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PSICOMOTRICIDADE 2 SUMÁRIO INTRODUÇÃO ............................................................................................................ 4 1 ESTUDO DOS FUNDAMENTOS TEÓRICOS DA PSICOMOTRICIDADE............. 5 1.1 A história do corpo ............................................................................................ 5 1.2 A psicomotricidade ........................................................................................... 7 1.3 A psicomotricidade no Brasil ........................................................................... 11 2 AS AQUISIÇÕES NEUROPSICOMOTORAS AO LONGO DO DESENVOLVIMENTO INFANTIL ............................................................................. 13 2.1 Principais aquisições psicomotoras na primeira infância ................................ 15 2.2 Principais aquisições psicomotoras na segunda infância ............................... 18 2.3 Principais aquisições psicomotoras na terceira infância ................................. 23 3 A IDENTIFICAÇÃO DOS PROCESSOS PATOLÓGICOS QUE LEVAM A DISTÚRBIOS NO DESENVOLVIMENTO PSICOMOTOR........................................ 25 3.1 Síndrome de debilidade motora e mental ............................................................ 26 3.2 Síndromes de insuficiência psicomotora e tipos psicomotores/ Síndrome de assinergia motora e mental ....................................................................................... 28 3.3 Síndrome de hipertonia – coréia motora e mental/ síndrome de insuficiência mesencefálica ou extrapiramidal inferior e média ..................................................... 30 3.4 Síndrome de automatismo motor e emocional/ síndrome de insuficiência diencefálica ou extrapiramidal superior ..................................................................... 32 3.5 Síndrome córtico-associativa/ síndrome de insuficiência frontal ..................... 33 2 ENTENDIMENTO ACERCA DOS RECURSOS PARA A PROMOÇÃO DAS AQUISIÇÕES PSICOMOTORAS ............................................................................. 34 2.1 Principais áreas psicomotoras ........................................................................ 36 2.2 Programas de intervenções motoras .............................................................. 39 5 AS RELAÇÕES ENTRE DISTÚRBIOS DE APRENDIZAGEM E O DESENVOLVIMENTO PSICOMOTOR ..................................................................... 41 3 5.1 As relações entre o cérebro e a aprendizagem segundo o Modelo Funcional de A. R. Luria ................................................................................................................. 43 5.2 A organização funcional do cérebro segundo Luria ........................................ 44 6 EDUCAÇÃO E REEDUCAÇÃO PSICOMOTORA ............................................... 49 6.1 Aplicações da educação e reeducação psicomotora ...................................... 49 6.2 Aspectos essenciais ao desenvolvimento psicomotor .................................... 51 6.3A função do psicomotricista na educação e na reeducação psicomotora ............ 54 7 A IMPORTÂNCIA DA GINÁSTICA PARA O DESENVOLVIMENTO PSICOMOTOR .......................................................................................................... 57 7.1A ginástica e o desenvolvimento psicomotor de crianças e adolescentes ........... 57 7.2 Elementos psicomotores desenvolvidos pela ginástica .................................. 60 7.3 Ginástica como conteúdo da educação física escolar .................................... 62 8 A PSICOMOTRICIDADE RELACIONAL .............................................................. 64 8.1 Algumas considerações importantes sobre as vertentes da psicomotricidade 64 8.2 A Psicomotricidade Relacional ....................................................................... 66 8.3 A brincadeira como ferramenta para o desenvolvimento psicomotor ............. 69 8.4 Principais áreas de atuação da Psicomotricidade Relacional ......................... 69 8 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ..................................................................... 73 4 INTRODUÇÃO Prezado aluno! O Grupo Educacional FAVENI, esclarece que o material virtual é semelhante ao da sala de aula presencial. Em uma sala de aula, é raro – quase improvável - um aluno se levantar, interromper a exposição, dirigir-se ao professor e fazer uma pergunta, para que seja esclarecida uma dúvida sobre o tema tratado. O comum é que esse aluno faça a pergunta em voz alta para todos ouvirem e todos ouvirão a resposta. No espaço virtual, é a mesma coisa. Não hesite em perguntar, as perguntas poderão ser direcionadas ao protocolo de atendimento que serão respondidas em tempo hábil. Os cursos à distância exigem do aluno tempo e organização. No caso da nossa disciplina é preciso ter um horário destinado à leitura do texto base e à execução das avaliações propostas. A vantagem é que poderá reservar o dia da semana e a hora que lhe convier para isso. A organização é o quesito indispensável, porque há uma sequência a ser seguida e prazos definidos para as atividades. Bons estudos! 5 1 ESTUDO DOS FUNDAMENTOS TEÓRICOS DA PSICOMOTRICIDADE 1.1 A história do corpo Para Ramos (1996) o corpo, para os seres humanos, é algo fundamental e possui uma pluralidade de significados. Além de ser o ponto de referência através do qual o indivíduo busca conhecer e interagir com o mundo, o corpo serve, também, como base para o desenvolvimento nos aspectos cognitivos, sociais, físico-motores e afetivo-emocionais, por isso o estudo da psicomotricidade é algo amplo, que dá margem a inúmeras analogias. Conforme afirmado por Ajuriaguerra (1983), o processo de aprendizagem requer a combinação de sensação, pensamento e ação, sendo a psicomotricidade a manifestação de um pensamento por meio de atos motores precisos, psicológicos e harmoniosos. É mister considerar que a valorização do corpo humano ocorre desde os tempos antigos, por exemplo, pelo culto excessivo do esplendor físico, visão na qual os músculos bem desenvolvidos eram considerados sinal de masculinidade. Assim, as diferentes concepções que o homem vai construindo acerca do corpo ao longo da história formam a simbologia atribuída a ele em uma determinada cultura. Com relação à etimologia da palavra corpo, Levin (2000) chama a atenção para a tripla influência: por um lado, do sânscrito garbhas, que significa embrião e, por 6 outro lado, do grego karpós, que quer dizer fruto, semente, envoltura e, por fim, do latim corpus, que significa tecido de membros, envoltura da alma, embrião do espírito. Segundo Costa (2008), a evolução histórica da psicomotricidade perpassa a organização referencial da história do corpo, desde a saída do dualismo cartesiano até o paralelismo. No início, acreditava-se que o corpo não tinha relação com as sensações e os pensamentos, mas os estudos de Philippe Tissié (1852 - 1935), em 1901, já apontavam para a necessidade de perceber os exercícios físicos em relação ao movimento e ao pensamento. Ernest Dupré (1862 - 1921), neurologista, desde 1907, afirmava que nem sempre as incapacidades motoras estavam ligadas ao retardo mental. Denominava essas incapacidades de síndrome da debilidade motora, composta de sincinesias, paratonias e inabilidades. Muniz, citado por Mello (1989), comenta que, a partir de 1790, principalmente com o trabalho de Biran, “a ação assumia importância na consciência que o indivíduo tem de si e do mundo exterior, colocando o movimento como um componente essencial na estruturação do eu” (MELLO, 1989, p. 24). Dessa forma, o “eu” afirma- se pelo e no esforço e domina o conjunto do organismo, sendo nessa ação que toma consciênciahemisfericidade, resultando em uma dificuldade praticamente impossível de executar movimentos intencionais. Os membros afetados sofrem uma perda completa de movimento, com apenas algumas contrações sincinéticas remanescentes, enquanto os músculos faciais apresentam menor comprometimento. O tronco pode apresentar leves afecções piramidais, enquanto as extremidades revelam claramente contraturas em flexão na mão e em extensão e abdução no pé. A presença de manifestações atetósicas também pode indicar insuficiências nas estruturas optoestriadas e mesencefálicas. Nos estados de insuficiência extrapiramidal superior, observa-se a presença de insensibilidade social e uma crueldade inflexível em relação às necessidades dos outros. Isso ocorre devido à dissolução da percepção, cognição e suas consequências afetivas. Essa condição fortalece a persistência de um egocentrismo inconsequente e anormal, revelando uma instabilidade e impotência de reflexão e planejamento. Esses aspectos podem estar na origem de diversas dificuldades de adaptação. 3.5 Síndrome córtico-associativa/ síndrome de insuficiência frontal Sobre a síndrome córtico-associativa/ síndrome de insuficiência frontal, Fonseca (2008) expica que o desenvolvimento do lobo frontal, especialmente do córtex pré-frontal (que inclui áreas motoras associativas e funções executivas), é responsável pelo surgimento dos comportamentos mais avançados na espécie humana. Os lobos frontais desempenham um papel crucial na organização da atividade prática, na planificação, programação, regulação, verificação e execução da motricidade. Essas habilidades são características notáveis do ser humano e estão relacionadas à capacidade construtiva e criativa da ação e do pensamento, além de serem fundamentais para o desenvolvimento da evolução cultural. O lobo frontal exerce uma ação inibitória sobre as emoções, organizando e categorizando o fluxo de informações e impressões sensoriais. Ele confere expressão harmônica, precisão e eficácia a essas informações, e, posteriormente, com base nas circunstâncias, previsões e preferências refletidas, sequencia-as no espaço-tempo e 34 de acordo com intenções conscientes. Devido à sua complexidade funcional e estrutural, e ao seu papel de organização e síntese, compreende-se que sua insuficiência pode levar a estados e tipos de apraxia, amnésia e afasia, comprometendo a qualidade da expressão, adaptação e comunicação do indivíduo. A atividade do lobo frontal é marcada pelo seu poder de iniciativa e orientação mental, ou seja, pela sua capacidade de intencionalidade. Sua atividade transcende e supera todas as outras funções mentais, constituindo uma enteléquia integrativa que governa todas as reações elementares e automáticas do psiquismo. A função frontal, conhecida também como função executiva, exerce um controle prioritário e hierárquico sobre todas as funções medulares, reticulares, cerebelares, extrapiramidais e piramidais. Sinergias, automatismos, emoções e intenções se combinam para alcançar um objetivo específico (DAS, 1996). Dentro dessa arquitetura funcional complexa, as disfunções ou insuficiências frontais resultam em uma variedade de efeitos no comportamento e na aprendizagem. Entre eles, destacam-se a inércia (que vai desde a agitação subcortical até a passividade frontal), anorexia, bradicinesia, paratonias, hipotonia, apraxias, mutismo, hiperatividade, apatia, episódios de depressão hipomaníaca, indecisão, impaciência, falta de atenção, subjetividade intensa, confusão espaço-temporal, hipersensibilidade psíquica, despersonalização, digressões e associações inoportunas, desconexão entre a ação e a representação, tautologias puras, entre outros (DAS, 1996). 4 ENTENDIMENTO ACERCA DOS RECURSOS PARA A PROMOÇÃO DAS AQUISIÇÕES PSICOMOTORAS O Manual de apoio a visitas domiciliares (2021) traz em relação a promoção das aquisições psicomotoras é um processo fundamental para o desenvolvimento infantil. Para isso, existem diversos recursos disponíveis, que podem ser utilizados por profissionais da área da educação, saúde e esporte, como jogos, brincadeiras, atividades lúdicas, exercícios físicos, entre outros. Esses recursos têm como objetivo estimular e desenvolver habilidades motoras, cognitivas e socioemocionais seguras para o desenvolvimento global da criança. Além disso, é importante considerar que o uso adequado desses recursos deve estar em consonância com as características individuais e etárias de cada criança, respeitando seu ritmo e recursos, para que possam ser efetivos e seguros. 35 O desenvolvimento da cognição é um processo fundamental na formação da pessoa, e está intimamente relacionado às suas interações com o meio e às bases biológicas. É importante fornecer cuidados, estímulos, carinho e atenção para promover o desenvolvimento cognitivo saudável. A primeira infância é a fase mais importante desse processo, pois é quando o cérebro está se formando e há uma maior plasticidade cerebral. Durante essa fase, são criadas ligações que formam a base dos pensamentos, sentimentos e comportamentos. A aprendizagem é essencial para o desenvolvimento cognitivo, bem como a coordenação motora, a linguagem e o suporte emocional e afetivo (FERREIRA; ACIOLY-RÉGNIER, 2010). Segundo Wallon (1998), o desenvolvimento infantil é composto pelos domínios da motricidade, afeto e cognição. Em suas pesquisas, ele enfatiza que o desenvolvimento da inteligência depende das experiências que o meio oferece e do grau de apropriação que cada indivíduo faz delas. Em outras palavras, fatores como o espaço físico, as pessoas próximas, a linguagem e os conhecimentos culturais presentes no ambiente contribuem significativamente para formar o contexto de desenvolvimento. Desde o início da vida, a criança já começa a adquirir a linguagem, desenvolvendo e aprimorando suas habilidades linguísticas. É essencial que a mãe converse com o seu filho, uma vez que sua voz e palavras são fundamentais para os todos os aspectos das dimensões do desenvolvimento. Como a criança ainda não tem capacidade de fala após o nascimento, ela expressa seus desejos, vontades e necessidades através do choro. Quando o adulto percebe o choro, ele é motivado a resolver o problema, resultando em um intercâmbio entre ação e reação que alivia o sofrimento e a angústia da criança. Wallon (2008) traz ainda que o desenvolvimento infantil deve ser compreendido através da sucessão de etapas caracterizadas pelos domínios funcionais da afetividade, do ato motor e do conhecimento, que são influenciados principalmente pelo meio social. Por essa razão, é importante que as crianças, incluindo bebês, tenham uma rotina planejada, estruturada e organizada para garantir o seu melhor desenvolvimento, proporcionando conforto, segurança, facilidade de organização e espaço temporal adequado, evitando assim o estresse que pode surgir a partir de uma rotina desestruturada. 36 Ao trazer a discussão mais especificamente para o desenvolvimento motor (sem desconsiderar sua relação com outros campos como a cognição e a afetividade), tem-se que este começa já no período intrauterino e a primeira infância é a fase mais receptiva aos estímulos ambientais, favorecendo a aquisição das habilidades motoras. Durante essa fase, também conhecida como janela de oportunidades ou períodos sensíveis, o cérebro está mais sensível para algumas aprendizagens e mais receptivo a novos estímulos e aquisição de habilidades. Isso ocorre porque o cérebro passa por grandes mudanças na primeira infância, mais significativas do que em outras fases da vida, como aponta Muniz (2012). Na sequência, serão expostas as principais áreas psicomotoras e algumas importantes sugestões de atividades que podem servir como molas propulsoras para o desenvolvimento psicomotor da criança. 4.2 Principaisáreas psicomotoras Conforme explica Gallahue; Ozmun (2013), o desenvolvimento motor é um processo que ocorre ao longo de toda a vida, iniciando-se na concepção e evoluindo de forma contínua e sequencial. Este processo é influenciado por diversos fatores, incluindo as demandas da tarefa a ser executada, as características biológicas individuais e as condições ambientais. É importante compreender a complexidade desse processo para promover uma abordagem eficaz no desenvolvimento psicomotor de crianças. Os autores mencionados anteriormente trazem um entendimento de Bee; Boyd (2003), onde eles explicam que durante a fase pré-escolar, a criança passa por mudanças significativas no seu comportamento, caracterizado por uma atividade exploratória constante. Nessa fase, há um importante avanço no desenvolvimento motor seguindo as leis céfalo-caudal e próximo-distal. Já na fase escolar, ocorre um aperfeiçoamento do desempenho motor, sendo que a maioria das habilidades motoras importantes e, por volta dos 6 ou 7 anos, é desenvolvida em sua forma básica. Entre os 6 e 12 anos, a criança apresenta um aumento na velocidade, uma coordenação cada vez melhor e maiores habilidades em tarefas físicas específicas (BEE; BOYD, 2003). 37 Durante a infância, o desenvolvimento das habilidades motoras está intimamente ligado à percepção do corpo, do tempo e do espaço. Essas habilidades são essenciais para a aprendizagem dos movimentos e para as atividades escolares. Portanto, quando uma criança possui um bom controle motor, ela está estabelecendo as bases para o seu desenvolvimento cognitivo. Os professores podem contribuir para esse processo ao oferecerem uma variedade de experiências motoras e psicossociais aos alunos, prevenindo dificuldades no desempenho escolar (NETO et al., 2002). Ainda segundo Neto (2015), os elementos que compõem o desenvolvimento motor são os aspectos psicomotores, os quais serão apresentados a seguir: Motricidade fina: Conforme Neto (2015), a coordenação visuomanual é a atividade mais frequente e comum no ser humano, envolvendo a fase de transporte da mão, seguida pelo agarre e manipulação do objeto, com três componentes interconectados: objeto, olho e mão. Já para Rodrigues (2000), a habilidade manual é um aspecto específico da coordenação global, sendo fundamental para a praxia e a escrita. Seu desenvolvimento está relacionado à coordenação geral, à coordenação discriminativa e ao controle motor dos olhos, lábios, língua, mãos e dedos. A motricidade fina é uma atividade que requer movimentos precisos, um alto grau de controle visual para a manipulação de atividades detalhadas e o uso mínimo de força. Motricidade global: Envolve os grandes músculos do corpo para realizar movimentos amplos e utilizar o corpo como um todo. Ela pode ser dividida em quatro habilidades fundamentais: coordenação dinâmica, equilíbrio, freio inibitório e relaxamento. A coordenação dinâmica geral é responsável por movimentos globais dinâmicos, como correr, saltar, trepar e andar, sendo fundamental para o desenvolvimento do equilíbrio corporal e dinâmico (RODRIGUES, 2000). Segundo Neto (2015), a capacidade da criança de se expressar através de gestos, atitudes, deslocamentos e ritmos é uma forma de conhecê-la e compreendê-la melhor. Ao brincar, a criança imita cenas da vida cotidiana, fala enquanto se movimenta, canta, dançando e expressa sua afetividade, ao mesmo tempo, em que exercita sua capacidade intelectual. Déficits na motricidade grossa podem resultar em baixa proficiência em tarefas motoras mais complexas, que exigem a combinação de movimentos fundamentais para desenvolver habilidades mais elaboradas (CATENASSI et al., 2007). Equilíbrio: De acordo com Gallahue e Ozmun (2013), o equilíbrio é a habilidade de manter a postura corporal estável em diferentes posições. A falta de controle do 38 equilíbrio pode prejudicar a locomoção e a manutenção de posturas, afetando as atividades diárias. Existem dois tipos de equilíbrio: estático e dinâmico, que dependem da posição do centro de gravidade do corpo. Neto (2015) destaca que o equilíbrio é fundamental para a realização de movimentos corporais complexos e sua falta pode resultar em maior consumo energético para a execução das tarefas motoras. Esquema corporal: Desde os primeiros meses de vida, a criança começa a ter noções do seu próprio corpo, explorando-o através de sensações como dor, choro, alegria e visão. Esse processo é fundamental para o seu desenvolvimento, pois contribui para a construção do esquema corporal, que é a organização das sensações do corpo em relação ao ambiente