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1 Fernando Álison Morais Diniz Felix CCCOOONNNTTTEEEÚÚÚDDDOOO CONTEÚDO ..................................................................................................................................... 1 I - PRINCÍPIOS GERAIS DA TÉCNICA CIRÚRGICA ............................................................................. 4 1. DEFINIÇÃO .................................................................................................................................. 4 2. OBJETIVOS .................................................................................................................................. 4 3. CLASSIFICAÇÃO ........................................................................................................................... 4 4. TÉCNICA CIRÚRGICA ................................................................................................................... 5 5. FINALIDADE ................................................................................................................................ 5 6. PRÉ, TRANS E PÓS-OPERATÓRIO ................................................................................................ 5 7. TERMINOLOGIA .......................................................................................................................... 5 8. PRINCÍPIOS DA TÉCNICA CIRÚRGICA ATRAUMÁTICA E ASSÉPTICA ............................................ 6 II - ASSEPSIA E ANTISSEPSIA: TÉCNICAS DE ESTERILIZAÇÃO ........................................................... 7 1. CONCEITOS GERAIS .................................................................................................................... 7 2. HISTÓRICO .................................................................................................................................. 7 3. DEFINIÇÕES................................................................................................................................. 7 4. ESTERILIZAÇÃO ........................................................................................................................... 8 5. ANTISSÉPTICOS ......................................................................................................................... 10 III - DIÉRESE .................................................................................................................................. 12 1. DEFINIÇÃO ................................................................................................................................ 12 2. DIÉRESE DE PELE ....................................................................................................................... 13 4. DIÉRESE DO TECIDO SUBCUTÂNEO .......................................................................................... 14 6. DIÉRESE DA APONEUROSE ....................................................................................................... 14 7. DIÉRESE MUSCULAR ................................................................................................................. 14 IV - INSTRUMENTAL CIRÚRGICO................................................................................................... 16 1. BISTURI ..................................................................................................................................... 16 2. PINÇA DE DISSECÇÃO OU ANATÔMICA .................................................................................... 17 3. TESOURAS ................................................................................................................................. 18 4. PINÇAS HEMOSTÁTICAS, DE TECIDOS E AUXILIARES ................................................................ 19 5. RETRATORES OU AFASTADORES .............................................................................................. 23 6. APARELHO DE ASPIRAÇÃO ....................................................................................................... 24 7. PORTA-AGULHAS ...................................................................................................................... 24 7. AGULHAS DE SUTURA ............................................................................................................... 25 V - FIOS CIRÚRGICOS .................................................................................................................... 26 1. CONCEITO ................................................................................................................................. 26 2. NORMAS PARA UMA BOA SUTURA .......................................................................................... 26 2 BASES TÉCNICAS DA CIRURGIA 3. CARACTERÍSTICAS DE UM MATERIAL DE SUTURA IDEAL ......................................................... 26 4. CLASSIFICAÇÃO DOS FIOS ......................................................................................................... 26 5. FIOS DE SUTURA ABSORVÍVEIS NATURAIS ............................................................................... 27 6. FIOS DE SUTURA ABSORVÍVEIS SINTÉTICOS ............................................................................. 28 7. FIOS DE SUTURA NÃO ABSORVÍVEIS NATURAIS ....................................................................... 29 8. FIOS DE SUTURA NÃO ABSORVÍVEIS SINTÉTICOS ..................................................................... 30 9. TABELAS RESUMIVAS ................................................................................................................ 32 10. ADESIVOS ................................................................................................................................ 32 11. SUTURAS STERI-STRIP™ .......................................................................................................... 33 12. PRINCÍPIOS A SEREM OBSERVADOS NA ESCOLHA DO MATERIAL DE SUTURA ...................... 33 13. SELEÇÃO DA ESPESSURA DE SUTURA APROPRIADA ............................................................... 34 14. RETIRADA DA SUTURA CUTÂNEA ........................................................................................... 34 VI - NÓS CIRÚRGICOS.................................................................................................................... 36 1. TIPOS ........................................................................................................................................ 36 2. TENSÃO ..................................................................................................................................... 37 3. LIGADURAS ............................................................................................................................... 38 VII - SUTURAS ............................................................................................................................... 39 1. INTERROMPIDAS ...................................................................................................................... 39 2. CONTÍNUAS .............................................................................................................................. 39 3. CLASSIFICAÇÃO ......................................................................................................................... 39 4. COLOCAÇÃO DAS SUTURAS ...................................................................................................... 39 5. SUTURANDO UMA LACERAÇÃO ............................................................................................... 40 6. SELEÇÃO DA SUTURA ................................................................................................................ 41 VIII - PREPARAÇÃO PARA O ATO CIRÚRGICO ...............................................................................50 1. LIMPEZA GERAL DA SALA CIRÚRGICA ....................................................................................... 50 2. PREPARAÇÃO DO VESTUÁRIO .................................................................................................. 50 3. PREPARAÇÃO DA SALA DE PRÉ-OPERATÓRIO .......................................................................... 50 4. PREPARAÇÃO DA EQUIPE CIRÚRGICA ...................................................................................... 50 5. PREPARAÇÃO DO PACIENTE ..................................................................................................... 54 6. PREPARAÇÃO DA MESA DE INSTRUMENTAÇÃO ...................................................................... 55 7. PROCEDIMENTOS DENTRO DA SALA CIRÚRGICA ..................................................................... 55 8. EQUIPE CIRÚRGICA ................................................................................................................... 56 9. GESTOS CIRÚRGICOS ................................................................................................................ 56 10. COLOCAÇÃO DE CAMPOS OPERATÓRIOS ............................................................................... 57 11. MOVIMENTAÇÃO DENTRO DA SALA DE CIRURGIA ................................................................ 57 IX - SONDAS, DRENOS E CATETERES ............................................................................................. 58 1. DEFINIÇÕES............................................................................................................................... 58 2. CLASSIFICAÇÃO ......................................................................................................................... 58 3 Fernando Álison Morais Diniz Felix 3. MODELOS ................................................................................................................................. 59 4. INTUBAÇÃO ENDOTRAQUEAL .................................................................................................. 64 5. DRENAGEM TORÁCICA ............................................................................................................. 65 6. SONDAGEM DO TRATO GASTRINTESTINAL .............................................................................. 65 7. SONDAGEM DO TRATO URINÁRIO ........................................................................................... 67 8. CATETERIZAÇÃO VENOSA ......................................................................................................... 69 9. MONITORIZAÇÃO HEMODINÂMICA INVASIVA – CATETER DE SWAN-GANZ ............................ 75 10. INFECÇÕES HOSPITALARES RELACIONADAS COMO USO DE DRENOS, SONDAS E CATETERES .................................................................................................................................................................... 78 X - DRENAGEM TORÁCICA ............................................................................................................ 79 1. PATOLOGIAS ............................................................................................................................. 79 2. SISTEMAS DE DRENAGEM UNIDIRECIONAL .............................................................................. 80 3. DESCRIÇÃO DA TÉCNICA ........................................................................................................... 82 4. CUIDADOS COM O SISTEMA DE DRENAGEM ........................................................................... 84 XI - VENTILAÇÃO MECÂNICA E INTUBAÇÃO ENDOTRAQUEAL ..................................................... 85 1. REVISÃO DA ANATOMIA ........................................................................................................... 85 2. INTRODUÇÃO ........................................................................................................................... 86 3. EQUIPAMENTOS ....................................................................................................................... 87 4. VENTILAÇÃO MECÂNICA .......................................................................................................... 90 5. INTUBAÇÃO ENDOTRAQUEAL .................................................................................................. 98 AVALIAÇÃO PRÉ-ANESTÉSICA ..................................................................................................... 106 MEDICAÇÃO PRÉ-ANESTÉSICA.................................................................................................... 111 MONITORIZAÇÃO EM ANESTESIA .............................................................................................. 115 CHOQUE ..................................................................................................................................... 120 INFECÇÃO DO SÍTIO CIRÚRGICO: MEDIDAS DE PREVENÇÃO E ANTIBIOTICOPROFILAXIA.......... 131 ANESTÉSICOS LOCAIS ................................................................................................................. 143 CIRURGIA AMBULATORIAL ......................................................................................................... 156 - Fundamentos de Anestesia Local e Regional - Fundamentos de Anestesia Geral - Noções Básicas da Cirurgia Videolaparoscópica. - Noções Básicas da Cirurgia Cardiovascular - Noções Básicas de Cirurgia Plástica (conceitos, enxertos e retalhos). Histórico da cirurgia plástica. Princípios gerais: Conhecimentos técnicos e artísticos. Incisões. Síntese. Zetaplastias. Enxertos e retalhos: conceito, fisiologia, Classificação. Avaliação de casos clínicos. Cirurgias Estéticas: face, pálpebra, nariz, orelha, mama, abdome e Contorno corporal. - Queimaduras: Conceito. Classificação etiológica e de intensidade. Fisiopatologia. Prevenção. Atendimento inicial. Cálculo da superfície corporal queimada. Reposição volêmica. Tratamento local. Escarotomias. Fasciotomias. Excisão tangencial precoce. Tratamento das seqüelas. 4 BASES TÉCNICAS DA CIRURGIA III --- PPPRRRIIINNNCCCÍÍÍPPPIIIOOOSSS GGGEEERRRAAAIIISSS DDDAAA TTTÉÉÉCCCNNNIIICCCAAA CCCIIIRRRÚÚÚRRRGGGIIICCCAAA 1. DEFINIÇÃO O termo cirurgia tem sido definido de várias maneiras, porém do ponto de vista da cirurgia moderna, uma definição simples é difícil. Consiste em uma disciplina separada da medicina, porém não pode ser isolada dessa e das ciências básicas, como a anatomia, fisiologia, microbiologia e patologia. Entende-se por cirurgia ao uso de interferência manipulatória para o diagnóstico específico no tratamento de doenças, modificar a função fisiológica ou estrutura anatômica e para um propósito específico. 2. OBJETIVOS � Diagnóstico de doenças através de cirurgias exploratórias para visualização direta de um processo patológico ou da introdução de catéteres ou agulhas para coleta de amostras, injeção de contrastes e drogas, ou para medida direta de parâmetros fisiológicos como a pressão sanguínea; � Tratamento de doenças como a reparação de ossos fraturados (aplicação direta da cirurgia) ou como numa neurectomia, para aliviar a dor secundária a um processo patológico (aplicação indireta da cirurgia); � Corrigir defeitos físicos através de cirurgia reparadora ou reconstrutiva, e melhorar a estética através de cirurgia cosmética ou plástica. 3. CLASSIFICAÇÃO Existem vários tipos ou enfoques: 3.1. De acordo com a atividade Reparadora de feridas - parte fundamental de todo procedimento cirúrgico; Cirurgia extirpativa - remoção de órgãos ou tecidos doentes; Cirurgia reconstrutiva - reconstrói órgãos ou tecidos, como na ortopedia e cirurgia plástica; Cirurgia fisiológica - ondese inclui a remoção de órgãos com a finalidade de se excluir sua função endócrina. 3.2. Quanto ao tipo de cirurgia Leve - sem perigo de vida; Grave - com perigo de vida; Simples - rápida, envolve uma estrutura ou tecido; Composta - envolve várias estruturas; Cruenta - com a presença de muito sangue; Regular - segue normas estabelecidas, planejada; Irregular - sem plano, complicada; Urgente - apresentação grave; Eletiva ou não urgente - apresentação não grave; Paliativa - melhora as condições de vida, mas não cura. 5 Fernando Álison Morais Diniz Felix 3.3. De acordo com a especialidade, geralmente baseadas em sistemas Cirurgia cardiovascular; Cirurgia torácica; Cirurgia abdominal; Neurocirurgia, etc. 4. TÉCNICA CIRÚRGICA Estuda a execução das operações e das manobras cirúrgicas de forma regular e sincrônica, visando maior eficiência. A Técnica Cirúrgica Geral estuda as manobras cirúrgicas básicas, como a ligadura de vasos, empunhadura de instrumentos, etc. A Técnica Cirúrgica Especial estuda os tempos operatórios de acordo com uma intervenção em particular. Tempos Operatórios ou Cirúrgicos, resultam da reunião de muitas manobras gerais ordenadas e executadas em uma determinada região anatômica, com finalidade didática, descritiva e de estudo. 5. FINALIDADE A finalidade da cirurgia humana é salvar a vida dos pacientes, mesmo com mutilações. 6. PRÉ, TRANS E PÓS-OPERATÓRIO O período pré-operatório envolve desde as manobras gerais, como a preparação do local da cirurgia, esterilização dos instrumentos, coleta de material para exames laboratoriais, banho do paciente, jejum, preparação do campo operatório, aplicação de soro, antibiótico profilático, contenção do paciente, pré- anestesia, tricotomia, posicionamento na mesa e antissepsia. O período trans-operatório compreende manobras como a diérese, hemostasia, procedimentos especiais e síntese. O período pós-operatório, que passa pela remoção das suturas, inclui a limpeza da ferida, colocação de bandagens, administração de medicamentos e procedimentos de monitoração sistêmica, no mínimo diário. O período do pós- operatório imediato vai até a recuperação do paciente da anestesia. 7. TERMINOLOGIA Algumas cirurgias são nomeadas por um ou por combinação dos seguintes métodos: a) Nome de uma pessoa credenciada após ter desenvolvido ou modificado um procedimento cirúrgico; b) Nomes descritivos, formados por uma combinação de sufixos gregos ou latinos com termos anatômicos. O radical ou prefixo indica o órgão em referência e o sufixo indica o procedimento cirúrgico. Segundo a etimologia, os seguintes prefixos e sufixos são mais usados: 7.1. Prefixos e seus respectivos órgãos Adeno - glândula Angio - vaso sanguíneo Bléfaro - pálpebra Cisto - bexiga Cole - vesícula biliar Colo - cólon Colpo - vagina Entero - intestino Espleno - baço Flebo - veia Gastro - estômago Hepato - fígado Histero - útero Laparo - parede abdominal Mio - músculo Nefro - rim 6 BASES TÉCNICAS DA CIRURGIA Neuro - nervo Oftalmo - olho Oofor - ovário Orqui - testículo Osteo - osso Oto - ouvido Pielo - pelve renal Pneumo - pulmão Procto - reto Rino - nariz Salpingo - tuba uterina Teno - tendão Traqueo - traquéia Veno - veia 7.2. Sufixos e seus respectivos significados Da junção dos prefixos com os sufixos é que resultam as várias palavras em cirurgias, com diferentes significados, como: Tomia - secção, abertura; Ectomia - retirada, remoção; Ostomia - ligação, abertura de boca, comunicação com o meio externo; Rafia - sutura; Pexia - fixação; Plastia - plástica, dar nova forma; Punctura - perfuração; Centese - punção; Cele - hérnia. 8. PRINCÍPIOS DA TÉCNICA CIRÚRGICA ATRAUMÁTICA E ASSÉPTICA Doutrina de Halstead. Baseada no conceito histológico em que os tecidos vivos são formados por células unidas por tecido elástico fino e com fibrilas nervosas, capilares, vasos linfáticos e sanguíneos. O rompimento destas células pelo trauma cirúrgico propicia a liberação de enzimas que retardam a cicatrização. Por este motivo deve-se minimizar o traumatismo cirúrgico. A prevenção do trauma faz-se através de um bom planejamento da cirurgia, trabalho em conjunto, boa iluminação, controle da força, conhecimento da anatomia topográfica, controle dos movimentos e gestos, busca de um ponto de apoio para diminuir o tremor e da diminuição do tempo de cirurgia. As regras básicas que norteiam a doutrina da técnica cirúrgica atraumática são: � Cirurgião sem tensão; � Movimentos mínimos e precisos; � Dissecar somente o indispensável; � Reduzir a exposição de tecidos ao mínimo; � Manipulação suave; � Uso de instrumentos e técnicas corretas; � Uso de compressas embebidas em solução fisiológica morna. 7 Fernando Álison Morais Diniz Felix IIIIII --- AAASSSSSSEEEPPPSSSIIIAAA EEE AAANNNTTTIIISSSSSSEEEPPPSSSIIIAAA::: TTTÉÉÉCCCNNNIIICCCAAASSS DDDEEE EEESSSTTTEEERRRIIILLLIIIZZZAAAÇÇÇÃÃÃOOO 1. CONCEITOS GERAIS Dois fatores inter-relacionados – trauma e infecção – são responsáveis pelo sucesso ou falha das cirurgias. Praticamente, o objetivo de todas as intervenções, seja direta ou indiretamente, é limitar o trauma e diminuir o risco de infecção cirúrgica. As grandes possibilidades da cirurgia moderna têm se desenvolvido paralelamente com o grande aumento das responsabilidades do cirurgião. Ele é o principal responsável pelo bem estar e saúde do paciente antes, durante e após a cirurgia. Os dois maiores fatores que contribuíram para o desenvolvimento da cirurgia moderna foram o descobrimento da anestesia e a aplicação dos princípios da antissepsia e da assepsia. 2. HISTÓRICO Alguns grandes cientistas contribuíram para que isso acontecesse: Louis Pasteur (1822 - 1895), com a descoberta do microscópio, pôde estudar e identificar bactérias responsáveis pela putrefação, carbúnculo e raiva nos animais, proporcionando os fundamentos das técnicas da antissepsia. Joseph Lister (1827 - 1912), cirurgião inglês, descobriu que o pus não se formava em feridas cuja contaminação era evitada. Usou ácido carbólico para lavar as feridas e evitar a contaminação, dando início à doutrina da antissepsia. Ignácio P. Sammelweis (1818 - 1865), obstetra austríaco, reconheceu a importância da lavagem das mãos antes das manobras obstétricas como método para diminuir a incidência da febre puerperal. Oliver Holmes (1809 - 1894) advogou a mudança das roupas e lavagem das mãos após sair das salas de necropsia. Ernest Von Bergmann (1836 - 1907) usou cloreto de mercúrio ao invés do ácido carbólico para antissepsia e em 1886 introduziu a esterilização a vapor. Este método foi estudado por Merke (1880) em Berlin e aperfeiçoado por Koch em 1881. Robert Koch (1843 - 1910), bacteriologista alemão, demonstrou pela primeira vez a especificidade de diferentes tipos de bactérias para produzir infecções cirúrgicas. William S. Halstead (1852 - 1922), entre outras técnicas cirúrgicas, como a ligadura delicada dos vasos, introduziu o uso das luvas de borracha para praticar cirurgias. As primeiras luvas de borracha foram feitas pela Goodyear e usadas em 1891 para prevenir dermatite em uma enfermeira. 3. DEFINIÇÕES Para melhor entendimento dessa doutrina, torna-se necessário conceituar os seguintes termos: Assepsia: é o conjunto de medidas que utilizamos para impedir a penetração de microorganismos num ambiente que logicamente não os tem, logo um ambiente asséptico é aquele que está livre de infecção. Antissepsia: é o conjunto de medidas propostas para inibir o crescimento de microorganismos ou removê-los de um determinado ambiente, podendo ou não destruí-los e para talfim utilizamos antissépticos ou desinfetantes. 8 BASES TÉCNICAS DA CIRURGIA Degermação: vem do inglês degermation, ou desinquimação, e significa a diminuição do número de microorganismos patogênicos ou não, após a escovação da pele com água e sabão. Desinfecção: é o processo pelo qual se destroem particularmente os germes patogênicos e/ou se inativa sua toxina ou se inibe o seu desenvolvimento. Os esporos não são necessariamente destruídos. Esterilização: é processo de destruição de todas as formas de vida microbiana (bactérias nas formas vegetativas e esporuladas, fungos e vírus) mediante a aplicação de agentes físicos e ou químicos. Toda esterilização deve ser precedida de lavagem e enxaguadura do artigo para remoção de detritos. O conceito de esterilização é absoluto. O material é esterilizado ou é contaminado, não existe meio termo. Na rotina, os termos antissépticos e desinfetantes são empregados como sinônimos, fazendo que não haja diferenças absolutas entre desinfetantes e antissépticos. Entretanto, caracterizamos como antisséptico quando a empregamos em tecidos vivo e desinfetante quando a utilizamos em objetos inanimados. 4. ESTERILIZAÇÃO A esterilização pode ser feita por métodos físicos e métodos químicos. Nos métodos físicos tem-se a filtração, a energia radiante e a energia térmica. Nos métodos químicos incluem-se os desinfetantes de 1º, 2º e 3º graus na forma líquida e gasosa. 4.1. Métodos físicos 4.1.1. Filtração É a separação de material em partículas de líquidos ou gases e feita através de filtros. Nos filtros são removidos os microorganismos e outras partículas do material filtrado, pois as partículas maiores ficam retidas na superfície do filtro. Existem filtros de membrana e de profundidade, com uma espessura de aproximadamente 150 m. 4.1.2. Radiação É usada naqueles materiais que não podem ser esterilizados pelo calor ou por íons químicos. Existem dois tipos de radiações aplicáveis, a eletromagnética e a de partículas. Ambas produzem efeitos líticos pela produção de ionização dentro ou próximos ao organismo. Geralmente é chamada de esterilização fria, pois não ocorre elevação de temperatura. Ex: radiação ionizante: raios alfa, raios gama e raios X. 4.1.3. Energia Térmica a) Calor Seco: o Flambagem: pode ser usada em emergências e não produz uma esterilização eficiente, além de encurtar a vida útil do instrumental. o Forno de Pasteur: promove uma esterilização boa, sendo demorada e pode ser usada a 1800ºC por 30 minutos ou 2000ºC por 20 minutos. O forno deve ser aberto quando a temperatura estiver inferior a 400ºC. o Incineração: é um método efetivo de esterilização pelo calor seco, porém é altamente destrutivo, sendo usado mais para exterminação de material contaminado. O aparelho mais comum para a esterilização pelo calor seco é a estufa. A temperatura interior é controlada por um termostato. A esterilização acontece quando a temperatura no interior da estufa atinge de 160ºC a 170ºC, durante 2 horas, ocorrendo destruição de microorganismos, inclusive os esporos. b) Calor Úmido: o Fervura: em condições normais não deve ser considerado um agente esterilizador e sim desinfetante, pois sabemos que os esporos, e alguns 9 Fernando Álison Morais Diniz Felix vírus, como o da hepatite, resistem a essa temperatura, alguns até por 45 h. O tempo requerido para esterilização é de 30 minutos em nível do mar. Este tempo pode ser reduzido em 50% pela adição de hidróxido de sódio (0,1g/100ml) ou carbonato de sódio (2g/10ml). o Autoclave: baseia-se no princípio de que o vapor retido sob pressão alcança altas temperaturas sem entrar em ebulição (mecanismos da panela de pressão). Funciona a 135ºC por 3 minutos, 125ºC por 10 minutos ou 120ºC por 15 minutos. O material deve ser muito limpo e exposto ao vapor para assegurar um bom aquecimento. O instrumental deve ser enrolado em material permeável ao calor e a autoclave deve ser apropriadamente manuseada. Dentre as vantagens tem-se o ciclo rápido, permitindo vários processamentos por dia, menor dano ao instrumental e a menor exposição ao calor. A autoclave a vácuo funciona como a de vapor. 4.2. Métodos químicos O termo esterilização química implica no uso de líquidos ou gases para se obter a esterilização. O efeito deste tipo de esterilização sobre os microorganismos é através de mudanças na estrutura química na célula. Dentre os agentes que promovem a esterilização gasosa tem-se o formaldeído e o óxido de etileno como principais. As indicações para seu uso são as fumigações de grandes espaços, como ambientes hospitalares ou barracas e a esterilização de materiais sensíveis ao calor e que não suportam muita umidade, como plásticos, instrumentos ópticos e borrachas. 4.2.1. Desinfetantes de lº grau Usado para esterilizar itens críticos, ou seja, todo material usado em intervenções cirúrgicas. Os desinfetantes desta categoria devem ter capacidade de destruir formas vegetativas, esporos, bacilo da tuberculose e vírus. Capazes de esterilização são o formaldeído, glutaraldeído, iodo e o óxido de etileno, cujo mecanismo de esterilização é o de alquilação (átomos de hidrogênio são repostos por grupos de hidróxido etílico bloqueando assim os grupos reativos para que se realizem as reações metabólicas). O formaldeído (CH2O) é um sólido branco que sublima em temperatura ambiente. Em fumigações de salas ou outros espaços 0,5 a 1,0 ml de formalina por 30 cm³ de espaço a ser vaporizado. A temperatura ambiente deve ser ao redor de 20°C e a umidade relativa do ar de 100%. As bactérias vegetativas são mortas em 2 horas. Os esporos necessitam 12 horas para serem mortos. Após a esterilização com formaldeído, a aeração é necessária. Os gases são muito irritantes e a alta umidade requerida é corrosiva. O óxido de etileno é o agente gasoso mais popular para esterilização existente, por ter uma dissipação mais rápida que o formaldeído sendo, porém, mais inflamável e explosivo. Difunde-se e penetra rapidamente no material a ser esterilizado, sendo por isto indicado para esterilizar objetos longos e tubulares. Possui propriedade bactericida em todos os microorganismos e sua ação é por alquilação. 4.2.2. Desinfetantes de 2º grau Desinfetantes que atuam pela desnaturação das proteínas. São os compostos fenólicos, clorinas, álcool e iodo. 4.2.3. Desinfetantes de 3º grau Desinfetantes que não têm poder virucida, esporocida e tuberculocida. Incluem os compostos mercuriais e compostos de amônio quaternário, cuja ação é mais bacteriostática. 