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SISTEMAS DE ENSINO, LEGISLAÇÃO E GESTÃO DEMOCRÁTICA AULA 3 Profª Katia Cristina Dambiski Soares 2 CONVERSA INICIAL Nesta etapa, vamos abordar a questão do financiamento na área da educação, mas, primeiramente, quero conversar com você sobre a importância do financiamento na vida em geral. Quando falamos em financiamento, a primeira coisa que vem à cabeça é a questão do dinheiro? Pois bem! Quase tudo o que precisamos fazer diariamente necessita de algum tipo de financiamento. Para tornar realidade algo que planejamos, geralmente é necessário ter noção do quanto será preciso investir, calcular os custos, estabelecer metas e estratégias de como alcançar o nosso objetivo. Podemos citar alguns exemplos de coisas que as pessoas costumam querer: fazer uma reforma na casa, realizar uma viagem, comprar um carro, concluir um curso… Esses são exemplos aleatórios do cotidiano. Podemos presumir que não são coisas fáceis de se realizar, dependendo das condições econômicas de cada um. Além desses exemplos da vida cotidiana, vários âmbitos da organização da vida em sociedade também necessitam de financiamento para a sua implementação, entre os quais destacamos as ações e programas voltados à área educacional. A mera existência de políticas públicas na área da educação não é suficiente para que essas políticas se tornem realidade. O financiamento é condição sine qua non para a realização das políticas educacionais. Convido você a refletir sobre este assunto! TEMA 1 – FUNDEB: ESTRUTURA, REDISTRIBUIÇÃO DE RECURSOS E IMPACTO NA EDUCAÇÃO A área das políticas públicas para a educação estabelece diversos planos para realizar ações e programas educacionais. Podemos citar que, neste contexto, estão presentes o atendimento das necessidades para garantir o acesso, a permanência e a qualidade da educação no nosso país, nos seus diferentes níveis, etapas, fases e modalidades de ensino. De modo geral, as políticas educacionais se direcionam para o desenvolvimento de programas que buscam atender à estrutura física das escolas, aos materiais didáticos, ao transporte escolar, ao pagamento e à formação dos professores, entre outros. Para compreender melhor a questão da importância do financiamento, vamos refletir sobre a responsabilidade pela oferta da educação pública, ou seja, 3 sobre quem arca com os custos e quem financia. No Brasil, normalmente, os municípios são responsáveis pelo desenvolvimento da Educação Infantil e do Ensino Fundamental; os estados se responsabilizam pelo Ensino Fundamental e Ensino Médio, e o governo federal se dirige para o desenvolvimento do Ensino Superior. Entretanto, é definido por lei que os entes da federação devem atuar em regime de colaboração, o que nem sempre acontece. O que isso significa? Significa que, por exemplo, se um município não tem condições de arcar com a oferta da educação infantil para todas as crianças na faixa etária indicada legalmente, os estados e a União poderiam também auxiliar no atendimento dessa demanda. O Brasil é um país muito grande, com dimensões continentais e uma grande desigualdade econômica entre os diversos municípios e estados que o compõem. Com o objetivo de auxiliar para que todos os municípios consigam atender, na medida do possível, às demandas na área educacional, foi criado em 2020, em caráter permanente, o FUNDEB, Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação. O FUNDEB veio substituir o FUNDEF, que era o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério, regulamentado em 1997. Entretanto, o FUNDEF só abrangia o Ensino Fundamental, e não toda a Educação Básica, além de se restringir à valorização do magistério (professores) e não de todos os profissionais da educação. O FUNDEB, por sua vez, foi criado em 2007, mas transformado em permanente e regulamentado pela Lei n. 14.113, de 25 de dezembro de 2020. O FUNDEB é um fundo especial, de natureza contábil e de âmbito estadual, formado por um total de vinte e sete Fundos, com recursos provenientes de impostos vinculados à educação e transferências dos estados, Distrito Federal e municípios, conforme disposto no art. 212 da Constituição Federal. A União precisa complementar o Fundo quando o valor por aluno em cada estado não alcançar o mínimo definido nacionalmente. De acordo com Farenzena e