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MANUAL DO PROFESSOR Área de Ciências H um anas e Sociais Aplicadas • E N S IN O M É D IO e m C iê n c ia s H u m a n a s e m C iê n c ia s H u m a n a s Área de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas ENSINO MÉDIO Cláudio Vicentino Eduardo Campos Eustáquio de Sene C láu dio Vicen tin o • E duardo Cam pos • E u stáqu io de S en e MANUAL DO PROFESSOR e m C iê n c ia s M ATERIA L D E D IV ULG AÇÃO − VERSÃO S UBM ETID A À A VALIA ÇÃO CÓ D IG O D A C O LEÇÃO : 0 1 5 2 P 2 1 2 0 4 CÓ D IG O D A O BRA: 0 1 5 2 P 2 1 2 0 4 1 3 8 CAPA_OBJ2_CH_VICENTINO_ATICA_PNLD_2021_VOL_6_MP.indd All PagesCAPA_OBJ2_CH_VICENTINO_ATICA_PNLD_2021_VOL_6_MP.indd All Pages 4/13/21 6:47 PM4/13/21 6:47 PM MANUAL DO PROFESSOR Área de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas ENSINO MÉDIO Cláudio Vicentino Bacharel em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo (USP) Professor de História no Ensino Médio e em cursos pré-vestibulares. Autor de obras didáticas e paradidáticas para Ensino Fundamental e Ensino Médio Eduardo Campos Bacharel e licenciado em Geografia pela Universidade de São Paulo (USP) Mestre em Educação pela Universidade de São Paulo (USP) Coordenador educacional e pedagógico do Ensino Fundamental (anos finais) e do Ensino Médio. Professor na Educação Básica e no Ensino Superior Eustáquio de Sene Bacharel e licenciado em Geografia pela Universidade de São Paulo (USP) Mestre e doutor em Geografia Humana pela Universidade de São Paulo (USP) Professor de Geografia do Ensino Médio na rede pública e em escolas parti- culares. Professor de Metodologia do Ensino de Geografia na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo por 5 anos 1a edição, São Paulo, 2020 e m C iê n c ia s H u m a n a s )52ů17,6B2%-�B&+B9,&(17,12B$7,&$B31/'B���AB92/BBB03CLQGGDDDA)52ů17,6B2%-�B&+B9,&(17,12B$7,&$B31/'B���AB92/BBB03CLQGGDDDA EFA�F��DDD�HA�D30EFA�F��DDD�HA�D30 2 Presidência: Paulo Serino Direção editorial: Lauri Cericato Gestão de projeto editorial: Heloisa Pimentel Gestão de área: Brunna Paulussi Coordenação de área: Carlos Eduardo de Almeida Ogawa Edição: Izabel Perez, Tami Buzaite e Wellington Santos Planejamento e controle de produção: Vilma Rossi e Camila Cunha Revisão: Rosângela Muricy (coord.), Alexandra Costa da Fonseca, Ana Paula C. Malfa, Ana Maria Herrera, Carlos Eduardo Sigrist, Flavia S. Vênezio, Heloísa Schiavo, Hires Heglan, Kátia S. Lopes Godoi, Luciana B. Azevedo, Luís M. Boa Nova, Luiz Gustavo Bazana, Patricia Cordeiro, Patrícia Travanca, Paula T. de Jesus, Sandra Fernandez e Sueli Bossi Arte: Claudio Faustino (ger.), Erika Tiemi Yamauchi (coord.), Keila Grandis (edição de arte), Arte Ação (diagramação) Iconografia e tratamento de imagens: Roberto Silva (coord.), Evelyn Torrecilla (pesquisa iconográfica), Cesar Wolf (tratamento de imagens) Licenciamento de conteúdos de terceiros: Fernanda Carvalho (coord.), Erika Ramires e Márcio Henrique (analistas adm.) Ilustrações: Cassiano Röda e Fórmula Produções Cartografia: Mouses Sagiorato e Portal de Mapas Design: Luis Vassallo (proj. gráfico, capa e Manual do Professor) Foto de capa: moodboard/Getty Images Todos os direitos reservados por Editora Ática S.A. Avenida Paulista, 901, 4o andar Jardins – São Paulo – SP – CEP 01310-200 Tel.: 4003-3061 www.edocente.com.br atendimento@aticascipione.com.br Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Angélica Ilacqua - CRB-8/7057 2020 Código da obra CL 720008 CAE 729791 (AL) / 729792 (PR) 1a edição 1a impressão De acordo com a BNCC. Envidamos nossos melhores esforços para localizar e indicar adequadamente os créditos dos textos e imagens presentes nesta obra didática. Colocamo-nos à disposição para avaliação de eventuais irregularidades ou omissões de créditos e consequente correção nas próximas edições. As imagens e os textos constantes nesta obra que, eventualmente, reproduzam algum tipo de material de publicidade ou propaganda, ou a ele façam alusão, são aplicados para fins didáticos e não representam recomendação ou incentivo ao consumo. Impressão e acabamento V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Iniciais_002_LA.indd 2V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Iniciais_002_LA.indd 2 24/09/2020 10:4624/09/2020 10:46 3 Aprese ntação Caro(a) estudante, Neste volume foram mobilizados fatos, conceitos e procedimentos para ajudá-lo a compreender os processos de construção e de conquista da cidadania e da democracia ao longo da história. Nesse levantamento, enfatizou-se a imposição de poderes sobre populações locais durante os processos de colonização e de indepen- dência em diversos países da América Latina. Uma construção que im- pactou o conjunto latino-americano, especialmente o Brasil, ao longo dos séculos XIX e XX. Você também vai estudar as ditaduras, tanto antes da Guerra Fria como durante esse período, e como esses regimes deixaram cicatrizes na difícil conquista da democracia durante as últimas décadas. O volume também discute a questão dos Direitos Humanos, resga- tando sua gênese histórica, sobretudo na Declaração Universal dos Direi- tos Humanos de 1948, e buscando sua efetivação nas relações sociais lo- cais, nacionais e internacionais. Isso, claro, por meio da ação dos Estados e de organizações não governamentais (ONGs). Ao longo do volume são propiciadas diversas oportunidades para que você coloque em prática os conhecimentos adquiridos ao longo do estudo da realidade local, nacional e mundial, exercendo assim seu protagonismo de jovem cidadão e, ao mesmo tempo, tornando a aprendizagem contextua- lizada e significativa. Bom estudo! Os autores. V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Iniciais_003a015_LA.indd 3V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Iniciais_003a015_LA.indd 3 24/09/2020 10:4724/09/2020 10:47 4 Conheça seu livro Caminhos da cidadania2 UNIDA D E C e n tr a l P re s s /H u lt o n A rc h iv e /G e tt y I m a g e s Estouro Bem-vindo ao século XXI [...] A ordem liberal ocidental que tem governado desde o fim da II Guerra Mundial baseou-se na hegemonia dos EUA. Como potência verdadeiramente global, foi dominante não apenas no campo do poder militar (além do econômico e financeiro), mas em quase todas as dimensões do soft power (cultura, língua, meios de comunicação, tecnologia e moda). A Pax Americana que garantiu um alto grau de estabilidade global começou a falhar (especialmente no Oriente Médio e na Península da Coreia). Embora os Estados Unidos continuem a ser a primeira potência planetária, já não têm a capacidade ou vontade de ser a polícia do mundo ou fazer os sacrifícios necessários para garantir a ordem. Por sua própria natureza, um mundo globalizado evita a imposição da ordem do século XXI. E mesmo que o surgimento de uma nova ordem mundial seja algo inevitável, seus fundamentos ainda não podem ser distinguidos. Parece improvável que seja liderada pela China; o país continuará voltado para si mesmo e concentrado na estabilidade interna e no desenvolvimento, e é provável que suas ambições sejam limitadas ao controle de sua vizinhança imediata e mares que o rodeiam. Além disso, não possui (em quase nada) o soft power necessário para tentar se tornar uma força de ordem mundial. [...] FISCHER, Joschka. Bem-vindo ao século XXI. El País, 7 fev. 2016. Disponível em: https://brasil.elpais.com/ brasil/2016/02/07/opinion/1454864647_294190.html. Acesso em: 6 jun. 2020. Contexto ESSE TEMA SERÁ RETOMADO NA SEÇÃO PRÁTICA 94 A participação da sociedade nos assuntos públi- cos ocorre por meio do exercício dos direitos políti- cos. De todos esses direitos, o voto é o mais conhe- cido e o mais exercido e é por ele que cada indivíduo expressa sua vontade na escolha de representantes políticos. O artigo 14 (Capítulo IV - Dos direitos políticos) da Constituição Brasileira vigente, desde 1988, estabelece o sufrágio universal, ou seja, o exercício do voto direto e secreto de modo obrigatório para indivíduosuniversal, ou seja, o exercício do voto direto e secreto de modo obrigatório para indivíduos com mais de 18 anos, e facultativo para os maiores de 16 e meno- res de 18 e também para aqueles com mais de 70 anos. Porém, para que o sufrágio universal fosse estabeleci- do no Brasil, foi necessário um longo período de conflitos e de reivindicação de direitos por diversos grupos sociais. Nos últimos anos, muitas pessoas têm se manifes- tado contra a obrigatoriedade do voto. No segundo turno das eleições para presidente em 2018, a soma de votos nulos, brancos e abstenções representou cerca de um terço do total de eleitores. Considerando essas informações, reflita sobre as ques- tões a seguir e converse com os colegas e o professor. 1. O voto é um direito político pelo qual muitos brasilei- ros lutaram no passado, mas atualmente boa parte deles prefere não exercê-lo. Quais fatores podem ex- plicar essa mudança de atitude de uma parcela da população? 2. Além do voto, há outras formas de participação po- lítica e de exercício da cidadania? Em caso positivo, quais seriam elas? Veja as respostas no Manual do Professor. Contexto Democracia e ditadura no Brasil e na América Latina1 OBJETIVOS • Compreeder os conceitos de democracia e ditadura tendo em vista sua origem na Antiguidade clássica e seu uso em contextos políticos contemporâneos. • Conhecer os contextos de surgimento e desenvolvimento de diferentes regimes políticos na América Latina nos séculos XIX e XX. • Relacionar as políticas populistas e desenvolvimentistas do Brasil a contextos históricos específicos. • Identificar as motivações de elites econômicas e sociais e interesses estrangeiros no surgimento e desenvolvimento de regimes ditatoriais no Brasil. JUSTIFICATIVA Conceitos relativos a regimes e práticas políticas, tais como democracia, ditadura, populismo, paternalismo, desenvolvimentismo, entre outros, são importantes para a compreensão de situações históricas específicas. Ao mesmo tempo, essas situações exemplificam e esclarecem melhor a própria compreensão desses conceitos. Tendo foco em contextos políticos da América Latina nos séculos XIX e XX, o capítulo contribui para estimular a reflexão dos estudantes quanto à história política latino-americana contemporânea. COMPETÊNCIAS E HABILIDADES DA BNCC • Competências gerais da Educação Básica: CG1, CG2, CG3, CG4, CG5, CG6, CG7, CG9 e CG10. • Competências e habilidades específicas de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas: Competência 1: EM13CHS103. Competência 5: EM13CHS503 e EM13CHS504. Competência 6: EM13CHS602 e EM13CHS603. • Competências e habilidades específicas de Linguagens e suas Tecnologias: Competência 6: EM13LGG604. TEMAS CONTEMPORÂNEOS TRANSVERSAIS Cidadania e civismo • Educação em direitos humanos Multiculturalismo • Educação para a valorização do multiculturalismo nas matrizes históricas e culturais brasileiras C A P ÍT U LO C A P ÍT U LO NÃO ESCREVA NO LIVRO 18 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap1_016a061.indd 18V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap1_016a061.indd 18 24/09/2020 19:4324/09/2020 19:43 Democracia e ditadura como conceitos opostos Nós, seres humanos, vivemos em culturas diferentes, e os modos de or- ganização política variam muito de uma sociedade para outra. De maneira geral, podemos identificar sociedades nas quais a organização é estabeleci- da de forma autoritária, sob um governo centralizado. Em outras, as decisões são tomadas de forma coletiva e dialogada. Essas formas de organização são, quase sempre, associadas, respectivamente, à ditadura e à democracia. A palavra ditadura tem origem na Antiguidade, na Roma republicana. De- pois de se libertarem do domínio etrusco, em 509 a.C., e antes de constituí- rem um império, a partir de 27 a.C., os romanos consideravam o Senado o principal órgão político. Não se tratava de uma democracia, mas de uma Re- pública aristocrática, pois os senadores eram representantes da elite, uma minoria da população. Mas suas decisões eram tomadas a partir do diálogo sobre a rex-publica, o respeito à coisa pública, ao publicus, coisa do povo, na busca de entendimentos em relação ao que seria melhor para a cidade. Po- rém, em épocas de crise, como em uma guerra, as decisões tinham de ser tomadas rapidamente e, por isso, se instituía um ditador, do latim ditactor, o que ditava os decretos, com amplos poderes por um período máximo de seis meses. Em outras palavras, a ditadura era um tipo de governo provisório, ex- traordinário, acionado em situações excepcio- nais, com a finalidade de cuidar da administra- ção da cidade até que a situação de crise fosse resolvida. Assim, essa ditadura antiga não carregava um caráter pejorativo de ilegalidade. Situação diferente de ditadura na modernidade em que se tornou um sinônimo de governo autoritário, perdendo o aspecto de transitoriedade que ti- nha na Roma antiga. Nesse sentido, se tivés- semos de buscar na Antiguidade um governo com algumas similaridades com as ditaduras contemporâneas, perceberíamos que elas se assemelham mais ao despotismo ou à tirania. E, nesse quadro, são exemplares as do mundo grego e mesmo de outros povos antigos que, em meio às tensões e conflitos internos, cer- tas personagens assumiam o poder e se ga- rantiam nele sobretudo pela força, reprimindo descontentamentos e impondo suas decisões. Cartaz da exposição Mais democracia, sim! Ditadura nunca mais! promovida pela prefeitura de Sobral, CE, em 2014, como forma de lembrar às novas gerações os horrores ocorridos durante a ditadura no Brasil. R e p ro d u ç ã o /s o b ra lo n lin e .c o m .b r 19 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap1_016a061.indd 19V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap1_016a061.indd 19 24/09/2020 10:5124/09/2020 10:51 As ditaduras contemporâneas geralmente são estabelecidas com base em um golpe de Estado, ou seja, na derrubada de uma ordem constitucional legítima. A partir de sua implementação a ditadura se firma como um gover- no regido por um líder ou por um grupo de líderes, e se caracteriza por sua intolerância ao pluralismo político e à participação popular. Em uma ditadura não existe um partido de oposição de direito e de fato e, caso exista, quase sempre é apenas como formalidade política. As ditaduras podem ser de vários tipos. Há ditaduras militares, nas quais o governo é exercido por membros de alta patente das Forças Armadas, repre- sentados por um desses membros que exerça o papel de líder, ou por juntas militares. Frequentemente as ditaduras militares integram representantes civis das elites. Há também as ditaduras de partido único, nas quais o parti- do no poder tem a prerrogativa de escolher todos os cargos, controlando as- sim a política de modo completo. Há ainda as ditaduras pessoais, nas quais o poder repousa nas mãos de um único indivíduo. Também há as ditaduras monárquicas, em que o poder é conferido a um rei em caráter hereditário. Atualmente, as monarquias são bem menos comuns do que no passado e, geralmente, se integram a uma ordem democrática, na qual o poder do rei é simbólico ou partilhado com representantes do povo. Mas há situações em que o monarca destitui esses representantes, passando a governar de forma autoritária, ditatorial. NÃO ESCREVA NO LIVRO O presidente Xi Jinping no 19o Congresso do Partido Comunista Chinês, em 2017. Na China, a ditadura de partido único vigora desde que o Partido Comunista tomou o poder, em 1949, no contexto da Revolução Chinesa. Na foto, a família real no Palácio de Buckingham durante comemoração oficial, em 2015, em Londres. A monarquia no Reino Unido é integrada a um regime parlamentarista democrático. • Os ditadores e os governos ditatoriais não se caracterizam por uma pessoa ou um restrito grupo de pessoas governando contra a vontade de todos. Quase sempre eles contam com apoio de uma parcela da população. Por que isso acontece? Argumentem apresentandoexemplos atuais ou passados. Ver respostas e orientações no Manual do Professor. Conversa Ja m e s D e va n e y /F ilm M a g ic /G e tt y I m a g e s W a n g Z h a o /A F P 20 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap1_016a061.indd 20V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap1_016a061.indd 20 24/09/2020 10:5124/09/2020 10:51 A palavra democracia também tem origem na Antiguidade, mas na Grécia clássica. Demos eram subdivisões territoriais da cidade de Atenas com base nas quais eram elaboradas listas de pessoas com direito à cidadania. Unida à palavra kratia, que significa poder ou governo, o termo democracia fa- zia referência a um regime político no qual as deci- sões eram tomadas não por um indivíduo apenas ou por um pequeno grupo, mas pelo conjunto dos cidadãos via assembleias. Além disso, os cargos eram rotativos, de modo que todo cidadão de uma democracia grega, em algum momento da vida, po- deria ocupar uma posição política de destaque. No mundo contemporâneo a participação dos cidadãos nas decisões do Estado passou a ocorrer por meio da democracia representativa, na qual os cidadãos elegem seus representantes políticos, que, por sua vez, cuidam da administração públi- ca. O sociólogo alemão Max Weber (1864-1920) explica essa mudança argumentando que o Estado nacional moderno, diferentemente da pólis grega antiga, apresenta uma burocracia demasiadamen- te complexa para permitir a participação direta dos cidadãos nas decisões do Estado. O economista austríaco Joseph Schumpeter (1883-1950), por sua vez, associa o modelo mo- derno de democracia ao comportamento do con- sumidor em uma sociedade capitalista. Assim como o consumidor tem a liberdade de escolher o produto que vai comprar, podendo optar por diferentes marcas e modelos, também na demo- cracia representativa, os eleitores optam por uma proposta de governo entre as várias que lhe são apresentadas. Assim como as empresas avaliam o potencial de um produto por meio de pesquisas de marketing, os partidos políticos também po- dem avaliar as chances de um candidato por meio de pesquisas eleitorais. Um dos maiores riscos de uma democracia mo- derna é o que o pensador político francês Alexis de Tocqueville (1805-1859) chamava de “tirania da maioria”. Imagine a promulgação de uma lei que tenha impacto negativo para uma minoria da população. Se a questão for colocada em votação, essa minoria sempre teria seus interesses e ne- cessidades submetidos pelos votos da maioria. Por isso é que as democracias representativas do mundo contemporâneo também são democra- cias constitucionais. O Estado tem dispositivos legais que protegem as minorias contra possíveis injustiças sociais. A democracia, seja a antiga, sejam as contem- porâneas, envolve o poder e os embates sociopolí- ticos quanto a liberdade e direitos. Foi longa e nada simples a trajetória histórica, como veremos a seguir, das pressões e lutas por mudanças e con- quistas. A democracia expõe potencialidades para enfrentar e vencer barreiras à melhor vivência so- cial, heranças que continuam na dependência de cada um de nós. Veja abaixo o sentido de utopia, apontado pelo jornalista e escritor uruguaio Eduardo Galeano (1940-2015), citado no livro Política: para não ser idiota. “A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar”. CORTELLA, Mário Sergio; RIBEIRO, Renato Janine. Política: para não ser idiota. Campinas, SP: Papirus: 7 Mares, 2010. p. 21. 1. Tomando o sentido de utopia de Eduardo Galeano, como você o associa com a afirmação mais acima, no parágrafo que começa com: A democracia, seja a antiga [...] 2. Considerando sua resposta à pergunta acima, a democracia se mostra como algo pronto, fechado, permanente e acabado? Por quê? Ver respostas e orientações no Manual do Professor. Interpretar NÃO ESCREVA NO LIVRO WEBER, Max. Economia e sociedade. 4. ed. Brasília: Editora UnB, 2015. v. 2. SCHUMPETER, Joseph. Capitalismo, socialismo e democracia. São Paulo: Editora Unesp, 2017. TOCQUEVILLE, Alexis de. A democracia na América. São Paulo: Edipro, 2019. 21 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap1_016a061.indd 21V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap1_016a061.indd 21 24/09/2020 10:5124/09/2020 10:51 Do século XIX ao XX: América hispano-portuguesa nos limites da independência Os limites da independência Desde 2010, têm ocorrido eventos comemorativos do bicentenário da in- dependência nas regiões americanas colonizadas pelos espanhóis e portu- gueses. As comemorações favorecem embates em torno da memória e da história, além de possibilitar reavaliações nas experiências latino-america- nas. A independência política de toda a América Latina manteve fortes laços de subordinação nas relações internacionais, em especial com a Inglaterra, a maior potência mundial no período em que ocorreram as independências dos países latino-americanos. Porém, quando voltamos o olhar para o interior de cada um dos novos países independentes, é possível identificar diferentes limites ao efetivo exercício da cidadania pela maior parte da população. Assim, as novas nações que se formavam na América Latina no século XIX carregavam enormes limitações: tanto no plano das relações externas dos no- vos Estados, até mesmo com diversas intervenções de países externos à região (Inglaterra, França, Estados Unidos), como também nas relações internas. Em outras palavras, talvez devêssemos sempre usar aspas ao falarmos em “inde- pendência”, seja a do Brasil, seja a dos demais países da América Latina. Cenários da América hispânica: da independência ao século XXI No início do século XIX, estima-se que a população total da América espa- nhola era de aproximadamente 22 milhões de habitantes. Destes, mais de 12 milhões eram indígenas; 6 milhões, mestiços (descendentes de espanhóis e populações locais); 800 mil, negros escravos; e 3 milhões, criollos. Os criollos, membros das elites hispano-americanas, desejavam romper com as metrópoles monopolistas que lhes dificultavam as transações mer- cantis, sobretudo com a Inglaterra. Para os colonos, a Coroa espanhola res- tringia os setores produtivos, além de limitar o acesso aos cargos administra- Observe que as datas das rebeliões são muito próximas, sugerindo que pairavam no continente ideais libertários. Entretanto, na época não havia meios de comunicação instantâneos como temos hoje. 1. Então, como esse “espírito revolucionário” e o desejo de mudanças se espalhavam? 2. Quais eram os segmentos sociais responsáveis por isso? 3. Os segmentos sociais regionais eram unidos num só projeto para realizar as mudanças ou a independência ou havia diferenças? NÃO ESCREVA NO LIVRO Ver respostas e orientações no Manual do Professor. Interpretar 22 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap1_016a061.indd 22V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap1_016a061.indd 22 24/09/2020 10:5124/09/2020 10:51 tivos e políticos. Para a Inglaterra, contudo, interessava a independência das colônias, uma vez que isso eliminaria as barreiras monopolistas comerciais e ativaria novos mercados, indispensáveis ao seu progresso industrial. Criollos e ingleses tinham interesses convergentes na independência das colônias espanholas na América. Fonte: elaborado com base em BLACK. Jeremy (Ed.). World History Atlas. Londres: Dorling Kindersley, 2004. p. 126 e 148. Rebeliões latino-americanas – século XVIII P o rt a l d e M a p a s /A rq u iv o d a e d it o ra Buenos Aires Lima Cidade do México Rio de Janeiro Vila Rica Salvador Conjuração Baiana (1798) Conjuração Mineira (1789) Movimento Comunero (1781) Impulso das rebeliões haitianas (1791) Rebelião de Tupac Amaru (1780)OCEANO PACÍFICO OCEANO ATLÂNTICO Equador Trópico de Capricórnio Trópico de Câncer 90º O 0o VICE-REINADO DO RIO DA PRATA VICE-REINADODO PERU VICE-REINADO DE NOVA GRANADA VICE-REINADO DA NOVA ESPANHA BRASIL Rebeliões Mineração Cana-de-açúcar 0 1 338 2 676 km Os chapetones, grupo minoritário da América espanhola (cerca de 300 mil indivíduos), composto de espanhóis nascidos na metrópole, ocupavam os altos cargos da administração colonial, vivendo em permanente confron- to com a elite local – e desejavam a manutenção das relações metrópole- -colônia. Os criollos, guiados pelos ideais iluministas liberais e pelo exemplo da independência dos Estados Unidos, eram partidários do livre-comércio e da luta pela emancipação política, embora não cogitassem mudanças na es- trutura socioeconômica. As rebeliões locais, de um lado, como manifestações isoladas, sinaliza- vam o esgotamento do sistema colonial; de outro, expressavam diversos projetos de independência. Diversas rebeliões eclodiram na América his- pânica contra os espanhóis e seu domínio, organizadas tanto por criollos quanto por indígenas. Entre estas últimas, destacou-se a rebelião em 1780, de Tupac Amaru II (1738-1781), no Vice-Reinado do Peru. Essas rebeliões e outras manifestações do século XVIII traziam à tona outros “projetos” de independência, diferentes 23 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap1_016a061.indd 23V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap1_016a061.indd 23 24/09/2020 10:5124/09/2020 10:51 daqueles que acabaram sendo realizados pelas eli- tes coloniais, seja com os criollos na região hispâni- ca, seja com os membros da aristocracia na Améri- ca portuguesa. O processo de independência da América es- panhola foi impulsionado pelo enfraquecimento da metrópole espanhola – com a invasão de Na- poleão Bonaparte (1769-1821), que destituiu o rei Carlos IV (1788-1808), da dinastia Bourbon, e coroou José Bonaparte (1768-1844), seu irmão –, que estimulou o movimento autonomista liderado pelos criollos. A revolução que libertou a maioria dos países latino-americanos ocorreu entre 1817 e 1825, tendo como líderes Simón Bolívar (1783-1830) e José de San Martín (1778-1850), que percorreram quase toda a América do Sul hispânica, com o apoio efetivo da Inglaterra e dos Estados Unidos. Embora tivessem conseguido acabar com o domínio metropolitano e ob- tido a liberdade política, os novos Estados latino-americanos continuaram atrelados à dependência econômica externa. Atendendo aos interesses do desenvolvimento capitalista, a América Latina, governada pela aristocracia criolla, assumiu a função de fornecer matérias-primas e consumir produtos industrializados ingleses. No Congresso do Panamá (1826), quando quase toda a América Lati- na já estava independente, Bolívar tentou concretizar seu ideal de unidade política, defendendo alianças entre os Estados hispano-americanos, a cria- ção de uma força militar comum e a abolição da escravidão, entre outras medidas. Seus esforços de solidariedade continental – ideal de pan-ameri- canismo bolivarista –, no entanto, encontraram a oposição dos ingleses, dos estadunidenses e das próprias oligarquias locais e seus dirigentes, como a monarquia brasileira de dom Pedro I, recém-ins- talada, comprometida com as elites escravistas. NÃO ESCREVA NO LIVRO Para discutir em grupos, faça uma pesquisa sobre Simón Bolívar e seu ideal de pan-americanismo, considerando os seguintes aspectos: • Em que medida o ideal de Bolívar esbarrava nos interesses estadunidenses e ingleses? • E quanto aos interesses do Brasil independente: havia coincidência ou oposição? Em quais aspectos? • Desde o século XIX, nossa história e a dos demais países latino-americanos correm em paralelo: vivemos quase sempre voltados à maior aproximação ou ao distanciamento deles? Por quê? Ver respostas e orientações no Manual do Professor. Conversa M . S e e m u lle r/ D E A /A lb u m /F o to a re n a /M u s e u B o liv a ri a n o , C a ra c a s , V e n e zu e la . Monumento representando Tupac Amaru II, sua esposa e seus filhos. Praça de Armas em Cuzco, Peru, em fotografia de 2017. Simón Bolívar saudando a bandeira após a batalha de Carabobo, obra do pintor venezuelano Arturo Michelena. Simón Bolívar foi um dos principais líderes na América Latina após as guerras de independência. C ra ig L o ve ll/ E a g le V is io n s P h o to g ra p h y /A la m y /F o to a re n a 24 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap1_016a061.indd 24V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap1_016a061.indd 24 24/09/2020 10:5224/09/2020 10:52 No aspecto político, chefes locais, em geral líderes oriundos das forças mi- litares mobilizadas pelos criollos nas guerras de independência, passaram a disputar o poder de suas respectivas regiões. Na fragmentação da América his- pânica em vários novos Estados, os comandantes carismáticos, autoritários, personalistas, chefes que irradiavam magnetismo pessoal na condução de seus comandados, foram denominados caudilhos. México: projetos de independência em confronto Em 1810, ocorreu a primeira ten- tativa de emancipação política no México (na época, Vice-Reinado de Nova Espanha), que se distinguiu dos demais movimentos da América espa- nhola por ter sido uma iniciativa das massas populares e por seu caráter predominantemente rural. Encabe- çando a insurreição, sucederam-se Miguel Hidalgo (1753-1811), padre Morelos (1765-1815) e Vicente Guer- rero (1782-1831), que deram ênfase às reformas sociais populares, pro- pondo o fim da escravidão e a igualda- de de direitos e opondo-se à aristocra- cia fundiária e aos altos funcionários. Os ideais populares divergiam dos propósitos das elites criollas mexica- nas, que quase sempre estiveram mais atreladas aos chapetones e contro- lavam a maior parte das áreas rurais, sendo metade das terras mexicanas pertencentes ao clero. Para os mestiços e indígenas que formavam cerca de 80% dos 6 milhões de habitantes da região, a luta pela independência do México deveria incluir propostas para resolver a situação fundiária a favor dos camponeses diante do então controle da aristocracia. Enviado pelo vice-rei para lutar contra os insurretos mexicanos, Agustín Itúrbide (1783-1824), de forma oportunista, aliou-se a Guerrero em 1821 formulando o Plano de Iguala, que proclamava a independência do Méxi- co, a igualdade de direitos entre criollos e espanhóis, a supremacia da re- ligião católica, o respeito à propriedade e um governo monárquico. Era a confirmação de um projeto de independência que atendia aos interesses das mesmas elites (criollos, chapetones laicos e o clero) que dominavam o México na fase colonial. Em 1822, Itúrbide proclamou-se imperador, com o título de Agustín I. Itúrbide acabou deposto e fuzilado num levante republicano em 1824, e o México confirmava efetivamente sua independência da Espanha e elegia seu primeiro presidente, o general Guadalupe Vitória. A estrutura agrária e social que mantinha a maioria da população submetida ao controle das elites mexicanas permaneceu basicamente a mesma. Agustín Itúrbide, pintura anônima, feita, aproximadamente, em 1821. L u is a R ic c ia ri n i/ B ri d g e m a n I m a g e s /G lo w I m a g e s /M u s e u H is tó ri c o N a c io n a l, C a s te lo d e C h a p u lt e p e c , C id a d e d o M é x ic o , M é x ic o . R e p ro d u ç ã o /E d it o ra R e c o rd O general em seu labirinto. Gabriel García Márquez. Rio de Janeiro: Record, 2003. O autor reconstrói o passado da América Latina, segundo a lógica de um de seus libertadores, Simón Bolívar. Saber 25 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap1_016a061.indd 25V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap1_016a061.indd 25 24/09/2020 10:5224/09/2020 10:52 CONEXÕES ARTE A política na obra de arte Simbologias históricas – uma obra de Diego Rivera Neste mural, Rivera retrata alguns personagens da Guerra de Indepen- dência [do México], iniciada em 1810, por meio da representação pictó- rica dos líderes de maior vulto desse fato histórico: Hidalgo e Morelos, de um lado, ocupam o centro desta cena,enquanto no canto esquerdo, o Imperador Itúrbide aparece com um peso negativo, aliás o único a ser representado com esta conotação. Deste grupo central, o padre Hidalgo é o personagem principal que carrega na sua mão direita uma corrente quebrada, simbolizando a liberdade, a ruptura, o fim do domínio colonial, enquanto em sua mão esquerda sustenta um estandarte com a imagem da Virgem de Guadalupe. Ao lado de Hidalgo está o padre José María Mo- relos, o principal general e ideólogo da Guerra. Morelos aponta seu bra- ço para a direita, em direção ao futuro, gesto este acompanhado por um estranho personagem situado mais abaixo que se encontra vestido com uma armadura e uma planta de milho a seus pés como símbolo da terra e que está carregando uma espada em sua mão direita e uma espingarda na esquerda. Da mesma forma que Morelos, este personagem indica, com sua espada, a direção do futuro para um grupo de camponeses armados com rifles e sabres. Seus interlocutores são os camponeses mas também o espectador dos murais. É importante notar neste detalhe as duas intenções de Rivera como artista engajado politicamente. O primeiro aspecto a ser destacado é a relação e o sentido eminentemente social que o autor empresta às lutas pela independência, expressa na questão da demanda por terras pelos camponeses. Esse aspecto estabelece uma relação entre passado e pre- sente, pois na guerra pela independência está em questão o “pensamento social mexicano”, ou uma “revolução agrária” […]. A representação da águia ocupa uma posição central, um pouco mais abaixo da representação do padre Miguel Hidalgo. Esta imagem está ba- seada num monumento de pedra pertencente à cultura mexicana, en- contrado em 1926 na ala sul do Palácio Nacional, outrora o local onde se situava o Palácio de Montezuma. O ponto principal do monumento é a águia que sustenta em seu bico uma serpente apoiada sobre um pé de nopales, que simboliza a fundação de Tenochtitlán. Desta maneira, Rivera se apoia na arqueologia para reforçar o mito que funda a identidade cul- tural mexicana e serve de vínculo tangível entre o México moderno e seu passado remoto. Deste modo, reforça-se sobre este achado um capital ideológico. É a imagem do centralismo político, como reflexo de um Estado forte, con- 26 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap1_016a061.indd 26V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap1_016a061.indd 26 24/09/2020 10:5224/09/2020 10:52 NÃO ESCREVA NO LIVRO dição que, desde o século passado, se pensava como indispensável para integrar uma nação. O discurso que este símbolo traz refere-se ao mito de origem e a sede do poder político contemporâneo. Este inclusive é o símbolo da atual bandeira mexicana. […] Visualmen- te se estabelece então uma poderosa fonte de legitimidade política. VASCONCELLOS, Camilo de Mello. As representações das lutas de independência no México na ótica do muralismo. Diego Rivera e Juan O’Gorman. Revista de História, n. 153, dez. 2005. p. 283-304. O mural A Guerra de Independência do México (1810), do pintor mexicano Diego Rivera (1886-1957), foi produzido entre 1929 e 1935. Em seus diversos murais pintados no Palácio Nacional, no México, Rivera procurou abarcar a história mexicana desde seus mitos de origem até projeções do futuro. 1. Observe a reprodução do mural A Guerra de Independência do México, de Diego Rivera. O artista organizou as figuras da composição numa sequên- cia cronológica. Que segmento da pintura representa a história colonial mexicana? Que segmento representa a história mais recente? 2. Na composição, vários elementos interagem para que a história mexica- na seja mostrada como uma história de lutas. Identifique pelo menos três desses elementos. Veja as respostas no Manual do Professor. L u is a R ic c ia ri n i/ B ri d g e m a n I m a g e s /K e ys to n e B ra s il/ P a lá c io N a c io n a l, C id a d e d o M é x ic o , M é x ic o . © B a n c o d e M e x ic o D ie g o R iv e ra & F ri d a K a h lo M u s e u m s T ru s t, M e x ic o , D .F ./ A U T V IS , B ra s il, 2 0 2 0 . 27 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap1_016a061.indd 27V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap1_016a061.indd 27 24/09/2020 10:5224/09/2020 10:52 Destaques da América Latina depois da Independência México Após a instalação da República, em 1824, o México passou a viver um perío do de instabilidade política sob a forma de ditaduras e de dependência econômica. As condições sociais se deterioraram com a perda de quase me- tade de seu território, após a guerra travada contra os Estados Unidos, em 1848, e as intervenções estrangeiras sucessivas, como a dos franceses, en- tre 1861 e 1867, que tentaram instalar na região o governo Habsburgo de Ma- ximiliano, um prolongamento do Segundo Império napoleônico na América. Essas condições propiciaram a instalação da ditadura de Porfirio Díaz (ele governou em dois períodos: 1877-1880, 1884-1911), sob a qual se deu inten- sa concentração fundiária e entrada de elevadas somas de capital estran- geiro, voltadas para a exploração e o controle dos recursos minerais e da produção de artigos de exportação. Dessa forma, para a população local, em sua grande maioria concentrada nas áreas ru- rais, aumentaram a miséria e a dependência em relação aos grandes senhores. No início do século XX, esse quadro levou ao crescimento da insatisfação da população, o que provocou greves operárias nas cidades e revoltas na zona rural. Dessas lutas surgiram líderes popu- lares, como Emiliano Zapata (1879-1919) e Pan- cho Villa (1878-1923), que comandaram milhares de camponeses nas exigências por distribuição de terras por meio de reforma agrária, opondo-se aos latifundiários, aos quais se juntaram a Igreja e as elites constituídas. Parte da elite, no entanto, sob o comando de Francisco Madero (1873-1913), insurgia-se contra Porfirio Díaz. Essas forças uni- ram os exércitos revolucionários e depuseram Porfirio Díaz em maio de 1911. As camadas populares permaneceram insatis- feitas com as tímidas medidas sociais tomadas por Madero, que foi assassinado em 1913. O gene- ral Victoriano Huerta (1850-1916) reinstalou a di- tadura, ligada aos interesses dos Estados Unidos. Na foto, de 1915, os líderes populares Pancho Villa (no centro) e Emiliano Zapata (à direita) no palácio presidencial da Cidade do México. Populares mexicanos seguindo Zapata. Pintura de Orozco, 1931. Jo s e p h M a rt in /A lb u m /Z U M A P re s s /G lo w I m a g e s / M u s e u d e A rt e M o d e rn a , N o va Y o rk , E U A . U n iv e rs a l H is to ry A rc h iv e /G e tt y I m a g e s 28 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap1_016a061.indd 28V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap1_016a061.indd 28 24/09/2020 10:5224/09/2020 10:52 Pancho Villa voltou a lutar contra as forças federais, enquanto Zapata li- derava no sul a revolução camponesa pela reforma agrária. As pressões le- varam Huerta a renunciar em 1914 em favor de um governo constitucional liderado por Venustiano Carranza (1859-1920). Em 1917, foi promulgada a nova Constituição liberal do país e Carranza foi eleito presidente. Insatisfeitos com o não atendimento de suas reivindi- cações, sobretudo a redivisão fundiária, os movimentos populares continua- ram em luta. Entretanto, perderam força, principalmente com o assassinato de Zapata, em 1919, e o afastamento de Villa, em 1920, seguido de seu assas- sinato, em 1923. Assim, institucionalizou-se o projeto liberal. Na década de 1930, a reforma agrária, motivo da revolução de 1910, ain- da não havia sido realizada: mais de 80% das terras mexicanas estavam em mãos de pouco mais de 10 mil grandes proprietários. As manifestações na- cionalistas e as reivindicações sociais encontraram no presidente Lázaro Cárdenas (1895-1970), governante no período 1934-1940, um representan- te que expropriou terras e companhias estrangeiras, nacionalizou o petróleo e estimulou a formação de sindicatoscamponeses e operários. O partido do governo passou a chamar-se Partido da Revolução Mexicana, transformado em 1948 no Partido Revolucionário Institucional (PRI), que permaneceu hegemônico no poder, vencendo todas as eleições presiden- ciais, até ser derrotado em 2000. Nas últimas décadas do século XX, entretanto, o latifúndio voltou a domi- nar a estrutura agrária do país e houve intensa subordinação aos capitais internacionais, levando a economia a sucessivas crises. Diante da imensa dívida externa e do grave quadro inflacionário, em 1990 o presidente Carlos Salinas de Gortari (1948-) buscou acordos internacionais que atraíssem in- vestimentos estrangeiros, em especial dos Estados Unidos. A íntima vinculação ao bloco econômico norte-americano, unindo-se à economia de dois dos gigantes do capitalismo, Estados Unidos e Canadá, possibilitou a integração ao Nafta (Acordo Norte-Americano de Livre-Comér- cio), oficializada em 1o de janeiro de 1994 e comemorada como uma passagem para o mundo desenvolvido. Esse episódio, entretanto, foi ofuscado pelo levante do Exército Zapatista de Liber- tação Nacional (EZLN), que tomou várias cidades no estado de Chiapas, uma região empobrecida no sudeste do país. Os zapatistas, como ficaram conhecidos, proclamavam a exigência de “pão, saúde, educação, autonomia e paz” para os campo- neses da região. Liderados por um homem mascarado, autodenominado “subcomandan- te Marcos”, sublevavam-se contra o governo e denunciavam o Nafta como danoso ao povo mexicano. Na foto, membros do Congresso Nacional Indígena, do México, prestam solidariedade ao EZLN, durante manifestações que lembram os 100 anos de morte do líder Emiliano Zapata, na cidade de San Cristóbal de las Casas, México. O levante dos zapatistas em 1994 representou um sério revés à economia de mercado da integração neoliberal mexicana, além de derrotar o exército mexicano e tomar a capital do estado de Chiapas, San Cristóbal de las Casas. Foto de 2019. R o d ri g o P a rd o /A F P 29 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap1_016a061.indd 29V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap1_016a061.indd 29 24/09/2020 10:5224/09/2020 10:52 A economia mexicana mergulhou na instabilidade em meio a acusações de envolvimento do governo nos assassinatos, especialmente o irmão do presidente, Raúl Salinas (1946-), e escândalos de corrupção. As eleições de- ram vitória ao novo candidato do PRI, Ernesto Zedillo (1951-), que assumiu o cargo em dezembro de 1994. Nas eleições presidenciais de 2000, tiveram fim 71 anos seguidos de go- verno PRI, quando Vicente Fox (1942-) venceu a eleição para a Presidência pelo Partido de Ação Nacional (PAN). Nas eleições de 2006, Felipe Calderón (1962-), do mesmo partido, elegeu- -se presidente com apoio de Fox, derrotando por pouca margem de votos An- drés Manuel López Obrador (1953-), do Partido da Revolução Democrática (PRD), num clima de acusações de fraudes e contestações. Depois de uma breve ausência, o PRI retornou ao poder presidencial com a vitória do seu candidato Peña Nieto (1966-), empossado em dezembro de 2012. Em 2018 foi sucedido por Andrés Manuel López Obrador, contrário ao neoliberalismo e defendendo políticas mais à esquerda. Suas medidas de mudanças esbarra- ram em forte oposição e seguidas crises, essas aprofundadas em 2020 com os efeitos da pandemia do novo coronavírus. América Central e Caribe Inicialmente unida ao México, a América Central proclamou sua indepen- dência em 1823, formando as Províncias Unidas da América Central. Essa união pouco durou em virtude de pressões inglesas e estadunidenses, fragmen- tando-se em repúblicas autônomas a partir de 1838. As pressões, principalmente dos Estados Unidos, desdobraram-se em intervenções e apoio à formação de ditaduras, a exemplo da Guatemala em 1871, em prol da separação do Panamá da Colômbia em 1903 e nas décadas seguintes em Honduras, Nicarágua, Cuba, entre outras. As lutas locais e as guerrilhas estabelecidas diante do intervencionismo e os governos autoritá- rios conturbaram a região no século XX. Caso bastante singular foi o de Cuba. A independência cubana em relação à Espanha só aconteceu em 1898, sob a liderança de José Martí. Em 1901, os Estados Unidos oficializaram o seu domínio sobre a ilha, impondo à Consti- tuição cubana a chamada Emenda Platt, que lhe dava o direito de intervir no país sempre que seus interesses estivessem ameaçados, além de obrigá-lo a ceder a baía de Guantânamo. Seguiram governos ditatoriais apoiados pelos Estados Unidos e, em meio à Guerra Fria, em 1959, o movimento guerrilhei- ro liderado por Fidel Castro e Che Guevara depôs o ditador Fulgêncio Batista, assumindo o governo do país e implantando um regime de partido único: o Partido Comunista Cubano. Diante das medidas do novo governo, cresceram as tensões com os Estados Unidos, desdobrando-se na aproximação de Cuba com a então União Soviética e no aprofundamento do programa socialista, o que redundou em tentativas de intervenções por parte dos Estados Unidos e num isolamento político que persiste até hoje, mesmo após o fim da União Soviética e do bloco socialista. Discuta em grupo a Revolução Mexicana de 1910 e o movimento zapatista dos anos 1990, contando com dados obtidos em pesquisas (internet, livros, etc.) que considerem as seguintes questões: • Quais aspectos demonstram ligações entre os dois acontecimentos? • As permanências ou mudanças continuam no México atual? Ver respostas e orientações no Manual do Professor. Conversa NÃO ESCREVA NO LIVRO 30 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap1_016a061.indd 30V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap1_016a061.indd 30 24/09/2020 10:5224/09/2020 10:52 * São consideradas pobres as pessoas que sobrevivem com renda inferior a 3,20 dólares/dia e extremamente pobres as com renda inferior a 1,90 dólares/dia. Esse duradouro estado de lutas e guerras na América Central reforçou o quadro de empobrecimento e miséria, bastante comum em toda a América Latina, ativando por décadas a ebulição político-ideológica e o permanente desejo de mudanças. No início do século XXI, apesar de certo avanço eco- nômico, sobretudo no setor de turismo, os países da América Central ainda apresentam índices de pobreza e de pobreza extrema superiores à média da América Latina (observe o mapa a seguir). Juntando-se a esse quadro geral, o avanço nas lutas por direitos na Amé- rica Latina sofreu uma forte reversão a partir de meados do século XX. Nessa época, grupos poderosos das elites nacionais latino-americanas, apoiados pelos Estados Unidos, respaldaram intervenções militares sob o pretexto de conter a expansão internacional do comunismo tomando até mesmo como justificativa os desdobramentos do governo cubano em alinhamento com a União Soviética. Assim, seguiu-se a montagem dos diversos regimes ditato- riais que predominaram na América Latina durante o contexto da Guerra Fria (1947-1991). A transição para a democracia nas décadas finais do século XX, por sua vez, reforçou inúmeros desafios que precisavam ser enfrentados. Para citar apenas um dos mais graves: ainda são muito altos os índices de pobreza na região. Segundo a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), em 2018 a pobreza atingia 30% da população latino-ame- ricana, o que corresponde a 191 milhões de pessoas, e a pobreza extrema, 10,7%, ou seja, 68 milhões de pessoas ainda vivem na miséria. Observe no mapa abaixo os índices de pobreza por países. CEPAL. Anuario Estadístico de América Latina y el Caribe 2019. Santiago, 2020. p. 24. Depois de observar o mapa, responda: 1. Que país apresenta o maior percentual da população vivendo na pobreza e na pobreza extrema? E qual apresenta o menor percentual? Em que região eles se localizam? 2. Qual é a situação do Brasil? 3. Dados mais recentes apontam reversão ou aprofundamento dessas desigualdades? Ver respostas e orientações no Manual do Professor. Interpretar NÃO ESCREVA NO LIVRO P o rt a ld e M a p a s /A rq u iv o d a e d it o ra Pobreza e pobreza extrema* na América Latina – 2018 MÉXICO 41,5/10,6 HONDURAS 55,7/19,4 NICARÁGUA 46,3/18,3 REP. DOMINICANA 22,0/5,0 PANAMÁ 14,5/6,2 VENEZUELA 28,3/12,0 BRASIL 19,4/5,4 PARAGUAI 19,5/6,5 URUGUAI 2,9/0,1 ARGENTINA 24,4/3,6 CHILE 10,7/1,4 BOLÍVIA 33,2/14,7 PERU 16,8/3,7 EQUADOR 24,2/6,5 COLÔMBIA 29,9/10,8 COSTA RICA 16,1/4,0 EL SALVADOR 34,5/7,6 GUATEMALA 50,5/15,4 OCEANO PACÍFICO OCEANO ATLÂNTICO Equador Trópico de Capricórnio Trópico de Câncer 90º O 0º População em situação de pobreza População em situação de pobreza extrema 0 1 490 2 980 km Fonte: elaborado com base em CEPAL. Anuario Estadístico de América Latina y el Caribe 2019. Santiago, 2020. p. 26. 