10 BASES TÉCNICAS DA CIRURGIA 5. ANTISSÉPTICOS Muitos dos desinfetantes que são usados em objetos inanimados são também usados na pele e em feridas. Quando são usadas com este propósito são chamados de antissépticos. Eles são usados para reduzir a flora bacteriana da pele dos braços e mãos da equipe cirúrgica e o campo operatório do paciente. Este é o ponto fraco da técnica cirúrgica asséptica, pois é impossível esterilizar a pele sem destruí-la. Um antisséptico adequado deve exercer a atividade germicida sobre a flora cutâneo-mucosa em presença de sangue, soro, muco ou pus, sem irritar a pele ou as mucosas. Além da atividade antimicrobiana, os antissépticos devem ser atóxicos, não irritantes quando aplicados e devem reter suas propriedades “in vivo”. Muitos agentes que têm propriedades antimicrobianas “in vitro” são ineficazes quando usadas como antissépticos, pois são inativados por materiais orgânicos. Os agentes que melhor satisfazem as exigências para aplicação em tecidos vivos são os iodos, a clorexidina, o álcool e o hexaclorofeno. 5.1. Indicações 5.1.1. Pele A superfície epidérmica é muito irregular, composta de placas de queratina e células mortas, sendo queas bactérias estão presentes sobre e sob estas células mortas. As bactérias presentes na pele são divididas em dois grupos: bactérias transitórias e residentes. As bactérias transitórias são as adquiridas do meio ambiente pelo contato diário com material contaminado. São de vários tipos e número, aumentando quando protegidas por dobras de pele ou outras estruturas anatômicas como a cabeça, unhas, umbigo e região perineal. As bactérias residentes formam uma população estável que vive e se multiplica na pele. Dentro desta categoria estão os estafilococos de baixa patogenicidade e outros agentes. O tamanho e o tipo variam muito entre indivíduos. 5.1.2. Membranas mucosas O ambiente morno e úmido destas áreas é ideal para crescimento de microorganismos, mas normalmente as membranas mucosas formam uma barreira efetiva contra a invasão para tecidos mais profundos. É mais fácil remover microorganismos de superfície das mucosas do que da pele. Uma lavagem gentil geralmente remove a contaminação mais grosseira, sendo complementada com uma lavagem com antisséptico para remoção de bactérias residuais. 5.2. Agentes antissépticos 5.2.1. Sabões São antissépticos fracos e não são muito bons para pele. Seu valor está associado ao fato de serem agentes não irritantes, quanto usados com fricção mecânica, sendo usado para lavar as mãos antes de procedimentos cirúrgicos. Preconiza-se o uso de sabão líquido no hospital e unidades de saúde. Em resumo: Os sabões têm ação detergente ou degermante. 5.2.2. Bifenol Este grupo contém um grande número de compostos usados como antissépticos e desodorantes. O hexaclorofeno é muito importante em cirurgia por seu efeito residual, porém é vendido somente por prescrição por ser carcinogênico. 11 Fernando Álison Morais Diniz Felix 5.2.3. Álcool O álcool etílico é o mais comum dos antissépticos para a pele e geralmente superior aos outros álcoois para este fim. Álcool etílico a 70% tem uma efetividade igual ao etílico de 92%. Exerce ação germicida quase imediata, porém sem nenhuma ação residual e ressecam a pele em repetidas aplicações, o que pode ser evitado adicionando se glicerina a 2%. 5.2.4. Iodo É muito popular na antissepsia, por ser efetivo e barato. Sua ação germicida é devido ao elemento iodo, em ambas as formas, aquosa e alcoólica (tintura). A tintura de iodo tem sido recomendada para aplicação na pele de pacientes antes das cirurgias. A solução de iodo também tem sido recomendada como antisséptico. 5.2.5. Iodóforos Possuem perto de 1% de iodo disponível. São excelentes agentes para limpeza e não são irritantes. São chamados de iodóforos e liberam o iodo lentamente, permitindo uma estabilidade maior para a solução. Os compostos de iodo têm ação residual, entretanto sua atividade é diminuída em virtude da presença de substâncias alcalinas em matérias orgânicas. O iodóforo mais usado para a antissepsia das mãos é a solução degermante, de PVPI a 10% (1% de iodo ativo), em solução etérica, que é bactericida, tuberculicida, fungicida, virucida e tricomonicida. Essa solução tem a seu favor, o fato de não ser irritante, ser facilmente removível pela água e reagir com metais. Para as feridas abertas ou mucosas, (sondagem vesical), usamos o complexo dissolvido em solução aquosa (tópico). Para a antissepsia da pele íntegra antes do ato cirúrgico usamos o complexo dissolvido em solução alcóolica. Em resumo: Os iodóforos têm ação bactericida, fungicida, virucida e ação residual. 5.2.6. Clorexidina A clorexedina é um germicida do grupo das biguanidas, apresenta maior efetividade com um pH de 5 a 8, e age melhor contra bactérias Gram-positivas do que Gram-negativas e fungos. Atua aumentando a permeabilidade da membrana celular, causando perda de conteúdo citoplasmático. Tem ação imediata e tem efeito residual. Apresenta baixo potencial de toxicidade e de fotossensibilidade ao contato, sendo pouco absorvida pela pele íntegra. Para casos de alergia ao iodo, pode-se fazer a degermação prévia com solução detergente de clorexidina a 4%. Soluções aquosas de clorexedina em concentrações inferiores a 4% de álcool são mais facilmente contamináveis sendo considerados inadequados para uso hospitalar. Em resumo: a ação da clorexedina é germicida, melhor contra Gram-positivo e tem ação residual. Superior ao hexaclorofeno e PVPI, porém é mais caro. Obs.: a mistura de iodo/iodóforos com clorexidina inativa ambos os compostos, tornando-os ineficazes quanto a sua ação germicida. 12 BASES TÉCNICAS DA CIRURGIA IIIIIIIII --- DDDIIIÉÉÉRRREEESSSEEE 1. DEFINIÇÃO Entende-se por diérese a separação dos tecidos, realizada por meio de intervenções manuais. Tem-se diferentes tipos de diérese, de acordo com o tecido a ser separado, ou seja, diérese da pele, de aponeurose, de músculo e de órgãos específicos. 1.1. Acesso cirúrgico A via de acesso é definida pelo cirurgião de acordo com o diagnóstico mais provável, que permita fácil acesso ao órgão a ser operado, a exploração adequada da cavidade abdominal, e possíveis procedimentos complementares eventualmente necessários. As incisões devem ser planejadas para preservar ao máximo a musculatura e a inervação e permitir um fechamento seguro. As incisões abdominais (laparotomia) mais usadas e algumas clássicas usadas em condições especiais estão sistematizadas nos desenhos abaixo. Curiosidade: Tentacânula é um instrumento próprio para guiar a ponta do bisturi durante a incisão. Incisões laparotômicas: (1) mediana supra-umbilical, (2) mediana infra-umbilical, (3) oblíqua E (Heaney-Humphrey), (4) pararretal medial E, (5) pararretal lateral E, (6) oblíqua inguinal D, (7) subcostal oblíqua E, (8) McArthur (McBurney), (9) Babcock, (10) transretal bilateral, (11) transretal supraumbilical (Meyer), (12) Pfannenstiel, (13) Leclerc, (14) Drüner, (15) inguinal transversa D (Felizet), (16) Kocher (2-3 cm abaixo do RCD), (17) paramediana pararretal medial médio-umbilical D (Lennander), (18) Pimbrane-Mirizzi (sobre o RCD), (19) Auvert, (20) Dijon, (21) subcostal bilateral (Chevron) com extensão mediana. 13 Fernando Álison Morais Diniz Felix 2. DIÉRESE DE PELE A pele pode ser considerada um sistema, pois possui, além da epiderme e a derme, um aporte vascular e nervoso próprios, e seus anexos como as glândulas sebáceas e sudoríparas e os folículos pilosos. Desempenha também funções altamente especializadas, como parte dos mecanismos de defesa, regulação da pressão sanguínea, receptores dolorosos (nociceptores) e sensitivos, além de servir de "membrana" que proporciona a individualidade dos seres. Instrumental: a separação da pele pode ser feita com o bisturi, tesoura e bisturi elétrico. Recentemente o raio laser tem sido usado para abordagens de tecidos e pode ser, de acordo com alguns autores, enquadrado como instrumento de diérese. Técnica: desenvolve-se a partir de vários tempos: 2.1. Traçado da incisão o Ligeira escarificação com a ponta do bisturi; o Com o auxílio do azul de metileno; o Com agulhas hipodérmicas; o Compressão com fio e escarificação, em áreas arredondadas ou convexas; o Com lápis dermatológico (por exemplo para cirurgias plásticas). 2.2. Secção de pele O cirurgião destro fixa e distende a pele com a mão esquerda (pode ser auxiliado pelo assistente) e empunha o bisturi com a mão direita, fazendo com que a lâmina deslize com a superfície cortante em ângulo reto sobre a pele. O cirurgião canhoto usa as posições inversas. A fixação da pele pode ser feita com as mãos, pinças ou agulhas de injeção. Na secção da pele deve ser observado o sentido da incisão, que deve ser realizada na direção crânio caudal, respeitando as linhas de tensão, quando ocirurgião destro tiver a cabeça do paciente colocada do seu lado esquerdo. Deve ser também no sentido distal-proximal com relação ao cirurgião e de cima para baixo. Idealmente, a incisão é feita com um só movimento (magistral). 2.3. Tipos de secção de pele Magistral: A incisão é feita com um só movimento ou traço, sem levantar o bisturi, movendo-se o pulso ao mesmo tempo que se traciona o braço. O bisturi deve ser empunhado como um lápis ou faca. Secção magistral breve: Consta de uma incisão rápida, onde é feito somente o movimento de pulso – indicada para pequenas incisões (5 ou 6 centímetros). Serrilhada: Usada quando o bisturi não tem fio e os movimentos são como quando se usa uma serra ou faca de pão. Punção: É feita uma pequena incisão, introduzindo o bisturi pela ponta, em uma posição quase que vertical. Transfixação: O bisturi penetra com a parte cortante voltada para cima e secciona desde a profundidade para a superfície, a medida que o vai sendo removido. Secção circular: Aconselha-se marcar a linha de incisão, que pode ser feita em um ou dois tempos. Secção com bisturi ampliada com tesoura: Onde a epiderme é seccionada com o bisturi e a derme com a tesoura. Secção com tesoura: Quando usada é devido à ausência do bisturi ou em casos de recortes em cirurgia reparadora. 2.4. Despregamento cutâneo Usado quando é necessário desprender a pele do tecido subcutâneo, onde as bordas de pele são pinçadas e o tecido subcutâneo é seccionado com bisturi ou afastado com tesoura (introduzida fechada e aberta no interior dos tecidos). 14 BASES TÉCNICAS DA CIRURGIA Este despregamento pode ser em 3 planos: subdérmico, subcutâneo e supra- aponeurótico. 4. DIÉRESE DO TECIDO SUBCUTÂNEO Quando o paciente é magro, o tecido subcutâneo é escasso, sendo seccionado pelo bisturi com a pele. Se o indivíduo for obeso, é necessário seccionar várias vezes antes de ser transposta esta camada de gordura. 4.1. Métodos de diérese subcutânea o Secção com bisturi: às cegas, isto é, junto com a pele; o Secção magistral: com prévia diérese de pele; o Secção por planos: onde são feitas tantas incisões quantas necessárias para se atingir o tecido aponeurótico; o Secção com bisturi e tesoura: incisão com o bisturi, dissecação romba com tesoura (tesoura na posição vertical); o Secção com tesoura: onde, com o auxílio de pinças, eleva-se o tecido subcutâneo e secciona-se. 4.2. Despregamento do tecido subcutâneo A secção é feita com o bisturi e o afastamento ou despregamento do tecido subcutâneo é feito com a tesoura, cabo do bisturi ou com as mãos. 6. DIÉRESE DA APONEUROSE Geralmente a linha de secção da aponeurose superficial é a mesma da incisão cutânea. Esta secção é uma etapa importante da diérese, pois na reconstrução por planos, na síntese, é a aponeurose que fornece o suporte necessário para uma adequada sutura muscular. 6.1. Exposição da aponeurose Antes de ser incisada, a aponeurose deve ser preparada ou limpa (afastamento do tecido subcutâneo ou adiposo do local onde será feita a incisão), por meio de movimentos laterais com a lâmina do bisturi. 6.2. Secção da aponeurose O sentido da incisão pode ser distal-proximal, proximal-distal, ou por incisões divergentes, se feitas com o bisturi ou tesoura respectivamente. 6.3. Tipos de secção o Com bisturi: da esquerda para a direita (pessoas destras); o Com tesoura: mediante prévio orifício feito com o bisturi ou tesoura; o Com tesoura: mediante prévia dissecação; o Sobre tentacânula: com prévia introdução deste instrumento. 6.4. Desprendimento da aponeurose Quando necessário, faz-se uma tração suave com uma pinça anatômica e separa-se o tecido com tesoura. 7. DIÉRESE MUSCULAR Os músculos são estruturas importantes, pois são através deles que se tem acesso a estruturas mais profundas, como ocorre na maioria das intervenções. Às vezes não é necessário incisar um músculo, e sim dissecá-lo. Uma correta dissecação e diérese muscular permitem uma boa abordagem cirúrgica, assim como uma perfeita reconstrução da ferida cirúrgica, com o que se previne eventual deiscência. 15 Fernando Álison Morais Diniz Felix Os músculos pacientes de dissecação ou diérese sofrem uma reação cicatricial que limita seu funcionamento em maior ou menor grau. 7.1. Instrumental Para a diérese aguda, usar o bisturi e para a romba usar a tesoura ou as mãos ou os dedos. 7.2. Técnica de dissecação Dissecar um músculo significa desprendê-lo parcial ou totalmente dos tecidos que o rodeiam (aponeuroses e músculos vizinhos), respeitando os nervos e vasos. Primeiro expõe-se a face superficial, após as laterais e por último a profunda. 7.3. Técnica de diérese muscular o Simples: Quando todos os planos são incisados na mesma direção da incisão da pele. o Complexa: quando os planos musculares são atravessados no sentido de suas fibras, sem se levar em conta a direção da incisão de pele. 7.4. Tipos de diérese o Secção magistral: sempre com bisturi, onde pode ser usada o auxílio de duas pinças de tecidos para elevação do músculo; o Secção com tesoura: constrói-se um túnel com a tesoura em posição horizontal e secciona-se com a tesoura na posição vertical. o Secção com os dedos: a partir de um orifício feito com o bisturi ou tesoura, e sempre no sentido ou na direção das fibras musculares. 16 BASES TÉCNICAS DA CIRURGIA IIIVVV --- IIINNNSSSTTTRRRUUUMMMEEENNNTTTAAALLL CCCIIIRRRÚÚÚRRRGGGIIICCCOOO 1. BISTURI Bisturi é um instrumento cirúrgico, usado para fazer incisões, caracterizado por possuir uma lâmina muito afiada. Há diversos tamanhos de cabo e tipos de lâminas, para funções específicas. Há também o bisturi elétrico (função de corte e coagulação). Os bisturis podem ser totalmente descartáveis (cabo e lâmina são eliminados após o uso) ou somente as lâminas são removíveis e descartáveis. Vale dizer que é necessário fazer uso do porta-agulhas para a colocação e a remoção das lâminas removíveis. 1.1. Empunhadura Existem alguns métodos para segurar um bisturi, dependendo muito onde e como vai ser usado: a) Como uma faca ou “arco de violino”, onde o dedo indicador posiciona-se sobre a porção dorsal posterior da lâmina, com a finalidade de controlar a pressão dessa sobre o tecido a ser enfocado. Usar esta posição para as incisões de pele e de tecidos mais duros. b) Como um lápis, podendo dessa maneira ser manipulado pelos dedos sem movimentar o pulso. Usado para dissecação e incisões delicadas, onde não há necessidade de pressão sobre o tecido a ser incisado. c) Para limpeza ou afastamento do tecido gorduroso ou aponeurose, ou ainda dissecação sobre estruturas, o bisturi é manipulado em ângulo oblíquo em relação aos tecidos. Formas de empunhar o bisturi. Da esquerda para direita: empunhadura a), b) e c). 1.2. Cabos Os tipos mais comumente utilizados na diérese incisional são os de número 3 e 4, sendo o 3 mais fino. São preparados para receber uma variedade de tipos de lâminas por meio de encaixe em sua fenda receptora (ranhuras laterais). Existem variantes desses cabos, mas permanecendo os mesmos tipos de ranhuras. Por exemplo, variantes do cabo 3 são o 3L e o 7, e do cabo 4 tem o 4L. Cabos de bisturi. Detalhe das ranhuras dos cabos 3 e 4. 17 Fernando Álison Morais Diniz Felix 1.3. Lâminas As lâminas para bisturi são produzidas em aço inoxidável e com diferentes formatos dependendo de seus usos específicos. Para cabos de bisturi nº 3, utilizamos as seguintes lâminas: o nº 10; o nº 11; o nº 12; o nº 15. Para cabos de bisturi nº 4, utilizamos as seguintes lâminas: o nº 20; o nº 21; o nº 22; o nº 23; o nº 24; o nº 25. 1.4.Maneira correta de trocar a lâmina do bisturi Para conectar a lâmina ao cabo é necessária a utilização de um porta-agulha de modo a evitar cortes ao manuseá-la. Com o auxílio do porta-agulha, segura-se a lâmina em sua extremidade superior proximal. O cabo é segurado pelo corpo de modo que a extremidade com a lâmina fique voltada para frente. A lâmina é deslizada anteroposteriormente pelo cabo até que haja um estalido. A remoção obedece aos mesmos procedimentos, entretanto o porta-agulha deverá segurar a lâmina em sua porção mais distal e superior levantando-a para desconectá-la e deslizando-a em sentido oposto ao anterior. À esquerda vemos a maneira correta de retirar de sua embalagem a lâmina de bisturi. À direita vemos a forma adequada de remover a lâmina, sendo que, para conectá-la, o porta-agulha a segura em sua extremidade proximal. 2. PINÇA DE DISSECÇÃO OU ANATÔMICA São instrumentos de preensão muito úteis como auxiliares em qualquer tempo cirúrgico. Estas pinças são seguras entre o polegar e os 2º e 3° dedos. Existem muitos tipos dessas pinças, e elas devem ser usadas nos tecidos para os quais foram feitas. Como exemplo, a pinça de dissecação com ponta delicada não deve ser usada na pele. Tipos básicos: o Anatômica sem dente-de-rato (atraum.); o Anatômica com dente-de-rato (traum.); o Adson com ou sem dente-de-rato. 18 BASES TÉCNICAS DA CIRURGIA 3. TESOURAS Têm como função principal efetuar a secção ou a divulsão de tecidos orgânicos, além de seccionar materiais cirúrgicos, como gaze, fios, borracha, entre outros. As tesouras variam no tamanho (longas, médias ou curtas), no formato da ponta (finas, rombas ou mistas) e na curvatura (retas ou curvas), cada uma com uma finalidade específica, adequada a cada fase do ato operatório e à especialidade cirúrgica. As tesouras são destruídas rapidamente quando usadas para outros fins que não os aconselhados. As tesouras para cortar fios cirúrgicos geralmente são tesouras retas com ponta romba, e devem ser usadas para fios que não arames ou metálicos. As tesouras para cortar fios metálicos são especiais e menores que as cirúrgicas (melhor são os alicates para tal finalidade). Para cortar fios cirúrgicos, abrem-se pouco as lâminas, que deslizam sobre as pontas a serem cortadas e viradas levemente antes das lâminas cortarem o fio. O tamanho do fio cortado vai depender do grau de rotação da tesoura. Tesouras para tecidos (usualmente curvas) podem ser usadas sempre que se possa ver o tecido entre suas lâminas. Tesouras de ponta romba para dissecação: inserir as lâminas fechadas e abri- las, separando os tecidos. Tesouras. De cima para baixo, da esquerda para direita: Tesoura de Mayo (reta – cortar fios), tesoura de Metzenbaum (curva – cortar tecidos), tesoura de Íris (reta), tesoura de Spencer (cortar/remover pontos de suturas) e tesoura de Potts-Smith (vascular). No canto inferior direito: detalhe de como as pontas das tesouras podem se apresentar. Função: diérese. 19 Fernando Álison Morais Diniz Felix 4. PINÇAS HEMOSTÁTICAS, DE TECIDOS E AUXILIARES Partes da pinça: alça, cremalheira, cabo, articulação e mandíbula. Se as alças forem douradas significa que a pinça ou porta-agulha possui em sua mandíbula wídia, uma liga de carboneto de tungstênio que confere excelentes propriedades de dureza e resistência ao desgaste desse material, melhorando seu manuseio. Pinça de Crile reta. 4.1. Pinças hemostáticas tradicionais Hemostasia é toda manobra destinada a evitar ou estancar hemorragia, visando impedir perda sanguínea que comprometa a volemia, mantendo limpo o campo operatório e evitando formação de coleções sanguíneas e de coágulos que favoreçam as infecções. Pinças hemostáticas devem abranger somente o vaso sangrante e incluir o mínimo possível de tecido adicional. O assistente deve segurar a pinça com a ponta voltada em direção ao cirurgião, de maneira que o vaso possa ser facilmente ligado. Após o primeiro nó ser feito e estar sendo apertado, a pinça hemostática é removida de maneira a permitir que o nó seja apertado por completo e possa ser feito o 2º nó. Principais representantes: Kelly, Crile e Halstead (mosquito). Pinças hemostáticas tradicionais. Pinças de Kelly, Crile e Halstead. Observar: Kelly só possui ranhuras nos 2/3 distais da mandíbula, ao contrário da Crile que possui ranhuras em toda a mandíbula; a Halstead (mosquito) é semelhante à Crile, porém de tamanho reduzido quase pela metade. Função: hemostasia. Mandíbula (se for tesoura: lâmina) Articulação Cabo ou ramo Cremalheira ou catraca (ausente nas tesouras) Alça ou empunhadura 20 BASES TÉCNICAS DA CIRURGIA 4.2. Pinças hemostáticas especiais Este tipo de pinça é usado para ocluir a circulação em grandes vasos. O vaso deve ser pinçado o suficiente para oclusão do fluxo sanguíneo, de maneira a minimizar o trauma vascular. Principais representantes: Rochester, Mixter, DeBakey, Satinsky, Cooley, Bulldog, Moyniham, Crafoord, ... Pinças hemostáticas especiais. De cima para baixo, da esquerda para direita: pinças de Mixter, Moyniham (reta) e Crafoord (curva), Rochester, Cooley, Satinsky, DeBakey (reta) e clamp Bulldog (reto e curvo). Função: hemostasia. 4.3. Pinças de tecidos Devem ser usadas nos tecidos para os quais foram planejadas de maneira a minimizar o trauma. Por exemplo, a pele não deve ser pinçada com pinças de Allis, que devem ser usadas em tecidos mais moles. Incluem: Allis (preensão intestinal), Nelson, Kocher (preensão aponeurótica), Faure (pinça uterina), Museaux, Pozzi (tração do colo uterino), Pean-Murphy, Foerster, Duval (hemostasia ou preensão intestinal), coprostase (clamp intestinal), ... → Ver figura: pinças de tecidos. 4.4. Pinças auxiliares De função específica ou que não participam do transoperatório. → Ver figura: pinças auxiliares. 21 Fernando Álison Morais Diniz Felix Pinças de tecidos. De cima para baixo, da esquerda para direita: pinças de Nelson, Allis, Kocher, Faure, Babcock, Foerster, Collin coração, Duval, Museaux, Pozzi, válvula mitral e clamp intestinal (coprostase). Funções: variadas (maioria é preensão – traumática ou atraumática). 22 BASES TÉCNICAS DA CIRURGIA Pinças auxiliares. De cima para baixo, da esquerda para direita: Backhaus (fixar campos cirúrgicos), Cheron (montar gase para antissepsia do local da cirurgia), Pean-Murphy (utilisada para romper saco amniótico ou para montar gase), Collin (para assepsia) e Magill (auxiliar na intubação nasotraqueal e remover corpo estranho de via aérea). Funções: variadas (maioria é preensão – traumática ou atraumática). Todos os instrumentos com alças são empunhados da mesma maneira. O dedo polegar e o 4º dedo são colocados e ajustados nas alças, o 2º dedo (indicador) é usado perto ou acima da articulação e serve, junto com o 3º dedo, para estabilizar e direcionar o instrumento. → Ver imagem ao lado. 23 Fernando Álison Morais Diniz Felix 5. RETRATORES OU AFASTADORES São instrumentos para afastamento das bordas da incisão, usados para se abrir as cavidades de acesso à manipulação cirúrgica (exposição cirúrgica). Podem causar lesões muito grandes nos tecidos, se usados inapropriadamente. Afastadores dinâmicos. Da esquerda para direita: espátula maleável, afastador de Farabeuf, valva suprapúbica, afastador de Doyen, afastador de Volkmann, afastador de Israel e afastador de Langenbeck. Função: exposição – afastadordinâmico (manual). Afastadores autoestáticos. Da esquerda para direita: afastador de Finochietto, afastador de Balfour acoplado à valva suprapúbica, afastador de Gelpi, afastador de Gosset, afastador de Weitlaner e afastador de Dennis-Browne. Função: exposição – afastador autoestático. 24 BASES TÉCNICAS DA CIRURGIA Uma compressa embebida em solução salina morna deve ser usada entre o retrator e os tecidos, de maneira a proteger as bordas de uma incisão abdominal ou torácica. Maneira correta de proteger as bordas para colocação do afastador. 6. APARELHO DE ASPIRAÇÃO Geralmente usados para aspirar o sangue do campo cirúrgico, sendo um problema comum a presença de coágulos em sua ponta. Isto é prevenido irrigando-se o campo operatório com solução salina e aspirando-a no início da cirurgia e periodicamente durante a mesma. É usado para aspirar a solução fisiológica usada para a lavagem final da ferida cirúrgica, drenagem de líquido fisiológico ou patológico em cavidades. Para tal finalidade utilizam-se as cânulas, sendo as de Cooley e de Yankauer mais utilizadas. 7. PORTA-AGULHAS As agulhas curvas devem ser colocadas na ponta do porta-agulha, a uma distância de um quarto do fundo da agulha. Não se usam porta-agulhas com agulhas retas. Quando são usados para fazer os pontos ou para atar os nós cirúrgicos, devem ser seguros com tesouras ou na palma da mão, sem os dedos nas alças. Partes: alça ou empunhadura, catraca ou cremalheira, articulação, garra preensora e ponta. Porta-agulhas. Da esquerda para direita: porta-agulha de Castroviejo (com wídia), de Mathieu, de Olsen-Hegar (porta- agulha e tesoura) e de Mayo-Hegar. À direita: forma correta de empunhar o porta-agulha de alças. Função: síntese. 25 Fernando Álison Morais Diniz Felix 7. AGULHAS DE SUTURA As agulhas têm por função promover a passagem do fio pelo tecido com o menor trauma possível. As agulhas para sutura geralmente são semicírculos delgados de aço que contêm, em uma extremidade, uma ponta ativa (que pode ter secção cilíndrica ou de “meia-lua”) e, em outra extremidade, um olhal (fundo) para a fixação da linha de sutura. Os tamanhos variam, assim como o formato do olhal. São classificadas quanto ao trauma que produzem (traumáticas e atraumáticas), quanto ao seu formato (circulares ou retas). Quanto ao trauma a classificação é vaga. Aceita-se como agulha atraumática aquela que possui sua ponta cilíndrica e traumática a de ponta cortante ou triangular. No entanto, as que já vêm montadas com o fio, são denominadas agulhas atraumáticas, proporcionando orifícios de entrada e saída menos traumáticos que aquelas que possuem fundo aberto para inserção manual do fio. 7.1. Seleção de agulhas Os fatores importantes a serem considerados na seleção das agulhas são as características dos tecidos a serem suturados, a ferida e as agulhas propriamente ditas. O diâmetro das agulhas é um fator importante a ser considerado: o Deve ser comprida o suficiente para abranger os dois lados da incisão; o Diâmetro muito grande resulta em maior trauma tecidual; o As agulhas que tiverem proporção entre o diâmetro e comprimento superior a 1:8, tendem a quebrar ou entortar facilmente; o Formato varia de acordo com o tecido a ser suturado. Existem as formas mais comuns de agulhas que são as retas, meia curva e partes de círculo (3/8, 1/2, 5/8, 3/4, etc.). As agulhas mais retas são usadas em tecidos próximos a superfície e nos intestinos. As agulhas curvas são mais convenientes para feridas pequenas ou profundas ou em cavidades. O tipo da ponta também deve ser considerado na escolha das agulhas: o As agulhas não traumáticas são arredondadas e sem bordas e geralmente são usadas para órgãos parenquimatosos, tecido adiposo e músculo. o As agulhas traumáticas são cortantes e indicadas para tecidos com maior resistência como tecido fibroso e pele. o As agulhas devem fazer um orifício grande o suficiente para permitir somente a passagem do material de sutura e serem grandes o suficiente e com formato adequado para permitir a execução das suturas de maneira rápida e precisa. 26 BASES TÉCNICAS DA CIRURGIA VVV --- FFFIIIOOOSSS CCCIIIRRRÚÚÚRRRGGGIIICCCOOOSSS 1. CONCEITO Entende-se por síntese o conjunto de manobras manuais e instrumentais, destinadas a unir os tecidos separados, restituindo sua continuidade anatômica e funcional. Definição de memória: capacidade inerente de um material para retornar à sua conformação original depois de manuseado e deformado. Quanto maior a memória de um fio, maior a rigidez, mais difícil o manuseio e menor a segurança do nó realizado com ele. Existem fios cirúrgicos nas cores verde, lilás, azul e preta que podem ser mais facilmente visualizados do que os incolores. 2. NORMAS PARA UMA BOA SUTURA o Antissepsia e assepsia corretas; o União de tecidos de mesma natureza, de acordo com os diferentes planos; o Hemostasia adequada; o Abolição dos espaços mortos; o Lábios ou bordas da ferida limpos e sem anfractuosidades; o Ausência de corpos estranhos ou de tecidos desvitalizados; o Emprego de suturas e fios adequados, realizados com técnica apropriada (nós). Se houvesse um material de sutura ideal, teria que se escolher somente o tamanho apropriado. Não existe um material de sutura ideal, porém os que existem disponíveis possuem excelentes propriedades. 3. CARACTERÍSTICAS DE UM MATERIAL DE SUTURA IDEAL a) Deve manter a tensão de estiramento até servir ao seu propósito; b) Ser flexível, mas não ter elasticidade; c) Não ser eletrolítico; d) Não capilar e monofilamentoso; e) Não propiciar crescimento bacteriano; f) Não provocar reações alérgicas, e não ser carcinogênico; g) Ser confortável ao usar, ter boa segurança nos nós; h) Provocar mínimas reações teciduais; i) Se for absorvível, ter sua absorção previsível; j) Se for não absorvível, ser encapsulado sem complicações; k) Passível de ser esterilizado e ser barato. 