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UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ THARLYS DOS SANTOS DEL MAZO O SAMBA-JAZZ DE LAURINDO ALMEIDA E BUD SHANK: A SÍNTESE HARMÔNICA MELÓDICA E RÍTMICA DO ÁLBUM BRAZILLIANCE VOL.1 (1953) CURITIBA 2016 Tharlys dos Santos Del Mazo GRR20105193 O samba-jazz de Laurindo Almeida e Bud Shank: a síntese harmônica, melódica e rítmica do álbum Brazilliance vol.1 (1953) Monografia apresentada à disciplina OA027- Trabalho de Conclusão de Curso Bacharelado como requisito parcial à conclusão do Curso de Bacharelado em Música - Departamento de Artes, Setor de Artes, Comunicação e Design da Universidade Federal do Paraná. Orientador: Prof. Dr. José Estevam Gava CURITIBA 2016 RESUMO Nesta pesquisa aborda-se o estilo musical samba-jazz, mais especificamente a parceria entre o violonista Laurindo Almeida e o saxofonista Bud Shank no álbum Brazilliance vol.1, que traz músicas brasileiras e latinas com sessões de improvisos jazzísticos. São traçados aqui o cenário histórico de encontro entre o jazz e o samba e as biografias resumidas dos dois músicos. Em seguida, as músicas do álbum em questão são analisadas de modo a esclarecer como se deu a síntese entre os dois estilos musicais e se o álbum de fato merece ser referido como marco histórico dessa fusão. Palavras-chave: Laurindo Almeida, Bud Shank, samba-jazz, fusion. ABSTRACT This research deals with the samba-jazz style, specifically the partnership between the guitarist Laurindo Almeida and the saxophonist Bud Shank on the album Brazilliance vol.1, which brings Brazilian and Latin songs with sessions of jazz improvisations. Here are outlined the history of the meeting between jazz and samba and brief biographies of the two musicians. Then the songs from the related album are analyzed in order to clarify how the synthesis between the two musical styles occurred and if the album really deserves to be referred to as the historical milestone of this fusion. Keywords: Laurindo Almeida, Bud Shank, samba-jazz, fusion. SUMÁRIO INTRODUÇÃO 01 1. SAMBA JAZZ 03 2. LAURINDO ALMEIDA (1917-1995) 08 3. BUD SHANK (1926-2009) 13 4. ANÁLISE DO ÁLBUM BRAZILLIANCE vol.1 (1953) 17 Atabaque 18 Amor flamenco 19 Stairway to the stars 21 Acértate más 23 Terra seca 24 Speak low 25 Inquietação 27 Baa-too-kee 28 Cariñoso 30 Tocata 31 Hazardous 33 Nonó 33 Noctambulism 34 Blue baião 35 4.1 Resumo das análises e breve discussão 36 5. CONSIDERAÇÕES FINAIS 38 REFERÊNCIAS 40 FONTE 41 1 INTRODUÇÃO Assim como qualquer estilo musical, estudar jazz implica em conhecer sua história e teoria, além de ouvir composições clássicas do estilo, seus principais standards. Por intermédio das audições pode-se sentir o ritmo característico do jazz e ocorrência de escalas be-bop que definem as linhas melódicas típicas deste estilo musical. Abordar a história do jazz e suas origens implica em envolvermos três continentes, África, Europa e América. Os escravos negros eram remetidos da África para as Américas do Norte e do Sul. Assim, tanto o samba como o jazz têm raízes africanas, tendo passado por elaborações diferentes nos Estados Unidos e no Brasil. Um dos muitos subprodutos musicais dessa síntese cultural manifestou-se com a bossa nova, por exemplo, nos anos finais da década de 1950. No entanto, o período de experimentação com a síntese samba- jazz começou um pouco antes (HOBSBAWM, 1990, p.51). Para apresentar essa síntese entre jazz e samba a opção foi analisar um disco que causou certo impacto em território brasileiro. O disco em questão foi Brazilliance vol.1 (1953) que teve como músicos principais o violonista Laurindo Almeida e o saxofonista Bud Shank. Nesse álbum aconteceu a fusão da música brasileira com o jazz, uma estilização que envolveu a improvisação jazzística dentro de repertórios brasileiros. Esse álbum de certa forma quebrou a barreira dos intérpretes brasileiros no quesito improvisação, já que, até então, não era muito comum ocorrer música brasileira improvisada ao modo jazzístico. Como consequência, esses músicos passaram por um processo de desenvolvimento da mente criativa no momento da composição do improviso. “Os músicos da época acabaram se aperfeiçoando e suas produções tornaram-se mais ricas e refinadas do ponto de vista melódico” (PAIM, 2009, p.16). No choro, por exemplo, o improviso poderia ser chamado de variação melódica, pois não fugia muito do tema. Com a chegada dessa nova atmosfera jazzística, as possibilidades de criação do intérprete se expandiram. O então samba-jazz se popularizou, abrindo espaço a um novo ramo musical de influências jazzísticas: a bossa nova (BASTOS, 2006, p.933). Tomando por base a bagagem musical que Pixinguinha havia adquirido em Paris e a orquestração de jazz que Severino Araújo utilizava, conclui-se que a música brasileira vinha recebendo influências jazzísticas desde a década de 1930. Pode-se afirmar que o álbum Brazilliance, de 1953, foi o ápice desse “casamento”, trazendo toques de jazz à música brasileira e já prenunciando a bossa nova. Para compreensão de como essa síntese ocorreu, aqui são 2 analisadas as músicas que fazem parte do álbum citado. Não tendo sido possível encontrar os arranjos escritos originais, as faixas do álbum são descritas e analisadas auditivamente. O capítulo um descreve o samba-jazz, decorrente das influências internacionais em síntese com traços musicais brasileiros mais típicos. No segundo capítulo desta pesquisa se apresenta uma biografia do violonista Laurindo Almeida; sua infância, o começo da carreira musical nas rádios e a emigração para os Estados Unidos. No capítulo 3 encontra-se a biografia do saxofonista Bud Shank, descrevendo sua carreira profissional em diversas gravações, álbuns e eventos. No quarto capítulo as 15 faixas do álbum Brazilliance vol.1 são descritas em detalhes e analisadas. Finalmente, procura-se esclarecer porque esse álbum é considerado marco histórico da síntese musical em questão e como isso ocorreu nos níveis rítmico, melódico, interpretativo e instrumental. 