externo. Essa representação corporal é essencial para o desenvolvimento da personalidade e para a consciência de si, incluindo a relação do corpo com o ambiente e as partes do corpo entre si. De acordo com Le Boulch (1983), o esquema corporal é um conhecimento imediato que temos do nosso corpo em movimento ou em posição estática. Já Freitas (2008) destaca que a representação do corpo é um elemento indispensável na formação da personalidade da criança. Estudar o esquema corporal e a imagem corporal é de grande importância para entender a cognição humana, o ensino e a aprendizagem. Além disso, o esquema corporal também permite a consciência de si em relação às partes do corpo e ao ambiente, auxiliando na corporeidade (MELLO, 2009). Organização espacial: A percepção espacial é a habilidade de orientar-se em relação ao espaço físico e de compreender a proximidade entre objetos. Conforme Gallahue e Ozmun (2013), essa habilidade é fundamental para o desenvolvimento motor- perceptivo e pode ser dividida em duas subcategorias: a percepção do corpo no espaço e a capacidade de projetar o corpo no ambiente externo. Envolve a integração de informações perceptivas e sensitivas do ambiente para estabelecer relações espaciais entre os objetos e o próprio corpo. Estudos sobre o desenvolvimento motor de crianças em idade escolar têm demonstrado dificuldades na organização espacial entre os 6 e 10 anos (NETO et al., 2010). Essas dificuldades podem ser atribuídas a deficiências na educação brasileira. Organização temporal: Le Boulch (1983) destaca a importância da consciência corporal na orientação espaço-temporal da criança, pois quando ela tem essa consciência, consegue estender seus eixos corporais ao espaço euclidiano e ampliar seu espaço temporal. O tempo é percebido a partir das mudanças que ocorrem no 39 ambiente e sua sucessão, tornando-se memória. A orientação espaço-temporal é crucial para a percepção do ambiente e das relações do corpo com objetos e pessoas por meio de ações motoras (GALLARDO, 2000). As noções de tempo e espaço são fundamentais para o desenvolvimento motor, cognitivo e social da criança. No entanto, é preciso que a criança tenha integradas as noções de esquema corporal e imagem do corpo para que possa desenvolver sua organização espaço/tempo (FERREIRA; THOMPSON, 2002). Lateralidade: Durante a infância, é comum ocorrer a definição da dominância lateral, que geralmente ocorre em torno dos 6 ou 7 anos. No entanto, é possível que seja percebida antes dessa idade. Se esse processo não se completar até os 9 anos, pode ser um indicativo de distúrbio de lateralidade (HOLLE; VELASCO apud COSTA, 2005). Segundo Neto (2002), a lateralidade se refere à preferência pela utilização de uma das partes simétricas do corpo, como mão, olho, ouvido ou perna, mas é comum que o domínio motor lateral das mãos seja considerado como referência. Tendo como base esses sete elementos psicomotores aqui descritos, serão expostas, na sequência, algumas sugestões de atividades que podem ser feitas, de acordo com a habilidade psicomotora que precisa ser desenvolvida. 4.3 Programas de intervenções motoras Para Fonseca (2004), durante a infância, as habilidades motoras desempenham um papelfundamental na independência, nos jogos e na adaptação social da criança, constituindo as bases para o seu desenvolvimento. A psicomotricidade consiste na educação do ato motor por meio do pensamento, assim como na educação do pensamento por meio do ato motor. Nessa atividade, o cérebro não se concentra nos músculos, mas nos movimentos planejados para atingir um objetivo, envolvendo funções psicológicas superiores. A reeducação motora tem como objetivo aprimorar as sensações, percepções e cognições, a fim de que sejam utilizadas em respostas motoras previamente planejadas. É importante destacar que a psicomotricidade deveria ser considerada como uma educação básica para a escola primária, já que é fundamental para o desenvolvimento de todas as aprendizagens pré-escolares e escolares. A psicomotricidade tem sido amplamente reconhecida como uma importante medida de intervenção educativa, pré-educativa e terapêutica em diversos países, 40 sendo considerada indispensável em diversas estruturas de educação, reabilitação, saúde e segurança social, como em centros de saúde mental infantil, medicina física e reabilitação, entre outros). Existem várias formas de intervenção psicomotora, podendo ser realizadas por diferentes profissionais, em diversos ambientes e baseadas em várias correntes teóricas. A psicomotricidade é uma técnica que tem como objetivo desenvolver as capacidades individuais, e pode ser abordada por meio de diferentes jogos e brincadeiras que trabalham as áreas motoras, considerando sua relação com o desenvolvimento cognitivo. Na sequência, são apresentadas algumas sugestões de intervenções que busquem o desenvolvimento das habilidades psicomotoras, organizadas de acordo com as áreas apresentadas no ítem anterior: Motricidade fina: Existem diversas atividades que podem ser utilizadas para promover o desenvolvimento da motricidade fina em crianças, como jogos de encaixe, quebra-cabeça, alinhavos, atividades de ligar os pontilhados, entre outros. Além disso, atividades como pintura com os dedos dos pés, fazer bijuterias com miçangas e dobraduras também podem ser benéficas. No ambiente escolar, é possível trabalhar com recorte, colagem e pinturas com tintas, canetinhas e lápis de cor. É importante também considerar o fortalecimento muscular dos dedos indicador e polegar, além de ombros e braços, por meio de atividades que envolvam texturas diferentes, mobilidade dos dedos, traçados e linhas. Motricidade Global: Para o desenvolvimento da motricidade global, algumas atividades podem ser realizadas, como saltar de diferentes formas, utilizando um pé ou os dois, saltar por cima de objetos, andar com uma bola entre as pernas, realizar atividades de rastejar e escalar. Também pode ser realizado um circuito com obstáculos, como bancos, elásticos, cordas, bolas e cones, além de jogos com música e brincadeiras com bola. Equilíbrio: Algumas atividades que podem ajudar no desenvolvimento do equilíbrio e coordenação corporal incluem: jogos clássicos como amarelinha e “pé de lata”, jogos de troca de nível como subir e descer de degraus ou correr e parar rapidamente, trave de equilíbrio, equilibrar bastões, circuito de equilíbrio (por exemplo, andar por cima de um banco, corda ou linhas da quadra); além de experimentar diferentes posições corporais com o uso de diversos materiais auxiliares ou não. 41 Esquema corporal: Para a promoção da psicomotricidade expressiva, podem ser utilizados diferentes jogos e atividades como brinquedos cantados, jogos de mímica (com imitação de expressões faciais e de animais), brincadeiras no espelho com imitação de posturas, movimentos de relaxamento sentado ou deitado, além de atividades como contornar o corpo do colega no chão com giz e quebra-cabeça do corpo humano. Organização espacial: Algumas atividades que podem ser realizadas para o desenvolvimento da percepção visual e cognitiva incluem jogos de quebra-cabeça e encaixe, a manipulação de vários materiais para classificá-los por tamanho, textura e consistência (grande/pequeno, grosso/fino, mole/duro), o reconhecimento e identificação de figuras geométricas, jogos que envolvam o conceito de dentro e fora (como o jogo "coelhinho sai da toca") e o jogo twister. Organização temporal: Para estimular a organização temporal, é possível promover a composição de frases, conversar, cantar e fazer brincadeiras com música, como bater palmas, bater o pé e parar, além de dançar e tocar instrumentos musicais. Também são recomendadas atividades que envolvem movimentos sincronizados com a música, como pular corda e a brincadeira do "reloginho". Lateralidade: Algumas atividades lúdicas que podem auxiliar no desenvolvimento psicomotor e na noção de lateralidade das crianças incluem: jogos de arremesso, jogos com bolas, brincadeira do Saci Pererê, circuitos com obstáculos, jogos de máscaras, binóculo e olho mágico. Além disso, músicas com movimentos de "esquerda e direita" e danças de roda também são ótimas opções. Para promover o desenvolvimento psicomotor de crianças, é importante evitar atividades que envolvam movimentos automáticos ou competições que possam levar as crianças a realizar movimentos de qualquer forma para cumprir uma tarefa. É necessário escolher atividades que envolvam movimentos praxiais, que exigem maior organização cerebral e geram aprendizagem duradoura. O movimento intencional é considerado o mais significativo da vida humana, permitindo a realização de movimentos voluntários e coordenados. Todo movimento praxial é composto por cinco elementos: receptor, neurônio aferente (sensorial), processamento central (córtex cerebral), neurônio eferente (motor) e efetor (músculo). 5 AS RELAÇÕES ENTRE DISTÚRBIOS DE APRENDIZAGEM E O DESENVOLVIMENTO PSICOMOTOR 42 Conforme aponta Goretti (2007), antes de adquirir habilidades em matemática, português e outros ensinamentos formais, é essencial que o desenvolvimento psicomotor da criança seja compatível. A organização do corpo no tempo e no espaço é fundamental para que a criança consiga realizar tarefas como sentar-se em uma cadeira de forma adequada, concentrar-se, segurar um lápis com firmeza e transferir para o papel suas ideias e pensamentos. Sem uma base sólida no desenvolvimento psicomotor, a criança enfrentará dificuldades na execução dessas atividades são crucias para a aprendizagem. O suporte psicomotor é essencial para que o pensamento da criança possa ter acesso aos símbolos e à abstração necessária ao aprendizado. Dessa forma, um desenvolvimento psicomotor harmonioso é fundamental para que uma criança possa desenvolver todo o seu potencial intelectual. Além disso, é crucial que as funções do Sistema Nervoso Central e Periférico estejam íntegras e que os processos psicológicos tenham causado sem alterações para que a criança possa aprender de maneira efetiva. Esses fatores são fundamentais para o sucesso acadêmico e o pleno desenvolvimento das habilidades cognitivas e intelectuais da criança. Para que a aprendizagem seja efetiva, é necessário considerar a combinação das características do desenvolvimento neurofisiológico, que permitem o surgimento e utilização das capacidades inatas potenciais expressas no comportamento da criança (maturação). Além disso, o intercâmbio social também exerce uma influência determinante na orientação do temperamento e da personalidade. Dentre as funções essenciais da maturação, destacam-se as sensopercepções, a atenção, a memória, a imaginação, a psicomotricidade, o esquema corporal, a lateralidade, a categorização, a compreensão espacial e o ritmo. Essas funções desempenham um papel fundamental na capacidade da criança em absorver e processar informações, bem como em seu desenvolvimento global. Uma criança com transtornos psicomotores pode apresentar uma série de dificuldades e desafios em seu desenvolvimento.Isso pode incluir deficiências na formação de conceitos, percepção prejudicada, leve atraso no desenvolvimento motor, alterações no pensamento abstrato e pensamento desorganizado, baixa memória e falta de atenção. Além disso, é comum que essas crianças também tenham problemas de fala e linguagem, como atraso na linguagem, dislalia e disfemia. Elas podem demonstrar lentidão na realização de trabalhos escolares e tendem a se fatigar 43 facilmente, enfrentando dificuldades em transpor do plano vertical para o horizontal. Distúrbios de aprendizagem são frequentes nesse contexto. A instabilidade também pode se manifestar de diferentes maneiras, como hiperatividade, impulsividade, agitação ou oposicionismo. Os distúrbios de aprendizagem estão relacionados ao desempenho acadêmico das crianças, manifestando-se como dificuldades na compreensão da linguagem falada, leitura, escrita e habilidades matemáticas. Essas crianças apresentam déficits tanto na aprendizagem verbal quanto na não verbal. Além disso, é comum que elas tenham incoordenação motora, apraxias e problemas de lateralidade. As áreas prováveis de deficiência incluem a recepção e expressão, bem como a integração sensorial. Esses distúrbios interferem no processo de aprendizagem, tornando desafiadora a aquisição de habilidades acadêmicas fundamentais. A importância da estruturação espacial para o desenvolvimento da escrita é muito bem explicada por (OLIVEIRA, 1999). Segundo o autor, a escrita é uma atividade motora que requer uma estruturação espacial precisa. A criança precisa compor sinais de forma orientada e organizá-los de acordo com regras específicas. Além disso, ela deve respeitar as leis de sucessão que transformam esses sinais em palavras e frases. A escrita é, portanto, uma atividade complexa que envolve a coordenação espaço-temporal. No contexto dos distúrbios de aprendizagem, o modelo funcional de Luria (2015) é frequentemente utilizado para compreender as bases neuropsicológicas das dificuldades de aprendizado. Os distúrbios de aprendizagem podem resultar de disfunções em uma ou mais das unidades funcionais descritas pelo autor. Por exemplo, um déficit no segundo bloco funcional, responsável pela manipulação da informação, pode levar a dificuldades na leitura, na escrita e na compreensão da linguagem escrita. Esta temática será melhor explorada no item que segue. 5.1 As relações entre o cérebro e a aprendizagem segundo o Modelo Funcional de A. R. Luria Luria (2015) é amplamente reconhecida como uma pioneira nas ciências do sistema nervoso, tendo dedicado mais de 40 anos de sua vida ao estudo de pacientes com lesões respiratórias. Suas inúmeras obras sobre as relações entre o cérebro e o 44 comportamento revolucionaram o conhecimento da neurologia e da psicologia clássica, criando um novo campo científico conhecido como psiconeurologia. A autora acreditava que, ao estudar as relações entre o cérebro e o comportamento, bem como as relações entre o corpo e o cérebro, conseguiu ter uma melhor compreensão do que torna o ser humano único. Com base na concepção neuropsicológica, as funções psicológicas e seus substratos neurológicos são vistos como sistemas organizados, dinâmicos e complexos. Estudos neuropsicológicos têm proporcionado uma compreensão de que todo processo de aprendizagem é mediado pelo cérebro e suas unidades funcionais concomitantes. Os objetivos principais dos estudos de Luria (2015) estão relacionados à compreensão da estrutura interna da atividade mental, à organização dos diferentes componentes que contribuem para a estrutura final da atividade mental e à aprendizagem progressiva de competências cognitivas complexas, as quais têm uma origem sócio-histórica. Baseado nos estudos neuropsicológicos, Fonseca (1995) estabelece uma conexão importante entre o modelo neuropsicológico de Luria e um modelo de organização psicomotora. Esse modelo psicomotor considera uma organização sistêmica, resultante da interação de sete subsistemas hierarquizados. Essa abordagem facilita a compreensão dos processos evolutivos e maturacionais do desenvolvimento humano. Assim, a relação entre o modelo de Luria e o modelo psicomotor proposto por Fonseca oferece insights valiosos para a compreensão dos aspectos neuropsicológicos e psicomotores no desenvolvimento das habilidades humanas. Esses estudos confirmam a importância de uma abordagem psicomotora no contexto das dificuldades de aprendizagem. O modelo neuropsicológico das dificuldades de aprendizagem concentra-se no estudo das funções mentais envolvidas na aprendizagem simbólica, intrinsecamente relacionadas com a organização funcional do cérebro. Isso ocorre porque habilidades como leitura, escrita e cálculo exigem processos cognitivos altamente complexos. Dessa forma, a compreensão desses processos e de sua base neuropsicológica é essencial para identificar e abordar adequadamente as dificuldades de aprendizagem, oferecendo intervenções específicas e eficazes para promover o desenvolvimento cognitivo das crianças. 5.2 A organização funcional do cérebro segundo Luria 45 Conforme a perspectiva de Luria (1981), o cérebro humano é constituído por unidades funcionais básicas, cada uma delas desempenhando uma função específica e única. A autora propôs uma divisão do cérebro em três unidades funcionais distintas, conforme ilustrado na figura abaixo: Fonte: Figura construída a partir de Luria (1962). Na sequência, serão apresentadas, separadamente, as três unidades funcionais e suas respectivas funções, conforme Luria (1981): Primeira unidade funcional Dentre suas principais funções estão a regulação do tônus cortical; vigília (essencial, pré-requisito para atividade mental normal) e atividade mental. Além disso, é responsável por estabelecer conexões com o tálamo, com o córtex, com o córtex pré-frontal (formas mais complexas de atividade consciente). A formação reticular desempenha a função de ativar o córtex cerebral por meio do Sistema Ativador Reticular Ascendente (SARA). O SARA projeta-se no córtex cerebral e exerce uma ação ativa, responsável por manter e regular o estado de vigília. Nesse sentido a equilibração é considerada como parte integrante da primeira unidade funcional no modelo psiconeurológico de Luria. Ela abrange a postura e a tonicidade muscular, sendo que no desenvolvimento infantil, representa as primeiras 46 aquisições e, posteriormente, prepara e facilita os processos de aprendizagem mais complexos. As informações obtidas por meio das tarefas relacionadas à equilibração refletem, em certa medida, a integração vestibular e proprioceptiva, que são essenciais para todos os estados de vigilância, alerta e atenção. Sem esses estados, a atividade psíquica não pode funcionar adequadamente. Segunda unidade funcional Dentre suas principais funções estão receber, analisar, sintetizar e armazenar informações. Esta unidade é responsável pela lateralização: de acordo com Fonseca (1995), a lateralização desempenha um papel crucial na integração sensório-motora e na interação bilateral do corpo. Essa função está associada à especialização hemisférica, que é essencial para uma aprendizagem adequada de habilidades motoras e simbólicas (metamotoras), ou seja, psicomotoras. A lateralização adequada permite que essas aprendizagens sejam assimiladas e consolidadas de forma eficaz. O hemisfério direito é responsável por integrar e organizar as funções proprioceptivas, as quais, devido à nossa motricidade superior, são promovidas corticalmente. Por outro lado, o hemisfério esquerdo, ao se desprender da proprioceptividade, assume tarefas verbais e simbólicas mais complexas. Uma segunda função muito importante que cabe a esta unidade tem relação com a noção do corpo e estruturação espaço temporal: através das sensações que recebemos,formamos uma representação mental da forma do nosso corpo. Essas sensações incluem o tato, a temperatura e a dor da superfície do corpo. Além disso, captamos sensações provenientes dos músculos, que indicam seu estado de contração ou relaxamento. Também recebemos impressões visuais de partes do nosso corpo. Além das sensações provenientes da superfície e dos músculos, também experimentamos sensações das vísceras (intercepção). Todas essas sensações se unem em uma unidade que nos representa o corpo. Desenvolvemos um esquema ou imagem corporal, que se torna a base para todas as relações espaciais entre nosso corpo e objetos externos a ele (KEPHART, 1986). A complexidade da consciência corporal está intimamente ligada à evolução da percepção espacial. O corpo e o espaço estão intrinsecamente interligados, sendo que o corpo ocupa e é ocupado pelo espaço. A construção da imagem corporal é 47 formada a partir de dados sensoriais quinestésicos, vestibulares, visuais e táteis. A dimensão temporal tem sua origem na noção de simultaneidade, inicialmente experimentada de forma motora. À medida que a criança realiza movimentos simultâneos e posteriormente diferencia movimentos alternados, ela desenvolve o conceito de simultaneidade, estabelecendo assim a base para a compreensão da dimensão temporal e a distinção entre eventos auditivos ou visuais que ocorrem juntos e aqueles que ocorrem em sequência (KEPHART, 1986). O cérebro desempenha um papel crucial na percepção e na regulação das atividades do corpo. A noção do corpo está incorporada na segunda unidade funcional do modelo de Luria, cuja função principal é receber, analisar e armazenar informações, incluindo aquelas provenientes do próprio corpo. Essas informações são consolidadas em uma consciência estruturada e armazenadas de forma somatotópica. De acordo com a perspectiva de Luria (2015), a noção do corpo emerge a partir das projeções específicas das áreas primárias do cérebro, mas é elaborada e armazenada como uma construção gnóstica corporal. A noção do corpo desempenha um papel significativo nas relações entre diversos fatores psiconeurológicos, especialmente nas habilidades de praxia fina e praxia global, indicando que a percepção do corpo influencia as áreas pré-motoras envolvidas no planejamento e programação das ações. Seguindo essa perspectiva psiconeurológica, podemos observar a interdependência entre as áreas pré-motoras e as áreas parietais. Além disso, as relações com a tonicidade, equilibração e lateralização fortalecem o papel integrador e associativo dos lóbulos parietais com os occipitais, temporais e frontais. Em resumo, a noção do corpo representa um fator de convergência polissensorial, onde se combinam informações vestibulares, proprioceptivas, quinestésicas e visuais de forma integrada (Fonseca, 1995). Terceira unidade funcional Dentre as principais funções desta unidade estão: criar, programar (planejar), executar, regular, verificar e corrigir a atividade consciente. O ser humano é capaz de gerar intenções, elaborar planos e programas para suas ações, supervisionar sua execução, regular seu comportamento e avaliar sua atividade consciente, comparando os resultados de suas ações com suas intenções iniciais. 