31 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap1_016a061.indd 31V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap1_016a061.indd 31 24/09/2020 10:5224/09/2020 10:52 Tomemos, como exemplo de turbulência política da América Latina, o caso do Peru e o da Argentina. Os governos militares no Peru terminaram com o general Morales Bermúdez, que governou até 1980. Porém, a democra- tização acabou tendo baixas momentâneas, como aconteceu na última década do século XX, em 1992. Ali, o presidente Alberto Fujimori (1938-) fechou o Congresso e tomou em suas mãos todos os poderes nacionais, ignorando a Constituição, anulando direitos e reelegendo- -se sucessivamente por três vezes. Durante seu longo governo, o ato mais bem-sucedido de Fujimori foi o de ter diminuído o poder de ação do grupo terrorista Sendero Lu- minoso, sem, contudo, ter reduzido os problemas sociais do país. O prolonga- mento de seu mandato e as medidas intransigentes por ele impostas à socie- dade peruana não impediram que um escândalo de compra de parlamentares viesse a público. Não tendo condições políticas nem apoio militar para se manter no poder, Fujimori pediu asilo político ao Japão em novembro de 2000. Em agosto de 2001, o Congresso do Peru aprovou, por unanimidade, uma “acusação cons- titucional” contra o ex-presidente, por homicídio, corrupção e sequestros du- rante os anos de seu governo. De 2001 a 2018, os presidentes sucessores também foram acusados de corrupção com desfechos de prisão. Em 2020 o governo de Martín Vizcarra, iniciado em 2018, juntava as dificuldades políti- cas de atritos com o Parlamento com os efeitos da pandemia do coronavírus. A Argentina é outro exemplo latino-americano de instabilidade política e social, mudanças e crescentes dificuldades econômicas e políticas nas últimas décadas. Foi em meio a acirradas disputas políticas que em 1943 chegou ao poder Juan Domingo Perón (1895-1974), que logo obteve apoio popular com suas reformas trabalhistas, bem como prestígio com a atua- ção de sua esposa, Eva Perón (1919-1952). Após a morte de Eva em 1952, as crescentes dificuldades econômicas e pressões políticas desembocaram num gol- pe que derrubou Perón em 1955, seguindo-se eleições, golpes de Estado e o retorno de Pe- rón. Eleito presidente em 1973, faleceu no ano seguinte, sendo sucedido por Isabel (1931-), sua então esposa e vice-presidente. Um novo golpe militar depôs Isabel em 1976, dando iní- cio a uma violenta ditadura militar repressiva, marcada por sequestros de opositores, rapto de filhos de jovens ativistas políticos tortura- dos e mortos. Estima-se em cerca de 30 mil o número de desaparecidos políticos. Vista do palácio do governo em Lima (Peru). Foto de 2019. Na foto, Juan Domingo Perón ao lado de sua mulher, Eva, em Buenos Aires, em 1950. M S e lc u k O n e r/ S h u tt e rs to ck K e ys to n e -F ra n c e /G a m m a -K e ys to n e /G e tt y I m a g e s 32 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap1_016a061.indd 32V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap1_016a061.indd 32 24/09/2020 10:5224/09/2020 10:52 Somente com o fracasso na Guerra das Malvinas, em 1982, contra a In- glaterra, que detinha a posse desse território reivindicado pela Argentina no Atlântico Sul e chamada pelos ingleses de Falklands, é que a ditadura militar ruiu, devolvendo o governo aos civis. A redemocratização do país foi realizada com a eleição de Raúl Alfonsín (1927-2009), da União Cívica Radical (UCR), cujo governo não conseguiu conter a crescente crise financeira e inflacioná- ria. O cenário de crises seguidas, com descontrole administrativo e financei- ro, ampliou as manifestações de protestos nos governos seguintes no início deste nosso século: em 2003 venceu as eleições o peronista Nestor Kirchner (1950-2010), sucedido em 2007 por sua esposa Cristina Kirchner (1953-), reeleita em 2011, ambos pelo Partido Justicialista (também conhecido como Partido Peronista). Em 2015 foi eleito o empresário Mauricio Macri (Proposta Republicana) e, em 2019, Alberto Fernández (Partido Justicialista). Vale descatar que, em julho de 2012, as “Mães e Avós da Praça de Maio” obtiveram êxito na Justiça ao conseguirem a condenação de várias autorida- des argentinas a penas que variaram de 5 a 50 anos de prisão por atuações criminosas durante a ditadura militar. Como primeiro passo, em grupos de três a quatro colegas, façam uma pesquisa (na internet, em livros, revistas, etc.) sobre as “Mães e Avós da Praça de Maio” e registrem no caderno os dados sobre o histórico desse movimento, suas atuações e seus resultados. Em seguida, cada grupo deve apresentar aos demais os dados coletados. Por fim, discutam: • Quem são as mães e avós que criaram esse movimento? • Tomem os casos pesquisados sobre o que aconteceu com seus filhos e netos durante a ditadura militar: quais os desfechos dos casos tratados? NÃO ESCREVA NO LIVRO Ver respostas e orientações no Manual do Professor. Conversa As “Mães e Avós da Praça de Maio” em Buenos Aires, em 2011. Na Plaza de Mayo, em seguidas manifestações, mães e avós exigiam explicações oficiais sobre os desaparecidos durante a ditadura Argentina, movimento que obteve grande repercussão nacional e internacional. D a n ie l G a rc ia /A F P 33 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap1_016a061.indd 33V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap1_016a061.indd 33 24/09/2020 10:5224/09/2020 10:52 DIÁLOGOS NÃO ESCREVA NO LIVRO 1. Com suas palavras, explique a seguinte afirmação da historiadora Maria Ligia Prado: A independência política e a formação dos Estados nacionais na América Latina se fizeram a partir do rompimento do sistema colonial, dirigidas por setores dominantes da colônia, des- contentes com a impossibilidade de usufruir as “novas vantagens” que o capitalismo do novo século lhes oferecia. […] Além disso, aqui havia, antes da colonização espanhola e portuguesa, culturas autóctones que se rebelaram e lutaram para sobreviver depois do impacto da chegada dos europeus. Junto a elas estavam os negros africanos que também foram incorporados a este continente. PRADO, Maria Ligia. A formação das nações latino-americanas. São Paulo: Atual, 1985. p. 2. 2. Quando nos dedicamos a estudar ou pesquisar determinado assunto, percebemos que sempre há algo novo a ser descoberto. Leia o trecho a seguir e responda às questões propostas. Em época de Copa do Mundo, ressurge o estereótipo do argentino, [que] usa qualquer artima- nha para vencer, pior adversário do Brasil. Contudo, essa rivalidade tem fundamento histórico ou é um mito midiático restrito ao folclore do futebol? Segundo historiadores, a suposta e encarni- çada rivalidade entre brasileiros e argentinos pode não ser apenas um folclore, mas também não é tão grande como propagam alguns locutores e comentaristas esportivos. A rivalidade entre brasileiros e “hermanos” é, inclusive, maior para nós do que para eles, acre- dita a historiadora Lívia Magalhães [...]. “Na verdade, o grande rival argentino, pelo menos no futebol, ainda é a Inglaterra, no imaginário social deles [...]”, diz. “Acho que o Brasil compra mais isso, de que no futebol o grande inimigo é a Argentina, mas eles não nos consideram o primeiro rival.” [...] há muito tempo, nada nas relações político-econômicas[entre Brasil e Argentina] respalda qualquer motivo para uma rivalidade séria. [...] [Porém], do lado brasileiro, incentivo midiático à rivalidade e até hostilidade por parte dos brasileiros é o que não falta [...]. MARETTI, Eduardo. Rivalidade de argentinos é maior com ingleses e uruguaios do que com brasileiros. Rede Brasil Atual, São Paulo, 13 jun. 2014. Disponível em: https://www.redebrasilatual.com.br/politica/ 2014/06/rivalidade-de-argentinos-e-maior-com-ingleses-e-uruguaios-do-que-com-brasileiros-2740/. Acesso em: 3 set. 2020. a) O termo “estereótipo” tem origem grega: é formado pelos vocábulos stereos, “sólido”, e typos, “im- pressão” ou “molde”, significando “impressão sólida”. O estereótipo consiste em uma ideia, concei- to ou modelo atribuído a pessoas ou a grupos sociais, quase sempre sem nenhuma fundamentação teórica. Esse trecho de reportagem pretende desconstruir um estereótipo. Reflita sobre o trecho e responda: o desconhecimento sobre algo (ou alguém) pode fortalecer estereótipos? Por quê? b) Em um exercício de desconstrução do estereótipo do “argentino”, o autor do texto nos informa sobre quem colabora para “alimentar” esse estereótipo e cita elementos que o enfraquecem, ou seja, que são capazes de negá-lo. Releia a reportagem e explique de que maneira o autor do texto faz isso. c) Neste capítulo, em sua opinião, houve algum caso de desconstrução de estereótipos? Em caso positivo, explique qual era o estereótipo e como ele foi desconstruído. Veja as respostas das atividades desta seção no Manual do Professor. 34 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap1_016a061.indd 34V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap1_016a061.indd 34 24/09/2020 10:5224/09/2020 10:52 Brasil: da independência ao século XXI Coube a dom Pedro I (1798-1834), junto com a aristocracia, empreender o processo de independência, cuja participação popular apenas ocorreu nos enfrentamentos com as tropas portuguesas. Essa independência do Brasil trouxe o fim da subordinação a Portugal, mas não modificou a estrutura produtiva ou a ordenação da sociedade brasi- leira. Significava a libertação de amarras coloniais, mas a dependência eco- nômica permaneceu enquanto se mantiveram os privilégios ingleses. Diferentemente do que ocorreu em outras ex-colônias americanas, que após longas lutas por sua independên- cia adotaram o regime republicano, no Brasil foi instituído o regime monár- quico. De imediato, a ordem socioe- conômica não sofreu alteração, nem mesmo em suas estruturas predomi- nantemente coloniais, como o escra- vismo, o latifúndio e o domínio político da aristocracia. Mas é preciso destacar que o processo de emancipação políti- ca e de construção do Estado Imperial não foi pacífico e não envolveu apenas um único projeto político. Na estruturação do novo Estado independente, em meio às disputas políticas prevaleceu o poder do imperador, que outorgou a primeira Constituição do Brasil. Essa Constituição de 1824,segundo a historiadora Keila Grinberg, não apresentava [...] critério racial que diferenciasse os descendentes de africanos de qualquer outro cidadão brasileiro. Enquanto os libertos (alforriados que tinham obtido a liberdade) propriamente ditos não podiam ser eleitores, seus filhos e netos poderiam exercer os direitos de cidadania brasileira em toda sua plenitude, caso tivessem a renda e a propriedade exigidas. GRINBERG, Keila. Cidadania. In: Dicionário do Brasil Imperial (1822-1889). Direção Ronaldo Vainfas. Rio de Janeiro: Objetiva, 2002. p. 139. Assim, com tais barreiras, a Constituição restringia ou impedia a partici- pação política dos grupos sociais menos favorecidos e mantinha a essência elitista. Contava também com o Poder Moderador, cujo exercício era atribui- ção exclusiva do imperador. Ao longo do período em que vigorou a Constituição de 1824, a despeito da afirmação da igualdade de direitos civis para todos os cidadãos, o exercício cotidiano da cidadania quase nunca foi o mesmo entre brancos e negros, en- tre ricos e pobres, entre senhores poderosos e demais indivíduos, em virtude das influências, fraudes, pressões e outros recursos de favorecimento. Coroação de dom Pedro I como primeiro imperador do Brasil, em 1822, representada em pintura de Jean-Baptiste Debret, de 1828. R e p ro d u ç ã o /F u n d a ç ã o B ib lio te c a N a c io n a l, R io d e J a n e ir o , R J. 35 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap1_016a061.indd 35V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap1_016a061.indd 35 24/09/2020 10:5224/09/2020 10:52 Um exemplo contrário ao projeto vitorioso da independência realizada por dom Pedro I foi a Confederação do Equador, trazendo à tona “outro projeto de país”. A imposição da Constituição de 1824 provocou protestos em várias províncias, principalmente no nordeste. Além disso, crises como a do açúcar e do algodão, relacionadas à concorrência estrangeira, e os crescentes impos- tos determinados pelo governo central geraram descontentamento na população. Em Pernambuco, a população rebelou-se quan- do dom Pedro I nomeou um novo presidente para a província. Sob o comando do governador deposto, Manuel de Carvalho Paes de Andrade (1774-1855), o movimento de caráter separatista, republicano e basicamente urbano e popular, espalhou-se pelo nordeste, obtendo a adesão do Rio Grande do Nor- te, do Ceará, da Paraíba e depois de Alagoas e Ser- gipe. Em outras províncias vizinhas, como Piauí e Pará, também ocorreram manifestações de apoio. As províncias rebeldes formaram a Confedera- ção do Equador, cujo nome faz referência à sua localização geográfica, próximas à linha do equa- dor. Os revoltosos decidiram extinguir o tráfico negreiro e convocar o recrutamento geral para enfrentar as tropas monárquicas. Além de Paes de Andrade, os principais líde- res do movimento foram Joaquim do Amor Divino Rebelo (1779-1825), que ficou conhecido como frei Caneca, divulgador dos ideais republicanos em seu jornal, e Cipriano Barata (1762-1838), veterano das insurreições anteriores na Bahia, e em Pernambuco, dirigente de vários jornais do nordeste. Um dos participantes, o major Emilia- no Mundurucu, redigiu um manifesto por uma re- volução de caráter radical, como a haitiana, ate- morizando aliados e inimigos da Confederação. Para dominar os rebelados, dom Pedro I contou com empréstimos feitos pela Inglaterra. Os revol- tosos foram brutalmente reprimidos, sofrendo ataques por terra e por mar. Os revoltosos foram julgados por um tribunal presidido por Lima e Silva, que condenou à execu- ção dezesseis participantes. Até a pena de enfor- camento de frei Caneca teve de ser trocada para a de fuzilamento, pois os responsáveis pela exe- cução da sentença, mesmo sob ameaças, recusa- ram-se a enforcar o padre carmelita. O governo de dom Pedro I durou até a abdica- ção, em 1831, embarcando para Portugal e entre- gando o trono ao seu filho dom Pedro de Alcântara (1825-1891), então com 5 anos de idade. Como era menor de idade, decidiu-se que, obedecendo à Constituição de 1824, o governo seria exercido por uma regência. Era o início do período regen- cial, que durou de 1831 a 1840, considerado por alguns historiadores um dos mais agitados da história brasileira. NÃO ESCREVA NO LIVRO A agitação do período regencial pode ser mais bem compreendida considerando-se as diversas rebeliões. Em grupos de seis colegas, cada um de vocês deve pesquisar uma das seguintes rebeliões regenciais, anotando os aspectos mais importantes para apresentar aos demais membros do grupo: Cabanagem (Grão-Pará – 1835-1840), Sabinada (Bahia – 1837-1838), Balaiada (Maranhão – 1838-1841), Farropilha (Rio Grande do Sul – 1835-1845), Revolta de Carrancas (Minas Gerais – 1833) e Revolta dos Malês (Bahia – 1835). Após a apresentação de cada grupo, discutam as seguintes questões: 1. Há aspectos comuns entre as rebeliões? Em que são distintas e diferentes entre si? 2. Segundo as pesquisas, como são rememoradas recentemente essas rebeliões nas regiões em que aconteceram?Ver respostas e orientações no Manual do Professor. Conversa R e p ro d u ç ã o /F u n d a ç ã o B ib lio te c a N a c io n a l, R io d e J a n e ir o , R J. Abdicação de dom Pedro I, pintura de Aurélio Figueiredo, do século XIX. Vê-se, sentado ao lado da mãe, o menino dom Pedro de Alcântara. O futuro imperador ficaria sob os cuidados de José Bonifácio até alcançar a maioridade. 36 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap1_016a061.indd 36V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap1_016a061.indd 36 24/09/2020 10:5224/09/2020 10:52 Os excluídos nessa história do Brasil: negros e indígenas Em muitos aspectos, a vida no Império não se distinguia muito da que pre- dominara no período colonial. A grande mudança política representada pela independência não implicou significativas mudanças sociais e econômicas. Os setores da sociedade que eram subjugados não viram alterações expres- sivas em sua condição de vida, exceto pela participação de alguns batalhões formados por negros nas guerras de independência. Muitos escravizados conseguiram a liberdade por terem participado daqueles conflitos. O olhar dos indígenas O Brasil é uma invenção! E a invenção do Brasil ela nasce exatamente da invasão. Inicialmente feita pelos portugueses e depois continuada pelos ho- landeses, depois continuada pelos franceses, em um modo sem parar, onde as invasões nunca se deram um fim. Nós estamos sendo invadidos agora! [...] Quando os brancos chegaram, eles foram admitidos como mais um na diferença. E se os brancos tivessem educação, eles poderiam ter vivido no meio daqueles povos e vivido outro tipo de experiência. Mas eles chegaram aqui com a má intenção de assaltar essa terra e escravizar o povo que vivia aqui. E foi o que deu errado. [...] A descoberta do Brasil, aquela missa lá é um mito de origem. Nós somos adultos, a gente não precisa ficar embalado com essas histórias. A gente pode buscar entender a nossa história com as diferentes matizes que ela têm, e ser capaz de entender que não teve um evento fundador do Brasil. [...] Os nossos mundos estão todos em guerra. [...]. Não tem paz em lugar nenhum [...] A guerra continua até hoje [...]. Transcrição de depoimento de Ailton Krenak. Guerras do Brasil – Episódio 1. Nossa história viva. Disponível em: www.youtube.com/watch?v=VeMlSgnVDZ4&list=PLb-f5dAjBAFbOI_w8JRJI3PyfF5S yafsK&index=10&t=0s. Acesso em: 6 jun. 2020. Os povos originários estavam fora de toda a movimentação política no Rio de Janeiro e nas capitais das províncias. Desde o período da colônia, os indí- genas eram considerados um obstáculo para o projeto de país almejado pelas elites, um grupo visto como “in- ferior” que atrapalhava as atividades econômicas e que, muitas vezes, não interessava nem como escravizado. A atitude desses povos discriminados, contudo, não era de passividade. Além das fronteiras da sociedade dominante, onde acabava o alcance do Estado ou dos proprietários, co- meçavam terras distantes e relativamente livres para negros, indígenas e mestiços. Esses grupos promoviam saques, atacavam povoa- ções e faziam emboscadas contra as expedições gover- namentais. Os “brancos” viviam, assim, em constante alerta diante da ameaça de que essa contínua guerra sociorracial pudesse espalhar-se e destruir a ordem es- tabelecida. 1. O que Krenak quer dizer com “o Brasil nasce como invenção e invasão”? 2. Por que ele aponta, em seu depoimento, que não houve um evento fundador do Brasil? 3. Você concorda com o autor de que a guerra continua? Por quê? Ver respostas e orientações no Manual do Professor. Interpretar NÃO ESCREVA NO LIVRO Interior de uma oca de índios bororos, aquarela de Adrien Taunay (1803-1828), 1827. Após a independência, os grupos indígenas continuavam alvo de discriminação por parte da sociedade dominante, com a participação ou conivência dos órgãos estatais. R e p ro d u ç ã o /A c a d e m ia d e C iê n c ia s d a R ú s s ia , M o s c o u , R ú s s ia . 37 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap1_016a061.indd 37V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap1_016a061.indd 37 24/09/2020 10:5224/09/2020 10:52 Brasil: do século XIX à República da Era Vargas O período regencial do Império terminou com a antecipação da maioridade de dom Pedro II, em 1840. O Segundo Reinado (1840-1889) pode ser considerado o apogeu da Monarquia brasilei- ra, evidente representante dos interesses das elites. A centralização política e administrativa permaneceu, ao passo que as revoltas herdadas do período anterior, além de outros movimentos sociais que colocavam em risco a ordem monár- quica, foram “pacificados”. No vértice do poder, os partidos Conservador e Liberal, às vezes sozi- nhos, às vezes juntos, como no período da “con- ciliação” entre 1853 e 1858, integraram o gover- no de dom Pedro II. As elites escravistas-exportadoras, em espe- cial a açucareira e a cafeeira, assim como seus representantes na organização imperial, marca- ram a feição do país durante o Segundo Reinado, mantendo a ordem socioeconômica construída ao longo da colonização. A questão escravista, a abolição, a expansão do cultivo de café e os conflitos externos foram al- gumas das marcas do Segundo Reinado no Brasil. Entretanto, apesar de certa continuidade, novas forças sociais emergiram na segunda metade do século XIX, principalmente a partir do advento de indústrias e do processo de urbanização. A mão de obra escravizada foi gradualmente substituída pela assalariada, constituída basicamente de imigrantes. Ao mesmo tempo que o caráter elitista perma- necia na esfera política, a economia tornava-se mais racional e produtiva. O sudeste tornou-se o novo polo econômico do país, com grande cres- cimento populacional e mudanças na estrutura étnico-social. No Brasil, periferia dos centros de desenvolvi- mento econômico mundiais do período, ansiava-se por mudanças e assistia-se ao colapso da monar- quia após os anos seguintes à Guerra do Paraguai (1864-1870) e a questão das lutas abolicionistas. Em 15 de novembro de 1889, um golpe lide- rado pelos militares pôs fim ao poder de dom Pedro II e instaurou a república, forma de governo cujos ideais estiveram presentes no Brasil em vá- rios movimentos políticos desde a época colonial. A Constituição de 1891, oficializando em direi- tos o novo regime republicano, estabelecia, por exemplo, que o voto tornava-se um direito de todos os homens maiores de 21 anos, exceto mendigos, padres, soldados e analfabetos. Até então, as pes- soas tinham de ter uma renda mínima para poder votar. Houve ainda a divisão de poderes e maior au- tonomia das províncias, que se tornavam estados de uma federação. A Constituição de 1891 também trazia importantes garantias individuais, como o di- reito de ir e vir, o direito de associação, a liberdade de imprensa e o direito de exercício profissional. Venda de escravos no Rio de Janeiro, RJ, ilustração de François Biard. R e p ro d u ç ã o /C o le ç ã o p a rt ic u la r 38 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap1_016a061.indd 38V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap1_016a061.indd 38 24/09/2020 10:5224/09/2020 10:52 Apesar desses méritos, as primeiras décadas após a proclamação da repú- blica foram marcadas por fraudes eleitorais, o coronelismo via voto de cabresto, a política do café com leite e o domínio de oligarquias rurais. Em outras pala- vras, na prática, tratava-se de uma sociedade oligárquica e não democrática. Café com leite Os paulistas, responsáveis pela maior parte da produção de café, e os mineiros, responsáveis pela criação de gado leiteiro, controlavam as sucessões políticas presidenciais; quase sempre um presidente paulista era seguido de um mineiro, e vice-versa. Coronelismo Pessoas influentes em uma região, que chefiavam milícias formadas por civis, recebiam do governo imperial o título de coronel. A origem do título reporta à Guarda Nacional, criada em 1831 como auxiliar das Forças Armadas e do Corpo Permanente (a polícia) nocombate às agitações políticas do período regencial. Mesmo após a extinção da Guarda Nacional, em 1918, os proprietários de terra continuaram gozando do prestígio e da patente de coronéis, impondo à população local a sua vontade e obrigando-a a votar em seus candidatos. Voto de cabresto Designa o voto que é feito para atender aos interesses dos poderosos locais; "cabresto" é o arreio de corda ou couro que serve para prender e controlar o animal. Conceitos Tenentismo Jovens oficiais de baixa patente, principalmente tenentes e capitães oriundos da classe média, que lideraram vários levantes militares nos anos 1920. Acreditavam que cabia ao Exército a tarefa de moralizar a política e derrubar a República Oligárquica. Conceitos O final da década de 1920 foi marcado por uma crise ao mesmo tempo eco- nômica e política. Do ponto de vista econômico, a quebra da Bolsa de Valores de Nova York, em 1929, afetou profundamente o Brasil, já que os Estados Unidos eram o principal comprador do café brasileiro. No âmbito político, as divergên- cias entre Minas Gerais e São Paulo, sobre a sucessão presidencial, levaram ao colapso da política do café com leite. Esses fatores contribuíram para que acon- tecesse um levante revolucionário em 1930, a partir do qual o político gaúcho Getúlio Vargas (1882-1954) assumiu a Presidência da República. Tratava-se de uma solução provisória, até que se elaborasse uma nova Constituição, mas Getúlio dominaria o cenário político, exercendo a Presidên- cia entre 1930 e 1945, e, logo depois, novamente, entre 1951 e 1954. Como o movimento que o havia levado ao poder em 1930 era composto de grupos diversos – a oligarquia mineira, lideranças políticas do nordeste, o tenentis- mo, as camadas médias urbanas, entre outros –, não demorariam a surgir di- vergências. Logo no início de seu governo, Getúlio tomou medidas de caráter autoritário, como a dissolução do Congresso e a nomeação de interventores nos estados, que desempenhariam o papel de governadores. 39 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap1_016a061.indd 39V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap1_016a061.indd 39 24/09/2020 10:5224/09/2020 10:52 O maior foco de desconten- tamento era São Paulo, que havia perdido a predominância na cena política. Partindo do pressuposto de que a promul- gação de uma nova Constitui- ção colocaria limites ao auto- ritarismo de Vargas, os paulis- tas reivindicavam a imediata convocação de uma assem- bleia constituinte. As tensões levaram ao início da Revolução Constitucionalista de 1932. Um dos principais acontecimentos da época foi a assassinato de quatro estudantes que partici- pavam de uma manifestação. Das iniciais do nome desses estudantes (Martins, Miragaia, Dráusio e Ca- margo) surgiu o nome do movimento revolucionário: MMDC. Apesar do signi- ficativo apoio da população do estado de São Paulo, os revolucionários foram derrotados pelas forças legalistas de Getúlio em pouco mais de dois meses. De qualquer modo, Getúlio não pôde mais conter as pressões sociais e no ano seguinte tomou posse uma Assembleia Constituinte. Em 16 de julho de 1934 foi promulgada uma nova Constituição, que limitava o poder do presi- dente, como a garantia de habeas corpus e o mandado de segurança, além de incluir importantes leis trabalhistas, como a instituição da Justiça do Tra- balho, jornada de trabalho de oito horas semanais, salário mínimo, repouso semanal remunerado, indenização por demissão sem justa causa, entre ou- tras. O Código Eleitoral, por sua vez, instituía o voto secreto e o direito de voto a homens e mulheres maiores de 18 anos. Antes só os homens com mais de 21 anos é que podiam votar. Com a nova Constituição em vigor foram convocadas eleições nas quais Getúlio saiu vitorioso. No plano econômico o governo brasileiro teve de lidar com os efeitos da crise de 1929, que derrubou a exportação do café, principal produto brasileiro para o mercado externo. A partir de então a agricultura de exportação se tornou mais diversificada, estimulando a produção de frutas, por exemplo. Ao mesmo tempo, a indústria brasileira encontrou um clima fa- vorável para se desenvolver, pois, com a desvalorização da moeda, os produ- tos estrangeiros se tornavam mais caros. Em 1935 ocorreu a Intentona Comunista, um levante que se iniciou no Rio Grande do Norte e teve desdobramentos em outros estados. Os revoltosos, agrupados em torno da Aliança Nacional Libertadora (ANL), liderada por Luís Carlos Prestes (1898-1990), pretendiam derrubar Getúlio Vargas e implantar um governo comunista no Brasil. O movimento, que havia sido mal calculado, fracassou e ocasionou uma violenta repressão não só aos comunistas, mas a todos os opositores do governo. Passeata no centro da cidade de São Paulo (SP) durante a Revolução Constitucionalista, em 1932. A ve lin o G in jo /M u s e u d a I m a g e m e d o S o m , S ã o P a u lo , S P. 40 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap1_016a061.indd 40V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap1_016a061.indd 40 24/09/2020 10:5224/09/2020 10:52 O autoritarismo de Vargas contava com o apoio de setores do Exército e de grupos dominantes da sociedade civil. Nesse contexto, em 1937, Vargas deu um golpe de Estado antes que se encerrasse seu mandato constitucional. Usando como pretex- to a ameaça comunista, decretou estado de guer- ra, condição que lhe permitia prender qualquer pessoa sem ordem judicial. A ação foi baseada na divulgação de um suposto plano comunista – chamado Plano Cohen –, que mais tarde desco- briu-se ter sido elaborado pela própria equipe de Getúlio Vargas como forma de justificar o golpe. Em 10 de novembro de 1937 Vargas apresen- tou uma nova Constituição, que estabelecia uma ditadura, que ficou conhecida por “Estado Novo”. Nesse período, que se estenderia até 1945, o pre- sidente tinha poderes para dissolver o Congresso. Além disso, extinguiam-se os partidos políticos, abolia-se a liberdade de imprensa e os estados passaram a ser governados por interventores. Para censurar a imprensa e manipular a opinião pública o governo criou o Departamento de Imprensa e Pro- paganda (DIP). Em muitos aspectos o Estado Novo se assemelhava aos regimes ditatoriais na Europa, como o nazismo alemão ou o fascismo italiano. O nazismo alemão também encontrava eco na Ação Integralista Brasileira (AIB), um movimento de extrema direita fundado pelo jornalista Plínio Sampaio. Mas, em função de desentendimentos e tentativa de golpe contra Getúlio Vargas, os integralistas foram perseguidos e presos ou exi- lados ainda em 1938. Na economia, prevaleceu o controle estatal, es- timulando a industrialização. O início da Segunda Guerra Mundial, em 1939, dificultou as importa- ções de produtos industrializados, exigindo sua produção no Brasil, o que levou o governo a esti- mular a implantação de novas fábricas e a amplia- ção das já existentes. Vargas também criou gran- des empresas estatais de indústria de base, indis- pensáveis ao desenvolvimento dos demais seto- res industriais, surgindo, assim, a Companhia Si- derúrgica Nacional (CSN), em Volta Redonda (RJ), e a Companhia Vale do Rio Doce, em Itabira (MG), para a extração e processamento de minérios. Em 1938, o governo criou o Conselho Nacional do Petróleo para controlar a exploração e o forne- cimento do petróleo e seus derivados. O primeiro poço petrolífero foi perfurado em 1939, em Loba- to, no Recôncavo Baiano. Com o desenvolvimento da Segunda Guerra Mundial o Brasil alinhou-se aos países aliados contra a Alemanha e a Itália. Isso gerou um para- doxo, pois o Brasil combatia no exterior os países cujos regimes mais se assemelhavam ao que existia na política interna. Isso abriu espaço para movimentos de contestação ao regime, de modo que, em 1945, no mesmo ano em que terminava a guerra na Europa, o Estado Novo também che- gava ao fim. Comício da Aliança Nacional Libertadora (ANL) na Cinelândia, Rio de Janeiro (RJ). Foto de 1935. A c e rv o I c o n o g ra p h ia /R em in is c ê n c ia s 41 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap1_016a061.indd 41V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap1_016a061.indd 41 24/09/2020 10:5224/09/2020 10:52 Populismo e paternalismo na Era Vargas A Era Vargas foi marcada por uma política populis- ta e paternalista. Segundo o sociólogo estunidense Allan Johnson (1946-), o populismo “é uma ideolo- gia ou movimento social que deposita fé na sabedo- ria do homem comum e por isso mesmo desconfia das elites, tais como a política, a intelectual, a em- presarial, etc.”. Na maioria das vezes, o populismo se identifica com as lideranças carismáticas, que se apresentam como porta-vozes da vontade do povo e conseguem subjugar as demais forças políticas graças ao apoio popular que recebem. O paterna- lismo, por sua vez, pode ser definido como um con- junto de relações sociais ou um sistema de trabalho estabelecido com um caráter de proteção. De modo análogo à autoridade do pai de família em uma es- trutura patriarcal, o político paternalista se coloca como protetor dos cidadãos e, ao mesmo tempo, como autoridade que não admite questionamento. De um ponto de vista filosófico, segundo o filósofo Gerald Dworkin (1937-), o paternalismo se constitui na “interferência de um Estado ou de um indivíduo sobre outra pessoa, contra a vontade desta, sob a alegação de que essa interferência a beneficia ou a protege”. Nesse sentido, uma política paternalis- ta é aquela em que o líder político trata os cidadãos como crianças a serem educadas ou incapazes de serem autonômas e que, por isso, devem obedecer às determina- ções do líder do Estado porque supostamente não sabem o que é me- lhor para si mesmos. Nos regimes populistas da América Latina, a po- lítica era baseada em uma ampla mobilização so- cial, que tem como preceito a integração das clas- ses populares, rejeitando assim a noção de luta de classes. Esses governos populistas estimulavam a industrialização por meio da intervenção do Es- tado, sob o manto de uma ideologia nacionalista associada à personificação de um grande líder. De acordo com essa ideologia, a soberania popular JOHNSON, Allan G. Dicionário de Sociologia. Rio de Janeiro: Zahar, 1997. p. 179. DWORKIN, Gerald. Paternalism. Stanford Encyclopedia of Philosophy. Disponível em: https:// plato.stanford.edu/entries/ paternalism/#Intr. Acesso em: 3 ago. 2020. Trabalhadores homenageiam Getúlio Vargas em 1940 no Rio de Janeiro (RJ). encontraria sua voz nos discursos do líder caris- mático. No populismo, a crise era frequentemente representada como uma divisão entre os setores modernos e tradicionais de uma sociedade, e essa crise só poderia ser superada por meio da subordi- nação das massas ao líder carismático. Esse é exatamente o caso do populismo na Era Vargas. Administrando um governo que teve ori- gem na confluência de forças divergentes com o fim específico de suplantar a hegemonia paulista em âmbito federal, Getúlio Vargas adotou políticas de caráter autoritário para manter-se no poder, uma vez que era impossível atender aos interes- ses de grupos diversos. Um exemplo disso foi o modo como a instituição de uma legislação traba- lhista, primeiramente na Constituição de 1934, e depois na promulgação da Consolidação das Leis do trabalho, em 1943, foi utilizada para alçar Var- gas à imagem de “pai dos pobres”. Ao mesmo tem- po que garantia direitos trabalhistas, e com isso angariava apoio popular, o presidente transforma- va os sindicatos em “colaboradores do Estado”, proibindo que eles desenvolvessem atividades políticas ou se filiassem a organizações sindicais internacionais. Nesse sentido, a política de Vargas era não só populista, mas também paternalista, na medida em que colocava os trabalhadores sob seus cuidados e orientação. A c e rv o I c o n o g ra p h ia /R e m in is c ê n c ia s 42 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap1_016a061.indd 42V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap1_016a061.indd 42 24/09/2020 10:5224/09/2020 10:52 Movimentos e lutas sociais na Era Vargas Contudo, o autoritarismo de Estado enfrenta- va a resistência de movimentos sociais que se faziam presentes em frentes diversas e não raro eram bem diferentes entre si, tanto do ponto de vista ideológico como de organização social. Um movimento que remontava ao século XIX, mas que ainda era atuante na Era Vargas, era o cangaço. Mais do que grupos armados de mar- ginais que saqueavam cidades e vilas no sertão nordestino, os cangaceiros também representa- vam uma espécie de banditismo social, algo que muitos historiadores consideram uma forma pri- mitiva de protesto social organizado. O banditis- mo social, como fenômeno sociológico, pode ser encontrado em diversos locais e épocas, tendo na imagem lendária de Robin Hood um de seus prin- cipais modelos. Sem deixar de ser um criminoso, Robin Hood, personagem da Inglaterra medieval, era também um herói, que supostamente repar- tia com os pobres o que roubava dos ricos. Sem negar que os cangaceiros agissem na maioria das vezes também como criminosos, na imaginação popular eles eram frequentemente vistos como “vingadores” ou “justiceiros”. A relação do governo de Vargas com o cangaço era ambígua. Ao mesmo tempo que o presidente havia concedido um indulto a Antônio Silvino, um conhecido cangaceiro, em 1944, o cangaço não deixava de ser um problema para as elites, em es- pecial os latifundiários. O mais famoso dos canga- ceiros foi Virgulino Ferreira da Silva (1898-1938), conhecido pelo apelido de Lampião. Após um con- flito entre oligarquias rurais, em 1919, no qual seu pai foi morto pela polícia, Lampião chefiou um ban- do de cangaceiros até 1938, quando foi morto em uma emboscada armada por uma tropa policial. O grupo de Virgínio Fortunato da Silva (ao centro), conhecido como "Moderno". Moderno era cunhado de Lampião. A foto foi feita por Benjamim Abrahão entre 1936 e 1937. B e n ja m in A b ra h ã o /F u n d a ç ã o J o a q u im N a b u c o , R e c if e , P E . NÃO ESCREVA NO LIVRO 1. Como o governo Vargas se integra nessa visão populista e paternalista? 2. Como vocês analisam essa tutela sobre os cidadãos? 3. Vocês conhecem exemplos recentes de populismo e paternalismo? Conversa Outro importante movimento na Era Vargas foi o comunismo, representado principalmente pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB), no qual o nome de Luís Carlos Prestes (1898-1990) des- pontava como uma de suas principais lideranças. Nos anos 1930 o PCB uniu-se à ANL, uma ampla frente de movimentos de esquerda, que em 1935 articulou a Intentona Comunista, um plano frus- trado de rebelião, com o objetivo de implantar o comunismo no Brasil. A repressão do governo Vargas ao comunismo foi intensa e Prestes fica- ria preso até 1945, quando Vargas anistiou os prisioneiros políticos. Ironicamente o PCB acabou apoiando a permanência de Vargas no poder nos anos finais da Segunda Guerra Mundial, já que o Brasil lutava ao lado dos Aliados, que tinham não só países capitalistas, como Estados Unidos, França e Inglaterra, mas também a União Sovié- tica como um de seus integrantes. A vitória dos Aliados trouxe prestígio à União Soviética, e isso se refletiu no fortalecimento do PCB no final do governo Vargas. 43 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap1_016a061.indd 43V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap1_016a061.indd 43 24/09/2020 10:5224/09/2020 10:52 O término do governo Vargas no Estado Novo foi marcado por pressões de grupos que defen- diam uma reforma constitucional e o fim da dita- dura. Dessa forma surgiram novos partidos, doze ao todo, sendo quatro deles os mais importantes: Partido Social Democrata (PSD), de políticos ali- nhados à ditadura de Vargas; Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), que congregava os sindicalistas associados ao presidente; a União Democrática Nacional (UDN), formada por representantes de banqueiros e empresários; e o Partido Comunista Brasileiro (PCB), que havia se rearticulado após um período de repressão. Ao finalcom mais de 18 anos, e facultativo para os maiores de 16 e meno- res de 18 e também para aqueles com mais de 70 anos. Porém, para que o sufrágio universal fosse estabeleci- do no Brasil, foi necessário um longo período de conflitos e de reivindicação de direitos por diversos grupos sociais. Nos últimos anos, muitas pessoas têm se manifes- tado contra a obrigatoriedade do voto. No segundo turno das eleições para presidente em 2018, a soma de votos nulos, brancos e abstenções representou cerca de um terço do total de eleitores. Considerando essas informações, reflita sobre as ques- tões a seguir e converse com os colegas e o professor. �� O voto é um direito político pelo qual muitos brasilei- ros lutaram no passado, mas atualmente boa parte� deles prefere não exercê-lo. Quais fatores podem ex- plicar essa mudança de atitude de uma parcela da� população? �� Além do voto, há outras formas de participação po- lítica e de exercício da cidadania? Em caso positivo,� quais seriam elas? Contexto Democracia e ditadura no Brasil e na América Latina 1 OBJETIVOS • Compreeder os conceitos de democracia e ditadura tendo em vista sua origem na Antiguidade clássica e seu uso em contextos políticos contemporâneos. • Conhecer os contextos de surgimento e desenvolvimento de diferentes regimes políticos na América Latina nos séculos XIX e XX. • Relacionar as políticas populistas e desenvolvimentistas do Brasil a contextos históricos específicos. • Identificar as motivações de elites econômicas e sociais e interesses estrangeiros no surgimento e desenvolvimento de regimes ditatoriais no Brasil. JUSTIFICATIVA Conceitos relativos a regimes e práticas políticas, tais como democracia, ditadura, populismo, paternalismo, desenvolvimentismo, entre outros, são importantes para a compreensão de situações históricas específicas. Ao mesmo tempo, essas situações exemplificam e esclarecem melhor a própria compreensão desses conceitos. Tendo foco em contextos políticos da América Latina nos séculos XIX e XX, o capítulo contribui para estimular a reflexão dos estudantes quanto à história política latino-americana contemporânea. COMPETÊNCIAS E HABILIDADES DA BNCC • Competências gerais da Educação Básica: CG1, CG2, CG3, CG4, CG7, CG9 e CG10. • Competências e habilidades específicas de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas: Competência 1: EM13CHS103. Competência 5: EM13CHS503 e EM13CHS504. Competência 6: EM13CHS602 e EM13CHS603. • Competências e habilidades específicas de Linguagens e suas Tecnologias: Competência 6: EM13LGG604. TEMAS CONTEMPORÂNEOS TRANSVERSAIS Cidadania e civismo • Educação em direitos humanos Multiculturalismo • Educação para a valorização do multiculturalismo nas matrizes históricas e culturais brasileiras C A P ÍT U LO C A P ÍT U LO NÃO ESCREVA NO LIVRO 18 CONEXÕES CIÊNCIAS DA NATUREZA E SUAS TECNOLOGIAS NÃO ESCREVA NO LIVRO Geração e tempo geracional Para as Ciências da natureza, “geração”, entre outros significados, se refere à reprodução ou à transição entre pais e filhos. Mas “geração” pode se referir ainda ao conjunto de pessoas contem- porâneas – uma definição muito utilizada em con- textos sociais. O período médio entre duas gerações consecu- tivas é chamado “tempo de geração” e ele é variá- vel entre diferentes espécies. Entre os humanos, por exemplo, o tempo de geração é longo, de, em média, 30 anos. Já entre vírus e bactérias, assim como outros organismos patogênicos, o tempo de geração é muito mais curto, sendo, às vezes, de poucos minutos. E são esses organismos com tempo de geração muito curto que são utilizados para os estudos de Genética, uma vez que as infor- mações genéticas são transmitidas de geração em geração e podem ser observadas mais facilmente. Foi observando um organismo com o tempo geracional curto (ervilhas) que Gregor Mendel rea lizou seus experimentos e estabeleceu as ba- ses para o estudo da hereditariedade Outro organismo comumente utilizado em estu- dos genéticos são as moscas-da-fruta (Drosophila melanogaster). Isso porque elas possuem um tempo de geração de cerca de 10 dias. Mas não é somente nas Ciências da Natureza que o conceito de geração tem seus impactos. Nas Ciências Humanas e Sociais Aplicadas ele também tem sua importância. Veja o texto a seguir. No pensamento social contemporâneo, a noção de geração foi desenvolvida em três mo- mentos históricos, que correspondem a três quadros sociopolíticos particulares: durante os anos 1920, no período entreguerras, as bases filosóficas são formuladas em torno da noção de "revezamento geracional" (sucessão e coexis- tência de gerações), existindo um consenso ge- ral sobre este aspecto [..]. Durante os anos 1960, na época do protesto, uma teoria em torno da noção de "problema geracional" (e conflito gera- cional) é fundamentada sobre a teoria do con- flito [...]. A partir de meados dos anos 1990, com a emergência do sociedade em rede, surge uma nova teoria em torno da noção de "sobreposição geracional". Isto corresponde à situação em que os jovens são mais habilidosos do que as gera- ções anteriores em um centro de inovação para a sociedade: a tecnologia digital [...]. FEIXA, Carles; LECCARDI, Carmem. O conceito de geração nas teorias sobre juventude. Soc. estado, Brasília, v. 25, n. 2, p. 185-204, Aug. 2010. Disponível em http://www.scielo.br/scielo. php?script=sci_arttext&pid=S010269922010000200003&lng=en &nrm=iso. Acesso em: 7 set. 2020. Considere um adulto com idade aproximada de 25 anos que viva na sua comunidade, e responda: • Você considera que você e esse adulto façam parte da mesma geração? • De acordo com o pensamento social contemporâneo, qual sua relação com esse indivíduo? Você acredita que haja um “revezamento geracio- nal”, um “problema geracional” ou uma “sobreposição geracional”? R aw p ix e l. c o m /S h u tt e rs to ck 83 Mísseis balísticos intercontinentais com capacidade de transportar bombas nucleares, em parada militar na Praça Vermelha, Moscou (União Soviética), em 1969. Após ler o texto e com base em seus conhecimentos da realidade e em pesquisa na internet, reflita sobre as questões propostas: �� Por que ainda não se pode distinguir os fundamentos de uma nova ordem internacional? �� O que você entende por soft power? Qual é a diferença entre soft power e hard power? Dê exemplos. �� Você acha que é importante ter soft power para liderar uma ordem internacional? Por quê? O Brasil tem hard power e soft power?� 95 Democracia e ditadura como conceitos opostos Nós, seres humanos, vivemos em culturas diferentes, e os modos de or- ganização política variam muito de uma sociedade para outra. De maneira geral, podemos identificar sociedades nas quais a organização é estabeleci- da de forma autoritária, sob um governo centralizado. Em outras, as decisões são tomadas de forma coletiva e dialogada. Essas formas de organização são, quase sempre, associadas, respectivamente, à ditadura e à democracia. A palavra ditadura tem origem na Antiguidade, na Roma republicana. De- pois de se libertarem do domínio etrusco, em 509 a.C., e antes de constituí- rem um império, a partir de 27 a.C., os romanos consideravam o Senado o principal órgão político. Não se tratava de uma democracia, mas de uma Re- pública aristocrática, pois os senadores eram representantes da elite, uma minoria da população. Mas suas decisões eram tomadas a partir do diálogo sobre a rex-publica, o respeito à coisa pública, ao publicus, coisa do povo, na busca de entendimentos em relação ao que seria melhor para a cidade. Po- rém, em épocas de crise, como em uma guerra, as decisões tinham de ser tomadas rapidamente e, por isso, se instituía um ditador, do latim ditactor, o que ditava os decretos, com amplos poderes por um período máximo de seis meses. Em outras palavras, a ditadura era um tipo de governo provisório, ex- traordinário, acionado em situações excepcio- nais, com a finalidade de cuidar dade seu governo, Getúlio Vargas conseguiu apoio de parte da socie- dade que defendia a instauração de uma assem- bleia constituinte com Getúlio, um movimento que ficou conhecido como queremismo por causa da palavra de ordem “Queremos Getúlio!”. Contudo, ainda assim o governo não resistiu a uma inter- venção militar, apoiada pelos setores contrários à permanência de Vargas na Presidência. Pela nova Carta [a constituição de 1937], o Presidente dispunha de plenos poderes, legis- lativos e executivos; era-lhe permitido também demitir e transferir funcionários, reformar e afastar militares que representassem ameaça aos “interesses nacionais”. Pelo artigo 186, era declarado estado de emergência em todo o ter- ritório nacional, o que tornava possível ordenar prisões, exílio, invasão de domicílio; instituía-se a prisão preventiva; tornava-se legal a censura de todas as comunicações. [...] Tornado constitucional o estado de emer- gência, foram institucionalizados os instru- mentos necessários para sua consecução: o De- partamento de Propaganda [DIP], encarregado também da censura [...]; o Código de Imprensa, publicado em dezembro de 1937, tornava ilegal qualquer referência desrespeitosa às autorida- des públicas. Foi instituída a “Hora do Brasil”, emissão radiofônica diária e obrigatória, através da qual eram divulgados os programas governa- mentais e as palavras do presidente. Uma das medidas de efeitos políticos ime- diatos, o decreto de 3 de dezembro, determina- va a dissolução de todos os partidos e proibia quaisquer símbolos, gestos e uniformes identi- ficadores. SOLA, Lourdes. O golpe de 37 e o Estado Novo. In: MOTA, Carlos Guilherme (org.). Brasil em perspectiva. 16. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1987. p. 266-267. 1. Quais os principais pilares estabelecidos por Vargas na implantação da ditadura? 2. Como foram tratados os grupos e partidos oposicionistas? 3. Em que medida um programa radiofônico, como a “Hora do Brasil”, deu sustentação a um governo ditatorial? E como a censura à imprensa contribui para tal resultado? 4. E, atualmente, como se posiciona o programa “A Voz do Brasil”? Combinem um dia para todos ouvirem uma transmissão. Anotem os temas abordados e como eles foram descritos, se de forma favorável, crítica ou imparcial ao governo. Em sala de aula compartilhem suas interpretações. Interpretar NÃO ESCREVA NO LIVRO Comício queremista no Largo da Carioca no Rio de Janeiro (RJ), em 1945. As medidas tomadas para a implantação do regime ditatorial do Estado Novo Os cinco primeiros anos do regime corres- pondem à progressiva, mas definitiva consoli- dação do poder de Estado. [...] Os últimos grupos oposicionistas ativos seriam definitivamente isolados, pela violência, no ano de 1938. R e p ro d u ç ã o /E m p re s a B ra s ile ir a d e N o tí c ia s , R io d e J a n e ir o , R J. Veja as respostas no Manual do Professor. 