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DOENÇA DE CHAGAS
• A tripanossomíase americana – também conhecida como doença de Chagas ou
moléstia de Chagas – foi descrita em 1909 pelo médico e cientista brasileiro Carlos
Chagas, após sua estadia em Lassance, no norte de Minas Gerais.
• É considerada uma doença tropical negligenciada e sem tratamento efetivo.
• O barbeiro, inseto vetor, pertence à família Reduviidae e ao gênero Triatoma, Rhodnius
e Panstrongylus.
o São hematófagos, alimentando-se exclusivamente de sangue de mamíferos,
aves e répteis, com maior atividade durante a noite.
o São encontrados principalmente em habitações rurais precárias, como casas de
pau a pique e galinheiros.
o A preferência pela face ao picar os humanos deve-se ao fato de ser uma área
exposta durante o sono e com pele mais fina e vascularizada.
EPIDEMIOLOGIA
• É endêmica na América Latina, afetando principalmente populações de áreas rurais.
• Estima-se que cerca de 6 a 7 milhões de pessoas estejam infectadas em todo o mundo,
com aproximadamente 30.000 novos casos anuais e cerca de 14.000 óbitos por ano.
• A cardiomiopatia chagásica ocorre em 20% a 30% dos indivíduos infectados
cronicamente, podendo se manifestar décadas após a infecção inicial.
ETIOLOGIA
• É causada pelo Trypanosoma cruzi, um protozoário flagelado pertencente ao filo
Euglenozoa.
• O principal modo de transmissão é o vetorial, o qual se associa ao contato das fezes do
triatomíneo infectado pelo patógeno com a mucosa ou as lesões da pele do hospedeiro
vertebrado.
• Existem variações morfológicas dentro da espécie de T. cruzi, as quais estão
associadas ao perfil de infectividade e patogenicidade do protista:
o Grupo 1: nesse grupo estão incluídos os protistas de animais silvestres,
notadamente encontrados na Região Amazônica, responsáveis por causar
infecções eventuais e assintomáticas no homem;
o Grupo 2: representa o grupo de maior importância médica, em que estão os
flagelados que causam os tipos graves e sintomáticos da doença. Estes são
encontrados nas áreas endêmicas, e o Triatoma infestans é o principal vetor;
o Grupo 3: engloba os protozoários relacionados com a infecção de animais
silvestres e que raramente causam infecção humana.
• Durante seu ciclo evolutivo, o T. cruzi apresenta características morfológicas que
variam e que podem ser identificadas de acordo com a posição do flagelo e a posição
do cinetoplasto, uma mitocôndria única rica em DNA mitocondrial.
Ciclo biológico
• Passa por variações morfológicas de acordo com a fase em que o parasito se encontra.
• No vetor (triatomíneo – “barbeiro”)
o Epimastigotas → vivem no intestino médio do inseto.
o São formas replicativas, multiplicam-se por divisão binária.
o Não infectam células do hospedeiro.
o Ao migrarem para o intestino posterior, sofrem metamorfose, transformando-se em
tripomastigotas metacíclicos → formas infectantes para o homem.
o Durante o repasto sanguíneo, o inseto suga quantidade suficiente de sangue, que ao
adentrar o tubo digestivo do vetor, produz um “sinal” para que ocorra a defecação,
próximo ao local da picada.
o Coçar a região promove a entrada dos tripomastigotas metacíclicos na corrente
sanguínea, pelas mucosas ou por soluções de continuidade na pele.
• No hospedeiro vertebrado (ser humano)
o Entrada e invasão celular
§ O parasito atravessa a matriz extracelular interagindo com laminina, colágeno
IV, fibronectina e proteoglicanos, que são componentes da membrana basal
que atuam como ligantes envolvidos no parasitismo celular.
§ Após atravessar a membrana basal, o protozoário interage com a membrana
plasmática da célula hospedeira.
§ Nesse momento, são desencadeados eventos de adesão, sinalização,
internalização, diferenciação e multiplicação do agente etiológico.
§ Uma vez que T. cruzi se estabeleceu em diferentes órgãos e sistemas, é capaz
de subverter o sistema imunológico do hospedeiro.
