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COMUNICAÇÃO E REALIDADE BRASILEIRA AULA 1 Prof.ª Máira de Souza Nunes 2 CONVERSA INICIAL Nesta abordagem, veremos conceitos teóricos importantes que nos ajudarão a compreender a realidade atual do nosso país a partir do estudo de fatos importantes do passado. Quando compreendemos os processos históricos e culturais da formação do nosso país, descobrimos características da nossa identidade que são fundamentais para enfrentarmos os desafios atuais. Se olharmos atentamente para o mundo à nossa volta, podemos perceber que existe uma grande variedade de formas de existir em sociedade. Há variações de idioma, crenças religiosas, hábitos, vestimentas, moradias, arranjos familiares etc. Essa variedade está presente na comparação entre países e nações, mas também entre diferentes grupos sociais dentro do nosso próprio país, ou até mesmo da nossa cidade. Nesta abordagem, vamos estudar os principais aspectos da teoria da história e da cultura, relacionando-os aos estudos da comunicação social. CONTEXTUALIZANDO “A História de um país é, de certa maneira, sua carteira de identidade”. Essa frase de Lilian Schwarcz (2011, p. 14) é emblemática para entendermos como a nossa história é matriz de quem somos. Mesmo antes de entrarmos na escola e estudarmos a “história oficial”, já vivemos em uma historicidade social e cultural, dentro da nossa família. Nossa ancestralidade, os valores e costumes que aprendemos em casa, foram construídos historicamente. Viver no Brasil é compartilhar um conjunto de experiências que entrelaçam passado e presente. Como afirma Reinhart Kosellec (2012), somos seres históricos. Conhecer o nosso passado nos permite compreender nossa história a partir não apenas de grandes eventos políticos, mas também por meio de nossa cultura, formada tanto por artefatos materiais quando por práticas, crenças e tradições. Da mesma forma, compreender os processos históricos nacionais através de um olhar da comunicação nos oferece um entendimento de como a cultura é produzida, disseminada e consumida pelos meios midiáticos massivos, influenciando a construção da história e da opinião pública. 3 TEMA 1 – CONCEITOS DE HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA Estamos acostumados a pensar a História como um acúmulo de informações sobre o passado e até mesmo a confundi-la com o próprio passado. A disciplina “História”, da maneira como nos é ensinada nos bancos escolares, pode facilmente se tornar um conhecimento “enciclopédico”, descontextualizado, um mero registro do que já aconteceu. Para mudarmos essa visão, é necessária a compreensão de que História é um conceito, além de um campo científico. Um conceito se diferencia da mera definição de uma palavra, sendo uma construção teórica sobre o vocábulo ou expressão. Assim, a História é uma construção, uma interpretação que nos auxilia a entender o mundo e dar a ele significado. O conhecimento das características da ciência histórica permite que os sujeitos reflitam sobre si mesmos e a sociedade em que vivem. Segundo Marc Bloch (2001), a história é uma "ciência em movimento" e o tempo é um componente essencial de seu objeto de estudo. Portando, entendemos que a história é essencialmente uma busca, e seu objeto não é apenas o passado, mas sim o ser humano no tempo. Assim, para entender a história, devemos ser capazes de compreender o presente pelo passado e, da mesma forma, o passado pelo presente. Por isso, Le Goff (1990, p.11), define a História como a “ciência da mutação e da explicação da mudança”, sendo o seu principal objetivo a compreensão dos processos históricos, da ação humana, com o entendimento de como os diferentes grupos de pessoas estabelecem relações entre si ao longo do tempo. Sabemos que o nascimento da História ocorreu em tempos remotos, mas foi durante a chamada Antiguidade Clássica que a ciência histórica se definiu como um “testemunho”, uma “indagação” sobre a realidade, diferente das ciências naturais, que seriam uma “construção” ou “observação” da realidade. Os antigos preocupavam-se pouco com o passado, e muito mais com sua capacidade de explicar o presente. Eles criavam a sua “história da humanidade” a partir da história de seu povo, seu governo e suas cidades. Segundo o historiador Jacques Le Goff (1990), quase todos os historiadores da Antiguidade consideram a escrita histórica ligada à arte retórica. 