Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.

Prévia do material em texto

Estudo Completo sobre Métodos de 
Resolução de Conflitos 
 
A lide processual é o conflito tal como aparece no processo judicial. 
Ela é formada pelo que está escrito na petição inicial (a versão do autor) e na contestação 
(a versão do réu). 
Esses dois documentos “moldam” o que o juiz pode analisar e decidir. O problema é que, 
muitas vezes, essa forma de apresentar o conflito não revela os reais interesses das 
partes, ou seja, não mostra de fato o que cada um gostaria de resolver na prática. 
A lide sociológica é o conflito real entre as partes, ou seja, aquilo que elas de fato querem 
resolver. 
Ela nem sempre coincide com o que aparece no processo (a lide processual). 
Muitas vezes, o que vai para o processo é apenas uma parte do problema, traduzida em 
termos jurídicos (pedido, causa de pedir, provas). Já a lide sociológica reflete o verdadeiro 
interesse das pessoas envolvidas — que pode ser mais amplo, emocional, econômico ou até 
relacional. 
A pacificação social acontece quando o conflito é resolvido de verdade, ou seja, quando os 
interesses reais das partes (lide sociológica) são atendidos. 
Se o processo resolve apenas o que está nos papéis (lide processual), pode até encerrar a 
ação judicial, mas o conflito entre as pessoas pode continuar existindo. Já quando se chega a 
uma solução que considera os verdadeiros interesses de todos, aí sim há uma paz 
duradoura e efetiva na relação. 
A autocomposição de conflitos acontece quando as próprias partes envolvidas chegam 
a um acordo para resolver o problema, sem precisar que o juiz imponha uma decisão. 
Isso pode ocorrer de duas formas: 
• Diretamente entre as partes (ex.: duas pessoas que brigaram por causa de um 
contrato e acabam fazendo um acordo entre si). 
• Com a ajuda de um terceiro imparcial, como no caso da mediação ou da 
conciliação, em que alguém facilita o diálogo, mas não impõe a solução. 
As formas de autocomposição mais conhecidas são: 
1. Negociação → as próprias partes conversam diretamente, sem intermediários, para 
tentar chegar a um acordo. 
2. Conciliação → há a presença de um terceiro (o conciliador), que atua de forma mais 
ativa, sugerindo soluções para que as partes cheguem a um acordo. 
3. Mediação → também há um terceiro (o mediador), mas ele não sugere soluções; sua 
função é facilitar o diálogo para que as próprias partes construam, juntas, a 
solução. 
A negociação direta é quando as próprias partes que estão em conflito conversam face a 
face, sem intermediários, para tentar chegar a um acordo. 
 Ou seja: 
• Não há a presença de juiz, conciliador ou mediador. 
• O diálogo é feito somente entre os envolvidos. 
• O objetivo é encontrar uma solução que atenda aos interesses de ambos. 
Exemplo prático: duas pessoas discutem sobre o valor de um aluguel atrasado e decidem 
conversar entre si para definir um novo prazo de pagamento. 
1. Negociação 
 É o diálogo entre as partes para buscar uma solução que satisfaça ambas, podendo 
haver concessões mútuas. 
Exemplo: dois vizinhos discutem sobre barulho, conversam e chegam ao consenso de que 
um só fará festas até certo horário. 
2. Renúncia 
 Quando uma das partes abre mão do seu direito, de forma unilateral. 
Exemplo: o credor decide não cobrar uma dívida de um amigo. 
3. Submissão 
 Quando a parte aceita as condições impostas pela outra, sem contestar. 
Exemplo: o devedor paga exatamente o que o credor exige, mesmo achando o valor injusto. 
4. Transação 
 Quando ambas as partes cedem parcialmente para chegar a um acordo. 
Exemplo: o credor aceita receber metade da dívida agora e o restante parcelado, e o 
devedor aceita pagar em condições ajustadas. 
A mediação é uma forma de resolver conflitos em que entra um terceiro imparcial (o 
mediador), que não decide nem impõe nada, mas ajuda as partes a conversarem e a 
entenderem melhor seus verdadeiros interesses. 
Características principais: 
• O ambiente é sigiloso e seguro. 
• O mediador usa técnicas próprias para facilitar o diálogo. 
• O foco é descobrir o que cada parte realmente deseja e precisa. 
• As próprias partes constroem a solução e escolhem a melhor opção para ambas. 
• Isso aumenta o comprometimento em cumprir o acordo, já que foi feito por elas 
mesmas. 
 Em resumo: na mediação, o mediador facilita a comunicação, mas quem decide são 
as próprias partes. 
 Mediação 
• Quem conduz: um mediador (terceiro imparcial, sem poder decisório). 
• Função: ajudar as partes a restabelecer a comunicação e a identificar, por si 
mesmas, soluções para o conflito. 
• Quando é usada: geralmente em casos em que já existe relação anterior entre as 
partes (ex.: família, sociedade, vizinhança). 
• Objetivo: restaurar a relação social e resolver o conflito em sua raiz. 
• Forma de atuar: o mediador facilita o diálogo, estimula reflexões e pode ajudar a 
criar opções além do aspecto financeiro. 
• Tempo: costuma ser mais demorada, podendo envolver várias sessões. 
• Base legal: 
o Lei 13.140/2015, art. 1º, parágrafo único: “atividade técnica exercida por 
terceiro imparcial, sem poder decisório...” 
o CPC, art. 165, §3º: mediador atua preferencialmente quando houve vínculo 
anterior. 
• Processo não vinculante: as partes podem sair a qualquer momento, sem 
prejuízo. 
 