§ Dois mecanismos principais de invasão:
• Trans-sialidase (TS)
o Presença de glicoconjugados (glicoproteínas e glicolipídios) na
membrana externa da célula do hospedeiro, como o ácido siálico (AS),
monossacarídeo de carga negativa, que atua como receptor para diversos
patógenos.
o As formas tripomastigotas metacíclicas apresentam a enzima TS, que
transfere o AS para um aceptor ß-galactose presente na superfície do
parasito.
o Assim, o protozoário adquire uma carga negativa e estabelece um
processo de variação antigênica que o camufla -> camuflagem
antigênica.
o O T. cruzi afeta a resposta imune por meio de dois processos: elevação
clonal de células B, que produzem anticorpos de baixa
afinidade/qualidade; e eliminação clonal de linfócitos T.
o Após se ligar e internalizar a célula hospedeira, o parasito, dentro do
vacúolo parasitóforo, cuja membrana interna é revestida por AS, realiza a
transferência desse monossacarídeo para sua superfície, o que favorece
o distúrbio da membrana do vacúolo e a consequente liberação de T. cruzi
no citoplasma da célula hospedeira.
• Cruzipain
o Proteinase que libera bradicinina → mobiliza cálcio intracelular → facilita a
internalização em células não fagocíticas (ex.: estriadas cardíacas e
esqueléticas).
o Multiplicação intracelular
§ Dentro da célula, o tripomastigota → amastigota.
• Forma replicativa, multiplica-se por divisão binária a cada ~12h, por cerca
de cinco dias.
§ Antes de levarem ao rompimento da célula e se tornarem livres na circulação,
as formas amastigotas se transformam novamente em tripomastigotas, agora
do tipo sanguíneo.
• Alguns desses parasitos ficarão livres no sangue e outros infectarão novas
células.
• Podem ser ingeridos por novo triatomíneo durante o repasto, reiniciando
o ciclo.
• Epimastigota → no inseto, replicativa.
• Tripomastigota metacíclico → forma infectante, transmitida ao homem.
• Amastigota → intracelular, replicativa.
• Tripomastigota sanguíneo → circulante, infecta células ou é ingerido pelo vetor.
Ninhos de amastigota de T. cruzi, no tecido muscular cardíaco.
Forma tripomastigota sanguínea de T. cruzi.
IMUNOLOGIA E PARASITOLOGIA
• A resposta imune dirigida ao protista e as alterações estruturais descritas nos tecidos e
órgãos do hospedeiro variam de acordo com a fase aguda e fase crônica.
Fase aguda
• Reconhecimento e ativação inicial
o Células parasitadas → produzem citocinas e quimiocinas, iniciando a inflamação.
o IFN-γ ativa fagócitos → produzem TNF-α, NO e radicais livres para tentar eliminar o T.
cruzi.
o Dependendo da intensidade da produção desses mediadores inflamatórios, lesões
teciduais que causam dano ao hospedeiro podem surgir → elevada produção de
espécies reativas de oxigênio (ERO) e de nitrogênio (ERN).
o Com o intento de aumentar os mecanismos de resposta do hospedeiro, a síntese de
óxido nítrico (NO) – uma molécula fundamental contra o T. cruzi – é reforçada pela
regulação positiva de imunomediadores de NO-sintase indutível (iNOS), ativando
processos nitrosativos contra T. cruzi e contra os tecidos do hospedeiro.
• Eventos principais da fase aguda
o Ativação policlonal de linfócitos associada a hipergamaglobulinemia
§ Indução ampla de linfócitos (células T α/βCD4+, α/βCD8+, γ/δCD8+, γ/δCD8–,
CD4–, células B convencionais, CD5+).
§ Hipergamaglobulinemia oriunda da diferenciação dos linfócitos B em
plasmócitos produtores de anticorpos.
§ Como ocorre ativação de distintos clones de células B, são secretadas
imunoglobulinas específicas e inespecíficas aos antígenos do T. cruzi e
autoanticorpos.
o Imunossupressão
§ Ocorre, em geral, a partir da 2ª semana da doença aguda.
§ Facilita disseminação do parasito.
§ Atuação das células B e T, além das células do sistema mononuclear
fagocitário (SMF).
