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QUESTOES ASPECTOS DA DA CIÊNCIA ECONÔMICA Explique como problemas econômicos fundamentais que e quanto. como DA ECONOMIA DA INFORMAÇÃO ÀS RAÍZES DO e para quem produzir originam se da escassez de recursos produtivos PENSAMENTO ECONÔMICO 2 que mostra a curva de possibilidades de produção ou curva de Diva Benevides Pinho Defina custos de oportunidade que são custos de oportunidade crescentes? Conceitue bens de capital bens de bens intermediários e fatores de 2.1 ECONOMIA DA INFORMAÇÃO PESQUISAS E CONTRIBUIÇÕES produção As análises dos mercados com informações assimétricas contribuiram para de- A Economia é uma ciência não-normativa Explique senvolvimento do núcleo de uma nova área: a Economia da Informação Ela vem que vêm a ser as concepções organicista, mecanicista e humana da ciência sendo desenvolvida e enriquecida com as pesquisas e estudos de três cientistas-profes- econômica? sores que receberam Prêmio Nobel de Economia, em outubro de 55 Analisando uma economia de mercado, observa-se que os fluxos real e monetário criado em Memória de Alfredo Nobel, na Eram eles George Michael conjuntamente formam fluxo circular da renda. Explique como esse sistema funciona Spence e Joseph Stiglitz. respectivamente das Universidades da Califórnia Numa economia centralizada: Stanford e Colúmbia. Aliás, esses vinham desenvolvendo, desde anos a. como são determinados os três problemas básicos da Economia? 1970. as bases principais de uma teoria geral sobre os mercados com assimetria de infor- b. como é formulado o planejamento nesse tipo de economia? mação, abrindo caminho à ampla aplicação, que vai da análise dos mercados agrícolas quais as funções do sistema de preços? tradicionais aos mercados financeiros contemporâneos. Quais elementos de uma economia capitalista? Resuma cada um deles. Em 1996, entretanto, dois outros economistas James Mirrlees (Universidade de Para fins didáticos, qual a divisão usual do estudo da ciência econômica? Qual o Cambridge, Inglaterra) e William Vickrey (Universidade de Colúmbia, Estados escopo de cada área de estudo? que realizavam pesquisa nessa àrea, foram igualmente distinguidos com o Prêmio Nobel, "por suas contribuições fundamentais à teoria econômica de incentivos sob informação Apresentaram exemplos de grupos que, na sociedade, detêm mais informa- ções que outros, e podem usá-las estrategicamente, provocando distorções no mercado. BIBLIOGRAFIA Criticaram, então, modelos teóricos de equilíbrio da economia, que previam situações sem distorções nos mercados. Devido aos economistas premiados em 2001, entretanto, o assunto foi amplamente destacado pela mídia no mundo internacional universitário, divulgando as novas contri- buições dos três pesquisadores: George Akerlof: pesquisou situações em que os vendedores têm mais infor- mações do que os compradores quanto à qualidade de um produto, de modo que poderiam ocorrer somente trocas de bens de baixa qualidade, ou um pro- blema de anti-seleção. Esclareceu que uma assimetria de entre ban- queiros e tomadores de empréstimos explica as altas taxas de juros nos merca- Manual de economia / Amaury Patrick Gremaud... [et dos dos países do Terceiro Mundo. Tratou também das dificuldades de seguro- organizadores Diva Benevides Pinho, Marco Antonio Sandoval de doença para as pessoas idosas e dos problemas de discriminação de minorias Vasconcellos, 5. ed. São Paulo Saraiva, 2004. no mercado de trabalho. Michael Spence: analisou as respostas ao problema da anti-seleção por parte de atores com melhor informação. aumentar sua renda, podem eles criar ISBN 978-85-02-04662-7 um oneroso sistema para informar atores. Indicou, também, as condi- 85-02-04662-4 ções de sinalização ou como uma pessoa pode mostrar "sinais" de sua produtivi- dade no mercado de trabalho: no caso de uma empresa, os dividendos são sinal de sua produtividade aos atores dos mercados de ações. 1. Economia 2. Economia Estudo e ensino I. Gremaud, Amaury Joseph Stiglitz: tratou das respostas ao problema da anti-seleção por parte dos Patrick. Pinho, Diva Benevides III. Vasconcellos, Marco Antonio atores menos informados, que representam a outra parte de um mercado, e que Sandoval de Vasconcellos de buscam informação junto a atores mais informados (processo de screening). As- sim, por exemplo, as companhias de seguro classificam seus clientes segundo 04-0006 CDD-330ECONOMIA PENSAMENTO ECONOMICO diferentes graus de risco, propondo-lhes um leque de contratos nos quais prê- Na Idade Média, principalmente do século XI ao XIV, surgiu uma atividade econômica mios correspondem a franquias cada vez mais elevadas. Em vários exemplos, mos- regional e inter-regional (com feiras periódicas que se tornaram célebres, como as de Flandres, trou que a assimetria de informação é crucial para a compreensão de numerosos Champagne, Beaucaire e outras), organizaram-se corporações de ofício, generalizaram-se as fenômenos do mercado, principalmente desemprego e racionamento do trocas urbano-rurais, retomou novo impulso comércio mediterrâneo (Gênova, Pisa, Florença e Veneza tornaram-se grandes centros comerciais da época) etc. A Igreja procurou "morali- Os três contribuíram para desenvolvimento desse importante instrumento de aná- zar" interesse pessoal, reconheceu a dignidade do trabalho (manual e intelectual), condenou lise, aplicável a todos tipos de mercados, desde aqueles tipicamente agrícolas, de paí- as taxas de juros, buscou "justo preço" a moderação dos agentes econômicos e equilíbrio ses emergentes, até OS mercados financeiros de países inclusive recente auge e queda das ações tecnológicas. dos atos econômicos. Mas pensamento econômico medieval, de caráter eminentemente prático, também era dependente da subordinação à filosofia ou à política, na Assimetria de Em síntese, mercados apresentam assimetria de informação quando certos informação: ocorre Clássica, passara a ser orientado pela moral cristã. A partir da metade do século entretan- agentes econômicos detêm mais informações do que outros. Assim, por exemplo, quando certos agentes to, essa subordinação religiosa seria substituída pela preocupação metalista. econômicos detêm mais conselho de administração conhece melhor a rentabilidade de sua empresa do que Realmente, Mercantilismo (1450-1750) imprimiu ao pensamento econômico um Mercantilismo: informações do que acionistas; os segurados conhecem melhor seu risco de acidente do que as seguradoras; cunho de arte empírica, de preceitos de administração pública que governantes deve- imprimiu preceitos de especialistas conhecem mais risco de acidente do que as companhias de seguro; administração pública outros. riam usar para aumentar a riqueza da nação e do principe: na Espanha e em Portugal, em que governantes proprietário-vendedor conhece mais as qualidades de seu carro do que compradores; economistas aconselharam a proibição da saída de metais preciosos e da entrada de mer- deveriam usar para OS clientes conhecem mais suas possibilidades de reembolso do que agentes de ban- cadorias estrangeiras; na França, Colbertismo buscou intervencionismo na indústria e aumentar a da COS de empréstimo; arrendatários conhecem mais seu trabalho e as condições da protecionismo alfandegário, para desenvolver a industrialização interna, exportar mais e nação e do lheita do que proprietários rurais. reduzir as importações ao mínimo possível; na Grã-Bretanha, comércio e a navegação apareceram como as principais fontes da riqueza nacional etc. 2.2 RAÍZES DA CIÊNCIA Importantes transformações marcaram início do Mercantilismo, destacando-se as seguintes: 2.2.1 Das origens até 1750 a fase da Economia transformações intelectuais com o Renascimento e sua magnífica floração ar- Durante muito tempo a economia constituiu um conjunto de preceitos ou de solu- tística (Leonardo da Vinci, Miguel Ângelo, Rafael, Ticiano e outros) e literária, a ções adaptadas a problemas particulares. laicização do pensamento, retorno aos métodos de observação e de experiência, a difusão de novas idéias por meio da imprensa (Gutemberg imprimiu a primeira Na grega, por exemplo, apareceram apenas algumas idéias econômi- Bíblia em 1450) etc.; cas fragmentárias em estudos filosóficos e políticos, mas sem brilho dos trabalhos nos transformações religiosas trazidas principalmente pelo movimento da Reforma, campos da filosofia, ética, política, mecânica ou geometria. em especial a implantada por Calvino e pelos puritanos anglo-saxões, que exalta- Embora o termo "econômico" (de oikos, casa, e nomos, lei) tenha sido utilizado pela vam individualismo e a atividade econômica, condenavam a ociosidade, justifica- primeira vez por Xenofontes. na obra do mesmo nome (no sentido de princípios de gestão vam empréstimos a juros, a busca do lucro, sucesso nos negócios etc.; dos bens privados), autores gregos não apresentaram um pensamento econômico in- transformações do padrão de vida marcadas pela reabilitação teológica da vida dependente. De modo geral, trataram apenas de conhecimentos práticos de administra- material em relação ao ascetismo e, conseqüentemente, pelo desejo de bem-es- ção doméstica; inclusive a Crematística (de chrema, posse ou riqueza) de Aristóteles, ape- tar, de alimentação requintada (com o uso de especiarias, do açúcar etc.), de ha- sar do título, referia-se, sobretudo, aos aspectos pecuniários das transações comerciais. bitações confortáveis e arejadas (que implicavam a necessidade de decoração Este autor, contudo, apresentou algumas contribuições interessantes às teorias do valor, dos interiores, com móveis trabalhados, quadros, tapeçarias, louças