Pinto (2024, p. 7), a complementação total da União tem crescido desde 2021, quando iniciou a implementação do FUNDEB permanente, estando em 19% em 2024, devendo chegar a 23% em 2026. Hoje, é incontestável a importância do FUNDEB, como fundo contábil permanente, para custear a educação pública no país e incentivar o 4 desenvolvimento das políticas educacionais. Entretanto, ainda há muito a ser ampliado em termos de investimento na educação. Conforme alertam com preocupação Farenzena e Pinto (2024, p. 16-17), dados recentes demonstram que, embora esteja havendo um avanço significativo para equalizar os recursos disponíveis por aluno entre os entes da federação e um aumento real no valor por aluno, essa melhora esteve associada mais à queda na matrícula, quando deveria estar crescendo, e a remuneração do magistério tampouco, de fato, avançou nos últimos anos. TEMA 2 – ORÇAMENTO PÚBLICO PARA A EDUCAÇÃO: LEI DE RESPONSABILIDADE FISCAL E PERCENTUAIS CONSTITUCIONAIS Iniciamos este tópico ressaltando os objetivos do FUNDEB, que são, de acordo com Farenzena e Pinto (2024, p. 4): […] manter e desenvolver a educação básica, em suas distintas etapas e modalidades, e a preservação dos fundos em cada UF, com redistribuição de parte da receita de impostos vinculada à manutenção e ao desenvolvimento do ensino e à fixação de percentuais mínimos de complementação da União. A partir desses objetivos, cabe buscar entender um pouco sobre as definições do orçamento público para a educação, em especial, a respeito da Lei de Responsabilidade Fiscal e dos percentuais constitucionais mínimos de complementação da União na área educacional. Para melhor entendimento, importa considerar que a questão do orçamento para a educação modificou-se substancialmente no Brasil a partir da criação das políticas dos fundos contábeis, inicialmente com o FUNDEF, na medida em que se passou a atuar com base na redistribuição de recursos: A política de fundos contábeis inaugurada com a criação do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério (Fundef), em 1996, representou uma forte mudança no padrão de financiamento da educação básica no país, no que se refere à distribuição de responsabilidades federativas pela oferta educacional, bem como quanto ao padrão de gasto por estudante nas redes de ensino municipais e estaduais. Desde então, consolidou-se um processo de transferência para os municípios das matrículas estaduais no ensino fundamental e daquelas ainda remanescentes na educação infantil, de tal forma que a participação da rede municipal na matrícula pública da educação básica saiu de um patamar histórico de 38%, em 1996, passando a 53%, em 2007, primeiro ano de vigência do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb), chegando a 62%, em 2023, já na vigência do Fundeb permanente. Cabe ainda acrescentar que, embora generalizado, esse 5 processo de municipalização foi mais intenso nos estados e municípios mais pobres, aumentando os desafios de ampliação do atendimento, especialmente na educação infantil. Por outro lado, com o Fundeb vigente de 2007 a 2020, graças à ampliação efetiva da complementação federal (promessa descumprida pela União no Fundef), os dados apontam para uma maior equalização dos valores de gastos por estudante, seja no interior dos estados, sejaentre as unidades da federação. (Farenzena; Pinto, 2024, p. 2) A partir da referida citação, podemos inferir, de maneira simples, que o FUNDEB tem como missão a equalização dos recursos, de modo a dar a cada município, de acordo com as suas necessidades, redistribuir. Ou seja, um município pode até arrecadar mais impostos, mas tem menos estudantes matriculados e receberá, por meio do Fundo, um valor menor do que um município que arrecade menos, mas tenha maior necessidade de recursos para a manutenção da sua rede de ensino, de acordo com o número de estudantes que precisa atender. É necessário, neste ponto, fazer referência à Lei Complementar n. 101/2000 (Brasil, 2000), denominada comumente de Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), que estabelece normas de finanças públicas voltadas para a responsabilidade na gestão fiscal. De acordo com esta lei, no art. 1º, parágrafo 1º: A responsabilidade na gestão fiscal pressupõe a ação planejada e transparente, em que se previnem riscos e corrigem desvios