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ECONOMIA MONETÁRIA Dr. Marcos Roberto de Lima Aguirre Sumário 1. Noção de Moeda 2. História da moeda 3. Valor da moeda 4. Economia Monetária Comportamental 5. Moeda e Sistema Financeiro 6. Sistema de Reserva Fracionária Noção de moeda A economia monetária envolve uma gama muito ampla de temas, desde a oferta e demanda de moeda até a emissão, até a criação de moeda pelo sistema bancário, passando pelo valor da moeda, a relação entre massa monetária, renda, consumo, poupança e transações, taxas de juros e taxas de câmbio entre diferentes espaços monetários. Etnologicamente a palavra moeda vem de moneta, um substantivo ligado ao verbo latim monere, que significa alertar sobre o futuro. Estamos sob a inspiração da deusa Juno, que alertou os mortais anunciando o futuro para eles. Noção de moeda Após uma fase primitiva caracterizada por trocas diretas, a humanidade sentiu a necessidade de usar certos bens, que por sua raridade foram aceitos como instrumentos gerais de troca (como sal, marfim, metais preciosos ou conchas especiais raras e valiosas). A dificuldade na troca de mercadorias por outros logo se viu de acordo com o princípio da divisão do trabalho, mas também foi indispensável adotar uma medida comum de valores para facilitar as transações, sem utilizar um complexo sistema de comparação entre bens diferentes. Quanto custaria um cavalo em sacos de trigo? E como fazer quando os valores não estavam certos na respectiva partida? Quais são as funções da moeda? Noção de moeda São fundamentalmente três: instrumento geral de troca, medida comum de valores e reserva de valores. Uma vez que a moeda em troca da aquisição de um bem ou um serviço torna possível a troca a vantagem da clareza e facilidade na transação. A moeda é, portanto, um instrumento geral de comércio. Mas as unidades monetárias são usadas para avaliar o valor das mercadorias em termos absolutos e relativos e são um instrumento de medida de confiabilidade confiável. Noção de moeda A função primária da moeda é de garantir a confiabilidade do peso e do valor das moedas em circulação ou medida de valores. A função de um instrumento geral de câmbio também resulta na reserva de valor para a moeda. A moeda é a união entre o presente e o futuro, de acordo com a simbologia representada pela deusa Juno. Ao impor assuntos econômicos para prevenir o futuro, é fácil entender que a poupança é parte fundamental da estabilização econômica de uma comunidade. A moeda no século XXI leva a formular um conceito como a preferência pela liquidez, originada na escola de Cambridge. Noção de moeda A preferência por liquidez é uma tendência verificável na economia contemporânea, a fim de manter a moeda imediatamente disponível para a satisfação das necessidades humanas. Deriva de três razões fundamentais: • A razão da transação, segundo a qual os sujeitos econômicos podem comprar com moeda disponível os bens e serviços que atendam às suas necessidades; • A razão de precaução, uma vez que a moeda é armazenada para situações futuras imprevistas; e • A razão da especulação, uma vez que a moeda pode ser usada para ganhos fáceis e imediatos gerando superávits potenciais, e verifica-se que o acumulação especulativa aumenta quando a remuneração do capital diminui, ou seja, quando a taxa de juros cai. Noção de moeda A massa monetária ou "ações monetárias" é considerada como o todo composto por todas as unidades monetárias de uma economia compartilhada entre os diferentes sujeitos econômicos, que garantem o financiamento de suas atividades. A noção de circulação monetária corresponde à massa monetária em movimento, o que nos leva ao entendimento da velocidade de movimento, ou seja, o número de vezes que uma moeda é dada no pagamento. Noção de moeda Existem vários tipos de moeda. Em primeiro lugar, a moeda que constitui um meio imediato de pagamento em transações é designada como M1, e consiste na moeda, dinheiro em papel e saldos dos depósitos a pedido - o livro ou moeda bancária. Também temos outro tipo de moeda onde a função de reserva de valor é refletida, que é chamada de M2, e consiste em depósitos a prazo (no curto prazo mais de 180 dias ou a médio e longo prazo) no sistema bancário. Finalmente temos a quase moeda, composta de M2 e também a poupança mobilizando títulos, como títulos, passagens e títulos do tesouro - este é o M3. História da moeda A divisão do trabalho e as dificuldades no câmbio direto levaram à adoção da moeda como instrumento de troca e padrão de valor. Como dissemos, metais preciosos (ouro e prata) logo se mostraram maestrias por sua resistência, inalterabilidade, maior facilidade de transporte e difícil falsificação. A moeda surgiu e assim foi afirmada. No entanto, o valor e o peso foram adicionados aos fragmentos de metais preciosos que funcionavam como moeda. Esta marca caracterizou a primeira fase da cunhagem, ainda na antiguidade. A cunhagem começou privada, mas o risco de abuso e o surgimento do poder político público começaram a ser atribuído a essa tarefa. História da moeda Os príncipes também abusaram desse privilégio com constantes ataques cambiais - o que levou os Tribunais e os Parlamentos a redobrar sua atividade