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<p>ANÁLISE DE POLÍTICA</p><p>EXTERNA</p><p>AULA 4</p><p>Profª Bruna Leal Barcellos</p><p>CONVERSA INICIAL</p><p>Nesta aula nos debruçaremos sobre algumas visões existentes do</p><p>processo de escolha governamental. Colocaremos o foco de nossa análise nas</p><p>visões que correlacionam o papel da sociedade como ator influenciador de</p><p>políticas externas e compreenderemos, por meio de diferentes visões, a</p><p>importância de se adicionar esse grupo nas análises de política externa.</p><p>TEMA 1 – MODELOS DE ALLISSON</p><p>A crise dos mísseis em Cuba que ocorreu durante a Guerra Fria e</p><p>levantou diversas questões sobre o comportamento dos Estados e o processo</p><p>de tomada de decisão. Um dos autores que decidiu tentar responder a essas</p><p>perguntas foi Graham Allison (1971), que propôs três modelos de tomada de</p><p>decisão que poderiam ser aplicados com o intuito de compreender o que</p><p>culmina nas ações estatais.</p><p>O primeiro modelo, o modelo de ator racional, observa as decisões</p><p>tomadas como sendo as mais otimizadas para a situação presenciada (Bignetti,</p><p>2009, p. 72). Na visão racional (ou tradicional), se obtém a concepção de</p><p>escolha por parte do decisor público. Ou seja, “os acontecimentos são</p><p>concebidos como ações escolhidas pelos atores” (Fachin; Silva, p. 244). A</p><p>escolha da ação a ser tomada ocorreria por parte de um grupo de variáveis a</p><p>serem calculadas, como objetivos e valores.</p><p>Existiram dois pontos centrais nesse primeiro modelo: o primeiro seria</p><p>em relação aos custos da escolha de uma ação em específica. Se o custo</p><p>dessa ação se mostrar alta, percebe-se uma redução na escolha dessa</p><p>mesma. O segundo ponto apresenta o cenário contrário, no qual os baixos</p><p>custos de uma ação elevariam as possibilidades de que a mesma fosse</p><p>tomada (Bignetti, 2009, p. 72).</p><p>O segundo modelo, o de comportamento organizacional, observa o</p><p>Estado por meio das lentes de que ele não é individual, mas sim um conjunto</p><p>de diversas outras instituições. Por essa visão, o governo, em determinado</p><p>momento, seria a representação de um conjunto específico de instituições, e</p><p>suas ações nesse período irão ocorrer de acordo as escolhas dessas</p><p>instituições.</p><p>3</p><p>Utilizando a visão de comportamento organizacional, Allison</p><p>apresentaria três fatores a serem compreendidos: a relação entre capacidade</p><p>organizacional e escolhas; prioridade organizacional como definidoras da</p><p>implementação organizacional; implementações como reflexos de rotinas e</p><p>procedimentos operacionais que já são padrões (Bignetti, 2009, p. 73). Nessa</p><p>visão, a política é um resultado organizacional (Nanci; Pinheiro, 2019, p. 75).</p><p>O terceiro e último modelo é o de política governamental. Têm-se</p><p>nessa perspectiva da “ação governamental como resultante política” (Bignetti,</p><p>2009, p. 74). Ou seja, as ações governamentais se caracterizam como</p><p>resultados de negociações, conflitos entre outras dinâmicas entre os atores.</p><p>Por essa perspectiva, segundo Allison, para se compreender melhor as</p><p>decisões tomadas, seria necessário responder a quatro perguntas:</p><p>1. Quem são os jogadores?</p><p>2. Quais as posições dos jogadores?</p><p>3. Qual a influência de cada jogador?</p><p>4. Como a posição, influência e os movimentos de cada jogador</p><p>combinam-se para gerar decisões e ações? (Pereira; Barbosa, 2007, p.</p><p>4).</p><p>Diante das respostas dessas perguntas, seria possível compreender o</p><p>processo e os “porquês’’ das ações tomadas.</p><p>Compreendendo os três modelos de análise de decisão propostos por</p><p>Allison, partiremos no próximo tema para mais um modelo de auxílio nesse</p><p>processo: jogos de dois níveis.