finas etc.), de dos preços e da moeda. viagens inter-regionais (que contribuíram para a propagação das novas maneiras Na Antigüidade romana, igualmente, não houve um pensamento econômico geral de viver e de pensar) etc.; e independente, embora a economia de troca fosse mais intensa em Roma do que na transformações políticas com aparecimento do Estado Moderno, coordena- Grécia. A unidade econômica do vasto império, mantida por meio de notáveis redes dor dos recursos materiais e humanos da nação, aglutinador das forças da nobre- rodoviárias e de intensa navegação, transformara Roma em centro de afluência dos za, do clero, dos senhores feudais, da burguesia nascente etc.; produtos de todas as províncias, estimulando as transações comerciais e a criação de transformações geográficas decorrentes da ampliação dos "limites do mundo", companhias mercantis e sociedades por ações. Mas as preocupações dos romanos graças às grandes descobertas (sobretudo a bússola) e aos esforços para desenvolver limitaram-se fundamentalmente à política, de modo que sua contribuição à economia a navegação (em especial dos soberanos portugueses, como infante D. Henrique, foi quase nula. Navegador): Bartolomeu Dias dobrou cabo das Tormentas (1487), Colombo desem- barcou em Guanahani (1492), Vasco da Gama atingiu as Índias (1498), Cabral desco- briu Brasil (1500), Magalhães empreendeu, pela primeira vez, uma viagem de circu- 1. Sobre Antigüidade, além do livro de Blaug citado, cf. Joseph A. Schumpeter, História da análise econômica, Fundo de Cultura, 1964, 3 navegação, concluída por seu lugar-tenente Sebastião del Cano (1514), Cortez con- Alain Barrère, Histoire de la pensée économique et analyse contemporaine, Paris, Ed. 1973; Paul Hugon, História das doutrinas econômicas, 16. ed., São Paulo, Atlas, 1973, além dos livros já clássicos de Gonnard de Gide/Rist. quistou México (1519-1521), Pizarro dominou a terra dos Incas (1531) etc.;28 ECONOMIA PENSAMENTO ECONÓMICO transformações econômicas afluxo à Europa de metais preciosos, provenientes Cantillon representou elo entre Petty e Quesnay, que pouco depois seria chefe do Novo Mundo, provocou deslocamento do eixo econômico mundial: grandes da escola trio Petty, Cantillon, Quesnay marcou importante seqüência centros comerciais marítimos não mais se limitaram ao estendendo- na história da análise econômica. se também ao Atlântico e ao Mar do Norte (Londres, Amsterdã, Bordéus, Lisboa Somente a partir de Quesnay, entretanto, a atividade econômica passou a ser trata- etc.). aparecimento de interessantes idéias sobre a moeda possibilitou a elabora- da cientificamente. ção da concepção metalista, base do Mercantilismo: ouro e a prata passaram a ser considerados OS mais perfeitos instrumentos de aquisição de riqueza. 2.2.2 A criação científica da Economia: de 1750 a 1870 As transformações geográficas foram, talvez, as mais importantes, porque propicia- ram a presença dos metais preciosos em uma Europa política e intelectualmente modifi- Quadro econômico de Quesnay (1758) e a Riqueza das nações de Adam Smith cada, criando as condições da concepção metalista, que caracterizou mercantilismo em (1776) marcaram, realmente, a reação contra 0 tratamento assistemático e disperso dos suas várias formas bulionista, industrialista, comercialista, fiduciário etc. problemas econômicos. Durante três séculos do Mercantilismo, as nações da Europa Ocidental organiza- ram sua economia interna, baseadas na unidade nacional e na exportação de todos OS 2.2.2.1 A Fisiocracia recursos econômicos, sob controle e a direção do Estado. Movimento que não existia em 1750, a Fisiocracia empolgou tout Paris e Versalhes Vários autores têm destacado a grande função histórica do Mercantilismo, na passa- de 1760 a 1770, mas já estava esquecido por volta de 1780, exceto por alguns economistas gem da economia regional para a economia nacional, bem como suas falhas: atribuiu dema- como observou Considerado, por muitos autores, mais uma "seita" de siado valor ao metal precioso; considerou a produção apenas em função da prosperidade do do que uma escola econômica, surgiu e desapareceu como um me- Estado ou do enriquecimento público, sem se preocupar com bem-estar dos indivíduos; teoro, em torno do dr. Quesnay, médico da corte e protegido de Mme. Pompadour, cuja encarou comércio internacional de maneira unilateral e "agressiva" lucro de um país posição assegurou, por algum tempo, uma situação privilegiada da Fisiocracia em geral, é prejuízo de outro (Montaigne); as perdas de um país equivalem aos lucros realizados pelo na vida intelectual do grand monde francês. estrangeiro (Montchrétien); um país não ganha sem que outro perca etc. Justo e honesto, pedante e doutrinador, leal à sua protetora e impermeável às tenta- Política colonial Muito criticada tem sido também a política colonial mercantilista, que consis- ções do ambiente da corte, Quesnay (1694-1774) teria sido, na expressão de Schumpeter, mercantilista: consistia tia em explorar a colônia ao máximo (dela retirando metais preciosos, se possível, mas um "maçante em explorar a colônia ao igualmente produtos tropicais, especiarias, produtos raros, matérias-primas etc.), bem máximo e impedir que se Dentre seus discípulos destacaram-se: marquês Mirabeau (1715-1789), autor de di- como em impedir que nela se desenvolvesse qualquer atividade econômica que mesmo desenvolvesse nela versas obras, especialmente Philosophie (1763), aceita como importante manual de ortodo- qualquer atividade remotamente pudesse fazer concorrência à Metrópole. xia fisiocrática, e L'Ami, com apreciações sobre o Quadro econômico de Quesnay; Paul Mercier econômica que pudesse, Muitas idéias importantes, expressas pelos mercantilistas de modo isolado (como de la Rivière (1720-1793), "impulsivo e escreveu outro importante manual ainda que remotamente, papel ativo da moeda na economia, o multiplicador da renda e outras) não chegaram a fisiocrático L'ordre naturel et essentiel des sociétés politiques (1767); G.F. Le Trosne (1728- fazer concorrência à marcar o Mercantilismo, que passou para a História essencialmente como um conjunto de 1780), advogado, que se interessou mais pelas relações entre o sistema fisiocrático e Direi- atos econômicos e de política econômica. Keynes, em "Notas sobre o mercantilismo" (Cap. to Natural; padre Nicolas Baudeau (1730-1792), convertido ao "credo" fisiocrático depois XXIII de sua Teoria geral do emprego, do juro e da moeda), observou ser possível que estes de lhe haver feito violenta oposição, tornando-se então um dos seus mais eficientes pioneiros do pensamento econômico tivessem adotado suas máximas de sabedoria práti- propagadores; Pierre S. Dupont de Nemours (1739-1817), talvez mais inteligente do grupo ca sem haverem discernido as bases teóricas em que repousavam. Examinou, então, (mas que na apreciação de Schumpeter tinha talento brilhante de um pianista e não de um motivos por eles apresentados e as práticas que preconizavam, com base no trabalho compositor), reuniu e comentou as obras dos fisiocratas, principalmente as de Quesnay; Mercantilism, do Prof. Heckscher, qual colocou pela primeira vez, à disposição do gran- Turgot (1726-1781), intendente de Limoges e ministro de Luís XVI, que teve oportunidade de público de economia, traços característicos desse movimento. E acrescentou que a Fisiocracia: impôs-se de aplicar as idéias econômicas de sua escola; Karl Friedrich Margrave de Baden, posterior- generalização da idéia de que a teoria mercantilista primitiva não apresentava sentido principalmente como mente Grão-Duque de Baden (1728-1811), um dos políticos mais capazes de sua época, fez doutrina da ordem algum resultara da ausência de uma exposição inteligível sobre o assunto, lacuna preen- várias tentativas de aplicação da Fisiocracia em seu principado etc. natural: Universo é chida com a obra de Heckscher, apesar de este ser partidário da teoria clássica e testemu- nhar pouca simpatia pelo protecionismo mercantilista. Os fisiocratas conseguiram atento auditório entre fidalgos da corte e regido pelas leis naturais, absolutas, imutáveis e Embora seja pouco significativa a contribuição do Mercantilismo à constituição da governantes da época: Catarina (da Rússia), Gustavo III (da Suécia), Estanislau (da Polônia), universais, desejadas análise econômico-científica, algumas obras marcaram um certo esforço de sistematiza- José II (da e muitos outros, que tentaram aplicar algumas de suas máximas de um pela Providência Divina ção no fim do século XVII e início do século XVIII: a Political (1682), de William bom governo. para a felicidade dos A Fisiocracia impôs-se principalmente como doutrina da ordem natural: univer- bomens. Petty, que evidenciou a preocupação da análise estatística dos problemas econômicos, e Essai sur la nature du commerce en général (1734), de Cantillon, que prenunciou a fase so é regido por leis naturais, absolutas, imutáveis e universais, desejadas pela Providência científica da economia, apresentando elementos sobre as funções da produção e riscos assumidos pelos empresários (desenvolvidos mais tarde por Say) e explicitando circuito 2. Joseph A. Schumpeter, História da análise econômica, trad. Rio de Janeiro, Ed. Fundo de Cultura, 1964, V. 286 econômico (formulado precisamente por Quesnay alguns anos depois). 3. 