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BASES GENÉTICAS E MOLECULARES DO CÂNCER UNIDADE IV BASES MOLECULARES DO CÂNCER Elaboração Kely Braga Imamura Produção Equipe Técnica de Avaliação, Revisão Linguística e Editoração SUMÁRIO UNIDADE IV BASES MOLECULARES DO CÂNCER ............................................................................................5 CAPÍTULO 1 BIOLOGIA MOLECULAR DO CÂNCER ................................................................................... 9 CAPÍTULO 2 BIOMARCADORES MOLECULARES DO CÂNCER ................................................................. 14 CAPÍTULO 3 MUTAÇÕES SOMÁTICAS, CONDUTORAS E EPIGENÉTICAS .................................................. 20 REFERÊNCIAS ........................................................................................................................25 5 UNIDADE IVBASES MOLECULARES DO CÂNCER Como estudamos até aqui, o desenvolvimento do câncer depende do acúmulo de alterações hereditárias em células somáticas, correto? Assim, nesta unidade, entenderemos as bases moleculares do câncer. Para compreendê- lo em nível molecular, é necessário identificar as mutações moleculares, bem como as alterações epigenéticas envolvidas nesse processo, entendendo como essas alterações levam ao aparecimento do câncer (Weinberg, 2008). Encontrar as células que estão se multiplicando descontroladamente é simples, pois elas estão favorecidas pela seleção natural e originam tumores (Weinberg, 2008). Agora, como identificar os genes com as alterações promotoras de câncer entre todos os outros genes em uma célula cancerosa? Essa é a parte difícil! Uma típica célula cancerosa depende de uma série de mutações e mudanças epigenéticas, além de inúmeras mutações somáticas que são subprodutos da instabilidade genética celular. Essas mutações adicionais, conhecidas também como “passageiras”, geralmente são difíceis de serem distinguíveis daquelas que possuem um papel real na causa da doença (Weinberg, 2008). Nos últimos anos, os genes que são repetidamente alterados em cânceres foram identificados e denominados de “genes críticos para o câncer”. Esses são genes cujas alterações contribuem para gerar ou desenvolver um câncer ao longo da tumorigênese (Abbas et al., 1994). Nas últimas décadas, o reconhecimento dos mecanismos genéticos e moleculares que foram implicados na gênese e na progressão do câncer tem permitido obter novos métodos de diagnóstico e terapia para os indivíduos com neoplasia (Abbas et al., 1994). Sabemos como acontece o processo de transformação celular, correto? Entendemos também o papel dos diferentes genes na sucessão de eventos que se adicionam, se completam e se sobrepõem, levando a célula a se tornar independente dos mecanismos controladores do ciclo celular. Então como as bases moleculares do câncer podem auxiliar em um melhor prognóstico e terapia para os indivíduos com câncer? 6 UNIDADE IV | BASES MOLECULARES DO CÂNCER A biologia molecular do câncer é hoje a base para as novas estratégias diagnósticas que existem. Isso proporciona, além de um diagnóstico mais preciso, formas de prever alguns tipos de tumores. O câncer é uma doença genética, uma vez que o fenótipo maligno resulta de uma alteração genética transmitida da célula alterada para suas células-filhas (Abbas et al., 1994). Pense o seguinte: se, todos os dias, milhões de células se dividem no nosso organismo, a cada divisão celular, estamos expostos a inúmeros tipos de mutações, então, quantas vezes por dia podemos ter células multiplicando-se descontroladamente, podendo formar tumores? Quando, além dos processos de reparo do DNA, existem também os eventos de morte celular, podemos impedir que essas células continuem se dividindo e se multiplicando. Na figura 72, podemos observar que, nos tecidos normais, a apoptose compensa a divisão celular para manter a homeostase (Alberts et al., 2017). Assim, durante o desenvolvimento do câncer, o aumento da divisão celular e a inibição da apoptose pode levar ao aumento do número de células, fato essencial para a tumorigênese. Nesse sentido, tanto o aumento na divisão quanto a diminuição da apoptose contribuem para o crescimento do tumor. Figura 72. O aumento na divisão e a diminuição na apoptose podem contribuir para a tumorigênese. Fonte: adaptado de Alberts et al., 2017. Vale ressaltar que o dano genético considerado “não letal” está no centro da carcinogênese, pois esse dano pode se originar pela ação de agentes ambientais, 7 BASES MOLECULARES DO CÂNCER | UNIDADE IV como substâncias químicas, radiação ou vírus ou ser herdado na linhagem germinativa (Alberts et al., 2017). A hipótese genética do câncer se baseia no fato de que uma massa tumoral resulta da expansão clonal de apenas uma célula progenitora que sofreu mutações, ou seja, os tumores são monoclonais. Essa tese está presente em todos os tumores que foram sistematicamente analisados por sequenciamento genético (Devita, et al., 2005). Quatro grupos de genes reguladores são os principais alvos do dano genético: » proto-oncogenes (promotores de crescimento); » genes supressores de tumor (inibidores do crescimento); » genes que regulam a morte celular programada; e » genes envolvidos no reparo do DNA. De fato, as alterações genéticas que ocorrem nas células tumorais conferem muitas vantagens de crescimento e sobrevivência em relação às células normais (Alberts et al., 2017). 