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1 INADIMPLEMENTO DAS OBRIGAÇÕES. MORA. PERDAS E DANOS. JUROS LEGAIS. CLÁUSULA PENAL. ARRAS OU SINAL. Material elaborado por Cícero Caldart Vieira como base da aula 11 da disciplina de Direito das Obrigações e Responsabilidade Civil, ULBRA Campus Torres / RS, Ano/Semestre: 2025/2. Vigora no ordenamento jurídico brasileiro o princípio da força obrigatória dos contratos que, resumidamente, quer dizer que o contrato faz lei entre as partes (pacta sunt servanda). Isso significa dizer que a obrigação assumida deve ser cumprida e que seu descumprimento voluntário autoriza a execução forçada através do Poder Judiciário. Assim sendo, a manifestação de vontade validamente emitida vincula a parte, inclusive com seu patrimônio (art. 3911 do Código Civil). Essa regra garante segurança jurídica aos negócios em geral e, por isso, pode-se dizer que a principal consequência do direito das obrigações é garantir ao credor a possibilidade de exigir o cumprimento da obrigação. O adimplemento é justamente isso, o cumprimento da obrigação, enquanto o inadimplemento, por sua vez, é o descumprimento. O inadimplemento é, portanto, o descumprimento da obrigação. Contudo, não é qualquer descumprimento, apenas aquele que decorre da culpa do devedor. Culpa no sentido latu sensu, independente do elemento subjetivo de ter ou não a intenção de descumprimento. Não se exige o dolo como requisito, bastando o elemento culpa, ou seja, quando o descumprimento possa ser imputado ao devedor. Caso do locatário que não paga o aluguel, do marceneiro que não entrega o móvel, do faxineiro que não realiza a limpeza e do parceiro comercial que viola clausula de confidencialidade, por exemplo. Enfim, o inadimplemento é o descumprimento de qualquer das modalidades das obrigações, com culpa atribuível ao devedor. Pode ser classificado em inadimplemento absoluto e relativo. Será absoluto quando o cumprimento da obrigação se tornar impossível ou quando não possa ser feito de forma útil ao credor, autorizando a resolução contratual, o desfazimento do negócio e a responsabilização patrimonial (art. 3892 do Código Civil). 1 “Art. 391. Pelo inadimplemento das obrigações respondem todos os bens do devedor”. 2 “Art. 389. Não cumprida a obrigação, responde o devedor por perdas e danos, mais juros, atualização monetária e honorários de advogado. Parágrafo único. Na hipótese de o índice de atualização monetária não ter sido convencionado ou não estar previsto em lei específica, será aplicada a variação do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), apurado e divulgado pela Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), ou do índice que vier a substituí-lo”. 2 Será relativo, quando a prestação é realizada de forma incompleta, denominado, por isso, de cumprimento imperfeito da obrigação. Ocorre quando o devedor não observa o tempo, o lugar e/ou a forma convencionada para o cumprimento da obrigação, mas ainda poderá fazê-lo3, exatamente o conceito que o art. 3944 do Código Civil atribui à mora. Dessa forma, é correto dizer que inadimplemento relativo é sinônimo de mora. O inadimplemento, seja absoluto ou relativo, implica na mesma consequência jurídica, que é o surgimento do dever de reparar, independente de qual for a obrigação, de dar algo certo ou incerto; de fazer ou de não fazer. Contudo, as obrigações de não fazer possuem característica distintas, pois exigem uma conduta negativa. Nesse caso, o descumprimento significa que o devedor praticou o ato que tinha se comprometido de não fazer, de se abster. E, como possui característica específica, o Código Civil fixa que o inadimplemento, nessas modalidades de obrigações, se opera desde o dia da execução do ato que deveria ter se abstido (art. 3905 do Código Civil). Por outro lado, o inadimplemento se opera de forma distinta nas obrigações envolvendo os chamados contratos benéficos (gratuitos) e onerosos. Conforme intepretação do art. 3926 do Código Civil, nos contratos onerosos (onde a carga obrigacional é distribuída entre as partes e ambos ganham benefícios com contraprestações recíprocas) o inadimplemento segue a regra geral, ou seja, ambos contratantes respondem por culpa e/ou dolo. Já nos contratos gratuitos (benéficos - onde toda a carga obrigacional fica para apenas um dos contratantes), enquanto aquele que aufere os benefícios também responde por culpa e/ou dolo, o contratante que aufere apenas os sacrifícios responderá pelo inadimplemento apenas se demonstrado o dolo, ou seja, se for provada a intenção de descumprir a obrigação assumida. A culpa é, portanto, o elemento indispensável para caracterizar o inadimplemento, que deve decorrer de algo que possa ser imputado ao devedor. 3 Enunciado 162 da162 da III Jornada de direito civil do Conselho de Justiça Federal: “A inutilidade da prestação que autoriza a recusa da prestação por parte do credor deverá ser aferida objetivamente, consoante o princípio da boa-fé e a manutenção do sinalagma, e não de acordo com o mero interesse subjetivo do credor”. 4 “Art. 394. Considera-se em mora o devedor que não efetuar o pagamento e o credor que não quiser recebê-lo no tempo, lugar e forma que a lei ou a convenção estabelecer”. 