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COMUNICAÇÃO E REALIDADE 
BRASILEIRA 
AULA 1 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Prof.ª Máira de Souza Nunes 
 
 
2 
CONVERSA INICIAL 
Nesta abordagem, veremos conceitos teóricos importantes que nos 
ajudarão a compreender a realidade atual do nosso país a partir do estudo de 
fatos importantes do passado. Quando compreendemos os processos históricos 
e culturais da formação do nosso país, descobrimos características da nossa 
identidade que são fundamentais para enfrentarmos os desafios atuais. 
Se olharmos atentamente para o mundo à nossa volta, podemos perceber 
que existe uma grande variedade de formas de existir em sociedade. Há 
variações de idioma, crenças religiosas, hábitos, vestimentas, moradias, arranjos 
familiares etc. Essa variedade está presente na comparação entre países e 
nações, mas também entre diferentes grupos sociais dentro do nosso próprio 
país, ou até mesmo da nossa cidade. 
Nesta abordagem, vamos estudar os principais aspectos da teoria da 
história e da cultura, relacionando-os aos estudos da comunicação social. 
CONTEXTUALIZANDO 
“A História de um país é, de certa maneira, sua carteira de identidade”. 
Essa frase de Lilian Schwarcz (2011, p. 14) é emblemática para entendermos 
como a nossa história é matriz de quem somos. Mesmo antes de entrarmos na 
escola e estudarmos a “história oficial”, já vivemos em uma historicidade social 
e cultural, dentro da nossa família. Nossa ancestralidade, os valores e costumes 
que aprendemos em casa, foram construídos historicamente. Viver no Brasil é 
compartilhar um conjunto de experiências que entrelaçam passado e presente. 
Como afirma Reinhart Kosellec (2012), somos seres históricos. Conhecer 
o nosso passado nos permite compreender nossa história a partir não apenas 
de grandes eventos políticos, mas também por meio de nossa cultura, formada 
tanto por artefatos materiais quando por práticas, crenças e tradições. 
Da mesma forma, compreender os processos históricos nacionais através 
de um olhar da comunicação nos oferece um entendimento de como a cultura é 
produzida, disseminada e consumida pelos meios midiáticos massivos, 
influenciando a construção da história e da opinião pública. 
 
 
 
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TEMA 1 – CONCEITOS DE HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA 
Estamos acostumados a pensar a História como um acúmulo de 
informações sobre o passado e até mesmo a confundi-la com o próprio passado. 
A disciplina “História”, da maneira como nos é ensinada nos bancos escolares, 
pode facilmente se tornar um conhecimento “enciclopédico”, descontextualizado, 
um mero registro do que já aconteceu. 
Para mudarmos essa visão, é necessária a compreensão de que História 
é um conceito, além de um campo científico. Um conceito se diferencia da mera 
definição de uma palavra, sendo uma construção teórica sobre o vocábulo ou 
expressão. Assim, a História é uma construção, uma interpretação que nos 
auxilia a entender o mundo e dar a ele significado. O conhecimento das 
características da ciência histórica permite que os sujeitos reflitam sobre si 
mesmos e a sociedade em que vivem. 
Segundo Marc Bloch (2001), a história é uma "ciência em movimento" e o 
tempo é um componente essencial de seu objeto de estudo. Portando, 
entendemos que a história é essencialmente uma busca, e seu objeto não é 
apenas o passado, mas sim o ser humano no tempo. Assim, para entender a 
história, devemos ser capazes de compreender o presente pelo passado e, da 
mesma forma, o passado pelo presente. 
Por isso, Le Goff (1990, p.11), define a História como a “ciência da 
mutação e da explicação da mudança”, sendo o seu principal objetivo a 
compreensão dos processos históricos, da ação humana, com o entendimento 
de como os diferentes grupos de pessoas estabelecem relações entre si ao longo 
do tempo. 
Sabemos que o nascimento da História ocorreu em tempos remotos, mas 
foi durante a chamada Antiguidade Clássica que a ciência histórica se definiu 
como um “testemunho”, uma “indagação” sobre a realidade, diferente das 
ciências naturais, que seriam uma “construção” ou “observação” da realidade. 
Os antigos preocupavam-se pouco com o passado, e muito mais com sua 
capacidade de explicar o presente. Eles criavam a sua “história da humanidade” 
a partir da história de seu povo, seu governo e suas cidades. Segundo o 
historiador Jacques Le Goff (1990), quase todos os historiadores da Antiguidade 
consideram a escrita histórica ligada à arte retórica. 
 