1. Os oncogenes são genes que induzem um fenótipo transformado quando expresso nas células. Geralmente eles são versões mutadas ou superexpressas de genes celulares normais. Essas células normais que originaram os oncogenes são chamadas de “proto-oncogenes”. Inúmeros genes são responsáveis por codificar fatores de transcrição, proteínas reguladoras do crescimento, proteínas envolvidas na sobrevivência celular, proteínas relacionadas com as interações célula-célula e proteínas célula-matriz (Alberts et al., 2017). 2. Os genes supressores de tumor geralmente impedem o crescimento descontrolado das células e, dessa forma, quando eles sofrem mutação ou se perdem de uma célula, permitem o desenvolvimento do fenótipo canceroso (Alberts et al., 2017). Em suma, para ocorrer transformação da célula normal em uma célula cancerosa, ambos os alelos normais dos genes supressores tumorais precisam estar mutados. Todavia, em alguns casos, apenas a perda de um alelo é capaz de promover transformação maligna, processo conhecido como “haploinsuficiência” (Alberts et al., 2017). Os genes supressores de tumor geralmente podem ser divididos em dois grupos: 1. genes governantes; e 2. genes guardiões. Os chamados “governantes” são genes supressores de tumor clássicos, atuando quando a mutação do gene leva à transformação pela remoção de um importante impasse à 8 UNIDADE IV | BASES MOLECULARES DO CÂNCER proliferação celular, como os genes RB, por exemplo. Já os genes conhecidos como “guardiões” são responsáveis pelo sensoriamento do dano genômico, e grande parte deles atua em uma complexa rede de resposta e controle ao dano no DNA (ALBERTS et al., 2017). Essa resposta leva à: » parada do ciclo celular; e » indução de apoptose, caso o dano não possa ser reparado. Um exemplo clássico é o gene TP53, que é conhecido como “guardião do genoma” e age como supressor de tumor que guia a célula para a parada do ciclo celular ou para a morte celular. Vale ressaltar que a mutação de TP53 não transforma diretamente as células, pois a perda da função de “guardião celular” não tem efeito diretamente sobre a proliferação ou morte celular (Devita et al., 2005). Em contrapartida, a perda desses genes “guardiões” permite e acelera a aquisição de novas mutações em oncogenes e genes supressores de tumor, aumentando a probabilidade do desenvolvimento do câncer (Devita et al., 2005). Os genes que regulam a apoptose, assim como o reparo do DNA, podem agir como: 1. proto-oncogenes (nos quais a perda de uma cópia é suficiente); ou 2.genes supressores de tumor (nos quais a perda de ambas as cópias é necessária). 9 CAPÍTULO 1 BIOLOGIA MOLECULAR DO CÂNCER Neste capítulo, discutiremos as principais técnicas de Biologia Molecular que utilizamos para detectar as células cancerosas. 1.1. Técnicas de análise 1.1.1. Análise dos cromossomos A Citogenética, por meio das técnicas de Biologia Molecular, consegue: prever, determinar e acompanhar as diferentes neoplasias e os fenômenos genéticos desde a sua origem. Nesse sentido, classicamente podemos citar a ocorrência de anomalias cromossômicas, como a translocação do proto-oncogene ABL: esse proto-oncogene é translocado do cromossomo 9 para o cromossomo 22. Nesse caso, o cromossomo 22 funciona como um fator indutor para o aparecimento da leucemia mieloide crônica. Entre as técnicas mais utilizadas para o estudo dos cromossomos, temos: 1. A análise de culturas de sangue-leucócitos induzida pela fito-hemoaglutinina à divisão mitótica. Essa divisão mitótica é interrompida pela colcemida, análoga da colchicina. Em seguida, essas células são tratadas com uma solução hipotônica de cloreto de potássio (Devita et al., 2005). › O cloreto de potássio induz um aumento do volume celular. › Sequencialmente, as células são fixadas em lâminas para análise dos cromossomos. 2. A hibridização in situ: esse método é utilizado para determinar a localização de cada cromossomo e a distribuição dos genes dentro do DNA. Nesse caso, o DNA nuclear é hibridizado com sondas específicas. A FISH (fluorescence in situ hybridization) utiliza anticorpos marcados que emitem fluorescência. Assim, determinamos a sequência gênica em um cromossomo metafásico, com o sinal fluorescente no núcleo ou na mitocôndria. Lembre-se: 1. A perda de material genético reflete a presença de genes supressores de tumor. 10 UNIDADE IV | BASES MOLECULARES DO CÂNCER 2. Um novo material genético representa a presença de oncogenes dominantes. 3. A CGH (comparative genomic hybridization) permite uma análise genômica mais ampla e total. A hibridização genômica comparativa consegue identificar a região que foi deletada na amostra por meio de corantes específicos. Dessa forma, conseguimos evidenciar as anormalidades cromossômicas naquele gene. 4. A técnica de microarranjos (microarrays) permite um aumento tanto na resolução quanto na eficiência durante a detecção e a quantificação dos ácidos nucleicos (mRNA na forma de cDNA ou DNA genômico) provenientes de amostras biológicas; dessa forma, determina-se a expressão diferencial de milhares de genes em um único experimento. Podemos utilizar essa técnica na análise de: › diferentes tipos histológicos de tumores; › diferentes estágios dos tumores; e › comparação dos tecidos anormais com os tecidos normais. Essas comparações permitem identificar os genes que possuem padrões diferentes de expressão nos tumores. 