</p><p>TEMA 2 – JOGOS DE DOIS NÍVEIS</p><p>Putnam (1988 citado por Nanci; Pinheiro, 2019, p. 78) estabelece uma</p><p>outra visão sobre o processo de decisão externa dos Estados. Segundo o</p><p>autor, as decisões de relações internacionais dos Estados poderiam ser</p><p>observadas por meio da ótica de jogos de dois níveis. No nível doméstico</p><p>existiriam grupos de pressão, incluindo os stakeholders e grupos sociais, por</p><p>exemplo, que executariam influência sobre o governo. As ações</p><p>governamentais em ambiente internacional seguiriam a intenção de alcançar a</p><p>demanda desses grupos.</p><p>4</p><p>A imagem sobre esses níveis poderia ser a mesma de um tabuleiro, em</p><p>que ocorreria alteração das peças em cada nível. Ou seja, existiria o primeiro</p><p>estágio, no qual os líderes agiriam no cenário externo de forma a alcançar a</p><p>acordos não permanentes. No segundo estágio, a dinâmica se daria no cenário</p><p>doméstico em que o governo iria atrás de apoio dos grupos internos para</p><p>alcançar a ratificação de suas ações. A ordem dos grupos não se daria sempre</p><p>dessa forma, sendo usual observar o nível dois ocorrendo antes do nível um.</p><p>Outra contribuição de Putnam para compreender os processos de</p><p>decisão e negociações é o de winset. O winset seria o apoio que o governo</p><p>teria proveniente do nível um para o nível dois, deve ser visto como um</p><p>conjunto de vitórias. O número de vitórias influenciaria o sucesso estatal em</p><p>relação aos acordos pretendidos no nível dois. Um grande número de vitórias</p><p>contribuiria positivamente para o alcance desses acordos (Nanci; Pinheiro,</p><p>2019, p. 79).</p><p>No entanto, é importante notar que Putnam defende uma visão sobre os</p><p>jogos de dois níveis que nega a existência de qualquer hierarquia entre esses</p><p>níveis. Ou seja, no ambiente externo os grupos exerceriam sua influência e</p><p>opinião sobre os processos de decisão externa estatais, mas o próprio nível</p><p>internacional também acabaria influenciando o nível doméstico, o que Putnam</p><p>chamou de “linkage cinérgeticos” (Figueira, 2009, p. 32).</p><p>Putnam (2010 citado por Queiroz; Souza; Pinto, 2018, p. 330) utilizaria</p><p>três pontos para poder caracterizar o tamanho das coalizões domésticas e do</p><p>winset, sendo essas:</p><p>I. Preferências e coalizações do nível II: o conjunto de vitórias dependeria</p><p>de características dos grupos domésticos como as possíveis coalizões,</p><p>as preferências desses grupos e a distribuição de poder existente;</p><p>II. Instituições do nível II: trata sobre qual o nível de autonomia que o</p><p>Estado tem em cenário internacional em relação aos grupos domésticos.</p><p>Quanto maior essa autonomia, maior a chance de que o Estado alcance</p><p>um consenso no nível dois;</p><p>III. Estratégias dos negociadores do nível I: trata sobre a questão de</p><p>reputação política que o negociador teria em cenário externo. Quanto</p><p>maior o status que esse indivíduo teria consigo, maiores as chances de</p><p>ratificação (Putnam, 2008, p. 157-164; Queiroz; Souza; Pinto, 2018, p.</p><p>330).</p><p>5</p><p>O jogo de dois níveis em suma busca trazer à tona a importância da</p><p>relação entre o nível doméstico e do nível externo. Utilizá-lo na análise de</p><p>política externa é fortalecer a influência de outros atores nas ações Estatais e</p><p>negar sua participação como sendo sempre individual aos anseios presentes</p><p>em seu interior.