44 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap1_016a061.indd 44V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap1_016a061.indd 44 24/09/2020 10:5224/09/2020 10:52 Atuações governamentais no Brasil democrático pós-Estado Novo Com o fim do Estado Novo e a saída de Getúlio Vargas do poder, José Linhares, o presidente do Supremo Tribunal Federal, assumiu a Presidên- cia da República até que se elaborasse uma nova Constituição e se realizassem novas eleições. A Assembleia Constituinte foi eleita em dezem- bro de 1945 e finalizou seus trabalhos em setembro do ano seguinte. A nova Carta Constitucional resta- belecia a república federativa, com vinte estados e cinco territórios, e definia as atribuições específi- cas da federação, dos estados e dos municípios. As eleições se fariam por meio do voto direto para todos os níveis, e o presidente governaria por um período de cinco anos. Apesar de excluir o voto dos analfabetos, a nova lei estendia a obrigatoriedade do voto feminino a todas as mulheres maiores de 18 anos, diferentemente da Constituição de 1934, que restringia a participação política somente às mulheres que exerciam atividade pública remu- nerada. A legislação trabalhista manteve-se em grande parte a mesma que havia sido definida na Constituição de 1934. A organização sindical se configurava como órgão colaborador do Estado e o direito de greve, apesar de reconhecido, ficava de- pendente de regulamentação posterior. Nas eleições presidenciais de 1945, o general Eurico Gaspar Dutra (1883-1974) venceu o pleito, cujo início do governo foi marcado pelo alinha- mento aos Estados Unidos e por uma política eco- nômica liberal, favorecida pelo fato de que o Brasil havia saído da Segunda Guerra com um lastro po- sitivo de exportações. Quando o presidente Dutra estava em via de ter- minar o mandato, Getúlio Vargas surgia novamente na cena política e conseguindo a vitória em 1950. Getúlio daria continuidade ao populismo, que confirmava o que ficou conhecido como Era Var- gas. Seu governo, contudo, encontrava dificuldade em conter a inflação crescente, que exigia a to- mada de medidas impopulares. Por outro lado, ele não poderia desconsiderar as reivindicações dos trabalhadores, seu principal eleitorado. Enfrentan- do uma série de greves, em 1953 o governo cedeu, atendendo a muitas reivindicações dos grevistas. Outra medida de impacto foi o aumento de 100% dado ao salário mínimo, tendo à frente o Ministro do Trabalho João Goulart (1919-1976). Essas me- didas acirraram os ânimos da oposição, composta principalmente por integrantes da UDN e militares anticomunistas. Um atentado contra Carlos Lacerda (1914- -1977), deputado pela UDN e ferrenho porta-voz da oposição, complicou ainda mais a situação de Vargas. Descobriu-se que o autor do atentado, que feriu levemente Lacerda e matou Rubens Vaz (1922-1954), major da Aeronáutica que o acom- panhava, era um guarda-costas de Vargas. Com as especulações sobre a ligação de Vargas com o atentado, o presidente era pressionado a renun- ciar. Na manhã de 1954 Vargas se suicidou com um tiro no peito, deixando uma carta na qual acu- sava a aliança de seus opositores com grupos in- ternacionais contra o regime de garantia do traba- lho. O suicídio de Vargas trouxe grande comoção nacional e, ao mesmo tempo, impediu que a UDN e os militares anticomunistas tomassem o poder por meio de um golpe de Estado. Carlota Pereira de Queiroz, a primeira deputada brasileira, durante seu primeiro discurso em 1933. A Constituição de 1934 trouxe inovações, como a representação classista. A c e rv o I c o n o g ra p h ia /R e m in is c ê n c ia s 45 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap1_016a061.indd 45V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap1_016a061.indd 45 24/09/2020 10:5224/09/2020 10:52 DIÁLOGOS NÃO ESCREVA NO LIVRO • Em duplas, leiam atentamente o texto abaixo, que reproduz trechos da carta-testamento de Getúlio Vargas, e respondam às questões propostas. Ao ódio respondo com o perdão. E aos que pensam que me derrotaram, respondo com a minha vitória. Era escravo do povo e hoje me li- berto para a vida eterna. Mas esse povo de quem fui escravo não mais será escravo de ninguém. Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue será o preço do seu resgate. Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei con- tra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não aba- teram o meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora ofereço a minha morte. Nada receio. Se- renamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na história. Citado em DEL PRIORE, Mary et al. Documentos de história do Brasil: de Cabral aos anos 90. São Paulo: Scipione, 1997. p. 98-99. a) Que interesses Getúlio Vargas acusa desar- mar ao cometer o suicídio? Justifique sua resposta com passagens do texto. b) Relendo o capítulo, a quem Getúlio Vargas se refere no trecho “Não querem que o tra- balhador seja livre. Não querem que o povo seja independente”? Veja as respostas dasatividades desta seção no Manual do Professor. Trechos da carta-testamento de Getúlio Vargas, agosto de 1954 Mais uma vez, as forças e os interesses con- tra o povo condenaram-me novamente e se de- sencadeiam sobre mim. Não me acusam, insultam; não me comba- tem, caluniam e não me dão o direito de defesa. Precisam sufocar a minha voz e impedir a mi- nha ação para que eu não continue a defender, como sempre defendi, o povo e principalmente os humildes. Sigo o destino que me é imposto. Depois de decênios de domínio e espoliação dos grupos econômicos e financeiros internacionais, fiz-me chefe de uma revolução e venci. Iniciei o trabalho de libertação e instaurei o regime de liberdade social. Tive de renunciar. Voltei ao go- verno nos braços do povo. A campanha subter- rânea dos grupos internacionais aliou-se à dos grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia do trabalho. A lei de lucros extraordi- nários foi detida no Congresso. Contra a justiça da revisão do salário mínimo se desencadea- ram os ódios. Quis criar a liberdade nacional na potencialização de nossas riquezas através da Petrobras; mal começa esta a funcionar, a onda de agitação se avoluma. A Eletrobrás foi obsta- culada até o desespero. Não querem que o tra- balhador seja livre. Não querem que o povo seja independente […]. Tenho lutado mês a mês, dia a dia, hora a hora, resistindo a uma pressão constante, in- cessante, tudo suportando em silêncio, tudo esquecendo, renunciando a mim mesmo, para defender o povo que agora se queda desampa- rado. Nada mais vos posso dar, a não ser o meu sangue. Se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo bra- sileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida. Escolho este meio de estar sempre convosco […]. Cartaz produzido pelo Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), do governo Getúlio Vargas – Estado Novo, convocando para manifestação trabalhista de 1o de maio. R e p ro d u ç ã o /F u n d a ç ã o G e tú lio V a rg a s /C P D O C 46 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap1_016a061.indd 46V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap1_016a061.indd 46 24/09/2020 10:5224/09/2020 10:52 Após o suicídio de Vargas, o vice-presidente, João Fernandes Campos Café Filho (1899-1970), assumiu a Presidência da República. Em 1955, realizou-se a eleição do novo presidente, na qual saiu vitorioso Juscelino Kubitschek (1902-1976), também conhecido como JK, candidato do PSD e do PDT. Antes da posse de JK, Café Filho foi hospi- talizado e substituído pelo presidente da Câmara, Carlos Luz (1894-1961). Nesse contexto a UDN e setores da Marinha e da Aeronáutica tentaram to- mar o poder, mas foram impedidos por um “golpe preventivo” dado pelo ministro da Guerra, o general Teixeira Lott (1894-1984), que mobilizou as tropas do exército no Rio de Janeiro para garantir que Jus- celino Kubitschek assumisse a Presidência. O governo de Juscelino Kubitschek foram anos de relativa estabilidade política e econômica. Em certo sentido dava continuidade em muitos as- pectos à política getulista, porém evitando exces- sos. Mesmo porque PSD e PTB, os dois partidos que serviam de base de sustentação de Getúlio, tinham divergências. Assim, JK evitava o conser- vadorismo do PSD, mas ao mesmo tempo evitava avançar em demasia nas reivindicações do opera- riado para não ser identificado com “propostas co- munistas”. Mesmo assim, apesar de manter boas relações com os militares, dois levantes de seto- res da Aeronáutica, um em Jacareacanga (PA), em 1956, outro em Aragarças (GO), em 1959, fo- ram isolados e facilmente sufocados. O que mais marcou o governo de Juscelino Ku- bitschek foi sua política econômica, definida em seu plano de metas, que abrangia cinco grandes áreas – energia, transportes, educação, alimen- tação, indústrias de base – além da proposta de transferência do distrito federal para o interior do Brasil com a construção de Brasília. A promessa de JK era a de desenvolver o Brasil “50 anos em 5”. Sob seu governo ocorreu uma acelerada expansão da indústria automobilística, das usinas hidrelétri- cas, de rodovias, da produção de aço e da constru- ção naval. Tratava-se de uma política nacional-de- senvolvimentista na qual o país se abria ao capital estrangeiro, mas o Estado mantinha o controle da indústria de base e da produção de energia. Juscelino (à esquerda) no dia da posse, em 1956, acompanhado de Nereu Ramos e do vice-presidente João Goulart (à direita). Congresso Nacional em construção. Brasília, DF, em 1960. NÃO ESCREVA NO LIVRO A ideia de interiorização da capital remonta à época do Império. Era defendida por razões estratégicas e econômicas. Em 1946, a nova Constituição determinou estudos e, em 1956, Juscelino comprometeu-se a efetivar a transferência da capital. A primeira etapa de sua construção foi concluída em quase quatro anos. Temas para a discussão: 1. O plano da nova capital previa grandes construções e amplas vias voltadas para os automóveis, sem o mesmo planejamento para abrigar a imensa população de migrantes que chegou à região. Como foi feito o assentamento da maioria dos migrantes? 2. Considerando o aspecto geográfico, a instalação inicial da nova capital do país aproximava ou afastava o poder central de alguns dos principais núcleos de pressão social da época, como Rio de Janeiro e São Paulo? Conversa F o x P h o to s /H u lt o n A rc h iv e /G e tt y I m a g e s K e ys to n e -F ra n c e /G a m m a -K e ys to n e /G e tt y I m a g e s 47 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap1_016a061.indd 47V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap1_016a061.indd 47 24/09/2020 10:5224/09/2020 10:52 Embora o desenvolvimento econômico no governo de JK tenha alcança- do muitos resultados positivos, isso se fez à custa do deficit do orçamento federal. Para resolver esse problema foi proposto um plano de estabilização, tendo à frente o engenheiro Lucas Lopes (1911-1994) como Ministro da Fa- zenda e Roberto Campos (1917-2001) como presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE). Contudo, o plano acabou não se re- alizando, uma vez que previa acordos com o Fundo Monetário Internacional (FMI), organização internacional ligada à Organização das Nações Unidas (ONU). Muitos setores da sociedade brasileira viam esses acordos como con- trários aos princípios nacionalistas do governo. Outro problema dos anos JK foi a desigualdade regional na qual o desenvolvimento econômico ocorreu, privilegiando a região Sudeste. A criação da Superintendência do Desenvolvi- mento do Nordeste (Sudene) não foi suficiente para resolvê-lo. Na campanha de sucessão presidencial despontou Jânio Quadros (1917-1992), candidato lançado por um partido pequeno, o Partido Trabalhista Nacional (PTN), mas que teve o apoio da UDN. Com um discurso de crítica à corrupção e à desordem financeira, Jânio venceu com facilidade seus adversários, o General Lott, apoiado pelo PSD e pelo PTB, e Adhemar de Barros (1901-1969), pelo PSP. Mas, como vice-presidente saiu vitorioso João Gou- lart, apelidado de Jango, da chapa do general Lott. Isso era possível porque nas eleições de 1960 era permitido votar em candidatos a presidente e vice de partidos diferentes. No campo da política externa o governo de Jânio pro- curava marcar sua independência diante da polarização que havia na época da Guerra Fria entre Estados Unidos e União Soviética, não aderindo a nenhum dos blocos de forma explícita. No tocante à economia, o maior problema era o deficit orçamentário, que foi combatido por meio da desvalorização cambial, redução de gastos públicos e de subsídios para importação de trigo e petróleo. Embora isso implicasse um aumento no custo de vida para a po- pulação, por outro lado teve repercussão positiva junto aos credores internacionais, o que facilitou a renegocia- ção das dívidas. Em 25 de agosto de 1961, pouco antes de completar sete meses de gover- no, Jânio Quadrosrenunciou à Presidência, em circunstâncias que, até hoje, não são muito bem explicadas. Na época, Jânio indicava a renúncia devido à ação de “forças terríveis”, porém sem explicitar do que se tratava. Muitos historiadores acreditam que Jânio Quadros pretendia fazer com que seus ad- versários se mobilizassem para evitar seu afastamento da Presidência, uma vez que o vice, João Goulart, era conhecido por sua aproximação com os par- tidos mais à esquerda. Mas o fato é que essa mobilização foi relativamente pequena e a renúncia, de modo geral, foi bem aceita tanto pelo Congresso quanto pelos militares e pela população. Jânio Quadros durante comício na campanha eleitoral de 1960, na cidade de Igarapava, SP. Jânio tinha como uma das suas principais promessas de campanha "varrer a corrupção" para longe do Brasil. Assim, era comum que em sua campanha as pessoas comparecessem empunhando vassouras. A rq u iv o d o j o rn a l O E s ta d o d e S . P a u lo /A g ê n c ia E s ta d o 48 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap1_016a061.indd 48V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap1_016a061.indd 48 24/09/2020 10:5224/09/2020 10:52 Quando Jânio Quadros renunciou à Presidên- cia, seu vice, João Goulart, estava em uma visita à China, e o governo foi exercido interinamente nesse momento de crise pelo deputado Ranie- ri Mazzilli (1910-1975), presidente da Câmara na época. Enquanto grupos de militares exigiam o afastamento de João Goulart, defensores da legalidade, como o governador Leonel Brizola (1922-2004), do Rio Grande do Sul, reagiam com a possibilidade de uma guerra civil. Como solução conciliatória, os grupos conservadores aceitaram a posse de João Goulart, mas com a adoção do regime parlamentarista, no qual o presidente tem seus poderes reduzidos. Em 1963 foi realizado um plebiscito, no qual a maioria dos votantes se manifestou contra o regi- me parlamentarista. Com a volta do presidencialis- mo e tendo seus poderes aumentados, João Gou- lart pretendia dar início a uma série de reformas de base, isto é, mudanças que permitissem a su- peração das desigualdades sociais. As reformas de base incluíam uma reforma agrária, para a demo- cratização do uso da terra; uma reforma educacio- nal, de combate ao analfabetismo e valorização do magistério; uma reforma fiscal, que visava aumen- tar a arrecadação e conter as remessas de lucros ao exterior; uma reforma eleitoral, com a proposta do direito de voto para analfabetos e militares de baixa patente; uma reforma urbana, permitindo a locatários a possibilidade de comprar os imóveis em que viviam; e uma reforma bancária, visando aumentar as linhas de crédito aos produtores. Como as reformas de base desagradavam em muitos aspectos certos grupos poderosos, João Goulart percebeu que não conseguiria viabilizá- -las por meio de acordos com o Congresso e de- cidiu implementá-las por decreto. Em um impor- tante comício, em 13 de março de 1964, no Rio de Janeiro, em frente à estação Central do Brasil, o presidente anunciava os projetos que nacionali- zavam refinarias de petróleo e desapropriavam as propriedades com mais de 100 hectares ao longo de rodovias e ferrovias federais. As reformas propostas por João Goulart tinham o apoio do movimento estudantil, de movimentos rurais, como as Ligas Camponesas, de setores progressistas da Igreja católica e de entidades tra- balhistas, como o Comando Geral dos Trabalhado- res (CGT). Contudo, também era forte a oposição da parte de setores conservadores, representados por grupos, como a Frente Patriótica Civil-Militar, o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (Ipes), a Sociedade Brasileira para a Defesa da Tradição, Família e Propriedade (TFP), o Instituto Brasileiro de Ação Democrática (Ibad). Em 19 de março de 1964 ocorreu uma grande manifestação em São Paulo, com o nome de Marcha da Família com Deus pela Liberdade, reunindo cerca de 500 mil pesso- as e outra no Rio de Janeiro. O evento mostrava a força do conservadorismo e contribuiu para a arti- culação de um movimento que levaria à deposição de João Goulart da Presidência. Marcha da Família com Deus pela Liberdade, em 1964, no Rio de Janeiro, RJ. Em 31 de março, tropas de Minas Gerais deslo- caram-se rumo ao Rio de Janeiro. Ao mesmo tem- po, importantes autoridades políticas, como Ma- galhães Pinto (1909-1996), governador de Minas Gerais, Adhemar de Barros, de São Paulo, e Carlos Lacerda, da Guanabara (hoje Rio de Janeiro) de- ram apoio à intervenção militar. Pretendendo evi- tar o derramamento de sangue, João Goulart via- jou para o Rio Grande do Sul e posteriormente se exilou no Uruguai. O governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, pretendia organizar uma resis- tência ao golpe de Estado que estava em curso, mas não obteve a adesão esperada. O governo passou a ser exercido por uma junta militar, dando origem a um período de ditadura, que se estende- ria por mais de vinte anos. A rq u iv o d o j o rn a l O E s ta d o d e S . P a u lo /A g ê n c ia E s ta d o 49 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap1_016a061.indd 49V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap1_016a061.indd 49 24/09/2020 10:5224/09/2020 10:52 Mobilizações sociais e atuações nos governos ditatoriais do Brasil O regime implantado no Brasil em 1964 foi uma ditadura em razão de seu caráter autoritário e da concentração de poderes nas mãos dos chefes mili- tares, embora com muita participação civil no governo. Havia, desde o início, uma divergência bastante clara entre um grupo ligado à Escola Superior de Guerra (ESG), que defendia o diálogo com grupos políticos conservadores tradicionais, notadamente da UDN e de parcela do PSD, e outro, conhecido como linha dura, mais radical e mais avesso à participação da sociedade civil no governo. Mesmo assim, de modo geral havia o consenso de combater o comunismo e garantir a ordem, seja por meio da repressão às manifestações de oposição ao regime, seja por meio de intensa propaganda institucional. Além disso, o país rompia com o posicionamento de autonomia em relação à política externa, assumindo de modo mais explícito o alinhamento na Guerra Fria ao bloco capitalista, liderado pelos Estados Unidos. Do ponto de vista econômico, o regime adotava uma política com alguns aspectos neoliberais, na qual o desenvolvimento e diversificação da econo- mia se fazia a partir de empréstimos no exterior e da abertura da economia brasileira ao capital internacional. Os empréstimos garantiam a construção de obras de infraestrutura, como estradas, hidrelétricas, refinarias de petró- leo, entre outras. Ao mesmo tempo o regime estimulava a vinda de empresas estrangeiras, que se beneficiavam de incentivos fiscais, mão de obra barata e abundância de recursos naturais. Com a saída de João Goulart, o governo passou a ser exercido por uma junta militar que, em 9 de abril de 1964, decretou o Ato Institucional número 1 (AI-1), uma lei que fortalecia o Poder Executivo, permitindo-o go- vernar por meio de decretos, cassar mandatos políticos em qualquer nível, suspender direitos políticos de adversários do regime e expurgar servido- res públicos. O Ato instituiu ainda os Inquéritos Policiais Militares que, do- tados de poderes excepcionais, podiam prender os opositores do regime. A prática de tortura, quando investigada, era arquivada por “insuficiência de provas”. Depois desse ato institucional, foram promulgados vários outros, sempre com o objetivo de fortalecer o poder do núcleo militar e reprimir qualquer forma de oposição. O primeiro presidente do Brasil sob o regime militar foi o general Hum- berto de Alencar Castelo Branco (1897-1967), eleito pelo Congresso em 11 de abril de 1964. Em seu governo foram revogados os decretos de João Goulart, que estabeleciam a nacionalização das refinarias de petróleo e a desapropriação de terras para reforma agrária. A União Nacional dos Es- tudantes (UNE) e as Ligas Camponesas foram colocadas na ilegalidade. Centenas de pessoas tiveram seusdireitos políticos cassados, entre elas os ex-presidentes Juscelino, Jânio e Jango, e milhares de funcionários pú- blicos foram demitidos. 50 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap1_016a061.indd 50V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap1_016a061.indd 50 24/09/2020 10:5224/09/2020 10:52 No campo econômico foi colocado em prática o Programa de Ação Econô- mica do Governo (Paeg), sob a responsabilidade do ministro do Planejamento, Roberto Campos, e do ministro da Fazenda, Otávio Bulhões (1906-1990). Com o objetivo de restabelecer as finanças públicas, o programa previa o achata- mento dos salários, o fim dos subsídios ao trigo e ao petróleo e o aumento da arrecadação de impostos. O Paeg conseguiu atingir o objetivo de reduzir o deficit público, mas isso com o sacrifício dos trabalhadores, que passaram a ganhar menos e ainda sofriam com o aumento dos preços. Em 1965 foi decretado o Ato Institucional número 2 (AI-2), que ampliava os poderes do presidente, regulamentava a eleição indireta para presidente da República e extinguia os partidos políticos existentes, implementando o sistema bipartidário. A partir de então haveria somente dois partidos, a Alian- ça Renovadora Nacional (Arena), que representava os partidários do gover- no, e o Movimento Democrático Brasileiro (MDB), no qual se agrupavam os movimentos de oposição. Outro Ato Institucional, o AI-3, estabelecia eleições indiretas para governadores dos estados. Em janeiro de 1967 foi aprovada uma nova Constituição, que ampliava os poderes do Executivo. Plenário da Câmara Federal na instalação do Movimento Democrático Brasileiro (MDB), em 1966. Posse de Humberto de Alencar Castelo Branco. Castelo Branco tornou-se presidente em 1964 e prometeu eleições para o ano seguinte, mas permaneceu no poder até 1967. A rq u iv o d o j o rn a l O E s ta d o d e S . P a u lo /A g ê n c ia E s ta d o A rq u iv o d o j o rn a l F o lh a d e S ã o P a u lo /F o lh a p re s s 51 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap1_016a061.indd 51V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap1_016a061.indd 51 24/09/2020 10:5224/09/2020 10:52 Em outubro de 1966, o Congresso elegeu como presidente o general Artur da Costa e Silva (1899-1969), tendo um civil, Pedro Aleixo (1901-1975), como vice, que tomaram posse em março do ano seguinte. Costa e Silva era repre- sentante da linha dura do regime e iniciava seu governo com uma nova carta constitucional que permitia ao Poder Executivo exercer a censura prévia à im- prensa e incluía a Lei de Segurança Nacional, pela qual se tipificavam crimes políticos. Na prática, a manifestação de opiniões contrárias ao regime podia ser passível de prisão com amparo da lei. No governo Costa e Silva a oposição ao regime se tornou mais articulada e, ao mesmo tempo, mais diversificada. Políticos conservadores tradicionais, como Carlos Lacerda, sentindo-se à margem do cenário político, uniram-se a outros mais progressistas, como Jango e Juscelino, formando um bloco de oposição chamado Frente Ampla. Em junho de 1968, cerca de 100 mil ma- nifestantes compareceram ao funeral do adolescente Edson Luís de Lima (1950-1968), assassinado pela polícia durante um protesto contra as más condições sanitárias de um restaurante para alunos secundaristas no Rio de Janeiro. O próprio Congresso Nacional dava mostras de maior autonomia, negando-se a suspender as imunidades parlamentares que permitiriam o cerceamento da liberdade de expressão dos deputados. NÃO ESCREVA NO LIVRO Repressão policial na missa de sétimo dia do estudante Edson Luís, na cidade do Rio de Janeiro, RJ, em 1968. O uso da violência foi uma constante durante o regime militar e os opositores eram considerados inimigos. Os protestos e manifestações eram vistos como ameaça à segurança nacional. Na foto de 1966, polícia dispersa passeata com gás lacrimogênio nas ruas de Belo Horizonte (MG). Tema para a discussão: • Os protestos e manifestações populares podem ser considerados ameaça à segurança nacional? Por quê? • Citem exemplos de manifestações populares recentes, preferencialmente ocorridas no município ou estado onde vocês moram, e expliquem o que estava sendo reivindicado e, se houve, como se deu a repressão. Ver respostas e orientações no Manual do Professor. Conversa A c e rv o I c o n o g ra p h ia /R e m in is c ê n c ia s 52 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap1_016a061.indd 52V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap1_016a061.indd 52 24/09/2020 10:5224/09/2020 10:52 Paralelamente a essas movimentações, surgiram grupos que optaram por estratégias de luta armada, como a Aliança de Libertação Nacional (ALN), o Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), a Vanguarda Popular Revolu- cionária (VPR) e a Vanguarda Armada Revolucionária (VAR-Palmares), entre outros. O objetivo desses grupos era formar um movimento guerrilheiro e, com isso, derrubar o regime militar. Como resposta à rearticulação da oposição, o regime militar agiu com me- didas mais duras, entre elas a promulgação do Ato Institucional número 5 (AI-5). Por meio dele, o presidente tinha o direito de fechar o Congresso, no- mear interventores para os estados e municípios, cassar mandatos, suspen- der direitos políticos e demitir servidores públicos. Acusados de crimes con- tra a segurança nacional perdiam o direito de habeas corpus. No plano econômico, o governo Costa e Silva marcou o início do que mais tarde seria chamado “milagre econômico” brasileiro, um crescimento signifi- cativo do PIB brasileiro, que se estenderia até 1973. Tendo à frente o econo- mista Delfim Netto (1928-) como ministro da Fazenda, o Brasil obteve em- préstimos no exterior, o que permitiu o fortalecimento de empresas estatais, como a Petrobras, Vale do Rio Doce, Eletrobrás, Companhia Siderúrgica Nacio- nal, entre outras. Até o final dos anos 1960 produtos industrializados passa- ram a fazer parte da pauta de exportação, e aumentou também a diversidade de produtos agrícolas e matérias-primas para o mercado externo. Essa situ- ação econômica favorável permaneceria até 1973, quando ocorreu uma alta nos preços do petróleo, como consequência da Guerra do Yom Kippur, entre árabes e israelenses. O “milagre” econômico desmoronou também por causa da alta dos juros dos empréstimos internacionais. Em agosto de 1969 o presidente Costa e Silva sofreu um derrame cerebral e não pôde continuar no cargo. Seu vice, Pedro Aleixo, que havia manifesta- do a intenção de afrouxar o regime, foi impedido pelos militares de assumir a Presidência. Passados dois meses, o Alto Comando das Forças Armadas indicou o general Emílio Garrastazu Médici (1905-1985), chefe do Serviço Nacional de Informações (SNI), uma espécie de serviço de espionagem do governo federal à época. Durante o governo Médici a luta armada, como forma de oposição, continuou com sequestros de diplomatas estrangeiros para trocá-los por prisioneiros po- líticos, e operações de guerrilha, como a do Vale do Ribeira ou do Araguaia. A luta armada, porém, não teve sucesso em mobilizar a sociedade contra a dita- dura, e como cada grupo lutava sem articulação com os demais, os órgãos de repressão com o tempo conseguiram desmantelar os focos de revolta e assas- sinar muitos de seus principais líderes, denominados terroristas pelo governo. O governo Médici estendeu-se até março de 1974, quando então tomou posse o general Ernesto Geisel (1907-1996), com o desafio de retomar o crescimento econômico e restabelecer a democracia. Tratava-se de uma abertura política “lenta, segura e gradual”, nas palavras do próprio Geisel. Ou seja, a distensão do regime não poderia escapar do controle dos grupos mi- litares então no poder. 53 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap1_016a061.indd 53V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap1_016a061.indd 53 24/09/2020 10:5224/09/2020 10:52 Em outubro de 1975 o jornalista Vladimir Herzog (1937-1975) foi morto em uma sessão de tortura nas dependências do II Exército em São Paulo. As prisões, torturas e mortes eram frequentes duranteo regime militar, mas esse fato em particular gerou grande comoção popular. Alguns meses depois o mesmo ocorreu com o operário Manuel Fiel Filho (1927-1976), fato que mo- tivou o presidente a demitir o comandante do II Exército, um sinal importante de que a linha dura tinha ido longe demais. Apesar de alguns avanços, como maior liberdade de imprensa e impor- tantes vitórias do MDB nas eleições para deputados e senadores de 1974, o governo Geisel também apresentou retrocessos. Um deles foi o chamado “pacote de abril”, um decreto de 1976 pelo qual se fechava o Congresso, se estendia o mandato presidencial para seis anos e se estabeleciam eleições indiretas para um terço dos senadores. Diante da pressão popular e de instituições civis, como a Ordem dos Advo- gados do Brasil (OAB), mais tarde o Congresso foi reaberto e o AI-5 foi revo- gado. Outro importante foco de resistência eram os sindicatos de metalúrgi- cos do ABC paulista, no qual despontava a liderança de um sindicalista, Luís Inácio da Silva, também conhecido como Lula, que se elegeria presidente da República décadas mais tarde, em 2003. Repressão policial à greve dos metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo, SP, em 1980. Ju c a M a rt in s /O lh a r Im a g e m Em 1979, Geisel passou a faixa presidencial para o general João Batista Fi- gueiredo (1918-1999), eleito de forma indireta. Sob o governo de Figueiredo o processo de abertura política teve continuidade com a Lei da Anistia, que per- mitiu a volta de exilados políticos da oposição. Ainda em 1979 o governo deu início a uma reforma partidária que extinguiu os antigos partidos – Arena e MDB – e fazendo retornar o pluripartidarismo. Na prática a Arena simplesmen- te mudou de nome, passando a se chamar Partido Democrático Social (PDS), enquanto o MDB se fragmentou, dando origem ao Partido do Movimento De- mocrático Brasileiro (PMDB). Outros partidos surgiram, o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), o Partido Democrático Trabalhista (PDT) e o Partido dos Tra- balhadores (PT). Em 1982, ocorreram eleições diretas para governador, mas as eleições diretas para presidente só ocorreriam no final daquela década. 54 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap1_016a061.indd 54V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap1_016a061.indd 54 24/09/2020 10:5224/09/2020 10:52 O processo de abertura encontrou resistência de setores da linha dura do Exército, que passaram a executar atos de terrorismo. Um dos casos mais am- plamente divulgados foi o atentado no Riocentro, em 1981. Dois militares pla- nejaram colocar bombas no local onde ocorria um show de música para depois responsabilizar grupos de oposição pelo episódio. Uma das bombas, porém, explodiu no carro em que estavam, matando um e ferindo o outro gravemente. Outra reação contrária à abertura efetivou-se em atentados a bancas de jornais que vendiam publicações de oposição e a entidades civis que defendiam o fim da ditadura, como a OAB. As greves na região industrial do ABC, em São Paulo, seguidas de outras manifestações violentamente reprimidas, aumentaram o desgaste do poder autoritário do governo e, no final de 1983, os partidos de oposição encampa- ram a campanha pela eleição direta para presidente da República. O movimento, conhecido como Diretas Já, mobilizou o país de norte a sul em manifestações que envolviam centenas de milhares de pessoas. O obje- tivo era pressionar o Congresso a aprovar uma emenda constitucional que reinstituísse as eleições diretas para presidente. A emenda, porém, foi derro- tada por apenas 22 votos numa sessão a que vários parlamentares deixaram de comparecer. O novo presidente foi, mais uma vez, eleito indiretamente. Dois civis con- correram à sucessão presidencial: Tancredo Neves (1910-1985), da Frente Liberal, que reunia tanto opositores como colaboradores da ditadura, e Paulo Maluf (1931-), do Partido Democrático Social (PDS, antigo Arena). A vitória coube a Tancredo Neves, que tinha como vice na chapa presidencial José Sarney (1930-). Na ocasião de tomar posse, contudo, Tancredo ficou gravemente doente, vindo a falecer, e Sarney foi quem assumiu a Presidência da República em 1985. Ironicamente a ditadura militar tinha fim com o início do governo de um político que, no passado, era um dos apoiadores daquele regime. Manifestação pelas eleições diretas presidenciais na Praça da Sé, em São Paulo, SP, em janeiro de 1984. R o la n d o d e F re it a s /A g ê n c ia E s ta d o 55 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap1_016a061.indd 55V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap1_016a061.indd 55 24/09/2020 10:5224/09/2020 10:52 Atuações sociais para a democracia: as heranças paternalistas e autoritárias no século XXI A democracia, com todas as inúmeras limi- tações que encontra no Brasil, assim como no restante da América Latina, não é resultado de uma concessão feita pelo Estado ou por grupos poderosos ligados ao Estado e atuantes sobre a sociedade. Ela foi conquistada duramente pela luta dos movimentos populares contra as forças autoritárias que dominaram a vida política desde o Brasil colônia. A consolidação da democracia, estendendo-a e integrando a ela a justiça social, também não decorrerá de uma concessão: terá que ser buscada e conquistada. Essa busca é árdua, mas tem que continuar, sob pena de o Brasil ser sempre uma potência de relativa grandeza, mas na qual a imensa maioria continuará excluída dos direitos básicos da cida- dania, sem condições dignas de vida, vegetando à margem da riqueza de uns poucos. Seriam necessários muitos livros para estu- dar os inúmeros e graves problemas que afligem a população brasileira de hoje: altos índices de analfabetismo e evasão escolar; grande mortali- dade infantil, causada pela subnutrição e falta de saneamento; deficiência dos serviços públicos de educação e de saúde prestados à população; deterioração dos salários, entre os mais baixos do mundo; permanência de trabalho escravo em vários pontos do país; imensa taxa de desempre- go; favelização crescente na periferia das cidades; grande número de mendigos e crianças aban- donadas nas ruas; elevados índices de violência urbana e no campo, diretamente relacionada ao crescimento da miséria; as chacinas nas prisões, no campo e nas periferias das grandes cidades, pela polícia ou grupos armados; a questão do meio ambiente, entre outros. A independência do Brasil já completa dois sé- culos e ainda apresenta muitas contradições. Por um lado, é uma sociedade que se informatiza e se moderniza em muitos setores, podendo ser com- parada às dos países mais desenvolvidos e ricos do chamado mundo desenvolvido. Por outro, é um país ainda com altos índices de pobreza e miséria. Fazer com que esses dois “Brasis” se encon- trem, diminuindo as desigualdades sociais e as injustiças, será o principal desafio das novas gerações. Esse desafio só será vitorioso com o fortalecimento dos movimentos sociais compro- metidos com avanços progressistas e populares. Essa luta tem muitas frentes: as organizações sindicais, estudantis, de bairros; o movimento dos sem-terra, dos sem-teto; os movimentos eco- lógicos, que lutam contra a degradação do meio ambiente; os movimentos de todos aqueles consi- derados “minorias políticas”: os índios, os negros, as mulheres, as pessoas LGBTQI+. Só assim se conseguirá consolidar a demo- cracia política e transformá-la numa democracia completa, onde todos na sociedade tenham direi- to a condições dignas de vida. Passeata pelas Diretas Já, movimento pelo restabelecimento da eleição direta, em São Paulo, SP, 1984. A lf re d o R iz zu tt i/ A g ê n c ia E s ta d o 56 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap1_016a061.indd 56V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap1_016a061.indd 56 24/09/2020 10:5224/09/2020 10:52 O texto a seguir satiriza o ambiente político do Brasil nos últimos anos da ditadura militar. Era uma época em que o povo havia perdido a confiança no governo e principalmentenos políticos. A velhinha de Taubaté Não se sabe, exatamente, o seu endereço, mas tudo indica que seja em Taubaté. Outros detalhes – nome, estado civil, CIC – são desconhecidos. Sabe-se apenas que é uma velhinha que mora em Taubaté e que passa boa parte de seu tempo numa cadeira de balanço assistindo ao Brasil pela televisão. A velhinha de Taubaté é o último bastião da credulidade nacional. Ninguém acredita mais em nada nem em ninguém no país, mas a ve- lhinha de Taubaté acredita. Se não fosse pela velhinha de Taubaté o país já teria caído, não no abismo, mas na gandaia final, sem disfarces. Tudo que acontece de aparentemente sério no país é, na verdade, uma grande encenação para a velhinha de Taubaté. [...] Há alguns anos existiam milhares de brasileiros que acreditavam como a velhinha de Taubaté. Com o tempo este número foi diminuindo até que em 1981 só havia dezessete. Por coincidência, todas velhinhas. Algumas morreram, outras foram se desencantando aos poucos. A penúltima ve- lhinha ficou muito traumatizada com o episódio da apuração dos votos no Rio de Janeiro e decidiu que, se não podia confiar nem na Globo, não confiaria em mais nada. Sobrou a velhinha de Taubaté.[...] Só a existência da velhinha explica o ar circunspecto com que os mi- nistros anunciam as novas medidas econômicas, exatamente as que eles tinham desmentido na semana passada. Na verdade eles estão torcendo para não rir. Mas precisam pensar na velhinha de Taubaté. – Te controla. – Não posso. Eu vou ter um troço. – Olha a velhinha, olha a velhinha! De vez em quando acontece alguma coisa que faz a velhinha de Tau- baté ficar tesa na sua cadeira de balanço e dizer: “Epa”. Outro atentado da direita, por exemplo. Mas logo uma autoridade anuncia que haverá um “rigoroso inquérito” e a velhinha de Taubaté descansa. Tudo se escla- recerá. A velhinha de Taubaté pensa que “rigoroso inquérito” quer dizer inquérito rigoroso, e não o contrário. VERÍSSIMO, Luís Fernando. A velhinha de Taubaté. Porto Alegre: L&PM, 1983. p. 10-12. NÃO ESCREVA NO LIVRO Bastião: fachada. Circunspecto: sério. Gandaia: vadiagem, farra. 1. Atualmente, existe mais confiança no governo por parte da população? 2. Você poderia citar exemplos de desonestidade na política hoje em dia? 3. O que você acha do estereótipo do político como sendo um homem desonesto? A desconfiança do povo com relação ao governo serve para melhorar ou piorar o país? Veja as respostas no Manual do Professor. Conversa 57 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap1_016a061.indd 57V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap1_016a061.indd 57 24/09/2020 10:5224/09/2020 10:52 NÃO ESCREVA NO LIVRO DIÁLOGOS 1. Leia o trecho a seguir e realize as atividades. [...] nem os intelectuais hispano-americanos e brasileiros, nem os governos hispano-americanos e brasileiros consideravam o Brasil parte da “América Latina” — expressão que se referia somente à América Espanhola — pelo menos até a segunda metade do século XX, quando os Estados Unidos e o resto do mundo exterior começaram a pensar o Brasil como parte integran- te de uma região chamada “Latin America”. Mesmo agora, os governos bra- sileiros e os intelectuais brasileiros, exceto talvez da esquerda, continuam sem convicção profunda de que o Brasil é parte da América Latina. BETHELL, Leslie. O Brasil e a ideia de “América Latina” em perspectiva histórica. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, 2009. Disponível em: www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid =S0103-21862009000200001. Acesso em: 4 ago. 2020. a) Considerando o que você aprendeu neste capítulo, aponte uma diferen- ça marcante entre o processo de independência da América portugue- sa e o processo de independência das colônias da América espanhola. Depois, explique como se desenvolveu essa diferença. b) Você concorda com a opinião de Leslie Bethell, que diz que “Mesmo agora, os governos brasileiros e os intelectuais brasileiros [...] conti- nuam sem convicção profunda de que o Brasil é parte da América La- tina”? Por quê? Procure identificar em seu cotidiano alguns elementos que servem para justificar sua resposta. 2. Leia o texto abaixo, do historiador brasileiro Paulo Vizentini, e responda às questões. Três meses após a derrubada de Vargas, o general Eurico Gaspar Du- tra tomava posse como presidente eleito. O condestável do Estado Novo e simpatizante do Eixo era agora um fiel aliado de Washington. Essa seria a marca de seu governo. Uma mudança dessa magnitude resultava tanto de uma nova relação de forças internas como, sobretudo, externas. Prenuncia- vam-se os anos da Guerra Fria e uma nova ordem mundial, o que alterava profundamente as possibilidades de inserção internacional do Brasil. […] A diplomacia brasileira não apenas alinhava-se automaticamente com as posições americanas nas organizações internacionais, como às vezes chegava a exceder-se em seu apoio. Em outubro de 1947 o Brasil rompeu relações diplomáticas com a União Soviética a partir de um incidente sem maior importância. Na verdade, essa ruptura fazia parte de uma política mais ampla, e fora longamente preparada pelo governo. VIZENTINI, Paulo. Do nacional-desenvolvimentismo à PEI. In: FERREIRA, J. et al. (org.). O Brasil republicano. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003. p. 198-200. a) De acordo com o texto, que mudanças o governo de Dutra impôs à polí- tica externa brasileira quando comparado ao governo do Estado Novo? Veja as respostas das atividades desta seção no Manual do Professor. 58 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap1_016a061.indd 58V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap1_016a061.indd 58 24/09/2020 10:5224/09/2020 10:52 b) Que fatores do cenário internacional, implementados após a Segunda Guerra, foram responsáveis por essa mudança? Explique. c) Para o autor, que reais motivos levaram o Brasil a romper relações di- plomáticas com a União Soviética em 1947? 3. A figura ao lado é a reprodução de um cartaz do Movimento Feminino pela Anistia no Brasil, divulgado em 1975. a) Preste atenção à imagem. Que mudanças você nota nos desenhos das persona- gens femininas da primeira fileira supe- rior até a fileira inferior do cartaz? b) O que acontecia no cenário político nacio- nal em 1975, quando o cartaz foi divulga- do? c) Por que o cartaz convoca o leitor para “sair da sombra”? d) Em sua opinião, a divulgação de movi- mentos como o que vemos no cartaz foi importante para mudar o cenário político brasileiro? Explique. 4. Leia o texto abaixo do historiador brasileiro Marcos Napolitano. Em seguida, responda às questões. A partir dos eventos ocorridos no “ciclo grevista” de 1978/1980, os sujeitos coletivos puderam definir suas identidades e articular suas reivindicações frente ao Estado. Neste processo, a “questão democrática” foi ree- laborada historicamente, deixando de ser apenas um tema que inspirava a resistência contra a ditadura, para nortear diversos projetos de sociedade. A “questão operária” consolidou, no espaço público, uma outra formu- lação da “questão democrática”, que se exercitava desde o início dos anos 70: não mais se tratava de criar a produção do consenso mas, sobretudo, aprimorar a equação do conflito. NAPOLITANO, Marcos. As greves do ABC: a questão social encontra a questão democrática. In: NAPOLITANO, Marcos.Cultura e poder no Brasil republicano. Curitiba: Juruá, 2002. p. 104. a) Releia o texto didático e identifique quem eram os participantes do que o autor chama “ciclo grevista” e por que eles estavam insatisfeitos. b) De acordo com o autor, por que as greves dos metalúrgicos redefiniram o movimento pela volta da democracia e introduziram novas questões entre os opositores da ditadura militar? Justifique. Cartaz do Movimento Feminino pela Anistia no Brasil, de 1975. R e p ro d u ç ã o /A rq u iv o P ú b lic o d o E s ta d o d e S ã o P a u lo , S ã o P a u lo , S P. 59 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap1_016a061.indd 59V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap1_016a061.indd59 24/09/2020 10:5224/09/2020 10:52 1. (2016) A Operação Condor está diretamente vincu- lada às experiências históricas das ditaduras civil-militares que se disseminaram pelo Cone Sul entre as décadas de 1960 e 1980. Depois do Brasil (e do Paraguai de Stroessner), foi a vez da Argentina (1966), Bolívia (1966 e 1971), Uru- guai e Chile (1973) e Argentina (novamente, em 1976). Em todos os casos se instalaram ditadu- ras civil-militares (em menor ou maior medi- da) com base na Doutrina de Segurança Nacio- nal e tendo como principais características um anticomunismo militante, a identificação do inimigo interno, a imposição do papel político das Forças Armadas e a definição de fronteiras ideológicas. PADRÓS, E. et al. Ditadura de Segurança Nacional no Rio Grande do Sul (1964-1985): história e memória. Porto Alegre: Corag, 2000 (adaptado). Levando-se em conta o contexto em que foi criada, a referida operação tinha como objetivo a) coordenar a modificação de limites territoriais. b) sobrevivência de oficiais exilados. c) interferência de potências mundiais. d) repressão de ativistas oposicionistas. e) implantação de governos nacionalistas. 2. (2014) Texto I O presidente do jornal de maior circulação do país destacava também os avanços econô- micos obtidos naqueles vinte anos, mas, ao justificar sua adesão aos militares em 1964, deixava clara sua crença de que a intervenção fora imprescindível para a manutenção da de- mocracia. Disponivel em: http://oglobo.globo.com. Acesso em: 1 set. 2013 (adaptado). Texto II Nada pode ser colocado em compensação à perda das liberdades individuais. Não exis- te nada de bom quando se aceita uma solução autoritária. FICO, C. A educação e o golpe de 1964. Disponível em: www. brasilrecente.com. Acesso em: 4 abr. 2014 (adaptado). Embora enfatizem a defesa da democracia, as visões do movimento político-militar de 1964 divergem ao focarem, respectivamente: a) Razões de Estado – Soberania popular. b) Ordenação da Nação – Prerrogativas reli- giosas. c) Imposição das Forças Armadas – Deveres sociais. d) Normatização do Poder Judiciário – Regras morais. e) Contestação do sistema de governo – Tradi- ções culturais. 3. (2010) Ato Institucional nº 5 Art. 10 – Fica suspensa a garantia de habeas corpus, nos casos de crimes políticos, contra a segurança nacional, a ordem econômica e so- cial e a economia popular. Art. 11 – Excluem-se de qualquer apreciação judicial todos os atos praticados de acordo com este Ato Institucional e seus Atos Complemen- tares, bem como os respectivos efeitos. Disponível em: http://www.senado.gov.br. Acesso em: 29 jul. 2010. Nos artigos do AI-5 selecionados, o governo militar procurou limitar a atuação do Poder Judiciário, porque isso significava a) a substituição da Constituição de 1967. b) o início do processo de distensão política. c) a garantia legal para o autoritarismo dos juízes. d) a ampliação dos poderes nas mãos do Exe- cutivo. e) a revogação dos instrumentos jurídicos im- plantados durante o regime militar de 1964. X X X Ver respostas e orientações no Manual do Professor. 60 QUESTÕES DO ENEM NÃO ESCREVA NO LIVRO V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap1_016a061.indd 60V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap1_016a061.indd 60 24/09/2020 10:5224/09/2020 10:52 • Com base em todo o conteúdo trabalhado ao longo do capítulo, retome as perguntas da situa- ção-problema inicial e reveja suas respostas: a) Você mudaria sua resposta em relação aos fatores que podem explicar o voto de uma parce- la da população (nulos, brancos e abstenções)? Se sim, em que mudaria? b) E sobre as outras formas de participação política, você manteria, mudaria ou complementa- ria a resposta que foi dada? Veja as respostas no Manual do Professor Retome o contexto Esquema elaborado pelos autores. Ditadura Democracia Caudilhismo na América Latina Período democrático após o Estado Novo Estado Novo Movimentos sociais na América Latina Ditaduras militares na segunda metade do século XX Redemocratização após o fim da ditadura 61 VOCÊ PRECISA SABER NÃO ESCREVA NO LIVRO 61 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap1_016a061.indd 61V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap1_016a061.indd 61 24/09/2020 10:5224/09/2020 10:52 OBJETIVOS • Reconhecer a renda média do trabalho como indicador de inserção social e dado que revela a desigualdade social. • Compreender a particularidade dos desafios da mulher na inserção e valorização no mercado de trabalho. • Reconhecer o papel do preconceito e do racismo como mecanismos que dificultam a ascensão social e econômica de grupos minoritários. • Refletir sobre as diferentes formas de exclusão e opressão às quais estão submetidos as mulheres, os afrodescendentes, os indígenas, os idosos e os jovens. JUSTIFICATIVA A cidadania é desigualmente exercida pela população brasileira em variados contextos, tanto espacial quanto etário, de sexo ou gênero e ainda de cor, raça ou etnia. Apesar das grandes conquistas e dos avanços em nosso sistema legal para a promoção do reconhecimento das diferenças e necessidades dos variados segmentos sociais no país, a vida cotidiana das denominadas minorias sociais (categoria sociológica), que não correspondem necessariamente às minorias numéricas, ainda está muito distante dos segmentos privilegiados, como grupos de brancos, sobretudo homens adultos. E isso se manifesta de forma explícita em como essas minorias são vistas e (des)valorizadas socialmente e materializadas em diferentes indicadores sociais, como trabalho, renda e violência. COMPETÊNCIAS E HABILIDADES DA BNCC • Competências gerais da Educação Básica: CG1, CG2, CG3, CG4, CG5, CG6, CG7, CG8, CG9 e CG10. • Competências e habilidades específicas de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas: Competência 1: EM13CHS101 e EM13CHS102. Competência 4: EM13CHS402 e EM13CHS403. Competência 5: EM13CHS502 e EM13CHS503. Competência 6: EM13CHS601 e EM13CHS606. TEMAS CONTEMPORÂNEOS TRANSVERSAIS Economia • Trabalho Cidadania e Civismo • Processo de envelhecimento, respeito e valorização do idoso Multiculturalismo • Diversidade cultural Saúde • Saúde É bastante comum naturalizarmos comportamen- tos e valores construídos historicamente e deixarmos de identificar alguns traços, características e mesmo contradições de hábitos em nosso cotidiano e em nos- sa cultura. Isso pode ser percebido no encontro com pessoas de outras culturas, no olhar estrangeiro sobre nós, que nos ajudam a enxergar aquilo que muitas ve- zes está diante de nossos olhos, mas que não nos cha- ma atenção. O jornal Folha de S.Paulo realizou um projeto de di- vulgação de entrevistas escritas e gravadas com imi- grantes que vivem em São Paulo (SP) e contam suas impressões sobre a cidade e o povo brasileiro. Leia a seguir recortes das entrevistas de alguns de- les, concedidas em 2019 e 2020. Em seguida, faça o que é pedido. “A Noruega precisa de um pouco do jeitinho bra- sileiro” Guru Amundsen Nygaard, Noruega (sexo fe- minino). “Por que vocês não se tratam tão bem quanto tra- tam os estrangeiros?” Carles Cansino, Espanha (sexo masculino). “No meu país mulheres negras ocupam cargos bons” Renéé Rossa Londja, Guiana (sexo feminino). “A vida aqui é mais fácil para as mulheres” Ayesha Saeed, Paquistão (sexo feminino). “Casei com uma brasileira. Ela é evangélica; eu muçulmano. Não dá problema nenhum” Mour Seck, Senegal (sexo masculino). Contexto Desafios para construção da justiça social no Brasil 2 C A P ÍT U LO C A P ÍT U LO NÃO ESCREVA NO LIVRO 62 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap2_062a093.indd 62V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap2_062a093.indd 62 24/09/2020 19:4624/09/2020 19:46 “No meu segundo dia no Brasil, entrei num bloco de Carnaval sem sa- ber o que era. Dei meu primeiro beijo” Hajam Elyoussef, Síria (sexo mas- culino). “O Brasil é bom para velhos. Tem muita coisa grátis pro idoso. No Japão não é igual aqui” Sumio Takai, Japão (sexo masculino).