 
4 
No século XIX, marcado pelo desenvolvimento da ciência histórica como 
a conhecemos hoje, manteve-se a estrutura narrativa em forma de relato, agora 
com base em fontes documentais. Ao reunir documentos escritos e transformá-
los em vestígios, tornou-se possível ultrapassar a limitação da construção 
histórica apenas pelo depoimento oral daqueles que presenciaram os 
acontecimentos históricos. Havia um grande esforço para constituir da História 
uma ciência, estabelecendo suas leis e seu arcabouço, a partir da constituição 
de arquivos e bibliotecas. 
A ciência, em geral, diferencia-se dos outros campos de conhecimento 
por seus procedimentos sistemáticos e pela necessidade da existência de regras 
de comprovação para todas as afirmações de verdade científica. Enquanto uma 
forma de conhecimento explicativo, a ciência é sistemática. Baseia-se na 
observação controlada da realidade e na aferição de explicações sobre os 
fenômenos estudados. 
As ciências humanas, por sua vez, estão baseadas na ideia de 
“compreensão” do significado das ações humanas a partir de alguns preceitos 
de pesquisa: questionamento, observação, elaboração de conceitos e 
proposições. 
O que caracteriza de maneira efetiva a pesquisa histórica é o fato de que, 
apesar de estudar fenômenos sociais, como as outras ciências humanas, este 
estudo visa a compreensão dos fatos sociais sempre em relação com o seu 
comportamento no tempo. Assim, a História produz seus modelos explicativos 
por meio de uma metodologia científica que estabelece uma prática sujeita a 
regras. 
A historiografia, como resultado dessa prática científica, não é capaz de 
reproduzir o mundo, mas sim de propor modelos para seu melhor entendimento. 
Nesse sentido, a tentativa de construção de uma “história total”, entendida como 
história completa de tudo o que aconteceu ou a reconstrução íntegra do passado, 
não é possível. 
Segundo Jörn Rüsen (2010), é impossível separar a história da vida 
prática. Quando ocorre essa separação, a história é desvinculada do interesse 
das pessoas, resultando na perda do desejo de aprender sobre ela. Assim, é 
fundamental desenvolver consciência histórica, o que permite utilizar a História 
para compreender nosso mundo presente e moldar um futuro melhor. 
 
