Ferreira Rafael Pereira de Arruda Revisor Felipe Fragoso Marinho de Lima ACADEPOL – ESCOLA SUPERIOR DE POLÍCIA CIVIL Rua Tabira, 160 – Boa Vista – Recife – PE 3 Prezado (a) Aluno (a), É com grande satisfação que damos as boas-vindas à disciplina História e Estrutura Organizacional da Polícia Científica de Pernambuco, parte essencial do seu percurso formativo. Ao longo desta disciplina, você conhecerá a trajetória institucional da Polícia Científica, desde suas origens até sua consolidação como órgão estratégico da segurança pública e da justiça no Estado de Pernambuco. Serão abordados os principais marcos históricos, os fundamentos legais, a evolução estrutural e os desafios contemporâneos enfrentados por essa importante instituição. A perícia oficial de natureza criminal representa um dos pilares do sistema de justiça. É por meio da atuação técnica da Polícia Científica que se produz a prova pericial – elemento decisivo para investigações, processos judiciais e decisões que envolvem vidas, direitos e responsabilidades. Seu trabalho vai muito além do laboratório ou do local de crime: é um instrumento de garantia de direitos fundamentais, assegurando que a justiça se fundamente em evidências objetivas, confiáveis e imparciais. Por meio de áreas especializadas como medicina legal, genética forense, balística, documentoscopia, informática forense, entre outras, a Polícia Científica contribui de forma decisiva para o esclarecimento de crimes, a proteção de inocentes e a responsabilização de culpados – fortalecendo, assim, a democracia e a cidadania. Mais do que uma atividade técnica, a perícia criminal é uma missão pública pautada pela ciência, pela ética e pelo compromisso com a verdade e com a dignidade humana. Seja bem-vindo (a) à disciplina. Que este conteúdo desperte em você o senso de pertencimento, responsabilidade e orgulho por integrar a Polícia Científica de Pernambuco. Com estima, Rafael Leite Ferreira Rafael Pereira de Arruda Rua Tabira, 160 – Boa Vista – Recife – PE 4 SUMÁRIO PREMISSAS INSTITUCIONAIS DA POLÍCIA CIENTÍFICA DE PERNAMBUCO ............................... 6 MISSÃO ......................................................................................................................... 6 VALORES ...................................................................................................................... 6 VISÃO ........................................................................................................................... 6 CONSOLIDAÇÃO DA PERÍCIA EM PERNAMBUCO (1841–1966) ............................................ 7 A PERÍCIA SOB O REGIME MILITAR: CRIAÇÃO DO DEPOC E A LEI Nº 6.657/74 ................... 8 A PERÍCIA OFICIAL E AS VIOLAÇÕES DA DITADURA: O PAPEL DA COMISSÃO DA VERDADE EM PERNAMBUCO ............................................................................................................. 12 DEMOCRACIA, EXPANSÃO E INTERIORIZAÇÃO DA POLÍCIA CIENTÍFICA (1988–ATUALIDADE) 14 INSTITUTO DE CRIMINALÍSTICA PROFESSOR ARMANDO SAMICO (ICPAS) ..... 20 INSTITUTO DE MEDICINA LEGAL ANTÔNIO PERSIVO CUNHA (IMLAPC) ........... 23 INSTITUTO DE GENÉTICA FORENSE EDUARDO CAMPOS (IGFEC) .................... 23 ABRANGÊNCIA TERRITORIAL DAS URPOCS EM PERNAMBUCO ........................................ 26 A IMPORTÂNCIA DA PERÍCIA OFICIAL DE NATUREZA CRIMINAL .......................................... 27 CAPACIDADE OPERACIONAL E VOLUME DE TRABALHO DA PERÍCIA OFICIAL EM PERNAMBUCO .................................................................................................................................. 28 CRESCIMENTO DA DEMANDA PERICIAL EM PERNAMBUCO (2020–2024) ........................... 29 DESAFIOS ESTRUTURAIS, FUNCIONAIS E INSTITUCIONAIS DA PERÍCIA CRIMINAL EM PERNAMBUCO ............................................................................................................. 30 FORÇA DE TRABALHO E A VALORIZAÇÃO DOS SERVIDORES DA POLÍCIA CIENTÍFICA ........... 30 AVANÇOS ESTRUTURAIS E PERSPECTIVAS DE MODERNIZAÇÃO TECNOLÓGICA .................. 31 IMPLANTAÇÃO DE UMA CADEIA DE CUSTÓDIA ROBUSTA E INTEGRADA .............................. 33 CADEIA DE CUSTÓDIA E A JURISPRUDÊNCIA DO STJ ....................................................... 34 CAMINHOS PARA A MODERNIZAÇÃO DA POLÍCIA CIENTÍFICA: PERSPECTIVAS NACIONAIS E INTERNACIONAIS OPORTUNIDADE DE TRANSFORMAÇÃO NACIONAL COM PADRÃO INTERNACIONAL ............... 37 A PERÍCIA BRASILEIRA É PRODUÇÃO CIENTÍFICA NACIONAL ............................................ 38 MODERNIZAR É VALORIZAR O QUE É NOSSO .................................................................. 38 NORMAS, RECOMENDAÇÕES E LEIS RELACIONADAS À PERÍCIA OFICIAL NO BRASIL ............... DIRETRIZES ESTADUAIS PARA A CADEIA DE CUSTÓDIA: A PORTARIA CONJUNTA SDS Nº 205/2024 40 PROCEDIMENTOS PERICIAIS EM ACIDENTES DE TRÂNSITO: NORMATIZAÇÃO NA RMR ........ 40 file:///C:/Users/rafae/OneDrive/Documentos/APOC/ACADEPOL/História%20e%20Estrutura%20Organizacional%20da%20Polícia%20Científica%20de%20Pernambuco/APOSTILA%20ACADEPOL%202024%20-%20HISTÓRIA%20E%20ESTRUTURA%20ORGANIZACIONAL%20DA%20POLÍCIA%20CIENTÍFICA%20DE%20PERNAMBUCO.docx%23_Toc197624787 Rua Tabira, 160 – Boa Vista – Recife – PE 5 ENCAMINHAMENTO DE CORPOS AO IML E EMISSÃO DE DECLARAÇÃO DE ÓBITO EM PERNAMBUCO ............................................................................................................. 41 A RESOLUÇÃO Nº 15/2024 DO CONSELHO NACIONAL DE DIREITOS HUMANOS (CNDH) ..... 41 POSIÇÃO DA CORTE INTERAMERICANA DE DIREITOS HUMANOS (CIDH) ............................ 42 O QUE É A CORTE INTERAMERICANA DE DIREITOS HUMANOS (CIDH)? ............................. 42 O CASO FAVELA NOVA BRASÍLIA VS. BRASIL .................................................................. 43 DECISÕES DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL (STF) ....................................................... 43 PROPOSTA DE EMENDA CONSTITUCIONAL Nº 76/2019 – PELA CONSTITUCIONALIZAÇÃO DA POLÍCIA CIENTÍFICA...................................................................................................... 45 UM CAMINHO DE COMPROMISSO COM A VERDADE TÉCNICA ............................................ 46 CONSIDERAÇÕES FINAIS E PERSPECTIVAS PARA O FUTURO DA POLÍCIA CIENTÍFICA DE PERNAMBUCO ............................................................................................................. 46 CONSTRUINDO O FUTURO DA PERÍCIA OFICIAL: AUTONOMIA, CIÊNCIA E JUSTIÇA .............. 46 DIRETRIZES ESTRATÉGICAS PARA UM FUTURO SUSTENTÁVEL ......................................... 47 ENCERRAMENTO .......................................................................................................... 47 Rua Tabira, 160 – Boa Vista – Recife – PE 6 PREMISSAS INSTITUCIONAIS DA POLÍCIA CIENTÍFICA DE PERNAMBUCO 🎯 Missão Promover a justiça e a cidadania por meio da excelência na produção da prova material, seguindo os princípios das Ciências Forenses, no âmbito do Estado de Pernambuco. � Valorese funcional dos órgãos de perícia oficial de natureza criminal. Em seu artigo 2º, a norma define: “As autoridades públicas devem assegurar autonomia técnica, científica, administrativa e funcional dos peritos oficiais de natureza criminal”. Essa autonomia, conforme o §1º do mesmo artigo, exige a ausência de interferências políticas ou administrativas na realização dos exames periciais, na coleta de vestígios e na conclusão dos laudos. A resolução fundamenta-se em princípios constitucionais, tratados internacionais e no Código de Processo Penal (art. 280), garantindo qualidade, imparcialidade e disciplina judiciária na produção da prova. 📑 Você sabia??? A Resolução nº 15, publicada em 2024 pelo Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH), estabelece diretrizes para a autonomia técnica, científica, funcional e administrativa da perícia oficial de natureza criminal em todo o território nacional. Rua Tabira, 160 – Boa Vista – Recife – PE 42 Ela é fruto de amplo debate técnico e institucional, envolvendo peritos criminais, médicos-legistas, operadores do Direito, organizações da sociedade civil e representantes do próprio sistema de justiça. Sua criação atende a recomendações internacionais, como as da Corte Interamericana de Direitos Humanos, e também às demandas históricas das categorias periciais por independência funcional. Por que é importante? 🔹 Porque o CNDH é um órgão autônomo, de Estado, com atribuição constitucional de zelar pelos direitos humanos no Brasil. Suas resoluções são reconhecidas como orientações nacionais legítimas e éticas. 🔹 Porque assegura que a prova técnica não seja manipulada por interesses externos à ciência, protegendo o direito à verdade, ao contraditório e à ampla defesa. 🔹 Porque propõe parâmetros claros e democráticos para a organização institucional da Polícia Científica, contribuindo para políticas públicas mais justas, técnicas e transparentes. Seguir as diretrizes da Resolução nº 15/2024 é reconhecer a perícia como um instrumento essencial de justiça e cidadania, e não como mero suporte à investigação policial. 4.7 Posição da Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) No julgamento do caso Favela Nova Brasília vs. Brasil, a Corte Interamericana responsabilizou o Estado brasileiro pela violação de garantias judiciais mínimas, como a imparcialidade na investigação de crimes cometidos por agentes estatais. A CIDH foi categórica: “A investigação deve ser atribuída a um órgão independente e diferente da força policial envolvida no incidente [...] assistido por técnicos em criminalística alheios ao órgão de segurança ao qual pertencem os acusados”. Essa decisão reforça a urgência de desvincular os institutos periciais das estruturas investigativas e assegurar sua independência plena. 📑 Você sabia??? O que é a Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH)? A CIDH é um tribunal internacional com sede na Costa Rica, criado no âmbito da Organização dos Estados Americanos (OEA). Sua principal missão é julgar Estados que tenham violado os direitos humanos reconhecidos na Convenção Americana sobre Direitos Humanos, também conhecida como Pacto de San José da Costa Rica, da qual o Brasil é signatário desde 1992. Rua Tabira, 160 – Boa Vista – Recife – PE 43 A Corte só atua quando: O Estado em questão é formalmente denunciado por violações sistemáticas ou não solucionadas internamente; Há esgotamento dos recursos judiciais disponíveis no país; O caso foi previamente analisado pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos, que recomenda o envio à Corte. As decisões da CIDH têm caráter vinculante e reconhecimento jurídico internacional, servindo de base para reformas legais e políticas públicas nos países condenados. O caso Favela Nova Brasília vs. Brasil Em 2017, a CIDH condenou o Estado brasileiro por violações cometidas durante operações policiais realizadas no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, nos anos de 1994 e 1995. As ações resultaram na morte de 26 pessoas e em denúncias de violência sexual contra jovens durante incursões policiais. A Corte concluiu que o Brasil: Não garantiu uma investigação independente, imparcial e eficaz dos crimes cometidos por agentes do Estado; Falhou em proteger os direitos das vítimas e de seus familiares; Demonstrou que a investigação não pode estar sob controle da mesma estrutura policial envolvida nos fatos. Um dos pontos centrais do julgamento foi a seguinte afirmação: “A investigação deve ser atribuída a um órgão independente e diferente da força policial envolvida no incidente [...] assistido por técnicos em criminalística alheios ao órgão de segurança ao qual pertencem os acusados.” Essa decisão reforça a importância de que os institutos de perícia oficial sejam desvinculados administrativamente das estruturas de polícia investigativa, garantindo imparcialidade, proteção à prova e respeito aos direitos humanos. 