5. “Southern Blot” é um método utilizado para a determinação de sequências específicas de DNA. Sumariamente, após correr um gel de agarose contendo o DNA de interesse, esse gel é tratado com solução alcalina de NaOH, promovendo a desnaturação da dupla fita do DNA, que, por sua vez, é separado em fitas simples. Então, uma membrana de nitrocelulose é colocada sobre o gel, e o DNA se hibridiza nela. › Essa membrana é tratada com uma sonda hibridizadora (parte da molécula de DNA complementar àquela sequência que se quer determinar). › Assim, conhecendo-se os pontos onde a amostra de DNA foi clivada, é possível dizer em que trechos a sequência procurada estará ou não presente. 6. Sumariamente, a técnica “Northern Blot” tem o intuito de estudar a expressão gênica, ou seja, busca-se evidenciar se determinado gene de um genoma é ou não transcrito em RNA para quantificá-lo. 1.1.2. PCR A reação em cadeia da polimerase é uma técnica que tem por finalidade amplificar uma parte do genoma ou o genoma inteiro. Essa sequência é conhecida ou possui partes conhecidas. O mais interessante é que essa amplificação ocorre a partir de quantidades ínfimas de material genético (Giorgio, 2000). 11 BASES MOLECULARES DO CÂNCER | UNIDADE IV A DNA-polimerase é a enzima responsável por amplificar o DNA. Durante essa síntese, são necessários: » desoxinucleotídeos trifosfatados (dNTPs); e » cátions de magnésio. A PCR direciona a detecção de possíveis mutações, doenças hereditárias, sequenciamento de genes, determinação de paternidade e medicina forense. A reação de polimerase em cadeia é um processo repetitivo, no qual o ciclo de amplificações deve se repetir várias vezes. No ponto inicial de cada ciclo, as duas fitas denominadas “molde de DNA” são separadas e um iniciador diferente é acoplado em cada uma delas. Esses iniciadores podem marcar os limites da direita até a esquerda do DNA que será amplificado; isso permite que a DNA-polimerase replique essas fitas de forma independente. Nos ciclos que se sucedem, todas essas moléculas de DNA recém-produzidas pela polimerase podem servir de molde para o próximo ciclo. Através desse processo interativo de amplificação, algumas cópias da sequência originalmente produzidas tornam-se bilhões após cerca de 20 ou mais ciclos (Giorgio, 2000). Nos dias atuais, a PCR pode ser o método escolhido para clonar os fragmentos de DNA curtos (especificando, menos de 10 mil pares de bases). Os ciclos demoram por volta de cinco minutos, sendo que a automação de todo o procedimento leva à clonagem, com a ausência de células, com uma sequência de DNA em pouco tempo. O molde utilizado originalmente para PCR pode ser DNA ou RNA; então, utiliza-se esse método para obter um clone gênico ou uma cópia de DNA complementar de um RNA mensageiro (Alberts et al., 2017). Figura 73. PCR utiliza repetidos ciclos de separação das fitas, hibridização e síntese para amplificar DNA. Fonte: Alberts et al., 2017. 12 UNIDADE IV | BASES MOLECULARES DO CÂNCER 1.1.3. Transcrição reversa seguida de PCR A transcrição reversa seguida da reação em cadeia da polimerase é utilizada para a detecção de mRNAs (correspondentes ao gene que é expresso) (Giorgio, 2000). 1.1.4. Sequenciamento de DNA O sequenciamento de DNA consiste em uma série de métodos bioquímicos que possuem a finalidade de identificar, na molécula de DNA, a ordem das bases nitrogenadas: » adenina (A); » guanina (G); » citosina ©; » timina (T). O sequenciamento de DNA pelo método de Sanger identifica as sequências de nucleotídeos nos genes clonados. Em relação à sua capacidade de depósito da informação, a propriedade mais importante da molécula de DNA é a sua sequência nucleotídica. Até o final dos anos de 1970, determinar a sequência de um ácido nucleico contendo até mesmo 2 ou 10 nucleotídeos era muito trabalhoso. O desenvolvimento de duas técnicas em 1977, uma por Allan Maxam e Walter Gilbert e outra por Frederick Sanger, tornou possível o sequenciamento de moléculas de DNA maiores com uma facilidade não imaginável poucos anos antes. As técnicas dependem de uma compreensão maior da química dos nucleotídeos e do metabolismo de DNA e de métodos eletroforéticos melhorados para separar fitas de DNA que diferem apenas em um nucleotídeo quanto ao tamanho. No trabalho com oligonucleotídeos curtos de DNA (até poucas centenas de nucleotídeos), a poliacrilamida é muitas vezes usada no lugar da agarose como matriz do gel, pois permite que os pesquisadores detectem diferenças pequenas entre os fragmentos de DNA (COX; DER, 2002). Existem várias instâncias nas quais é útil sequenciar mais uma vez um genoma já sequenciado. Por exemplo, o sequenciamento de DNA de alguns ou vários indivíduos de uma única espécie pode detectar diversidade de sequência entre os indivíduos de uma população ou alterações na sequência que resultam de mutagênese ou evolução. A nova geração de técnicas de sequenciamento é efetiva para esses experimentos de ressequenciamento do genoma. Elas também fornecem uma amostra da revolução que está por vir no florescentecampo da genômica. O objetivo final é reduzir os custos de modo que cada ser humano possa ter seu genoma sequenciado, resultando, de forma ideal, em uma Medicina bastante personalizada. Os obstáculos para a realização desse sonho não são apenas técnicos. Assuntos éticos, como o acesso restrito em potencial 13 BASES MOLECULARES DO CÂNCER | UNIDADE IV para seguradoras ou discriminação no trabalho baseada nas condições genéticas reveladas na sequência genômica também devem ser considerados (COX; DER, 2002). 