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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE CENTRO DE EDUCAÇÃO CURSO DE GRADUAÇÃO EM PEDAGOGIA LICENCIATURA PLENA DÉBORA BORGES DE ARAÚJO AS NARRATIVAS DA INFÂNCIA SOBRE A VIOLÊNCIA FÍSICA E SIMBÓLICA NO ESPAÇO ESCOLAR NATAL/RN 2015.2 DÉBORA BORGES DE ARAÚJO AS NARRATIVAS DA INFÂNCIA SOBRE A VIOLÊNCIA FÍSICA E SIMBÓLICA NO ESPAÇO ESCOLAR Artigo apresentado ao Curso de Pedagogia do Centro de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Norte como requisito parcial para obtenção do Grau de Licenciatura em Pedagogia. Orientadora: Profª. Drª. Marta Maria de Araújo NATAL/RN 2015.2 AS NARRATIVAS DA INFÂNCIA SOBRE A VIOLÊNCIA FÍSICA E SIMBÓLICA NO ESPAÇO ESCOLAR Por DÉBORA BORGES DE ARAÚJO Artigo apresentado ao Curso de Pedagogia do Centro de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Norte como requisito parcial para obtenção do Grau de Licenciatura em Pedagogia. Orientadora: Profª. Drª. Marta Maria de Araújo. BANCA EXAMINADORA _______________________________________________________________ Prof.ª Dr.ª Marta Maria de Araújo (Orientadora) Universidade Federal do Rio Grande do Norte _______________________________________________________________ Prof.ª Drª Herli de Sousa Carvalho (Examinadora) Universidade Federal do Rio Grande do Norte ______________________________________________________________ Prof.ª Msc.ª Gilcilene Lélia Souza do Nascimento (Examinadora) Universidade Federal do Rio Grande do Norte AS NARRATIVAS DA INFÂNCIA SOBRE A VIOLÊNCIA FÍSICA E SIMBÓLICA NO ESPAÇO ESCOLAR ARAÚJO, Débora Borges de. RESUMO O referente trabalho expõe resultados de uma pesquisa executada, que discute diferentes tipos de violência, reconhecidos narrativamente por crianças de oito a onze anos de idade, no espaço escolar. Vinculada ao Projeto “Narrativas infantis. O que contam as crianças sobre a escola da infância?” (MICT/CNPq/CAPES-07/2011-2), adere à narrativa como o método de pesquisa e considera a criança como sujeito de direito. Tomando como referencial teórico os trabalhos de Bourdieu (1992, 1998); Boff (2004); Delory-Momberger (2012) e Passeggi (2011). Os dados foram coletados em uma Escola Municipal de Natal - RN, no suceder de rodas de conversas com as crianças, as quais contavam para um pequeno “Alien” como era a escola. Em análise, surgiu a menção das crianças à violência na escola de forma voluntária, no relato de situações de violência para o Alien, como algo que ocorre na rotina da escola de modo constante, trazendo a tona revolta e insegurança. Isso despontou como ponto de extrema importância aos estudos. Assim, dentre os tipos de violência eminentes, damos destaque a violência simbólica e a violência física. Ressaltamos em conclusão que, as narrativas das crianças trazem uma nova forma de acesso aos diversos tipos de violência na escola, ao desenvolvimento da pesquisa “com” a criança, e não sobre a criança, contribuindo para uma reflexão própria da criança sobre o que a sobrevêm a medida do narrar das suas experiências, e para a construção de novos saberes científicos. Palavras-chave: Narrativas Infantis. Violência. Criança. 4 INTRODUÇÃO À medida que analisamos as narrativas das crianças em uma Escola Municipal da cidade do Natal/RN, em que são apontados espontaneamente fatores convincentes que evidenciam aspectos violentos, discutiremos a violência simbólica e física nas escolas da infância ao longo deste trabalho. Reconhecendo como fonte de pesquisa (auto) biográfica as narrativas infantis, temos por pretensão utilizar de uma metodologia que nos conceda a revelar junto as crianças as dimensões da violência nas escolas regulares. A prática metodológica adotada nesta pesquisa com as crianças e não sobre as crianças, acompanha o protocolo do Projeto de Pesquisa: Narrativas Infantis. O que contam as crianças sobre as escolas da infância1. O qual é utilizado