5 “Art. 390. Nas obrigações negativas o devedor é havido por inadimplente desde o dia em que executou o ato de que se devia abster”. 6 “Art. 392. Nos contratos benéficos, responde por simples culpa o contratante, a quem o contrato aproveite, e por dolo aquele a quem não favoreça. Nos contratos onerosos, responde cada uma das partes por culpa, salvo as exceções previstas em lei”. 3 No entanto, existem situações onde o cumprimento da obrigação se torna impossível por fatos que não podem ser imputados ao devedor, como no caso de força maior e no caso fortuito, que são excludentes de responsabilidade (art. 3937 do Código Civil). Força maior está relacionada a eventos extraordinários, imprevisíveis e inevitáveis, como desastres naturais (enchentes / furacões), guerras e epidemias / pandemias, por exemplo. O caso fortuito também se relaciona com eventos imprevisíveis e inevitáveis, mas não necessariamente extraordinários, pois podem ocorrer de forma mais usual, visto que, de regra, estão relacionados ao comportamento humano. Em resumo, são aquelas situações que, além e imprevisíveis, possuem efeitos que não poderiam ser evitados ou impedidos. Ainda sobre essas excludentes de responsabilidade, importa destacar que o art. 393 do Código Civil autoriza que o devedor renuncie a elas, assumindo, de forma expressa, a responsabilidade pelo cumprimento da obrigação, mesmo em caso fortuito ou de força maior. MORA. Mora significa estar em atraso no cumprimento da obrigação, seja em relação ao tempo, mas também em relação ao lugar e a forma. Por isso, o cumprimento imperfeito da obrigação também induz em mora. Contudo, se não houver qualquer ação ou omissão atribuível ao devedor, não estará em mora (art. 3968 do Código Civil). Isso porque, como visto, a culpa é um elemento indispensável para a caracterização do inadimplemento. E, se não houver culpa atribuível ao devedor, não haverá inadimplemento relativo (mora), tanto que o c. STJ9 já decidiu que a cobrança de encargos indevidos afasta a mora do devedor e impede e aplicação da multa. No estudo das fontes das obrigações e aprende que decorrem tanto de atos de vontade das partes, de forma unilateral (promessa, por exemplo) ou bilateral (contratos), quanto de atos de vontade do Estado, seja porque a lei cria a obrigação (alimentos, por exemplo) ou através do atos ilícitos, que são aqueles causam danos a outrem por negligência, imperícia ou imprudência (art. 186 do Código Civil). 7 “Art. 393. O devedor não responde pelos prejuízos resultantes de caso fortuito ou força maior, se expressamente não se houver por eles responsabilizado. Parágrafoúnico. O caso fortuito ou de força maior verifica-se no fato necessário, cujos efeitos não era possível evitar ou impedir”. 8 “Art. 396. Não havendo fato ou omissão imputável ao devedor, não incorre este em mora”. 9 “MORA. Multa. Cobrança do indevido. Crédito Rural. - Considera-se indevida a multa uma vez que se reconheceu ter o devedor motivo para não efetuar o pagamento nos termos pretendidos. Art. 71 do DL 167/67. - Embargos rejeitados. (EREsp n. 163.884/RS, relator Ministro Barros Monteiro, relator para acórdão Ministro Ruy Rosado de Aguiar, Segunda Seção, julgado em 23/5/2001, DJ de 24/9/2001, p. 234)”. 4 Pois bem, em se tratando de obrigações surgidas da manifestação de vontade das partes, o já referido art. 394 do Código Civil estipula que incide sempre que não for observado o tempo, lugar e forma contratada. Contudo, no caso dos atos ilícitos, a mora surge a partir do ato causador do dano, não dependendo de prazo, lugar ou forma (art. 39810 do Código Civil). Existem duas espécies de mora: (1) do devedor e; (2) do credor. A mora do devedor, em latim, chama-se mora debitoris, também chamada de mora solvendi (mora de pagar). Configura-se sempre que houver atraso ou o cumprimento imperfeito da obrigação, por parte do devedor. Pode ser dividida em mora ex ré e mora ex persona. A mora ex ré se opera de imediato, de pleno direito e sem a necessidade de qualquer ação do credor. Caso das obrigações que tem uma data certa para ser cumprida, um termo estipulado, motivo pelo qual o devedor incorre em mora desde o vencimento da obrigação (caput, art. 39711, CCB). Por exemplo, na locação de 01 ano, quando vencido o prazo e não devolvido o imóvel, o locatário incorrerá automaticamente em mora. Também é o caso da obrigação decorrente de ato ilícito, cuja mora se opera desde a prática do ato (art. 398 do Código Civil), situações onde a doutrina define que ocorre a mora presumida12. Por outro lado, todas as obrigações do devedor que não tiverem um termo previamente estipulado, são chamadas de mora ex persona, exigindo do credor uma ação para constituí-lo em mora, ação que se realiza através de uma notificação judicial ou extrajudicial (§Ú, art. 39713, Código Civil). A mora do devedor acarreta efeitos distintos dependendo da possibilidade ou não do cumprimento da prestação. No caso do inadimplemento relativo, como persiste a possibilidade do cumprimento da obrigação, na prática, o credor poderá exigir a prestação acrescida de juros moratórios enquanto perdurar o atraso, correção monetária, eventual cláusula penal e, ainda, a reparação de todo e qualquer prejuízo (caput do art. 39514 do Código Civil). 