1964, p.30 ECONOMIA PENSAMENTO Divina para a felicidade dos homens. Estes, por meio da razão, poderão descobrir essa duz, naturalmente, a preferir emprego mais vantajoso para a constante e ordem. ininterrupto esforço de todo homem para melhorar sua própria condição é bastante poderoso para manter a marcha natural das coisas no sentido da melhoria, a Alguns autores consideram as teorias de Quesnay, sobre 0 Estado e a sociedade, despeito da extravagância do governo e dos piores erros da meras reformulações da doutrina escolástica, que satisfaziam aos nobres e à sociedade Uns poucos chegam a destacar certa tendência teológica no pensamento de Quesnay Para Deus (ou a natureza) implantou no homem certos instintos, entre Mas a maioria está de acordo em reconhecer a natureza puramente analítica ou científica quais de este, mais a tendência de ganhar mais dinheiro e de subir socialmente de sua obra econômica. conduzem trabalhador a poupar, a produzir que a sociedade precisa e a enriquecer a Os homens são "naturalmente" assim. Precursor em alguns campos, distinguiu-se Quesnay na formulação de princípios de filosofia social utilitarista (obter a máxima satisfação com um mínimo de esforço), do Se governo se abstiver de intervir nos negócios econômicos, a "Ordem Natural" Harmonismo que se desenvolveria no século XIX (embora consciente do antagonismo de poderá Mas, como fisiocratas, Smith não afirmava que fosse ela espontânea: era classes, acreditava Quesnay na compatibilidade universal ou complementaridade dos in- um fim que deveria ser alcançado. teresses pessoais numa sociedade competitiva), da teoria do capital (os empresários Apesar da abundância de exemplos e de digressões, a Riqueza das nações con- colas só podem iniciar seu trabalho devidamente equipados, ou seja, se dispuserem de tém que seu subtítulo anuncia: investigação da natureza e das causas da riqueza das um capital no sentido de riqueza acumulada antes de iniciar a produção, mas não anali- nações. Ou seja, em termos modernos, autor busca uma teoria do desenvolvimento sou a formação e comportamento do capital monetário e do capital real) econômico. No Quadro econômico, Quesnay representou, de modo simplificado, fluxo de des- A principal explicação de Smith para desenvolvimento está nas primeiras pági- pesas e de bens entre as diferentes classes sociais, distinguindo um equilíbrio de quanti- nas de sua obra: a divisão do trabalho expressão de simplicidade enganadora, utilizada dades globais que keynesianos deveriam analisar a partir de 1936. Tal como Cantillon, por ele em dois sentidos diferentes que seriam, em tempos modernos: a especialização da evidenciou a interdependência entre as atividades econômicas, problema que Walras es- força de trabalho, que acompanha avanço econômico, e a alocação da força de trabalho tudaria mais tarde. Indicou como a agricultura fornece um "produto líquido" que se repar- entre várias linhas de emprego. te entre as classes da sociedade e admitiu ser a terra produtora da mais-valia (não se Ao enfatizar mercado como regulador da divisão do trabalho, distinguiu "valor referindo ao trabalho que Marx enfocaria anos após). Importante instrumento de análise o de uso" do "valor de troca", atribuindo interesse econômico apenas ao último. Considerou Quadro é precursor da economia quantitativa, embora o aspecto econométrico da obra o valor distinto do preço, afirmando ser o trabalho "a medida do valor". Analisou a distri- de Quesnay tenha readquirido atualidade apenas a partir de Léontief (com objetivo e téc- buição da renda ao discutir os três componentes do "preço natural": salários, lucros e nicas diferentes). rendas da terra. Dos problemas do valor e da distribuição da renda, passou à exposição Em 1764, Adam Smith, então professor de Filosofia Moral na Universidade de dos mecanismos de mudança econômica e dos fatores que governam a alocação das for- Glasgow, entrou em contato com Quesnay, Turgot e outros fisiocratas, ao visitar a França. ças de trabalho entre empregos produtivos e improdutivos. Doze anos depois, tornou-se o chefe da Escola Clássica que, juntamente com a Escola O modelo teórico de desenvolvimento econômico de Smith constituía parte inte- Fisiocrática, marcou o início da fase propriamente científica da economia. grante de sua política econômica: ao contestar padrão mercantilista de regulamentação estatal e de controle, apoiava a suposição de que a concorrência maximiza o desenvolvi- 2.2.2.2 A Escola mento econômico e de que benefícios do desenvolvimento seriam partilhados por toda Embora a grande maioria dos autores tenha feito de Smith (1723-1790) o apologista a sociedade. da nascente classe industrial capitalista, a verdade é que sua simpatia voltava-se De modo geral, críticos de Smith têm afirmado que sua obra não é original, salvo freqüentemente para o operário e o trabalhador da terra, opondo-se aos privilégios e à pela disposição dos assuntos e pela exposição. Reconhecem, porém, que escolheu exem- proteção estatal que apoiavam o "sistema plos tão significativos que sua importância é reconhecida ainda hoje, e conseguiu combi- nar materiais históricos e analíticos de modo excepcionalmente eficaz. Lekachman⁶ reúne várias passagens da Riqueza das nações, contendo expressões de simpatia pelos trabalhadores, pelos consumidores, bem como pela vida rural. Seus admiradores, entretanto, consideram a Riqueza das nações uma notável con- quista intelectual, que deu uma visão completa do progresso econômico, dentro de um caráter otimista de Smith destoou dos mercantilistas que precederam e de tratamento teórico, afastado de interesses particulares (diferentemente de seus Malthus, que o seguiria. Confiava Smith no egoísmo inato dos homens e na harmonia antecessores). natural de seus interesses: todo indivíduo se esforça, em seu próprio benefício, para en- contrar o emprego mais vantajoso para seu capital, qualquer que seja ele o que o con- Dentre seus discípulos, destacam-se pelas importantes contribuições à construção da Ciência Econômica: Malthus, Ricardo, Stuart Mill e Say (representante francês da Es- cola Clássica). De modo geral, todos eles procuraram explicar certos pontos ambíguos ou 4. A respeito das obras de Quesnay, cf., além dos manuais de História do Pensamento a edição especial do Quadro Econômico (Lisboa, inconsistentes da obra de Fundação Calouste 1969): as p. 329-52 contêm tábua cronológica das obras de Quesnay as 359-71, relação dos estudos de caráter econômico ele relativos. 5. Marx utilizou expressão "economistas clássicos" para designar os autores da teoria econômica que encontrara em Ricardo seu ponto Keynes considerou "clássicos" seus predecessores, incluindo entre eles Stuart Mill, Edgeworth Pigou. Neste capítulo, empregamos "Escola Clássica" no sentido de grupo de economistas do fim do século XVIII começo do século XIX, liderados por Adam 7. Cf. Adam Richesse des nations, Ed. Canan, 1937, 6. Robert Lekachman, Histoire des doctrines de l'Antiquité à nos jours, Paris. Payot, 1960, p. 99. 8. Richesse... cit.,ASPECTOS DA EVOLUÇÃO DA DA ECONOMIA DA INFORMAÇÃO RAIZES DO PENSAMENTO ECONÔMICO 33 Thomas Robert Malthus (1766-1834) tentou precisar a terminologia teórica John Stuart Mill (1806-1873), filho do economista James Mill, buscou sistematizar e (Definitions in political economy) e colocar a economia em sólidas bases empíricas, consolidar a análise clássica, desde Adam Ao fazê-lo, todavia, modificou algumas embora reconhecendo precários fundamentos empíricos de muitas proposições am- premissas, passando para a história do pensamento econômico como "revisionista", e intro- plamente aceitas, bem como a deficiência dos dados estatísticos. Tornou-se famoso duziu na economia preocupações de "justiça social" que lhe valeram qualificativo de "clás- com a obra An essay on the principle of population, publicada anonimamente na primei- sico de transição" entre sua Escola e as reações socialistas. A reinterpretação das leis que ra edição (1798), mas cuja calorosa recepção levou-o a preparar mais seis edições (a governam a atividade econômica, em geral, e a distribuição da renda, em particular, talvez última em 1826). Escreveu ainda vários panfletos e artigos sobre temas do momento e representem a modificação mais importante efetuada por Stuart Mill à tradição sua maior obra teórica The principles of political economy considered with a view to Jean Baptiste Say (1768-1832), jornalista, industrial, parlamentar e professor de eco- their practical nomia do "Collège de France" foi principal representante francês da Escola Reto- A lei da população de Malthus desenvolveu um aspecto que Smith deixara incom- mou a obra de Smith para corrigi-la e completá-la em vários pontos. Daí seu Cours d'economie pleto: a potência da população é infinitamente maior do que a potência da terra na politique (1928, em seis volumes). Deu atenção especial ao empresário e ao lucro; subordi- produção de subsistência para homem. A população, quando não controlada, cresce a nou problema das trocas diretamente à produção, tornando-se conhecida sua concepção uma taxa geométrica. A subsistência só cresce a uma taxa aritmética. Um ligeiro conhe- de que a oferta cria a procura equivalente (popularizada como "Lei de Say"). cimento dos números mostrará a imensidão da primeira potência em relação à Stuart Mill e Marx preocuparam-se com as sociais da industrialização Os fatos, mostraram que Malthus subestimara ritmo e impacto do em sua época, especialmente baixo padrão de vida da crescente classe trabalhadora progresso tecnológico. Além disso, não lhe seria possível prever a revolução agrícola que (empilhada em favelas urbanas, sem as mais elementares condições sanitárias), a longa viria alterar radicalmente a oferta de bens de alimentação, nem as técnicas de limitação jornada de trabalho, reduzidos salários, a ausência de legislação trabalhista e da