4 No século XIX, marcado pelo desenvolvimento da ciência histórica como a conhecemos hoje, manteve-se a estrutura narrativa em forma de relato, agora com base em fontes documentais. Ao reunir documentos escritos e transformá- los em vestígios, tornou-se possível ultrapassar a limitação da construção histórica apenas pelo depoimento oral daqueles que presenciaram os acontecimentos históricos. Havia um grande esforço para constituir da História uma ciência, estabelecendo suas leis e seu arcabouço, a partir da constituição de arquivos e bibliotecas. A ciência, em geral, diferencia-se dos outros campos de conhecimento por seus procedimentos sistemáticos e pela necessidade da existência de regras de comprovação para todas as afirmações de verdade científica. Enquanto uma forma de conhecimento explicativo, a ciência é sistemática. Baseia-se na observação controlada da realidade e na aferição de explicações sobre os fenômenos estudados. As ciências humanas, por sua vez, estão baseadas na ideia de “compreensão” do significado das ações humanas a partir de alguns preceitos de pesquisa: questionamento, observação, elaboração de conceitos e proposições. O que caracteriza de maneira efetiva a pesquisa histórica é o fato de que, apesar de estudar fenômenos sociais, como as outras ciências humanas, este estudo visa a compreensão dos fatos sociais sempre em relação com o seu comportamento no tempo. Assim, a História produz seus modelos explicativos por meio de uma metodologia científica que estabelece uma prática sujeita a regras. A historiografia, como resultado dessa prática científica, não é capaz de reproduzir o mundo, mas sim de propor modelos para seu melhor entendimento. Nesse sentido, a tentativa de construção de uma “história total”, entendida como história completa de tudo o que aconteceu ou a reconstrução íntegra do passado, não é possível. Segundo Jörn Rüsen (2010), é impossível separar a história da vida prática. Quando ocorre essa separação, a história é desvinculada do interesse das pessoas, resultando na perda do desejo de aprender sobre ela. Assim, é fundamental desenvolver consciência histórica, o que permite utilizar a História para compreender nosso mundo presente e moldar um futuro melhor. 5 TEMA 2 – CULTURA E ETNOGRAFIA Para compreender o conceito de cultura e sua formação ao longo do tempo, precisamos nos lembrar de que o desenvolvimento dos grupos humanos em sociedade ocorreu por meio da ocupação territorial em todo o planeta. Entretanto, essa ocupação não foi uniforme, pois "territórios diferentes foram ocupados de modo diferente por populações diferentes" (Santos, 1987, p. 9). Essa diversidade também se reflete no desenvolvimento das culturas humanas. A antropologia, campo de estudo das culturas, oferece mais de 160 definições teóricas para o termo. Aqui trabalharemos com a noção de que a cultura pode ser compreendida como um conjunto de como ideias, crenças, valores, normas, atitudes, padrões de conduta, abstração do comportamento, institui//ções, técnicas e artefatos (Marconi; Presotto, 2010, p. 24). Para complementar essa conceituação e aproximá-la do campo da Comunicação, partimos do conceito proposto por Raymond Williams (1992, p. 13), que define cultura como um "sistema de significações mediante o qual uma dada ordem social é comunicada, reproduzida, vivenciada e estudada". Dessa forma, a cultura representa tantoum modo de vida envolvido em todas as formas de atividade social quanto as atividades artísticas e intelectuais, consideradas práticas significativas (linguagem, artes, filosofia, jornalismo, moda, publicidade etc.) (Williams, 1992). A cultura não é estática, mas está em constante mudança, sendo influenciada por eventos e experiências vividas pelos indivíduos. As mudanças de valores ao longo do tempo e a absorção de aspectos de outras culturas através do contato são fenômenos comuns. No Brasil, a cultura é resultado da interação entre diversas influências, desde a colonização até a chegada de imigrantes de várias origens. No entanto, a evolução cultural foi marcada pela exclusão social, levando a uma diferenciação na evolução cultural para diferentes grupos sociais. O estudo da cultura pode ser conduzido por meio de diferentes referenciais teóricos e procedimentos metodológicos. A Etnografia, definida como "um dos ramos da ciência da cultura que se preocupa com a descrição das sociedades humanas" (Marconi; Presotto, 2010, p. 5), baseia-se