capazes de afetar o equilíbrio das contas públicas, mediante o cumprimento de metas de resultados entre receitas e despesas e a obediência a limites e condições no que tange a renúncia de receita, geração de despesas com pessoal, da seguridade social e outras, dívidas consolidada e mobiliária, operações de crédito, inclusive por antecipação de receita, concessão de garantia e inscrição em Restos a Pagar. Como podemos observar pelo que é prescrito legalmente, planejamento e transparência nas ações, cumprimento de metas com equilíbrio nas contas públicas, respeito aos limites percentualmente estabelecidos são fundamentais quando se trata de operações que transitam na esfera pública, em todos os setores, inclusive no educacional. A respeito do FUNDEB, todo recurso que é gerado é redistribuído para ser aplicado exclusivamente na manutenção e no desenvolvimento da educação básica da rede pública de ensino, bem como na valorização dos profissionais da educação, incluindo a questão salarial. Além dos impostos e das transferências constitucionais dos municípios, estados e Distrito Federal, integram o Fundo os 6 recursos provenientes da União, como complementação para atingir o valor mínimo necessário por aluno/ano. De acordo com o MEC: A contribuição da União neste novo Fundeb sofrerá um aumento gradativo, até atingir o percentual de 23% (vinte e três por cento) dos recursos que formarão o Fundo em 2026. Passará de 10% (dez por cento), do modelo do extinto Fundeb, cuja vigência se encerrou em 31 de dezembro de 2020, para 12% (doze por cento) em 2021; em seguida, para 15% (quinze por cento) em 2022; 17% (dezessete por cento) em 2023; 19% (dezenove por cento) em 2024; 21% (vinte e um por cento) em 2025; até alcançar 23% (vinte e três por cento) em 2026. Os investimentos realizados pelos governos dos Estados, Distrito Federal e Municípios e o cumprimento dos limites legais da aplicação dos recursos do Fundeb são monitorados por meio das informações declaradas no Sistema de Informações sobre Orçamentos Públicos em Educação (Siope), disponível no sítio do FNDE, no endereço eletrônico: Siope — Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação. (Brasil/MEC, 2025) Na medida em que temos conhecimento da importância do financiamento na educação e buscamos saber como funciona o FUNDEB, como se dá a arrecadação e redistribuição dos recursos que são aplicados na área educacional, precisamos agora conhecer alguns programas de financiamento federal atualmente desenvolvidos em busca da ampliação da qualidade do ensino no nosso país. TEMA 3 – PROGRAMAS DE FINANCIAMENTO FEDERAL Atualmente, vários programas e ações em âmbito federal se voltam ao atendimento de diversas necessidades da rede educacional pública, como questões relacionadas a merenda, transporte e infraestrutura das escolas. Você pode conhecer detalhadamente cada um desses programas acessando o site do MEC em: . 7 Vamos conhecer aqui algumas dessas ações e programas, que vinculam recursos federais e que podem ser desenvolvidos pelos estados e municípios? 1) Programa Caminho da Escola: é destinado aos estudantes de áreas rurais e regiões ribeirinhas das escolas públicas da Educação Básica. Visa possibilitar o acesso e a permanência deste público na escola. Oferece transporte escolar por meio de ônibus, bicicletas ou embarcações. 2) PNAE – Programa Nacional de Alimentação Escolar: destinado aos estudantes matriculados em todas as etapas e modalidades da educação básica da rede pública de ensino municipal, estadual, distrital, federal e de instituições qualificadas como filantrópicas ou por elas mantidas em escolas confessionais sem fins lucrativos e em escolas comunitárias conveniadas. O programa visa à formação de hábitos saudáveis de alimentação, além de acompanhamento nutricional durante todo o ano letivo. 3) PDDE – Programa Dinheiro Direto na Escola: este programa visa à melhoria da infraestrutura das escolas. Por meio dele, são destinados recursos às instituições anualmente, em caráter suplementar. O programa busca atender às necessidades prioritárias das instituições escolares, garantir seu funcionamento e permitir melhorias na infraestrutura física e na parte pedagógica. Além disso, o programa incentiva a autogestão e a participação da comunidade nas definições que interferem no funcionamento de cada instituição. 