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Treinamento proprioceptivo na recuperação do atleta Os conceitos de controle postural e equilíbrio na reabilitação do atleta com foco no sistema proprioceptivo e os processos de avaliação e tratamento pela fisioterapia esportiva. Leonardo Shigaki 1. Itens iniciais Propósito Na fisioterapia esportiva, é fundamental o conhecimento sobre o controle postural e os mecanismos de propriocepção do corpo, pois cada movimento executado no esporte depende desse funcionamento. Em atletas lesionados, o sistema proprioceptivo muitas vezes está comprometido, sendo necessário escolher exercícios específicos para cada fase da reabilitação. Objetivos Identificar os conceitos de controle postural e propriocepção. Analisar as formas de avaliação e recursos para exercícios proprioceptivos. Identificar os exercícios proprioceptivos na reabilitação de atletas. Introdução O movimento é um ato essencial que nos possibilita realizar tarefas relacionadas à vida diária, assim como ao esporte. Para realizar o gesto esportivo, é preciso ter um bom controle neuromuscular. Esse controle é definido como a habilidade de regular ou dirigir os mecanismos fundamentais ao movimento. Porém é comum no esporte que as lesões articulares relacionadas resultem em alterações nas funções proprioceptivas e neuromusculares. A alteração nos receptores proprioceptivos é responsável pelos deficits funcionais, como dificuldade do controle postural, habilidades proprioceptivas e neuromusculares. Além da propriocepção, o controle postural é dependente do sistema visual e vestibular. Para avaliar o controle postural de forma quantitativa na área esportiva, podemos utilizar uma plataforma de força ou testes funcionais: a padronização da avaliação é de extrema importância independentemente do método escolhido. Na fisioterapia esportiva, existem diversos recursos terapêuticos para os exercícios de controle postural, como, por exemplo, espumas, pranchas de equilíbrio, discos proprioceptivos e minitrampolim, entre outros. A reabilitação de atletas precisa ser programada conforme a capacidade do paciente. Restabelecer o controle neuromuscular é o ponto central na reabilitação das articulações que sofreram alguma lesão. Os exercícios de controle neuromuscular devem ser capazes de gerar consciência das sensações e respostas motoras com estratégias coordenadas. O fisioterapeuta precisa ter cuidado ao selecionar os exercícios e realizar a progressão do tratamento. As atividades funcionais de cada esporte podem ser aplicadas na fase final da reabilitação com o objetivo de preparar o atleta para o retorno ao esporte. • • • 1. Controle postural e propriocepção Mecanismos neuromusculares envolvidos na propriocepção Podemos afirmar que o movimento é um ato extremamente essencial para a vida humana. É ele que nos possibilita andar, correr, brincar, alimentar e nos comunicar, entre outras atividades relacionadas à vida diária. Em essência, nos possibilita sobreviver. O controle neuromuscular é o ramo de estudo da natureza do movimento e busca entender como o movimento é controlado. Esse controle é definido como a habilidade de regular ou dirigir os mecanismos fundamentais ao movimento. As lesões articulares relacionadas ao esporte, principalmente no joelho, no tornozelo ou no ombro, tendem a resultar em alterações de longa duração e grande repercussão nas funções proprioceptivas e neuromusculares. Frequentemente, são causadas por lesão parcial ou total dos receptores articulares ou ligamentares pelo próprio trauma ou pela cirurgia reconstrutiva. Também é provável que os receptores articulares que permanecem intactos retransmitam informações aferentes alteradas. Duas alterações fisiológicas (a perda de informação dos mecanorreceptores e a alteração nos receptores restantes) são consideradas responsáveis por deficits funcionais persistentes, como dificuldade do controle postural, redução da força muscular máxima ou atraso no tempo de reação muscular. Assim, com o objetivo de melhorar e otimizar o controle neuromuscular, a reabilitação dos casos de tratamentos cirúrgicos ou não cirúrgicos de lesões esportivas deve focar a restauração e o aprimoramento de habilidades proprioceptivas e neuromusculares. Com base nas informações acima, o restabelecimento do controle neuromuscular deve ser a principal preocupação em todos os programas de reabilitação no âmbito esportivo. Para isso, o fisioterapeuta tem de conhecer os componentes do controle neuromuscular e a importância de cada um deles. O controle neuromuscular decorre da capacidade de sentir a posição de uma articulação no espaço. Essa sensação é mediada por mecanorreceptores encontrados tanto nos músculos quanto nas articulações, além de estímulos cutâneos, visuais e vestibulares. Esses sistemas serão explorados com mais detalhes neste módulo. Saiba mais O controle neuromuscular depende do sistema nervoso central (SNC) para interpretar e integrar informações proprioceptivas e cenestésicas e, em seguida, controlar músculos e articulações individuais para produzir movimento coordenado. Após a lesão e subsequentes repouso e imobilização, o SNC “esquece” como reunir informações provenientes de mecanorreceptores musculares, articulares, cutâneos, visuais e vestibulares. Recuperar o controle neuromuscular significa ter de volta a capacidade de seguir algum padrão sensorial previamente estabelecido. De forma simplificada, esse controle é a tentativa do cérebro de aplicar ao corpo o controle consciente de um movimento específico. Para facilitar o entendimento do tema, veja a seguir, a apresentação da função dos sistemas sensoriais que compõem o controle neuromuscular: Sistema visual A visão é utilizada pelo controle motor de várias maneiras. Ela nos permite identificar objetos no espaço e determinar seu movimento. É considerada um sentido exteroceptivo, ou seja, capaz de captar estímulos externos. A visão também nos informa onde está nosso corpo no espaço, a relação de uma parte do corpo com a outra e o movimento dele. Essa função desempenhada pela visão é conhecida como “propriocepção visual”, o que significa que nos fornece informações não só sobre o meio ambiente, mas também sobre nosso próprio corpo. Sistema vestibular O sistema vestibular é sensível a dois tipos de informações: a posição da cabeça no espaço e as mudanças na direção do movimento da cabeça. Embora não tenhamos consciência da sensação vestibular, como temos dos outros sentidos, as informações vestibulares são importantes para