1.1.5. Técnicas para a detecção das mutações Inúmeras técnicas têm determinado as deleções, inserções ou substituições de nucleotídeos que são capazes de induzir mutações, ocasionado doenças, entre elas o câncer (Malumbres; Barbacid, 2009). 1.1.5.1. Single-Stranded Conformational Polymorfism of PCR Products (PCR-SSCP) Essa técnica determina os polimorfismos presentes na molécula de DNA de fita simples (Malumbres; Barbacid, 2009). Por ter alta sensibilidade, a técnica consegue determinar mais de 80% das mutações presentes em fragmentos menores do que 300bp. 1.1.6. PCR Heteroduplex Essa técnica determina as deleções, bem como as inserções no DNA de forma rápida e simples. Resumidamente: » O produto da PCR é desnaturado por meio de aquecimento. » O pareamento das fitas ocorre em temperatura ambiente. » Utilizamos aqui um gel de poliacrilamida para separar as bandas. Essa técnica se baseia praticamente na mobilidade eletroforética entre a dupla fita homoduplex e a dupla fita heteroduplex que, por possuírem uma inserção ou deleção, não são totalmente complementares, evidenciando as deleções e/ou inserções no genoma (Malumbres; Barbacid, 2009). 1.1.7. Restriction Fragment Length Polymorfism (RFLP) Essa técnica se baseia na clivagem por enzima de restrição. As enzimas de restrição são responsáveis por digerir o DNA em locais específicos (Malumbres; Barbacid, 2009). A mutação pode estar dentro do sítio de restrição e, dessa forma, a enzima não será capaz de reconhecer o DNA e clivá-lo (Malumbres; Barbacid, 2009). Caso a mutação crie um novo sítio de restrição, os fragmentos originados serão menores em relação ao DNA normal, ou seja, podemos identificar os locais no DNA que estão mutados (Malumbres; Barbacid, 2009). Aqui também utilizamos o gel de poliadrilamida para separar os fragmentos de DNA pelo peso molecular deste. 14 CAPÍTULO 2 BIOMARCADORES MOLECULARES DO CÂNCER 2.1. Biomarcadores moleculares Em diversos modos de ordenar uma categorização dos biomarcadores moleculares, é necessário simplificar e desenvolver um aprendizado real da função que cada modificação molecular exerce na carcinogênese. Os biomarcadores são divididos em três principais tipos: » exposição; » suscetibilidade; e » resposta. Os biomarcadores de exposição correspondem à expressão de fatores ambientais ou seus metabólitos no ambiente interno do indivíduo. Os indicadores de suscetibilidade indicam que os indivíduos desenvolverão mais ou menos câncer quando expostos a agentes cancerígenos (Hanahan; Weinberg, 2000). Um biomarcador de efeito ou resposta indica que há uma alteração no tumor. São tardios e podem ser usados para avaliar o prognóstico da doença. Figura 74. Apresentação sucinta desses biomarcadores. Exposições: – Hábitos da vida: Tabaco Álcool Dieta – Ocupacionais; – Ambientais; – Iniquidades; Métodos da epidemiologia tradicional Métodos da epidemiologia tradicional Biomarcadores moleculares Biomarcadores de exposição Biomarcadores de suscetibilidade Biomarcadores de resposta Adutos no DNA Mutações cromossômicas Enzimas de metabolização de xenobióticos Oncogenes e genes supressores de tumores CÂNCER + Fonte: Pitot, 1996. 15 BASES MOLECULARES DO CÂNCER | UNIDADE IV 2.1.1. Biomarcadores de exposição O entendimento dos mecanismos da carcinogênese depende, pelo menos em parte, da análise laboratorial do efeito de determinado agente na molécula de DNA e nas células. Concomitantemente, pode ser difícil avaliar a contribuição de um fator isolado para estágios particulares da carcinogênese, pois pode haver interações entre produtos químicos e outros fatores, como vírus, radiação e possivelmente componentes endógenos (Hanahan; Weinberg, 2000). O conhecimento dos mecanismos da carcinogênese será sempre hipoteticamente incompleto. O mecanismo pelo qual os produtos químicos e seus metabólitos cancerígenos ocasionam mutações genéticas foi extensivamente estudado nas últimas duas décadas. A relação entre os produtos químicos e a molécula de DNA ocorre por meio da formação de ligações covalentes chamadas de “adutos” (Toniolo et al., 1997). Identificou-se grande número de adutos, incluindo aqueles formados por hidrocarbonetos aromáticos policíclicos (HPA), aminas aromáticas e compostos de nitrogênio. Os adutos HPA-DNA foram mais bem estudados e, juntamente com os anticorpos desses adutos encontrados no soro humano, são marcadores úteis de uma dose biologicamente eficaz de exposição a essa substância no local de trabalho, por exemplo, em siderúrgicas, em ambientes urbanos poluídos ou no tabagismo (Hanahan; Weinberg, 2000). A justificativa para medir adutos de DNA carcinogênicos para avaliação