§ Mecanismos:
• ↓ produção de IL-2 e ↓ expressão de IL-2R (receptor).
o A IL-2 é produzida especialmente por subgrupos de células T CD4+
(Th1) e por células T CD8+ do tipo 1, além das células NK, cujas
funções abrangema promoção do crescimento dos linfócitos T
ativados, a geração de células apresentadoras de antígenos (APC),
e a ativação e proliferação das células NK.
• Atrofia tímica decorrente da apoptose de linfócitos T CD4+CD8+.
o ‘Escape’ anormal de células imaturas e potencialmente
autorreativas do timo
• ↓ células T regulatórias tímicas (tTreg).
• Sinais clínicos iniciais
o Sinal de Romaña (edema unilateral da pálpebra) e chagoma de inoculação (lesão
cutânea no local da picada).
o Reações compatíveis com hipersensibilidade mediada por células.
• Órgãos e tecidos acometidos
o Coração (miocardite aguda):
§ Congestão, micro-hemorragias envolvendo endocárdio e pericárdio, dilatação
de câmaras cardíacas.
§ Ninhos de amastigotas em macrófagos e fibras musculares.
§ Infiltrado inflamatório mononuclear em caso de ruptura dos ninhos.
o Tubo gastrointestinal:
§ Miosite focal e lesões nos plexos mioentéricos.
§ Amastigotas em células de Schwann, de fibroblastos das bainhas dos feixes
nervosos extraganglionares e nos histiócitos adjacentes aos gânglios.
§ Degeneração neuronal importante.
o Alterações neurais (meningoencefalite aguda):
§ Macroscopia: edema, congestão, hemorragias petequiais.
§ Microscopia: nódulos microgliais com presença do parasito em meio aos
nódulos ou no interior das células da glia.
• Resposta humoral e celular reduz parasitemia, mas não elimina completamente o
parasito, progredindo para a fase crônica.
Fase Crônica
• A resposta imune tende a ser mais efetiva → possibilita a resistência a nova infecção.
• Persistência do protozoário → estímulo crônico → inflamação contínua.
• Mimetismo molecular → reatividade cruzada com antígenos do hospedeiro.
• Formação de autoanticorpos contra: endotélio, coração, músculo esquelético, nervos
periféricos, receptores β-adrenérgicos e muscarínicos, tubulina etc.
• Participação exata da autoimunidade ainda é debatida.
• Resposta imune celular
o CD4+: fundamentais para coordenação da resposta → produção de citocinas que
modulam células B, macrófagos e linfócitos T.
o CD8+: reconhecem antígenos do T. cruzi, secretam IFN-γ, participam da memória
imunológica.
• Órgão-alvo principal: coração
o Lesão direta pelo parasita, resposta inflamatória exacerbada e disfunção do sistema
nervoso autonômico, culminando em arritmias graves, insuficiência cardíaca e risco
aumentado de morte súbita.
o Com o tempo, há progressão para fibrose miocárdica extensa, substituindo áreas de
necrose celular e levando à dilatação ventricular progressiva e disfunção sistólica.
§ Arritmias ventriculares malignas e bloqueios atrioventriculares, causas
frequentes de morte súbita.
o Processo central → remodelamento cardíaco.
o Metaloproteinases da matriz (MMP-2 e MMP-9):
§ São endopeptidases dependentes de Zn2+ e Ca2+ que se encontram entre os
componentes proteicos da matriz extracelular (MEC) e estão relacionadas ao
remodelamento tecidual e à inflamação crônica.
§ Deagradam componentes proteicos da MEC.
§ Participam de processos fisiológicos de remodelamento de tecido conjuntivo,
angiogênese, cicatrização, morfogênese, crescimento, reprodução, reparação
tecidual e mobilização de células-tronco e são produzidas por diversos tipos
de células. Além disso, são capazes de modular a atividade de quimiocinas e
citocinas
§ Regulação por citocinas:
• TNF-α, IL-1β e IL-10 → aumentam a produção de MMP.
• IFN-γ, IL-4, IL-10 → inibem a produção de MMP.
§ Maior produção de citocininas que aumentam a MMP → remodelamento
cardíaco → dilatação ventricular progressiva → cardiopatia chagásica crônica.
o Complicações: miocardiopatia dilatada, arritmias, ICC, risco de morte súbita.
o Miocardite crônica progressiva → coração globoso, podendo ultrapassar 1.000 g.