pelos integrantes do Grupo Interdisciplinar de Pesquisa, Formação, Autobiografia e Representações - GRIFAR/UFRN.2 Notabilizando a importância da percepção da criança como ator|autor de sua história, entendendo-a como sujeito de direito, reconhecemos e consideramos a criança como sendo capaz de trazer a conhecimento informações significativas para o acolhimento da infância nas escolas e para a formação de professores, tendo em vista o trabalho com a constituição do sujeito. Compreendendo que as crianças externam de forma voluntária falas carregadas de experiências que retratam a violência na escola, o objetivo deste artigo firma-se em descrever sobre os tipos de violência que narrativamente são identificados pelas crianças. Desse modo, ao reconhecer os tipos de violências percebidas, abordaremos a violência simbólica e física 1 O Projeto “Narrativas infantis. O que contam as crianças sobre as escolas da infância?”, em andamento, é financiado pelo Edital de Ciências Humanas [CNPq/CAPES 07/2011-2, Processo nº 401519/2011-2], e desenvolvido por pesquisadores de seis universidades: UFRN, UFPE, UNICID, UNIFESP, UFF e UFRR. Aprovado pelo Comitê de Ética [Parecer nº 168.818], data da Relatoria: 23/11/2012. A pesquisa integra um projeto internacional coordenado por Martine Lani-Bayle, na Universidade de Nantes, desenvolvido em rede com pesquisadores da França, Polônia, Bélgica, Suíça. 2 O Grupo Interdisciplinar de Pesquisa, Formação, Auto.Biografia, Representações – GRIFAR|CNPq – foi criado em 1999 na Universidade Federal do Rio Grande do Norte e desde então vem desenvolvendo pesquisas sobre as narrativas autobiográficas. 5 como umas das mais constantes nas narrativas infantis. Além disso, temos ainda como objetivo perscrutar os estudos sobre as dinâmicas interacionais, educativas na comunidade escolar averiguando assimilar a relação da criança com a violência na cultura escolar. Nesse contexto, esse artigo está sistematizado em quatro momentos, na primeira parte obtendo as narrativas como fonte de pesquisa, a abordagem de pressupostos teóricos da pesquisa com crianças e o seu dissertar (auto) biográfico; no segundo momento, a abordagem é da metodologia utilizada nesta pesquisa com as crianças; no terceiro nos referimos à violência física eminente nas narrativas infantis; e no quarto e ultimo tópico discutiremos as narrativas das crianças quanto à violência simbólica no contexto escolar. AS NARRATIVAS INFANTIS COMO FONTE DE PESQUISA É sabido que as crianças foram limitadas quanto aos direitos de autonomia ao longo das décadas, tendo o foco em resguardá-las de ofensas e depreciação, essas foram postas abaixo da proteção e controle dos pais, recebendo aquilo que deve ser adquirido por elas apenas ao longo da vida, com o crescimento. Assim, abordando as necessidades e as influências na manutenção da preservação mental e física da criança, sendo supervisionadas pelos adultos, mantinham-se desta forma as pesquisas com crianças, seguidas das mesmas orientações. Contudo, nos direitos de participação das crianças novas medidas foram instauradas durante a Convenção da ONU (Organização das Nações Unidas) acerca dos Direitos da Criança (ONU,1989), elas passaram a ser consideradas em tomar decisões que as atinjam e com capazes de realizarem determinadas atividades. Nisto, obtendo incluído também a moderação no direito de autonomia do adulto. Discorrendo sobre isso, Alderson (2005, p. 422) afirma: Os Direitos da Criança não podem ser exercidos de maneiras que possam ferir a criança ou outras pessoas. 