a coordenação de muitas respostas motoras, ajudando a estabilizar os olhos e manter a estabilidade postural durante a postura estática e a marcha. Anormalidades no sistema vestibular resultam em sensações como tontura ou instabilidade, bem como problemas para focar os olhos e manter o equilíbrio. Sistema somatossensorial/proprioceptivo O sistema somatossensorial fornece informações sobre a posição e o movimento do corpo, assim como a superfície de suporte (pés), além de fazer com que as partes do corpo troquem informações entre si. Os proprioceptores do corpo são: fusos musculares e órgãos tendinosos de Golgi (sensíveis ao comprimento e à tensão muscular), receptores articulares (sensíveis à articulação com relação à posição, ao movimento e ao estresse) e mecanorreceptores da pele (sensíveis à vibração, ao toque leve, à pressão profunda e ao estiramento da pele). A propriocepção se refere à avaliação consciente e inconsciente da posição da articulação, enquanto a cinestesia é a sensação de movimento articular ou aceleração. A percepção de força (força sentido) é a capacidade de estimar cargas articulares e musculotendinosas. Esses sinais são transmitidos à medula espinhal por meio de vias aferentes (sensoriais). A percepção consciente do movimento, posição e força das articulações é essencial para o aprendizado motor e a antecipação dos movimentos, enquanto a propriocepção inconsciente modula a função muscular e inicia a estabilização reflexa da articulação. Como tal, o controle neuromuscularengloba a saída motora, que é responsável por produzir movimento e proporcionar estabilidade articular dinâmica e postural. Fuso muscular. As informações visuais, vestibulares e somatossensoriais são normalmente combinadas perfeitamente para produzir nosso senso de orientação e movimento. A informação sensorial é integrada e processada no cerebelo, nos gânglios basais e na área motora suplementar. Já a informação somatossensorial tem o tempo de processamento mais rápido, pois precisa de respostas rápidas, seguido de entradas visuais e vestibulares. Quando as entradas sensoriais de um sistema são imprecisas devido a condições ambientais ou lesões que diminuem a taxa de processamento de informações, o SNC deve suprimir a entrada imprecisa, selecionar e combinar a apropriada entrada sensorial dos outros dois sistemas. Esse processo adaptativo é chamado de organização sensorial. A maioria dos indivíduos poderá compensar bem se um dos três sistemas estiver prejudicado, sendo esse conceito a base para muitos programas de tratamento. Receptores somatossensoriais O lugar intuitivamente óbvio para procurar receptores que atendam ao sentido de posição e ao movimento articular seria nas próprias articulações. É isso o que se acreditou por muito tempo no século XX. As observações inovadoras demonstraram a importância de receptores localizados nos músculos para cinestesia, em particular, o papel desempenhado pelos fusos musculares. Nos dias atuais, é aceito que os fusos musculares são os mais importantes para a propriocepção. Fuso muscular As informações do fuso muscular são usadas durante o controle motor em muitos níveis da hierarquia do SNC. O nível mais baixo está envolvido com a ativação reflexa dos músculos. No entanto, à medida que a informação sobe na hierarquia do SNC, ela é usada de forma cada vez mais complexa e abstrata. Por exemplo, pode contribuir para a percepção do nosso senso de força muscular. Além disso, é transportada por diferentes vias para diferentes partes do cérebro, contribuindo para o processamento cerebral. A maioria dos fusos musculares são receptores sensoriais em forma de fuso encapsulados localizados no ventre muscular dos músculos esqueléticos (imagem). Os fusos musculares detectam o comprimento muscular e as mudanças no comprimento do músculo e, com o reflexo monossináptico, ajudam a regular com precisão o comprimento do músculo durante o movimento. Em humanos, os músculos com a densidade de fuso mais alta (fusos por músculo) são os músculos extraoculares da mão e do pescoço. Os músculos do pescoço têm densidade de fusos musculares porque os usamos na coordenação do olho e da cabeça à medida que alcançamos os objetos e nos movimentamos pelo ambiente. Os diferentes tipos de fibras musculares e sensoriais e os neurônios motores que inervam o fuso muscular são projetados para apoiar duas funções do fuso muscular, sinalizando: 1 Comprimento estático do músculo. 2 Mudanças dinâmicas no comprimento do músculo. Os dois tipos de fibras intrafusais musculares são chamados de “bolsa nuclear” (dividido em tipo estático e dinâmico) e “cadeia nuclear” (tipo estático). A fibra de bolsa nuclear tem muitos núcleos esféricos em sua região central não contrátil (parecendo uma bolsa elástica de núcleos), que se estende rapidamente quando alongada por causa de sua elasticidade. Já a fibra de cadeia nuclear tem uma única linha de núcleos, sendo menos elástica e, portanto, alongando-se lentamente. Órgãos tendinosos de Golgi Os órgãos tendinosos de Golgi (OTG) são receptores sensoriais em forma de fuso (1mm de comprimento por 0,1mm de diâmetro) e estão localizados na junção musculotendínea. Eles se conectam a 15 a 20 fibras musculares, e as informações aferentes do OTG são transportadas para SNC através das fibras aferentes Ib. Ao contrário dos fusos musculares, eles não têm conexões eferentes, portanto não estão sujeitos à modulação do SNC. Junção musculotendínea, onde ficam localizados os órgãos tendinosos de Golgi. O OTG é sensível às mudanças de tensão que resultam tanto do alongamento quanto da contração do músculo, que responde com apenas 2 a 25 gramas de força. O reflexo OTG é um reflexo dissináptico inibitório, inibindo o próprio músculo e excitando seu antagonista. Os receptores articulares e os cutâneos também podem contribuir para esse reflexo. Como pesquisas anteriores demonstraram que o OTG estava ativo a grandes quantidades de tensão muscular, formulou-se a hipótese de que o papel do OTG era proteger o músculo da lesão por tensão excessiva. As pesquisas atuais mostram que esses receptores monitoram constantemente a tensão muscular e são muito sensíveis até mesmo a pequenas quantidades de mudanças de tensão causadas pela contração muscular. Recentemente, uma função hipotética do OTG é que ele modula a força muscular em resposta à fadiga. Desse modo, quando a tensão muscular é reduzida por causa da fadiga, a resposta do OTG é reduzida, diminuindo seu efeito de inibição no músculo. Receptores articulares Como