4. CLASSIFICAÇÃO DOS FIOS Os fios são geralmente classificados em dois grandes grupos: absorvíveis e não absorvíveis. o Fios absorvíveis: são aqueles que sofrem degradação e rapidamente perdem sua tensão de estiramento em 60 dias. o Fios não absorvíveis: são aqueles que retêm a força de tensão por mais de 60 dias. 27 Fernando Álison Morais Diniz Felix Os fios ainda podem ser classificados como naturais e sintéticos. Dentro dos materiais naturais absorvíveis tem-se o catgut cirúrgico e o colágeno. Material sintético absorvível é o ácido poliglicólico (Dexon), poliglactina 910 (Vycril) e Maxon. Nas fibras naturais não absorvíveis (incluindo os metais), tem-se a seda, algodão e o tântalo. Materiais sintéticos não absorvíveis incluem: poliamidas (náilon, caprolactam polimerizado), poliéster, plásticos poliolefino (polipropileno e polietileno) e polibutéster (Novafil). 5. FIOS DE SUTURA ABSORVÍVEIS NATURAIS 5.1. Catgut O catgut cirúrgico ainda é o fio mais usado em suturas até agora. É preparado tanto da submucosa do intestino delgado de ovinos ou da camada serosa do intestino delgado de bovinos. É um material capilar, multifilamentoso, composto de muitas tiras que são torcidas em máquinas, polidas de maneira a ter uma superfície regular e macia que parecem ser de fio monofilamentoso. É tratado com formaldeído e esterilizado por radiação ionizável. Não pode ser autoclavado, pois o calor desnatura as proteínas e causa perda de tensão. A absorção do catgut após seu implante obedece a um mecanismo de duas partes (biodigestão proteolítica): o Primeiro a perda da tensão de estiramento resulta na separação molecular por ação de ácidos hidrolíticos e atividades colagenolítica;o Segundo, a digestão e absorção são feitos por enzimas proteolíticas que ocorre tardiamente. Devido a sua composição de colágeno, o catgut estimula uma significante reação tipo corpo estranho nos tecidos. O catgut possui uma grande variação na absorção e na perda da tensão superficial, o que o coloca em posição de inferioridade quando comparado com os fios sintéticos absorvíveis. Uma absorção prematura acontece quando o catgut é exposto às secreções ácidas (pepsina) do estômago, ambiente infectado, ou tecidos muito vascularizados. Sua absorção também é acelerada em pacientes com deficiência protéica. A diferença em diâmetro tem pouca influência no tempo de absorção. O catgut médio perde ao redor de 33% de sua tensão original após 7 dias de implantado e cerca de 67% após 28 dias. O catgut cirúrgico está disponível na forma simples e cromado. O tratamento com sais de cromo resulta em um aumento das ligações intermoleculares, tendo como consequência o aumento da tensão superficial e a resistência à digestão, com decréscimo da reatividade tecidual. A graduação do catgut cromado é: o Cromado fraco (tipo B) - perda da tensão ao redor de 10 dias; o Cromado médio (tipo C) - perda da tensão ao redor de 20 dias; o Cromado extra (tipo D) - perda da tensão ao redor de 40 dias. Os calibres do catgut variam do 5-0 ao 2. Vantagens: muito bom manuseio, porém quando molhado, escorrega e enfraquece. Desvantagens: reação inflamatória que provoca ocasionando a irregularidade na absorção; dentre todos os fios de sutura, catgut é o que mais apresenta antigenicidade e alergenicidade. Indicação: aproximação de tecidos, bom em suturas no peritônio. Contraindicação: não deve ser utilizado no plano aponeurótico devido ao maior tempo de cicatrização 28 BASES TÉCNICAS DA CIRURGIA 5.2. Colágeno O colágeno é composto de material multifilamentoso e foi introduzido em 1964. É feito de tendão flexor de bovino, tratado com formaldeído ou sais de cromo, ou ambos. Sua natureza não asséptica e simplicidade no processamento são algumas vantagens, se comparado ao catgut cirúrgico. As suturas de colágeno são feitas atualmente em diâmetros finos e são usadas quase que exclusivamente em cirurgia oftálmica. 6. FIOS DE SUTURA ABSORVÍVEIS SINTÉTICOS Esses tipos de suturas foram introduzidos para reduzir a variação na absorção e consequente perda de tensão superficial associada aos produtos naturais. Mecanismo de absorção dos fios sintéticos absorvíveis: hidrólise. 6.1. Ácido poliglicólico (PGA) - DEXON É um polímero multifilamentoso do ácido glicólico (ácido hidroxiacético) que foi descrito pela primeira vez em 1970. Seu nome comercial é Dexon, nos tamanhos 7-0 a 3. O método de absorção de Dexon difere do catgut. O Dexon é absorvido por hidrólise não por fagocitose, possivelmente através de esterases. Existe a hipótese suspeita que os produtos de degradação do PGA são potentes agentes antibacterianos. A absorção está associada com uma grande redução do processo inflamatório se comparado com o catgut. A absorção completa ocorre usualmente em 100 a 120 dias. A hidrólise do PGA se processa mais rápida em presença de ambiente alcalino. O Dexon é relativamente forte e similar a poliglactina 910 e ao náilon monofilamentoso. Tem maior tensão de estiramento que o catgut, seda e algodão. A perda da tensão é ao redor de 37% nos primeiros sete dias após o implante e 80% em nove dias. Nenhuma tensão está presente aos 28 dias. Devido a sua rápida perda da tensão de estiramento, o PGA é inferior aos materiais não absorvíveis quando usados em tecidos com cicatrização vagarosa como ligamentos, tendões e cápsulas articulares. Deve-se considerar que o Dexon tem uma tensão de estiramento superior ao catgut durante a fase mais crítica da reparação das feridas. O Dexon pode ser usado em grande variedade de procedimentos cirúrgicos é bem tolerado não só em feridas limpas, mas também em situações de infecção. As desvantagens do PGA incluem a tendência de cortar os tecidos, principalmente os friáveis, e menor segurança nos nós que o catgut. A fricção pode ser reduzida umedecendo o fio antes do uso. A segurança dos nós pode ser aumentada apertando individualmente cada nó. Indicação: pode ser utilizado nos mais variados tecidos, incluindo feridas contaminadas. Contraindicação: não deve ser utilizado em aponeuroses, ligamentos, tendões, cápsulas articulares e outros tecidos de cicatrização vagarosa. 6.2. Poliglactina 910 - VICRYL É uma fibra sintética, trançada (multifilamentar), composta de ácido glicólico e láctico, em uma proporção de 9:1. Esta sutura é trançada para melhorar o manuseio. Seu nome comercial é Vicryl. O Vicryl é mais hidrofóbico e mais resistente à hidrólise que o Dexon. O mecanismo de absorção é o mesmo do Dexon (hidrólise), e ocorre entre 60 e 90 dias após o implante. É mais forte que o PGA em todo tempo do implante, principalmente de 0 a 35 dias. Esta sutura perde 50% de sua tensão depois de 14 dias e 80% após 21 dias. 29 Fernando Álison Morais Diniz Felix Sua absorção não depende do diâmetro da sutura. É mais forte que o catgut, e é bem tolerado em muitas condições diferentes em feridas. Não promove nenhuma manifestação vascular aguda após o implante. As reações celulares são predominantemente mononucleares e na vizinhança à área do implante. Indicação: pode ser utilizado nos mais variados tecidos, incluindo feridas contaminadas. Fechamento de pele com ponto intradérmico nº 5-0. Contraindicação: não deve ser utilizado na camada aponeurótica. 6.3- Polidiaxonona - PDS Esta sutura sintética monofilamentosa é um polímero da paradioxanona. Possui grande flexibilidade, maior que o Dexon, Vicryl ou polipropileno. Sua degradação é através da hidrólise, que ocorre em velocidade regular e de uma maneira previsível nos tecidos. A perda da tensão de estiramento é menor que do Dexon ou do Vycril. Perde 26% de sua tensão após duas semanas, 42% após 4 semanas e 86% após 8 semanas. A absorção é mais lenta que o Dexon e o Vicryl. Existe ainda evidência aos 91 dias e fica totalmente absorvida em 182 dias após o implante. Os produtos de degradação são excretados primariamente pela urina. O PDS II é um produto novo que possui todas as características do "velho" PDS exceto que o tempo de retenção da tensão do estiramento foi aumentado. Os macrófagos e os fibroblastos são as células mais observadas na absorção. Indicação: pode ser utilizado nos mais variados tecidos, inclusive nas anastomoses pancreáticas. Contraindicação: não deve ser utilizado na camada aponeurótica. 6.4. Poligliconato - MAXON Esse é um fio de sutura recente, produzido a partir de um copolímero do carbonato de glicolídeo e trimetilene (GTMC). Seu nome comercial é Maxon. Esta sutura monofilamentosa foi feita para ter o desempenho previsível de uma sutura sintética absorvível "in vivo". O Maxon tem uma tensão de estiramento inicial superior a do Dexon, Vicryl e polidiaxanona (é o fio que apresenta a melhor e mais duradoura força tênsil de todos os fios absorvíveis). É degradado por hidrólise. Retém a tensão de estiramento em 81% aos 14 dias, 59% em 28 dias e 30% em 42 dias. Como inconveniente está o fato de ser o fio de mais alto custo. Indicação: todos os tipos de tecidos, inclusive para os planos aponeuróticos, exceto para reparo de hérnias e desaconselhável na ligadura de vasos. 7. FIOS DE SUTURA NÃO ABSORVÍVEIS NATURAIS 7.1. Seda A seda é obtida da larva do bicho da seda. Está disponível na forma torcida ou trançada (ambas multifilamentares). Pode ser tratada por imersão em óleo vegetal, cera ou silicone, a fim de diminuir a capilaridade. Apesar de ser classificada como uma sutura não absorvível, ela pode ser absorvidaa longo prazo. A seda perde 30% de sua tensão de estiramento em duas semanas, 50% em um ano e praticamente toda tensão ao redor de dois anos. Vantagens: barata, excelente manuseio, e boa segurança nos nós. Desvantagens: maior reação tecidual que outros materiais não absorvíveis. Pode servir de "nidus" no sistema urinário, ou promover úlceras quando na luz de órgãos do sistema gastrintestinal. A cera ou o silicone diminuem a segurança dos nós, e ela fica mais fraca quando molhada. 30 BASES TÉCNICAS DA CIRURGIA Indicação: hemostasia (ligadura) de vasos nº 0 ou 2-0. Também é recomendada para unir tecidos em presença da contaminação. 7.2. Linho É um fio multifilamentar, capilar, proveniente da planta do linho (Linum usitatissimum). Sua reação inflamatória é mínima (encapsulação). Usado em tecidos gerais, sobretudo no trato gastrointestinal. 7.3. Algodão O algodão possui fibras naturalmente torcidas, multifilamentar. Foi introduzido no final da década de 1930. Vantagens: aumenta sua tensão de estiramento quando molhado. Outras vantagens incluem uma melhor segurança nos nós que a seda, perda lenta da tensão de estiramento (50% em 6 meses e 70% em dois anos). Desvantagens: provoca uma reação tecidual semelhante à da seda, potencializa infecções, é muito capilar e seu manuseio não é muito bom. 7.4. Suturas metálicas Tem sido usado por séculos. O aço inoxidável é atualmente a única sutura metálica com alguma aceitação. Disponível do tipo autêntico contendo ferro, cromo, níquel e molibdênio. Está disponível nas formas monofilamentosa ou torcida. Nome comercial: Aciflex. Vantagens: não promove reação inflamatória nos tecidos, possui maior tensão de estiramento de todos os materiais quando implantado nos tecidos, possui a maior segurança nos nós de todos os materiais, pode ser autoclavado, e é recomendado para tecidos com cicatrização lenta. A forma monofilamentosa pode ser usada em feridas contaminadas e infectadas. Desvantagens: tendência a cortar os tecidos, manuseio pobre (principalmente para atar os nós), quebra quando torcido muitas vezes no mesmo ponto e promove necrose tecidual pelo movimento dos tecidos contra as pontas não flexíveis. Indicação: quase exclusivamente em síntese óssea. Outras Suturas Metálicas: O tântalo, o alumínio e a prata têm sido usados como material de sutura, porém sem grande aceitação em cirurgia. O tântalo por ser um metal puro, tem sido usado como sutura e como malha para reparação de hérnias. Atualmente, o alumínio, prata e ouro são usados para próteses. 8. FIOS DE SUTURA NÃO ABSORVÍVEIS SINTÉTICOS 8.1. Poliamidas 8.1.1. Náilon (Nylon) O náilon ou nylon é um termoplástico que contém aminas e é derivado do ácido adípico. Encontra-se disponível na forma de sutura mono e multifilamentosa. Após sua implantação, perde ao redor de 30% de sua tensão de estiramento em dois anos (o monofilamentoso). O náilon multifilamentoso perde toda sua tensão ao redor de 6 meses. A perda desta tensão está associada a degradação química do náilon, e há suspeita que os produtos de degradação são agentes antibacterianos potentes. Vantagens: é biologicamente inerte, não capilar na forma monofilamentosa e possui uma tensão de estiramento similar a do polipropileno. Possui grande aplicação como material de sutura. A incidência de infecção em tecidos contaminados contendo náilon monofilamentoso é mais baixa do que qualquer outro material de sutura não absorvível, com exceção do prolipropileno. Possui mínima diferença microscópica quanto a reação tecidual se comparado ao aço inoxidável. Pode ser usado em qualquer tecido, porém não é recomendado para cavidade serosa ou sinovial, devido a irritação pela fricção de suas pontas. 31 Fernando Álison Morais Diniz Felix Desvantagens: pobre manuseio e pouca segurança nos nós. Possui memória que é a tendência de reverter a sua configuração original. A segurança dos nós pode ser melhorada, dando-se 4 ou 5 nós, o que prolonga o tempo de realização da sutura. Indicação: fio praticamente inerte e, por isso, usado em todos os tecidos. Fechamento de pele nº 3-0. 8.1.2. Caprolactam É uma sutura de poliamida multifilamentosa, torcida, da família do náilon. Pode ser esterilizado por autoclave. A esterilização química não é suficiente. Quando comparado ao náilon, o caprolactam tem uma tensão de estiramento maior, porém quando molhado perde ao redor de 20% da tensão. Promove mais reação inflamatória quando usado em suturas de pele, que a de um grampo de aço inoxidável. 8.1.3. Poliéster – MERSILENE É uma sutura multifilamentosa, disponível em forma simples e coberta, com polibutilato, teflon e silicone. Foi introduzida no final da década de 50. Vantagens: é muito forte (a sutura não metálica mais forte que existe). As de pequeno diâmetro promovem grande tensão de estiramento inicial, com pequena perda após a implantação. Oferece um bom suporte para tecidos de lenta cicatrização (como aponeurose, ligamentos, tendões, etc). Desvantagens: manuseio limitado, grande coeficiente de fricção (a cobertura geralmente diminui este coeficiente), pobre segurança dos nós (recomenda-se 5 nós apertados), é a mais reativa das suturas sintéticas (reação comparável à do catgut). Seu uso em feridas contaminadas tem sido associada com infecção local persistente e reação tecidual exagerada. 8.1.4. Poliolefina Este material induz pequena reação nos tecidos e é hidrofóbica. Seus dois representantes disponíveis são o polipropileno e o polietileno. a) Polipropileno - PROLENE Sutura monofilamentar introduzida em 1961 e é um polímero do propileno, um derivado do gás propano. Nome comercial é o Prolene. Disponível na cor azul e natural. Vantagens: grande segurança nos nós (melhor do que qualquer outro material monofilamentoso, não sintético não metálico), retém sua tensão de estiramento após a implantação nos tecidos, não é enfraquecido pelas enzimas teciduais e é por isso usado em sutura cardiovascular. Devido a sua grande flexibilidade, é recomendado para uso em tecidos que tenham capacidade de elongação, como pele e músculo cardíaco. Possui também o menor efeito potencial de transformar uma ferida contaminada em infectada (grande resistência à infecção bacteriana). Desvantagens: o fio torna-se escorregadio. Indicação: fechamento de aponeurose nº 0. b) Polietileno – GORETEX É uma sutura monofilamentosa com excelente tensão de estiramento, porém com muito pouca tensão nos nós. Pode ser autoclavado sem perda considerável de tensão. O polietileno é semelhante ao polipropileno com relação à mínima reatividade tecidual e sua resistência a contaminação bacteriana. A maior desvantagem é a pouca segurança dos nós. 8.1.5. Polibutéster – NOVAFIL É o único copolímero que é flexível. É monofilamentoso e possui o nome comercial de Novafil. Seu manuseio é considerado melhor que o náilon e polipropileno, enquanto sua tensão e segurança dos nós são semelhantes. 32 BASES TÉCNICAS DA CIRURGIA 9. TABELAS RESUMIVAS 10. ADESIVOS O grupo de material que tem sido usado mais comumente como adesivos teciduais é os cianoacrilatos. Os monômeros do cianoacrilato são convertidos do estado líquido ao sólido por polimerização, um processo que é catalisado por pequenas quantidades de água presente na superfície dos tecidos. Esta operação leva cerca de 60 segundos, dependendo da espessura dos tecidos, do filme e da umidade presente. A toxicidade tecidual tem sido um problema com os cianoacrilatos, principalmente com o metil e propil cianoacrilato. O isobutil Noctil e os análogos fluorados parecem ter um potencial clínico maior. 33 Fernando Álison Morais Diniz Felix Outro problema que tem sido associado com o uso de cianocrilato é o aparecimento de granulomase grande potencial de contaminação quando usados em feridas infectadas, retardamento na cicatrização e fraca aderência aos tecidos. Os adesivos teciduais têm sido usados efetivamente em situações experimentais e clínicas, como em cirurgia oral, anastomose intestinal, úlceras de córnea, controle de hemorragia na superfície de órgãos parenquimatosos, anastomose microvascular e transplantes de pele. 11. SUTURAS STERI-STRIP™ O Steri-Strip é um curativo estéril de Micropore com filamentos de poliéster, que promove o fechamento de pele de maneira fácil e rápida. Sensível a pressão, apresenta boa adesão inicial, proporcionando grande economia de tempo em relação as suturas convencionais. Por ser um fechamento não invasivo, reduz a chance de trauma no tecido e a consequente formação de edema cutâneo. Proporciona uma cicatrização mais rápida e diminui os riscos de infecções causadas por suturas invasivas. Proporciona melhor resultado estético, pois não deixa as marcas causadas pelos fios e pontos das suturas tradicionais. Indicações de uso: o Fechamento de incisões cirúrgicas; o Aproximação de bordas de feridas não infectadas; o Suporte para suturas convencionais, diminuindo o risco de deiscências. Melhor resultado estético, pois não deixa as marcas causadas pelos fios e pontos das suturas tradicionais. 12. PRINCÍPIOS A SEREM OBSERVADOS NA ESCOLHA DO MATERIAL DE SUTURA Quando tantos tipos de suturas estão disponíveis, a seleção apropriada pode ser difícil. Observe estes princípios práticos: a) As suturas devem ser tão ou mais fortes do que os tecidos normais através dos quais são colocadas; b) A pele e a fáscia são os tecidos mais fortes, sendo que o estômago, intestino e bexiga urinária são os mais fracos; c) As suturas não são necessárias após a ferida ter cicatrizado; d) As feridas viscerais cicatrizam rapidamente, mantendo a tensão entre 14 e 21 dias, sendo as suturas absorvíveis mais adequadas para estes tecidos; e) A fáscia e a pele cicatrizam mais devagar, sendo as suturas não absorvíveis as mais indicadas; f) Suturas monofilamentosas são mais resistentes à contaminação do que as suturas multifilamentosas; g) Suturas sintéticas são superiores às suturas naturais; 34 BASES TÉCNICAS DA CIRURGIA h) Ácido poliglicólico, poliglactina 910, polidioxanona, náilon monofilamentoso e polipropileno têm a menor incidência de infecção quando usado em tecidos contaminados; i) As condições mecânicas das suturas devem ser similares a dos tecidos a serem unidos. Conclusão: O material de sutura deve ser escolhido na base de suas propriedades biológicas conhecidas e da situação clínica presente no momento. Deve-se considerar também que determinado material é superior a outros em diferentes tipos e ambientes de feridas. Sendo assim, a escolha do material de sutura deve levar em consideração os seguintes critérios: o Tempo que deve permanecer na ferida; o Tempo de absorção pelo organismo; o Estado nutricional do paciente; o Idade, Obesidade; o Presença de doenças ou infecções. 13. SELEÇÃO DA ESPESSURA DE SUTURA APROPRIADA A seleção da sutura apropriada envolve a escolha do tipo e tamanho certos. Os fios de sutura são encontrados em comprimentos padronizados que variam de 8 a 90cm. As suturas são medidas em sistema métrico ou USP. Deve ser lembrado que dentro da classificação dos fios de sutura o número de zeros que vem escrito na embalagem informa o calibre do fio e também sua força tênsil. Assim, quanto maior o número de zeros na classificação dos fios, menos calibroso ele será e terá menor força tênsil também, porém será mais delicado. O contrário também é verdadeiro. Por exemplo, um fio dois zeros (2-0) é mais calibroso que um fio de mesmo material, porém três zeros (3-0). Menor diâmetro, Menor força tênsil Maior diâmetro, Maior força tênsil 12-0 11-0 10-0 9-0 8-0 7-0 6-0 5-0 4-0 3-0 2-0 0 1 2 3 Os fios de aço inoxidável são classificados de acordo com a recomendação de Brown e Sharp (B&S), sendo que a medida 41 equivale a 7-0 e a medida 18 equivale a 7. 14. RETIRADA DA SUTURA CUTÂNEA Os fios são retirados no momento em que percebemos que a tensão na pele não necessita mais da presença do fio. Sugestões: o Face e pescoço: 5-8 dias. o Couro cabeludo e nuca: 14 dias. o Dorso da mão e do pé: 14 dias. o Tronco: 21 dias. o Região glútea: 14 dias. o Ombro e dorso: 28 dias. o Braço e coxas: 14-18 dias. o Antebraço e pernas: 14-21 dias. o Planta e palmas: 10-14 dias. 35 Fernando Álison Morais Diniz Felix Faça isto: o Limpe a cicatriz do ferimento com gaze embebida em clorexidina. o Com uma pinça pegue numa ponta solta do ponto. o Levante a ponta para que o nó se eleve da superfície da pele. o Com a tesoura (Spencer) corte a linha por baixo do nó e retire-a. 36 BASES TÉCNICAS DA CIRURGIA VVVIII --- NNNÓÓÓSSS CCCIIIRRRÚÚÚRRRGGGIIICCCOOOSSS Um item essencial de qualquer ato cirúrgico é amarrar o nó de maneira rápida e eficiente. Somente a prática permite a execução de nós corretos e eficientes. Para exercício deve ser usado o nó mais simples e também com o menor tamanho possível – evidente que sem comprometer a segurança e durabilidade do fechamento – produzindo o maior laço. Isto permite que o organismo tenha menor grau de rejeição, menos material a digerir, encapsular ou expulsar. O nó deve ser realizado de maneira segura, evitando assim problemas como hemorragia dos vasos principais, hérnia, evisceração e mesmo a morte. As extremidades dos fios devem ser cortadas curtas, exceção feita ao catgut que pode dilatar e mesmo afrouxar, devendo ser deixada pontas maiores. 1. TIPOS 1.1. Nó “cego” A fricção de um componente contra o outro é que faz com que o nó permaneça atado, sendo necessárias três laçadas para que o nó tenha uma boa fricção. Os fios monofilamentares - NÁILON, POLIPROPILENO – e os sintéticos trançados (especialmente aqueles revestidos com TEFLON), têm um nó com segurança precária devido à memória, o que exige especial atenção quando usado, podendo afrouxar mesmo antes de ser dada a segunda laçada. Para uma boa segurança recomendam-se quatro laçadas para fios sintéticos, todas “cegos”, ou cinco laçadas, duas deslizantes e três quadradas. 1.2. Nó de cirurgião É basicamente igual ao “cego”, exceto que a primeira sutura consiste em duas laçadas, podendo também ser reforçado pôr nós adicionais. Usado na maioria dos procedimentos e suturas. A maioria dos nós é realizada com o porta-agulhas: duas laçadas para frente (contenção), uma para trás (fixação) e mais uma para frente (segurança). O seu uso é recomendado devido a sua adaptabilidade e são econômicos quando comparados com os nós feitos com as duas mãos. Pode-se usar pedaços curtos de material e mesmo assim obter uma sutura firme. 1.2.1. Tempos a) Faz-se dois laços com a parte longa do fio, na ponta do porta-agulhas. 37 Fernando Álison Morais Diniz Felix b) A extremidade curta é presa pelo porta-agulhas e puxado por dentro do laço fixando o nó de modo seguro - ver o sentido do nó. c) A tração deve ser aplicada no mesmo plano do nó, sem apertar demais. d) Dar outra laçada com a parte longa do fio ao redor do instrumento, mas em direção oposta. e) Prende-se a parte curta do fio fazendo-o passar através do laço. Depois repete-se o passo d) e e) mas com laçada na mesma direção da primeira (a). f) Repete-se o passo d) e e) mas com laçada na mesma direção da primeira (a). Depois aperta-se bem os nós (e verifica-os) e cortam-se as pontas comtesoura. 2. TENSÃO A tensão deve ser adequada, nem pouca e nem excessos, pois podemos estrangular os tecidos, provocando necrose e mesmo retardando a cicatrização. 38 BASES TÉCNICAS DA CIRURGIA Para que possamos avaliar a tensão nas suturas individuais, o número de suturas aplicadas para fechar a incisão deve ser aumentado. Isto é justificado pelo fato que quando as suturas estão espaçadas uniformemente a tensão estará igualmente distribuída entre as suturas. 3. LIGADURAS A ligadura é uma alça de sutura usada para ocluir um vaso sanguíneo, tanto antes como depois dele ser lesado. Para prevenir o escorregamento a ligadura pode ser convertida em ligadura de transfixação fazendo com que ela atravesse a luz do vaso. Ela é amarrada ao redor de uma metade do vaso, e depois em volta de todo o vaso, abaixo do orifício feito pela agulha. Ligaduras de transfixação podem ser aplicadas para ligar diversos vasos sanguíneos. Deve-se deixar a menor quantidade possível de tecido na parte distal da ligadura, pois o coto que foi criado se tornará necrótico e terá de ser absorvido pelo organismo. Não se deve deixar um coto muito curto, evitando-se que a ligadura deslize para além da extremidade, ocasionando perda de fixação. Os laços duplos são mais firmes que os individuais devido à distribuição da fricção e forças de tensão. Soma-se a isto que a força de ruptura do laço é inversamente proporcional ao volume que ele encerra. Portanto, a ligadura de massas de tecidos é mais propensa a se romper do que ligaduras em pequenos vasos sanguíneos ou do que em vasos isolados. Além disso, os vasos podem recanalizar no interior de uma grande massa de tecidos. Quando houver necessidade de se usar ligaduras em grandes massas de tecidos ou pedículos, deve-se usar o método das três pinças. Conforme demonstrado na figura abaixo a pinça é colocada no pedículo. 39 Fernando Álison Morais Diniz Felix VVVIIIIII --- SSSUUUTTTUUURRRAAASSS 1. INTERROMPIDAS Os nós são atados e os fios cortados após uma ou duas passagens através dos tecidos. Nas suturas interrompidas, cada nó é uma entidade separada, e o rompimento de um ponto não envolve a estrutura dos outros. Desvantagens: o Incluem o tempo maior de atarem os nós, aumento de volume de material deixado nas feridas ou de material sepultado; o Menor controle da tensão e a possibilidade de rompimento. 2. CONTÍNUAS Possui um nó inicial, o fio não é cortado, estendendo-se do ponto de origem após várias passagens pelos tecidos, onde o fio é cortado após o nó final. As suturas contínuas usam menos material, o que minimiza a quantidade de material de sutura nos nós e diminui o tempo de cirurgia. As suturas contínuas também fazem um melhor selamento ao ar e água. São fáceis de serem colocadas e possuem a capacidade de ajustar-se a tensão em cada sutura, de acordo com a tensão nas margens. Desvantagens: o O rompimento de um ponto leva a destruição de toda a linha de sutura. 3. CLASSIFICAÇÃO De acordo com a aparência de suas bordas, as suturas podem ser classificadas em: o Aposição: as bordas se encostam, no mesmo plano; o Eversão: maior contato das bordas, que se voltam para fora, formando uma crista evertida; o Inversão: a borda das feridas volta-se para o interior, causando uma invaginação. o Sobreposição: uma borda sobre a outra. A habilidade de uma sutura inverter ou everter as bordas pode não ser indicada, dependendo da região anatômica. A inversão pode ser desejável no fechamento de uma víscera oca, porém, não é aconselhável para o fechamento da pele. 4. COLOCAÇÃO DAS SUTURAS Após o fechamento de uma ferida, as bordas tornam-se enfraquecidas pela colagenólise e o suporte das suturas está enfraquecido. As suturas colocadas a uma distância de mais de 0,5 cm das margens da ferida, aparentemente não são afetadas pela colagenólise. A inflamação também contribui para diminuir a tensão, é aconselhável colocar as 40 BASES TÉCNICAS DA CIRURGIA suturas mais de 0,5 cm afastadas das bordas em feridas muito traumatizadas. A tensão máxima junto aos tecidos é também obtida quando as suturas são colocadas a uma distância de 0,5 cm uma das outras (Máx: 1 cm). Quando colocadas mais próximas que 0,5 cm, causam retardamento da cicatrização devido a reação tecidual e comprometimento da circulação sanguínea nas bordas da ferida. 5. SUTURANDO UMA LACERAÇÃO Feridas não devem ser suturadas se já tiverem passado mais de 6h, exceto face e couro cabeludo que podem ser suturados em até 24h. Quanto mais precoce for a sutura menor o risco de infecção. Não fechar caso haja suspeita de lesão em nervos, vasos e tendões. Etapas iniciais: o Lavar as mãos, calçar luvas estéreis examinar a ferida. o Explicar ao paciente o procedimento. o Lavar a ferida com água corrente. o Posicionar o paciente de forma a deixar a ferida bem exposta, com iluminação adequada. o Aplicar clorexidina ou PVPI tópico na pele em volta da ferida, usando uma gaze, com movimentos circulares, em espiral. o Não usar soluções antissépticas dentro da ferida – apenas soro. o Em feridas contaminadas: risco de tétano, terra, fezes de animais, metais enferrujados... Fazer uma limpeza minuciosa com irrigação profusa com SF 0,9% e escovação, com desbridamento das bordas e retirada de tecido necrosado e corpos estranhos. Anestesia local: o A anestesia para sutura de ferimentos cutâneos, desde que não infectados, pode ser feita pela infiltração subcutânea direta das suas bordas, evitando-se assim a punção da pele, que é dolorosa. o Anestesiar com infiltração local de lidocaína 1% com adrenalina (sem vasoconstritor em gestantes, em extremidades, ponta de nariz e orelha). o Antes de qualquer injeção de anestésico local, recomenda-se aspiração prévia mediante retração do êmbolo da seringa para ser constatada eventual lesão vascular. o Infiltrar o subcutâneo com agulha de insulina, injetando anestésico em todo o trajeto da agulha. O trajeto da infiltração pode ser linear, em angulações variadas (30-45º) ou em leque. o Repetir o procedimento em toda a volta da lesão. o Verifique se o local está anestesiado picando, cuidadosamente, com a agulha. 