“Vim pro Brasil, sozinha, com 15 anos. Trabalhei o primeiro ano inteiro sem receber” Jenny, Pamela e Abigail Llanque, Bolívia (sexo feminino). MANTOVANI, Flávia; SANTOS, Bruno; ALMEIDA, Thiago. Imigrantes de sp. Folha de S.Paulo. São Paulo, 2019-2020. Disponível em: https://arte.folha.uol.com.br/ mundo/2019/imigrantes-sp/. Acesso em: 30 jul. 2020. 1. Em grupo, comentem a fala dos imigrantes, considerando: a) Quais relatos são experiências positivas e quais são negativas? b) Quais experiências podem ter sido individualmente positivas, mas que não são necessariamente positivas para os brasileiros? c) Os depoimentos reforçam imagens estereotipadas do país ou são real- mente representativas do que acontece por aqui? d) O país de origem e o sexo de cada autor do relato podem interferir na avaliação da experiência que tiveram no Brasil? Expliquem. 2. Elabore um registro pessoal sobre suas impressões e revelações a res- peito das características da sociedade brasileira, especialmente aquilo que distingue o tratamento e as oportunidades dadas às minorias sociais (mulheres, afrodescendentes, indígenas, idosos e jovens). Veja as respostas no Manual do Professor. Em razão do processo de formação do povo brasileiro, no país, convivem pessoas com traços físicos e até hábitos culturais diferentes. Mas as oportunidades de vida não são as mesmas para todos. A n g e lin a B a m b in a /S h u tt e rs to ck 63 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap2_062a093.indd 63V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap2_062a093.indd 63 24/09/2020 10:5424/09/2020 10:54 Diversidade, particularidades e igualdade A efetivação da cidadania deve se manifestar na vida cotidiana das pesso- as. A inserção desse valor no conjunto de leis e normas que regem as mais variadas instituições é um dos passos essenciais para que todos tenham seus direitos garantidos. Princípios que devem ser incorporados pela nossa cultura e a partir dos quais conduzimos todas as nossas ações no mundo público. O desafio que vivemos atualmente é fazer valer na prática os direitos con- quistados e que estão registrados em nossas leis, como na Constituição Fe- deral de 1988, chamada Constituição Cidadã. Ao lançarmos um olhar mais atento aos vários segmentos sociais, que historicamente nunca desfrutaram de reconhecimento, oportunidades e direitos em sua totalidade, percebemos o quanto, na prática, a cidadania plena ainda está distante para muitos e que novas conquistas e mudanças de comportamento são necessárias. Uma boa forma para avaliar o quanto a cidadania é vivida plenamente pe- las pessoas é examinar os lugares sociais que os diferentes segmentos da sociedade ocupam. Nesse aspecto, destaca-se a inserção no mundo do tra- balho em razão de sua importância simbólica, o status que aufere e também a condição material que ele proporciona por meio do salário, da renda. Os tipos de profissão, emprego, jornada e remuneração são muito variados. A reunião de dados estatísticos nos possibilita afirmar que essas diferenças não se dão apenas em razão do mérito e da competência de cada indivíduo. Eles revelam padrões que diferenciam homens, mulheres, brancos, negros, in- dígenas, jovens e idosos, entre outros, e, portanto, têm razões históricas. Fonte: elaborado com base em IBGE. Pnad, 2017. Brasil: médias salariais – 2017 0 500 1.000 Brasil 2.178 1.868 2.410 Mulheres Homens Brancos Pretos Pardos 1.500 2.500 2.000 3.000 (e m r ea is ) 2.814 1.570 1.606 F ó rm u la P ro d u ç õ e s /A rq u iv o d a e d it o ra 1. Qual é o percentual da diferença de média salarial entre o grupo social de média mais elevada e o grupo social de média mais baixa? 2. Que inferência pode ser feita sobre a média salarial ao se associar dois indicadores de distinção social, a cor e o sexo? Ou seja, qual grupo provavelmente tem maior e menor média salarial ao considerar homens brancos, homens pretos, homens pardos, mulheres brancas, mulheres pretas, mulheres pardas? NÃO ESCREVA NO LIVRO Veja as respostas no Manual do Professor. Interpretar 64 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap2_062a093.indd 64V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap2_062a093.indd 64 24/09/2020 10:5424/09/2020 10:54 Emancipação das mulheres As mulheres e os homens, historicamente, possuem funções diferentes na realização do trabalho. Isso é o que chamamos de divisão sexual do tra- balho. Nos primórdios da história, essa divisão não era hierárquica (ou seja, uma função não era considerada mais importante do que outra), e sim, com- plementar. Se pensarmos, por exemplo, nas sociedades em que os homens eram responsáveis por caçar animais selvagens e as mulheres, pela colhei- ta, ambos os trabalhos eram considerados igualmente importantes para a sobrevivência da comunidade. Assim, a divisão sexual do trabalho não foi desde sempre (nem é em nenhuma sociedade, mesmo nos dias de hoje...) indício de desigualdade. Atualmente, é grande o número de mulheres que também trabalham fora de casa em busca do sustento de sua família ou para complementar a renda familiar. O aumento do trabalho assalariado feminino representa, sem dúvi- da, um aspecto fundamental no processo de emancipação da mulher em so- ciedades ocidentais capitalistas. Mas será que isso a coloca em posição de igualdade em relação ao homem na nossa sociedade? Diversos estudiosos afirmam que sobre a força de trabalho feminina existe, em maior intensida- de, precarização e exploração. Vamos tentar entender, agora, o que isso quer dizer, como e por que isso acontece. Em maio de 1955, a revista Housekeeping Monthly publicou o artigo “O guia da boa esposa”, no qual ditava o que a mulher deveria fazer para ser prestativa com seu marido e filhos. S S P L /S c ie n c e M u s e u m /G e tt y I m a g e s 65 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap2_062a093.indd 65V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap2_062a093.indd 65 24/09/2020 10:5424/09/2020 10:54 Trabalho não é a mesma coisa que em- prego. Há diversas formas de trabalho que não são necessariamente remuneradas. O trabalho doméstico, por exemplo, é uma delas. Não estamos falando do trabalho realizado por diaristas ou empregadas do- mésticas, mas aquele que as pessoas rea- lizam em sua própria casa. Você já reparou que as pessoas que têm um trabalho que gera riqueza são con- sideradas bem-sucedidas e aquelas que recebem pouco (ou nada) pelo trabalho que produzem são vistas de forma inferio- rizada pela sociedade? Quando perguntamos a uma criança “o que você quer ser quando crescer?”, referimo-nos à qual profissão ela vai escolher para exercer no futuro. Em outras palavras, seria quase a mesma coisa que per- guntar: “qual profissão você quer ter para ganhar dinheiro quando crescer?”. Você percebe que comumente partimos do pressuposto de que a criança deve ter ambições, que essas ambições devem estar relacionadas a quanto prestígio social ela vai ter e que esse prestígio está diretamente relacionado a quanto dinheiro vai ganhar? Recentemente os meios de comunicação de massa passaram a veicular mais imagens de homens e mulheres dividindo os afazeres domésticos. Entretanto, não é incomum essa atividade ser considerada de responsabilidade da mulher, atribuindo ao homem o papel de ajudante. Para muitas mulheres, trabalhar fora de casa representa uma busca por liber- dade, pois, só assim, elas não dependerão economicamente do marido nem de familiares e vão alcançar, de fato, sua autonomia. O problema é que nem todas as mulheres conseguem alcançar o mercado de trabalho e grande parte delas, quando consegue, recebe salários menores do que os recebidos pelos homens e, até mesmo, em alguns casos, exercendo a mesma função. Além disso, traba- lhar fora de casa não garante, necessariamente, a autossuficiência econômica. P e a n u ts , C h a rl e s S ch u lz © 1 9 6 0 P e a n u ts W o rl d w id e L L C ./ D is t. b y A n d re w s M c M e e l S y n d ic a ti o n P ro s to ck-s tu d io /S h u tt e rs to ck 66 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap2_062a093.indd 66V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap2_062a093.indd 66 24/09/2020 10:5424/09/2020 10:54 Grupamentos ocupacionais Rendimento médio habitual do trabalho principal (R$) Participação de mulheres na população ocupada (%) Percentual de horas trabalhadas na semana de referência pelas mulheres em relação ao de homens (%) Razão do rendimento médio habitual* de mulheres em relação ao de homens (%)Homem Mulher Total 2 491 1 978 45,6 88,4 79,4 Diretores e gerentes 6 216 4 435 41,8 95,5 71,3 Profissionais das ciências e intelectuais 5 890 3 819 63,0 90,3 64,8 Técnicos e profissionais de nível médio 3 320 2 386 45,2 95,4 71,9 Trabalhadores de apoio administrativo 2 071 1 785 64,5 97,2 86,2 Trabalhadores dos serviços, vendedores dos comércios e mercados 1 958 1 295 59,0 88,0 66,2 Trabalhadores qualificados da agropecuária, florestais, da caça e da pesca 1 397 999 21,1 82,6 71,5 Trabalhadores qualificados, operários e artesãos da construção, das artes mecânicas e outros ofícios 1 752 1 150 16,2 83,0 65,7 Operadores de instalações de máquinas e montadores 1 895 1 303 13,8 92,3 68,8 Ocupações elementares 1 060 951 55,3 86,1 89,8 Membros das Forças Armadas, policiais e bombeiros civil-militares 5 301 5 338 13,2 89,8 100,7 * Rendimento médio habitual do trabalho principal da população de 25 a 49 anos de idade ocupada na semana de referência, por sexo, segundo os grupamentos ocupacionais, participação de mulheres na ocupação e razão (%) do rendimento de mulheres em relação ao de homens – Brasil – 4º trimestre – 2018. Fonte: IBGE, Diretoria de Pesquisas, Coordenação de Trabalho e Rendimento. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua. Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-sala-de-imprensa/2013-agencia-de-noticias/releases/ 23923-em-2018-mulher-recebia-79-5-do-rendimento-do-homem. Acesso em: 30 jul. 2020. 1. As maiores desigualdades de remuneração entre homens e mulheres são observadas em que tipos de ocupação? Que hipóteses podem explicar esse fato? 2. Dos grupos ocupacionais listados na tabela, em quais a participação das mulheres é inferior? O que poderia explicar isso? 3. É possível relacionar gênero e formação escolar? Explique dando exemplos da tabela. Ver respostas e orientações no Manual do Professor. Interpretar Apesar da crescente participação da mulher no mercado de trabalho, seu percentual de remuneração é bem menor do que o auferido pelo tra- balho masculino, assim como seus direitos e suas condições laborais. Ao trabalho feminino, no geral, têm sido reservadas áreas de trabalho intensi- vo. As áreas de maior desenvolvimento tecnológico ainda são destinadas majoritariamente ao trabalhador masculino. Assim, a expansão do trabalho feminino tem se verificado, especialmente, em atividades mais precariza- das ou informais e, ainda, com jornadas mais prolongadas. NÃO ESCREVA NO LIVRO 67 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap2_062a093.indd 67V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap2_062a093.indd 67 24/09/2020 10:5424/09/2020 10:54 A mulher trabalhadora, em geral, pos- sui dupla ou tripla jornada porque, além de trabalhar fora, “deve” também cuidar das tarefas da casa e dos filhos. Mesmo em fa- mílias que buscam dividir igualitariamente as funções domésticas, é comum ouvirmos: “ele é um ótimo marido, ajuda a esposa em suas tarefas”. O trabalho doméstico ainda é visto como função exclusiva da mulher. Por mais emancipadas que as mulheres de hoje sejam em relação às mulheres de gerações mais antigas, essa emancipação é apenas parcial, porque o seu trabalho ainda não é valorizado igualitariamente ao dos homens ou, ainda, muitas vezes, nem é percebido como trabalho quando é do tipo doméstico. Há ainda outro problema: não raras vezes, o trabalho feminino está mais di- retamente ligado à autopreservação do que à autorrealização, principalmen- te em se tratando de mulheres de classes de baixa renda. Com dupla ou tripla jornada de trabalho, sem tempo para o lazer, sem independência econômica e, geralmente, empregada em um trabalho alienante, será possível a mulher se sentir realizada? Vivemos em uma sociedade de consumo e, portanto, acre- ditamos que o trabalho só é importante se der conta de nossas necessidades materiais, daí a desvalorização do trabalho feminino quando enquadrado na condição de trabalho doméstico. Receber um salário pequeno ou não receber nenhum salário é sinônimo de fracasso pessoal, de insucesso. E se considerássemos o trabalho como uma forma de contribuir para a so- ciedade, como um exercício de criatividade? E se pudéssemos experimentar a satisfação de desempenhar tarefas que nos beneficiam e aos demais, será que encararíamos o trabalho como algo estressante, depressivo ou degradante? Os trabalhadores do lar são inferiorizados em relação aos outros, como se fosse um trabalho menor, e acabam, por isso, se sentindo menos impor- tantes. Se, em vez de valorizar- mos apenas a riqueza material, pudéssemos valorizar a impor- tância que o trabalho tem para a comunidade como um todo, se o trabalho que exercemos pudesse funcionar como forma de afirma- ção (e não de negação) da nossa identidade, será que sofreríamos da mesma forma? O trabalho doméstico no Brasil é historicamente exercido pelas mulheres negras. Faxineiras e diaristas são majoritariamente mulheres negras. Apenas em 2015 foi promulgada a lei garantindo direitos trabalhistas às pessoas que exercem essa profissão. Desde o período colonial, mulheres negras são responsáveis pelas atividades mais fundamentais, desde a organização da casa até a amamentação das crianças, mesmo que não fossem seus filhos. Na imagem Mãe preta do pintor Lucílio de Albuquerque (1877-1939). Apesar de vivermos em uma sociedade declaradamente competitiva, nem sempre os termos dessa competição são justos com as pessoas envolvidas, como ocorre na competição entre homens e mulheres no mercado de trabalho. R e p ro d u ç ã o /M u s e u d e A rt e M o d e rn a © 2 0 2 0 C a rl ín /L a R e p ú b lic a 68 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap2_062a093.indd 68V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap2_062a093.indd 68 24/09/2020 10:5424/09/2020 10:54 Leia a seguir a opinião de duas ativistas pela conquista de direitos civis sobre a remuneração do trabalho doméstico: Texto I O Movimento pela Remuneração das Tarefas Domésticas desencora- java as mulheres de procurar empregos fora de casa, argumentando que “a escravidão a uma linha de montagem não é libertação da escravidão de uma pia de cozinha”. Entretanto, as porta-vozes da campanha insis- tem que não defendem o aprisionamento contínuo das mulheres no am- biente isolado da sua casa. Elas alegam que, embora se recusem a tra- balhar no mercado capitalista em si, não desejam atribuir às mulheres a responsabilidade permanente pelas tarefas domésticas. [...] Assim que as mulheres conquistarem o direito de serem pagas por seu trabalho, elas poderão levantar reivindicações por salários mais altos, obrigando, assim, os capitalistas a promover a industrialização das tarefas domés- ticas. Seria essa uma estratégia concreta para a libertação feminina ou um sonho irrealizável? DAVIS, Angela. Mulheres, raça e classe. São Paulo: Boitempo, 2016. Texto II Muitas mulheres realizam atividades de serviço no mercado de tra- balho, sendo mal remuneradas ou não tendo nenhum tipo de remu- neração (como no trabalho doméstico). O trabalho doméstico e outros tipos de atividade de serviço são especialmente desvalorizados no capi- talismo patriarcal. As ativistas feministas que defendem o pagamento de salário às donas de casa viram nisso uma forma de dar à mulher algum poder econômico e de atribuir valor ao seu trabalho. Mas parece improvável que remunerar o trabalho doméstico possa levar a socieda- de a atribuir valor a esse tipo de tarefa, uma vez que, em geral, as ati-vidades de serviço não são valorizadas, independentemente de serem remuneradas ou não. E quando há remuneração, as pessoas que fazem esse tipo de trabalho continuam sendo exploradas psicologicamente. Assim como o trabalho doméstico, as atividades que desempenham são estigmatizadas como degradantes. [...] Se as mulheres recebessem salá- rios pelo trabalho doméstico, é improvável que um dia ele deixasse de ser designado como “trabalho de mulher” e passasse a ser reconhecido como uma atividade importante. HOOKS, Bell. Teoria feminista: da margem ao centro. São Paulo: Perspectiva, 2019. 1. Por que algumas ativistas feministas viram na remuneração do trabalho doméstico uma forma de emancipação feminina? Quais argumentos são defendidos por elas? 2. Por que a autora do texto II acredita ser “improvável que remunerar o trabalho doméstico possa levar a sociedade a atribuir valor a esse tipo de tarefa”? Que argumentos ela defende? 3. Em sua opinião, a remuneração do trabalho doméstico pode ser uma alternativa para a desigualdade de gênero? Explique? Veja as respostas no Manual do Professor. Interpretar NÃO ESCREVA NO LIVRO Vida Maria. Direção: Márcio Ramos. Brasil, 2007. O curta-metragem de animação conta a história de uma menina de 5 anos de idade que se diverte aprendendo a escrever o próprio nome. Como as mulheres das gerações mais antigas de sua família, Maria se vê obrigada a abandonar os estudos para cuidar dos afazeres domésticos e trabalhar na roça. Saber R e p ro d u ç ã o /T ri o F ilm e s 69 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap2_062a093.indd 69V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap2_062a093.indd 69 24/09/2020 10:5424/09/2020 10:54 A inclusão de negros e indígenas Negros Assim como as mulheres em relação aos homens, a população negra bra- sileira também tem menos acesso ao mercado de trabalho do que a popula- ção branca. Negros vivem, estudam e ganham menos do que os brancos. O Brasil possui, segundo dados do IBGE (Pnad 2019), mais da metade da sua população formada por pretos (9,4%) e pardos (46,8%), na terminologia des- te órgão para a autodeclaração dos entrevistados. Como vimos no início deste capítulo, os negros são ainda o segmento social mais inferiorizado considerando a média de remuneração, segundo o critério raça ou cor. Em 2017, segundo dados do IBGE (Pnad 2017), o registro da renda média do trabalho apontava grande desigualdade: R$ 1.570,00 para pretos, R$ 1.606,00 para pardos e R$ 2.814,00 para brancos. Ainda nesse mesmo período, pesquisas apontavam que, dos 13 milhões de desemprega- dos no Brasil, 64% eram negros. No terceiro trimestre de 2018, o número de desemprego era mais alto entre os pardos (13,8%) e pretos (14,6%) do que entre os brancos (11,9%). Veja no gráfico a seguir como essa desigualdade varia de acordo com a escolaridade. 1. Qual é o percentual de diferença de renda média, aferido por hora, entre brancos e pretos e pardos? 2. Em qual nível de escolaridade a diferença de rendimento é maior? Qual é a sua hipótese para explicar essa situação? Veja as respostas no Manual do Professor. Interpretar NÃO ESCREVA NO LIVRO IBGE. Conheça o Brasil – População e raça. Disponível em: https:// educa.ibge.gov.br/ jovens/conheca-o-brasil/ populacao/18319-cor-ou- raca.html. Acesso em: 4 set. 2020. Políticas foram implementadas no Brasil, nas últimas décadas, para dimi- nuir essa diferença gritante, como as cotas “raciais” para o ingresso em uni- versidades públicas. Ainda assim, apesar da relevância desse tipo de medida para aumentar a participação do negro nesses espaços de aprendizagem, ele não consegue romper por si só, de fato, os obstáculos e desafios profis- sionais enfrentados pelos afrodescendentes. Brasil: rendimento por hora – média real do trabalho principal – 2019 0 5 20 Total Branca Sem instrução ou fundamental completo Fundamental completo ou médio incompleto Médio completo ou superior incompleto superior completo 25 35 (R $ /h or a) Por raça ou cor 30 10 15 Preta ou parda Fonte: elaborado com base em Desigualdades sociais por cor ou raça no Brasil: Pretos ou pardos recebem menos do que os brancos independentemente do nível de instrução. EcoDebate, 14 nov. 2019. Disponível em: www.ecodebate.com.br/ 2019/11/14/desigualdades-sociais-por-cor-ou-raca-no-brasil-pretos-ou-pardos-recebem-menos-do-que-os-brancos- independentemente-do-nivel-de-instrucao/. Acesso em: 30 jul. 2020. F ó rm u la P ro d u ç õ e s /A rq u iv o d a e d it o ra 70 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap2_062a093.indd 70V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap2_062a093.indd 70 24/09/2020 10:5424/09/2020 10:54 Mesmo quando conseguem ingressar na faculdade, os negros têm mais difi- culdade de acesso à formação comple- mentar e de encontrar estágios voltados à área de sua formação acadêmica. E, quando conseguem concluir o curso, di- versas barreiras dificultam o ingresso no mercado de trabalho. No setor bancário, apenas 20% dos trabalhadores são ne- gros e raramente participam de cargos de diretoria, exercendo quase sempre funções de produção. Essa desigualdade, mesmo após mais de 130 anos da abolição da escravi- dão, é resultado do racismo estrutural da sociedade brasileira. Veja o que diz sobre isso o filósofo e advogado negro Silvio Al- meida (1976-): Em resumo: o racismo é uma de- corrência da própria estrutura social, ou seja, do modo “normal” com que se constituem as relações políticas, eco- nômicas, jurídicas e até familiares, não sendo uma patologia social e nem um desarranjo institucional. [...] O que queremos enfatizar do ponto de vista teórico é que o racismo, como processo histórico e político, cria as con- dições sociais para que, direta ou indire- tamente, grupos racialmente identificados sejam discriminados de forma sistemática. Ainda que os indivíduos que cometam atos racistas sejam res- ponsabilizados, o olhar estrutural sobre as relações sociais nos leva a con- cluir que a responsabilização jurídica não é suficiente para que a sociedade deixe de ser uma máquina produtora de desigualdade racial. ALMEIDA, Silvio. O que é racismo estrutural? Belo Horizonte: Letramento, 2018. p. 38-39. Além de todas essas dificuldades, os pretos e pardos ainda precisam enfrentar outra: a violência. Dados do Mapa da Violência de 2018, estudo realizado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) evidenciam o nosso racismo estru- tural: em 2017, 75,5% das vítimas de homicídios eram indivíduos negros. Em dez anos (2007 a 2017), a taxa de mortes de negros cresceu 33,1% comparada à de não negros, que cresceu 3,3%. Em decorrência do racismo estrutural e institucional que existe em nosso país, a cor da pele, muitas vezes, é fator de exclusão para o ingresso no mer- cado de trabalho. 1. Defina, com suas palavras, o que é racismo estrutural. 2. Dê exemplos do cotidiano (pelos olhares, gestos, palavras e comportamentos) que estão associados ao racismo estrutural. Veja as respostas no Manual do Professor. Interpretar NÃO ESCREVA NO LIVRO A lo is io M a u ri c io /F o to a re n a A lic e V e rg u e ir o /F u tu ra P re s s Alunos da Universidade de São Paulo (USP) em 2017, ano anterior à adoção do sistema de cotas sociais e raciais. Preparativos para assembleia de alunos da Faculdade de Direito da USP, em 2015, em apoio à adoção de cotas sociais e raciais pela universidade. 71 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap2_062a093.indd 71V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap2_062a093.indd 71 24/09/2020 10:5424/09/2020 10:54 O ingresso no mercado de trabalho para a mulher negra é ainda mais di- fícil. Diferentemente das brancas, as mulheres negras sabiam, pela própria experiência, que o trabalho não necessariamente as libertava ou era indício de realização pessoal porque, na maioria dos casos, elas foram, ao longo de séculos, exploradas ou desumanizadas. Além disso, o crescenteadministra- ção da cidade até que a situação de crise fosse resolvida. Assim, essa ditadura antiga não carregava um caráter pejorativo de ilegalidade. Situação diferente de ditadura na modernidade em que se tornou um sinônimo de governo autoritário, perdendo o aspecto de transitoriedade que ti- nha na Roma antiga. Nesse sentido, se tivés- semos de buscar na Antiguidade um governo com algumas similaridades com as ditaduras contemporâneas, perceberíamos que elas se assemelham mais ao despotismo ou à tirania. E, nesse quadro, são exemplares as do mundo grego e mesmo de outros povos antigos que, em meio às tensões e conflitos internos, cer- tas personagens assumiam o poder e se ga- rantiam nele sobretudo pela força, reprimindo descontentamentos e impondo suas decisões. Cartaz da exposição Mais democracia, sim! Ditadura nunca mais! promovida pela prefeitura de Sobral, CE, em 2014, como forma de lembrar às novas gerações os horrores ocorridos durante a ditadura no Brasil. R e p ro d u ç ã o /s o b ra lo n lin e .c o m .b r 19 Retome o contexto Bill of Rights Diferenças e desigualdades Filósofos antigos Contratualistas dos séculos XVII e XVIII Primeira geração: Direitos Civis e Políticos Segunda geração: Direitos Econômicos, Sociais e Culturais Terceira geração: Direitos Universais – fraternidade e igualdade A Declaração Universal dos Direitos Humanos – 1948 Constituição de 1787 Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão – 1789 Estados – Constituições – Acordos Internacionais – Sociedade Civil – ONGs Anti-Slavery Human Rights Watch Anistia Internacional Médicos Sem Fronteiras Oxfam Repórteres Sem Fronteiras Inúmeras ONGs O que pode ser feito? Precursores – destaques Revolução Gloriosa – 1689 Independência dos Estados Unidos – 1776 Revolução Francesa – 1789 Crescem os desafios aos Direitos Humanos Prática dos Direitos Humanos Distinção Gerações Consolidação Principais • Em relação às respostas que você apresentou no início do capítulo, o que você mudaria ou� complementaria? O que precisa ser feito para diminuir a distância entre as leis e a realidade? HISTÓRIA DOS DIREITOS HUMANOS Mapa conceitual organizado pelos autores. 151 VOCÊ PRECISA SABER NÃO ESCREVA NO LIVRO 151 Seu livro está organizado em duas unidades, divididas em dois capítulos, que tratam de temas atuais e relevantes para a sua formação durante o Ensino Médio. Ao longo dos capítulos e unidades, você encontrará diferentes estruturas que utilizam diversos recursos pensados para auxiliá-lo no processo de aprendizagem. As aberturas de unidades apresentam textos e imagens que sintetizam o tema principal e vão mobilizar os seus conhecimentos sobre o assunto. Nessas aberturas, a seção Contexto traz situações concretas cuja análise exige conteúdos, conceitos e procedimentos de diferentes disciplinas das Ciências Humanas e Sociais Aplicadas. Essas situações serão retomadas ao longo dos capítulos e estão relacionadas com a seção Prática, que traz uma proposta de trabalho para que você aplique os conhecimentos que são produzidos em sala de aula na comunidade escolar e em seu entorno. As aberturas dos capítulos trazem recursos diversos (fotografias, mapas, gráficos, entrevistas, charges) que sintetizam o conteúdo que será trabalhado, além de propor questionamentos, por meio de uma nova ocorrência da seção Contexto, que vão ajudá-lo a realizar o projeto proposto na seção Prática. Na abertura de cada capítulo, você também encontrará um boxe com os objetivos, a justificativa para o trabalho com os conteúdos propostos e as competências, habilidades e temas contemporâneos transversais mobilizados no capítulo. Em todos os capítulos, você encontrará uma ocorrência da seção Conexões, que trabalha a interdisciplinaridade com componentes curriculares de outras áreas do conhecimento, especialmente as Ciências da Natureza e suas Tecnologias e as Ciências Humanas e Sociais Aplicadas, bem como com disciplinas que não estão presentes no currículo escolar. Seção que finaliza o trabalho do capítulo e traz propostas de retomada das questões apresentadas na seção Contexto, na abertura do capítulo. Momento que serve de recurso para resumo e sistematização de alguns dos conteúdos trabalhados ao longo dos capítulos. Pode surgir na forma de mapas conceituais, esquemas, fluxogramas ou lista de palavras e pode apresentar atividades que estabeleçam relação dos conteúdos trabalhados com os seus lugares de vivência e as suas experiências pessoais. V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Iniciais_003a015_LA.indd 4V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Iniciais_003a015_LA.indd 4 24/09/2020 10:4724/09/2020 10:47 5 COMPETÊNCIAS E HABILIDADES DA BNCC • Competências gerais da Educação Básica: CG1, CG4, CG5, CG7 e CG9. • Competências e habilidades específicas de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas: Competência 1: EM13CHS101, EM13CHS103 e EM13CHS104. Competência 2: EM13CHS205. Competência 5: EM13CHS502 e EM13CHS503. Competência 6: EM13CHS605. • Competência e habilidade específicas de Linguagem e suas Tecnologias: Competência 7: EM13LGG703. TEMAS CONTEMPORÂNEOS TRANSVERSAIS Cidadania e civismo • Vida Familiar e Social • Educação em Direitos Humanos O que acontece na praça?PRÁTICA Para começar Os séculos XX e XXI apresentam incontáveis transformações no estilo de vida das pessoas. Entre elas, está o acelerado processo de urbanização em todo o mundo. A Revolução Industrial, o desenvolvi- mento tecnológico e o estabelecimento do capitalismo como modo de produção levaram ao crescimento das cidades, à especialização do trabalho e a uma moderna rede de comunicações que possibilita maior eficiência na distribuição e no acesso a bens e serviços. Mas será que serviços como saúde, educação, lazer, saneamento básico e pavimen- tação de ruas são ofertados igualmente em todo o território nacional? A falta de serviços e estruturas básicas para boa parte da população brasileira mostra violações aos Direitos Humanos. Trata-se de uma situação complexa e real. Por isso é importante que, como brasileiros e estudantes, vocês se dediquem a observar, registrar e analisar essa realidade na cidade onde vocês vivem hoje. Muitas vezes passamos, sem nos darmos conta, por locais em que vá- rias violações são cometidas. Não porque essas violências sejam es- condidas, mas porque passamos a enxergá-las como “naturais”. A na- turalização de fenômenos sociais nada mais é do que enxergar como “natural” algo que na realidade é fruto de processos históricos. Muitas vezes, esses processos são atravessados por relações desiguais de poder e violência. Por isso é importante desnaturalizar o olhar para as situações cotidianas, em especial aquelas relacionadas à violação dos Direitos Humanos. O cenário da desigualdade é visível nas diversas paisagens das cidades, sejam gran- des, sejam médias, sejam pequenas. Essa desigualdade se apresenta em diferentes es- paços, como é o caso das praças centrais das cidades, em que é possível ver a circulação de vários tipos de pessoas, de diferentes origens e classes sociais. Nesses lugares se mistu- ram gerações (crianças, adultos e idosos), homens, mulheres, pessoas LGBTQI+, pessoas que apenas “passam” por ali, outras que traba- lham, conversam, passam o tempo, dormem ou vivem ali, por falta de um local adequado de moradia. Essa diversidade, comum em praças, faz delas um ambiente inte- ressante para se compreender um pouco da lógica local e analisar de que forma os diferentes grupos acessam e utilizam esses espaços pú- blicos da cidade. Praça Dante Aligheri em Caxias do Sul, RS. Fotografia de 2019. G e rs o n G e rl o ff /P u ls a r Im a g e n s 152 2. (2017) Muitos países se caracterizam por te- rem populações multiétnicas. Com frequên- cia, evoluíram desse modo ao longo de sé- culos. Outras sociedades se tornaram mul- tiétnicas mais rapidamente, como resultado de políticas incentivando a migração,ingresso das mulheres na força de trabalho nunca significou, de fato, que as mulheres como um todo estavam adquirindo poder econômico. Se, na nossa socieda- de, como vimos, há desvantagem em ser mulher e há desvantagem em ser negro, a mulher negra encontra-se numa posição duplamente vulnerável. Indígenas Ao falarmos das populações indígenas, paira no imaginário social uma ideia generalizante, como se elas fossem um único povo. Os equívocos mais frequentes sobre os povos originários são: • apenas uma representação de índio, genérico, desconsiderando a diversi- dade de povos, culturas e línguas dos indígenas que vivem no Brasil; • a ideia de que possuem “culturas atrasadas”, que estão em “estágio civili- zatório” inferior ou anterior ao da cultura branca ocidental; • a concepção de que têm “culturas congeladas”, ou seja, que vivem e pen- sam hoje como viviam e pensavam há 500 anos; • que os índios pertencem apenas ao passado e hoje não protagonizam ações constituintes da sociedade brasileira em toda sua complexidade, até mesmo produtiva (mundo intelectual e mundo do trabalho, por exemplo); • que os índios não são brasileiros e que a população brasileira não é resul- tado da contribuição dos variados povos originários. Segundo dados do IBGE, a partir dos censos realizados entre 1991 e 2010, há 305 etnias e 274 línguas indígenas reconhecidas no Brasil. As diversas tradições e estruturas sociais contribuem para a diversidade e a riqueza cultural do país. Garis em greve na cidade do Rio de Janeiro, em 2014, onde cerca de metade da população é composta de negros. Porém, observe que na foto quase não há brancos fazendo esse tipo de trabalho, de grande relevância pública, mas pouco valorizado socialmente. Estrelas além do tempo. Direção: Theodore Melfi. Estados Unidos, 2016. História do protagonismo e relevância de três cientistas negras da Nasa durante a Guerra Fria para o êxito dos Estados Unidos no embate com a então União Soviética. Saber R e p ro d u ç ã o /F o x F ilm d o B ra s il A rq u iv o /M id ia N IN JA 72 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap2_062a093.indd 72V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap2_062a093.indd 72 24/09/2020 10:5524/09/2020 10:55 Além disso, há muitos povos originários brasileiros inseridos em ambien- tes urbanos, como evidencia o gráfico a seguir. Fonte: elaborado com base em NASCIMENTO, Adir Casaro; VIEIRA, Carlos Magno Naglis. O índio e o espaço urbano: breves considerações sobre o contexto indígena na cidade. Cordis. História: Cidade, Esporte e Lazer, São Paulo, n. 14, p. 118-136, jan./jun. 2015. Disponível em: https://revistas.pucsp.br/index.php/cordis/article/viewFile/26141/18771. Acesso em: 30 jul. 2020. * Pessoas que declararam ser de cor ou raça indígena. ** Havia no estado do Amazonas 168 680 indígenas. Fonte: elaborado com base em IBGE Educa. Conheça o Brasil. População – Indígenas. Disponível em: https://educa. ibge.gov.br/jovens/conheca-o-brasil/ populacao/20506-indigenas.html. Acesso em: 30 jul. 2020. 1. Segundo o mapa, quais estados brasileiros apresentam maior número de indígenas? O que poderia explicar isso? 2. Descreva a evolução da distribuição espacial do indígena entre a área urbana e a rural de acordo com o gráfico. Levante hipóteses para explicar a grande diferença de números entre os dados de 1991 e de 2010. 3. Segundo o mapa, qual é a quantidade de indígenas que vivem no estado onde você vive? Comparando com a população do Brasil, esse número é alto ou baixo? E comparando com o total da população do estado em que você mora? Veja as respostas e orientações no Manual do Professor. Interpretar NÃO ESCREVA NO LIVRO Brasil: distribuição da população indígena* — 2010 PE São Gabriel da Cachoeira 29017 São Paulo de Olivença 14947 Tabatinga 14855 PA TO MG RJ GO DF SP MA PI CE RN PB AL SE BA ES MT MS PR RS SC AM RO AC AP RR 55° O 0° OCEANO ATLÂNTICO OCEANO PACÍFICO Trópico de Equador Capricórnio 0° De 2000 a 9999 Quantidade de indígenas por unidade da federação De 10000 a 19999 De 20000 a 39999 De 40000 a 79999 Mais de 79999* * Havia no estado do Amazonas 168680 indígenas. Municípios com a maior quantidade de indígenas 0 625 1250 km P o rt a l d e M a p a s /A rq u iv o d a e d it o ra Brasil: população indígena — 1991-2010 0 100 000 200 000 Terra indígena 300 000 500 000 400 000 600 000 1991 2000 2010 Área urbana A inserção das populações indígenas urbanas no mercado de trabalho, ape- sar das políticas afirmativas que ao longo do tempo foram sendo implemen- tadas (como cotas para populações indígenas em algumas universidades e cargos públicos), ainda é precária. Os estereótipos em torno da representa- ção dos povos originários brasileiros não são condizentes com a realidade – corpo nu, pintado, com cocar e adereços, muitas vezes idêntico à de nativos estadunidenses dos filmes de Hollywood, ou mesmo a ideia, que gerações mais antigas de brasileiros aprenderam na escola, do “índio” como preguiço- so, infantilizado ou incapaz – e em nada contribuem para a sua inclusão. F ó rm u la P ro d u ç õ e s /A rq u iv o d a e d it o ra 73 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap2_062a093.indd 73V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap2_062a093.indd 73 24/09/2020 10:5524/09/2020 10:55 A desigualdade em relação às populações não indígenas, quando o assun- to é a inserção no mercado de trabalho, é evidente. Para conseguir emprego, muitos chegam a camuflar as suas origens e conseguem apenas vagas mal remuneradas. • Segundo o antropólogo brasileiro Darcy Ribeiro (1922-1997), autor do livro O povo brasileiro, para que haja a democracia racial é necessário, antes de tudo, que haja uma democracia social. A partir do estudo que fizemos até agora sobre a inclusão das mulheres, dos negros e das populações indígenas no Brasil, podemos afirmar que somos bem-sucedidos como sociedade? Conseguimos alcançar, de fato, uma democracia social? Veja a resposta no Manual do Professor. Conversa Há uma considerável demanda por parte de indígenas pela integração no mercado de trabalho. Isso é também consequência das condições precarizadas de vida (e de trabalho) em que muitas pessoas dessas populações se encontram. Na primeira foto, radialista indígena da etnia terena apresentando programa de rádio na Aldeia Córrego do Meio, em Sidrolândia, 2015. Na segunda, indígena trabalhando em seu atelier. em Garopaba, SC, 2020. Em Barra do Garças (MT), por exemplo, os Xavante não estão inseridos em organizações, comércio, indústria; a predominância da população econo- micamente ativa indígena está em serviços públicos, como Funai e Funasa, e nas próprias aldeias. Simão Tsesó ódi Tsórópsé, em entrevista à Revista Panorâmica On-Line, de 2017, afirma: [...] deixamos currículos nas empresas de Barra das Garças, e percebe- mos que mesmo que nossos conhecimentos sejam de igual formação e experiência, sempre são escolhidos os currículos do homem branco, não conseguimos entender por que a sociedade e o mercado de trabalho faz essa distinção com o índio. MEDINA, Alessandro; FERREIRA, Camila Rodrigues Viana. O índio urbano: a perspectiva do índio xavante junto ao mercado de trabalho em Barra do Garças/MT. Revista Panorâmica On-Line. Barra do Garças, MT, v. 23, p. 245-254, jul./dez. 2017. NÃO ESCREVA NO LIVRO E d u a rd o Z a p p ia /P u ls a r Im a g e n s C a s s a n d ra C u ry /P u ls a r Im a g e n s 74 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap2_062a093.indd 74V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap2_062a093.indd 74 24/09/2020 10:5524/09/2020 10:55 Os idosos A Organização Mundial de Saúde (OMS) considera idosa a pessoa com 60 anos ou mais. Ter um elevado número de pessoas nessa faixa etária é hoje, para o Brasil, um grande desafio, que tende a aumentar ao longo das próximas décadas, porque está ocorrendo, segundo o IBGE, uma elevação no índice de envelhecimento da população. Segundoa pesquisa Projeção da População, atualizada pelo IBGE em 2018, em 2043 um quarto da população brasileira será de idosos. Atualmente, os idosos contabilizam cerca de 28 mi- lhões de pessoas, 13% do total da população brasileira. Brasil: número de jovens e de idosos e índice de envelhecimento (IE) – 2010-2060 0 Nú m er o de p es so as Ín di ce d e En ve lh ec im en to s (I E) 0 10 000 000 30 000 000 20 000 000 2 0 1 0 2 0 1 2 2 0 1 4 2 0 1 6 2 0 1 8 2 0 2 0 2 0 2 2 2 0 2 4 2 0 2 6 2 0 2 8 2 0 3 0 2 0 3 2 2 0 3 4 2 0 3 6 2 0 3 8 2 0 4 0 2 0 4 2 2 0 4 4 2 0 4 6 2 0 4 8 2 0 5 0 2 0 5 2 2 0 5 4 2 0 5 6 2 0 5 8 2 0 6 0 IE 0-14 anos 50 000 000 40 000 000 70 000 000 60 000 000 80 000 000 250 200 150 100 50 Números de jovens (0-14 anos) e de idosos (60 anos e mais) e Índice de Envelhecimento (IE) Brasil: 2010-2060 60 anos e mais Fonte: IBGE, Projeções de população (revisão 2018). In: ALVES, José Eustáquio Diniz. O envelhecimento populacional segundo as novas projeções do IBGE. EcoDebate, 31 ago. 2018. Disponível em: www.ecodebate. com.br/2018/08/31/o-envelhecimento- populacional-segundo-as-novas- projecoes-do-ibge-artigo-de-jose- eustaquio-diniz-alves/. Acesso em: 13 ago. 2020. Em 2019, 7,9% das vagas do mercado de trabalho eram ocupadas por ido- sos. Com a elevação no índice de envelhecimento e de novas regras para aposentadoria, espera-se, majoritariamente, a permanência desse trabalha- dor na atividade laboral. Assim, uma adequação, tanto dos idosos quanto das organizações contratantes, faz-se necessária para evitar a exclusão social dessa parcela da população. O problema das relações de trabalho envolvendo trabalhadores idosos deve ser amplamente discutido, com o intuito de evitar a discriminação, a vulnerabilidade e a exclusão social às quais tais indivíduos estão expostos, bem como de facilitar sua permanência ou reinserção no mercado. Na imagem um mecânico trabalhando em sua oficina. k u rh a n /S h u tt e rs to ck F ó rm u la P ro d u ç õ e s /A rq u iv o d a e d it o ra 75 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap2_062a093.indd 75V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap2_062a093.indd 75 24/09/2020 10:5524/09/2020 10:55 Se encararmos o trabalho como for- ma de integração com o mundo, como possibilidade de adquirir conhecimento, como parte constituinte da nossa iden- tidade e, também, como possibilidade de se ter maior autonomia no sentido socioeconômico (no caso do trabalho remunerado), é fácil entender por que tantos idosos relutam em se aposentar. É importante que o indivíduo que está prestes a se aposentar crie condições de fortalecer antigos vínculos ou de es- tabelecer novos vínculos sociais, mes- mo que a partir de atividades que não lhe tragam, necessariamente, vínculos empregatícios. Estimular as pessoas mais velhas a terem diversas formas de participação efetiva na sociedade, seja trabalhando, seja investindo na área social, dedicando-se a trabalhos volun- tários ou a atividades prazerosas (sendo elas religiosas, culturais ou voltadas para a própria família) é uma possibilidade de enfrentarmos essa questão. Com maior experiência de vida, os idosos têm muito a acrescentar à sociedade como um todo e ao mercado de trabalho, no qual as trocas de experiência são enriquecedoras tanto para as empresas quanto para os trabalhadores. Assim, o desenvolvimento de políticas públicas voltadas para essa faixa etária é necessário para possibilitar que os idosos sejam encarados como cidadãos ativos, com direitos protegidos por lei. Talvez, com isso, essa fase da vida possa ser vivenciada de forma digna, humana e gratificante. Os jovens A partir do século XX, sobretudo no mundo ocidental, a juventude foi sen- do constituída como uma fase da vida bastante particular. Em um primeiro momento, o reconhecimento de sua existência se limitou ao entendimento dessa fase da vida como uma transição entre a infância e a maturidade; e, de- pendendo do contexto sociocultural, também como um período preparatório, de educação e aquisição de habilidades profissionais, anterior à entrada do indivíduo no mercado de trabalho ou à constituição de uma família. A partir do fim da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), mas, sobretudo, durante a década de 1960, os jovens começaram a assumir cada vez mais o protagonismo nas sociedades ocidentais, identificando-se como um grupo social específico. Além de questionarem valores vigentes do “mundo adulto”, passaram a adotar atitudes que os diferenciavam de seus pais e avós, des- de posição política a corte de cabelo, visando exteriorizar suas ideias e seus projetos de vida para o mundo. Fonte: elaborado com base em PINTO, Ana Estela de Sousa. Para mais de 90%, existe preconceito contra os idosos no Brasil. Folha de S.Paulo. 26 nov. 2017. Disponível em: www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2017/11/1938235-para-mais-de-90-existe-preconceito- contra-os-idosos-no-brasil.shtml. Acesso em: 30 jul. 2020. Quem são os idosos no nosso tempo 56% são mulheres 44% são homens Mulheres são a maioria Mas renda média do homem idoso é maior (em R$) 26% dos idosos é ativo economicamente Individual1.846,29 2.703,09 Familia 4.271,222.804,83 19% 34% F ó rm u la P ro d u ç õ e s /A rq u iv o d a e d it o ra 76 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap2_062a093.indd 76V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap2_062a093.indd 76 24/09/2020 10:5524/09/2020 10:55 Entretanto, como bem explicitou o sociólogo Karl Mannheim (1893-1947), as gerações devem ser analisadas como problema sociológico, encaradas como um fenômeno sócio-histórico. Logo, sob essa ótica, todo comporta- mento juvenil deve ser analisado de modo a evitar naturalizações que asso- ciam o comportamento contestatório a uma fase da vida. Na história recente, por exemplo, é possível encontrar jovens alinhados a ideais mais conservadores, como é o caso dos yuppies. Essa expressão, que data dos anos de 1980, designa o jovem profissional urbano, que incorpora os valores competitivos da sociedade e busca se destacar profissionalmente para alcançar o sucesso financeiro. Hoje em dia, tais valores podem ser vin- culados ao empreendedorismo, que consiste no processo associado à cria- ção de algo inovador que pode resultar na criação de novos produtos e em novas oportunidades de negócios. Leia a seguir um trecho que problematiza as políticas públicas direciona- das aos jovens brasileiros: No que diz respeito às políticas públicas, percebe-se como os jovens há muito têm constado como seu alvo privilegiado. Isso se deve em grande medida à ideia de pensá-los, principalmente se pobres, como um problema. O equívoco maior de muitas políticas públicas de trabalho e formação pro- fissional para a juventude é justamente pautar-se por, ou tomar como pres- suposto, um caminho apenas utilitário de garantir ou oferecer subsídios para a inserção no mercado de trabalho, seja ela qual e como for. Quando se preparam os jovens apenas segundo essa concepção, sem considerar a importância de uma ampliação de repertório que lhes possibilite a constru- ção de um projeto por si e para si, a formação é reduzida a uma dimensão meramente instrumental, que pode inclusive gerar culpas individuais e so- frimentos por eventuais fracassos, não garantindo a necessária autonomia. PEREIRA, Alexandre Barbosa. Jovens, qual será o futuro? Le Monde Diplomatique Brasil (ed. 99), 1o out. 2015. Disponível em: https://diplomatique.org.br/jovens-qual-sera-o-futuro/. Acesso em: 31 mar. 2020. Jovens participam do festival de Woodstock em 1969, nos Estados Unidos. NÃO ESCREVA NO LIVRO MANNHEIM, Karl. O problema sociológico das gerações. In: FORACCHI, Marialice M. (org.) Karl Mannheim: Sociologia. São Paulo: Ática, 1982. p. 67-95. R ic h a rd F ri e m a n -P h e lp s /G a m m a -R a p h o /G e tt y I m a g e s Leia o texto ao lado e debata com os colegas os seguintes aspectos: 1. Qual éa crítica central presente no texto? 