48 A terceira unidade é responsável pelas praxias global e fina. A praxia envolve movimentos coordenados que são executados em sequência, com o objetivo de alcançar um resultado específico ou atender a uma determinada intenção. Esses movimentos coordenados ocorrem em uma sequência espaço-temporal, guiados por uma intenção específica. Segundo Fonseca (1995), a praxia engloba tanto um aspecto motor visível quanto um aspecto perceptivo não visível, os quais se entrelaçam reciprocamente, envolvendo aquisições operacionais e figurativas. A atividade mental do ser humano, em geral, e a sua atividade consciente, em particular, ocorrem por meio da participação conjunta das três unidades funcionais fundamentais, cada uma desempenhando sua função no processo mental total e contribuindo de maneira específica para sua manifestação em termos de comportamento humano. Relações entre a aprendizagem e o Modelo Funcional de Luria Luria (1981) identificou duas propostas predominantes na Psicologia de sua época: o subjetivismo, que considerava os processos planos como separados do orgânico, e o materialismo mecanicista, que reduzia o comportamento humano a reflexos condicionados. No entanto, ele argumentou que essas abordagens negligenciavam um aspecto crucial: os fatores socioculturais. De acordo com o autor, os aspectos socioculturais exercem uma influência direta no funcionamento cognitivo superior. Ele defende que as funções psicológicas superiores têm uma base biológica, mas são as mudanças significativas ao longo do tempo devido às relações sociais em um contexto histórico e cultural. Essa visão de Luria é respaldada por Hazin et al. (2010), que afirmam que os aspectos socioculturais desempenham um papel importante no funcionamento cognitivo. Luria (2015) reconhece que as funções psicológicas superiores são sustentadas biologicamente, porém, são moldadas e transformadas pela interação com o ambiente social e pelas influências culturais. Portanto, as funções psicológicas superiores estão enraizadas em fundamentos biológicos, mas são sensíveis às dinâmicas socioculturais. Essa abordagem destaca a importância de considerar tanto os aspectos biológicos quanto os socioculturais para uma compreensão abrangente do funcionamento cognitivo humano (Hazin et al., 2010). 49 Dessa forma, torna-se compreensível que o desenvolvimento seja impulsionado pela aprendizagem, um aspecto intrinsecamente vinculado ao contexto socio-histórico em que o indivíduo está inserido. Segundo Luria (1979), as origens do surgimento da atividade consciente humana devem ser buscadas nas condições sociais e históricas da humanidade, uma vez que essa atividade não está necessariamente ligada exclusivamente à biologia humana. 6 EDUCAÇÃO E REEDUCAÇÃO PSICOMOTORA Lebouch (1987), explica que a educação psicomotora abrange todas as atividades orientadas e com objetivos definidos realizadas durante a infância, especialmente na educação infantil. De acordo com por meio da educação psicomotora, a criança aprende sobre seu próprio corpo, desenvolvendo a consciência corporal e moldando sua personalidade. Através das ações espontâneas da criança, são promovidas atividades educativas com o objetivo de auxiliar na experimentação dos movimentos e na subsequente aquisição de novas habilidades motoras, como correr, saltar, chutar, rebater, entre outras, que desempenham um papel fundamental no seu desenvolvimento. 6.1 Aplicações da educação e reeducação psicomotora A educação psicomotora é descrita por autores como Curtiss (1988) como uma ferramenta essencial para o desenvolvimento das questões afetivas da criança, proporcionando-lhe a oportunidade de expandir sua capacidade de expressar sentimentos e contribuir para a qualidade de suas interações com o mundo externo. Nesse contexto, é de extrema importância educar a criança considerando o aspecto holístico, ou seja, garantindo que o cognitivo (inteligência), a afetividade (sentimentos e emoções), o social (relações pessoais com os outros) e o motor (movimentos em geral) sejam trabalhados de forma integrada. Isso pode ser realizado por meio de atividades lúdicas realizadas em duplas ou grupos, envolvendo elementos como música, materiais alternativos (balões), espelhos e outros recursos que estimulem o desenvolvimento psicomotor de maneira prazerosa e significativa. Em ambientes escolares caracterizados por uma grande diversidade, é comum encontrar crianças com significativas alterações motoras relacionadas ao ritmo, à marcha, à coordenação e outros aspectos. Essas alterações podem ter origem50 em diversos fatores, como lesões no sistema nervoso central ou imaturidade afetiva, cognitiva ou meramente motora devido à falta de oportunidades de experimentação adequada. Nessas situações, a reeducação psicomotora pode ser uma abordagem viável, conforme descrito por Oliveira (1999). A reeducação motora busca restabelecer vivências motoras anteriores que não foram adequadamente estimuladas no momento apropriado. Assim, ela utiliza o movimento como uma forma de normalizar o comportamento geral da criança, promovendo o desenvolvimento de habilidades motoras e aprimorando sua capacidade de interação com o ambiente. Algumas crianças são, frequentemente, descritas pelos pais ou professores como desajeitadas, demonstrando pouco interesse ou habilidade em atividades esportivas, tendo dificuldades para adquirir uma marcha segura ou aprender a andar de bicicleta. Os educadores também observam aquelas que se sujam muito ao comer, têm acessos de birra ou mostram aversão à pintura, o que posteriormente pode refletir em uma caligrafia desordenada. Esses sinais podem ser indícios da presença de algum distúrbio motor, que pode envolver questões de equilíbrio, coordenação ou outros elementos que compõem a psicomotricidade. Esses distúrbios motores são manifestações corporais perturbadas por emoções que desorganizam o funcionamento adequado do corpo, afetando o esquema corporal, o tônus muscular e a imagem corporal, como apontado por Fonseca (2012). É amplamente reconhecido que a exploração motora do ambiente desempenha um papel fundamental na infância, sendo um meio privilegiado de interação. Portanto, é importante destacar que crianças que enfrentam dificuldades nessa exploração podem manifestar comprometimentos sociais e emocionais. Conforme mencionado por Oliveira (1999), há alguns sinais que podem indicar possíveis dificuldades motoras de aprendizagem. É importante ressaltar que esses sintomas podem surgir em momentos diferentes, à medida que a criança amadurece. Durante a fase pré-escolar, é possível observar os seguintes sinais: • Atraso na aquisição de marcos de desenvolvimento, como rolar, sentar-se, andar ou falar; • Dificuldade em correr, saltar, apanhar ou chutar uma bola ao nível dos pares; • Dificuldade nos conceitos espaciais, como “em cima”, “embaixo”, “à frente”, “atrás”, “dentro”, “fora”; 51 • Dificuldade em se vestir sozinho; • Dificuldade em adquirir uma pega do lápis adequada ao seu nível. Na idade escolar e nos anos seguintes, é possível identificar os seguintes sinais: • As dificuldades vividas na pré-escola se mantêm; • Evitar ou não gostar de educação física e jogos de grupo; • Dificuldade em apertar botões ou atar algum cadarço/fita; • Dificuldade acentuada em copiar do quadro; • Escrita muito laboriosa e imatura; • Caligrafia imatura. Com frequência, essa combinação de características pode gerar impactos emocionais, levando crianças a apresentarem baixa tolerância à frustração, falta de motivação, baixa autoestima e evitação de tarefas motoras. Esses sintomas são resultado do cansaço e das repetidas experiências de fracasso que fazem parte da rotina desses alunos. A identificação dessas perturbações pode ser feita pelos professores da criança, independentemente da área de atuação, e é importante encaminhá-las a um psicomotricista para receberem reeducação das estruturas instáveis. 6.2 Aspectos essenciais ao desenvolvimento psicomotor Para De Fontaine (1980), a eficácia da reeducação psicomotora baseia-se nos mecanismos que estão na origem da vida mental, do controle gestual e do pensamento, os quais regulam as reações tônico-emocionais, o equilíbrio, a fixação, a atenção e a correta apreensão do tempo e do espaço. Nesse sentido, as atividades realizadas na educação psicomotora têm como objetivo aprimorar esses aspectos mencionados, em conjunto com o treinamento da percepção, a qual é a capacidade de reconhecer e compreender os estímulos recebidos por meio de brincadeiras, atividades físicas, jogos simbólicos, interação social e até mesmo do ambiente em que a criança vive. Fonseca (1985), traz ainda que o desenvolvimento psicomotor pode ser dividido em sete aspectos básicos: 52 • Tonicidade; • Equilíbrio; • Lateralidade; • Noção corporal; • Estruturação espaço-temporal; • Praxia fina; • Praxia global. Na sequência, será exposta a definição de cada um dos itens acima citados, seguida das características apresentadas pela criança que possui dificuldades em cada aspecto, bem como as intervenções mais usadas. A tonicidade, que se refere ao tônus muscular, desempenha um papel essencial no desenvolvimento motor. É por meio dela que são garantidas as atitudes, posturas, expressões faciais e emoções, a partir das quais surgem todas as atividades motoras humanas. Quando há problemas no desenvolvimento da tonicidade, observa- se na criança uma aparente frouxidão corporal, em que sua postura não evidencia alterações significativas. No entanto, é perceptível uma sensação de cansaço e dificuldade em manter os ombros alinhados e a cabeça erguida. Nesses casos, são exploradas atividades que envolvam imitação, representações teatrais de emoções, animais, desenhos, entre outras, são empregadas para promover o desenvolvimento corporal. A utilização de música auxilia na adaptação do corpo, enquanto o uso de espelhos contribui para a orientação da funcionalidade física. O equilíbrio compreende um conjunto de habilidades estáticas (sem movimento) e dinâmicas (com movimento), englobando o controle postural e o desenvolvimento das habilidades de locomoção. As crianças que apresentam limitações no que diz respeito ao equilíbrio demonstram dificuldades na marcha de forma geral; elas colidem com outras crianças, caem com frequência e apresentam oscilação na postura. As atividades indicadas são atividades de dança, caminhar sobre uma corda, habilidades de manipulação com objetos, como controlar bolinhas de tênis em uma raquete, e deslocar-se com os olhos fechados. A lateralidade se manifesta quando o indivíduo estabelece uma preferência pelo uso de um lado do corpo, como a mão, o olho e o pé. Isso permite que ele utilize 53 um lado do corpo com maior habilidade. No entanto, a criança apresenta dificuldades em distinguir os lados do corpo. No contexto da escrita, ela utiliza as duas mãos, o que dificulta a adaptação do agarre do lápis e de outros objetos escolares. Para auxiliar no desenvolvimento da lateralidade, podem ser realizadas atividades como pintar desenhos com cores diferentes em lados distintos do corpo, ou utilizar fitas de cores diferentes amarradas nos pés ou nos pulsos, com o objetivo de sinalizar os diferentes lados do corpo. Essas práticas ajudam a criança a compreender e fortalecer a noção de lateralidade corporal. A formação da personalidade e a consciência corporal são aspectos essenciais no desenvolvimento do "eu" da criança. É por meio do esquema corporal que ela toma consciência de seu corpo e das possibilidades de expressão que ele oferece. No entanto, algumas crianças podem apresentar dificuldades em relação às partes do corpo e no uso adequado dos membros superiores e inferiores. Para auxiliar no desenvolvimento da noção de corpo e superar essas dificuldades, podem ser realizadas atividades como coreografias que sinalizem as diferentes partes do corpo, desenho do corpo, contornar o corpo dos colegas, recortar e montar corpos a partir de imagens de revistas. Essas práticas estimulam a criança a reconhecer e explorar as diferentes partes do corpo, fortalecendo o esquema corporal e promovendo uma melhor integração entre corpo e mente. A estruturação espacial é fundamental para que a criança desenvolva a consciência de sua posição e orientação no espaço, tanto em relação a si mesma quanto em relação às pessoas e objetosao seu redor. No entanto, algumas crianças podem apresentar dificuldades em compreender noções como antes e depois, confundir comandos espaciais como "ao lado", "acima" ou "abaixo". Para auxiliar na estruturação espacial e superar essas dificuldades, podem ser utilizadas estratégias como o uso de espelhos para o reconhecimento do espaço, treino de habilidades com os olhos vendados e a realização de atividades em espaços variados, como reduzir ou aumentar o tamanho das áreas de jogo ou dança. Essas práticas proporcionam à criança experiências sensoriais e perceptivas que ajudam a desenvolver sua percepção espacial, facilitando a compreensão e a orientação no espaço. A praxia fina abrange as habilidades motoras finas e está relacionada à coordenação dos movimentos dos olhos, à manipulação de objetos que exigem controle visual e às atividades de apreensão e manipulação mais delicadas e 54 complexas. No entanto, algumas crianças podem apresentar dificuldades nessas habilidades, como pintar fora dos limites dos desenhos ou ter dificuldade em escrever com o tamanho adequado e respeitando as linhas do caderno. Para auxiliar no desenvolvimento da praxia fina, podem ser realizadas atividades que envolvam a pinça, como pegar objetos pequenos ou encaixar pinos, além de atividades de dobradura. O treino da escrita também pode ser realizado utilizando canetas e lápis de formas distintas, o que ajuda a aprimorar a coordenação e o controle dos movimentos finos. Essas atividades proporcionam estímulos sensoriais e motoros que contribuem para o desenvolvimento da praxia fina da criança. A praxia é a capacidade de realizar movimentos voluntários preestabelecidos para atingir um objetivo. A praxia global refere-se à execução e automação de movimentos globais complexos, que envolvem a coordenação de vários grupos musculares em um tempo determinado. Algumas crianças podem apresentar dificuldades em combinar elementos motores, como correr e receber um objeto ou saltar obstáculos. Isso pode causar frustração e levá-las a evitar atividades em grupo, devido à dificuldade de adequar suas ações às dos demais participantes. Para ajudar no desenvolvimento da praxia global, é possível realizar treinos de habilidades separadas, visando a posterior união dessas habilidades. Brincadeiras em circuitos e desafios que envolvam saltar, rolar e engatinhar podem ser realizados, relembrando marcos do desenvolvimento infantil anteriores aos dois primeiros anos de idade. Essas atividades contribuem para o aprimoramento da coordenação motora global e estimulam a capacidade de combinar diferentes movimentos. Devido a esses aspectos desempenharem um papel fundamental no desenvolvimento, Fonseca (1985) desenvolveu uma bateria psicomotora (BPM) composta por uma série de testes que permitem avaliar esses fatores e, assim, orientar o processo de reeducação psicomotora quando necessário. 6.3A função do psicomotricista na educação e na reeducação psicomotora O psicomotricista, como profissional que atua na área da educação e reeducação motora, desempenha um papel mediador entre o movimento e as descobertas individuais do aluno em relação ao seu corpo e sua própria identidade. Essa atuação envolve um processo de repetição disciplinada, em que o foco está na busca por acertos, sem que os erros sejam encarados como uma negativa, mas sim 55 como oportunidades de aprendizado. Através da percepção dos erros, o psicomotricista é capaz de adaptar as situações e desenvolver estratégias que facilitem a aquisição motora dos alunos. O objetivo é permitir que eles avancem em direção a novas conquistas, que sejam mais complexas do que as anteriores. • O educador que identifica um aluno com alguma perturbação motora pode notar que, em algumas situações, as características individuais desse aluno podem dificultar a tradução dos esforços em resultados efetivos. Fonseca (2012), traz estratégias que têm como finalidade auxiliar o progresso desse aluno sem que suas dificuldades o prejudiquem, as quais são apresentadas a seguir tendo como principal objetivo, promover seu avanço • Ofereça ao aluno mais tempo para realizar atividades que demandem um maior nível de habilidade motora, como pintar, escrever e desenhar. • Opte por utilizar papel pautado ou quadriculado, pois isso pode facilitar a percepção do aluno. • Estimule o aluno a adotar uma postura adequada durante a escrita. • Se a atividade requerer uma velocidade muito alta, reduza o conteúdo da tarefa. • Permita o uso do computador como uma opção viável. • Ofereça recursos de suporte para segurar o instrumento de escrita, como diferentes tipos de lápis e canetas com auxiliares de pega. • Promova a utilização de métodos alternativos de avaliação, como a realização de apresentações orais, para permitir que o aluno demonstre seus conhecimentos de forma diferente da escrita tradicional. • Evite fazer comparações entre os alunos, pois cada um tem seu próprio ritmo e habilidades. Foque no progresso individual de cada aluno e valorize suas conquistas sem compará-los uns aos outros. • Valorize o esforço e a dedicação dos alunos, em vez de focar apenas em suas habilidades. Elogie o esforço e persistiu demonstrados em suas tarefas, enfatizando a importância do processo de aprendizagem e do crescimento pessoal. Reconheça o trabalho árduo e o comprometimento, incentivando os alunos a se esforçarem e superarem desafios, independentemente do resultado final. • Estimule os alunos a se desafiarem e competirem consigo mesmos, em vez de 56 focarem na comparação com os outros. Incentive-os a estabelecer metas pessoais e se superarem individualmente. Destaque a importância do progresso pessoal e do desenvolvimento contínuo, encorajando-os a buscar a melhoria em relação às suas próprias conquistas anteriores. Promova um ambiente de colaboração e apoio mútuo, onde cada aluno se sinta motivado a alcançar seu próprio potencial, sem se preocupar com a competição externa. • Valorizar a participação dos alunos como um aspecto fundamental, dando-lhes maior importância do que a competição. Ao fornecer um feedback corretivo, procure ser direto, sucinto e positivo em suas informações. Utilize frases como "Levante a cabeça" ou "Agarre a bola com os dedos afastados" para transmitir orientações específicas aos alunos. Mantenha o foco nas ações que devem ser ajustadas, destacando os aspectos positivos do desempenho atual e fornecendo instruções claras sobre como melhorar. Dessa forma, você estará ajudando os alunos a compreenderem o que precisa ser corrigido de maneira construtiva e encorajadora. Se for necessário, adapte os materiais utilizados, como o uso de bolas mais leves ou feitas de diferentes materiais. Essas modificações podem ajudar a facilitar a participação e o engajamento dos alunos, especialmente aqueles com dificuldades motoras. Ao oferecer opções de materiais mais adequados, você estará proporcionando uma experiência mais acessível e inclusiva, permitindo que os alunos participem das atividades de forma mais confortável e com maior probabilidade de sucesso. O psicomotricista é um profissional que desempenha um papel fundamental na interseção entre saúde, educação e cultura. Sua atuação consiste em avaliar, prevenir, cuidar e pesquisar o indivíduo em sua relação com o ambiente, além de analisar os processos de desenvolvimento. O objetivo central dessa função é trabalhar nas dimensões do esquema e da imagem corporal, considerando o movimento, a afetividade e a cognição. Para alcançar esse objetivo, o psicomotricista utiliza uma variedade de medidas para avaliar, planejar e acompanhar o desenvolvimento psicomotor de seus alunos ou pacientes. Essa abordagem visa promover o crescimento saudável e harmonioso, levando em consideração as interações complexas entre o corpo, a mente e o ambiente.57 7 A IMPORTÂNCIA DA GINÁSTICA PARA O DESENVOLVIMENTO PSICOMOTOR Ao longo dos séculos, a ginástica evoluiu consideravelmente, adaptando-se às diferentes necessidades e contextos sociais. Desde a antiguidade até os dias atuais, essa prática corporal passou por transformações em suas características, métodos de execução e propósitos. Atualmente, a ginástica desempenha um papel significativo no desenvolvimento das crianças e adolescentes, oferecendo-lhes a oportunidade de adquirir habilidades motoras, estruturas físicas e qualidades essenciais. Além disso, a prática da ginástica proporciona aos alunos a capacidade de controlar seus corpos em uma variedade de situações locomotoras, desenvolvendo assim a coordenação, o equilíbrio, a flexibilidade e a resistência. Essa abordagem abrangente da ginástica contribui de forma significativa para o crescimento e aprimoramento dos jovens em termos físicos e motores. 