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REDES PARA IOT AULA 3 Prof. Gian Brustolin 2 CONVERSA INICIAL Até este ponto de nossos estudos, entendemos o que são objetos inteligentes e sua potencialidade quando conectados à internet. Conhecemos algumas placas de prototipação que também são usadas em projetos taylor made de aporte de inteligência ou conectividade em eletrônica embarcada. Entendemos a relação entre microprocessadores e essa tecnologia, bem como tivemos noção de como a programação dessas CPUs são feitas. Estamos agora prontos para mergulhar no tema central desta disciplina. Como comentamos no início de nossos estudos, embora existam redes para IoT fiadas, o estudo dessas redes não difere do já enfrentado por nós quando projetamos redes de computadores locais com interface Ethernet, metálica ou óptica. A maior tendência de conectividade para objetos IoT, entretanto, permanece nas soluções sem fio. Redes de objetos IoT baseados em protocolos WiFi são bastante comuns, e, assim como comentamos acerca da conectividade fiada acima, o uso desse protocolo para tais objetos não difere dos projetos de redes locais. Naturalmente, há questões de segurança que precisam ser enfrentadas com mais cuidado quando tratamos de usuários de rede típicos. Existe uma boa profusão de soluções sem fio adaptáveis às redes de objetos IoT, mesmo nos padrões tradicionais do IEEE, como o 802.11. Alguns protocolos recentes dedicados a esses objetos merecem nossa atenção especial em função de seu potencial uso futuro. Citemos como exemplo o 802.11ah e o WiSun, além dos já mencionados LoRaWan e ZigBee. Outros protocolos de conectividade foram adaptados às características dos objetos IoT e podem se tornar tendências de uso para a interconexão dessa tecnologia, a exemplo do WiFi 6 e 7. Sobre essas soluções repousará nosso estudo. Antes de iniciar esta aula, devemos revisar alguns conceitos de rádio propagação que fornecem a fundamentação necessária. TEMA 1 – FAIXAS DE RADIOFREQUÊNCIA Quando a interface física de comunicação escolhida é o ar, algumas restrições legais devem ser respeitadas. Como a radiocomunicação é suscetível a interferências, tornando-se um recurso limitado, cada nação possui um órgão regulador do uso das frequências do espectro disponível, ditas radiofrequências. 3 A União Internacional de Telecomunicações (ITU) regulamenta os acordos internacionais de administração das faixas de radiofrequência. No Brasil, a Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações), em função da Lei 9.472, de 16 de julho de 1997 (Brasil, 1997), detêm a competência para regrar o uso do espectro eletromagnético de 8,3 KHz a 3000 GHz, editando o PDFF (Plano de Atribuição, Distribuição e Destinação de Radiofrequências) associado aos diversos serviços e atividades de telecomunicações (Brasil, 2021a). Segundo a Anatel (Brasil, 2020b), a distribuição de frequências segue três princípios gerais, quais sejam: (i) atribuir frequências em concordância com os acordos internacionais; (ii) atender ao interesse público; e (iii) desenvolver as telecomunicações brasileiras. No endereço de internet citado nas referências, pode-se conhecer a tabela de destinação de faixas e sua regulamentação. A regulamentação das faixas estabelece também a eventual necessidade de liberação expressa da agência para operação. Assim, se alguém deseja operar um rádio em dada frequência, precisa antes verificar qual a regulamentação para essa faixa. A operação entre 4438 KHz e 4650 KHz, por exemplo, está reservada para o serviço fixo comutado de estações itinerantes, e a regulamentação segue a portaria 280/79 do Ministério das Comunicações. A operação nessa faixa deve ser previamente autorizada pela Anatel. Há, entretanto, faixas de frequência de uso não privado e não regulamentado, a exemplo de segmentos da faixa ISM. Sobre essa faixa, conversaremos a seguir. 1.1 Certificação Anatel – Equipamentos de Radiação Restrita Comentamos acima sobre a necessidade de liberação pela Anatel da operação na maioria das faixas do espectro de radiofrequência. Afirmamos, também, que existem faixas para as quais essa liberação é desnecessária. Este conceito, entretanto, não se confunde com a certificação dos equipamentos de telecomunicações. Todos os emissores de radiofrequência comercializados no Brasil precisam passar por certificação que comprove suas características de operação. A homologação mais genérica refere-se aos ERR (Equipamentos de Radiação Restrita), que devem apenas certificar o nível máximo de emissão eletromagnética e a capacidade de discriminação de frequências da seção rádio do equipamento. Esse processo é estabelecido no Regulamento sobre 4 Equipamentos de Radiocomunicação Restrita, art. 4º do Anexo da Resolução Anatel 680 (Brasil, 2021b), e segue as restrições impostas pelo Ato n.14.448, de 4 de dezembro de 2017 (Brasil, 2017). Ainda seguindo a inteligência dessa mesma resolução, homologado o equipamento, este pode ser instalado em uma estação de telecomunicação sem necessidade de nova homologação da estação. Tal procedimento foi alterado diversas vezes, reduzindo-se as restrições em função da alta densidade de transmissores móveis cuja operação não necessita de qualquer outra implementação, como fontes de alimentação externa, torres e antenas. A franca necessidade de comunicação multimídia, mesmo em localidades remotas, é outro fator motivador da progressiva liberação do espectro eletromagnético regulado. Naturalmente, a operação de equipamentos homologados como de radiação restrita não goza de proteção contra interferência, ou seja, a Anatel não reservará uma área espacial e espectral exclusiva para essa operação (Brasil, 2021b), cabendo ao operador tomar os cuidados técnicos necessários. 