8 4) PROINFÂNCIA – Programa Nacional de Reestruturação e Aquisição de Equipamentos para a Rede Escolar Pública de Educação Infantil: este programa visa o acesso das crianças às creches e pré-escolas, além da garantia de infraestrutura nos estabelecimentos. Por meio do programa, é oferecida assistência técnica e financeira para construção dos prédios escolares. Também auxilia na aquisição de mobiliário e equipamentos que enriqueçam a qualidade do trabalho desenvolvido com esta faixa etária: mesas, cadeiras, geladeiras, bebedouros etc. 5) PNLD – Programa Nacional do Livro e do Material Didático: por meio desse programa, são disponibilizadas obras didáticas, pedagógicas e literárias, ocorrendo periodicamente e de forma gratuita. Podem participar do programa as escolas da rede pública e as instituições federais que tenham aderido à proposta do governo federal. Os materiais adquiridos chegam diretamente às mãos dos estudantes e dos professores das escolas para enriquecer o trabalho pedagógico desenvolvido. 6) PBLE – Programa Banda Larga nas Escolas: o programa prevê o atendimento de todas as escolas nas etapas do Ensino Fundamental e Ensino Médio, além de instituições de ensino públicas voltadas à formação de professores. O acesso para as instituições escolares urbanas é automático e realizado por meio do controle do censo escolar. A implementação do programa é realizada em conjunto pelo FNDE, ANATEL e Secretarias de Educação. 7) PROINFO – Programa Nacional de Informática na Educação: objetiva incentivar o uso pedagógico das tecnologias da informação e da comunicação nas escolas de Educação Básica do nosso país. O programa se destina a atender professores e estudantes da rede pública. É necessário que as secretarias de educação estaduais ou municipais realizem o cadastro para adesão ao programa, que dará a possibilidade de aquisição de equipamentos de informática a serem utilizados nas instituições escolares. Você já conhecia esses programas desenvolvidos pelo MEC e que podem ter a adesão de estados e municípios da rede pública de ensino? É necessário que as secretarias de educação também conheçam os programas, editais, prazos e façam a adesão para que possam participar. É preciso conhecimento a 9 respeito das possibilidades existentes; só assim podemos utilizar ao máximo os recursos na direção da melhoria da qualidade da educação. TEMA4 – PARCERIAS PÚBLICO-PRIVADAS NA EDUCAÇÃO: LIMITES E POSSIBILIDADES LEGAIS Na busca pela melhoria da qualidade da educação ofertada em nosso país, inúmeras práticas e discursos têm se manifestado, hoje em dia, na direção da parceria público-privada. As parcerias entre os setores público e privado são reconhecidas como uma possível opção para a prestação de serviços na área educacional. Patrinos, Barrera-Osorio e Guáqueta (2009), dentre outros autores, demonstram que os serviços podem variar desde a construção, gestão e manutenção dos espaços até a execução pedagógica de fato. (Fernandez et al., 2019, p. 289) Este é um tema bastante polêmico, pois expressa com muita força toda a contraditoriedade presente na sociedade capitalista, contraditoriedade esta manifestada nos interesses antagônicos que se colocam na relação capital/trabalho. Dito de outra maneira, em determinados contextos, os interesses da esfera privada podem ser opostos aos interesses da esfera pública. Neste sentido, há que se ter cuidado no âmbito das políticas públicas com o desenvolvimento de parcerias público-privadas: As parcerias público-privadas (PPPs) são um instrumento de política pública de um Estado neoliberal, especificamente determinadas pela lógica da acumulação de capital, apontando no sentido da ideologia da privatização e terceirização, elementos fundantes do neoliberalismo. (Mazetto, 2015, p. 1) Você conhece alguma iniciativa no campo das políticas educacionais, na região onde reside ou trabalha, que se desenvolva na forma de parceria entre os setores público e privado? Se sua resposta for sim, poderá buscar mais informações a respeito, além de aprofundar os estudos que nos dão base teórica para confrontar os dados da realidade e buscar compreender para qual caminho tal prática da parceria pode estar se dirigindo. Caso sua resposta seja não, ainda há a possibilidade de vir a conhecer mais a esse respeito e aprimorar seu entendimento sobre esta temática tão presente atualmente. 