3 1. SAMBA-JAZZ O intercâmbio entre músicos brasileiros e estrangeiros, principalmente norte-americanos, já era frequente na primeira metade do século XX, se não, desde o início daquele século. Ou seja, as misturas eram inevitáveis. As primeiras gravadoras estrangeiras que se instalaram no Brasil dividiam-se entre a produção musical nacional e produtos já internacionalizados. Tecnicamente houve grande avanço na qualidade técnica das gravações em geral, lideradas pelos melhores produtores. No seio dessa efusiva mistura musical, em especial entre Brasil e Estados Unidos, deu- se origem ao samba-jazz, cujo marco histórico foi um disco intitulado Turma da gafieira (CELERIER, 1964, p.3). O samba na década de 1950 dividia espaços importantes com a música estrangeira, que ganhava espaço no Brasil. Paulinho da Viola e Carlos Lyra relatavam em suas canções a mutação que o samba estava sofrendo pela influência jazzística. Paulinho da Viola descreveu em sua canção Argumento a falta que osA, com o complemento da melodia do saxofone. Este participa da resposta juntamente com a harmonia do violão, nos dois primeiros compassos. Nos dois últimos compassos o saxofone faz alguns floreios discretos, dentro da harmonia, em registro mais grave. Na segunda metade da reexposição, o saxofone ainda continua com as melodias complementares e o violão com o diálogo melódico/harmônico. Ao final dessa seção ocorre um acorde de resolução ao violão e logo em seguida uma convenção é executada pelo contrabaixo e pela bateria, na qual o primeiro faz uma melodia ascendente e o segundo ajuda no aumento da dinâmica para chegar à parte B. A seção B começa em apojatura com a melodia do saxofone, instrumento principal, que inicia seu improviso com o “sabor” jazzístico das escalas be-bop. O registro é agudo. A bateria começa a trabalhar com o prato de condução e com a marcação do tempo no chimbal, ainda utilizando a vassourinha na caixa; o contrabaixo inicia o walking bass para o acompanhamento e caracterização do momento jazz; o violão faz a harmonia marcando os acordes. O improviso de Bud Shank começa forte, com melodia bem marcada. Aproximadamente no meio, o saxofone anexa ao improviso a melodia do tema que antecede o momento virtuosístico de um solo mais rápido. No compasso 18 começa a transição para retorno ao tema. A bateria utiliza esse espaço para voltar ao ritmo de samba; o saxofone passa a executar menos notas (no registro grave) e a dinâmica do conjunto instrumental decai gradativamente. Após esses quatro compassos de transição, a parte A’’ é iniciada, sendo mais uma variação de A que tem como diferença a execução mais aparente do saxofone (em relação a A’) e a finalização. Os seis primeiros compassos são como já analisados. Porém, no sétimo compasso ocorre uma variação no ritmo da bateria e o saxofone começa a repetir a mesma nota por três compassos em conjunto com os acordes do violão. Isto incitar à finalização e oferece mais tempo para tencionar a resolução. A sétima faixa Speak low (alt. take) é semelhante à música analisada antes, tendo como diferença a maior duração, a falta de ambiência na gravação (menos reverb) e um acorde sem resolução feito pelo violão ao final da faixa. Em suma, as duas músicas são exemplos do “casamento” entre samba e jazz. Além disso, apresentam contrastes que as tornam interessantes e dinâmicas. 27 Resumo Notam-se improvisos com o “sabor” jazzístico, escalas be-bop e walking bass. Observações Speak low é um clássico do jazz aqui revisitado. O toque brasileiro se dá pelas quebradas rítmicas aplicadas logo no início pelo violão “pré-bossanovista” de Laurindo Almeida, que cedem espaço, depois, para o mais puro jazz. Ao final, a “bossa nova” retorna e conclui a peça. Faixa 08: Inquietação (03:05) Inquietação é um samba de Ary Barroso, em sua integridade, com uma sessão de improviso jazzístico, enquadrando-se perfeitamente ao espírito do disco. A forma resume-se em: introdução – A – B – A’ – C – D – introdução’. A primeira parte, introdução, é composta por duas frases repetidas como preparação para a parte A (tema). Esse início fica ao cargo de contrabaixo e bateria. O primeiro toca a melodia e o segundo toca o ritmo de samba. A parte A inicia no terceiro compasso com um acorde do violão dando a entrada para melodia. O acorde é executado em região mais aguda, quase fazendo parte da melodia, que também é tocada nas cordas mais agudas (1ª ou 2ª corda). Após a entrada do violão, responsável pela harmonia e melodia, o contrabaixo passa a fazer somente o acompanhamento harmônico, deixando o fraseado da introdução de lado. A bateria ainda continua com a mesma levada rítmica. A parte A é subdividida em duas partes, cada qual com três fraseados, de quatro compassos cada. Na primeira metade, o violonista realiza os dois primeiros fraseados, praticamente iguais, e o terceiro funciona como uma resposta aos dois primeiros, com uma melodia descendente e resolvida. O quarto compasso varia a introdução. O contrabaixo executa somente uma vez a melodia em conjunto com a bateria, servindo para uma preparação à reexposição do tema (segunda metade da parte A). Essa repetição do tema acontece integralmente nos três primeiros compassos e somente no quarto compasso acorre uma variação. O violão reitera quatro vezes o acorde dissonante e o contrabaixo faz uma melodia de passagem ascendente, fazendo assim parte da pergunta que prepara para a seção B. Essa seção é curta e serve de resposta à parte A. Ela é constituída de três fraseados e tem sua estrutura instrumental igual à seção A, com o violão na harmonia/melodia, contrabaixo e bateria fazendo o suporte. A transição para a volta ao tema, referente à parte A’, fica com a bateria, que faz pequena variação no ritmo, e do contrabaixo, com as melodias de passagem. A seção A’ é uma variação de A, pois tem somente quatro compassos, ou seja, é mais curta, e há uma diferença na melodia do terceiro compasso para a passagem que resulta na parte C. Essa transição é feita 28 pelo violão em uma melodia ascendente no bordão, que cai em um acorde dissonante, primeiro de uma progressão harmônica descendente da sessão C. A parte C começa com uma apojatura harmônica feita pelo violão, ainda na sessão A’, no quarto compasso, e a melodia se inicia logo no primeiro compasso com o mesmo instrumento, utilizando técnicas de ligado em uma das cordas mais agudas. No segundo compasso, já aparece a melodia do saxofone, aguda e potente, caracterizando um diálogo melódico com o violão. Essa conversa permanece ao longo da sessão com o espaço de um compasso, aproximadamente, para cada um dos dois instrumentos solistas. No sétimo compasso, o violão realiza uma variação da melodia encontrada na parte B, criando uma resolução para a entrada da parte D. Logo em seguida, no nono compasso, ocorre a convenção para a sessão D (improviso), na qual a bateria utiliza o prato de condução para dar uma prévia do que vem a seguir (jazz). Laurindo Almeida executou uma progressão harmônica de preparação. O improviso, parte D, fica a comando do saxofone acompanhado