1.2 Faixas de operação de ERR A Anatel estabelece as faixas disponíveis para operação de ERRs por exclusão, ou seja, publica uma tabela de faixas restritas, reproduzida abaixo. Tabela 1 – Faixas de frequência restritas MHz MHz MHz GHz 0.09-0.11 16.69475- 16.69525 1.435-1.646.5 10.6-11.7 0.495-0.505 16.80425- 16.80475 1.660-1.710 12.2-12.7 2.1735-2.1905 21.87-21.924 2.200-2.300 13.25-13.4 4.125-4.128 23.2-23.35 2.483.5-2.500 14.47-14.5 5 4.17725-4.17775 25.5-25.67 2.690-2.900 15.35-16.2 4.20725-4.20775 37.5.38.25 3.260-3.267 20.2-21.26 6.215-6.218 73.74.6 4.200-4.400 22.01-23.12 6.23775-6.26825 74.8-75.2 4.800-5.150 23.6-24 6.31175-6.31225 108-138 5.350-5.460 31.2-31.8 8.291-8.294 149.9-150.05 8.025-8.500 36.43-36.5 8.41425-8.41475 156.52475- 156.52525 9.000-9.200 38.6-46.7 12.29-12.293 156.7-156.9 9.300-9.500 46.9-57 12.51975.12.52025 242.95-243 71-76 12.57675- 12.57725 322-335.4 Acima de 81 13.36-13.41 399.9-410 16.42-16.423 608-614 960-1215 1.300-1.427 Fonte: Brasil, 2021b. Dessa forma, podemos operar um ERR em qualquer frequência que não conste na tabela acima, desde que o equipamento respeite os limites máximos 6 de emissão de radiofrequências (veja a tabela a seguir, também extraída da resolução da Anatel). Essa limitação atua como proteção relativa à interferência, uma vez que restringe a área máxima de presença detectável do sinal de rádio. Tabela 2 – Níveis máximos de TX para ERRs Faixa de radiofrequências (MHz, onde não especificado) Intensidade de campo (microvolt por metro) Distância Da medida 9-4990 kHz 2.400/f(kHz) 300 490-1705 kHz 24.000/f(kHz) 30 1.705-30 30 3 30-88 100 3 88-216 150 3 216-960 200 3 Acima de 960 500 3 Fonte: Brasil, 2021b. 1.3 Faixas de operação de objetos IoT Os objetos inteligentes conectados à internet tradicionalmente realizam essa conexão com o uso de redes WiFi, e, no caso de sensores, por redes ZigBee. Essas redes, como também o Bluetooth, operam em uma faixa de frequência denominada pelo ITUde ISM (Industrial, Scientific and Medical), reservada para o desenvolvimento científico nas áreas industrial e médica. Nessa região do espectro está a faixa ISM 2,4 GHz, que, no Brasil, está limitada entre 2,4 GHz e 2,4835 GHz, ou seja, possui uma largura espectral de 83,5 MHz. Nessa faixa do espectro operam, genericamente, os rádios de 7 espalhamento espectral não licenciados. A técnica de espalhamento espectral é normalmente utilizada por esses protocolos de comunicação citados acima, comumente utilizados por objetos IoT. Naturalmente, nessas faixas de espectro aberto, a operação deve ser resiliente à interferência, mas não há necessidade, do ponto de vista legal, de cuidados outros que não a mera verificação de nível máximo de transmissão. Ao projetarmos uma rede para IoT com conectividade rádio, antes da seleção de equipamentos, nosso primeiro passo deve ser a verificação de frequência e potência de operação. A regulamentação supracitada nos fornecerá os parâmetros básicos de decisão caso desejemos manter a rede não licenciada. Processos de licenciamento de frequências são bastante complexos e custosos, justificando a escolha de espectros abertos. Em caso de dúvidas ou mesmo para evitar uma futura fiscalização coercitiva do órgão regulador, um engenheiro de telecomunicações deve ser consultado. Nesses casos, solicitar o registro da avaliação de engenharia via ART (Anotação de Responsabilidade Técnica) no CREA (Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura) do seu Estado criará um elo de responsabilização técnica e cívil do trabalho desse engenheiro. TEMA 2 – RUDIMENTOS DE RADIOPROPAGAÇÃO APLICADA Em outras disciplinas deste curso, você já enfrentou a hercúlea tarefa de estudar este tema complexo em poucas linhas. Sugerimos, então, que você complemente a brevíssima revisão que faremos a seguir, com a releitura dos estudos anteriores e da bibliografia indicada. Uma comunicação por rádio frequência se baseia no controle de emissões de ondas eletromagnéticas (OEM), as quais serão transmitidas pelo ar (ou vácuo). A mera emissão de OEMs seria, entretanto, absolutamente inútil para nosso fim se não fossemos capazes de conformar essas ondas em função de um sinal de dados que desejamos transmitir. Esse processo é chamado de modulação. A modulação de um sinal o torna compatível com o meio que será utilizado para a comunicação, transformando-o em uma oscilação eletromagnética. Bastará então, após a modulação, que o sinal seja oferecido a uma antena de dimensões apropriadas para que ele migre do meio eletrônico para o ar. 8 O sinal modulado, no entanto, deve ser compatibilizado com parâmetros de transmissão para que não interfira inadvertidamente em sinais vizinhos. Um canal de rádio é a “caixa” que conterá o sinal a ser transmitido. Segundo Medeiros (2013, p. 78), o canal rádio é de fato um segmento de frequências utilizado pelo rádio transceptor. A comunicação entre dois transceptores será chamada de rádio enlace e será obtida pela mera operação dos equipamentos no mesmo canal, desde que captem o sinal um do outro. 