 
5 
TEMA 2 – CULTURA E ETNOGRAFIA 
Para compreender o conceito de cultura e sua formação ao longo do 
tempo, precisamos nos lembrar de que o desenvolvimento dos grupos humanos 
em sociedade ocorreu por meio da ocupação territorial em todo o planeta. 
Entretanto, essa ocupação não foi uniforme, pois "territórios diferentes foram 
ocupados de modo diferente por populações diferentes" (Santos, 1987, p. 9). 
Essa diversidade também se reflete no desenvolvimento das culturas 
humanas. A antropologia, campo de estudo das culturas, oferece mais de 160 
definições teóricas para o termo. Aqui trabalharemos com a noção de que a 
cultura pode ser compreendida como um conjunto de como ideias, crenças, 
valores, normas, atitudes, padrões de conduta, abstração do comportamento, 
institui//ções, técnicas e artefatos (Marconi; Presotto, 2010, p. 24). 
Para complementar essa conceituação e aproximá-la do campo da 
Comunicação, partimos do conceito proposto por Raymond Williams (1992, p. 
13), que define cultura como um "sistema de significações mediante o qual uma 
dada ordem social é comunicada, reproduzida, vivenciada e estudada". Dessa 
forma, a cultura representa tantoum modo de vida envolvido em todas as formas 
de atividade social quanto as atividades artísticas e intelectuais, consideradas 
práticas significativas (linguagem, artes, filosofia, jornalismo, moda, publicidade 
etc.) (Williams, 1992). 
A cultura não é estática, mas está em constante mudança, sendo 
influenciada por eventos e experiências vividas pelos indivíduos. As mudanças 
de valores ao longo do tempo e a absorção de aspectos de outras culturas 
através do contato são fenômenos comuns. No Brasil, a cultura é resultado da 
interação entre diversas influências, desde a colonização até a chegada de 
imigrantes de várias origens. No entanto, a evolução cultural foi marcada pela 
exclusão social, levando a uma diferenciação na evolução cultural para 
diferentes grupos sociais. 
O estudo da cultura pode ser conduzido por meio de diferentes 
referenciais teóricos e procedimentos metodológicos. A Etnografia, definida 
como "um dos ramos da ciência da cultura que se preocupa com a descrição das 
sociedades humanas" (Marconi; Presotto, 2010, p. 5), baseia-se na observação 
do outro, na compreensão do diferente na alteridade, visando entender suas 
 
 
6 
características. A etnografia é concebida tanto como um referencial teórico 
quanto como um procedimento metodológico. 
Nesse contexto, é pertinente desenvolver uma postura etnográfica em 
relação à diversidade cultural, tanto para a nossa ação em sociedade quanto 
para os nossos estudos sobre cultura e comunicação. A análise dos fenômenos 
sociais a partir de um viés etnográfico nos possibilita compreender 
subjetividades e práticas culturais diferentes das nossas, o que nos ajuda a 
perceber a realidade social em seus diversos contextos e interpretações. 
James Clifford (2002, p. 35) argumenta que o viés etnográfico deve ser 
entendido em conjunto com um debate político e epistemológico sobre a 
representação da alteridade. Ele sugere que "o ato de compreender os outros 
inicialmente deriva do simples fato da coexistência num mundo que é partilhado". 
Assim, torna-se evidente a importância do estudo de diversas culturas para 
ampliar e aprofundar nosso entendimento sobre o mundo e as relações que se 
estabelecem entre indivíduos diferentes. 
TEMA 3 – CIVILIZAÇÃO, BARBÁRIE E ETNOCENTRISMO 
Assim como o conceito de cultura, o conceito de civilização também tem 
uma história própria. Sua análise é importante para compreender a produção de 
discursos sobre progresso e desenvolvimento, bem como a visão que nós 
brasileiros temos sobre nós mesmos. 
De acordo com Jean Starobinski (2001, p. 14), o verbo "civilizar" já era 
utilizado no século XVI, com o significado de "tornar os costumes e maneiras dos 
indivíduos mais civilizados e brandos". O termo "civilização" passou a 
representar diversas ideias, como o abrandamento dos costumes, a educação 
dos espíritos, o desenvolvimento da cortesia, a cultura das artes e ciências, o 
crescimento do comércio e da indústria, e a aquisição de confortos materiais e 
luxo. Essa concepção está intimamente relacionada com a noção de progresso. 
Norbert Elias (1994) argumenta que o processo civilizador envolve não 
apenas a educação, mas também o controle psicológico dos impulsos. 
Sentimentos de vergonha e inadequação, resultantes das normas de convívio 
social, gradualmente levam os indivíduos a se tornarem civilizados. O autor 
afirma: 
O conceito de civilização refere-se a uma grande variedade de fatos: 
ao nível da tecnologia, ao tipo de maneiras, ao desenvolvimento de 
 
