Prévia do material em texto
enzimologia e níveis de enzimas no plasma Enzimologia é a ciência que estuda as enzimas e sua natureza química, as funções biológicas e as alterações, bem como o seu significado como biomarcador. Enzimas são proteínas que atuam acelerando reações químicas, agindo como catalisadores; portanto, sob determinadas condições. Esses compostos proteicos globulares têm alto poder catalítico, grau elevado de especificidade ao seu substrato, não sendo consumidos após as reações químicas nas quais estão envolvidos. É parte da sua atividade não influenciar ou alterar o equilíbrio químico das reações, sendo reguladas por via genética ou pelas condições metabólicas. A atuação como enzima não é função exclusiva de proteínas, pois já foram descritas moléculas de RNA, denominadas ribozimas, que também executam a mesma função. A especificidade de cada enzima é determinada por características de uma cavidade ou sítio de ligação ao substrato, alocado na sua superfície. Essa denomina-se sítio ativo, uma ordenação de grupos presentes em cadeias laterais de alguns aminoácidos que se acoplam ao substrato a partir de ligações não covalentes. A ligação enzima-substrato ocorre pela complementaridade, em um modelo chave e fechadura ou sítio-específica. COENZIMAS Moléculas orgânicas, frequentemente, derivadas de vitaminas, a exemplo do FAD e do NAD. COFATORES Íons metálicos de transição, já que os metais são essenciais à catálise, como Fe2+, Zn2+ e Cu2+. Um sistema de nomenclatura e categorização enzimática foi acatado pela União Internacional de Bioquímica e Biologia Molecular (IUBMB) e nos permite identificá-las em seis classes, combinadas com a natureza da reação química que catalisam: OXIDORREDUTASES Atuam nas reações de óxido-redução, removendo átomos de hidrogênio ou adicionando átomos de oxigênio. TRANSFERASES Agem fazendo as transferências de grupos funcionais, a exemplo dos grupos metil (-CH3). HIDROLASES Catalisam reações de hidrólises como a quebra de lipídeos e de proteínas. LIASES Quebra de ligações químicas duplas, removendo CO2 de alguns substratos (descarboxilação). ISOMERASES Catalisam reações de isomerizações, convertendo moléculas às suas formas cis ou trans. LIGASES Atuam na formação de ligações químicas, como as sintetases. Certos fatores podem perturbar a atividade enzimática, dentre os principais, temos: temperatura, pH, concentração do substrato, tempo e produto da reação. Além dos já citados, vale ressaltar a importância da integração das enzimas nas vias metabólicas e a interrelação dos produtos de uma via com outras. As vias metabólicas não operam em capacidade máxima o tempo todo. Diversos processos celulares podem ser interrompidos, inibidos ou ativados, durante certas fases do ciclo vital, por influência enzimática; entre eles estão aqueles que permitem um crescimento celular controlado e econômico. Em se tratando das concentrações e atividades de certas enzimas, podemos observar que o mecanismo de controle é mediado por: Controle genético - Controla indução ou repressão enzimáticas. Modificação enzimática covalente - São reações químicas reversíveis, catalisadas por outras enzimas, o que resulta na ativação ou inibição. Regulação alostérica - Quando as enzimas são reguladas por moduladores ligados a outro(s) sítio(s), sofrendo modificações conformacionais não covalentes. Compartimentalização - A síntese de algumas enzimas como moléculas precursoras, denominadas zimogênios/proenzimas, de início inativas, e que são ativadas em seguida pela clivagem de ligações peptídicas específicas. As enzimas podem ser plasma-específicas, secretadas e celulares. Durante algumas situações, já bem estabelecidas, ocorre o aumento na liberação plasmática de enzimas, como, por exemplo: Lesão celular extensa (por isquemia ou toxinas). Proliferação e aumento da multiplicação/renovação celular (elevação da fosfatase alcalina por restauração óssea pós-fraturas). Índices