2.1 Técnicas de modulação Protocolos de comunicação para objetos IoT, dado o ambiente ruidoso e interferente ao qual normalmente pertencem, escolhem técnicas de modulação resilientes, a exemplo das que descreveremos sucintamente a seguir. Inicialmente, devemos relembrar o conceito de portadora. Chamamos de portadora a OEM de frequência constante que será modulada pelo sinal de dados. O PSK (Phase Shifting Keying) consiste na modulação da fase da portadora segundo o padrão de dados. No exemplo a seguir, um sinal binário sequencial altera a fase da portadora. Neste caso, como o sinal modulante é binário, o PSK é dito BPSK ou PSK binário. Figura 1 – Modulação BPSK Fonte: Brustolin, 2022, com base em Tanenbaun; Wetherall, 2011, p. 81. Entretanto, a modulação com apenas uma portadora torna o sistema um tanto vulnerável à interferência. Alterar a frequência da portadora em função do 9 sinal de dados é uma outra técnica de modulação dita FSK (Frequency Shift Keying) ou chaveamento de frequência. Figura 2 – Modulação FSK Fonte: Brustolin, 2022, com base em Tanenbaun; Wetherall, 2011, p. 81. 2.2 Rádios de espalhamento espectral A associação de técnicas de modulação em fase com as alternâncias de frequência gera sistemas mais resilientes, embora espalhem o sinal em um espectro não ótimo. Ou seja, se o transmissor espalhar a informação modulada em várias portadoras simultâneas, haverá maior probabilidade de ao menos algumas dessas portadoras atingirem o receptor e lá serem combinadas para recompor o sinal transmitido. Chamamos esses sistemas de spread-spectrum ou sistemas de espalhamento espectral. A técnica é bastante simples e engenhosa: transmitimos a informação em baixa potência nas várias portadoras. Mesmo que parte do sinal de uma portadora seja perdida, por interferência ou desvanecimento, outra portadora manterá essa mesma parte intacta. No receptor, realizam-se a filtragem dos segmentos ininteligíveis e a remontagem do sinal por meio da associação entre os segmentos legíveis do sinal das várias portadoras (Maxim, 2021). Esse sistema de rádio possui baixo custo em relação aos seus pares, bem como alta qualidade comparada. 2.3 Relação sinal/ruído – NSR 10 Um parâmetro importante em avaliação de viabilidade de radioenlaces é a Relação Sinal/Ruído (NSR – Noise to Signal Ratio) ou SNR (Signal to Noise Ratio). Um transceptor de rádio é projetado em função da presença de um nível mínimo de sinal inteligível e de um nível máximo de ruído sintonizado. A relação entre esse sinal e o ruído tolerável presente nele é a relação sinal/ruído ou NSR. Tomemos um transceptor WiFi (seu celular, por exemplo, quando conectado ao WiFi). O menor sinal captável por ele em dado canal da faixa ISM de 2,4 GHz será de -120 dBm (na maior parte dos rádios IEEE 802.11), mas será necessário que o ruído nesse canal seja 10 dB menor que esse sinal, ou seja, menor que -130 dBm, para que o transceptor possa reconstituir o sinal digital original. Dito de outra forma, para que o transceptor possa operar, não basta que o sinal de recepção seja maior que -120 dBm, o NSR deve também ser maior que 10 dB. Rádios de espalhamento espectral podem, no limite, operar com NSR negativas, ou seja, em situações nas quais o nível do ruído presente é maior que o nível do sinal. Essa “magia” será possível se a energia total do sinal transmitido nas várias portadoras for maior que a energia total do ruído presente na faixa de operação. Concluímos, assim, nossa breve revisão sobre radiopropagação. Agora, podemos partir para o estudo das redes de objetos IoT finalmente. TEMA 3 – WIFI O estudo das bases do WiFi já foi encetado em outras disciplinas deste curso. Como de hábito, revisaremos os conteúdos de forma sintética, sempre recomendando a releitura das disciplinas anteriores, para, depois, nos aprofundarmos nas especificidades da aplicação desta tecnologia para objetos IoT. 3.1 Redes WiFi Redes sem fio operando sobre as especificações IEEE 801.11 fazem parte de nosso cotidiano profissional, como nas empresas em que trabalhamos, e no cotidiano pessoal, nas redes domésticas. Duas são as faixas de frequência de operação tradicional dessa tecnologia, uma de 2,4 GHz (em UHF) e outra de 5,725 GHz a 5,850 GHz (em SHF), ambas ISM. Os rádios 802.11 utilizam 11 modulação por espalhamento espectral com as vantagens descritas anteriormente neste tema. O WiFi pode ser definido, na maioria das vezes, como radiocomunicação PTM, na qual a antena, dita ponto de acesso (AP – Access Point, em inglês), é a estação central que coordena a comunicação. O protocolo original permite, também, excepcionalmente, operações ad hoc entre estações, sem a presença de um ponto de acesso coordenador.Essa facilidade está em desuso, embora ainda suportada nas versões do WiFi. No modo PTM, a técnica de compartilhamento do meio faz com que cada estação precise ocupar o espectro escolhido isoladamente quando desejar transmitir, assim, todas as estações receptoras escutam o meio aguardando a desocupação. Nesse momento, a estação que deseja transmitir