7.1A ginástica e o desenvolvimento psicomotor de crianças e adolescentes Na infância, a motricidade, o desenvolvimento cognitivo e o afetivo estão intrinsecamente interligados, formando uma relação complexa que influencia o desenvolvimento psicomotor como um todo. É nesse contexto que a educação psicomotora desempenha um papel fundamental, agindo de forma preventiva e proativa em relação a possíveis dificuldades que possam surgir no processo de aprendizagem escolar. Além disso, a educação psicomotora também desempenha um papel importante na reeducação futura, buscando corrigir e aprimorar habilidades motoras e cognitivas. Dessa forma, ao investir na educação psicomotora, é possível promover um desenvolvimento mais harmonioso e completo das crianças, contribuindo para o seu crescimento acadêmico e emocional (RAMOS, 2007). Além de proporcionar diversão e satisfação, a prática da ginástica também desempenha um papel significativo no desenvolvimento da criatividade, ludicidade e participação dos praticantes. Ayoub (2013) destaca que a ginástica estimula os alunos a interpretar as atividades de diversas maneiras, buscando novos significados e possibilidades de expressão. Ao se engajar nessa modalidade, os indivíduos têm a oportunidade de adquirir habilidades motoras variadas e expandir seu repertório motor 58 de forma lúdica. Nesse sentido, a ginástica vai além da técnica dos movimentos, valorizando o prazer pela atividade, o respeito às características individuais e a promoção da interação social. Essa abordagem holística da ginástica contribui para o desenvolvimento integral dos praticantes, tanto em termos físicos quanto emocionais. O desenvolvimento motor promovido pela ginástica está fundamentado em critérios neurobiológicos do desenvolvimento ontogênico, seguindo uma progressão desde gestos globais até movimentos refinados e intencionais, assim como ocorre no desenvolvimento motor do recém-nascido. Durante a aprendizagem motora na ginástica, a criança evolui por meio de atividades que podem ser fundamentadas em atividades reflexas do neonato. De Marco (2010) denomina essa fase da infância (0 a 6 anos) como "fase da estimulação motora", caracterizada pela execução de movimentos abertos e com pouca ênfase na qualidade do movimento em si. O foco está na experiência motora em si, não havendo julgamento de valor ou certo/errado, pois o objetivo principal é permitir que a criança realize e desenvolva ações motoras, valorizando o processo e não o resultado. Nessa fase, cada criança demonstra o seu próprio potencial e não deve haver modelos ou comparações. A ginástica desempenha um papel relevante no desenvolvimento psicológico infantil, influenciando a segurança e autoestima das crianças. A diferença entre as várias personalidades e estruturas psicológicas das crianças pode ser atribuída, em parte, à forma como lidam com o medo do movimento e sua autodeterminação. O período dos primeiros seis anos de vida é crucial para a formação da personalidade da criança, e esse processo é influenciado pelas relações sociais que estabelece com a família e o ambiente escolar. Atualmente, a escola desempenha um papel significativo ao lado do núcleo familiar, pois muitas crianças iniciam sua jornada escolar em idades cada vez mais precoces. Portanto, é importante reconhecer a influência da escola e da educação infantil na formação psicológica das crianças (Ayoub, 2013). A introdução de modalidades esportivas para as crianças a partir dos 5 ou 6 anos enfatiza a importância do papel dos profissionais que trabalham nesse segmento. É fundamental analisar a relevância da ginástica como reprodução das situações sociais que a criança vivencia, como questões de cooperação e competição. A sociedade impõe relações de conquistas e derrotas, o que evidencia a influência que os primeiros 6 anos de vida têm no comportamento futuro da criança. De fato, um 59 erro, uma indecisão ou o medo do fracasso na vida adulta podem ser resultado das relações sociais vividas na infância. Portanto, é crucial que o profissional responsável esteja atento ao papel da ginástica na formação psicológica das crianças (AYOUB, 2013). O período seguinte de desenvolvimento motor é caracterizado por avanços significativos e um rápido progresso. Conforme descrito por Gallahue (2001), nessa fase, as crianças encontram-se na fase motora especializada, em que já dominaram os movimentos fundamentais, como caminhar e agarrar objetos, permitindo-lhes envolver-se em atividades desafiadoras. É comum observar esse comportamento na vida escolar e nas brincadeiras com colegas, vizinhos e familiares, onde as crianças constantemente buscam provar algo e criam contextos competitivos. Nessa fase, elas demonstram curiosidade e estão sempre em busca de novas experiências, desenvolvendo habilidades de correr riscos. De acordo com a análise de Gallahue (2001), o desenvolvimento infantil nos primeiros sete anos de vida passa por três etapas principais: 1. fase motora reflexiva, presente no primeiro ano de idade; 2. fase motora rudimentar, característica dos 12 aos 24 meses; 3. fase motora fundamental, subdividida em três etapas: estágio inicial, dos 2 aos 3 anos; estágio elementar, dos 4 aos 5 anos; e estágio maduro, dos 6 aos 7 anos. De Marco (2010) também categoriza o desenvolvimento motor nessa faixa etária em três etapas, embora com uma classificação diferente. A primeira fase é denominada de aprendizagem motora, na qual a criança está inserida em um sistema parcialmente aberto, pois os movimentos que ela deve executar seguem um plano motor parcialmente determinado pelo instrutor. Em seguida, ao entrar na fase da prática motora, ocorre uma mudança conceitual. O sistema, que antes era totalmente aberto na fase de estimulação e parcialmente aberto na fase de aprendizagem, passa a ser experienciado como parcialmente fechado na fase da prática. Nessa nova realidade, o plano motor subjacente aos movimentos é estabelecido. Assim, a automatização dos movimentos torna-se o elemento mais distintivo dessa fase, pois tudo aquilo que foi aprendido de forma consciente pela criança pode ser executado de maneira subconsciente. Por fim, a fase da especialização motora é 60 caracterizada como totalmente fechada e destinada a poucos indivíduos. O que ocorre nas etapas anteriores é uma espécie de seleção natural, e os adolescentes que superaram com êxito tiveram a apresentação de diferenciação biológica, ou seja, recursos que os predispõem a uma especialização esportiva avançada (DE MARCO, 2010). Durante uma fase de aprendizagem motora, em que os movimentos corporais ainda possuem um componente reflexo, inicia-se o processo de transmissão de impulsos nervosos para o córtex cerebral, mais especificamente para o giro pós- central, também conhecido como área sinestésica. Essa área, juntamente com o giro supramarginal, desempenha um papel fundamentalna formação da nossa identidade corporal, ou esquema corporal, de acordo com a neurologia (RAMOS, 2007). Essa evolução ontogenética é complementada pela formação do psiquismo da criança, desenvolvida em sua consciência corporal. Portanto, durante os primeiros seis anos de vida, é importante que as práticas esportivas sejam descomprometidas, lúdicas e educativas, permitindo que cada criança exerça seus direitos de infância. Os movimentos devem ser simples, servindo como pretextos para jogos e brincadeiras. Posteriormente, pode-se progredir gradualmente para a combinação desses movimentos básicos com o aumento da complexidade das tarefas motoras, chegando à adolescência, por volta dos 12 ou 14 anos. Nesse estágio, podem ser iniciados programas de especialização esportiva, levando em consideração as concepções que clubes, diretores, técnicos e até mesmo os pais consideram como o "ideal esportivo" (DE MARCO, 2010). Assim, é fundamental cuidar da voz e, principalmente, da qualidade dos movimentos felizes ao longo de todo esse período de desenvolvimento motor na infância e na adolescência. Nesse estágio, podem ser iniciados programas de especialização esportiva, levando em consideração as concepções que clubes, diretores, técnicos e até mesmo os pais consideram como o "ideal esportivo" (DE MARCO, 2010). 7.2 Elementos psicomotores desenvolvidos pela ginástica À medida que a criança cresce e se desenvolve, ela vai gradualmente descobrindo e explorando as possibilidades de ação que seu corpo oferece por meio 61 dos estímulos que recebe. Ao se envolver nesse vasto universo de movimentos, a criança desenvolve sua capacidade cerebral. Cada descoberta das funções corporais próprias tem um impacto significativo na progressão do desenvolvimento motor. Os movimentos ginásticos realizados de forma natural, como andar, correr, saltar, equilibrar-se, trepar, rolar, girar e outros, são habilidades que podem ser educadas. Esse processo envolve a conquista gradual de movimentos específicos, que devem ser cuidadosamente estimulados para promover o desenvolvimento motor adequado. Cada criança possui características individuais, limitações e ritmo próprio de desenvolvimento. Segundo Le Boulch (1987), a educação pelo movimento é a base fundamental para o desenvolvimento das habilidades motoras, como andar, correr, saltar, subir, descer, empurrar, equilibrar-se, puxar, balançar e arremessar. Além disso, essa abordagem visa também o desenvolvimento da capacidade física, como agilidade, destreza, velocidade, bem como das qualidades físicas, como força, resistência muscular localizada, resistência aeróbica e anaeróbica. Esses estímulos recebidos durante a prática da ginástica também promovem o desenvolvimento de aspectos afetivos, cognitivos e sociais, juntamente com os aspectos motores. É importante proporcionar oportunidades para que crianças de até 5 ou 6 anos possam desfrutar de um desenvolvimento satisfatório em um ambiente adequado, onde possam explorar seus movimentos e desenvolver suas habilidades motoras. Durante esse período de aprendizagem, é recomendado que a criança participe de diversas atividades que enriqueçam suas capacidades intelectuais. Se sua base motora for desenvolvida de forma satisfatória, é provável que ela tenha uma sequência de sucessos ao longo da vida. Na ginástica, é indicado que, inicialmente, sejam realizados exercícios lúdicos voltados para crianças de 3 a 6 anos. Posteriormente, pode-se buscar reforçar fatores como força muscular, flexibilidade articular, velocidade, resistência e tolerância, além de aprimorar as soluções posturais e gestuais (GARANHANI, 2010a). O livro Metodologia de ensino da Educação Física, escrito por um Coletivo de Autores (2012), traz que a ginástica possui fundamentos essenciais que são: pular, equilibrar-se, rolar/girar, balançar/embalar e trepar. Esses fundamentos representam diferentes ações motoras realizadas durante a prática da ginástica. Saltar envolve a capacidade de se desprender da ação da gravidade, permanecer no ar por um período de tempo e cair sem se machucar. Equilibrar-se consiste em manter-se ou deslocar- 62 se ao longo de uma superfície limitada, superando a força da gravidade. Girar e girar são movimentos em que o corpo realiza voltas em torno de seu próprio eixo. Balançar ou embalar implica suportar o corpo em um movimento de vai e vem. Já trepar refere- se à habilidade de suspender o corpo pelos braços, com ou sem o auxílio das pernas, em superfícies horizontais ou inclinadas (GARANHANI, 2010a). A prática da ginástica atende às necessidades de movimento das crianças e adolescentes, proporcionando uma melhoria na análise gestual e permitindo um melhor domínio do corpo. A ginástica estabelece uma relação entre o aluno e seu próprio corpo, permitindo que ele descubra diferentes segmentos corporais, explore as articulações e execute os movimentos de forma mais eficiente. Essa prática promove uma conscientização geral sobre o corpo, os deslocamentos e o espaço, levando em consideração distâncias, intervalos, direções e sentidos que são sentidos e controlados durante a atividade (GAIO; GOIS; BATISTA, 2010). A experiência física desempenha um papel fundamental no desenvolvimento infantil, e é por isso que essa experiência deve ser diversificada (LE BOULCH, 1987). A ginástica é uma das atividades essenciais para possibilitar essa diversificação, pois tem como base a conquista do conhecimento motor, sensorial e intelectual, além de contribuir para a formação da personalidade da criança e do adolescente. É importante ressaltar que cada criança e adolescente possui um ritmo de desenvolvimento único e evolui de maneiras diferentes. Portanto, a abordagem pedagógica não pode ser padronizada e definitiva, mas sim adaptada às necessidades individuais de cada aluno. 7.3 Ginástica como conteúdo da educação física escolar Dentro do contexto escolar, a ginástica tem o objetivo de permitir que o aluno reconstrua, a partir de suas próprias ideias, as formas históricas de movimentos gímnicos (ginástica), proporcionando benefícios não apenas físicos, mas também psicológicos e sociais (AYOUB, 2013). Garanhani (2010) destaca que a ginástica deve ser apresentada de maneiras diversas, tanto com o uso de materiais como sem eles. Dessa forma, os alunos terão a oportunidade de desenvolver um conhecimento e cuidado com seus corpos por meio da prática de atividades físicas, experimentação e apreciação de apresentações artísticas. É importante que essas abordagens considerem o tempo de aprendizado dos alunos e dos professores, reconhecendo que 63 cada indivíduo tem seu próprio modo singular de compreender e executar determinado movimento gímnico. A ginástica desempenha um papel fundamental nas aulas de Educação Física, pois proporciona uma série de benefícios aos alunos, contribuindo para seu desenvolvimento em diversos aspectos e auxiliando na formação de seu caráter e personalidade por meio da aprendizagem de habilidades motoras (DE MARCO; MELO, 2002). Aprender ginástica na escola implica em estudar, vivenciar, conhecer, compreender, perceber, confrontar, interpretar, problematizar, compartilhar e assimilar as múltiplas interpretações dessa modalidade, permitindo a criação de novos significados e possibilidades de expressão gímnica (AYOUB, 2013). Dessa forma, as aulas de Educação Física devem adotar uma abordagem ampla e interdisciplinar, que estimule a criatividade e a capacidade de organização, promovendo o comportamento e o desenvolvimento humano. A ginástica, nesse contexto, abrange exercícios que são benéficos para os estímulos nos domínios cognitivo, afetivo e psicomotor (AYOUB, 2013). Essa modalidade é considerada um tema importante nos Parâmetros Curriculares Nacionais (1997), pois auxilia no desenvolvimento do equilíbrio, resistência,flexibilidade, força e outras variáveis. Além disso, devido ao seu caráter desafiador e que ultrapassa os limites corporais, a ginástica deveria ser amplamente incorporada nas etapas finais da Educação Infantil e nas séries iniciais do Ensino Fundamental. É importante desenvolver experiências por meio de atividades progressivas na ginástica, que permitam combinações variadas de movimentos. Considerando que o processo de aprendizagem pode ser gradual, é necessário um enfoque investigativo como base, que promova a organização cognitiva e perceptiva da criança. Além disso, é relevante destacar que a ginástica engloba não apenas o desenvolvimento motor, mas também uma formação humana mais ampla. Isso ocorre por meio da utilização de diversos materiais e abordagens, da incorporação de regras oficiais e competitivas, da exploração de ritmos e expressividade, da percepção da tensão e relaxamento muscular, da consciência da respiração, e do trabalho com a diversidade sociocultural (BREGOLATO, 2002). O conhecimento e a prática da ginástica no contexto da educação física escolar têm o potencial de desenvolver no aluno diversas habilidades e competências (GARANHANI, 2010), tais como: 64 • O hábito de praticar movimentos e cuidar do corpo; • O reconhecimento de critérios para selecionar atividades físicas; • O domínio de movimentos para participar de atividades artísticas, esportivas e físico-recreativas; • O conhecimento de movimentos corporais para reconhecer e apreciar manifestações culturais que envolvam a movimentação do corpo. 8 A PSICOMOTRICIDADE RELACIONAL Antes de aprofundarmos nas colocações a respeito da Psicomotricidade Relacional em si, tema central deste módulo, teceremos algumas considerações importantes sobre suas relações com a Psicomotricidade Clássica, com o objetivo de situar o leitor, estabelecendo distinções importantes para o tema central aqui abordado. 