§ Microscopia:
• Fibrose intersticial progressiva (depósito de fibronectina → colágeno →
laminina).
• Alterações granulomatosas.
• Degeneração dos cardiomiócitos: acúmulo de lipofuscina, degeneração
hialina, vacuolização, desestruturação das miofibrilas.
• Edema intracelular.
• Raramente: ninhos de amastigotas.
o Achados adicionais:
§ Lesão do sistema nervoso autônomo cardíaco.
• Destruição progressiva dos gânglios intramurais responsáveis
pela regulação da FC e do tônus miocárdico.
• Contribui para um desequilíbrio entre os sistemas simpático e
parassimpático, resultando em bradicardia sinusal, taquicardias
ventriculares e disfunção da variabilidade da FC.
§ Distúrbios do sistema de condução.
§ Aneurismas ventriculares (ex.: ápex de VE).
§ Trombos intracardíacos.
• Aparelho digestivo
o Órgãos principais: esôfago e cólon.
o Patogênese: desnervação parassimpática intramural → ↓ neurônios + fibrose +
inflamação crônica.
o Microscopia: infiltrado linfoplasmocitário e histiocitário, inflamação focal das
camadas musculares.
o Consequências:
§ Megaesôfago: disfagia, regurgitação, risco de câncer esofágico.
§ Megacólon: constipação crônica, fecalomas, risco de perfuração.
o Mucosa esofágica: pode mostrar acantose, paraqueratose e queratinização.
• Outras Alterações
o Sistema nervoso central (SNC):
§ Lesões na substância cinzenta (sequelas da meningoencefalite aguda).
§ Complicações cerebrovasculares secundárias a arritmias e ICC.
o Fígado: esteatose grave, fibrose, necrose central.
o Vias biliares: atrofia, colelitíase, megavesícula.
o Pâncreas: pancreatite aguda hemorrágica.
o Baço: infartos esplênicos.
o Pulmões: broncopneumonia, bronquiectasias, enfisema, pleurite,
tromboembolismo, infartos.
o Rins: angioesclerose, glomerulopatia crônica, necrose tubular aguda.
o Muitas dessas lesões estão associadas a congestão passiva crônica e fenômenos
tromboembólicos.
Transmissão Congênita
• Pode implicar o acometimento placentário e o envolvimento do feto.
• Depende da imunidade materna, resposta imune fetal/neonatal, fatores placentários e
virulência da cepa do protista.
• Macroscopia: placenta aumentada em volume e peso.
• Microscopia:
o Focos inflamatórios agudos e crônicos.
o Áreas de necrose.
o Granulomas com células gigantes.
o Infecção de células trofoblásticas e macrófagos -> vilosite e intervilosite.
o Ninhos de amastigotas não são comuns.
• A enfermidade fetal cursa com lesões poliviscerais: baço (hepatoesplenomegalia),
coração, encéfalo (meningoencefalite), esôfago (discinesia, estase e dilatação), fígado,
intestinos, músculos esqueléticos, pele, pulmões e olhos.
o Podem levar ao surgimento de sequelas e/ou evolução para o óbito,
caracteristicamente provocado por cardite, meningoencefalite ou infecções
intercorrentes.
TRANSMISSÃO
• Transmissão vetorial: Principal forma de disseminação. O protozoário é eliminado nas
fezes de insetos triatomíneos (conhecidos como "barbeiros"), principalmente do
gênero Triatoma (T. infestans, T. brasiliensis, T. sordida).
• Transmissão oral: Ocorre pelo consumo de alimentos contaminados, como açaí, caldo
de cana e outros produtos processados sem higiene adequada, nos quais há presença
de triatomíneos infectados ou suas fezes. Pode causar surtos com formas graves e
elevada letalidade devido à alta carga parasitária.
• Transmissão congênita (vertical): Pode ocorrer da mãe infectada para o feto. A infecção
pode ser assintomática ao nascimento.
• Transmissão transfusional e por transplante de órgãos.
• Acidental: Rara, mas possível, ocorre em profissionais de saúde e laboratórios por
contato direto com sangue infectado ou secreções contaminadas.
CLASSIFICAÇÃO
• Pode ser classificada em aguda ou crônica.