10 Com vistas ao aprofundamento deste assunto, trazemos aqui a citação de Aranha e Oliveira (2023, p. 8), que explicam que a parceria pode servir a diferentes objetivos e formalizar-se por diferentes instrumentos jurídicos: a. Forma de delegação da execução de serviços públicos a particulares, pelos instrumentos da concessão e permissão de serviços públicos, ou das parcerias público-privadas (concessão patrocinada e concessão administrativa, criadas pela Lei n. 11.079, de 30-12-2004); e por meio do contrato de gestão com organizações sociais, quando estas prestam serviço público; b. Meio de fomento à iniciativa privada de interesse público, efetivando- se por meio de convênio, contrato de gestão, termo de parceria, termo de colaboração, termo de fomento ou acordo de cooperação; c. Forma de cooperação do particular na execução de atividades próprias da Administração Pública, pelo instrumento da terceirização (contratos de prestação de serviços, obras e fornecimento, sob a forma de empreitada regida pela Lei n. 8.666, de 21-6-1993, ou de concessão administrativa, regida pela Lei n. 11.079/2004); d. Instrumento de desburocratização e de instauração da chamada Administração Pública gerencial, por meio dos contratos de gestão. Para suscitar a discussão sobre o tema, lembramos uma passagem famosa da obra clássica de literatura Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, quando a personagem Alice, perdida em frente a uma bifurcação na estrada, pergunta para o gato qual caminho seguir. O gato responde-a indagando: — Para onde quer ir? Se trouxermos a reflexão sobre este trecho da literatura para o debate a respeito da parceria público-privada, podemos sair apenas da constatação de ser a favor ou contra e pensar para qual direção esta parceria está nos levando? Se for para a direção da privatização e da terceirização dos serviços públicos ou mesmo a utilização desta estratégia para fortalecer o discurso de que o serviço público é ineficiente, talvez não estejamos no caminho certo. A respeito das possibilidades legais das parcerias público-privadas, destaca-se a lei das concessões, que: […] em 1995, foi implantada a Lei Federal n. 8.987 (Lei das Concessões), que se refere à prestação de serviços públicos por parte de um agente do setor privado por tempo determinado, selecionado por meio de processo licitatório, e que permite a alocação dos riscos do projeto tanto ao governo quanto ao setor privado. Sequencialmente, em 30 de dezembro de 2004, foi assinada a Lei Federal n. 11.079, que institui normas gerais para licitação e contratação de PPPs no âmbito da administração pública. Trata-se de uma ampliação do modelo de concessão, na qual, para viabilizar empreendimentos públicos que não seriam economicamente viáveis apenas pela cobrança de tarifas dos usuários, o poder público passa a ser responsável, em parte ou no todo, pelo pagamento ao privado de um montante que remunere tanto 11 os investimentos realizados quanto sua operação. A possibilidade de pagamento ao privado diretamente pelo setor público permitiu que serviços pelos quais o usuário não paga tarifas também passassem a ser objeto de contratos de longo prazo, as chamadas concessões administrativas. (Fernandez et al., 2019, p. 391) A modalidade destacada por Fernandez (2019) diz respeito ao estabelecimento da relação de concessão entre o poder público e a iniciativa privada, com a seguinte compreensão: […] o Estado conserva a titularidade do bem público, mas transfere a sua execução para o ente privado. Nessa perspectiva, o ente público atuaria como um regulador e fiscalizador do serviço prestado pelo setor privado. É importante destacar que o termo parceria entre ente público e setor privado é tratado de modo mais abrangente por uma gama de autores que estudam a participação desse último setor na prestação de serviços educacionais. Conforme Borghi, Adrião e Garcia (2011), Adrião et al. (2012), Domiciano (2011) e Peroni (2012; 2013a; 2013b), essas parcerias consistem em associações entre os referidos setores para o desenvolvimento de um projeto ou para a prestação de um serviço que era tipicamente executado pelo estado. (Fernandez et al., 2019, p. 392) Finalizamos este tópico considerando as possibilidades legais para o estabelecimento de