de exposição é baseada na suposição de que a formação de adutos pode ser responsável por mutações em genes críticos para a carcinogênese se o reparo do DNA não for realizado antes da divisão celular. Esse raciocínio depende de um modelo causal que inclui adutos, mutações e indução tumoral (Wild; Pisani, 1997). Mutações genéticas associadas a processos carcinogênicos observados em tumores animais são geralmente consistentes com os tipos esperados de adutos de DNA, que são causados pela exposição a produtos químicos específicos (Greenblatt et al., 1994). No entanto, em geral, o nível de adutos no DNA reflete a exposição recente no passado, não a mais distante, que é uma barreira para a compreensão dos mecanismos de carcinogenicidade química, mas, hipoteticamente, os indivíduos têm maior probabilidade de falhar nos mecanismos de reparo do DNA. No entanto, ainda não há evidências experimentais da sequência de formação de aduto, mutação e ocorrência de tumor (Lane, 1992; Sherr, 1996; Murphy et al., 2001). Devido à sua instabilidade química e à ação de enzimas responsáveis pelo processo de reparo do DNA, os adutos carcinógeno-DNA podem ser eliminados. As diferenças 16 UNIDADE IV | BASES MOLECULARES DO CÂNCER individuais na sensibilidade humana aos carcinógenos dependem não apenas do estado nutricional e da saúde do hospedeiro (incluindo a existência de doenças pré- existentes), mas também da capacidade de reparar o DNA. Esse mecanismo também está intrinsecamente relacionado à capacidade genética do indivíduo de sintetizar enzimas ativadas ou desintoxicar carcinógenos. O risco aumentado de desenvolvimento de câncer também pode ser pré-determinado por testes de mutagênese, que visam avaliar a incidência de mutações cromossômicas em populações expostas em comparação com grupos de controle (Lane, 1992; Sherr, 1996; Murphy et al., 2001). 2.1.2. Biomarcadores de suscetibilidade Para determinado nível de exposição a carcinógenos, apenas uma parte dos indivíduos expostos desenvolverá câncer. A maioria dos carcinógenos potenciais precisa ser ativada metabolicamente no corpo antes de estes se tornarem carcinógenos eficazes. A sensibilidade de um indivíduo ao câncer parece depender em parte do metabolismo eficaz determinado pelos genes e da capacidade de remover essas substâncias do corpo (Lane, 1992; Sherr, 1996; Murphy et al., 2001). Evidências apontadas em diferentes pesquisas sugerem que inúmeros sistemas genéticos que controlam e regulam o metabolismo de enzimas heterogêneas parecem estar envolvidos na ocorrência de diferentes tipos de câncer. Polimorfismos metabólicos associados com risco aumentado de câncer incluem citocromo P450, glutationa S-transferase e N-acetiltransferase.As reações catalisadas por essas enzimas são basicamente divididas em duas etapas (Sherr, 1996; Murphy et al., 2001). As enzimas da família do citocromo P450 (CYP) são classificadas como metabolismo de fase I e parecem estar diretamente relacionadas ao processo de ativação da maioria dos xenobióticos. No segundo estágio, principalmente por meio da ação da glutationa-S-transferase (GST) e da N-acetiltransferase (NAT), os xenobióticos são convertidos em produtos solúveis em água e são facilmente excretados (Sherr, 1996; Murphy et al., 2001). Diferenças na frequência de certos alelos enzimáticos são observadas entre pessoas de diferentes origens étnicas. A enzima CYP2D6 é um exemplo. Na população caucasiana, a frequência de pessoas com metabolismo deficiente fica entre 5% e 7%, enquanto, na China, essa proporção é de apenas 1% da população. Diferenças semelhantes explicarão em parte a maior ou menor incidência de certos tumores em diferentes populações (Sherr, 1996; Murphy et al., 2001). Polimorfismos em um ou mais genes que codificam essas enzimas resultam em maior ativação de carcinógenos ou capacidade reduzida de inativá-los (ou ambos) 17 BASES MOLECULARES DO CÂNCER | UNIDADE IV e, se os indivíduos com esses polimorfismos são expostos ao carcinógeno, o risco de desenvolverem câncer pode aumentar. O gene CYP1A1 é essencial para o metabolismo do benzopireno de hidrocarbonetos policíclicos aromáticos. O polimorfismo desse gene está relacionado aos cânceres de pulmão, de esôfago, de cabeça e de pescoço (Murphy et al., 2001). No Brasil, Sugimura et al. (1994), em estudo na população do Rio de Janeiro, não encontrou relação entre o polimorfismo do gene CYP1A1 e o câncer brônquico. Em publicação posterior, o autor relatou outro polimorfismo do mesmo gene, denominado IleVal, causado pela substituição da isoleucina pela valina, que pode estar relacionado ao câncer de pulmão. A diminuição da atividade da GST altera a desintoxicação dos PAHs e está relacionada ao câncer de pulmão. Em um estudo de meta-análise que combinou dados de 12 estudos de caso-controle, a deleção de GSTM1 foi associada a um aumento de 40% no risco de desenvolvimento de câncer de pulmão (Mcwilliams et al., 1995). A modificação das mutações GSTM1 e NAT2 também foi observada na associação entre amianto e mesotelioma. A enzima NAT participa da ativação e da inativação de uma variedade de organismos heterólogos. Em humanos, os genes NAT1 e NAT2 são responsáveis pela atividade da N-acetiltransferase. Alelos polimórficos de NAT1 