envia uma requisição à antena, dita RTS (Request to Send). O AP tratará eventuais conflitos provocados por solicitações simultâneas, respondendo a uma das estações com um sinal de CTS (Clear to Send). A estação transmite, então, os dados e aguarda o sinal de ACK (Acknowledgement) do AP. Se esse sinal não ocorrer, a estação aguardará o tempo de retardo e reenviará os dados. Trataremos desta questão de colisão no WiFi mais profundamente em breve. Naturalmente, quando muitas estações conectam-se a um AP, a probabilidade de colisão cresce, em consequência, a velocidade média de transmissão cairá. Na faixa ISM, UHF, de 2,4 GHz estão disponíveis 11 canais de 5 MHz, porém, o método de espalhamento espectral faz com que, escolhido um canal, o sinal se espalhe por 22 MHz, dessa forma, apenas três canais podem ser usados simultaneamente em uma rede para que não ocorra interferência. A faixa SHF do IEEE 802.11 apresenta até 165 canais distintos, porém, nessas frequências mais altas, o projeto físico da rede deve ser mais cuidadoso. Associado à parca disponibilidade de interfaces WiFi SHF, esse fato faz com que a maioria absoluta das redes atuais operem em UHF, mas essa realidade está paulatinamente mudando. 3.2 Norma e versões As redes WiFi se tornaram as redes sem fio mais populares do mundo nos últimos anos. Essa conquista carreou também a responsabilidade de adequar a interface ao crescente número de usuários. Assim, várias versões de WiFi foram 12 desenvolvidas em curtos períodos de tempo. Em menos de dez anos, passamos por mais de três saltos tecnológicos e dezenas de pequenas adaptações. 802.11b foi o primeiro padrão amplamente aceito para WiFi, seguido pelo 802.11a, 802.11 g e 802.11n (WiFi 4). Até 2018, a versão mais atual do WiFi era o 802.11ac, batizado de WiFi 5 pela WiFi Alliance. Esse padrão ainda é o mais popular em uso e suporta velocidades de transmissão de 400 Mbps, em 2,4 GHz ou até 7 Gbps em SHF. Naturalmente, essas velocidades supõem condições ideais de propagação. O WiFi 5, por sua vez, reutiliza a técnica que permite tratar acessos múltiplos, implementada já no WiFi 4, dito Multiple-Input Multiple-Output (MIMO). Voltaremos a este assunto em breve. Uma vez que as condições ideais nunca ocorrem de fato, o IEEE desenvolveu um novo padrão baseado nas observações do comportamento real da rede nas versões anteriores. O principal ponto a ser equacionado, mesmo na versão 5, ainda é o tratamento das colisões pelo AP. Desse estudo nasceu um novo padrão que recebeu o código IEEE 802.11 ax, ou WiFi 6. 3.3 WiFi 4 O padrão WiFi 4 (IEEE 802.11 n) realizou um verdadeiro salto tecnológico em relação às versões anteriores, que apresentavam dificuldades em tratar a crescente demanda dos usuários por maior banda. Vamos entender como esse padrão reformou a camada PHY. Esse estudo é importante, uma vez que a versão 5 apenas amplia o conceito desenvolvido nesta versão, e o nosso entendimento dela dependerá dos conceitos introduzidos na versão 4. A ideia central desse padrão foi a implementação de um pré- processamento dos sinais de rádio antes de sua entrega para transmissão, permitindo a conexão simultânea de mais de um usuário em subportadoras distintas do mesmo canal. O método foi batizado de MIMO (Multiple Input/Multiple Output), conforme se vê no esquema a seguir, simplificado para duas antenas. Figura 3 – MIMO 13 Fonte: Brustolin, 2022, com base em Aruba, 2021. Para entender como o MIMO funciona, considere a próxima figura, que exemplifica a propagação por múltiplos caminhos do sinal das duas antenas. A multipropagação (multipath) ou caminhos múltiplos é uma das causas de interferência interssimbólica (ISI) em sistemas de radiocomunicação, mas a técnica MIMO faz um uso inusitado desse fenômeno, pois utiliza os múltiplos percursos para aumentar a capacidade de transmissão, como veremos a seguir. Figura 4 – MIMO operando em múltiplos trajetos Fonte: Brustolin, 2022, com base em Aruba, 2021. Tomemos o exemplo da figura 4. A antena “A” receberá sinal por três caminhos: dois da antena “1” e um da antena “2”. Se o sinal recebido em “A” da antena “2” for de maior potência que os demais recebidos em “A” ou em “B”, o receptor escolherá decodificar este sinal. Suponha agora que o melhor sinal de “1” seja recebido em “B”. Se o receptor informar esses fatos ao AP, este poderá enviar dois sinais distintos pelos caminhos/antenas “1B” e “2A” e, com isso, dobrar a taxa de transferência de dados. Como o processo de reflexão espacial da OEM é usado para “multiplexar” o sinal, essa técnica passou a ser conhecida também como SDM (Spatial Division Multiplexing ou Space Division Multiple Access). Você pode estar pensando que isso funciona bem se essas claras diferenças de nível entre os sinais recebidos ocorrerem naturalmente, ou seja, se o ambiente de entorno modificar convenientemente o sinal, de forma que cada antena receba o melhor sinal de outra. Mas e se essa diferença não se verificar? 