41 Fernando Álison Morais Diniz Felix Após a anestesia: o Lavar bem a ferida após a anestesia: soro fisiológico (SF) 0,9%. o Trocar as luvas (estéreis). o Colocar campos estéreis em volta da ferida ou, de preferência, usar campo fenestrado. o Iniciar a sutura (tópico 6). Geralmente as bordas a serem suturadas são manipuladas com pinça sem dente; cada borda é elevada e apresentada separadamente, para facilitar a passagem da agulha corretamente de um lado e depois do outro. A agulha é presa com sua ponta virada para esquerda com a ponta virada para cima, apreendida em sua parte médio-distal, em ângulo reto com o porta-agulhas. Usualmente o ponto é passado da direita para esquerda ou da borda distal para proximal. Evitar colocar os dedos para segurar a agulha (risco de se furar), preferir segurar o fio. Etapas finais: o Retirar o campo estéril. o Limpar a pele em torno e sobre a ferida com gaze + SF 0,9%. o Secá-la com gaze e cobri-la com curativo estéril não aderente em sua parte central (gaze + esparadrapo/crepon). Cuidados após a sutura: o Considerar a necessidade de profilaxia antitetânica. o Antibiótico profilático apenas em casos selecionados. o Orientar para manter a ferida seca por 24h e depois mantê-la sem curativo e lavá-la com água e sabão. o Esclarecer sobre sinais de infecção secundária, a necessidade de retornar para reavaliação e a precocidade da mobilização. 6. SELEÇÃO DA SUTURA A escolha do tipo de sutura é muitoimportante. Devido a forma helicoidal, as suturas contínuas têm uma tendência de reduzir a microcirculação das bordas das feridas. Este fato prolonga a fase destrutiva da cicatrização aumentando a formação de edema. Um ganho mais rápido em força de tensão é obtido com as suturas simples interrompidas. Estatisticamente, elas são mais fortes que as contínuas. De maneira geral, as suturas interrompidas são preferidas quando se quer mais tensão, mobilidade dos tecidos e distensibilidade. 42 BASES TÉCNICAS DA CIRURGIA 6.1. Suturas interrompidas 6.1.1. Sutura interrompida simples É a mais usada de todas as suturas e também a mais versátil. Quando colocada de maneira apropriada, mantém uma boa aposição, tem ação independente das outras na linha de sutura e permite mobilidade tecidual entre as suturas. A técnica é fácil e rápida. A sutura é colocada direcionando a agulha através do tecido a mais de 0,5 cm da borda incisada. A sutura é inserida perpendicularmente através do tecido de um lado, passando através de igual quantidade de tecido no lado oposto e o nó é amarrado. Os nós devem ser colocados fora da linha de incisão. As pontas dos fios devem ser deixadas longas (0,5 a 1,0 cm), ou curtas se o nó ficar escondido. O próximo ponto interrompido deve ser colocado a uma distância de 0,5 a 1 cm. O sentido da colocação dos pontos deve ser da direita para a esquerda em 43 Fernando Álison Morais Diniz Felix incisões horizontais, se destro, ou da esquerda para a direita, se canhoto. Se a incisão for vertical, usualmente se inicia a sutura da porção distal para a proximal da incisão. A colocação apropriada dos pontos mais uma tração moderada nos nós, permite um resultado bem satisfatório. Quando internos, os nós podem ser palpáveis por algum tempo. Usada em suturas internas (vísceras) e externas (pele). 6.1.2. Sutura Horizontal em “U”, de Wolff É uma sutura que promove uma leve eversão se colocada de maneira apropriada. Ela forma um quadrado perfeito, com ambas as extremidades de sutura saindo pelo mesmo lado ou borda da ferida. Tem as mesmas propriedades da sutura anterior, porém a sua execução é mais rápida: a cada dois pontos, apenas um conjunto de nós e uma só operação de corte de fios. Observe-se que interfere menos no processo de cicatrização porque o fio nunca passa por sobre as bordas da ferida. Vantagens: o Uso de menor quantidade de material de sutura; o É de execução rápida; o Pode ser usada como sutura de tensão quando colocada longe das bordas da pele; o Pode ser usada para reduzir espaço morto. Desvantagens: o Dificuldade relativa quando aplicada na pele; o Formação de cicatriz excessiva devido a eversão das bordas; o Tendência a reduzir o suprimento sanguíneo das bordas da ferida, quando os pontos são apertados demais (em função do formato geométrico). Sutura 1: Horizontal em "U", de Wolff. 6.1.3. Sutura Vertical em “U”, de Donatti Promove uma aposição completa e precisa das bordas, com leve eversão após a confecção dos nós. Útil também quando a pele é muito fina ou em feridas traumáticas em lesões biseladas. A sutura de Donatti ou “U” vertical promove bom suporte aos tecidos, com mínima redução do suprimento sanguíneo. Está indicada para suturar feridas sob tensão moderada. 44 BASES TÉCNICAS DA CIRURGIA A primeira passagem da agulha é feita a uma distância maior do que 0,5 cm da borda e a segunda passa de 2 ou 3 mm da borda. Vantagens: o Mínima alteração do suprimento sanguíneo, se colocado distante da borda; o Pode ser usada como sutura de tensão como ajuda a uma primeira linha de sutura. Desvantagem: o Realização mais demorada com maior reação inflamatória. Sutura 2: Vertical em “U”, de Donatti. 6.1.4. Sutura em “X”ou Cruzado (Sultan) É uma sutura de aposição, sendo uma modificação do “U” horizontal. A agulha penetra de um lado da incisão e passa perpendicularmente através da mesma, e uma segunda passagem é feita através dos tecidos, paralela e de 5 a 10 mm da primeira passagem. Vantagens: o Não promove alteração do suprimento sanguíneo, mesmo sob tensão; o Previne a eversão dos tecidos. Sutura 3: “X”ou Cruzado (Sultan). 45 Fernando Álison Morais Diniz Felix 6.1.5. Tensão moderada e aposição É uma combinação de suturas de aposição com sutura de tensão. Faz um movimento de espiral. Sua principal indicação é quando a pele requer tensão moderada para aposição. O componente longe atua como redutor de tensão, ao passo que o perto faz aposição. A tração excessiva dos fios deve ser evitada, para prevenir a inversão da incisão. A força de tensão obtida com esta sutura é maior do que a obtida com sutura interrompida simples. Sutura 4: Tensão moderada e aposição: Perto-longe-longe-perto. Sutura 5: Tensão moderada e aposição: (A) Longe-perto-perto-longe e (B) Longe-longe-perto-perto. 6.1.6. Jaquetão ou Mayo Esta sutura promove a imbricação ou sobreposição lateral das bordas da ferida, proporcionando uma larga faixa de aderência e, consequentemente, melhor cicatrização. Foi desenvolvida para ser empregada no fechamento de anel herniário. Sutura 6: Jaquetão ou Mayo ou Sobreposição. A B 46 BASES TÉCNICAS DA CIRURGIA 6.1.7. Suturas de tensão São usadas quando existe muita tensão na linha de sutura e for necessária alguma força para o fechamento da ferida. Infelizmente isso resulta em isquemia local, corte das bordas e deiscência das feridas. Nesses casos, o uso de suturas de tensão é altamente benéfico. Sutura 7: De tensão. Elas são colocadas longe das bordas da pele, de maneira a não comprometer o suprimento sanguíneo. As bordas da pele são suturadas por meio de pontos interrompidos simples. Como suporte adicional a estas suturas de tensão, podem ser usados botões, tubos de borracha, plástico ou silicone colocados nas suturas antes dos nós. 6.1.8. Outras suturas interrompidas Sutura 8: Em oito. Sutura 9: (A) Simples invertido e (B) de Gelly. Sutura 10: (A) isolado simples – transfixa todas as camadas desde a mais externa até à camada mucosa – reservado para vísceras ocas; (B) sutura de Gambee (é também uma sutura visceral). A B A A B 47 Fernando Álison Morais Diniz Felix 6.2. Suturas contínuas As suturas contínuas não têm os fios cortados após a aplicação dos nós. Toda sutura contínua inicia-se com um ponto simples (fecha, mas não corta) e prossegue a sutura contínua. Termina-se sepultando (fechando) o último ponto com um nó através da técnica da “alça oposta” ou no mesmo fio através de “nó de roseta”. 6.2.1. Sutura contínua (chuleio) simples ou sutura de Kurschner Consiste em usar uma série de pontos interrompidos com nós no início e no final da sutura. A agulha é introduzida através dos tecidos, perpendicularmente à linha de incisão. A sutura é reintroduzida na mesma direção que a anterior. No final da sutura, as pontas do fio são amarradas com, no mínimo quatro camadas de nós (ou seja, duas de cirurgião). Desta maneira podem ser executadas com maior facilidade e rapidez. São indicadas para o fechamento de tecido subcutâneo e fáscia desde que não haja planos de tensão. Os nós são geralmente escondidos (ou sepultados). São também usadas em tecidos que requeiram mínima força de segurança, porém com aposição máxima. Sutura 11: Chuleio simples 6.2.2. Sutura Ancorada de Ford, Festonada, Retrógrada, ou de Reverdin É uma modificação da sutura contínua simples. A cada passagem através dos tecidos, o fio é unido ao ponto passado anteriormente. A vantagem desta sutura é a grande estabilidade na eventualidade de falhade um nó ou de uma porção de linha de sutura. Quando isto acontece, necessariamente não resulta em perda de toda a sutura. Sutura 12: Chuleio ancorado. 48 BASES TÉCNICAS DA CIRURGIA Uma grande estabilidade é obtida devido aos tecidos apresentarem menor tendência a movimentarem-se. Desvantagem: Maior quantidade de material usado, mais demorada, e pode causar necrose na pele quando usada com muita tensão (muito apertadas). 6.2.3. Sutura de colchoeiro ou “U” contínua ou Barra grega Pode ser usada na pele quando houver indicação para sutura contínua e um certo grau de eversão. A sutura inicia como um ponto isolado simples e avança aproximadamente 1 a 2 cm, e uma segunda passagem é feita através dos tecidos perpendiculares à incisão. Após a saída dos tecidos, a agulha avança de 1 a 2 cm e é inserida perpendicularmente à linha de incisão na direção contra-lateral. Vantagem: Rapidez no fechamento é a principal vantagem desta sutura. Sutura 13: Barra grega. 6.2.4. Sutura intradérmica ou subcutânea As suturas intradérmicas e subcutâneas são usadas mais frequentemente na forma contínua. A sutura inicia com nó externo, seguindo em formato de zig-zag internamente, com a agulha colocada perpendicularmente à incisão, porém, avançando paralela à incisão. Fios de nº 4-0 ou menor calibre podem ser usados, e ao término, o nó é novamente sepultado. Excelente sutura por propiciar boa aproximação das bordas deixando uma cicatriz esteticamente melhor. Com fios inabsorvíveis (Nylon 4-0 ou 5-0) deve-se usar um traçado mais aberto para facilitar o deslizamento do fio na hora de retirar o fio. Com fio absorvível pode-se usar um traçado mais fechado. Sutura 14: Sutura intradérmica. 49 Fernando Álison Morais Diniz Felix Sutura 15: Sepultamento de sutura intradérmica através de nó de roseta. 6.2.5. Bolsa de tabaco Também denominada “Bolsa de Fumo”. É uma sutura circular empregada nas cirurgias do digestório, nas anastomoses, fixação de cânulas e sondas e também utilizada no fechamento de pequenos ferimentos circulares. Sutura 16: Bolsa de tabaco. 6.2.6. Ponto chinês É usado para fixar drenos e tubos intracavitários. Sutura 17: Ponto chinês. 50 BASES TÉCNICAS DA CIRURGIA VVVIIIIIIIII --- PPPRRREEEPPPAAARRRAAAÇÇÇÃÃÃOOO PPPAAARRRAAA OOO AAATTTOOO CCCIIIRRRÚÚÚRRRGGGIIICCCOOO 1. LIMPEZA GERAL DA SALA CIRÚRGICA Uma boa manutenção e limpeza da sala operatória são essenciais para a manutenção da técnica asséptica. A sala cirúrgica deve ser completamente limpa e livre de poeira, por meio de: Limpeza semanal com antissépticos: o Limpeza e remoção de todo equipamento da sala operatória; o Lavagem das paredes, janelas, e suportes de lâmpadas; o Limpeza de ar condicionado e ventiladores; o Esvaziamento e reposição de estoque dos armários; o Esfregar o chão, com pano úmido ou por aspiração, usando desinfetantes. Limpeza diária com antissépticos: o Deve ser feita no final do dia, afim de não acumular pó. o Esvaziar e limpar todos os continentes (baldes, etc.); o Lavar a mesa de cirurgia; o Usar um pano com solução desinfetante para passar em todo equipamento e mobília; o Lavar o assoalho com solução desinfetante; o Encher vidros e suprir o estoque dos armários. 2. PREPARAÇÃO DO VESTUÁRIO o Remover todas as roupas usadas para a lavanderia; o Recolocar roupas limpas; o Tirar o pó dos móveis; o Limpar o assoalho com solução desinfetante. 3. PREPARAÇÃO DA SALA DE PRÉ-OPERATÓRIO o Limpar todos os metais; o Esvaziar todos os baldes e aspiradores; o Lavar o chão; o Tirar o pó e repor todas as soluções. Selecionar o lixo em: cortantes, contaminados e controlados. Todo o instrumental, usado e não usado deve ser removido do ambiente cirúrgico após a realização de uma cirurgia e a mesa cirúrgica deve ser limpa e desinfetada, assim como o assoalho. Outros fatores importantes para manter a antissepsia na sala de cirurgia incluem a limitada admissão de pessoas vestindo-se apropriadamente, o limite de movimentos de pessoal na sala de cirurgia e o nível de conversa reduzido ao mínimo. 4. PREPARAÇÃO DA EQUIPE CIRÚRGICA 4.1. Paramentação cirúrgica As roupas são usadas para reduzir a quantidade de sujeira que poderia ser trazida para o interior da sala cirúrgica se roupas comuns (de rua) fossem usadas. 51 Fernando Álison Morais Diniz Felix Estas roupas devem ser feitas de algodão, pois este tecido possui a propriedade de encorpar quando molhado. Uma boa higiene pessoal é importante para a antissepsia cirúrgica. Pijama. [Roupa do bloco] Quando usados como uniforme, ou seja, o tempo todo, muito pouco contribuem para a técnica asséptica. Sapatos. Idealmente, sapatos de rua não devem ser usados descobertos na área cirúrgica. Sapatos especiais para esta área devem ser usados e podem ser chinelos ou tênis de qualquer espécie, desde que só utilizados ali. Existem alguns especialmente idealizados, que fazem aterramento estático, diminuindo assim o risco de choques elétricos. Pró-pés. Podem ser descartáveis ou não. Os descartáveis são usados para cobrir os sapatos de rua. Gorros. São usados para cobrir os cabelos. Os tradicionais para homens não são feitos para cobrir cabelos longos, que nestes casos devem ser presos antes da colocação. Gorro para mulheres existem em maior variedade de tipos, formatos e cores. Também existem os descartáveis. Toucas. São usadas no lugar dos gorros para quem tem cabelos muito compridos ou barba. Se as toucas não tiverem elástico na porção cervical, elas devem ser inseridas para dentro do pescoço da camisa cirúrgica. Máscaras. O objetivo das máscaras cirúrgicas é filtrar o ar expirado do nariz e boca. Se não for usada da forma correta, sem encaixar apropriadamente, perde o efeito. Existem modelos descartáveis e não descartáveis. As mascaras são filtros efetivos por 30 minutos. A partir desse tempo começam a perder sua eficácia, que é acelerada pela conversa. Devem ser trocadas entre as cirurgias e completamente removidas após o término, pois estarão muito contaminadas e deverão ser manuseadas pelas tiras. 4.2. Antissepsia (lavagem) das mãos e braços A finalidade da antissepsia é remover a sujeira e a gordura, a flora bacteriana transitória, e uma porção da flora bacteriana residente das mãos e braços. Efeitos mecânicos da antissepsia: o A flora transitória das mãos pode ser completamente removida com 5 a 10 minutos de escovação com sabão desinfetante (PVPI ou clorexidina) e água. Estas bactérias podem ser mortas facilmente com desinfetantes. o A flora residente das mãos é reduzida em forma logarítmica com escovação com sabão e água, isto é, reduzida pela metade a cada 6 minutos de escovação vigorosa. o A flora localizada superficialmente pode ser removida com regularidade, porém a localizada profunda na pele não é significativamente afetada a não ser após 15 minutos de escovação. o A regeneração das bactérias cutâneas inicia imediatamente após a pele ser escovada e desinfetada. O crescimento é ao redor de 25% em 24 horas, 73% em 3 dias e 100% em uma semana. Este crescimento é acelerado quando são vestidos aventais e luvas. 4.2.1. Métodos de escovação Antes da escovação iniciar, o cirurgião e equipe devem estar vestidos adequadamente (inclusive com máscara) e ter todas as joias removidas dos braços e dedos. Assim que a escovação iniciar, as mãos e braços não devem tocar nada que não esteja estéril. Se isto ocorrer, deve-se repetir as manobras desde o início. o Molhar as mãos e braços até o cotovelo e lavar por aproximadamente um minuto, com sabão antisséptico (PVPI OU clorexidina); o Limpar o espaço embaixo das unhas e as cutículas(região ungueal); o Durante a lavagem, as mãos devem ser colocadas em uma posição mais alta que os cotovelos, de maneira que a água possa drenar, ou escorrer 52 BASES TÉCNICAS DA CIRURGIA pelos cotovelos ao invés de pelas mãos (da área mais limpa para a menos limpa); o Colocar o sabão antisséptico nas mãos, pegar uma escova estéril e iniciar a escovação. Considere os dedos, mãos e braços como objetos de 4 lados e escove cada lado com movimentos unidirecionais e de mesmo sentido de escova (movimentos lineares, da distal para proximal). Sequência sistemática prática de escovação das mãos: leito subungueal, unhas, medial do 5º dedo e da mão, partes internas entre os dedos, lateral do polegar e da mão, dorsal dos dedos e da mão, palmar dos dedos e da mão, anterior do antebraço (do pulso até dobra do cotovelo), medial do antebraço, posterior do antebraço, lateral do antebraço e finalmente o cotovelo, fazendo movimentos circulares concêntricos ao redor dele. o Após uma mão e braço ser escovado, escovar bem a outra mão e braço da mesma maneira; o Após ambas mãos e braços estarem escovados, lavar em água corrente, colocando as mãos acima dos cotovelos para água escorrer pelos cotovelos; o Repetir a manobra outra vez em ambas as mãos e braços. Escovação anatômica: As escovadelas são contadas, isto é, 25 escovadelas por superfície das mãos, dedos e braços, nos dão ao redor de 10 minutos. 4.3. Secagem das mãos o As mãos e braços devem ser secas com toalha estéril, que pode ser alcançada ou tirada do pacote cirúrgico (onde estão os capotes). o Pegar com uma mão por uma das pontas, longe do corpo e desdobrar. Usar metade da toalha para secar cada mão. o Iniciar pela ponta dos dedos, meio dos dedos, mão e ir secando em direção ao cotovelo. o Após uma mão e braço estarem secos, colocar a parte não usada da toalha na mão seca e secar a outra mão e braço. 4.4. Colocando o avental (Capote) Os aventais cirúrgicos são dobrados de maneira padrão, aparecendo em primeiro lugar a parte dos ombros das costas. Ele deve ser pego, levantado e desdobrado, longe do corpo, sem contaminá-lo. Sacudir o avental para desdobrar e abrir, sem tocar em nada ao redor e colocar os braços pela manga e as mãos devem aparecer ou não pelos punhos, dependendo do método de colocação de luvas a ser usado. O avental é amarrado por um assistente, sem tocar em nada mais que as tiras. 4.5. Luvas Existem três métodos para calçar as luvas cirúrgicas: 4.5.1. Método aberto 1. Colocar talco nas mãos, e com a mão esquerda segurar a luva direita pela parte dobrada do punho, removendo do pacote ou envelope sem tocar na parte de fora da luva. 2. Escorregar a mão direita para dentro da luva e deixar o punho dobrado para baixo. 3. Pegar a luva esquerda com os dedos enluvados da mão direita, por baixo do punho dobrado e escorregar a mão esquerda para dentro da luva, puxando o punho da mesma sobre o punho do avental. 4. Com a mão esquerda, finalizar de arrumar o punho da luva direita, colocando os dedos enluvados da mão esquerda debaixo da parte 53 Fernando Álison Morais Diniz Felix dobrada do punho da mão direita e desvirar o punho sobre o punho do avental. 5. Ajustar as luvas de maneira que elas calcem apropriadamente os dedos e a mão, limpando após o excesso de talco da parte externa da luva. 6. Este método tem como desvantagem a facilidade para a contaminação das luvas ao desdobrar o punho. Colocação do capote e das luvas estéreis (método aberto). 4.5.2. Método fechado 1. As mãos são introduzidas na manga do avental até os punhos, porém não através deles. 2. Nenhuma parte da mão deve ser exposta. 3. Segurar a luva através do tecido da manga do avental e o punho da luva entre o polegar e o indicador, enquanto a enfermeira circulante amarra o avental. 4. Com as mãos ainda dentro do avental, segurar a luva esquerda com a mão esquerda. 5. Deixar a luva com a palma para baixo, sobre a manga esquerda do avental, com os dedos apontando em direção ao cotovelo e as bordas do punho da luva no punho do avental. 6. O dedo polegar da luva deve estar sobre e em direção oposta ao dedo polegar da mão. Usando a mão direita, ainda dentro da manga do avental, introduzir o punho da luva sobre o punho do avental. 7. Pegar ambos, a luva e o punho (através da manga) com a mão direita e puxar a luva da mão esquerda. Repetir o procedimento da luva na mão direita. A ordem com que as luvas são colocadas não é importante. 8. Geralmente é mais fácil colocar uma segunda luva porque se trabalha com a mão já enluvada ao invés de ser através da manga. 4.5.3. Método alternativo - colocação de luvas com o auxílio de assistente Após um membro da equipe cirúrgica estar com avental e luvas, é geralmente mais rápido ajudar os outros membros a calçarem as luvas. 54 BASES TÉCNICAS DA CIRURGIA o O assistente pega a luva direita e insere 4 dedos de ambas as mãos debaixo do punho. o Uma mão deve estar com o polegar de um lado e o dedo mínimo do outro, com a palma da mão virada em direção a pessoa que está calçando a luva. o O assistente segura os punhos abertos, a uma altura média. o O cirurgião insere suas mãos na luva, tendo o cuidado de não tocar nas mãos do assistente a segurar a luva aberta. 5. PREPARAÇÃO DO PACIENTE Campo operatório é a região do corpo aonde vai se praticar a cirurgia. No campo operatório está contido o ponto de eleição, que é onde se fará a incisão. Após o paciente ser anestesiado, o local da cirurgia é preparado. Diversos tipos de posicionamento da mesa cirúrgica para acomodação do paciente. Se os pelos não foram removidos previamente deve ser feito agora (tricotomia). A região onde será feita a cirurgia deve ser depilada com lâmina de bisturi ou máquina (ideal). A antissepsia final do campo operatório é feita (“pintura do campo” com PVPI): o Iniciar a pintura do centro do campo, onde a incisão será feita, em direção à periferia, nunca retornando a área central com o mesmo conjunto de gaze. o Após, deixar secar naturalmente, e iniciar a colocação dos campos cirúrgicos. 55 Fernando Álison Morais Diniz Felix 6. PREPARAÇÃO DA MESA DE INSTRUMENTAÇÃO Disposição da equipe. Na ausência do segundo auxiliar, o instrumentador ocupa sua posição. Arrumação do instrumental sobre a mesa começa pelo canto inferior direito (na visão do instrumentador) e segue no sentido horário. Mesa do Instrumentador. 7. PROCEDIMENTOS DENTRO DA SALA CIRÚRGICA Todos os utensílios devem ser considerados esterilizados ou não. Em caso de dúvida, considere não esterilizado. o Somente a parte de fora dos materiais embalados deve ser tocada por mãos sem luvas, e estes pacotes devem ser abertos longe do corpo, sem contaminá-los; o Materiais esterilizados são manuseados somente com luvas esterilizadas ou com instrumentos esterilizados; o Uma vez que algum material é removido de um pacote, não deve ser retornado; o Toda vez que um pacote com material esterilizado for molhado, deve ser considerado não esterilizado. o Nenhum objeto não esterilizado deve pairar ou deslocar-se sobre superfície esterilizada. 56 BASES TÉCNICAS DA CIRURGIA 8. EQUIPE CIRÚRGICA Cirurgião: É responsável pela vida do paciente e tem sob sua responsabilidade o ato cirúrgico e toda a equipe cirúrgica. Assistente: É responsável pela ajuda ao cirurgião e deve ter um grande conhecimento da cirurgia a ser executada. Ele deve ser capaz de antecipar os tempos cirúrgicos e de substituir o cirurgião em seus impedimentos. O assistente tem certas obrigações, como o controle da hemorragia, ajudar na exposição, e fazer as ligaduras, sem a solicitação do cirurgião.Instrumentador: Manter o instrumental limpo de sangue, ordenar o instrumental na mesa cirúrgica, antecipar os movimentos do cirurgião e assistente, alcançando o material sem solicitação, separar o material contaminado, preparar as suturas e fazer a limpeza após a cirurgia. Anestesista: É de sua responsabilidade promover a analgesia e manter os parâmetros fisiológicos do paciente (função cardíaca e respiratória, drogas e administração de fluidos intravenosos). Circulante: Presta serviços de enfermagem. Faz a preparação do local e do material que vai ser usado (calhas, cordas, etc.). Durante a cirurgia deve antecipar os acontecimentos e ter o material e instrumental pronto para uso (desfibrilador, etc.). Durante a cirurgia não pode se afastar do local. Após a cirurgia terminar, deve ajudar na remoção do paciente e na limpeza da mesa e sala de cirurgia. 9. GESTOS CIRÚRGICOS Gestos cirúrgicos. 3 - TESOURA 11 - FIO GUIADO 57 Fernando Álison Morais Diniz Felix 10. COLOCAÇÃO DE CAMPOS OPERATÓRIOS Os panos de campo podem ser de algodão ou de material descartável. Nunca colocar campos esterilizados em uma superfície molhada. Se o antisséptico não secou, use esponja de gaze esterilizada e uma pinça para secar a pele. Uma vez colocados os panos de campos não devem ser movidos. A única exceção é nas bordas da fenestra que podem ser afastadas do local de incisão. Com o uso de campos cirúrgicos grandes, deve ser colocado dobrado sobre o paciente, com a fenestra sobre o local da incisão e a partir daí o campo é desdobrado, de maneira a cobrir o paciente e a mesa cirúrgica. As pinças de campo (Backhaus) uma vez aplicadas, não podem ser removidas. 11. MOVIMENTAÇÃO DENTRO DA SALA DE CIRURGIA Para pessoas com capote e luvas esterilizadas: o Nunca ficar de costas para a mesa cirúrgica; o Sempre virar de frente quando passar por outra pessoa na sala (ou seja, não ir de encontro com as costas do outro – área contaminada); o As mãos nunca devem descer a um nível inferior ao da mesa cirúrgica. o Reconhecer e dizer se você ou outra pessoa quebrar a técnica asséptica (tocar com a luva em objeto não esterilizado, etc.); o Falar somente o necessário. Para pessoas com pijama, gorro e máscara: o Não tocar superfícies contendo material esterilizado; o Não se debruçar sobre o campo cirúrgico, a não ser se permitido; o Não encostar-se ao campo esterilizado; o Caminhar o mínimo possível ao redor. 58 BASES TÉCNICAS DA CIRURGIA IIIXXX --- SSSOOONNNDDDAAASSS,,, DDDRRREEENNNOOOSSS EEE CCCAAATTTEEETTTEEERRREEESSS Os drenos, cateteres ou tubos são utilizados de forma rotineira tanto no pré, no pós ou no transoperatório. Muitas vezes esses termos (tubo, dreno, cateter e sonda), se confundem e são tomados como sinônimos. Outras vezes, um substitui o outro, como uma sonda vesical de alívio passa a ser utilizado como dreno, por exemplo. Isso se deve, parte a criatividade do profissional, parte à carência de recursos em alguns serviços públicos, além da ocasional falta de oferta de determinado equipamento pela indústria médico-hospitalar. Os tamanhos padronizados dos diâmetros externos desses tubos e da maioria dos instrumentos endoscópicos são fornecidos de acordo com a escala francesa de Charriére (unidades de 0,33 mm = 1 French [F] ou 1 Charriére [Ch]). Assim, 3F é igual a 1 mm de diâmetro (forma crescente). Os cateteres, principalmente para uso intravenoso, tem sua medida em Gauge (G), sendo que quanto maior a numeração, menor será o calibre do cateter (forma decrescente). 1. DEFINIÇÕES Sonda: tubo flexível ou rígido introduzido num canal, natural ou não, com a finalidade de extrair ou introduzir algum tipo de matéria – urina, alimentos, medicamentos. Dreno: material que procura manter a saída de fluidos ou ar de uma ferida ou cavidade interior para o meio externo ou ainda de um meio interno para outro interno. Frequentemente, sua utilização destina-se à evacuação de secreções como seromas, hematomas, secreções do trato digestivo, linfa, pus e material necrótico de regiões onde não seja possível a exposição e limpeza repetidas. Cateter: instrumento tubular introduzido no organismo com fins de monitorização de funções vitais, remoção de líquidos, infusão de medicamentos e sangue, soros... Resumindo: sonda é o tubo para o interior de órgãos ocos (estômago, intestinos, bexiga), dreno é o tubo para interior de feridas, vísceras maciças, cavidades corpóreas e canais (abdômen, peritônio, pleura, mediastino, vias urinárias e biliares...) e cateter é o utilizado no interior de ductos e vasos sanguíneos (usualmente). 2. CLASSIFICAÇÃO Os drenos podem ser classificados quanto à estrutura, quanto ao material, forma de ação e pelo tipo de sistema de drenagem. 2.1. Quanto à estrutura Laminar – em forma de duas lâminas finas e flexíveis unidas entre si, tipo dedo de luva. Exemplo: Penrose. Tubular – tubo cilíndrico, com comprimento e diâmetro variável, amplamente utilizado. Exemplo: dreno de tórax, Foley, Malecot, Nelaton. Tubulolaminar – variação feita através da utilização de um dreno laminar (Penrose) com um dreno tubular no seu interior. Exemplo: Waterman. 