</p><p>TEMA 3 – DIFERENTES UNIDADES DE DECISÃO EM POLÍTICA EXTERNA</p><p>As unidades de decisão, pela visão de Charles Hermann, Margareth</p><p>Hermann e Hagan (1987 citado por Nanci; Pinheiro, 2019, p. 84) seriam os</p><p>tomadores de decisão que teriam responsabilidade sobre o rumo que a política</p><p>externa de determinado país tomará. As análises sobre as unidades de decisão</p><p>seriam feitas como forma de responder a duas questões: que tipo de atores</p><p>tomam as decisões, e quais os efeitos das unidades de decisão na política</p><p>externa.</p><p>Essas unidades de decisão se dividiriam em três grupos:</p><p> O do líder que é predominante;</p><p> O grupo único;</p><p> E a coalizão de atores autônomos.</p><p>O líder de todas essas unidades poderia ser visto como aquele que</p><p>apresenta capacidade de decisão individual. Um exemplo a ser considerado é</p><p>o de presidentes.</p><p>Em relação ao primeiro grupo, o grupo de líder predominante, observa-</p><p>se que se trata de um grupo, no qual o líder teria capacidade de exercer</p><p>pressão sobre qualquer oposição a ele, ocorrendo a opressão daqueles</p><p>contrários ao líder. Nesse caso,</p><p>o líder pode ser caracterizado de duas formas:</p><p>sensível ou insensível. O líder sensível tende a tomar atitudes amparadas nos</p><p>conceitos de diplomacia e cooperação, enquanto o líder insensível se fecharia</p><p>a qualquer tipo de intervenção externa a si.</p><p>No segundo grupo, o grupo único, não há uma regra para qual deve ser</p><p>o seu tamanho. O grupo pode ser pequeno com poucos membros, ou maior,</p><p>contando com uma variedade numerosa de participantes. Nesse caso, todos os</p><p>membros do grupo apresentariam uma ação única. Há coesão e todos devem</p><p>participar do processo de decisão.</p><p>6</p><p>O terceiro grupo, o grupo de múltiplos atores autônomos, apresenta uma</p><p>característica peculiar. Nesse caso, é um grande grupo composto por diversos</p><p>grupos separados, agindo de forma conjunta, mas sem existir uma dinâmica</p><p>hierárquica entre eles. Nesse grupo, no entanto, a competição por recursos</p><p>seria uma realidade, e as políticas domésticas acabariam sendo vistas por uma</p><p>ótica de maior importância do que as políticas externas (Hebling, 2014, p. 12-</p><p>13).</p><p>Aproveitando essa discussão, é relevante citar a visão de Neak (2006</p><p>citado por Hebling, 2014, p. 13) sobre os diferentes níveis que executam</p><p>influência na decisão política. Como abordado desde a Aula 1, as influências</p><p>seriam não somente provenientes de nível governamental, mas também social.</p><p>Neak observa o nível governamental como sendo uma menção ao sistema</p><p>político, assim como de seu regime e até mesmo sua divisão de poder. Seria</p><p>nesse grupo, no qual estariam contidas as questões relacionadas as</p><p>burocracias atreladas ao governo. Já no segundo grupo, o social, existirá uma</p><p>discussão sobre as questões de economia, cultura, história entre outros temas</p><p>relacionados; seria de onde preveniriam as influências de grupos sociais,</p><p>grupos de interesse, em geral, e até mesmo da mídia.</p><p>Esses atores teriam suas ações pautadas em três pontos: o tamanho do</p><p>país; o sistema econômico do país e; o sistema político. Em relação ao</p><p>primeiro, ao do tamanho do país, consideraria-se a relação tamanho x</p><p>população; já em relação ao sistema econômico o cálculo partiria de uma</p><p>análise com base no PIB; e por último, no sistema político, o mesmo poderia</p><p>ser observado como sendo aberto ou fechado (Rosenau, 1996 citado por</p><p>Hebling, 2014, p. 14).</p><p>TEMA 4 – PAPEL DAS ESTRUTURAS DOMÉSTICAS NA POLÍTICA EXTERNA</p><p>Durante esse tema adentraremos ainda mais nas questões de influência</p><p>das estruturas domésticas sobre os decisores e suas ações na política externa.