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Prezada Direção de Políticas Ambientais, Escrevo esta carta movido tanto pela memória quanto pela urgência. Lembro-me de uma manhã de verão em que caminhei por uma enseada próxima ao meu trabalho: o céu era claro, o mar calmo, mas a maré trouxe detritos e algas em padrões que eu reconheci imediatamente — sinais locais de um sistema climático que vinha sendo alterado. Naquele instante, percebi que o nosso domínio sobre previsões e aquilo que chamamos de “modelagem de clima e atmosfera” não é apenas técnica: é responsabilidade social. Conto essa lembrança não para colorir um relato científico, mas para afirmar que as decisões sobre infraestrutura, saúde pública e agricultura dependem de modelos que precisam ser confiáveis, transparentes e acessíveis. A modelagem climática é um esforço científico que traduz leis físicas e processos biológicos num conjunto de equações e algoritmos. Em essência, modelos climáticos representam a atmosfera, os oceanos, o gelo e a biosfera em malhas tridimensionais que evoluem no tempo. Existem diferentes níveis: modelos globais de circulação (GCMs) que capturam grandes escalas, modelos regionais (RCMs) que refinam detalhes locais, e sistemas acoplados que incorporam interações complexas. Não se trata apenas de rodar computadores; trata-se de parametrizar processos submalha — como nuvens e turbulência — que não podem ser resolvidos diretamente. Essas parametrizações são escolhas científicas e, portanto, fontes de incerteza. Permita-me argumentar que investir em modelagem é investir em futuro. Primeiro, modelos informam cenários de longo prazo, essenciais para políticas de mitigação de carbono. Sem projeções coerentes, metas de redução de emissões tornam-se palpite, não planejamento. Segundo, modelos regionais e downscaling são ferramentas decisivas para adaptação: localizar riscos de seca, inundações, aumento do nível do mar e ondas de calor permite direcionar recursos de forma eficiente. Terceiro, a modelagem é um bem público científico: quando aberta e auditável, constrói confiança entre cientistas, tomadores de decisão e cidadãos. Assim, defendo veementemente o financiamento sustentado de centros de modelagem, a manutenção de observações in situ e por satélite, e a promoção de dados e códigos abertos. Contudo, não ignoro as limitações. Modelos NÃO são profecias; são representações com margens de erro. A famosa intercomparação CMIP demonstra que diferentes modelos podem divergir em projeções regionais. Por isso, persuado a adoção de ensembles — coleções de modelos e inicializações — como prática padrão: eles quantificam incerteza e oferecem probabilidades úteis para decisão. Além disso, é necessário investir em assimilação de dados e aprendizado de máquina de forma crítica: técnicas de ponta podem melhorar previsões sazonais e subseazonais, mas requerem validação rigorosa para evitar overfitting e vieses que prejudicam populações vulneráveis. Outro ponto argumentativo é que a modelagem climática é intrinsecamente interdisciplinar. Engenheiros, hidrólogos, ecólogos, economistas e cientistas sociais devem participar do processo, garantindo que saídas modeladas se convertam em políticas eficazes e socialmente justas. Modelos devem incorporar não apenas física, mas também vulnerabilidade humana: mapas de riscos sem análise de capacidade adaptativa não orientam bem investimentos públicos. Portanto, defendo parcerias entre institutos de pesquisa, universidades, setor privado e organizações comunitárias. Finalmente, proponho medidas concretas: 1) financiar observações contínuas (estações meteorológicas, boias, satélites) para reduzir incertezas; 2) incentivar repositórios abertos de código e dados com documentação; 3) apoiar formação de recursos humanos com programas que combinem ciências atmosféricas e ciências de dados; 4) instituir painéis regionais que traduziam saídas de modelos em recomendações de política pública; 5) integrar modelagem em exercícios de planejamento urbano e saúde pública. Essas ações não esgotam o tema, mas são passos práticos que transformam modelagem de um luxo técnico em uma ferramenta democrática de governança climática. Ao fechar esta carta, retorno à imagem da enseada. A maré não espera pela resolução de comitês; ela responde a forças físicas e humanas. Nossa tarefa é tornar previsões e cenários suficientemente confiáveis para que uma comunidade possa construir muros, plantar de forma resiliente, proteger populações sensíveis e reduzir emissões. A modelagem de clima e atmosfera, quando bem investida e socialmente integrada, deixa de ser um instrumento técnico abstrato para se tornar alicerce de justiça climática. Peço, portanto, que considerem estas reflexões não apenas como argumentos técnicos, mas como convite ao diálogo entre ciência e sociedade. Atenciosamente, [Seu nome] PERGUNTAS E RESPOSTAS 1) O que é um modelo climático? R: É um sistema matemático-computacional que simula a atmosfera, oceanos, gelo e biosfera para projetar clima passado, presente e futuro. 2) Por que há incerteza nas projeções? R: Porque modelos parametrizam processos submalha, dependem de cenários de emissões e são sensíveis a dados iniciais e escolhas físicas. 3) O que são ensembles e por que são usados? R: Conjuntos de simulações com variações de modelos e condições iniciais para estimar distribuição probabilística e quantificar incerteza. 4) Como a modelagem auxilia políticas públicas? R: Fornece cenários regionais de risco (seca, inundação, calor) que orientam investimento em infraestrutura, saúde e agricultura. 5) Quais prioridades para fortalecer a modelagem? R: Financiar observações, abrir dados/códigos, formar especialistas interdisciplinares e integrar resultados em planejamento local.