pela harmonia do violão e do contrabaixo. A bateria fica na levada jazzística com a utilização do prato de condução e do chimbal. O contorno da linha melódica do saxofone inicia no agudo, descendendo e utilizando escalas be-bop. Após chegar ao registro grave, a melodia começa a ascender e a fazer leves nuances, sempre na direção agudo. Nos últimos compassos, o saxofone atinge o ápice do improviso e descende com a melodia ao grave para participar da introdução’ juntamente com contrabaixo e bateria. A introdução’ é uma variação da introdução, onde é perceptível a mudança do ritmo da bateria e a adição de floreios do saxofone para a finalização. A melodia que o contrabaixo faz é a mesma e se repete pelos quatro compassos. No início do quinto compasso ocorre um acorde dissonante, do qual o violão participa, terminando assim a música. Resumo Nota-se a presença de levadas rítmicas jazzísticas e escalas be-bop. Observações No início, é claro o toque brasileiro, que se dá por um lundu estilizado, “um quase samba”. A entrada do saxofone sobre o violão adiciona o toque jazzístico. O ritmo jazz assume a total liderança logo em seguida, fazendo desaparecer qualquer outro traço. No entanto, a latinidade retorna e brevemente finaliza a música. Faixa 09: Baa-too-kee (03:04) Essa composição é um baião de Laurindo Almeida com uma sessão jazzística de swing, apresentando mistura de andamentos mais acelerados. Estruturalmente, temos: introdução – A – B – C – D – E – A’. A introdução é iniciada com violão, percussão e contrabaixo, que realizam 29 breve preparação antes da entrada do tema. A percussão fica com a levada rítmica, o violão alterna dois acordes e o contrabaixo realiza a nota pedal que é bem característica do baião nordestino.A duração introdutória é de dois compassos, quando no terceiro tempo do segundo compasso ocorre um pequeno silêncio, resultado da combinação rítmica que marca a entrada da parte A. A entrada da sessão A acontece logo após o evento rítmico da introdução. No final do primeiro tempo do primeiro compasso, entra propriamente o tema que é executado pelo saxofone. Essa entrada fora da “cabeça” do compasso também é uma característica do baião. Bud Shank realizou a melodia de duas frases no registro agudo, enquanto que a harmonia e a levada rítmica ficam como anteriormente. Depois desse fraseado do saxofone, o violão deixa de lado a harmonia “pedal” e começa a executar a melodia que se compõem de três camadas: a primeira expõe, a segunda tem o saxofone acompanhando com melodia grave. Na terceira camada o instrumento de sopro transpõem para o agudo a mesma melodia feita na segunda camada. O acompanhamento do saxofone é discreto nesse momento, sem muito volume. Em seguida tem-se a parte B, breve, na qual o violão executa um fraseado que se repete duas vezes com o acompanhamento harmônico do contrabaixo (em contraste com a parte A) e floreios melódicos graves do saxofone. Terminada a melodia do violão, volta-se para um fragmento da introdução de um compasso apenas, utilizando o mesmo evento rítmico no terceiro tempo. Esse trecho serve como preparação para um segundo tema. A parte C inicia em pausa harmônico-rítmica enquanto uma melodia ascendente é tocada em uníssono pelo violão e pelo saxofone. Quando a frase alcança o seu ápice, contrabaixo e percussão entram novamente para o acompanhamento da melodia em movimento descendente. Quando o fraseado chega à nota esperada, surge o prato attack da bateria para enfatizar o momento. Depois de a nota “importante” soar, ocorre novamente um fragmento da parte A, em que o violão realiza a melodia e o saxofone faz alguns floreios discretos, por dois compassos. No terceiro compasso, Laurindo Almeida ainda continua com a melodia. Bud Shank sai de cena e o contrabaixo realiza progressão harmônica descendente de passagem que se resolve, voltando assim à nota pedal característica. Retomando a base invariável do baião, inicia-se a parte D, pequena preparação para o improviso. Nessa sessão, o violão passa a executar a harmonia pedal, fazendo também a melodia com o saxofone. O fraseado aqui é de pergunta e resposta que é repetido duas vezes e a segunda pergunta varia ritmicamente com alongamento de uma nota. Seguindo adiante, o violão realiza, juntamente com o contrabaixo, uma cadência que se resolve. Em conjunto com a percussão, esses dois instrumentos fazem uma pausa (convenção) enquanto o saxofone faz uma melodia para introduzir o improviso. O solo é chamado aqui de E e tem como comandante o saxofone, que executa escalas be- bop características. Como mudança na execução instrumental, o contrabaixo passa a fazer o 30 walking bass, o violão faz a harmonia de apoio e a bateria entra com a vassourinha na caixa com batidas de baqueta em alguns momentos. Esse improviso caracteriza o estilo swing do jazz, que é mais dançante e rápido, combinando com a dinâmica do baião. Ao final da parte E, o jazz passa abruptamente para o baião, trazendo a sensação de fôlego que o swing proporcionou e obtendo êxito na transição do traço norte-americano para o estilo brasileiro. Essa retomada do baião é a parte A’, e começa no fragmento feito anteriormente na introdução com contrabaixo, violão e percussão. Trata-se de uma variação de A, pois quando a melodia-tema é exposta pela segunda vez a harmonia executada pelo violão sofre alterações com adição de dissonâncias, causando certo “desconcerto” no ritmo brasileiro. Na terceira vez em que o tema é reexposto, o saxofone realiza alguns floreios, utilizando ligados mecânicos. Depois disso, o saxofone ainda realiza melodias que variam do tema, caracterizando então a finalização com um acorde de resolução do violão. Esse “desconcerto” trouxe a harmonia jazzística para dentro do baião nordestino, mostrando sonoridades que se supõem inéditas até então. Resumo Nota-se a presença de baião e swing, be-bop, walking bass e improvisos jazzísticos. Observações No início, o som nordestino impera, com discretas intervenções do saxofone e seu toque “exótico” ao contexto brasileiro. O jazz, no entanto, assume a liderança na parte central, com a maior pureza e definição de estilo. Ao final, retoma-se o espírito nordestino inicial. O título da música é interessante (ainda que subserviente), como que explicando aos norte-americanos como pronunciar “batuque”. Faixa 10: Cariñoso (03:36) Trata-se, aqui, do conhecido choro de Pixinguinha e João de Barro. A parte jazzística se encaixa no estilo cool pela suavidade de andamento e tranquilidade da melodia. A forma é: introdução – A – B – C – A’ – D – A’’ – B’ – C’. A introdução tem a percussão realizando breve preparo de dois compassos para a entrada da melodia. No terceiro tempo do segundo compasso da introdução começa a melodia-tema (parte A) de Carinhoso em apojatura. O violão executa a melodia com acompanhamento de contrabaixo e percussão. A parte B decorre ainda com o violão protagonizando a melodia. No quarto compasso da parte C ocorre uma variação rítmica com a utilização dos contratempos chegando à convenção que dará início à parte jazzística. Na parte transitória, de dois compassos, acontece uma melodia descendente com a técnica de pull off (nomenclatura de guitarra ou violão para o ligado mecânico descendente). No segundo compasso 31 da transição o atabaque cede espaço ao prato de condução da bateria e logo depois surge um acorde dominante que prepara a reentrada da melodia do tema. A essa altura, na parte A’, a melodia fica com o saxofone, com algumas variações em relação à executada pelo violão (A). O acréscimo de escalas be-bop acontece na melodia da sessão A’. Porém, quando chega a parte D, que pode ser chamada também de improviso, as blue notes são mais frequentes. O que caracteriza a parte jazzística (A’ e D) seria a mudança rítmica (prato de condução), o walking bass do contrabaixo e as escalas be-bop. A parte D é equivalente às partes B e C da primeira metade da música; há mais utilização da melodia de C no improviso. Nos dois últimos compassos de D acontece novamente a transição com a melodia descendente e o acorde dominante que prepara a entrada do tema. A sessão A’’ inicia com o violão comandando a melodia e o saxofone fazendo floreios em contraponto. O contrabaixo e a bateria descrevem ritmo assemelhado ao choro, mas com certo caráter cool, mesclando os dois traços. Na parte B’ o violão executa a melodia normalmente, porém o saxofone faz um contraponto ao entrar com a melodia com um pequeno atraso, como ocorre nas primeiras gravações de Carinhoso. Na parte C’ a música segue com essa “melodia dupla” do saxofone e violão chegando ao seu final com a convenção (transição) presente no término de C e D. A faixa termina em fade out. Resumo Notam-se traços de choro, cool jazz, escalas be-bop e walking bass. Observações No início, novamente se tem a percussão que sugere ritmos caribenhos, não exatamente brasileiros. Feita a exposição do tema original, o jazz assume, extrapolando o tema original. Segue- se a mescla equilibrada entre Carinhoso e espírito jazz para finalizar a música. Para o título inventa-se um Cariñoso. Desnecessária e até ridícula “espanholização” do original. Faixa 11: Tocata (04:47) Tocata é composição de Radamés Gnattali. Como a faixa analisada anteriormente, Tocata é um choro com uma seção em cool jazz. Sua forma consiste em: introdução – A – A’ – B – A – C – D – E – introdução’ – A – A’ – B – A – C. A introdução apresenta percussão nos dois primeiros compassos. O contrabaixo entra nos dois compassos seguintes, totalizando assim quatro compassos. Feita a preparação, violãoe saxofone entram com a melodia-tema em uníssono (parte A). O contrabaixo intensifica o volume e aparece mais, num “jogo” de pergunta e resposta com a melodia principal. 32 Após o primeiro fraseado na sessão A, o violão faz uma escala em graus conjuntos, como se fosse uma passagem. A segunda metade da parte A começa então novamente com violão e saxofone fazendo a melodia em resposta à primeira metade. Esse segundo fraseado pode ser considerado também como uma variação do ocorrido no início. Ao final dessa segunda metade ocorre também uma melodia em graus conjuntos para a transição em direção à melodia da parte A’. Esse fraseado é descendente e começa com o violão, que logo em seguida passa a acompanhar o saxofone em uníssono. A parte A’ é uma variação de A, podendo ser considerada como um “resumo”, pois contém a melodia-tema e a última transição melódica descendente executada pelo violão e saxofone. Logo após vem a parte B com uma melodia aguda descendente executada por violão e saxofone. Na segunda metade da sessão B há novamente a transição em graus conjuntos descendentes executada pelos solistas. Depois dessa transição, entra a parte A novamente, como no início da música. Em seguida vem a seção C, que inicia com uma melodia aguda na qual se repete a mesma nota (execução do violão e saxofone em uníssono). A segunda metade da parte C é a transição (melodia descendente), feita por Laurindo Almeida e Bud Shank, para a parte D. Essa melodia atinge a região grave e “quebra” a euforia da música, dando espaço ao solo de violão que servirá de prelúdio (parte D) para a parte jazz (E). A parte D serve então como uma introdução à “calmaria” que virá depois. No momento em que o prato de condução da bateria entra em cena e o violão passa a realizar a harmonia, começa a parte E. Essa é uma sessão jazzística com ocorrência de blue notes. O que torna essa parte jazz também é o solo de saxofone, que empresta à música seu timbre, bem característico do estilo. O contraste com a primeira parte da música se dá pelo andamento e pela dinâmica, que na parte E é mais plana. Posteriormente, finaliza-se a parte jazzística, tanto em termos de cadência quanto de resolução instrumental. Contudo, logo em seguida, começa a introdução’, composta pelos dois compassos iniciais da primeira introdução, na qual a percussão faz a execução. Em seguida, ocorre a recapitulação da primeira parte (choro) que caminha para a finalização da faixa na parte C. Tocata apresenta contraste entre o “agitado” e o “calmo”. O prelúdio (parte D) é importante para a preparação do ambiente cool jazz que vem em seguida. A introdução’ se torna necessária para recapitular o choro sem que haja a necessidade de uma passagem abrupta. Resumo Notam-se traços de choro, cool jazz, seções jazzística e escalas be-bop. Observações Assim como em faixas anteriores, o início fica sob responsabilidade de um batuque que não define exatamente nem samba, nem choro, remetendo a uma ancestralidade afro-americana estilizada, batuque-jazz. Apenas quando o violão assume, sozinho, uma parte central, aparece o 33 toque chorão e seresteiro, que logo cede espaço a uma seção do mais puro cool jazz, que acaba por dialogar com o violão e perfazer a mescla entre estilos. O batuque-jazz inicial retorna e finaliza. Faixa 12: Hazardous (02:50) Essa música foi composta por Richard Hazard. Ao contrário das demais presentes no álbum, que têm seções jazzística, Hazardous tem características eminentemente espanholas, em especial do estilo flamenco. Sua forma tem: introdução – A – B – C – A’ – B’ – C’ – D – A – B – C’’. A introdução (dois compassos) inicia com percussão e contrabaixo preparando a entrada da parte A. De A até C, o violão é o solista enquanto o saxofone faz alguns floreios e fornece suporte à harmonia. Contrabaixo e percussão, como de costume, ficam na base harmônica. De A’ até C’ o saxofone passa a solista e o violão dá suporte harmônico. No início da parte C, o violão recebe o reforço melódico do saxofone em uníssono, enquanto que na parte C’ acontece o oposto, o saxofone recebendo “ajuda” do violão. A parte C’ tem também uma variação rítmica para a entrada de D. A sessão D, que pode ser chamada de refrão, fica com o saxofone, enquanto que o violão fica com a harmonia. Em seguida, recapitula-se a primeira parte da música, em que o violão era solista, caminhando assim para o final. A parte C’’ é mais uma variação de C e, no final, o violão mantém o acorde para que o saxofone faça um pequeno improviso para terminar a música. Resumo Notam-se basicamente traços de flamenco. Observações Assim como em Amor flamenco, esta faixa não deixa clara a síntese entre traços musicais brasileiros e norte-americanos. Torna-se curioso, portanto, o fato de ambas integrarem um álbum intitulado Brazilliance. Faixa 13: Nonó (03:01) Nonó, de Ricardo Peixoto, enquadra-se estilisticamente no samba, ainda que haja uma seção em cool jazz. O esquema básico é: introdução – A – B – C – A’ – B’ – C’ – D. A introdução dura dois compassos. O violão a executa para a entrada da parte A. Na primeira metade da música, de A a C, o violão faz o solo, harmonia e melodia. A parte A consiste em dois fraseados com respostas harmônicas. Na passagem de A para B ocorre um fraseado ascendente de três notas. A parte B é resposta à parte A, tendo um fraseado que inicia no agudo e se resolve na região mais grave, fechando assim o primeiro “arco”. 34 A sessão C entra como um refrão e traz uma nova proposta de melodia que se inicia no agudo. O segundo fraseado acontece um pouco mais agudo que o primeiro denotando maior tensão. O terceiro fraseado já propõe uma resolução, mas acaba numa cadência de engano para que a melodia aguda seja reiterada. Nesta segunda metade de C, a melodia da primeira metade é recapitulada e no terceiro fraseado há resolução em seu final (cadência). Na passagem para a parte A’, que seria a sessão jazzística, o violão realiza um acorde dominante. O saxofone assume então a melodia de A’, executando algumas variações em relação à parte A, com escalas be-bop. Novamente, o que caracteriza essa seção jazzística seriam as escalas típicas, a responsabilidade do saxofone com a melodia, a utilização do prato de condução da bateria e o walking bass. Na segunda metade da parte A’, o violão passa a fazer a melodia até o final da parte B’. O saxofone assume novamente na parte C’ entrando na melodia com mais força, até porque essa parte pode ser considerada um refrão. A primeira metade de C’ tem a melodia seguida pelo saxofone (com algumas variações em relação a C). Porém, na segunda metade se tem um breve improviso ao saxofone. Feito o improviso, o saxofone segue a linha melódica original. Nessa sessão (C) a harmonia é feita pela “cozinha” e violão. Após a parte C, há uma continuação que aqui é chamada de sessão D, na qual o saxofone improvisa, com as mesmas condições harmônicas, acrescido de floreios do violão. Finalizando, o saxofone realiza uma progressão melódica descendente por duas vezes. Resumo Neste samba nota-se a condução rítmica jazzística feita pelo prato, escalas be-bop e walking bass. Observações O violão, logo no início, esclarece suas raízes brasileiras, chorosas e seresteiras, e persiste assim, por um bom tempo. A entrada discreta do saxofone e a leve mudança rítmica preparam o espírito “jazzy” que logo explodiria, sem muitas concessões ao traço exótico brasileiro. O final brusco parece não resolver o dilema, ficando num meio termo meramente “burocrático”, um tanto apressado em terminar o encontro. Faixa 14: Noctambulism (04:40) Esta é composição de Harry Babasin, contrabaixista que atua no álbum. Em sua integridade trata-se aqui de um cool jazz devido à clareza da melodia/harmonia e ao andamento lento. A forma é: A – B – A’ – B’ – C – A’ – B’ – A’’ – B’’ –A’’ – B’’ - C’ – A’ – B’. A parte A começa com uma melodia em apojatura executada pelo saxofone, enquanto que violão, bateria e contrabaixo fornecem o suporte rítmico e harmônico. Essa sessão tem dois fraseados, sendo que 35 no final do segundo há uma passagem para a parte B com uma melodia ascendente. A parte B tem melodia bem mais alongada, com notas e fraseados longos. As seções A’ e B’ são variações de A e B. Nelas, o saxofone realiza pequenas modificações melódicas, com floreios. Chegando à parte C, a melodia descende, mas logo volta ao agudo. Ao final dessa sessão há uma “conversa” entre harmonia e melodia, na qual Laurindo Almeida fez um acorde e Bud Shank responde melodicamente. Depois de C, entram as parte A’ e B’ novamente, com algumas variações melódicas ao saxofone. Nas partes A’’ e B’’ o saxofone sai de cena e o violão assume melodia e harmonia. Após a recapitulação da atuação solo do violão (acompanhado pela bateria) chega-se à parte C’, na qual o saxofone volta a fazer a melodia. Na segunda metade de C’ ocorre um pequeno trecho de improviso do saxofone. Para finalizar a música, recapitula-se o tema um pouco variado (A’ e B’). Resumo Nota-se a ambientação cool jazz. Observações Nesta música, Laurindo Almeida antecipa as harmonias que seriam típicas aos bossanovistas. Mas é apenas ao solar, na parte central da música, que um espírito seresteiro surge, adicionando um levíssimo toque “exótico”, tonal, à ambientação eminentemente jazzística. Faixa 15: Blue baião (03:18) A última música do álbum é composição de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira. Como se poderia esperar, trata-se de um baião. Os improvisos revelam-se no estilo be-bop, com andamento mais rápido e melodias mais complexas. As partes são: introdução – A – B – A – B – C – B – A’ – B’ – A’ – B’ – D – A – B’’. A introdução começa com a melodia do tema executada pelo contrabaixo, porém com uma diferença rítmica em relação à parte A que virá em seguida. Depois que o contrabaixo faz a melodia, o instrumento de percussão responde com a mesma rítmica. Isso acontece por duas vezes até que a rítmica muda e o violão dá “a deixa” para a entrada do saxofone na parte A. A melodia da parte A e B são feitas pelo saxofone, enquanto violão e contrabaixo fazem o acompanhamento