4.8 Decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) O STF tem consolidado entendimentos favoráveis à autonomia técnica dos peritos criminais, embora sem reconhecer, por ora, a autonomia plena administrativa e orçamentária dos órgãos periciais. Destacam-se: 📑 ADI 4354 – A Constituição da Autonomia Técnica da Perícia Contexto: Após a promulgação da Lei Federal nº 12.030/2009, que reconhece a função do perito oficial de natureza criminal e sua autonomia técnico-científica, Rua Tabira, 160 – Boa Vista – Recife – PE 44 associações questionaram se essa lei conferiria, também, autonomia administrativa e financeira aos institutos periciais, tornando-a lei inconstitucional. O que foi decidido: O STF entendeu que a lei é constitucional, mas esclareceu que sua abrangência se limita à autonomia técnico-científica dos peritos. A Corte reforçou que a estrutura administrativa da perícia ainda depende de regulamentação pelos entes federativos. Por que é importante para a perícia: Essa decisão afirma o direito à independência técnica do perito, um marco jurídico fundamental para o exercício isento da função. Ao mesmo tempo, abre caminho para que os Estados regulamentem a autonomia institucional completa da perícia, via legislação local. 📑 ARE 1.454.560 – O STF Reconhece a Viabilidade de Estruturas Periciais Próprias Contexto: Diversos Estados brasileiros têm buscado criar estruturas mais autônomas para a Polícia Científica, com rubricas orçamentárias e gestões separadas das polícias civis. No entanto, surgiram dúvidas sobre a legalidade dessas medidas. O que foi decidido: O Supremo, nesse recurso extraordinário com repercussão geral, reconheceu que os Estados possuem competência para criar estruturas próprias para os institutos de perícia, incluindo orçamento próprio e gestão administrativa autônoma, desde que preservada a autonomia técnica. Por que é importante para a perícia: Essa decisão legitima a criação de Polícias Científicas independentes, reforçando a viabilidade jurídica de uma estrutura desvinculada das polícias investigativas, em linha com as recomendações do CNDH e dos tratados internacionais. 📑 ADIs 2.943, 3.309 e 3.318 – O MP Pode Investigar, Mas a Perícia Deve Ser Imparcial Contexto: As ações discutiam se o Ministério Público pode realizar investigações criminais diretamente, algo que antes era prerrogativa das polícias. Havia receio de que isso comprometesse garantias constitucionais, como a imparcialidade e a ampla defesa. O que foi decidido: O STF reconheceu a constitucionalidade das investigações criminais pelo MP, desde que observados os direitos fundamentais. A Corte foi clara ao afirmar que, nessas investigações, os peritos oficiais devem atuar com independência técnica, seja sob a requisição da polícia ou do Ministério Público. Por que é importante para a perícia: Essas decisões reforçam a posição da perícia como um órgão técnico de Estado, nãosubordinado à autoridade que requisita o exame. A imparcialidade da prova pericial foi expressamente valorizada pelo Supremo como um pilar do processo penal justo. 📑 ADI 7627 – Porte de Arma Funcional é Direito do Perito Criminal Rua Tabira, 160 – Boa Vista – Recife – PE 45 Contexto: Uma lei estadual vedava o porte de arma funcional para peritos criminais, contrariando o Estatuto do Desarmamento, que inclui esses profissionais entre os autorizados ao porte. O que foi decidido: O STF declarou a lei estadual inconstitucional, por afrontar a competência privativa da União para legislar sobre normas gerais de segurança pública e desconsiderar a natureza da atividade exercida pelo perito. Por que é importante para a perícia: A decisão reconhece que os peritos exercem função de segurança pública, muitas vezes em ambientes de risco, e devem ter garantias mínimas de proteção pessoal previstas na legislação federal. 4.5. Proposta de Emenda Constitucional nº 76/2019 – Pela Constitucionalização da Polícia Científica A PEC 76/2019 propõe incluir expressamente a Polícia Científica no artigo 144 da Constituição Federal, reconhecendo-a como órgão permanente, essencial à segurança pública e com identidade própria em relação às polícias civis. Seu objetivo central é garantir segurança jurídica, autonomia institucional e valorização funcional da perícia oficial em todo o território nacional. A proposta prevê que os institutos de perícia sejam: Organizados de forma autônoma, com orçamento próprio e gestão independente; Regulamentados por lei estadual, respeitando as competências federativas. 📌 Situação atual (maio de 2025): Aprovada pela Comissão de Constituição e Justiça do Senado (CCJ) em abril de 2024; Pronta para votação no Plenário do Senado, aguardando deliberação para seguir à Câmara dos Deputados. A aprovação da PEC permitirá: Fortalecimento institucional da perícia criminal como função típica de Estado; Proteção contra interferências hierárquicas indevidas; Alinhamento com recomendações da Corte Interamericana de Direitos Humanos e do CNDH; Reconhecimento nacional da autonomia plena da perícia oficial, técnica, administrativa e financeira. 📑 Você sabia??? O Artigo 144 da Constituição Federal estabelece os órgãos responsáveis pela segurança pública no Brasil: polícias federal, civis, militares, rodoviária e ferroviária, além das polícias penais. No entanto, a Polícia Científica ainda não está incluída nesse artigo, apesar de exercer função essencial à justiça e à preservação de direitos. A PEC 76/2019 busca corrigir essa omissão histórica e consolidar a Rua Tabira, 160 – Boa Vista – Recife – PE 46 perícia oficial como estrutura autônoma dentro do Sistema de Segurança Pública brasileiro. Figura 26 – Dispositivos legais sobre a Perícia Criminal no Brasil. 4.6 Um Caminho de Compromisso com a Verdade Técnica A constitucionalização da Polícia Científica é mais do que uma demanda corporativa — trata-se de um imperativo jurídico, social e ético. Ao garantir autonomia plena aos órgãos periciais, o Estado brasileiro fortalece o direito à verdade, à justiça e ao devido processo legal. 5. Considerações Finais e Perspectivas para o Futuro da Polícia Científica de Pernambuco A consolidação de uma perícia oficial sólida, técnica e imparcial é elemento essencial para o aprimoramento do sistema de justiça e para a promoção dos direitos fundamentais. Ao longo de sua trajetória, a Polícia Científica de Pernambuco vem demonstrando compromisso com a verdade dos fatos, com a ciência forense e com a prestação de um serviço público qualificado à sociedade. A análise dos dados, estruturas e normas apresentados nesta apostila permite identificar avanços importantes na atuação pericial, ao mesmo tempo em que aponta áreas sensíveis que merecem atenção e investimento contínuo. Entre os pontos que se destacam estão a necessidade de fortalecimento do quadro de servidores, a ampliação da infraestrutura física e tecnológica, o aprimoramento da cadeia de custódia e a consolidação de um modelo institucional com maior autonomia funcional e organizacional. 5.1. Construindo o Futuro da Perícia Oficial: Autonomia, Ciência e Justiça A Polícia Científica desempenha papel central no sistema de justiça, produzindo provas técnicas com precisão, imparcialidade e fundamentação científica. Para garantir a plena eficácia dessa atuação, é essencial fortalecer sua autonomia institucional e valorizar os profissionais que a integram — peritos criminais, médicos-legistas, agentes de perícia criminal e de medicina legal. Rua Tabira, 160 – Boa Vista – Recife – PE 47 Diversos marcos legais, como a Lei nº 12.030/2009, a Resolução nº 15/2024 do CNDH e decisões do Supremo Tribunal Federal, reforçam a importância da independência técnico-científica da perícia oficial. Nesse contexto, a Proposta de Emenda Constitucional nº 76/2019 surge como uma iniciativa legítima para consolidar a Polícia Científica como órgão permanente da segurança pública, com estrutura autônoma e garantias funcionais. Avançar na consolidação da perícia como instituição de Estado é assegurar justiça com base em evidências, prevenir erros judiciais e reforçar o compromisso público com os direitos fundamentais. Investir na estrutura, formação e valorização dos quadros periciais é uma estratégia que fortalece não apenas a segurança pública, mas também a confiança da sociedade nas instituições democráticas. 5.2. Diretrizes Estratégicas para um Futuro Sustentável Como síntese, são apontadas as seguintes diretrizes estruturantes, alinhadas a boas práticas nacionais e internacionais: Eixo Medida Proposta Finalidade Gestão Institucional Criação formal da Polícia Científica com autonomia administrativa Garantir independência administrativa/funcional Recursos Humanos Realização de concursos, PCCR atualizado e capacitação permanente Valorizar o capital humano Infraestrutura Ampliação de laboratórios regionais e informatização pericial Modernizar e descentralizar Cadeia de Custódia Implantação de sistema integrado e controle automatizado Preservar a integridade da prova Participação Estratégica Inclusão da perícia nos fóruns de planejamento da segurança pública Fortalecer a governança integrada 6 Encerramento Ao final deste material, espera-se que o leitor — gestor público, servidor da segurança, estudante, legislador ou cidadão — compreenda que a perícia criminal representa muito mais do que um conjunto de procedimentos técnicos. Ela é uma ferramenta essencial para a promoção da justiça, da verdade dos fatos e da paz social. O fortalecimento da Polícia Científica de Pernambuco é um processo que se constrói com planejamento, recursos adequados e ações institucionais coordenadas. Com base na ciência, na ética e no compromisso público, é plenamente possível Rua Tabira, 160 – Boa Vista – Recife – PE 48 avançar na construção de uma perícia oficial moderna, qualificada e cada vez mais reconhecida como referência nacional de excelência. 7. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ASSOCIAÇÃO DE POLÍCIA CIENTÍFICA DE PERNAMBUCO – APOC-PE. Relatório Técnico: Diagnóstico e Propostas da Perícia Criminal de Pernambuco ao Plano Estadual de Segurança Pública. Recife, 2024. BRASIL. Código de Processo Penal. Decreto-Lei nº 3.689, de 3 de outubro de 1941. Diário Oficial da União, Rio de Janeiro, RJ, 13 out. 1941. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del3689.htm. Acesso em: 5 maio 2025. BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 5 out. 1988. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm. Acesso em: 5 maio 2025. BRASIL. Lei nº 12.030, de 17 de setembro de 2009. Dispõe sobre as perícias oficiaisde natureza criminal. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 18 set. 2009. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2009/lei/l12030.htm. Acesso em: 5 maio 2025. BRASIL. Lei nº 13.964, de 24 de dezembro de 2019. Altera o Decreto-Lei nº 3.689, de 3 de outubro de 1941 – Código de Processo Penal, e outras normas. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 24 dez. 2019. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2019/lei/L13964.htm. Acesso em: 5 maio 2025. COMISSÃO ESTADUAL DA MEMÓRIA E VERDADE DOM HELDER CÂMARA. Relatório Final – Volume I. Recife: CEPE, 2017. 405 p. ISBN 978-85-7858-481-8. Disponível em: https://www.comissaodaverdade.pe.gov.br/. Acesso em: 5 maio 2025. CONSELHO NACIONAL DE DIREITOS HUMANOS – CNDH. Resolução nº 15, de 20 de fevereiro de 2024. Estabelece diretrizes para a autonomia da perícia oficial de natureza criminal. Brasília, DF, 2024. Disponível em: https://www.gov.br/mdh/pt- br/cndh. Acesso em: 5 maio 2025. CORTE INTERAMERICANA DE DIREITOS HUMANOS – CIDH. Caso Favela Nova Brasília vs. Brasil. Sentença de 16 de fevereiro de 2017. Disponível em: https://www.corteidh.or.cr/docs/casos/articulos/seriec_333_por.pdf. Acesso em: 5 maio 2025. COSTA, Veloso. Medicina, Pernambuco e tempo. Recife: Editora Universitária da UFPE, 1978. https://www.comissaodaverdade.pe.gov.br/ Rua Tabira, 160 – Boa Vista – Recife – PE 49 FUNDAÇÃO JOAQUIM NABUCO. A Polícia Científica na linha de montagem da defesa social sob focos de lentes: relatório de pesquisa / Ronidalva de Andrade Melo; coordenação geral; Renato Pereira Feitosa. Recife: Fundaj, Editora Massangana, 2013. 342 p. il. Disponível em: https://portal.fundaj.gov.br/. Acesso em: 5 maio 2025. MAIO, Marcos C. A medicina de Nina Rodrigues: análise de uma trajetória científica. Cadernos de Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 11, n. 2, jun. 1995. Disponível em: https://www.scielo.br/j/csp/a/WtM3G7QqRczC4RnMPczrChS/. Acesso em: 5 maio 2025. PERNAMBUCO. Portaria Conjunta SDS/SES nº 001, de 24 de março de 2020. Dispõe sobre o uso de pulseiras de identificação para vítimas fatais com suspeita de COVID-19. Diário Oficial do Estado, Recife, PE, 2020. PERNAMBUCO. Portaria SDS nº 2486, de 27 de maio de 2021. Disciplina a atuação pericial em acidentes de trânsito. Diário Oficial do Estado, Recife, PE, 2021. PERNAMBUCO. Provimento Correicional – Papiloscopistas. Define procedimentos de controle e organização de atividades de perícia papiloscópica. Recife, PE, [data desconhecida]. SANTOS NETO, Pedro Miguel dos. O processo da profissionalização médica em Pernambuco – um estudo sobre a categoria médica pernambucana, sua organização, seus interesses. Dissertação (Mestrado) – Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, 1993. SECRETARIA DE DEFESA SOCIAL DE PERNAMBUCO – SDS. Portaria n.º 6416/2024 Estabelece diretrizes para a cadeia de custódia no âmbito das forças operativas do Estado. Recife, 2023. SENADO FEDERAL. Proposta de Emenda à Constituição nº 76, de 2019. Altera o art. 144 da Constituição Federal para incluir a polícia científica como órgão permanente da segurança pública. Brasília, DF, 2019. Disponível em: https://www25.senado.leg.br/web/atividade/materias/-/materia/136804. Acesso em: 5 maio 2025. SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL – STF. ADI 4354/DF, ARE 1454560/SP, ADI 7627/RO e ADIs 2943, 3309 e 3318. Jurisprudência do STF. Disponível em: https://jurisprudencia.stf.jus.br. Acesso em: 5 maio 2025.Compromisso com a Verdade, Imparcialidade, Qualidade, Confiabilidade, Ética, Transparência e Respeito à dignidade da pessoa humana. 🌟 Visão Tornar a Polícia Científica referência nacional pela excelência na realização de Perícias Oficiais de Natureza Criminal. Rua Tabira, 160 – Boa Vista – Recife – PE 7 Figura 1 - cópia do Código de Processo Penal de 1832. Capítulo I História da Polícia Científica de Pernambuco 1. As Origens da Perícia Oficial no Brasil A trajetória da perícia oficial brasileira remonta aos primórdios do século XIX. Em 1814, o médico Antônio Gonçalves Gomide já contestava exames sem rigor técnico, evidenciando um dos primeiros desafios enfrentados pela perícia: a ausência de formação especializada entre os clínicos. A oficialização da perícia no processo penal ocorreu com o Código de Processo Penal de 1832, que instituiu o auto de corpo de delito, mesmo que ainda de forma rudimentar. Com a elevação das primeiras escolas de medicina do Brasil à categoria de faculdades em 1832, especialmente no Rio de Janeiro e em Salvador, o ensino da Medicina Legal passou a ser estruturado com base em modelos científicos europeus. A atuação de figuras como Hércules Muzzi e Nina Rodrigues foi essencial para consolidar a perícia médico-legal como campo científico. A institucionalização dos serviços periciais ocorreu de maneira progressiva, a partir do Decreto Imperial nº 1.746, de 1856, que previu médicos oficiais para exames técnicos. Ainda assim, a profissionalização enfrentava obstáculos, como a carência de padronização e a influência de teorias raciais e deterministas no final do século XIX, o que marcava a produção forense da época com viés ideológico. Rua Tabira, 160 – Boa Vista – Recife – PE 8 Figura 2 - Foto da fachada do IML - RECIFE. 2. Consolidação da Perícia em Pernambuco (1841-1966) Em Pernambuco, os primeiros registros da perícia oficial datam de 1841, com a criação da Sociedade de Medicina 1 e, posteriormente, do Conselho Geral de Salubridade 2. No final do século XIX, já se notava a necessidade de um Gabinete Antropométrico, como propunha o relatório do (1898), e de um necrotério público estruturado. O início do século XX trouxe avanços com a criação do Gabinete de Identificação e Estatística Criminal (1909), que adotou o sistema datiloscópico de Vucetich. Em 1919, o Serviço Médico-Legal de Pernambuco foi regulamentado e, em 1924, transformado oficialmente no Instituto de Medicina Legal (IML), com amplas atribuições, como exames de lesões, sanidade, toxicologia e necropsias. Nas décadas seguintes, o IML ganhou notoriedade nacional, figurando entre os principais do país. Em paralelo, o Gabinete de Identificação foi regulamentado em 1947, e a estrutura pericial pernambucana passou a ser reconhecida pela sua complexidade e qualidade técnica. Contudo, apenas em 1966 foi criado o Instituto de Polícia Técnica, dedicado à criminalística, marcando o início da perícia moderna em Pernambuco. 3. A Perícia sob o Regime Militar: Criação do DEPOC e a Lei nº 6.657/74 O marco institucional mais importante da Polícia Científica de Pernambuco se deu em 1974, com a promulgação da Lei nº 6.657, que organizou a Secretaria de Segurança Pública e criou o Departamento de Polícia Científica (DEPOC). A nova estrutura previa institutos especializados e cargos periciais com exigência de nível superior, reforçando a profissionalização. 1 Sociedade de Medicina de Pernambuco, já contava com uma comissão permanente de higiene, polícia médica, medicina legal e história da medicina, 2 O Conselho Geral de Salubridade, criado pela Assembleia Provincial de Pernambuco, através da Lei nº 143 de 15 de maio de 1945, era composto por três doutores em Medicina, versados no estudo da higiene pública e da medicina legal, e por dois farmacêuticos experimentados em análise química e práticas toxicológicas. Rua Tabira, 160 – Boa Vista – Recife – PE 9 Esse período também foi marcado pela utilização da perícia como instrumento de controle político. Em meio ao regime militar, o DEPOC passou a integrar estratégias repressivas, sendo acionado pelo DOPS em investigações políticas. Apesar disso, a criação do DEPOC permitiu a sistematização das perícias criminais, toxicológicas, médico-legais e papiloscópicas, além da ampliação dos laboratórios e da capacitação técnica dos profissionais. A nova sede do IML foi inaugurada em 1974, com espaço para reuniões científicas e integração com a universidade. Embora esses avanços estruturais tenham consolidado a Polícia Científica, relatos de omissão ou manipulação em laudos sobre torturas durante a ditadura militar mostram como a perícia pode ser vulnerável à instrumentalização política. Construção Histórica da Institucionalidade da Perícia Sob a égide do regime militar que marcava o Brasil no início da década de 1970, o governo de Eraldo Gueiros em Pernambuco (1971-1975) promoveu uma reforma administrativa significativa na segurança pública, formalizada pela Lei nº 6.657, de 7 de janeiro de 1974. Esse marco legal não só reestruturou a Secretaria de Segurança Pública estadual, mas também ecoou o ambiente político da época, marcado pelo controle estatal fortalecido e pela prioridade da manutenção da ordem pública. Nesse contexto, a demanda do governo militar por medidas que assegurassem o controle social e a repressão aos movimentos de oposição encontrou resposta na criação dessa lei, que visava organizar as forças de segurança de maneira mais eficiente e alinhada aos objetivos do regime autoritário. Antes da promulgação da Lei nº 6.657/74, a Secretaria de Segurança Pública de Pernambuco (SSP/PE) apresentava uma arquitetura fragmentada e tradicional, marcada pela limitada integração entre seus principais componentes: a Polícia Militar, encarregada do policiamento ostensivo, e a Polícia Civil, responsável pelas investigações criminais e pela polícia judiciária. A ausência de coordenação entre essas corporações comprometia a eficácia das ações conjuntas, tanto no combate à criminalidade comum quanto no enfrentamento das ameaças políticas. Ademais, a gestão da SSP/PE apoiava-se em um conjunto de normas e decretos esparsos que, embora oferecessem algum suporte administrativo, careciam de uma base legal sólida e atualizada. Não havia estruturas especializadas em inteligência, planejamento estratégico ou controle interno, o que dificultava a operacionalização de ações coordenadas e efetivas. O Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), responsável pela repressão política, atuava isoladamente, sem plena articulação com as demais divisões da segurança pública. Até então, o foco da segurança pública em Pernambuco estava concentrado no combate ao crime comum e na preservação da ordem. Entretanto, com a promulgação do Ato Institucional nº 5 (AI-5), em 1968, o escopo da segurança pública expandiu-se dramaticamente, passando a priorizar a repressão política. A partir