e NAT2 foram detectados e podem alterar a suscetibilidade dos indivíduos ao câncer (HIRNOVEN, 1999). O nível de atividade de NAT2 determina a desintoxicação ou a taxa de ativação de aminas aromáticas. A análise de fenotipagem ou genotipagem tem sido usada para classificar indivíduos em agentes de acetilação rápida ou lenta (Ambrosone et al., 1996). Um estudo genético examinou três polimorfismos NAT2, que constituem de 90% a 95% do fenótipo do agente de acetilação lenta (com 2 ou mais alelos mutantes), e mostrou que, em mulheres na pós-menopausa, a acetilação é lenta. Neste estudo, os autores apontaram também que, embora o risco de câncer de mama aumente com o aumento do número de anos de tabagismo, a intensidade do uso parece ser mais importante do que a duração do tabagismo (AMBROSONE et al., 1996). Dois outros estudos também mostraram o papel potencial do polimorfismo NAT como modificador da resposta de um indivíduo à exposição a agentes ambientais (Murphy et al., 2001). O genótipo lento da acetilase NAT2 está associado a um risco aumentado de mesotelioma (Hirnoven et al., 1996), e o genótipo NAT1 altamente ativo aumenta o risco de câncer de pulmão relacionado ao tabaco (Bouchardy et al., 1998). Portanto, as evidências para os efeitos do polimorfismo NAT são contraditórias, e nenhuma conclusão clara pode ser feita sobre seu papel na origem do câncer. Em muitos 18 UNIDADE IV | BASES MOLECULARES DO CÂNCER casos, os dados disponíveis levam a interpretações confusas. Uma hipótese baseia-se na ideia de que o controle genético do metabolismo da debrisoquina, bem como a relação entre os anti-hipertensivos e o risco de câncer de pulmão estão relacionados com os polimorfismos de NAT (Murphy et al., 2001). A enzima CYP2D6 metaboliza várias substâncias, como as hidroxitriptaminas e os neuroesteroides. Sua atividade depende da taxa de metabolismo: administração de isobuquina e excreção de 4-hidroxi-isobuquina na urina. Os indivíduos são divididos em dois fenótipos básicos: » grandes metabolizadores (extensive metabolizers); » metabolizadores pobres. Os estudos iniciais sobre o metabolismo da debrisoquina mostraram que os indivíduos classificados como metabolizadores principais têm um risco seis vezes maior de desenvolver câncer de pulmão em comparação com metabolizadores fracos. Estudos subsequentes sobre esse tópico mostraram que o risco de câncer de pulmão associado ao genótipo responsável pelo metabolismo da debrisoquina é baixo ou não há evidências de que haja um risco adicional de desenvolver a doença. Esses resultados contraditórios tornam difícil aceitar que o polimorfismo do gene CYP2D6 esteja envolvido na causalidade do câncer de pulmão (Murphy et al., 2001). 2.1.3. Biomarcadores de efeito Na maioria dos cânceres, mutações na sequência de DNA em um locus cromossômico específico foram identificadas (Blot; Fraumeni, 1996). Os tipos de danos ao DNA incluem principalmente: » perda ou deleção; » substituição de par de bases; » inserção; » amplificação; » duplicação; » inversão e translocação. Não está claro se essas mudanças são a causa ou o resultado do câncer. Na verdade, a história natural da doença não parece envolver uma, mas várias mutações genéticas. O gene p53 está localizado no braço curto do cromossomo 17 e codifica uma proteína nuclear de 53 mil dalton, chamada p53, que tem uma importante função de regulação 19 BASES MOLECULARES DO CÂNCER | UNIDADE IV do ciclo celular. A mutação do p53 é um evento genético comum em vários cânceres humanos e está relacionada aos fatores ambientais envolvidos (Murphy et al., 2001). O processo de tumorigênese está intimamente relacionado à reprodução celular, ou seja, intimamente relacionado ao mecanismo de controle do ciclo celular. Para produzir duas células-filhas idênticas em cada ciclo, a duplicação e a subsequente separação dos cromossomos e outros componentes celulares devem ser realizadas. Cromossomos são duplicados numa fase denominada de S (síntese) e divididas para as células-filhas na fase M (mitose) do ciclo celular. Esse procedimento acontece de modo contínuo, passando por G1-S-G2-M, sendo G1 e G2 (gap 1 e 2) fases que antecedem os períodos de síntese e divisão celular (MURPHY et al., 2001). O monitoramento do ciclo celular é feito basicamente por intermédio de proteínas que atuam nas fases G1 e G2, acionando mecanismos de reparo ou interrompendo o processo de divisão celular quando detectam mutações no material genético. A maioria dos genes supressores de tumor sintetizam proteínas com funções de regulação do ciclo celular. Quando as proteínas estão em falta ou são ineficientes, elas podem contribuir para a evolução de clones de células tumorais. A p53 é uma das proteínas que controlam o ciclo celular na fase G1. Ela retarda o processo de divisão para que ocorra o reparo e até previne a divisão celular por apoptose (morte celular). Por outro lado, mutações nesse gene induzem à formação de proteínas que não conseguem interromper o processo de divisão celular e, se não houver tempo para o reparo do DNA, a célula causará danos às divisões subsequentes, levando à formação de tumores. A análise do perfil de mutação do p53 sob uma determinada exposição ambiental pode ajudar a determinar os fatores