• Fase aguda
o Dura de 6 a 8 semanas e ocorre logo após a infecção primária.
o Intensa parasitemia, podendo ser sintomática ou assintomática.
o Alguns pacientes podem desenvolver complicações graves, como miocardite e
meningoencefalite, principalmente crianças pequenas e imunossuprimidos.
o Período de incubação varia de acordo com o modo de transmissão:
§ por insetos vetores, 4 a 15 dias;
§ por via oral, de3 a 22 dias;
§ por hemotransfusão, 30 a 40 dias ou mais;
§ transmissão por acidentes de laboratório, até 20 dias após exposição.
• Fase crônica
o Após a fase aguda, a maioria dos pacientes entra em uma fase crônica, que pode
ser dividida em:
§ Forma indeterminada:
• Pacientes com sorologia positiva, mas sem sintomas e sem
alterações detectáveis em exames complementares.
• Essa fase pode durar décadas e muitos indivíduos permanecem
assintomáticos por toda a vida.
§ Forma cardíaca sem disfunção (inicial):
• Alguns pacientes evoluem com alterações elétricas no coração,
mesmo sem disfunção ventricular evidente.
• Podem apresentar arritmias, distúrbios de condução e episódios
de bradi ou taquiarritmia, aumentando o risco de morte súbita.
§ Forma cardíaca com disfunção (avançada):
• Caracteriza-se por dilatação cardíaca progressiva, IC e risco
elevado de arritmias graves.
• Acomete tanto o VE quanto o VD.
• Pode haver aneurismas ventriculares, tromboembolismo e IC
descompensada.
QUADRO CLÍNICO
• Na maioria dos casos, a infecção inicial é oligo ou assintomática.
• Quando sintomática: quadro febril prolongado, acompanhado de adenomegalia,
hepatoesplenomegalia e mal-estar.
• Achado característico: sinal de Romaña, que ocorre quando o protozoário penetra pela
conjuntiva ocular, indolor, causando edema palpebral unilateral, hiperemia e
linfadenopatia periorbitária.
o É mais comum em crianças e pode ser confundido com conjuntivites alérgicas
ou infecciosas.
• Chagoma de inoculação: lesão inflamatória localizada na pele, no local da entrada do
parasita.
• Complicações graves no início: miocardite aguda e meningoencefalite.
• Já quando na fase crônica, caracteriza-se pela ausência de sintomas e exames
cardíacos normais, apesar da sorologia positiva.
o Pode durar 30 a 40 anos ou por toda a vida sem evolução para formas
sintomáticas.
o Quando atinge a forma cardíaca sem disfunção: alterações elétricas, como
bloqueios de ramo (especialmente o bloqueio do ramo direito), distúrbios de
condução atrioventricular e extrassístoles ventriculares.
o Sintomas leves: podem ser palpitações, tontura, fadiga e episódios de síncope.
o A morte súbita pode ocorrer nessa fase devido a taquiarritmias ventriculares
malignas, como taquicardia ventricular sustentada ou fibrilação ventricular.
• A progressão da lesão miocárdica leva ao desenvolvimento de cardiomiopatia dilatada
com IC e disfunção ventricular.
• Afeta ambos os ventrículos, com predomínio de sintomas de insuficiência cardíaca
direita, como:
o Edema de MMII
o Hepatomegalia congestiva
o Ascite
o Turgência jugular
o Refluxo hepatojugular positivo.
• O aneurisma ventricular apical é uma lesão característica da cardiomiopatia chagásica
e pode predispor à formação de trombos intracavitários, aumentando o risco de AVC e
embolia pulmonar.
• O quadro clínico da cardiomiopatia chagásica pode variar, desde alterações
subclínicas até IC grave e morte súbita.
DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL
• Miocardites virais, febre tifoide, esquistossomose mansônica aguda, conjuntivite,
leishmaniose visceral, hantavirose, tuberculose, leucemias agudas, leptospirose,
meningoencefalites de outras etiologias, brucelose, mononucleose infecciosa,
infecção aguda pelo HIV e celulite pré-septal.
• Para o caso da forma congênita, deve-se fazer o diagnóstico diferencial com as
chamadas TORCHS (infecção neonatal por um dos seguintes agentes: Toxoplasma
gondii, vírus da rubéola, citomegalovírus, herpes-vírus, zika vírus e Treponema
pallidum, entre outros).
