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INFECÇÃO DO TRATO URINÁRIO NA INFÂNCIA CASO CLÍNICO HMA: Lactente, 6 meses, sexo masculino, branco, previamente hígido, chega ao pronto atendimento apresentando apenas febre e perda do apetite há mais de 72 horas (39 a 40 °C). Nega outras alterações. História pregressa: Nascido a termo, parto vaginal, com 38 semanas, PN: 3.400 g, sem intercorrências no período neonatal. Alimentação com leite materno exclusivo até 6 meses de idade, tendo iniciada dieta complementar a partir desse período. Esquema vacinal completo. Exame físico: · BEG, hidratado, febril (TAX: 39,1°C), pulsos. · ACV: RCR, 2T FC: 102 bpm. · AR: murmúrio vesicular simétrico, eupnéico, FR: 40 irpm. · Abdome: RHA presentes, sem visceromegalias. · Períneo: genitália masculina, testículos tópicos, fimose. Exames complementares: *Coleta por punção supra púbica. Hipótese diagnóstica? ITU – exame de urina sugestivo de ITU CONCEITO · Multiplicação bacteriana em qualquer segmento do aparelho urinário. IMPORTÂNCIA · Segunda infecção bacteriana mais comum em crianças (otite média aguda é a primeira). · Em lactente ITU é a infecção mais comum. · ITU representa 50% dos encaminhamentos à nefrologia infantil. · Se envolve o rim, pode causar cicatriz renal (decorrente do processo inflamatório) levando à hipertensão arterial secundária, insuficiência renal crônica e pré-eclâmpsia (se sexo feminino). · Diagnóstico correto é importante. · Lactentes maior risco. EPIDEMIOLOGIA - Mais comum no sexo feminino: · 3-4 até 20:1; · Maior proximidade da uretra com o ânus; · Menor comprimento da uretra; · Uso de roupas apertadas; · Ato de limpar-se de trás para a frente; - Meninos: · Fator de risco no sexo M Não circuncisados (crianças com fimose): 10-20:1; · Mais comum nos primeiros 6 meses de vida; · O primeiro surto geralmente ocorre antes dos 7 anos de idade; - Antes dos 6 meses de idade a prevalência de ITU será no sexo masculino, por causa de alteração anatômica. Após 6 meses passa a ser mais comum no sexo feminino. - Isso ocorre porque a ITU normalmente está relacionada com alteração anatômica e os meninos tem mais alteração anatômica do que as meninas ao nascimento. ETIOLOGI - Geralmente causadas por enterobactérias O principal agente etiológico é a E. coli. - Sexo feminino: · E. coli (80 a 90%) · Klebsiella (importantes em neonatos) · Proteus - No sexo masculino: · Os mesmos agentes · E. coli e Proteus são os mais comuns OBS: Infecções virais, particularmente adenovírus, também podem ocorrer, causando cistite. ETIOPATOGENIA - As infecções acontecem por via ascendente Fator de Ascenção · Bexiga é estéril. · 1/3 distal da uretra: colonizados por bactérias colônicas. · Meninos: prepúcio colonizado por bactérias. · Essas bactérias colonizadoras vão ascender, ou seja, subir pelo trato urinário até chegar no parênquima renal. · As fímbrias (pili), presentes na superfície das bactérias, se encarregam de fixá-las às células-alvo das vias urinárias. Principalmente na E. coli. · As bactérias podem alcançar os rins e causar pielonefrite. · A infecção renal também pode acontecer por disseminação hematogênica (menos comum) paciente tem infecção em outro local, cai na corrente sanguínea e vai para o rim. FATORES DE RISCO - Do hospedeiro: · ITU materna ao nascimento (a mãe estava com ITU no momento do nascimento, se a criança nascer com infecção diz que ele está com sepse neonatal. · Aleitamento artificial · Sexo feminino · Meninos não circuncisados · Refluxo vésico-ureteral (pielonefrite) alteração anatômica que a criança pode nascer com ela sendo mais comum em meninos. · Disfunção miccional · Uropatia obstrutiva · Higiene inadequada · Constipação · Uso prévio de antibioticoterapia com repercussão na flora intestinal normal DIAGNÓSTICO · Clínico e Laboratorial MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS DA ITU EM