relacionados à causa do câncer. As mutações do p53 no câncer de pulmão estão relacionadas à exposição ocupacional nas indústrias petroquímica e metalúrgicae à exposição ao níquel. A incidência de mutações no gene p53 em tecidos tumorais varia de acordo com a localização anatômica do tumor, de 0% em tumores testiculares e hipofisários a mais de 50% em tumores de pulmão e de cólon (Murphy et al., 2001). Além das mutações no p53 presentes em aproximadamente 20% dos tumores de mama, identificaram-se alterações em dois outros genes supressores de tumor, BRCA1 e BRCA2, que resultam em aumento da suscetibilidade à doença em mulheres portadoras, seguindo o padrão mendeliano de hereditariedade (Murphy et al., 2001). Mulheres com mutação herdada de BRCA1 têm uma suscetibilidade aumentada ao câncer de mama e mais de 70% devem desenvolver a doença aos 70 anos. A presença de mutações no p53 também indica pior prognóstico da doença. 20 CAPÍTULO 3 MUTAÇÕES SOMÁTICAS, CONDUTORAS E EPIGENÉTICAS As mutações podem ocorrer em praticamente todas as etapas de crescimento e diferenciação celular. Nesse sentido, o acúmulo dessas mutações resulta na desregulação progressiva das células, culminando em uma célula tumoral. 3.1. Mutações somáticas Se uma única célula anormal originar um tumor, ela deve transmitir essa anormalidade à sua célula-filha, isto é, a mutação será herdável. Assim, o desenvolvimento de um clone de células cancerosas depende de modificações genômicas (Alberts et al., 2017). As células tumorais possuem mutações somáticas, ou seja, elas compartilham uma ou mais anormalidades detectáveis em suas sequências de DNA. Vale ressaltar que essas mutações são chamadas de “somáticas” pois ocorrem nas células do corpo, e não na linhagem germinativa. Claro, existem também os tumores originados pelas mudanças epigenéticas, mudanças essas herdáveis e persistentes na expressão dos genes, resultando na modificação da estrutura da cromatina sem existir nenhuma alteração na sequência de DNA da célula. Mas, lembre-se, as mutações somáticas que alteram a sequência do DNA constituem-se em características essenciais para a formação dos tumores (Alberts et al., 2017). Assim, inferimos que a carcinogênese está intimamente relacionada à mutagênese, essencialmente com a produção de alterações na sequência de DNA (Alberts et al., 2017). Muitos agentes externos são capazes de gerar mutações no DNA, incluindo: 1. Carcinógenos químicos: estes geram uma alteração na sequência de nucleotídeos. 2. Radiação: ocasiona quebras cromossômicas e translocações. 3. Luz ultravioleta (UV): causa alterações específicas nas bases do DNA. A figura 75 mostra como ocorre o desenvolvimento tumoral a partir de ciclos repetitivos de mutação e de proliferação, originando um clone de células cancerosas totalmente malignas. Em cada etapa, apenas uma única célula sofre mutação, que: 1. potencializa a proliferação celular; ou 2. diminui a morte celular. 21 BASES MOLECULARES DO CÂNCER | UNIDADE IV Desse modo, a sua célula-filha se torna um clone dominante no tumor. Assim, a proliferação desse clone acelera a próxima etapa da evolução do tumor, aumentando de forma descontrolada o tamanho da população de células que podem sofrer uma nova mutação. A etapa final é a invasão por meio da membrana basal (essa etapa corresponde ao início da metástase) (Alberts et al., 2017). Figura 75. Evolução clonal. Fonte: adaptado de Alberts et al., 2017. Os indivíduos que herdam um defeito genético e sofrem com acúmulo de mutações em uma taxa elevada possuem grande risco de desenvolver câncer, mas não se esqueça de que uma única mutação não é suficiente para transformar uma célula normal em uma célula cancerosa. Estima-se que, durante toda a vida, ocorram aproximadamente 1.016 divisões celulares em um organismo humano normal. Mesmo em um ambiente isento de agentes mutagênicos, existem mutações espontâneas a uma taxa estimada de aproximadamente 1026 mutações por gene por divisão celular. 22 UNIDADE IV | BASES MOLECULARES DO CÂNCER Essas limitações ocorrem devido à fidelidade da replicação e ao reparo no DNA. Evidentemente, se uma mutação em um único gene fosse suficiente para transformar uma célula saudável em uma célula cancerosa, não seríamos organismos viáveis. O desenvolvimento de um câncer, geralmente, necessita que um número grande de acidentes independentes de origem genética e/ou epigenética ocorra em uma linhagem que provém de uma única célula (Alberts et al., 2017). 