fertilidade humana. previdenciária etc. Mas, se florescimento industrial fosse julgado em termos do cresci- Relativamente às propriedades "auto-reguladoras" dos mercados, afastou-se de seus mento da produção, do aumento do volume do comércio internacional ou da acumulação contemporâneos e apresentou contribuições depois desenvolvidas por James Mill e Say. do capital produtivo, então sucesso seria inegável. Esse contraste evidenciava para ambos David Ricardo (1772-1823) trabalhou no mesmo sentido de Malthus, isto é, preo- que sistema de distribuição de renda não estava funcionando bem na economia capita- cupado em ampliar a tradição iniciada por Mas, diferentemente de Smith e de lista em expansão. Por outro lado, crescimento industrial parecia associado a instabili- Malthus, que usaram amplamente exemplos ilustrativos, Ricardo, banqueiro de uma lógi- dades econômicas que se sucediam com regularidade impressionante. Ambos, Stuart Mill ca rigorosa, era direto e formal. Construiu um sistema abstrato em que as conclusões e Marx, perceberam que o instrumental teórico legado pelos clássicos não era adequado: decorrem dos axiomas. baseava-se nos pressupostos da "harmonia de interesses" e da ordem natural e providen- interesse de Ricardo pela teorização em economia desenvolveu-se em sua meia- cial, que não se confirmavam. idade, quando já se havia enriquecido como especialista em títulos governamentais e como Os dois autores não concordaram, entretanto, quanto à solução: Stuart Mill argu- banqueiro. Estimulado por James Mill, concentrou-se na redação dos Principles of political mentou que a distribuição da renda era sensível à manipulação humana e preconizou economy and taxation, publicado em 1817. Nas duas primeiras edições, Ricardo mostrou-se políticas de promoção do bem-estar geral, mas sobretudo voltadas para a classe trabalha- otimista em relação às conseqüências sociais do maquinismo, mas na terceira reviu sua dora; Marx criticou-o por tentar harmonizar a economia política do capital às exigências posição e concluiu que a máquina poderia provocar o desemprego tecnológico e deteriorar do proletariado (entendido como classe "sem propriedade" ou que possui apenas o seu as condições do trabalhador. Esta posição conflitava com a fé de Smith na "harmonia de poder de trabalho), e essas exigências não podiam mais ser ignoradas. interesses" entre as várias classes da sociedade e seria tema de destaque na obra de Marx. Ricardo de modo sutil, a análise clássica do problema do valor: "Então, a razão 2.2.2.3 o marxismo pela qual o produto bruto se eleva em valor comparativo é porque mais trabalho é emprega- do na produção da última porção obtida, e não porque se paga renda ao proprietário da terra. Karl Marx (1818-1883) opôs-se aos processos analíticos dos clássicos e às suas conclu- valor dos cereais é regulado pela quantidade de trabalho empregada em sua produção sões, com base no que Lenin considerou a melhor criação da humanidade no século XIX: a naquela qualidade de terra, ou com aquela porção de capital, que não paga filosofia alemã, a economia política inglesa e o socialismo Mostrou Ricardo as interligações entre expansão econômica e distribuição da ren- Criticou a doutrina populacional de Malthus com base nas diferenças característi- da. Tratou dos problemas do comércio internacional e defendeu o livre-cambismo. Mas, cas dos diversos estágios da evolução econômica e seus respectivos modos de produção, como observou as grandes idéias conduzem a resultados inesperados: afirmando que uma mudança no sistema produtivo poderá converter em excedente Ricardo jamais teria suposto que viesse a inspirar "socialistas ricardianos" como William demográfico uma aparente escassez populacional. Thompson, John Gray, Thomas Hodgskin, John Francis Bray, Charles Hall etc., que soma- Preocupou-se com épocas históricas específicas, contestando os casos hipotéticos ram elementos utópicos (edificação de comunidade com base na bondade e na dos clássicos (Smith, por exemplo, escrevera sobre um estágio "primitivo e rude" da socie- racionalidade humanas) à fé em uma economia e psicologia científicas. dade), as construções abstratas que não consideravam o significado da dinâmica interna do processo histórico, nem as leis econômicas peculiares aos estágios históricos. 9. An essay on the principle of population, 1. reimpr. por 1909, p. 6. 10. Ricardo, Principles of political economy and org. Piero Sraffa, Cambridge University Press, 1953, D. 74. 11. Histoire. cit., D. 12. Oeuvres complètes, t. 19, D. 3: Roger Clefs pour Karl Paris, Ed. Seghers,ECONOMIA PENSAMENTO ECONOMICO ASPECTOS DA EVOLUÇÃO DA CIENCIA ECONOMICA DA ECONOMIA DA INFORMAÇÃO AS RAIZES DO PENSAMENTO 35 Ao lado de disputas metodológicas com Marx modificou a análise mo "atomizado" e concorrencial do início do século XIX cedera lugar a um capitalismo do valor, apesar de haver utilizado vários componentes da versão clássica da teoria do "molecular" ou de grandes concentrações econômicas, de forte tendência monopolística; valor-trabalho (Ricardo, especialmente); desenvolveu conceitos que se tornaram muito Estado abandonara sua passividade de simples guardião da ordem para interferir, cada conhecidos (como, por exemplo, de mais-valia, capital variável, capital constante, exér- vez mais, no campo econômico; salários reais dos trabalhadores denotavam sensível cito de reserva industrial e outros), analisou a acumulação do capital, a distribuição da melhora, em vez de crescente deterioração, e OS sindicatos começavam a surgir legalmen- renda, as crises econômicas etc. te, em defesa dos interesses profissionais dos empregados; OS países ocidentais gozavam Afirmava Marx que "o valor da força de trabalho é determinado, como no caso de de notável prosperidade, sem indícios das graves conseqüências previstas pelos clássicos qualquer outra mercadoria, pelo tempo de trabalho necessário à produção, e pessimistas (especialmente Malthus), por Marx e temente à reprodução, desse artigo em Coube aos neoclássicos ou marginalistas não apenas a reabordagem teórica que Desenvolveu argumentos para mostrar que valor da força de trabalho se baseia nos se impunha, mas também a elaboração de princípios teóricos fundamentais da Ciência insumos de trabalho necessários à subsistência e treinamento dos trabalhadores. As condi- ções da produção do sistema capitalista, entretanto, obrigam o trabalhador a vender mais Os parâmetros deste importante período da evolução do pensamento econômico tempo de trabalho do que necessário para produzir valores equivalentes às suas necessi- foram marcados: dades de subsistência. Os trabalhadores são obrigados a aceitar as condições impostas pelos empregadores porque não dispõem de fontes alternativas de renda. Assim, seu dia de No início 1870 pelo decênio em que surgiu a análise econômica moderna, Análise econômica trabalho compreende tempo "necessário" à produção de valores iguais às exigências de com a mudança na definição dos problemas econômicos: da determinação das causas do moderna: economista manutenção, e um tempo de trabalho "excedente". valor criado pelo tempo de trabalho desenvolvimento da riqueza, economista passou a se preocupar com a alocação dos se preocupa com a alocação dos recursos excedente é apropriado pelos detentores dos meios de produção capitalistas. recursos escassos entre usos alternativos, com fim de maximizar a utilidade ou a satisfa- escassos entre usos Por sua própria natureza, capitalismo tende a separar as classes sociais de modo ção dos consumidores. Concomitantemente, a economia adquiriu caráter internacional, alternativos, com fim já que anteriormente representava campo de estudos de ingleses e franceses, principal- de maximizar a sempre crescente: com o avanço tecnológico, um número cada vez maior de trabalhado- mente. E tornou-se disciplina acadêmica, estudada em universidades, deixando de ser utilidade ou a satisfação res é rebaixado em suas técnicas, e passa a realizar operações de rotina e tarefas repetitivas. domínio quase exclusivo dos homens de negócio. dos consumidores. Além disso, a substituição dos homens pelas máquinas faz aumentar o exército de reserva dos desempregados conseqüência do modo de produção capitalista, que mantém a No fim 1929 pela "Grande que gerou verdadeira "crise de consciên- posição de poder dos capitalistas e permite abundante oferta de trabalho a salários de cia" dos economistas, quando estes perceberam que a ciência clássica não lhes permitia subsistência. Aliás, entre os próprios capitalistas a difusão do maquinismo e a dinâmica analisar integralmente a expansão da atividade econômica e elaborar políticas econômi- do sistema fazem desaparecer os pequenos empresários, ou de menores recursos, que cas adequadas. Verificaram que a teoria do retorno automático ao equilíbrio era também se tornam dependentes dos proprietários dos meios de produção. indefensável: preços e custos não se adaptam mutuamente com rapidez e facilidade Ademais, a existência do exército de reserva industrial explica também a tendên- (teoria dos custos constantes), e as ofertas e procuras nem sempre reagem automatica- cia de salários se manterem no nível de subsistência: os capitalistas podem recorrer à mente diante das alterações dos preços (teoria da concorrência imperfeita); a própria moeda, mão-de-obra desempregada para substituir aquela que deseja melhores salários. com base no padrão-ouro, provocava desequilíbrios; a atividade econômica apresentava- se cada vez menos competitiva etc. Neoclassicismo ou Muitos autores afirmam que a contribuição de Marx à análise econômica é um