8.1 Algumas considerações importantes sobre as vertentes da psicomotricidade Vieira (2005) explica que atualmente, a psicomotricidade se apresenta e atua por meio de duas correntes distintas: a psicomotricidade funcional ou clássica, e a psicomotricidade relacional. A primeira tem como foco principal o perfil psicomotor do indivíduo, concentrando-se na prescrição de exercícios funcionais que compõem as "famílias de exercícios". Nessa abordagem, não é dada ênfase à expressão de conteúdos simbólicos por meio da motricidade. Já a psicomotricidade relacional utiliza o ato de brincar como um elemento motivador para incentivar e facilitar a expressão de conteúdos psicoafetivos através do corpo e dos movimentos. Acredita-se que o ato de criar, brincar, idealizar e interpretar estimula o desenvolvimento e a aprendizagem, tornando-se, assim, um elemento pedagógico de grande importância. Ambas abordagens seguem uma trajetória semelhante até a fase da reeducação psicomotora. No entanto, surgem divergências quanto ao enfoque adotado. A psicomotricidade funcional baseia-se em uma abordagem mais motora, com fundamentos neuroanatômicos, enquanto a psicomotricidade relacional busca sua base na psicanálise, focando nas relações interpessoais. Além disso, a postura 65 da criança e do terapeuta, assim como a inclusão do jogo e do brincar livre e espontâneo como elementos pedagógicos e terapêuticos, destacam as diferenças entre a psicomotricidade funcional e a relacional. Dentro do contexto educacional estabelecido, existem abordagens distintas para a Psicomotricidade. A Psicomotricidade Clássica se ajusta aos pressupostos educacionais, buscando organizar as experiências corporais por meio de uma programação mais pedagógica. Nesse sentido, há uma tendência de envolvimento com a racionalização e intelectualização do corpo. Por outro lado, a Psicomotricidade Relacional encontra resistência no meio educacional, pois não se limita apenas às questões pedagógicas de ensino, mas abrange a educação em seu sentido mais amplo. A atuação preventiva diante de conflitos inconscientes e outros fatores de risco é enfatizada, com o objetivo de promover um desenvolvimento saudável e equilibrado do indivíduo, contribuindo para a formação de uma personalidade mais estável. Há diferenças substanciais que delimitam e definem a psicomotricidade funcional e a relacional, dentro de um mesmo viés temático que é a psicomotricidade. O (Quadro 1) a seguir expõe as principais características de cada área: Quadro 1 – Características da psicomotricidade Funcional X Relacional A psicomotricidade FUNCIONAL: A psicomotricidade RELACIONAL: A criança reproduz o comportamento do professor como um modelo a ser imitado. A criança tem múltiplos modelos. A criança não tem autonomia na escolha das atividades em que se engaja; A criança tem a liberdade de brincar livremente. A criança é totalmente dependente dos cuidados e suporte dos adultos; A criança desenvolve maior independência. O contato corporal entre as crianças é pouco frequente; Existe interação corporal entre o psicomotricista e as crianças, assim como entre as próprias crianças. A criança é considerada como um ser integral; O foco é dualista, com ênfase nos aspectos motores. O paradigma é racionalista; O paradigma é centrado na abordagem naturalista, com ênfase no prazer do movimento. O psicomotricista é responsável pela direção das atividades. O psicomotricista ajuda, compreende, interage, sugere, propõe e estimula a prática psicomotriz; O psicomotricista atua de forma autônoma. O psicomotricista pode colaborar e atuar em conjunto com a professora da classe. 66 O psicomotricista assume uma postura de liderança; O psicomotricista adota uma postura de escuta ativa. As atividades são previamente planejadas pelo psicomotricista; A criança tem autonomia para tomar decisões sobre o que fazer; as atividades são de livre escolha; As atividades são orientadas e conduzidas pelo psicomotricista. A verbalização desempenha um papel fundamental no processo pedagógico, sendo uma das principais ferramentas de comunicação e expressão utilizadas; Fonte: Adaptado de Vieira (2005). A formação pessoal do adulto é um requisito essencial para estabelecer uma competência relacional efetiva com a criança. É possível perceber que há diferenças importantes no que diz respeito à visão do problema, bem como à forma de tratamento e o papel do profissional atuante, que distinguem as duas áreas acima citadas. Na sequência, será abordada, especificamente, a psicomotricidade relacional, tema central deste módulo. 8.2 A Psicomotricidade Relacional Lapierre; Lapierre (2002) trazem que ao introduzir o termo e a concepção de psicomotricidade, Dupré ressalta a correlação entre o desenvolvimento motor e intelectual, destacando a relação paralela existente entre esses dois aspectos. Por meio de seus estudos sobre as noções do corpo maternal e do esquema corporal, Schilder estabelece uma conexão entre as percepções corporais e a organização espaço-temporal, evidenciando a inter-relação existente entre esses elementos. Ajuriaguerra, em seus estudos sobre o tônus, ressalta a estreita relação entre o tônus e a afetividade. Wallon, na teoria do ato ao pensamento, defende que a atividade motora é considerada a base do desenvolvimento intelectual e psicológico, sendo reconhecida como um elemento fundamental que impulsiona e influencia o crescimento das capacidades cognitivas e emocionais. Piaget, na epistemologia genética, coloca o corpo, a atividade motora e a exploração sensório-motora e perceptivo-motora como as primeiras e essenciais bases da inteligência. Esses estudiosos destacam a importância da psicomotricidade como um campo de estudo multidisciplinar que considera a interação entre corpo, mente, afetividade e ambiente no desenvolvimento humano. 67 Considerando os pré-requisitosdo mundo e dele participa, expressando suas vontades, necessidades e sensações, mostrando que a vida emotiva e a vida fisiológica estão conectadas. Ao longo da história, a multiplicidade de significados que o corpo recebe conforme a maneira como uma determinada cultura o simboliza em uma determinada época passou e ainda passa por inúmeras transformações, uma vez que o conceito estabelece relação com diversas áreas e não está fechado, mas em constante modificação. Massumi (2005), lembra que, para Aristóteles, grande filósofo da Grécia antiga, o corpo é matéria moldada pela alma, sendo ela que o põe em movimento, sendo ela a forma do corpo. A partir desse pensamento, foi enunciado um primórdio de Ensino, Saúde e Ambiente, quando analisou a função da ginástica para melhorar o desenvolvimento do espírito. Para o filósofo, o homem era constituído de uma parte física (corpo) e uma parte subjetiva (alma) e a ginástica servia para “dar graça, vigor e educar o corpo” e devia ser desenvolvida até o período da adolescência com exercícios leves, que não cansassem muito para não prejudicar o desenvolvimento do espírito. A partir dessa consciência, é dada à ginástica uma significação de movimento ligado a questões subjetivas, que possui uma função muito maior e mais abrangente do que o simples 7 movimentar do corpo. O desenvolvimento dessa consciência começa a formar terreno para o surgimento do termo psicomotricidade do modo como é atualmente conhecido. 1.2 A psicomotricidade Fonseca (1988) traz que a expressão "Psicomotricidade" surgiu pela primeira vez no âmbito médico, mais especificamente na área da neurologia, com o neurologista francês Ernest Dupré (1862-1921) como pioneiro. Dupré observou a presença de disfunções corporais significativas, sem lesões cerebrais relacionadas a elas. Esse fato levou ao reconhecimento da importância das interações entre os aspectos psicológicos e motores na compreensão do funcionamento humano. A manifestação de distúrbio na atividade gestual e práxica (referente a ação) não pode mais ser explicada de forma única pela dinâmica entre sintomas e lesões focais estabelecidas pelo esquema anátomo-clínico. Isso gerou a necessidade de novos estudos que abordassem a problemática sob uma nova perspectiva, a fim de encontrar explicações para os fenômenos clínicos que antes não podiam ser compreendidos. Nesse contexto, surgiu, então, a palavra “Psicomotricidade”, em 1870, sendo formada pela combinação das palavras gregas "psyqué", que se referem à alma ou mente, e do verbo latino "moto", que indica movimento frequente ou intenso. Essa origem etimológica ressalta a estreita relação entre o movimento corporal e os processos mentais. Assim, a psicomotricidade se refere ao estudo e intervenção nos aspectos psicológicos e motores do ser humano, buscando compreender e promover a integração entre corpo e mente. A prática da psicomotricidade iniciou-se em 1935, com Eduard Guilmain, que desenvolveu protocolos de exame para identificar e diagnosticar transtornos psicomotores. Antes mesmo do reconhecimento da psicomotricidade como ciência, essa abordagem lançou um novo olhar sobre o tema, considerando a integralidade do indivíduo e suas limitações e necessidades. Dessa forma, passou-se a trabalhar de forma abrangente os aspectos físicos, cognitivos e afetivos. Existem numerosos estudos que tendem a reduzir a psicomotricidade ao estudo do corpo e do movimento. No entanto, essa visão é bastante limitada, uma vez que a psicomotricidade abrange não apenas os aspectos físicos, mas também as contribuições mentais e comportamentais. É fundamental compreender que a psicomotricidade envolve uma interação complexa entre corpo, mente e comportamento. 8 Portanto, é possível observar que a psicomotricidade, como seu próprio nome indica, busca estabelecer uma relação entre elementos aparentemente desconexos, mas que fazem parte de uma mesma evolução: o desenvolvimento psíquico e motor. Essa abordagem parte de uma concepção de desenvolvimento que considera a interação entre a segurança neuromotora e as capacidades psíquicas do indivíduo, reconhecendo que esses dois aspectos não são formas separadas, mas sim um processo integrado (NÚNEZ apud COSTALLAT, 2002). O movimento é um componente intrínseco do comportamento humano. No entanto, segundo a pesquisa conduzida por Santos e Cavalari (2010), é essencial contar com profissionais capacitados e conscientes da importância da psicomotricidade como uma ciência que engloba todas as ações realizadas pelo indivíduo. Essas ações podem representar suas necessidades e facilitar suas sensações interpessoais, garantindo assim um desenvolvimento integral. A psicomotricidade foi influenciada pelo dualismo cartesiano, que compreende o homem como um ser fragmentado em razão da dicotomia entre corpo e mente. Para o filósofo francês René Descartes (1596-1650), o corpo era dissociado do pensamento, pois a mente não participaria dos aspectos que envolviam o corpo. Com o passar do tempo, profissionais de outras áreas interessaram-se pela psicomotricidade, como psicólogos, pedagogos e, mais tarde, professores de educação física. Estes últimos se preocuparam em deixar sua prática menos mecanicista, tornando-a relacional e centrada nas necessidades e nas motivações que seus alunos apresentavam. Segundo Le Camus (1986), em meados de 1970, alguns estudiosos começaram a conceituar a psicomotricidade como uma “motricidade em relação”. Essa perspectiva fez com que o corpo fosse entendido em sua totalidade. Mente e corpo, finalmente, foram considerados inseparáveis. Houve a compreensão de que os aspectos físico e psíquico deveriam ser trabalhados em conjunto. Segundo Levin (2000), sob influência dos estudos franceses relativos à psicomotricidade, na década de 1970, a caracterização da psicomotricidade modificou-se, passando de clínica a educativa. Nessa época, na França, foram realizados trabalhos em hospitais e clínicas sob a influência de estudos de Julian de Ajuriaguerra (1911-1993). 9 Segundo Fonseca (1988), Henry Wallon (1879-1962), médico, psicólogo e pedagogo, provavelmente, considerado um grande pioneiro da psicomotricidade, vista como campo científico, forneceu observações que marcaram, de forma decisiva, o desenvolvimento neurológico do recém-nascido e da evolução psicomotora da criança. Wallon realizou um estudo de extrema importância no campo científico, no qual abordou os aspectos psicofisiológicos da vida afetiva e a consciência corporal. Sua obra possibilitou a construção de uma nova técnica terapêutica, cujo objetivo era a reeducação das funções motoras. Em sua origem, a área esteve relacionada a uma forte concepção biomédica. Isso se deve ao fato de que, quando pensamos em motricidade humana, tratamos também de processos de maturação. Portanto, existiu, durante muito tempo, a concepção de que a motricidade estaria vinculada a um mesmo padrão de maturação para todos. A partir daí, foram criados diversos testes padronizadores que pretendiam medir a maturação das capacidades e das habilidades dos sujeitos. Na história da psicomotricidade, são encontrados nomes importantes que reafirmaram a vinculação entre essa ciência e o pensamento biomédico. Dupré, um renomado pesquisador no campo da neuropsiquiatria infantil, desempenhou um papel significativo na influência da psicomotricidade. Além dele, outros importantes autores, como Wallon, Piaget e Guilmain, também deixaram suas contribuições marcantes nessa área de estudo. O trabalho de Oliveira (2004), por exemplo, lembra que Piaget (1896-1980) foi um dos autores que mais extensivamente investigou as inter-relações entre psicomotricidade e cognição por meio de extensos experimentos. Segundo o autor, a fase sensório-motora e o aprimoramento das habilidades motoras desempenham um papel fundamentalteórico-científicos que envolvem o surgimento do termo psicomotricidade, a Psicomotricidade Relacional se caracteriza por reconhecer e promover o diálogo entre o corpo e os aspectos psíquicos do ser humano, com foco na compreensão e na atividade dos núcleos psicoafetivos e nos desafios interpessoais relacionais que deles derivam. Ela oferece um espaço de jogo espontâneo que incentiva e facilita o indivíduo a expressar suas dificuldades nas relações, suas necessidades e seus desejos, promovendo a socialização por meio de uma decodificação vivida do comportamento natural e emocional do sujeito. Através dessa leitura do conteúdo comunicativo-simbólico, busca-se intervir na estruturação e evolução da dimensão afetiva, visando potencializar o desenvolvimento emocional e relacional do indivíduo. O criador do termo Psicomotricidade Relacional André Lapierre, a define como um método que destaca a conexão significativa existente em cada indivíduo entre a motricidade, a psique, a afetividade, a emoção e o cognitivo. Seu objetivo é evitar abordagens psicopedagógicas e terapêuticas limitadas, deficientes, ineficazes e, principalmente, prejudiciais ao desenvolvimento infantil. Embora não endosse os fundamentos e a trajetória da educação tradicional, a Psicomotricidade Relacional não busca eliminar completamente essa abordagem, mas sim se posicionar à margem dela. Nesse sentido, o objetivo da Psicomotricidade Relacional é permitir que a criança expresse seus conflitos e os vivencie simbolicamente, com ênfase em uma atuação preventiva diante de problemas de comunicação e relacionamento com os outros e a sociedade. Busca-se uma abordagem menos repressora, visando evitar frustrações precoces que possam causar dificuldades ao longo da vida psíquica, social e emocional da criança. A Psicomotricidade Relacional compreende e concebe o aspecto, o espaço e o processo educacional como uma oportunidade significativa de integração do indivíduo, promovendo um desenvolvimento infantil adequado. Por essa razão, prioriza sua intervenção e atuação na primeira infância, incluindo creches e pré- escolas. Assim, é desejável e viável realizar uma intervenção direta junto à criança, com o objetivo de permitir que ela expresse suas necessidades e conflitos no contexto das relações. À medida que a criança explora o mundo dos objetos, ela também 68 descobre o mundo dos outros, com seus desejos, proibições, seduções, agressividade e suas próprias ambivalências. Nesse processo, ela gradualmente estrutura seus próprios modos de ação e reação, que serão pessoais. Todas as crianças enfrentam esses desafios, e algumas lidam com eles de forma mais eficaz do que outras, o que contribui para a formação de uma personalidade mais ou menos saudável. Isso depende da qualidade e da clareza das relações que a criança estabelece com seu ambiente, seus pais e também com todos os adultos com os quais ela mantém interações contínuas (LAPIERRE; LAPIERRE, 2002). Lapierre e Aucouturier (2004), trazem ainda que, quando a criança recupera ou mantém a vitalidade de sua essência e verdadeiramente assume a autonomia de seus desejos, ela se torna surpreendentemente receptiva. Ela é capaz de assimilar rapidamente uma grande quantidade de conhecimento, desde que alimentemos sua curiosidade em aprender e explorar. É fundamental não restringir a criança a um modelo ultrapassado de conhecimento selecionado, fragmentado, uniformizado e rigidamente programado em ordem cronológica. Na Psicomotricidade Relacional, o corpo desempenha um papel fundamental e significativo na maneira como o indivíduo vive, pois é por meio dele que ocorre a comunicação, a interação com os outros e com o mundo ao seu redor. Assim, quando a linguagem verbal e até mesmo o "pensamento verbal" se ausentam, a pessoa entra em um estado de consciência diferente, em que passa a viver e agir diretamente em níveis subcorticais, próximos ao inconsciente e com um mínimo de controle consciente. Nesse estado, o agir não é mais um ato intelectual e racional, mas sim a expressão direta de algo mais profundo e íntimo, que suscita gestos, atitudes e ações específicas. É por meio dessas expressões simbólicas do agir que as tensões emocionais subjacentes se manifestam, permitindo que a pessoa encontre sua autenticidade e verdade internas. O desenvolvimento da identidade e autonomia está estreitamente ligado aos processos de socialização. É por meio das interações sociais que ocorre a expansão dos laços afetivos que as crianças estabelecem com seus pares e com os adultos, contribuindo para o reconhecimento do outro e a apreciação das diferenças entre as pessoas. Essas interações são essenciais para o enriquecimento pessoal, permitindo que cada indivíduo valorize e aproveite as diversas perspectivas e experiências 69 presentes na convivência com os demais. Nesse sentido, a brincadeira revela-se como solo fértil para o desenvolvimento da psicomotricidade. 8.3 A brincadeira como ferramenta para o desenvolvimento psicomotor Lapierre e Aucouturier (2004) destacam a importância do jogo e da brincadeira no contexto pedagógico como elementos essenciais na prática psicomotora. Reconhecendo a infância como uma fase marcada pelo ato de brincar, o jogo se torna uma ferramenta facilitadora, permitindo que a criança explore a diversidade das relações humanas e estabeleça vínculos entre os participantes. Através dos jogos e brincadeiras, os eventos e situações da vida real são apresentados com uma roupagem fantasiosa, possibilitando uma abordagem adequada para o desenvolvimento emocional e psicossocial da criança. Essa abordagem permite que os conteúdos sejam trabalhados de forma mais acessível, contribuindo para o crescimento e o bem-estar da criança. O ato de brincar proporciona um amplo conhecimento de si mesmo, do mundo e do ambiente circundante, resultando no desenvolvimento de múltiplas formas de linguagem. Além disso, a brincadeira promove uma melhor elaboração do pensamento, a compreensão e a aplicação de diferentes regras e limites, bem como a prática da socialização, que é um aprendizado essencial para a vida presente e futura. No contexto do desenvolvimento afetivo e emocional, o jogo proporciona a expressão do imaginário, da criatividade, dos sentimentos, das fantasias, dos desejos e dos conflitos conscientes e inconscientes (VIEIRA; BATISTA E LAPIERRE, 2005). Ao enfrentarem desafios durante as brincadeiras, as crianças adquirem habilidades e competências que as capacitam a lidar com desafios semelhantes ao longo da vida. O elemento pedagógico fundamental na transição da psicomotricidade funcional para a psicomotricidade relacional é o uso do jogo (brincar da criança). 8.4 Principais áreas de atuação da Psicomotricidade Relacional Os estudos e pesquisas no campo da Psicomotricidade Relacional são de natureza recente. Inicialmente, esse método de trabalho surgiu no campo da educação e tem se consolidado como uma poderosa ferramenta de intervenção. Ao longo do tempo, tem se desenvolvido como um processo eficaz de apoio nas relações pessoais e interpessoais em diversos contextos, como o familiar, escolar, clínico, empresarial, entre outros (VIEIRA; BATISTA E LAPIERRE, 2005). 