10 “Art. 398. Nas obrigações provenientes de ato ilícito, considera-se o devedor em mora, desde que o praticou”. 11 “Art. 397. O inadimplemento da obrigação, positiva e líquida, no seu termo, constitui de pleno direito em mora o devedor. 12 ALVIM, Agostinho. Da inexecução das obrigações e suas consequências. 3 ed. São Paulo: Editora Jurídica e Universitária, 1965 pág. 140. 13 “Parágrafo único. Não havendo termo, a mora se constitui mediante interpelação judicial ou extrajudicial”. 14 “Art. 395. Responde o devedor pelos prejuízos a que sua mora der causa, mais juros, atualização dos valores monetários e honorários de advogado”. 5 Se a mora implicar na impossibilidade do cumprimento da obrigação ou esta deixar de ser útil ao credor, o inadimplemento será considerado absoluto e implicará na resolução do negócio. Por isso, na prática, o credor poderá exigir perdas e danos, cláusula penal e reparação de todo e qualquer prejuízo (§Ú, art. 39515, Código Civil). Como visto, o devedor incorre em inadimplemento se tiver culpa no atraso ou cumprir de forma imperfeita a obrigação, salvo se o descumprimento decorrer de força maior ou caso fortuito, que não induzem em mora, na forma do art. 393 do Código Civil. No entanto, o devedor em mora perde essas excludentes e só será eximido de responsabilidade se provar que não teve culpa pelo atraso no cumprimento da obrigação ou que o prejuízo surgiu antes de incorrer em mora (art. 39916 do Código Civil). Além do devedor, o credor também pode incidir em mora. E a mora do credor, em latim se chama mora creditoris. Também é chamada de mora accipiendi (mora de receber) e se configura sempre que o credor recusar o cumprimento da obrigação, desde que essa recusa seja ilegítima e injustificada (segunda parte do art. 39417 do Código Civil). Se a obrigação for ofertada de forma distinta ou em local diferente, o credor não é obrigado a recebê-la. caso em que a recusa será legítima, pois tem o direito de receber a integralidade da prestação, na forma e tempo ajustado (arts. 31318 e 31419 do Código Civil). A mora do credor exime o devedor de responsabilidade pelos prejuízos advindos do atraso no cumprimento da obrigação e responsabiliza o credor pelas despesas de conservação da coisa (art. 40020 do Código Civil). Importante esclarecer que incorre em dolo o devedor que, verificando a mora do credor, abandona a coisa causando seu perecimento ou deterioração, caso que, por agir com dolo, seguirá responsável pelos danos causados ao bem. 15 “Parágrafo único. Se a prestação, devido à mora, se tornar inútil ao credor, este poderá enjeitá-la, e exigir a satisfação das perdas e danos” 16 “Art. 399. O devedor em mora responde pela impossibilidade da prestação, embora essa impossibilidade resulte de caso fortuito ou de força maior, se estes ocorrerem durante o atraso; salvo se provar isenção de culpa, ou que o dano sobreviria ainda quando a obrigação fosse oportunamente desempenhada”. 17 “Art. 394. Considera-se em mora o devedor que não efetuar o pagamento e o credor que não quiser recebê-lo no tempo, lugar e forma que a lei ou a convenção estabelecer”. 18 “Art. 313. O credor não é obrigado a receber prestação diversa da que lhe é devida, ainda que mais valiosa”. 19 “Art. 314. Ainda que a obrigação tenha por objeto prestação divisível, não pode o credor ser obrigado a receber, nem o devedor a pagar, por partes, se assim não se ajustou”. 20 “Art. 400. A mora do credor subtrai o devedor isento de dolo à responsabilidade pela conservação da coisa, obriga o credor a ressarcir as despesas empregadas em conservá-la, e sujeita-o a recebê-la pela estimação mais favorável ao devedor, se o seu valor oscilar entre o dia estabelecido para o pagamento e o da sua efetivação”. 6 A diferença da mora para o inadimplemento absoluto é justamente a possibilidade de a obrigação ser cumprida, através da purgação da mora. Purgar a mora significa neutralizar seus efeitos. Para o devedor, ocorrerá mediante o cumprimento da obrigação acrescida de todos os encargos moratórios e, para o credor, por sua vez, ocorrerá quando se disponibilizar a receber a prestação e ressarcir as despesas geradas ao devedor (art. 40121 do Código Civil). PERDAS E DANOS. O descumprimento da obrigação pode causar prejuízos ao contratante que cumpre pontualmente sua obrigação. Normalmente esse prejuízo será material, mas também poderá se dar na esfera moral quando, de alguma forma, atinge o psicológico do indivíduo. Dentre esses possíveis prejuízos se encontra as perdas e danos, que podem ser entendidas como todos os prejuízos materiais suportados em razão do descumprimento da obrigação. Segundo art. 40222 do Código Civil existem duas modalidades de perdas e danos, denominadas de danos emergentes e lucros cessantes. O dano emergente consistente no prejuízo efetivamente suportado, o valor exato da redução do patrimônio do credor em razão do descumprimento. Representa o resultado do patrimônio que a vítima tinha antes do descumprimento e o que passou a ter depois dele. Por exemplo, se em razão do inadimplemento a parte teve de pagar R$ 1.000,00 para um terceiro finalizar o serviço contratado, significa que sofreu mil reais dedanos emergentes. Quando o artigo faz constar a palavra efetivamente, deixa bem claro que o dano emergente não se presume, deve restar provado. Não pode ser meramente hipotético ou mesmo futuro, deve ter sido suportado e estar provado. Os lucros cessantes, por sua vez, consistem no ganho financeiro que o credor teria se tivesse recebido a prestação do devedor no tempo e forma pactuada. Quando o artigo fala em aquilo que “razoavelmente deixou de lucrar”, afasta meras expectativas de ganhos futuros, compreendendo apenas aquilo que, dentro da normalidade, poderia ser presumido que o credor lucraria se não houvesse o descumprimento da obrigação. 