na observação do outro, na compreensão do diferente na alteridade, visando entender suas 6 características. A etnografia é concebida tanto como um referencial teórico quanto como um procedimento metodológico. Nesse contexto, é pertinente desenvolver uma postura etnográfica em relação à diversidade cultural, tanto para a nossa ação em sociedade quanto para os nossos estudos sobre cultura e comunicação. A análise dos fenômenos sociais a partir de um viés etnográfico nos possibilita compreender subjetividades e práticas culturais diferentes das nossas, o que nos ajuda a perceber a realidade social em seus diversos contextos e interpretações. James Clifford (2002, p. 35) argumenta que o viés etnográfico deve ser entendido em conjunto com um debate político e epistemológico sobre a representação da alteridade. Ele sugere que "o ato de compreender os outros inicialmente deriva do simples fato da coexistência num mundo que é partilhado". Assim, torna-se evidente a importância do estudo de diversas culturas para ampliar e aprofundar nosso entendimento sobre o mundo e as relações que se estabelecem entre indivíduos diferentes. TEMA 3 – CIVILIZAÇÃO, BARBÁRIE E ETNOCENTRISMO Assim como o conceito de cultura, o conceito de civilização também tem uma história própria. Sua análise é importante para compreender a produção de discursos sobre progresso e desenvolvimento, bem como a visão que nós brasileiros temos sobre nós mesmos. De acordo com Jean Starobinski (2001, p. 14), o verbo "civilizar" já era utilizado no século XVI, com o significado de "tornar os costumes e maneiras dos indivíduos mais civilizados e brandos". O termo "civilização" passou a representar diversas ideias, como o abrandamento dos costumes, a educação dos espíritos, o desenvolvimento da cortesia, a cultura das artes e ciências, o crescimento do comércio e da indústria, e a aquisição de confortos materiais e luxo. Essa concepção está intimamente relacionada com a noção de progresso. Norbert Elias (1994) argumenta que o processo civilizador envolve não apenas a educação, mas também o controle psicológico dos impulsos. Sentimentos de vergonha e inadequação, resultantes das normas de convívio social, gradualmente levam os indivíduos a se tornarem civilizados. O autor afirma: O conceito de civilização refere-se a uma grande variedade de fatos: ao nível da tecnologia, ao tipo de maneiras, ao desenvolvimento de 7 conhecimentos científicos, às ideias religiosas e aos costumes. Pode- se referir ao tipo de habitações ou à maneira como os homens e mulheres vivem juntos, à forma de punição determinada pelo sistema judiciário ou ao modo como são preparados os alimentos. (Elias, 1994, p. 23) Entretanto, acima de tudo, esse conceito “expressa a consciência que o Ocidente tem de si mesmo”, o motivo pelo qual a sociedade ocidental se considera superior às sociedades mais antigas ou menos desenvolvidas, pois representa “o nível da sua tecnologia, a natureza de suas maneiras, o desenvolvimento de sua cultura científica ou visão de mundo e muito mais” (Elias, 1994, p. 23). Além de representar a cultura ocidental, o conceito de civilização também representa um ideal de progresso, muito forte na modernidade do século XIX. “O trabalho e a produção passam a ser o ideal da época, e logo depois o seu ídolo. Toda a Europa vestiu roupa de trabalho. Assim, as dominantes da civilização passaram a ser a consciência social, as aspirações educacionais e o critério científico” (Huizinga, 1999, p. 137). Para Johan Huizinga (1999), uma civilização só pode ser considerada quando atende a três requisitos básicos: domínio da natureza física, equilíbrio entre o domínio humano e o progresso técnico sobre a natureza física, e existência de um ideal comum entre uma época e/ou um povo. Assim, a civilização é entendida como uma etapa do desenvolvimento enraizada na cultura de um povo, abrangendo relações sociais, religião, arte, economia, domínio de técnicas, entre outros aspectos. Sua formação é um processo longo e gradual, o que é influenciado por fatores como recursos naturais, clima, riquezas, poder, conhecimento, domínio militar e estilo de vida da população, entre outros. Portanto, o processo civilizador está intimamente ligado à consolidação da classe dominante, que buscava construir uma identidade a partir de sua própria visão de progresso. Tanto a concepção de cultura quanto a de civilização são partes essenciais da