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1 CLOVES VILAR DA SILVA DATES BRITO DA SILVA JÚNIOR HELENA ROCHA DE SOUSA ISABELA DA SILVA BEZERRA MATEUS FERREIRA DOS SANTOS NALDYELLEN DO SOCORRO VIEIRA SOUZA ORINALDO FERREIRA RODRIGUES THAIS OLIVEIRA HONÓRIO WAGNER FAGUNDES DOS SANTOS PRINCÍPIO DA PROIBIÇÃO DA REFORMATIO IN PEJUS ALTAMIRA- PA 2024 2 CLOVES VILAR DA SILVA DATES BRITO DA SILVA JÚNIOR HELENA ROCHA DE SOUSA ISABELA DA SILVA BEZERRA MATEUS FERREIRA DOS SANTOS NALDYELLEN DO SOCORRO VIEIRA SOUZA ORINALDO FERREIRA RODRIGUES THAIS OLIVEIRA HONÓRIO WAGNER FAGUNDES DOS SANTOS PRINCÍPIO DA PROIBIÇÃO DA REFORMATIO IN PEJUS Trabalho realizado para obtenção de nota referente à disciplina Processo Do Trabalho - Recursos, Liquidação, Execução E Procedimentos Especiais, desenvolvido na Unidade de Ensino Serra Dourada. Professora: Tamara Jaqueline Feitosa Cavalléro ALTAMIRA - PA 2024 3 SUMÁRIO 1. ORIGEM................................................................................................... 4 2. DA APLICABILIDADE NO ORDENAMENTO......................................... 5 3. FINALIDADE............................................................................................ 8 4. PECULIARIEDADES................................................................................ 8 4.1 DO DIREITO DO TRABALHO................................................................... 8 4.2 DOS RECURSOS..................................................................................... 9 4.3 DO PRINCÍPIO RECURSAL DA NÃO REFORMATIO IN PEJUS............ 10 5. CONCLUSÃO........................................................................................... 12 6. REFERÊNCIAS......................................................................................... 13 4 1. ORIGEM O princípio da reformatio in pejus teve seu surgimento na época do Império Romano. O sentido original da palavra reformatio quer dizer “transformação” ou “modificação”. Quando tal expressão “reformatio in pejus” é empregada no âmbito processual, tem-se uma contradição a ser esclarecida sobre o assunto. Como primeiro estudioso sobre o tema, o suíço Hans-Peter Ricci em 1955 (Reformatio in peius und Anschliessung an das Rechtsmittel im Zivilprozess - unter vergleichweiser Heranziehung des Strafprozesses und des Steuerjustizverfahrens), assegurou que somente haveria reformatio in pejus quando uma nova instancia julgadora alterasse de oficio o objeto principal da decisão atacada, em desfavor do recorrente, quando a outra parte não houvesse impugnado tal ato. O conceito de reformatio in pejus pode ser entendido como situação na qual nova instancia julgadora, agindo exx officio, transforma ou modifica o objeto principal da decisão recorrida em desfavor daquele que contra ela tenha se levantado. Doutro norte, temos a definição do princípio pelo estudioso Bernhard-Michael Kapsa: "Em consequência disso, a reformatio in pejus situa-se, no sentido aqui compreendido, fundamentalmente em qualquer modificação ou anulação de uma decisão atacada em desfavor daquele que contra ela tenha interposto um remédio jurídico". Conforme assevera Bernhard-Michael Kapsa, na prática, a expressão é empregada, sobretudo quando associada à palavra "proibição", para designar o instituto de direito processual que, no âmbito do sistema recursal, representa uma indesejada inversão entre a finalidade do ato e resultado obtido. A decisão do juízo ad quem frustra totalmente a expectativa do recorrente, pois, além de não eliminar a sucumbência que motivou a interposição do recurso, agrava ainda mais a sua situação1. A característica principal deste princípio