21 “Art. 401. Purga-se a mora: I - por parte do devedor, oferecendo este a prestação mais a importância dos prejuízos decorrentes do dia da oferta; II - por parte do credor, oferecendo-se este a receber o pagamento e sujeitando-se aos efeitos da mora até a mesma data”. 22 “Art. 402. Salvo as exceções expressamente previstas em lei, as perdas e danos devidas ao credor abrangem, além do que ele efetivamente perdeu, o que razoavelmente deixou de lucrar”. 7 Como decidido pelo c. STJ23, o lucro cessante corresponde àquilo que “até prova em contrário, se admite que o credor haveria de lucrar aquilo que o bom senso diz que lucraria, existindo a presunção de que os fatos se desenrolariam dentro do seu curso normal”. Por exemplo, um taxista que fica impossibilitado de utilizar seu carro por culpa do devedor, impedindo que trabalhe por 60 dias. É presumível que com seu trabalho ganharia remuneração e, por isso, pode ser indenizado na média que ganhou nos meses anteriores, como lucro cessante. O art. 40324 do Código Civil traz de forma expressa o que Carlos Roberto Gonçalves definiu como “teoria dos danos diretos e imediatos”. Basicamente, que as perdas e danos só incluem os danos sofridos diretamente do descumprimento da obrigação ou, em outras palavras, veda que se inclua nas perdas e danos prejuízos indiretos ou reflexos. Dano indireto também é chamado de “dano remoto”, aqueles que possuem outros fatores determinantes para sua ocorrência e não são uma consequência exclusiva e direta do descumprimento da obrigação. Portanto, o dano indireto não pode ser incluído nas perdas e danos, mesmo no caso de dolo do devedor, ou seja, mesmo que tenha descumprido a obrigação de propósito. Por se tratar da maneira mais comum de pagamento, o Código Civil regrou de forma específica as perdas e danos em caso de obrigação de entregar quantia em dinheiro. Fez constar que, nessa modalidade de obrigação, as perdas e danos serão pagas com atualização monetária e juros, acrescida de custas, honorários do advogado e da pena convencional que houver sido contratada (art. 40425 do Código Civil). Neste aspecto, relevante destacar as recentes alterações realizadas no Código Civil através da Lei 14.905 de 2024. 23 “DIREITO CIVIL. ACIDENTE DE VEICULOS. LUCROS CESSANTES. CABIMENTO. DOUTRINA. PRECEDENTE DO STF. RECURSO NÃO CONHECIDO. I- A EXPRESSÃO "O QUE RAZOAVELMENTE DEIXOU DE LUCRAR", CONSTANTE DO ART. 1.059 DO CODIGO CIVIL, DEVE SER INTERPRETADA NO SENTIDO DE QUE, ATE PROVA EM CONTRARIO, SE ADMITE QUE O CREDOR HAVERIA DE LUCRAR AQUILO QUE O BOM SENSO DIZ QUE LUCRARIA, EXISTINDO A PRESUNÇÃO DE QUE OS FATOS SE DESENROLARIAM DENTRO DO SEU CURSO NORMAL, TENDO EM VISTA OS ANTECEDENTES. II- O SIMPLES FATO DE UMA EMPRESA RODOVIARIA POSSUIR FROTA DE RESERVA NÃO LHE TIRA O DIREITO AOS LUCROS CESSANTES, QUANDO UM DOS VEICULOS SAIR DE CIRCULAÇÃO POR CULPA DE OUTREM, POIS NÃO SE EXIGE QUE OS LUCROS CESSANTES SEJAM CERTOS, BASTANDO QUE, NAS CIRCUNSTANCIAS, SEJAM RAZOAVEIS OU POTENCIAIS. (REsp n. 61.512/SP, relator Ministro Sálvio de Figueiredo Teixeira, Quarta Turma, julgado em 25/8/1997, DJ de 1/12/1997, p. 62757)”. 24 “Art. 403. Ainda que a inexecução resulte de dolo do devedor, as perdas e danos só incluem os prejuízos efetivos e os lucros cessantes por efeito dela direto e imediato, sem prejuízo do disposto na lei processual”. 25 “Art. 404. As perdas e danos, nas obrigações de pagamento em dinheiro, serão pagas com atualização monetária, juros, custas e honorários de advogado, sem prejuízo da pena convencional”. Parágrafo único. Provado que os juros da mora não cobrem o prejuízo, e não havendo pena convencional, pode o juiz conceder ao credor indenização suplementar”. 8 Em relação à atualização monetária, que antes se dava usualmente através da utilização do índice IGP-M, com a atual redação do parágrafo único do art. 38926 do Código Civil passou-se a utilizar do IPCA. Quanto aos juros, se antes utilizava 1% ao mês, com a atual redação do art. 406 e seu §1º27, passou a ser utilizada a taxa SELIC, a incidir desde a citação do devedor (art. 40528 do Código Civil). Sobre as custas, compreenderão todas as despesas suportadas para exigir o cumprimento da prestação ou o ressarcimento das perdas e danos, como, por exemplo, taxa de protesto e custas judiciais, dentre outros inúmeros exemplos que poderiam ser citados. Especificamente em relação aos honorários, apesar de estarem expressamente referidos no art. 404 do Código Civil, existe entendimento jurisprudencial no sentido de que os honorários contratuais não podem ser incluídos como perdas e danos porque constituem liberalidade do credor para acesso à justiça e para o exercício do contraditório e da ampla defesa29. Por fim, pena convencional é, resumidamente, uma cláusula que fixa uma multa atribuída àquele que descumprir a obrigação. 