 
7 
conhecimentos científicos, às ideias religiosas e aos costumes. Pode-
se referir ao tipo de habitações ou à maneira como os homens e 
mulheres vivem juntos, à forma de punição determinada pelo sistema 
judiciário ou ao modo como são preparados os alimentos. (Elias, 1994, 
p. 23) 
Entretanto, acima de tudo, esse conceito “expressa a consciência que o 
Ocidente tem de si mesmo”, o motivo pelo qual a sociedade ocidental se 
considera superior às sociedades mais antigas ou menos desenvolvidas, pois 
representa “o nível da sua tecnologia, a natureza de suas maneiras, o 
desenvolvimento de sua cultura científica ou visão de mundo e muito mais” 
(Elias, 1994, p. 23). 
Além de representar a cultura ocidental, o conceito de civilização também 
representa um ideal de progresso, muito forte na modernidade do século XIX. “O 
trabalho e a produção passam a ser o ideal da época, e logo depois o seu ídolo. 
Toda a Europa vestiu roupa de trabalho. Assim, as dominantes da civilização 
passaram a ser a consciência social, as aspirações educacionais e o critério 
científico” (Huizinga, 1999, p. 137). 
Para Johan Huizinga (1999), uma civilização só pode ser considerada 
quando atende a três requisitos básicos: domínio da natureza física, equilíbrio 
entre o domínio humano e o progresso técnico sobre a natureza física, e 
existência de um ideal comum entre uma época e/ou um povo. 
Assim, a civilização é entendida como uma etapa do desenvolvimento 
enraizada na cultura de um povo, abrangendo relações sociais, religião, arte, 
economia, domínio de técnicas, entre outros aspectos. Sua formação é um 
processo longo e gradual, o que é influenciado por fatores como recursos 
naturais, clima, riquezas, poder, conhecimento, domínio militar e estilo de vida 
da população, entre outros. 
Portanto, o processo civilizador está intimamente ligado à consolidação 
da classe dominante, que buscava construir uma identidade a partir de sua 
própria visão de progresso. Tanto a concepção de cultura quanto a de civilização 
são partes essenciais da construção social das relações históricas, evidenciando 
a dominação de uma sociedade eurocêntrica, que subjugava e ignorava a cultura 
e os costumes de outros povos considerados inferiores. 
Eurocentrismo é, aqui, o nome de uma perspectiva de conhecimento 
cuja elaboração sistemática começou na Europa Ocidental antes de 
meados do século XVII, ainda que algumas de suas raízes são sem 
dúvida mais velhas, ou mesmo antigas, e que nos séculos seguintes 
se tornou mundialmente hegemônica percorrendo o mesmo fluxo do 
domínio da Europa burguesa. Sua constituição ocorreu associada à 
 
 
8 
específica secularização burguesa do pensamento europeu e à 
experiência e às necessidades do padrão mundial de poder capitalista, 
colonial/moderno, eurocentrado, estabelecido a partir da América. 
(Quijano, 2005, p. 115). 
A concepção eurocêntrica de civilização remete diretamente à ideia de 
barbárie. Entendendo que a palavra “bárbaro” se referia, incialmente, a todo 
estrangeiro, compreendemos como o termo foi se constituindo como referente a 
todo não europeu. A barbárie se torna um atributo de povos atrasados, não 
civilizados, selvagens. A história do progresso apresenta a Europa como líder da 
evolução humana e os demais povos como seus seguidores. 
A partir do século XIX, a barbárie assume formas mais contraditórias, 
refletindo uma "barbárie civilizada", marcada por desigualdade e opressão 
social, evidenciando a capacidade humana de criar em diferentes contextos. Na 
visão dos intelectuais europeus modernos, os bárbaros não seriam apenas os 
povos não europeus, colonizados, mas também a classe trabalhadora e 
periférica que habitava as grandes cidades. A tarefa de civilizar torna-se, então, 
a tarefa de educar essa população. 
A importância de não hierarquizar a história e cultura de diferentes povos 
é fundamental para evitar uma postura etnocêntrica, ou seja, a valorização da 
nossa própria cultura com comparação a outras, consideradas inferiores. 
Segundo José Carlos de Paula Carvalho (1997, p. 181): 
O etnocentrismo consiste em privilegiar um universo de 
representações propondo-o como modelo e reduzindo à insignificância 
os demais universos e culturas “diferentes”. De fato, trata-se de uma 
violência que, historicamente, não só se concretizou por meio da 
violência física contida nas diversas formas de colonialismos, mas, 
sobretudo,disfarçadamente por meio daquilo que Pierre Bourdieu 
chama “violência simbólica”, que é o “colonialismo cognitivo”. 
Ao longo da história, a supremacia cultural europeia foi usada como 
desculpa para a colonização das Américas, da África e da Ásia. Da mesma 
forma, a colonização feita por meio dos produtos culturais comercializados em 
todo o mundo tende a resultar em uma padronização que acaba por eliminar a 
diversidade cultural. Há também a relação social composta pelas subculturas, 
muitas relacionadas ao poder aquisitivo. Dessa forma, percebemos que o 
etnocentrismo é algo bastante presente nas sociedades ocidentais, e que 
precisa ser evitado e desconstruído, possibilitando a formação de uma 
consciência para a alteridade. 
 