desse momento, o regime militar passou a considerar movimentos opositores e dissidentes como ameaças diretas à estabilidade do Estado, justificando a adoção de medidas autoritárias e a ampliação do controle social. Nesse novo cenário, a repressão não mais se limitava à criminalidade comum, mas abrangia também o cerceamento das liberdades individuais e a perseguição sistemática de grupos considerados subversivos. Assim, a estrutura de segurança pública precisou se adaptar rapidamente: não apenas os crimes ordinários, mas Rua Tabira, 160 – Boa Vista – Recife – PE 10 também os denominados “crimes subversivos” passaram a ser alvo de intensa repressão. As autoridades militares perceberam, portanto, a urgência de modernizar as forças de segurança e reestruturar suas estratégias, criandoum aparato policial mais eficiente, apto a combater tanto a criminalidade organizada quanto as ações de oposição política, consolidando o controle do regime sobre a sociedade. Foi nesse contexto que diversos estados, incluindo Pernambuco, implantaram reformas administrativas voltadas à reorganização e à modernização das forças de segurança. A criação da Polícia de Carreira em Pernambuco, instituída pela Lei nº 6.657/74, representou uma dessas inovações. Essa medida visava à profissionalização das forças, superando antigas práticas de nomeações políticas e estabelecendo uma estrutura mais técnica e eficiente para o desempenho das funções policiais. Outro marco relevante da Lei nº 6.657/74 foi a criação do Departamento de Polícia Científica (DEPOC), com a missão crucial de reorganizar o campo da perícia oficial no estado de Pernambuco. Em contraste com o cenário anterior à sua instituição, a realização de perícias e exames técnicos era caracterizada por uma notável falta de profissionalismo e pela ausência de métodos padronizados. A atividade pericial dependia da colaboração eventual de profissionais como médicos- legistas, químicos e farmacêuticos, cuja atuação se dava de maneira fragmentada e sem uma integração efetiva com a estrutura de segurança pública. Além disso, a precariedade desse cenário não se restringia à carência de padronização, recursos e técnicas; a formação técnica dos peritos criminais também era extremamente limitada. Muitos profissionais não possuíam treinamento específico em práticas forenses modernas, resultando em laudos inconsistentes e frequentemente questionáveis. A ausência de concursos públicos para o ingresso nas funções periciais favorecia indicações políticas e, por conseguinte, o amadorismo na execução das atividades periciais. Com a intensificação da repressão política a partir da segunda metade dos anos 1960, a perícia passou a ser empregada com maior frequência em investigações de natureza política, notadamente pelo Departamento de Ordem Política e Social (DOPS). Contudo, essa utilização era, por vezes, instrumentalizada, servindo mais como um mecanismo de legitimação das ações repressivas do regime do que como um instrumento para garantir processos criminais técnicos e imparciais. Nesse panorama, a Polícia Civil, órgão responsável pela investigação criminal, não dispunha de uma estrutura organizada que integrasse as diversas funções investigativas de maneira eficiente e fundamentada em uma abordagem científica e técnica. A ausência de uma estrutura que incorporasse métodos científicos de análise criminal prejudicava a identificação precisa de criminosos, a coleta e preservação de provas e, consequentemente, o sucesso das investigações. Essa situação limitava a capacidade do sistema de justiça em responder de forma efetiva e célere aos crimes, especialmente aqueles de maior complexidade, como os relacionados ao crime organizado e aos movimentos de oposição política. Em resposta a essas deficiências, a criação do DEPOC representou um avanço significativo, promovendo o aprofundamento técnico das investigações e da coleta de provas mediante a adoção de métodos científicos para subsidiar o trabalho das autoridades policiais. Com a instituição do Departamento, buscou-se ativamente corrigir as carências estruturais preexistentes e modernizar a atividade pericial em Pernambuco. O novo órgão foi incumbido de organizar e supervisionar todos os serviços de perícia técnica, laboratoriais e de identificação civil e criminal no estado. A fim de concretizar essa reestruturação e modernização da perícia em Pernambuco, foram implantadas medidas cruciais, como a exigência de formação Rua Tabira, 160 – Boa Vista – Recife – PE 11 específica e a realização de concursos públicos para o ingresso de peritos criminais, promovendo a profissionalização do quadro de servidores e elevando a qualidade dos serviços prestados. Adicionalmente, houve investimentos significativos em infraestrutura, com a aquisição de novos equipamentos científicos e a construção de laboratórios especializados. Áreas cruciais como a perícia criminal, a medicina legal, a papiloscópica, a balística, a documentoscopia e outras foram estruturadas de maneira técnica e integrada, fortalecendo a capacidade do Estado de produzir provas materiais robustas para as investigações policiais e para os processos judiciais. As principais ações estratégicas impulsionadas pela criação do DEPOC podem ser sintetizadas da seguinte maneira: a) Profissionalização e Modernização da Investigação Criminal: a criação do DEPOC representou um marco crucial para a modernização das investigações em Pernambuco. A adoção de métodos científicos elevou a precisão das investigações e fortaleceu a capacidade de identificar e capturar criminosos de maneira mais eficiente. Esse avanço foi fundamental para enfrentar os crimes cada vez mais complexos, especialmente os de natureza organizada; b) Aprimoramento da Coleta e Preservação de Provas: a implantação do DEPOC introduziu a padronização e sistematização dos procedimentos para a coleta e preservação de provas. Em um contexto de repressão política, no qual a criminalização de opositores ao regime se intensificava, a aplicação de métodos científicos mostrou-se essencial para assegurar a precisão das provas e evitar manipulações; c) Apoio ao Controle e Repressão Política: no contexto do regime, o regime não se restringia ao combate à criminalidade comum, mas também almejava suprimir qualquer forma de dissidência política. O DEPOC emergiu como uma ferramenta essencial para a repressão e o controle de opositores, facilitando a criminalização de dissidentes e fornecendo uma base jurídica para as ações de repressão; d) Integração com Outras Unidades de Segurança: além de introduzir inovação técnica, o DEPOC também representou um esforço para integrar as diversas áreas da polícia e da segurança pública, fortalecendo a resposta do estado às ameaças à ordem pública; e) Fortalecimento do Enfrentamento à Criminalidade Organizada: a estruturação do DEPOC foi particularmente relevante no combate a crimes complexos, como tráfico de drogas e roubo de veículos. As técnicas de perícia desenvolvidas permitiram uma investigação mais robusta, capaz de desmantelar esquemas criminosos; f) Valorização do Trabalho Técnico-Policial: a criação do DEPOC conferiu reconhecimento e valorização aos profissionais especializados em polícia científica, como peritos, papiloscopistas e toxicologistas, que se tornaram peças-chave para o sucesso das investigações; g) Impacto nas Políticas de Repressão e Controle Social: a criação do DEPOC estava alinhada aos interesses do regime militar, que buscava um controle rigoroso sobre qualquer forma de oposição. A aplicação de perícias técnicas e de uma polícia científica robusta contribuiu para conferir respaldo jurídico às ações repressivas e ao controle social. Rua Tabira, 160 – Boa Vista – Recife – PE 12 Figura 3 - Capa do Relatório Final da Comissão da Memória e Verdade de Pernambuco Figura 5 -fotografia da presa política e morta no regime militar, Anatália Melo Alves. Figura 4 – Jornal destacando o Massacre da Granja de São Bento. 4. A Perícia Oficial e as Violações da Ditadura: O Papel da Comissão da Verdade em Pernambuco O que foi a Comissão da Verdade e Justiça de Pernambuco? Instalada em 2012, a Comissão Estadual da Memória e Verdade Dom Helder Câmara (CEMVDHC) teve como objetivo investigar graves violações de direitos humanos ocorridas em Pernambuco entre 1946 e 1988, especialmente no período da Ditadura Militar. Sua atuação revelou omissões, fraudes e conivência institucional em diversos órgãos do Estado – incluindo a perícia criminal oficial. Casos analisados e a atuação da perícia A comissão identificou que, em múltiplas situações, laudos periciais foram utilizados para legitimar versõesforjadas de suicídios ou resistências armadas, quando na realidade tratavam-se de mortes sob tortura. Um dos casos mais simbólicos foi o de Anatália Melo Alves, militante política, que teve sua morte registrada como suicídio por enforcamento. Três laudos oficiais — incluindo o Tanatoscópico — omitiram evidências de queimaduras nos órgãos genitais e não questionaram o tamanho incompatível da alça utilizada para o suposto enforcamento. O médico- legista responsável, em depoimentos posteriores, reconheceu ter cometido erros no documento oficial, como a inconsistência do horário de realização do exame. Outro episódio abordado foi o do Massacre da Granja de São Bento, em que também houve participação do mesmo legista. A perícia foi novamente questionada por sua atuação passiva diante de mortes com indícios de execução sumária. Exemplos midiáticos e consequências Além dos casos oficialmente investigados, a imprensa pernambucana da época contribuiu para reforçar Rua Tabira, 160 – Boa Vista – Recife – PE 13 as versões oficiais dos órgãos de repressão, como ao noticiar a morte de Anatália com manchetes como “Subversiva se enforca no banheiro”, sem qualquer checagem ou contraditório. Figura 6 - Jornal da época da ditadura militar retratando a morte de Anatália. Recomendações da Comissão Como forma de enfrentamento à memória institucional da repressão, a CEMVDHC recomendou expressamente a necessidade de: “reconhecer o papel técnico da perícia oficial, mas assegurar sua autonomia científica e funcional, evitando sua submissão às forças de segurança pública ou ao arbítrio político”. Figura 7 - Recomendação do Governo Estadual de Pernambuco. Além disso, propôs a criação de centros de memória, revisão de laudos duvidosos e inclusão do tema da repressão nos currículos das instituições de segurança e justiça. A autonomia da perícia, defendida também pelo Conselho Rua Tabira, 160 – Boa Vista – Recife – PE 14 Figura 8 - Prédio da Secretaria de Defesa Social, onde funciona a Gerência Geral de Polícia Científica. Figura 9 - Fachada do Instituto de Criminalística Armando Samico. Figura 10 - Inauguração de Unidade Regional de Polícia Científica de Arcoverde. Nacional de Direitos Humanos (Resolução CNDH nº 15/2024), foi apontada como pilar essencial para impedir novas manipulações da verdade e garantir a justiça nas futuras gerações. 