construção social das relações históricas, evidenciando a dominação de uma sociedade eurocêntrica, que subjugava e ignorava a cultura e os costumes de outros povos considerados inferiores. Eurocentrismo é, aqui, o nome de uma perspectiva de conhecimento cuja elaboração sistemática começou na Europa Ocidental antes de meados do século XVII, ainda que algumas de suas raízes são sem dúvida mais velhas, ou mesmo antigas, e que nos séculos seguintes se tornou mundialmente hegemônica percorrendo o mesmo fluxo do domínio da Europa burguesa. Sua constituição ocorreu associada à 8 específica secularização burguesa do pensamento europeu e à experiência e às necessidades do padrão mundial de poder capitalista, colonial/moderno, eurocentrado, estabelecido a partir da América. (Quijano, 2005, p. 115). A concepção eurocêntrica de civilização remete diretamente à ideia de barbárie. Entendendo que a palavra “bárbaro” se referia, incialmente, a todo estrangeiro, compreendemos como o termo foi se constituindo como referente a todo não europeu. A barbárie se torna um atributo de povos atrasados, não civilizados, selvagens. A história do progresso apresenta a Europa como líder da evolução humana e os demais povos como seus seguidores. A partir do século XIX, a barbárie assume formas mais contraditórias, refletindo uma "barbárie civilizada", marcada por desigualdade e opressão social, evidenciando a capacidade humana de criar em diferentes contextos. Na visão dos intelectuais europeus modernos, os bárbaros não seriam apenas os povos não europeus, colonizados, mas também a classe trabalhadora e periférica que habitava as grandes cidades. A tarefa de civilizar torna-se, então, a tarefa de educar essa população. A importância de não hierarquizar a história e cultura de diferentes povos é fundamental para evitar uma postura etnocêntrica, ou seja, a valorização da nossa própria cultura com comparação a outras, consideradas inferiores. Segundo José Carlos de Paula Carvalho (1997, p. 181): O etnocentrismo consiste em privilegiar um universo de representações propondo-o como modelo e reduzindo à insignificância os demais universos e culturas “diferentes”. De fato, trata-se de uma violência que, historicamente, não só se concretizou por meio da violência física contida nas diversas formas de colonialismos, mas, sobretudo,disfarçadamente por meio daquilo que Pierre Bourdieu chama “violência simbólica”, que é o “colonialismo cognitivo”. Ao longo da história, a supremacia cultural europeia foi usada como desculpa para a colonização das Américas, da África e da Ásia. Da mesma forma, a colonização feita por meio dos produtos culturais comercializados em todo o mundo tende a resultar em uma padronização que acaba por eliminar a diversidade cultural. Há também a relação social composta pelas subculturas, muitas relacionadas ao poder aquisitivo. Dessa forma, percebemos que o etnocentrismo é algo bastante presente nas sociedades ocidentais, e que precisa ser evitado e desconstruído, possibilitando a formação de uma consciência para a alteridade. 9 TEMA 4 – TIPOS DE CULTURA A ideia de cultura surgiu como uma prática relacionada ao cultivo agrícola: “conduzir o trigo à maturidade”. Esse sentido de cuidado e cultivo manteve-se até o princípio do século XVIII, período no qual a ideia de cultura passa a estar relacionada ao desenvolvimento intelectual da pessoa. “Cultura” normalmente se referia ao conhecimento em geral, fosse artístico, literário ou musical (Williams, 2012). Até hoje, consideramos “culta” uma pessoa que tem amplo conhecimento sobre diferentes assuntos. Ainda no século XVIII, podemos perceber dois movimentos na definição e no estudo da cultura: cultura popular e cultura erudita. Os primeiros pesquisadores da cultura popular foram intelectuais europeus interessados em recuperar canções tradicionais ou histórias da sabedoria popular. Surgiu, então, o folclore (folklore, em inglês), presente em obras como as dos Irmãos Grimm (autores dos nossos conhecidos contos de fada). Esse movimento se propôs a coletar elementos da tradição oral em vários países da Europa, criando um vasto repertório de cantigas, baladas, contos, cerimônias, provérbios e superstições que representavam a tradição de camponeses, aldeões e trabalhadores urbanos. Assim, entendemos a cultura popular uma cultura anônima produzida pelas “pessoas comuns”. Diferentemente da cultura erudita, que é transmitida pela