70 A Psicomotricidade Relacional tem uma presença significativa no ambiente escolar, dentro do contexto psicopedagógico, onde atua de maneira preventiva, visando potencializar o desenvolvimento integral das crianças. Seu enfoque está em destacar e fortalecer os aspectos positivos do comportamento e da personalidade das crianças, trabalhando com as relações interpessoais de forma construtiva, fortalecendo-as e renovando-as constantemente. Fonseca (1996), explica que o processo de alfabetização da linguagem corporal é fundamental antes de avançar para as aprendizagens mais triviais, que são essencialmente investimentosperceptivo-motores vinculados a coordenadas espaço-temporais e correlacionados por ritmos melódicos de integração e resposta. É por meio do movimento e da ação que a criança integra as informações sensoriais que lhe permitem adquirir a compreensão do seu corpo e a definição da sua lateralidade. O corpo, como o primeiro meio de contato com o conhecimento, desempenha um papel fundamental na aprendizagem, estabelecendo uma relação intrínseca com a motricidade. Nesse sentido, a Psicomotricidade Relacional atua de maneira a proporcionar diversas experiências psicomotoras, com o objetivo de promover a socialização, elevar a autoestima e superar dificuldades de aprendizagem, estimulando o desejo de aprender e a busca por novos conhecimentos. Na educação infantil, é evidente a importância de estabelecer uma base sólida por meio da realização de exercícios que visam a organização do esquema corporal da criança e a construção de sua imagem interna (SCHINCA, 1991). Quanto ao ambiente empresarial, Vieira; Batista; Lapierre (2005) esclarecem que Jose Leopoldo Vieira, um psicomotricista relacional e educador, foi um dos primeiros a aplicar os princípios e métodos da Psicomotricidade Relacional no ambiente corporativo, buscando promover maior integração, estimular a criatividade e fortalecer a autoconfiança das pessoas. A conquista da liberdade ocorre por meio do desenvolvimento da autonomia, através do reconhecimento das qualidades pessoais. A Psicomotricidade Relacional no contexto organizacional fundamenta-se na importância das relações como base para o desenvolvimento das qualidades pessoais. Essa abordagem busca adquirir e incorporar conhecimentos que promovam a autoafirmação, uma boa autoestima e, consequentemente, o sucesso pessoal do trabalhador, bem como o sucesso da empresa enquanto organização composta por pessoas. O desenvolvimento pessoal é uma jornada de autoconhecimento, pois à 71 medida que adquirimos compreensão sobre nós mesmos e nossas motivações mais profundas, deixamos de depender da opinião dos outros para construir nossa autoestima, passando a baseá-la no nosso próprio conhecimento sobre quem somos. A conquista dos objetivos empresariais é facilitada e acelerada quando a gestão de pessoas se compromete em promover o pleno desenvolvimento emocional e equilíbrio nas relações de trabalho. Isso é alcançado por meio de uma comunicação autêntica, que respeita as diferenças e valoriza cada indivíduo envolvido nesse processo. A liberdade é o pilar na aplicabilidade da psicomotricidade relacional no ambiente empresarial e, por isso, é essencial ir além dos níveis de motivação material e progredir para novos níveis motivacionais relacionados à criação de novas ideias e ao propósito de existir. Isso requer a busca pela liberdade como um elemento fundamental. No contexto clínico, a abordagem da Psicomotricidade Relacional assume uma abordagem menos preventiva em relação ao desenvolvimento, pois concentra- se em demandas específicas relacionadas a desordens motoras, psicossociais, de aprendizagem, afetivas e cognitivas. No entanto, reconhece-se a importância de uma atuação preventiva no desenvolvimento humano, especialmente no que diz respeito às crianças, sem deixar de considerar os benefícios resultantes dessa abordagem. Atualmente, é cada vez mais comum observarmos diversos especialistas em áreas específicas (como fonoaudiologia, reeducação matemática, psicoterapia, psicopedagogia, entre outros) demonstrarem interesse pela atividade psicomotora global como uma base inicial para suas disciplinas (AUCOUTURIER; LAPIERRE, 1986). Na área da Psicomotricidade Relacional, o atendimento clínico apresenta particularidades distintas em relação a outras áreas de atuação e modalidades de intervenção. Além das sessões individuais, são necessários procedimentos especiais, como a utilização da amnésia e o processo de diagnóstico, visando obter uma compreensão mais aprofundada do indivíduo. Além disso, é essencial envolver ativamente a família e a escola, especialmente quando se trata do atendimento de crianças. Ao compreender a duração da dificuldade de uma psicoterapia, tanto para adultos quanto para crianças mais velhas, ficamos surpresos com a velocidade em que a personalidade pode se reestruturar durante os primeiros anos. Nesse contexto, 72 surge uma abordagem que consideramos fundamental: a profilaxia das doenças mentais (LAPIERRE; LAPIERRE, 2002). Embora o atendimento clínico na Psicomotricidade Relacional seja fundamentado em uma abordagem psicanalítica, na qual o inconsciente é explorado e estudado, o aspecto da corporeidade continua sendo a base de toda intervenção nessa abordagem. O jogo corporal, tanto tônico como espontâneo e simbólico, desempenha um papel crucial ao buscar e incentivar a expressão plena do indivíduo, criando um espaço propício para vivências de natureza psicossocial, afetiva e emocional. Essas vivências contribuem significativamente para a evolução do processo terapêutico como um todo. Na terapia, o profissional não possui conhecimento a transmitir, nem tem a intenção de ensinar algo específico. Ele se posiciona sempre "atrás" do desejo da criança, auxiliando-a a afirmá-lo e a tomar consciência dele. Seu único desejo está no futuro da criança, em seu encontro real com os outros, com o objeto e consigo mesma, buscando sua autonomia (AUCOUTURIER; LAPIERRE, 1986). 73 9 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AJURIAGUERRA, J. Manual da Psiquiatria Infantil. São Paulo: Masson, 1983. AJURIAGUERRA, J. Manuel de Psychiatrie chez l’Enfant, 2ª ed., Masson et Cie., Paris,1974. AYOUB, E. Ginástica geral e educação física escolar. 3. ed. Campinas: Editora da Unicamp, 2013. AYRES, J. Sensory Integration and the Child, Western Psychological Services, Los Angeles, 1982. BEE, H.; BOYD, D. A criança em desenvolvimento. 9. ed. Porto Alegre: Artmed, 2003. BORDIN, M. B. M.; LINHARES, M. B. M.; JORGE, S. M. 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Segundo Levin (2000), a psicanálise também contribuiu para a síntese de preocupações teóricas e metodológicas em psicomotricidade, e em 1977 Sami Ali publicou uma proposta de articulação entre teoria psicanalítica e psicomotora. Por 10 esta razão, a teoria psicomotora incorpora em sua construção teórica vários conceitos psicanalíticos como inconsciente, transferência, imagem corporal e sublimação. Conforme aponta Levin (2000), Andre Lapierre e Bernard Aucouturier são dois estudiosos que se destacam na história da psicomotricidade e exerceram influência não somente na Europa, mas na América, mais especificamente, na América Latina. André Lapierre é considerado o pai da psicomotricidade relacional, pois foi a partir de seus trabalhos, na década de 1970, que essa vertente surgiu na França. Em um primeiro momento, trabalhou com reeducação psicomotora de crianças que apresentavam “inadequação escolar”. Com base nessa experiência, Lapierre propôs que os problemas emocionais seriam uma das causas do fracasso escolar. Bernard Aucouturier ao lado de Lapierre, é também considerado o criador da psicomotricidade relacional. Formou-se em Educação Física em 1959. Em 1961, foi nomeado professor de um liceu em Lyon. Teve início, então, seu interesse em relação à reeducação de crianças surdas. Em 1962, tornou-se professor do Centro de Reeducação Física de Tours, que acolhia crianças que apresentavam distúrbios morfológicos e funcionais e graves distúrbios de comportamento. Foi então que Aucouturier iniciou sua prática psicomotora nos campos educativo e terapêutico. Conforme descrito por Negrine (2002), a psicomotricidade atravessou três períodos marcantes: o período continuador, o período inovador e o período de ruptura, influenciados por dois professores de Educação Física. A seguir, são descritas as principais características de cada um desses períodos: No período continuador, as práticas psicomotoras de Lapierre e Aucouturier, que inicialmente filiavam-se à vertente reeducativa e terapêutica, passaram, ao longo do tempo, a se relacionar à vertente educativa. No período continuador, a primeira vertente adotada pelos autores da psicomotricidade era caracterizada por uma abordagem teórico-metodológica funcionalista, que se tornou marcante na origem da psicomotricidade como campo de estudo e prática pedagógica. Durante esse período, as crianças eram submetidas a testes que avaliavam seu perfil psicomotor. Com base nesses testes, eram prescritas as famílias de exercícios, com o intuito de desenvolver capacidades e habilidades das crianças. O trabalho era fundamentado na “falta” que o sujeito apresentava, ignorando seu potencial, que certamente deveria existir. Nesse contexto, é importante destacarmos, ainda, três outros nomes relevantes do período: os pesquisadores Louis Picq, Pierre Vayer e Jean Le Boulch. 11 No período inovador, a psicomotricidade evoluiu em direção à abordagem relacional. Tanto Lapierre quanto Aucouturier afirmavam, nessa fase, que a psicomotricidade funcional não seria adequada para a educação ou reeducação. Os dois autores desenvolviam suas teorias com base em práticas psicomotoras com crianças e adultos. É importante destacar que a transformação teórica em direção à abordagem relacional ocorreu apenas com Lapierre e Aucouturier, enquanto outros importantes nomes da área continuaram trabalhando com um enfoque funcional. Durante o período inovador, Lapierre e Aucouturier propuseram que a melhora observada em seus alunos decorria da qualidade da relação afetiva estabelecida com o facilitador. Diferentemente do estágio anterior, no período inovador o trabalho era baseado nas potencialidades dos alunos. Na obra Em sua obra "A simbologia do movimento", Lapierre e Aucouturier reconhecem suas contradições anteriores e propõem algo realmente inovador, que une teoria e prática com base nas relações interpessoais. Durante o período de ruptura, os autores Lapierre e Aucouturier seguiram caminhos distintos em suas práticas psicomotoras. Lapierre enfatizou a importância do jogo simbólico, destacando que sempre há uma intenção por trás dele. Por outro lado, Aucouturier defendeu a potencialização do jogo sensório-motor, em contraposição a Lapierre, que acreditava que o adulto intervém no jogo simbólico da criança. As habilidades psicomotoras foram introduzidas no Brasil em meados da década de 1970, trazido por especialistas europeus. A prática na época era chamada Educação e reeducação psicomotora. E em 1976, durante a estada de Françoise Desobo, um dos pioneiros da psicanálise infantil, foi apresentado a esta terapia. As habilidades psicomotoras sugeriram a substituição de técnicas instrumentais por técnicas que permitem maior liberdade, dando o devido valor ao jogo e ao brincar. Assim nasceu a Associação Brasileira de Psicomotricidade, em 1980. 1.3 A psicomotricidade no Brasil No contexto brasileiro, a Psicomotricidade foi orientada por profissionais que buscaram especialização em clínica infantil na França. Posteriormente, esses profissionais aprofundaram-se no campo da psicomotricidade, tendo como referências Ajuriaguerra, psicólogo psiquiatra e professor, e Bergès, discípulo de Ajuriaguerra, que atuavam no hospital Henri-Roussele e na escola da equipe liderada por Giselle 12 B. Soubiran, terapeuta psicomotora. Essa interação com profissionais de renome contribuiu significativamente para a disseminação e desenvolvimento da Psicomotricidade no Brasil (NEGRINI, 2002). O autor traz ainda que os primeiros estudos sobre psicomotricidade no Brasil foram atendidos por professores que lecionavam disciplinas relacionadas à educação física na educação infantil em cursos de nível superior. Esses profissionais se empenharam na luta pela inclusão da psicomotricidade como disciplina nos currículos dos cursos de educação física e pedagogia. É importante ressaltar que, mesmo antes dessa inclusão, a psicomotricidade já era praticada em clínicas particulares de reeducação, evidenciando sua religião e aplicação prática na área. Airton Negrine é reconhecido como uma figura de destaque na área da psicomotricidade no Brasil. Assim como Lapierre e Aucouturier, Negrine (2002) transitou de uma abordagem funcionalista para uma abordagem relacional. Atualmente, ele dedica-se ao trabalho com crianças e adultos, tanto em ambientes fechados quanto em espaços abertos. Sua atuação abrange uma ampla gama de contextos, buscando promover o desenvolvimento psicomotor e o bem-estar dos indivíduos. Conforme a Associação Brasileira de Psicomotricidade ABP (documento on- line), a psicomotricidade é definida como o campo de estudo que se dedica a compreender o ser humano por meio do movimento do corpo, levando em consideração suas relações tanto internas quanto externas. Nessa perspectiva, a psicomotricidade está intrinsecamente ligada ao processo de maturação, no qual o corpo desempenha um papel fundamental nas aquisições cognitivas, afetivas e orgânicas. Essa ciência se sustenta em três conhecimentos essenciais: o movimento, o intelecto e o afeto. Através da interação entre esses elementos, a psicomotricidade busca promover o desenvolvimento integral do indivíduo. Apesar de ter sido introduzida no Brasil em um momento posterior, a psicomotricidade despertou um crescente interesse entre acadêmicos, especialmente na área da educação. Seu objetivo principal é aprimoraras habilidades de desenvolvimento dos alunos e facilitar o processo de aquisição de conhecimentos, principalmente no contexto desafiador da alfabetização. Dessa forma, a psicomotricidade se tornou uma ferramenta valiosa para auxiliar no desenvolvimento 13 integral dos estudantes, promovendo a integração entre corpo e mente e contribuindo para o sucesso acadêmico. Por último, considerando que a psicomotricidade é um campo de estudo que investiga a relação entre o desenvolvimento psicológico e o movimento corporal, encontramos diversas abordagens dentro dessa área. Entre as principais vertentes, merecem destaque: Vertente educacional: foca na educação infantil e busca promover a aprendizagem através da expressão corporal, utilizando atividades lúdicas e jogos que estimulem o desenvolvimento psicomotor. Vertente clínica: foca na avaliação e intervenção em indivíduos que apresentam problemas de desenvolvimento psicomotor, tais como dificuldades de coordenação motora, equilíbrio e lateralidade. Vertente terapêutica: utiliza atividades corporais para promover o bem-estar psicológico, ajudou indivíduos com transtornos emocionais a se expressarem melhor e se relacionarem de forma mais saudável com o seu corpo e com os outros. Vertente esportiva: busca aprimorar o desempenho físico de atletas e esportistas por meio de treinamentos psicomotores específicos. 2 AS AQUISIÇÕES NEUROPSICOMOTORAS AO LONGO DO DESENVOLVIMENTO INFANTIL Fontana (2012) traz o entendimento de que ao longo da vida, desde o momento da concepção até a morte, o ser humano está envolvido em um processo contínuo e de desenvolvimento físico, psicológico e social. Esse desenvolvimento inclui o crescimento corporal, especialmente do sistema nervoso, das sensações e percepções, que estão relacionados com uma crescente capacidade de raciocínio, compreensão de conceitos abstratos e segurança nos aspectos afetivos e sociais. Para uma compreensão mais completa do ser humano em sua totalidade, é essencial considerar e promover o seu desenvolvimento psicomotor desde a infância, e entender quais são as expectativas para cada fase do desenvolvimento, considerando as características individuais de cada criança. É importante ter atenção especial durante essas fases para garantir que a criança se desenvolva de forma saudável e com pleno potencial. 14 O desenvolvimento humano é um processo contínuo que envolve diversas mudanças inter-relacionadas. Na sequência, será explorada a evolução psicomotora que ocorre na primeira infância (0-2 anos), incluindo o desenvolvimento dos reflexos, habilidades motoras, funções intelectuais e cognitivas iniciais, comunicação, afetividade, sociabilidade e outras aprendizagens globais e simultâneas. Em seguida, serão abordadas as conquistas neuropsicomotoras na segunda infância (3-6 anos), período em que importantes modificações nos campos físico e psicológico ocorrem. Por fim, a terceira infância, que compreende a fase que vai dos 6 aos 11 anos, será abordada. O desenvolvimento humano é um processo que ocorre por etapas e depende da evolução do sistema nervoso central, que começa durante a gestação. Quando uma criança nasce, ela já possui reflexos primitivos que, posteriormente, possibilitarão a realização de movimentos voluntários. Esses reflexos inatos permitem que o bebê execute funções básicas, como respirar, sugar e virar a cabeça para buscar o seio materno. Logo após o nascimento, é realizada uma avaliação do desenvolvimento das funções básicas para a sobrevivência e preservação do cérebro, utilizando a escala de Apgar, criada pela médica norte-americana Virginia Apgar (GOMES; SILVA, 2010). A vida psicológica se desenvolve através de três dimensões interconectadas: a motora, a afetiva e a cognitiva. Embora uma dimensão possa parecer predominante em um momento específico, essa dominância é temporária e as conquistas alcançadas em uma dimensão são incorporadas às outras. À medida que ocorre o desenvolvimento, as dimensões se alternam em sua preponderância, permitindo que a afetividade ceda espaço para a intensa atividade cognitiva assim que a maturação sensório-motora é adquirida para explorar a realidade. A primeira infância é uma fase crucial para o desenvolvimento e formação do ser humano, uma vez que é nesse período que se estabelecem as bases para um desenvolvimento físico, neurológico e psicológico saudável. Estudos teóricos e pesquisas sobre o desenvolvimento infantil indicam que a capacidade de conhecer e aprender se desenvolve a partir do corpo, através da interação com o ambiente em que a criança está inserida e das relações estabelecidas com outras crianças e adultos. As bases do desenvolvimento psicomotor podem ser influenciadas tanto por fatores externos quanto internos. Os fatores externos referem-se a eventos que 15 ocorrem fora do corpo, tais como o ambiente em que a pessoa está inserida e as interações que ela estabelece com outras pessoas, que podem ter impactos positivos ou negativos no desenvolvimento. Por outro lado, os fatores internos referem-se aos processos biológicos e fisiológicos do corpo, que estão presentes em todos os sistemas do organismo. Nesse contexto, é possível caracterizar as etapas do desenvolvimento da criança a partir das quatro dimensões do desenvolvimento infantil: socioafetividade, linguagem, cognição, motricidade. 