5. Democracia, Expansão e Interiorização da Polícia Científica (1988- atualidade) Com a redemocratização do país e a promulgação da Constituição de 1988, a Polícia Científica pernambucana passou por nova reestruturação. A partir dos anos 2000, a Polícia Científica passou a operar com mais autonomia técnica, ampliando sua atuação por meio de concursos públicos, modernização tecnológica e intercâmbio com instituições nacionais e internacionais. O Instituto de Criminalística passou por reformas estruturais, funcionando atualmente no bairro de Campo Grande. A criação das Unidades Regionais de Polícia Científica (URPOCs), com a promulgação da Lei nº 16.278/2017, foi um marco na interiorização dos serviços periciais. A instituição do Instituto de Genética Forense Eduardo Campos (IGFEC) representou outro passo importante na modernização científica da perícia. O modelo atual, com gerências regionais e especializadas, reforça o papel da Polícia Científica como eixo técnico-científico independente, fundamental para a justiça criminal. Ainda assim, desafios persistem: valorização profissional, fortalecimento institucional, aprimoramento da gestão e garantia de autonomia plena são caminhos a serem trilhados para consolidar a perícia pernambucana como referência nacional. Rua Tabira, 160 – Boa Vista – Recife – PE 15 Construção Histórica da Institucionalidade Pericial Durante a transição para o período democrático, a estrutura da Polícia Científica de Pernambuco passou por significativas reconfigurações institucionais. O Decreto nº 13.908, de 3 de outubro de 1989, editado pelo então governador Miguel Arraes, alterou a denominação do Departamento de Polícia Científica (DEPOC) para Diretoria de Polícia Científica (DIPOC), subordinando-a à recém-criada Diretoria Geral de Polícia Civil (DIPOC). Posteriormente, em 21 de novembro de 1990, o governador Carlos Wilson editou o Decreto nº 14.672, elevando sua designação para Diretoria Geral de Polícia Científica. No entanto, essa nomenclatura foi revertida em 30 de dezembro de 1991, com a edição do Decreto nº 16.407 pelo governador Joaquim Francisco, restaurando a denominação original de Diretoria de Polícia Científica (DIPOC). Essas mudanças, embora pontuais, revelam a constante adaptação da estrutura pericial às circunstâncias político-administrativas do período. A década de 1990 foi marcada por profundas transformações na segurança pública nacional. Em Pernambuco, esse processo ganhou novo fôlego com a posse do governador Jarbas Vasconcelos, em janeiro de 1999. Em resposta à crise de segurança pública então vigente – evidenciada pelo crescimento da violência urbana, dos homicídios, do tráfico de drogas e da atuação de facções criminosas – o governo estadual promoveu uma ampla reestruturação institucional. Nesse contexto, a criação da Secretaria de Defesa Social (SDS), por meio da Lei nº 11.629, de 28 de janeiro de 1999, representou um divisor de águas na administração da segurança pública estadual. A SDS substituiu a antiga Secretaria de Segurança Pública (SSP), com a missão de integrar, coordenar e modernizar as ações das forças de segurança, com destaque para o fortalecimento da atuação técnico-científica. A nova configuração garantiu à Polícia Científica autonomia institucional, incumbindo-a da execução das atividades de polícia técnica e científica – inclusive as de natureza médico-legal – conforme disposto no art. 3º, inciso d, da Lei nº 11.629/1999. Essa autonomia reforçou a imparcialidade das perícias oficiais em relação à polícia judiciária e impulsionou a qualificação dos serviços periciais. Em 22 de maio de 2003, o Decreto nº 25.484, que regulamentou a SDS, transformou a DIPOC em Gerência Geral de Polícia Científica (GGPOC), mantendo-a como órgão integrante da estrutura da Secretaria. O regulamento detalhou suas competências, atribuições e estrutura hierárquica interna, conferindo maior segurança jurídica e eficiência à gestão pericial. Posteriormente, o Decreto nº 30.290, de 21 de março de 2007, editado pelo governador Eduardo Campos, atualizou o Regulamento da SDS e manteve a estrutura e competências da Polícia Científica, em consonância com os avanços promovidos na década anterior. A consolidação dessa trajetória ocorreu com o Decreto nº 34.479, de 29 de dezembro de 2009, que publicou o atual Regulamento da SDS. Esse normativo ampliou significativamente as atribuições da GGPOC, atribuindo-lhe a gestão, o planejamento, a coordenação e a supervisão das atividades periciais, incluindo os exames de corpo de delito e a identificação papiloscópica. Esse decreto também formalizou a vinculação dos Institutos de Criminalística (IC), de Medicina Legal (IML) e de Identificação (IITB) à Gerência Geral de Polícia Científica. No entanto, essa vinculação foi parcialmente modificada pelo Decreto nº 47.092, de 4 de fevereiro de 2019, que desvinculou o Instituto de Identificação Tavares Buril (IITB) da GGPOC, subordinando-o diretamente à Chefia de Polícia Civil. Rua Tabira, 160 – Boa Vista – Recife – PE 16 Outro marco relevante no processo de modernização e interiorização da perícia oficial foi a Lei nº 16.278, de 27 de dezembro de 2017, sancionada pelo governador Paulo Câmara. Essa legislação instituiu as Unidades Regionais de Polícia Científica (URPOCs) em municípios estratégicos — como Palmares, Nazaré da Mata, Caruaru e Garanhuns (abrangidos pela Gerência GINTER 1); e Arcoverde, Salgueiro,Afogados da Ingazeira, Ouricuri e Petrolina (abrangidos pela Gerência GINTER 2). Essa descentralização democratizou o acesso aos serviços periciais e reduziu a dependência da capital, fortalecendo a capacidade de resposta do Estado. A mesma lei também criou a Diretoria Integrada de Polícia Científica (DIPOC), as gerências GINTER 1 e GINTER 2, além do Instituto de Genética Forense Eduardo Campos (IGFEC), voltado ao uso da análise genética nas investigações criminais. A implementação do IGFEC representou um salto qualitativo na atuação da perícia oficial, com a incorporação de tecnologias modernas e metodologias avançadas, alinhadas aos padrões internacionais. Devido às diferenças de porte, demanda e infraestrutura local, as URPOCs não possuem estrutura uniforme, apresentando variações quanto à realização dos exames periciais. Para normatizar a atuação territorial, foi editada a Portaria SDS nº 1.976, de 10 de abril de 2019, que estabeleceu oficialmente a abrangência territorial das unidades da Polícia Científica com base nas Áreas Integradas de Segurança (AIS). Essa organização permitiu maior racionalização dos recursos humanos e materiais, otimizando a distribuição das equipes de perícia criminal e medicina legal no interior do Estado. 6. ANEXOS do CAPÍTULO I Figura 11 - Organograma da Secretaria de Segurança Pública, 1974. Destaque para Diretoria de Polícia Científica (antecessora da GGPOC). Rua Tabira, 160 – Boa Vista – Recife – PE 17 Figura 12 - Departamento de Polícia Científica de Pernambuco, tal como estabelecida a partir da Lei nº 6.657/1974 e regulamentada pelo Decreto Estadual nº 3.167, de 5 de julho de 1974 Rua Tabira, 160 – Boa Vista – Recife – PE 18 Figura 13 - Mudança dos cargos com a implantação da Polícia de Carreira em 1974. Criação da DEPOC. Rua Tabira, 160 – Boa Vista – Recife – PE 19 Figura 14 - Linha do tempo da Institucionalização da Polícia Científica de Pernambuco. Rua Tabira, 160 – Boa Vista – Recife – PE 20 Capítulo II Estrutura Especializada da Polícia Científica de Pernambuco Figura 15 - Organograma funcional da Polícia Científica de Pernambuco. 1. INSTITUTO DE CRIMINALÍSTICA PROFESSOR ARMANDO SAMICO (ICPAS) O ICPAS é o centro responsável pela execução das perícias criminais de natureza técnico-científica em vestígios materiais relacionados à cena do crime. Sua origem remonta à criação do Instituto de Polícia Técnica em 1966 e foi consolidada com a estruturação do Departamento de Polícia Científica em 1974. Nomeado em homenagem ao perito criminal Armando Samico, o ICPAS integra setores como balística, engenharia legal, informática forense, documentoscopia e local de crime, sendo referência nacional pela sua capacidade técnica e pela qualificação de seus quadros funcionais. 📍 Perícias Laboratoriais de Maior Complexidade – Realizadas exclusivamente na capital SDS SECRETARIA DE DEFESA SOCIAL DE PERNAMBUCO INSTITUTO DE CRIMINALÍSTICA (ICPAS) INSTITUTO DE MEDICINA LEGAL (IMLAPC) INSTITUTO DE GENÉTICA FORENSE (IGFEC) GINTER 1 GINTER 2 CADEIA DE CUSTÓDIA DIRETORIA INTEGRADA DE POLÍCIA CIENTÍFICA (DIPOC) SECRETARIA EXECUTIVA DE DEFESA SOCIAL GERÊNCIA GERAL DE POLÍCIA CIENTÍFICA (GGPOC) Rua Tabira, 160 – Boa Vista – Recife – PE 21 Figura 15 - Estrutura atual da Polícia Científica de Pernambuco. O ICPAS concentra os exames periciais de maior sofisticação tecnológica, que exigem laboratórios equipados e profissionais especializados. São eles: Informática Forense: análise de dispositivos digitais, redes e vestígios eletrônicos; Toxicologia Forense: detecção de substâncias tóxicas em fluidos e tecidos; Engenharia Forense: análise estrutural de colapsos e acidentes em edificações e veículos; Documentoscopia: análise de autenticidade e falsificações em documentos; Balística Forense: estudo comparativo de projéteis, armas de fogo e elementos balísticos; Química Forense: identificação de substâncias ilícitas e materiais suspeitos; Identificação Veicular: perícias em chassis, motores e documentos de veículos. (Núcleo de Identificação Veicular). 📍 Perícias em Local de Crime – Região Metropolitana do Recife Além dos exames laboratoriais, o ICPAS também é responsável pelas perícias externas realizadas nas cenas de crime, por meio de grupos especializados: GEPH (Grupo Especializado em Perícias de Homicídios): atua em locais de morte violenta, identificando vestígios relacionados à dinâmica e autoria dos crimes. DEPP (Divisão Especializada em Perícias Patrimoniais): realiza exames técnicos em crimes contra o patrimônio, como arrombamentos, furtos, roubos e incêndios. UNICOPLAN (Unidade de Coordenação de Planejamento Pericial): responde por ocorrências como suicídios, acidentes de trânsito, quedas e outros eventos não classificados. Rua Tabira, 160 – Boa Vista – Recife – PE 22 Figura 16 - Grupos especializados de perícia que atuam na RMR. Figura 17 - Perícias realizadas pelo ICPAS. Rua Tabira, 160 – Boa Vista – Recife – PE 23 2. INSTITUTO DE MEDICINA LEGAL ANTÔNIO PERSIVO CUNHA (IMLAPC) Com uma longa trajetória institucional, o IMLAPC é responsável pelos exames tanatológicos, traumatológicos, sexológicos e demais perícias médico-legais. Institucionalizado como Instituto em 1924, o IML ocupa posição central na interface entre saúde, direito e segurança pública. A sede atual foi inaugurada em 1974, com a proposta de integrar o conhecimento acadêmico à prática forense. Nomeado em homenagem a um de seus mais notórios diretores, o IMLAPC também cumpre função social essencial, oferecendo suporte técnico- científico à persecução penal e à garantia de direitos fundamentais. O que o IMLAPC realiza? O instituto atua em sete grandes áreas da medicina legal, com profissionais especializados e estrutura própria: Perícias Traumatológicas – Avaliação de lesões corporais em vítimas de agressão ou acidente. Perícias Necroscópicas – Determinação da causa da morte por meio de exames cadavéricos. Perícias Sexológicas – Exames relacionados à suspeita de violência sexual. Perícias Histopatológicas – Análises microscópicas de tecidos para auxiliar na elucidação de causas de morte ou doenças. Perícias em Psiquiatria Forense – Avaliação de sanidade mental de indivíduos envolvidos em processos judiciais. Perícias Antropológicas – Identificação de ossadas humanas e análise de restos mortais. Exumação de Cadáveres – Retirada de restos mortais para exames adicionais após sepultamento. 