26 “Parágrafo único. Na hipótese de o índice de atualização monetária não ter sido convencionado ou não estar previsto em lei específica, será aplicada a variação do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), apurado e divulgado pela Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), ou do índice que vier a substituí-lo”. 27 “Art. 406. Quando não forem convencionados, ou quando o forem sem taxa estipulada, ou quando provierem de determinação da lei, os juros serão fixados de acordo com a taxa legal. §1º A taxa legal corresponderá à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e de Custódia (Selic), deduzido o índice de atualização monetária de que trata o parágrafo único do art. 389 deste Código”. 28 “Art. 405. Contam-se os juros de mora desde a citação inicial”. 29 “EMBARGOS DE DIVERGÊNCIA EM RECURSO ESPECIAL. HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS CONTRATUAIS. INCLUSÃO NO VALOR DA INDENIZAÇÃO. IMPOSSIBILIDADE. "AUSÊNCIA DE DANO INDENIZÁVEL. EMBARGOS DE DIVERGÊNCIA REJEITADOS. 1. "A contratação de advogados para defesa judicial de interesses da parte não enseja, por si só, dano material passível de indenização, porque inerente ao exercício regular dos direitos constitucionais de contraditório, ampla defesa e acesso à Justiça" (AgRg no AREsp 516277/SP, QUARTA TURMA, Relator Ministro MARCO BUZZI, DJe de 4/9/2014). 2. No mesmo sentido: EREsp 1155527/MS, SEGUNDA SEÇÃO, ReMinistro SIDNEI BENETI, DJe de 28/06/2012; AgRg no REsp 1.229.482/RJ, TERCEIRA TURMA, Rel. Ministro PAULO DE TARSO SANSEVERINO, DJe de 23/11/2012; AgRg no AREsp 430399/RS, QUARTA TURMA, Rel. Ministro RAUL ARAÚJO, DJe de 19/12/2014; AgRg no AREsp 477296/RS, QUARTA TURMA, Rel. Ministro ANTONIO CARLOS FERREIRA, DJe de 02/02/2015; e AgRg no REsp 1481534/SP, QUARTA TURMA, Rel. Ministra MARIA ISABEL GALLOTTI, DJe de 26/8/2015. 3. A Lei n.º 8.906/94 e o Código de Ética e Disciplina da OAB, respectivamente, nos arts. 22 e 35, § 1.º, prevêem as espécies de honorários de advogado: os honorários contratuais/convencionais e os sucumbenciais. 4. Cabe ao perdedor da ação arcar com os honorários de advogado fixados pelo Juízo em decorrência da sucumbência (Código de Processo Civil de 1973, art. 20, e Novo Código de Processo Civil, art. 85), e não os honorários decorrentes de contratos firmados pela parte contrária e seu procurador, em circunstâncias particulares totalmentealheias à vontade do condenado. 5. Embargos de divergência rejeitados." (EREsp 1507864/RS, Rel. Ministra LAURITA VAZ, CORTE ESPECIAL, julgado em 20/4/2016, DJe 11/5/2016)”. 9 JUROS LEGAIS. Os juros podem ser definidos como o rendimento de determinando capital. Enquanto a correção monetária representa a atualização do valor em combate à inflação, visando impedir a perda do poder de compra e a desvalorização do dinheiro, os juros representam o pagamento realizado pelo uso do dinheiro ao longo do tempo. Silvio Rodrigues30 ensina que “juro é o preço do uso do capital”. Podem ser estipulados juros remuneratórios e moratórios. Os juros remuneratórios, também são chamados de juros compensatórios, são devidos como retribuição ao uso do capital que pertence a outra pessoa, como no exemplo de um empréstimo de R$ 50.000,00 de forma parcelada e que a cada parcela é acrescido o valor dos juros que incidiriam no período. Nesse exemplo, os juros são devidos pelo uso do dinheiro e não possuem nenhuma relação com a mora, pois são fruto da manifestação de vontade das partes e, por isso, devem necessariamente estar previstos de forma expressa. Por fim importante entender que, apesar de livre pactuação, os juros remuneratórios não podem exceder o limite dos juros legais (art. 59131 do Código Civil). Os juros moratórios, por sua vez, incidem em razão do atraso no cumprimento da obrigação, como no caso do empréstimo em que as parcelas não são pagas no vencimento e, por isso, começa a incidir juros periódicos enquanto perdurar o atraso. Nesse exemplo os juros são devidos em razão da mora, como resultado dela e não dependem de previsão contratual, pois decorrem da lei (art. 40732 do Código Civil). Surgem a partir da constituição em mora e, como vimos, nos casos da mora ex ré (quando houver um termo previamente estabelecido) incidirão desde o implemento do termo pactuado. No entanto, no caso de mora ex persona (quando não há um termo certo), a constituição em mora depende da iniciativa do credor, mediante notificação. Tudo na forma do art. 39733 do Código Civil. 30 RODRIGUES, Silvio. Direito Civil, v2, p. 257. 31 “Art. 591. Destinando-se o mútuo a fins econômicos, presumem-se devidos juros. Parágrafo único. Se a taxa de juros não for pactuada, aplica-se a taxa legal prevista no art. 406 deste Código”. 32 “Art. 407. Ainda que se não alegue prejuízo, é obrigado o devedor aos juros da mora que se contarão assim às dívidas em dinheiro, como às prestações de outra natureza, uma vez que lhes esteja fixado o valor pecuniário por sentença judicial, arbitramento, ou acordo entre as partes”. 