6 Eles devem “respeitar os direitos e a reputação dos demais”, assim como a “segurança nacional, e a ordem, a saúde e a moral públicas” (13). Esses direitos não dizem respeito a umindividualismo egoísta, mas à solidariedade, à justiça social e uma distribuição justa. Reivindicar um direito significa reconhecê-lo a todos. A reivindicação afirma o valor e a dignidade de cada pessoa. O respeito dos Direitos da Criança promove “o progresso social e a elevação do nível de vida com mais liberdade” (Preâmbulo da Convenção). Nesse contexto, concebendo que os direitos das crianças com os direitos que são designados como direitos de participação, incorporou uma nova formulação internacional, reconhecemos também nesta pesquisa que apresentamos como ator social competente, produtora de dados e formuladora de opiniões, a criança em seu valor. Visando o sentir-se permitida a expressar-se sem opressão, é necessária e confortante a criança que a pesquisa a ser realizada faça uso de uma metodologia que a compreenda como sendo sujeito de direitos, possuidora de capacidade para refletir sobre as suas próprias experiências conferindo a elas sentidos e novos sentidos à medida que as vivencia, mesmo na mais tenra infância. Com base nisto, utilizar da narrativa como instrumento para recolher dados, nos oportuniza a obter novos elementos que descortinem ainda desconhecidos e inovadores caminhos para o ato de acolher a criança na escola. Assim, acerca desse reconhecimento da criança na pesquisa, Cruz (2008, p. 48) afirma: Conhecer as crianças permite aprender mais sobre as maneiras como a própria sociedade e a estrutura social dão conformidade às infâncias; sobre o que elas reproduzem das estruturas ou o que elas próprias produzem e transformam através da sua atuação social; sobre os significados sociais que estão sendo aceitos e transmitidos e sobre o modo como o homem e mais particularmente as crianças – como seres humanos novos, de pouca idade – constroem e transformam o significado das coisas e as próprias relações sociais. Podemos interpretar que ao operar com as narrativas infantis como fonte de pesquisa uma nova prática que testifica a criança 7 como produtora de conhecimentos é apontada, e quando essa narrativa ocorre sobre e no contexto escolar, à medida que a criança explana o que a sucede nesse meio, existe um fornecimento de conhecimento mais arranjado por ela mesma do mundo e acerca de si. Meditando nisso, é notório que a participação da criança não como objeto da pesquisa, mas como sujeito, altera o foco dos próprios assuntos de pesquisa e dos métodos, uma vez que a criança passa a ser reconhecida nos seus direitos de não ser silenciada, excluída, de falar, e, portanto não mais abordada como objeto passivo, agora ao narrar. Conquanto, entendendo o indivíduo como ser singular e o trazendo como contribuinte na/para realidade social, fazemos referência à pesquisa biográfica por Delory (2012, p. 524), a qual: O objeto da pesquisa biográfica é explorar os processos de gênese e de devir dos indivíduos no seio do espaço social, de mostrar como eles dão forma a suas experiências, como fazem significar as situações e os acontecimentos de sua existência. E, conjuntamente, como os indivíduos – pelas linguagens culturais que atualizam nas operações de biográfização – contribuem para dar existência, para reproduzir e produzir a realidade social (“linguagens” tem aqui um sentido muito amplo: códigos, repertórios, figuras de discurso; esquemas,scripts de ação etc.). Assim, é evidente que a pesquisa (auto)biográfica leva para o eixo a reflexão do homem como ser construtor de sua história. De acordo com Passeggi (2011a, p.13): A pesquisa (auto) biográfica se inscreve num movimento científico e cultural que impulsionou, nos anos 1980, o retorno do sujeito-ator-autor às pesquisas em Ciências Humanas e Sociais. Face ao declínio dos grandes paradigmas – estruturalismos, marxismo, behaviorismo – a linguagem como prática social, o cotidiano como lócus da ação e o saber do senso comum passam a ocupar um lugar central na tessitura de outros laços entre sujeito/objeto, indivíduo/sociedade, determinismo/emancipação, inconsciente/ consciência... Além disso, segundo Brockmeier e Harré (2003) a narrativa “Trata- se, antes, de