59 Fernando Álison Morais Diniz Felix 2.2. Quanto ao material Borracha – são macios e maleáveis, porem são mais propensos a colonização bacteriana (superfície irregular de sua parede) e depósito de fibrina. Ex.: sonda foley, drenos de Malecot, dreno de Nelaton. Cloreto de polivinil (PVC) – rígido, tende a endurecer com o tempo de uso, pode ocasionar traumas mecânicos, irritação e necrose, seu uso como cateter venoso não está indicado, devido risco de trombose e flebite; para drenagem gástrica, descompresssão, lavagem deverá ser usado por curto período de tempo. Ex.: sonda Levine. Polietileno – material plástico (polímero) pouco irritante, extremidade multifenestrado, geralmente radiopacos. Ex.: pericardiocentese (“pig tail”), marcapasso (ponta em J) e Malecot. Politetrafluoretileno (Teflon®) – utilizado em alguns tipos de cateter venoso, superfície lisa e hidrofóbica, baixa adesividade e resistente a enzimas, porem não indicado para uso prolongado, pois sua rigidez pode levar a lesão da íntima e formação de trombos. Silicone e poliuretano (Vialon®) – flexíveis, biocompatíveis, radiopacos, menos rígidos do que o polietileno e menos relacionado à contaminação bacteriana em relação ao látex. Muito utilizado em cateter venoso de longa permanência, cateter enteral e de gastrostomia, Foley e Malecot. 2.3. Quanto à forma de ação Capilaridade – saída da secreção através da superfície adjacente ao dreno. Ex.: Penrose Gravitacional – é posicionado o frasco coletor abaixo do nível a que se deseja evacuar, o líquido tende a fluir para o ponto mais baixo pela força da gravidade. Ex.: drenagem do cateter Levine, torácica, biliar. Aspiração – drenagem através de pressão negativa por sucção ou dreno com sistema de vácuo; importante que o dreno tenha múltiplas fenestrações ou suspiro. Ex.: sonda de Salem, dreno de tórax com pressão negativa, sistema de drenagem Portovac. OBS.: Algumas literaturas referem ao sistema de drenagem como ativo (presença de sucção) e passivo (ausência de sucção). 2.4. Quanto ao sistema de drenagem Aberto – é aquele que possui interação com o meio, ou seja, necessário entrada de ar para bom funcionamento do sistema; risco aumentado de infecção dependendo da cavidade a que se destina drenar. Fechado – é aquele na qual não há interação com o meio, ou seja, não requer elementos externos adicionais para seu perfeito funcionamento, como, por exemplo, o ar, evitando infecções por microorganismos; utiliza-se um sistema vedado, estéril, conectado a extremidade do dreno, pode ser um frasco,uma bolsa ou um bulbo. Ex.: sistema coletor para cateter vesical, dreno de Kehr, dreno de tórax. Vantagens: mínimo trauma tecidual, acurácia na drenagem e reduzido risco infecção. 3. MODELOS 3.1. Sondas de vias aéreas: chamadas de cânulas - Cânula de Guedel: usada em pacientes com rebaixamento do GCS, sem reflexo de deglutição. Indicada em pacientes em IOT para evitar a mordedura da cânula. - Cânula nasofaríngea: contraindicada em pacientes com fraturas da base do crânio e outras fraturas graves da face; indicada em pacientes com rebaixamento do GCS e reflexo de deglutição preservado. 60 BASES TÉCNICAS DA CIRURGIA - Aspirador rígido e flexível: utilizado para aspiração de vias aéreas (geralmente, usa-se o Nelaton para esta finalidade). - Cânula endotraqueal (ou de IOT): indicada em pacientes em coma, com necessidade de ventilação mecânica e com risco de aspiração e obstrução de vias aéreas. Sua posição deve sempre ser reavaliada com RX de tórax em PA. Sua fixação ocorre pelo cuff (balonete). - Cânula de traqueostomia: utilizada também na cricotireoidostomia; deve ser bem fixada e aspirada, podendo ser de plástico ou metálica. 3.2. Drenos - Nelaton: de Auguste Nélaton (1807-1873), dreno tubular, semirrígido, multiperfurado. Induz a intensa reação tecidual. Na drenagem torácica, é acoplado a um sistema fechado em forma de selo d´água. Indicado para descompressão do espaço pleural por hidrotórax, hemotórax, pneumotórax, empiema... Também utilizado para aspiração traqueal (calibre 10-12F), como tubo retal no caso de diarréia (calibre 32-38F) e gastrostomia cirúrgica (calibre 18-26F), sofrem degradação com suco gástrico. - Malecot: o material poderá ser borracha ou silicone, apresenta um bulbo em sua extremidade a ser colocada internamente a cavidade a ser drenada, que impede a migração do tubo para o meio externo; - Pezzer: instalado através de cirurgia ou percutâneo, geralmente de látex, também utilizado em nefrostomias, cistostomias e gastrostomias (menos comum). Sua extremidade interna possui um dispositivo em forma de cogumelo; Drenos de Nelaton, Malecot e Pezzer (detalhes de suas extremidades). - Blake: são brancos, de silicone radiopaco, com quatro canais ao longo dos lados com um centro sólido. Os drenos estão disponíveis com ou sem um trocarte. Conectado a um sistema de drenagem fechada. Dreno de Blake. Detalhe das extremidades e componentes para montagem. - Jackson-Pratt: geralmente utilizado em drenagem abdominal, feito de Teflon, não irritante, com extremidade interna multifenestrada, conectado externamente a um bulbo ou pêra, o qual geralmente permanece colapsado para criar constante pressão de sucção (negativa). Jackson-Pratt (JP). Da esquerda para direita: bulbo JP, drenos JP e sistema JP montado. 61 Fernando Álison Morais Diniz Felix - Penrose: dreno laminar que funciona por capilaridade, indicado para coleta de secreções bem fluidas e de pouco volume na cavidade abdominal (sistema drenagem aberto). Apresentando-se em três diferentes larguras: o numero 1 é o mais estreito, o número 2 é intermediário, e o número 3 é o mais largo. O número 1 geralmente é utilizado na drenagem de pequenas lojas e o número 3 quando existe previsão de extravasamento de grande quantidade de secreções. Fixado a pele por ponto, tendo seu coletor, esvaziado diariamente. Drenos de Penrose: calibres 1, 2 e 3. - Waterman: dreno tubulolaminar, variação feita através da utilização de um dreno laminar (Penrose) com um dreno tubular no seu interior, funciona por capilaridade, parece aumentar a eficácia da drenagem pela retificação do trajeto e oferecer maior segurança de proteção às vísceras e vasos; indicado para coleta de secreções mais espessas (pús, fístulas entéricas, etc). Fixado a pele por ponto, tendo seu coletor esvaziado diariamente. - Kehr: dreno tubular em forma de “T”, utilizado para drenagem externa de vias biliares extra-hepáticas, descompressão, ou como próteses modeladoras após anastomose biliar. Sua extremidade é acoplada a um sistema de drenagem fechada. Fixação à pele com ponto. Coletor do dreno (travessão do T) deve ficar no colédoco. Tenta-se fechar o dreno quando seu débito for menor que 0,5L/dia. Faz-se colangiografia pelo dreno no pós-operatório; retira-se o dreno na 3ª semana. Dreno de Kehr. - Aspiração por vácuo (Portovac®, Hemovac®): dreno tubular, multifenestrado e aspirativo (sistema de drenagem fechado). Indicado em diversas situações: descolamento do subcutâneo, coleções intracavitárias, neurocirurgias... Fixado à pele por pontos. Portovac (reservatório sanfonado) e Hemovac (molas no interior do reservatório). 3.3. Sondas digestivas 3.3.1. Sonda nasogástrica, orogástrica e nasoenteral Enfatizaremos as mais utilizadas que são as sondas nasogástricas, sendo as mais utilizadas para descompressão, aspiração e irrigação (lavagem): Levine, gástrica simples de Salem, Miller-Abbott e outras; para administração de alimentos e 62 BASES TÉCNICAS DA CIRURGIA medicamentos: Levine, Nutriflex, Dobbhoff; e para controle de sangramento de varizes esofágicas: Sengstaken-Blakemore. Sonda de Levine: possui uma luz única, manufaturada com plástico (PVC) ou borracha, com extremidade multifenestrada; as marcas circulares contidas em pontos específicos da sonda servem como guia para sua inserção (demarcam intervalos de 10 cm). Geralmente utilizada para descompressão gástrica e lavagem, em cirurgias abdominais. É a mais utilizada, variando para adultos do número de 14F a 18F. Sonda de Levine Sonda gástrica simples de Salem: é uma sonda nasogástrica radiopaca de plástico claro, dotada de duas luzes, usada para descomprimir o estômago e mantê-lo vazio. Sonda de Salem Sonda de Miller-Abbott: é de duas luzes, sendo uma para introdução de mercúrio ou ar no balão do final da sonda e a outra para aspiração. Sonda de Miller-Abott Sonda de Dobbhoff: sonda nasoenteral utilizada com frequência para alimentação enteral, sendo que como característica possui uma ponta metálica, pesada e flexível, que tem função de infusão de dieta enteral. Ponta locada no duodeno (guiada por raio-X). Contraindicada em refluxo gastroesofágico – risco de broncoaspiração. Sempre lavar a sonda com SF após infusão da dieta. Sonda de Dobbhoff 63 Fernando Álison Morais Diniz Felix Sonda Nutriflex: sonda nasoenteral que possui 76 cm de comprimento e uma ponta pesada de mercúrio para facilitar a inserção; nutrição enteral. Sonda de Sengstaken-Blakemore: é uma sonda utilizada especificamente para o tratamento de sangramentos de varizes esofágicas, hemorragias de fundo varicoso, e combinação de hemorragias de varizes do esôfago e do fundo varicoso. Possui três luzes com dois balões, sendo uma luz para insuflar o balão gástrico e outra para o balão esofágico. Se após 12 horas não ocorrer hemorragia, o balão para esôfago deverá ser esvaziado para evitar danos na mucosa causados pela pressão. Após, esvaziar o balão gástrico retirando a sonda cuidadosamente. Sonda de Sengstaken-Blakemore 3.4. Sondas urinárias - Sonda vesical de demora: sonda de Foley (duas vias). Passada com cuidados de antissepsia. O balonete é insuflado com água destilada para teste, antes da introdução no paciente. Recomenda-se trocar a sonda mensalmente. Também há sonda vesical de demora de três vias (para lavagem vesical). Para as sondagens de demora temos as sondas de duas vias, como a de Foley ou a de três vias para lavagem vesical. - Sonda vesical de alívio: dreno de Nelaton. Utilizada para coleta de urina em paciente sem micção espontânea e para esvaziamento vesical nos casos deretenção urinária. Exige cuidados de antissepsia para sua passagem; deve ser removida após o procedimento. Sonda uretral vesical de alívio (Nelaton). - Cateter duplo J: utilizado para livre drenagem de urina do rim até a bexiga, em condições adversas. Uma extremidade do J ancora-se na pelve renal e a outra extremidade curva-se no interior da bexiga. Também chamado de “rabo de porco” (pig-tail em inglês). Posteriormente este cateter é removido através de cistoscopia ou através da tração do fio ligado à sua extremidade quando existente. Cateter duplo J 3.5. Cateteres de acessos venosos - Scalp (ou butterfly - borboleta): dispositivo intravenoso do tipo agulha de aço para acesso venoso periférico com base de plástico e forma de borboleta. É indicado 64 BASES TÉCNICAS DA CIRURGIA nas terapias intravenosas periféricas, para infusões de curta duração, com permanência de até 24 horas na veia e procedimentos de coleta de sangue. Este tipo de dispositivo favorece a transfixação da veia pelo cateter, bem como apresenta maior risco de infiltração no espaço extravascular, além de acarretar em maior tempo de infusão, em função de seu calibre limitado. Fixado com fita adesiva, ou removido após o término do procedimento. Seu calibre segue a seguinte numeração: 19G (maior calibre), 21G, 23G, 25G e 27G (menor calibre). Scalp - Jelco (ou Abocath): dispositivo intravenoso do tipo cateter plástico “sobre agulha” para acesso venoso periférico, fixado com fita adesiva. A agulha é retirada após o cateterismo venoso, permanecendo no espaço intraluminal apenas o invólucro maleável (cateter), o que impede a perda do cateter por transfixação e também favorece a movimentação do membro. É indicado nas terapias intravenosas periféricas, para infusões de média duração, com permanência de até 72 horas na veia. Indicado também na paracentese, toracocentese e punção pericárdica. Seu calibre segue a seguinte numeração: 14G (maior calibre), 16G, 18G, 20G, 22G e 24G (menor calibre). Jelco - Intracath: cateter para acesso venoso central do tipo “por dentro da agulha”, passado por punção jugular, subclávia ou periférica. Orifício feito na parede vascular é maior do que o calibre do cateter, o que facilita vazamentos em torno do mesmo. Sua extremidade fica na transição átrio-cava. Confirmar sua posição por RX de tórax. Fixado externamente com pontos na pele. Deve ser trocado a cada 2 semanas pelo risco de infecção. Intracath - Cateter de Swan-Ganz: cateter flexível e fabricado em poliuretano que, introduzido atravpes de uma veia central de adequado calibre, chega às estruturas cardíacas e pulmonares. Destina-se a pacientes com indicação de monitorização de dados hemodinâmicos e de oxigenação invasivos. (Ver tópico 9) 4. INTUBAÇÃO ENDOTRAQUEAL Ver Capítulo XI. 65 Fernando Álison Morais Diniz Felix 5. DRENAGEM TORÁCICA Ver Capítulo X. 6. SONDAGEM DO TRATO GASTRINTESTINAL A passagem de sonda gastrointestinal é a inserção de uma sonda de plástico ou de borracha, flexível, pela boca ou pelo nariz, cujos objetivos são: o Descomprimir o estômago o Remover gás e/ou resíduos sólidos e líquidos. o Diagnosticar a motilidade intestinal o Administrar medicamentos e alimentos o Tratar uma obstrução ou um local com sangramento o Obter conteúdo gástrico para análise 6.1. Esôfago e estômago Hoje, a utilização da tubagem nasogástrica se restringe a casos selecionados, principalmente com o objetivo de descompressão gástrica e remoção de resíduos gástricos e esofágicos no pré-operatório de pacientes com obstrução parcial ou total desses órgãos. Procedimento: a) Orientação ao paciente sobre o procedimento; b) Lavagem das mãos e colocar luvas; c) Reunir o material; d) Posicionar o paciente em fowler ou decúbito dorsal; e) Medir o comprimento da sonda: da ponta do nariz até a base da orelha e descendo até o final do esterno, marcando-se; f) Aplicar spray anestésico na orofaringe para facilitar a passagem e reprimir o reflexo do vômito; g) Lubrificar cerca dos 10 cm iniciais da sonda com vaselina, introduzir por uma narina, e após a introdução da parte lubrificada, flexionar o pescoço de tal forma que o queixo se aproxime do tórax. Solicitar para o paciente que faça movimentos de deglutição, durante a passagem da sonda pelo esôfago, observando se a mesma não está na cavidade bucal. h) Introduzir a sonda até a marca feita; i) Fixar a sonda com fita adesiva, após a confirmação do seu posicionamento (insuflar ar e auscultar estômago; aspirar conteúdo; teste do borbulhamento – colocar a extremidade da sonda em um copo com água, sendo que se ocorrer borbulha, é sinal que está na traqueia). 6.1.1. Gastrostomia A gastrostomia é um procedimento cirúrgico sobre o estômago com o objetivo de administrar líquidos ou alimentos. É indicada quando o doente necessita de nutrição enteral por mais de 6 semanas, ou quando a nasoenteral não pode ser utilizada devido à obstrução do esôfago, trauma de face ou da cavidade oral. Os cuidados com relação à administração de dietas são iguais aos com as sondas gástricas e enterais, e seu início deve ser tão logo se constate a presença de peristalse. O preparo da pele antes da introdução do tubo deverá ser rigoroso. Após a colocação, deve ser feito curativo, mantido por 24 a 48h. Após esse período, a área deverá ser limpa com água e sabão. A remoção do tubo, quando indicada, é feita com a desinsuflacao do balonete e tração leve do tubo. A fístula formada entre apele e o estômago fecha-se em poucos dias. Atentar aos sinais e sintomas das possíveis complicações. A presença de eritema, edema, drenagem purulenta, odor forte e dor no local de inserção do tubo, associada à presença de febre, são indicativos de infecção. 66 BASES TÉCNICAS DA CIRURGIA 6.2. Intestino delgado São usados para descompressão do delgado proximal em presença de uma obstrução, para alimentação enteral ou administração de medicamentos. Podem ser inseridos durante a cirurgia e posicionados pelo cirurgião. Para introdução dos tubos entéricos, aplicam-se os mesmos passos determinados na introdução dos tubos gástricos, observando-se algumas particularidades. O tubo enteral, por ser posicionado no intestino delgado, deve ser medido como o gástrico e, de acordo com algumas literaturas, somado a 10 ou 15 cm. Os tubos enterais ainda possuem uma ponta de tungstênio ou uma bolsa cheia de mercúrio, que ajuda na sua introdução e progressão. Para evitar a obstrução da sonda, deve-se lavá-la com SF após a administração da dieta enteral. Esse procedimento estará, ao mesmo tempo, contribuindo para a hidratação do doente. 6.2.1. Jejunostomia Pode ser utilizada para drenagem de secreções entéricas, para descompressão e para administração de alimentos, quando impedida por problemas gástricos (fístulas, traumas, tumores, refluxo gastroesofágico). Os cuidados com a jejunostomia assemelha-se, em muito, aos cuidados com as gastrostomias. Devem ser utilizados cateteres de Levine 12F ou 14F, porque podem causar obstrução intestinal. A administração da dieta deve ser lenta, para evitar diarréia. Os mesmos cuidados com a pele tomados com a gastrostomia devem ser observados com a jejunostomia. 6.3. Vias biliares Os drenos de Kehr, ou drenos em T, que podem ser de material plástico ou de borracha, são colocados nas vias biliares extra-hepáticas para drenagem externa, descompressão e, às vezes, como prótese modeladora após uma anastomose biliar. Deve ser fixado através de pontos na parede duodenal lateral ao dreno, tanto quanto na pele, impedindo sua saída espontânea. 6.4. Reto e sigmóide Tubos de polietileno são utilizados para evacuação de conteúdo líquido ou gases da porção distal do cólon,em presença de obstrução parcial ou total, e para a introdução de diversas substâncias, como líquidos para lavagem (clister), contraste e medicamentos. Sonda retal Procedimento: a) Orientar o paciente; b) Preparo do material; c) Lavar as mãos e utilizar luvas de procedimento; d) Adaptar a sonda retal à solução prescrita e ao equipo de soro; e) Colocar o paciente na posição de Sims; f) Lubrificar cerca de 10 cm da sonda com vaselina; g) Afastar os glúteos e introduzir a sonda; h) No caso de lavagem intestinal, abrir o equipo, deixar escoar o líquido, fechar o equipo após e término, retirar a sonda e encaminhar o paciente ao banheiro ou colocá-lo em uma “comadre”. 67 Fernando Álison Morais Diniz Felix 7. SONDAGEM DO TRATO URINÁRIO 7.1. Sondagem vesical A sondagem vesical é a introdução de uma sonda ou cateter na bexiga, que pode ser realizada através da uretra ou por via supra-púbica, e tem por finalidade a remoção da urina. As sondas urinárias são de dois tipos: as de alívio (sonda uretral – Nelaton) e as de demora (sonda de Foley). A primeira tem seu uso somente indicado em casos de retenção urinária aguda, quando se prevê seu uso apenas para retirada de urina acumulada. Por sua vez a sonda de Foley é indicada nos casos em que há necessidade de observação continuada do fluxo urinário, ou quando há necessidade da permanência dos músculos vesicais em repouso. Esse cateter de borracha macia tem em sua extremidade um balonete, que é inflado para garantir sua permanência dentro da bexiga, sendo aí removido quando o balão é desinsuflado. Podem causar infecção urinária e lesão na uretra e bexiga. Os cateteres geralmente são feitos de látex, silicone ou polietileno. Após sua introdução, que deve ser de forma asséptica, alguns cuidados devem ser observados: o meato urinário deve ser limpo com água e sabão. Deve-se observar a urina em relação ao aspecto e quantidade. Se for detectada diminuição do volume urinário ou drenagem de urina pelo lado de fora do cateter, pode estar ocorrendo obstrução do cateter. O risco de infecção é inerente ao procedimento; a colonização bacteriana ocorre na metade dos pacientes com sonda de demora por duas semanas e praticamente em todos os pacientes após seis semanas de sondagem. Sabe-se que as infecções do trato urinário são responsáveis por um terço de todas as infecções hospitalares, e que na grande maioria das vezes existiu um procedimento invasivo do trato urinário, pois nesses procedimentos os microorganismos podem ter acesso ao trato urinário através da uretra no momento da sondagem, através da delgada camada de líquido uretral externo à sonda e através da luz interna da sonda após contaminação. Este índice de infecção acontece mesmo com a obediência de todos os preceitos de uma boa técnica de sondagem vesical. 7.1. Sondagem vesical suprapúbica É realizada através da introdução de uma sonda após uma incisão ou punção na região suprapúbica, a qual é preparada cirurgicamente, sendo que a sonda é posteriormente conectado à um sistema de drenagem fechado. Suas indicações principais são pacientes com retenção urinária por obstrução uretral sem possibilidades de cateterização, em pacientes com neoplasia de próstata ou em pacientes com plegias, ou seja, quando há necessidade de uso crônico da sonda. São várias as vantagens da sondagem suprapúbica: os pacientes são capazes de urinar mais precocemente, é mais confortável do que uma sonda de demora transuretral, possibilita maior mobilidade ao paciente, maior facilidade de troca da sonda e principalmente apresenta um menor risco de infecção urinária. Como desvantagem é ser um método cirúrgico. Esquema de drenagem vesical suprapúbica e imagem de bolsa ou saco coletor de urina. 68 BASES TÉCNICAS DA CIRURGIA 7.2. Procedimentos De início devemos ao paciente uma orientação sobre as necessidades e técnicas. Após lavagem adequada das mãos, deve-se reunir todo o material necessário para o procedimento. O isolamento do paciente nos quartos comunitários é humano. Quanto à melhor posição, é para as mulheres a ginecológica e para os homens o decúbito dorsal com as pernas afastadas. Após a abertura do pacote de cateterismo, calçar luvas estéreis. Nas mulheres, realizar antissepsia da região pubiana, grandes lábios e colocar campo fenestrado; afastar os pequenos lábios com o polegar e o indicador da mão esquerda e com a mão direita fazer antissepsia no períneo com as bolas de algodão embebidas na solução antisséptica, usando a pinça Pean; a antissepsia deverá ser no sentido uretra-ânus; na sequência: grandes lábios, pequenos lábios, vestíbulo; usar a bola de algodão uma vez e despreza-la, levando em consideração de que a mão em contato com esta região é contaminada e não deve voltar para o campo ou sonda. Continuar a manter, com a mão esquerda, exposto o vestíbulo e, com a mão direita, introduzir a sonda até a verificação da saída de urina. Se for uma sonda de Foley (8F a 24F), insuflar o balão de segurança com água destilada, obedecendo ao volume identificado na sonda, conectar ao saco coletor, fixar a sonda com uma tira de esparadrapo na coxa da paciente e reunir o material utilizado. Se for uma sonda de alívio (Nelaton, 8F a 12F), colocar a outra extremidade na cuba-rim para receber a urina drenada, aguardar esvaziar a bexiga e remover imediatamente a sonda. Nos homens, repetir a técnica do cateterismo feminino com as seguintes diferenças: colocar o paciente em decúbito dorsal e com as pernas afastadas; após enluvar as mãos colocar 8 ml de gel anestésico na seringa com auxílio de outra pessoa; segurar o pênis com uma gaze (mão esquerda), mantendo-o perpendicular ao abdome (tracionando-o para cima); fazer a antissepsia, afastando o prepúcio com o polegar e o indicador da mão esquerda, e, com a pinça montada, fazer a antissepsia do meato uretral para a periferia; injetar o gel anestésico na uretra com a seringa esterilizada, pressionar a glande por 2 a 3 minutos, a fim de evitar refluxo do gel; introduzir a sonda até a sua extremidade (18-20 cm) com movimentos lentos e graduais para baixo, com o pênis elevado perpendicularmente e baixar o pênis lentamente para facilitar a passagem na uretra bulbar; recobrir a glande com o prepúcio, a fim de evitar edema da glande; fixar a sonda na coxa ou na região hipogástrica (profilaxia de fístulas uretrais). Nas sondagens vesicais de demora, com o sistema de drenagem fechado, deve- se observar algumas regras para diminuição do risco de infecção do trato urinário: nunca elevar a bolsa coletora acima do nível vesical; limpeza completa duas vezes ao dia ao redor do meato uretral; nunca desconectar o sistema de drenagem fechado, e a troca do sistema deve ser realizado a cada sete dias na mulher e a cada 15 dias no homem, ou na vigência de sinais inflamatórios. 7.2. Cateter duplo J Após qualquer manipulação do ureter, este pode apresentar um grau de edema secundário à reação inflamatória, que por si só pode obstruir a passagem de urina e de restos de cálculos que ainda possam permanecer. Por isso, costuma-se inserir um cateter chamado de duplo J, ou rabo de porco (pig-tail, em inglês), para garantir a permeabilidade da via manipulada. O cateter apresenta as duas extremidades em forma parecida com a letra J, daí o seu nome. O duplo J apresenta furos em seu trajeto que permitem o escoamento da urina. Uma ponta fica dentro do rim e a outra dentro da bexiga. Portanto, mesmo que haja obstrução em algum ponto do ureter, independente da causa, o duplo J garante a permeabilidade da via urinária. Este cateter pode permanecer por várias semanas até que o urologista ache seguro retirá-lo. O cateter pode produzir graus variáveis de desconforto, incluindo polaciúria, urgência urinária, urge-incontinência, hematúria,lombalgia, dor em hipogástrio. Se 69 Fernando Álison Morais Diniz Felix houver febre, dor excruciante ou sangramento exuberante com coágulos, deve-se contatar o urologista para uma reavaliação. A retirada do cateter é um procedimento simples e feito por via endoscópica com um cistoscópio. Entra-se pela uretra com esse endoscópio e puxa-se o cateter para fora. Se não houver complicações como aderências ou deslocamentos do duplo J, a retirada é um procedimento rápido, e na maioria das vezes, indolor. 8. CATETERIZAÇÃO VENOSA A determinação do acesso venoso periférico ou central é feita considerando-se, entre outros fatores, o estado clínico do paciente, a finalidade do acesso, os recursos materiais, os recursos humanos (habilidade para realizar a punção) e tempo de permanência do acesso. A infusão de drogas e soluções por via endovenosa traz inúmeras vantagens, mas também está associada a vários riscos e complicações. Não esquecer – importante: 1 gota = 3 microgotas / 1 ml = 20 gts ou 60 mcgts / 500 ml = 10.000 gts. Para correr 500 ml em 1h (3.600 seg), então: 10.000/3.600 = 2.7, ou seja, aproximadamente 3 gotas/seg. 8.1. Acesso venoso central Define-se por canulação venosa central o posicionamento de um dispositivo apropriado de acesso vascular cuja extremidade atinja a veia cava superior ou inferior (ou mesmo no átrio direito), independentemente do local da inserção periférica. O acesso venoso central é de extrema importância para o intensivista. Avaliadas as possibilidades de complicações, deve ser decisão baseada no benefício. Para grandes infusões volumétricas, o ideal ainda é o acesso venoso periférico, preferencialmente a veia cubital e com Jelco 14. Na UTI a manutenção do acesso periférico torna-se muitas vezes inviável em virtude das hipotensões graves que ocasionam o calapso da circulação periférica, dificultando punção, e a permanência por períodos maiores de três dias do acesso, que muitas vezes não é permitida. 8.1.1. Indicações o Hipovolemia refratária; o Monitorização hemodinâmica invasiva (pressão venosa central [PVC], pressão de artéria pulmonar – Swan-Ganz, débito cardíaco por termodiluição); o Acesso vascular para a infusão de drogas vasoativas ou de soluções cáusticas, irritantes ou hiperosmóticas; o Terapêutica substitutiva renal de urgência (hemofiltração, hemodiálise); o Acesso vascular de longo prazo para nutrição parenteral prolongada ou quimioterapia; o Reposição rápida de fluidos ou sangue no trauma ou cirurgia (hipotensão grave); o Terapia de ressincronização cardíaca (TRC) através do uso de marcapasso (MPC); o Acesso periférico difícil. 8.1.2. Locais de inserção O acesso pode ser realizado de três formas: o Veia Jugular Interna (VJI); o Veia Subclávia (VSC); o Dissecção de veia periférica (ex.: VF, VJE). 70 BASES TÉCNICAS DA CIRURGIA Locais de punção venosa central preferidos. (A) Veia Jugular Interna: punção homolateral com inclinação de 30º em direção ao mamilo no ápice do triângulo formado pelas duas cabeças do músculo esternocleidomastoideo, tendo a clavícula como base [identificar visualmente, ou por palpação, a posição da veia jugular externa, para evitar sua punção acidental]; (B) Veia Subclávia: pressionar com polegar o local da punção e direcioná-la para o manúbrio esternal com indicador, punção no ponto médio do terço médio da clavícula [triângulo deltopeitoral] em direção ao manúbrio esternal (dedo indicador). O acesso jugular direito é o mais indicado, sobretudo em pacientes acima de 60 anos com deformidades torácicas ou em ventilação mecânica (VM) com alta dependência de PEEP ou pressões inspiratórias. Justificativas: do lado direito a cúpula pleural é mais baixa (menor risco de pneumotórax, especialmente na punção de VSC), o trajeto até o átrio direito é mais retilíneo (menor possibilidade de mau posicionamento do cateter, especialmente pela VJI). A punção esquerda deve ser evitada por ter a passagem do ducto torácico (menor risco de quilotórax). Na VM, ao puncionar, deve-se desconectar o ventilador por não mais que 15 segundos. 