</p><p>4.1 O processo de influência doméstica na definição da política externa</p><p>Hill (2003, p. 37) defende a política externa como sendo uma análise que</p><p>não deve negligenciar a estrutura doméstica, sendo necessária a análise desse</p><p>nível em conjunto com o nível internacional já que, para Hill, sem a política</p><p>7</p><p>doméstica não existiria a política externa. A política externa não poderia ser</p><p>observada e analisada como um jogo de xadrez, no qual as regras já teriam</p><p>sido determinadas antes mesmo do início do jogo com somente um decisor. Ou</p><p>seja, não seria adequado interpretar a política externa como um aparato tão</p><p>inflexível, mas sim considerar também as influências que ocorrem e partem de</p><p>fora do âmbito internacional.</p><p>A relação de um nível com o outro seria como uma linha contínua, e não</p><p>paralela de divisão, não havendo necessariamente um posicionamento</p><p>individual de cada uma delas. As análises conjuntas de ambos os níveis</p><p>auxiliariam não somente na verificação de até que ponto a sociedade interfere</p><p>nas decisões externas, mas também na compreensão as decisões estão sendo</p><p>tomadas para o cumprimento dos anseios dos grupos presentes no campo</p><p>doméstico.</p><p>Continuando no processo de análise sobre atores sociais sobre o</p><p>processo governamental, Moravcsik (1997) argumenta sobre a visão do</p><p>governo e a relação com a sociedade em uma perspectiva liberal. Para o autor,</p><p>nessa abordagem, o governo acaba sendo uma representação dos anseios dos</p><p>grupos sociais. O governo e suas políticas então sofreriam restrições</p><p>relacionadas as “identidades, interesses e poder dos indivíduos e grupos [...]</p><p>que constantemente pressionam os decisores a criarem políticas consistentes</p><p>com suas preferências” (Moravcsik, 1997, p. 518). Outro ponto importante que</p><p>Moravcsik aborda é a representação social. Segundo o autor, as instituições</p><p>representativas decidiriam de que forma e como as coalizões sociais seriam</p><p>representadas na política externa.</p><p>Nessa dinâmica, duas ações seriam importantes. A primeira dela tem</p><p>relação com a atitude tomada pelo Estado, podendo essa atitude ser unitária</p><p>ou desagregada. Como segundo ponto, observa-se que as políticas domésticas</p><p>podem ser elaboradas de forma que as preferências do Estado atendam uma</p><p>condição racional.</p><p>O pensamento central de Moravcsik, que será importante para essa</p><p>discussão pode ser dividido em três pontos sobre o Estado e sua tomada de</p><p>decisão. O primeiro deles fala sobre como o Estado representando os</p><p>interesses domésticos no cenário externo; o segundo, sobre como as</p><p>preferências do Estado irão se alterar conforme os interesses de grupos e</p><p>8</p><p>coalizões internas; e por último, a visão de interdependência entre Estados que</p><p>guia e é guiado pelas preferências do Estado.</p><p>Por fim, pode se encerrar essa discussão citando a visão de Hill (2003,</p><p>39) de que a relação existente entre a política externa e doméstica devem ser</p><p>observadas como uma via de mão dupla. Enquanto o nível doméstico exerce</p><p>pressão para decisões serem tomadas no cenário externo, esse também</p><p>exerce sua influência sobre o campo doméstico.</p><p>Continuando no processo de análise de interferência de diferentes</p><p>atores na política. Um dos autores que trata essas relações é Risse-Kappen</p><p>(1995) que levanta algumas questões sobre como as comunidades epistêmicas</p><p>e até mesmo Organizações Internacionais executam sua influência sobre os</p><p>governos.</p><p>Indo contra uma visão totalmente estadocêntrica ou socialmente</p><p>dominada (Risse-Kappen, 1995, p. 6), o autor sugere uma abordagem em que</p><p>as relações interestatais seriam analisadas em conjunto com as relações</p><p>transnacionais. De acordo com Risse-Kappen, o grau de impacto dos atores</p><p>transnacionais e coalizões sobre as políticas variam de acordo com dois</p><p>pontos: as dicotomias nas estruturas domésticas e os graus de</p><p>institucionalização internacional.