3. INSTITUTO DE GENÉTICA FORENSE EDUARDO CAMPOS (IGFEC) O Instituto de Genética Forense Eduardo Campos (IGFEC), sediado em Recife, é o órgão da Polícia Científica de Pernambuco especializado em exames de DNA aplicados à investigação criminal e à identificação humana. Criado para modernizar a perícia biológica no estado, o IGFEC atua de forma estratégica na elucidação de crimes e na consolidação de bancos genéticos de condenados. � Quais serviços o IGFEC oferece? Rua Tabira, 160 – Boa Vista – Recife – PE 24 Figura 19 - Divisão do IGFEC. Figura 18 - Divisão do IGFEC. Perícias em Biologia Forense – Análise de fluidos corporais (sangue, saliva, sêmen, entre outros) para investigação criminal. Perícias em Genética Forense – Processamento e comparação de perfis de DNA. Identificação Humana pelo DNA – Reconhecimento de cadáveres, ossadas ou vítimas de desastres, por meio de perfil genético. Coleta e Inserção de Perfis Genéticos no BPGPE – O IGFEC é responsável por coletar DNA de condenados e inseri-los no Banco de Perfis Genéticos de Pernambuco (BPGPE), conforme a Lei nº 12.654/2012. Análise de CoincidênciasGenéticas (BPGPE) – Verificação de compatibilidade entre vestígios genéticos e perfis armazenados no banco estadual. 🔬 Relevância estratégica O IGFEC representa um avanço no uso da ciência aplicada à justiça, contribuindo para a elucidação de crimes, reconhecimento de vítimas e responsabilização de autores com base em evidências técnicas inquestionáveis. 📍Destaque nacional Com equipamentos de ponta e equipe altamente capacitada, o IGFEC é referência no Nordeste em perícias genéticas e na integração ao Banco Nacional de Perfis Genéticos, colaborando com investigações em todo o território brasileiro. 4. UNIDADES REGIONAIS DE POLÍCIA CIENTÍFICA NO INTERIOR DO ESTADO (URPOCs) As Unidades Regionais da Polícia Científica (URPOCs) foram instituídas com o objetivo de descentralizar os serviços periciais e democratizar o acesso à prova técnica em todo o território pernambucano. Implantadas por meio da Lei nº 16.278/2017 e organizadas por meio da Portaria nº 1.976/2019, as URPOCs estão distribuídas entre as gerências GINTER 1 e GINTER 2, cobrindo todas as Áreas Integradas de Segurança (AIS) do Estado. Apesar das variações estruturais entre as unidades, as URPOCs cumprem papel essencial na Rua Tabira, 160 – Boa Vista – Recife – PE 25 interiorização das perícias criminais e médico-legais, promovendo mais agilidade, cobertura e equidade nos serviços forenses. 🔎 Serviços Periciais Ativos nas URPOCs As unidades do interior oferecem importantes serviços técnico-periciais, incluindo: Perícia de Entorpecentes – identificação de substâncias suspeitas e classificação toxicológica; Identificação e Adulteração Veicular – exames de chassi, motor e documentos de veículos; Identificação e Eficiência Balística – avaliação preliminar de armas de fogo e munições; Perícia em Ocorrências de Trânsito – análise de colisões, frenagens, dinâmicas de impacto e condições da via; Perícias em Local de Morte – atuação em locais de crime contra a vida, com emissão de laudos preliminares e coleta de vestígios. ⚠️ Serviços com Necessidade de Implementação Comparação Balística e Sistema Nacional de Perfis Balísticos (SINAB) – ainda centralizados na capital; Perícias em Informática – exigem infraestrutura digital e capacitação específica; Engenharia Forense – necessária para casos de desabamentos, falhas construtivas e acidentes complexos; Psiquiatria Forense – avaliação da imputabilidade penal em crimes cometidos no interior. 💡 Desafio e Oportunidade Ampliar a atuação das URPOCs não é apenas um imperativo técnico, mas uma ação estratégica que promove o acesso à justiça, fortalece a segurança pública e assegura a isonomia entre cidadãos do litoral e do sertão. A expansão da estrutura pericial no interior representa um dos pilares para uma Polícia Científica mais moderna, descentralizada e resolutiva. Rua Tabira, 160 – Boa Vista – Recife – PE 26 Abrangência Territorial das URPOCs em Pernambuco Fonte: Lei nº 16.278/2017 e Portaria nº 1.976/2019 – SDS/PE URPOC – Unidade Regional de Polícia Científica Município- Sede Região Administrativa (GINTER) Observações URPOC Nazaré da Mata Nazaré da Mata GINTER 1 Atende AIS 11 e 16 URPOC Palmares Palmares GINTER 1 Atende AIS 12 e 13 URPOC Caruaru Caruaru GINTER 1 Atende AIS 14 e 17 URPOC Garanhuns Garanhuns GINTER 1 Atende AIS 18 URPOC Afogados da Ingazeira Afogados da Ingazeira GINTER 2 Atende AIS 20 e 21 URPOC Arcoverde Arcoverde GINTER 2 Atende AIS 15 e 19 URPOC Ouricuri Ouricuri GINTER 2 Atende AIS 24 URPOC Salgueiro Salgueiro GINTER 2 Atende AIS 22 e 23 URPOC Petrolina Petrolina GINTER 2 Atende AIS 25 e 26 Rua Tabira, 160 – Boa Vista – Recife – PE 27 Capítulo III Avanços Tecnológicos na Perícia Criminal e Caminhos para o Fortalecimento da Polícia Científica 1. Diagnóstico Atual da Perícia Criminal de Pernambuco a. A importância da Perícia Oficial de Natureza Criminal A perícia oficial constitui um dos eixos mais sensíveis e indispensáveis à persecução penal. Trata-se da atividade técnico-científica exercida por servidores de carreira — peritos criminais, médicos-legistas, agentes de perícia criminal e agentes de medicina legal — incumbida da produção da prova material nos casos em que o crime deixa vestígios, conforme preceitua o artigo 158 do Código de Processo Penal. 🔹 Art. 158 do Código de Processo Penal (CPP) Art. 158. Quando a infração deixar vestígios, será indispensável o exame de corpo de delito, direto ou indireto, não podendo supri-lo a confissão do acusado. Este artigo estabelece que, sempre que houver vestígios materiais de um crime, a realização do exame pericial é obrigatória, mesmo que o autor confesse o delito — reforçando a centralidade da perícia como prova objetiva. 🔹 Art. 158-A a 158-F – Cadeia de Custódia (Lei nº 13.964/2019 – Pacote Anticrime) Com a reforma introduzida pela Lei nº 13.964/2019, o CPP passou a prever a cadeia de custódia, estabelecendo regras formais para garantir a autenticidade dos vestígios coletados. Art. 158-A. Para os efeitos da persecução penal, considera-se cadeia de custódia o conjunto de todos os procedimentos utilizados para manter e documentar a história cronológica do vestígio coletado em locais ou em vítimas de crimes, para rastrear sua posse e manuseio a partir de seu reconhecimento até o descarte. Art. 158-B. O vestígio deverá ser reconhecido, documentado, coletado e armazenado, de forma que seja possível demonstrar sua integridade e histórico de manipulação. Art. 158-C. A cadeia de custódia deverá ser observada desde o reconhecimento do vestígio até a sua inutilização. Art. 158-D. O responsável pela preservação do local de crime deverá providenciar o isolamento e acionar a perícia oficial. Art. 158-E. Cada transferência de posse ou alteração de estado do vestígio deverá ser registrada em formulário próprio. Rua Tabira, 160 – Boa Vista – Recife – PE 28 Art. 158-F. O Instituto de Criminalística ou o órgão pericial equivalente deverá adotar procedimentos padronizados para o controle da cadeia de custódia. 🔹 Art. 159 do CPP – Designação e atuação dos peritos Art. 159. O exame de corpo de delito e outras perícias serão realizados por perito oficial, portador de diploma de curso superior, devidamente nomeado ou designado. §1º Na falta de perito oficial, o exame será realizado por duas pessoas idôneas, portadoras de diploma de curso superior preferencialmente na área específica, que prestarão o compromisso de bem e fielmente desempenhar o encargo. §5º Os peritos oficiais elaborarão laudo pericial, contendo descrição minuciosa do que examinarem e as suas conclusões, sendo-lhes facultado ilustrá-lo com fotografias, desenhos ou esquemas. §7º Tratando-se de perito oficial, este poderá ser contratado de órgão técnico ou científico devidamente credenciado, nos casos e condições estabelecidos em lei. 🔹 Art. 160 do CPP – Assistência técnica Art. 160. Os peritos, ainda que oficiais, poderão ser assistidos por técnicos indicados pelas partes, que poderão apresentar pareceres que serão anexados aos autos do processo. Esses dispositivos estabelecem o fundamento legal da perícia oficial, a exigência de formação técnica, a responsabilidade pela cadeia de custódia, e o reconhecimento da autonomia funcional dos peritos — ainda que em moldes que demandam consolidação institucional mais robusta. A Polícia Científica, por meio de seus institutos e laboratórios, representa a materialização da ciência em favor da justiça, sendo responsável por análises e exames que vão desde a constatação de elementos balísticos até a identificação genética, passando por exames toxicológicos, papiloscópicos, documentoscópicos, digitais, laboratoriais e necroscópicos. Dessa forma, a prova pericial é instrumentode verdade e garantia de direitos fundamentais, contribuindo decisivamente para a resolução de crimes e a proteção da sociedade. 