uma nova abordagem teórica, de um novo gênero de filosofia da ciência”. Visto que, trazer a refletividade sobre a sua 8 narrativa e ouvir a criança, proporciona tanto a criança como ao pesquisador uma construção conjunta, a qual com a intenção de trazer novas dimensões e representações sobre a cultura escolar pode ser transmitida as seguintes gerações. Perante isso, estamos de concordância com afirmação de Passeggi (2014, p.6): O desafio de interpretar a interpretação da criança, em suas pequenas narrativas, tem exigido ainda mais cuidado, ainda mais rigor, para nos aproximarmos de suas culturas, sem nos deixar envolver pelo óbvio ou pelo espírito de análise e preocupações teóricas que ponham em risco o modo de pensar da criança. Este zelo na aproximação das culturas da infância, é captar o que é afirmado por Delory (2006) quando fala que a narrativa é o lugar onde o sujeito adquire forma, é o lugar onde há a elaboração e experimentação da sua própria história de vida. Sendo isso, de importância fundamental na produção da pesquisa com crianças, tomando as narrativas infantis como a fonte. COMPOSIÇÃO METODOLÓGICA DA PESQUISA A metodologia deste projeto de pesquisa ao centralizar a criança na investigação favorece com que a criança estabeleça dentro do seu contexto escolar uma relação entre o mundo real e o imaginário, propiciando com que ela possa falar de forma voluntariosa sobre diversos assuntos que transitam a dinâmica educacional. A metodologia utilizada no projeto compõe em seu maior número de componentes cinco crianças por roda, com o intento de que não haja atenção dedicada a uma única criança, além disso, promove pequenas rodas de conversas, nas quais as crianças possam ver umas as outras e interagirem entre elas, essa medida cria um ambiente de liberdade, e o relatar os seus pensamentos passam a ocorrer facilmente. 9 Assim, a pesquisa desenvolvida contém a realização das rodas de conversas com crianças que estão entre o 1º ano e o 4º ano do ensino fundamental I, com idade entre 8 anos a 11 anos. Em respeito e preservação a não exposição delas como nos é recomendado pelo conselho de ética, utilizamos para as crianças nomes fictícios. A primeira roda de conversa é constituída por 4 crianças, sendo todos meninos de 8 anos de idade; na segunda roda de conversa temos a participação de 3 crianças, entre elas duas meninas, uma de 9 anos e outra de 8 anos, e um menino de 9 anos de idade; quanto a terceira roda de conversa temos 4 crianças, duas meninas de 9 anos e dois meninos, um com 9 e outro com 10 anos de idade; no ultimo e quarto grupo a roda é composta por 3 crianças, uma menina de 11 anos e dois meninos, um com 9 anos e outro com 10 anos de idade. Dispondo na conversa em roda como mediador encontra-se um Alien, o qual é um alienígena apresentado às crianças como morador de um distante planeta onde não há escolas e que preferiu por sair do seu planeta para fazer visitas as instituições de ensino e conversar com as crianças sobre como é uma escola no mundo delas, com a pretensão de construir uma em seu lugar de origem. Considerando sobre isso, relata Passeggi (et al 2014, p.8): A roda de conversa se organiza em função da presença de um pequeno alienígena que vem visitar a escola. [...] A ideia do alienígena é a de provocar o distanciamento necessário à imaginação e à reflexão crítica, consideradas necessárias a um movimento de negociação cultural, de modo a possibilitar à criança lidar com eventuais conflitos e desenvolver meios de sedução e de persuasão, ao se situar diante do alienígena, para envolvê-lo naquilo que diziam. O alienígena desempenhava assim a função de mediador da construçãonarrativa, permitindo maior familiarização da criança com o pesquisador, que tenta se aproximar do universo infantil e das crianças respeitando as diferenças entre eles. Logo em seguida, são levadas às crianças perguntas inspiradas