 
 
9 
TEMA 4 – TIPOS DE CULTURA 
A ideia de cultura surgiu como uma prática relacionada ao cultivo agrícola: 
“conduzir o trigo à maturidade”. Esse sentido de cuidado e cultivo manteve-se 
até o princípio do século XVIII, período no qual a ideia de cultura passa a estar 
relacionada ao desenvolvimento intelectual da pessoa. “Cultura” normalmente se 
referia ao conhecimento em geral, fosse artístico, literário ou musical (Williams, 
2012). Até hoje, consideramos “culta” uma pessoa que tem amplo conhecimento 
sobre diferentes assuntos. 
Ainda no século XVIII, podemos perceber dois movimentos na definição e 
no estudo da cultura: cultura popular e cultura erudita. Os primeiros 
pesquisadores da cultura popular foram intelectuais europeus interessados em 
recuperar canções tradicionais ou histórias da sabedoria popular. Surgiu, então, 
o folclore (folklore, em inglês), presente em obras como as dos Irmãos Grimm 
(autores dos nossos conhecidos contos de fada). Esse movimento se propôs a 
coletar elementos da tradição oral em vários países da Europa, criando um vasto 
repertório de cantigas, baladas, contos, cerimônias, provérbios e superstições 
que representavam a tradição de camponeses, aldeões e trabalhadores 
urbanos. 
Assim, entendemos a cultura popular uma cultura anônima produzida 
pelas “pessoas comuns”. Diferentemente da cultura erudita, que é transmitida 
pela leitura e escrita ou por instituições oficiais, a cultura popular é geralmente 
transmitida pelos costumes e pela oralidade. Por isso, na hierarquia cultural, 
costuma ser considerada vulgar, inferior e simplória. É quase sempre identificada 
por folclore e artesanato (Sesi, 2007). 
A cultura erudita, por sua vez, representava o “espírito cultivado pela 
instrução”. Para os iluministas, a cultura estava relacionada aos saberes 
acumulados ao longo da história, sendo também um sinônimo de progresso, 
razão e educação (Canedo, 2009). Essa visão persistiu ainda no século XIX, 
período no qual a cultura estava relacionada com a história das civilizações, 
sendo uma forma de desenvolvimento humano. As diferenças culturais dos 
povos seriam explicadas por seu “progresso” ou “atraso” em termos de 
civilização. Outra visão recorrente na época era a de que a cultura representaria 
“o espírito de um povo”, sendo a base do nacionalismo. 
 