elevados de produção enzimática (aumento da gama-glutamil transferase em etilistas). Obstrução dos ductos pancreáticos, o que pode resultar no extravasamento de enzimas digestivas (amilase e lipase pancreática) para as ilhotas de Langerhans (ou Ilhotas pancreáticas), causando inflamação pancreática. Isoenzimas e isoformas Isoenzimas são formas múltiplas de uma enzima que catalisam uma mesma reação bioquímica, mas com estruturas moleculares um pouco diferentes que possibilitam a separação por eletroforese. Em geral as isoenzimas estão em diferentes órgãos em concentrações caraterísticas. Creatinoquinase Sua função ocorre nas células musculares (esqueléticas e cardíacas), no armazenamento de creatina fosfato; é altamente energética. Está associada aos sistemas de geração de adenosina trifosfato (ATP) nas contrações ou transporte celular. A CK catalisa a reação de fosforilação reversível da creatinina, às custas de ATP, formando creatina fosfato(Ou fosfocreatina.). A creatinoquinase está distribuída amplamente nos tecidos e órgãos, e é bastante elevada no músculo esquelético, cérebro e coração. É um dímero composto sempre por subunidades M (muscular) e/ou B (cerebral), com as suas isoformas: CK-BB ou CK-1, CK-MB ou CK-2 e CK-MM ou CK-3. Duas isoenzimas macromoleculares têm sido consideradas como causa de falso positivo para a CK-MB: CK-BB ou CK-1, CK-MB ou CK-2 e CK-MM ou CK-3 CK-BB ou CK-1 - mais comum no cérebro, raramente no sangue. CK-MB ou CK-2 - mais comum no coração/miocárdio. CK-MM ou CK-3 - músculo esquelético. Macro CK tipo 1 A macro tipo 1 é um complexo de CK-BB ou CK-MM ligado a IgG ou IgA Macro CK tipo 2 A macro CK tipo 2 é um complexo oligomérico de origem mitocondrial e está associada a neoplasias. De grande importância, a CK pode variar de acordo com sexo, idade, massa muscular, atividade física e etnia. Seus níveis séricos podem estar elevados na: distrofia muscular progressiva (de Duchene), miosite viral e polimiosite, hipertermia maligna, polimiopatia necrosante, uso de drogas de abuso e estados psicóticos agudos. Lactato desidrogenase (LDH) Essas enzimas e suas isoenzimas têm função de oxidorredutases, catalisadoras da reação reversível do lactato ao piruvato, por ação da coenzima NAD, que irá doar ou receber os hidrogênios. Amilase e lipase – pancreatite e seus achados laboratoriais A amilase é uma enzima fundamental ao metabolismo digestivo; age como hidrolase, catalisa a conversão do amido e do glicogênio que adentram o sistema digestivo pela alimentação. A amilase secretada pelas glândulas salivares (S) hidrolisam o amido ainda no processo de mastigação e salivação, e células acinares pancreáticas (P) secretam parte da amilase sérica no trato gastrointestinal, via ducto pancreático, agindo no duodeno. Há também atividade dessa enzima no líquido seminal, nas tubas uterinas, nos pulmões, músculo esquelético estriado e tecido adiposo corpóreo. O aumento dos níveis séricos da amilase pode decorrer de pancreatite aguda, além de trauma, carcinoma ou abscesso pancreático, parotidite, doenças do trato biliar, trauma cerebral, cetoacidose diabética, alcoolismo agudo e uso de drogas. Essa situação é terminologicamente tratada por hiperamilasemia. no caso de hipoamilasemia(Baixa concentração de amilase plasmática.), seus valores decrescidos têm correlação com doença renal, câncer de pulmão, síndrome de Meigs (ascite e fibroma de ovário) e lesões nas glândulas salivares. Na pancreatite aguda (PA), os achados laboratoriais apontam para a hiperamilasemia, processo inflamatório do pâncreas, que se apresenta edemaciado, hemorrágico e com necrose, estando os níveis de amilase sérica aumentados entre 2 e 12 horas após a epigastralgia(Dor na região epigástrica.) constante; a proporção do aumento não tem ligação direta com a gravidade de cada caso. Aproximadamente 20% dos indivíduos com PA apresentam índices dentro da normalidade desse analito. Junto com a