harmônico. A percussão é encarregada da rítmica clássica do baião. Depois da repetição de A e B, entra a parte C, que faz menção ao be-bop com o ritmo da percussão e da melodia do saxofone. Logo após é realizada a sessão B novamente para chegar à parte A’, na qual o violão fica encarregado da melodia-tema. Na primeira execução de A’ e B’ o saxofone fica em pausa. Porém, quando acontece a segunda execução, o violão faz a melodia em região mais grave, 36 o saxofone realiza alguns floreios e o prato de condução começa a aparecer. Essa segunda repetição de A’ e B’ funciona como preparação ao improviso jazzístico que logo virá. A sessão D é um improviso acelerado em estilo be-bop. Nessa parte Bud Shank mostrou seu virtuosismo, empregando escalas be-bop, arpejos e notas de passagem características do jazz. Em seguida o saxofone realiza a melodia-tema novamente (A) e a bateria ajusta o ritmo para o baião aproveitando os pratos utilizados no be-bop. A parte B’’ é uma variação de B e tem como diferença a finalização, que é floreada na melodia e no ritmo. Assim como Baa-too-kee, o baião e jazz se aproximaram e fundiram harmoniosamente. Resumo Notam-se escalas be-bop, notas de passagem características de jazz e baião. Observações O clássico de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira surge, aqui, fiel ao original, mas com notável ar de modernidade. Em seguida, no entanto, cede completamente ao be-bop, perdendo-se por completo, até que o saxofone, complacente, revê o tema, perfazendo breve coda. 4.1 Resumo das análises e breve discussão A maior parte das músicas que integram o álbum Brazilliance vol.1 promovem claros diálogos e misturas entre a música brasileira e o jazz. Traços de samba, choro, seresta, baião, lundu estilizado, batuque, swing, jazz, cool jazz, emprego de walking bass, escalas de be-bop, improvisos jazzísticos e escalas modais estão presentes nestas dez (10) faixas: Atabaque, Stairway to the stars, Acercate más, Speak low, Inquietação, Baa-too-kee, Cariñoso, Tocata, Nonó e Blue baião. Entretanto, boa parte da rítmica contida em Atabaque, Acercate más e Cariñoso é um tanto indefinida, pendendo para algo caribenho, não exatamente brasileiro. Em Speak low o toque brasileiro se dá apenas nas quebradas rítmicas aplicadas logo no início pelo violão “pré-bossanovista” de Laurindo Almeida. São curiosos os títulos espanholados de duas músicas, Acércate más e Cariñoso, contidas num álbum intitulado Brazilliance. Isto indica e confirma que, especialmente à época do lançamento do disco, a América Latina era algo exótico e desconhecido para o norte-americano em geral (JUNQUEIRA, 2000). Por isso, o espanhol ser considerado, por muitos, como a língua oficial de todos esses países, inclusive o Brasil. Os ritmos caribenhos presentes em algumas faixas reforçam esta constatação. 37 Em Terra seca o encontro entre Brasil e Estados Unidos não fica muito claro. Ocorre apenas que, em trechos centrais, o violão antecipa muito do que definiria a bossa nova em termos rítmico-harmônicos. O todo, porém, é nitidamente jazzístico. Isso torna o título “terra seca” (designativo geralista para Nordeste brasileiro) bem fora de contexto, artificial. O mesmo ocorre com Noctambulism, em que Laurindo Almeida antecipa as harmonias que seriam típicas aos bossanovistas. Mas é apenas ao solar, na parte central da música, que um espírito seresteiro surge, adicionando um levíssimo toque “exótico”, tonal, à ambientação eminentemente jazzística. Apenas duas músicas prescindem de traços brasileiros: Amor flamenco e Hazardous. É no mínimo curioso que isso ocorra num álbum intitulado Brazilliance. Contudo, é compreensível, dado que, pela mentalidade norte-americana da época, qualquer traço latino podia, sem problema algum, ser vinculado aos países latino-americanos, já que esses formavam um todo indefinido. 38 6. CONSIDERAÇÕES FINAIS Como dito nas partes iniciais desta pesquisa, o jazz e o samba têm raízes africanas, de modo que nada foi mais “natural” e consequente do que promover sua reunião. Nesse sentido atuou Laurindo Almeida, com suas experimentações e misturas, assim como havia feito Pixinguinha, anos antes. Ambos eram artistas de trânsito internacional, para os quais, mais do nunca, cultura era mistura, apropriações e disseminações, via de mão dupla. Com a década de 1950, não apenas jazz e samba misturaram. Jazz e rock and roll, por exemplo, selaram nova união que, até hoje, prolifera nesse rico cenário contemporâneo pleno de fusions. As circunstância da vida de Laurindo Almeida o levaram ao caminho da experimentação, da síntese. As aulas de música clássica, as serestas e os ouvidos atentos ao que ocorria no cenário da música popular massiva e, certamente, pelas emissoras de rádio acentuaram nele esse gosto pelo aproveitamento de tudo, firmando sua identidade musical multifacetada. Daí se concretizaram as premiações que Laurindo recebeu nos Estados Unidos nas mais variadas esferas musicais e seu mergulho em ambientes eminentemente jazzísticos. A primeira metade do século XX no Brasil foi rica quanto a posicionamentos acerca das nocivas “influências” externas. Segundo os tradicionalistas mais radicais, o jazz e bolero estavam superando o samba e as raízes brasileiras, sob risco de estes desaparecerem. No entanto, essas “evoluções” eram, e foram, inevitáveis, como sabemos hoje e nada mais pode ser feito a respeito a não ser discutir e analisar os discursos e ideologias que à época se praticavam. O álbum Brazilliancevol.1, foco desta pesquisa, foi “ponta de lança” naquele cenário. Documento sonoro vivo que nos permite experimentar auditivamente as movimentações interculturais que ocorriam na época. Se até então apenas o choro dava espaço a variações instrumentais espontâneas, Laurindo Almeida e Bud Shank aproximaram essa música brasileira - o samba e tantos outros traços musicais - aos improvisos de matriz jazzística, promovendo interessante intercâmbio e mescla sonora. Laurindo, mais que isso, foi precursor da bossa nova, movimentação musical brasileira campeã suprema em termos da quantidade de polêmicas, estudos, publicações e análises que já mereceu (GAVA, 2006). Só esta constatação já bastaria para reafirmar a relevância do violonista para a cultura musical brasileira - e mundial. Se este fosse o objetivo central desta pesquisa, por certo ele teria sido atingido. Mas o objetivo foi outro. Com esta pesquisa foi possível comprovar as misturas havidas entre jazz e ritmos brasileiros, especialmente o samba, o choro e o baião, e avaliar em detalhes como essas mesclas 39 se deram. Cada música do álbum Brazilliance vol.1 realizou isso ao seu modo. A maioria, dez ao todo, foram exemplares nessa simbiose, ora justapondo estilos horizontalmente, com seccionamento mais ou menos definido; ora sobrepondo-os verticalmente, fundindo-os. Apenas em duas faixas do álbum essa união entre samba (ou outros traços musicais brasileiros) e jazz não se concretizou como o esperado. Desta forma, pode-se considerar finalizada esta pesquisa ao confirmar que o álbum Brazilliance vol.1, de 1953, de fato merece o posto de marco-histórico fundamental da corrente samba-jazz. Merece, também, o posto de precursor do estilo bossa nova, que surgiria cinco anos depois e que, mais do que qualquer outra música brasileira, seduziria o mundo todo. 40 REFERÊNCIAS ALL ABOUT JAZZ: Bud Shank: Four Classic Albums. 