 
10 
Atualmente, a cultura erudita é identificada pelo conhecimento de autores 
e artistas clássicos, cuja produção é conservada e difundida por instituições 
oficiais, como universidades, conservatórios, bibliotecas e museus. É tida como 
a cultura da elite, uma vez que nem todos têm acesso a esses bens. 
Um conceito fundamental estabelecido pelos teóricos frankfurtianos é o 
de “indústria cultural”, em referência “à conversão da cultura em mercadoria, ao 
processo de subordinação da consciência à racionalidade capitalista, ocorrido 
nas primeiras décadas do século XX” (Rüdiger, 2001, p. 138). 
O conceito nomeia uma prática e uma forma de produção que transforma 
os produtos culturais em mercadorias a serem consumidas, interferindo nos 
processos de consciência e subjetividade. A cultura de massa, definida como 
aquela veiculada pelos meios de comunicação de massa, como rádio, televisão, 
jornais e revistas, representa forma como consumimos produtos industrializados 
de uma cultura que banaliza e padroniza elementos das culturas popular e 
erudita, a fim de torná-los mais aptos ao consumo das massas. Para os autores, 
mais do que democratizar a cultura, esse processo de padronização geraria 
manipulação e alienação. 
Uma visão menos negativa dos produtos da indústria cultural foi 
desenvolvida pelos teóricos da Escola de Birmingham, organizada nos anos 
1950-1960, na Inglaterra. A fundação dos chamados “Estudos Culturais 
Britânicos” inaugurou uma nova abordagem sobre a cultura popular e os meios 
de comunicação de massa, desenvolvendo importantes pesquisas sobre a 
cultura operária, a cultura jovem e a recepção dos produtos culturais de massa, 
como novelas, filmes e programas de rádio. 
Como um desdobramento da cultura de massas, o conjunto de técnicas, 
tecnologias e práticas culturais desenvolvidos a partir da segunda metade do 
século XX deu origem ao que chamamos hoje de cibercultura, definida por André 
Lemos (2005, p. 1) como “as relações entre as tecnologias informacionais de 
comunicação e informação e a cultura, emergentes a partir da convergência 
informática/telecomunicações na década de 1970. Trata-se de uma nova relação 
entre as tecnologias e a sociabilidade, configurando a cultura contemporânea”. 
Essa cultura contemporânea, mundial, virtual e desenvolvida no 
ciberespaço potencializa a produção, o compartilhamento, e distribuição e a 
apropriação de bens simbólicos. Nesse sentido, podemos afirmar que o 
ciberespaço representa um ambiente midiático, sendo a infraestrutura em que 
 
 
11 
ocorre a comunicação digital e também o conjunto de informações que ela 
abriga. 
Suas principais características são: interconexão dialógica, comunidades 
virtuais como espaços de cooperação e encontro, além de inteligência coletiva 
resultante de colaboração e compartilhamento. 
TEMA 5 – CULTURA E COMUNICAÇÃO 
Como vimos, ao longo desta abordagem, as relações entre cultura e 
comunicação têm sido amplamente exploradas ao longo do século XX, até os 
dias atuais, com diversas correntes teóricas, como a Escola de Frankfurt, os 
Estudos Culturais Britânicos e Latino-americanos, investigando as práticas 
culturais e sua interseção com os processos comunicacionais. 
De acordo com Martín-Barbero (1985), pensar sobre essas interseções 
implica abandonar a visão da comunicação como mero produto e transcender a 
abordagem centrada nas disciplinas e nos meios de comunicação. Isso requer 
uma ruptura com a ideia de uma "disciplina própria" e uma ampliação de análise 
para incluir as mediações, como instituições, organizações, sujeitos e diferentes 
matrizes culturais que influenciam a formação dos meios tecnológicos. 
A comunicação e a cultura desempenham papéis fundamentais na nossa 
capacidade de construir discursos comunicativos por meio de diversas 
linguagens, compartilhando-os tanto em nossas interações interpessoais quanto 
através das mídias tecnológicas. Brittos (1999) destaca que, ao analisar essa 
relação, é crucial deslocar o foco dos meios de comunicação e reconhecer que 
os receptores não são passivos diante das indústrias culturais, mas sim 
participantes ativos no processo de mediação. 
A cultura se manifesta, então, a partir de relações de comunicação que 
existem nas interações interpessoais e dos fenômenos de recepção mediados 
pelos meios de comunicação. A mediação nos processos comunicacionais 
permite integrar a comunicação como parte intrínseca da cultura, principalmente 
por meio da midiatização, entendida da seguinte forma: 
Processo pelo qual a sociedade, em um grau cada vez maior, está 
submetida a ou torna-se dependente da mídia e de sua lógica. Esse 
processo é caracterizado por uma dualidade em que os meios de 
comunicação passaram a estar integrados às operações de outras 
instituições sociais ao mesmo tempo em que também adquiriramo 
status de instituições sociais em pleno direito. Como consequência, a 
interação social – dentro das respectivas instituições, entre instituições 
 