é a impossibilidade da nova decisão trazer desvantagem para parte recorrente, estando estreitamente relacionada ao 1 Disponível em: https://www.jusbrasil.com.br/noticias/o-que-e-a-reformatio-in-pejus-e-como-esta-se- classifica/305489967. Acesso em 28 fev. 2024. https://www.jusbrasil.com.br/noticias/o-que-e-a-reformatio-in-pejus-e-como-esta-se-classifica/305489967 https://www.jusbrasil.com.br/noticias/o-que-e-a-reformatio-in-pejus-e-como-esta-se-classifica/305489967 5 papel do sistema recursal num dado ordenamento jurídico. Entretanto, veremos que a atuação oficiosa do juízo recursal não pode afetar os capítulos não impugnados. Além disso, o legislador infraconstitucional, ao contrário do afirmado por KAPSA, Bernhard-Michael, não possui ampla liberdade para positivar exceções ao proibitivo. 2. DA APLICABILIDADE NO ORDENAMENTO O princípio da proibição da non reformatio in pejus está atrelado ao efeito devolutivo dos recursos e, com isso, impede que a situação do recorrente seja piorada em decorrência do julgamento de seu próprio recurso. No entanto, tal princípio poderá ser sopesado em situações excepcionais, como no caso de aplicação do efeito translativo dos recursos, segundo o qual será franqueado ao tribunal o conhecimento de matéria de ofício. Ou seja, matéria que por se tratar de assunto que se encontra superior à vontade das partes, o tribunal ad quem poderá apreciar independentemente de pedido dos envolvidos. Assim, a nulidade da sentença ultra petita poderá ser reconhecida, de ofício, pelo tribunal a que se recorre. Na seara trabalhista, o princípio do non reformatio in pejus encontra-se em decisões das primeiras instâncias à corte extraordinária. A exemplo, Agravo de Instrumento em Recurso Ordinário a seguir: EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. OMISSÃO OCORRÊNCIA. EFEITO MODIFICATIVO. Verificada a ocorrência de omissão no decisum impugnado, consubstanciada na ausência de pronunciamento judicial quanto à isenção de custas e despesas processuais ao ente sindical embargante, devem ser acolhidos os embargos de declaração opostos para corrigirem-se os vícios apontados, nos moldes do artigos 897-A da CLT, imprimindo-se efeitos modificativos ao julgado embargado. Nesse contexto, verificou-se que esta E. Turma, em sede de agravo de instrumento em recurso ordinário, isentou a parte do pagamento de honorários advocatícios, custas e despesas processuais, com base nos artigos 18 da Lei nº. 7.347/85 e 87 do CDC - determinação que deve ser mantida em favor da parte, considerando a incidência do non reformatio in pejus ao presente caso. Embargos de declaração acolhidos para isentar o sindicato-autor do pagamento de custas e despesas processuais, bem como para excluir sua condenação ao pagamento de honorários advocatícios sucumbenciais. (TRT da 8ª Região; Processo: 0000959-13.2022.5.08.0111 EDCiv; Data: 09/02/2024; Órgão Julgador: 4ª Turma; Relator: ALDA MARIA DE PINHO COUTO). 6 No mesmo sentido, o princípio do non reformatio in pejus encontra-se em sede recursal. A exemplo, o não provimento do Recurso Ordinário a seguir: VALOR DO SALÁRIO BASE FIXADO NA SENTENÇA. LIMITAÇÃO DA CONDENAÇÃO AOS VALORES INDICADOS NA PETIÇÃO INICIAL. MERA ESTIMATIVA. 1. Sob pena de violação do princípio da non reformatio in pejus, é incabível o pleito recursal formulado pela reclamada quanto à majoração do valor do salário base que foi fixado na sentença para fins de apuração das parcelas objeto da condenação, considerando que não houve recurso da parte reclamante. 