leitura e escrita ou por instituições oficiais, a cultura popular é geralmente transmitida pelos costumes e pela oralidade. Por isso, na hierarquia cultural, costuma ser considerada vulgar, inferior e simplória. É quase sempre identificada por folclore e artesanato (Sesi, 2007). A cultura erudita, por sua vez, representava o “espírito cultivado pela instrução”. Para os iluministas, a cultura estava relacionada aos saberes acumulados ao longo da história, sendo também um sinônimo de progresso, razão e educação (Canedo, 2009). Essa visão persistiu ainda no século XIX, período no qual a cultura estava relacionada com a história das civilizações, sendo uma forma de desenvolvimento humano. As diferenças culturais dos povos seriam explicadas por seu “progresso” ou “atraso” em termos de civilização. Outra visão recorrente na época era a de que a cultura representaria “o espírito de um povo”, sendo a base do nacionalismo. 10 Atualmente, a cultura erudita é identificada pelo conhecimento de autores e artistas clássicos, cuja produção é conservada e difundida por instituições oficiais, como universidades, conservatórios, bibliotecas e museus. É tida como a cultura da elite, uma vez que nem todos têm acesso a esses bens. Um conceito fundamental estabelecido pelos teóricos frankfurtianos é o de “indústria cultural”, em referência “à conversão da cultura em mercadoria, ao processo de subordinação da consciência à racionalidade capitalista, ocorrido nas primeiras décadas do século XX” (Rüdiger, 2001, p. 138). O conceito nomeia uma prática e uma forma de produção que transforma os produtos culturais em mercadorias a serem consumidas, interferindo nos processos de consciência e subjetividade. A cultura de massa, definida como aquela veiculada pelos meios de comunicação de massa, como rádio, televisão, jornais e revistas, representa forma como consumimos produtos industrializados de uma cultura que banaliza e padroniza elementos das culturas popular e erudita, a fim de torná-los mais aptos ao consumo das massas. Para os autores, mais do que democratizar a cultura, esse processo de padronização geraria manipulação e alienação. Uma visão menos negativa dos produtos da indústria cultural foi desenvolvida pelos teóricos da Escola de Birmingham, organizada nos anos 1950-1960, na Inglaterra. A fundação dos chamados “Estudos Culturais Britânicos” inaugurou uma nova abordagem sobre a cultura popular e os meios de comunicação de massa, desenvolvendo importantes pesquisas sobre a cultura operária, a cultura jovem e a recepção dos produtos culturais de massa, como novelas, filmes e programas de rádio. Como um desdobramento da cultura de massas, o conjunto de técnicas, tecnologias e práticas culturais desenvolvidos a partir da segunda metade do século XX deu origem ao que chamamos hoje de cibercultura, definida por André Lemos (2005, p. 1) como “as relações entre as tecnologias informacionais de comunicação e informação e a cultura, emergentes a partir da convergência informática/telecomunicações na década de 1970. Trata-se de uma nova relação entre as tecnologias e a sociabilidade, configurando a cultura contemporânea”. Essa cultura contemporânea, mundial, virtual e desenvolvida no ciberespaço potencializa a produção, o compartilhamento, e distribuição e a apropriação de bens simbólicos. Nesse sentido, podemos afirmar que o ciberespaço representa um ambiente midiático, sendo a infraestrutura em que 11 ocorre a comunicação digital e também o conjunto de informações que ela abriga. Suas principais características são: interconexão dialógica, comunidades virtuais como espaços de cooperação e encontro, além de inteligência coletiva resultante de colaboração e compartilhamento. TEMA 5 – CULTURA E COMUNICAÇÃO Como vimos, ao longo desta abordagem, as relações entre cultura e comunicação têm sido amplamente exploradas ao longo do século XX, até os dias atuais, com diversas correntes teóricas, como a Escola de Frankfurt, os Estudos Culturais Britânicos e Latino-americanos, investigando as práticas culturais e sua interseção com os processos comunicacionais. De acordo com Martín-Barbero (1985), pensar sobre essas interseções implica abandonar a visão da comunicação como mero produto e transcender a abordagem centrada nas disciplinas e nos meios de comunicação. Isso requer uma ruptura com a ideia de uma "disciplina própria" e uma ampliação de análise para incluir as mediações, como