pelo protocolo do projeto de pesquisa Narrativas Infantis: o que contam 10 as crianças sobre as escolas da infância. Tendo as crianças comum liberdade de exteriorizar o que desejam acerca da escola, por meio de uma dinâmica de conversa empolgante para reflexão e relato sobre o seus dia-a-dia na escola. O encerramento da roda de conversa acontece com as crianças entregando uma mensagem ao Alien, na qual elas relatam o que ele precisará fazer para ter uma boa escola, essa mensagem pode ser um desenho produzido pelas crianças, ou entregue diretamente ao Alien durante a roda. A VIOLÊNCIA FÍSICA NAS NARRATIVAS INFANTIS De todas as formas de violência, a física é uma das que mais sobressaem nas narrativas das crianças, dessa forma, apoiamos a colocação de Charlot (2002) ao apontar que a violência na escola se passa como se estivesse convertendo-se em fenômeno estrutural e não mais acidental. Nas rodas de conversa, observamos e constatamos o que diz Boff (2014) sobre a violência física quando afirma que o uso da força individual tem como intuito o alcance de uma compensação de interesse particular. Quando as crianças estão em reflexão sobre as brincadeiras no intervalo, é observado na fala de Judson (2014) o seu aborrecimento acerca da agressão que sente pelas meninas, quando relata pouco brincar com elas. Muito pouco... dá em mim. (JUDSON 2014) Ô é essas menina aqui (apontando para Rita), a gente fica brincando de menina pega menino, ai quando a gente vai correr, ai ela pega assim e dá um tapa nas costa da pessoa... (JUDSON 2014) As crianças relatam agressividades que sucedem cotidianamente entre seus colegas de sala e entre elas, nas narrativas apresentadas. A insegurança e o medo toma lugar nos horários que deveriam ser de brincadeiras e descanso, isto é, no intervalo, o qual é apontado por Spréa (2010) como sendo um evento social que tem em suas atividades 11 as crianças como protagonistas. E é nesse evento social que temos os instantes mais conflituosos dentro do ambiente escolar, sendo um espaço de tempo constituído por brigas constantes. Semelhantemente, integramos aqui o que o documento da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura), compõem em discussão da violência física, A violência física é a face mais visível do fenômeno. [...] Em algumas situações, justifica-se o recurso da violência física como uma fonte de defesa pessoal, como atitude de proteção aos amigos mais fracos ou como uma resposta a ação de um sujeito mais forte. Em outras, aparece como uma atitude impensada diante de uma provocação. Independente da justificativa, trata-se sempre de uma forma de negociação que exclui o diálogo, ainda que seja impulsionada por múltiplas circunstâncias e se revista de uma conotação moral – como a defesa dos amigos. (UNICEF, p.46) Na medida em que as crianças foram levadas a meditarem sobre quais meios adquirem para se saírem bem na escola, elas afirmam sobre dificuldades no sucesso que deveriam ter na escola diante das continuas brigas com seus companheiros de sala. Ô, ontem a menina brigou comigo e eu que fiquei de castigo. E a professora tá de marcação com Judson... (BRUNO 2014) Podemos concluir, por verificação das narrativas que a manifestação da violência no meio escolar. [...] revela que o comportamento estudantil na atualidade quer, mais do que nunca, uma política educacional de qualidade, atendendo verdadeiramente às demandas da escola atual, bem como o envolvimento da sociedade civil no contexto educacional. [...] Dentro dessa perspectiva, é urgente uma escola que contemple ações educativas promotoras de aprendizagens conjuntas e significativas, em que os alunos possam trabalhar em grupos, inserir-se no meio em que vivem e socializarem os conhecimentos construídos coletivamente (PIGATTO, 2010, p. 304, 306). Em suma, é essencial a organização e instauração de estratégias educativas que passem ao aluno formas de