8.1.3. Contraindicações Seu uso é de contraindicação absoluta em pacientes com discrasias sanguíneas. As contraindicações relativas incluem pneumopatias graves para acesso subclávio, deformidades anatômicas localizadas, pós uso de trombolítico ou em uso de heparinização. Na necessidade, avaliando riscos, as punções devem ser realizadas na região cervical a qual permite compressão mecânica local. Antes de punção eletiva, faz-se necessário a contagem de plaquetas: inferior a 20.000 contraindica a punção, e solicitar coagulograma com medidas de TP e TTPA. 8.1.4. Técnica A técnica de punção mais utilizada e mais segura é a de Seldinger, com complicações que variam de 0,5 a 10%. Sabe-se que quanto maior o número de punções do profissional, menor a possibilidade de complicações. Cateter mono-lúmen, Portocath, catéter duas e três vias, cateter dupla via para hemodiálise. Há dois tipos de dispositivos, o Intracath e o cateter de mono e duplo lúmen (do tipo Broviac-Hickman), ambos com fio-guia. O custo é de 3-4 vezes quando comparados nas opções, o que deve ser justificado a necessidade de duplo-lúmen com previsão de infusão múltipla de drogas, sedação contínua, bomba de diurético ou dieta A B 71 Fernando Álison Morais Diniz Felix parenteral. O Intracath é o mais rotineiramente utilizado, mas seu uso vem sendo substituído por cateteres, contudo não há benefício teórico com equipe treinada. Independentemente do local selecionado para a punção, é importante que se explique ao paciente consciente toda a sequencia dos procedimentos a que ele será submetido, como parte das normas éticas de boa prática clínica e também com a finalidade de se ganhar o máximo de cooperação por parte do mesmo. Em situações de agitação psicomotora pode ser necessária sedação mínima, fração decimal (2cc) de midazolam diluído em 10 ml de AD. A antissepsia deve ser extensa na região, com trocas de luvas após o término da mesma. O uso de máscara deve ser realizado já neste momento. O bloqueio deve ser feito vagarosamente com introdução de agulha IM e já servindo como “punção de prova” para localização que deve ser avaliada a possibilidade de abandoná-lo após três tentativas. Na punção jugular a localização da artéria carótida é fundamental, protegendo-a de punção acidental, que caso ocorra, mantenha compressão local por tempo maior de três minutos intermitentes, com cautela no idoso. A falha do cateterização se dá entre 5 a 10%. A dor é importante sintoma pós-punção, ocorrendo entre 35 a 40% dos casos, portanto avaliar a necessidade de analgesia endovenosa prévia e/ou posterior. Procedimento de punção da VJI pela Técnica de Seldinger: a. Realizar a antissepsia da pele e colocação de campos cirúrgicos, deixando expostos para visualização e palpação a mastóide, carótida, clavícula, fúrcula esternal e borda lateral do músculo esternocleidomastoideo (ECM). b. Posição: Trendelenburg, e face voltada para o lado oposto ao da punção. c. Infiltrar a pele com solução anestésica (lidocaína a 2% s/ vasoconst.). d. Com uma agulha fina (22G) adaptada a uma seringa contendo solução salina fisiológica, sempre se aplicando uma leve força de aspiração, avançar, num ângulo inclinado de 30º em relação à pele, apontando-a para o mamilo ipsilateral. A VJI é relativamente superficial em relação à pele (2-3 cm de profundidade). Para evitar punção da carótida, deve-se localizá-la por palpação e introduzir a agulha sempre lateral à mesma. e. Uma vez tendo sido localizada a VJI, remover a agulha fina, e, com uma agulha 18G adaptada à seringa, puncionar a veia obedecendo sempre aos mesmos ângulo e direção utilizadospara localizá-la. No momento em que se punciona a veia um fluxo rápido e intenso é obtido (o sangue deve fluir fácil e livremente para dentro da seringa). f. Reduzir o ângulo de inclinação da agulha em relação à pele para mantê- la mais alinhada com a veia. Desconectar a seringa e observar se não há fluxo sanguíneo pulsátil (arterial) pela agulha (o sangue venoso flui de maneira contínua). Deve-se manter o orifício externo da agulha ocluído com o dedo para evitar o risco potencial de embolia aérea (especialmente em pacientes hiperpneicos e em respiração espontânea, que podem gerar altos valores de pressão negativa intrapleural). Técnica de Seldinger. Passos e) e f). g. Inserir o fio-guia suavemente para dentro do vaso, que deve progredir sem nenhuma resistência; se presente, não forçar a progressão e providenciar uma outra punção. Ao final da progressão do fio-guia, retirar a agulha segurando e mantendo firme o fio-guia no lugar. 72 BASES TÉCNICAS DA CIRURGIA Técnica de Seldinger. Passo g). h. Com o fio-guia em posição, fazer uma pequena incisão (± 3 mm de extensão), com uma lâmina de bisturi, junto à sua entrada na pele, para facilitar a passagem do dilatador venoso. i. Vestir o fio-guia com o dilatador e empurrar o conjunto todo para dentro da veia. Em seguida, remover o dilatador, mantendo o fio-guia em posição. Comprimir o orifício de entrada na pele para evitar sangramentos desnecessários. Técnica de Seldinger. Passos h) e i). j. Vestir o fio-guia com o cateter e introduzir o conjunto todo para dentro do vaso. Em seguida, retirar o fio-guia. Técnica de Seldinger. Passo j). k. Finalmente, realizar o teste do refluxo de sangue através dos lúmens do cateter, que deve ser livre e fácil (teste: conectar SF 0.9%, abaixando o frasco para permitir refluxo). l. Fixar cateter com fio de náilon nº 3-0 na pele; 73 Fernando Álison Morais Diniz Felix m. Efetuar curativo oclusivo e etiquetar o cateter com as seguintes informações: o tipo e calibre do cateter (Gauge), a hora e data que foi realizado o procedimento, e nome de quem o realizou; n. Auscultar pulmão; o. Solicitar RX de tórax para verificar posição da extremidade do cateter. 8.1.5. Tempo de permanência do cateter venoso central O tempo de permanência do cateter venoso central é variável e deverá levar em consideração a necessidade de infusão por veia central. Com cuidados rigorosos, a permanência pode ser de 30 dias, o que implica o aumento da frequência das complicações tardias. Portanto, o cateter venoso central deverá ser retirado assim que terminar sua indicação médica. Alguns cateteres semi-implantáveis ou implantáveis tipo Portocath ou Permcath podem ter seu tempo de permanência muito longo (meses ou anos) dependendo dos cuidados com seu manuseio. 8.1.6. Complicações o Infecção* o Secção do cateter o Flebite o Pneumotórax* o Trombose o Punção carotídea* o Embolia o Hematoma localizado o Infusão mediastinal * mais comuns As infecções ocorrem por germes Gram negativos ou estafilococos, sendo preocupante os germes multirresistentes. Não há definição para o tempo de permanência do cateter, não devendo ultrapassar três semanas, como consenso, permanece até apresentar sinais localizados ou sistêmicos que possam indicar infecção, como febre sem foco aparente. Retira-se e encaminha para cultura. A utilização de cateteres com bactericidas tem-se demonstrado promissora, ainda em avaliação custo-benefício. A infusão mediastinal pode ocorrer, portanto somente infundir no primeiro momento SF a 0,9%. A secção do cateter pode ser evitada quando ao introduzi-lo, retirar a agulha lentamente e concomitante. A fisioterapia torácica deve ser evitada nas primeiras duas horas, aguardando a radiologia de controle para localização do cateter e descartar punções pleurais com pneumotórax. 8.1.7. Retirada do cateter venoso central Alguns cuidados devem ser observados na retirada do cateter venoso central, devendo ser de responsabilidade médica ou da enfermagem: o O paciente deve estar posicionado em decúbito dorsal; o Retirar cuidadosamente o curativo; o Realizar a antissepsia; o Cortar os pontos cirúrgicos; o As vias de infusão deverão estar totalmente pinçadas; o Retirar o cateter venoso central; o O orifício da inserção do cateter venoso central deve ser rapidamente fechado, com curativo oclusivo para evitar sangramento local. 8.2. Acesso venoso periférico O acesso venoso periférico constitui-se em uma alternativa rápida e segura, indispensável nas situações de emergência. Através de dispositivos endovenosos, permite à equipe uma via de acesso capaz de promover a infusão de grandes volumes ao paciente, sendo também utilizada para a infusão de drogas de efeitos diversos e de rápida resposta. 74 BASES TÉCNICAS DA CIRURGIA O acesso vascular através da inserção de um dispositivo intravenoso não é um procedimento inócuo. Pelo contrário, está associado a um significativo risco de ocorrência de infecções, se manifestando, geralmente, nos locais de inserção dos dispositivos intravenosos, também podendo na pior das hipóteses, levar a manifestações sistêmicas – sepse. As falhas de infusão são consideradas sequelas iatrogênicas da terapia intravenosa e as mais observadas são a flebite e o extravasamento ou infiltração. Se considerarmos que as falhas da infusão são aquelas que resultam na interrupção da mesma, enquanto ela ainda é necessária, a obstrução e a saída acidental do dispositivo intravenoso, também constituem falhas da infusão. O material do dispositivo intravenoso escolhido tem sido associado à ocorrência das duas principais falhas, a flebite e o extravasamento. A falha do tipo extravasamento ou infiltração no subcutâneo está significativamente associada ao dispositivo intravenoso do tipo agulha de aço (butterfly ou Scalp). Desta forma, estes dispositivos, de fácil inserção, como regra, devem ser usados apenas para infusões de curta duração e em crianças e idosos, cujas veias são de difícil acesso. O extravasamento ou infiltração é caracterizado por dor ou ligeiro desconforto no local da inserção, edema e diminuição ou parada no gotejamento da solução infundida. Estão relacionadas ao deslocamento do cateter ou da agulha, perfurando a veia, decorrente de fixações inadequadas ou ainda de movimentos efetuados pelo próprio paciente ou da equipe de saúde que lhe presta assistência. O dispositivo intravenoso do tipo cateter plástico sobre agulha (Abocath ou Jelco) está mais associado a uma maior incidência de flebite, que é a mais importante complicação destes dispositivos, devendo-se ao fato destes dispositivos permanecerem por maior tempo em uma inserção e ser a flebite, uma complicação ligada ao tempo de permanência de um cateter numa inserção. A flebite também está relacionada com a contaminação do local de inserção, contaminação das linhas de infusão, manipulação inadequada dos materiais e soluções a serem infundidos e, ainda, uso de drogas tóxicas, hipertônicas ou muito ácidas que levam a uma irritação química da veia. A escolha do dispositivo de acesso periférico, a ser utilizado, dependerá principalmente da indicação e da veia a ser puncionada. O Scalp é indicado nas terapias intravenosas periféricas, para infusões de curta duração, com permanência de até 24 horas na veia e procedimentos de coleta de sangue. Calibre 19G a 27G. O Jelco é indicado nas terapias intravenosas periféricas, para infusões de média duração, com permanência de até 72 horas na veia. Vantagem destes dispositivos é a possibilidade de retirada da agulha, permanecendo apenas o cateter no intravascular. Calibre 14G a 24G. O manuseio destes dispositivos não requer paramentação cirúrgica, contudo exigetécnica asséptica, preservando a esterilidade na porção distal que entrará em contato com o paciente. Os locais de inserção preferencialmente devem seguir a linha de uma veia tronco do antebraço (veias mediana do antebraço e cotovelo, basílica e cefálica), sendo que, quanto mais distal a fossa cubital melhor – recomendam-se as veias do dorso da mão e, se necessário, progredir nas tentativas proximais do membro. As veias basílica e cefálica são formadas no arco venoso superficial do dorso da mão, e se prolongam nas bordas medial e lateral do antebraço, respectivamente. Ao nível da fossa antecubital recebem a drenagem das veias medianas do cotovelo. A veia cefálica continua na borda lateral do braço, atingindo o sulco deltopeitoral, indo desembocar na veia axilar. A veia basílica continua na face medial do braço, indo desembocar através do sulco braquial, ao nível do terço médio na veia braquial. As veias das extremidades inferiores, somente são usadas em casos de extrema necessidade, devido aos riscos de tromboembolismo. Em pacientes pediátricos e neonatais a parte distal da veia safena pode ser utilizada, assim como as veias da região cefálica (p/ neonanatos). Outra opção para 75 Fernando Álison Morais Diniz Felix esses pacientes é a veia jugular externa, entretanto, a realização deste procedimento devido a localização dos vasos, exige boa habilidade técnica e conhecimento de anatomia. 8.2.1. Procedimento 1. Informe prévio ao cliente, sobre o procedimento a ser realizado. 2. Escolha do vaso a ser puncionado e do dispositivo intravenoso a ser utilizado. 3. Lavagem das mãos e calçamento de luvas de procedimento. 4. Colocação do torniquete (garrote) a 15 ou 20 cm acima do local a ser puncionado, evitando pressão excessiva que possa interromper o pulso radial. Dar preferência ao garroteamento acima do cotovelo. 5. Promover dilatação das veias, incentivando o cliente a abrir e fechar a mão. 6. Providenciar a antissepsia rigorosa do local de punção. Controvérsias existem em relação aos antissépticos, no entanto, os mais utilizados ainda são álcool iodado, álcool 70% e clorexidina 2%. 7. Com o cateter angulado 30º rente à pele e paralelo a veia, efetua-se a punção. Dirige-se a ponta do cateter à veia, com o bisel voltado para cima, desta forma minimizando a mobilidade da veia, favorecendo-se a sua cateterização. A seguir, progredir o cateter paralelamente à pele (e retirar agulha se Jelco). 8. Liberação do torniquete, logo após a punção. 9. Observar o refluxo do sangue pela conexão. 10. Efetuar a conexão do equipo de soro, previamente montado, observando o fluxo, com o livre escoamento do volume infundido, e refluxo, com o retorno de sangue pelo equipo. 11. Estabilizar e fixar o cateter à pele com micropore (idosos e crianças) ou esparadrapo (adultos). 12. Registrar o procedimento que deverá constar os seguintes dados: data e horário, local de inserção e tipo do dispositivo, solução de infusão e reações do cliente. Dica: Identificar no acesso venoso o calibre do dispositivo utilizado, a data que foi realizado o procedimento e quem realizou. Infusão contínua com solução medicamentosa também deverá ser devidamente identificada. 9. MONITORIZAÇÃO HEMODINÂMICA INVASIVA – CATETER DE SWAN-GANZ O cateter de Swan-Ganz foi um grande avanço na avaliação hemodinâmica dos pacientes com choque. Trata-se de um cateter introduzido por uma veia profunda até uma das artérias pulmonares. O tratamento do paciente crítico envolve a monitorização e a avaliação hemodinâmica. O cateter de Swan-Ganz, ou cateter de artéria pulmonar, foi desenvolvido na década de 1960 por Swan e Ganz. Por volta dos anos de 1970, com o avanço da tecnologia, foi adicionado um termistor permitindo um rápido acesso ao débito cardíaco e a outras informações consideradas importantes para o diagnóstico e tratamento de tais pacientes. 9.1. Tipos de cateter de Swan-Ganz O cateter existe nos tamanhos neonatal (3F), pediátrico (5F) e adulto (7F). Os cateteres adultos existem em dois comprimentos: 85 e 110 cm. O corpo do cateter contém quatro vias, além do balão em sua extremidade distal. Nestes últimos anos, ocorreram sofisticações nos sistemas de monitorização e no próprio cateter e, como resultado, temos a mais segura e relativamente fácil assistência hemodinâmica à beira do leito do paciente. Neste contexto, foram desenvolvidos alguns modelos de cateteres de Swan-Ganz: 76 BASES TÉCNICAS DA CIRURGIA o de dupla-via (a forma original e mais simples do cateter); o com quatro vias (o mais utilizado); o de termodiluição com via extra para medicação (permite a infusão de drogas por vias acessórias que se localizam no átrio); o de termodiluição com quatro vias e " indicador de posição" (a via proximal encontra-se a 10 cm da ponta do cateter, ou seja, no ventrículo direito. Através da visualização da curva de ventrículo direito é possível verificar a posição correta do cateter ou quando ocorre a migração do mesmo); o de artéria pulmonar com fibra óptica (uma via a mais que contém no seu interior duas linhas de fibra óptica para realizar a medida da saturação venosa mista); o de artéria pulmonar com marcapasso (pode ser usado como marcapasso sequencial atrial, ventricular e atrioventricular; possui cinco eletrodos, sendo 2 intraventricular e 3 intra-atrial); o com fração de ejeção por termodiluição (permite obter os cálculos dos volumes diastólico e sistólico finais do ventrículo direito); o com medida de débito cardíaco contínuo (possui um filamento térmico que, quando aquecido, a variação da temperatura é detectada pelo termistor, localizado próximo a ponta do cateter, onde será reproduzida a curva de termodiluição do débito cardíaco). Cateter de Swan-Ganz com via extra para medicação. Via distal (AP) - amarela: seu orifício situa-se na ponta do cateter, permitindo a medida da pressão da artéria pulmonar (PAP) e da pressão de oclusão da artéria pulmonar (POAP). Pode ser coletado sangue venoso misto desta via, já que a ponta do cateter está na artéria pulmonar. Drogas ou soluções hiperosmóticas não devem ser administradas nesta via, pois podem causar lesão vascular local ou reação tecidual. Via do balão - vermelha: via para insuflar o balão; auxilia na migração do cateter pela flutuação dirigida pelo fluxo, permitindo o encunhamento do cateter e a medida da pressão capilar pulmonar (PCP), quando inflado em um ramo da artéria pulmonar. Via proximal (AD) - azul: seu orifício localiza-se a 30 cm da ponta do cateter, no átrio direito e transmite a pressão do mesmo (PVC). Pode-se administrar drogas, fluídos e eletrólitos. A solução para a realização da medida do débito cardíaco é injetada nesta via. Via do termistor: consiste em dois finos fios isolados, estendendo-se pelo comprimento do cateter e terminando em um termistor embutido na parede do cateter, situado de 4 a 6 cm da ponta na superfície do cateter, que mede a temperatura sanguínea na artéria pulmonar, continuamente, sendo que, através da termodiluição, realiza as medidas hemodinâmicas (como o débito cardíaco) com o uso de um computador. 9.2. Indicações Atualmente, não há ainda um consenso dentre as indicações de uso do cateter de Swan-Ganz. As principais indicações são as seguintes: - Diagnóstico complementar ou diferencial. 77 Fernando Álison Morais Diniz Felix - Pacientes cirúrgicos de alto risco (cir. cardíaca, cir. vasculares e abdominais de grande porte, politraumatizados graves). - Necessidade de avaliação das variáveis hemodinâmicas através das medidas seriadas e da monitorização da pressão atrial direita, pressão arterial pulmonar e/ou pressão capilar pulmonar, no paciente crítico. - Determinação do débito cardíaco pelo método determodiluição. - Colheita de sangue venoso misto e infusão de soluções. Contraindicações: - Uso de heparina para a manutenção da permeabilidade do cateter em pacientes com conhecida hipersensibilidade à heparina. - Pacientes com sepse recorrente, ou estados de hipercoagulabilidade, onde a presença do cateter serve como ponto para a manutenção da sepse ou formação de trombos. - Pacientes com alterações do ritmo cardíaco, sendo obrigatória a monitorização eletrocardiográfica. 9.3. Controle hemodinâmico O controle hemodinâmico inclui parâmetros determinados diretamente, tais como as pressões intravasculares e o débito cardíaco. Outros parâmetros são calculados indiretamente por meio de fórmulas, tais como a resistência vascular sistêmica e a força de ejeção do ventrículo esquerdo. Assim, apenas com a cateterização à beira do leito, de maneira rápida e segura, do lado direito da circulação sanguínea, obtém-se o perfil hemodinâmico do paciente em estado crítico, o que, por sua vez, permite intervenções terapêuticas mais precoces e precisas. Variáveis diretas: frequência cardíaca (FC), pressão arterial sanguínea (PAS), pressão de artéria pulmonar (PAP), pressão de oclusão da artéria pulmonar (POAP), pressão venosa central (PVC) e débito cardíaco (DC). Variáveis indiretas: pressão arterial média (PAM), índice cardíaco (IC), volume sistólico (VS), índice sistólico (IS), resistência vascular sistêmica (RVS), resistência vascular pulmonar (RVP) e trabalho sistólico do ventrículo esquerdo (TSVE). Todos os dados podem ser conferidos pelo computador. O procedimento é de responsabilidade médica. Após a instalação do cateter, é responsabilidade da equipe de enfermagem proceder à verificação das medidas. Todos esses dados devem ser anotados no prontuário do paciente e quaisquer alterações devem ser comunicadas à equipe médica imediatamente. 9.4. Funcionamento Normalmente, o cateter de Swan-Ganz é usado via acesso venoso central (VJI, VSC, VF, etc). A ponta do cateter chega ao átrio direito. Neste momento, insuflando o balonete, a corrente sanguínea leva o cateter como se fosse uma bolha de ar. Ele atravessa a valva tricúspide e entra no ventrículo direto, então atravessa a valva pulmonar e entra na artéria pulmonar e vai parar num de seus ramos. Então, chegando aí, tem a possibilidade de medir a pressão capilar pulmonar (PCP - em cmH2O, e não mmHg). Então, quando está em posição, o cateter Swan-Ganz mede diretamente: a) PAP (na ponta do cateter com o balonete desinsuflado); b) PVC -> pressão do átrio direto (o segundo orifício, situado a 30 cm da ponta); c) PCP, no momento que o balonete está insuflado (sendo que a inflação deste obstrui temporariamente o lúmen da artéria pulmonar = POAP). De fato, a POAP reflete as pressões de enchimento do “coração esquerdo” (pré-carga), enquanto que a PVC reflete as pressões de enchimento do “coração direito” (pós-carga). 78 BASES TÉCNICAS DA CIRURGIA À medida que é introduzida no sistema venoso, a extremidade distal do cateter atinge primeiramente a veia cava superior e, em seguida, o átrio direito, o ventrículo direito e, finalmente, a artéria pulmonar. O médico responsável pelo procedimento pode saber exatamente em que posição está o cateter, de acordo com o padrão da curva de pressão apresentado na tela do monitor. 9.5. Complicações Hemorragia, formação de hematoma e embolização de placas ateroscleróticas são raras, mas passíveis de seguir-se à inadvertida punção arterial. Foram descritas lesões de estruturas adjacentes à rede vascular, tais como trauma de duto torácico, normalmente quando se utiliza a veia jugular interna esquerda, síndrome de Horner, e lesão de plexo braquial e nervo frênico. Arritmias são frequentes na inserção e na remoção, sobretudo durante a passagem do balonete pelo ventrículo direito. Dificuldades na progressão do cateter podem ocorrer sobretudo em estados de baixo fluxo, podendo determinar eventuais posições aberrantes, com subsequente lesão valvar, de músculos papilares e/ou cordas tendíneas. O auxílio da radioscopia pode ser solicitado. A cateterização além de 72 horas e manipulações múltiplas aumentam a chance de colonização e a taxa de infecção relacionada ao cateter. A complicação mais dramática talvez seja a perfuração da artéria pulmonar, cuja manifestação clínica é a hemoptise. O risco aumenta com idade avançada, hipertensão pulmonar, hipotermia e desvios na técnica de inserção. A manutenção do cateter em posição proximal, por meio de confirmação radiológica, e a insuflação lenta e cuidadosa do balão durante a leitura da PCP são medidas que podem evitar tão temida complicação. 10. INFECÇÕES HOSPITALARES RELACIONADAS COMO USO DE DRENOS, SONDAS E CATETERES Drenagem de longa permanência propicia a colonização bacteriana e infecção ascendente. Quando dois drenos se mostram necessários, o índice de infecção saltou em uma diferença muito significativa. Os cateteres vasculares, os vesicais e as aspirações orotraqueais, são, sem dúvida, as maiores causadoras de infecções em unidades hospitalares. Assim, esses procedimentos devem ser evitados ao máximo, porém quando necessários, devem ser observadas as técnicas de antissepsia rigorosa quando de sua inserção, assim como no seu manuseio. O uso de paramentação deve ser levado a sério e o controle, através de exames laboratoriais, seguidos à risca. 79 Fernando Álison Morais Diniz Felix XXX --- DDDRRREEENNNAAAGGGEEEMMM TTTOOORRRÁÁÁCCCIIICCCAAA O sistema coletor de drenagem pleural ou mediastinal é um equipamento médico-hospitalar usado nos procedimentos cirúrgicos torácicos e/ou cardíacos e destina-se à evacuação de conteúdo líquido e ou gasoso da cavidade torácica (derrame pleural, derrame pericárdico, empiema pleural, hemotórax, pneumotórax, etc.). A drenagem pleural ou mediastinal é definida como um procedimento cirúrgico para introdução de um dreno através de parede torácica na cavidade pleural ou mediastinal. 1. PATOLOGIAS Alguns distúrbios pleurais, pericárdicos e mediastinais necessitam de drenagem torácica, que vem a ser a evacuação de ar e/ou líquidos da cavidade torácica. Tal drenagem utiliza o princípio de válvulas unidirecionais para impedir a fuga e/ou entrada de gases do local. Como exemplo, temos: 1.1. Derrame pleural Normalmente somente uma pequena quantidade de líquido separa as duas membranas da pleura (cavidade pleural é um espaço virtual nas situações normais). O derrame pleural é o acúmulo anormal de líquido no espaço pleural. Pode ocorrer este acúmulo por diversas razões, como: insuficiência cardíaca, cirrose hepática e pneumonia. Outros tipos de líquidos que podem acumular-se no espaço pleural incluem sangue (hemotórax), pus (empiema ou piotórax), líquido leitoso e líquido rico em colesterol. Os sintomas mais comuns, independentes do tipo de líquido presente no espaço pleural ou de sua causa, são a dificuldade respiratória e a dor torácica. Os derrames pleurais pequenos podem necessitar apenas do tratamento da causa subjacente. Os derrames maiores, especialmente aqueles que produzem dificuldade respiratória, podem exigir a retirada do líquido (drenagem). Quando devem ser removidos volumes maiores de líquido, um tubo pode ser inserido na parede torácica. Depois de anestesiar a área com um anestésico local, insere-se um tubo plástico na parede torácica, entre duas costelas. Em seguida, ele conecta o tubo a um sistema de drenagem com selo de água, impedindo que o ar entre no espaço pleural. 1.2. Pneumotórax O pneumotórax é o acúmulo de ar entre as duas membranas pleurais. O pneumotórax pode ocorrer sem uma razão identificável, sendo então denominado pneumotórax espontâneo. O pneumotórax também pode ocorrer em decorrênciade uma lesão/trauma ou de um procedimento que permita a introdução de ar no espaço pleural, como no caso da toracocentese. Normalmente, a pressão no espaço pleural é menor que a pressão intrapulmonar. No entanto, quando o ar penetra no espaço pleural, a pressão local torna-se maior que a pressão intrapulmonar e o órgão colapsa de forma parcial ou completa. Os sintomas variam muito e dependem do volume de ar que penetrou no espaço pleural e do tamanho da área pulmonar colapsada. 80 BASES TÉCNICAS DA CIRURGIA Um pneumotórax pequeno não exige tratamento. Normalmente, ele não causa problemas respiratórios graves e o ar é absorvido em poucos dias. Quando o pneumotórax é suficientemente grande a ponto de comprometer a respiração, é necessária a instalação de um tubo torácico. Este é conectado a um sistema de drenagem com selo de água ou a uma válvula unidirecional, que permite a saída do ar sem permitir que haja qualquer retorno. 2. SISTEMAS DE DRENAGEM UNIDIRECIONAL Além de destinar-se a evacuação dos fluidos, esses sistemas possibilitam o controle com mensuração da quantidade e do tipo de secreção drenada dos derrames pleurais ou pericárdicos, empiemas, hemotórax, pneumotórax, etc. 2.1. Componentes do selo d’água � Frasco coletor (1) � Etiqueta volumétrica graduada (2) � Tampa (3) � Alça de transporte (4) � Tubo de drenagem (5) � Conector cônico (6) � Tubo selo d’água (7) � Presilha (8) � Respiro da saída de gases (9) � Dreno torácico. 2.2. Princípio hidrodinâmico de funcionamento Dever-se-á impedir a entrada de ar no tórax, através do emprego de sistemas fechados. Os tipos de mecanismos unidirecionais mais usados nos sistemas coletores de drenagem pleural ou mediastinal são: o Sifonagem subaquática por sifão; o Válvula de Heimlich (mais utilizada em pneumotórax). Os sistemas coletores de drenagem pleural ou mediastinal utilizam mais comumente o princípio da sifonagem subaquática que funciona como uma válvula unidirecional, também denominada drenagem pleural fechada ou drenagem em selo d’água. A sifonagem subaquática evita que ocorra o pneumotórax aberto, mantendo o equilíbrio da pressão intratorácica, que é negativa em relação à atmosférica. O sistema básico de drenagem consta de um tubo de borracha que deverá ser mergulhado em um frasco com selo d’água (no mínimo 2 cm de água destilada), em cuja tampa haverá um respiro para o meio externo que não será conectado com a água. Esse sistema será ligado ao tubo de drenagem por meio de um conector, a qual deverá ser hermética e jamais estenosar o sistema de drenagem. Assim, o selo d’água definirá uma válvula unidirecional, tendo o ar condições de sair para o meio externo borbulhando no frasco, mas não terá condições de entrar no sistema. Com esse sistema simples, conseguimos resolver a maior parte das indicações de drenagem torácica. Em situações especiais como o hemotórax, pus espesso ou fístula de parênquima 81 Fernando Álison Morais Diniz Felix pulmonar, que impede a adequada expansão pulmonar, pode-se utilizar um sistema com dois frascos para aspiração contínua (figura ao lado), sendo o segundo frasco com três aberturas para conexões, uma será conectada ao aspirador contínuo, outra será conectada ao respiro do primeiro frasco de drenagem, e a terceira a qual se encontra mergulhada na água será mantida aberta para o meio externo. Esse segundo frasco serve para graduar-se o nível de aspiração, a qual será dependente não da força do aspirador, mas do quanto o respiro encontra-se mergulhado na água. Assim, quanto mais mergulhado, maior será a força de aspiração, desde que por esse respiro mantenha-se constantemente a entrada de ar. O nível de aspiração para crianças deve ser de 8 - 12 cm mergulhado na água, e nos adultos deve ser de 15 - 20 cm. Quando utilizamos a aspiração contínua em casos de fístula aérea do parênquima pulmonar, devemos ponderar entre as vantagens de manutenção de uma pressão negativa constante e o inconveniente de maior roubo de ar pela fístula com sua possível manutenção aberta. 