2. Vocês concordam com a tese do autor do texto? Justifiquem a posição de vocês, preferencialmente, com exemplos concretos. 3. Que políticas públicas voltadas aos jovens são de conhecimento de vocês? O que é preciso fazer para se beneficiar delas? Elas atendem bem às necessidades dos jovens? Por quê? Veja as respostas no Manual do Professor. Conversa 77 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap2_062a093.indd 77V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap2_062a093.indd 77 24/09/2020 10:5524/09/2020 10:55 DIÁLOGOS NÃO ESCREVA NO LIVRO 1. Leia os trechos abaixo e realize as atividades. Mesmo enfrentando um enorme preconcei- to, alguns trabalhadores negros conseguiram se incluir no competitivo mercado de trabalho das principais cidades brasileiras, em fábricas ou em empregos informais. Alguns deles conseguiram se destacar, o que possibilitou a formação de al- gumas poucas famílias de classe média. Para dis- cutir a discriminação e pensar alternativas para melhorar as condições de vida dos afro-brasilei- ros, trabalhadores e intelectuais negros criaram associações, grêmios, clubes e jornais. Em 1931, a Frente Negra Brasileira foi criada com o objetivo de integrar a população negra em pé de igualda- de com o restante da sociedade. Rapidamente, a ela se associaram cerca de cem mil integrantes pelo País. Foi assim até 1938, quando a Frente Negra e todas as publicações da imprensa negra foram fechadas durante a ditadura Vargas. HOMERO, Vilma. O avesso da história: da África ao Brasil afrodescendente. Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj). Disponível em: www.faperj.br/?id=3557.2.0. Acesso em: 4 ago. 2020. Ainda hoje sabemos muito pouco sobre os cri- mes cometidos pela ditadura contra as popula- ções indígenas. O mais importante documento de denúncia sobre esses crimes – o “Relatório Figuei- redo” [...] fez um trabalho de apuração impres- sionante: incluiu relatos de dezenas de testemu- nhas, apresentou documentos e identificou cada uma das violações que encontrou – assassinatos de índios, prostituição de índias, sevícias, traba- lho escravo, apropriação e desvio de recursos do patrimônio indígena. Ele também apurou as de- núncias sobre a existência de caçadas humanas de indígenas feitas com metralhadoras e dinami- te atiradas de aviões, as inoculações propositais de varíola em populações indígenas isoladas e as doações de açúcar misturado a estricnina. STARLING, Heloisa. Ditadura militar e populações indígenas. Brasil. Doc. Projeto República – Universidade Federal de Minas Gerais. Disponível em: www.ufmg.br/brasildoc/ temas/5-ditadura-militar-e-populacoes-indigenas/. Acesso em: 4 ago. 2020. a) Descreva as violações de direitos de popu- lações afrodescendentes e indígenas nos textos apresentados. b) Organizem um grupo de no máximo seis pessoas e façam uma pesquisa em institui- ções que trabalham com causas indígenas ou afrodescendentes. Escolham um projeto ou causa com que o grupo se identifique e façam contato com a instituição para que ela responda a um questionário. c) Preparem um questionário com no máximo quatro perguntas. A ideia é que vocês conhe- çam um pouco mais o trabalho das pessoas que lutam em favor das minorias étnicas. Pensem no que gostariam de saber sobre motivações, angústias, dificuldades e recom- pensas do trabalho que elas desenvolvem. d) Com base nas informações levantadas no questionário, o grupo deve pensar em inter- venções a serem feitas na própria escola. Elas podem ser: colagens, desenhos, pintu- ras, poemas, letras de música, maquetes, bonecos ou qualquer outro tipo de interven- ção artística que possa ser exposto. 2. Leia os textos a seguir, observe as imagens e realize as atividades. Texto I Entrevista dada pela professora Ynaê A efervescência dos anos 1960 trouxe à tona os diferentes movimentos libertários, entre eles o Black Power americano, o reggae jamaicano e as lutas anticolonialistas na África. Os reflexos no Brasil se fizeram sentir nas décadas seguin- tes, com o surgimento de várias organizações de Movimento Negro pelo País, ao longo dos anos 1970 e 1980. “Embora seja inegável que inúmeras conquistas tenham sido alcançadas, como a configuração do racismo como crime inafiançável ou a lei de cotas para o ingresso de Veja as respostas das atividades desta seção no Manual do Professor. 78 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap2_062a093.indd 78V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap2_062a093.indd 78 24/09/2020 10:5524/09/2020 10:55 negros na universidade – também alvo de enor- me polêmica –, essa luta ainda está longe de acabar”, conclui. HOMERO, Vilma. O avesso da história: da África ao Brasil afrodescendente. Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj). Disponível em: www.faperj.br/?id=3557.2.0. Acesso em: 4 ago. 2020. Texto II Fala do Cacique Raoni Você tem que, desde a juventude, entender que a política é construída na ocupação de es- paços. Temos que ter indígenas na esquerda, na direita, no centro. Temos que ocupar e levar as nossas pautas. A juventude, que hoje vai para a universidade e tem uma formação melhor do que a geração de 40 anos atrás, tem que ocupar e aceitar essa responsabilidade [...] Antes, a es- cola veio para ensinar os indígenas a ler e a es- crever, a se “civilizar”, era a tal da civilização. Eu abordo a importância da formação dos profes- sores indígenas. Agora é a hora em que nós, po- vos indígenas, podemos escrever nossa história, podemos colocar em pauta dentro da universi- dade os nossos saberes, os nossos conhecimen- tos para serem, não só divulgados, mas também ser respeitado o nosso conhecimento. ALMEIDA, Tamíris. Povos indígenas: Nós vamos ocupar espaços e vamos continuar lutando porque nós resistimos há 520 anos e não é agora que vamos desistir. Futura. [s.l.] Disponível em: https://www.futura.org.br/direitos-povos- indigenas-2020/. Acesso em: 4 ago. 2020. Mulher negra com criança branca presa às costas. Fotógrafo não identificado, Bahia, cerca de 1870. Representação de Padre Antonio Vieira, em obra anônima do século XVIII. Faça uma relação entre as imagens e os tex- tos considerando que as imagens são repre- sentações de situações vividas por indígenas e africanos no século XVI e os textos são de 2018 e de 2020. a) O que eles estão representando enquanto estrutura social e visão de mundo? Aponte de que forma cada grupo (afrodescendentes e indígenas) relaciona organização coletiva, estudo (formal ou não formal) e visibilidade política em busca de respeito e condições de igualdade na sociedade atual. b) A partir da relação entre as imagens histó- ricas e as falas reproduzidas nos textos, fa- çam uma discussão sobre o termo “vitimiza- ção” utilizado por aqueles que acham que as lutas e pautas dos grupos minoritários são “exageradas” ou que não condizem com a realidade dos dias atuais. R e p ro d u ç ã o /A rq u iv o U lt ra m a ri n o , L is b o a , P o rt u g a l. A u to r d e s c o n h e c id o /I n s ti tu to M o re ir a S a lle s , R io d e J a n e ir o , R J. 79 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap2_062a093.indd 79V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap2_062a093.indd 79 24/09/2020 10:5524/09/2020 10:55 Inadequação juvenil? São variadas as interpretações sobre os jovens e as juventudes. Atual- mente há uma classificação do comportamento juvenil, mais especificamen- te dos anos iniciais da juventude, o que se convencionou chamar de adoles- cência, que é ambivalente. Há todo um conjunto de associações negativas e positivas a esse momento da vida, que, assim como a juventude, é histórico e definido pela dimensão biológica, psicológica e cultural. A percepção negativa da adolescência se expressa, sobretudo, nas pre- ocupações dos adultos quanto aos riscos a que os mais jovens estão sub- metidos e a que se submetem. E também nos sentimentos vividospelos próprios adolescentes, quase todos envoltos na dificuldade de se autorre- conhecerem dotados de um novo corpo e com ca- pacidades cognitivas mais complexas e ainda na percepção da interdição que recebem do mundo adulto para usufruir daquilo a que sentem já esta- rem preparados para tal. As necessidades e interesses dos jovens en- tram em choque com os valores sistematizados na sociedade da qual fazem parte. Potencialmente ap- tos a atuar no mundo, encontram regras, normas e interdições impostas pelas gerações anteriores, que não os autorizam a viver a vida como poderiam ou gostariam. Sentem um desconforto com algumas regras e proibições por não entenderem o sentido delas e não encontrarem muitos marcos concretos de quando, enfim, con- quistarão o reconhecimento e respeito dos adultos quanto à sua individuali- dade e autonomia. Ou ainda por discordarem de alguns deles: ter 18 anos, ga- nhar dinheiro, ser famoso, morar sozinho, constituir família, fazer faculdade. A adolescência é identificada com a imaturidade, a impetuosidade, a ne- cessidade de pertencimento e, consequentemente, mais sujeita à influência do grupo, o que potencialmente aumenta o comportamento de risco de quem está vivendo essa condição. Isso se traduziria em experimentações das mais variadas, como a iniciação sexual sem os devidos cuidados para preservação física e emocional, ficando mais sujeitos a doenças sexualmente transmissí- veis, gravidez indesejada, abortos clandestinos e risco de vida; uso precoce e abusivo de cigarro, álcool, drogas lícitas e ilícitas; flerte com pequenos e grandes delitos que podem levar à delinquência crônica. O filme Kids, lançado em 1995, chocou muitos telespectadores por representar nas telas dos cinemas um grupo de adolescentes de Nova York de ambos os sexos, alienados e apáticos, distante dos olhares dos pais, numa época pré-popularização da internet e ainda distante dos smartphones, que passava a maior parte do tempo consumindo álcool e drogas, cometendo pequenos delitos, praticando sexo de forma não segura e assumindo comportamentos suicidas, caracterizando uma “geração perdida”. E ve re tt C o lle c ti o n /F o to a re n a /S h in in g E xc a ilb u r P ic tu re s © J o ã o M o n ta n a ro /A c e rv o d o c a rt u n is ta 80 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap2_062a093.indd 80V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap2_062a093.indd 80 24/09/2020 10:5524/09/2020 10:55 Um aspecto demográfico da população bra- sileira que se torna cada vez mais preocupante é o aumento das mortes de adolescentes e adul- tos jovens do sexo masculino por causas violen- tas, como assassinatos e acidentes automobi- lísticos, decorrentes de excesso de velocidade, de imprudência ou uso de álcool ou drogas. Isso provoca impactos na distribuição etária da po- pulação e na proporção entre os sexos, além de trazer implicações socioeconômicas, com a di- minuição da qualidade de vida da população em geral (em decorrência da insegurança generali- zada) e o aumento de gastos com prevenção e coibição da violência, vigilância à venda de drogas, entre outros. Além, é claro, das perdas para as famílias e amigos e seus desdobramentos emocionais. Entretanto, sabe-se que esses comportamentos não acometem todos os jovens e tampouco são despertados por mudanças hormonais e não são características genéticas, impressas no DNA. Eles têm explicações multifa- toriais. Uma delas é o limbo no qual a sociedade colocou as pessoas dessa faixa etária ao consolidar a adolescência e ampliar o período de transição entre a infância e o mundo adulto, instituindo uma moratória maior para a conquista da autonomia. Não saber ao certo o que fazer e como se comportar, a quem recorrer, onde e como buscar apoio e ajuda gera muita insegurança. E se abandonados à própria sorte, buscam apenas acolhida em seus pares, pelos quais são mais facilmente reconhecidos como iguais. Muitos pesquisadores do comportamento humano, como sociólogos, antropólogos, psicólogos e psicanalistas, apontam que a ausência de mar- cos simbólicos e ritos de passagem mais claros e definitivos na sociedade Apesar de alguns números sobre comportamento de risco juvenil serem elevados, como indicam pesquisas realizadas pelo IBGE, os percentuais são bem menores do que aqueles que povoam o imaginário popular, até mesmo dos próprios adolescentes, muitos com a percepção de que “todo mundo” está fazendo ou já fez algo, exceto ele. Alunos do 9O ano de escolas públicas e privadas — 2015 10% 20% 30% 40% 50% 60%0% já experimentaram ao menos uma vez na vida bebida alcóolica já experimentaram ao menos uma vez na vida cigarro (tabaco) já experimentaram ao menos uma vez na vida algum tipo de droga ilícita já haviam iniciado vida sexual, sendo que 39% deles não haviam utilizado preservativo na primeira relação sexual Fonte: elaborado com base em IBGE-MEC. Pesquisa Nacional de Saúde Escolar: 2015. Disponível em: https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv97870.pdf. Acesso em: 14 jul. 2020. Crianças de comunidade quilombola jogam capoeira durante Festa de Cultura Afro em homenagem ao Dia da Consciência Negra em Araruama, RJ, em 2015. C e s a r D in iz /P u ls a r Im a g e n s s o la rs e ve n /S h u tt e rs to ck G rá fi c o : F ó rm u la P ro d u ç õ e s /A rq u iv o d a e d it o ra 81 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap2_062a093.indd 81V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap2_062a093.indd 81 24/09/2020 10:5524/09/2020 10:55 moderna ocidental é a causa do desconforto e da inadequação sentida pelos adolescentes e que se desdobra nos variados comportamentos com os quais convivemos hoje. O trecho a seguir foi retirado de um artigo da antropóloga Lucia Helena Rangel. Nele, ela discute os rituais de passagem entre a infância e o mun- do adulto em diferentes sociedades, destacando e comparando o comporta- mento da sociedade ocidental com o dos povos indígenas brasileiros. [...] Cada sociedade elege o modo e o momento de transformar uma criança em um ser adulto. Em nossa sociedade construímos um padrão de sociabilidade que passou a incluir, em tempos recentes, uma fase in- termediária chamada adolescência. Essa etapa da vida não corresponde, necessariamente, a uma fase biológica definida; criamos, na verdade, uma fase psicológica cuja finalidade é adiar a transformação da criança em adulto. Os avós das pessoas adultas de hoje casavam-se com idade entre 13 e 18 anos; muito comum era o casamento entre uma moça de 15 e um rapaz de 18 anos. A adolescência tem sido cada vez mais ampliada para certas camadas sociais, em nossa sociedade. O retardamento do início das funções produ- tivas é um dos fatores mais importantes que explicam o fenômeno; quer seja pela falta de empregos, quer pelas exigências de formação profis- sional cada vez mais especializada, as camadas mais altas da hierarquia social dependem da instituição escolar para alongar a adolescência de seus filhos, deixando-os no limbo da indefinição juvenil, às vezes por mais de dez anos. Por outro lado, nas camadas sociais mais baixas o fenômeno inverte-se, exigindo de crianças de 7, 10 ou 12 anos que abandonem a escola para trabalhar, porque precisam contribuir para o orçamento fa- miliar, mesmo que seja em troca de salários irrisórios. [...] Nas sociedades indígenas, a adolescência não é uma fase nem social nem psicológica, porque não é necessária. O corpo dos jovens está apto para a procriação e em seu processo educativo já treinou a aquisição das habilidades práticas pertinentes ao seu gênero sexual; portanto, cabe à sociedade promover sua transformação em adulto. Neste sentido, para completar sua socialização, essa passagem é realizada através de um ri- tual de iniciação que é um dos mais importantes no ciclo cerimonial. As marcas corporais femininas, a primeira menstruação especialmente, são o indicativo do momento que o ritualdeve acontecer. Os rapazes, cujas marcas corporais são menos nítidas, mas que regulam em idade com as meninas que nasceram em período próximo a eles, são identificados por sua estatura, produção de esperma e, muitas vezes, entram em processo ritual muito cedo a partir de nove ou 10 anos. Os rituais de iniciação dos jovens podem durar de um a cinco anos, dependendo de como cada socie- dade elabora o processo. [...] RANGEL, Lucia Helena. Da infância ao amadurecimento: uma reflexão sobre rituais de iniciação. Interface, Botucatu, SP, v. 3, n. 5, ago. 1999. Disponível em: www.scielo.br/ scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-32831999000200019. Acesso em: 28 mar. 2020. 1. Segundo a autora, o que tem levado à ampliação do período da adolescência para as sociedades ocidentais? E esse fenômeno se aplica amplamente na sociedade? 2. Por que a adolescência não é uma fase necessária entre as sociedades indígenas, ainda segundo a autora? 3. Você avalia que se tornará adulto quando? Que conquistas precisa realizar para ter esse novo status? E você quer ser reconhecido como adulto? Veja as respostas no Manual do Professor. Interpretar NÃO ESCREVA NO LIVRO Os incompreendidos. Direção de François Truffaut. França, 1959. Narra a história de um garoto francês cercado por adultos que não se ocupam efetivamente de sua educação. Na busca de identificação com seus colegas ele passa a cometer pequenos delitos, até ser pego. Saber R e p ro d u ç ã o /F ilm e s d o E s ta ç ã o 82 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap2_062a093.indd 82V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap2_062a093.indd 82 24/09/2020 10:5524/09/2020 10:55 CONEXÕES CIÊNCIAS DA NATUREZA E SUAS TECNOLOGIAS NÃO ESCREVA NO LIVRO Geração e tempo geracional Veja as respostas das atividades desta seção no Manual do Professor. Para as Ciências da natureza, “geração”, entre outros significados, se refere à reprodução ou à transição entre pais e filhos. Mas “geração” pode se referir ainda ao conjunto de pessoas contem- porâneas – uma definição muito utilizada em con- textos sociais. O período médio entre duas gerações consecu- tivas é chamado “tempo de geração” e ele é variá- vel entre diferentes espécies. Entre os humanos, por exemplo, o tempo de geração é longo, de, em média, 30 anos. Já entre vírus e bactérias, assim como outros organismos patogênicos, o tempo de geração é muito mais curto, sendo, às vezes, de poucos minutos. E são esses organismos com tempo de geração muito curto que são utilizados para os estudos de Genética, uma vez que as infor- mações genéticas são transmitidas de geração em geração e podem ser observadas mais facilmente. Foi observando um organismo com o tempo geracional curto (ervilhas) que Gregor Mendel rea lizou seus experimentos e estabeleceu as ba- ses para o estudo da hereditariedade Outro organismo comumente utilizado em estu- dos genéticos são as moscas-da-fruta (Drosophila melanogaster). Isso porque elas possuem um tempo de geração de cerca de 10 dias. Mas não é somente nas Ciências da Natureza que o conceito de geração tem seus impactos. Nas Ciências Humanas e Sociais Aplicadas ele também tem sua importância. Veja o texto a seguir. No pensamento social contemporâneo, a noção de geração foi desenvolvida em três mo- mentos históricos, que correspondem a três quadros sociopolíticos particulares: durante os anos 1920, no período entreguerras, as bases filosóficas são formuladas em torno da noção de "revezamento geracional" (sucessão e coexis- tência de gerações), existindo um consenso ge- ral sobre este aspecto [..]. Durante os anos 1960, na época do protesto, uma teoria em torno da noção de "problema geracional" (e conflito gera- cional) é fundamentada sobre a teoria do con- flito [...]. A partir de meados dos anos 1990, com a emergência do sociedade em rede, surge uma nova teoria em torno da noção de "sobreposição geracional". Isto corresponde à situação em que os jovens são mais habilidosos do que as gera- ções anteriores em um centro de inovação para a sociedade: a tecnologia digital [...]. FEIXA, Carles; LECCARDI, Carmem. O conceito de geração nas teorias sobre juventude. Soc. estado, Brasília, v. 25, n. 2, p. 185-204, Aug. 2010. Disponível em http://www.scielo.br/scielo. php?script=sci_arttext&pid=S010269922010000200003&lng=en &nrm=iso. Acesso em: 7 set. 2020. Considere um adulto com idade aproximada de 25 anos que viva na sua comunidade, e responda: • Você considera que você e esse adulto façam parte da mesma geração? • De acordo com o pensamento social contemporâneo, qual sua relação com esse indivíduo? Você acredita que haja um “revezamento geracio- nal”, um “problema geracional” ou uma “sobreposição geracional”? R aw p ix e l. c o m /S h u tt e rs to ck 83 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap2_062a093.indd 83V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap2_062a093.indd 83 24/09/2020 10:5524/09/2020 10:55 DIÁLOGOS NÃO ESCREVA NO LIVRO 1. Leia o texto a seguir e depois responda às questões. O sociólogo brasileiro Ricardo Antunes afirma que “uma vida cheia de sentido fora do trabalho supõe uma vida dotada de sentido dentro do trabalho” e ainda que “uma vida desprovida de sentido no trabalho é in- compatível com uma vida cheia de sentido fora do trabalho. [...] Uma vida cheia de sentido somente poderá efetivar-se por meio da demolição das barreiras existentes entre tempo de trabalho e tempo de não trabalho, de modo que, a partir de uma atividade vital cheia de sentido, autodeter- minada, para além da divisão hierárquica que subordina o trabalho ao capital hoje vigente e, portanto, sob as bases inteiramente novas, possa se desenvolver uma nova sociabilidade [...] na qual liberdade e necessidade se realizam mutuamente.” ANTUNES, Ricardo. Socialismo, lutas sociais e novo modo de vida na América Latina. Revista Direito e Práxis, Rio de Janeiro, v. 8, n. 3, jul./set. 2017. Disponível em: https:// www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2179-89662017000302212. Acesso em: 13 ago. 2020. • Dividam-se em grupos de quatro estudantes para debater as seguintes questões: a) Na opinião de vocês, por que o autor afirma que para que a vida tenha senti- do fora do trabalho ela deve ter sentido dentro do trabalho? b) Na vida cotidiana, que trabalhos vocês exercem? Vocês gostam de exercer es- sas funções ou as consideram exausti- vas e/ou entediantes? c) Nas suas famílias, quais trabalhos são exercidos pelos seus familiares? Vocês consideram que todos os mem- bros da sua família trabalham o mes- mo tempo ou alguns trabalham mais do que outros? Por que isso acontece? d) Vocês consideram vital para a sua saúde mental uma conciliação entre o tempo de trabalho e o tempo de não trabalho? O que vocês gostam de fazer quando não estão trabalhando? e) O que o autor quer dizer com “divisão hierárquica que subordina o tra- balho ao capital hoje vigente”? Na opinião do grupo, existem trabalhos mais valorizados do que outros? Se sim, o que faz com que isso ocorra? • Reflitam sobre as respostas do grupo e busquem encontrar pontos em comum entre vocês. Em quais aspectos os hábitos da sua família e Veja as respostas das atividades desta seção no Manual do Professor. Por questões culturais, muitas vezes, algumas profissões são consideradas mais “importantes” do que outras. M a s c h a T a c e /S h u tt e rs to c k 84 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap2_062a093.indd 84V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap2_062a093.indd 84 24/09/2020 10:5524/09/2020 10:55 suas ambições pessoais se aproximam e em quais se distanciam da família de seus colegas? Listem, no caderno, as semelhanças e as di- vergências. a) Utilizando como base o que há em comum entre você e os colegas de grupo, reflitam sobre o que é padrão na maioria das famílias. b) Ao final da atividade, cada grupo deve, oralmente, socializar com a turma as conclusões às quaischegaram. 2. Leia o texto a seguir e responda às questões. Seguramente você se reconhece como uma pessoa jovem. Estando cur- sando o Ensino Médio, não importa o ano nem se você foi retido em anos an- teriores, você deve mesmo se reconhe- cer como um jovem. Talvez alguns estu- dantes do Ensino Médio na modalidade EJA (Educação para Jovens e Adultos) não tenham essa mesma segurança para se autodeterminar jovem. Não nos referimos àqueles com 50 ou 60 anos de idade. Mas àqueles com menos de 40 anos. Ou ainda, quem sabe, àqueles com 33 anos, ou 29 anos. E será que mesmo quem tem mais de 40 ou 50 anos não pode se sentir jovem e assim ser visto pela sociedade? Ser jovem tem relação com o sentimento singular de cada um, com suas atitudes e também com o modo como os outros nos enxer- gam? Quando então alguém deixa de ser jovem? E quando começa a ser? Você se lembra do dia em que deixou de ser criança e se tornou um jovem? E o adolescente: é uma criança ou um jovem? Reflita sobre as perguntas propostas a seguir, anote, no caderno, suas res- postas ou algumas palavras-chave que encontrou para respondê-las para, então, dialogar com os colegas de sala, com a mediação do professor. a) Em sua opinião, à qual faixa etária pertence o jovem? b) Em que momento da vida você avalia que se tornou jovem? c) Quais gostos e hábitos que mantinha quando criança você abandonou? E quais novos valores e comportamentos você passou a adotar? d) E os outros, sobretudo os adultos, como eles olhavam para você quan- do era criança e como o enxergam agora? e) Quais são seus projetos depois que finalizar o Ensino Médio? As possi- bilidades de vida futura do jovem são as mesmas para todos? É comum que as pessoas alterem hábitos e comportamentos de acordo com uma nova etapa da vida. R o b e rt A d ri a n H ill m a n /S h u tt e rs to c k 85 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap2_062a093.indd 85V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap2_062a093.indd 85 24/09/2020 10:5524/09/2020 10:55 2. (2017) Muitos países se caracterizam por te- rem populações multiétnicas. Com frequên- cia, evoluíram desse modo ao longo de sé- culos. Outras sociedades se tornaram mul- tiétnicas mais rapidamente, como resultado de políticas incentivando a migração, ou por conta de legados coloniais e imperiais. GIDDENS. A. Sociologia. Porto Alegre: Penso, 2012 (adaptado). Do ponto de vista do funcionamento das demo- cracias contemporâneas, o modelo de socieda- de descrito demanda, simultaneamente, a) defesa do patriotismo e rejeição ao hibridismo. b) universalização de direitos e respeito à di- versidade. c) segregação do território e estímulo ao auto- governo. d) políticas de compensação e homogeneiza- ção do idioma. e) padronização da cultura e repressão aos particularismos. 3. (2017) A participação da mulher no processo de decisão política ainda é extremamente li- mitada em praticamente todos os países, inde- pendentemente do regime econômico e social e da estrutura institucional vigente em cada um deles. É fato público e notório, além de empiri- camente comprovado, que as mulheres estão em geral sub-representadas nos órgãos do po- der, pois a proporção não corresponde jamais ao peso relativo dessa parte da população. TABAK, F. Mulheres públicas: participação política e poder. Rio de Janeiro: Letra Capital, 2002. No âmbito do Poder Legislativo brasileiro, a tentativa de reverter esse quadro de sub-re- presentação tem envolvido a implementação, pelo Estado, de a) leis de combate à violência doméstica. b) cotas de gênero nas candidaturas partidárias. c) programas de mobilização política nas escolas. d) propagandas de incentivo ao voto consciente. e) apoio financeiro às lideranças femininas. X X 1. (2016) Texto I Texto II Metade da nova equipe da NASA é composta por mulheres Até hoje, cerca de 350 astronautas america- nos já estiveram no espaço, enquanto as mulhe- res não chegam a ser um terço desse número. Após o anúncio da turma composta 50% por mulheres, alguns internautas escreveram co- mentários machistas e desrespeitosos sobre a escolha nas redes sociais. Disponível em: https://catracalivre.com.br. Acesso em: 10 mar. 2016. A comparação entre o anúncio publicitário de 1968 e a repercussão da notícia de 2016 mos- tra a a) elitização da carreira científica. b) qualificação da atividade doméstica. c) ambição de indústrias patrocinadoras. d) manutenção de estereótipos de gênero. e) equiparação de papéis nas relações familiares. X R e p ro d u ç ã o /E N E M , 2 01 6 . Veja as respostas das atividades desta seção no Manual do Professor. 86 QUESTÕES DO ENEM NÃO ESCREVA NO LIVRO V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap2_062a093.indd 86V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap2_062a093.indd 86 24/09/2020 10:5524/09/2020 10:55 1. Na seção Contexto no início deste capítulo, você refletiu sobre as falas de alguns imigrantes acerca do que lhes chamou atenção quando chegaram ao Brasil. Agora, depois de estudar as especificidades de alguns segmentos sociais no país, como das mulheres, afrodescendentes, indígenas, idosos e jovens, alteraria as respostas que deu naquela ocasião? 2. O que é necessário fazer para reduzir a desigualdade social em nosso país e também os varia- dos preconceitos e racismos? 3. E você, tem vontade de morar em outro país? Já pensou em estudar “fora”? Isso poderia fazer parte do seu projeto de vida? Essa pode ser uma experiência enriquecedora. Apesar de não ser uma opção fácil para todos, em razão dos desafios econômicos, esse problema pode ser driblado com a obtenção de uma bolsa de estudo. Há algumas instituições nacionais e inter- nacionais que oferecem auxílio aos estudantes brasileiros para arcar com transporte, moradia, alimentação e estudo. E muitas faculdades e universidades dispõem de convênios com insti- tuições de ensino de outros países, o que pode ser um caminho para você, caso seja do seu interesse. Faça uma pesquisa sobre formas para obter bolsas para estudar no exterior, liste as exigências solicitadas e avalie se essa pode ser uma opção para você. Veja as respostas no Manual do Professor. Retome o contexto A seguir estão listados conceitos, temas e expressões que foram centrais na abordagem dos conteúdos neste capítulo. Elabore uma representação gráfica, do tipo esquema ou mapa conceitual, para sistematizar as suas principais aprendizagens. Se necessário, acrescente outros termos na sua representação. trabalho remuneradotrabalho não remunerado idosos cultural desigualdadeMinorias sociais renda discriminação cor/raça idadegênero/sexo juventudes jovem adolescência modelo ocidentaldireitos mulheres indígenasracismo estrutural exclusãooportunidades dupla ou tripla jornada de trabalho 87 VOCÊ PRECISA SABER NÃO ESCREVA NO LIVRO 87 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap2_062a093.indd 87V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap2_062a093.indd 87 24/09/2020 10:5524/09/2020 10:55 COMPETÊNCIAS E HABILIDADES DA BNCC • Competências gerais da Educação Básica: CG1, CG2, CG4, CG5, CG7 e CG10. • Competências e habilidades específicas de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas: Competência 1: EM13CHS106. Competência 6: EM13CHS602, EM13CHS605 e EM13CHS606. • Competências específicas de Linguagem e suas Tecnologias: Competência 1: EM13LGG105. Competência 2: EM13LGG204. Competência 3: EM13LGG303. TEMAS CONTEMPORÂNEOS TRANSVERSAIS Cidadania e Civismo • Vida Social e Familiar • Educação em Direitos Humanos Entrevista semiestruturada PRÁTICA Relembrar é preciso: como foi a ditadura militar-civil no Brasil? Para começar Nesta unidade, conhecemos o conceito de democracia, que, do gre- go demokratia, significa poder do povo. Vimos que os brasileiros, assim como muitos cidadãos de países latino-americanos, nem sempre vive- ram em um Estado Democrático de Direito. Em três momentos de sua história, o Brasil viveu sob ditadura, isto é, sob uma forma de governo autoritária na qual não há espaço para a expressãolivre da vontade popular: com o fim da Monarquia e a instau- ração da República, na chamada República da Espada, que se deu entre 1889 e 1894; entre 1937 e 1945, no período conhecido como Estado Novo; e durante a ditadura militar-civil, entre 1964 e 1985. Ocorrido no contexto da Guerra Fria, o golpe de 1964, que destituiu da Presidência João Goulart, foi o mais longo período de ditadura no Brasil, que contou com o apoio da elite e de parte da classe média brasi- leira, que, temendo a ocorrência de reformas sociais que significassem a perda de seus privilégios, aliaram-se aos militares sob a justificativa de livrar o Brasil da ameaça comunista. Entretanto, diferentemente do que certos políticos acreditavam, a instauração da ditadura não significou sua ascensão ao poder. Dessa forma, muitos daqueles que apoiavam o golpe voltaram-se contra o re- gime militar, passando, assim, a lutar contra ele. Entre os políticos mais Veja as orientações de como trabalhar esta seção no Manual do Professor. Apesar dos riscos de serem presas e torturadas, muitas pessoas, entre as quais jovens estudantes, não se calaram perante a ditadura, que vigorou por mais de vinte anos no Brasil. Na imagem, jovem picha a fachada do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, em junho de 1968.A c e rv o I c o n o g ra p h ia /R e m in is c ê n c ia s 88 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap2_062a093.indd 88V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap2_062a093.indd 88 24/09/2020 20:0224/09/2020 20:02 conhecidos, encontra-se Carlos Lacerda, da antiga União Democrática Nacional (UDN), que acabou se aliando aos seus antigos opositores, Jusceli- no Kubitschek e João Goulart, na organização da Frente Ampla, que buscava, entre outros objeti- vos, o restabelecimento de eleições livres. Com o recrudescimento do regime militar, o sonho de muitos daqueles que haviam lutado e morrido pela restauração de seus direitos políti- cos, isto é, de participar das eleições, fosse como candidatos, fosse como eleitores, apenas seria concretizado no final da década de 1980, com a Constituição de 1988, que estendeu o direito ao voto direto e secreto aos analfabetos – os quais, nas constituições anteriores, estavam excluídos da vida política –, e com o retorno das eleições di- retas para presidente, ocorridas no ano seguinte à promulgação da chamada Constituição Cidadã. Entrevistar para investigar Você já participou de alguma entrevista, como a de emprego? Se não, você provavelmente já deve ter assistido pela televisão ou acompanhado por rádio uma entrevista, certo? Assim, já percebeu que en- trevista – do francês entrevue – envolve pelo menos dois sujeitos e pode ter vários objetivos, que variam conforme a finalidade para a qual ela é realizada. Entre os objetivos de uma entrevista, podemos indicar a necessidade de conhecer uma pessoa e suas experiências ou de saber a opinião dela acer- ca de determinado assunto. Para isso, as entre- vistas baseiam-se em diálogos alimentados por uma sequência de perguntas e respostas, sendo o “entrevistador” quem faz as perguntas e o “en- trevistado” quem as responde. Durante as eleições, por exemplo, alguns ins- titutos promovem entrevistas com o eleitorado de diversas regiões do Brasil para conhecer a opinião deles sobre os representantes elegíveis e, assim, verificar quais candidatos têm maiores chances de vencer nas urnas. Além disso, nesse mesmo período, canais de televisão buscam en- trevistar os candidatos aos cargos de prefeito das grandes cidades brasileiras, de governadores e de presidente, a fim de apresentar aos espectadores seus projetos políticos. O movimento Diretas Já ocorreu entre 1983 e 1984 e envolveu diversos segmentos da sociedade. Seu objetivo era, por meio de grandes comícios, lutar pelo retorno do direito popular ao voto para presidente da República. Na foto, comício realizado na praça da Sé, em São Paulo (SP), em 1984. Em boa parte dos programas de televisão e de rádio, há entrevistas que ora são baseadas em questionários preestabelecidos, ora o entrevista- dor conduz a conversa de forma mais espontâ- nea. Há, ainda, aquelas entrevistas em que o en- trevistador, embora tenha um questionário como base, também elabora suas questões de acordo com a resposta do entrevistado. A esse tipo deno- minamos entrevista semiestruturada. Na disciplina de História, há um campo chama- do História Oral, em que os historiadores realizam entrevistas com pessoas que presenciaram cer- tos acontecimentos ou viveram em determinadas conjunturas, recolhendo, além das informações pessoais ou gerais sobre o período, também o ponto de vista e as emoções das pessoas entre- vistadas. No entanto, o uso das entrevistas na His- tória Oral não diminui o papel das fontes escritas para a investigação do passado. Na realidade, es- ses dois tipos de fonte são complementares, cada qual com sua importância e especificidade. O desenvolvimento da tecnologia teve um pa- pel importante para a História Oral, uma vez que as entrevistas podem ser tanto gravadas quanto filmadas, sendo que os arquivos produzidos são, normalmente, armazenados em arquivos vir tuais, ocupando, assim, pouco espaço físico. M a rc ia Z o e t/ F o lh a p re s s 89 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap2_062a093.indd 89V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap2_062a093.indd 89 24/09/2020 10:5524/09/2020 10:55 Atualmente, diversas universidades públicas possuem laboratórios ou centros de estudos nos quais equipes de pesquisadores desenvolvem pesquisas no âmbito da História Oral. Na Universi- dade de São Paulo (USP), o Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação (LEER- -USP) dedica-se, entre outras atividades, a colher depoimentos de sobreviventes e de filhos de so- breviventes do Holocausto que vivem no Brasil. No caso desse laboratório, após o depoimento dessas pessoas, que geralmente são gravados e/ ou filmados, é feito um trabalho de transcrição lite- ral das entrevistas, isto é, a passagem para texto escrito da entrevista gravada em áudio. A transcri- ção da entrevista nada mais é do que a produção de um texto biográfico com base no conteúdo apre- sentado no depoimento. Por fim, no caso dos depoi- mentos de sobreviventes e filhos de sobreviventes do Holocausto, houve a publicação de volumes com as histórias coletadas denomi- nados Vozes do Holocausto. Volumes de Vozes do Holocausto, publicados em 2018, obras com os depoimentos de sobreviventes e de filhos de sobreviventes do Holocausto. Para fazer Agora é a vez de vocês realizarem uma entrevis- ta semiestruturada, isto é, que conta com um ques- tionário preestabelecido, mas que permanece livre para fazer perguntas com base nas respostas dos entrevistados e no desenrolar da entrevista. O objetivo desta proposta é que vocês exerci- tem tanto a capacidade de ouvir e aprender com a experiência de outras pessoas quanto de argu- mentar e formular questões com base em deter- minado assunto. A entrevista terá como objetivo colher o depoi- mento de pessoas que assistiram ao processo de redemocratização no Brasil, em meados da década de 1980. Portanto, é necessário escolher pessoas acima de 50 anos de idade e que tenham lembranças sobre a ditadura e sobre o processo democrático dos anos 1980. Para isso, sigam as orientações. 1. Dividam-se em grupos de até cinco integrantes. 2. Tenham domínio tanto sobre o tema da dita- dura no Brasil quanto em relação aos aconte- cimentos que culminaram em seu fim e que marcaram o processo de redemocratização. Dessa forma, façam a leitura do conteúdo do livro e, se necessário, complementem a leitura com pesquisas em sites confiáveis e livros da biblioteca da escola. 3. Cada grupo deverá produzir três entre- vistas e realizar, como atividade final, um podcast, que será arma zenado em um site de hospedagem de arquivo de áudio e ficará disponível publicamente. Etapa 1 – Levantamento de informações sobre o tema 1. Releiam os capítulos do livroreferentes à dita- dura e ao fim da ditadura militar-civil no Brasil. 2. Pesquisem em livros, artigos de revista e sites acadêmicos e/ou institucionais mais informa- ções sobre o fim da ditadura no Brasil se jul- garem necessário. É importante compreender bem o movimento Diretas Já, isto é, quando ocorreu esse movimento, como foi organizado, quem foram os participantes, etc. 3. Façam fichamentos dos textos lidos, procu- rando destacar os principais acontecimentos que marcaram o período da ditadura no Bra- sil e o movimento Diretas Já. Em seguida, fa- çam cópias (manuscritas ou xerocadas) dos fichamentos produzidos, de modo que cada Computador com acesso à internet; programa de processamento de texto; papel e impressora; gravador; programa de edição de áudio. Materiais necessários R e p ro d u ç ã o /E d it o ra M a ay a n o t NÃO ESCREVA NO LIVRO 90 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap2_062a093.indd 90V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap2_062a093.indd 90 24/09/2020 10:5524/09/2020 10:55 integrante tenha em mãos o fichamento de cada texto selecionado pelo grupo. 4. Marquem reunião com todos os integrantes do grupo para um bate-papo sobre a ditadu- ra no Brasil. Todos deverão ter compreendido bem o que foi esse regime político e como ele foi derrubado pela sociedade brasileira. Etapa 2 – Escolha dos entrevistados e elaboração do questionário 1. Escolham três pessoas conhecidas do grupo (como parentes e familiares) que tenham entre 50 e 70 anos para serem entrevistadas. As pes- soas escolhidas não necessariamente devem ter participado diretamente do movimento Dire- tas Já, mas é importante que tenham lembran- ça sobre o período que marcou o fim da ditadura e sobre o processo de redemocratização brasi- leiro. Se possível, escolham pessoas com perfis distintos em relação a idade, sexo, profissão, escolaridade, entre outros. 2. Marquem com os entrevistados o dia, o horário e o local para a realização das entrevistas. Não é necessário que todos os membros do grupo estejam presentes, mas sim que haja pelo me- nos um entrevistador e um integrante do grupo para fazer a gravação e auxiliar na entrevista. 3. Elaborem um questionário a ser aplicado a cada um dos entrevistados. Façam perguntas pessoais e sobre os anos que marcaram o fim da ditadura no Brasil e o movimento Diretas Já. O questionário servirá para dar início à conver- sa e nortear o tema da entrevista. Entretanto, a entrevista não deve ser resumida à aplicação do questionário. Dessa forma, fiquem aten- tos às respostas dos entrevistados para, com base nelas, realizar perguntas que considera- rem relevantes. 4. Elaborem questões tendo em vista o tempo da entrevista, que deverá ser de três minutos para cada entrevistado. Veja, a seguir, um mo- delo de questionário. Entrevistado 1. Nome completo: 2. Idade: 3. Sexo: 4. Escolaridade: 5. Estado civil: Informações sobre a ditadura 1. Quantos anos você tinha quando foi instaurada a ditadura no Brasil, em 1964? 2. Na sua opinião, o que foi a ditadura no Brasil? 3. Do que você se lembra sobre esse período? 4. Qual é a sua opinião sobre esse período? 5. Você assistiu a algum movimento de contestação da ditadura? Onde você assistiu? Qual era o movimento? Onde ele ocorreu? Quem eram os participantes? 6. Você participou do movimento Diretas Já? Se sim, como foi? 7. Se não participou do movimento Diretas Já, acompanhou esse movimento por jornais impressos, rádios ou televisão? Entrevista sobre o fim da ditadura militar-civil no Brasil 91 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap2_062a093.indd 91V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap2_062a093.indd 91 24/09/2020 10:5524/09/2020 10:55 Informações sobre a ditadura civil-militar (continuação) 8. Qual era sua opinião sobre o movimento Diretas Já na época em que ele ocorreu? 9. Qual é a sua opinião hoje sobre o movimento Diretas Já? 10. Acha que ele foi importante para o fim da ditadura? Se sim, por quê? 11. Qual foi o principal fator que, na sua opinião, trouxe o fim da ditadura no Brasil? 12. Esse período afetou sua vida pessoal? De que forma? Etapa 3 – Aplicação da entrevista 1. Escolham um local tranquilo e silencioso para gravar a entrevista e veri- fiquem, antes de dar início à atividade, se o som do gravador está funcio- nando corretamente. 2. Façam previamente termos de autorização para a gravação da entrevista em áudio e peçam aos entrevistados que assinem os termos. Expliquem a eles que o conteúdo da entrevista será utilizado unicamente para fins escolares, assim, não haverá comercialização dos áudios produzidos. No entanto, trechos das entrevistas poderão entrar nos podcasts, que ficarão armazenados em programas que hospedam arquivos em áudio. Caso os entrevistados não se sintam confortáveis em apresentar seu nome com- pleto, utilizem somente o primeiro nome ou pseudônimos, tanto durante as entrevistas quanto posteriormente, na gravação dos podcasts. 3. Conversem com os entrevistados sobre assuntos corriqueiros antes de dar início às entrevistas. Dessa forma, eles poderão ficar mais à vontade para responder às questões. 4. Fiquem atentos às respostas dos entrevista- dos para cada questão. O questionário pode ser aplicado, mas é importante que sejam feitas questões baseadas nas informações que os entrevistados fornecerem. 5. Observem se os entrevistados desviam a aten- ção para outros assuntos. Caso isso aconteça, procurem redirecionar a entrevista para o as- sunto proposto. 6. Procurem não ultrapassar o tempo da entrevis- ta, mas não a encerrem de forma brusca. Lem- brem-se de agradecer aos entrevistados pela participação. Etapa 4 – Transcrição da entrevista 1. Façam a transcrição da entrevista. Para isso, ouçam um trecho do áudio e, em seguida, transcrevam, em um programa de texto, o que foi ouvido. Realizem esse procedimento até completar todo o tempo da entrevista. Foto de estudante realizando trabalho de entrevista. D m y tr o Z in ke v yc h /S h u tt e rs to ck 92 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap2_062a093.indd 92V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap2_062a093.indd 92 24/09/2020 10:5524/09/2020 10:55 2. Ouçam novamente a entrevista, fazendo, ao mesmo tempo, a leitura do texto transcrito. Certifiquem-se de que nenhum trecho foi suprimido. 3. Marquem o tempo em que as questões são feitas para facilitar a edição do arquivo em áudio. 4. Salvem as transcrições no computador e, se possível, façam a impressão da entrevista transcrita. Algum dos entrevistados pode ter bastante conhecimento acerca do assunto, por isso é importante que ele compartilhe a experiência que teve. Para compartilhar 1. Criem um podcast com o conteúdo da entrevista, isto é, um arquivo em áudio com conteúdo informativo. Para isso, escrevam um texto, que será posteriormente narrado, relatando as causas que levaram ao fim da ditadu- ra no Brasil. Mencionem os movimentos de contestação da ditadura, entre os quais as Diretas Já, e selecionem trechos da fala dos entrevistados que julgarem importantes para compor o conteúdo do podcast. 2. Releiam o texto, corrigindo eventuais erros de gramática e de vocabulário. Além disso, atentem-se para que não tenha faltado nenhuma informação relevante. 3. Selecionem um integrante do grupo para fazer a leitura do texto. Antes de iniciar a gravação, ele deve treinar um pouco em voz alta para que a leitura seja fluida. 4. Façam a gravação do áudio e salvem o arquivo em uma pasta, com a gra- vação dos outros grupos. 5. Pesquisem sites que hospedem podcasts gratuitamente e façam a inscri- ção em um deles. Atentem-se para o formato do áudio exigido na gravação. 6. Façam o upload dos podcasts gravados, deixando o arquivo público para que outras pessoas possam acessar o conteúdo. 7. Marquem uma data para divulgar o podcast para as demais turmas da es- cola e aproveitem para compartilhar a experiência de entrevistar diferen- tes pessoas. V ic to rp r/ S h u tt e rs to ck 93 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap2_062a093.indd93V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap2_062a093.indd 93 24/09/2020 10:5524/09/2020 10:55 Caminhos da cidadania2 UNIDA D E C e n tr a l P re s s /H u lt o n A rc h iv e /G e tt y I m a g e s Estouro Bem-vindo ao século XXI [...] A ordem liberal ocidental que tem governado desde o fim da II Guerra Mundial baseou-se na hegemonia dos EUA. Como potência verdadeiramente global, foi dominante não apenas no campo do poder militar (além do econômico e financeiro), mas em quase todas as dimensões do soft power (cultura, língua, meios de comunicação, tecnologia e moda). A Pax Americana que garantiu um alto grau de estabilidade global começou a falhar (especialmente no Oriente Médio e na Península da Coreia). Embora os Estados Unidos continuem a ser a primeira potência planetária, já não têm a capacidade ou vontade de ser a polícia do mundo ou fazer os sacrifícios necessários para garantir a ordem. Por sua própria natureza, um mundo globalizado evita a imposição da ordem do século XXI. E mesmo que o surgimento de uma nova ordem mundial seja algo inevitável, seus fundamentos ainda não podem ser distinguidos. Parece improvável que seja liderada pela China; o país continuará voltado para si mesmo e concentrado na estabilidade interna e no desenvolvimento, e é provável que suas ambições sejam limitadas ao controle de sua vizinhança imediata e mares que o rodeiam. Além disso, não possui (em quase nada) o soft power necessário para tentar se tornar uma força de ordem mundial. [...] FISCHER, Joschka. Bem-vindo ao século XXI. El País, 7 fev. 2016. Disponível em: https://brasil.elpais.com/ brasil/2016/02/07/opinion/1454864647_294190.html. Acesso em: 6 jun. 2020. Context o ESSE TEMA SERÁ RETOMADO NA SEÇÃO PRÁTICA 94 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap3_094a121.indd 94V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap3_094a121.indd 94 24/09/2020 10:5824/09/2020 10:58 Mísseis balísticos intercontinentais com capacidade de transportar bombas nucleares, em parada militar na Praça Vermelha, Moscou (União Soviética), em 1969. Após ler o texto e com base em seus conhecimentos da realidade e em pesquisa na internet, reflita sobre as questões propostas: 1. Por que ainda não se pode distinguir os fundamentos de uma nova ordem internacional? 