2. Os valores apontados na petição inicial não delimitam a condenação, servindo apenas como estimativa para os pedidos formulados, consoante entendimento firmado pela Subseção I Especializada em Dissídios Individuais do C. TST. (TRT da 8ª Região; Processo: 0000374-18.2023.5.08.0113 ROT; Data: 01/02/2024; Órgão Julgador: 2ª Turma; Relator: JOSE EDILSIMO ELIZIARIO BENTES) Da mesma forma, temos julgados com aplicabilidade do mesmo princípio na Corte Superior Trabalhista,em sede de Recurso de Revista, conforme abaixo: “I - RECURSO DE REVISTA. DIMENSÃO HORIZONTAL DO EFEITO DEVOLUTIVO. "NON REFORMATIO IN PEJUS". No art. 1.013 do CPC está previsto o efeito devolutivo da apelação, que se aplica analogicamente ao processo do trabalho (art. 769 da CLT). Extrai-se da dimensão horizontal do efeito devolutivo que a decisão proferida em razão da insurgência da parte que dela se vale não poderá agravar sua situação. Trata-se da proibição do "reformatio in pejus". Na espécie, a Corte Regional deu provimento ao recuso ordinário das autoras para, reformando a sentença por meio da qual o juízo de primeiro grau havia extinto o processo sem resolução do mérito, julgar improcedente a ação. Recurso de revista conhecido e provido. [...]” (TST- ARR10008-98.2016.5.03.0185, 3ª Turma, rel. Min. Alberto Luiz Bresciani de Fontan Pereira, julgado em 24/11/2021.) No mesmo sentido: "I - AGRAVO DE INSTRUMENTO EM RECURSO DE REVISTA INTERPOSTO PELA EXEQUENTE NA VIGÊNCIA DA LEI 13.467/2017. EXECUÇÃO 1. CORREÇÃO MONETÁRIA. ÍNDICE APLICÁVEL. FAZENDA PÚBLICA. TRANSCENDÊNCIA RECONHECIDA. Demonstrada possível violação do art. 5º, II, da Constituição Federal, impõe-se o provimento do agravo de instrumento para determinar o processamento do recurso de revista. Agravo de instrumento conhecido e provido. 2. LITIGÂNCIA DE MÁ-FÉ. CONTROVÉRSIA ACERCA DA PRECLUSÃO DA DISCUSSÃO SOBRE A CORREÇÃO MONETÁRIA. MULTA. Demonstrada possível violação do art. 5º, LV, da Constituição Federal, impõe-se o provimento do agravo de instrumento para determinar o processamento do recurso de revista. Agravo de instrumento conhecido e provido. II - RECURSO DE REVISTA INTERPOSTO PELA EXEQUENTE NA VIGÊNCIA DA LEI 13.467/2017. EXECUÇÃO 1. CORREÇÃO MONETÁRIA. ÍNDICE APLICÁVEL. FAZENDA PÚBLICA. TRANSCENDÊNCIA RECONHECIDA. 1. De acordo com o Supremo Tribunal 7 Federal, aplica-se à Fazenda Pública, em relação à correção monetária dos valores por ela devidos, a exegese definida na ADI 4.357, ADI 4.425, ADI 5.348 e no RE 870.947-RG (Tema 810), diretriz que se aplica igualmente à ECT, tendo em vista a sua equiparação à Fazenda Pública. 2. Ao apreciar as ADI 4.357, ADI 4.425, ADI 5.348 e o RE 870.947-RG (tema 810), o STF declarou inconstitucional o art. 1º-F da Lei nº 9.494/97, na parte em que disciplina a atualização monetária das condenações impostas à Fazenda Pública segundo a remuneração oficial da caderneta de poupança, por não ser idônea a manter o poder aquisitivo da moeda. Em consequência, determinou a adoção do IPCA- E para atualização dos créditos devidos pela Fazenda Pública, em substituição à TRD. 3. Ocorre que o regime jurídico de pagamento de precatórios foi alterado, recentemente, pela Emenda Constitucional 113, de 8/12/2021, com reflexos no critério de juros e atualização monetária das condenações judiciais da Fazenda Pública, nos termos do respectivo art. 3º. Desse modo, a partir da vigência da referida Emenda, para fins de atualização monetária e compensação da mora, haverá a incidência, uma única vez, até o efetivo pagamento, do índice da taxa Selic, acumulado mensalmente. Recurso de revista conhecido e parcialmente provido. 2. LITIGÂNCIA DE MÁ-FÉ. CONTROVÉRSIA ACERCA DA PRECLUSÃO DA DISCUSSÃO SOBRE A CORREÇÃO MONETÁRIA. MULTA. 