funcionam os receptores articulares e qual é a sua função? Existem diferentes tipos de receptores em apenas uma articulação, incluindo terminações do tipo Ruffini, terminações paciniformes, receptores de ligamento e terminações nervosas livres. Esses receptores estão localizados em diferentes porções da cápsula articular e morfologicamente compartilham as mesmas características de muitos dos outros receptores encontrados no sistema nervoso. Por exemplo, os receptores de ligamento são quase idênticos ao OTG, enquanto as terminações paciniformes são idênticas aos corpúsculos de Pacini na pele. Articulação óssea, onde ficam localizados os receptores articulares. Há uma série de aspectos intrigantes da função articular. A informação do receptor comum é usada em vários níveis da hierarquia de processamento sensorial. Alguns pesquisadores descobriram que os receptores articulares parecem ser sensíveis apenas aos ângulos articulares extremos; por causa disso, esses receptores podem fornecer um sinal de perigo sobre o movimento articular extremo. Outros pesquisadores relataram que muitos receptores articulares individuais respondem a determinada amplitude de movimento articular. Esse fenômeno foi denominado “fracionamento de alcance”, com múltiplos receptores sendo ativados em intervalos sobrepostos. A informação aferente de receptores articulares sobe para o córtex cerebral e contribui para a nossa percepção da posição corporal no espaço. O SNC determina a posição da articulação, monitorando quais receptores são ativados ao mesmo tempo – e isso permite a determinação da exata posição da junta. Receptores cutâneos Existem diversos tipos de receptores cutâneos, incluindo corpúsculos pacinianos, discos de Merkel, corpúsculos de Meissner, terminações de Ruffini e terminações lanceoladas em torno dos folículos capilares, que detectam estímulos mecânicos. Já os termorreceptores detectam mudanças de temperatura e os nociceptores, danos potenciais à pele. O número de receptores nas áreas sensíveis da pele, como as pontas dos dedos, é muito alto: da ordem de 2.500 por centímetro quadrado. As informações do sistema cutâneo também são usadas no processamento hierárquico em várias maneiras diferentes. Em níveis mais baixos da hierarquia do SNC, a informação cutânea dá origem a movimentos reflexos, além de subir e informar a posição do corpo essencial para a orientação dentro do ambiente. Propriocepção O especialista Leonardo Shigaki abordará como o sistema proprioceptivo auxilia no controle postural. Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Equilíbrio O equilíbrio é definido como a capacidade de alinhar segmentos corporais contra a gravidade para manter ou mover o corpo (centro de massa) dentro da base de suporte disponível sem cair. Trata-se da habilidade de mover o corpo em equilíbrio contra a gravidade por meio da interação de dois sistemas: o sensorial e o motor. A perda de equilíbrio e as quedas são problemas comuns que afetamindivíduos com uma ampla gama de diagnósticos. O equilíbrio ou controle postural é um termo genérico usado para descrever o processo dinâmico pelo qual a posição do corpo é mantida em equilíbrio. Podemos separar o equilíbrio em dois grupos: Equilíbrio estático Ocorre quando o corpo está em repouso. Equilíbrio dinâmico Ocorre quando o corpo está em movimento. O equilíbrio é maior quando o centro de massa do corpo (ou centro de gravidade) é mantido sobre sua base de suporte. A seguir, veja os atributos e as definições: Atributo Definição Centro de massa É o ponto que corresponde ao centro da massa corporal total, ou seja, em que o corpo está em perfeito equilíbrio. Ele é determinado encontrando-se a média ponderada do centro de massa de cada segmento corporal. Centro de gravidade Refere-se à projeção vertical do centro da massa ao solo. Na posição anatômica, o centro de gravidade da maioria dos humanos adultos está localizado na posição ligeiramente anterior à segunda vértebra sacral (ou aproximadamente 55% da altura de uma pessoa). Base de suporte É definida como o perímetro da área de contato entre o corpo e sua superfície de suporte. A posição dos pés altera a base de suporte e muda a estabilidade postural de uma pessoa. Uma base de suporte ampla, como é vista em muitos indivíduos idosos, aumenta a estabilidade; já uma estreita, tal como a postura em Tandem ou durante uma caminhada, a reduz. Enquanto uma pessoa mantiver o centro de gravidade dentro dos limites da base de suporte, chamados de limites de estabilidade, ela não cairá. Tabela: Definições de centro de massa, centro de gravidade e base de suporte. Leonardo Shigaki. Pode-se dizer que: Equilíbrio O equilíbrio é uma tarefa complexa de controle motor que envolve a detecção e integração de informações sensoriais para avaliar a posição e o movimento do corpo no espaço, além da execução de respostas musculoesqueléticas apropriadas para controlar a posição do corpo dentro do contexto do ambiente e da tarefa. Desse modo, o controle do equilíbrio requer a interação do sistema nervoso e musculoesquelético, assim como dos efeitos contextuais. Sistema nervoso O sistema nervoso é responsável pelo processamento sensorial a partir da percepção da orientação do corpo no espaço fornecido principalmente pelos sistemas visual, vestibular e somatossensorial. A integração sensório-motora é essencial para vincular a sensação às respostas motoras; para aspectos adaptativos e antecipatórios (isto é, ajustes posturais programados centralmente que precedem os movimentos voluntários) do controle postural; e para estratégias motoras a fim de planejar, programar e executar respostas de equilíbrio. Contribuições musculoesqueléticas As contribuições musculoesqueléticas incluem alinhamento postural, flexibilidade, amplitude de movimento articular completa, integridade articular, desempenho muscular (força muscular, potência e resistência) e sensação (toque, pressão, vibração, propriocepção e cinestesia). Os efeitos contextuais que interagem com os dois sistemas (somatossensorial e musculoesquelético) são os do ambiente, seja ele fechado (previsível e sem distrações) ou aberto (imprevisível e com distrações), a superfície de suporte (firme ou escorregadia, estável ou instável e os tipos de sapatos), a quantidade de iluminação, os efeitos da gravidade e as forças inerciais no corpo, além das características da tarefa (tarefa conhecida ou nova, previsível ou imprevisível e tarefas únicas ou múltiplas). Mesmo se todos os elementos do sistema nervoso e musculoesquelético