33 “Art. 397. O inadimplemento da obrigação, positiva e líquida, no seu termo, constitui de pleno direito em mora o devedor. Parágrafo único. Não havendo termo, a mora se constitui mediante interpelação judicial ou extrajudicial”. 10 Os juros moratórios podem ser estipulados entre as partes. Contudo, mesmo se não o forem, incidirão dentro dos limites estabelecidos pela lei, na forma do caput do art. 40634 do Código Civil. Por sua vez, a taxa dos juros legais que vigorou nos últimos anos foi de 1% ao mês, fruto da interpretação da antiga redação do art. 406 do Código Civil. No entanto, desde a vigência da Lei 14.905 de 2024 se estipulou que a taxa legal dos juros consiste, conforme atual redação do §1°35 do mesmo art. 406 do Código Civil, no resultado obtido do valor da taxa SELIC menos o valor do IPCA enquanto correção monetária. Isso porque na aplicação da taxa SELIC “não é possível cumulá-la com correção monetária, porquanto já embutida em sua formação36”. A taxa SELIC é resultado de um cálculo realizado através do BACEN (§2°37 do art. 406 do Código Civil), mas se resultar em valor negativo, será computada como zerada para não prejudicar o direito do credor (§3°38 do art. 406 do Código Civil). Por fim, no caso de inadimplemento por descumprimento de obrigação, os juros incidem desde a constituição em mora. Entretanto, se a obrigação for decorrente de ato ilícito, incidiram desde a prática do ato danoso, conforme súmula 5439 do STJ. CLÁUSULA PENAL. A cláusula penal é uma pena, multa estipulada em razão do inadimplemento e/ou mora (art. 40840 do Código Civil). Trata-se de uma obrigação acessória e secundária, que não decorre da lei, sendo fruto da manifestação de vontade, motivo pelo qual deve ser expressamente pactuada. 34 “Art. 406. Quando não forem convencionados, ou quando o forem sem taxa estipulada, ou quando provierem de determinação da lei, os juros serão fixados de acordo com a taxa legal”. 35 §1º A taxa legal corresponderá à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e de Custódia (Selic), deduzido o índice de atualização monetária de que trata o parágrafo único do art. 389 deste Código. 36 “PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO REGIMENTAL NOS EMBARGOS DE DECLARAÇÃO NO AGRAVO REGIMENTAL NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. ART. 406 DO CC/2002. TAXA SELIC. COISA JULGADA. IMPOSSIBILIDADE DE EXAME. DECISÃO MANTIDA. 1. "A taxa de juros moratórios a que se refere o art. 406 do Código Civil de 2002, segundo precedente da Corte Especial (EREsp 727842/SP, Rel. Ministro TEORI ALBINO ZAVASCKI, CORTE ESPECIAL, julgado em 08/09/2008), é a SELIC, não sendo possível cumulá-la com correção monetária, porquanto já embutida em sua formação" (EDcl no REsp 1025298/RS, Relator Ministro MASSAMI UYEDA, Rel. p/ Acórdão Ministro LUIS FELIPE SALOMÃO, SEGUNDA SEÇÃO, julgado em 28/11/2012, DJe 01/02/2013). 2. A alegação de ofensa à coisa julgada não pode ser apreciada porque não houve manifestação do Tribunal de origem a esse respeito, bem como não existem nos autos elementos suficientes para se decidir acerca do tema. 3. Agravo regimental a que se nega provimento. (AgRg nos EDcl no AgRg no AREsp n. 573.927/DF, relator Ministro Antonio Carlos Ferreira, Quarta Turma, julgado em 17/4/2018, DJe de 24/4/2018)”. 37 §2º A metodologia de cálculo da taxa legal e sua forma de aplicação serão definidas pelo Conselho Monetário Nacional e divulgadas pelo Banco Central do Brasil. 38 §3º Caso a taxa legal apresente resultado negativo, este será considerado igual a 0 (zero) para efeito de cálculo dos juros no período de referência”. 39 ENUNCIADO “Os juros moratórios fluem a partir do evento danoso, em caso de responsabilidade extracontratual. (SÚMULA 54, CORTE ESPECIAL, julgado em 24/09/1992, DJ 01/10/1992, p. 16801)”. 40 “Art. 408. Incorre de pleno direito o devedor na cláusula penal, desde que, culposamente, deixe de cumprir a obrigação ou se constitua em mora”. 11 Tem uma dupla finalidade. Primeiro de antecipar possível perdas e danos e a segunda de intimidar ou coagir o cumprimento da obrigação. Por conceito, Nelson Rosenvald ensinou que “A cláusula penal é uma estipulação negocial aposta a uma obrigação, em que qualquer das partes, ou uma delas apenas, compromete-se a efetuar certa prestação em caso de ilícita e inexecução da obrigação principal”41. Por exemplo, num contrato de compra e venda parcelado que se estipula uma cláusula penal de 10% sobre a totalidade do valor do negócio em caso de inadimplemento de quaisquer das partes ou, num contrato de construção em que se estipula uma cláusula penal num valor certo por cada mês de atraso no prazo de entrega da obra. Enfim, multa em que se atribui um valor em pecúnia para punir o inadimplemento e/ou a mora. Em razão do inadimplemento absoluto, o art. 41042 do Código Civil autoriza que o credor a exija quando a obrigação se tornar impossível ou inútil para ele. Em razão da mora, o art. 41143 do Código Civil deixa a critério do credor exigir tanto a multa quanto a obrigação principal. Trata-se de uma obrigação acessória que pode ser ajustada em conjunto com a obrigação principal ou até mesmo em um ato futuro (art. 40944 do Código Civil). Tem por natureza antecipar uma possível liquidação de perdas e danos,mas sua exigibilidade não depende de prova ou mesmo alegação de prejuízo, incidindo tão somente em razão do inadimplemento (caput do art. 41645 do Código Civil). Apenas se a cláusula penal não se mostrar suficiente para cobrir o prejuízo que será devida diferença, incumbindo ao prejudicado provar que os danos ultrapassam o limite da pena convencional (§Ú46 do art. 416 do Código Civil). Em contrapartida, se a cláusula penal for moratória, para punir o inadimplemento relativo, poderá ser cumulada com as perdas e danos, conforme decidiu a 3ª Turma do c. STJ no REsp 1.355.554-RJ, em 6.12.201247. 