trabalho em grupo, 12 permitindo a eles estabelecer vínculos de amizades sem agressões, as quais são prejudiciais a todo contexto escolar, refletindo e facultando o avanço de uma presente violência física. Sendo assim, é importante atentar para estratégias educativas promotoras de um meio harmônico que traga as crianças uma apreciação por onde estudam. A VIOLÊNCIA SIMBÓLICA NO ESPAÇO ESCOLAR Salientado ser a violência simbólica um fenômeno histórico e atual, sendo evidenciada nas desigualdades sociais, sujeição, marginalização, na peculiar violência verbal designada entre a relação de aluno e alunos, alunos e professores, alunos e pais. Está explicita, em conformidade disso, nas relações de poder. Há enfaticamente na violência simbólica um conseguimento de dominação econômica imposta culturalmente aos que são dominados, sendo posto a esses que são subjugados padrões já ordenados de como o mundo ser entendido em sua dinâmica. Existente, ainda assim, essa violência passa por despercebida na maioria das vezes no espaço escolar, porém em alguns acontecimentos ela pode se torna facilmente descoberta. Desta maneira, trazemos o que Bourdieu e Passeron (1992) afirmam, que todo ato pedagógico é determinantemente uma violência simbólica, uma vez que se impõem aos alunos em uma relação de poder aquilo que deve ser apreendido, que tem por merecimento ser ensinado, dessa forma, a ação pedagógica sustenta a reprodução da violência simbólica. Como comprova Stoer (2008, p.15): A ação pedagógica reproduz o arbitrário cultural das classes dominantes ou dominadas. A ação pedagógica (institucionalizada) da escola reproduz a cultura dominante e, através desta, a estrutura de relações de força dentro de uma formação social, possuindo o sistema educativo dominante o monopólio da violência simbólica legítima. Todas as ações pedagógicas praticadas por diferentes classes ou grupos sociais apoiam objetiva e indiretamente a ação pedagógica dominante, porque esta última define a estrutura e o funcionamento do mercado econômico e simbólico. 13 A partir das análises das narrativas infantis, considerando-as, podemos inferir que boa parte dos alunos durante a conversa pronunciou que estavam na escola para estudar, aprender e ser alguém na vida. É notório que essa afirmativa não é original do discurso infantil, todavia esse ensinamento foi socialmente (re) significado internamente na criança. Nas rodas de conversa essa incorporação do discurso é clara na fala de Bruno, Rita e Judson (2014), quando lhes são perguntado o porquê devem ir à escola, e o porquê que o Alien tem por prioridade estar fazendo o mesmo que eles: Para estudar, crescer e ser alguém na vida. (BRUNO, 2014) Para ele não ficar burro. (RITA, 2014) É, idiota, burro. (JUDSON, 2014) Em análise deste discurso, apontamos a afirmativa de Passegi e Abrahão (20012, p.12) “[a criança] justifica a sua ida a escola com o discurso herdado do projeto de si: ‘para ser alguém na vida’”. Ainda, de acordo com Cruz (2008, p.46) “As crianças não só reproduzem, mas produzem significações acerca de sua própria vida e das possibilidades de construção da sua existência”. Assim, são reproduções de significações já impostas que as crianças possuem sobre a sua vida, quando relatam sobre o ser alguém na vida, e o não ficar burro. Ao compreendermos as narrativas das crianças, podemos notar a percepção e a assimilações que a criança retém a respeito de tudo aquilo que está no mundo, no qual ela está inserida. Para a criança o ato de estudar ou trabalhar é condição necessária para umaformação, para ser considerada como pessoa, em outras palavras, é primeiramente indispensável estudar caso deseja-se obter uma identidade e ser a sociedade um indivíduo de utilidade. Esta concepção é imposta a criança em sua mais tenra idade por uma cultura em dominância. Na violência simbólica, vemos aquele que é dominado assentir as circunstâncias