• Na fase crônica, o diagnóstico diferencial deve considerar alterações cardíacas ou do
sistema digestório de outras origens.
DIAGNÓTICO
Sorologia
• Na fase crônica, a sorologia é o método diagnóstico padrão -> parasitemia é baixa.
• Na fase aguda, a sorologia é complementar.
• São recomendados pelo menos dois testes sorológicos distintos para confirmação da
infecção devido à falso-positivos em testes isolados, sendo os principais métodos:
o ELISA – Alta sensibilidade e especificidade, sendo um dos testes mais utilizados.
o Imunofluorescência indireta (IFI) – Detecta anticorpos, sendo útil para
confirmação diagnóstica.
o Hemaglutinação indireta (HAI) – Técnica baseada na aglutinação de hemácias
sensibilizadas com antígenos do parasita.
o Se dúvida -> repetir após 1 semana.
Métodos parasitológicos
• Diagnóstico da doença aguda.
• Pode ser direto ou indireto.
• Ensaios parasitológicos diretos.
o Exame de sangue a fresco por meio de microscopia de luz; análise de distensões
sanguíneas com coloração por Giemsa; exame do sedimento resultante após a
centrifugação do soro ou do liquor (este último para os casos suspeitos de
meningoencefalite chagásica); e biopsia do linfonodo ou do chagoma de
inoculação (histopatológico, para pesquisa das formas amastigotas).
o Para a investigação congênita: micro-hematócrito, no qual o sangue do cordão
umbilical é analisado para pesquisa do protista.
• Ensaios parasitológicos indiretos
o Hemocultura, realizada com o meio liver infusion tryptose (LIT), e o
xenodiagnóstico, ensaio no qual triatomíneos sabidamente não infectados se
alimentam do sangue do paciente sob investigação para a doença de Chagas.
o Nos casos de xenodiagnóstico positivo, o inseto eliminará fezes contendo o
parasito 30 a 40 dias após o repasto sanguíneo.
o Desvantagem de ambos: demora do resultado.
Métodos moleculares
• A reação em cadeia da polimerase (PCR) com hibridização tem se mostrado um ensaio
um promissor para a investigação na fase aguda -> porém, em função da ausência de
protocolos definidos, ele não pode ser considerado um ensaio diagnóstico isolado.
Exames complementares
• Diagnóstico precoce e estratificação da cardiomiopatia chagásica.
• ECG -> identificar alterações elétricas precoces da cardiomiopatia chagásica.
o A anormalidade mais comum é o bloqueio do ramo direito (BRD) associado ao
bloqueio divisional ântero-superior (BDAS):
§ BRD: QRS alargado (>120 ms); Padrão RSR’ ("M") em V1 e onda S alargada
em V6.
§ BDAS: Desvio do eixo elétrico para a esquerda e para cima (eixo menor
que -30°); Onda S profunda em D3 e onda R ampla em aVL.
o Outras arritmias podem ser frequentes e incluem extrassístoles ventriculares,
fibrilação atrial, taquicardia ventricular não sustentada e bloqueios
atrioventriculares de diferentes graus.
• Holter de 24 horas: detectar arritmias assintomáticas e avaliar a variabilidade da
frequência cardíaca, sendo útil na estratificação de risco de morte súbita.
o Pode identificar taquicardia ventricular sustentada, um dos principais preditores
de desfechos desfavoráveis na cardiomiopatia chagásica.
• Ecocardiograma transtorácico: avaliar o grau de disfunção ventricular e presença de
alterações estruturais específicas. Os achados típicos incluem:
o Aneurisma do ápice do ventrículo esquerdo: Característico da cardiomiopatia
chagásica e distingue-se de outras cardiomiopatias. Pode ser pequeno ou
extenso e está associado a alto risco de tromboembolismo.
o Disfunção biventricular: Compromete ambos os ventrículos, levando à
dilatação generalizada.
o Hipocinesia segmentar ou difusa: Afeta predominantemente a parede ínfero-
lateral e apical, refletindo fibrose miocárdica extensa.
o Trombos intracavitários: Podem estar presentes no VE, aumentando o risco de
eventos embólicos, como AVC.
• RX de tórax: evidenciar cardiomegalia.
o O índice cardiotorácico aumentado (relação entre a largura do coração e o
diâmetro do tórax maior que 50%) é indicativo de dilatação ventricular.