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Disponível em: http://www.vitorrents.net/torrent/c9d30321e133b7da1205771687422085s228e9b. http://www.vitorrents.net/torrent/c9d30321e133b7da1205771687422085s228e9binstrumentos tradicionais do samba estavam fazendo, que o ouvinte desse estilo musical pedia por “um cavaco, um pandeiro e um tamborim”. Carlos Lyra, por sua vez, relatava, em sua Influência do jazz, que as mutações trazidas pelo jazz fizeram este praticamente desaparecer. De acordo com Marcus Facchin Bonilla, em seu artigo Disseram que o samba voltou americanizado (2011), as mudanças que estavam ocorrendo com o samba por influência estrangeira nesse período poderiam ser consideradas como recorrentes, ou seja, eram parte de um processo mais antigo. “Estão em jogo elementos de autenticidade, sociológicos, mercadológicos e políticos que datam, pelo menos, do começo do século passado” (BONILLA, 2011, p.503). Essa recorrência se confirma pelo fato de que pesquisadores, jornalistas e músicos do século passado já abordavam esse assunto. As mudanças às quais a música popular foi submetida fizeram parte dos artifícios para a construção de uma dada mentalidade, como cita Ortiz, segundo Bonilla. O que se iniciou no Brasil, na década de 1920, foi a promoção do samba e da canção nas rádios e na indústria fonográfica como um todo. Como citado anteriormente, o samba teve essa grande repercussão devido à industrialização que ocorreu na década de 1920. Para José Ramos Tinhorão (1998), a música se tornou um produto devido à influência da indústria norte-americana. O mercado musical brasileiro era dominado pelos grandes centros europeus e pela América do Norte. A música artística (clássica ou de concerto) também estava se subordinando a formatos comerciais, tornando-se, igualmente, 4 produtos “de prateleira”. Tinhorão colocou ainda que a instalação das gravadoras no Brasil, no início do século XX, promoveu a música brasileira que até então era amadora e pouco conhecida, consequentemente pouco valorizada. Outra coisa que as gravadoras trouxeram foi a divulgação da música norte-americana em território brasileiro. Já nos Estados Unidos, segundo Hobsbawm (1990), a música que estava adquirindo tal caráter comercial era o jazz, que também tinha as origens de ritmo africano, porém com uma influência europeia francesa. A aceitação da música norte-americana no Brasil, na década de 1930, deu-se, segundo Bonilla, devido à boa qualidade das gravações e dos arranjos. O que era estrangeiro era elegante segundo as propagandas comerciais. De acordo com Bonilla, na medida em que os produtos americanos iam chegando, a demanda ia aumentando e os programas de rádio com música estrangeira se multiplicavam. A vinda dos produtores Wallace Downey, para trabalhar na gravadora Columbia, e de Leslie Evans, para trabalhar na RCA Victor, possibilitou fortes intercâmbios entre Brasil e Estados Unidos. Com o impulso estrangeiro as gravações se tornaram mais profissionais e produtos brasileiros estavam sendo exportados. Radamés Gnattali era a referência em termos de roupagem europeia, sofisticação e modernidade, enquanto Pixinguinha estava sendo deixado de lado e ganhando o estereótipo de antigo e tradicional, ou seja, ultrapassado ou obsoleto (BONILLA, 2011, p.505). Almirante (Henrique Foréis Domingues), cantor, pesquisador e radialista muito influente nas décadas de 1940 e 1950), preocupado com essas reviravoltas musicais que ocorriam no Brasil, sentiu-se na obrigação de fazer um programa de rádio com músicas da velha guarda, com Pixinguinha e outros tantos (LIMA, 2012, p.12). O resultado foi a retomada da carreira de Pixinguinha na década de 1930. Almirante defendia que era preciso mostrar ao Brasil o que era realmente daqui. O que existia no Brasil, era de certa forma um tradicionalismo compreensivo em prol da conservação da música nacional. Contudo, a origem da música brasileira veio também de fora, mas tomou o seu próprio caminho. O que estava ocorrendo era o mesmo processo, a unificação do que já existia no Brasil com algo internacional, tomando um formato novo, mas não deixando de ser brasileiro. Em seu livro Hello, Hello Brazil, Bryan McCann aborda essa questão recorrente na canção brasileira de forma histórica e política. Além de todas as discussões sobre a própria formação do samba que, segundo o autor, só passa a ser respeitado como tal, entre outros acontecimentos, pelo fato de ter passado por um processo de fusão com a música erudita, McCann aponta que o marco da influência política estrangeira na música brasileira foi em 1931 com a composição de Lamartine Babo intitulada Canção para inglês ver, que como o nome sugere, faz uma crítica irônica dessa relação (BONILLA, 2011, p.506). Primeiramente, julga-se aqui pertinente criticar o conceito “música erudita” da citação. Teria sido melhor o termo “música clássica” ou “de concerto”, mais adequados para delimitar o 5 tipo de música referido. O adjetivo “erudito”, apesar de ser consensual, contém o paradoxo de que a música não tem como ser erudita, ainda que seu compositor assim o seja. O termo “erudito” tem ainda caráter excludente, relegando a planos inferiores o resto da produção musical. O autor afirmou que a música Canção para inglês ver foi mesmo um marco ocorrido na década de 1930 (Carmem Miranda usou palavras comuns no uso diário), tornando explícita a tradição de negociação de influência estrangeira na música popular. Lamartine Babo utilizou nessa canção a mistura das línguas, fazendo uma brincadeira irônica com as palavras. Isso pode ser trazido para a atualidade, devido às tantas palavras que a língua brasileira adotou de outros idiomas. Um forte sentimento nacionalista imperava desde a década