em modo definitivo, não as 14 resistindo, isto é, as situações são entendidas como naturais. O dominado não faz relutância contra o dominador que o oprime, não se entende como vítima da circunstância. É evidente diante da fala de Bruno e Rita (2014), essa relação na violência simbólica de dominado que não toma posição frente às condições, mas que simplesmente acatando o que lhes é determinado, quando é perguntando a eles sobre o porquê de ir à escola: Porque é obrigado. (RITA, 2014) É, é obrigado. Se a gente não for para a escola, nossa mãe é presa e a gente vai para o juizado de menor. (BRUNO, 2014) A obrigatoriedade imposta e passível de aceitação é perceptível quando Bruno e Rita dizem ser obrigados a irem à escola, não só na fala deles, mas nos gestos e expressões faciais. Bruno é nitidamente consciente de uma possível prisão da sua mãe caso ele não esteja frequentando assiduamente a escola, como também a sua ida ao juizado de menor. Bruno demonstra o “não poder fazer nada contra isso”, isto é, procura conforma-se quando relata e reproduz o discurso que lhe é inculcado. Nesse contexto, podemos averiguar no discurso de Bruno (2014) a figura de um Estado que é um promotor das relações de poder, assim como a figura de uma escola movimentada a um aparelho reprodutor de ideologia da cultura opressora. De modo formal, para o Estado a escola deve ter um tratamento igualitário para as crianças, isto é, a escola tem por dever proporcionar com que elas possuam as mesmas chances, recebendo as aulas que abordariam os mesmos conteúdos, avaliações e regras. Porém, diante da desigualdade social muitas crianças não conseguem responder as exigências apresentadas ainda um tanto obscuras na escola, devido às circunstâncias desfavoráveis de algumas crianças com relação a outras, as oportunidades são desiguais. 15 Em associação disso, apontamos para o que afirma Mendonça (1996, p. 2): A mais profunda e estrutural modalidade de violência perpetrada pelo Estado é a violência simbólica, cujo modus operandi se dá à sombra de permanente naturalização de seus objetivos e/ou alvos, configurando o que se poderia chamar de um permanente “estado de violência”, onde o que está em jogo não é a integridade física de indivíduos e/ou grupos, mas sim a integridade de sua participação cultural. O Estado como o possuidor do monopólio da violência simbólica, se revela facilitador das ações de grupos dominantes, não tendo em busca ressaltar a importância da escola como não parte de incentivação ou instrumento de resistência considerável às chances de desiguais existentes. Segundo Bourdieu (2001), o Estado por ser a instituição detentora do monopólio da violência simbólica, estabelece limites contra qualquer resistência simbólica contra esse monopólio, em outras palavras, o Estado quanto ao direito dos indivíduos de colocar-se em sua própria visão, em seus próprios princípios, o limita. Outro sinal de violência simbólica é observado nas narrativas das crianças, na expressão de quando lhes é questionado se elas gostam do bairro onde elas moram e o que tem de ruim nesse bairro que elas não gostam, sabendo que as crianças moram no bairro no qual está localizada a escola. Bruno (2014), rapidamente coloca-se: Bala, tiro, bandido! (BRUNO, 2014) Nisto, logo questionamos as crianças se há muitos bandidos onde eles moram com a mediação do Alien, Judson (2014) narra: Teeem! Olha, eu, a gente tava jogando moedinha, tem um menino que se chama Wesley e o Fábio, ai um dia a gente tava jogando bola e choveu, ai Fábio foi pra dentro da casa dele, ai quando parasse de chover a gente ia brincar mais, ai eu e Wesley ficou debaixo da árvore, ai quando parou a chuva, ai Wesley foi chamar Fábio, ai passou dois ladrão assim ô... Com duas arma! Foi, foi uma doooze. (JUDSON, 2014) 16 Atentamos que a violência simbólica pode ser encaminhada por um indivíduo ou um grupo, que se preserva ao