estiverem operando de forma eficaz, uma pessoa poderá cair se os efeitos contextuais forçarem as demandas de controle de equilíbrio, pois a intensidade dos estímulos é tão alta que os mecanismos internos de controle da pessoa ficam sobrecarregados, como exemplifica a imagem a seguir: Quedas após a perda do controle de equilíbrio. Mecanismos do controle neuromuscular Após definirmos os componentes da percepção corporal, nos aprofundaremos nas bases do controle corporal. O controle neuromuscular se refere a uma resposta eferente (motora) a partir de uma informação sensorial. Várias fontes de informações sensoriais são essenciais para produzir atividade muscular adequada e estabilidade articular dinâmica, incluindo propriocepção, cinestesia e sensação de força. Dois mecanismos de controle motor ( feedforward e feedback) estão envolvidos na interpretação de informações aferentes e na coordenação de respostas eferentes. O controle neuromuscular feedforward envolve o planejamento de movimentos com base nas informações sensoriais em “tempo real” integradas com padrões somatossensoriais aprendidos de experiências anteriores, enquanto os processos de feedback regulam continuamente a atividade muscular por meio de vias reflexas. Os mecanismos de feedforward são responsáveis pela atividade muscular preparatória. Já os processos de feedback estão associados à atividade muscular reativa ou reflexa. Exemplo Imaginemos uma pessoa que esteja em pé em um ônibus. Ela utiliza esse transporte todos os dias para trabalhar e sabe que, depois que o ônibus sai do terminal rodoviário, há uma curva acentuada à esquerda. Então ela se prepara, segura no apoio com mais força, abre um pouco a base de sustentação e desloca o peso corporal de modo a facilitar o equilíbrio. Essa reação antecipatória, chamada de feedforward, só foi possível porque a pessoa já tinha experimentado essa sensação anteriormente. Ao continuar a viagem no ônibus, ela sabe que haverá uma grande reta e volta a relaxar sua postura. Contudo, um cachorro cruza a pista e o motorista freia o ônibus bruscamente. Nesse caso, para não cair, a pessoa segura o apoio com força e dá um passo com firmeza à frente. Essa reação ao evento inesperado é chamada de feedback, já que as respostas musculares só aconteceram ao se sentir que era necessário mudar a postura para não cair. O nível de ativação muscular, seja preparatória, seja reativa, modifica muito as propriedades de rigidez muscular. Sob uma perspectiva mecânica, essa rigidez se refere à proporção da mudança de força para a mudança no comprimento. Em essência, os músculos mais rígidos resistem ao estiramento de forma mais eficaz e fornecem restrição dinâmica para perturbação articular. Portanto, a rigidez muscular gerada pela atividade neuromuscular antes da carga articular (feedforward) é um dos mecanismos mais importantes para a estabilização dinâmica das articulações. No entanto, altos níveis dessa rigidez restringiriam os movimentos articulares rápidos necessários para a atividade física, de modo que a regulação da rigidez muscular ocorre continuamente para otimizar a estabilidade articular ao movimento. Saiba mais Estudos clínicos recentemente estabeleceram a importância da rigidez muscular no sistema de restrição dinâmica. A eficiente regulação dessa rigidez pode ser vital para restaurar a estabilidade funcional. Por causa da orientação do músculo esquelético e das características de ativação, uma ampla gama de capacidades de movimento pode ser coordenada envolvendo ativação concêntrica, excêntrica e isométrica, enquanto o movimento articular excessivo é contido. Portanto, a restrição dinâmica é alcançada por meio do controle neuromuscular preparatório e reflexo. A atividade muscular aumenta a estabilidade articular dinâmica, proporcionando absorção excêntrica de forças externas aplicadas ao corpo e aumentando a congruência articular e a rigidez muscular. Muitas articulações (por exemplo, glenoumeral e tibiofemoral) possuem uma congruência óssea limitada; por isso, elas dependem da ativação muscular para limitar a carga de estruturas capsuloligamentares passivas. Um aprimoramento na estabilidade da articulação pode ser alcançado por meio da atividade muscular, aumentando a força compressiva graças à articulação e aumentando a área de contato da articulação, como ocorre quando o grupo muscular chamado de manguito rotador traciona a cabeça do úmero para a fossa glenoide.A atividade muscular também limita a carga dos tecidos passivos, proporcionando absorção excêntrica de força aplicada ao corpo, ou seja, “absorção de choque”. Controle de equilíbrio durante a postura Em uma postura quieta, o corpo balança como um pêndulo invertido sobre a articulação do tornozelo. O objetivo do equilíbrio é manter o centro de massa do corpo com segurança dentro da base de sustentação. Para atingir esse objetivo, é utilizada a estratégia do tornozelo, na qual os músculos da perna (isto é, flexores plantares, dorsiflexores, inversores e eversores do tornozelo) são automática e seletivamente ativados para neutralizar a oscilação corporal em diferentes direções. Outros músculos que são tonicamente ativos durante a postura quieta para manter uma postura ereta são o glúteo médio, o tensor da fáscia lata e o iliopsoas para prevenir a hiperextensão do quadril, assim como os paravertebrais torácicos (com ativação abdominal intermitente) para alinhar a coluna vertebral. O alinhamento corporal contribui para a estabilidade em posição estática. Ficar com o corpo em um alinhamento corporal ideal permite que ele mantenha o equilíbrio com o mínimo de gasto de energia muscular. As perturbações do equilíbrio em ficar em pé podem ser internas (movimento voluntário do corpo) ou externas (forças aplicadas ao corpo). Ambos os tipos de perturbações envolvem a ativação de sinergias musculares, mas o tempo de resposta é proativo (feedforward) para perturbações geradas internamente e reativo (feedback) para as geradas externamente. Respostas musculares para manter o equilíbrio. A fim de manter o equilíbrio, o corpo deve ajustar continuamente sua posição no espaço para manter o centro de massa de um indivíduo sobre a base de sustentação ou trazer esse centro de volta para tal posição após uma perturbação. Três estratégias de movimento primárias são usadas por adultos saudáveis para recuperar o equilíbrio em resposta a súbitas perturbações da superfície de suporte (deslocamentos anteriores ou posteriores) denominadas estratégias de tornozelo, quadril e passo. Saiba mais