prolon- Marginalismo: buscou gamento, engenhosamente elaborado, da Escola Clássica. Outros os contestam com vee- No período 1870-1929, balizado pelos fatos mais importantes que acabamos de in- integrar a teoria da mência, insistindo no erro freqüente de se analisarem separadamente as diversas teorias dicar sumariamente, a economia conheceu intenso desenvolvimento teórico. De um lado, utilidade do valor com a marxistas, que destrói a unidade do marxismo um conjunto de filosofia, sociologia, histó- vários economistas continuavam empenhados na controvérsia metodológica a respeito teoria do custo de ria e economia. Outros, enfim, acusam "complô do silêncio" dos "economistas burgueses" do emprego da dedução ou da indução, que apaixonara historicistas e clássicos, até produção dos clássicos, em torno da obra de Marx, por causa de sua sociologia da revolução, que preconiza a Schmoller concluir que ambos métodos são tão necessários ao raciocínio econômico bem como explicar os da violenta da ordem capitalista. como as duas pernas para De outro lado, surgiu Neoclassicismo ou preços dos bens e dos fatores, a alocação dos Vejamos, a seguir, período marcado pela reabordagem dos princípios clássicos bási- Marginalismo, que buscou integrar a teoria da utilidade do valor com a teoria do custo recursos com auxílio COS e a elaboração de outros, de modo a firmar a economia como ciência. de produção dos clássicos, bem como explicar os preços dos bens e dos fatores, e a alocação da análise dos recursos com o auxílio da análise marginal. Análise marginal: 2.2.3 A elaboração dos princípios teóricos fundamentais: 1870-1929 A introdução da análise marginal que valeu a esse movimento a denominação representou um também amplamente divulgada de "Marginalismo" mudou de modo significativo a instrumento, Era evidente, no último quartel do século XIX, a urgência da reabordagem dos prin- rapidamente difundido, orientação dos estudos econômicos: representou um instrumento, rapidamente difundido, cípios básicos que orientavam a Ciência Econômica, em face de novos fatos econômicos para explicar a alocação para explicar a alocação de determinados recursos escassos entre usos correntes, com de determinados recursos e das transformações estruturais das economias das nações industrializadas: o capitalis- objetivo de se chegar a resultados ótimos. O "homem racional e calculador, escassos entre os usos correntes, com objetivo de se chegar a resultados 13. Cf. 14. Marx, capital, V. 189 15. Cf. Carlos Marques Pinho, A metodologia da ciência econômica, São Paulo, 1977. ótimos.estaria empenhado em equilibrar seus dispêndios marginais com seus ganhos marginais. A análise do equilíbrio geral é uma abordagem alternativa à usada por Marshall Neoclassicismo apresentou-se sob a forma de importantes escolas, dentre as quais se para problema de determinação do preço. Cournot já havia percebido a necessidade de destacaram: a Escola de Viena ou Escola Psicológica Austríaca, a Escola de Lausanne ou considerar todo sistema econômico para uma solução completa dos problemas relativos Escola Matemática, a Escola de Cambridge e a Escola a certas partes desse sistema. Foi, entretanto, Walras quem construiu um sistema mate- mático para demonstrar equilíbrio geral, enfatizando a interdependência de todos 2.2.3.1 A Escola de Viena (ou Escola Psicológica e a teoria da utilidade marginal preços dentro do sistema econômico, bem como da micro e da macroeconomia. Mostrou Desenvolveu-se a Escola de Viena em torno de Karl Menger, a partir de 1870. Este, que as atividades das unidades de produção (famílias, firmas, empresas) não podem ser em 1871, formulou uma teoria do valor de troca baseada no princípio da utilidade decres- compreendidas isoladas umas das outras ou separadas da economia como um todo. cente, simultaneamente com inglês Stanley Jevons (1871) e francês Léon Walras (1874). Procurou separar a Economia Pura da Economia Aplicada: status da economia Pouco divulgadas no exterior por causa da barreira da língua, as obras de Menger como ciência pura não deveria ser comprometido com interesses de aproximar a obra dos constituíram, na Alemanha e na Áustria, fundamento dos estudos teóricos posterior- teóricos dos problemas dos negócios públicos. mente aí realizados. Dentre seus seguidores destacaram-se Friedrich von Wieser (1851- Enquanto autores da Escola de Lausanne buscaram equilíbrio geral, Marshall e 1926) e Eugen Böhm-Bawerk (1851-1914), que apresentaram importantes contribui- seus discípulos focalizaram a determinação do preço de um bem ou fator considerado ções, especialmente à teoria do capital e do juro. A revolução mengeriana consistiu, essencialmente, no deslocamento da finalidade dos estudos econômicos: da preocupação com a riqueza (ou com a maneira como a rique- 2.2.3.3 A Escola de Cambridge e a teoria do equilíbrio parcial za é produzida, distribuída e consumida), típica dos autores clássicos, Menger passou à Alfred Marshall (1842-1924), professor de Economia Política da Universidade de análise econômica das necessidades dos homens, sua satisfação e valoração subjetiva Cambridge, exerceu enorme influência sobre importantes gerações de pensadores econô- dos bens. Constatou que homens apresentam escalas de preferência decorrentes de micos e deu posição de destaque à Escola que recebeu nome de sua Universidade. motivos muito variados. Observou que objetos desejados pelos consumidores (ou com Sua obra Principles of economics edição em 1890) constituiu, segundo pré-requisitos para satisfazê-los: Güterqualität) têm oferta geralmente menor do que as Keynes, início da idade moderna da Ciência Econômica britânica. necessidades (Bedarf) que deles se tem, que leva indivíduo a classificar seus desejos Considerava a economia como o estudo da "humanidade nos negócios comuns da de acordo com a importância que a eles atribui. Com base no estudo das escalas de prefe- vida", ou seja, ciência do comportamento humano e não ciência da riqueza. O fim das rência de um indivíduo em relação a vários bens, da consideração das limitações que a contribuições teóricas deve ser esclarecimento de problemas práticos posição natureza impõe, do confronto das escalas de preferência dos sujeitos econômicos entre si, diametralmente oposta à de e de outros fatores, Menger procurou reconstruir a atividade econômica. Ultrapassou, as- Procurou tornar suas análises acessíveis ao grande público mediante um estilo simples e sim, a posição dos clássicos que se limitavam a estudar problemas dos preços em Evitou as exposições matemáticas, diferentemente de seus contemporâneos uma economia de troca e acreditavam que o valor dos bens depende da quantidade de trabalho neles incorporado. Buscou Menger uma teoria do valor que explicasse a impor- A complexidade do sistema econômico e a diversidade de motivos do comporta- tância atribuída subjetivamente pelos indivíduos aos bens, fundamentando valor sobre mento humano levaram Marshall a criar técnicas para estudo sistemático da economia, a utilidade de um bem que existe em quantidade limitada (noção de margem) e sobre sua por meio da redução do número de variáveis a proporções manejáveis e da criação de um aptidão para satisfazer as necessidades dos sujeitos econômicos. método de mensuração do comportamento. Utilizou método dedutivo ou abstrato para separar uma variável ou setor da economia de cada vez, com base no pressuposto de que Uma das figuras mais proeminentes da Escola de Viena foi Böhm-Bawerk, professor seu comportamento não exerce influência apreciável sobre a atividade econômica restan- e Ministro das Finanças da Áustria por três vezes. Formal e dedutivo, procurou analisar a te (ou princípio da desprezibilidade dos efeitos indiretos). O que não significa que a parte natureza do capital e seu papel no processo produtivo. Tentou conciliar duas posições da economia que não está sendo analisada permaneça inalterada, mas que, se pequeno opostas: as desvantagens da restrição ao consumo com as vantagens de futuras expan- setor considerado sofrer efeitos de uma mudança externa, ajustar-se-á produzindo ape- sões da produção, baseado na teoria subjetiva do valor. Supunha que "homem econômi- nas um efeito desprezível sobre o resto da economia. motivado pelo desejo de maximização da utilidade, tende a supervalorizar as necessi- dades presentes e a subestimar a intensidade dos desejos futuros; daí a necessidade de A dificuldade de medir as motivações humanas, que desafiam a investigação cientí- recompensar a poupança presente com pagamento de taxa de juros porque ela significa fica porque nem todas as motivações são mensuráveis, levou Marshall a observar que grande sacrifício de satisfações presentes. parte da vida do homem é orientada para a obtenção de ganho econômico, de modo que as motivações podem ser medidas por intermédio de um denominador comum: a moeda. No- 2.2.3.2 A Escola de Lausanne (ou Escola Matemática) e a teoria do equilíbrio geral tou, porém, que a aplicação desse denominador a indivíduos provavelmente não seja válida, recomendando sua aplicação ao grande grupo ou organismo social, porque este envolve um Fundada por Léon Walras (1834-1910), professor francês que lecionou Economia número suficientemente grande de indivíduos, que nivelam as diferenças da renda. Assim, na Faculdade de Direito de Lausanne, de 1870 a 1892, quando foi sucedido por Vilfredo estudo dos preços (de bens e de fatores) passou a constituir a principal área de investigação Pareto (1848-1923). de Marshall, com objetivo de descobrir as regularidades da atividade econômica.ASPECTOS DA EVOLUÇÃO DA ECONÓMICA DA ECONOMIA