 
12 
e na sociedade em geral – acontece através dos meios de 
comunicação. (Hjarvard, 2012, p. 64) 
Essa nova visão sobre os produtos culturais permite a estruturação do 
conceito de “cultura das mídias”, considerando a forma como os produtos 
midiáticos (televisão, cinema, publicidade, imprensa etc.) nos ajudam a forjar 
nossa identidade e nossos comportamentos sociais, fornecendo “o material com 
que muitas pessoas constroem o seu senso de classe, de etnia e raça, de 
nacionalidade, de sexualidade, de ‘nós’ e ‘eles’” (Kellner, 2001, p. 9). 
A cultura da mídia tem implicações políticas e ideológica, e não pode ser 
interpretada sem levar em consideração esses aspectos. Além de precisar ser 
analisada em contexto, é importante ver como produtos culturais midiáticos 
carregam conotações de poder e dominação que dão continuidade a valores 
hegemônicos, que podem estar presentes de maneira sutil. 
Elementos e decisões estéticas têm valores que foram codificados na 
produção de um filme, uma fotografia, ou uma campanha publicitária. Os 
produtos midiáticos ajudam no estabelecimento desses valores. Além da 
questão de classe social, outros valores passaram a ser considerados para fazer 
uma leitura crítica de produtos midiáticos. Questões acerca das representações 
de gênero e sexualidade, raças e etnias, nacionalidades, entre outros grupos 
subalternos, passaram a ser discutidas e problematizadas, buscando não 
apenas representatividade, mas também o fim dos estereótipos. 
TROCANDO IDEIAS 
Como vimos, compreender os nossos processos históricos e culturais é 
fundamental para que possamos viver e agir em sociedade. Da mesma forma, 
conhecer as relações entre a comunicação e a cultura nos permite analisar de 
que maneira a midiatização influencia nossos comportamentos, hábitos e forma 
de consumo. Observe os hábitos culturais do seu grupo de convívio. O que eles 
demonstram? Qual tipo de cultura está mais presente? 
NA PRÁTICA 
Agora vamos pensar em sua história pessoal. Converse com seus 
parentes mais velhos e identifique características da sua ancestralidade. 
Verifique documentos e hábitos que possa ter herdado e procure estabelecer 
uma relação com as noções de História e Cultura que vimos nesta abordagem. 
 
 
13 
• Você conhece as suas matrizes culturais? Tem contato com elas? 
• Há imigrantes na sua família? Qual a sua origem étnico-racial? 
• Quais são os traços culturais mais fortes que você herdou? 
• Você vivencia algum tipo de experiência religiosa? 
Com essas respostas em mãos, elabore um breve texto dissertativo-
argumentativo apresentando as suas raízes culturais, enfatizando permanências 
e mudanças que aconteceram entre seus antepassados e você. 
FINALIZANDO 
 
 
 
 
O conceito de 
História e 
Historiografia
Cultura e 
Etnografia
Civilização, 
Barbárie e 
Etnocentrismo
Tipos de 
Cultura
Cultura e 
Comunicação
 
 
14 
REFERÊNCIAS 
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