2.1 Principais aquisições psicomotoras na primeira infância Conforme aponta Xavier (2018), com relação aos principais marcos psicomotores da primeira infância, é importante considerar que, principalmente no primeiro ano de vida, os primeiros marcos aparecem como: o controle de cabeça, o rolar, o arrastar e, mais tarde, o sentar, o engatinhar e a marcha no final do primeiro ano. Assim, devido ao período da janela de oportunidades, os primeiros mil dias de vida (período que soma os 270 dias da gestação aos 730 dias, até que o bebê complete dois anos) são os mais importantes para o desenvolvimento físico e mental da criança, servindo de base para toda a sua evolução futura. Por exemplo, um bebê que não teve estímulos ou foi privado de praticar a motricidade fina, como o movimento de pinça (pegar algo com o indicador e o polegar), terá mais dificuldades na utilização de tesouras e lápis na fase escolar do que crianças que foram estimuladas. O Caderno Ministério da Cidadania (2021) afirma que é possível acompanhar o desenvolvimento do bebê por meio de marcos que permitem aos profissionais e aos familiares detectar precocemente quaisquer problemas no desenvolvimento da criança. Dessa forma, é possível fornecer o suporte necessário o mais cedo possível. Os principais marcos encontram-se resumidos na sequência: Ao nascer, a audição do bebê já está bem desenvolvida, mas a sua visão precisa aprimorar-se durante os primeiros meses de vida. Conforme cresce, o bebê começa a fixar o olhar em pessoas e objetos em movimento dentro do seu campo de visão. Inicialmente, o bebê comunica as suas necessidades e sentimentos através do choro, que pode indicar fome, frio, calor, desconforto, sono, dor ou necessidade de atenção, colo, carinho e afeto. Com o tempo, o bebê aprende a se comunicar por meio de gestos, olhares, expressões faciais e sons, que passam a ter significado conforme 16 os seus cuidadores respondem e interagem com ele, até que as palavras sejam utilizadas para expressar os seus desejos. O período neonatal é o primeiro mês de vida do bebê após o nascimento. Nessa fase, o bebê é totalmente dependente e mantém uma conexão simbiótica com a mãe, sem uma diferenciação clara entre eles. Através dos sentidos do tato, audição e visão, o bebê começa a estabelecer vínculos com as pessoas ao seu redor, incluindo o reconhecimento da mãe e outras figuras de referência. Nos primeiros dias, o sorriso do bebê é um reflexo natural.Através do vínculo de afeto e confiança estabelecido com seus cuidadores, o bebê começa a se sentir seguro para explorar e aprender. Ele começa a apresentar variações de humor e seu choro pode vir acompanhado de lágrimas. Além disso, ele reconhece a mãe e outras pessoas ao seu redor, olhando-as e interagindo com gestos e expressões faciais. No segundo mês de vida, o bebê começa a fixar o olhar em objetos que estão próximos, até cerca de 50 centímetros de distância, prestando atenção em sons e acompanhando objetos com os olhos. Quando colocado de barriga para baixo, ele vira a cabeça e consegue levantá-la por alguns segundos. Embora suas mãos fiquem geralmente fechadas, com o polegar voltado para dentro, o bebê começa a explorá- las e brincar com elas. Ele se comunica através do choro, olhares, sorrisos e gorjeios. No terceiro mês, o bebê já é capaz de reconhecer objetos e rostos familiares a uma distância maior. Ele explora suas mãos e dedos, observando-os e levando-os à boca, melhorando sua coordenação óculo-manual. Ao ver um objeto no campo de visão, usa suas mãos e olhos em conjunto para tentar alcançá-lo, além de começar a entender a relação causa-efeito. Ele pode segurar objetos e sacudi-los, mas ainda não é capaz de soltá-los voluntariamente. Quando colocado de barriga para baixo, consegue sustentar-se sobre os cotovelos ou mãos e levantar a cabeça. Também começa a sustentá-la quando está no colo de um adulto ou sentado com ajuda. No terceiro e quarto mês de vida, o bebê já começa a se divertir e a sorrir em resposta a diferentes estímulos. Também começa a expressar insatisfação quando algo lhe é retirado ou impede de fazer algo que estava gostando. Ao manipular objetos, o bebê se concentra e repete ações que lhe trazem prazer, desenvolvendo sua noção de causa e efeito. Além disso, já começa a procurar por objetos e pessoas 17 que não estão presentes, o que indica o início do desenvolvimento da noção de permanência do objeto. Do sétimo ao nono mês de vida, o bebê passa a ter mais consciência de si e busca interação e validação dos adultos. Ao se olhar no espelho, explora o seu próprio rosto e demonstra prazer e felicidade em repetir ações reforçadas pelos adultos. Além disso, se diverte brincando com outras pessoas e sozinho, realizando atividades como conversar, dançar, bater palmas e explorar objetos. Nessa fase, também passa a reconhecer mais pessoas do seu círculo social e demonstra satisfação ao interagir com elas. O bebê também começa a imitar sons de palavras ditas pelos adultos e pode duplicar sons. Do décimo ao décimo segundo mês de vida, o bebê já apresenta uma maior coordenação motora fina, usando as mãos para explorar e manipular objetos com mais precisão. Também se mostra mais expressivo nas suas interações sociais, utilizando gestos e expressões faciais para se comunicar e demonstrar afeto. Além disso, começa a desenvolver a sua linguagem, emitindo palavras e entendendo o significado de algumas delas. Interessa-se por histórias e músicas infantis e pode responder a pedidos verbais simples. Por fim, durante o segundo ano de vida, a curiosidade do bebê aumenta e ele se torna um explorador ávido. Ele deseja explorar o mundo ao seu redor e quanto mais estímulos receber, mais ele se interessará em descobrir. A mobilidade adquirida, seja engatinhando ou caminhando, amplia as possibilidades de exploração e descoberta, bem como o aprimoramento da sua habilidade motora fina. O desenvolvimento da linguagem está diretamente relacionado ao pensamento e a criança começa a se expressar verbalmente de forma mais independente. Nessa fase, o pensamento simbólico começa a surgir, tornando os jogos e as brincadeiras ainda mais importantes, já que é por meio deles que a criança desenvolve sua identidade e autonomia. Considerando outra visão sobre o desenvolvimento humano, Wallon (2008), propõe uma classificação muito importante exposta no (Quadro 1) abaixo: Quadro 1 - Classificação por estágio ESTÁGIO DESCRIÇÃO Período que prevalecem, nas crianças, as relações emocionais com 18 Estágio impulsivo-emocional (primeiro ano de vida) o ambiente. Nessa fase, são desenvolvidos o olhar, o pegar e o andar, entre outras aquisições, tornando possível, ao longo do segundo ano de vida, uma maior exploração do ambiente, como subir e descer degraus, com a autoconfiança de passar por desafios. Estágio sensório-motor (de 1 a 3 anos, aproximadamente) Nessa fase, ocorre uma grande exploração do mundo físico e predominam relações cognitivas com o meio. A criança desenvolve a inteligência prática e a capacidade de simbolizar, ou seja, por exemplo, a capacidade de desenhar um triângulo e dizer que é um telhado, de fazer de conta que um palito é um boneco ou uma vassoura é um cavalo. Sem isso, mais adiante, a criança terá dificuldades para reconhecer que um triângulo com um risco horizontal no meio é o símbolo da letra A e para entender que esse símbolo tem um som, prejudicando a sua alfabetização. Fonte: Adaptado de Wallon (2008). Considerando, ainda, outra visão sobre o tema aqui abordado, segundo Pikler (1984), o desenvolvimento cognitivo e a conquista autônoma dos movimentos estão interligados na criança. Em outras palavras, o desenvolvimento motor, as relações interpessoais, os sentimentos e a cognição se complementam para formar um desenvolvimento global da criança. É importante salientar que a promoção do desenvolvimento neuropsicomotor durante a primeira infância tem impacto decisivo no futuro da criança. Nos últimos anos, tem crescido o interesse de profissionais e pesquisadores da área da saúde em oferecer condições favoráveis para a vida da criança, evidenciando a importância de uma atenção integral na primeira infância (BORDIN; LINHARES; JORGE, 2001). Com isso, é justificável acompanhar as crianças a fim de detectar precocemente quaisquer alterações que possam ser minimizadas. 2.2 Principais aquisições psicomotoras na segunda infância Em conformidade com Gallahue, Ozmun e Goodway (2013), a segunda infância, por sua vez, é a fase que compreende crianças entre três e seis anos, marcada por grandes transformações físicas e psicológicas. Durante esse período, 19 ocorre um crescimento acelerado, tornando a criança mais alta e ágil. Nessa fase, ela é capaz de dominar a linguagem, comunicar-se e expressar ideias e pensamentos, além de refletir sobre o mundo e aprender através de sua curiosidade. Aos três anos, inicia-se a fase dos "porquês", em que a faz muitas perguntas para descobrir o mundo ao seu redor. Isso pode ser uma oportunidade divertida para aproximação entre adultos e crianças, por meio de jogos, desenhos, filmes e outras atividades. Durante a infância, o crescimento físico é caracterizado por um aumento significativo na altura, peso e desenvolvimento muscular. O desenvolvimento é mais rápido durante os primeiros anos de vida e, posteriormente, por volta dos dois anos, começa a diminuir gradualmente até atingir um novo pico na puberdade. Conforme Gallahue, Ozmun e Goodway (2013), alguns marcos importantes do desenvolvimento físico na infância são: • Em torno de quatro anos, a criança dobra a altura em relação ao nascimento; • A altura cresce em torno de 5 cm ao ano; • O ganho de peso é de mais ou menos 2,3 kg por ano; • O início da infância marca uma diminuição no tecido adiposo; • O tecido muscular se mantém em torno de 25% do peso corporal. Durante a infância, a diferença de peso e altura entre meninos e meninas é mínima, embora os meninos geralmente apresentem mais massa muscular e sejam mais altos e pesados. O crescimento e desenvolvimento muscular são importantes para a aquisição de habilidades motoras, desde engatinhar, andar e correr, até praticar esportes e outras atividades físicas. Além disso, é nessa fase que as crianças começama demonstrar preferência por usar a mão direita ou esquerda. Durante a infância, ocorrem significativas mudanças nas proporções corporais das crianças. Enquanto bebês, possuem cabeças e troncos grandes em relação aos membros, mas com o passar dos anos, ocorre uma diminuição do abdômen e um aumento do peito, além do crescimento ósseo que é dinâmico e depende de diversos fatores. O desenvolvimento cerebral também é marcante nessa fase, sendo que aos três anos o cérebro pesa cerca de 75% do seu peso final e aos seis anos atinge 90%. A partir dos quatro anos, ocorre a mielinização, fundamental para a transmissão de impulsos nervosos e, consequentemente, para a realização de movimentos complexos. Entretanto, a visão ainda apresenta limitações, pois o desenvolvimento 20 completo do globo ocular ocorre em torno dos 12 anos e a retina continua em formação até o sexto ano (GALLAHUE; OZMUN; GOODWAY, 2013). Durante a fase pré-escolar, a criança apresenta maior sensibilidade aos sabores em comparação aos adultos, devido à presença de mais papilas gustativas. Além disso, os órgãos do ouvido da criança estão mais próximos, o que pode aumentar a incidência de infecções (GALLAHUE; OZMUN; GOODWAY, 2013). Essa sensibilidade aos sabores pode ser observada nas reações das crianças ao experimentar novos alimentos, muitas vezes fazendo caretas ou recusando alimentos com sabores mais fortes, como verduras. Já na segunda infância, o cérebro continua altamente maleável, passando por diversas mudanças, incluindo o crescimento das áreas frontais, responsáveis pela capacidade de planejamento e metas. A plasticidade refere-se à flexibilidade das diferentes áreas cerebrais, muitas das quais ainda não estão completamente especializadas. Se uma área sofre lesões ou problemas, outra área pode assumir a função, desde que seja adequadamente estimulada. Além disso, durante esse período, ocorre um maior desenvolvimento do corpo caloso, que possibilita a comunicação entre os dois hemisférios cerebrais, coordenando sentidos, atenção e fala, e sua mielinização ( A mielinização faz parte do processo de desenvolvimento cerebral. A mielina é uma camada lipoprotéica que envolve e protege a condução nervosa dos axônios dos neurônios, tornando-a mais rápida e eficaz) continua até a adolescência (PAPALIA; MARTORELL, 2022). O corpo caloso é uma parte vital do cérebro, e estudos indicam que intervenções cirúrgicas que separam os dois hemisférios podem levar a mudanças significativas na percepção visual, criando a ilusão de que os sujeitos possuem dois cérebros autônomos (BEAR; CONNORS; PARADISO, 2017). Ao longo da infância inicial, a atividade predominante é a brincadeira, que ocupa todo o tempo livre da criança, quando ela não está dormindo, se alimentando, se higienizando ou cumprindo outras determinações dos adultos. Os brinquedos têm várias funções nessa fase da vida, incluindo a aprendizagem sobre o corpo e as potencialidades, a facilitação do desenvolvimento cognitivo e afetivo, o exercício da motricidade ampla e fina, o desenvolvimento do pensamento lógico e da abstração, entre outros. 21 Conforme a criança cresce, ela adquire a capacidade de pensar a partir da perspectiva dos outros e não apenas em relação aos seus próprios pensamentos. No início da infância, as crianças são egocêntricas, estando na fase pré-conceitual, em que o pensamento é concreto e as conclusões que chegam, viram verdades (GALLAHUE; OZMUN; GOODWAY, 2013). Através dos brinquedos, as crianças podem imitar o que veem, inventar um mundo próprio e refletir sobre o que acontece em suas vidas. Na segunda infância, o desenvolvimento afetivo é influenciado pelas mudanças que ocorrem nessa fase e, ao mesmo tempo, contribuem para elas. Os principais desafios emocionais que as crianças enfrentam são a busca por autonomia e a iniciativa. Na busca pela autonomia, elas tendem a desafiar as solicitações dos adultos e a dizer "não" com frequência, vendo isso como um exercício de liberdade. Já a iniciativa está ligada ao desenvolvimento motor e à capacidade de correr, pular, subir, pegar e lançar objetos. Se a criança não tiver oportunidades para praticar essas habilidades, pode desenvolver sentimentos de culpa, vergonha, incapacidade e frustração. À medida que as crianças se tornam mais seguras fisicamente, expandem seus horizontes rapidamente. Através da imaginação e da fantasia, elas criam um mundo imaginário para explorar, o que contribui para a formação e a estruturação de sua personalidade (GALLAHUE; OZMUN; GOODWAY, 2013). Os avanços atribuídos ao desenvolvimento motor dependem de conquistas da fase anterior, da primeira infância e do progressivo amadurecimento cerebral, que vai propiciar maior coordenação entre intenções e realizações físicas. Os ossos e os músculos foram suficientemente fortalecidos para permitir à criança correr, saltar, subir escadas, etc., com maior precisão e rapidez. O Quadro 2 demonstra as habilidades motoras que as crianças atingem na segunda infância. Quadro 2 - Habilidades motoras da segunda infância 3 ANOS 4 ANOS 5 ANOS Não sabe girar ou parar de repente ou rapidamente. Tem maior controle do ato de parar, arrancar e girar. Pode arrancar, girar e parar de repente em jogos. Salta a uma distância de 38 a 60 centímetros. Salta a uma distância de 60 a 84 centímetros. Corre e salta a uma distância de 71 a 91 centímetros. 22 Sobe escadas sozinho, alternando os pés. Desce escadas alternando os pés e usando apoio. Desce escadas longas alternando os pés e sem apoio. Saltita usando uma série de saltos irregulares. Saltita de 4 a 6 passos com um pé. Saltita facilmente a uma distância de 5 m. Fonte: Adaptado de Papalia e Martorell (2022). Por volta dos 2 anos e meio, as crianças adquirem a habilidade de saltar com as duas pernas, algo que não conseguem antes disso. Já a capacidade de saltar com uma perna só é adquirida em torno dos 4 anos. Com 3 anos e meio, as crianças conseguem subir escadas, sendo mais fácil subir do que descer. O processo de descer as escadas alternando os pés é adquirido aos 5 anos. Pular é uma habilidade complexa e a sua conquista ocorre entre 4 e 6 anos de idade, dependendo da constituição de cada criança e das oportunidades de exercício que lhe são oferecidas (MARTORELL, 2014). Conforme aponta o autor citado anteriormente, as habilidades motoras finas, como amarrar sapatos e manusear tesouras, requerem destreza, cuidado e responsabilidade no uso. Essas habilidades se complementam e, à medida que a criança adquire algumas delas, outras também são favorecidas. Aos três anos, a criança é capaz de servir líquidos em uma tigela, utilizar talheres e ir ao banheiro sozinha. Ela desenha uma figura humana com uma forma circular simples, sem braços. Com quatro anos, a criança consegue se vestir sozinha e, com ajuda, recortar seguindo uma linha, desenhar uma figura humana mais completa, formas e letras e fazer pequenas dobraduras. Aos cinco anos, ela se veste com mais autonomia, copia figuras e adiciona mais detalhes na representação da figura humana. O (Quadro 3) a seguir, do modelo de Gallahue apresenta uma abordagem bidimensional para compreender os marcos do desenvolvimento motor em diferentes fases. Esse modelo propõe quatro fases, sendo que as duas intermediárias se relacionam com a segunda infância. A primeira fase, chamada de movimento rudimentar, tem início por volta dos dois anos, enquanto a segunda fase, conhecida como movimento fundamental, ocorre até os seis anos (GALLAHUE; OZMUN; GOODWAY, 2013). Quadro 3 - Modelo de Gallahue 23 Fonte: Adaptado de Gallahue, Ozmun e Goodway (2013). Os movimentos reflexos, ou involuntários, nascem ainda dentro da mãe e propiciam a coleta de informações sobre o ambiente: toques, luzes, sons, mudanças de pressãoe temperatura, etc. Na fase dos movimentos rudimentares, relacionados à segunda infância, é quando nascem os movimentos voluntários, como movimentar a cabeça, o pescoço e os músculos do tronco, alcançar objetos, se arrastar, engatinhar e caminhar, por exemplo. 2.3 Principais aquisições psicomotoras na terceira infância Fases do desenvolvimento motor Estabilidade (ênfase no equilíbrio do corpo em situações de movimento estático e dinâmico) Locomoção (ênfase no transporte do corpo de um ponto a outro) Manipulação (ênfase na força transmitida a um objeto ou recebida dele) Fase de movimento reflexo (capacidades de movimento com controle subcortical involuntário no útero e no início da vida do bebê) - Reflexo de correção labiríntico - Reflexo de correção pescoço - Reflexo de correção do corpo - Reflexo de rastejar - Reflexo primário de andar - Reflexo de nadar - Reflexo palmar de apreensão - Reflexo plantar de apreensão - Reflexo de apreensão dos braços Fase do movimento rudimentar (capacidades de movimento do bebê influenciadas pela maturação) - Controle da cabeça e do pescoço Controle do tronco - Posição sentada sem apoio - Posição de pé - Rastejar - Engatinhar - Marcha ereta - Alcançar - Pegar - Soltar Fase do movimento fundamental (habilidades de movimento básicas da infância) - Equilibrar-se apoioado em um pé - Caminhar em uma barra baixa - Movimentos axiais - Caminhar - Correr - Saltitar - Pular - Arremessar - Apanhar - Chutar - Rebater Fase de movimento especializado (habilidades complexas do final da infância e períodos posteriores) - Realizar a rotina da trave de equilíbrio da ginástica - Defender um chute a gol no futebol - Correr 100 m rasos ou um evento com barreiras no atletismo - Caminhar em uma rua cheia de gente - Chutar um tiro de meta no futebol - Rebater uma bola lançada 24 Sobre o tema, Camargos; Lehnen, Cortinaz (2019) ensinam que, durante a terceira infância, o ritmo de crescimento das crianças diminui, porém, o desenvolvimento físico e psicomotor continua progredindo. Nessa fase, as articulações do corpo se tornam mais refinadas e as crianças demonstram mais habilidade e destreza nas brincadeiras e jogos, visto que o desenvolvimento físico é um suporte essencial para a construção da identidade humana. Embora o desenvolvimento físico esteja interligado ao desenvolvimento cognitivo, afetivo e psicossocial, é importante destacar as características físicas e psicomotoras de crianças com idade entre 6 e 11 anos. Durante a terceira infância, as crianças podem crescer cerca de 5 a 7,5 cm por ano e dobrar seu peso nessa fase. As meninas tendem a ter mais tecido adiposo do que os meninos, uma diferença que se mantém ao longo da vida adulta e é influenciada pela maturação hormonal. Essa diferença entre meninos e meninas é mais evidente no final da terceira infância, quando as meninas começam a produzir e secretar estrogênio, o que leva ao desenvolvimento de características do corpo adulto e à primeira menstruação. Nos meninos, a testosterona é o hormônio predominante, que pode resultar em um "estirão" no final da terceira infância e início da adolescência. Ocorrem transformações físicas no cérebro das crianças que impactam significativamente em sua maneira de pensar e interagir. Dos 6 aos 11 anos, há uma redução na espessura e densidade da massa cinzenta em algumas regiões do córtex cerebral, devido à poda de dendritos pouco ou não utilizados. Por outro lado, ocorre um aumento da massa branca, que representa as fibras nervosas responsáveis pela transmissão de informações a diferentes partes do cérebro, especialmente as mais distantes. Essa mudança na densidade das massas branca e cinzenta tem consequências nas funções cerebrais da criança. Na terceira infância, a criança começa a selecionar e reforçar os comportamentos e hábitos aprendidos em seu meio social, descartando aqueles que não estão em sintonia com seu ambiente. Isso resulta em conexões cerebrais mais especializadas para algumas atividades e comportamentos, aumentando a eficiência e velocidade do processamento de informações relevantes. Segundo Papalia e Feldman (2013), o amadurecimento e a aprendizagem na terceira infância e além dependem da sintonia fina das conexões do cérebro próprias para determinadas tarefas. Durante essa fase, a massa cinzenta em forma de "U" 25 invertido e os diferentes lobos atingem a maturidade em momentos distintos do desenvolvimento infanto-juvenil. Além disso, observa-se uma melhoria no desempenho do vocabulário infantil. 