Prévia do material em texto
A economia política internacional (EPI) configura-se como um campo de investigação que tenta decifrar a interseção entre poder político, instituições e fluxos econômicos que atravessam fronteiras. Narrativamente, imagino um diplomata-economista que, ao chegar a uma conferência multilateral, encontra mapas de comércio, planilhas de balanços financeiros e, ao mesmo tempo, discursos sobre soberania. Essa cena sintetiza o cerne da EPI: não se trata apenas de números, mas de decisões coletivas moldadas por hierarquias, interesses e narrativas legitimizadoras. Historicamente, a EPI surgiu como disciplina para preencher um hiato entre economia pura e ciência política, articulando como Estados, mercados e atores transnacionais interagem. No século XVIII, práticas mercantilistas já sugeriam a ideia de que o poder econômico reforça o poder político. No século XX, crises sistêmicas — Guerra Mundial, Grande Depressão, Bretton Woods — forçaram teóricos e formuladores a repensar regras e instituições. Do estabelecimento de instituições multilaterais ao surgimento de regimes de comércio e finanças internacionais, a trajetória ilustra a tentativa contínua de regularizar externalidades e reduzir incertezas em um sistema anárquico. Teoricamente, a EPI mobiliza três matrizes analíticas principais: o liberalismo, que enfatiza ganhos mútuos do comércio e a eficiência de mercados; o realismo/mercantilismo, foco no conflito e na busca de poder relativo; e abordagens críticas como o estruturalismo e a teoria da dependência, que destacam desigualdades estruturais entre Norte e Sul. Cada perspectiva oferece leitura distinta sobre política econômica: para liberais, instituições como a Organização Mundial do Comércio reduzem custos de transação; para realistas, essas instituições são arenas onde potências promovem seus interesses; para estruturalistas, regimes econômicos reproduzem assimetrias históricas. Métodos na EPI variam entre análises empíricas rigorosas — econometria aplicada a séries temporais e painéis internacionais — e estudos qualitativos: entrevistas com decisores, análise de documentos e estudos de caso. A complementaridade metodológica é uma marca do campo, pois fenómenos como crises cambiais, padrões de investimento estrangeiro direto e redes de produção global exigem tanto modelagem quantitativa quanto compreensão processual das decisões políticas. Na prática, a EPI examina ferramentas de política econômica com alcance extraterritorial: tarifas, subsídios, sanções, controle de capitais, acordos comerciais e regimes regulatórios. O uso de tarifas, por exemplo, não é apenas medida econômica: é sinal político, instrumento de barganha e, por vezes, ferramenta de proteção de setores estratégicos. Do mesmo modo, fluxos financeiros internacionais — capitais curtos e ágeis — impõem restrições às políticas macroeconômicas nacionais, condicionando escolhas fiscais e monetárias. A narrativa contemporânea da EPI é dominada por temas como globalização e sua crise, a ascensão da China, a fragmentação das cadeias de valor e os desafios socioambientais. A liberalização promovida nas últimas décadas intensificou interdependências, mas também gerou vulnerabilidades: campanhas por reindustrialização, segurança de supply chains e políticas industriais renovadas representam respostas a choques recentes (pandemia, conflitos geopolíticos). Além disso, a emergência de um regime climático global coloca demandas por reestruturações produtivas que afetam competitividade e justiça distributiva entre países. Assimetrias de poder materializam-se em regras de governança global: quem define normas monetárias e financeiras? Quem influencia a arquitetura de comércio? Estados hegemônicos, coalizões regionais e corporações transnacionais competem e cooperam na criação de padrões. O surgimento de blocos e parcerias regionais — por exemplo, acordos de livre comércio e alianças econômicas — mostra que a governança global é tanto multilayered quanto contestada. Do ponto de vista das políticas públicas, a EPI recomenda combinações de instrumentos: abertura comercial calibrada por salvaguardas sociais; regulação financeira para mitigar volatilidade; políticas industriais para transição tecnológica verde; e cooperação multilateral para bens públicos globais. A eficácia dessas medidas depende, porém, de coalizões internas e externas, da capacidade institucional do Estado e da legitimidade das instituições internacionais. Na esfera acadêmica, novas avenidas de pesquisa surgem integrando tecnologia e poder: como algoritmos e plataformas digitais redesenham relações comerciais? Qual o papel das infraestruturas digitais na geopolítica econômica? Igualmente, a justiça global — incluindo dívida, transferências tecnológicas e financiamento climático — retorna como questão central. A interdisciplinaridade (economia, relações internacionais, direito e ciência ambiental) é imperativa para capturar complexidade. Em suma, a economia política internacional é uma lente para entender como escolhas políticas moldam e são moldadas pelos fluxos econômicos globais. É um campo normativo e analítico, que combina teoria e empiria para iluminar dilemas práticos: promover crescimento sem agravar desigualdades, conciliar soberania com cooperação, e adaptar políticas a um sistema internacional em reconfiguração. O desafio permanente é construir regras e instituições que gerem previsibilidade e equidade, reconhecendo que a interação entre poder e economia sempre produzirá tensões que exigem negociação contínua. PERGUNTAS E RESPOSTAS 1) O que diferencia economia política internacional da economia internacional? Resposta: A EPI enfatiza poder, instituições e decisões políticas; a economia internacional foca modelos econômicos e mercados. 2) Como o poder influencia regras comerciais? Resposta: Potências moldam normas por meio de barganha, condicionando benefícios e custos para outros atores. 3) Por que cadeias globais de valor são relevantes para a EPI? Resposta: Elas conectam produção, vulnerabilidades e poder de negociação entre países e empresas. 4) Quais instrumentos os Estados usam para proteger setores estratégicos? Resposta: Tarifas, subsídios, regulações, controles de investimento e políticas industriais. 5) Como a mudança climática impacta a governança econômica global? Resposta: Exige cooperação para bens públicos, redesenho industrial e financiamento para transição justa.