2.3. Tipos de dreno e local de drenagem Para drenagem pleural, dois tipos básicos de dreno podem ser utilizados: os tubulares multiperfurados e os drenos com um furo em uma expansão distal. Os drenos multiperfurados poderão ser de material com características de borracha (Nelaton) ou de materiais plásticos e siliconados, atualmente mais usados. Os drenos com furos apenas em uma expansão distal ou “cabeça” são de materiais com características de borracha (Pezzer ou Malecot). Os modelos de dreno tubular torácico (pleurais ou mediastinais) adquiriram o epônimo do idealizador (ver figura a seguir). Drenos tubulares, detalhes de suas extremidades. Da esquerda pra direita de cima pra baixo: drenos de Nelaton (multiperfurado); dreno de Malecot; dreno de Pezzer; e drenos de Blake. O dreno de maior utilização em drenagem pleural é o tubular, o qual será indicado em todas as drenagens de líquidos e nos pós-operatórios de cirurgia torácica, sendo também o dreno indicado nos casos de pneumotórax traumático, inclusive por barotrauma, visto que os traumas predispõem ao aparecimento de hemotórax subsequente. O calibre do dreno variará de acordo com o tamanho do paciente, sendo que, poderemos usar desde drenos tubulares calibrosos até extremamente finos como sondas nº 8F em recém-nascidos prematuros. Os tamanhos mais utilizados em adultos são 24F para drenar ar ou coleções líquidas pouco viscosas e 28F para drenar sangue e pús. 82 BASES TÉCNICAS DA CIRURGIA Sempre que colocarmos drenos tubulares, devemos utilizar uma localização inferior, sendo o local mais indicado o 5º ou 6º espaço intercostal por incisão entre a linha axilar média e a posterior, sempre na margem superior da costela. Nos casos de coleções pleurais septadas, introduzimos o dreno no local em que estiver a maior loja, sempre na margem superior do espaço intercostal mais inferior. Os drenos com furos na sua expansão distal (Pezzer ou Malecot) tem sua única indicação, como opção, nos casos de pneumotórax espontâneo, onde a chance de sangramento associado é muito baixa. O local de drenagem desses casos é o segundo espaço intercostal na linha hemiclavicular. Após a colocação da pequena “cabeça” do dreno na cavidade pleural, o mesmo será tracionado, deixando-o colado à pleura parietal. Há uma tendência atual de mesmo nos casos de pneumotórax espontâneo, utilizar-se drenos tubulares. 3. DESCRIÇÃO DA TÉCNICA A introdução do dreno de tórax pode ser realizada por introdução do cateter (dreno) torácico por punção da parede torácica ou no decorrer da cirurgia torácica. O local de inserção varia de acordo com o produto a ser removido (ar, sangue, pus ou linfa) e a sua localização. As vias mais comuns são: o 2º ou 3º espaço intercostal anterior, na linha hemiclavicular (para drenar pneumotórax) – podendo o paciente permanecer em decúbito dorsal; o 4º a 6º espaço intercostal, na linha axilar média (para drenar líquidos); o região infraesternal (abaixo do apêndice xifoide), nos casos de cirurgia cardíaca. (Neste local, o dreno recebe o nome de dreno de mediastino). A realização de drenagem nos intercostos mais inferiores (abaixo do sétimo), além do risco de lesão do diafragma e vísceras abdominais, possui também o inconveniente de obstruir mais facilmente o dreno no seio costofrênico. Após a introdução, faz-se necessário controle radiológico. 3.1. Procedimento - Explicar o procedimento ao paciente. - Posicionamento do paciente (decúbito dorsal ou lateral à E ou D – depende do local a ser drenado). Cabeceira elevada de 30º a 45º ou sentado. - Inicia-se o procedimento com uma rigorosa antissepsia com solução iodada (PVPI),em toda a extensão do hemitórax. - Colocam-se campos esterilizados. - Anestesia local com solução de lidocaína a 1% infiltrando-se o espaço intercostal previamente escolhido para a drenagem. - Faz-se a punção pleural penetrando-se com a agulha, junto à borda superior da costela inferior direcionando-a superiormente, visando minimizar o risco de lesão dos vasos intercostais, do parênquima pulmonar e da cúpula diafragmática. Obrigatoriamente deve ser feita punção antes da drenagem e, caso não venha ar ou líquido, a drenagem não deve ser realizada neste local. - O líquido aspirado será colocado em tubo esterilizado e mandado para exame. - Incisão na pele de 1,0 a 1,5 cm com bisturi; divulsão dos planos subcutâneos e muscular com pinça hemostática curva com penetração na cavidade pleural, rente à borda superior da costela inferior. Com a pinça na cavidade pleural, o dedo indicador deve estar próximo da extremidade da pinça hemostática (“breque de dedo”) evitando-se assim, lesões de parênquima, por uma entrada súbita e violenta. - Após a introdução da pinça ela será aberta para ter-se um espaço adequado. Nos casos de dúvida o dedo indicador poderá ser introduzido para uma exploração 83 Fernando Álison Morais Diniz Felix digital da cavidade; em seguida o dreno será introduzido estando adaptado e esticado (observar se todos os orifícios estão dentro da cavidade pleural) em outra pinça hemostática curva (em recém-nascidos ou crianças pequenas, o dreno pode ser introduzido, após abertura do espaço, sem o auxílio da pinça hemostática). - Adaptação entre o dreno e o tubo conectado ao frasco sob selo d’água com a utilização de um conector calibroso – fixar a conexão com esparadrapo. - Fixação do dreno à pele do paciente através de sutura com fio de algodão nº 0 (ponto chinês). - O nível líquido do frasco será marcado com uma fita adesiva, para possibilitar o controle do débito da drenagem. - Curativo no local da inserção do dreno (compressa de gazes estéreis + esparadrapo). - Prescrição de analgésico, o qual normalmente é necessário após cessar o efeito do anestésico local. - Controle radiográfico do tórax, o qual deverá ser realizado e avaliado logo após a drenagem. Controle radiográfico pós-drenagem. Após a drenagem pleural nos casos de pneumotórax, ao conectar-se o dreno com o sistema de selo d’água, haverá um borbulhamento do ar no líquido do frasco de drenagem, representando a saída de ar da cavidade pleural. Após essa saída inicial do ar poderá haver expansão total do pulmão e parada de saída de ar ou, poderá cada vez que o paciente tiver movimentos respiratórios, haver borbulhamento pelo dreno. Nessa situação definimos a presença de uma fístula aérea entre o parênquima pulmonar e a cavidade pleural. É primordial para o médico a identificação da presença de fístula aérea do parênquima pulmonar, visto que, nessa situação devemos tomar um cuidado especial com o sistema de drenagem. Cuidado esse, representado pela contraindicação de pinçamento do dreno. Caso esse pinçamento seja realizado com presença de fístula aérea, teremos novamente pneumotórax, colocando o doente em risco de vida, além de dificultarmos o fechamento da fístula (que ocorre também por aderência entre as pleuras) e predispormos o doente à formação de enfisema subcutâneo, que ocorre por vazamento do ar ao redor do dreno, saindo (sob pressão) da cavidade pleural para o subcutâneo. Assim, na presença de fístula aérea do parênquima pulmonar, o dreno só deve ser pinçado para troca do frasco, o qual deve durar um período mínimo, pedindo-se 84 BASES TÉCNICAS DA CIRURGIA nesse momento, para o paciente parar de respirar e quando em ventilação mecânica, desligando-se o aparelho durante esse pequeno período de troca. 4. CUIDADOS COM O SISTEMA DE DRENAGEM - Não fixar ao leito o tubo de borracha que conecta o dreno ao frasco de drenagem pelo risco de saída com a mobilização do paciente. Manter este tubo suficientemente longo, mas não deixando a borracha excessivamente longa, pois dificulta a drenagem de líquidos. - Trocar diariamente o frasco, medindo-se o seu débito. - Trocar diariamente o curativo em torno do dreno. - Verificar se a coluna líquida permanece oscilando e se persiste o débito. - Verificar diariamente as conexões. - Manter o frasco de drenagem em nível inferior ao do tórax do paciente. data: ____/____/____ hora: ______:______ volume drenado a cada hora: _______________ volume drenado a cada 24 horas: ____________ coloração do líquido drenado: □ seroso citrino □ seroso fibrinoso □ seroso purulento . □ seroso hemático □ hemático □ outros: ___________ Controles com a drenagem no frasco coletor, de acordo com as orientações médicas. 4.1. Quando retirar o dreno? Nos casos de drenagem por líquidos, o dreno será retirado quando não estiver mais cumprindo as funções pelas quais foi colocado, isto é, quando cessar o débito de drenagem (frasco limpo ou com mínimo débito em 24 horas), tendo ainda havido melhora do quadro clínico e da ausculta pulmonar, comprovada radiologicamente. Não havendo essa correspondência entre o quadro clínico, radiológico e o débito pelo dreno, o mesmo poderá estar obstruído, devendo ser trocado ou outro procedimento cirúrgico realizado. Nos casos de pneumotórax, o dreno só será retirado quando estiver fechada a fístula aérea do parênquima pulmonar, isto é, não houver borbulhamento pelo dreno, mesmo forçando-se a tosse, a fala ou o choro, com a correspondência de expansão pulmonar confirmada pelos exames físico e radiográfico do tórax. Nesses casos, para uma maior segurança na retirada, após o fechamento da fístula, podemos realizar o pinçamento do dreno por um período de 6 a 12 horas, fazendo uma radiografia em seguida, e se não houver pneumotórax retirar o dreno. Lembrar que a oscilação do nível líquido no sistema de drenagem significa apenas que o mesmo encontra-se pérvio e introduzido na cavidade pleural (transmitindo a variação de pressões), não tendo relação com a indicação de retirada do dreno. Como existe grande dúvida sobre esse assunto, gostaríamos de deixar claro que a oscilação do nível no dreno não contraindica a sua retirada se os demais princípios, já descritos, indicarem esse procedimento. oscilação da coluna líquida: sim □ não □ borbulhamento (fístula aérea): sim □ não □ 85 Fernando Álison Morais Diniz Felix XXXIII --- VVVEEENNNTTTIIILLLAAAÇÇÇÃÃÃOOO MMMEEECCCÂÂÂNNNIIICCCAAA EEE IIINNNTTTUUUBBBAAAÇÇÇÃÃÃOOO EEENNNDDDOOOTTTRRRAAAQQQUUUEEEAAALLL 1. REVISÃO DA ANATOMIA A manutenção de uma via aérea pérvia e a oxigenação adequada dos tecidos são as primeiras preocupações nas emergências. Para tanto é necessário conhecimento anatômico da via aérea e os principais métodos para a manutenção da mesma. Vamos recordar alguns elementos anatômicos fundamentais para a compreensão deste ato médico. Cavidade nasal – é uma via de acesso de suma importância, sendo que se comunica através das coanas à nasofaringe e em seguida à laringe. Cavidade oral – é a via de acesso mais utilizada devido ao seu diâmetro e fácil manipulação. Língua – é um órgão predominantemente muscular, fixa à mandíbula, ao osso hioide, ao processo estiloide e à parede da faringe. Com frequência pode ser a causa de obstrução das vias aéreas especialmente no paciente inconsciente, pois nesta situação há uma perda do tônus dos músculos submandibulares que suportam tanto a língua como a epiglote. Faringe – é definida como a passagem musculomembranosa entre as coanas e boca e a laringe e o esôfago. 86 BASES TÉCNICAS DA CIRURGIA Laringe – é umaestrutura em forma de caixa contendo cartilagens e músculos; é um esfíncter poderoso e o órgão da fala. Está ligada superiormente à faringe e ao osso hioide e inferiormente à traqueia. É formada por nove cartilagens, sendo uma delas, a epiglote, importante referência uma vez que age como “tampa” e seus processos inflamatórios podem levar a uma obstrução da via aérea com risco de vida. A tireoide é uma cartilagem em forma de escudo que protege as cordas vocais, sendo que se articula inferiormente com a cartilagem crinoide que possui uma forma de anel. Traqueia – está compreendida entre a cartilagem crinoide a bifurcação brônquica. É uma estrutura tubular de 10 a 15 cm de comprimento e de diâmetro ao redor de 20 mm. Possui de 16 a 20 cartilagens em forma da letra “C”, fixas por tecido fibro-elástico. Posteriormente e firmemente aderida à traqueia encontra-se o esôfago. 2. INTRODUÇÃO A ventilação mecânica (VM) ou, como seria mais adequado chamarmos, o suporte ventilatório, consiste em um método de suporte para o tratamento de pacientes com insuficiência respiratória aguda ou crônica agudizada. Tem por objetivos, além da manutenção das trocas gasosas, ou seja, correção da hipoxemia e da acidose respiratória associada à hipercapnia: aliviar o trabalho da musculatura respiratória que, em situações agudas de alta demanda metabólica, está elevado; reverter ou evitar a fadiga da musculatura respiratória; diminuir o consumo de oxigênio, dessa forma reduzindo o desconforto respiratório; e permitir a aplicação de terapêuticas específicas. Atualmente, classifica-se o suporte ventilatório em dois grandes grupos: 87 Fernando Álison Morais Diniz Felix o Ventilação mecânica invasiva (VMI); o Ventilação não invasiva (VMNI). Via aérea definitiva é a obtenção de uma via artificial de ventilação definitiva (inclui-se na VMI), como a intubação orotraqueal, nasotraqueal ou as vias cirúrgicas como a traqueostomia ou a cricotireoidostomia, que devem ser consideradas caso a intubação endotraqueal seja impossível. A intubação endotraqueal permite a assistência ventilatória em pacientes anestesiados ou sob VM, podendo ser de curta ou longa duração. Está indicada em qualquer situação que requeira um controle definitivo da via aérea (obstrução das vias aéreas, insuficiência respiratória). Também é realizada como parte do cuidado de pacientes criticamente doentes com doença multissistêmica ou ferimentos. A obstrução das vias aéreas deve ser considerada quando um indivíduo para repentinamente de respirar, torna-se cianótico e perde a consciência sem causa aparente. A obstrução completa impede a fala, a respiração e a tosse; o paciente normalmente aperta o seu pescoço, sendo a parada cardíaca possivelmente o evento seguinte. São muitos os procedimentos para a manutenção da permeabilidade da via aérea, alguns simples, outros mais complexos, dependendo da doença e da situação do paciente. A inspeção cuidadosa da cavidade oral e faringe à procura de corpos estranhos, como pedaços de dentes, dentaduras, pedaços de roupa, sangue é de suma importância, lembrando que a simples queda da língua pode ser causa de obstrução da via aérea. Feito o diagnóstico, a simples hiperextensão da cabeça e o levantamento do queixo, aproximando os dentes incisivos inferiores dos superiores, provocará melhora imediata. Uma cânula de Guedel poderá ter o mesmo efeito. Na situação de politraumatismos onde a suspeita de um traumatismo raquimedular cervical não pode ser afastado, a manipulação da cabeça deve ser evitada, sendo que nesta situação o médico deverá tracionar a mandíbula, através do seu corpo e ângulo, contra a maxila, o que também elevará a língua. 3. EQUIPAMENTOS Máscaras faciais – são máscaras de formato piramidal, adaptadas à face para conter o nariz e a boca. Possuem uma borda que veda a saída de ar, um corpo e conector para um AMBU ou aparelhos anestésicos, permitindo assim introduzir ar, oxigênio ou gases anestésicos. Apresentam tamanhos variáveis. Máscaras faciais AMBU – “Airway Maintenance Breathing Unit” é uma balão auto-inflável dotado de válvula unidirecional permitindo criar um fluxo contínuo através de sua compressão. Ressuscitador manual = AMBU 88 BASES TÉCNICAS DA CIRURGIA Cânulas de Guedel – ou cânulas orofaríngeas são objetos que tem como função manter a língua distante da parede posterior da faringe ou para proteger o tubo endotraqueal da compressão dos dentes. Possuem tamanhos variados, sendo o adequado aquele que vai da rima bucal até o ângulo da mandíbula; se a cânula for muito longa ela poderá empurrar a epiglote e causar obstrução completa; se muito curta poderá desviar a língua posteriormente e piorar a obstrução. Para a introdução da cânula, poderemos abaixar a língua com uma espátula e inserir cuidadosamente seguindo a curvatura da língua e do palato; outra maneira é a introdução da cânula pelo lado convexo contra a língua e rodar 180 graus dentro da cavidade oral. A cânula só deverá ser utilizada em pacientes inconscientes ou anestesiados, pois caso contrário provocará tosse, vômito ou laringoespasmo. PS.: existem também cânulas nasofaríngeas. Cânulas orofaríngeas (de Guedel). (A) Quatro modelos de cânulas de Guedel; (B) uma cânula inserida. Laringoscópio – é um instrumento para a visibilização direta da laringe, sendo dividido em alça ou corpo e lâmina. No corpo está reservado para a colocação de pilhas para a iluminação. A lâmina, normalmente se articula com o corpo em ângulo de 90 graus. Ela divide-se em base que é a região de articulação e da lâmpada, espátula e flange, útil para o afastamento lateral da língua. As lâminas podem ser curvas como nos modelos Mackintosh ou retas no modelo Muller, mais utilizados para crianças. Laringoscópio. Esquerda: evidencia os cabos (infantil e adulto) no centro e as diversas lâminas curvas (de Macintosh) e retas (de Miller) nas laterais. Direita: laringoscópio montado (ou conjunto de laringoscópio). Tubos endotraqueais – são tubos de borracha, silicone ou materiais afins, com diâmetros variados, dotados ou não de balonetes (cuff), que tem como função a proteção da via aérea de aspiração, por exemplo, de vômito ou sangue, e também de formar um selo entre o tubo e a mucosa traqueal permitindo ventilação positiva. Os tubos pediátricos não possuem balonete devido às particularidades da traqueia da criança. 89 Fernando Álison Morais Diniz Felix Tubos endotraqueais sem e com balonete (seta). Funções do cuff: evitar aspiração de secreções e evitar o refluxo de ar. Fio-guia – conhecido por Mandril, é um instrumento de metal resistente, que pode ser moldado facilmente, sendo que uma vez introduzido dentro do tubo endotraqueal lhe confere formato e resistência adequados para facilitar a intubação. Pinça de Magill – auxilia na intubação nasotraqueal. Pode ser ocasionalmente utilizada também em situações de emergência, para remover corpos estranhos da faringe e da laringe, à volta da área das cordas vocais Mandril (fio-guia) para auxiliar na intubação orotraqueal; e Pinça de Magill para auxiliar na intubação nasotraqueal. Máscara laríngea – é um tubo semicurvo, que se inicia em um conector padrão de 15 mm e termina em uma pequena máscara com um suporte periférico inflável, que forma uma vedação à volta da entrada laríngea. Máscara laríngea Baraka e KT-5 – promove a ventilação artificial, administrando gases anestésicos manualmente para o pulmão do paciente, durante o procedimento de anestesia. Sistema de anestesia infantil (Baraka) e Conjunto unidirecional de anestesia adulto (KT-5). Detalhe para a válvula unidirecional que compõe o conjuntoKT-5. A válvula unidirecional define a inspiração e a expiração do paciente, através de um diafragma interno. 90 BASES TÉCNICAS DA CIRURGIA Princípio de funcionamento da válvula unidirecional. O Conjunto para Ventilação Manual KT-5 opera segundo as diferenças de pressões geradas pelo próprio paciente, ou por uma operação manual. O fluxo contínuo de gases frescos provenientes da saída comum de gases do aparelho de anestesia (ou de um fluxômetro de oxigênio) entra no conjunto KT-5 através de uma válvula de segurança acoplada no fundo do balão, e enchendo esta. Pressionando-se o balão com as mãos, o ar em seu interior é empurrado até a válvula unidirecional, por onde se dirige até o paciente para realizar a inspiração. A própria pressão do ar encarrega-se de fechar o ramo expiratório da válvula unidirecional. Durante a expiração do paciente, o diafragma da válvula unidirecional muda de posição para permitir o escape dos gases expirados para o ambiente, enquanto a bolsa é preenchida com gases novos. Ventilador mecânico – é um aparelho capaz de administrar oxigênio em pacientes impossibilitados de respirar ou quando essa atividade é realizada de forma exaustiva pelo mesmo. Composto de válvula inspiratória e expiratória e respectivos circuitos, apresenta gráfico de leitura (manômetro de pressão) para leitura e controle das pressões inspiratórias, sistema este independente do monitor de ventilação. A umidificação pode ser feita em sistema convencional (aquecida) ou através de filtros específicos trocados a cada 24 horas. Aparelho de anestesia – composto de vários itens integrados entre si com função básica de administrar gases durante a anestesia inalatória. É conceituado como um equipamento destinado à administração de gases anestésicos ao paciente, sendo constituído basicamente de três componentes, a saber: a secção de fluxo contínuo, sistema respiratório e ventilador mecânico. Ventilador mecânico de pressão positiva; e Aparelho de anestesia inalatória com ventilador mecânico. 4. VENTILAÇÃO MECÂNICA A ventilação mecânica (VM) é um método usual em unidade de terapia intensiva (UTI) sendo utilizada em pacientes com insuficiência respiratória de qualquer etiologia, 91 Fernando Álison Morais Diniz Felix dando suporte ao tratamento da patologia-base pelo tempo que for necessário para reversão do quadro, portanto não constitui um procedimento curativo. A atenção aos pacientes sob uso de ventilação mecânica torna-se responsabilidade dos profissionais de enfermagem. A assistência ventilatória exige monitorização constante das funções vitais e de cuidados intensivos ao paciente crítico. Em geral, a insuficiência respiratória leva à necessidade da ventilação mecânica, seja devido a uma DPOC, trauma múltiplo (principalmente TCE grave e/ou trauma raquimedular), anestesia geral e outras condições como: cirurgias cardíacas e toracopulmonares, em pacientes com aumento acentuado da pressão intracraniana (PIC), ou ainda, em pacientes com disfunções cardíacas, quando há uma exigência funcional da assistência ventilatória. A finalidade da ventilação mecânica consiste em otimizar alguns aspectos fisiológicos e clínicos dos pacientes (tabela a seguir): Objetivos fisiológicos Objetivos clínicos 1) Sustentar as trocas gasosas; 2) Pulmonares a. Normalizar a ventilação alveolar (PaCO2, pH) b. Obter um nível aceitável de oxigenação arterial (PaO2 > 60 mmHg, SaO2 > 90%) 3) Aumentar o volume pulmonar; 4) Reduzir o trabalho muscular respiratório. 1) Reverter a hipoxemia: ↑ a ventilação alveolar e o volume pulmonar, ↓ o consumo de O2 e ↑ a oferta de O2; 2) Tratar a acidose respiratória; 3) Aliviar o desconforto respiratório; 4) Prevenir e tratar atelectasias; 5) Reverter a fadiga dos músculos respiratórios; 6) Permitir a sedação ou o bloqueio neuromuscular; 7) Diminuir o consumo de O2 sistêmico e miocárdico; 8) Reduzir a pressão intracraniana; 9) Estabilizar a parede torácica. 4.1. Tipos de ventiladores mecânicos Os ventiladores mecânicos são classificados em ventiladores por pressão negativa e por pressão positiva, sendo este último o mais utilizado. 4.1.1. Ventiladores por pressão negativa Sustentam a ventilação semelhante à espontânea. Agem exercendo uma pressão negativa externamente no tórax; essa modalidade permite que o ar inspirado preencha o volume torácico. Estes ventiladores estão indicados em pacientes com insuficiência respiratória crônica associada à patologias neuromusculares. O pulmão de ferro, envoltório corporal e couraça torácica, são exemplos de ventiladores mecânicos que funcionam por pressão positiva. 4.1.2. Ventilação por pressão positiva Em virtude da pressão positiva exercida pelo ventilador nas vias aéreas do paciente, os alvéolos ampliam-se no momento da inspiração. Uma das maiores vantagens da vantagens da ventilação mecânica por pressão positiva, além da substituição da atividade mecânica da respiração espontânea é a possibilidade de permitir uma oxigenioterapia com frações de O2 variáveis. A mistura de gases inalados pode ser composta da forma que mais atenda às necessidades do paciente e que mais se adeque as condições terapêuticas. Os ventiladores ciclados por pressão, tempo, volume e fluxo são os tipos de ventiladores por pressão positiva. Eles diferem um do outro pela forma como finalizam a etapa inspiratória da respiração. 92 BASES TÉCNICAS DA CIRURGIA 4.2. Classificação A ventilação por pressão positiva pode ser invasiva e não-invasiva. A escolha dependerá das necessidades do paciente. A ventilação invasiva fornece oxigênio através de intubação endotraqueal, traqueostomia ou cricotireoidostomia. Destina-se a pacientes graves, quando a ventilação não-invasiva é insuficiente para manter uma boa oxigenação. Ocorre principalmente em pacientes que tiveram ou que correm risco de uma lesão neurológica. A ventilação não-invaisva pode ser aplicada por máscaras faciais, nasais ou por formas que proporcionem a ventilação, sem que haja algum procedimento invasivo. Ela é indicada para pacientes que não precisem de uma assistência ventilatória intermitente ou por um período superior a vinte horas. Esta indicada principalmente na insuficiência respiratória aguda ou crônica, hipoventilação devido uma obesidade extrema, DPOC e distúrbios respiratórios associados ao sono. A ventilação não-invasiva além de excluir a necessidade de uma traqueostomia ou intubação, evita a sedação, os riscos de infecção, reduz o tempo da ventilação artificial, confere mais conforto ao paciente e melhora as trocas gasosas. 4.3. Modalidades de ventilação mecânica e parâmetros ventilatórios A escolha de uma modalidade de ventilação mecânica determina como o ventilador e o paciente vão interagir. Inicialmente e durante períodos de instabilidade, o modo de ventilação deve permitir o controle máximo da ventilação. As modalidades com pressão positiva mais usadas são VMA (invasiva) e CPAP (não-invasiva). Ventilação mecânica assistida/controlada (VMA): a FR é controlada pelo paciente (o ciclo respiratório é iniciado quando o paciente gera uma pressão negativa alcançando um valor imposto pelo mecanismo de sensibilidade do ventilador). O volume corrente e o fluxo são predeterminados. Se não houver o esforço do paciente, o ventilador fornece ciclos controlados na FR mínima determinada. Pressão positiva contínua nas vias aéreas (CPAP - continuous positive airway pression): o paciente respira espontaneamente dentro do circuito pressurizado após ventilador mecânico. Uma pressão positiva predeterminada é mantida praticamente constante durante o ciclo respiratório. Os parâmetros respiratórios devem ser frequentemente avaliados de acordo com a resposta do paciente (dados nomonitor). As complicações iatrogenicamente induzidas compreendem a ventilação excessiva (que provoca alcalose respiratória) e a hipoventilação (que causa a acidose respiratória ou hipoxemia). Os exames gasométricos determinam a eficácia da ventilação mecânica. Os pacientes com doenças pulmonares crônicas, no entanto, deverão ser ventilados para permanecer relativamente próximos de seus valores gasométricos normais. Usualmente, isso significa aceitar níveis de dióxido de carbono relativamente altos, oxigenação abaixo da média ou ambos. Os parâmetros básicos são: volume corrente (VC), frequência respiratória (FR), volume minuto (Vm), fração de O2 inspirado (FiO2), relação inspiração/expiração, fluxo máximo, limite de pressão, sensibilidade e PEEP (Pressão Expiratória Final Positiva). 4.4. Ventilação mecânica invasiva A insuficiência respiratória não se caracteriza por ser um achado clínico exclusivo. A dispnéia pode ser o principal sintoma apresentado, cuja intensidade, rapidez de aparecimento e evolução fornecem dados importantes para o diagnóstico e a terapêutica. Outros sinais e sintomas devem ser analisados com cautela. A cianose, considerada um dos grandes sinais da hipoxemia, tem o seu aparecimento dependente da presença de 5g/dL de hemoglobina reduzida no sangue arterial. Portanto, em caso de anemia, mesmo discreta (hemoglobina = 10g/dL), o grau de hipoxemia grave deverá ser relativamente acentuado para que este sinal seja aparente (SaO2 e PaO2 capilar, respectivamente, de 50% e 25mmHg). Sendo assim, a cianose, quando 93 Fernando Álison Morais Diniz Felix presente, constitui um importante sinal de hipoxemia, porém, a sua ausência não exclui a possibilidade de uma situação clínica grave. Apesar desses fatores, na maioria das vezes, o diagnóstico de insuficiência respiratória aguda é fácil em virtude da intensidade dos sinais e sintomas. O quadro clínico pode ser alarmante e não deixar dúvidas em relação às condutas que devem ser assumidas. Outras vezes, porém, necessita-se de um alto índice de suspeição e um cuidado extremo no acompanhamento destas manifestações clínicas, pois, mesmo na vigência de hipoxemia importante, elas podem ser mínimas ou até ausentes (tabela a seguir). O diagnóstico laboratorial e definitivo da IResA é realizado através da gasometria arterial. Aceita-se que a PaO2 < 55-60mmHg e a SaO2 < 90% ou a PaCO2 > 45-50mmHg com pH < 7,35 expressam a disfunção respiratória que permite o diagnóstico de insuficiência respiratória aguda. O gradiente alvéolo-arterial de oxigênio [P(A-a)O2] e outros indicadores da eficiência das trocas [como a relação PaO2/FiO2] permitem diferenciar os tipos de hipoxemia. Os valores do P(A-a)O2 aumentam com a idade do paciente e são considerados os indicadores mais sensíveis e simples na avaliação do comprometimento da hematose. Hipoxemia com gradiente aumentado indica defeito nas trocas alvéolo-capilares (insuficiência respiratória hipoxêmica). Hipoxemia com gradiente normal é compatível com hipoxemia por hipoventilação alveolar (insuficiência respiratória ventilatória). Hipoxemia, hipercapnia e gradiente elevado são compatíveis com o mecanismo combinado de hipoxemia e de insuficiência ventilatória (insuficiência respiratória combinada). O cálculo do gradiente é útil na abordagem inicial do paciente com IResA e no seu seguimento pré-oxigenoterapia. A oferta de concentrações elevadas de oxigênio aumenta paralelamente o gradiente, tornando menos fidedigna a avaliação de seu resultado, em face de concentrações inaladas diferentes. Assim, sob oxigenoterapia, outros indicadores da eficiência da transferência de oxigênio e da evolução dos mecanismos responsáveis pela IResA têm sido usados, destacando-se a relação PaO2/FiO2; seu valor normal, em ar ambiente (FiO2 = 0,21), é acima de 400 e, sob oxigênio puro, é superior a 500. Esta relação é útil na quantificação da gravidade da lesão pulmonar, na comparação evolutiva e na predição dos câmbios na PaO2 se a FiO2 for elevada. Valores abaixo de 300 indicam deterioração de trocas e, abaixo de 200, sugerem a extrema gravidade do quadro respiratório. A decisão em iniciar a ventilação mecânica depende do julgamento clínico. Frente a um quadro de insuficiência respiratória aguda, as indicações incluem a presença de importantes alterações gasométricas, inadequada resposta ao tratamento clínico e o excessivo trabalho respiratório com evidência de fadiga da musculatura respiratória. Excetuando-se os casos de falência cardiorrespiratória, proteção de vias aéreas e/ou apnéia, nos quais a indicação de suporte ventilatório é indiscutível, não existem outras situações em que a indicação de ventilação mecânica não mereça uma 94 BASES TÉCNICAS DA CIRURGIA avaliação crítica pelo médico. Qualquer outro critério de indicação do suporte ventilatório não deve ser considerado absoluto ou infalível. Porém, alguns parâmetros objetivos podem auxiliar na decisão da indicação de ventilação mecânica (Tabela 1). 