controle do poder simbólico sobre grupos ou a outros indivíduos, ocasionando assim no dominado a avaliação de um mundo fundamentado em princípios que distinguem o que é bom, o que não é, o que é verdadeiro, o que é falso. Ou seja, a criança passa a ser resultado das relações de poder existentes, das forças sociais. Para Durkheim (2002, p. 88): O indivíduo é produto da sociedade como um todo e sua existência só se torna real mediante a atuação do Estado. Entretanto, é somente com um equilíbrio de forças entre grupos secundários e o Estado que o indivíduo pode existir de fato, afinal “é desse conflito de forças sociais que nascem as liberdades individuais” Em decorrência disso, entendemos no contexto escolar a violência simbólica apresentada no comportamento das crianças, como sendo estruturada e incorporada socialmente nelas. Assim sendo, para as crianças há uma reinteração das relações de poder e projeção das representações adultas. CONCLUSÃO Em suma, do que foi apresentado sobre a pesquisa desenvolvida com as crianças tendo por dados às narrativas infantis, compreendemos que ao ouvir a criança e semelhantemente buscar os sentidos que estão explícitos ou implícitos em suas falas possibilita-nos apresentar respostas para implicações que há no meio escolar, e colabora de forma significativa para a formação de professores. Aqui, adquirimos o desafio de realizar interpretações das próprias interpretações infantis, assim como é expresso por Passeggi (2014). Conduzindo o nosso enfoque a violência física e a violência simbólica nas escolas da infância, eminente nas narrativas das crianças, faz-nos identificar os resultados que estão sendo encontrados por meio desta pesquisa e que nos faz refletir como educadores sobre a posição tomada frente às diversas situações manifestadas não só dentro da 17 escola, mas também fora de suas paredes. O compreender a criança nos faz repensar a respeito de como colocar-se socialmente, assim como, trás a tona nos uma nova forma de pensar acerca da prática docente que desempenhamos, observamos e que estivemos enxertados. O trabalho “As Narrativas da infância sobre a violência física e simbólica no espaço escolar” trás das narrativas infantis dimensões maiores, ao entender que são elas consideráveis instrumentos de comunicação a informações de ampla utilidade na prática educativa, permeando não só o espaço da sala de aula, mas também a toda dinâmica da equipe pedagógica, e a todo contexto escolar em que o aluno se encontrar. No conjunto, na construção dos saberes científicos, a busca pelo pensar sobre a escola na pesquisa com as crianças e não sobre as crianças, propaga como formadora de opiniões, sujeito de direitos capaz de trazer contribuições significativas, a criança. Em decorrência disso, portanto, a um mundo narrado por elas, aguçamos para a expansão do nosso conhecimento. Temos a fonte primária do entendimento acerca das suas próprias percepções e experiências, como é colocado por Alderson (2005). REFERÊNCIAS BOFF, Leonardo, A voz do arco-íris/ Leonardo Boff. Rio de Janeiro: Sextante, 2004. BROCKMEIER, J. & HARRÉ, R.. Narrativa: problemas e promessas de um paradigma alternativo. Psicologia: Reflexão e Crítica, 16 (3), p. 525-535, 2003. BOURDIEU, Pierre; PASSERON, Jean Claude. A reprodução: elementos para uma teoria do sistema de ensino. 3. ed., Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1992. 18 CHARLOT, B. A violência na escola: como os sociólogos franceses abordam essa questão.Sociologias, Porto Alegre, n.8, p. 432-443, 2002. CRUZ, Silvia Helena Vieira. (Org.). A criança fala: a escuta de crianças em pesquisas. São Paulo: Cortez, 2008. Delory-Momberger, Christine. Abordagens metodológicas na pesquisa biográfica. Rev. Bras. Educ., Dez 2012, vol.17, no. 51, p. 523-536 DURKHEIM, E. Educação e sociologia. São Paulo: Melhoramentos, 1972. Educ. 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