</p><p>A introdução de um ator transnacional dentro do campo doméstico</p><p>dependeria do próprio Estado que decidiria se atores internacionais teriam, ou</p><p>não, espaço dentro de seu país. A decisão estatal não estaria somente nesse</p><p>trecho da discussão de Risse-Kappen.</p><p>Como Puerari (2012) argumenta, Risse-Kappen apresenta uma visão em</p><p>relação a influência que o Estado sofre que difere da visão anteriormente</p><p>apresentada por Moravcisk:</p><p>1- O primeiro autor (Risse-Kappen) considera o Estado como um</p><p>ator independente (mas cujas políticas são influenciáveis por grupos</p><p>domésticos e transnacionais), ao passo que o segundo (Moravcsik)</p><p>não toma o Estado como um ator unitário, mas como resultado dos</p><p>jogos políticos domésticos e transnacionais.</p><p>2- Risse-Kappen focaliza nas ações de atores transnacionais em</p><p>outros países e tais interações com as estruturas domésticas destes</p><p>mesmos “países-alvo”, ignorando os jogos políticos de atores</p><p>domésticos que também fazem parte da sociedade transnacional e</p><p>que buscam influenciar não só o governo e as estruturas domésticas</p><p>do país-alvo de seu investimento, mas também as estruturas</p><p>domésticas e a política externa de seu país de origem (Puerari, 2012,</p><p>p. 10).</p><p>9</p><p>A distinção do pensamento de ambos os autores é importante, pois, nos</p><p>permite ter a visão de que a influência social sobre o Estado exista, essa visão</p><p>pode se alterar conforme a perspectiva utilizada na análise.</p><p>Outra contribuição que podemos utilizar de Risse-Kappen é sua visão de</p><p>estruturas domésticas. Para</p><p>o autor, podemos compreender essa estrutura</p><p>como sendo aquela em que existe as conexões políticas entre as instituições</p><p>do governo e da sociedade. Existiram nessa premissa três camadas de</p><p>estruturas domésticas. A primeira trataria das instituições políticas, podendo</p><p>ser centralizadas ou fragmentadas; a segunda, sobre a estrutura de demanda e</p><p>formação na sociedade civil, sendo essas fracas ou fortes e, por último, as</p><p>redes políticas, como consensuais ou polarizadas (Risse-Kappen, 1995, p. 20-</p><p>22).</p><p>Helen Milner (1997), com o intuito de compreender as razões para as</p><p>cooperações entre Estados, defende a análise de política doméstica como</p><p>importante variável para compreensão das políticas externas. Pela visão de</p><p>Milner, as decisões por cooperação no nível internacional também seriam</p><p>provenientes das demandas domésticas. Racionalização não muito diferente</p><p>da de Putnam que também correlaciona acordos internacionais com disputas</p><p>domésticas (Nanci; Pinheiro, 2019, p. 96).</p><p>Milner une sua reflexão com o conceito de poliarquia elaborado por Dahl</p><p>(1972). Para Milner o Estado não é um ator unitário, mas sim o resultado de</p><p>diferentes influências de atores que buscam alcançar seus objetivos. Com isso,</p><p>a extensão de poliarquia se daria de acordo com três pontos: interesse dos</p><p>atores no nível doméstico; instituições políticas que compartilham entre si o</p><p>poder; distribuição de informação entre os atores (Nanci; Pinheiro, 2019, p. 96).</p><p>A visão apresentada anteriormente não difere muito do que já havia sido</p><p>discutido anteriormente. Compreender a política externa é também fazer um</p><p>esforço de compreensão do nível doméstico. As relações de pressão de grupos</p><p>sobre os Estados deve ser uma variável a ser considerada, pois explica a</p><p>origem de decisões e ações governamentais.