3 A IDENTIFICAÇÃO DOS PROCESSOS PATOLÓGICOS QUE LEVAM A DISTÚRBIOS NO DESENVOLVIMENTO PSICOMOTOR Para Fonseca (2008), o psiquismo e a motricidade compartilham o mesmo corpo para se estruturar e organizar. Ambos se envolvem e integram no comportamento, estão inter-relacionados e participam na conduta e evidenciam-se na observação de qualquer manifestação expressiva. A sua diferença está no enfoque e nos métodos utilizados para os avaliar. Como o psiquismo e a motricidade se interrelacionam em termos de comportamento, só a compreensão do sistema nervoso pode elucidar sobre a qualidade dessas relações, o que pressupõe, obviamente, uma transdisciplinaridade entre a neurologia, a psicologia e a motricidade. O psiquiatra Ajuriaguerra (1974) redefiniu o conceito de debilidade motora, considerando-a como uma síndrome com suas próprias particularidades. É ele quem delimita com clareza os transtornos psicomotores que oscilam entre o neurológico e o psiquiátrico. Com estas novas contribuições, a psicomotricidade diferencia-se de outras disciplinas, adquirindo sua própria especifidade e autonomia. Existe uma conexão funcional entre o psiquismo e a motricidade, na qual a tonicidade (energia ou estado próprio de certos tecidos) desempenha um papel importante na regulação das posturas e das contrações musculares, além de estar envolvida nas operações mentais de coordenação de imagens e evocação de ideias. O pensamento em si exige uma orientação no espaço virtual das imagens e das ideias, sendo atualizado pela recombinação e coordenação simultânea ou sequencial das representações mentais. Essa harmonia cinética interiorizada, na qual influências externas, mnemônicas e emocionais participam, foi denominada por Luria (1975) como um processo de interação entre a motricidade e o psiquismo. A falta de movimento (acinesia) e a diminuição da velocidade de movimento (bradicinesia) têm consequências semelhantes tanto nos processos motores quanto nos mentais. A pessoa afetada perde a iniciativa, a capacidade de planejar e de se expressar, além de ter dificuldades em manter a postura e a coordenação motora. Isso resulta em uma coordenação imprecisa e deficiente, conhecida como dispraxia. 26 Analogamente, a consciência pode perder a capacidade de se deslocar no universo das representações, levando a uma falta de flexibilidade, agilidade e sinergias mentais. Quando a pré-adaptação das funções mentais às funções motoras é comprometida, pode ocorrer uma desintegração e disfunção psicomotora, ilustrando uma taxonomia única e específica. O conceito fundamental da psicomotricidade pode ser encontrado na obra pioneira de Dupré (1915), que descreve a síndrome de debilidade motora e mental. 3.1 Síndrome de debilidade motora e mental Sobre a síndrome de debilidade motora e mental Fonseca (2008), traz que inicialmente, Dupré em 1915, a descreve a partir de observações de diversos sinais de disfunção motora, incluindo uma perturbação frequente do reflexo plantar, exagero dos reflexos tendinosos, sincinesias e incoordenação dos movimentos voluntários. Além disso, é comum haver um estado de hipertonia muscular difusa, chamado de paratonia. Para o autor a relação entre os distúrbios motores e mentaisnão era de subordinação, mas sim de coexistência. Ambos os tipos de transtornos indicam uma insuficiência no desenvolvimento cortical, que pode ser causada por uma disfunção cerebral mínima, uma encefalopatia infantil ou fetal ou, até mesmo uma regressão atávica, como ele descreveu. Várias perturbações mentais, incluindo a esquizofrenia, podem causar aberrações psicomotoras difusas, demonstrando a relação entre a vulnerabilidade dos sistemas mentais e os sistemas tônicos, posturais e motores. Os graus de dissociação entre processos mentais e motores podem variar, desde uma condição defectológica até a condição ideal considerada "normal". Em tais condições, podem surgir diferentes quadros e graus clínicos, como distração, turbulência, inadaptação à realidade, discordâncias internas, redução do campo mental, falta de interiorização, seleção limitada de dados para a resolução de problemas, falta de comportamento analítico e de verificação de dados, além de um sistema de necessidades bastante restrito. A relação entre os processos mentais e os processos motores é evidenciada na imperícia, comum em crianças e jovens com deficiência mental e dificuldades de aprendizagem. Esta condição pode ser exemplificada pelas distonias, hipertonia e hipotonia, paratonias, falta de coordenação motora, confusão sensorial, desorientação espacial e temporal, entre outros sinais psicomotores disfuncionais. Esses problemas 27 ilustram a variedade de relações existentes entre os sistemas mentais e os sistemas tônicos, posturais e motores. A falta de integração entre os automatismos e os fatores psicomotores impede que sejam conectados e influenciados mutuamente, levando à ausência do sistema psicomotor humano. Isso ocorre devido à falência das propriedades reguladoras do sistema, conforme explicado por Fonseca (1989). De acordo com a lógica de Maturana e Varela (1998), a organização autopoiética, que é a conexão entre os sistemas de produção de efeitos e os sistemas de integração energética do meio circundante, está ausente. Não há interações e transformações contínuas, o que gera uma espécie de entropia psicomotora e coloca em risco a unidade entre os processos e os produtos. Em tais casos, a regulação sutil dos processos motores não se estabelece, o que pode causar interferências psicológicas perturbadoras. Os processos motores requerem a intervenção de representações mentais. A apraxia (dificuldade de executar movimentos coordenados), em um nível mais grave, e a dispraxia (déficit neurológico que atua na execução de movimentos), em um nível menos acentuado, demonstram que os processos motores são gerados com a eliminação ou a distorção de imagens. Em outras palavras, as representações mentais permanecem intactas, enquanto os fatores somatognósicos (capacidade de reconhecer as próprias partes do corpo) e espaço-temporais não são integrados aos processos de elaboração frontal (responsável pelos movimentos voluntários do corpo, a linguagem e o gerenciamento das habilidades cognitivas). Como resultado dessa disfunção psicomotora, os processos motores se tornam desorganizados, inflexíveis e descoordenados, uma vez que a síntese ideomotora não ocorre de maneira eficiente. Muitos transtornos mentais apresentam manifestações tônicas e posturais que denotam uma ambivalência funcional em relação à motricidade e ao psiquismo. Em consequência, é comum que uma emoção mal integrada possa gerar reações tônicas e posturais exageradas, o que pode resultar em um aumento de efeitos atetósicos (movimentos repetitivos, lentos e involuntários) e coréicos (movimentos bruscos e involuntários, que lembram uma dança) em indivíduos com doenças mentais. As disfunções neurológicas que afetam os diferentes substratos cerebrais podem levar a alterações tanto na motricidade quanto no psiquismo, resultando em 28 uma hierarquia de síndromes psicomotoras que podem ser diferenciadas em quatro categorias principais: assinergia, hipertonia-coréia, automatismo e córtico-associativo, conforme a classificação proposta por Wallon (1963). Conforme aponta Fonseca (2008), a obra de Wallon, embora seja antiga e já tenha sofrido algumas críticas por pesquisadores mais modernos, apresenta-se como importante estudo e, portanto, digno de ser exposto, uma vez que representa um meio para a compreensão de seu alcance e visão patológica da psicmotrticidade. Na sequência, serão abordadas as quatro síndromes consideradas pela obra Walloniana, porém, descritas e atualizadas de acordo com os preceitos de Fonseca (2008). Nesse sentido, ambas possuem dois títulos: o primeiro, mais moderno, dado por Fonseca (2008) e o segundo, mais fiel à obra de Wallon. 3.2 Síndromes de insuficiência psicomotora e tipos psicomotores/ Síndrome de assinergia motora e mental Ainda segundo os estudos de Fonseca (2008), o termo "assinergia" foi criado por Babinisky em 1914 para descrever a falta de coordenação cerebelar que se manifesta principalmente como desequilíbrio e dificuldades na marcha. Esses sintomas são facilmente observáveis em bebês que dão seus primeiros passos, bem como em indivíduos embriagados. Durante esses episódios motores, o tronco oscila e as pernas se afastam para ampliar a base de sustentação. As tentativas de reequilíbrio são sucessivas, mas cambaleantes e instáveis, enquanto os braços oscilam de forma desigual, resultando em uma marcha sinuosa e ziguezagueante que revela falta de firmeza e controle postural. Em estudos realizados por Fonseca no período de 1989 a 1998, diversas ideias foram expressas, como o entendimento de que o equilíbrio humano é uma das primeiras conquistas neuroevolutivas tanto na filogenia quanto na ontogenia da espécie. Esta habilidade postural e locomotora é única entre os vertebrados e gerou adaptações neurofuncionais distintas, que contribuíram para a evolução cultural da espécie e para o desenvolvimento mental da criança. 29 A habilidade de manter o equilíbrio durante a marcha bípede e assimétrica é processada pela colaboração cinética e ajustamento tônico e fásico de todos os segmentos corporais, com a contribuição do sistema vestibular e cerebelar. Essa sinergia complexa requer adaptações constantes e uma integração neurológica cuidadosa. Por outro lado, na presença de assinergia, ocorre uma hipertonia sem plasticidade, com contraturas onerosas que parecem uma paralisia agitante e inconsistente, semelhante a uma incontinência ou persistência tônica. Segundo os ensinamentos de Ayres em 1982, a assinergia resulta em insegurança gravitacional e sinais vestibulares disfuncionais, indicando uma síndrome de insuficiência cerebelar e mesencefálica. Isso afeta diretamente os processos motores e indiretamente os processos mentais, especialmente a atenção e a concentração. A insuficiência de regulação cerebelar se manifesta não apenas na marcha, mas também na imobilidade, no equilíbrio estático e dinâmico, bem como nos movimentos finos das extremidades, como apontado por Fonseca em 1992. Estudos mais recentes também indicam uma relação entre a dislexia infantil e a insuficiência cerebelar (Fonseca, 2008). No equilíbrio, a insuficiência axial pode causar oscilações multidirecionais e reequilíbrios abruptos, sem o ajuste gradual e preciso das sinergias posturais ativas e passivas. De fato, a capacidade humana de manter o equilíbrio é essencial para a locomoção, a manipulação de objetos e a navegação no espaço, exigindo adaptações neurofuncionais complexas. Além disso, a manutenção de um estado mental disponível e seguro também depende da estabilidade postural, permitindo a seleção e processamento eficiente de informações relevantes em um determinado contexto. Em resumo, o controle postural cibernético é fundamental para o funcionamento adequado do corpo e do cérebro em diferentes situações. A falta de estabilidadeque caracteriza a assinergia motora pode levar a uma instabilidade imprecisa, negligente, oscilante e instável nos segmentos corporais, podendo até evoluir para uma assinergia perceptiva ou cognitiva, conforme exposto por Wallon (1963). Em casos mais graves, como na ataxia, essa oscilação postural pode ser visível no controle binocular dos olhos (nistagmo), acompanhada por irritações labirínticas descontroladas, que podem causar descargas tônicas incongruentes, impedindo a manutenção e focagem dos olhos em diversas posições 30 e fixações, bem como em explorações visuoespaciais estático-dinâmicas e varreduras. A postura pode afetar a micromotricidade binocular, regulada pelos centros cerebelares de coordenação ocular. Isso pode prejudicar a visão estereoscópica e as funções relacionadas à captação, extração e processamento de dados espaciais centrais e periféricos, incluindo a percepção visual e seus subsistemas e subprocessos. Essa disfunção pode afetar muitas funções mentais superiores, como aprendizagem superior, incluindo leitura e escrita. Não há dúvida de que o funcionamento psíquico requer equilíbrio e sinergias para processar, integrar, elaborar e comunicar informações. Além disso, é necessário localizar, evocar, disponibilizar e recuperar imagens, ideias e engramas que se distribuem por diversas áreas corticais, o que requer uma elaboração e planejamento de informações sensório-motoras para construir pensamentos e comportamentos. 3.3 Síndrome de hipertonia – coréia motora e mental/ síndrome de insuficiência mesencefálica ou extrapiramidal inferior e média Fonseca (2008) explica que, enquanto o cerebelo tem papel na regulação dos processos motores e posturais, os núcleos subcorticais e mesencefálicos formam um sistema responsável por mobilizar centros energéticos especializados e de coordenação motora automática. Em algumas condições patológicas, esse sistema pode assumir funções de autonomia funcional e ser isolado dentro do sistema nervoso central, formando o chamado sistema extrapiramidal. O sistema extrapiramidal (SEP) é composto pelos núcleos de células estriadas, como o núcleo caudado, putâmen, substância negra, pallidum, núcleos vestibulares, núcleo rubro, núcleos pônticos, oliva bulbar, tubérculos quadrigêmeos, entre outros. Esse sistema é responsável por diversas funções, tais como controle de automatismos, mobilização das estruturas que orientam as condutas, governação teleocinética da atividade, preparação da posição de partida e compensação plástica das forças que podem se opor à qualidade da conduta, compreensão de um sistema de interação sensório-motora, regulação dos circuitos tônico-posturais e tônico- vestibulares necessários à atividade postural e cortical, entre outras. Essas funções permitem a integração de diferentes sistemas do corpo para garantir a execução adequada de atividades motoras e cognitivas. 31 Ele ainda desempenha um papel crucial na organização dos processos motores e mentais, abrangendo diversos núcleos de células estriadas com funções distintas, como controle dos automatismos, mobilização das estruturas das condutas, regulação dos circuitos posturais e tônico-vestibulares, entre outras. Uma disfunção comum desse sistema é a atetose, que se caracteriza por uma flacidez descerebrada sem suporte para o movimento, resultando em dificuldades de controle postural, incoordenação, distonias e movimentos involuntários bizarros e coréicos, afetando a fluência cinética e a sequencialização ideocinética, bem como a inervação recíproca dos músculos. No contexto da paralisia cerebral, a atetose é caracterizada pela disfunção dos gânglios da base, o que resulta na desregulação e descoordenação dos movimentos, posturas e automatismos. Isso pode levar a movimentos anormais e involuntários do tronco e dos membros, com torções e serpenteações tônicas, especialmente quando a intenção motora precede a execução, o que compromete o controle tônico-postural e tônico-motor nas extremidades corporais. Essa condição pode levar a atrofia, hipotonia e hiperextensibilidade, e pode gerar posturas corporais fixas, como a cabeça para trás, pescoço tenso e boca aberta. Parece haver um desequilíbrio funcional e de coordenação na supressão dos processos de inibição e na ativação dos processos de facilitação, o que pode resultar em imobilizações ou gestos forçados, bem como em hipertonias, hipotonias e distonias desreguladas. Isso sugere uma certa ambivalência tônica e uma suscetibilidade emocional, que podem afetar a atividade motora e mental de forma desviante. A disfunção do sistema extrapiramidal resulta em um exagero de reflexos que não são adequadamente inibidos, o que, obviamente, interfere na qualidade e eficácia da atividade postural, motora e mental. A insuficiência do sistema extrapiramidal é caracterizada por uma flutuação dinâmica de hipo-hipertonia, que pode se manifestar tanto na motricidade (como na marcha e na preensão) quanto na linguagem (na fluência e articulação de palavras, e na grafomotricidade com sinais de disgrafia). Além disso, essa condição também pode estar associada a uma emotividade exagerada, evidenciando a conexão óbvia entre o sistema extrapiramidal e o psiquismo. Com base nessa descrição, Wallon (1963) confirma mais uma vez a relação funcional e disfuncional entre os processos motores e mentais. 32 Insuficiência essa, também conhecida como optoestriada, resulta em uma espécie de claudicação na atividade motora e mental, uma vez que as relações entre a atividade cortical e subcortical, entre a ideação e a afetividade, e entre o gesto intencional e as reações automáticas são afetadas de forma significativa. 3.4 Síndrome de automatismo motor e emocional/ síndrome de insuficiência diencefálica ou extrapiramidal superior Em termos evolutivos, os núcleos optoestriados localizados no diencéfalo representam uma forma de cérebro primitivo, sendo considerados o substrato funcional mais complexo em muitos vertebrados. No entanto, nos primatas e nos seres humanos, a camada óptica ou talâmica desempenha um papel crucial na transmissão dos feixes piramidais, atuando como uma estação de transição entre as vias eferentes e aferentes com o córtex frontal. Além disso, ela desempenha um papel central na sensibilidade orgânica protopática e na regulação das funções vasomotoras e secretórias. As lesões desses centros podem resultar em reflexos exagerados, fraquezas musculares, hipertonias e movimentos coréico-atetósicos, entre outros sintomas. Podendo desencadear reações sensíveis do sistema simpático, alterações de humor, euforia, ansiedade e, principalmente, a falta de coordenação dos automatismos pouco diferenciados, que envolvem a participação de grandes grupos musculares. De fato, é nos centros neoestriados, como o putâmen e os núcleos caudados, que as redes automáticas se integram, diversificam e se especializam. É nesses locais que os padrões automatizados e aprendidos são armazenados, proporcionando uma base e um encadeamento dinâmico para ações e gestos mais delicados e precisos, programados no córtex pré-motor e executados no córtex motor (área 4). Esses centros também abrigam áreas relacionadas à linguagem, bem como múltiplos centros envolvidos no controle de reações emocionais e expressões faciais e relacionais. Conforme enfatizado por Wallon (1963), as emoções e os automatismos estão intimamente associados. Essa associação ocorre não apenas porque envolvem ajustes sensoriomotores complexos, mas também porque há uma estreita relação 33 funcional entre a ideação e a ação, entre os objetivos e os meios utilizados para alcançá-los. A patologia optoestriada, em sua forma preferencial, demonstra assimetria nas funções motoras, com a hemiplegia sendo a manifestação mais completa. Nesse caso, ocorre uma lesão oposta à