CRIANÇAS · Crianças sem controle esfincteriano vai ter basicamente sintomas inespecíficos (Ex.: criança que chega com Febre sem sinais de localização - FSSL). · Em lactentes mesmo se sintomas inespecíficos está indicado realizar o tratamento. A clínica pode variar devido aos seguintes fatores: - Idade (controle esfincteriano); - Segmento acometido; · Cistite: sintomas mais leves · Pielonefrite: sintomas mais graves - Intensidade da resposta inflamatória. MANIFESTAÇÕES – LOCALIZAÇÃO - Uretrite/Cistite: · Aumento da frequência ao urinar (Polaciúria). · Disúria. · Incontinência urinária. · Dor suprapúbica. · Alteração na cor, volume e odor da urina. · Em crianças 10 a 20% dos casos na cistite pode ter febre, não conseguindo diferenciar se é cistite ou pielonefrite. - Pielonefrite: · Febre. · Dor lombar ou abdominal. · Mal-estar, náuseas, vômitos. · Sepse: taquicardia, taquipnéia, toxemia. Dessa forma, no primeiro ano de idade considera que toda criança com febre está apresentando pielonefrite. DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL CISTITE · Vaginite. · Corpo estranho vaginal. · Corpo estranho uretral. · Oxiuríase. · Irritantes locais: sabonetes líquidos. · Abuso sexual. Na embriologia, o mesmo folheto embrionário que forma as falanges e orelhas forma também o aparelho renal. Assim toda vez que nasce criança com polidactilia, apêndice pre-auricular e forame auricular deve-se pedir UGS de vias urinárias em busca de má formação do sistema urinário. Avaliação da PA: em crianças o obrigatório é aferir a pressão a partir de 3 anos de idade, porém nas crianças que tiverem histórico de patologias renais deve-se aferir antes. DIAGNÓSTICO · Diagnóstico clínico laboratorial · Exame padrão ouro: urocultura. Crianças sem controle esfincteriano: · Coleta por punção supra púbica. · Coleta por cateterismo vesical principal método utilizado na prática Crianças com controle esfincteriano: · Jato médio; Saco coletor não deve ser utilizado para fechar o diagnóstio: válido apenas para exclusão de ITU. Quando colhe a urina pelo saco coletor, o mesmo fica pregado na genitália por no máximo 30 minutos, assim tem alta chance de contaminação, por isso não usa esse método para diagnóstico, apenas para descartar. CATETERISMO E JATO MÉDIO - Desprezar o primeiro jato: · Uretra distal é colonizada. - Saco coletor: · Alta taxa de falso-positivo. · Válido quando negativo. · Se negativo EXCLUI ITU · Se positivo não fecha o diagnóstico - Sempre coletar antes de iniciar o tratamento: urina esteriliza rapidamente. - Sempre colhe a urina e começa o ATB (não precisa esperar a urocultura). QUALITATIVO DE URINA - Sedimento urinário (urina tipo 1): · Leucocitúria (80%): > 5-10 leucócitos. · Bacteriúria: presença de bactérias no gram. - Testes rápidos: · Nitrito: · Bactérias entéricas G negativas desdobram nitrato em nitrito. O nitrito é produzido apenas por bactérias gram negativas. · Necessária urina permanecer 4 horas na bexiga. · Crianças urinam mais frequentemente. · Quando positivo auxilia; negativo não exclui. · Se no EAS veio nitrito possivelmente é ITU · Se no EAS não veio nitrito não exclui ITU visto que a urina precisa permanecer na bexiga por 4 horas e bactérias gram positivas não geram formação de nitrito. QUANTITATIVO - Urocultura com contagem de colônias: · Único exame para confirmação de ITU. · Falso positivo de 85-99% com saco coletor. · Microrganismo único. · Punção supra púbica (PSP): qualquer contagem. · Exame de urina colhido por punção suprapúbica qualquer contagem de bactéria já confirma ITU, visto que a coleta do exame foi completamente estéril. · Cateterismo Vesical (CV): >1.000UFC/ml. · Jato Médio (JM): > 100.000 UFC/ml ou mais de 50.000UFC/ml associada à piúria. TRATAMENTO · Iniciar após coleta da urocultura. · Duração do tratamento – 7 a 14 dias (normalmente em média de 10 dias). · Tratamento inicial é empiríco