14 Então, o padrão pode forçar a melhor condição pelo uso de uma técnica dita formatação forçada do feixe (Beamforming). Essa formatação ocorre somente no AP, por esse motivo, a sigla normalmente usada é Tx BF ou Beamforming de transmissão. A figura 5 exemplifica essa técnica para dois usuários. Quando mais de um cliente é acessado, o método é chamado MU MIMO Tx BF ou Multi-User BeamForming MIMO. A completa implementação do MU-MIMO, embora aqui exemplificada, não ocorre de fato na versão 4, mas apenas na 5. Figura 5 – MU-MIMO Tx-BF Fonte: Brustolin, 2022, com base em Aruba, 2021, p. 15. A formatação do feixe (MIMO Tx-BF) é responsiva ao cliente, ou seja, o AP calculará os parâmetros A, B, 𝛩1 𝑒 𝛩2 com base no retorno emitido pelos clientes, ajustando os níveis e delays de forma a obter o efeito ideal descrito anteriormente. Essa adaptabilidade de parâmetros criou o falso conceito, entre o público leigo, de direcionamento das antenas para cada usuário, o que, de fato, não ocorre. A versão 4, entretanto, convive com um problema de padronização desses frames de informação. Os fabricantes não obtiveram sucesso em obter um formato unificado. Nesta versão, pelo motivo agora exposto, a técnica funciona bem apenas se ambos os chips (do AP e do receptor) tiverem origem no mesmo fabricante ou se ambos rodarem o mesmo algoritmo, o que não é a situação padrão. 15 A experiência com a operação em ambientes confinados da versão 4 demonstrou que, nesses casos, o retorno fornecido pelo cliente normalmente leva a escolhas muito semelhantes dos parâmetros A, B, 𝛩1 𝑒 𝛩2. Dessa forma, a padronização 802.11 ac preferiu criar um algoritmo de geração automática desses parâmetros, prevenindo o eventual conflito entre fabricantes sem a necessidade do retorno de cada cliente. Uma vez que as redes WiFi 5 são as mais utilizadas no momento da conclusão dessa publicação, vamos dedicar a ela um tema completo em breve. Assim, passaremos da versão 4 para a 6, aguardando o detalhamento da 5 no próximo tema. 3.4 WiFi 6 As mudanças entre as versões anteriores estavam focadas no aumento da velocidade máxima de transmissão, a qual, como comentamos acima, só era atingida muito excepcionalmente. Entre o WiFi 5 e a versão 6, entretanto, busca- se o aumento da velocidade média de toda a rede em situações de alta densidade de dispositivos conectados (Aruba, 2021). Com a popularização de objetos inteligentes provendo novos serviços, como smart homes,videoconferências, realidade virtual e realidade aumentada, as redes WiFi 5 passaram a congestionar. Esse congestionamento não é originado por mera falta de banda de acesso, mas principalmente pelo tratamento fraco do número crescente de estações conectadas à rede (ZTEC, 2021). A modulação utilizada também sofre alteração na versão 6, passando-se a utilizar a técnica do OFDMA (acesso múltiplo por divisão de frequência ortogonal), que agrega outras fases de portadora ao PSK. Essa técnica já foi utilizada com o objetivo de aumentar a velocidade total de transmissão, analogamente aos rádios QAM. Porém, no WiFi 6, as múltiplas fases são usadas para segregar dispositivos segundo suas necessidades de largura de banda, permitindo a simultaneidade de transmissão. A comparação entre essas duas versões pode ser exemplificada pela figura a seguir: Figura 6 – WiFi 5 x WiFi 6 16 Fonte: Brustolin, 2022, com base em Aruba, 2021. Além do benefício de aumento do desempenho da rede, a versão 6 agrega facilidade de economia de bateria, permitindo a dormência das estações, a exemplo do que ocorre em redes WiMax. Esse recurso, aliado ao tratamento de alta densidade de usuários, torna a versão 6 importante para aplicações em IoT. Assim, dedicaremos nossa próxima aula ao aprofundamento deste tema. 3.5 WiFi 6E Os estudos para a versão 6 contemplaram também a liberação, em muitas geografias, da frequência de 6 GHz para operação não licenciada. Na faixa de 5 GHz utilizada pelas versões anteriores do WiFi, havia segmentos não disponíveis do espectro, ou seja, o espectro não era contínuo. Regiões estão reservadas para aplicações prioritárias como radar doppler, por exemplo. A nova faixa de 6 GHz, entretanto, não possui essas interrupções, permitindo a criação de canais de alta densidade espectral (Cisco, 2021). A figura a seguir ilustra o salto de capacidade de transmissão que essa continuidade representa. A versão WiFi com essa extensão de frequência foi batizada de WiFi 6E e teve a primeira versão estável lançada em janeiro de 2021. Naturalmente, a verdadeira potencialidade da atualização só poderá ser percebida com a efetiva liberação da banda de 6 GHz e com o amadurecimento decorrente da operação das interfaces. Figura 7 – Saltos de velocidade entre versões do WiFi 17 Fonte: ZTEC, 2021. A operação nessa nova faixa oferece a possibilidade de se constituir sete canais independentes de 160 MHz, o que justifica o ganho tanto em desempenho médio como na taxa máxima possível. Operar em 6 GHz, entretanto, exigirá, como já comentamos várias vezes, cuidados pouco habituais com o projeto. A transparência de objetos nessa faixa de frequências é bastante baixa e um bom projeto de disposição de antenas precisa ser engenhado. 