2. O que você entende por soft power? Qual é a diferença entre soft power e hard power? Dê exemplos. 3. Você acha que é importante ter soft power para liderar uma ordem internacional? Por quê? O Brasil tem hard power e soft power? Ver respostas e orientações no Manual do Professor. 95 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap3_094a121.indd 95V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap3_094a121.indd 95 24/09/2020 10:5824/09/2020 10:58 OBJETIVOS • Relacionar o conceito de cidade na civitas romana e na pólis grega aos conceitos de cidadão e política. • Identificar a desigualdade socioespacial urbana na vida cotidiana dos indivíduos segundo suas classes sociais. • Associar a localização dos indivíduos no espaço urbano ao maior ou menor acesso à cidadania. • Compreender o processo de urbanização, diferenciando suas especificidades nacionais e regionais. • Aplicar os conceitos de cidade, metrópole, megalópole e urbanização para compreensão da vida urbana e suas relações socioespaciais. • Aplicar os conceitos de hierarquia e rede urbana para compreensão das relações entre as cidades no território. • Reconhecer os principais problemas urbanos, com destaque para a moradia, pensando em formas de atuação cidadã. • Identificar as dificuldades de acesso à moradia no mundo e no Brasil e refletir sobre as possíveis soluções. JUSTIFICATIVA O conceito de cidade surgiu associado ao conceito de cidadão. Ambos têm uma origem comum tanto na Grécia quanto na Roma da Antiguidade. Hoje em dia, esses conceitos estão imbricados na prática urbana de milhões de cidadãos que têm protestado em diversas cidades do mundo contra o racismo e a injustiça e em defesa da democracia. Por isso, estudar a cidade e sua complexidade ajuda a compreender a relação do exercício da cidadania com o espaço urbano. Se por um lado o avanço da urbanização em todo o mundo trouxe uma série de conquistas, por outro gerou diversos problemas relacionados às desigualdades socioeconômicas, que precisam ser conhecidos em suas causas e consequências para serem adequadamente enfrentados e solucionados. É necessário que os cidadãos tenham consciência de seu direito à cidade. COMPETÊNCIAS E HABILIDADES DA BNCC • Competências gerais da Educação Básica: CG1, CG2, CG3, CG4, CG5, CG7, CG9 e CG10. • Competências e habilidades específicas de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas: Competência 1: EM13CHS105 e EM13CHS106. Competência 2: EM13CHS204 e EM13CHS206. Competência 6: EM13CHS605 e EM13CHS606. TEMAS CONTEMPORÂNEOS TRANSVERSAIS Cidadania e civismo • Vida familiar e social • Educação em Direitos Humanos Meio ambiente • Educação ambiental O mundo está repleto de cidades de todos os tamanhos, desde vilas pequenas até gigantescas aglomerações urbanas de milhões de habitantes. No entanto, tornou-se predominantemente urbano apenas neste século. Os países desenvolvidos completaram seu processo de urbanização, mas em diversos paí- ses em desenvolvimento o crescimento urbano tem sido acelerado, provocando grandes trans- formações socioeconômicas e nas paisagens das principais cidades. Por um lado, essa tendência Contexto A cidade e a cidadania3 C A P ÍT U LO C A P ÍT U LO NÃO ESCREVA NO LIVRO Arranha-céus em Shenzhen, província de Guangdong (China), em foto de 2016. Até os anos 1970, a cidade era um pequeno vilarejo, mas, a partir de 1979, ao tornar-se uma Zona Econômica Especial (ZEE), sua população cresceu em média 11,9% ao ano, a mais alta taxa do mundo. Naquele ano, a cidade contava com 52 mil moradores; em 2016, sua população chegou aos 10,8 milhões de habitantes. J a c k S k e e n s /S h u tt e rs to c k 96 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap3_094a121.indd 96V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap3_094a121.indd 96 24/09/2020 20:0724/09/2020 20:07 oferece novas formas de acesso aos serviços públicos e à cidadania, com mais oportunidades de negócios, empregos, formação profissional e opções de lazer, mas, por outro, gera problemas urbanos, como assentamentos humanos precá- rios e violência. Para começarmos a estudar esse assunto, leia os trechos a seguir. Segregação socioespacial e precariedade habitacional Associado ao desequilíbrio no aproveitamen- to do solo urbano e à contraposição entre es- vaziamento do centro expandido e crescimen- to periférico, há outro desequilíbrio importan- te na cidade, que estabelece, grosso modo, uma distribuição bem definida das distintas classes sociais: os mais pobres vivendo predominante- mente nas áreas periféricas e seus assentamen- tos precários e os de maior renda, no centro ex- pandido e seu entorno, onde existe maior oferta de infraestrutura e empregos. Tal distribuição representa, para os mais pobres, maior distân- cia das oportunidades, maior tempo gasto no deslocamento casa-trabalho-casa e maior pre- cariedade habitacional e urbana. Trata-se, por- tanto, de uma condição estrutural que favorece a reprodução da pobreza ao longo das gerações e impede uma redução mais acelerada das desi- gualdades de renda. [...] SÃO PAULO (Município). Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano. SP 2040: a cidade que queremos. São Paulo: SMDU, 2012. p. 32. Território e cidadania Morar na periferia é se condenar duas vezes à pobreza. À pobreza gerada pelo modelo eco- nômico, segmentador do mercado de trabalho e das classes sociais, superpõe-se a pobreza gera- da pelo modelo territorial. Este, afinal, determi- na quem deve ser mais ou menos pobre somen- te por morar neste ou naquele lugar. Onde os bens sociais existem apenas na forma mercan- til, reduz-se o número dos que potencialmente lhes têm acesso, os quais se tornam ainda mais pobres por terem de pagar o que, em condições democráticas normais,teria de lhes ser entre- gue gratuitamente pelo poder público. [...] SANTOS, Milton. O espaço do cidadão. 3. ed. São Paulo: Nobel, 1996. p. 115. O direito à cidade Saber que tipo de cidade queremos é uma questão que não pode ser dissociada de saber que tipo de vínculos sociais, relacionamentos com a natureza, estilos de vida, tecnologias e valores estéticos nós desejamos. O direito à ci- dade é muito mais que a liberdade individual de ter acesso aos recursos urbanos: é um direito de mudar a nós mesmos, mudando a cidade. Além disso, é um direito coletivo e não individual, já que essa transformação depende do exercício de um poder coletivo para remodelar os processos de urbanização. A liberdade de fazer e refazer as nossas cidades, e a nós mesmos, é, a meu ver, um dos nossos direitos humanos mais preciosos e ao mesmo tempo mais negligenciados. [...] HARVEY, David. O direito à cidade. piauí, ed. 82, jul. 2013. Disponível em: https://piaui.folha.uol.com.br/ materia/o-direito-a-cidade/. Acesso em: 15 jun. 2020. 1. O que significa dizer que “morar na periferia é se condenar duas vezes à pobreza” ou que isso é uma “condição estrutural que favorece a re- produção da pobreza ao longo das gerações”? Pode-se dizer que o grau de cidadania de uma pessoa varia conforme sua posição no territó- rio da cidade? 2. Como as pessoas podem contribuir para rom- per esse círculo vicioso, transformando essa “condição estrutural” e modificando as condi- ções do lugar onde vivem? Como podem exer- cer seus direitos de cidadãs, independente- mente de sua localização no território? 3. Com base em sua experiência e na observa- ção da realidade, você acredita que no Brasil o direito à cidade, como propõe David Harvey, é assegurado para todos? Você conhece, em seu município, algum movimento organizado para assegurar os direitos da cidadania, entre os quais o direito à cidade? Veja as respostas no Manual do Professor. 97 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap3_094a121.indd 97V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap3_094a121.indd 97 24/09/2020 10:5824/09/2020 10:58 A cidade e o cidadão Pesquisas arqueológicas indicam que a origem das primeiras cidades remonta a aproximadamente 3000 a.C. Elas co- meçaram a se desenvolver a partir do momento em que algumas sociedades tiveram condições de produzir alimentos suficientes para garantir a subsistência dos agricultores e abastecer os mora- dores urbanos, que, assim, puderam se dedicar a outras atividades. Dessa for- ma, ocorreu uma gradativa divisão do trabalho entre o campo e a cidade. Foi na cidade que se desenvolveram o comér- cio e o artesanato, e, principalmente, ela passou a ser o centro de poder. Ur e Babilônia, duas das primeiras ci- dades do mundo, foram construídas na Mesopotâmia, no vale dos rios Tigre e Eufrates (no atual Iraque). De acordo com parâmetros atuais, seriam cidades pequenas, mas, para a época, eram grandes aglomerações. Outras cidades também foram erguidas associadas a vales fluviais: Mênfis e Tebas, no vale do Nilo; Pequim e Hang-chou, no vale do rio Amarelo, entre outras. Ainda na Antiguidade, as cidades foram se tornando cada vez maiores. Atenas, a mais importante cidade-Estado grega, em seu auge, por volta do século V a.C., che- gou a ter aproximadamente 400 mil habitantes. Portanto, desde sua origem, as cidades que mais cresceram em geral eram centros de poder, isto é, as capitais dos impérios na Antiguidade e, mais recentemente, dos Estados nacionais. Roma é um bom exemplo: a ci- dade, hoje capital da Itália, foi também a capital do Império Romano e che- gou a abrigar, em seu apogeu, no início da era cristã, entre 700 mil e 1 mi- lhão de habitantes, o que, mesmo por parâmetros atuais, seria uma cidade grande. Aliás, a própria palavra capital é derivada do latim caput, que signi- fica “cabeça”. Roma foi a cabeça do Império Romano e comandou um vasto território sob seu controle. A palavra cidade deriva do latim civitas (“cidade, reunião de cidadãos”), ci- dadão vem do latim civis (“moradores da cidade”), e o termo civil vem do latim civilis (“pertencente ao cidadão, de cidade”). A civitas romana era entendida Estima-se que, por volta de 2500 a.C., Ur chegou a ter cerca de 50 mil habitantes e Babilônia, a maior cidade da época, 80 mil moradores. Fon te: elaborado com base em DUBY, Georges. Atlas Histórico Mundial. Barcelona: Larousse, 2007. p. 16. P o rt a l d e M a p a s /A rq u iv o d a e d it o ra 40º L 40º N Rio Danúbio R io T ig re R io N ilo R io E u frates Ilha de Chipre Ilha de Creta Mar Mediterrâneo Mar Negro Mar Cáspio M ar V erm elh o G o lfo Pérsico Ásia Menor Assíria Egito Arábia Palestina Suméria Babilônia Mesopotâmia Grécia Sídon Mên�s Jerusalém Ur Babilônia Nínive Tiro Beirute Biblos Tebas Cáspio 0 620 1 240 km Antiguidade: as primeiras cidades Gladiador. Diretor: Ridley Scott. Estados Unidos, 2000. (2 h 51 min) O filme conta a história de Maximus (Russell Crowe), general do Exército romano que se torna escravo e então gladiador. Embora o enredo não seja estritamente fiel aos eventos históricos, o filme mostra como o Império Romano se estendia amplamente por áreas como sudoeste da Espanha e norte da África, além de trazer uma bela reconstituição da capital, Roma. Saber R e p ro d u ç ã o /C o lu m b ia P ic tu re s d o B ra s il 98 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap3_094a121.indd 98V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap3_094a121.indd 98 24/09/2020 10:5824/09/2020 10:58 como um lugar de reunião de pessoas com objetivos comuns, submetidas à mesma lei, e girava em torno da participação dos cidadãos romanos na vida pública. No entanto, apenas homens livres nascidos em Roma eram considera- dos cidadãos: mulheres, estrangeiros e escravos não tinham cidadania roma- na e, portanto, não podiam votar nem se candidatar às eleições. A etimologia da palavra cidade também pode ser encontrada no contexto grego da pólis, que era como os helenos chamavam suas cidades-Estados, dentre as quais se destacava Atenas. Segundo o filósofo político italiano Norberto Bobbio (1909-2004): “O significado clássico e moderno de política, derivado do adjetivo originado de pólis (politikós), que significa tudo o que se refere à cidade e, consequentemente, o que é urbano, civil, público [...]”. Ou seja, a pólis grega era o local de exercício da política, da cidadania. No entan- to, era uma concepção de cidadania diferente da que temos atualmente. No século V a.C., época do apogeu de Atenas, cidadãos eram apenas os homens livres nascidos nessa pólis, filhos de pai e mãe atenienses; as mulheres, os estrangeiros e os escravos não eram considerados cidadãos e, portanto, não exerciam a cidadania, não praticavam a política. Assim, desde sua concepção greco-romana, a cidade está associada ao exercício da cidadania, da política, hoje em dia estendidas a todos, sem exce- ção, ao menos nos países onde vigora o Estado democrático de direito. Se- gundo o Dicionário de Filosofia de Gérard Durozoi e André Roussel, em sua origem “do latim civitas, a cidade é uma comunidade política organizada, que possui um mínimo de autonomia” e “o cidadão é aquele que usufrui os direitos e cumpre os deveres definidos pelas leis e costumes da cidade”. Durozoi e Roussel ainda acrescentam: “a cidadania é, antes de mais nada, o resultado de uma integração social, de modo que ‘civilizar’ significa em pri- meiro lugar ‘tornar cidadão’”. Isso ajuda a compreender por que, quando cidadãos querem protestar contra alguma arbitrariedade do Estado, contra alguma violência ou injustiça, em geral organizam uma manifestação política na cidade (em ruas centrais, importantes), pois é ela o espaço do exercício da cidadania por excelência. BOBBIO, Norberto; MATTEUCCI, Nicola; PASQUINO, Gianfrancesco. Dicionário de Política. 7. ed. Brasília: Editora UnB, v. 2, 1995. p. 954. DUROZOI, Gérard; ROUSSEL, André. Dicionário de Filosofia. 2. ed. Campinas:ou por conta de legados coloniais e imperiais. GIDDENS. A. Sociologia. Porto Alegre: Penso, 2012 (adaptado). Do ponto de vista do funcionamento das demo- cracias contemporâneas, o modelo de socieda- de descrito demanda, simultaneamente, a) defesa do patriotismo e rejeição ao hibridismo. b) universalização de direitos e respeito à di- versidade. c) segregação do território e estímulo ao auto- governo. d) políticas de compensação e homogeneiza- ção do idioma. e) padronização da cultura e repressão aos particularismos. 3. (2017) A participação da mulher no processo de decisão política ainda é extremamente li- mitada em praticamente todos os países, inde- pendentemente do regime econômico e social e da estrutura institucional vigente em cada um deles. É fato público e notório, além de empiri- camente comprovado, que as mulheres estão em geral sub-representadas nos órgãos do po- der, pois a proporção não corresponde jamais ao peso relativo dessa parte da população. TABAK, F. Mulheres públicas: participação política e poder. Rio de Janeiro: Letra Capital, 2002. No âmbito do Poder Legislativo brasileiro, a tentativa de reverter esse quadro de sub-re- presentação tem envolvido a implementação, pelo Estado, de a) leis de combate à violência doméstica. b) cotas de gênero nas candidaturas partidárias. c) programas de mobilização política nas escolas. d) propagandas de incentivo ao voto consciente. e) apoio financeiro às lideranças femininas. 1. (2016) Texto I Texto II Metade da nova equipe da NASA é composta por mulheres Até hoje, cerca de 350 astronautas america- nos já estiveram no espaço, enquanto as mulhe- res não chegam a ser um terço desse número. Após o anúncio da turma composta 50% por mulheres, alguns internautas escreveram co- mentários machistas e desrespeitosos sobre a escolha nas redes sociais. Disponível em: https://catracalivre.com.br. Acesso em: 10 mar. 2016. A comparação entre o anúncio publicitário de 1968 e a repercussão da notícia de 2016 mos- tra a a) elitização da carreira científica. b) qualificação da atividade doméstica. c) ambição de indústrias patrocinadoras. d) manutenção de estereótipos de gênero. e) equiparação de papéis nas relações familiares. R e p ro d u ç ã o /E N E M , 2 01 6 . 86 QUESTÕES DO ENEM NÃO ESCREVA NO LIVRO Todavia, a urbaniza- ção ainda era um fenô- meno circunscrito a es- ses países precursores do processo de indus- trialização, e até o final do século XX o mundo era predominantemente rural. Observe o gráfico da lado. Historicamente, a urbanização foi condi- cionada por dois fatores: os atrativos, que es- timulam as pessoas a migrar para as cidades, e os repulsivos, que as impulsionam a sair do campo. Os fatores atra- tivos estão associados às transformações pro- vocadas na cidade pela industrialização, sobre- tudo geração de empre- gos tanto no setor indus- trial quanto no de comércio e serviços, o que não necessariamente se reflete em melhoria da qualidade de vida. O crescimento desenfreado de cidades nem sempre foi acompanhado de crescimento de infraestrutura, e a maior parte dos trabalhadores que iam para a cidade em busca de emprego ganhava muito pouco e morava em cortiços. Além disso, eram frequentes doenças e epide- mias, pela falta de saneamento básico e de higiene. Só com o passar do tempo e com a luta por direitos trabalhistas, sobretudo no século XX, a elevação da renda dos trabalhadores e os investimentos governamentais em infraestrutu- ra urbana melhoraram as condições de vida nas cidades de muitos países da Europa, da América do Norte e da Ásia. Os fatores repulsivos são típicos de alguns países em desenvolvimento, principalmente nos menos desenvolvidos. Estão associados às más condi- ções de vida na zona rural, por causa da estrutura fundiária bastante con- centrada, dos baixos salários, da falta de apoio aos pequenos agricultores, do arcaísmo das técnicas de cultivo e da falta de infraestrutura que torna a agricultura mais suscetível às intempéries; embora, em regiões que se mo- dernizaram, o processo de mecanização das atividades agrícolas também contribua para a migração rural-urbana. O resultado é o êxodo rural, que, nas grandes metrópoles, provoca o agravamento dos problemas urbanos em ra- zão do aumento abrupto da população. Cortiço: não há uma conceituação oficial para cortiço, que pode ser informalmente definido como moradia que, embora regular, está localizada em zonas degradadas das cidades, na qual os membros de duas ou mais famílias pobres dividem os espaços coletivos da residência, como cozinha, banheiro e tanque de lavar roupa. A infraestrutura quase sempre é precária e há uma superlotação dos cômodos, com condições de higiene inadequadas. Estrutura fundiária: número, tamanho e distribuição dos imóveis rurais. Mundo: evolução da população urbana e rural — 1950-2050 0 1950 1960 1970 1980 1990 2000 2010 2020 2030 2040 2050 Po pu la çã o (b ilh õe s) 1,0 3,0 2,0 Urbano 4,0 6,0 5,0 7,0 Rural NÃO ESCREVA NO LIVRO Fonte: elaborado com base em UNITED NATIONS. Department of Economic and Social Affairs. Population Division. World Urbanization Prospects 2018. Highlights. New York, 2019. p. 5. • Analise o gráfico e responda: a) A partir de quando o mundo se tornou predominantemente urbano? Qual é a projeção para o futuro? b) Como se dá o processo de urbanização no município onde você mora? A cidade está crescendo ou não?� Interpretar F ó rm u la P ro d u ç õ e s /A rq u iv o d a e d it o ra 101 Nas leis brasileiras não existe a figura jurídica de organização não go- vernamental, mas de organização da sociedade civil (OSC). Assim, as ONGs, incluindo as internacionais, são classificadas no Brasil como OSC. Segundo o Mapa das Organizações da Sociedade Civil do Instituto de Pes- quisa Econômica Aplicada (Ipea), em 2019 havia 781 921 OSCs no país. No entanto, elas são, em sua maioria, associações locais, de atuação bas- tante restrita, e não ONGs de atuação internacional, como algumas que se- rão apresentadas a seguir. A grandeza do número de OSC no Brasil se deve também ao fato de as entidades assim classificadas serem contabilizadas por CNPJ (Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica). Por exemplo, a organiza- ção religiosa Igreja Universal do Reino de Deus contabiliza 7 090 OSCs por- que cada templo religioso em território brasileiro tem um CNPJ próprio e, consequentemente, é contabilizado separadamente. Como se vê no gráfico abaixo, as OSCs atuam em diversas áreas, com destaque para desenvolvi- mento e defesa de direitos. Brasil: distribuição das OSCs por área de atuação — 2019 Assistência social 12% 47% 20% 6% Desenvolvimento e defesa de direitos Religião Associações patronais, pro�ssionais e de produtores rurais Educação e pesquisa Outras atividades associativas Saúde Cultura e recreação Meio ambiente e proteção animal, habitação etc. Sem informação F ó rm u la P ro d u ç õ e s /A rq u iv o d a e d it o ra Fonte: elaborado com base em IPEA. Mapa das Organizações da Sociedade Civil. Dados e Indicadores, 2020. Disponível em: https://mapaosc.ipea.gov.br/dados-indicadores.html. Acesso em: 7 ago. 2020. IPEA. Mapa das Organizações da Sociedade Civil. Dados e Indicadores, 2020. Disponível em: https://mapaosc.ipea.gov. br/dados-indicadores.html. Acesso em: 22 jun. 2020. Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Mapa das Organizações da Sociedade Civil. Disponível em: https://mapaosc.ipea.gov.br/resultado-consulta. html?organizacao=human_rights&tipoBusca=0. Acesso em: 22 jun. 2020. Nesse site do Ipea é possível consultar o nome das OSCs que atuam no Brasil e visualizá-las por município, estado e região. Saber R e p ro d u ç ã o /m a p a o s c .i p e a .g o v. b r As ONGs têm um papel importante, ao lado dos Estados, na ordem mun- dial contemporânea. A seguir vamos estudar algumas das mais conhecidas e atuantes no mundo na promoção e proteçãoPapirus, 1995. p. 79. NÃO ESCREVA NO LIVRO Embora em um contexto bastante diferente, tivemos e ainda temos no Brasil situações de exclusão social semelhantes às expostas no texto ao lado. Fomos o último país da América a acatar a abolição formal da escravidão da era moderna, o que ocorreu apenas em 1888, e o direito de voto das mulheres só foi conquistado em 1932, com a publicação do primeiro Código Eleitoral (Decreto n. 21.076). • Converse com os colegas sobre que impactos e consequências a falta de cidadania e a desigualdade de direitos têm no desenvolvimento de uma sociedade. Veja a resposta no Manual do Professor. Conversa A 1a Marcha das Mulheres Indígenas, realizada em 2019 com o tema “Território: nosso corpo, nosso espírito”, levou 2 500 representantes de 130 povos a Brasília não só para protestar contra projetos do governo Jair Bolsonaro que pretendem liberar a mineração em territórios indígenas, prejudicando o modo de vida e a sobrevivência das populações originais, bem como para pressionar o Governo Federal pela preservação e demarcação das Terras Indígenas. M a th e u s W A lv e s /F u tu ra P re s s 99 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap3_094a121.indd 99V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap3_094a121.indd 99 24/09/2020 10:5824/09/2020 10:58 O processo de urbanização Como vimos, ao longo da história, as cidades foram se constituindo como centros de poder e de negócios, e, em virtude da combinação de fatores naturais, econômicos, culturais e políticos, mui- tas se especializaram em determinadas funções – político-administrativas, industriais, portuárias, turísticas, religiosas, etc. –, enquanto outras são multifuncionais. Na Alta Idade Média europeia, durante o feuda- lismo, as cidades perderam importância em razão da descentralização político-econômica carac- terística desse sistema de produção e da conse- quente fragmentação do poder e da redução das trocas comerciais. Durante a Baixa Idade Média e nos primórdios do capitalismo, com o aumento das atividades comerciais, as cidades ganharam impulso e passaram a adquirir cada vez mais importância porque voltaram a ser o centro dos negócios. Com a formação dos Estados modernos, as capitais voltaram a ganhar importância, porém foi somente a partir do capitalismo industrial que se iniciou um processo de urbanização contínuo, que se estende até os dias de hoje. Urbanização É um processo socioeconômico complexo que transforma o espaço geográ- fico, convertendo áreas anteriormente rurais em assentamentos urbanos, além de mudar a distribuição espacial da população do campo para a cidade. Inclui mudanças nas ocupações dominantes, estilo de vida, cultura e comportamento e, portanto, altera a estrutura demográfica e social tanto das áreas urbanas quanto das rurais. A principal consequência da urbanização é o aumento do número e da área ocupada pelos assentamentos urbanos, assim como dos residentes urbanos em comparação com os rurais. [...] A taxa de urbanização é expressa como a porcentagem da população residente em áreas urbanas, definidas de acordo com os critérios utilizados pelos governos nacionais para distingui-las das áreas rurais. Na prática, a urbanização se refere ao aumento da porcentagem da população residente em áreas urbanas e ao cres- cimento associado ao número de moradores urbanos, ao tamanho das cidades e à área total ocupada por assentamentos urbanos. UNITED NATIONS. Department of Economic and Social Affairs. Population Division. World Urbanization Prospects 2018. Highlights. New York, 2019. p. iii. [Tradução dos autores] Conceitos Entre os séculos XVIII e XIX, durante as duas primeiras Revoluções In- dustriais, as principais cidades dos atuais países desenvolvidos europeus tiveram um crescimento muito rápido, decorrente do processo de industriali- zação, que gerou vários postos de trabalho, atraindo um grande contingente de pessoas do campo. As grandes metrópoles, especialmente as que são cidades globais e têm muitas conexões com o mundo, como Paris (França), são multifuncionais. Na foto, de 2015, vista panorâmica da capital francesa. D a L iu /S h u tt e rs to c k 100 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap3_094a121.indd 100V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap3_094a121.indd 100 24/09/2020 10:5824/09/2020 10:58 Todavia, a urbaniza- ção ainda era um fenô- meno circunscrito a es- ses países precursores do processo de indus- trialização, e até o final do século XX o mundo era predominantemente rural. Observe o gráfico da lado. Historicamente, a urbanização foi condi- cionada por dois fatores: os atrativos, que es- timulam as pessoas a migrar para as cidades, e os repulsivos, que as impulsionam a sair do campo. Os fatores atra- tivos estão associados às transformações pro- vocadas na cidade pela industrialização, sobre- tudo geração de empre- gos tanto no setor indus- trial quanto no de comércio e serviços, o que não necessariamente se reflete em melhoria da qualidade de vida. O crescimento desenfreado de cidades nem sempre foi acompanhado de crescimento de infraestrutura, e a maior parte dos trabalhadores que iam para a cidade em busca de emprego ganhava muito pouco e morava em cortiços. Além disso, eram frequentes doenças e epide- mias, pela falta de saneamento básico e de higiene. Só com o passar do tempo e com a luta por direitos trabalhistas, sobretudo no século XX, a elevação da renda dos trabalhadores e os investimentos governamentais em infraestrutu- ra urbana melhoraram as condições de vida nas cidades de muitos países da Europa, da América do Norte e da Ásia. Os fatores repulsivos são típicos de alguns países em desenvolvimento, principalmente nos menos desenvolvidos. Estão associados às más condi- ções de vida na zona rural, por causa da estrutura fundiária bastante con- centrada, dos baixos salários, da falta de apoio aos pequenos agricultores, do arcaísmo das técnicas de cultivo e da falta de infraestrutura que torna a agricultura mais suscetível às intempéries; embora, em regiões que se mo- dernizaram, o processo de mecanização das atividades agrícolas também contribua para a migração rural-urbana. O resultado é o êxodo rural, que, nas grandes metrópoles, provoca o agravamento dos problemas urbanos em ra- zão do aumento abrupto da população. Cortiço: não há uma conceituação oficial para cortiço, que pode ser informalmente definido como moradia que, embora regular, está localizada em zonas degradadas das cidades, na qual os membros de duas ou mais famílias pobres dividem os espaços coletivos da residência, como cozinha, banheiro e tanque de lavar roupa. A infraestrutura quase sempre é precária e há uma superlotação dos cômodos, com condições de higiene inadequadas. Estrutura fundiária: número, tamanho e distribuição dos imóveis rurais. Mundo: evolução da população urbana e rural — 1950-2050 0 1950 1960 1970 1980 1990 2000 2010 2020 2030 2040 2050 Po pu la çã o (b ilh õe s) 1,0 3,0 2,0 Urbano 4,0 6,0 5,0 7,0 Rural NÃO ESCREVA NO LIVRO Fonte: elaborado com base em UNITED NATIONS. Department of Economic and Social Affairs. Population Division. World Urbanization Prospects 2018. Highlights. New York, 2019. p. 5. • Analise o gráfico e responda: a) A partir de quando o mundo se tornou predominantemente urbano? Qual é a projeção para o futuro? b) Como se dá o processo de urbanização no município onde você mora? A cidade está crescendo ou não? Veja as respostas no Manual do Professor. Interpretar F ó rm u la P ro d u ç õ e s /A rq u iv o d a e d it o ra 101 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap3_094a121.indd 101V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap3_094a121.indd 101 24/09/2020 10:5824/09/2020 10:58 Após a Segunda Guerra, a urbanização se acelerou em muitos países em desenvolvimento que ainda eram agrícolas, mas estavam em proces- so de industrialização, principalmente na América Latina. Em contrapar- tida, a Ásia e sobretudo a África, apesar da aceleração recente,ainda são continentes pouco urbanizados. Ou seja, suas maiores cidades ainda vão crescer muito, com todas as vantagens e todos os problemas decorrentes disso. O continente africano em especial é um caso que tem chamado a atenção. Após um passado de colonização e de exploração humana e de re- cursos naturais por potências imperialistas europeias, que não investiram em desenvolvimento urbano nem de instituições, o continente africano tem protagonizado, desde os anos 2000, altos índices de crescimento econô- mico e de urbanização. Isso porque a China vem investindo muito dinheiro em projetos, sobretudo de infraestrutura e telecomunicações, em vários países africanos, em especial da África subsaariana, que, historicamente, sempre apresentou os menores índices de desenvolvimento. Alguns críti- cos alegam que se trata de um neocolonialismo, outros afirmam que se trata de uma relação de soft power (poder brando) na qual a China busca estabelecer uma área de influência em um grande continente, geralmente negligenciado por outras potências e que, ao mesmo tempo, representa um potencial mercado consumidor para produtos chineses. Taxa de urbanização por regiões (porcentagem da população total) Regiões 1950 2018 América do Norte 63,9 82,2 América Latina e Caribe 41,3 80,7 Europa 51,7 74,5 Oceania 62,5 68,2 Ásia 17,5 49,9 África 14,3 42,5 Mundo 29,6 55,3 Fonte: UNITED NATIONS. Department of Economic and Social Affairs. Population Division. World Urbanization Prospects 2018. Highlights. New York, 2019. p. 6. Embora as áreas urbanizadas concentrem percentual cada vez maior da população mundial, a proporção de pessoas que vivem nas grandes aglome- rações urbanas continua pequena. Como mostra o gráfico na página a seguir, embora as aglomerações de mais de 10 milhões de habitantes, designadas pela Organização das Nações Unidas (ONU) de megacidades, venham cres- cendo, metade dos moradores urbanos ainda se concentra em pequenas e médias cidades, situadas na faixa de menos de 500 mil habitantes. Em 2018, segundo a Divisão de População da ONU, a população urbana correspondia a 55% do total mundial, e estima-se que chegue a 68% em 2050. A tendência no futuro é que cada vez mais pessoas se concentrem nas maiores cidades – acima de 500 mil habitantes. ABC do desenvolvimento urbano. Marcelo Lopes de Souza. Bertrand Brasil, 2003. Livro de divulgação científica voltado às pessoas leigas com o intuito de qualificá-las para o debate sobre a cidade e os problemas urbanos. Saber R e p ro d u ç ã o /E d it o ra B e rt ra n d B ra s il O menino que descobriu o vento. Chiwetel Ejiofor. Reino Unido, Malauí, 2019. (1 h 53 min) O filme conta a história real de William Kamkwamba, um garoto que, inspirado num livro de ciências, desenvolveu um moinho de vento elétrico e salvou a vila em que morava, no Malauí, da fome devastadora provocada pela seca. O filme mostra o êxodo que acontecia na vila em decorrência da falta de infraestrutura para lidar com as intempéries. R e p ro d u ç ã o /N e tf lix 102 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap3_094a121.indd 102V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap3_094a121.indd 102 24/09/2020 10:5824/09/2020 10:58 Mundo: distribuição da população urbana, segundo o tamanho das cidades — 1990-2030 0 1 1990 Megacidades de 10 milhões ou mais Po pu la çã o to ta l ( bi lh õe s) 2018 2030 2 4 5 3 Grandes cidades de até 10 milhões Cidades de tamanho médio de 1 a 5 milhões Cidades de 500.000 a 1 milhão Assentamentos urbanos com menos de 500.000 G rá fi c o s : F ó rm u la P ro d u ç õ e s /A rq u iv o d a e d it o ra Taxa de urbanização em países desenvolvidos e emergentes — 2018 100 80 60 40 20 0 100,0 91,9 91,6 86,6 83,4 82,3 80,2 77,3 66,4 59,2 34,0 98,0 Cingapura Bélgica Argentin a Japão Brasil Reino Unido Estados Unidos México Alemanha Áfric a do Sul China Índia (%) Taxa de urbanização em países em desenvolvimento não industrializados — 2018 100 80 60 40 20 0 95,3 89,4 80,8 77,9 55,3 50,3 36,6 25,5 20,8 19,6 13,0 88,6 Uru guai Líb ano Gabão Colô m bia Peru Haiti Nig éria Bangla desh Afe ganis tã o Etió pia Sudão d o S ul Buru ndi (%) Fonte: elaborado com base em UNITED NATIONS. Department of Economic and Social Affairs. Population Division. World Urbanization Prospects: the 2018 Revision. New York, 2019. p. 58. Fonte: elaborado com base em UNITED NATIONS. Department of Economic and Social Affairs. Population Division. World Urbanization Prospects: the 2018 Revision, Online Edition. New York, 2018. Disponível em: https://esa.un.org/unpd/wup/. Acesso em: 12 jun. 2020. Fonte: elaborado com base em UNITED NATIONS. Department of Economic and Social Affairs. Population Division. World Urbanization Prospects: the 2018 Revision, Online Edition. New York, 2018. Disponível em: https://esa.un.org/unpd/wup/. Acesso em: 12 jun. 2020. • Analise os gráficos e responda: a) Quais são as faixas de cidades que ganharam mais população no período 1990- -2018? Qual é a projeção para o futuro? b) O que você percebe ao analisar as taxas de urbanização nos dois grupos de países? Há homogeneidade? Interpretar NÃO ESCREVA NO LIVRO Veja as respostas no Manual do Professor. Saber Divisão de População das Nações Unidas. Disponível em: www.un.org/en/ development/desa/ population. Acesso em: 5 ago. 2020. Site (em inglês) com informações sobre população e urbanização mundiais, incluindo as megacidades. R e p ro d u ç ã o /w w w .u n .o rg 103 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap3_094a121.indd 103V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap3_094a121.indd 103 24/09/2020 10:5824/09/2020 10:58 Rede e hierarquia urbanas As cidades são muito diferentes entre si. Extensão territorial, número de habitantes e diversidade de serviços e funções proporcionam experiências de vida distintas em cada uma delas. A urbanização, no entanto, transforma o modo de vida das pessoas. Estamos mais distantes da natureza e menos sujeitos aos seus ritmos na organização de nossa vida. O ritmo urbano tende a se sobrepor ao ritmo rural e a submetê-lo. As cidades se relacionam com outras cidades. Assim, um aspecto impor- tante que também deve ser considerado no estudo da Geografia urbana é a posição e a função que cada uma delas ocupa na rede urbana, conceito que indica o conjunto de cidades – de um mesmo país ou de países vizinhos – que se interligam umas às outras por meio dos sistemas de transporte e de telecomunicação, através dos quais se dão os fluxos de pessoas, mercado- rias, serviços, informações e capitais. Essa noção foi desenvolvida a partir da “teoria das localidades centrais”, proposta pelo geógrafo alemão Walter Christaller (1893-1969) num livro lançado em 1933 e traduzido para o inglês em 1966. A partir daí passou-se a utilizar o conceito de rede urbana para se referir à crescente articulação e hierarquização entre as cidades, resultante da expansão do processo de industrialização-urbanização. Em muitos países em desenvolvimento, particularmente naqueles de baixo índice de industrialização e urbanização, as redes são bastante de- sarticuladas, e as cidades estão dispersas no território. Já nos países de- senvolvidos, elas são mais densas e articuladas por causa dos altos índices de industrialização e de urbanização, da economia diversificada e dinâmica, dos mercados internos com alta capacidade de consumo e dos grandes in- vestimentos em transportes e telecomunicações. Em geral, são regiões do planeta onde se desenvolveram as metrópoles e, sobretudo, as megalópo- les, como Boswash (observe o mapa na página a seguir). Vista aérea do complexo viário na proximidade de Shanghai, China, em 2018. CHRISTALLER, Walter. Central places in Southern Germany. Englewood Cliffs, N.J.: Prentice-Hall, 1966. C a p ta in W a n g /S h u tt e rs to ck 104 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap3_094a121.indd 104V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap3_094a121.indd104 24/09/2020 10:5824/09/2020 10:58 Macrometrópole Paulista: nome que a Emplasa usa para definir a megalópole estadual formada pelas regiões metropolitanas de São Paulo, Campinas, Sorocaba, Baixada Santista, Vale do Paraíba e Litoral Norte; pelas aglomerações urbanas de Jundiaí e Piracicaba; mais a unidade regional de Bragantina. Ela abrange 174 municípios (50% da área urbana do estado) e, em 2018, abrigava 33,7 milhões de habitantes (74,6% da população estadual) e gerava 82% do PIB do estado de São Paulo. Fonte: elaborado com base em CHARLIER, Jacques (dir.). Atlas du 21e siècle édition 2012. Groningen: Wolters-Noordhoff; Paris: Éditions Nathan, 2014. p. 144. (Original sem data.) A megalópole de Boswash, nos Estados Unidos OCEANO ATLÂNTICO 40° N 70° O Washington Baltimore Filadél�a Paterson Newark New Brunswick Long Branch Nova York Long Island Hartford Providence Boston 5 milhões ou mais Quantidade de habitantes 1 milhão a 4,9 milhões 500 mil a 999 mil 250 mil a 499 mil 100 mil a 249 mil Limite da megalópole 0 106 212 km Aglomerações urbanas, metrópoles e megalópoles Segundo a Divisão de População da ONU, aglomeração urbana “refere-se à população contida no interior de um território contíguo, habitado em níveis variáveis de densidade, sem levar em conta os limites administrativos das cidades”. Em outras palavras, é um conjunto de cidades em grande parte conurbadas, isto é, interligadas pela expansão periférica da malha urbana de cada uma delas ou pela integração socioeconômica historicamente comandada pelo processo de industrialização e atualmente, cada vez mais, pelo desenvolvimento do comércio e dos serviços. No Brasil, as maiores aglomerações urbanas têm sido legalmente reconhecidas como regiões metropolitanas, que também costumam ser chamadas de metrópoles (do grego metrópolis, “cidade mãe” ou “cidade matriz”). Nelas, há sempre um município-núcleo, com maior capacidade polarizadora e que lhe dá nome, como São Paulo, Salvador, Curitiba, Belém, etc. As regiões metropolitanas foram criadas por lei para facilitar o planejamento urbano de seus municípios. Isso é executado por órgãos especialmente criados para esse fim, como a Empresa Paulista de Planejamento Metropolitano S.A. (Emplasa), encarregada de planejar as regiões metropolitanas que formam a Macrometrópole Paulista. Uma megalópole é formada quando os fluxos de pessoas, capitais, informações, mercadorias e serviços entre duas ou mais metrópoles estão fortemente integrados por modernas redes de transporte e telecomunicação. A primeira megalópole a se estruturar no mundo, denominada informalmente Boswash, abrange um cordão de cidades, no nordeste dos Estados Unidos, que se estende de Boston até Washington, tendo Nova York como a metrópole mais importante. Ainda nos Estados Unidos, há San-San, que se estende de San Francisco a San Diego, passando por Los Angeles, na Califórnia, e Chipitts (também conhecida como megalópole dos Grandes Lagos), que vai de Chicago a Pittsburgh e se estende até o Canadá, por cidades como Toronto, a maior desse país. A megalópole japonesa situa-se no sudeste da ilha de Honshu, no eixo que se estende de Tóquio até o norte da ilha de Kyushu, passando por Osaka e Kobe. Na Europa, a megalópole se desenvolveu no noroeste do continente, englobando as aglomerações do Reno-Ruhr, na Alemanha, as áreas metropolitanas de Paris, na França, e de Londres, no Reino Unido; portanto, é transnacional. No Brasil, a megalópole nacional em formação é composta pelas regiões metropolitanas do Rio de Janeiro e de São Paulo, estendendo-se pelas outras que compõem a Macrometrópole Paulista. Conceitos P o rt a l d e M a p a s /A rq u iv o d a e d it o ra 105 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap3_094a121.indd 105V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap3_094a121.indd 105 24/09/2020 10:5824/09/2020 10:58 Dentro da rede urbana, as cidades são os nós dos sistemas de produção e distribuição de mercadorias e da prestação de serviços diversos, que se orga- nizam segundo níveis hierárquicos distribuídos de forma desigual pelo terri- tório. Por exemplo, o Centro-Sul do Brasil possui uma rede urbana com grande número de metrópoles, capitais regionais e centros sub-regionais bastante ar- ticulados entre si. Já na Amazônia, as cidades são esparsas e bem menos arti- culadas, o que leva centros menores a exercerem o mesmo nível de importân- cia na hierarquia urbana regional que outros maiores localizados no Centro-Sul. Outro fator importante que devemos considerar ao analisar os fluxos no inte- rior de uma rede urbana é a condição de acesso proporcionada pelos diferentes níveis de renda da população. Um morador de maior renda de uma cidade peque- na muitas vezes consegue estabelecer mais conexões econômicas e culturais que um morador de pouca renda de uma grande metrópole. A mobilidade das pessoas entre as cidades da rede urbana depende de seu nível de renda. Segundo o IBGE, as regiões de influência das cidades brasileiras são de- limitadas principalmente pelo fluxo de consumidores que utilizam o comér- cio e os serviços públicos e privados no interior da rede urbana. Ao realizar o levantamento para a elaboração do mapa da rede urbana, investigou-se a organização dos meios de transporte entre os municípios e os principais destinos das pessoas que buscam produtos e serviços. São Paulo, a grande metrópole nacional, mais Rio de Janeiro e Brasília, metrópoles nacionais, es- tendem suas influências por praticamente todo o território brasileiro. Obser- ve o mapa da hierarquia urbana no Brasil. Brasil: rede urbana, segundo o IBGE — 2007 Equador 50º O 0º Trópico de Capricórnio OCEANO ATLÂNTICO São Paulo Brasília Rio de Janeiro Belém Recife Manaus Boa Vista Rio Branco Porto Velho Macapá Palmas Goiânia Salvador Curitiba Fortaleza Porto Alegre Belo Horizonte Natal Maceió Cuiabá Aracaju Vitória Teresina São Luís João Pessoa Campo Grande Florianópolis Grande Metrópole Nacional Hierarquia dos centros urbanos Metrópole Metrópole Nacional Capital Regional A Capital Regional B Capital Regional C Centro sub-regional B Centro sub-regional A Centro de Zona A Centro de Zona B São Luís 0 455 910 km Fonte: elaborado com base em IBGE. Regiões de influência das cidades 2007. Rio de Janeiro, 2008. Disponível em: https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv40677.pdf. Acesso em: 14 jun. 2020. • Observe o mapa e responda: a) Quais são as cidades mais influentes do Brasil? Por quê? b) Qual é a posição que a cidade em que vocês vivem ocupa na rede urbana brasileira? Ela aparece na classificação do IBGE? Veja as respostas no Manual do Professor. Interpretar NÃO ESCREVA NO LIVRO P o rt a l d e M a p a s /A rq u iv o d a e d it o ra 106 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap3_094a121.indd 106V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap3_094a121.indd 106 24/09/2020 10:5824/09/2020 10:58 Como vimos, o conceito de hierarquia urbana surge na mesma época do conceito de rede urbana e indica o ordenamento das cidades nas relações que estabelecem no território segundo seu poder e influência. Por exemplo, como mostra o mapa da página anterior, a metrópole nacional é o nível má- ximo de poder e influência econômica na rede urbana de um país, e a vila, o nível mais baixo, por isso sofre influência de todas as outras. Todavia, essa concepção tradicional de hierarquia urbana já não oferece uma boa descri- ção das relações estabelecidas entre as cidades no interior da rede urbana. Com os avanços da revolução técnico-científica, a acelerada modernização dos sistemas de transporte e de telecomunicação, o barateamento e a maior facilidade de obtenção de energia, a disseminação de aviões, trens e auto- móveis mais velozes, enfim, com a redução do tempo de deslocamento, as relações entre as cidades já não seguem mais essa dinâmica. No atual está- gio informacional do capitalismo, estruturou-se uma novahierarquia urbana, na qual a relação da vila ou da cidade local pode se dar com o centro regional, com a metrópole regional ou até mesmo diretamente com a metrópole nacio- nal. Compare os esquemas a seguir. Fonte: elaborado com base em SANTOS, Milton. Metamorfoses do espaço habitado. 5. ed. São Paulo: Hucitec, 1997. p. 55. Esquema clássico de relações entre as cidades em uma rede urbana Metrópole nacional Metrópole regional Centro regional Cidade local Vila Esquema atual de relações entre as cidades em uma rede urbana Metrópole regional Centro regional Cidade local Vila Metrópole nacional Il u s tr a ç õ e s : C a s s ia n o R ö d a /A rq u iv o d a e d it o ra R e p ro d u ç ã o /w w w . e m p la s a .s p .g o v. b r Empresa Paulista de Planejamento Metropolitano S.A. (Emplasa). Disponível em: www.emplasa.sp.gov.br. Acesso em: 5 ago. 2020. O site contém dados sobre as regiões metropolitanas e aglomerações urbanas do estado de São Paulo (a Macrometrópole Paulista) e do Brasil. Saber 107 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap3_094a121.indd 107V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap3_094a121.indd 107 24/09/2020 10:5824/09/2020 10:58 O capitalismo, em sua atual etapa informacional, com o avanço da globa- lização e a consequente aceleração de fluxos no espaço geográfico planetá- rio, criou uma rede urbana mundial cujos principais nós ou pontos de interco- nexão são as chamadas cidades globais. No mundo há várias hierarquizações de cidades, das quais a mais co- nhecida é a produzida pelo grupo de pesquisa Globalization and World Cities (GaWC), ligado à Universidade de Loughborough, no Reino Unido, que classifi- ca as cidades globais em alfa, beta e gama, de acordo com o grau de conexão com outras cidades da rede urbana mundial e com a capacidade de polari- zação que exercem. Observe o mapa a seguir e perceba que nem sempre as maiores cidades são as mais conectadas. O grau de conexão não tem a ver apenas com o tamanho da população, mas sobretudo com a infraestrutura que a cidade possui e com sua capacidade de oferecer bens e serviços varia- dos, o que gera diversos fluxos de entrada e saída. Cidades globais alfa, segundo GaWC — 2018 OCEANO ATLÂNTICOOCEANO PACÍFICO OCEANO PACÍFICO OCEANO ÍNDICO OCEANO GLACIAL ÁRTICO Equador Trópico de Câncer Trópico de Capricórnio Círculo Polar Ártico 0º 0º M er id ia n o d e G re en w ic h Nova York Londres Dublin Amsterdã Bruxelas Moscou Varsóvia Istambul Viena Frankfurt Paris Madri Zurique Dubai Nova Délhi Riad Lisboa Mumbai Kuala Lumpur Sydney Melbourne Cingapura Jacarta Hong Kong Taipé Guangzhou Shenzhen Manila Xangai Tóquio SeulPequim Milão Roma Barcelona Luxemburgo Washington, D.C. Chicago Toronto Montreal Miami São Francisco Santiago Buenos Aires Los Angeles Cidade do México São Paulo Johannesburgo Bogotá Praga Budapeste Munique Estocolmo Houston Bangcoc Alfa ++ Alfa + Alfa Alfa – Cidades globais 0 2075 4150 km Fonte: elaborado com base em GaWC. O mundo de acordo com GaWC 2018. Disponível em: https://www.lboro.ac.uk/gawc/world2018t.html. Acesso em: 8 set. 2020. • Há dois conceitos fundamentais para compreender as cidades e suas relações no espaço geográfico – rede urbana e hierarquia urbana. a) Conceitue-os, mostrando suas diferenças. b) Explique as diferenças fundamentais entre o esquema clássico e o esquema atual de hierarquia urbana. Veja as respostas no Manual do Professor. Interpretar NÃO ESCREVA NO LIVRO P o rt a l d e M a p a s /A rq u iv o d a e d it o ra 108 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap3_094a121.indd 108V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap3_094a121.indd 108 24/09/2020 10:5824/09/2020 10:58 CONEXÕ ES CIÊNCIAS DA NATUREZA E SUAS TECNOLOGIAS NÃO ESCREVA NO LIVRO O papel das cidades globais A questão internacional mais ventilada nos últimos anos foi o ressurgimento do naciona- lismo [...] porém, [essa] não é a principal das várias tendências que estão moldando nos- so futuro. Pode muito bem ser um “momento” e não um movimento de longo prazo. Esta é a tese de um importante texto postado poucas semanas atrás por Ivo Daalder, presidente do Chicago Council on Global Affairs. Ele escreveu: “A tendência mais importante de nossa época é a urbanização. Pela primeira vez na história, a população é mais urbana que rural. E o ritmo da urbanização está aumentando a olhos vis- tos. Só este ano as cidades ganharão 80 milhões de pessoas. São 200 mil por dia. A maioria de- las está se mudando para cidades com 500 mil habitantes ou mais. As grandes cidades respon- dem por três quartos da oferta mundial de bens, serviços e empregos. [...]”