DA INFORMAÇÃO AS DO PENSAMENTO ECONÓMICO 39 Tornou-se famoso seu exemplo de uso da metodologia dedutiva ou abstrata para Seguiram sua tradição Wesly John R. C.E. Ayres e, mais recen- investigar a interação das forças da oferta e da procura e para explicar aparecimento do temente, John Kenneth Galbraith. preço do equilíbrio (Livro V de seus Principles). Rejeitou Veblen pressuposto neoclássico fundamental de que 0 comportamento 2.2.3.4 A Escola Neoclássica Sueca humano, na esfera econômica, é racionalmente dirigido, que homem tem habilidade para calcular OS ganhos e as perdas econômicas associadas a escolhas alternativas dispo- Knut Wicksell (1851-1926) foi principal representante do ramo sueco do apresentando importantes contribuições à análise do valor e da distribui- níveis, ou melhor, que homem é um calculador dos prazeres e dos sofrimentos (concep- ção Viu no comportamento humano uma dicotomia essencial: de um lado, ção. Deu ênfase ao papel da moeda e do crédito na atividade econômica, diferentemente de reflete impacto de uma tecnologia dinâmica e, de outro, as influências das instituições seus antecessores, muitos dos quais consideravam a moeda um simples "véu" que cobria as predominantes. Afirmou que padrões de consumo não são propriamente resultado do trocas de bens. Mostrou que tais questões, até então relegadas a plano secundário, aumenta- vam de importância e complexidade à medida que se dependia cada vez mais dos bancos cálculo racional dos ganhos e perdas marginais, mas sim resultado do hábito, da "exibi- como criadores de meios de pagamentos. ção do desejo de imitar os padrões de consumo da rica classe ociosa etc. Seu interesse pela teoria do capital e do juro surgiu da crítica que apresentou aos Neste sentido, uma política de laissez-faire não maximiza automaticamente bem- trabalhos de Introduziu conceito de estrutura de capital, propiciando estar do consumidor, e Estado deveria abrandar as influências indesejáveis, tributando novo enfoque relativamente ao efeito da acumulação de capital e à inovação sobre a Ren- "consumo da Nacional, bem como ao relacionamento entre as quotas de participação. A economia do bem-estar Das contribuições de Wicksell. a mais importante talvez tenha sido seu esforço pio- Arthur C. Pigou (1877-1959), sucessor de Marshall na cátedra de Economia Política neiro no sentido de integrar a análise monetária à análise real. Em sua época supunha-se da Universidade de Cambridge, desafiou a tradição neoclássica relativamente à substitui- que as mudanças no nível de preços e no valor da moeda refletiam somente as alterações ção da ação industrial privada pelo Estado, na esfera econômica. na quantidade de moeda e em sua velocidade; por outro lado, o nível da produção era considerado dependente da oferta de recursos e do estado das técnicas que determina- Desde Adam Smith já se reconhecia que certos empreendimentos não lucrativos vam a eficiência de seu uso e pleno emprego. Wicksell rompeu com a tradição e defen- para empresários privados são muito necessários à comunidade. Pigou, em Riqueza e deu ponto de vista de que fenômenos monetários e fenômenos reais se inter-relacio- bem-estar (1920), identificou situações em que a presença de "influências externas" na nam, de modo que as mudanças no nível geral dos preços não ocorrem mas produção justificam a intervenção do Estado, para a provisão de bens ou de serviços. sim indiretamente, como resultado das alterações da taxa de juros. Coube a Keynes reali- Outro assunto que mereceu a atenção de Pigou foi significado social das indústrias de zar, mais tarde, a plena integração entre a análise monetária e a análise real. custos crescentes e decrescentes, bem como o uso de um sistema de tributos e de subsídios Apesar da ampla aceitação do Neoclassicismo e da grande extensão do domínio de para regular sua produção, evitando-se a excessiva atração de investimentos pelas indústrias sua influência, principalmente durante os três primeiros decênios do século XX, as princi- de custos crescentes ou o subinvestimento pelas de custos constantes ou decrescentes. pais idéias marginalistas foram também objeto de alguns movimentos de oposição, como Knight examinou argumento de Pigou a favor de tributos e subsídios para corrigir veremos mais adiante. divergências entre os produtos marginais privado e social; tomou posição favorável à tra- dicional opinião neoclássica de que a concorrência tende a produzir uma eficiente alocação 2.2.3.5 Oposições ao Neoclassicismo de recursos, argumentando que a falha do mecanismo de mercado, demonstrada por Pigou, Dentre as principais oposições, destacaram-se o institucionalismo (liderado por é indicativa de falha do governo em proteger os direitos da propriedade privada. Veblen) e o movimento da Economia do Bem-Estar (com Pigou). Os debates entre Pigou, Knight e Veblen revelaram, no fundo, a insuficiência da A escola institucionalista teoria neoclássica para explicar problemas de atividade econômica. No decênio de 1920, ponto central de discussões e oposições foi a teoria neoclássica do valor; em segui- Desenvolveu-se principalmente nos Estados Unidos e buscou fundamentar-se na His- da, a análise marshalliana de rendimentos crescentes e seu relacionamento com a viabili- tória, na Sociologia e nas Ciências Sociais em geral. Opôs-se à metodologia das Escolas Clás- dade do mercado competitivo; no início do decênio de 1930, o aparecimento das teorias sica e Neoclássica, com o objetivo de tirar a economia do "laboratório" de deduções, e reconduzi- de concorrência imperfeita reativou os ataques contra neoclassicismo, e logo depois la à realidade. Neste sentido, o institucionalismo procurou considerar o tempo (colocado em Keynes criticou os aspectos da análise neoclássica que se relacionam à questão destaque pela Escola Histórica) e o espaço (por meio dos quadros sociais e institucionais). macroeconômica do nível de emprego e da produção. A personalidade de Thorstein Veblen (1857-1929) dominou o De formação complexa e variada, Veblen foi influenciado por grandes nomes: discípulos de John Bates Clark (quando estudante do "Carleton College"), colega de John Dewey (na "John 2.2.4 A fase contemporânea: de 1929 em diante Hopkins"), doutorou-se em Filosofia por Yale, estudou Antropologia, Sociologia e Economia As críticas apresentadas às teorias neoclássicas, a partir de 1920, atingiram seu ponto com outro famoso neoclássico J. L. Laughlin (depois seu chefe no Departamento de Eco- culminante no decênio de 1930, que se caracterizou por ser um período de grande fermenta- nomia da Universidade de Chicago). Publicou, entre outros trabalhos. A teoria da classe ção teórica. Na maioria dos casos, debates provocaram novas análises e novos estudos em desocupada, A teoria da empresa de negócios, Os engenheiros e sistema de preços. ambos lados oponentes, de que são exemplos os trabalhos sobre comportamento dosECONOMIA preços das empresas situadas entre monopólio puro e a concorrência perfeita; 0 comporta- Keynes criticou a lei de Say e inverteu a perspectiva de exame da moeda em movi- mento ótimo do produtor e do consumidor, a teoria do monopólio e da concorrência imperfeita; mento ("gasta") para analisá-la quando entesourada ou guardada; reinterpretou a taxa de OS problemas da "grande empresa" resultantes da concentração do poder econômico e juro; analisou a poupança e estudou sob novo enfoque a determinação do É evidente que fatos econômicos contribuíram intensamente para acirrar de- investimento e equilíbrio agregativo; atribuiu papel ativo à política fiscal, defendendo bates dos economistas, especialmente a insuficiência da tradição clássica e neoclássica déficits públicos propositais para inflar a procura agregada; opôs-se à excessiva confiança para solucionar problemas como OS da Primeira Guerra Mundial e da crise de 1929. Ou nos controles monetários etc. seja, países industrializados do mundo ocidental já seriamente abalados pela crise do As deficiências e as "temeridades" da obra de Keynes, entretanto, têm sido aponta- pós-guerra, que ocasionou elevados níveis de desemprego e profundo descontentamento das por vários autores: em vez de geral, como pretendeu, sua teoria permaneceu particu- no povo, sofreram ainda, em 1929, impacto de outra crise, iniciada na Bolsa de Valores lar, ou como resposta à situação da Grã-Bretanha durante a crise dos anos 1930, além de de Nova York e difundida em todo mundo. limitar-se ao subemprego e ao curto período. Além disso, simplificou exageradamente a Parecia muito distante da realidade a imagem de funcionamento de um sistema complexa realidade econômica, omitiu a análise da microeconomia, colocou-se volunta- econômico apresentada pelos clássicos e neoclássicos: pleno emprego seria nível nor- riamente no quadro das estruturas capitalistas, não se dedicou aos países emergentes mal de operação da economia, e as distorções que surgissem teriam correção oriunda de etc. que é mais grave, não considerou problema fundamental do fim da análise produ- remédios gerados pelo próprio sistema econômico. Em vez disso, entretanto, desempre- tiva ou a que tipo de civilização é chamada a servir a gigantesca engrenagem de técnicas, go havia atingido proporções alarmantes e não havia indicações de que tal situação esta- capitais e trabalho va se autocorrigindo. Alguns autores socialistas têm criticado Keynes por haver recomendado políticas Na ausência de um diagnóstico teórico sobre a economia do desemprego maciço, econômicas que, além de aumentar a inflação, não provocam a elevação do poder aquisi- tivo dos trabalhadores; apenas estimulam consumo