3.6 WiFi 7 Dado o vertiginoso crescimento do uso de redes WiFi, há mais de nove bilhões de interfaces em uso no mundo. Segundo a WFA (2018), os estudos para a evolução da solução seguem continuamente. Como vimos acima, o IEEE 802.11ax resolve questões de baixa performance de rede das versões anteriores em cenários de alta densidade de usuários, restando tratar de outros problemas, como a questão de latência e da necessidade de alto throughput para conexões de tempo real. Essas dificuldades parecem estar debeladas no padrão IEEE 802.11be, chamado de Wi-Fi 7 ou WiFi EHT, que, adicionalmente, foca em mobilidade de baixa velocidade para áreas cobertas pela rede interna e externa de forma controlada. O grupo de trabalho do IEEE iniciou a padronização em 2019, lançando a primeira versão do documento em maio de 2021. A versão final está prevista para 2024 e promete criar uma nova geração de WLAN, alterando novamente a camada física (PHY) e focando em throughput maior que 30 Gbps. Novamente, a abertura esperada do espectro em até 7.250 GHz suportará essa velocidade 18 suplementar (Deng et al., 2020). A seguir, podemos visualizar as possíveis canalizações viabilizadas pela liberação da nova faixa. Figura 8 – Canais no WiFi 7 Fonte: Brustolin, 2022, com base em INTEL, 2021. TEMA 4 – IEEE 802.11 AC As redes locais sem fio baseadas no padrão IEEE 802.11 ac, dita WiFi 5, são ainda dominantes como tecnologia de acesso. Esse padrão apresenta uma série de inovações em relação às versões anteriores. Vamos conhecer um pouco mais desta versão com a qual conviveremos ainda por um bom tempo. Antes do estudo deste padrão, vamos traçar a relação entre os serviços WiFi e o modelo OSI. Podemos afirmar que a camada de acesso à rede de um sistema WiFi é a interface rádio, chamada PHY nos documentos IEEE. Nos padrões IEEE, o controle da interface e de erros são feitos pela camada MAC, que corresponde à camada OSI de enlace. 4.1 Camada física (PHY) O estudo da camada física do padrão IEEE 802.11ac equivale ao estudo de radioenlace com as características próprias da interface que esse padrão utiliza. A compreensão básica das condições de propagação, atenuação do sinal, de ruído, de desvanecimento etc. não serão objeto deste curso, uma vez que foram tratadas anteriormente (como de hábito, recomendamos a revisão desta literatura para melhor compreensão do conteúdo aqui exposto). A interface rádio do WiFi 5 é constituída basicamente de uma rádio de espalhamento espectral, 256-QAM. A versão anterior, WiFi 4, utiliza 64 - QAM. Essa evolução entre a quantidade de fases e amplitudes combinadas para 19 permitir a multiplicidade de transmissões simultâneas só foi possibilitada pela concomitância da evolução dos processadores e das técnicas matemáticas de processamento de sinais. A maior diversidade de fases do QAM por si permite a elevação da taxa de transmissão de 65 Mbps para 87 Mbps (Aruba, 2021, p. 7), mas a versão 5 criou, nas conexões em SHF, a possibilidade de junção de canais de 20 MHz, ou seja, permite que se opere em um canal de 80 ou mesmo 160 MHz. Essa possibilidade facilita a transmissão de grandes taxas, embora, como ocorre a junção de canais, também limite o número de células viáveis e, por consequência, a densidade de usuários. Essas limitações, entretanto, ainda estão relativamente distantes do uso frequente, mas já foram enfrentadas pelo IEEE na versão 6. Uma observação importante sobre o rádio da versão 5 (e das sequentes até esse momento) é o abandono da evolução das taxas de transmissão para a faixa de 2,4 GHz. Dito de outra forma, os novos padrões, para permitirem velocidades maiores, passaram a focar em tecnologias na faixa de SHF. Embora ainda majoritariamente utilizada pelos usuários de WiFi, a faixa de 2,4 GHz possui limitações de banda extremas, que, associadas a ambientes de alta interferência, impossibilitam, ao menos por hora, evoluções significativas nas velocidades de conexão. A faixa não regulamentada ISM entre 5 GHz e 6 GHz não é contínua, pois há regiões regulamentadas nessa região do espectro. Essas regiões são diferentes para cada agência reguladora. No Brasil, por exemplo, a região entre 5350 MHz e 5480 MHz está reservada e não pode ser utilizada para a operação de WiFi. Associado à junção de canais de 20 MHz, esse fenômeno faz com que a camada física do WiFi 5 precise tratar dessa descontinuidade eventualmente dentro do mesmo canal. Esse problema está convenientemente tratado na versão 5. A versão 6, por sua vez assume a liberação da faixa, hoje restrita, dos 6 GHz. A técnica SDM MU-MIMO, na versão 5, evoluiu para o uso de mais caminhos simultâneos, exigindo oito antenas nos equipamentos, mas essa não é a única diferença. O 802.11 ac roda um algoritmo que simula o possível feedback do receptor e emite um frame de sondagem (Souding Frame) em direção ao cliente. Ao receber o frame de sondagem, o cliente analisa sua qualidade e devolve para 20 o AP o CSI-R ‘Channel State Information’ do receptor. A figura a seguir esquematizaesse processo: Figura 9 – CSI em MU-MIMO Tx-BF Fonte: Brustolin, 2022, com base em Aruba, 2021, p. 16. Ao receber o CSI-R, o AP alterará os parâmetros de transmissão (beamformer) e atualizará sua matriz de comunicação para aquele destinatário, otimizando a taxa de erro e a taxa de transmissão. Como a interface é multiusuário, será necessário criar um handshake para atender aos diversos clientes. A figura a seguir ilustra como o AP espera os retornos de quatro transceptores, ditos A, B, C e D, em sua área de cobertura. Figura 10 – CSI-R do WiFi 5 Fonte: Brustolin, 2022, com base em Aruba, 2021, p. 18. 