1.2. Capacidade Operacional e Volume de Trabalho da Perícia Oficial em Pernambuco A Perícia Oficial de Natureza Criminal tem desempenhado um papel estratégico no fortalecimento da segurança pública e na qualificação da justiça penal em Pernambuco. Dados recentes demonstram uma evolução significativa da demanda e da atuação técnico-científica da Polícia Científica no Estado. Rua Tabira, 160 – Boa Vista – Recife – PE 29 Em 2024, foram registradas 115.559 solicitações de perícias oficiais, das quais: 60.972 corresponderam à perícia criminal; 54.587 à medicina legal. Esse número representa um crescimento de 78% em relação a 2020, o que reflete a ampliação do acesso à prova técnica, o avanço das investigações e a crescente valorização institucional do trabalho pericial. A nomeação de novos profissionais em 2018 teve impacto direto sobre os índices operacionais. Entre os efeitos observados, destacam-se: Um aumento de 40% nas requisições periciais atendidas; Uma elevação aproximada de 20% na taxa de resolução de homicídios, demonstrando que o reforço de recursos humanos contribui de forma direta para a eficiência investigativa e a efetividade da justiça criminal. Por outro lado, a evolução quantitativa da demanda impõe desafios contínuos no que diz respeito à ampliação de estruturas físicas, à modernização tecnológica e à distribuição regional de especialidades. Em contextos de crescimento, é natural que se observem: Picos de laudos pendentes em algumas unidades; Maior exigência sobre as equipes em atividade; Necessidade de expansão das especialidades periciais para o interior do Estado. Esses pontos evidenciam que os investimentos em infraestrutura, pessoal e tecnologia pericial mantêm uma relação direta com a capacidade de resposta do sistema de justiça. À medida que a perícia oficial é fortalecida, torna-se possível produzir provas com mais agilidade, confiabilidade e alcance territorial, o que beneficia tanto a investigação quanto a prestação jurisdicional. Investir na prova técnica é, portanto, fortalecer a ciência a serviço da justiça — com resultados mensuráveis, sustentáveis e socialmente relevantes. Crescimento da Demanda Pericial em Pernambuco (2020–2024) Ano Perícias Criminais Médico- Legais Total 2016 30.332 19.505 49.837 2017 30.880 35.585 66.465 2018 43.452 50.184 93.636 2019 44.992 52.979 97.971 Rua Tabira, 160 – Boa Vista – Recife – PE 30 2020 42.690 43.538 86.228 2021 45.100 42.800 87.900 2022 55.279 49.206 104.485 2023 62.552 53.989 116.541 2024 60.972 54.587 115.559 Fonte: Sistema ClickView / Polícia Científica de Pernambuco (2024) Fonte: Sistema ClickView / Polícia Científica de Pernambuco (2024) Esse crescimento contínuo do volume de perícias realizadas revela, além do fortalecimento operacional, a existência de uma demanda historicamente reprimida que o Estado passou a absorver com mais eficiência a partir da nomeação de novos servidores e da reestruturação das unidades técnicas. Os números indicam que, quanto maior o investimento na perícia oficial — em recursos humanos, estrutura e tecnologia —, maior é a capacidade de resposta do sistema pericial, com ampliação do acesso, aumento da resolutividade e redução de gargalos históricos. Isso comprova que a valorização institucional da prova técnico-científica se traduz diretamente em benefício para a justiça e para a sociedade. 2. Desafios Estruturais, Funcionais e Institucionais da Perícia Criminal em Pernambuco 2.1. Força de Trabalho e a Valorização dos Servidores da Polícia Científica 2016 2017 2018 2019 2020 2021 2022 2023 2024 Total 49.83766.46593.63697.97186.22887.900104.48116.54115.55 0 20.000 40.000 60.000 80.000 100.000 120.000 140.000 Total de Perícias Realizadas no Estado de PE x anos Total Linear (Total) Rua Tabira, 160 – Boa Vista – Recife – PE 31 A atuação da Polícia Científica de Pernambuco tem sido marcada por um crescimento significativo nos últimos anos, tanto em sua capilaridade quanto na complexidade das demandas recebidas. Esse avanço foi impulsionado pelo comprometimento técnico dos servidores que compõem a carreira pericial — peritos criminais, médicos-legistas, agentes de perícia criminal e agentes de medicina legal — profissionais que, com dedicação, vêm sustentando uma estrutura essencial ao funcionamento do sistema de justiça. Graças aos avanços conquistados nos últimos anos, a Polícia Científica de Pernambuco vem ampliando sua atuação em todo o território estadual. A interiorização das Unidades Regionais e os concursos públicos autorizados demonstram o compromisso do governo com a expansão e qualificação dos serviços periciais. Esse processo de fortalecimento abre novas possibilidades para consolidar a presença pericial em áreas estratégicas, garantindo maior capilaridade, especialização e agilidade na resposta técnico-científica à sociedade pernambucana. A entrada de novos profissionais permitirá: Ampliar a presença territorial da perícia oficial, descentralizando atendimentos; Reduzir os intervalos entre a ocorrência e o exame técnico, especialmente em crimes complexos; Distribuir de forma mais equitativa as especialidades, garantindo que todas as regiões possam contar com serviços especializados; Consolidar uma política de valorização das carreiras periciais, reconhecendo seu papel técnico, científico e de Estado. Nesse contexto, o fortalecimento do efetivo pericial não é apenas uma resposta operacional, mas uma valorização concreta da ciência forense como instrumento de justiça e cidadania. O Estado que investe na perícia fortalece sua capacidade de responder com precisão, independência e agilidade às demandas sociais por verdade, responsabilização e proteção dos direitos fundamentais. 2.2. Avanços Estruturais e Perspectivas de Modernização Tecnológica A estrutura da Polícia Científica de Pernambuco tem evoluído de forma significativa nos últimos anos, com destaque para investimentos estratégicos que representam marcos importantes no fortalecimento da infraestrutura pericial. A entrega do novo Complexo da Polícia Científica em Caruaru, bem como o projeto em curso para a cidade de Salgueiro, simbolizam esse novo ciclo de expansão e qualificação das estruturas regionais. Esses equipamentos modernos representam não apenas a ampliação física dos serviços, mas a materialização de um novo padrão de atuação técnico-científica no interior do Estado. Além disso, Pernambuco conta hoje com laboratórios de referência nacional, como o Instituto de Genética Forense Eduardo Campos (IGFEC) e o UNILAB/PE, que consolidam o Estado como polo de excelência em perícias de alta complexidade, como DNA, toxicologia e análises laboratoriais avançadas. Rua Tabira, 160 – Boa Vista – Recife – PE 32 Figura 20 - Equipe da GGPOC na finalização e entrega do Complexo de Polícia Científica de Caruaru. Figura 21 - Complexo de Polícia Científica Palmares. Rua Tabira, 160 – Boa Vista – Recife – PE 33 Figura 22 - Inauguração (novo prédio) Instituto de Genética Forense Eduardo Campos. Figura 23 - Peritas criminais trabalhando na Unidade de Laboratório Forense (UNILAB), prédio recém- reformado.. 2.3. Implantação de uma Cadeia de Custódia Robusta e Integrada A adequada preservação, transporte e documentação dos vestígios materiais é uma etapa essencial na produção da prova pericial, sendo condição indispensável para garantir sua validade jurídica e científica. Ciente dessa importância, o Estado de Pernambuco vem avançando na construção de uma cadeia de custódia moderna, padronizada e tecnicamente segura. Rua Tabira, 160 – Boa Vista – Recife – PE34 Como marco inicial desse processo, foi instituída, por meio de portaria da Secretaria de Defesa Social (SDS), uma normativa estadual que estabelece diretrizes para a cadeia de custódia, válida para todas as operativas da segurança pública. O objetivo é alinhar procedimentos entre Polícia Militar, Polícia Civil, Polícia Científica e Corpo de Bombeiros, promovendo uniformidade e rastreabilidade em todos os fluxos de vestígios. Essa iniciativa será abordada em maior profundidade durante aula específica deste curso de formação, voltada à capacitação técnica dos servidores que atuarão na preservação, coleta, transporte e custódia de materiais probatórios. Além disso, Pernambuco vem se estruturando institucionalmente para consolidar essa política pública. O Estado recebe recursos do Fundo Nacional da Segurança Pública (via SENASP) para a implantação da Gerência da Cadeia de Custódia, órgão técnico que atualmente está sediado no antigo prédio do IGFEC, no bairro de Prazeres, funcionando como núcleo estratégico para a implementação progressiva de um sistema estadual de controle de vestígios. Essas ações representam uma oportunidade concreta de qualificação da prova técnica e valorização do trabalho pericial, com impactos diretos na credibilidade dos processos investigativos e judiciais. 📑 Você sabia??? A cadeia de custódia é o conjunto de todos os procedimentos utilizados para manter e documentar a história cronológica do vestígio, desde a sua coleta até o descarte. Conforme o artigo 158-B do Código de Processo Penal, ela garante a integridade, autenticidade e rastreabilidade da prova material, assegurando que os vestígios analisados em laboratório sejam os mesmos encontrados na cena do crime. Sua correta aplicação evita contaminações, perdas de material e nulidades processuais. Cadeia de Custódia e a Jurisprudência do STJ A cadeia de custódia, regulamentada pela Lei 13.964/2019 (Pacote Anticrime), é essencial para garantir a integridade e autenticidade das provas no processo penal. O STJ tem reforçado a necessidade de observância rigorosa desse procedimento, especialmente em relação às provas digitais. Em decisão de fevereiro de 2023, a Quinta Turma do STJ considerou inadmissíveis provas digitais obtidas sem registro documental dos procedimentos adotados pela polícia para assegurar sua integridade e confiabilidade. O ministro Ribeiro Dantas destacou que a ausência de documentação sobre a coleta e preservação dos equipamentos compromete a confiabilidade das provas, acarretando a quebra da cadeia de custódia e sua inadmissibilidade no processo penal. Fonte: https://www.stj.jus.br/sites/portalp/Paginas/Comunicacao/Noticias/2023/23042023-A-cadeia-de-custodia-no- processo-penal-do-Pacote-Anticrime-a-jurisprudencia-do-STJ.aspx Rua Tabira, 160 – Boa Vista – Recife – PE 35 2.4. Autonomia Institucional como Pilar da Justiça e dos Direitos Fundamentais A autonomia técnico-científica da perícia oficial de natureza criminal é condição essencial para que a atuação pericial se dê de forma isenta, qualificada e imparcial. Trata-se de um requisito fundamental para a efetividade da persecução penal, da investigação criminal e da produção da prova material em conformidade com os princípios constitucionais do contraditório e da ampla defesa. A Lei Federal nº 12.030/2009, marco normativo da perícia oficial no Brasil, reconhece e assegura essa autonomia, ao definir que os peritos oficiais exercem funções essenciais à justiça, com independência técnica em relação às demais estruturas de investigação. Essa norma, ao consolidar a perícia como função de Estado, fortalece a confiabilidade das evidências, protege direitos humanos e contribui para que o processo penal esteja amparado em critérios objetivos e científicos. Ainda assim, a ausência de uma estrutura jurídica e administrativa própria para a Polícia Científica nos Estados, com orçamento e gestão independentes, compromete a consolidação plena dessa autonomia. Em muitos casos, a vinculação hierárquica e orçamentária à estrutura da segurança pública pode interferir, mesmo que indiretamente, na independência da atuação técnico-científica. Avançar na regulamentação plena da autonomia da perícia é um passo estratégico para modernizar o sistema de justiça, elevar a qualidade da prova técnica e proteger a imparcialidade da investigação criminal. A autonomia plena da perícia é instrumento essencial da justiça técnica. Sem ela, corre-se o risco de que a ciência seja subordinada à conveniência investigativa. 