hiperamilasemia,é fundamental avaliar os demais marcadores que auxiliam no fechamento do diagnóstico, são eles: amilase urinária, depuração da amilase, isoformas da amilase e lipase. Esse quadro também é acompanhado de leucocitose, hiperglicemia, aumento da concentração sérica de LDH e da enzima alanina aminotransferases (ALT), além da elevação do hematócrito, redução do cálcio sérico e hipotensão arterial. A lipase é uma enzima produzida exclusivamente pelo pâncreas; hidrolisa os triglicerídeos, pelo rompimento das ligações éster nos átomos de carbono 1 e 3 dos triglicerídeos em 2-monoacil-glicerol. Trata-se de uma enzima muito específica, atuando em ambiente que contém os sais biliares e necessitando de um cofator enzimático, a colipase. Dosagem de enzimas no soro Aqui, você vai conhecer abordagens analíticas para a medida da atividade enzimática e tipos de métodos empregados em um laboratório clínico. Os métodos de análise e diagnóstico em Bioquímica Clínica, para a avaliação das enzimas, têm evoluído bastante ao longo do tempo. O laboratório clínico atualmente emprega técnicas automatizadas para seus ensaios e dosagens enzimáticas no soro, urina, ou líquido cefalorraquidiano, por exemplo, mas há diversos ensaios disponíveis quando se almeja identificar e/ou quantificar as enzimas nos principais fluidos biológicos. Ainda que haja métodos diversificados, note que alguns serão comumente empregados na maioria dos laboratórios clínicos. As análises de biomoléculas podem ser executadas de modo a alcançar resultados qualitativos, de presença ou ausência em uma amostra, ou quali-quantitativos, pela determinação da presença e quantidade em um determinado material biológico, métodos ópticos, como a colorimetria e a espectrofotometria, baseiam-se na capacidade de algumas soluções absorverem/transmitirem a luz que incide sobre uma solução, a partir de fonte luminosa. Essas medidas caracterizam índices de absorbância e transmitância, postulados pela Lei de Lambert-Beer. Repare, a cubeta com líquido azul que é uma solução de amostra. A diferença entre a luz incidida (amarelo escuro) e luz que atravessa (amarelo claro) se traduz na forma de absorbância e indica a concentração, maior ou menor, da solução. Considerando que a luz é uma radiação eletromagnética composta de comprimentos de ondas(Comprimentos de ondas são medidos em nanômetros (nm).), as análises colorimétricas são baseadas no princípio da absorção da luz visível pela substância a ser dosada; na espectrofotometria, o espectro de luz absorvido apresenta comprimentos de onda entre o ultravioleta e o infravermelho. Portanto, quanto mais elevada a concentração do analito pesquisado, maior a absorção de luz pela solução (absorbância), sendo grandezas diretamente proporcionais. Métodos para determinar a amilase Amiloclástico (Iodométrico) Método que se baseia na capacidade do iodo em se combinar com o amido e gerar uma coloração azul intensa na reação; após a amilase agir num substrato por certo tempo, a cor azul em sua intensidade é medida, e assim sabe-se o teor de amido restante. Essa é a técnica de Van Loon modificada por Caraway. Cromolítico Método que emprega amido complexado a um corante, compondo um substrato complexo insolúvel. Ao interagir com a amilase, forma pequenas porções de corante-substrato solúveis em água medidos por fotometria, e pode ser automatizado. Turbidimetria, nefelometria e de polarização fluorescente Titulometria Usando-se uma emulsão tamponada de azeite de oliva (substrato), é feita uma incubação com o soro teste por 24 horas, e a titulação dos ácidos graxos liberados é feita com hidróxido de sódio, empregando-se a fenolftaleína como agente indicador. Turbidimetria ou nefelometria Oferecem rapidez e simplicidade em sua execução, monitorando a turvação/turbidez de uma mistura/emulsão de azeite de oliva resultante da ação da enzima lipase sobre um substrato. Enzimático A lipase hidrolisa triglicerídeos