. Obviamente, nem tudo são flores. As dificul- dades com que as megalópoles se deparam são o reverso da moeda. [...] Mudanças climáticas têm um impacto, ao que tudo indica, crescente na vida urbana. [...] Tais áreas são grandes poluidoras da água e da atmosfera, respondendo por setenta por cento das emissões de CO2. Devido à falta de dinheiro e de vontade política ou competência por parte das autoridades, a poluição dos cursos d’água é uma dolorosa cena que os residentes de São Paulo são obrigados a contemplar diariamente. LAMOUNIER, Bolívar. O papel das cidades globais. IstoÉ, 13 jun. 2019. Disponível em: https://istoe.com.br/o-papel-das-cidades- globais/. Acesso em: 12 ago. 2020. NÃO ESCREVA NO LIVRO Veja as respostas das atividades desta seção no Manual do Professor. Fonte: elaborado com base em THE MORI MEMORIAL FOUNDATION. Institute for Urbans Strategies. Global Power City Index 2018. Tokyo, 2018. Disponível em: http://mori-m-foundation. or.jp/pdf/GPCI2018_ summary.pdf. Acesso em: 30 mar. 2020. • Leia o texto e em seguida compare a classificação das cidades globais alfa feita pelo grupo de estu- dos GaWC (página anterior) com a do Instituto de Pesquisas The Mori Memorial Foundation. Equador Círculo Polar Ártico Trópico de Câncer Trópico de Capricórnio 0° 180° OCEANO PACÍFICO OCEANO ÍNDICO OCEANO GLACIAL ÁRTICO OCEANO ATLÂNTICO OCEANO ATLÂNTICO 2o Nova York3o Tóquio 7o Seul 1o Londres 6o Amsterdã 8o Berlim 17o Viena4o Paris 9o Hong Kong 5o Cingapura 35o Taipé 20o Boston 14o Toronto 19o Chicago 12o Los Angeles 39o Cidade do México 40o São Paulo 38o Buenos Aires 10o Sydney 41o Jacarta 32o Kuala Lumpur 42o Johannesburgo 36o Bangcoc43o Mumbai 13o São Francisco 21o Vancouver 27o Washington, D.C. 26o Xangai 23o Pequim 11o Estocolmo 33o Moscou 18o Copenhague 25o Bruxelas 30o Genebra 31o Milão 24o Barcelona 22o Madri 34o Istambul 44o Cairo 29o Dubai 15o Frankfurt 16o Zurique 37o Fukuoka 28o Osaka Economia P&D Interação cultural Moradia Meio ambiente Facilidade de acesso As 10 principais cidades globais 1310,6 1265,9 1237,5 1232,2 1204,9 1200,7 0 200 400 600 800 1000 1200 1400 1600 1700 1692,3 1565,3 1462,0 1393,9 0 2 700 5400 km 10o 9o 8o 7o 6o 5o 4o 3o 2o 1o Cidades globais, segundo The Mori Memorial Foundation — 2018 P o rt a l d e M a p a s /A rq u iv o d a e d it o ra a) Quais cidades estão entre as dez principais nas duas classificações? b) Há alguma cidade brasileira nas duas clas- sificações? Qual é a posição dela nos dois rankings de cidades globais? O que se pode concluir disso? c) Aponte as semelhanças e as diferenças nas projeções cartográficas de ambos os mapas. d) O que significa dizer que “a tendência mais importante de nossa época é a urbaniza- ção”? Qual é o papel das cidades globais? Que problemas elas enfrentam? 109 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap3_094a121.indd 109V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap3_094a121.indd 109 24/09/2020 10:5824/09/2020 10:58 DIÁLOGOS NÃO ESCREVA NO LIVRO 1. O professor, arquiteto e urbanista Candido Malta Campos Filho (1936-) propõe que as pessoas avaliem em três níveis a organização de sua vida em relação ao acesso ao comércio e serviços: • apoio imediatoà moradia, utilizado diária ou semanalmente, como qui- tanda, açougue, bar, padaria, cabeleireiro, mercadinho, etc.; • apoio imediato à moradia, mas com menor demanda, como lojas de rou- pas e eletrodomésticos, grandes supermercados; Veja as respostas das atividades desta seção no Manual do Professor. • apoio a outras atividades urbanas, com frequência bem menor que as duas anteriores, como relojoaria, loja de automóveis, equipamentos in- dustriais, entre outros. A diferença de demanda implica a distância a que cada estabelecimen- to deveria estar do local de moradia para garantir boa qualidade de vida, determinando aquilo a que se pode ter acesso a pé ou não. Campos Filho diz ainda que as escolas para crianças e jovens deveriam ser acessíveis a pé, e o trajeto, seguro o suficiente para eles irem sozinhos, assim como a distância de nossa casa até o acesso ao ponto ou entrada do sistema de transporte coletivo. Observe o croqui da malha urbana que ele apresenta e elabore um similar para retratar a sua realidade espacial. Embora a urbanização seja fenômeno global, ainda é difícil encontrar serviços básicos em todas as partes de uma cidade. te le 5 2 /S h u tt e rs to c k 110 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap3_094a121.indd 110V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap3_094a121.indd 110 24/09/2020 10:5824/09/2020 10:58 2. Elabore dois croquis cartográficos do bairro em que você mora, um deles para representar a realidade atual, localizando e nomeando os principais problemas urbanos presentes, e o segundo representando como deveria ser organizado o espaço urbano do bairro para favorecer a justiça social e a qualidade ambiental. Ver respostas e orientações no Manual do Professor. Fonte: elaborado com base em CAMPOS FILHO, C. M. Reinvente seu bairro. São Paulo: Editora 34, 2010. p. 18. Ir a pé para a escola é uma possibilidade para poucas pessoas nos grandes centros urbanos. Lógica da localização da moradia em relação ao comércio e serviços locais Sua casa Condução é exigida 2 3 1 B a n c o d e i m a g e n s /A rq u iv o d a e d it o ra Legenda: 1 Sua casa 2 Distância confortável a pé 3 Distância que exige condução R aw p ix e l. c o m /S h u tt e rs to ck 111 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap3_094a121.indd 111V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap3_094a121.indd 111 24/09/2020 10:5824/09/2020 10:58 Os problemas sociais urbanos Desigualdades e segregação socioespacial O medo da violência urbana e a busca por mais segurança e tranquilidade vêm impulsionando a criação de condomínios fecha- dos, sobretudo nas metrópoles. Para isso, muitas pessoas de alto e médio poder aquisitivo mudam-se para esse tipo de conjunto residencial. Esse fenômeno acentua a segregação socioespacial e reduz os espaços urbanos públicos, uma vez que promove o cres- cimento de espaços privados e de circulação restrita. Além disso, muitos bairros, ao perderem habitantes, sofrem um processo de deterioração urbana, caso de algumas áreas do centro de gran- des cidades, como São Paulo (SP), Rio de Janeiro (RJ), Salvador (BA), Recife (PE), São Luís (MA), entre outras. Muitas prefeituras procuram revitalizar as áreas degradadas das cidades por meio de As duas fotos são da cidade do Rio de Janeiro (RJ). À esquerda, praia de Ipanema, na zona sul, com o morro Dois Irmãos ao fundo, em 2017. À direita, Vicente de Carvalho, bairro da zona norte, com o morro do Juramento ao fundo, em 2015. É possível que muitas pessoas vivam na zona sul sem conhecer bairros mais distantes do centro da cidade, do mesmo modo que muitos moradores da periferia pouco frequentam os bairros centrais. Pelourinho, em Salvador (BA), em 2020, após o projeto de revitalização urbana. Em qualquer grande cidade do mundo, o espa- ço urbano é fragmentado, apresentando funções comerciais, financeiras, industriais, residenciais e de lazer. É comum que funções diferentes coexis- tam não apenas no centro, mas também em bair- ros que, assim, polarizam seus vizinhos. Por isso, essas cidades são policêntricas. Essa fragmentação, quase sempre associa- da a um intenso crescimento urbano, impede que os habitantes vivenciem a cidade como um todo, pois se atêm apenas aos fragmentos que fazem parte do seu dia a dia. O lugar de moradia, trabalho, estudo ou lazer é onde se estabelecem as relações pessoais e sociais. Entretanto, em uma metrópole, tais lugares tendem a não ser coincidentes, o que provoca deslocamentos e aumento de congestionamentos. Pode-se dizer, então, que a grande cidade não é um lugar, mas um conjunto de lugares, e que os cidadãos a vi- venciam parcialmente. As desigualdades sociais se materializam na paisagem urbana. Quanto mais acentuadas as disparidades de renda en- tre a população, maiores são as desigualdades de moradia, de acesso aos serviços públicos e, portanto, de oportunidades culturais e profissio- nais. Consequentemente, a segregação socioes- pacial, isto é, a separação das classes sociais em bairros diferentes em virtude do poder aquisitivo desigual, e os problemas urbanos são maiores também. Observe as fotos. J o a o C a rl o s G o m e s /S h u tt e rs to c k L u iz S o u za /F u tu ra P re s s G a lin a S a v in a /S h u tt e rs to c k 112 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap3_094a121.indd 112V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap3_094a121.indd 112 24/09/2020 10:5824/09/2020 10:58 incentivos fiscais para atrair comerciantes e pres- tadores de serviços, o que acaba gerando outros problemas como resultado da gentrificação. Gentrificação é um conceito criado pela soció- loga britânica Ruth Glass (1912-1990), derivado da palavra inglesa gentrification (gentry, “pequena nobreza”), para descrever transformações obser- vadas em alguns bairros operários da cidade de Londres que se tornaram bairros nobres. Em linhas gerais, a gentrificação é a valorização de determi- nado espaço urbano combinada com a especula- ção imobiliária e tem ocorrido em muitas grandes cidades, sobretudo em áreas centrais que antes eram desvalorizadas e que, por terem custo de vida mais baixo, abrigavam população de baixa renda. Quando empresas do setor imobiliário adqui- rem imóveis nessas áreas com a intenção de reformá-los ou derrubá-los para a construção de novos empreendimentos, começam a pressionar o poder público a fazer reformas “modernizantes”, como abertura de avenidas, instalação de museus e equipamentos culturais, comércios elitistas, até que se torne impossível para moradores de renda mais baixa continuar arcando com os custos de vida na região. O problema não é a revitalização de uma área antes degradada, mas a especulação imobiliária e financeira, que eleva os preços de aluguéis e de serviços e que, na prática, efetua a substituição de uma classe social de menor poder aquisitivo por outra com mais recursos financei- ros, perpetuando a segregação socioespacial ao marginalizar pessoas mais pobres em regiões pe- riféricas e dificultando-lhes o acesso aos serviços centrais da cidade. NÃO ESCREVA NO LIVRO • Como quase tudo que diz respeito às ações humanas, há diferentes leituras e interpretações para um mesmo fato ou fenômeno. Converse com os colegas sobre o assunto. Há algum caso de gentrificação na cidade ou na região em que vocês moram? O que vocês pensam sobre isso? Veja a resposta no Manual do Professor. Conversa Para alguns pesquisadores, as ações de revitalização urbana executadas no Pelourinho, em Salvador, no Recife Antigo, em Recife, no bairro da Luz, em São Paulo, no centro histórico de São Luís, e o projeto Porto Maravilha, no centro do Rio de Janeiro, entre outros exemplos, em alguma medida caracte- rizam processos “gentrificadores”. [...] Além dos dissensos sobre as causas e agentes responsáveis pelos processos de gentrificação, intelectuais e ativistas de diferentes espectros políticos divergem quanto aos seus efeitos, havendo quem denuncie as expulsões e o aumento da desigualdade e da segregação nas cidades, equem defenda o processo como sendo benéfico por atrair investimentos e promover melhorias em regiões tidas como degradadas. [...] ALCÂNTARA, Maurício Fernandes de. Gentrificação. In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. 2018. Disponível em: http://ea.fflch. usp.br/conceito/gentrificação. Acesso em: 16 jun. 2020. A gentrificação pode se dar pela chegada de novos investidores e moradores a um bairro degradado ou por pressão para obras de revitalização urbana e consequente aumento do preço dos imóveis e do custo de vida, impossibilitando que moradores que sempre viveram na região tenham condições de arcar com o aumento de preços. A le u ti e /S h u tt e rs to c k 113 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap3_094a121.indd 113V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap3_094a121.indd 113 24/09/2020 10:5824/09/2020 10:58 O problema da moradia A cidadania também se expressa nas condições materiais de vida das pes- soas. E morar, ter uma casa, um lar, é um direito humano fundamental para que todos tenham segurança física e emocional. Moradia porém é um proble- ma crônico das grandes cidades. Uma de suas causas é o êxodo populacional, pois muitas cidades de países em desenvolvimento não tiveram condições econômicas de absorver a grande quantidade de pessoas que em pouco tem- po migraram da zona rural e das cidades menores, aumentando o número de desempregados. Para sobreviver, muitas pessoas se submetem ao subempre- go e à economia informal. Como os rendimentos, mesmo para trabalhadores da economia formal, em geral são baixos, muitos não têm condições de arcar com os altos custos de aquisição de um imóvel ou do aluguel de residências confortáveis e bem localizadas no território municipal, áreas que justamente são as mais valorizadas e, portanto, mais caras. A saída que encontram é partir em busca de imóveis com preços mais baixos na periferia distante, onde a rede comercial e de serviços públicos, como escolas, postos de saúde, equipamen- tos de lazer e cultura, tende a ser menor ou até ausente, e menos servida pelo sistema de transporte, o que impacta a vida pessoal cotidiana com a perda de horas no ir e vir do trabalho. Ou se veem impelidos a habitar imóveis em con- dições inadequadas, como os cortiços, ou a formar favelas ou outros tipos de aglomerado subnormal, porém em áreas centrais. Essa é a face mais visível do crescimento desordenado das cidades e da segregação socioespacial. De acordo com o Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Hu- manos (agência da ONU sediada em Nairóbi, Quênia, mais conhecida como UN-Habitat), uma ou mais das seguintes características definem um assen- tamento urbano precário, que o IBGE denomina aglomerado subnormal: • Ocupação irregular: as pessoas ocupam terrenos dos quais não possuem título de propriedade. • Condições inseguras de habitação. • Baixa qualidade estrutural das construções e moradias apertadas e su- perlotadas. • Acesso inadequado a saneamento básico – água potável e tratamento de esgoto – e a demais infraestruturas. Aglomerado subnormal De acordo com o IBGE, aglomerado subnormal é um tipo de ocupação irregular de terrenos públicos ou privados para a habitação em áreas urbanas. Geralmente, o aglomerado subnormal possui um padrão irregular, está localizado em áreas que não deveriam ser ocupadas e, na maioria das vezes, sem a oferta de serviços públicos essenciais. Esses aglomerados recebem várias nomeações, como favelas, invasões, grotas, baixadas, comunidades, vilas, ressacas, loteamentos irregulares, mocambos e palafitas, entre outras. Conceitos As moradias precárias foram erguidas nos interstícios da cidade formal, geralmente onde havia terrenos disponíveis, muitas vezes em áreas inadequadas para ocupação, como morros, sujeitos a desmoronamentos e deslizamentos, e margens de rios e córregos, sujeitas a alagamento, e, por isso, menos valorizadas. Na foto, Beco do Sururu, assentamento precário à beira do rio Capibaribe, em Recife (PE), em 2015. C h ic o F e rr e ir a /P u ls a r Im a g e n s 114 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap3_094a121.indd 114V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap3_094a121.indd 114 24/09/2020 10:5824/09/2020 10:58 • Como é a questão da moradia no lugar em que vocês vivem? As moradias em geral são adequadas ou apresentam problemas? Caso apresentem problemas, o que vocês acham que é possível fazer para melhorar essa situação? O que vocês pensam da possibilidade de as pessoas, em vez de terem a propriedade da moradia, pagarem aluguel social, ou seja, um aluguel subvencionado pelo Estado? Observe a foto e pesquisem outros exemplos de aluguel social no mundo. Conversa Deficit habitacional atinge maior marca em 10 anos; solução pode vir da academia. Ed Wanderley e Lorena Barros. Último Segundo, 31 ago. 2019. Disponível em: https:// ultimosegundo.ig.com.br/brasil/2019-08-31/deficit-habitacional-atinge-maior-marca-em- 10-anos-solucao-pode-vir-da-academia.html. Acesso em: 16 jun. 2020. Infográfico animado sobre deficit habitacional e diferenciações e definições conceituais a respeito das diferentes categorias de habitação precária. Parasita. Diretor: Bong Joon-ho. Coreia do Sul, 2019. (2 h 12 min) O filme, ganhador de quatro Oscars, conta a história da família de Ki-taek, que vive em um cortiço e tenta ascender socialmente ao enganar uma família rica. Também mostra que mesmo em países ricos há pessoas vivendo em moradias precárias e como até mesmo coisas simples, como áreas verdes e acesso a áreas ensolaradas, são negadas àqueles que vivem nas periferias. Saber Edifícios residenciais construídos pelo Estado no distrito de Toa Payoh, Cingapura (os prédios mais baixos, em primeiro plano), em 2017. Segundo o Housing & Development Board (HDB), órgão governamental que constrói e administra os prédios, cerca de 80% da população vive em moradias como essas, os chamados HDB flats, pelos quais pagam aluguel social. Os governos têm grande parcela de responsa- bilidade nesse processo, pois não implantaram políticas públicas adequadas, sobretudo no setor habitacional, para enfrentar o problema. Nos paí- ses em que políticas públicas foram adequadas, paralelamente ao aumento da oferta de empregos e à elevação da renda e da qualidade de vida, as moradias precárias foram bastante reduzidas ou até mesmo erradicadas. Um dos melhores exemplos é Cingapura. De acordo com o Banco Mundial, em 1965, quando o país se tornou independente, 70% de sua popula- ção vivia em condições muito precárias: a renda per capita era de 2 700 dólares ao ano, e o desem- prego atingia 14% da População Economicamente Ativa (PEA). Após cinco décadas de elevados inves- timentos públicos em habitação, em infraestrutura urbana e em serviços públicos de qualidade, hou- ve crescimento econômico sustentado, elevação e melhor distribuição da renda, erradicação das submoradias e, consequentemente, melhoria da qualidade de vida da população. Em 2018, segun- do o Banco Mundial, Cingapura tinha uma renda per capita de 58 770 dólares, e o desemprego atingia 3,8% da PEA masculina e 4,3% da feminina. A carência de habitações seguras e confortá- veis é um problema mundial, mas principalmente nos países em desenvolvimento. Segundo a UN- -Habitat, o percentual de pessoas que vivem em as- sentamentos precários caiu de 46% da população K u a C h e e S io n g /S in g a p o re P re s s H o ld in g s /A F P R e p ro d u ç ã o /P a n d o ra F ilm e s R e p ro d u ç ã o /u lt im o s e g u n d o .i g .c o m .b r Veja respostas no Manual do Professor. 115 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap3_094a121.indd 115V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap3_094a121.indd 115 24/09/2020 10:5824/09/2020 10:58 urbana mundial em 1990 para 23% da população urbana mundial em 2014. Ainda é um número muito alto, uma vez que corresponde a quase 1 bilhão de pessoas (exatamente 996,8 milhões). O Leste da Ásia é a região com maiornúmero absoluto de submoradias. Embora a China e a Índia tenham reduzido significativamente a quantidade de pessoas que vivem em moradias precárias, ainda são os países que apresentam os maiores números absolutos. É preciso lembrar que, juntos, eles detêm cerca de 36% da população mundial. O Brasil é o quarto país com maior contingente de moradores em aglomerados subnor- mais. O maior número relativo de moradores em assentamentos precários apa- rece na África subsaariana. Na Nigéria, país com o maior número de habitantes em submoradias nessa região, o percentual de pessoas que vivem em habita- ções precárias chega à metade da população urbana. Nesse subcontinente no entanto há países com percentuais bem mais altos, como a República Centro- -Africana, onde 93% da população urbana vive em favelas. Número de moradores em assentamentos urbanos precários por região — 2014 OCEANO PACÍFICO OCEANO PACÍFICO OCEANO ATLÂNTICO OCEANO GLACIAL ÁRTICO OCEANO ÍNDICO 0,8M 69M 228M 589M 0,007M 110M Equador Trópico de Câncer Círculo Polar Ártico Trópico de Capricórnio 0º 0º M er id ia n o d e G re en w ic h 0 5 800 11 600 km Fonte: elaborado com base em UNITED NATIONS Human Settlements Programme (UN-Habitat). Urban Indicators Database. Population (per region) living in slums and informal settlements, 2014. Disponível em: https://urban-data- guo-un-habitat.hub.arcgis.com/pages/global-monitoring-of-slums. Acesso em: 14 jun. 2020. * A UN-Habitat usa o termo slum (do inglês), no entanto, reconhece que essa palavra é utilizada para definir uma grande variedade de tipos de assentamento urbano precário espalhados por diferentes países. No Brasil, como vimos, o IBGE utiliza o termo técnico aglomerado subnormal para definir diversos tipos de moradia precária, porém a maioria das pessoas chama essas habitações precárias de favelas. Países com maior número de moradores em assentamentos urbanos precários* — 2014 País Total de moradores (em milhões) % do total da população urbana China 191,1 25,2 Índia 98,4 24,0 Nigéria 42,1 50,2 Brasil 38,5 22,3 Paquistão 32,3 45,5 Bangladesh 29,3 55,1 Indonésia 29,2 21,8 Fonte: UNITED NATIONS Human Settlements Programme (UN-Habitat). World Cities Report. Nairóbi, 2016. Disponível em: http://wcr.unhabitat.org/main-report. Acesso em: 14 jun. 2020. P o rt a l d e M a p a s /A rq u iv o d a e d it o ra 116 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap3_094a121.indd 116V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap3_094a121.indd 116 24/09/2020 10:5924/09/2020 10:59 Na foto, vista parcial de Orangi Town, em Karachi (Paquistão), em 2017. Nessa favela, a maior do mundo, vivem cerca de 2,4 milhões de pessoas. Em São Paulo (SP), cidade brasileira com o maior número de moradores em assentamentos precários, são cerca de 1,5 milhão de pessoas vivendo nessas condições, mas espalhadas por mais de 1 500 favelas. Teto (Techo). Disponível em: www. techo.org/brasil/. Acesso em: 14 jun. 2020. Essa ONG busca juntar voluntariado e comunidade para um trabalho em conjunto na busca de soluções para melhorar as condições de vida das pessoas excluídas e sem moradia. Para saber mais sobre sua atuação, acesse o site da organização em português. Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Disponível em: www.ipea.gov. br/portal/index. php?option=com_con tent&view=article&id =34784&Itemid=432. Acesso em: 13 jun. 2020. Acessando o site do Ipea pode-se consultar o Atlas de Violência 2019, com dados para todos os estados brasileiros. Há também publicações sobre o Estado, as instituições e a democracia no Brasil. Saber Na tentativa de encaminhar soluções para diversos problemas urbanos, entre os quais os assentamentos precários, foi realizada em Istambul, na Turquia, em 1996, a Conferência das Nações Unidas sobre Assentamentos Humanos – Habitat II. A primeira reunião, Habitat I, aconteceu em Vancouver, Canadá, em 1976; e a Habitat III ocorreu em Quito, Equador, em 2016. A Habitat II reuniu representantes dos países-membros da ONU e de diver- sas ONGs. Nesse encontro, ficou decidido que os governos deveriam criar con- dições para que o acesso à moradia segura, habitável, salubre e sustentável fosse universalizado. Diversos governos, porém, entre os quais o dos Estados Unidos e o do Brasil, foram contra a proposta de que a habitação fosse consi- derada um direito universal do cidadão e, portanto, garantida pelo Estado, para não serem cobrados judicialmente pela não garantia desse direito. Em diversas cidades do mundo, tanto nos países em desenvolvimento quanto nos desenvolvidos, pessoas sem-teto se organizam para lutar pelo di- reito à moradia urbana adequada e por melhores condições de vida. Uma ou outra dessas organizações tem atuação nacional, mas a maioria delas atua lo- calmente. Há também organizações com atuação internacional, como a TETO (ou TECHO, em espanhol), organização não governamental (ONG) criada em 1997, no Chile, que atua em quase toda a América Latina, até mesmo no Brasil. • Com base na observação das fotos ao longo do capítulo e no conhecimento da realidade brasileira e mundial, responda: a) De que forma as desigualdades sociais se materializam nas paisagens urbanas? b) Essa realidade é visível na paisagem do lugar em que você vive? Veja as respostas no Manual do Professor. Interpretar NÃO ESCREVA NO LIVRO A s im H a fe e z/ B lo o m b e rg /G e tt y I m a g e s R e p ro d u ç ã o /w w w .i p e a .g o v. b r R e p ro d u ç ã o /w w w .t e ch o .o rg 117 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap3_094a121.indd 117V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap3_094a121.indd 117 24/09/2020 10:5924/09/2020 10:59 DIÁLOGOS NÃO ESCREVA NO LIVRO 1. Os trechos a seguir são recortes de entrevistas e opiniões de diferentes atores sociais (advogados, pesquisadores, empresários, professores uni- versitários) sobre casos distintos, mas todos dialogando com a questão da moradia. Leia e em seguida faça as atividades. Texto A “Chegamos ao recorde da série histórica de déficit habitacional. Hoje, ele ocorre, sobretudo, pela inadequação da moradia – famílias que divi- dem a mesma casa, moram em cortiços, favelas – e pelo peso excessivo que o aluguel passou a ter no orçamento das famílias nos últimos anos”, afirma Robson Gonçalves, da FGV. [...] “É uma oportunidade para o mercado, são poucos os países do mundo que têm uma demanda tão expressiva”, diz Alexandre Frankel, presidente da Vitacon. “Vemos um novo ciclo se formando no setor e, se tudo correr bem na economia, os próximos dois anos podem ser de retorno a um mo- mento melhor do mercado imobiliário.” “Temos de olhar com otimismo para o mercado, que é saudável e tem uma forte demanda, não só dos consumidores de baixa renda. A demanda é grande entre os que dependem de financiamento com recursos da pou- pança também”, avalia o presidente da MRV, Eduardo Fischer. Ele lembra que os juros básicos estão em um patamar baixo, a 6,5% ao ano, o que alivia na hora de contratar um financiamento imobiliário. [...] GAVRAS, Douglas. Déficit habitacional é recorde no país. Estadão. São Paulo, 7 jan. 2019. Disponível em: https://economia.uol.com.br/noticias/estadao-conteudo/2019/01/07/deficit- habitacional-e-recorde-no-pais.htm. Acesso em: 15 jun. 2020. Texto B [...] “O emprego tem relação direta com a moradia. Por causa do alto índice de desemprego, as pessoas passam a morar em situações precárias porque não têm acesso ao trabalho nem condições de pagar um aluguel”, diz o advogado Benedito Barbosa, 59. Barbosa trabalha com ações de despejo pelo Centro Gaspar Garcia de Direitos Humanos, uma ONG para inclusão social de moradores de habi- tações precárias, desde 2006. Estima-se que em São Paulo, com seu 1,8 milhão de desempregados, existam 391 mil domicílios em espaços precários (como favelas e corti- ços), somando 2 milhões de pessoas — ou 11% da população. [...] Para Aluízio Marino, 32, doutorando em Planejamento e Gestão do Territó-rio pela Universidade Federal do ABC, o termo “déficit habitacional” é incorreto. “A moradia é vista como mercadoria, não como direito. Então, não é que fal- tam moradias. O que falta é uma política habitacional adequada”, afirma. [...] SILVA, Eduardo. São Paulo tem déficit de 474 mil moradias, diz estudo. Folha de S.Paulo. São Paulo, 7 set. 2019. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2019/09/sao- paulo-tem-deficit-de-474-mil-moradias-diz-estudo.shtml. Acesso: 15 jun. 2020. Veja as respostas das atividades desta seção no Manual do Professor. 118 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap3_094a121.indd 118V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap3_094a121.indd 118 24/09/2020 10:5924/09/2020 10:59 Texto C A juíza federal substituta da 3a Vara da Justiça Federal no Amazonas, Raffaela Cássia de Sousa, determinou, em sentença assinada no último dia 09 de novembro, a reintegração de posse do terreno onde está loca- lizada desde 2014 a comunidade indígena Parque das Tribos, no bairro Tarumã, na zona oeste de Manaus. No local vivem cerca de mil famílias. Elas são originárias de 35 etnias, entre elas, Apurinã, Baré, Mura, Kokama, Tikuna, Wanano, Sateré-Mawé e Tukano. Na decisão judicial, que atendeu ação movida pelo empresário do ramo imobiliário Hélio Carlos de Carli, a juíza determina o uso da força policial para expulsar os indígenas do imóvel. [...] “Ela [juíza] afirma que não encontrou informações sobre a consolida- ção, mas há investimentos públicos no Parque das Tribos. As ruas estão asfaltadas com dinheiro público. Existe terraplanagem, eletrificação das ruas, energia legalizada pela Eletrobras, escola indígena com dois profes- sores pagos pela prefeitura de Manaus. Do ponto que ela toma como pre- cedente na decisão do STF, o Parque das Tribos está consolidado e, portan- to, está inviável a desocupação”, disse o advogado Isael Munduruku, que defende a comunidade Parque das Tribos. [...] FARIAS, Elaíze. Juíza manda expulsar indígenas do Parque das Tribos... Amazônia Real. Manaus, 26 nov. 2018. Disponível em: https://amazoniareal.com.br/ juiza-manda-expulsar-indigenas-do-parque-das-tribos-comunidade-que-recebeu- infraestrutura-da-prefeitura-de-manaus%E2%80%AF/. Acesso em: 15 jun. 2020. Texto D [...] Uma política habitacional de abrangência nacional, em um país de dimensões continentais, não pode ter como único programa a constru- ção e a transferência de propriedade de novas unidades habitacionais. É preciso associar programas de urbanização de favelas e assentamentos precários, melhorias habitacionais, regularização fundiária, ocupação de áreas vazias e subutilizadas, recuperação de imóveis em áreas centrais para moradia social e, ainda, um programa de locação social para as fa- mílias de menor renda, que não têm condição de arcar com os custos decorrentes da propriedade individual. [...] ROLNIK, Raquel. Programa Minha Casa Minha Vida precisa ser avaliado... Blog da Raquel Rolnik, 10 nov. 2014. Disponível em: https://raquelrolnik.wordpress.com/2014/11/10/ programa-minha-casa-minha-vida-precisa-ser-avaliado-nota-publica-da-rede-cidade- e-moradia/. Acesso em: 15 jun. 2020. a) Identifique as opiniões expressadas sobre o tema, agrupando-as de acordo com afinidade ou não de seus pontos de vista, e, em seguida, elabore um breve texto relacionando os fatos apresentados nesses diferentes trechos. b) Por fim, escreva um artigo dissertativo-argumentativo sobre a causa e a solução para o problema da moradia no Brasil (ou na sua cidade, se preferir). Informe-se com seus professores sobre as características desse gênero textual ou consulte a internet: há muitos blogs, vídeos e sites que ensinam como escrevê-lo. Converse com eles também sobre a possibilidade de publicar seu artigo no site da escola, no jornal do bairro ou em algum outro meio de divulgação. 119 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap3_094a121.indd 119V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap3_094a121.indd 119 24/09/2020 10:5924/09/2020 10:59 1. (PPL-2012) a) aumento da geração de riquezas nas pro- priedades agrícolas. b) crescimento da oferta de empregos nas áreas cultiváveis. c) integração dos diferentes lugares nas ca- deias produtivas. d) redução das desigualdades sociais nas re- giões agrárias. e) ocorrência de crises financeiras nos gran- des centros. 3. (2013) Trata-se de um gigantesco movimento de construção de cidades, necessário para o as- sentamento residencial dessa população, bem como de suas necessidades de trabalho, abaste- cimento, transportes, saúde, energia, água etc. Ainda que o rumo tomado pelo crescimento ur- bano não tenha respondido satisfatoriamente a todas essas necessidades, o território foi ocupa- do e foram construídas as condições para viver nesse espaço. MARICATO, E. Brasil, cidades: alternativas para a crise urbana. Petrópolis: Vozes, 2001. A dinâmica de transformação das cidades ten- de a apresentar como consequência a expan- são das áreas periféricas pelo(a) a) crescimento da população urbana e aumen- to da especulação imobiliária. b) direcionamento maior do fluxo de pessoas, devido à existência de um grande número de serviços. c) delimitação de áreas para uma ocupação organizada do espaço físico, melhorando a qualidade de vida. d) implantação de políticas públicas que pro- movem a moradia e o direito à cidade aos seus moradores. e) reurbanização de moradias nas áreas cen- trais, mantendo o trabalhador próximo ao seu emprego, diminuindo os deslocamentos para a periferia. X X RIBEIRO, L. C. Q.; SANTOS, JUNIOR, O. A. Desafios da questão urbana. Le Monde Diplomatique Brasil. Ano 4, n. 45, abr. 2010. Disponível em: http://diplomatique.uol.com.br. Acesso em: 22 ago. 2011. A imagem registra uma especificidade do con- texto urbano em que a ausência ou ineficiência das políticas públicas resultou em a) garantia dos direitos humanos. b) superação do déficit habitacional. c) controle da especulação imobiliária. d) mediação dos conflitos entre classes. e) aumento da segregação socioespacial. 2. (PPL-2017) Está cada vez mais difícil delimitar o que é rural e o que é urbano. Pode-se dizer que o rural hoje só pode ser entendido como um continuum do urbano do ponto de vista espacial; e do ponto de vista da organização da atividade econômi- ca, as cidades não podem mais ser identificadas apenas com a atividade industrial, nem os cam- pos com a agricultura e a pecuária. SILVA, J. G. O novo rural brasileiro. Nova Economia, n. 7, maio 1997. As articulações espaciais tratadas no texto re- sultam do(a) X Ta le s A zz i/ P u ls a r Im a g e n s Ver respostas e orientações no Manual do Professor. 120 QUESTÕES DO ENEM NÃO ESCREVA NO LIVRO V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap3_094a121.indd 120V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap3_094a121.indd 120 24/09/2020 10:5924/09/2020 10:59 1. Após o estudo do capítulo, retome a atividade de abertura e reveja suas respostas. Você muda- ria algo? 2. Elabore um texto dissertativo-argumentativo relacionando a segregação socioespacial exis- tente no Brasil, a falta de direitos da cidadania, como o direito à cidade, em sentido mais amplo, e à moradia, em sentido mais restrito; a falta de oportunidades de estudo, trabalho e lazer, e as consequências disso tudo na vida de muitos jovens. Veja as respostas no Manual do Professor. Retome o contexto Mapa conceitual organizado pelos autores. Revoluções industriais Nacional Regional Mundial Cidades globais Metrópoles Megalópoles 1950 30% 1780 3% 2018 55% Processo de Urbanização Problemas urbanos Segregação socioespacial Moradia Violência Redes e hierarquias urbanas acelerou após em escala taxa de urbanização mundial deu origem a grandes aglomerações urbanas muitas estão entre as principais comandadas pelas criou principalmente dos países em desenvolvimento tais como acelerado gerou cresceram rapidamente como resultado Mesopotâmia Roma Babilônia Ur Civitas romanaCidade as primeiras foram erguidas por volta de 3 mil anos a.C. como conceito atual tem origem em associada à ideia de exercício destaque destaque Cidadãos Atenas Pólis grega Cidadania Política no entanto, poucos eram associada à ideia de exercício destaque 121 VOCÊ PRECISA SABER NÃO ESCREVA NO LIVRO 121 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap3_094a121.indd 121V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap3_094a121.indd 121 24/09/2020 10:5924/09/2020 10:59 OBJETIVOS • Reconhecer os Direitos Humanos como uma construção social ao longo da história. • Conhecer a História dos Direitos Civis e a Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948. • Distinguir os conceitos de diferenças e desigualdades mobilizados na elaboração dos Direitos Humanos. • Aplicar os conceitos de multiculturalismo, universalismo e relativismo para a compreensão dos Direitos Humanos. • Relacionar o Bill of Rights (Inglaterra), a Declaração dos Direitos (Estados Unidos) e a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (França) aos princípios edificantes dos Direitos Humanos. • Diferenciar direitos de primeira, segunda e terceira geração e relacioná-los a seus contextos e aos Direitos Humanos. • Conhecer os artigos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. • Reconhecer o papel das principais organizações não governamentais (ONGs) internacionais e suas áreas de atuação. • Mobilizar os princípios estruturantes dos Direitos Humanos para a compreensão e o engajamento em atuações locais, nacionais e internacionais. JUSTIFICATIVA A origem dos Direitos Humanos, elencados na Declaração Universal de 1948, remonta ao século XVIII e teve desdobramentos em pactos internacionais e em leis nacionais após a Segunda Guerra Mundial. Trata-se de um marco civilizacional muito importante para a noção de pertencimento à humanidade. Nesse sentido, é interessante conhecer o embate entre universalismo e relativismo na questão dos Direitos Humanos buscando um ponto de equilíbrio que contemple o respeito às diferenças culturais e, ao mesmo tempo, o respeito aos Direitos Humanos. É fundamental que cada indivíduo conheça os direitos inerentes à condição humana para que possamos exercê-los plenamente na construção e manutenção da cidadania e para que possamos cobrá-los, caso estejam sendo negligenciados ou violados. COMPETÊNCIAS E HABILIDADES DA BNCC • Competências gerais da Educação Básica: CG1, CG2, CG4, CG5, CG6, CG7, CG8, CG9 e CG10. • Competências e habilidades específicas das Ciências Humanas e Sociais Aplicadas: Competência 1: EM13CHS101; Competência 5: EM13CHS502 e EM13CHS503; Competência 6: EM13CHS604 e EM13CHS605. TEMAS CONTEMPORÂNEOS TRANSVERSAIS Cidadania e Civismo • Vida Familiar e Social • Educação em Direitos Humanos Multiculturalismo • Educação para a valorização do multiculturalismo nas matrizes históricas e culturais brasileiras Conhecer o significado dos Direitos Huma- nos, sua gênese, os pactos internacionais que os sustentam e de que forma se inserem no or- denamento jurídico brasileiro é fundamental para o reconhecimento de sua relevância para a huma- nidade e sua perpetuação, em escala local, nacio- nal ou internacional. Para começar, responda às questões propostas a seguir. 1. De acordo com o que você aprendeu nos capí- tulos anteriores, responda com suas palavras: O que são Direitos Humanos? Quando eles se tornaram universais? 2. Como você observa a compreensão e a aplica- ção dos Direitos Humanos em seu cotidiano? Trata-se de um valor universal ou há críticas aos seus princípios? O que você pensa sobre isso? 3. A Organização das Nações Unidas (ONU) regis- tra 193 países-membros e em cada um deles há povos com diferentes histórias, valores e culturas. A definição de valores universais, como os prescritos pela Declaração Universal dos Direitos Humanos, pode ameaçar práticas tradicionais de alguns desses países? Isso se- ria adequado ou justificado? Explique. Contexto Direitos Humanos e prática social4 C A P ÍT U LO C A P ÍT U LO NÃO ESCREVA NO LIVRO Veja as respostas no Manual do Professor. 122 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap4_122a157.indd 122V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap4_122a157.indd 122 24/09/2020 11:0124/09/2020 11:01 Gênese dos Direitos Humanos Os Direitos Humanos como construção política e social decorrem de uma longa história. São mui- tas as divergências sobre o início dessa constru- ção, mas nela estão as lutas, as revoluções, os mo- vimentos sociais, bem como a história das ideias, além das concepções filosóficas, éticas, políticas e religiosas que atuaram sobre os acontecimentos e foram por eles influenciadas. Foi com base nas reflexões desses fatos, processos e experiências que se construíram ou se reconstruíram conceitos acerca da sociedade e do ser humano, assim como sobre os direitos fundamentais de cada indivíduo. Formar um conjunto de regras para os seres humanos viverem em grupos e se constituírem como clãs, povos e sociedades é uma prática mui- to antiga. Entretanto, dificilmente essas regras eram pautadas em princípios que assegurassem o respeito a todos de forma igualitária ou justa. A distinção entre os indivíduos, seja por meio de força, gênero, etnia, cor, religião, seja por qualquer outro marcador de diferença, foi utilizada em dife- rentes lugares e épocas para constituir e “legiti- mar” situações de privilégios e ameaças. Essa distinção e as regras de organização so- cial são muito antigas e podem ser identificadas em sítios arqueológicos e registros rupestres e também em registros escritos, como aqueles ela- borados por Platão (428/427 a.C.-348/347 a.C.) e Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.), pensadores gregos que reconhecidamente se debruçaram sobre as concepções filosóficas desses temas na Antiguidade e refletiram sobre ética e moral, como muitos outros pensadores depois deles até a atualidade. Já na Modernidade, destacaram-se os pensadores ingleses Thomas Hobbes (1588- -1679), John Locke (1632-1704) e o franco-suíço Jean-Jacques Rousseau (1712-1778). Foram esses últimos que desenvolveram teo- rias de governos assentados no contratualismo. Locke, por exemplo, sustentava que os seres humanos, ao viverem em sociedade sob um po- der político, o fariam mediante um contrato social. Por meio desse contrato, recebiam a garantia do Estado a determinados direitos inalienáveis da dignidade humana, como o direito à vida, à liber- dade e à propriedade. Assim, o contrato social é um pacto civilizatório pelo qual os seres humanos se afastam de seu estado natural para preservar o essencial de seus direitos. Entre os avanços civilizatórios dos últimos séculos, três documentos, comentados a seguir, sistematizaram concepções sobre os direitos individuais, como resultados de embates, lutas e conquistas de diferentes contextos históricos. Tais documentos tratam de questões comuns e foram os precursores dos Direitos Humanos que conhecemos atualmente: • os direitos individuais proclamados no Bill of Rights (Declaração de Direitos) inglês da Re- volução Gloriosa de 1689; • a Declaração dos Direitos de 1791, as primei- ras 10 emendas à Constituição dos Estados Unidos (redigida em 1787); • a Declaração dos Direitos do Homem e do Cida- dão da Revolução Francesa de 1789. Leia partes desses documentos nas páginas seguintes. C a lv in & H o b b e s , B ill W a tt e rs o n © 1 9 8 9 W a tt e rs o n / D is t. b y A n d re w s M c M e e l S y n d ic a ti o n WATTERSON, B. Calvin e Haroldo. O Progresso Científico deu "Tilt". São Paulo: Best News, 1991. 123 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap4_122a157.indd 123V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap4_122a157.indd 123 24/09/2020 11:0124/09/2020 11:01 Documentos A Declaração Inglesa de Direitos – 1689 E portanto os ditos lordes espirituais e tempo- rais, e os comuns, respeitando suas respectivas car- tas e eleições, estando agora reunidos como plenos e livres representantes desta nação, consideran-do mui seriamente os melhores meios de atingir os fins acima ditos, declaram, em primeiro lugar (como seus antepassados fizeram comumente em caso semelhante), para reivindicar e garantir seus antigos direitos e liberdades: 1. Que é ilegal o pretendido poder de suspender leis, ou a execução de leis, pela autoridade real, sem o consentimento do Parlamento. 2. Que é ilegal o pretendido poder de revogar leis, ou a execução de leis, por autoridade real, como foi assumido e praticado em tempos passados. [...] 8. Que devem ser livres as eleições dos mem- bros do Parlamento. 9. Que a liberdade de expressão, e debates ou procedimentos no Parlamento, não devem ser im- pedidos ou questionados por qualquer tribunal ou local fora do Parlamento. [...] 13. E que os Parlamentos devem reunir-se com frequência para reparar todos os agravos, e para corrigir, reforçar e preservar as leis. E reclamam, pedem e insistem que todas es- sas premissas constituem seus direitos e liberda- des inquestionáveis; e que nenhumas declarações, julgamentos, atos ou procedimentos, para prejuí- zo do povo em alguma das ditas premissas, devem ser, de alguma maneira, tomadas no futuro como precedente ou exemplo. UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO. Biblioteca Virtual de Direitos Humanos. Disponível em: http://www. direitoshumanos.usp.br/index.php/Documentos-anteriores- %C3%A0-cria%C3%A7%C3%A3o-da-Sociedade-das- Na%C3%A7%C3%B5es-at%C3%A9-1919/a-declaracao-inglesa- de-direitos-1689.html. Acesso em: 26 jun. 2020. A Declaração Americana dos Direitos – 1791 Porque muitos cidadãos temiam que o novo go- verno central estabelecido pela Constituição dos Es- tados Unidos se tornasse demasiado poderoso foram propostas emendas para proteger a liberdade de ex- pressão, de imprensa, de religião e de outros direitos básicos. Foram aprovadas dez que hoje são conheci- das como a Declaração dos Direitos. Emenda I (Ratificada em 15 de Dezembro de 1791) O Congresso não legislará no sentido de esta- belecer uma religião, nem proibir o livre exercício de uma; nem cerceando a liberdade de expressão, ou de imprensa; ou o direito de o povo se reunir pacificamente e dirigir petições ao Governo para reparação de injustiças. Emenda III (Ratificada em 15 de Dezembro de 1791) Nenhum soldado deve, em tempo de paz, ficar alojado em qualquer casa sem o consentimento do proprietário, nem em tempo de guerra, a não ser da forma prescrita pela lei. Emenda IV (Ratificada em 15 de Dezembro de 1791) O direito do povo à inviolabilidade de pessoas, ca- sas, documentos e propriedade pessoal contra bus- cas e apreensões não razoáveis não deve ser violado, e não devem ser emitidos mandatos a não ser com causa provável apoiada por juramento ou declara- ção e descrevendo especificamente o local da busca e as pessoas ou coisas a serem apreendidas. Emenda V (Ratificada em 15 de Dezembro de 1791) Nenhuma pessoa será detida para responder por um crime capital, ou outro crime infame, sal- vo por denúncia ou acusação perante um Grande Júri [...]; nem pode qualquer pessoa ser julgada duas vezes pelo mesmo crime cuja condenação possa levar à pena capital ou ao encarceramen- to; nem ser obrigada a servir de testemunha em qualquer processo criminal contra si mesma, nem ser privada de vida, liberdade ou bens sem o devido processo legal; nem a propriedade privada poderá ser expropriada para uso público sem jus- ta indenização. Emenda VI (Ratificada em 15 de Dezembro de 1791) Em todos os processos penais o acusado terá direito a um julgamento rápido e público por um júri imparcial do Estado e distrito onde o crime te- 124 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap4_122a157.indd 124V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap4_122a157.indd 124 24/09/2020 11:0124/09/2020 11:01 nha sido cometido, distrito esse que será previa- mente estabelecido por lei, e a ser informado da natureza e causa da acusação; a ser confrontado com as testemunhas de acusação; a ter um pro- cesso obrigatório para obtenção de testemunhas a seu favor e a ter a assistência de um advogado para sua defesa. [...] Emenda IX (Ratificada em 15 de Dezembro de 1791) A enumeração de certos direitos na Constitui- ção não deverá ser interpretada como negação ou coibição de outros direitos inerentes ao povo. Emenda X (Ratificada em 15 de Dezembro de 1791) Os poderes não delegados aos Estados Unidos pela Constituição, nem por ela negados aos Esta- dos, são reservados aos Estados ou ao povo, res- pectivamente. EMBAIXADA DOS ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA. A Declaração dos Direitos. Disponível em: https://photos. state.gov/libraries/adana/30145/publications-other-lang/ PORTUGUESE-CONTINENTAL.pdf. Acesso em: 26 jun. 2020. A Declaração de Direitos do Homem e do Cidadão – 1789 Os representantes do povo francês, reunidos em Assembleia Nacional, tendo em vista que a ignorância, o esquecimento ou o desprezo dos di- reitos do homem são as únicas causas dos males públicos e da corrupção dos Governos, resolve- ram declarar solenemente os direitos naturais, inalienáveis e sagrados do homem, a fim de que esta declaração, sempre presente em todos os membros do corpo social, lhes lembre perma- nentemente seus direitos e seus deveres [...]. Em razão disto, a Assembleia Nacional reco- nhece e declara, na presença e sob a égide do Ser Supremo, os seguintes direitos do homem e do cidadão: Art.1o Os homens nascem e são livres e iguais em direitos. As distinções sociais só po- dem fundamentar-se na utilidade comum. Art. 2o A finalidade de toda associação po- lítica é a conservação dos direitos naturais e imprescritíveis do homem. Esses direitos são a liberdade, a propriedade a segurança e a resis- tência à opressão. [...] Art. 4o A liberdade consiste em poder fazer tudo que não prejudique o próximo. Assim, o exercício dos direitos naturais de cada homem não tem por limites senão aqueles que assegu- ram aos outros membros da sociedade o gozo dos mesmos direitos. Estes limites apenas po- dem ser determinados pela lei. [...] Art. 6o A lei é a expressão da vontade geral. [...] Ela deve ser a mesma para todos, seja para prote- ger, seja para punir. Todos os cidadãos são iguais a seus olhos e igualmente admissíveis a todas as dignidades, lugares e empregos públicos, segun- do a sua capacidade e sem outra distinção que não seja a das suas virtudes e dos seus talentos. [...] Art. 9o Todo acusado é considerado inocen- te até ser declarado culpado e, se julgar indis- pensável prendê-lo, todo o rigor desnecessário à guarda da sua pessoa deverá ser severamente reprimido pela lei. Art. 10o Ninguém pode ser molestado por suas opiniões, incluindo opiniões religiosas, desde que sua manifestação não perturbe a or- dem pública estabelecida pela lei. [...] UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO. Biblioteca Virtual de Direitos Humanos. Disponível em: www.direitoshumanos.usp.br/index. php/Documentos-anteriores-%C3%A0-cria%C3%A7%C3%A3o- da-Sociedade-das-Na%C3%A7%C3%B5es-at%C3%A9-1919/ declaracao-de-direitos-do-homem-e-do-cidadao-1789.html. Acesso em: 26 jun. 2020. 