1. A aplicação de juros e correção monetária consiste em pedido implícito, que pode ser analisado inclusive de ofício pelo julgador (art. 322, § 1º, do CPC; Súmula 211 do TST e Súmula 254 do STF), pelo que não há de se conceber em julgamento ultra ou extra petita ou em preclusão da matéria ou até mesmo em reformatio in pejus (Rcl 48135 AgR, Relator Min. Alexandre de Moraes, Primeira Turma, DJe 26/08/2021). 2. Desse modo, ainda que se verifique o trânsito em julgado e a discussão da matéria em impugnação à liquidação, a devolução da matéria relativa à correção monetária não esbarra na preclusão. Por conseguinte, não se vislumbra qualquer intento procrastinatório da parte ao interpor agravo de petição. Recurso de revista conhecido e provido" (RR-921-79.2017.5.05.0492, 8ª Turma, Relatora Ministra Delaide Alves Miranda Arantes, DEJT 26/02/2024). Devido à grande aplicabilidade desse princípio, principalmente na esfera penal, mas com grande aplicabilidade nos outros ramos do direito, na esfera trabalhista não poderia ser diferente, conforme nota-se nos julgados apontados acima. Portanto, como todos os outros princípios regentes do Direito Processual do Trabalho, em especial na fase recursal, o princípio do non reformatio in pejus segue, para garantir que o recorrente não tenha sua situação agravada. 3. FINALIDADE A finalidade do princípio da non reformatio in pejus de que o tribunal não pode piorar ou agravar a situação jurídica do réu em face de recursos interposto exclusivamente pela defesa, assim não podendo proferir uma decisão mais 8 desfavorável do que a recorrida2. A non reformatio in pejus tem então por objetivo evitar que o tribunal possa decidir de modo a piorar a situação do réu, por não haver recurso da parte contrária. Por exemplo, um arguido foi condenado a oito anos de prisão e interpôs recurso para absorvê-lo, mas depois de considerar o recurso, o tribunal negou o pedido e aumentou a pena para 12 anos. Nesta situação, a pena condenada ao arguido será aumentada, tornando o julgamento inválido, conforme explicita SANTOS e FILHO (2018, p. 537): “Assim, o Tribunal não pode decidir de modo a agravar a situação do recorrente; Em conformidade com o princípio que veda a reforma para pior, o Tribunal pode manter a decisão em cinco ou aumentá-la até 10; contudo, não poderá reduzir o valor original, ou seja, reduzir aquém de cinco”. O princípio da reformatio in pejus da Lei do Processo do Trabalho estabelece que a decisão do tribunal pode ser modificada em detrimento do recorrente, mesmo que a parte não recorra. Isso ocorre porque o objetivo é alcançar a justiça substantiva, ainda que em detrimento do recorrente, desde que observados os limites legais e constitucionais. Este princípio é utilizado para evitar decisões injustas com o fundamento de que a parte receptora não recorreu. 4. PECULIARIEDADES 4.1 DO DIREITO DO TRABALHO Historicamente o direito do trabalho se consolidou no Brasil nos anos de 1940, impulsionado principalmente através de políticas implantadas pelo então presidente da República Getúlio Vargas, que viu na classe trabalhadora um braço forte para seu crescente populismo. Inegavelmente, o presidente Getúlio Vargas teve papel fundamental para o reconhecimento de direitos para a classe operaria. Entre eles, está a criação do Ministério do Trabalho, o que proporcionou melhorias nas relações trabalhistas, como o estabelecimento de limite de horas de trabalho e principalmente pelo estabelecimento de um salário mínimo mensal. Nessa evolução dos direitos trabalhistas, os quais teve reflexo nas normas 2 PEREIRA, Leone. Manual de processo do trabalho. São Paulo: Saraiva, 2018. p. 670. 