como seu substrato, gerando glicerol livre que pode ser quantificado. métodos para determinar a fosfatase alcalina (FAL) Beta-glicerofosfato Método que quantifica a liberação do Pi (fosfato inorgânico) do beta-glicerofosfato, após a ação da FAL. p-nitrofenilfosfato Neste método, a atividade da FAL é medida pelo quantitativo de fenol liberado do p-nitrofenilfosfato, após sua incubação com o soro. Fisiopatologia do infarto agudo do miocárdio (IAM) As doenças cardiovasculares podem afetar o coração e os vasos sanguíneos; grande destaque para a doença arterial coronariana, que envolve dor no peito e infarto agudo do miocárdio, sendo a maior causa de morbimortalidade no mundo. Segundo o Ministério da Saúde (2019), no Brasil, por ano, 300 mil pessoas sofrem IAM, ocorrendo óbito em 30% dos casos. Miocárdio O miocárdio é um tecido muscular cardíaco, formado por fibras musculares estriadas cardíacas, anastomosadas(Quando há comunicação entre dois vasos ou canais.), compondo a parte contráctil do coração. Miocárdio e células cardíacas musculares. A região mais interna chama-se endocárdio e a mais externa, epicárdio. O músculo é envolto por um saco fibroso, o pericárdio, e por um líquido que forma uma barreira contra choques mecânicos, o líquido pericárdico. Pode ocorrer a morte do tecido(Necrose.) de parte do músculo cardíaco por carência de oxigênio, quando a artéria coronária fica obstruída. Tal evento é conhecido informalmente como “ataque cardíaco”. Essa obstrução pode ocorrer especialmente pela formação de um coágulo em uma área previamente comprometida por aterosclerose(Placa de ateroma.), provocando estreitamentos do espaço interno dos vasos sanguíneos do coração. Infarto agudo do miocárdio Observando os processos patológicos, ocorre a necrose irreversível do músculo cardíaco, como resultado de isquemia (perda do suprimento do sangue). Esse processo é ocasionado pela aterosclerose, um processo inflamatório localizado dentro da parede arterial na forma de placas de ateroma, que diminui o lúmen arterial, em geral, nas artérias coronárias e, consequentemente, o suprimento sanguíneo de determinada região tecidual. O rompimento da placa, gera a trombose no local da lesão vascular e formação dos êmbolos com a oclusão total do vaso, levando ao infarto ou falência do miocárdio. Infarto agudo do miocárdio. De início, o processo de isquemia(Ausência/má oxigenação.) é detectado e pode culminar no IAM. A extensão da lesão varia de acordo com a obstrução da coronária, o grau de circulação colateral do indivíduo e as demandas de oxigênio dos tecidos alimentados pela artéria. Existe uma tríade sintomatológica marcadora do IAM, que se dá pela presença de dor precordial, alterações no eletrocardiograma (ECG) – elevações dos segmentos ST e da onda Q – e enzimas cárdio-específicas elevadas na dosagem quali-quantitativa, sendo estes marcadores verificados rotineiramente em casos suspeitos de IAM A síndrome coronariana aguda (SCA) engloba os denominados eventos isquêmicos do miocárdio, desdobrando-se desde angina, injúria tecidual reversível e angina instável até infarto do miocárdio e extensa necrose tissular miocárdica. O desafio diagnóstico naqueles pacientes que referem queixa de dor precordial tem sido, tradicionalmente, o de firmar ou excluir a existência de lesão miocárdica. Para o diagnóstico de IAM, devem ser preenchidos, ao menos, dois dos seguintes requisitos: Sintomas clínicos sugestivos de isquemia miocárdica superiores a 30 minutos de permanência. Alterações no ECG correlacionáveis com lesão miocárdica. Ascensão seriada na atividade de enzimas cardíacas séricas dosadas. Cerca de 20% dos IAM não apresentam sintomas marcantes, além de ausência de ECG característico (sem elevação do segmento ST) em alguns pacientes. Na Enzimologia Clínica, são dosadas: a CK, LDH, e as isoenzimas de ambas, e menos frequentemente as transaminases (particularmente a AST, aspartato-aminotransferase).Há