4.2 Camada de enlace (MAC) 21 A camada de enlace ou, na terminologia IEEE, Medium Access Control Layer (MAC) das versões mais recentes de WiFi, centralizam, em sua maioria, os avanços tecnológicos de cada upgrade. Apesar disso, todas as versões utilizam o método de controle de acesso batizado de CSMA/CD. A seguir, vamos detalhar minimamente esse método. CSMA (Carrier Sense Multiple Access) ou acesso múltiplo por detecção de portadora faz com que todos os usuários aguardem a presença da portadora para entrar em operação. Detectada a portadora, o dispositivo escutará o meio antes de iniciar a transmissão. Caso o meio esteja ocupado, o dispositivo agendará a transmissão. Essa técnica de escuta do CSMA evitaria, a princípio, colisões ou transmissões simultâneas inadvertidas. Porém, como a área de cobertura de um AP é maior que a área de escuta potencial de um dispositivo, dois dispositivos distantes (que não se escutam mutuamente) podem iniciar a transmissão simultaneamente. O mesmo fenômeno pode ocorrer entre dois dispositivos que se escutem, porém, o atraso na propagação do sinal os leva a iniciarem transmissões sucessivas. Quanto mais dispersa fisicamente for a rede, maior a possibilidade de colisões. As técnicas de tratamento das colisões é que dão nome às versões do CDMA. O CDMA/CA identifica o CDMA Collision Avoidance, já o CDMA/CD designa a versão que trata o problema por detectação (Collision Detection). No CDMA/CD, caso ocorra a colisão, a estação emitirá um frame de colisão (jan signal). Percebido o jan signal, as estações que estavam em transmissão interrompem a emissão e passam a aguardar um lapso aleatório de tempo, quando reiniciarão a tentativa de transmissão. Esse processo demanda certo tempo e é conhecido como slot time da rede. O cálculo do slot time será feito da forma descrita a seguir. Suponha uma rede com dois nós A e B (veja a figura a seguir). Se A iniciar a transmissão antes que os dados alcancem B, mas com uma diferença infinitesimal para esse momento, B, escutando o meio ainda livre, pode entrar também em transmissão. Nesse caso, uma colisão ocorrerá. Ela será percebida por B, que cessará a sua transmissão emitindo o jan signal, que deve se propagar até A para que este saiba do insucesso da transmissão. Figura 11 – Cálculo do slot time em CSMA/CD 22 Fonte: UFES, 2021. Considerando o exposto, o tempo de detecção da colisão é, no limite, duas vezes o retardo de propagação entre A e B. Para que calculemos o slot time máximo, basta que A e B sejam extremos da rede. Detectada a colisão, dois serão os métodos de espera de retransmissão: orderly backoff e truncated exponencial backoff. Retornaremos a esses métodos oportunamente ainda neste curso. Terminada essa breve descrição do controle de acesso, voltemos às considerações sobre os avanços da versão 5. Comentamos, enquanto escrevíamos a camada PHY, que uma das principais diferenças entre a versão 4 e 5 era a capacidade de conectar mais de um cliente simultaneamente, transformando o MIMO do 802.11 n em MU-MIMO. Como a gestão desse protocolo ocorre na camada MAC, vamos melhor entendê-lo a seguir. Para que tenhamos mais de uma conexão simultânea na técnica SDM, é necessário que tenhamos um novo par de antenas a cada nova conexão simultânea desejada. Esse fato inviabilizaria a popularização de rádios-cliente em virtude não apenas do custo do HW de transmissão, mas também das complexidades de processamento carreariam eletrônicas mais complexas e caras. O padrão 802.11 ac enfrenta esse problema pela decisão de agregar 23 complexidade apenas no AP. Na versão 5, apenas o AP tem capacidade de executar o protocolo MU-MIMO completo. Por esse motivo, nesta tecnologia, é comum vermos a expressão DL MU-MIMO, ou seja, MIMO multiusuário de downlink. O AP pode ser montado com múltiplos pares de antena, e a cada par, uma nova conexão simultânea se vê habilitada. Como os equipamentos-cliente possuem apenas um par de antenas, o up link será monousuário. Dessa forma, na versão WiFi 5 os usuários seguem o procedimento de escuta e ocupação isolada do canal para realizar o up link. O AP, entretanto, é capaz de realizar o downlink de múltiplos usuários simultaneamente. Como o tráfego de descida é muito mais intenso que o de subida, essa solução obtém uma taxa média de transmissão alta. TEMA 5 – IOT E WIFI O uso de WiFi para comunicação de objetos IoT não foi uma associação muito feliz. As versões iniciais do WiFi tinham problemas de operação em ambientes ruidosos, alcance limitado e não operavam bem com densidades altas de conexão. A versão 4 resolveu alguns desses problemas, permitindo maior resiliência. A evolução para a versão 5, IEE 802.11 ac, permite alta capacidade de transmissão e média densidade de usuários. Objetos IoT têm como conectividade ideal uma interface que permita alta densidade de objetos sem necessidade de taxas de transmissão elevadas, exceção feita às capturas de vídeo, que constituem-se em objetos IoT com características diferenciadas em relação à maioria dos objetos. Essa particularidade dos objetos IoT os tornaram problemas para as redes WiFi 5, pois a conexão de um usuário nessas redes pressupõe a reserva de espectro, limitando seu número e reduzindo o throughput para os clientes-padrão da rede. Outra observação importante quanto ao uso de WiFi 5 é que redes IoT de alta demanda de dados (como serviços de captura de vídeo de segurança, por exemplo) referem-se à técnica DL MU-MIMO. Como sabemos, o protocolo multiusuário do 802.11ac funciona bem para um perfil assimétrico de tráfego, com maior densidade no download de dados. A aquisição de vídeo é assimétrica no sentido contrário, dessa forma, o protocolo multiusuário não operará a contento. 