41 ROSENVALD, Nelson. A cláusula penal: a pena privada nas relações negociais. Rio de Janeiro, Lumen Juris, 2007, p. 35. 42 “Art. 410. Quando se estipular a cláusula penal para o caso de total inadimplemento da obrigação, esta converter-se-á em alternativa a benefício do credor”. 43 “Art. 411. Quando se estipular a cláusula penal para o caso de mora, ou em segurança especial de outra cláusula determinada, terá o credor o arbítrio de exigir a satisfação da pena cominada, juntamente com o desempenho da obrigação principal”. 44 “Art. 409. A cláusula penal estipulada conjuntamente com a obrigação, ou em ato posterior, pode referir- se à inexecução completa da obrigação, à de alguma cláusula especial ou simplesmente à mora”. 45 “Art. 416. Para exigir a pena convencional, não é necessário que o credor alegue prejuízo. 46 “Parágrafo único. Ainda que o prejuízo exceda ao previsto na cláusula penal, não pode o credor exigir indenização suplementar se assim não foi convencionado. Se o tiver sido, a pena vale como mínimo da indenização, competindo ao credor provar o prejuízo excedente”. 47 EMENTA DIREITO CIVIL. PROMESSA DE COMPRA E VENDA DE IMÓVEL EM CONSTRUÇÃO. INADIMPLEMENTO PARCIAL. ATRASO NA ENTREGA DO IMÓVEL. MORA. CLÁUSULA PENAL. 12 Não há uma previsão legal absoluta estabelecendo o valor da cláusula penal. Existem leis que limitam a 10% sobre o valor do débito ou do valor em atraso, caso do inciso V do art. 26 da Lei 6766/7948, que trata dos compromissos e cessões de compra e venda envolvendo imóveis em loteamento. O Código de Defesa do Consumidor, por sua vez, limita a multa moratória em até 2% do valor em atraso (§1° do art. 52 do CDC49). Por outro lado, o Código Civil estipula um limite máximo sem fixar um valor específico, pois no art. 412 apenas determina que “o valor da cominação imposta na cláusula penal não pode exceder o da obrigação principal”. Portanto, a única certeza é que a cláusula penal jamais poderá ser superior ao valor da obrigação principal. Acontece que no artigo subsequente o Legislador fez constar que o(a) Juiz(a) deve adequar a multa sempre que considerada excessiva (art. 41350 do Código Civil), sem indicar critério objetivo para verificar o que seria uma cláusula excessiva. A análise deve se dar no campo da ponderação, do bom senso, proporcionalidade e razoabilidade. E, com base nesses critérios, os Tribunais entendem como possível a fixação de cláusula penal entre 10% e 25%, alguns, sobre o valor pago, especialmente quando se trata de relação de consumo, outros sobre o valor total da transação, dependendo das características do caso. Havendo pluralidade de devedores a cláusula penal será aplicada de forma diferente, de acordo com a natureza da obrigação. PERDAS E DANOS. CUMULAÇÃO. POSSIBILIDADE. 1. - A obrigação de indenizar é corolário natural daquele que pratica ato lesivo ao interesse ou direito de outrem. Se a cláusula penal compensatória funciona como pre-fixação das perdas e danos, o mesmo não ocorre com a cláusula penal moratória, que não compensa nem substitui o inadimplemento, apenas pune a mora. 2.- Assim, a cominação contratual de uma multa para o caso de mora não interfere na responsabilidade civil decorrente do retardo no cumprimento da obrigação que já deflui naturalmente do próprio sistema. 3.- O promitente comprador, em caso de atraso na entrega do imóvel adquirido pode pleitear, por isso, além da multa moratória expressamente estabelecida no contrato, também o cumprimento, mesmo que tardio da obrigação e ainda a indenização correspondente aos lucros cessantes pela não fruição do imóvel durante o período da mora da promitente vendedora. 4.- Recurso Especial a que se nega provimento. 48 “Art. 26. Os compromissos de compra e venda, as cessões ou promessas de cessão poderão ser feitos por escritura pública ou por instrumento particular, de acordo com o modelo depositado na forma do inciso VI do art. 18 e conterão, pelo menos, as seguintes indicações: (...) V - taxa de juros incidentes sobre o débito em aberto e sobre as prestações vencidas e não pagas, bem como a cláusula penal, nunca excedente a 10% (dez por cento) do débito e só exigível nos casos de intervenção judicial ou de mora superior a 3 (três) meses”. 49 “Art. 52. No fornecimento de produtos ou serviços que envolva outorga de crédito ou concessão de financiamento ao consumidor, o fornecedor deverá, entre outros requisitos, informá-lo prévia e adequadamente sobre: (...) §1° As multas de mora decorrentes do inadimplemento de obrigações no seu termo não poderão ser superiores a dois por cento do valor da prestação”. 