parcerias público-privadas na educação, mas, ao mesmo tempo, levando em consideração os limites dessa estratégia no seio das determinações da organização social atual no Brasil, perpassada pela ideologia neoliberal. É preciso ter muito cuidado, pois a parceria público-privada necessita ser compreendida em sua complexidade e exige um arcabouço teórico consistente que possibilite a apreensão crítica deste processo no campo das políticas educacionais. TEMA 5 – CONTROLE SOCIAL DO FINANCIAMENTO: CONSELHOS DE ACOMPANHAMENTO E FISCALIZAÇÃO Após conhecer o que é o FUNDEB (Fundo Nacional de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação) e compreender sua importância para a manutenção e desenvolvimento das redes públicas de ensino no Brasil, vamos tratar sobre o controle social do financiamento. É importante saber que existem mecanismos que possibilitam o acompanhamento e a fiscalização de todo o processo voltado para a implementação de políticas públicas, principalmente do financiamento delas, já que se trata de destinação de verbas públicas para a área da educação. 12 Quando se trata do controle social do financiamento de políticas públicas na educação, o INEP (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira) é o órgão do governo responsável por publicar estudos e indicadores que orientem a distribuição dos recursos do FUNDEB, desde que aprovados pela Comissão Intergovernamental de Financiamento da Educação Básica de Qualidade. Uma vez que os dados sejam publicizados, para serpossível realizar a análise dos resultados apresentados, ressaltamos a importância de parâmetros confiáveis que permitam compreender o que os números expressam, de modo que seja possível estabelecer os caminhos a serem seguidos a partir da avaliação realizada. Dentre os parâmetros existentes e confiáveis na atualidade, destacamos o CAQ (Custo Aluno Qualidade). O CAQ está previsto em estratégias da meta 20 do Plano Nacional de Educação (PNE, Lei n. 13.005/2014) e deveria ser implementado de forma gradual, por meio do estabelecimento do Custo Aluno Qualidade Inicial (CAQi) para se chegar ao CAQ. “A ideia do CAQi é estabelecer valores que garantam os insumos materiais mínimos e condições de trabalho necessárias para que os/as professores/as possam ensinar e os estudantes possam aprender” (FINEDUCA, 2023, p. 6). Ficou curioso e quer saber mais a respeito do CAQ? Por meio do SimCAQ (), um sistema computacional disponível na internet e gratuito, é possível estimar o custo da oferta de ensino em condições de qualidade. Também é interessante saber que existe o Conselho de Acompanhamento e Controle Social do FUNDEB (CACS-FUNDEB), que é um colegiado com a função de acompanhar e controlar a distribuição, a transferência e a aplicação dos recursos do Fundo nas esferas municipais, estaduais e federal. E qual a real importância deste monitoramento e controle social dos dados do financiamento em educação? Respondemos a esta questão em concordância com o posicionamento a seguir: Nota-se que as gestoras e gestores estaduais e municipais terão em mãos um sólido instrumento para planejar e avaliar o atendimento educacional e para a definição de políticas de cooperação federativa no setor. Por sua vez, os órgãos de controle estatal — como Ministérios Públicos, Tribunais de Contas, parlamentos — e de controle social — como conselhos de acompanhamento e controle social e de educação —, comunidades escolares e diversas outras instâncias terão em mãos parâmetros mais concretos para fiscalizar, controlar e monitorar o atendimento nas diversas dimensões educacionais. (FINEDUCA, 2023, p. 16) 13 Concluímos este tópico com destaque para a importância do papel do controle social do financiamento da educação. Gestores e gestoras (municipais e estaduais); órgãos de controle estatal (Ministério Público, Tribunal de Contas, Câmara de Vereadores, Câmara de Deputados, Senado); Conselhos de Acompanhamento e Controle Social (como o CACS-FUNDEB); os Conselhos de Educação (municipais, estaduais e nacional) e os Conselhos Escolares são todos fundamentais para monitorar o processo de busca pela melhoria da qualidade da educação no Brasil. Assim, cada um de nós, exercendo a cidadania, deve participar ativamente da sociedade em que vivemos e acompanhar as discussões a respeito do que tem sido definido e implementado na área do financiamento educacional. NA PRÁTICA Para colocar em prática os conhecimentos desta etapa, propomos que você busque saber mais sobre os programas educacionais que podem ser desenvolvidos nos municípios de todo o país a partir do que é ofertado pelo governo federal, conforme vimos no tópico 3 desta etapa. Vamos lá? Siga estes passos: 1) Acesse o site do MEC: . 