1. Comparem os documentos acima e discutam as semelhanças e as diferenças que vocês identificaram entre eles. 2. Considerando a realidade de vocês, elaborem conjuntamente, com a ajuda de ferramentas que permitam editar documentos on-line, um texto em formato semelhante aos que acabaram de ler relacionando os direitos e deveres dos estudantes da escola em que vocês estudam. NÃO ESCREVA NO LIVRO Veja as respostas e orientações no Manual do Professor. Conversa 125 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap4_122a157.indd 125V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap4_122a157.indd 125 24/09/2020 11:0124/09/2020 11:01 Os desdobramentos das revoluções burguesas dos séculos XVII ao XVIII, destacadamente a da Inglaterra de 1689 e a da França de 1789, impul- sionaram a adoção de leis de direitos por muitos países no século XIX. Eram as ideias e os aconte- cimentos contra o Antigo Regime,aos Direitos Humanos e alguns acontecimentos ligados à atuação de cada uma delas. 137 DIÁLOGOS NÃO ESCREVA NO LIVRO 1. Leia o texto a seguir e depois responda às questões. O sociólogo brasileiro Ricardo Antunes afirma que “uma vida cheia de sentido fora do trabalho supõe uma vida dotada de sentido dentro do trabalho” e ainda que “uma vida desprovida de sentido no trabalho é in- compatível com uma vida cheia de sentido fora do trabalho. [...] Uma vida cheia de sentido somente poderá efetivar-se por meio da demolição das barreiras existentes entre tempo de trabalho e tempo de não trabalho, de modo que, a partir de uma atividade vital cheia de sentido, autodeter- minada, para além da divisão hierárquica que subordina o trabalho ao capital hoje vigente e, portanto, sob as bases inteiramente novas, possa se desenvolver uma nova sociabilidade [...] na qual liberdade e necessidade se realizam mutuamente.” ANTUNES, Ricardo. Socialismo, lutas sociais e novo modo de vida na América Latina. Revista Direito e Práxis, Rio de Janeiro, v. 8, n. 3, jul./set. 2017. Disponível em: https:// www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2179-89662017000302212. Acesso em: 13 ago. 2020. • Dividam-se em grupos de quatro estudantes para debater as seguintes questões: a) Na opinião de vocês, por que o autor afirma que para que a vida tenha senti- do fora do trabalho ela deve ter sentido dentro do trabalho? b) Na vida cotidiana, que trabalhos vocês exercem? Vocês gostam de exercer es- sas funções ou as consideram exausti- vas e/ou entediantes? c) Nas suas famílias, quais trabalhos são exercidos pelos seus familiares? Vocês consideram que todos os mem- bros da sua família trabalham o mes- mo tempo ou alguns trabalham mais do que outros? Por que isso acontece? d) Vocês consideram vital para a sua saúde mental uma conciliação entre o tempo de trabalho e o tempo de não trabalho? O que vocês gostam de fazer quando não estão trabalhando? e) O que o autor quer dizer com “divisão hierárquica que subordina o tra- balho ao capital hoje vigente”? Na opinião do grupo, existem trabalhos mais valorizados do que outros? Se sim, o que faz com que isso ocorra? • Reflitam sobre as respostas do grupo e busquem encontrar pontos em comum entre vocês. Em quais aspectos os hábitos da sua família e Por questões culturais, muitas vezes, algumas profissões são consideradas mais “importantes” do que outras. M a s ch a T a c e /S h u tt e rs to ck 84 Seção que apresenta atividades em diversos formatos pensadas para auxiliar no trabalho com diferentes competências específicas e habilidades estabelecidas pela BNCC, como identificar, analisar e comparar fontes e narrativas, elaborar hipóteses, selecionar evidências e compor argumentos, que possibilitem o compartilhamento de pontos de vistas, o diálogo e a reflexão. Uma página com atividades de edições recentes de avaliações oficiais para que você possa verificar como os temas trabalhados em sala de aula aparecem nessas provas, em especial no Enem. Apresenta uma proposta de projeto que aborda um tema relacionado aos capítulos da unidade por meio das metodologias de pesquisa (como revisão bibliográfica, análise documental, construção e uso de amostragens ou observação participante). Os projetos propostos permitem a valorização dos conhecimentos, da ciência e da argumentação com base em fatos, além de articular os conhecimentos construídos em sala de aula com a realidade vivida. Atividades que propõem o aprofundamento dos recursos que aparecem ao longo do capítulo, como textos em seus mais diversos gêneros, fotografias, obras de arte, mapas, gráficos, explorando suas regras de composição, significado e sentido. Traz a indicação dos autores e obras que apresentam conceitos importantes para o trabalho com os temas propostos nos capítulos. Apresenta os significados de palavras destacadas no texto. Recursos de linguagens variados (livros, filmes, podcasts, músicas, sites, obras de arte, etc.) para aprofundar temas abordados no capítulo e complementar seu repertório cultural e científico. V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Iniciais_003a015_LA.indd 5V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Iniciais_003a015_LA.indd 5 24/09/2020 10:4724/09/2020 10:47 6 Competências e habilidades da BNCC A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) é um documento oficial que define o con- junto de aprendizagens que os estudantes precisam desenvolver ao longo da Educação Básica, desde o início da Educação Infantil até o final do Ensino Médio. Dessa forma, a BNCC é norteadora para a formulação dos currículos escolares no Brasil. Esse conjunto de aprendizagens essenciais definido na BNCC corresponde a conhe- cimentos, competências e habilidades. Algumas dessas competências devem ser desenvolvidas durante todas as etapas da Educação Básica; outras especificamente em cada uma das etapas. No Ensino Mé- dio, essas competências e habilidades estão distribuídas por áreas de conhecimento. Nas aberturas dos capítulos do seu livro, você encontrará indicações de quais com- petências e habilidades estão sendo preferencialmente mobilizadas. Nas páginas a seguir, você conhecerá as dez competências gerais da Educação Bá- sica e todas as competências e habilidades específicas das áreas de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas e as competências e habilidades de Linguagens e suas Tecnologias, Matemática e suas Tecnologias e Ciências da Natureza e suas Tecnologias que serão trabalhadas neste livro. De acordo com a BNCC, competências são conhecimentos (conceitos e procedimentos) mobilizados para resolver demandas da vida cotidiana, do exercício da cidadania e do mun- do do trabalho. Já as habilidades são capacidades práticas, cognitivas e socioemocionais. Ao compreender o que é esperado desenvolver com os projetos desta obra, você terá a chance de se apropriar melhor de seus estudos, reconhecendo um sentido em tudo aquilo que é proposto e, consequentemente, percebendo a aplicação que isso pode ter em seu cotidiano. Dessa forma, o seu protagonismo se manifestará também em relação à sua apren- dizagem. Se você tiver interesse, consulte o texto completo da BNCC no site: http://basenacional comum.mec.gov.br/. Acesso em: 27 jan. 2020. Composição dos códigos das habilidades CADERN O BNCC O primeiro número indica a competência da área e os dois últimos indicam a habilidade relativa a essa competência. EM 13 CHS 101 Indica a etapa de Ensino Médio. Indica que a habilidade pode ser desenvolvida em qualquer série do Ensino Médio. Indica a área à qual a habilidade pertence. V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Iniciais_003a015_LA.indd 6V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Iniciais_003a015_LA.indd 6 24/09/2020 10:4724/09/2020 10:47 7 Competências gerais da Educação Básica 1. Valorizar e utilizar os conhecimentos historicamente construídos sobre o mun- do físico, social, cultural e digital para entender e explicar a realidade, continuar aprendendo e colaborar para a construção de uma sociedade justa, democrática e inclusiva. 2. Exercitar a curiosidade intelectual e recorrer à abordagem própria das ciências, in- cluindo a investigação, a reflexão, a análise crítica, a imaginação e a criatividade, para investigar causas, elaborar e testar hipóteses, formular e resolver problemas e criar soluções (inclusive tecnológicas) com base nos conhecimentos das dife- rentes áreas. 3. Valorizar e fruir as diversas manifestações artísticas e culturais, das locais às mundiais, e também participar de práticas diversificadas da produção artístico- -cultural. 4. Utilizar diferentes linguagens – verbal (oral ou visual-motora, como Libras, e escri- ta), corporal, visual, sonora e digital –, bem como conhecimentos das linguagens artística, matemática e científica, para se expressar e partilhar informações, ex- periências, ideias e sentimentos em diferentes contextos e produzir sentidos que levem ao entendimento mútuo. 5. Compreender, utilizar e criar tecnologias digitais de informaçãouma sociedade baseada na posse de determinados privilégios e poderes, fomentando a luta por direitos funda- mentais das liberdades individuais, como os di- reitos civis e políticos. Esses direitos são também conhecidos como direitos de primeira geração, segundo denominação criada em 1979 pelo jurista tcheco-francês Karel Vasak (1929-2015). Vasak tomou como referência os lemas da Revolução Francesa liberté, égalité et fraternité (liberdade, igualdade e fraternidade), formando três gerações de direitos. Como veremos, a Declaração Universal de 1948 tornou esses direitos indivisíveis. Os direitos da primeira geração firmaram os marcos jurídicos básicos que garantiriam aos go- vernados as defesas contra o absolutismo, o que exigiria novas atuações para superar a ordem so- cial fundada na perspectiva de sujeitos que pas- sariam de súditos a cidadãos, com base na ideia de liberdade. Os desdobramentos da Revolução Industrial e as lutas trabalhistas por melhores condições de vida resultaram no reconhecimento de direitos econômicos, sociais e culturais conhecidos como direitos de segunda geração. Predominante no contexto histórico dos séculos XIX e XX, a noção sobre esses direitos estava atrelada aos ideais de igualdade, visando superar o âmbito nacional para alcançar o mundial. Buscando condições dignas para todas as pessoas, tais direitos econô- micos e sociais foram incluídos nas Constituições de vários países e nas convenções internacionais, como a Carta das Nações Unidas de 1945 e subse- quentes, em que os países-membros da ONU, que na ocasião eram apenas cinquenta, assumiam o compromisso de respeitar as liberdades funda- mentais e os direitos socioeconômicos. Nas últimas décadas do século XX, ganha- ram impulso os direitos coletivos de diferentes povos e comunidades. São direitos centrados na fraternidade e na igualdade universais, suprana- cionais, tidos como direitos de terceira geração, como o direito de ter acesso a bens culturais, o direito de grupos sociais vulneráveis contarem com a proteção dos órgãos públicos, ou, no caso dos povos originários, o direito de desfrutar de um meio ambiente saudável. Os direitos de mi- grantes, refugiados e povos originários, assim como o direito à democracia, à informação e ao pluralismo, são considerados por muitos como direitos de quarta geração, misturando-se com a geração anterior. Como vimos, a construção dos Direitos Huma- nos foi produto de uma longa história ocorrida predominantemente nos países da Europa e em outros países ocidentais. Após a formação da ONU e a publicação da Declaração Universal dos Direi- tos Humanos, em 1948, a proposta era a de que Na organização das guardas nacionais em luta contra os invasores absolutistas contrários à Revolução, em 1790, Robespierre defendia em seus discursos, entre tantas outras, as palavras “liberdade, igualdade, fraternidade”. Como outros lemas revolucionários, esse também acabou caindo em desuso nos anos seguintes à Revolução Francesa. Contudo, ressurgiu nas jornadas revolucionárias no final dos anos 1840 e foi inscrito na Constituição francesa como fundamento da República criada na Revolução de 1848. R e p ro d u ç ã o /B ib lio te c a N a c io n a l, P a ri s , F ra n ç a . 126 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap4_122a157.indd 126V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap4_122a157.indd 126 24/09/2020 11:0124/09/2020 11:01 os direitos universais atingissem todas as pessoas em todo o mundo, como pressupõe o próprio título do documento. A internacionalização dos Direitos Humanos ganhou reforço após a apro- vação do Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos, que contempla os direitos de primeira geração, e do Pacto Internacional sobre Direitos Eco- nômicos, Sociais e Culturais, que contempla os direitos de segunda geração. Ambos foram aprovados pela Assembleia Geral da ONU, em 1966. Diversa- mente da Declaração de 1948, que era uma declaração de princípios e va- lores, esses documentos obrigam os países signatários a incorporar esses direitos em seus respectivos ordenamentos jurídicos, ou seja, os dois pactos têm força de lei. No Brasil, esses pactos foram incorporados às leis por meio do Decreto n. 591, de 6 de julho de 1992, que em seu artigo 1o decreta: “O Pacto Inter- nacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, apenso por cópia ao presente decreto, será executado e cumprido tão inteiramente como nele se contém.”; e do Decreto n. 592, de 6 de julho de 1992, que em seu artigo 1o decreta: “O Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos, apenso por có- pia ao presente decreto, será executado e cumprido tão inteiramente como nele se contém”. Manifestação estudantil contra a repressão do governo sobre setores da sociedade que lutavam pela democracia em 1977, em São Paulo, SP. A ce rv o Ú lti m a H or a/ Fo lh ap re ss BRASIL. Decreto n. 591, de 6 de julho de 1992. Atos Internacionais. Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais. Promulgação. Brasília, DF: Presidência da República. Casa Civil. Subchefia para Assuntos Jurídicos. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ ccivil_03/decreto/1990-1994/ d0591.htm. Acesso em: 6 ago. 2020. BRASIL. Decreto n. 592, de 6 de julho de 1992. Atos Internacionais. Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos. Promulgação. Brasília, DF: Presidência da República. Casa Civil. Subchefia para Assuntos Jurídicos. Disponível em: http://www. planalto.gov.br/ccivil_03/ decreto/1990-1994/D0592. htm. Acesso em: 6 ago. 2020. NÃO ESCREVA NO LIVRO Leia a seguir os artigos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Declaração Universal dos Direitos Humanos Artigo 1. Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade. Artigo 2. Todo ser humano tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades es- tabelecidos nesta Declaração, sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, idioma, religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacio- nal ou social, riqueza, nascimento, ou qualquer outra condição. [...] Quinze anos antes dos decretos acima (591 e 592), vivíamos os tempos sombrios da ditadura. Em grupos, pesquisem dados sobre esses dois contextos distintos, a ditadura e a incorporação dos decretos, e pautem a discussão a partir dos Pactos por Direitos com base nos tópicos a seguir. 1. Como se realizou a transição que pôs fim à ditadura. 2. A Constituição de 1988 e os Direitos Políticos e Econômicos. Veja as respostas no Manual do Professor. Conversa 127 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap4_122a157.indd 127V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap4_122a157.indd 127 24/09/2020 11:0124/09/2020 11:01 Artigo 3. Todo ser humano tem direito à vida, à liberda- de e à segurança pessoal. Artigo 4. Ninguém será mantido em escravidão ou ser- vidão; a escravidão e o tráfico de escravos serão proibidos em todas as suas formas. Artigo 5. Ninguém será submetido à tortura nem a trata- mento ou castigo cruel, desumano ou degradante. Artigo 6. Todo ser humano tem o direito de ser, em todos os lugares, reconhecido como pessoa perante a lei. Artigo 7. Todos são iguais perante a lei e têm direito, sem qualquer distinção, a igual proteção da lei. Todos têm direito a igual proteção contra qualquer dis- criminação que viole a presente Declaração e con- tra qualquer incitamento a tal discriminação. Artigo 8. Todo ser humano tem direito a receber dos tri- bunais nacionais competentes remédio efetivo para os atos que violem os direitos fundamentais que lhe sejam reconhecidos pela constituição ou pela lei. Artigo 9. Ninguém será arbitrariamente preso, detido ou exilado. Artigo 10. Todo ser humano tem direito, em plena igual- dade, a uma audiência justa e pública por parte de um tribunal independente e imparcial, para decidir sobree comunicação de forma crítica, significativa, reflexiva e ética nas diversas práticas sociais (incluin- do as escolares) para se comunicar, acessar e disseminar informações, produzir conhecimentos, resolver problemas e exercer protagonismo e autoria na vida pes- soal e coletiva. 6. Valorizar a diversidade de saberes e vivências culturais e apropriar-se de conheci- mentos e experiências que lhe possibilitem entender as relações próprias do mun- do do trabalho e fazer escolhas alinhadas ao exercício da cidadania e ao seu projeto de vida, com liberdade, autonomia, consciência crítica e responsabilidade. 7. Argumentar com base em fatos, dados e informações confiáveis, para formular, negociar e defender ideias, pontos de vista e decisões comuns que respeitem e promovam os direitos humanos, a consciência socioambiental e o consumo res- ponsável em âmbito local, regional e global, com posicionamento ético em relação ao cuidado de si mesmo, dos outros e do planeta. 8. Conhecer-se, apreciar-se e cuidar de sua saúde física e emocional, compreenden- do-se na diversidade humana e reconhecendo suas emoções e as dos outros, com autocrítica e capacidade para lidar com elas. 9. Exercitar a empatia, o diálogo, a resolução de conflitos e a cooperação, fazen- do-se respeitar e promovendo o respeito ao outro e aos direitos humanos, com acolhimento e valorização da diversidade de indivíduos e de grupos sociais, seus saberes, identidades, culturas e potencialidades, sem preconceitos de qualquer natureza. 10. Agir pessoal e coletivamente com autonomia, responsabilidade, flexibilidade, resiliência e determinação, tomando decisões com base em princípios éticos, democráticos, inclusivos, sustentáveis e solidários. V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Iniciais_003a015_LA.indd 7V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Iniciais_003a015_LA.indd 7 24/09/2020 10:4724/09/2020 10:47 8 Competências específicas e habilidades de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas Competência específica 1 Analisar processos políticos, econômicos, sociais, ambientais e culturais nos âmbitos local, regional, nacional e mundial em diferentes tempos, a partir da plurali- dade de procedimentos epistemológicos, científicos e tecnológicos, de modo a com- preender e posicionar-se criticamente em relação a eles, considerando diferentes pontos de vista e tomando decisões baseadas em argumentos e fontes de natureza científica. Habilidades EM13CHS101 – Identificar, analisar e comparar diferentes fontes e narrativas expressas em diversas linguagens, com vistas à compreensão de ideias filosóficas e de processos e eventos históricos, geográficos, políticos, econô- micos, sociais, ambientais e culturais. EM13CHS102 – Identificar, analisar e discutir as circunstâncias históricas, geográficas, políticas, econômicas, so- ciais, ambientais e culturais de matrizes conceituais (etnocentrismo, racismo, evolução, modernidade, cooperati- vismo/desenvolvimento etc.), avaliando criticamente seu significado histórico e comparando-as a narrativas que contemplem outros agentes e discursos. EM13CHS103 – Elaborar hipóteses, selecionar evidências e compor argumentos relativos a processos políticos, eco- nômicos, sociais, ambientais, culturais e epistemológicos, com base na sistematização de dados e informações de diversas naturezas (expressões artísticas, textos filosóficos e sociológicos, documentos históricos e geográficos, gráficos, mapas, tabelas, tradições orais, entre outros). EM13CHS104 – Analisar objetos e vestígios da cultura material e imaterial de modo a identificar conhecimentos, valores, crenças e práticas que caracterizam a identidade e a diversidade cultural de diferentes sociedades inseridas no tempo e no espaço. EM13CHS105 – Identificar, contextualizar e criticar tipologias evolutivas (populações nômades e sedentárias, entre outras) e oposições dicotômicas (cidade/campo, cultura/natureza, civilizados/bárbaros, razão/emoção, material/ virtual etc.), explicitando suas ambiguidades. EM13CHS106 – Utilizar as linguagens cartográfica, gráfica e iconográfica, diferentes gêneros textuais e tecnologias digitais de informação e comunicação de forma crítica, significativa, reflexiva e ética nas diversas práticas sociais, incluindo as escolares, para se comunicar, acessar e difundir informações, produzir conhecimentos, resolver proble- mas e exercer protagonismo e autoria na vida pessoal e coletiva. Competência específica 2 Analisar a formação de territórios e fronteiras em diferentes tempos e espaços, mediante a compreensão das relações de poder que determinam as territorialida- des e o papel geopolítico dos Estados-nações. Habilidades EM13CHS201 – Analisar e caracterizar as dinâmicas das populações, das mercadorias e do capital nos diversos con- tinentes, com destaque para a mobilidade e a fixação de pessoas, grupos humanos e povos, em função de eventos naturais, políticos, econômicos, sociais, religiosos e culturais, de modo a compreender e posicionar-se criticamente em relação a esses processos e às possíveis relações entre eles. CADERN O BNCC V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Iniciais_003a015_LA.indd 8V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Iniciais_003a015_LA.indd 8 24/09/2020 10:4724/09/2020 10:47 9 EM13CHS202 – Analisar e avaliar os impactos das tecnologias na estruturação e nas dinâmicas de grupos, povos e sociedades contemporâneos (fluxos populacionais, financeiros, de mercadorias, de informações, de valores éticos e culturais etc.), bem como suas interferências nas decisões políticas, sociais, ambientais, econômicas e culturais. EM13CHS203 – Comparar os significados de território, fronteiras e vazio (espacial, temporal e cultural) em diferen- tes sociedades, contextualizando e relativizando visões dualistas (civilização/barbárie, nomadismo/sedentarismo, esclarecimento/obscurantismo, cidade/campo, entre outras). EM13CHS204 – Comparar e avaliar os processos de ocupação do espaço e a formação de territórios, territorialida- des e fronteiras, identificando o papel de diferentes agentes (como grupos sociais e culturais, impérios, Estados Na- cionais e organismos internacionais) e considerando os conflitos populacionais (internos e externos), a diversidade étnico-cultural e as características socioeconômicas, políticas e tecnológicas. EM13CHS205 – Analisar a produção de diferentes territorialidades em suas dimensões culturais, econômicas, am- bientais, políticas e sociais, no Brasil e no mundo contemporâneo, com destaque para as culturas juvenis. EM13CHS206 – Analisar a ocupação humana e a produção do espaço em diferentes tempos, aplicando os princípios de localização, distribuição, ordem, extensão, conexão, arranjos, casualidade, entre outros que contribuem para o raciocínio geográfico. Competência específica 3 Analisar e avaliar criticamente as relações de diferentes grupos, povos e socieda- des com a natureza (produção, distribuição e consumo) e seus impactos econômi- cos e socioambientais, com vistas à proposição de alternativas que respeitem e pro- movam a consciência, a ética socioambiental e o consumo responsável em âmbito local, regional, nacional e global. Habilidades EM13CHS301 – Problematizar hábitos e práticas individuais e coletivos de produção, reaproveitamento e descarte de resíduos em metrópoles, áreas urbanas e rurais, e comunidades com diferentes características socioeconômi- cas, e elaborar e/ou selecionar propostas de ação que promovam a sustentabilidade socioambiental, o combate à poluição sistêmica e o consumo responsável. EM13CHS302 – Analisar e avaliar criticamente os impactos econômicos e socioambientais de cadeias produtivas ligadas à exploração de recursos naturais e às atividades agropecuárias em diferentes ambientes e escalas de aná- lise, considerando o modo de vida das populações locais – entre elas as indígenas, quilombolas e demais comunida- des tradicionais –, suas práticas agroextrativistas e o compromisso com a sustentabilidade. EM13CHS303 – Debater e avaliar o papel da indústria cultural edas culturas de massa no estímulo ao consumismo, seus impactos econômicos e socioambientais, com vistas à percepção crítica das necessidades criadas pelo consu- mo e à adoção de hábitos sustentáveis. EM13CHS304 – Analisar os impactos socioambientais decorrentes de práticas de instituições governamentais, de empresas e de indivíduos, discutindo as origens dessas práticas, selecionando, incorporando e promovendo aquelas que favoreçam a consciência e a ética socioambiental e o consumo responsável. EM13CHS305 – Analisar e discutir o papel e as competências legais dos organismos nacionais e internacionais de regulação, controle e fiscalização ambiental e dos acordos internacionais para a promoção e a garantia de práticas ambientais sustentáveis. EM13CHS306 – Contextualizar, comparar e avaliar os impactos de diferentes modelos socioeconômicos no uso dos recursos naturais e na promoção da sustentabilidade econômica e socioambiental do planeta (como a adoção dos sistemas da agrobiodiversidade e agroflorestal por diferentes comunidades, entre outros) V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Iniciais_003a015_LA.indd 9V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Iniciais_003a015_LA.indd 9 24/09/2020 10:4724/09/2020 10:47 10 Competência específica 4 Analisar as relações de produção, capital e trabalho em diferentes territórios, con- textos e culturas, discutindo o papel dessas relações na construção, consolidação e transformação das sociedades. Habilidades EM13CHS401 – Identificar e analisar as relações entre sujeitos, grupos, classes sociais e sociedades com culturas distintas diante das transformações técnicas, tecnológicas e informacionais e das novas formas de trabalho ao longo do tempo, em diferentes espaços (urbanos e rurais) e contextos. EM13CHS402 – Analisar e comparar indicadores de emprego, trabalho e renda em diferentes espaços, escalas e tempos, associando-os a processos de estratificação e desigualdade socioeconômica. EM13CHS403 – Caracterizar e analisar os impactos das transformações tecnológicas nas relações sociais e de trabalho próprias da contemporaneidade, promovendo ações voltadas à superação das desigualdades sociais, da opressão e da violação dos Direitos Humanos. EM13CHS404 – Identificar e discutir os múltiplos aspectos do trabalho em diferentes circunstâncias e contextos históricos e/ou geográficos e seus efeitos sobre as gerações, em especial, os jovens, levando em consideração, na atualidade, as transformações técnicas, tecnológicas e informacionais. Competência específica 5 Identificar e combater as diversas formas de injustiça, preconceito e violência, adotando princípios éticos, democráticos, inclusivos e solidários, e respeitando os Direitos Humanos. Habilidades EM13CHS501 – Analisar os fundamentos da ética em diferentes culturas, tempos e espaços, identificando proces- sos que contribuem para a formação de sujeitos éticos que valorizem a liberdade, a cooperação, a autonomia, o empreendedorismo, a convivência democrática e a solidariedade. EM13CHS502 – Analisar situações da vida cotidiana, estilos de vida, valores, condutas etc., desnaturalizando e pro- blematizando formas de desigualdade, preconceito, intolerância e discriminação, e identificar ações que promovam os Direitos Humanos, a solidariedade e o respeito às diferenças e às liberdades individuais. EM13CHS503 – Identificar diversas formas de violência (física, simbólica, psicológica etc.), suas principais vítimas, suas causas sociais, psicológicas e afetivas, seus significados e usos políticos, sociais e culturais, discutindo e ava- liando mecanismos para combatê-las, com base em argumentos éticos. EM13CHS504 – Analisar e avaliar os impasses ético-políticos decorrentes das transformações culturais, sociais, históricas, científicas e tecnológicas no mundo contemporâneo e seus desdobramentos nas atitudes e nos valores de indivíduos, grupos sociais, sociedades e culturas. CADERN O BNCC V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Iniciais_003a015_LA.indd 10V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Iniciais_003a015_LA.indd 10 24/09/2020 10:4724/09/2020 10:47 11 Competência específica 6 Participar do debate público de forma crítica, respeitando diferentes posições e fa- zendo escolhas alinhadas ao exercício da cidadania e ao seu projeto de vida, com liber- dade, autonomia, consciência crítica e responsabilidade. Habilidades EM13CHS601 – Identificar e analisar as demandas e os protagonismos políticos, sociais e culturais dos povos in- dígenas e das populações afrodescendentes (incluindo as quilombolas) no Brasil contemporâneo considerando a história das Américas e o contexto de exclusão e inclusão precária desses grupos na ordem social e econômica atual, promovendo ações para a redução das desigualdades étnico-raciais no país. EM13CHS602 – Identificar e caracterizar a presença do paternalismo, do autoritarismo e do populismo na política, na sociedade e nas culturas brasileira e latino-americana, em períodos ditatoriais e democráticos, relacionando-os com as formas de organização e de articulação das sociedades em defesa da autonomia, da liberdade, do diálogo e da promoção da democracia, da cidadania e dos direitos humanos na sociedade atual. EM13CHS603 – Analisar a formação de diferentes países, povos e nações e de suas experiências políticas e de exercício da cidadania, aplicando conceitos políticos básicos (Estado, poder, formas, sistemas e regimes de governo, soberania etc.). EM13CHS604 – Discutir o papel dos organismos internacionais no contexto mundial, com vistas à elaboração de uma visão crítica sobre seus limites e suas formas de atuação nos países, considerando os aspectos positivos e negativos dessa atuação para as populações locais. EM13CHS605 – Analisar os princípios da declaração dos Direitos Humanos, recorrendo às noções de justiça, igual- dade e fraternidade, identificar os progressos e entraves à concretização desses direitos nas diversas sociedades contemporâneas e promover ações concretas diante da desigualdade e das violações desses direitos em diferentes espaços de vivência, respeitando a identidade de cada grupo e de cada indivíduo. EM13CHS606 – Analisar as características socioeconômicas da sociedade brasileira – com base na análise de do- cumentos (dados, tabelas, mapas etc.) de diferentes fontes – e propor medidas para enfrentar os problemas identi- ficados e construir uma sociedade mais próspera, justa e inclusiva, que valorize o protagonismo de seus cidadãos e promova o autoconhecimento, a autoestima, a autoconfiança e a empatia. V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Iniciais_003a015_LA.indd 11V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Iniciais_003a015_LA.indd 11 24/09/2020 10:4724/09/2020 10:47 12 Competências específicas e habilidades de Linguagens e suas Tecnologias para o Ensino Médio COMPETÊNCIA ESPECÍFICA 1 Compreender o funcionamento das diferentes linguagens e práticas (artísticas, corporais e verbais) e mobilizar esses conhecimentos na recepção e produção de discursos nos diferen- tes campos de atuação social e nas diversas mídias, para ampliar as formas de participação social, o entendimento e as possibilidades de explicação e interpretação crítica da realidade e para continuar aprendendo. HABILIDADES EM13LGG101 Compreender e analisar processos de produ- ção e circulação de discursos, nas diferentes linguagens, para fazer escolhas fundamentadas em função de interes- ses pessoais e coletivos. EM13LGG102 Analisar visões de mundo, conflitos de inte- resse, preconceitos e ideologias presentes nos discursos veiculados nas diferentes mídias, ampliando suas possibi- lidades de explicação, interpretação e intervenção crítica da/na realidade. EM13LGG104 Utilizar as diferentes linguagens, levando em conta seus funcionamentos, para a compreensão e produ- ção de textos e discursos em diversos campos de atuação social. COMPETÊNCIA ESPECÍFICA 2 Compreender os processos identitários, con- flitos e relações de poder que permeiam as práticas sociais de linguagem, respeitar as di- versidades,a pluralidade de ideias e posições e atuar socialmente com base em princípios e valores assentados na democracia, na igual- dade e nos Direitos Humanos, exercitando a empatia, o diálogo, a resolução de conflitos e a cooperação, e combatendo preconceitos de qualquer natureza. HABILIDADES EM13LGG201 Utilizar adequadamente as diversas lingua- gens (artísticas, corporais e verbais) em diferentes contex- tos, valorizando-as como fenômeno social, cultural, históri- co, variável, heterogêneo e sensível aos contextos de uso. EM13LGG202 Analisar interesses, relações de poder e pers- pectivas de mundo nos discursos das diversas práticas de linguagem (artísticas, corporais e verbais), para compreen- der o modo como circulam, constituem-se e (re)produzem significação e ideologias. COMPETÊNCIA ESPECÍFICA 3 Utilizar diferentes linguagens (artísticas, cor- porais e verbais) para exercer, com autonomia e colaboração, protagonismo e autoria na vida pessoal e coletiva, de forma crítica, criativa, ética e solidária, defendendo pontos de vista que respeitem o outro e promovam os Direitos Humanos, a consciência socioambiental e o consumo responsável, em âmbito local, regio- nal e global. HABILIDADES EM13LGG301 Participar de processos de produção individual e colaborativa em diferentes linguagens (artísticas, corpo- rais e verbais), levando em conta seus funcionamentos, para produzir sentidos em diferentes contextos. EM13LGG302 Posicionar-se criticamente diante de diversas visões de mundo presentes nos discursos em diferentes linguagens, levando em conta seus contextos de produção e de circulação. EM13LGG303 Debater questões polêmicas de relevância social, analisando diferentes argumentos e opiniões, para formular, negociar e sustentar posições, frente à análise de perspectivas distintas. EM13LGG305 Mapear e criar, por meio de práticas de lingua- gem, possibilidades de atuação social, política, artística e cultural para enfrentar desafios contemporâneos, discutin- do princípios e objetivos dessa atuação de maneira crítica, criativa, solidária e ética. COMPETÊNCIA ESPECÍFICA 5 Compreender os processos de produção e ne- gociação de sentidos nas práticas corporais, reconhecendo-as e vivenciando-as como for- mas de expressão de valores e identidades, em uma perspectiva democrática e de respeito à diversidade. HABILIDADES EM13LGG502 Analisar criticamente preconceitos, estereóti- pos e relações de poder subjacentes presentes nas práticas corporais, adotando posicionamento contrário a qualquer manifestação de injustiça e desrespeito a direitos humanos e valores democráticos. CADERN O BNCC V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Iniciais_003a015_LA.indd 12V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Iniciais_003a015_LA.indd 12 24/09/2020 10:4724/09/2020 10:47 13 COMPETÊNCIA ESPECÍFICA 6 Apreciar esteticamente as mais diversas pro- duções artísticas e culturais, considerando suas características locais, regionais e glo- bais, e mobilizar seus conhecimentos sobre as linguagens artísticas para dar significado e (re)construir produções autorais individuais e coletivas, exercendo protagonismo de maneira crítica e criativa, com respeito à diversidade de saberes, identidades e culturas. HABILIDADES EM13LGG601 Apropriar-se do patrimônio artístico de diferentes tempos e lugares, compreendendo a sua diversidade, bem como os processos de legitimação das manifestações artísticas na sociedade, desenvolvendo visão crítica e histórica. EM13LGG603 Expressar-se e atuar em processos de criação au- torais individuais e coletivos nas diferentes linguagens artísticas (artes visuais, audiovisual, dança, música e teatro) e nas inter- secções entre elas, recorrendo a referências estéticas e culturais, conhecimentos de naturezas diversas (artísticos, históricos, so- ciais e políticos) e experiências individuais e coletivas. EM13LGG604 Relacionar as práticas artísticas às diferentes di- mensões da vida social, cultural, política, histórica e econômica e identificar o processo de construção histórica dessas práticas. COMPETÊNCIA ESPECÍFICA 7 Mobilizar práticas de linguagem no universo di- gital, considerando as dimensões técnicas, crí- ticas, criativas, éticas e estéticas, para expandir as formas de produzir sentidos, de engajar-se em práticas autorais e coletivas, e de aprender a aprender nos campos da ciência, cultura, traba- lho, informação e vida pessoal e coletiva. HABILIDADES EM13LGG702 Avaliar o impacto das tecnologias digitais da informa- ção e comunicação (TDIC) na formação do sujeito e em suas prá- ticas sociais, para fazer uso crítico dessa mídia em práticas de se- leção, compreensão e produção de discursos em ambiente digital. EM13LGG703 Utilizar diferentes linguagens, mídias e ferramen- tas digitais em processos de produção coletiva, colaborativa e projetos autorais em ambientes digitais. Competências específicas e habilidades de Matemática e suas Tecnologias para o Ensino Médio COMPETÊNCIA ESPECÍFICA 1 Utilizar estratégias, conceitos e procedi- mentos matemáticos para interpretar situa- ções em diversos contextos, sejam ativida- des cotidianas, sejam fatos das Ciências da Natureza e Humanas, das questões socioe- conômicas ou tecnológicas, divulgados por diferentes meios, de modo a contribuir para uma formação geral. HABILIDADES EM13MAT101 Interpretar criticamente situações econômicas, sociais e fatos relativos às Ciências da Natureza que envolvam a variação de grandezas, pela análise dos gráficos das funções representadas e das taxas de variação, com ou sem apoio de tec- nologias digitais. EM13MAT102 Analisar tabelas, gráficos e amostras de pesqui- sas estatísticas apresentadas em relatórios divulgados por dife- rentes meios de comunicação, identificando, quando for o caso, inadequações que possam induzir a erros de interpretação, como escalas e amostras não apropriadas. Competências específicas e habilidades de Ciências da Natureza e suas Tecnologias para o Ensino Médio COMPETÊNCIA ESPECÍFICA 3 Investigar situações-problema e avaliar apli- cações do conhecimento científico e tecnoló- gico e suas implicações no mundo, utilizando procedimentos e linguagens próprios das Ciências da Natureza, para propor soluções que considerem demandas locais, regionais e/ou globais, e comunicar suas descobertas e conclusões a públicos variados, em diversos contextos e por meio de diferentes mídias e tecnologias digitais de informação e comuni- cação (TDIC). HABILIDADES EM13CNT301 Construir questões, elaborar hipóteses, previsões e estimativas, empregar instrumentos de medição e representar e interpretar modelos explicativos, dados e/ou resultados experi- mentais para construir, avaliar e justificar conclusões no enfren- tamento de situações-problema sob uma perspectiva científica. EM13CNT302 Comunicar, para públicos variados, em diversos contextos, resultados de análises, pesquisas e/ou experimen- tos, elaborando e/ou interpretando gráficos, tabelas, símbolos, códigos, sistemas de classificação e equações, por meio de dife- rentes linguagens, mídias, tecnologias digitais de informação e comunicação (TDIC), de modo a participar e/ou promover deba- tes em torno de temas científicos e/ou tecnológicos de relevân- cia sociocultural e ambiental. V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Iniciais_003a015_LA.indd 13V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Iniciais_003a015_LA.indd 13 24/09/2020 10:4724/09/2020 10:47 14 SUMÁRIO Caderno BNCC 6 Capítulo 1 Democracia e ditadura no Brasil e na América Latina ................................... 18 Democracia e ditadura como conceitos opostos .............. 19 Do século XIX ao XX: América hispano-portuguesa nos limites da independência ................................................ 22 Os limites da independência ................................................................ 22 Cenários da América hispânica: da independência ao século XXI ... 22 Destaques da América Latina depois da Independência 28 México .....................................................................................................28 América Central e Caribe ....................................................................... 30 Brasil: da independência ao século XXI ............................... 35 Os excluídos nessa história do Brasil: negros e indígenas ............... 37 Brasil: do século XIX à República da Era Vargas ................................. 38 Atuações governamentais no Brasil democrático pós-Estado Novo................................................ 45 Mobilizações sociais e atuações nos governos ditatoriais do Brasil .................................................................... 50 Atuações sociais para a democracia: as heranças paternalistas e autoritárias no século XXI .......................................... 56 Capítulo 2 Desafios para construção da justiça social no Brasil ............................ 62 Diversidade, particularidades e igualdade ......................... 64 Emancipação das mulheres ................................................................. 65 A inclusão de negros e indígenas ....................................................... 70 Os idosos ................................................................................................ 75 Os jovens ................................................................................................. 76 • Prática Relembrar é preciso: como foi a ditadura militar-civil no Brasil? .. 88 Dimensões da cidadania 1 UNIDA D E 16 L u c ia n a W h it a ke r/ P u ls a r Im a g e n s V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Iniciais_003a015_LA.indd 14V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Iniciais_003a015_LA.indd 14 24/09/2020 10:4724/09/2020 10:47 15 Capítulo 3 A cidade e a cidadania ........................... 96 A cidade e o cidadão .................................................................. 98 O processo de urbanização ..................................................... 100 Rede e hierarquia urbanas ...................................................... 104 Os problemas sociais urbanos ............................................... 112 Desigualdades e segregação socioespacial ....................................... 112 O problema da moradia .......................................................................... 114 Capítulo 4 Direitos Humanos e prática social ........... 122 Gênese dos Direitos Humanos ............................................... 123 Documentos ................................................................................ 124 Re!exões sobre os Direitos Humanos ................................. 130 Os Direitos Humanos e a atuação das ONGs ...................... 136 Principais ONGs de atuação nacional e internacional ..... 138 Anti-Slavery International ..................................................................... 138 Human Rights Watch ............................................................................. 138 Anistia Internacional .............................................................................. 140 Médicos Sem Fronteiras ........................................................................ 141 Oxfam ...................................................................................................... 142 Repórteres Sem Fronteiras ................................................................... 142 Observatório da Imprensa .................................................................... 144 Os Direitos Humanos no mundo e os desa"os em crescimento .................................................. 144 • Prática O que acontece na praça? .................................................... 152 Caminhos da cidadania 2 UNIDA D E 94 C e n tr a l P re s s /H u lt o n A rc h iv e /G e tt y I m a g e s Referências bibliográficas comentadas 158 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Iniciais_003a015_LA.indd 15V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Iniciais_003a015_LA.indd 15 24/09/2020 10:4724/09/2020 10:47 Dimensões da cidadania1 UNIDA D E O texto abaixo, elaborado pela cientista política Mônica Sodré, pelo professor da USP e cientista político José Álvaro Moisés e pelo sociólogo Floriano Pesaro, aponta que a democracia está sob risco em vários países, incluindo o Brasil. Ao final responda às questões propostas. Nem só de eleições vivem as democracias Pela primeira vez neste século, a maior parte do mundo não é uma democracia. Isso não se explica apenas pelas suas dificuldades em locais nos quais já estava consolidada — como nos EUA e na Europa ocidental —, mas também pelo surgimento de regimes híbridos, que mantêm os aspectos eleitorais enquanto suprimem liberdades de imprensa e de expressão, caso de Hungria e Filipinas. Sua retração global é sentida em disputas eleitorais enviesadas, vulnerabilidade a rupturas, manifestações populares, desrespeito à oposição, censura à imprensa, esvaziamento dos partidos e dos Parlamentos e perseguições. Regimes democráticos não se realizam somente com a garantia de eleições livres, regulares e justas. Sua realização envolve o entendimento cotidiano de seus valores, incorporados em suas normas e comportamentos, e a existência de condições, inclusive materiais, que assegurem aos cidadãos a capacidade de interferir nos rumos do país e da política. Sua superioridade frente a outras formas de organização da vida coletiva se justifica por três aspectos: é a única na qual os direitos de existência, expressão e participação das minorias são respeitados e preservados, as decisões são consideradas vinculativas por excelência e, por fim, na qual se pressupõe aceitação às regras do jogo. No Brasil, nosso período democrático mais longevo completou 30 anos e nossa democracia liberal encontra-se sob risco permanente e com gradativa morte de seu vigor. Morre todos os dias, quando há estímulo da violência por parte de quem ocupa postos de poder. Quando os que ocupam tais posições reivindicam para si a representação exclusiva do povo e seus interesses. Quando os limites entre público e privado ficam quase invisíveis. Quando há esforço para refundar o passado e brigar com a ciência. Quando a desinformação vira arma e as instituições passam a ser orientadas por uma visão que tem como finalidade esvaziá-las de capacidade. Quando a inserção internacional e, portanto, a capacidade de cooperação e relacionamento externos são comprometidas. Quando não há mais imagem externa a zelar. SODRÉ, Mônica; MOISÉS, José Álvaro; PESARO, Floriano. Nem só de eleições vivem as democracias. Folha de S.Paulo, 9 ago. 2020. Disponível em: www1.folha.uol.com.br/opiniao/2020/08/ nem-so-de-eleicoes-vivem-as-democracias.shtml. Acesso em: 10 ago. 2020. Context o ESSE TEMA SERÁ RETOMADO NA SEÇÃO PRÁTICA 16 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap1_016a061.indd 16V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap1_016a061.indd 16 24/09/2020 10:5124/09/2020 10:51 Jovem votando nas eleições de 2014 na cidade do Rio de Janeiro, RJ. 1. Quais são os entraves e ameaças à democracia apontados no artigo? 2. Em que a democracia é o regime político superior, segundo os autores? 3. Se a democraia é um sistema no qual prevalece a vontade da maioria, por que os autores afirmam que nesse regime os direitos das minorias são respeitados e valorizados? 4. Como podemos revigorar a atual democracia brasileira? Ver respostas e orientações no Manual do Professor. L u c ia n a W h it a ke r/ P u ls a r Im a g e n s NÃO ESCREVA NO LIVRO 17 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap1_016a061.indd 17V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap1_016a061.indd 17 24/09/2020 10:5124/09/2020 10:51 A participação da sociedade nos assuntos públi- cos ocorre por meio do exercício dos direitos políti- cos. De todos esses direitos, o voto é o mais conhe- cido e o mais exercido e é por ele que cada indivíduo expressa sua vontade na escolha de representantes políticos. O artigo 14 (Capítulo IV - Dos direitos políticos) da Constituição Brasileira vigente, desde 1988, estabelece o sufrágio