dilapidador das classes dominantes. políticos e governantes tentaram desesperadamente remediar males por meio de medidas esparsas, como a restrição das importações, aumento das tarifas, a desvaloriza- Ao tentar encobrir caráter classista do consumo na sociedade burguesa, Keynes ção da moeda, a realização de obras públicas como mecanismo de criação de emprego estabeleceu uma única lei de consumo para todas as classes, ignorando que consumo (Inglaterra) ou de estímulo à economia (Estados Unidos), entre outras. dos trabalhadores e dos capitalistas é de natureza muito diferente. Assim. não teria sido casual fato de Keynes "realçar a figura de um ideólogo reacionário do consumo parasitá- 2.2.4.1 A revolução keynesiana rio, como foi Apologista do capitalismo monopolista do Estado, Keynes teria silenciado cons- No conturbado período entre as duas grandes guerras, as obras de John Maynard cientemente sobre a natureza classista do Estado burguês imperialista, órgão dos monopó- Keynes (1883-1946), romperam a tradição neoclássica e apresentaram um programa de lios capitalistas. Suas propostas para aumentar o controle estatal sobre a atividade econô- ação governamental para a promoção do pleno emprego. Foi tal o impacto produzido, mica agravaram o jugo da oligarquia financeira, mediante a utilização dos recursos da que a atuação de Keynes e de seus continuadores passou a ser chamada de "Revolução renda nacional. Teórico e homem de ação, Keynes foi conselheiro de vários governos da Por outro lado, sempre houve certa tendência socialista no sentido de incorporar algu- Inglaterra e participou de importantés conferências internacionais durante a Segunda Guerra Mundial. Em 1943 criou Plano Keynes para estabilização internacional das moe- mas contribuições keynesianas, como a política do pleno emprego e a política de direcionamento dos investimentos. Ou, então, de apresentar algumas comparações com a das. Terminada a Guerra, participou ativamente dos trabalhos de criação do Fundo Mo- netário Internacional (FMI) e do Banco Internacional para a Reconstrução e o Desenvol- intenção de aproximar Marx e Keynes: a armada industrial de reserva teria sido o pressenti- vimento (Bird). mento do desemprego permanente de Keynes; a tese marxista do subconsumo operário estaria próxima da tese keynesiana da insuficiência da demanda efetiva; a tendência à bai- Keynes interessou-se pelos problemas da instabilidade a curto prazo e procurou xa do lucro lembraria a insuficiência da eficácia marginal do capital; para ambos, o juro é determinar as causas das flutuações econômicas e os níveis de renda e de emprego em preço da moeda economias industriais. Alguns neoclássicos já se haviam referido às flutuações industriais e à "inconstância do mas enfocando principalmente as forças que influencia- Apesar de muito criticada, entretanto, a obra de Keynes estimulou desenvolvi- vam a produção em mercados determinados e não aquelas que agiam sobre a economia mento de estudos não apenas no campo da economia, mas também em áreas afins. Os como um todo. Marx, por sua vez, também se aproximara das preocupações de Keynes, econometristas, por exemplo, passaram a construir novos modelos agregados e a estatís- mas não se aprofundara no assunto, talvez por acreditar na queda inevitável do capitalis- tica conta com novo campo de pesquisas ligado à contabilidade nacional, à coleta e aná- mo. Keynes, entretanto, colocou em dúvida as pressuposições dos neoclássicos, bem como lise dos dados da renda nacional, do produto nacional, entre outros. suas preocupações com o "longo prazo" período no qual "todos estaremos mortos". Na área da renda, emprego e teoria monetária, as contribuições pós-keynesianas Considerou os problemas dos grandes agregados a curto prazo e esforçou-se no têm provocado verdadeiro impacto sobre a evolução do pensamento econômico contem- sentido de contestar a condenação marxista do capitalismo: este poderia ser preservado, como o reenunciado matemático e a análise do processo dinâmico; o modelo em sua parte essencial, se reformas oportunas fossem efetuadas, já que um capitalismo não regulado mostrara-se incompatível com a manutenção do pleno emprego e da estabi- lidade 16. Cf. Ryndina, Stepanov et al., Historia de las doctrinas México, Ed. Grijalbo, 1964, V. 2.p. 1103. 17. Cf. Pensée économique et théories contemporaines. 5. Paris: 1970.PENSAMENTO 43 de Samuelson: a explicação de Hicks-Hansen das taxas de juros, sobrepor à tradicional preferência pela riqueza tangível, resultante da propriedade as novas teorias da função a hipótese de renda permanente de Friedman: a da terra, do imóvel ou do capital para a produção industrial A moeda também se tornou hipótese de consumo de a hipótese da proporcionalidade de Tam- cada vez mais intangível, e na forma eletrônica, monitorada na tela do transferia-se bém são importantes as contribuições sobre a natureza e financiamento do investimen- instantaneamente de um extremo a outro do to; sobre a teoria monetária: integração entre a micro e a macroeconomia; sobre as teorias O sucesso da "Nova Economia" tornou-se preocupante com a intensa e rápida valo- da inflação de custo versus inflação da demanda e rização das ações de empresas sem ativos sólidos, mas de importante "capital intelec- Na área da flutuação e do desenvolvimento econômico são geralmente considera- tual". A euforia desse mercado acionário foi comparada a uma "bolha um dos pós-keynesianos autores que se têm interessado especialmente pela procura agre- jogo de final imprevisível, "stupid money" acumulado por "stupid E. realmente, gada e que contribuem no sentido de tornar dinâmica a análise de Keynes, como Joan logo começaram a cair as ações das empresas de tecnologia na bolsa eletrônica Nasdaq Duesenberry, entre Na época contemporânea, tornam-se cada vez mais evidente as grandes rachaduras Enquanto Keynes reabilitava capitalismo, socialismo implantado nacionalmen- de instituições básicas Nações-Estado, igrejas, hospitais, instituições eco- te, pela primeira vez em 1917 (URSS), passou a servir de modelo, depois da Segunda nômicas, financeiras, políticas e outras. Ao mesmo tempo, ao desemprego tecnológico soma- Guerra às democracias populares, como China, Vietnã, Cuba e outras. se desemprego causado pela recessão econômica que atinge simultaneamente Estados Mas nas últimas décadas do século XX, bruscas mudanças econômicas, tecnológicas, Unidos, União Européia e Japão, como vimos. Daí, perverso aumento de excluídos, políticas, sociais e culturais surpreenderam Implodiram modelos de econo- extracomunitários, "sem teto" desempregados, inclusive nos países mais ricos do mundo. mias socialistas integralmente planificadas no início dos anos 1990, enfraquecendo as forças políticas locais e regionais apoiadas em exacerbado centralismo estatal e em polí- 2.2.4.2 A ciência econômica depois de Keynes tica massificadora Daí se dizer que foi uma fase científica e tecnologicamente muito pro- dutiva, mas politicamente imprevisível. Como se ressaltou no item anterior, a época contemporânea conhece mudanças profundas. Muitas delas, inéditas em vários aspectos, alcançam dimensão planetária gra- Na área científica e tecnológica, crescente e intenso progresso continuou superan- ças ao rápido avanço da ciência e das novas tecnologias de comunicação. Outras estão do qualquer ficção científica, tanto no campo de pesquisas do infinitamente pequeno quan- provocando alterações na estrutura dos Estados, nas relações de poder e nas atividades to no campo do infinitamente grande. Na área política, a reavaliação do papel do Estado econômicas em todos seus aspectos. apresentou fatos inesperados, sobretudo no ponto de junção entre a estrutura e a superes- trutura: fracassaram tanto Estado comunista, inspirado na União das Repúblicas Soviéti- Na área da Ciência Econômica, entretanto, até agora não surgiu uma obra econô- cas Socialistas, como Estado capitalista primeiro por não conseguir aperfeiçoar a mica que provocasse impacto semelhante ao da Teoria geral do emprego, do juro e da sociedade via planejamento estatal autoritário, provocando indiretamente a reabilitação da moeda, de Keynes, em 1936. Nem idéias que revolucionassem tão intensamente a manei- competição individual e do lucro, que retornaram, com a "mão invisível de Adam Smith"; e ra de considerar problemas econômicos, políticos, sociais e culturais, tal como aconte- o segundo por não haver conseguido resolver as questões sociais, que até se agravaram com ceu com keynesianismo. Ou que tivessem conseqüências tão amplas como fortaleci- processo de globalização econômica. Ambos, comunismo e capitalismo, mostraram-se mento do intervencionismo, sobretudo no mundo ocidental. insuficientes para promover um desenvolvimento de dimensão humana e cultural. Mais de meio século já decorreu desde que a obra de Keynes revolucionou mundo Além disso, as chamadas "vias alternativas", tais como os movimentos de caráter econômico, sem que outra "teoria geral" e outro autor se impusessem com tanta força; nem cooperativo, corporativo, religioso e outros, não conseguiram ocupar vazio deixado pelo mesmo no momento atual, quando próprio keynesianismo começa a refluir diante da esca- contínuo encolhimento do Estado, até então o principal provedor de recursos em impor- lada do neoliberalismo, bem como ante as renovações, fusões ou cisões de antigas correntes tantes setores da área econômica e social. e de escolas do pensamento econômico. Aliás, um ponto especial de grande influência do A globalização econômica assimétrica, como já vimos, aumentou as desigualdades keynesianismo permanece