2) Escolha um dos programas apresentados no site do MEC que seja desenvolvido também no município onde você reside. Para fazer isso, pode averiguar as informações no site da Secretaria de Educação do seu município, fazer uma busca na internet ou até visitar a própria secretaria ou uma escola pública da Educação Básica e solicitar informações. 3) Registre o que descobrir: qual é o programa? Desde quando está sendo desenvolvido no local? Quais têm sido os benefícios? E outros aspectos que considerar importantes. 4) Registre, na forma de texto, tudo o que descobriu e envie no link tutoria da disciplina. Ficaremos contentes em saber mais sobre os programas educacionais desenvolvidos na sua região e que você aproveitou o conteúdo desta etapa. 14 FINALIZANDO Esta etapa abordou um tema muito importante para quem se interessa por educação: o financiamento. A respeito do financiamento, vimos o que é o FUNDEB (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação) e seu papel fundamental na redistribuição de recursos para a manutenção e o desenvolvimento da qualidade da educação nas escolas públicas brasileiras. Também falamos sobre o orçamento público para a área educacional, ressaltando a lei de responsabilidade fiscal e a definição de percentuais constitucionais para o investimento neste campo. A partir do desenvolvimento das políticas públicas na educação, indicamos que há programas desenvolvidos pelo governo federal (MEC), dos quais podem participar estados e municípios, por adesão. Estes programas têm finalidades diversas, como investir na qualidade e no incremento da merenda escolar, ofertar transporte escolar, melhorar a infraestrutura das escolas em diferentes etapas da Educação Básica. Também abordamos um tema atual e polêmico: a questão das parcerias público-privadas, indicando alguns limites dessas propostas, bem como as principais definições legais a respeito. Finalizando esta etapa, ressaltamos a necessidade do controle social do financiamento, por meio dos Conselhos de acompanhamento e fiscalização, como é o caso do CACS-FUNDEB. Esperamos que esta etapa tenha proporcionado reflexões a respeito do financiamento na educação e da importância da participação de todos nos processos de discussão das políticas públicas, implantação, desenvolvimento e avaliação dos programas educacionais, além de não esquecer o quanto o financiamento é essencial para que as políticas educacionais se concretizem. 15 REFERÊNCIAS ARANHA, R. da S. L.; OLIVEIRA, S. S. B. de. Sistema de parceria público- privada na educação: estratégias mercantilistas para o ensino público de Manaus. Revista Brasileira de Educação, v. 28, p. e280113, 2023. FINEDUCA – Associação Nacional De Pesquisa Em Financiamento Da Educação. Campanha Nacional Pelo Direito À Educação. Fundeb com custo aluno qualidade: no caminho da justiça federativa, igualdade e qualidade na educação brasileira. Estimativas de Custo Aluno Qualidade Inicial (CAQi). Nota Técnica. Brasil: Fineduca, 2023. Disponível em: . Acesso em: 10 mar. 2025. BRASIL. Lei Complementar n. 101, de 04 de maio de 2000. Disponível em: . Acesso em: 10 mar. 2025. _____. Lei n. 14.113, de 25 de dezembro de 2020. Disponível em: . Acesso em: 10 mar. 2025. _____. MEC. Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação. Disponível em: . Acesso em: 10 mar. 2025. FARENZENA, N.; PINTO, J. M. de R. Potenciais e limites do FUNDEB para financiar as metas do Plano Nacional de Educação. Educação & Sociedade, v. 45, p. e286474, 2024. FERNANDEZ, R. N. et al. Parcerias Público-Privadas: uma alternativa para a educação brasileira. Planejamento e Políticas Públicas | PPP, n. 52, jan./jun. 2019. Disponível em: . Acesso em: 10 mar. 2025. MAZETTO, F. E. Estado, Políticas Públicas e Neoliberalismo: um estudo teórico sobre as parcerias-público-privadas. Caderno de Estudos Interdisciplinares – Edição Especial Gestão Pública e Sociedade, 2015. Disponível em: 16 .Acesso em: 10 mar. 2025.