</p><p>TEMA 5 – PERSPECTIVAS COGNITIVAS E A APE</p><p>Em 1990 teve início a Virada Ideacional, uma forma crítica às teorias</p><p>institucionalistas de ciência política que não consideravam o poder das ideias</p><p>nas suas análises sobre os processos políticos. Keohane e Goldstein (1993</p><p>10</p><p>citado por Nanci; Pinheiro, 2019, p. 105) foram importantes autores desse</p><p>movimento ao contribuírem com uma classificação das ideias em três grupos:</p><p>visões de mundo, crenças de princípio e crenças casuais. Por essa visão, as</p><p>histórias não poderiam ser vistas como forma de solução para os problemas de</p><p>escolha durante três momentos: no momento em que crenças ou princípios</p><p>auxiliam os atores a ter maior clareza; o momento, no qual as ideias auxiliam</p><p>no consenso e; quando as ideias se institucionalizam e passam a fazer parte</p><p>das instituições públicas.</p><p>Os modelos cognitivos apresentam uma visão de que nem toda a</p><p>suposição ou modelos previstos pelos atores são necessariamente realizadas.</p><p>Considerando essa situação, a análise sobre política externa não poderia se</p><p>resumir somente ao campo concreto de acontecimentos, mas também ao</p><p>campo cognitivo, ou seja, o processo mental do decisor público.</p><p>Mintz e Derouen (2010, p. 8) argumentam que essa abordagem não</p><p>deve ser vista como um modelo irracional, mas sim como uma interpretação de</p><p>como a mente humana funcionaria. Os aspectos cognitivos não se resumem a</p><p>somente o âmbito não físico das ideias, mas também adicionaria a sua</p><p>discussões pontos como os custos de informação, o tempo, ambiguidade entre</p><p>outros fatores.</p><p>Parte da justificativa para esse tipo de abordagem pode ser vista na fala</p><p>de Harold e Margaret (1956), os quais argumentam que uma das formas de</p><p>compreender a dinâmica internacional é olhar para o cenário externo da</p><p>mesma forma que os decisores olham. Para isso, logicamente, teria de se</p><p>compreender seu processo de raciocínio (Nanci; Pinheiro, 2019, p. 100).</p><p>Robert Jervis entra na mesma discussão, argumentando que não há como</p><p>explicar as decisões dos atores sem compreender suas crenças, sendo essa</p><p>variável importante na compreensão de decisões que falham.</p><p>Outro ponto que pode ser trabalhado na abordagem cognitiva é o de</p><p>favoritismo motivado. Essa visão trata sobre como o favoritismo pode ocorrer</p><p>tanto por necessidades psicológicas, quanto pelo fato de determinada</p><p>alternativa estar em harmonia com alguma crença já existente. Seria por meio</p><p>da interpretação das crenças e fatos que se teria uma outra ferramenta de</p><p>compreensão do mundo (Renshon; Renshon, 512).</p><p>Variáveis como o estresse vivido pelos decisores também deve ser</p><p>somado a esse cálculo. O estresse poderia exercer influência sobre os</p><p>11</p><p>aspectos cognitivos dos tomadores de decisão, assim como tempo e ameaças</p><p>externas também demonstram um impacto na dinâmica dos atores.</p><p>Em relação à crítica para essa abordagem, entra a questão do</p><p>Individualismo Metodológico, que consideraria o comportamento dos agentes</p><p>sem considerar os aspectos sociais, criando então a problemática de uma</p><p>análise falha. Jerel Rosati (1995 citado por Nanci; Pinheiro, 2019, p. 104) critica</p><p>a dificuldade existente na correlação entre crenças e comportamentos na</p><p>abordagem cognitiva, havendo muitas vezes a negligência sobre os contextos</p><p>em que as crenças estariam inseridas.