permanente de controle e autorização de acordo com o princípio do consentimento. Minerar dinheiro era direito dos soberanos. Na segunda metade do século XVII, na Inglaterra, foi estabelecida a liberdade de mineração, e qualquer detentor particular de uma barra de ouro ou prata pode transformá-la em uma moeda, mas o Estado foi responsável por fazer essa transformação através da Casa da Moeda. História da moeda Havia um requisito para que os indivíduos privados aceitassem moeda cunhada com o valor estabelecido pelo Príncipe. Este é o conceito de processo judicial, que é complementar ao direito à moeda. Esta é uma exigência imposta aos indivíduos, uma vez que ninguém poderia se recusar a aceitar no pagamento as espécies monetárias que haviam declarado curso. O curso jurídico não significa, no entanto, pleno poder libertador. Existem moedas de curso legal que só são aceitas em pagamentos insignificantes. História da moeda A moeda de papel aparece excepcionalmente no início do século XVIII como resultado de depósitos feitos por detentores de metais preciosos no sistema bancário. A circulação da moeda de papel representativa começa a se consolidar por ser uma cobertura de moeda equivalente à circulação, com base na confiança e na capacidade do sistema bancário de criar uma nova moeda. O dinheiro em papel torna-se a moeda fiduciária, neste caso não há mais ligação com a moeda metálica ou metais preciosos em reserva, mas sim de regras prudenciais e confiáveis a serem cumpridas. História da moeda Assim, nasce a moeda representativa, basicamente a moeda-papel, constituída por notas de banco, começou por ser moeda representativa, pois à quantidade de notas em circulação equivalia igual valor de ouro ou prata retido nos cofres dos banco. Foi idealizada pelo economista escocês John Law (1716) usou parte das reservas para investir em seu negócio. Começou a emitir muita moeda representativa, até superar o valor em reserva no Banco Real Francês. Logo após a especulação, o povo francês foi atrás do seu dinheiro, convertido em ouro. Como não tinha dinheiro suficiente para pagá-los, acabou pedindo falência, sofrendo assim humilhação pública em 1720. História da moeda A moeda fiduciária foi consolidada a partir desse antecedente, estabelecendo algumas regras, como a necessidade de exigir que o banco mantivesse um terço dos depósitos em reserva. Assim consagramos regras e um sistema de supervisão e monitoramento para garantir a confiança dos sujeitos econômicos. O dinheiro em papel é inconversível e tem curso forçado. O curso forçado dita que a moeda circula e deve ser aceita por todos. História da moeda A inconversibilidade do dinheiro em papel é resultado tanto da tendência à desmaterializaçãoquanto do fato de que os títulos públicos emitidos pelo Estado também deixaram de ser conversíveis. Hoje as moedas correspondem a uma pequena parte da circulação monetária, a maior parte da moeda disponível corresponde à entrada de livros ou moeda bancária, ou seja, os saldos dos depósitos atuais. A moeda contábil resulta da criação monetária pelo sistema bancário, correspondente às transações de escrita, que são postadas em conta corrente, apenas movimentações monetárias existentes em relação a saldos, crédito ou débito. Valor da moeda O tema do valor dos bens econômicos coloca dificuldades tradicionais para a doutrina econômica. O conceito de valor da moeda apresenta dificuldades naturais. Há uma primeira explicação muito simplista, quase intuitiva, que liga o valor da moeda ao custo de produção do objeto que a representa a peça metálica de ouro ou prata, a este critério é chamado de metalista. A moeda é usada para adquirir outros bens e seu valor de uso é eventualmente confundido com o valor de câmbio. O valor das mercadorias tem uma expressão monetária. Esse é o preço! Valor da moeda O valor da moeda será, portanto, influenciado pelo seu poder de compra e pelo nível geral dos preços. O valor da moeda variará na proporção inversa do nível geral de preço. Quanto maior o nível de preço, menor o valor da moeda. Há outra explicação, o nominalista, de que o valor da moeda será o afixado a ela. Tendo certeza de que, com a desmaterialização da moeda, a tendência nominalista poderia ser fortalecida, a verdade é que nos deparamos com um critério incapaz de explicar o fenômeno contemporâneo da moeda. Valor da moeda O valor da moeda dependerá, na suposição, do pressuposto de que há um volume constante de transações, não apenas de rendimento, mas também da previsão de futuras mudanças no poder de compra da moeda. As expectativas psicológicas desempenham um papel fundamental ( falta de confiança, pessimismo, ondas de pânico podem induzir quebras acentuadas no valor da moeda e etc). Afinal, o valor da moeda depende de um conjunto complexo de fatores econômicos, sociais e psicológicos. Economia Monetária Comportamental A demanda por moeda durante um determinado período corresponde às somas adquiridas nesse mesmo período que o agente econômico opta por manter na forma líquida. A demanda por moeda faz parte, portanto, da escolha do consumidor, dentro das famílias, e na escolha do produtor, no que diz respeito às empresas. Já vimos os motivos da preferência pela liquidez (transação, precaução e especulação). Os operadores econômicos definem a demanda por dinheiro pelo seu comportamento e indicam quais fatores econômicos variam essa demanda, bem como a direção em que atuam. Economia Monetária Comportamental A preferência por liquidez é influenciada por dois fatores - por um lado, a taxa de juros; por outro lado, renda. O nível da taxa de juros influencia negativamente a preferência pela liquidez, já que quanto maior for, menor a tendência de manter a liquidez dos meios monetários. A taxa de juros é o custo de oportunidade para manter a moeda. A demanda por moeda aparece, portanto, como uma função decrescente da taxa de juros. Economia Monetária Comportamental O nível de renda influencia positivamente a demanda por moeda. Quanto maior o rendimento, maior a tendência de ter moeda líquida adequada para a compra de bens e serviços. A demanda por moeda aparece, portanto, em função da renda. Moeda e Sistema Financeiro A moeda criada pelos bancos centrais está de duas formas - seja a emissão de cédulas (dinheiro em papel) ou o registro de uma quantia na conta corrente aberta pelo banco central em nome da instituição de crédito comercial considerada. Assim, a moeda do banco central é criada tanto no momento das operações de crédito concedidas por ela aos bancos comerciais, quanto no momento das transações de compra em moeda estrangeira no mercado de câmbio (moedas). Moeda e Sistema Financeiro Isso estabelece uma estreita relação entre a atividade do Banco Central e a economia. À medida que a economia cresce e o multiplicador de investimentos gera um aumento de renda, há condições para a criação monetária sem gerar inflação. Os Bancos Centrais têm outras funções além da emissão monetária - ou seja, supervisão prudencial do sistema financeiro, a fim de garantir solidez e confiança nos intermediários financeiros. Assim, é garantido, por exemplo, ao banco comercial a realização das disposições ou reservas indispensáveis à boa saúde financeira do setor. Moeda e Sistema Financeiro Os Bancos Centrais também podem ser bancos do Tesouro Central, ser responsáveis pela gestão de reservas cambiais ou pelos Sistemas e Câmaras de Liquidação e Compensação (Clearing House) que permite que intermediários financeiros realizem operações bancárias. Sistema de Reserva Fracionária O sistema de reserva fracionária refere-se à prática bancária, adotada na maioria dos países do mundo, que permite que os bancos façam empréstimos ou investimentos em valor muito superior ao valor dos depósitos sob sua guarda, desde que mantenham como reserva uma determinada fração do valor desses depósitos. Esse sistema permite que os bancos emprestem a maior parte dos depósitos a vista, retendo compulsoriamente apenas uma fração desses depósitos. O sistema de reservas fracionárias baseia-se na crença de que os depositantes não sacarão a totalidade de seu dinheiro imediatamente, sob pena de quebrar a instituição com a ausência de liquidez. Sistema de Reserva Fracionária A reserva fracionária é, portanto, um valor correspondente à determinada fração dos depósitos bancários que, por lei, o banco é obrigado a manter, em dinheiro ou na forma de ativos facilmente liquidáveis. Tal reserva é mantida no próprio banco ou depositada no banco central. Os bancos agem como intermediários entre tomadores de empréstimos e poupadores, oferecendo empréstimos a prazo, ao mesmo tempo que garantem liquidez imediata aos depositantes. Todavia, há sempre o risco de corrida aos bancos, com súbitas retiradas de dinheiro em montante superior ao das reservas do banco. Sistema de Reserva Fracionária Para mitigar esse risco e evitar que um eventual contágio para os outros bancos possa desencadear uma crise sistêmica, os governos da maioria dos países regulam e supervisionam os bancos comerciais, instituem seguros para os depositantes, além dos bancos centrais atuarem como emprestadores de última instância para os bancos comerciais. Uma vez que os depósitos bancários são normalmente considerados como dinheiro e dado que os bancos mantêm reservas inferiores ao valor total dos depósitos de clientes, a reserva fracionária permite que a oferta monetária cresça além do montante da base monetária originalmente criada pelo banco central. Sistema de Reserva Fracionária O Banco Central (ou outra autoridade monetária) regula a criação de crédito bancário, impondo uma proporção entre depósitos compulsórios e o capital mínimo regulatório. Isso pode limitar a capacidade de criação de moeda pelo sistema bancário, contribuindo para assegurar que os bancos se mantenham solventes e que tenham fundos suficientes para atender à demanda de saques dos seus clientes. Todavia, em lugar de controlar diretamente a oferta monetária, os bancos centrais geralmente perseguem uma meta de taxa de juros para controlar a inflação e a concessão de créditos bancários. Referências Bibliográficas Autores indicados: ABRÃO, Nelson. Direito Bancário - 18ª ed. São Paulo: Editora Saraiva, 2019. ASSAF NETO, Alexandre. Mercado Financeiro. 14ª ed. São Paulo: GEN, 2018. MIRAGEM, Bruno. Direito Bancário. 3ª ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2019. SALOMÃO NETO, Eduardo. Direito Bancário. 2ª ed. São Paulo: Atlas, 2014.