9 jurídicas e a consolidação de princípios sobre o tema, dentre eles o princípio da vedação da reformatio in pejus, o qual se enquadra entre os princípios recursais no processo trabalhista. 4.2 DOS RECURSOS Os recursos no âmbito do processo do trabalho são ferramentas a disposição das partes para que expressem sua insatisfação em relação a uma decisão desfavorável em sentença judicial. De forma semelhante ao processo civil os recursos no direito trabalhista devem observar alguns pressupostos de admissibilidade. Entre outros requisitos tratados pela doutrina, está a previsão da legitimidade e o preparo. Sobre a legitimidade o Código de Processo Civil no art. 996 expressa que: Art. 996. O recurso pode ser interposto pela parte vencida, pelo terceiro prejudicado e pelo Ministério Público, como parte ou como fiscal da ordem jurídica.Parágrafo único. Cumpre ao terceiro demonstrar a possibilidade de a decisão sobre a relação jurídica submetida à apreciação judicial atingir direito de que se afirme titular ou que possa discutir em juízo como substituto processual. Já o preparo é um requisito obrigatório em que a parte deve pagar de forma antecipada as despesas do procedimento recursal, como previso no art. 1.007 do CPC: Art. 1.007. No ato de interposição do recurso, o recorrente comprovará, quando exigido pela legislação pertinente, o respectivo preparo, inclusive porte de remessa e de retorno, sob pena de deserção. § 1º São dispensados de preparo, inclusive porte de remessa e de retorno, os recursos interpostos pelo Ministério Público, pela União, pelo Distrito Federal, pelos Estados, pelos Municípios, e respectivas autarquias, e pelos que gozam de isenção legal. § 2º A insuficiência no valor do preparo, inclusive porte de remessa e de retorno, implicará deserção se o recorrente, intimado na pessoa de seu advogado, não vier a supri-lo no prazo de 5 (cinco) dias. § 3º É dispensado o recolhimento do porte de remessa e de retorno no processo em autos eletrônicos. § 4º O recorrente que não comprovar, no ato de interposição do recurso, o recolhimento do preparo, inclusive porte de remessa e de retorno, será intimado, na pessoa de seu advogado, para realizar o recolhimento em dobro, sob pena de deserção. 10 § 5º É vedada a complementação se houver insuficiência parcial do preparo, inclusive porte de remessa e de retorno, no recolhimento realizado na forma do § 4o. § 6º Provando o recorrente justo impedimento, o relator relevará a pena de deserção, por decisão irrecorrível, fixando-lhe prazo de 5 (cinco) dias para efetuar o preparo. § 7º O equívoco no preenchimento da guia de custas não implicará a aplicação da pena de deserção, cabendo ao relator, na hipótese de dúvida quanto ao recolhimento, intimar o recorrente para sanar o vício no prazo de 5 (cinco) dias. Além dos requisitos de admissibilidade, os recursos no direito trabalhista devem estar norteados de princípios basilares como o princípio da vedação da reformatio in pejus. 4.3 DO PRINCÍPIO RECURSAL DA NÃO REFORMATIO IN PEJUS O princípio da non reformatio in pejus possui previsão legal no ordenamento jurídico brasileiro, sendo um princípio decorrente dos princípios do devido processo legal, da ampla defesa e do contraditório, Código de Processo Penal, art. 617: Art. 617. O tribunal, câmara ou turma atenderá nas suas decisões ao disposto nos arts. 383, 386 e 387, no que for aplicável, não podendo, porém, ser agravada a pena, quando somente o réu houver apelado da sentença. Este princípio impede que a parte recorrente seja prejudicada em um processo judicial pela interposição de recurso, ou seja, a decisão proferida em sede de recorrente. A doutrina brasileira reconhece e discute a aplicação desse