 Conciliação 
• Quem conduz: um conciliador (terceiro imparcial, sem poder decisório). 
• Função: aproximar as partes e sugerir soluções para o litígio. 
• Quando é usada: em casos de conflitos pontuais ou ocasionais, quando não há 
relação duradoura (ex.: acidente de trânsito, cobrança de dívida única). 
• Objetivo: encerrar o litígio com um acordo rápido. 
• Forma de atuar: o conciliador pode propor um caminho de solução (não apenas 
facilitar o diálogo). 
• Tempo: costuma ser mais rápida, normalmente resolvida em uma única sessão. 
• Base legal: 
o CPC, art. 165, §2º: conciliador atua preferencialmente quando não houve 
vínculo anterior entre as partes. 
 
 Comparativo prático 
• Mediação → resolve o conflito em profundidade + busca restaurar a relação. 
• Conciliação → resolve o litígio de forma mais prática e pontual. 
 Exemplo: 
• Dois sócios brigam sobre a gestão da empresa → Mediação (porque há vínculo 
contínuo e precisam se relacionar no futuro). 
• Bateu o carro do vizinho e querem resolver indenização → Conciliação (conflito 
único, sem necessidade de manter vínculo). 
Aspecto Mediação Conciliação 
Foco 
Pessoas, interesses e relações 
(subjetivo) 
Fatos e direitos (objetivo) 
Confidencialidade Sigilosa Normalmente pública 
Enfoque 
Prospectivo, busca soluções 
futuras 
Retrospectivo, busca apurar 
culpa ou encerrar litígio 
Decisão 
Partes encontram suas próprias 
soluções 
Conciliador pode sugerir 
soluções 
Multidisciplinaridade Sim: psicologia, administração, Unidisciplinar: baseado no 
Aspecto Mediação Conciliação 
comunicação, direito etc. direito 
Duração Mais longo, várias sessões 
Mais curto, geralmente uma 
sessão 
Relação entre partes Restaurar relação social 
Resolver conflito 
pontual/ocasional 
Objetivos da conciliação segundo o CNJ 
• Harmonização social das partes 
• Restaurar, dentro do possível, a relação social 
• Técnicas persuasivas, não coercitivas 
• Humanizar o processo 
• Preservar intimidade das partes 
• Solução construtiva com foco futuro 
• Partes se sentirem ouvidas 
• Uso de técnicas multidisciplinares 
 
 Métodos Heterocompositivos 
São métodos em que um terceiro neutro toma a decisão, vinculando as partes. 
Arbitragem 
• Privada: as partes escolhem árbitros e regras. 
• Decisão: sentença arbitral definitiva (irrecorrível, apenas pedido de 
esclarecimento). 
• Vantagens sobre processo judicial: 
o Mais rápida 
o Informal e flexível 
o Confidencial 
o Mantém relacionamento entre as partes 
o Autonomia das partes na escolha do procedimento e árbitros 
• Processo vinculado: segue regras, análise de documentos e testemunhas.Processo Judicial 
• Jurisdicional: o Estado decide imperativamente e impõe a decisão. 
• Devido Processo Legal: garante validade do julgamento. 
• Jurisdição: “dizer o direito” + executá-lo. 
 