Experimentos de plataforma móvel forneceram muitas informações sobre as estratégias motoras (tornozelo, quadril e passo) e os padrões de ativação muscular associados que são o resultado de uma pessoa estar de pé em uma superfície transladada ou inclinada inesperadamente. Com a repetição de uma perturbação da plataforma, ocorre a adaptação de aprendizagem, que é caracterizada por uma redução significativa na resposta reativa. Em postura quieta e durante pequenas perturbações (perturbações de baixa velocidade no plano anteroposterior), os movimentos no tornozelo atuam para restaurar o equilíbrio de uma pessoa a uma posição estável. A estratégia de movimento utilizada para controlar as perturbações médio-laterais envolve o deslocamento do peso corporal lateralmente de uma perna para a outra. Os quadris são os principais pontos de controle da estratégia de mudança de peso. Eles movem o centro de massa em um plano lateral, principalmente por meio da ativação de seus músculos abdutores e adutores, com alguma contribuição de inversores e eversores de tornozelo. Se uma grande força ocorrer além dos limites de estabilidade, um passo para frente ou para trás será usado para aumentar a base de sustentação e recuperar o controle de equilíbrio. A etapa descoordenada que se segue a um tropeço em terreno irregular é um exemplo de estratégia do passo, como demonstra a imagem a seguir. Os padrões de resposta do movimento às perturbações posturais são mais complexos e variáveis do que descrito acima. A maioria dos indivíduos saudáveis usa combinações de estratégias para manter o equilíbrio, dependendo das demandas de controle. Os requisitos de controle de equilíbrio variam dependendo da tarefa e do ambiente. Passo após tropeço. Verificando o aprendizado Questão 1 O controle postural é fundamental para a manutenção do equilíbrio em pé e a realização dos movimentos no esporte. Para controlar os movimentos de maneira adequada, o sistema nervoso central utiliza informações sensoriais de quais sistemas? A Visual e somatossensorial. B Visual, vestibular e auditivo. C Visual, vestibular e somatossensorial. D Vestibular, motor e somatossensorial. E Somatossensorial, proprioceptivo e motor. A alternativa C está correta. O sistema nervoso central reúne e utiliza as informações do sistema visual, vestibular e somatossensorial para realizar o controle postural. Cada sistema fornece uma informação que nos possibilita programar ou reagir de maneira adequada aos estímulos. Qualquer informação alterada em algum desses sistemas pode causar repercussão negativa no controle postural. As demais alternativas que contenham os sistemas auditivo, proprioceptivo e motor estão erradas, pois esses sistemas não fazem parte dos sistemas sensoriais do controle neuromuscular. Questão 2 O controle neuromuscular depende da informação sensorial, sendo o responsável pelas respostas eferentes apropriadas ao impulso proprioceptivo aferente. Quais são os dois mecanismos de controle motor? A Antecipatório (feedforward) e planejamento. B Antecipatório (feedforward) e reativo (feedback). C Reflexo (feedforward) e reativo (feedback). D Reflexo (feedforward) e planejamento. E Compensatório e reativo (feedback). A alternativa B está correta. O sistema nervoso central desempenha o controle neuromuscular a partir de dois diferentes mecanismos de controle: ajuste postural antecipatório (feedforward) e reativo (feedback). O controle antecipatório ocorre quando o indivíduo planeja uma ação, enquanto o mecanismo reativo é desencadeado pela ocorrência de perturbações do equilíbrio decorrentes de forças externas inesperadas. As demais alternativas estão incorretas, porque o planejamento é a característica do controle antecipatório (feedforward). Já o reflexo faz parte do controle reativo. 2. Exercícios proprioceptivos 3. Reabilitação de atletas Abordagem fisioterapêutica na prescrição do treinamento proprioceptivo Restabelecer o controle neuromuscular é um componente crítico na reabilitação das articulações que sofreram alguma lesão. O objetivo das atividades de controle neuromuscular é redirecionar o foco do paciente para a consciência das sensações e gerar respostas motoras com estratégias coordenadas. Saiba mais Essa atividade muscular serve para proteger as estruturas articulares de tensão excessiva e fornece um mecanismo profilático para lesões recorrentes. Atividades de controle neuromuscular complementam os protocolos tradicionais de reabilitação, que englobam modulação da dor e inflamação, restauração da flexibilidade, força e resistência, bem como considerações psicológicas. O desenvolvimento ou o restabelecimento da propriocepção, da cinestesia e do controle neuromuscular em pacientes lesionados minimizará o risco de nova lesão. O objetivo da reabilitação neuromuscular é desenvolver ou restabelecer as características aferentes e eferentes que aumentam a capacidade de estabilização dinâmica no que diz respeito às cargas durante as atividades. Quatro elementos básicos são cruciais para restabelecer o controle neuromuscular e estabilidade funcional. Veja a seguir quais são eles: Sensação proprioceptiva e cinestésica. Estabilização dinâmica. Controle neuromuscular reativo. Padrões motores funcionais. A plasticidade do sistema neuromuscular para mudar é o que permite as adaptações rápidas durante a reabilitação, as quais, em última análise, melhoram a preparação e a atividade muscular reativa. As técnicas incluem atividades em cadeia cinética aberta e fechada, treinamento de equilíbrio, exercícios excêntricos com muitas repetições e carga baixa, facilitação do reflexo por meio de treinamento reativo ou de “perturbação”, atividades com saltos e treinamento com biofeedback. A reabilitação tradicional, acompanhada por essas técnicas específicas, resulta em adaptações benéficas às características neuromusculares responsáveis pelaestabilização dinâmica, aumentando sua eficiência para fornecer uma articulação funcionalmente estável. Para restaurar a ativação muscular dinâmica necessária para a estabilidade funcional, deve-se empregar posições simuladas de vulnerabilidade que requerem estabilização muscular reativa. Apesar de haver riscos inerentes ao se colocar a articulação em posições de vulnerabilidade, se isso for feito de maneira controlada e progressiva, as adaptações neuromusculares vão ocorrer e posteriormente permitir que o paciente volte ao nível competitivo com a confiança de que os mecanismos de estabilização dinâmica protegerão a articulação de subluxação e de novas