📑 Você sabia??? A Lei Federal nº 12.030/2009 foi sancionada com o objetivo de regulamentar a atividade dos peritos oficiais de natureza criminal no Brasil. Sua criação resultou de um longo processo de mobilização das categorias periciais, entidades científicas e operadores do direito, que alertavam para a necessidade de garantir independência técnica à perícia criminal, distinta das estruturas de polícia investigativa. A motivação central foi assegurar que a prova pericial fosse tratada como elemento de verdade objetiva, e não de reforço acusatório, garantindo equilíbrio entre as partes no processo penal. A lei entrou em vigor em setembro de 2009 e define que os peritos oficiais são servidores públicos de carreira, com autonomia técnico-científica assegurada por lei federal, estabelecendo um novo patamar de proteção institucional para essa atividade essencial à justiça. Rua Tabira, 160 – Boa Vista – Recife – PE 36 Figura 24 - Autonomia da Polícia Científica no Brasil. A consolidação da Polícia Científica como instituição autônoma é uma pauta estratégica para o fortalecimento da justiça criminal no Brasil. Embora a atuação dos peritos oficiais esteja prevista em normas infraconstitucionais, ainda falta uma previsão explícita na Constituição Federal que garanta a autonomia plena das estruturas periciais estaduais. A independência técnico-científica da perícia é fundamental para assegurar a imparcialidade na produção da prova pericial, principalmente em casos que envolvem agentes públicos como suspeitos. A vinculação institucional da perícia a estruturas policiais investigativas pode comprometer a isenção exigida por organismos internacionais de direitos humanos. Em 76% das unidades da federação, os órgãos periciais estão vinculados às Secretarias de Segurança Pública ou diretamente ao Poder Executivo. Em apenas 24%, a vinculação é à Polícia Civil, sem garantia efetiva de autonomia funcional ou orçamentária. Essa disparidade estrutural compromete a padronização dos serviços periciais e a uniformidade de sua atuação. Rua Tabira, 160 – Boa Vista – Recife – PE 37 Figura 25 - Vinculação administrativa da Polícia Científica no Brasil. 3. Caminhos para a Modernização da Polícia Científica: Perspectivas Nacionais e Internacionais A Polícia Científica brasileira — e, em especial, a de Pernambuco — vem se consolidando como um importante vetor de produção de conhecimento técnico- científico voltado à justiça criminal. Embora, por vezes, o imaginário coletivo associe o trabalho pericial a modelos estrangeiros idealizados por filmes e séries de ficção, a realidade nacional é marcada por experiências concretas, avanços expressivos e grande capacidade de inovação. Ao contrário do estigma de “cópia de modelos americanos”, a perícia oficial brasileira desenvolveu metodologias próprias, adaptadas à realidade institucional, social e territorial do país. Várias dessas práticas, inclusive, são objeto de publicações científicas, reconhecimento acadêmico e cooperações técnicas com organismos internacionais. Por isso, modernizar a Polícia Científica não significa imitá-la segundo estereótipos midiáticos, mas sim colocá-la no mesmo patamar de exigência, qualificação e autonomia das melhores instituições forenses do mundo, respeitando as características locais.3.1. Oportunidade de Transformação Nacional com Padrão Internacional A partir do diagnóstico nacional, a colocação de medidas estruturantes que, se implementadas, poderão alinhar a atuação da Polícia Científica Nacional com parâmetros internacionais, como: Autonomia plena, conforme defendido pela Corte Interamericana de Direitos Humanos (caso Nova Brasília) e pela Resolução CNDH nº 15/2024; Cadeia de custódia estruturada, conforme prevê a Lei nº 13.964/2019, com controle documental, físico e digital dos vestígios; Rua Tabira, 160 – Boa Vista – Recife – PE 38 Sistema Integrado de Gestão Pericial, com informatização total dos fluxos de laudos, requisições, estatísticas e cadeia de custódia; Unidades laboratoriais de alta complexidade, a exemplo do IGFEC (PE), do Instituto de Criminalística de São Paulo e dos Laboratórios Centrais do Paraná e de Minas Gerais; Capacitação permanente por meio de Escolas de Perícia, como ocorre em instituições da Espanha, Portugal e Chile. 3.2. A Perícia Brasileira é Produção Científica Nacional O Brasil possui produção científica forense de alta qualidade, com contribuições relevantes nas áreas de: Genética forense e bancos de perfis de DNA; Engenharia legal e análises estruturais de desastres; Balística comparativa (SINAB); Toxicologia e química forense (criação de banco); Informática e perícias em crimes cibernéticos (criação de banco). Instituições como a Polícia Federal, institutos de criminalística estaduais, universidades públicas e associações científicas da área são protagonistas na produção e difusão de conhecimento forense genuinamente brasileiro. 3.3. Modernizar é valorizar o que é nosso É equivocado pensar a modernização da perícia como uma "americanização" do modelo. O que se busca é: Melhoria contínua das estruturas físicas e tecnológicas; Gestão moderna e autônoma, com planejamento estratégico e avaliação de desempenho; Intercâmbio técnico internacional, preservando a identidade institucional local; Condições dignas de trabalho, valorização salarial e reconhecimento público do papel pericial. Modernizar é, acima de tudo, fortalecer uma atividade científica, imparcial e essencial à democracia, cujo valor precisa ser compreendido pela sociedade, sustentado por políticas públicas e protegido por arcabouços legais sólidos. 📘 Box informativo: O que não é a perícia oficial brasileira Não é subordinada à polícia investigativa; Não é “cenográfica” ou restrita a tecnologias americanas; Rua Tabira, 160 – Boa Vista – Recife – PE 39 Não é produto de ficção, mas de ciência aplicada com método, ética e responsabilidade. O que ela é: Uma função essencial à justiça, prevista em lei; Uma atividade baseada em evidências, que exige formação contínua; Um instrumento de proteção aos direitos humanos e à verdade dos fatos. Rua Tabira, 160 – Boa Vista – Recife – PE 40 4. Normas, Recomendações e Leis Relacionadas à Perícia Oficial no Brasil 4.1 Diretrizes Estaduais para a Cadeia de Custódia: A Portaria Conjunta SDS nº 205/2024 No âmbito estadual, a Portaria Conjunta SDS n.º 205/2024, republicada em 30 de outubro de 2024, estabeleceu diretrizes integradas para o gerenciamento da cadeia de custódia entre todos os órgãos operativos da segurança pública de Pernambuco. Esta iniciativa representa um passo importante para a padronização e rastreabilidade da prova material, promovendo maior segurança jurídica e eficiência investigativa. 4.2 Padronização das Atividades Técnicas no Local de Crime: Provimento Correcional nº 12/2019 – SDS/PE O Provimento Correcional nº 12/2019, publicado pela Corregedoria Geral da Secretaria de Defesa Social de Pernambuco, estabelece orientações operacionais e correcionais para todos os servidores das equipes técnicas que atuam em locais de crime. A norma reforça a importância da atuação técnica conforme os princípios da legalidade, preservação da cadeia de custódia, elaboração de laudos e cooperação entre as operativas de segurança. A medida visa fortalecer a qualidade da prova pericial, a integridade dos vestígios e a eficiência investigativa, por meio da uniformização de procedimentos e da valorização da atuação técnico-científica no sistema de justiça criminal. 4.3 Procedimento Padrão de Identificação de Cadáveres: Aplicação da Pulseira e Boletim de Identificação A Portaria SDS-SES nº 001/2010, com seus anexos operacionais, institui um Procedimento Operacional Padrão (POP) voltado à identificação de cadáveres em mortes de interesse policial, com foco na rastreabilidade, integridade e transparência da cadeia de custódia da vítima fatal. O processo envolve a aplicação da Pulseira de Identificação do Cadáver (PIC) e o preenchimento do Boletim de Identificação do Cadáver (BIC), documentos essenciais para o controle do fluxo de informação e o cruzamento de dados entre os órgãos de segurança pública. A medida padroniza a atuação de peritos criminais, policiais civis, policiais militares e servidores do IML, atribuindo responsabilidades específicas em locais de crime, unidades hospitalares e necrotérios. O sistema também define o arquivamento e uso das vias do BIC e integra as etapas periciais à produção do laudo tanatoscópico, fortalecendo a confiabilidade do processo. 4.4 Procedimentos Periciais em Acidentes de Trânsito: Normatização na RMR A Portaria SDS nº 2486, de 27 de maio de 2021, disciplina os procedimentos adotados pelas equipes operativas da Secretaria de Defesa Social (SDS) nas ocorrências de acidentes de trânsito com vítimas ou envolvendo viaturas oficiais na Região Metropolitana do Recife. A norma estabelece fluxos padronizados para acionamento, documentação e execução da perícia criminal de trânsito, com ênfase na atuação do Instituto de Criminalística Professor Armando Samico (ICPAS). Entre os pontos centrais da portaria estão: a requisição formal da perícia por meio da Plataforma SEI, a integração entre o CIODS e a Polícia Civil para Rua Tabira, 160 – Boa Vista – Recife – PE 41 registro no sistema Net DISPATCHER, o dever de isolamento da cena do acidente e o encaminhamento dos laudos periciais à circunscrição policial competente. A medida busca qualificar o atendimento investigativo, garantir a produção da prova técnica e oferecer segurança jurídica nos processos relacionados a delitos de trânsito. 4.5 Encaminhamento de Corpos ao IML e Emissão de Declaração de Óbito em Pernambuco A Portaria Conjunta SDS/SES nº 001, de 24 de março de 2020, estabelece critérios para o encaminhamento de pessoas falecidas ao Instituto de Medicina Legal (IML) e define as diretrizes para emissão da Declaração de Óbito em Pernambuco. A norma distingue claramente os procedimentos a serem adotados nos casos de mortes por causas naturais e externas (não naturais), visando assegurar maior segurança jurídica, rastreabilidade das informações e integração entre as esferas de saúde e segurança pública. Nos óbitos decorrentes de causas externas — como acidentes, enforcamentos, intoxicações ou mortes suspeitas — o IML é o órgão responsável pelo exame Tanatoscópico e pela emissão da Declaração de Óbito. Já nos casos naturais com causa definida e assistência médica, o documento pode ser emitido pelo médico assistente. A medida também introduz rotinas como o uso do Boletim de Identificação do Cadáver (BIC) e a obrigatoriedade do fluxo via CIODS, padronizando o atendimento e evitando lacunas na cadeia de custódia. Essa normatização representa um avanço técnico, ético e administrativo para a perícia oficial de natureza criminal no Estado. 4.6 A Resolução nº 15/2024 do Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH) Publicada em 7 de junho de 2023, a Resolução CNDH nº 15/2024 representa um marco normativo importante ao estabelecer diretrizes para a autonomia técnica, científica, administrativa