50 “Art. 413. A penalidade deve ser reduzida eqüitativamente pelo juiz se a obrigação principal tiver sido cumprida em parte, ou se o montante da penalidade for manifestamente excessivo, tendo-se em vista a natureza e a finalidade do negócio”. 13 Se a obrigação for divisível, não há discussão. Apenas quem tiver culpa pelo inadimplemento responde pela cláusula penal e até o limite de sua quota parte, na forma do art. 41551 do Código Civil. Todavia, nas obrigações indivisíveis (aquelas que não podem ser divididas sem desnaturalizar seu objeto), quando houver pluralidade de devedores, a cláusula penal poderá ser integralmente exigida daquele que tiver culpa pelo inadimplemento ou mora. Os demais serão responsáveis apenas pela sua quota parte (art. 414 do Código Civil52). Isso porque a pena convencional possui natureza indenizatória e é entendida como uma prévia liquidação das perdas e danos em pecúnia, cuja natureza é divisível. Por isso, cada devedor responde por sua quota parte. ARRAS OU SINAL O último assunto que trataremos em aula sobre obrigações diz respeito às arras / ao sinal, que sinônimos. São considerados uma garantia de conclusão do negócio jurídico ou uma pena previamente estipulada para garantir o direito de arrependimento. Diferencia-se de uma entrada, porque neste caso o negócio principal já foi firmado. A arras é um contrato acessório e preliminar ao contrato principal, que não existem sozinhas e se vinculam a um negócio jurídico futuro. O art. 41753 do Código Civil deixa claro que a arras pode se dar através da entrega de dinheiro ou bem móvel, indicando para sua natureza de contrato real, onde a simples pactuação não conclui o contrato (característica dos contratos consensuais). Para a formalização do sinal é necessária a efetiva entrega da coisa ou do dinheiro (característica dos contratos reais), que deverá ser restituído quando da formalização do contrato principal ou, no mínimo, amortizado / deduzido do principal. A arras pode ser dividida em: (1) confirmatórias ou (2) penitenciais. 51 “Art. 415. Quando a obrigação for divisível, só incorre na pena o devedor ou o herdeiro do devedor que a infringir, e proporcionalmente à sua parte na obrigação”. 52 “Art. 414. Sendo indivisível a obrigação, todos os devedores, caindo em falta um deles, incorrerão na pena; mas esta só se poderá demandar integralmente do culpado, respondendo cada um dos outros somente pela sua quota. Parágrafo único. Aos não culpados fica reservada a ação regressiva contra aquele que deu causa à aplicação da pena”. 53 “Art. 417. Se, por ocasião da conclusão do contrato, uma parte der à outra, a título de arras, dinheiro ou outrobem móvel, deverão as arras, em caso de execução, ser restituídas ou computadas na prestação devida, se do mesmo gênero da principal”. 14 Será confirmatória aquela prestada para tornar obrigatória a conclusão do contrato principal, ou seja, que servem para confirmar a pactuação futura e afastar a possibilidade de arrependimento. E, sempre que não houver previsão em contrário, as arras serão confirmatórias. Nessa hipótese, quaisquer dos contratantes que descumprir o contrato responderá por perdas e danos E, se a parte que deu o sinal der causa à inexecução do contrato principal, perderá a arras (inciso I do art. 418 do Código Civil54). Se for a parte que recebeu o sinal que deu causa a inexecução do contrato terá de devolvê-lo devidamente atualizado (II do art. 418 do Código Civil55). A arras confirmatória serve como uma prévia fixação das perdas e danos, cabendo à parte prejudicada retê-las no desfazimento do negócio. Acontece que o Código Civil traz outras duas possibilidades à parte prejudicada. A primeira seria pedir eventuais perdas e danos complementares e a segunda executar o contrato com as perdas e danos (art. 41956 do Código Civil). Em contrapartida, a arras será penitencial quando estipulada para viabilizar o direito de arrependimento, servindo como uma quantificação antecipada das perdas e danos pelo desfazimento do negócio. Nesses casos, a parte que se utilizar do direito de arrependimento será responsabilizada (art. 42057 do Código Civil). Se foi quem deu a arras, as perderá em favor da outra parte e, se foi quem as recebeu, terá de devolvê-las com juros e correções. 54 “Art. 418. Na hipótese de inexecução do contrato, se esta se der: I - por parte de quem deu as arras, poderá a outra parte ter o contrato por desfeito, retendo-as”. 55 “Art. 418. Na hipótese de inexecução do contrato, se esta se der: (...) II - por parte de quem recebeu as arras, poderá quem as deu haver o contrato por desfeito e exigir a sua devolução mais o equivalente, com atualização monetária, juros e honorários de advogado”. 56 “Art. 419. A parte inocente pode pedir indenização suplementar, se provar maior prejuízo, valendo as arras como taxa mínima. Pode, também, a parte inocente exigir a execução do contrato, com as perdas e danos, valendo as arras como o mínimo da indenização”. 57 “Art. 420. Se no contrato for estipulado o direito de arrependimento para qualquer das partes, as arras ou sinal terão função unicamente indenizatória. Neste caso, quem as deu perdê-las-á em benefício da outra parte; e quem as recebeu devolvê-las-á, mais o equivalente. Em ambos os casos não haverá direito a indenização suplementar”.