períodos específicos para os quais cada marcador enzimático se faz mais eficiente, após o surgimento dos primeiros sintomas do IAM. A relação tempo/detecção pode variar entre os pacientes, mas pode-se basear as análises em valores padrão. Marcadores clássicos do IAM (enzimas) Creatinoquinase total e CK-MB, lactato desidrogenase total e LDH-1 e aspartato-aminotransferase (AST) são marcadores clássicos do infarto agudo do miocárdio. Como visto anteriormente, a enzima CK catalisa a reação de fosforilação, reversível, da creatinina pelo ATP, formando creatina fosfato. Ela é distribuída amplamente nos tecidos e órgãos, mas mostra-se bastante elevada no músculo esquelético, cérebro e coração, e seus valores séricos podem variar com o sexo, idade, massa muscular, atividade física e etnia, elevando-se em diversas situações. A sua fração CK-MB ou CK-2 é a mais comum no coração/miocárdio. A CK-MB existe em grandes quantidades no miocárdio e pode ter seus níveis séricos aumentados de forma expressiva. Sua elevação média após o infarto é de 10 a 20 vezes o limite superior da normalidade e, devido à curta meia-vida, retorna rapidamente aos valores de normalidade. O CK-MB pode ser expresso por porcentagem do CK total – esses valores vão de 3 a 6. Apresenta alta especificidade, principalmente se há suspeita de IAM e se os valores começam a aumentar de 4 a 8 horas após a dor precordial, com pico máximo entre 12 e 24 horas. É relevante ressaltar que nos casos mais brandos, sem complicações, os valores de CK-MB retornam aos níveis basais de 48 a 72 horas após o infarto. Para tornar ainda maior a especificidade no IAM, analisam-se outros marcadores, como as isoenzimas da LDH (LDH-1), que deve ser dosada periodicamente nas 48 horas ou mais após o episódio, para observar aumentos e diminuições típicas desse analito. Marcadores modernos do IAM (enzimas e outras proteínas): mioglobinas e troponinas Existem outros testes classificados como não enzimáticos para o IAM. A mioglobina, uma proteína do tipo heme, que se liga ao O2 nos músculos, compõe cerca de 2% das proteínas musculares e localiza-se no citoplasma dessas células. Logo, quando há lesão muscular durante o IAM, ocorre a liberação da mioglobina na circulação, cerca de 2 horas após a dor precordial. Seus picos máximos ocorrem de 6 a 9 horas após o evento, normalizando-se entre um e dois dias após o IAM. Outras situações em que a mioglobina está elevada no plasma: cirurgia de coração aberto, atividade física intensa, lesão muscular, atrofia muscular progressiva genética, deficiência renal grave e aplicação de injeção pela via IM(Via intramuscular). A proteína deve ser dosada, para fins de diagnóstico do IAM, de 2 a 12 horas após o infarto, pois se difunde rapidamente pela circulação, devido o seu baixo peso molecular. A troponina, uma proteína importante para a contração muscular, tem sido utilizada como um excelente marcador do IAM. O aparelho miofibrilar das células musculares contráteis, o sarcômero, contém proteínas denominadas troponinas, com as seguintes subunidades: Troponina I, inibidora de actina, presente no músculo esquelético e coração. Troponina C, ligada ao cálcio e reguladora da contração. Troponina T, ligada à miosina, ou tropomiosina.As isoformas da troponina mais usadas em diagnóstico do IAM são: troponina T (cTnT), que eleva-se por 4 a 6 horas, e fica aumentada de seis a dez dias após o infarto; e troponina I (cTnI), que aparece no plasma de 4 a 6 horas após o IAM, com pico de 10 a 12 horas, ficando elevada de quatro a sete dias. Elas são liberadas quase que simultaneamente à CK-MB. Metabolismo mineral e ósseo O osso é um tipo de tecido conjuntivo cujas funções são a sustentação do corpo, a proteção do sistema nervoso central e da medula óssea; desempenha também importante papel no metabolismo dos minerais. Do peso seco dos ossos, 75% são representados por sais minerais inorgânicos, como o fosfato de cálcio e o carbonato