 Autotutela 
• Método antigo e não estatal, onde uma parte impõe sua vontade sobre a outra. 
• Características: 
o Não há terceiro imparcial 
o Predomina força, ameaça ou esperteza 
o Resulta em descontrole social e violência 
• Surgiu devido à ausência de Estado ou leis eficazes nas primeiras civilizações. 
Tipo Quem decide Exemplo Observações 
Autocompositivo 
Partes (com ou sem 
terceiro facilitador) 
Mediação, 
conciliação, 
negociação 
Satisfação mútua, acordo 
baseado na vontade das 
partes 
Heterocompositivo 
Terceiro imparcial 
com poder decisório 
Arbitragem, 
processo judicial 
Decisão imposta, vinculante 
Autotutela Parte mais forte 
Conflitos antigos 
sem Estado 
Prevalece violência, risco 
social 
Audiência de Conciliação ou Mediação (CPC, Art. 334) 
• Deve ser designada pelo juiz se a petição inicial preencher os requisitos essenciais. 
• Prazos: 
o Antecedência mínima de 30 dias para a audiência 
o Réu citado com 20 dias de antecedência 
• Desinteresse na autocomposição: 
o Autor indica na petição inicial 
o Réu, 10 dias antes da audiência 
o Se houver litisconsórcio, todos devem manifestar desinteresse 
• Consequências do não comparecimento: 
o Considerado ato atentatório à dignidade da justiça 
o Multa de até 2% do valor da causa ou vantagem econômica, revertida à 
União ou Estado 
• Resultado da autocomposição: 
o Reduzido a termo e homologado por sentença 
 
 Participação de Advogado 
• Obrigatória na audiência: todas as partes devem estar acompanhadas por 
advogado ou defensor público (CPC §9º e Lei de Mediação Art. 10). 
• Procuração específica com poderes para transigir é necessária. 
• Se uma parte não estiver assistida, o mediador suspenderá o procedimento até que 
todos estejam assistidos. 
 
 Papel do Mediador e do Conciliador 
• Mediador: 
o Atua preferencialmente em casos com vínculo anterior entre as partes 
o Facilita a comunicação e ajuda a identificar interesses reais 
o Auxilia as partes a encontrarem soluções consensuais e benéficas para 
ambos 
o Processo confidencial e prospectivo (voltado ao futuro) 
• Conciliador: 
o Atua preferencialmente quando não há vínculo anterior 
o Pode sugerir soluções 
o Voltado a encerrar o litígio rapidamente, geralmente pontual e objetivo 
• Escolha: as partes podem escolher o mediador, conciliador ou câmara privada; se 
não houver escolha, há distribuição entre cadastrados 
 
 Capacitação e Cadastro 
• Cadastro obrigatório de mediadores e conciliadores no tribunal 
• Capacitação mínima: 
o Curso teórico e prático, com estágio supervisionado (60 a 100 horas) 
o Requisitos mínimos conforme CNJ 
• Mediador extrajudicial: qualquer pessoa capaz e confiável para as partes, mesmo 
fora de órgão ou conselho 
 
 Impedimentos e Suspeições 
• Aplicam-se mesmos motivos legais de impedimento e suspeição do juiz 
• Conciliadores e mediadores ficam impedidos de: 
o Assessorar, representar ou patrocinar qualquer das partes por 1 ano após 
última audiência 
o Advogar nos juízos em que atuaram, se forem advogados 
• Exclusão do cadastro ocorre se houver: 
o Dolo ou culpa na condução 
o Violação de deveres (confidencialidade, sigilo) 
o Atuação apesar de impedimento ou suspeição 
• Possibilidade de afastamento temporário (até 180 dias) por decisão fundamentada 
 
 Características Gerais 
• Confidencialidade: mediador mantém sigilo e sigilo profissional 
• Autonomia das partes: soluções devem ser construídas pelas próprias partes 
• Não vinculante: as partes podem encerrar a mediação a qualquer momento, sem 
prejuízo 
 Objetivo do mediador 
O mediador busca desarmar defesas e acusações das partes, promovendo cooperação e 
construindo soluções práticas. Ele não impõe decisões, apenas facilita a comunicação e o 
entendimento mútuo. 
 