3.1.1. Mutações epigenéticas 3.1.1.1. Modificações epigenéticas e câncer A epigenética refere-se às alterações reversíveis e hereditárias, na expressão dos genes que acontecem sem mutação. Interessantemente, essas alterações envolvem modificações pós-translacionais de histonas e metilação do DNA, afetando diretamente a expressão dos genes. Assim, em células diferenciadas normais, a porção principal do genoma não é expressa. Nessas células, essas regiões do genoma são silenciadas por metilação do DNA e modificações da histona (Alberts et al., 2017). Em contrapartida, as células cancerosas caracterizam-se por: 1. hipometilação global do DNA; 2. hipermetilação seletiva localizada no promotor. De fato, os genes supressores de tumor podem ser silenciados por hipermetilação das sequências do promotor, e não por mutação. O CDKN2A é um locus complexo que codifica dois genes supressores de tumor: » p14/ARF; e » p16/INK4a. As alterações epigenéticas também são capazes de inativar permanentemente um gene supressor. Por exemplo: » O gene pode ser empacotado na heterocromatina. » O nucleotídeo C na sequência CG pode ser metilado de maneira herdável. Essas alterações podem silenciar de modo irreversível o gene em uma célula. Análises realizadas acerca dos padrões de metilação nos genomas de células cancerosas evidenciaram que o silenciamento epigenético de um gene é um evento frequente 23 BASES MOLECULARES DO CÂNCER | UNIDADE IV na progressão tumoral. Vale ressaltar que os mecanismos epigenéticos auxiliam na inativação de diversos genes supressores de tumores na maioria dos tumores (ALBERTS et al., 2017). Na figura 76, podemos notar que as alterações que silenciam o gene supressor de tumor podem ocorrer em qualquer etapa da expressão deste. Tanto a metilação do DNA quanto o empacotamento de um gene impedem a expressão do gene. Se essa alteração não for modificada, o defeito será herdado. Figura 76. As vias que levam à perda de função do gene supressor de tumores no câncer envolvem alterações genéticas e epigenéticas. Fonte: adaptado de Alberts et al., 2017. 3.1.1.2. Mutações condutoras e passageiras Muitas pesquisas conduzidas sobre os genes codificadores de proteínas em tumores sólidos comuns, incluindo os cânceres de mama, de cólon, no cérebro ou no pâncreas, mostraram que cerca de 33 a 66 genes adquiriram algum tipo de mutação somática que afetou a sequência de suas proteínas finais (Alberts et al., 2017). Mutações que ocorrem em regiões não codificadoras do genoma são extremamente mais numerosas, pois a maior fração do genoma é representada por DNA não codificador. 24 UNIDADE IV | BASES MOLECULARES DO CÂNCER Todavia, essas mutações são consideradas extremamente mais difíceis de serem interpretadas (Alberts et al., 2017). A alta frequência de mutações que ocorre no genoma nos mostra que, mesmo com todas as vias de reparo, existe uma grande instabilidade genética. » Como podemos descobrir quais dessas mutações são condutoras para o câncer? » Quais dessas mutações são passageiras? » Quais mutações passageiras aconteceram nas mesmas células das mutações condutoras, mas são irrelevantes para o desenvolvimento da doença? Basicamente, baseamo-nos na frequência de ocorrências. As mutações condutoras afetam os genes que participam da doença, e nós encontraremos essas mutações repetidamente, em diversos indivíduos diferentes. Já as mutações passageiras ocorrem em locais aleatórios no genoma e não conferem nenhuma vantagem seletiva para a célula cancerosa (Alberts et al., 2017). 25 REFERÊNCIAS ABBAS, A. K. et al. Cellular and molecularimmunology. 2.ed. Philadelphia: W. B. SaundersCo., 1994. pp. 356-375. ABBAS, A. K., LICHTMAN, A. H. Cellular and Molecular Immunology. 5. ed. Philadelphia, WB Saunders, 2003. ALBERTS, B.; BRAY, D.; LEWIS, J.; ROFF, M.; ROBERTS, K.; WATSON, J. D. Biologia Molecular da Célula. 6.ed. Porto Alegre: Artmed, 2017. ALBERTS, B.; BRAY, D.; HOPKIN, K.; JOHNSON, A. et al. Fundamentos da Biologia Celular. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 2017. AMBIT, A. et al. An essential role for the Leishmania major metacaspase in cell cycle progression. Cell Death and Differentiation, v. 15, n. 1, pp. 113-122, 2008. AMBROSONE, C. B.; FREUDENHEIM, J. L.; GRAHAM, S.; MARSHALL, J. R.; VENA, J. R.; BRASURE, J. R.; MICHALEK, A. M.; LAUGHLIN, R.; NEMOTO, T.; GILLENWATER, K. A.; HARRINGTON, A.; SHIELDS, P. G. 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Figura 24: http://docs.bvsalud.org/biblioref/2020/02/1049334/28820-manuscrito-sem-identificacao-dos- autores-114495-3-10-20191203.pdf. Figura 29: https://slideplayer.com.br/slide/4014967. Figura 30: https://pt.khanacademy.org/science/biology/cellular-molecular-biology/stem-cells-and- cancer/a/cell-cycle-regulators. Figura 31: https://slideplayer.com.br/slide/4014967. Figura 32: https://pt.khanacademy.org/science/biology/cellular-molecular-biology/stem-cells-and- cancer/a/cell-cycle-regulators. Figura 38: https://slideplayer.com.br/slide/4014967. Figura 41: https://pt.slideshare.net/fabwild/a-clula-cancerosa. Figura 42: https://slideplayer.com.br/slide/4014967. Figura 44: https://vencerocancer.org.br/cancer/o-que-e/metastase/attachment/vencer-o-cancer-indb-30. Figura 48: https://pt.khanacademy.org/science/biology/dna-as-the-genetic-material/dna-replication/a/ dna-proofreading-and-repair. Figura 49: https://pt.khanacademy.org/science/biology/dna-as-the-genetic-material/dna-replication/a/ dna-proofreading-and-repair. Figura 51: https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/5715815/mod_resource/content/1/aula%205%20 reparo%20de%20DNA%20e%20mutage%CC%82nese.pdf. Figura 58: https://www.scielo.br/pdf/abem/v46n4/12790.pdf. Figura 59: https://www.scielo.br/pdf/abem/v46n4/12790.pdf. Figura 62: https://wp.ufpel.edu.br/patogeralnutricao/files/2017/12/Neoplasia.pdf. UNIDADE IV Bases Moleculares Do Câncer Capítulo 1 Biologia molecular do câncer Capítulo 2 Biomarcadores moleculares do câncer Capítulo 3 Mutações somáticas, condutoras e epigenéticas Referências