insuperável a tendência matematizante da teoria entre países. Reforçada pela revolução da informática, sobretudo pelas novas tecnologias Mas há outra característica de nossa época que talvez explique a ausência de uma de comunicação planetária, passou a ser considerada um jogo para poucos eleitos ao eli- obra ou de um autor do porte de Keynes: é a avalanche de contribuições científicas esparsas minar as barreiras entre OS Estados, favorecendo os países industrialmente mais avança- e, em geral, limitadas a determinados aspectos da teoria e/ou de sua aplicação, deixando dos. Outros afirmam que a globalização e a mundialização do capitalismo selvagem con- confusos os próprios economistas e dificultando as tentativas de sistematização, de bus- fundem-se, ampliando a competição desenfreada de todos contra todos, em busca da ca dos principais encadeamentos ou de articulações das diversas dimensões da Ciência maximização de ganhos. E há aqueles que consideram a globalização econômica um sim- Econômica. Daí os autores Beaud e Dostaler¹⁸ compararem a Economia atual a uma confu- ples meio da era informacional "uniformizar" os hábitos de consumo dos povos, sem dis- sa Babel¹⁹ na qual se podem distinguir três figuras mitológicas que não se farçar sua cumplicidade com receituário neoliberal de ajuste da economia.. O fato é que no novo século e milênio, ao mesmo tempo que se intensificava a 18. Michel Beaud Gilles Dostaler, La pensée économique dépuis Keynes historique et dictionnaire des principaux Paris, Seuil, 1993. criação de riqueza baseada na mente ou no conhecimento e a "Nova Economia" ganhava 19. termo geralmente empregado nos Estados Unidos no sentido de refere-se torre que estava sendo edificada pelos descendentes de Noé para chegar aos céus. castigo de Deus foi confusão de linguas, que impossibilitou continuação da obra espaço, parecia desintegrar-se a estrutura do tradicional sistema embasado em bens ma- 20. Na Odisséia, de Penélope por vinte anos, a esperança de que seu desaventurado marido Ulisses estivesse vivo conseguisse teriais, que até então mantivera mundo coeso. Ou seja, a riqueza imaterial começou a se Durante esse seu lar se viu infestado de pretendentes desposá-la Penélope prometeu decidir-se por um dos pretendentes assim que terminasse a mortalha que tecia para seu velho pai. Então, tecia de dia e desmanchava de recomeçando sempre para não acabar trabalho ser obrigada novasASPECTOS DA DA DA ECONOMIA DA INFORMAÇÃO RAIZES DO PENSAMENTO ECONÓMICO 45 cansa de tentar a impossivel façanha de tecer ideal teórico com a complexidade do certa ironia dos críticos de economia quando afirmam que os saberes econômi- mundo que enfrenta a heterodoxia sempre em e COS, para serem conhecidos, precisam ser produzidos em inglês e matemática, as duas que fracassa na tentativa de altos vôos do pensamento grandes "linguagens" que se impuseram depois da II Grande Mas se idioma Por que Babel? Porque é sentido metafórico da crescente dificuldade de comuni- não for inglês, certamente trabalho não ultrapassará âmbito de pequenas comunida- cação entre especialistas da área econômica, fragmentada em múltiplos setores e des científicas locais ou regionais não-anglofones, ainda que do Hemisfério subsetores de especialização, e com análises, pesquisas e ensaios teóricos parciais, geral- apesar de todas essas dificuldades e do fato de apenas uma pequena mente limitados a específicos problemas micro ou ou a determinados parte dos estudos econômicos conseguir chegar aos principais centros internacionais do aspectos de interação com a a as ciências sociais, a biologia e/ou saber a Economia é a ciência que mais se destaca no conjunto das ciências outras Assim, se for considerada somente a interação com outros campos do sociais, devido a seu sólido embasamento estrutural e às múltiplas possibilidades de suas conhecimento. é intenso desenvolvimento atual de vários setores de estudos econômi- aplicações práticas, COS, tais como economia urbana, economia da educação, economia da energia, economia Por outro lado, a dimensão econômica mundial, ou mundialização da economia, do direito, economia da saúde, economia psicológica, economia da arte etc. vem provocando mudanças profundas nas economias nacionais, restrição no campo de portanto, imenso desafio de conseguir acompanhar as conclusões dos traba- atuação dos Estados e revisão nos limites do welfare-state lhos recém-divulgados, até mesmo sobre um pequeno setor da Ciência Aliás, com a implosão dos regimes comunistas no final dos anos 1980 e a generali- leitor fica meio perdido diante do grande número da revistas, livros, papers, anais de con- zação do sistema de economia de mercado, parecia que liberalismo econômico, mesmo gressos, encontros, seminários e outras formas de troca de experiência em campos deter- com novas roupagens, seria o grande vitorioso no limiar do século XXI. Mas a frustração minados da Economia, apresentados sob forma impressa ou eletrônica, em livrarias chegou antes de o novo século e milênio, com as dificuldades de todas as políticas econô- especializadas, sejam elas reais ou virtuais. A Internet, por exemplo, acessada de forma micas ortodoxas, heterodoxas e mistas conseguirem solucionar, no mínimo, proble- cada vez mais rápida e fácil, abre imensas possibilidades de cópia de arquivos, "navega- mas como o desemprego crescente e o aumento da faixa de pobreza e de exclusão social ção" em hipertextos e ancoragem em "nós" do padrão da Biblioteca do Senado Americano em todos os países, inclusive naqueles considerados ricos e altamente industrializados. ou das grandes universidades dos Estados Unidos. Então, o enfoque dos decepcionantes resultados sociais das várias correntes de Soma-se a tudo isso o fato de a grande maioria dos economistas continuar semi- políticas econômicas volta-se para outra realidade: a quase ausência da Ciência Econômi- isolada em pequenas comunidades de estudo e de trabalho, tais como um determinado ca na análise de temas relevantes de nossa época, como, por exemplo, os aspectos econô- departamento de uma determinada faculdade, ou um centro de pesquisa altamente espe- micos das agressões ecológicas. cializado, cujas publicações têm pequena tiragem. Apenas recentemente começaram a Todas as considerações até aqui apresentadas mostram a dificuldade de encontrar surgir divulgações de análises e conclusões científicas em portais e sites, mas quase sem- um critério sistematizador que possibilite delinear as principais tendências do pensamen- pre somente por meio de abstracts em inglês. to econômico atual. Além disso, é muito difícil avaliar qualquer período historicamente Até mesmo no caso de trabalhos inteiramente divulgados em inglês - o idioma próximo. que se o grande veículo internacional de comunicação científica é cada vez Pode-se, por exemplo, tentar abordar essa questão pelo cruzamento de informações mais difícil selecionar aqueles que representam contribuições originais devido à diferen- sobre as contribuições dos economistas, com base nas principais obras e revistas econô- ciação de graus de generalidade e de elaboração teórica, à pluralidade de abordagens e de micas das últimas décadas. Mas, como já foi dito, a avalanche de trabalhos é muito grande produtos, à interação de teorias e da realidade, voltados a temas centrais ou periféricos. e a maioria é editada nos Estados Unidos, o que exclui, de partida, o mundo, não- Na linha da argumentação de Beaud e Dostaler, poder-se-ia dizer, somente a respei- anglofônico.. to das obras publicadas em inglês, que há cerca de 150 anos teria sido possível a um Que opção encontrar para apontar as principais tendências do pensamento econô- economista ler todas elas; há 60 anos, teria conseguido conhecer diretamente apenas os mico em nossos dias? Um critério pode ser, por exemplo, o exame das contribuições dos principais trabalhos; há 30 anos, poderia ter acompanhado somente os progressos em laureados do Prêmio Nobel de Economia, de 1969 a 2001. curso. E, hoje, um economista estudioso e dedicado conseguiria opinar apenas sobre os problemas de um reduzido campo da Ciência Econômica, e assim mesmo com a condição 2.2.4.3 A variada contribuição dos economistas Prêmio Nobel de haver recebido informações dos principais debates em curso, via meios de comunica- ção tradicionais e/ou eletrônicos. Mesmo nesta última hipótese, não se deve esquecer Como distinguir as principais tendências do pensamento econômico contem- que teria sido quase completamente ignorada a produção não-anglofone, também abun- porâneo, na Babel de que falam Beaud e Dostaler? Neste item indicamos o critério das dante e variada. contribuições científicas dos economistas laureados com o Prêmio Nobel (veja item 2.5 Anexo). Contudo, esse critério é controvertido. Os economistas em geral e os próprios 21. às De acordo com mitologia grega, lendário rei de Corinto, foi levado ao inferno e condenado ao suplício de subir uma montanha costas um penedo, que e escorregava montanha abaixo antes que Sisifo chegasse ao cume, recomeçar. Se tentasse carregando descan- laureados - têm criticado a concessão do Prêmio Nobel de Ciências Econômicas in- pesado, contínuo inútil. sar, era chicoteado por uma Erinia terrivel divindade do mundo subterrâneo que executava as rochedo de simboliza trabalho cluído, em 1969, aos outros prêmios que, desde o início do século XX, o Banco da Suécia 22. foge do labirinto voando com asas de penas de aves presas com cera. Mas como subiu muito alto, Sol derreteu cera e ele caiu no mar Egeu. outorgava à física, química, medicina, literatura e paz, em memória de Alfred Nobel.