lesões. O objetivo do treinamento cinestésico e proprioceptivo é restaurar as propriedades neurossensoriais de estruturas capsuloligamentares lesionadas e aumentar a sensibilidade das áreas periféricas aferentes não envolvidas. Os exercícios que envolvem simultaneamente o membro não lesionado podem ajudar a restabelecer a percepção, a consciência da posição, o movimento e a carga da articulação no membro lesionado. • • • • Uma variedade de atividades pode ser usada para melhorar equilíbrio, mas o terapeuta precisa primeiramente considerar cinco regras gerais antes de começar. Os exercícios devem: Ser seguros, mas desafiadores. Enfatizar os vários planos de movimento. Incorporar uma abordagem multissensorial. Começar com superfícies estáticas, bilaterais e estáveis até progredir para as dinâmicas, unilaterais e instáveis. Progredir na direção dos exercícios específicos do esporte. Existem diversas maneiras por meio das quais o fisioterapeuta pode atingir esses objetivos. Os exercícios de equilíbrio devem ser realizados em uma área com espaço suficiente, onde o paciente não sofrerá lesões em caso de queda. O fisioterapeuta precisará sempre estar próximo do paciente e auxiliá-lo quando for preciso. É melhor realizar exercícios com um dispositivo assistente ao alcance do paciente (por exemplo, cadeira, corrimão, mesa ou parede), especialmente durante a fase inicial de reabilitação. Exercício de equilíbrio com apoio do terapeuta. Para prescrição dos exercícios, devemos considerar a duração de cada atividade e o número total dos exercícios de equilíbrio. O fisioterapeuta pode manipular séries e repetições ou criar um protocolo baseado em tempo. Por exemplo, o paciente pode realizar 3 séries de 15 repetições e progredir para 30 repetições conforme tolerado ou fazer 10 repetições dos exercícios por um período de 15 segundos cada e progredir para períodos de 30 segundos posteriormente. Progressão de exercícios para os membros inferiores • • • • • Reabilitação na piscina. Exercício de equilíbrio com apoio parcial. Muitas atividades que promovem o controle neuromuscular nas extremidades inferiores já existem nos programas tradicionais de reabilitação. Os exercícios devem se concentrar nos grupos musculares que requerem mais atenção e progridem de nenhum peso até a sustentação completa dele. O uso de atividades em cadeia cinética fechada é incentivado porque replica o ambiente específico onde a maioria dos esportes acontece. A descarga de peso parcial em piscinas ou com dispositivos de suporte simula os ambientes de cadeia cinética aberta e fechada sem expor o tornozelo, joelho ou quadril a cargas articulares excessivas. A natureza desses exercícios em cadeia cinética fechada cria compressão articular, melhorando, portanto, a congruência articular e o feedback neurossensorial e minimizando as forças de cisalhamento nas articulações. Os primeiros exercícios de estabilização dinâmica das articulações começam com o treinamento de equilíbrio e suporte de peso parcial em superfícies estáveis, progredindo para o suporte de peso parcial em superfícies instáveis. Exercícios pliométricos (ciclo de alongamento- encurtamento) são componentes necessários para condicionar o aparelho neuromuscular a responder mais rápida e vigorosamente, permitindo uma desaceleração excêntrica (alongamento) seguida imediatamente de uma fase de contração concêntrica explosiva (encurtamento). Os exercícios pliométricos não precisam ser adiados até os estágios finais de reabilitação, pois existe uma variedade de atividades pliométricas, e a intensidade pode ser controlada manipulando a carga, a amplitude de movimento e o número de repetições. Atenção Os movimentos pliométricos requerem atividades musculares preparatórias (feedforward) e reativas (feedback) com mudanças relacionadas à rigidez muscular. Essa ativação muscular preparatória antes da fase excêntrica é considerada como uma combinação de comandos motores pré-programados e reativos. Atividades pliométricas, como caminhada sem peso em uma piscina ou salto de baixo impacto, podem ser iniciadas, uma vez que a descarga de peso é liberada. O salto bipodal é um exercício intermediário eficaz, pois o membro não envolvido pode ser usado para a assistência. Veja o detalhamento a seguir: Treino de gesto esportivo. Exercícios pliométricos Atividades pliométricas são dificultadas com saltos alternados e, em seguida, com saltos com uma perna. Atividades subsequentes, como salto com rotação, salto lateral e salto em várias superfícies, são instituídas conforme a tolerância do paciente. O treinamento pliométrico requer ativação muscular preparatória e facilita o reflexo das vias de controle neuromuscular reativo. Treino de marcha Os exercícios de estabilização rítmica devem ser incluídos durante a reabilitação precoce para melhorar a coordenação neuromuscular da extremidade inferior e a reação a perturbações articulares inesperadas. A intensidade da estabilização rítmica é aumentada pela aplicação de maiores cargas e deslocamentos. Os exercícios de marcha também são eficazes para o desenvolvimento coordenado preparatório e a atividade muscular reativa. Plataformas instáveis são usadas para induzir perturbações lineares e angulares para as articulações, alterando o centro de gravidade do paciente enquanto ele tenta se equilibrar. Esses exercícios podem facilitar adaptações às vias reflexas mediadas por aferentes periféricos, resultando em ativação muscular reativa. O exercício de lançar uma bola para o paciente, que deve lançá-la de volta, pode ser incorporado em conjunto com exercícios de equilíbrio. Essa dupla tarefa cria cargas cognitivas capazes de atrapalhar a concentração e ajudam a promover adaptações reativas, além de induzir mudanças maiores na localização do centro de massa, exigindo movimento da extremidade superior. Isso torna a tarefa mais desafiadora para o sistema sensório-motor. Durante as fases posteriores da reabilitação, a atividade neuromuscular reativa pode ser estimulada com saltos no minitrampolim. O paciente começa saltando e pousando em ambos os pés, progredindo, em seguida, para saltos unipodais e com rotação. As tarefas reativas mais difíceis incluem saltar enquanto pega uma bola no ar ou saltar de um minitrampolim para várias superfícies de aterrissagem, como grama artificial, grama ou terra. As atividades funcionais começam com a restauração da marcha normal. Os fisioterapeutas podem dar instruções verbais ou usar um espelho para ajudar os pacientes a internalizar a cinemática normal durante a postura e a fase de balanço. Isso inclui caminhar para trás e deslocamentos laterais, progredindo para correr e pular conforme o tolerado. Atividades de aceleração e desaceleração e manobras de pivô são recomendadas para simular as atividades funcionais esportivas. Exercícios de corrida e corte (mudança repentina de direção) podem ser iniciados, aumentando-se gradativamente a velocidade de manobras. Nessa fase, caminhar e correr na areia são atividades que podem desafiar o controle neuromuscular e provocar estímulo para estabilização da articulação. As atividades funcionais mais difíceis são projetadas para simular as demandas dos pacientes nos esportes e nas posições em que atuavam. Exercícios proprioceptivos de membros inferiores O especialista Leonardo Shigakiidentificará como progredir com os exercícios proprioceptivos de membros inferiores na recuperação de atletas. Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Progressão de exercícios para os membros superiores Ao contrário dos membros inferiores, a articulação glenoumeral necessita de estabilidade inerente às estruturas capsuloligamentares; portanto, os mecanismos dinâmicos são ainda mais cruciais para manter a estabilidade funcional. A dificuldade é maior, porque o ombro possui uma grande amplitude de movimento. Desse modo, manter a congruência articular e a estabilidade funcional requer coordenação da ativação muscular para restrição dinâmica enquanto diversos movimentos complexos são executados. Identificados na cintura escapular, dois tipos distintos de músculos são responsáveis principalmente pela estabilização ou iniciação do movimento. A orientação e o tamanho dos músculos estabilizadores, conhecidos como manguito rotador, não são adequados para criar o movimento articular, mas são mais capazes de sustentar a cabeça do úmero na fossa glenoide. Já os músculos maiores (motores primários) com locais de inserção mais distantes da articulação glenoumeral têm mais vantagem mecânica para iniciar o movimento articular. Atenção Manter a cinemática adequada da articulação requer o equilíbrio das forças externas e internas enquanto se limita o movimento excessivo da cabeça do úmero na fossa glenoide, restaurando o acoplamento apropriado do manguito rotador e dos músculos motores primários. As lesões nas estruturas estáticas podem resultar no feedback sensorial diminuído e alterado das articulações escapulotorácica e glenoumeral. Além disso, a falha do sistema de estabilização dinâmica expõe as estruturas às cargas excessivas, comprometendo a integridade da articulação e predispondo o paciente à nova lesão. A cirurgia é o método mais eficaz para restaurar a função sensório-motora em longo prazo; no entanto, essa via nem sempre é uma opção. Portanto, desenvolver ou restaurar o controle neuromuscular dos membros superiores por meio de exercícios de reabilitação é um importante componente para o eventual retorno às atividades esportivas. Há um consenso geral de que alcançar o controle escapular no início do programa de reabilitação é imperativo. Exercícios com foco na retração escapular, como uma posição inicial para todas as atividades subsequentes, precisam ser incorporados para restaurar a função ideal do complexo do ombro e reduzir o risco de lesão secundária. Para alcançar essa posição, podemos utilizar exercícios para aumentar a ativação do trapézio inferior e serrátil anterior ao mesmo tempo que minimizamos a ativação do trapézio superior. Veja a seguir, alguns exemplos: Exercício de ombro em cadeia cinética fechada O serrátil anterior pode ser ativado durante o exercício na posição de flexão de braço, realizando apenas a protração e a retração da escápula. Ele pode ser iniciado com o apoio do joelho e progredir para o apoio com os pés. Atividades para melhorar a propriocepção e a consciência cinestésica nos membros superiores são similares às técnicas discutidas para os membros inferiores. As atividades de cadeia cinética fechada introduzem cargas axiais e coativação muscular. A aproximação da articulação resultante estimula mecanorreceptores capsuloligamentares, semelhante ao efeito nos membros inferiores. Exercício de pliometria para membros superiores Exercícios de pliometria com as mãos acima da cabeça demonstraram a capacidade de melhorar a propriocepção (por exemplo, lançar e receber uma bola). As tarefas multiplanares de reposicionamento das articulações são realizadas ativa e passivamente para maximizar a amplitude de movimento disponível no ombro. As posições funcionais, tais como arremessos acima da cabeça, devem ser incorporadas e são mais específicas em cada esporte. Exercício com tubo de resistência elástica A estabilização muscular pode ser aumentada usando tubo de resistência elástica, concentrando-se na fase excêntrica e realizando muitas repetições com baixa resistência. Esses exercícios também são pensados para fortalecer e recondicionar os músculos do manguito rotador em padrões funcionais. Para complementar os exercícios de tubos elásticos, os fisioterapeutas podem associar movimentos na diagonal. Exercício de membros superiores com plataforma instável Assim como os exercícios para os membros inferiores, os exercícios de estabilização dinâmica para o ombro podem usar plataformas instáveis para criar deslocamentos lineares e angulares da articulação, estimulando ao máximo a coativação. A intensidade é controlada manipulando-se o grau de deslocamento e a carga na articulação. Os exercícios de prancha também requerem uma estabilização dinâmica enquanto se usa concomitantemente o controle neuromuscular feedforward e feedback. Exercícios pliométricos com bola de pesos variados e as distâncias para o lançamento também são excelentes para o condicionamento preparatório e reativo da coativação muscular, podendo ser avançados por aumento do peso da bola, variando a distância e a introdução de movimentos multiplanares. Durante o início da fase de reabilitação, cargas leves são usadas com exercícios de estabilização rítmica. Enquanto o paciente progride, a resistência é adicionada para maximizar a ativação muscular. As posições onde a articulação é mais instável têm de ser incorporadas, mas sob intensidade controlada. Exemplo de gesto esportivo. O treinamento funcional para os membros superiores, na maioria das vezes, envolve o desenvolvimento de padrões motores na posição dos braços acima da cabeça, seja arremessando uma bola de basquete ou jogando-a e rebatendo, como no vôlei e no tênis, respectivamente. No entanto, as considerações