instituições, organizações, sujeitos e diferentes matrizes culturais que influenciam a formação dos meios tecnológicos. A comunicação e a cultura desempenham papéis fundamentais na nossa capacidade de construir discursos comunicativos por meio de diversas linguagens, compartilhando-os tanto em nossas interações interpessoais quanto através das mídias tecnológicas. Brittos (1999) destaca que, ao analisar essa relação, é crucial deslocar o foco dos meios de comunicação e reconhecer que os receptores não são passivos diante das indústrias culturais, mas sim participantes ativos no processo de mediação. A cultura se manifesta, então, a partir de relações de comunicação que existem nas interações interpessoais e dos fenômenos de recepção mediados pelos meios de comunicação. A mediação nos processos comunicacionais permite integrar a comunicação como parte intrínseca da cultura, principalmente por meio da midiatização, entendida da seguinte forma: Processo pelo qual a sociedade, em um grau cada vez maior, está submetida a ou torna-se dependente da mídia e de sua lógica. Esse processo é caracterizado por uma dualidade em que os meios de comunicação passaram a estar integrados às operações de outras instituições sociais ao mesmo tempo em que também adquiriramo status de instituições sociais em pleno direito. Como consequência, a interação social – dentro das respectivas instituições, entre instituições 12 e na sociedade em geral – acontece através dos meios de comunicação. (Hjarvard, 2012, p. 64) Essa nova visão sobre os produtos culturais permite a estruturação do conceito de “cultura das mídias”, considerando a forma como os produtos midiáticos (televisão, cinema, publicidade, imprensa etc.) nos ajudam a forjar nossa identidade e nossos comportamentos sociais, fornecendo “o material com que muitas pessoas constroem o seu senso de classe, de etnia e raça, de nacionalidade, de sexualidade, de ‘nós’ e ‘eles’” (Kellner, 2001, p. 9). A cultura da mídia tem implicações políticas e ideológica, e não pode ser interpretada sem levar em consideração esses aspectos. Além de precisar ser analisada em contexto, é importante ver como produtos culturais midiáticos carregam conotações de poder e dominação que dão continuidade a valores hegemônicos, que podem estar presentes de maneira sutil. Elementos e decisões estéticas têm valores que foram codificados na produção de um filme, uma fotografia, ou uma campanha publicitária. Os produtos midiáticos ajudam no estabelecimento desses valores. Além da questão de classe social, outros valores passaram a ser considerados para fazer uma leitura crítica de produtos midiáticos. Questões acerca das representações de gênero e sexualidade, raças e etnias, nacionalidades, entre outros grupos subalternos, passaram a ser discutidas e problematizadas, buscando não apenas representatividade, mas também o fim dos estereótipos. TROCANDO IDEIAS Como vimos, compreender os nossos processos históricos e culturais é fundamental para que possamos viver e agir em sociedade. Da mesma forma, conhecer as relações entre a comunicação e a cultura nos permite analisar de que maneira a midiatização influencia nossos comportamentos, hábitos e forma de consumo. Observe os hábitos culturais do seu grupo de convívio. O que eles demonstram? Qual tipo de cultura está mais presente? NA PRÁTICA Agora vamos pensar em sua história pessoal. Converse com seus parentes mais velhos e identifique características da sua ancestralidade. Verifique documentos e hábitos que possa ter herdado e procure estabelecer uma relação com as noções de História e Cultura que vimos nesta abordagem. 13 • Você conhece as suas matrizes culturais? Tem contato com elas? • Há imigrantes na sua família? Qual a sua origem étnico-racial? • Quais são os traços culturais mais fortes que você herdou? • Você vivencia algum tipo de experiência religiosa? Com essas respostas em mãos, elabore um breve texto dissertativo- argumentativo apresentando as suas raízes culturais, enfatizando permanências e mudanças que aconteceram entre seus antepassados e você. FINALIZANDO O conceito de História e Historiografia Cultura e Etnografia Civilização, Barbárie e Etnocentrismo Tipos de Cultura Cultura e Comunicação 14 REFERÊNCIAS BLOCH, M. Apologia da história ou o ofício de historiador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001. BRITTOS, V. C. 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