de cálcio. Os minerais (fosfato de cálcio) estão combinados na forma de cristais de hidroxiapatita. Há ainda, em quantidades proporcionalmente menores, magnésio, sódio, potássio, estrôncio, zinco, fluoreto, cloreto e sulfato; esses fortalecem a estrutura esquelética dos ossos. A matriz orgânica, 25% do peso ósseo, é formada por fibras de colágeno (ricas em prolina e hidroxiprolina), albumina, mucoproteína, sulfato de condroitina, ácido hialurônico, osteocalcina e pequenos peptídeos. Fisiologicamente, o osso encontra-se em contínuo remodelamento, ou seja, em processos de destruição e renovação que mantêm os níveis séricos de cálcio e fósforo constantes, retirando ou fornecendo esses elementos aos ossos. Todo esse processo é orquestrado por hormônios e ocorre dentro do osso trabecular, um importante reservatório de minerais. O metabolismo mineral e ósseo e seus estudos correlatos permitiram, ao longo do tempo, melhor compreensão da fisiopatologia das doenças ósseas. Nota-se uma melhoria da sensibilidade e maior especificidade na detecção desses marcadores, por exemplo, do cálcio fosfato e magnésio. Neste módulo, cada um desses minerais será analisado, bem como seus índices discrepantes de referência e as enfermidades metabólicas ósseas mais relacionadas. Cálcio O cálcio do organismo, em sua quase totalidade – 99% –, está armazenado nos ossos; o mínimo restante desempenha funções significativas não relacionadas à rigidez do esqueleto e sustentação do corpo. As diversas funções do cálcio na fisiologia humana têm destaque nos diversos meios celulares: INTRACELULAR Condução neuromuscular de impulsos, manutenção do tônus muscular, regulação de glândulas endócrinas e exócrinas, metabolismo do glicogênio, interação com a calmodulina e integridade da membrana celular. EXTRACELULAR Mineralização óssea, coagulação sanguínea e potencial elétrico da membrana plasmática. ESQUELETO Armazenado e mobilizado, quando necessário, participando do remodelamento esquelético. No organismo, o cálcio plasmático é encontrado em três estados físico-químicos: cálcio livre ou iônico (50%); cálcio ligado às proteínas plasmáticas (sendo 40% ligados à albumina); e cálcio ligado a ânions difusíveis (10%), como o HCO3-, H2PO4-, lactato, citrato e HPO42-, chamados de cálcio complexado. O cálcio fisiologicamente ativo é o cálcio iônico, regulado por hormônios e pela vitamina D, e que consegue ultrapassar as membranas plasmáticas. Controle do metabolismo do cálcio O controle é exercido homeostaticamente, seja pela ingestão na dieta, seja pela formação e desintegração óssea, além da absorção e excreção desse mineral. Os moduladores principais do cálcio no organismo são os paratormônios (PTH), secretados, principalmente, pela manhã, pelas glândulas paratireoides, responsáveis por controlar a hipo ou hipercalcemia. Os PTH atuam: regulando a absorção intestinal de cálcio e fosfato, pois ativam a transição da 25-hidroxivitamina D a 1,25-diidroxicolecalciferol, forma ativa biológica da vitamina D; nos rins, ao aumentar a reabsorção de cálcio e a excreção do fósforo; e nos ossos, mobilizando a atividade dos osteoclastos(Células de reabsorção óssea.), bem como sua quantidade, deslocando o cálcio para fora das células. O outro fator relevante que merece atenção é a vitamina D (1,25-diidroxicolecalciferol ou calcitriol ou DHCC), um grupo de esteróis sintetizado pela pele após a exposição à radiação solar ou absorvidos no intestino. Hipercalcemia Esse é o nome que se emprega quando o cálcio sérico total se encontra em níveis acima da referência, em geral, 10,5 mg/dL. Normalmente, essa condição decorre de hiperparatireoidismo(Aumento da produção do hormônio paratormônio.) primário ou câncer, com ou sem envolvimento ósseo e mieloma múltiplo. Pode também ocorrer taxas variáveis de fósforo sérico, hiper ou hipofosfatemia(Diminuição da concentração plasmática de fosfato.) e níveis da FAL (fosfatase alcalina) elevados. Além