especiais são necessárias para outros esportes, como remo, artes marciais e natação, que dependem muito dos membros superiores para executar os gestos esportivos. Verificando o aprendizado Questão 1 Os exercícios pliométricos são amplamente utilizados na reabilitação de atletas. Eles podem ser definidos como exercícios com duas fases: de desaceleração excêntrica e, posteriormente, de contração concêntrica explosiva. Que exercícios podem ser classificados como pliométricos? A Saltos. B Alongamentos. C Equilíbrio estático. D Exercícios isométricos. E Exercícios posturais. A alternativa A está correta. Os exercícios pliométricos, como os saltos, podem ser utilizados para melhorar a resposta neuromuscular, pois os movimentos tanto preparatórios (feedforward) quanto reativos (feedback) auxiliam nas adaptações relacionadas à rigidez muscular. Os pliométricos podem ser realizados de diversas maneiras e começar nas fases iniciais da reabilitação com a prescrição adequada. As demais alternativas estão incorretas, pois o alongamento, o equilíbrio estático e os tipos de exercícios mencionados não se aplicam aos exercícios pliométricos. Questão 2 O ombro é uma articulação do membro superior que pode sofrer luxação durante a prática esportiva, porém alguns fatores contribuem para aumentar a estabilidade glenoumeral. Qual grupo muscular tem potencial para estabilização dinâmica do ombro? A Motores primários. B Peitorais. C Complexo anterior. D Complexo posterior. E Manguito rotador. A alternativa E está correta. O grupo muscular manguito rotador é composto por quatro pequenos músculos que envolvem a parte da articulação do ombro. Eles atuam para estabilizar o úmero na fossa glenoide e equilibrar os movimentos do ombro. A ação desse grupo muscular é de grande relevância para reabilitação de atletas com instabilidade glenoumeral. Os grupamentos musculares mencionados nas demais alternativas não fazem a estabilização dinâmica do ombro. 4. Conclusão Considerações finais Em nosso estudo, vimos a importância do sistema proprioceptivo para a captação da sensação de posição e movimento corporal, observando ainda a função dos receptores articulares e musculares e como ocorre o controle neuromuscular.A integridade desses sistemas é necessária para que o movimento ocorra como planejado. Na área esportiva, essa execução com perfeição ganha ainda mais relevância, pois os detalhes nos gestos esportivos podem fazer a diferença. O fisioterapeuta deve saber como avaliar o controle postural na reabilitação de atletas de modo quantitativo, podendo ser utilizados a plataforma de força ou os testes funcionais. Além disso, precisa conhecer os recursos que podem ser utilizados e como eles podem facilitar ou dificultar os exercícios para então decidir qual é o mais apropriado para o paciente. Por fim, o fisioterapeuta necessita dominar a progressão dos exercícios proprioceptivos tanto de membros inferiores quanto de superiores, pois só assim será possível utilizá-los de forma correta na reabilitação e progredir para o auxílio ao atleta em seu retorno ao esporte. Podcast Agora o especialista Leonardo Shigaki exemplificará como ocorre a evolução dos exercícios proprioceptivos na reabilitação de um atleta após a reconstrução do ligamento cruzado anterior. Conteúdo interativo Acesse a versão digital para ouvir o áudio. Explore + Para aprimorar seus conhecimentos no assunto estudado, leia o artigo Análise comparativa do equilíbrio unipodal de atletas de ginástica rítmica, de Leonardo Shigaki e colaboradores, encontrado no site Scielo, e veja um exemplo de como pode ser avaliado o controle postural de atletas com a plataforma de força e testes funcionais. Referências CURTOLO, M. et al. Balance and postural control in basketball players. Fisioter mov. v. 30. n. 2. abr./jun. 2017. p. 319-328. FIUZA, JM; FRÉZ, AR; PEREIRA, WM. Analysis after stabilometric proprioceptive exercises: a randomized controlled clinical study. Journal of human growth and development. v. 25. n. 1. 2015. p. 63-67. GORMAN, P. P. et al. Upper quarter y balance test: reliability and performance comparison between genders in active adults. Journal of strength and conditioning research. v. 26. n. 11. 2012. p. 3.044. HELENO, L. R. et al. Five-week sensory motor training program improves functional performance and postural control in young male soccer players - a blind randomized clinical trial. Phys Ther Sport. n. 22. 2016. HÜBSCHER, M. et al. Neuromuscular training for sports injury prevention: a systematic review. Med Sci Sports Exerc. v. 42. n. 3. 2010. KISNER, C; COLBY, L. A.; BORSTAD, J. Therapeutic exercise: foundations and techniques. Philadelphia: F. A. Davis Company, 2018. PRENTICE, W. E. Rehabilitation techniques for sports medicine and athletic training. Slack Incorporated, 2020. PROSKE, U.; GANDEVIA, S. C. The kinaesthetic senses. J. Physiol. v. 587. n. 17. 2009. SHUMWAY-COOK, A.; WOOLACOTT, M. H. Motor control: translating research into clinical practice. Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins, 2010. ZECH, A. et al. Neuromuscular training for rehabilitation of sports injuries: a systematic review. Med Sci Sports Exerc. v. 41. n. 10. 2009. Treinamento proprioceptivo na recuperação do atleta 1. Itens iniciais Propósito Objetivos Introdução 1. Controle postural e propriocepção Mecanismos neuromusculares envolvidos na propriocepção Saiba mais Sistema visual Sistema vestibular Sistema somatossensorial/proprioceptivo Receptores somatossensoriais Fuso muscular 1 2 Órgãos tendinosos de Golgi Receptores articulares Receptores cutâneos Propriocepção Conteúdo interativo Equilíbrio Equilíbrio estático Equilíbrio dinâmico Equilíbrio Sistema nervoso Contribuições musculoesqueléticas Mecanismos do controle neuromuscular Exemplo Saiba mais Controle de equilíbrio durante a postura Saiba mais Verificando o aprendizado 2. Exercícios proprioceptivos 3. Reabilitação de atletas Abordagem fisioterapêutica na prescrição do treinamento proprioceptivo Saiba mais Progressão de exercícios para os membros inferiores Atenção Exercícios pliométricos Treino de marcha Exercícios proprioceptivos de membros inferiores Conteúdo interativo Progressão de exercícios para os membros superiores Atenção Exercício de ombro em cadeia cinética fechada Exercício de pliometria para membros superiores Exercício com tubo de resistência elástica Exercício de membros superiores com plataforma instável Verificando o aprendizado 4. Conclusão Considerações finais Podcast Conteúdo interativo Explore + Referências