</p><p>NA PRÁTICA</p><p>Nesta aula o debate central se fez na relação entre sociedade e suas</p><p>demandas para o governo. Com isso em mente, pesquise a respeito dos</p><p>protestos que ocorreram por parte dos agricultores na União Europeia contra o</p><p>acordo da UE com o Mercosul. Faça sua leitura considerando os conceitos aqui</p><p>explicados. Sabendo que o acordo não foi ratificado devido aos últimos</p><p>incidentes nacionais, identifique os caminhos que poderiam ser tomados caso o</p><p>mesmo tivesse passado por sua ratificação. A pressão popular seria o</p><p>suficiente para pressionar a UE contra o acordo? Ou a UE manteria o acordo</p><p>por se tratar de um grupo específico no seu ambiente doméstico?</p><p>FINALIZANDO</p><p>Nessa aula colocamos o foco de nossa análise sobre a relação entre</p><p>Estado e grupos não estatais. Levando em consideração a leitura de alguns</p><p>conceitos conseguimos identificar que a relação entre os dois níveis –</p><p>doméstico e internacional – se faz presente em diversas abordagens teóricas e</p><p>metodológicas.</p><p>Seu uso pode ser justificado de diversas formas, tanto pela</p><p>compreensão de um ator de que não há Estado individual sem a presença de</p><p>grupos de pressão, ou até mesmo por meio da visão de que são esses grupos</p><p>que acabam formando o Estado.</p><p>12</p><p>Relembrando o que foi estudado anteriormente, podemos observar essa</p><p>visão que dá tanta importância a outros atores além do Estado como indo em</p><p>direção contrária àquilo que o realismo clássico tinha como objeto principal de</p><p>estudos. Seria a ascensão desses modelos de análise uma forma de</p><p>espelhamento no campo teórico do campo real? Ou podemos identificar uma</p><p>influência mútua entre teoria e realidade assim como podemos identificar</p><p>(sobre algumas perspectivas) entre o campo doméstico e internacional?</p><p>13</p><p>REFERÊNCIAS</p><p>FIGUEIRA, A. C. R. Processo decisório em política externa no Brasil. Tese</p><p>(Doutorado em Ciência Política) – Universidade de São Paulo, São Paulo,</p><p>2009.</p><p>HEBLING, M. L. Determinantes da política externa. II Semana de pós-</p><p>graduação em Ciência Política: Repensando a trajetória do Estado Brasileiro,</p><p>2014. Disponível em: . Acesso em: 16 abr.</p><p>2020.</p><p>HILL, C. The changing politics of foreign policy. 1. ed. Londres: Palgrave</p><p>Macmillan, 2003.</p><p>MINTZ, A.; DEROUEN, K. Jr. Understanding foreign policy decision</p><p>making. Cambridge: Cambridge University Press, 2010.</p><p>MORAVCSIK, A. Taking preferences seriously: a liberal theory of internationa</p><p>politics. International Organization, p. 513-53, 1997. Disponível em:</p><p>. Acesso em: 16</p><p>abr. 2020.</p><p>NANCI, F.; PINHEIRO, L. Análise de Política Externa: o que estudar e por</p><p>quê? 2019.</p><p>PUERARI, G. M. Empresariado e política</p><p>externa brasileira para a África</p><p>convergências e associações no governo Lula. Dissertação (Mestrado em</p><p>Relações Internacionais) – Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro,</p><p>Rio de Janeiro, 2012.</p><p>PUTNAM, R. D. Diplomacia e política Doméstica: A lógica dos jogos de dois</p><p>níveis. Rev. Sociol. Políti., v. 18, n. 36, p. 147-174, 2010. Disponível em:</p><p>. Acesso em: 16 abr. 2020.</p><p>http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104-44782010000200010&script=sci_abstract&tlng=pt</p><p>http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104-44782010000200010&script=sci_abstract&tlng=pt</p><p>14</p><p>QUEIROZ, V. B.; SOUZA, C. M. S.; PINTO, K. C. R. A quebra das patentes</p><p>para medicamentos antirretrovirais entre Brasil e EUA: uma análise à luz da</p><p>Teoria dos Jogos de Dois Níveis. Fronteira, v. 17, n. 34, p. 327-339, 2018.</p><p>RISSE-KAPPEN, T. Bringing Transnational relations back in: Non-state</p><p>actors, domestic structures and international instituions. 1. ed. Cambridge</p><p>University Press, 1995.</p>