24 5.1 Associação de interfaces de radiopropagação Entendidas essas limitações, mas também as imensas possibilidades do WiFi, soluções que combinam essa interface com outras de menor desempenho, porém, de maior resiliência e capacidade de tratamento de alta densidade de usuários, podem gerar produtos de excelente adaptação aos objetos IoT. Ramly et al. (2020) propõem uma rede de sensores LoRa para aplicação em agricultura de precisão. Esses sensores obtêm informações do solo e do ambiente (como nutrientes, umidade e temperatura), compartilhando esses dados por rádio, segundo protocolo LoRaWAN. Alguns sensores têm também capacidade de videomonitoramento, fornecendo, potencialmente, imagens em tempo real da área cultivada. Essas imagens não podem ser transmitidas no mesmo protocolo que as informações de solo. Ramly propôs, então, uma rede 802.11 ax em operação para aquisição de ambos os perfis de dados (dados de sensoriamento e imagens), e quando a qualidade da rede WiFi degradar, a operação é comutada para o rádio LoRa, abandonando temporariamente as informações de vídeo, mas mantendo os dados dos sensores on-line. 25 5.2 WiFi HaLow Preocupado com esta incompatibilidade entre a evolução dos padrões 802.11 e o crescimento dos objetos inteligentes, o IEEE criou um grupo de estudos para definir um padrão que melhor se adaptasse ao uso com IoT. Em 2018, os primeiros white papers sobre o padrão IEEE 802.11ah foram publicados. Até a conclusão dessa publicação, equipamentos comerciais com essa tecnologia ainda não estavam disponíveis. Dessa forma, ainda não podemos afirmar se será ou não um padrão de uso frequente. O IEEE 802.11 ah ou WiFi HaLow foi idealizado para operar em frequências de espectro baixo associado ao foco em economia de energia. A faixa de frequência da interface física encontra-se em torno dos 900 MHz. Nessa faixa, há diferenças regulatórias entre nacionalidades (reserva da faixa 863-868 Mhz na Europa e 902-928 Mhz nos EUA, por exemplo), o que dificulta uma regulamentação mais rígida quanto ao espectro específico de utilização. O fato é que, nesse espectro inferior, as distâncias cobertas pela rede serão maiores, assim como a transparência a objetos. O padrão permite vários modos de operação, facultando a escolha da priorização entre throughput, distância e eficiência energética. Distâncias típicas estão entre 100 m e 1 km, e taxas de transmissão entre 150 kbps and 8 Mbps. A camada de enlace desse padrão possui mecanismos de controle que permitem alterar a eficiência da conexão em função do foco escolhido para a operação. Das facilidades de controle, o RAW (Restricted Access Window ou janela de acesso restrito) é aquele que melhor supre os requisitos de operação de IoTs (Tian et al., 2021). Testes utilizando rádios IEEE 802.15.4g (ZigBee), mas seguindo as especificações do protocolo 802.11.ah, demostraram que existe viabilidade dessa aplicação em cidades inteligentes, com ambientes heterogêneos e em NLOS (Koninck et al., 2020). As versões comerciais provavelmente incluirão processo de inteligência artificial para auxiliar na decisão de parâmetros de propagação de cada rádio. Uma vez que o ambiente é mutável e a tecnologia não delega as decisões para um ponto central, certa inteligência deverá ser implementada. 26 FINALIZANDO Nesta aula, revisamos alguns conceitos de radiopropagação e estudamos a primeira das redes em uso para conectividade de objetos IoT, as redes IEEE 802.11. Verificamos que a maioria dos padrões de rede WiFi em uso não são ideais para a conectividade IoT, mas sua popularidade, tanto para uso doméstico quanto comercial, faz com que seja mandatório seu estudo. Estudamos, então, especificamente, o padrão WiFi 5, por se tratar do padrão preponderante nas novas instalações de WLAN. Apresentamos os padrões HaLow e WiFi 6, bem como apontamos as tendências nas padronizações 6E e 7, que merecerão nossa atenção futuramente por serem adaptáveis aos requisitos dos objetos IoT. 27 REFERÊNCIAS ARUBA Networks. White Paper 802.11ac In-Depth. Disponível em: . Acesso em: 15 fev. 2022. BRASIL. Agência Nacional de Telecomunicações. Plano de Atribuição, Distribuição e Destinação de Radiofrequências. 2021a. Disponível em: . Acesso em: 15 fev. 2022. ______. Agência Nacional de Telecomunicações. Resolução Anatel n. 680, de 27 de junho de 2017 (Atualizada em 21 de janeiro de 2021). 2021b. Disponível em: . Acesso em: 15 fev. 2022. CISCO Company. Wi-Fi 6E: The Next Great Chapter in Wi-Fi. Disponível em: . Acesso em: 15 fev. 2022. DENG, C. et al. IEEE 802.11 be Wi-Fi 7: New challenges and opportunities. 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Laboratório de Pesquisa em Redes e Multimídia. Disponível em: . Acesso em: 15 fev. 2022. WFA – Wi-Fi Alliance. 2018 Wi-Fi predictions. 2018. Disponível em: . Acesso em: 15 fev. 2022. ZTEC Company. Wi-Fi 6 Technology and Evolution White Paper. Disponível em: . Acesso em: 15 fev. 2022.