• Ressonância magnética cardíaca (RMC) com realce tardio de gadolínio tem alta
sensibilidade para detectar fibrose miocárdica, sendo útil na estratificação do risco de
arritmias letais.
TRATAMENTO
• Terapia antiparasitária, manejo de arritmias, suporte para insuficiência cardíaca e
prevenção de eventostromboembólicos e morte súbita.
Terapia Antiparasitária
• O tratamento com antiparasitários tem maior impacto na fase aguda e na prevenção
da transmissão vertical, mas seu benefício na fase crônica é limitado.
• Principais indicações:
o Fase aguda da doença
o Infecção congênita (recém-nascidos de mães infectadas)
o Todas as crianças com idade igual ou inferior a 12 anos portadoras da doença de
Chagas em sua fase crônica
o Reativação da infecção em pacientes imunossuprimidos (HIV, transplante de
órgãos, uso de imunossupressores)
o Casos de transmissão acidental (exposição ocupacional)
• Em adultos com doença crônica estabelecida, o tratamento antiparasitário não reverte
o dano miocárdico e seu impacto clínico é controverso.
o Não é indicado de rotina, exceto em casos selecionados.
• Benznidazol (5–7 mg/kg/dia, por 60 a 80 dias) é o fármaco de escolha.
o Sua administração é feita por VO, sendo rápida a absorção com concentrações
máximas após 2 a 4 horas.
o Tem meia-vida de cerca de 12 horas e metabolização hepática e eliminação pela
urina; uma pequena parcela não absorvida é eliminada nas fezes.
o O tratamento deve ser realizado pelo período de 60 dias.
o Adultos: 5 mg/kg/dia.
o Crianças: 10 mg/kg/dia.
o Em duas a três tomadas diárias (12/12 horas ou 8/8 horas).
o Dose máxima: 300 mg/dia.
• Nifurtimox (8–10 mg/kg/dia, por 60 a 90 dias) é uma alternativa em casos de
intolerância ao benznidazol.
o Adultos: 10 mg/kg/dia (comprimidos de 120 mg), por via oral, 3 vezes/dia.
o Crianças: 15 mg/kg/dia (comprimidos de 30 mg), por via oral, 3 vezes/dia.
o Há descrição de resistência cruzada do T. cruzi aos medicamentos.
Tratamento sintomático
• De acordo com as diretrizes para cada um dos quadros específicos.
• Na fase aguda, deve ser feito repouso, e podem ser usadas medicações antitérmicas,
anticonvulsivantes e diuréticas, além de digitálicos e outros fármacos para o
tratamento do quadro de miocardite aguda.
• Megaesôfago: nitratos e bloqueadores de canais de Ca2+, e a injeção de toxina
botulínica podem ser usados. Melhor resultado: cirurgia, que, embora não trate a causa
básica da doença, pode proporcionar melhoras na qualidade de vida do paciente.
• Megacólon: quando há vólvulos, grandes dilatações do sigmoide, recorrência de
fecalomas ou dificuldade para aplicar enemas em domicílio, o uso de laxantes
osmóticos e a realização de limpeza intestinal programada ou cirurgia estão indicados.
Em geral, a cirurgia é eletiva, salvo complicações como sangramentos, perfuração ou
obstrução. A técnica padrão para restaurar o trânsito intestinal é a cirurgia de DuHamel
por videolaparoscopia.
• Cabe ressaltar que medidas dietéticas são indicadas em ambos os casos de “mega”.
• Manejo das arritmias
o Betabloqueadores (carvedilol, metoprolol) – Reduzem a excitabilidade
ventricular e melhoram a sobrevida em pacientes com IC.
o Amiodarona – Antiarrítmico de escolha para pacientes com taquicardia
ventricular sintomática, especialmente naqueles sem indicação imediata de
desfibrilador implantável.
o Ablação por cateter – Pode ser indicada para eliminar focos de taquicardia
ventricular sustentada.
o Marca-passo definitivo – Necessário em casos de bradicardia grave ou bloqueios
atrioventriculares avançados.
o Cardiodesfibrilador implantável (CDI) – Indicado para prevenção de morte súbita
em pacientes com taquicardia ventricular sustentada ou fração de ejeção