disso, ahipercalcemia está ligada a condições de hipervitaminose D, doenças endócrinas, imobilizações de membros inferiores ou superiores por tempo prolongado, insuficiência renal, terapia com lítio, uso de alguns diuréticos e aumento da concentração plasmática de proteínas. Há sintomas pouco específicos na maior parte dos pacientes, porém, pode-se perceber que alguns relatam fadiga, arritmias, fraqueza e mal-estar, com poliúria e polidipsia. Hipocalcemia A hipocalcemia pode ser acompanhada de hipoalbuminemia, insuficiência renal crônica (IRC), síndromes que causam deficiência da vitamina D, pancreatite aguda, baixos níveis de magnésio, hipoparatireoidismo, tetania, fase de cura de doenças ósseas e após fraturas. Raramente, há sintomas, mas pode ocorrer irritabilidade neuromuscular (tetania). Determinação do cálcio total Antigamente, essa dosagem era determinada pela precipitação do cálcio pelo oxalato, com posterior titulação da amostra com permanganato ou EDTA, com indicador Cal-red, purpurato de amônio e negro de eriocromo T. Atualmente, as dosagens são pelo método da o-cresolftaleína, medida por espectrofotometria, na qual forma-se cor vermelha após a reação do cálcio e a o-cresolftaleína complexona. É possível também realizar-se por espectroscopia de absorção atômica ou diluição isotópica. Determinação do cálcio livre ou ionizado A dosagem de cálcio ionizado é feita por eletrodo íon seletivo em amostras de soro, método que não é sensível ao cálcio ligado a proteínas. Além do soro, pode-se utilizar sangue total com heparina em emergências, além do plasma, mas não são as amostras-padrão. Essa metodologia emprega eletrodos de membrana que respondem seletivamente a alguns íons, medindo o potencial de um íon em solução. Esse eletrodo de membrana e um eletrodo externo de referência são imersos em uma solução de interesse. Como os potenciais de referência apresentam valor constante, qualquer modificação da concentração de um íon na célula é verificada. cálcio urinário A dosagem de cálcio urinário, conhecida por calciúria, é determinada da mesma forma que a dosagem no soro e no plasma, mas como amostra utiliza-se a urina de 24h. Essa medida nos permite analisar alguns aspectos relativos ao cálcio total urinário: níveis de absorção intestinal desse mineral, reabsorção óssea e filtração/reabsorção tubular renal. Fosfato No nosso organismo, o fósforo pode ser encontrado na forma inorgânica – forma de tampão fosfato sanguíneo e na cascata de fosforilação do crescimento celular – ou na forma orgânica –presente na composição dos ácidos nucleicos, fosfolipídios de membrana, fosfoproteínas, ATP e NADP. No organismo, a maior parte do fósforo corporal (85-90%) encontra-se nos ossos, na forma de hidroxiapatita inorgânica. Além disso, uma pequena concentração (10-15%) encontra-se em tecidos moles, como músculos, hemácias e tecido nervoso. No plasma sanguíneo, encontramos apenas 1%, que estão ligados a proteínas (10-20%) ou nas formas iônicas (ânion livre e complexada com sódio, magnésio ou cálcio). Hiperfosfatemia Se, ao mensurarmos os níveis plasmáticos do fosfato, eles superarem o valor de 5 mg/dL, estaremos diante de um quadro de hiperfosfatemia. Esse achado pode ser correlacionado diretamente à hipercalcemia, uma vez que vai ocorrer aumento da concentração plasmática do cálcio, com redução da síntese da vitamina D, e a reabsorção óssea mediada pelo PTH ficará bloqueada. Este fenômeno pode decorrer da redução na excreção do fosfato pelos rins; aumento da ingestão dessa substância, causada por medicamentos; doenças endócrinas; aumento das reações catabólicas ou dano às células; acidose. A hiperfosfatemia pode levar a um estado mental alterado, hipotensão, insuficiência cardíaca e até mesmo catarata. Hipofosfatemia A redução nos níveis séricos de fosfato pode ser devido à abstinência de álcool e cetoacidose diabética. Caracteriza-se como leve, moderada ou grave, ao oscilar de 2 a