 Principais ferramentas da mediação 
A. Recontextualização 
• Fazer com que cada parte perceba o conflito sob uma nova perspectiva. 
• Objetivo: estimular entendimento positivo e abrir espaço para soluções 
construtivas. 
B. Audição de propostas implícitas 
• As partes, mesmo em ânimo exaltado, muitas vezes propõem soluções sem 
perceber. 
• O mediador identifica essas propostas e as traz à tona de forma clara. 
C. Afago ou reforço positivo 
• Reforço dado pelo mediador a comportamentos produtivos ou positivos das 
partes ou advogados. 
• Objetivo: estimular a continuidade dessas posturas na mediação. 
D. Silêncio 
• O silêncio permite que as partes ponderem antes de responder. 
• Mediadores experientes usam o silêncio para evitar pressão e estimular reflexão. 
E. Sessões privadas ou individuais (caucus) 
• Reuniões entre mediador e cada parte separadamente, com advogado presente. 
• Objetivos: 
o Expressar sentimentos sem aumentar conflito 
o Identificar questões importantes 
o Evitar compromissos prematuros 
o Avaliar propostas e equilibrar poder 
o Trabalhar habilidades de negociação 
o Quebrar impasses ou avaliar riscos de violência 
F. Inversão de papéis 
• Cada parte assume a perspectiva da outra, estimulando empatia e compreensão 
mútua. 
G. Geração de opções / perguntas orientadas 
• Mediador não apresenta soluções, mas estimula as partes a pensarem em 
alternativas. 
• Perguntas exemplo: 
o “O que poderia funcionar?” 
o “O que você pode fazer para ajudar a resolver esta questão?” 
o “Que outras coisas você poderia tentar?” 
H. Normalização 
• O mediador ajuda as partes a perceber que conflito é natural, evitando atribuição 
de culpa e constrangimento. 
• Objetivo: reduzir tensões e focar na solução. 
I. Organização de questões e interesses 
• Manter o foco nos interesses reais, evitando que a discussão se desvie para 
aspectos irrelevantes ou emocionais. 
• Relaciona claramente questões a serem resolvidas com interesses das partes. 
 O que é Mediação 
• Negociação assistida por um terceiro imparcial (mediador). 
• Características essenciais: 
o Não-adversarial 
o Voluntária 
o Imparcial 
o Protagonismo das partes 
o Independência do mediador 
o Sigilo 
• Objetivo: as próprias partes encontram a solução, sem decisão imposta pelo 
mediador. 
 
 Processo de Mediação – 5 fases 
1. Declaração de abertura – apresentação do mediador, regras e expectativas. 
2. Exposição de razões – cada parte relata seu ponto de vista e sentimentos. 
3. Identificação de questões, interesses e sentimentos – mediador mapeia o 
conflito. 
4. Esclarecimento – aprofundamento das questões e interesses, garantindo que todos 
sejam compreendidos. 
5. Resolução – construção de soluções consensuais pelas próprias partes. 
 
 Preparação do mediador 
• Conhecer o caso e, se possível, conversar com o comediador (se houver). 
• Planejar aspectos de qualidade: técnica, ambiental, social e ética. 
• Preparar sala de mediação: mesa, cadeiras, iluminação, privacidade, água, café, 
material de escritório. 
• Revisar anotações e memorizar nomes das partes (se possível). 
 
 Etapas da sessão 
A. Pré-mediação 
• Informar os mediandos sobre o processo. 
• Avaliar se a mediação é adequada para o caso. 
• Explicar autonomia da vontade, voluntariedade e protagonismo das partes. 
B. Declaração de abertura 
• Apresentar-se e apresentar as partes. 
• Explicar papel do mediador e dos advogados. 
• Regras da sessão: confidencialidade, ordem das falas, não interrupção. 
• Confirmar disposição das partes para colaborar e flexibilizar posições. 
• Funciona como ritual de passagem: da competição à colaboração. 
C. Reunião de informações / relato das histórias 
• Cada parte expõe fatos e sentimentos sem interrupções. 
• Mediador mapeia questões, interesses e possíveis impasses. 
• Validação de sentimentos: reconhecer emoções como frustração, medo ou mágoa. 
• Resumodo mediador: compilar as narrativas e identificar questões centrais. 
D. Sessões individuais 
• Utilizadas quando há alto conflito ou dificuldade de comunicação. 
• Objetivos: 
o Expressar sentimentos sem aumentar tensão 
o Identificar informações importantes e estratégicas 
o Preparar terreno para a sessão conjunta 
• Após sessão privada, parte segue para sessão conjunta. 
E. Sessão conjunta 
• As partes debatem possibilidades de acordo. 
• Mediador estimula comunicação direta e ambiente propício à negociação. 
• Objetivo: construção de consenso pelas próprias partes. 
 
 Encerramento 
• Regulamentado pelo Art. 20 da Lei 13.140/2015: 
o O procedimento termina com celebração do acordo ou quando não há 
mais possibilidade de consenso. 
o O termo final: 
▪ Constitui título executivo extrajudicial se houver acordo. 
▪ Pode ser homologado judicialmente e então se torna título 
executivo judicial.

Mais conteúdos dessa disciplina