princípio. Carlos Henrique Bezerra Leite, em sua obra "Curso de Direito Processual do Trabalho", destaca a importância da non reformatio in pejus como um princípio que visa proteger a parte que recorre de uma decisão, garantindo que não haja prejuízo décor. Quanto à jurisprudência, tanto o Tribunal Superior do Trabalho (TST) quanto o Supremo Tribunal Federal (STF) aplicam esse princípio em suas decisões. O TST, por exemplo, já decidiu em diversos casos que a decisão proferida em sede de recurso não pode ser mais prejudicial à parte recorrente do que a decisão original (TST-RR- 2834/2005-050-02-00.5, Relator Ministro João Oreste Dalazen, 4ª Turma, DEJT 05/06/2009). Conforme se observa no seguinte julgado: RECURSO DE REVISTA DA RECLAMANTE INTERPOSTO NA VIGÊNCIA DA LEI 13.015/2014 1 - NULIDADE DO ACÓRDÃO RECORRIDO. PRINCÍPIO DO NON REFORMATIO IN PEJUS. OFENSA AO DEVIDO 11 PROCESSO LEGAL. HORAS EXTRAS. REVELIA. Nos termos do art. 1.008 do CPC/2002, "o julgamento proferido pelo tribunal substituirá a decisão impugnada no que tiver sido objeto de recurso", e ainda, de acordo com o art. 1.013 do CPC/2002, "a apelação devolverá ao tribunal o conhecimento da matéria impugnada". Quando o Colegiado deixa de observar referidos dispositivos legais e reforma a decisão para piorar a condição da recorrente, acaba afrontando o devido processo legal. Ao reformar parcialmente a sentença que condenou a reclamada ao pagamento de 27 horas extras mensais, relativamente ao período laboral compreendido entre 04.11.2013 a 04.02.2014 e determinar o pagamento de 24 horas extras mensais relativas ao referido período, o Tribunal Regional afrontou o devido processo legal, em razão da vedação da reformatio in pejus. Recurso de revista conhecido e provido. 2 - REVELIA. JORNADA DECLINADA NA INICIAL. HORA EXTRA ACIMA DA OITAVA DIÁRIA. HORA EXTRA ACIMA DA QUADRAGÉSIMA QUARTA SEMANAL. ADICIONAL. Em relação ao pedido de horas extras relacionado ao primeiro período do contrato de trabalho, entre 04.11.2013 a 04.02.2014, deve ser mantida a decisão de piso que condenou a reclamada ao pagamento de 27 horas extras mensais com adicional de 50%, em razão da proibição da reformatio in pejus . Em relação ao segundo período do contrato, entre 05.02.2014 a 02.06.2014, embora a decisão regional observe a jornada declinada na inicial - mantida em razão da revelia - compreendida entre 05h30min às 21h às segundas, quartas e sextas-feiras, merece reparo a decisão. Isto porque, nos termos do art. 7.º, XIII, da Constituição Federal, há que se observar o limite diário de oito horas de trabalho, combinado com o limite semanal de 44 horas semanais. Da jornada declinada na inicial e reconhecida como verdadeira em razão da revelia, infere-se a existência de acordo tácito de compensação de jornada, conforme menciona a Súmula 85, III, do TST. Tendo em vista a realização de jornada de trabalho das 5:30h às 21:00h, com a existência de horas extras habituais, deve ser reformada a decisão regional para condenar a reclamada ao pagamento das horas que ultrapassarem a jornada semanal normal de 44 horas como extraordinárias e, quando àquelas horas extras acima da oitava diária, ao pagamento do adicional de 50%, nos termos da Súmula 85, IV, do TST. Recurso de revista conhecido e provido. (grifo nosso). Da mesma forma, o STF também reconhece e aplica o princípio da non reformatio in pejus em sua jurisprudência: Penal e processual Penal. Recurso ordinário em habeas corpus. Proibição de reformatio in pejus na dosimetria. Ocorre reformatio in pejus quando o Tribunal, em julgamento de recurso exclusivo da defesa, reconhece elemento desfavorável não considerado na