4.4.1. Intubação endotraqueal Ver tópico 5 neste capítulo. 4.4.2. Controle do paciente em ventilação mecânica O controle do paciente em ventilação mecânica, ou seja, a monitorização respiratória à beira do leito, é fundamental para um adequado tratamento do paciente grave ventilado artificialmente. Assim, podemos definir monitorização como sendo: “o conjunto de métodos que objetiva a demonstração das alterações funcionais, de uma maneira idealmente contínua e precoce, assegurando que os objetivos da ventilação mecânica estão sendo atendidos, fornecendo parâmetros para o seu reajuste e prevenindo complicações”. Monitorização da troca gasosa. A troca gasosa consiste na principal função dos pulmões, e sendo a hipoxemia o evento de maior gravidade por comprometer diretamente a oferta de O2 aos tecidos, a sua monitorização é fundamental. o Índices de oxigenação: Pressão parcial do oxigênio no sangue arterial (PaO2), oximetria de pulso (SpO2). o Índices de ventilação: Pressão parcial do gás carbônico no sangue arterial (PaCO2), capnografia. Monitorização da mecânica respiratória. Permitem o cálculo das propriedades fisiológicas básicas do sistema respiratório, como complacência, resistência e trabalho respiratório, que facilitam a monitorização e o manejo do doente grave. o Curvas de pressão nas vias aéreas (Pva), fluxo inspiratório (V’) e volume corrente (VT). → Demonstradas na tela (monitor) do ventilador mecânico. o Complacência; o Resistência; o Trabalhos respiratórios. Gasometria arterial. medida direta da PaO2 é o método padrão de avaliação da oxigenação sanguínea. Para sua melhor caracterização, o dado mais simples e rápido consiste na relação PaO2/FiO2. Número de gasometrias necessárias depende das condições de cada paciente e das manipulações no respirador que forem feitas, não existindo qualquer rotina recomendada. Entretanto, opina-se que ao menos uma gasometria por dia deva ser realizada. 95 Fernando Álison Morais Diniz Felix Radiografia. Todo paciente sob VMI deve ser submetido à radiografia de tórax diariamente. Fisioterapia. Constitui um recurso terapêutico eficiente para tratamento e manejo dos pacientes submetidos à assistência ventilatória mecânica invasiva e, em especial, aqueles portadores de complicações provenientes da restrição prolongada no leito. 4.4.3. Complicações da VMI A VMI como o próprio nome diz, trata-se de um procedimento invasivo que traz significativas repercussões sobre os vários órgãos e sistemas do paciente submetido à mesma, bem como está diretamente relacionada a complicações frequentes, algumas podendo ser potencialmente fatais. As complicações mais comumente relacionadas à VMI são: 1. Relacionada à infecção: a) Sinusite; b) Traqueobronquite; c) Pneumonia. 2.Na Via aérea artificial: a) Trauma: No ato da intubação e/ou pela pressão exercida pelo balonete; b) Dobra; c) Estenose; d) Paralisia das cordas vocais; e) Traqueomalácia: flacidez no tecido cartilaginoso traqueal, distensão da parede membranosa posterior, e redução do calibre anteroposterior das vias aéreas; f) Extubação acidental; g) Intubação seletiva; h) Edema de glote; i) Hemorragia; j) Pneumotórax. 3. Relacionado com o ventilador e/ou ajustes inadequados: a) Umidificação inadequada; b) Superaquecimento; c) Hipoventilação; d) Hiperventilação; e) PEEP intrínseco; f) Trabalho respiratório excessivo. 4. Complicações pulmonares: a) Barotrauma; b) Edema pulmonar; c) Atelectasia; d) Fístula broncopleural; e) Lesão por toxicidade de oxigênio; f) Cânula traqueal e traqueostomia. 5. Complicações cardiovasculares: a) Diminuição do débito cardíaco; b) Hipotensão; c) Arritmias; d) Elevação da PIC; e) Isquemia cerebral (alcalose respiratória acentuada) 6. Alterações da função renal e hepática: a) Retenção de sódio e água. 7. Complicações gastrintestinais: a) Distensão gástrica; b) Hipomotilidade gastrintestinal; c) Úlceras; d) Hemorragias. 8. Dependência do ventilador. 4.4.4. Extubação e desmame Desmame deve ser iniciado quando atendidas as exigências de estabilidade clínica, hemodinâmica, funcional respiratória e gasométrica: o Respirar espontaneamente o Reflexos protetores de vias aéreas presentes (tosse) o Obedecer a ordens simples o Estabilidade hemodinâmica o SpO2 > 90% com FiO2 = 0,21 o Sem manifestações de bloqueio neuromuscular residual verificada pelo estimulador de nervo periférico ou prova de sustentação da cabeça > 5s o Força inspiratória máxima < –25cmH2O o Volume corrente > 7ml/kg o Capacidade vital > 10mL/kg o Índice de FR/VT < 80 96 BASES TÉCNICAS DA CIRURGIA o Relação PaO2/FiO2 > 200 o PaCO2 < 40mmHg 4.5. Ventilação mecânica não-invasiva A ventilação mecânica não invasiva (VMNI) consiste num método de assistência ventilatória aplicada à via aérea do paciente através de máscaras (faciais/nasais) ou bocais, que funcionam como interface paciente/ventilador, em substituição às cânulas endotraqueais. Objetivos: o Manutenção das trocas gasosas (evitar hipoxemia e hipercapnia); o Facilitar a ventilação alveolar; o Diminuir o trabalho respiratório; o Diminuir a dispneia (desconforto respiratório); o Evitar a necessidade de intubação; o Reduzir a mortalidade e pneumonia associado a ventilação mecânica; o Reduzir tempo de permanência no hospital. 4.5.1. Indicações e contraindicações Indicações: o Agudização da DPOC; o Edema Agudo de Pulmão cardiogênico; o Insuficiência respiratória hipoxêmica: pneumonia, Síndrome do Desconforto Respiratório Agudo ou lesão pulmonar aguda; o Agudização da asma; o Como estratégia de desmame. O uso da VMNI como estratégia para facilitar o desmame da VM invasiva apresenta evidências altamente encorajadoras, principalmente em se tratando de pacientes portadores de DPOC. É indicada em pacientes com sinais clínicos e funcionais de insuficiência respiratória, em particular: o Troca gasosa alveolar pobre (PaO2/FiO2 < 200); o Hipercapnia ou acidose respiratória (PaCO2 > 55 mmHg and pH < 7,35); o Dispnéia severa acompanhada de uso de musculatura acessória; o Taquipnéia (FR > 24 rpm). Nestas condições a VMNI deve ser iniciada o mais rápido possível. Contraindicações (são indicações para VMI): o Parada cardíaca ou respiratória; o Rebaixamento do nível de consciência e incapacidade para proteger as vias aéreas, GCS < 11, e/ou alto risco de aspiração (distensão abdominal, vômitos); o Obstrução de vias aéreas superiores; o Cirurgia, trauma ou queimadura facial, ou lesão facial que impeça a adaptação da interface da VMNI; o Incapacidade de eliminar secreções ou produção copiosa de secreção pulmonar com necessidade de aspirações frequentes; o Sangramento digestivo alto ou sangramento via aérea superior; o Instabilidade hemodinâmica e necessidade de doses elevadas (Nor > 0,2 mcg/kg/min) ou doses crescentes (>50% dose inicial nas primeiras 2 horas após inicio VMNI); o Arritmias cardíacas com repercussão hemodinâmica ou sinais eletrocardiograficos de isquemia cardíaca; o Acidose grave – pH < 7,1; o Hipoxemia grave (relação PaO2/FiO2 < 100). 97 Fernando Álison Morais Diniz Felix 4.5.2. Interfaces As máscaras nasais ou oronasais são as interfaces mais frequentemente utilizadas para a aplicação da VMNI no ambiente hospitalar. A máscara nasal é, provavelmente, a interface mais confortável, porém a resistência das narinas ao fluxo de ar e a presença do vazamento de ar pela boca podem limitar o seu uso em alguns pacientes. A máscara oronasal, também conhecida como facial, é a interface mais utilizada para pacientes com insuficiência respiratória aguda, permitindo maior volume corrente quando comparada com a máscara nasal e, consequentemente, correção mais rápida das trocas gasosas. Na tentativa de melhorar o conforto e a tolerância dos pacientes durante a VMNI, dispomos hoje de novas interfaces, como, por exemplo, a máscara facial total e o capacete. A máscara facial total tem a vantagem de diminuir o vazamento e possibilitar o uso de maiores pressões inspiratórias. Os capacetes têm a vantagem de eliminar o contato da interface com a face do paciente, evitando assim a complicação mais frequente da VMNI, que é a lesão de pele. 4.5.3. Modos ventilatórios Os novos ventiladores de UTI estão sendo adaptados para funcionarem tanto durante a ventilação invasiva quanto não invasiva. Para pacientes com DPOC agudizada, pressão de suporte (PS ou IPAP – inspiratory positive airway pressure) + PEEP é o modo ventilatório recomendado pela maioria dos autores. CPAP (continuous positive airway pressure) é um modo ventilatório empregado com frequência para o suporte ventilatório não invasivo de pacientes com edema agudo de pulmão (EAP) cardiogênico. A CPAP não é capaz de aumentar a ventilação alveolar, motivo pelo qual, na presença de hipercapnia, é dada preferência ao uso da ventilação não invasiva com dois níveis de pressão (IPAP + PEEP). Fluxograma para terapêutica com VMNI: DPOC EAP IRpA- Hipoxêmica Desmame da VM Asma Neuro/musc Apneia/sono Central Modo BIPAP BIPAP CPAP BIPAP BIPAP BIPAP BIPAP BIPAP CPAP Ciclagem Spont/Time Spont Spont/Time Spont Spont/Time Spont/Time Spont Spont/Time Spont Spont/Time Spont Spont/Time FR < 28 < 28 < 28 < 28 < 28 < 28 < 28 IPAP 14 – 25 14 – 20 14 – 20 14 – 25 20 10 – 18 - PEEP 5-10 8-10 10 – 14 5-10 5 – 8 5 – 8 8 – 14 VC > 350 > 350 > 350 > 350 > 350 > 350 FiO2 SpO2 > 95% SpO2 > 95% SpO2 > 95% SpO2 > 95% SpO2 > 95% SpO2 > 95% SpO2 > 95% Obs.: BIPAP = Bi Level Positive Airway Pressure ou dois níveis de pressão positiva nas vias aéreas. Equivale à IPAP + PEEP. � Troca gasosa alveolar pobre (PaO2/FiO2 < 200), e/ou � Hipercapnia ou acidose respiratória (PaCO2 > 55 mmHg and pH < 7,35), e/ou � Dispnéia severa acompanhada de uso de musculatura acessória, e/ou � Taquipnéia (FR maior que 24 rpm). 98 BASES TÉCNICAS DA CIRURGIA 4.5.4. Limitações para o uso da ventilação não invasiva A adequada seleção dos candidatos ao uso da ventilação não invasiva é o primeiro passo para o sucesso da técnica (ver contraindicações). Como a VMNI é uma modalidade de suporte ventilatório parcial e sujeita a interrupções, essa técnica não deve ser utilizada em pacientes totalmente dependentes da ventilação mecânica para se manterem vivos. A cooperação do paciente é importante para o sucesso da VMNI, tornando o seu uso limitado nos pacientes comrebaixamento do estado de consciência ou com agitação. Da mesma forma, pela inexistência de uma prótese traqueal a VMNI só deve ser utilizada naqueles pacientes capazes de manter a permeabilidade da via aérea superior, assim como a integridade dos mecanismos de deglutição e a capacidade de mobilizar secreções. Instabilidade hemodinâmica grave, caracterizada pelo uso de aminas vasopressoras, e arritmias complexas são consideradas contraindicações para o uso da VMNI pela maioria dos autores. Pacientes com distensão abdominal ou vômitos não devem utilizar VMNI pelo risco de aspiração. Pós- operatório imediato de cirurgia do esôfago é contraindicação para VMNI, entretanto dúvidas persistem acerca da segurança do seu uso no pós-operatório de cirurgias gástricas. Trauma de face, lesão aguda e/ou sangramento de via aérea são também consideradas limitações para o uso da VMNI. 4.5.5. Falência da VMNI o Necessidade de FiO2 > 60%; o Queda do pH e/ou aumento da PaCO2; o Aumento da FR ou persistência acima de 35 irpm; o Diminuição do nível de consciência ou agitação; o Instabilidade hemodinâmica; o Arritmias graves; o Isquemia miocárdica; o Distenção abdominal severa; o Intolerância à máscara. 5. INTUBAÇÃO ENDOTRAQUEAL A instituição de uma via aérea artificial visa fundamentalmente evitar a morbidade e a mortalidade de pacientes críticos. Independente da forma de comprometimento sistêmico, as condutas básicas de manutenção da homeostase orgânica devem priorizar a adequação da oxigenação e da ventilação. Principais responsáveis durante intubação: ventilação inadequada (38%), intubação esofágica (18%) e intubação difícil (17%). 5.1. Avaliação da via aérea A avaliação deve ser realizada sempre que possível, pois a falha na identificação de uma via aérea potencialmente difícil pode levar a situações em que não se pode nem intubar, nem ventilar, um paciente. A utilização de escalas auxilia a detecção da via aérea difícil. A escala de Mallampati baseia-se no grau de visibilização das estruturas da orofaringe, sustentando que a dificuldade de intubação está relacionada à largura da base da língua. Recomenda-se aplicar a escala de Mallampati na avaliação pré-operatória de todos os pacientes e, quando possível, nos pacientes internados nas UTIs. Outro método simples, prático, não invasivo, e com boa correlação com o grau de visibilização das cordas vocais à laringoscopia, é a escala de Cormack. Técnicas definitivas de manutenção das vias aéreas devem ser implementadas quando manobras simples de desobstrução (p.ex: cateter nasal e a máscara de Venturi) falharem na adequação da ventilação e/ou oxigenação. 99 Fernando Álison Morais Diniz Felix Avaliação da via aérea. (a) Classificação de Mallampati modificado por Samsoon e Young: Classe 1 - visualização do palato mole, úvula e pilares; Classe 2 - visualização do palato mole e da úvula; Classe 3 - visualização do palato mole e apenas base da úvula; Classe 4 - somente o palado duro é visualizado. (b) Laringoscopia de acordo com a classificação de Cormack e Lehane: Grau 1 - todo o orifício glótico é visualizado; Grau 2 - somente a parte posterior do orifício glótico é visualizado; Grau 3 - somente epiglote visível; Grau 4 - visualização parcial ou nula da epiglote. 5.2. Equipamento para intubação traqueal Todo o material básico de acesso à via aérea, bem como recursos alternativos para o caso de via aérea difícil, deve estar prontamente disponíveis nas unidades de terapia intensiva, unidades de emergência e salas de cirurgia. Instrumental básico necessário: laringoscópios, tubos endotraqueais com balonete e fio-guia para intubação. 5.3. Técnicas de obtenção e manutenção da via aérea 5.3.1. Intubação orotraqueal (IOT) ou intubação nasotraqueal (INT) Indicações � Apneia. � Impossibilidade de manter uma via aérea permeável por outros métodos. � Proteção das vias aéreas inferiores contra aspiração de sangue ou vômito (pacientes com Glasgow ≤ 8). � Comprometimento iminente ou potencial das vias aéreas, como por exemplo, lesão por inalação, fraturas faciais, convulsões persistentes. � Trauma crânio encefálico (TCE) necessitando de auxílio ventilatório. � Incapacidade de manter oxigenação adequada com uso de máscara de oxigênio. � Parada cardiorrespiratória (PCR). � Em alguns procedimentos anestésicos. Recomendações: � Devem ser utilizados tubos menores para a INT. � Deve ser preferida a INT às cegas em todo paciente com alterações anatômicas que impeçam uma adequada laringoscopia direta, ou quando se desejar evitar a manipulação da coluna cervical. 100 BASES TÉCNICAS DA CIRURGIA � Devem ser respeitadas as seguintes contraindicações para a INT: fratura de base de crânio ou nariz, epistaxe, coagulopatia, desvio acentuado do septo nasal, polipose nasal. � Em pacientes na unidade de terapia intensiva, deve ser evitada a permanência de um tubo nasotraqueal por mais de 48 horas. � Deve ser estimulado o emprego das técnicas de intubação traqueal com o paciente acordado em caso de estômago cheio ou, ainda, naquelas situações de via aérea difícil prevista ou conhecida. 5.3.2. Ventilação com sistema máscara facial-bolsa reservatório-oxigênio Indicações: � Pré-oxigenação do paciente antes das manobras de acesso à via aérea; � Assistência ventilatória inicial de ressuscitação cardiopulmonar; � Assistência ventilatória na anestesia inalatória em procedimentos de curta duração. Limitações: � Pacientes com estômago cheio; � Doenças ou situações que retardem o esvaziamento gástrico; � Traumatismos extensos de face. 5.3.3. Máscara laríngea Indicações: � Em pacientes com intubação difícil, podendo ser utilizada como primeira manobra de manutenção da via aérea, enquanto se planeja a intubação traqueal; � Intubação traqueal às cegas através do tubo da ML; � Intubação traqueal por fibrobroncoscopia utilizandoa como guia; � Situações de emergência, nas quais não se tem acesso à via aérea, devido à situação física do paciente (pacientes acidentados, presos dentro de veículos, por exemplo); � Manutenção da via aérea durante a realização de traqueostomia ou cricotireoidostomia; � Procedimentos diagnósticos ou cirúrgicos sob anestesia, de curta ou média duração. Limitações: � Doenças ou situações de obstrução supraglótica; � Não protege a via aérea contra aspiração em caso de regurgitação; � Pacientes com estômago cheio ou em situações em que haja retardamento do esvaziamento gástrico; � Situações de baixa complacência pulmonar ou resistência aumentada da via aérea; � Inadequada para o uso de ventilação controlada com pressões inspiratórias maiores do que 20 cmH2O. 5.3.4. Combitube Indicação: � Em casos de intubação difícil, podendo ser utilizado como manobra inicial de manutenção da via aérea enquanto se planeja a intubação traqueal. Limitações: � Não pode ser utilizado em pacientes com reflexo de vômito intacto � Não pode ser usado em pacientes com menos de 16 anos ou com altura < 1,5m; � Não previne a aspiração pulmonar em caso de regurgitação de conteúdo gástrico, embora seja mais seguro quanto a isso quando comparado com a máscara facial e laríngea. 101 Fernando Álison Morais Diniz Felix 5.3.5. Cricotireoidostomia � Deve ser realizada nos casos em que houver necessidade de acesso rápido à via aérea, não sendo possível a realização da intubação traqueal, e quando outras técnicas alternativas conservadoras não forem efetivas ou não estiverem disponíveis; � Deve ser indicada como recurso inicial no caso de insuficiência respiratória devida à obstrução supraglótica da via aérea; � Deve preferencialmente ser realizada com material disponível em kits específicos para isso; � Contraindicada em crianças com idade inferiora 6 anos. 5.3.6. Traqueostomia � Deve ser indicada quando houver necessidade de manutenção de via aérea por tempo prolongado; � Deve ser realizada em caráter eletivo e com todos os rigores da técnica; � Não houve consenso quanto ao momento ideal para realização da traqueostomia no paciente na unidade de terapia intensiva em ventilação mecânica. Em relação a isto devem ser considerados: condição clínica do paciente, tempo de intubação traqueal, grau de dependência e previsão de uso de ventilação mecânica. À esquerda, intubação orotraqueal (IOT). À direita, traqueostomia, mostrando no detalhe o local de incisão. 5.4. Confirmação da correta intubação � Aspectos clínicos: visualização direta, ausculta de ruídos respiratórios, ausência de ruídos ventilatórios no epigástrio, movimento simétrico do tórax durantea ventilação, ausência de distensão do abdome com a ventilação, melhora de uma hipoxemia porventura existente com a instituição da ventilação, presença de condensação de ar no tubo durante a expiração. � Métodos auxiliares: capnografia e capnometria, RX de tórax, fibrobroncoscopia, ... 102 BASES TÉCNICAS DA CIRURGIA 5.4.1. Capnografia Através de um analisador contínuo de CO2 adaptado à cânula de intubação do paciente, é possível obter o valor da PCO2 no ar exalado ao final da expiração (PetCO2). É possível, ainda, o registro gráfico da curva de CO2 em função do tempo (durante todo o ciclo respiratório), chamado capnograma. Este define graficamente as fases do ciclo. Assim, na inspiração, a concentração de CO2 no ar é zero, em seguida, quando o paciente começa a expirar, inicialmente a taxa de CO2 não se eleva (fase I da curva), pois o ar que está saindo representa o gás das vias aéreas de condução (parte do espaço morto anatômico). Na sequência, notamos uma elevação progressiva na concentração do CO2, representada graficamente por uma elevação do traçado em forma de S (fase II) e, a seguir, uma fase de equilíbrio, platô, que representa a saída do gás alveolar (fase III). O valor de pico atingido, ao final da fase III, é chamado de PetCO2. Este valor representa, com uma boa aproximação, o CO2 alveolar. Normalmente, a diferença entre a PaCO2 e o PetCO2 é mínima (< 4 mmHg). Em pacientes portadores de doença pulmonar que apresentam uma distribuição desigual da ventilação, a capnografia apresenta um aumento progressivo e constante no sinal de CO2, que não atinge um platô. Nestes, o gradiente PaCO2 – PetCO2 aumenta de forma imprevisível 10 a 20 mmHg ou mais, fazendo com que a PetCO2 possa não refletir de forma confiável a PaCO2. Para condições clínicas que promovem a retenção de CO2 (hipoventilação alveolar), a acurácia da medida da PetCO2 é menor. 5.5. Complicações da intubação endotraqueal � Incapacidade para intubar, resultando em hipóxia e morte. � Intubação endoesofágica: verificar correta intubação (tópico 5.4). � Intubação seletiva: é uma situação comum, na qual há introdução do tubo endotraqueal em apenas um dos brônquios principais, particularmente no direito, pois este apresenta-se em ângulo mais agudo com a traquéia. Para a correção da situação, que é confirmada pela expansão de um só dos pulmões, basta retroceder um pouco o tubo. � Indução ao vômito, levando a aspiração. � Luxação da mandíbula. � Laceração de partes moles das vias aéreas, faringe posterior, epiglote e/ou laringe. � Trauma sobre a via aérea resultando em hemorragia e possível aspiração. � Fratura ou arrancamento de dentes (causados por movimento de alavanca). � Ruptura ou vazamento do balonete do tubo, resultando em perda da vedação durante a ventilação. � Lesão da coluna cervical por movimentação da cabeça durante o procedimento, convertendo uma possível lesão sem déficit neurológico em uma lesão com déficit neurológico. 5.6. Controle do desconforto Os agentes farmacológicos possuem papel importante no manejo da via aérea, sendo indicados para facilitar e diminuir o desconforto nas manobras de obtenção da mesma, atenuar os efeitos fisiopatológicos e sedar e promover analgesia de pacientes que necessitam ser mantidos intubados e/ou sob ventilação artificial. Várias classes de drogas podem ser utilizadas, como anestésicos locais, hipnóticos, analgésicos, benzodiazepínicos, relaxan-tes musculares, drogas cardio/vasoativas, e suas doses devem ser tituladas pelo efeito. 103 Fernando Álison Morais Diniz Felix Droga e dose Vantagens Desvantagens Cuidado Etomidato 0,3 mg/kg EV Efeito rápido e curto; Mínimo efeito hemodinâmico; Pode causar mioclonias e diminuir o limiar epileptogênico Pode causar náuseas e vômitos; uso crônico pode levar a insuficiência adrenal; Midazolam 0,1-0,4 mg/kg EV Início de ação mais lento (3-5 min). É de curta ação (30-60). Não aumenta a PIC. Depressão respiratória e cardiovascular Não é uma boa medicação para pacientes em choque ou hipotensão Propofol 2-2,5 mg/kg EV na indução Rápido início de ação (10 seg) e recuperação (10-15 min). Não é uma boa escolha na hipovolemia ou hipotensão. Pode causar hipotensão profunda Cetamina 1,5 mg/kg Usa-se em paciente em hipotensão ou choque; bom p/ asma. Pode causar disforia/alucinações (“bad trip”), pois é um anestésico dissociativo. Má escolha, se houver HIC, TCE ou cardiopatia. Hipnóticos. Vantagens, desvantagens, e as doses de cada um dos hipnóticos. Droga e dose Características Contraindicações Succinilcolina 1-1,5 mg/kg EV Início rápido e duração de ação curta; causa fasciculações, hipertermia maligna, trismo, paralisia prolongada; é um agente que se liga aos receptores nicotínicos e causa despolarização da junção neuromuscular. Em situações de rabdomiólise, hipercalemia, insuficiência renal e PIC e intraocular elevadas. Rocurônio 0,6-1,2 mg/kg/dia Início de ação em 1-3 min, dura 30-45 min; não há fasciculações; liga-se aos receptores nicotínicos de maneira competitiva, s/ estimulação; pode causar taquicardia; Sua longa ação pode ser problemática se a tentativa de intubação não obtiver sucesso. Bloqueadores neuromusculares. Características das drogas para bloqueio neuromuscular. 5.7. Intubação orotraqueal em sequência rápida A IOT em sequência rápida consiste na indução de um estado de inconsciência com paralisia neuromuscular completa, com objetivo de alcançar uma intubação mais fácil, menos traumática e minimizar os riscos de aspiração de conteúdo gástrico. Há um mnemônico bastante conhecido para descrever a conduta na IOT em sequência rápida: 6 "P's". Prepararação (t= -10 min): com posicionamento do paciente; Pré-oxigenação (t= -5 min): 02 a 100% por 5 minutos c/ 5 respirações com a capacidade vital podem, em teoria, permitir 3-5 minutos de apnéia antes que a SaO2 caia abaixo de 90%; Pré-medicação (t= -3 min): diversas medicações podem ser usadas: lidocaína, opióides (fentanil e morfina), atropina, sedativos (etomidato, midazolam ou propofol). Quanto aos opióides, o uso de fentanil na dose de 2-10 mcg/kg EV é preferível, devido a sua altamente previsível associação dose-resposta, sua reversibilidade com o uso de naloxona, sua rápida ação (menor que 1 min), sua duração de 30 min, e à sua capacidade de combater a hipertensão/taquicardia causada pelo estímulo álgico da intubação. Seus problemas são sua associação com convulsões e com a síndrome do tórax rígido, uma reação idiossincrática e imprevisível. As vantagens/desvantagens e as doses de cada um dos hipnóticos são vistas na tabela de hipnóticos, vista anteriormente. Paralisia (t= 0 min): uso de bloqueadores neuromusculares, como a succinilcolina e o rocurônio. A única contraindicação é a via aéreadifícil antecipada, com índices de Mallampati (veja figura no tópico 5.1) e distância tireomento desfavoráveis. Usa-se conforme a tabela. 104 BASES TÉCNICAS DA CIRURGIA Posicionamento do tubo (t= +45 seg): a intubação per se inclui a manobra de Sellick para a proteção das vias aéreas, até que o cuff esteja inflado, e a confirmação da posição correta do tubo (confirmar que não houve intubação seletiva ou que o tubo não esteja no esôfago com ausculta do estômago e do tórax). Pós-intubação (t= +2 min): garantir a segurança do posicionamento do tubo, realizar oximetria de pulso contínua, reavaliar os sinais vitais frequentemente, obter radiografia de tórax, considerar a sedação de longo prazo, se necessária. Maior detalhamento do procedimento da IOT propriamente dita a seguir. 5.7.1. Procedimento para realizar IOT 1) Posicionamento do paciente preferencialmente em decúbito dorsal horizontal. 2) Hiperextensão da cabeça e elevação da mesma por um coxim. 3) Ventilação do paciente com máscara facial e AMBU para não expor o paciente à hipóxia. 4) Laringoscopia: o laringoscópio é inserido pelo lado direito da boca, sendo que a lâmina deslizará pela língua e se posicionará na valécula, com conseqüente desvio total da língua para a esquerda; deve-se neste momento tomar o cuidado de não pressionar o lábio inferior contra os dentes incisivos. 5) Bascular o laringoscópio cerca de 45º em relação ao plano da mesa e levantá-lo. Tal movimento irá expor a laringe e permitir a entubação. 6) Inserção do tubo, com seu balonete (cuff) previamente testado. Obs.: tamanho do tubo= (idade em anos / 4) + 4. 7) Insuflar o balonete do tubo com volume de ar suficiente para conseguir uma vedação adequada. Não hiperinsufle o balonete. 8) Verificação quanto ao posicionamento e seletividade. 9) Fixação do tubo. Correta orientação no movimento de exposição das cordas vocais, e inserção do tubo endotraqueal. 105 Fernando Álison Morais Diniz Felix REFERÊNCIAS CONSULTADAS: · http://200.18.38.50/www/teccir/apoptcv/indexpt.html · http://namesadecirurgia.blogspot.com/ · http://www.fo.usp.br/lido/acs/ · http://www.instrumentador.com.br/ · http://www.unifesp.br/denf/NIEn/hemodinamica/ · http://www.sistemanervoso.com/pagina.php?secao=13 · http://www.cirurgicadmg.com.br/?tag=tecnica-de-seldinger · http://www.mdsaude.com/2008/11/tratamento-de-clculos-e-duplo-j.html · http://www.ecatalog.ethicon.com/sutures-absorbable · http://www.ong-cic.org/mm/file/publicacions/Monografia%208%20Dre%20toracica.pdf · http://www.unimes.br/aulas/MEDICINA/Aulas2005/1ano/Procedimentos_basicos_em_medicina/abo rdagem_vias_aereas.html · JERONIMO, R. A. S.; CHEREGATTI, A. L. Técnicas de UTI. 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