observando-se a idade e o estado geral do paciente. · RN ou estado geral ruim: interna e faz o tto parenteral. · O tratamento parenteral deve ser reservado principalmente aos lactentes muito jovens e àqueles com acometimento de estado geral e com vômitos. - Via de administração: · Oral. · Inicialmente parenteral e apósoral (terapia de troca). · Parenteral. · Terapia oral: crianças que está em bom estado geral, assim faz tratamento ambulatorial. · Terapia de troca: lactentes maiores de 1 mês que estão toxêmicos, com vômitos ou sem condições de via oral. Normalmente faz 3 dias de ATB venoso, se a criança melhorar troca para terapia oral e dá alta para o paciente, por geralmente mais 7 dias de ATB oral. · Somente parenteral: lactentes com menos de 1 mês e pacientes sem condições de via oral. · Nas drogas parenterais também pode usar Ceftriaxona. · Usa uma droga dessas acima de forma empírica (que cubra E. coli) até sair o resultado da urocultura. · Não existe um antibiótico padrão ouro. · Priorizar cobertura para Escherichia coli. · Em criança não usa quinolonas. - Crianças com febre: · Usar antibióticos que atinjam concentração sanguínea. · Pielonefrite e urosepsis. · Não usar ácido nalidíxico, nitrofurantoína possuem baixa circulação sistêmica INVESTIGAÇÃO COMPLETAR – POR IMAGEM · “Toda criança com diagnóstico de certeza de ITU merece uma investigação por imagem”. · “No entanto não há definição de quais procedimentos diagnósticos devem ser realizados e o melhor momento”. · A maioria das diretrizes concorda na indicação da US como avaliação inicial nos menores de dois anos apresentando pielonefrite. Os demais exames serão solicitados em situações específicas. · A grande finalidade do exame de imagem é excluir complicações e variações anatômicas. · Geralmente o primeiro exame a ser usado é o USG renal, os demais exames serão realizados de acordo com a necessidade. - Por que tem que fazer investigação complementar com exames de imagens? · Identificar anormalidades estruturais (obstrução, litíase e RVU). · Repercussão da ITU sobre o rim (agudas e crônicas). · Avaliar a fisiologia da micção. · Excluir constipação. - Ultrassonografia primeiro exame a ser solicitado. Lembrar que o USG é operador dependente. · Descarta hidronefrose e abscessos renais. · Avalia tamanho renal. · Pode evidenciar pielonefrite aguda. · Detecta 30% das cicatrizes renais (diferença dos rins > 1 cm). · Detecta apenas 40% dos casos de refluxo. · US normal não exclui existência de alterações. · *USG deve ser realizado em todos que apresentaram ITU. · Exame mais barato e acessível. · Se a criança realizou o USG e veio normal, mas essa criança está tendo vários episódios de ITU pede outro exame. Ex.: cintilografia - Cintilografia Renal com DMSA (contraste): · Padrão-ouro para detecção de cicatriz renal. · Cicatriz renal = perda de função renal (perda do parênquima renal) · Deve ser realizado em todos lactentes com itu febril, pielonefrite e RVU. · Deverá ser realizado após 4-6 meses do episódio inicial de ITU. · Solicita para aquela criança que está tendo múltiplas ITU e o USG veio normal. - Uretrocistografia miccional (UCM): para analisar se tem refluxo (retorna urina da bexiga para ureter) e consegue ver a anatomia. Se estiver com ITU, trata primeiro a ITU e depois faz uretrocistografia miccional. · Consiste em passar uma sonda urinária e injetar contraste na bexiga, fazendo uma serie de Rx. · Avalia tanto a anatomia quanto a presença de refluxo vesico-ureteral (RVU). · Exame radiológico realizado com administração de contraste iodado intravesical. · Um pré-requisito para realizar esse exame é que o paciente NÃO esteja em vigência de ITU, ou seja, precisa ter uma urocultura negativa. · Está reservada àqueles que apresentam: · US de rins e/ou cintilografia com DMSA alterada. · Quadros repetitivos de ITU associados à disfunção miccional. · Crianças