sentença de primeiro grau ou amplia o aumento de pena então fixado, ainda que tenha reduzido o quantum total da sanção imposta ao paciente. Trata-se, portanto, de um exame qualitativo e não somente quantitativo. Interpretação sistemática do art. 617 do CPP. Caso concreto em que, sem impugnação do Ministério Público, o Tribunal, embora tenha afastado todas as circunstâncias negativas da primeira fase da dosimetria, aumentou o agravamento ocasionado pelo reconhecimento da reincidência. Recurso provido. (grifo nosso). Em casos como esses que chegam à corte, é comum que o STF reafirme a impossibilidade de uma decisão em recurso ser mais prejudicial à parte recorrente do que a decisão original (STF, RE 579431 AgR, Relator Min. Ricardo Lewandowski, Primeira Turma, DJE de 26/08/2010). 12 5. CONCLUSÃO Assim, o princípio da non reformatio in pejus tem previsão legal no Código de Processo Penal, sendo que sua aplicação no processo trabalhista é admitida tanto pela doutrina quanto pela jurisprudência brasileira, especialmente pelos tribunais superiores, como forma de assegurar a proteção das partes e a segurança jurídica no âmbito das relações processuais trabalhistas. 13 REFERÊNCIAS BRASIL. Códigode Processo Civil (2015). Código de Processo Civil Brasileiro. Brasília, DF: Senado, 2015. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13105.htm. Acesso em: 28.02.2024. EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. OMISSÃO OCORRÊNCIA. EFEITO MODIFICATIVO. Disponível em: https://juris.trt8.jus.br/pesquisajulgados/;jsessionid=SAOP83696FAg5LVkK_M6FbqDj Gy5YV7HQPTR9iiY.juris-jb-prod. Acesso em: 28.02.2024. “I - RECURSO DE REVISTA. DIMENSÃO HORIZONTAL DO EFEITO DEVOLUTIVO. "NON REFORMATIO IN PEJUS". Disponível em: https://jurisprudencia- backend2.tst.jus.br/rest/documentos/fcba8f7b7b16cf98318ed75bf125d47b . Acesso em: 28.02.2024. KAPSA, Bernhard-Michael. Op. cit., p. 108 e STÜRNER, Michael. Die Anfechtung von Zivilurteile. In: Eine funktionelle Untersuchung der Rechtsmittel im deutschen und englischen Recht. Munique: C. H. Beck, 2002. p. 165-168). KLAMARIS, Nikolaos. Das Rechtsmittel der Anschlussberufung. Tübingen: J.C.B. Mohr, 1975. p. 114-115. KLUSKA, Flávia Ortega. O que é a "reformatio in pejus" e como esta se classifica?. Jusbrasil, 2016. Disponível em: https://www.jusbrasil.com.br/noticias/o-que-e-a- reformatio-in-pejus-e-como-esta-se-classifica/305489967. Acesso em 28.02.2024. SANTOS, Enoque Ribeiro dos; FILHO, Ricardo Antonio Bittar Hajel. Curso de direito processual do trabalho. São Paulo: Atlas, 2018. P. 537. PEREIRA, Leone. Manual de processo do trabalho. São Paulo: Saraiva, 2018. p. 670. (TST - RR: 1036020155070034, Relator: Delaíde Miranda Arantes, Data de Julgamento: 03/09/2019, 2ª Turma, Data de Publicação: DEJT 06/09/2019) (STF - RHC: 189695 MG 0023525-56.2020.3.00.0000, Relator: NUNES MARQUES, Data de Julgamento: 05/10/2021, Segunda Turma, Data de Publicação: 03/11/2021) https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13105.htm https://juris.trt8.jus.br/pesquisajulgados/;jsessionid=SAOP83696FAg5LVkK_M6FbqDjGy5YV7HQPTR9iiY.juris-jb-prod https://juris.trt8.jus.br/pesquisajulgados/;jsessionid=SAOP83696FAg5LVkK_M6FbqDjGy5YV7HQPTR9iiY.juris-jb-prod https://jurisprudencia-backend2.tst.jus.br/rest/documentos/fcba8f7b7b16cf98318ed75bf125d47b https://jurisprudencia-backend2.tst.jus.br/rest/documentos/fcba8f7b7b16cf98318ed75bf125d47b 14 JÚNIOR, Theodoro Humberto. Curso de direito processual civil. 59. ed. rev., atual. e ampl. Rio de Janeiro: Forense, 2018. LIMA, Renato Brasileiro de. Manual de processo penal: volume único. 8. ed. rev., ampl. e atual. Salvador: JusPodivm, 2020.