de 1930 até meados da década de 1950. Porém, os próprios defensores desse patriotismo incorporavam, mesmo que inconscientemente, os elementos estrangeiros tanto criticados e repudiados. Carmem Miranda era um exemplo de que a música estava em dualidade, confundindo assim o estrangeiro e nacional. Antes mesmo de Carmem Miranda ir para os Estados Unidos, ela já havia interpretado a música Goodbye de Assis Valente, composta em 1932, que foi a primeira, afirmou Bonilla, a empregar termos estrangeiros, criticando o maneirismo do linguajar brasileiro. Yes, nós temos bananas (1938), de João de Barro, também criticava a política de commodities dos Estados Unidos sobre os países da América Latina. A política da boa vizinhança começou partindo do presidente americano Rooselvelt, tornando a influência estadunidense “legal” e que, por outro lado, expandiu a cultura brasileira internacionalmente, podendo ser vista como uma troca de favores (BONILLA, 2011, p.507). Carmem Miranda fez sucesso no Brasil e não demorou muito para deslanchar no exterior também. Quando chegou aos Estados Unidos apresentou Banana da Terra e O que que a baiana tem? aos americanos, passando desde a Broadway até Hollywood. Com o problema de arrecadação de direitos autorais (Associações de Arrecadação de Direitos Autorais) o repertório brasileiro da cantora foi diminuindo e a introdução da música americana estava acontecendo com mais frequência. Quando Carmem voltou ao Brasil e se apresentou no Cassino da Urca, não foi bem recebida. Tal fato fez com que a cantora encomendasse a Vicente Paiva e Luiz Peixoto a música que foi uma das principais de seu repertório: Disseram que eu voltei americanizada. Nessa composição veio o desabafo sobre tal preconceito e, ao cantar a letra, Carmem tentou explicar que “ainda era brasileira” (embora tendo nascido em Portugal) (ibidem, p.508). Dentre outras composições que empregavam termos em inglês temos Às urnas, de Sinhô, Ary Barroso, Luiz Iglésias e Freire Junior; Alô John e OK, de Jurandir Santos e Brasil pandeiro, de Assis Valente (ibidem, p.509). Além de Carmem Miranda, outros artistas estavam dispostos a se “internacionalizarem”: Denis Brean com sua obra Boogie woogie na favela, Dick Farney com Copacabana e Os Cariocas com Adeus, América. 6 A partir da década de 1940, houve intenso uso de ritmosestrangeiros, como bolero e bebop. Foi em 1958 que começou o movimento dos “garotos” da Zona Sul do Rio de Janeiro, que depurou o samba tradicional, “batucado”. Notou-se um processo gradual de mutação no samba em direção à bossa nova. De acordo com Tinhorão (1998), deixar de lado a riqueza do ritmo brasileiro era sinônimo de alienação e ignorância, hipnose pelo que era norte-americano. Bonilla afirmou que a bossa nova foi responsável pela maioria dos royalties culturais brasileiros no exterior na época. É possível afirmar que a aceitação internacional da bossa nova se deu pelo fato de ela ter se apropriado de harmonias jazzísticas, já bem assimiladas mundialmente. Laurindo Almeida, além de músico popular (jazzístico e sambista), vinculado, portanto, à indústria do disco, foi também um bom músico clássico. Pela historiografia do violonista pode- se colocar que o foco estava na mistura, tanto por ser fluente em diferentes estilos musicais quanto por gostar de experimentar. Se o objetivo central de Laurindo era fazer a junção do jazz com a música brasileira, para isso foi necessário um tempo de experimentação com jazz diretamente na fonte, ou seja, nos Estados Unidos, tornando a assimilação mais orgânica. Assim, o álbum Brazilliance vol.1, de 1953, consistiu no que se pode chamar de “samba jazz”. Ao ouvi-lo, percebem-se melodias brasileiras interagindo com elementos tipicamente jazzísticos. Bonilla colocou o termo “transnacional”, citado por Micol Seigel, em que eventos começam a fazer parte do dia-a-dia, não importando sua origem. Assim, a afirmação de que certo tipo de música pertenceu a tal lugar ou a tal país cai por terra. Sobre o tema em questão, o autor propõe o termo “fricção de musicalidades” para tentar explicar as tensões entre a música brasileira e a norte-americana no jazz brasileiro. Para Piedade, antes que musical, essa relação é cultural. Ao mesmo tempo em que a música instrumental brasileira canibaliza o paradigma do bebop, ela procura se afastar ao máximo da música norte-americana. É de senso comum que existe uma hegemonia americana, fazendo com que a apropriação do jazz seja considerada invasiva e indesejada na cultura brasileira, porém os elementos estrangeiros são usados de acordo com a necessidade, reforçando a cultura nacional (PIEDADE apud BONILLA, 2011, p.511). Compositores brasileiros exploraram, então, elementos internos e externos sem perder a brasilidade. Segundo Bonilla, por um relato de Piedade, o termo “influência” teria já perdido sua força e sentido. Certos compositores de linhagem popular da época, senão a maioria, utilizavam elementos brasileiros reconhecíveis conjugados a elementos musicais estrangeiros. Nesse contexto, o processo de junção do samba com o jazz poderia ser chamado de evolutivo, “natural” e praticamente inevitável. Como relatou o colunista Robert Celerier, no Correio da Manhã de 25 de outubro de 1964, o primeiro disco de samba-jazz foi intitulado de Turma da Gafieira. Nele, a exploração 7 jazzística era presente no piano com João Donato e os irmãos Castro Neves. “Ainda não se sabia, ao certo, se o caminho a seguir consistia em tocar samba em ritmo de jazz ou jazz em ritmo de samba!” (CELERIER, 1964, p.3). A recepção do trabalho, contudo, não foi boa sendo a execução de jazz considerada amadora. Os músicos profissionais da época se sustentavam tocando em bailes, gravando discos ou trabalhando em rádios. Porém, pensar em solos livres e fugir do script não era rotina. A musicalidade dos improvisadores era explorada nos poucos concertos de jazz que havia (jam sessions) ou nos bailes de gafieira mais sofisticados. As práticas dessa “nova onda” podiam ser encontradas em casas particulares em que se reuniam alguns famosos como, por exemplo, Baden Powell. O movimento foi crescendo e já era possível encontrar uma sessão semanal de jazz no Little Club, no qual os músicos não recebiam praticamente nada por tocar. A bossa nova então ia se firmando, acostumando seus ouvintes às harmonias “modernas”. O disco seguia como o mais forte meio de divulgação e produto musical. A bossa nova teve sucesso no exterior juntamente como o jazz-samba de Stan Getz e Charlie Byrd, em inícios dos anos de 1960, incentivando assim muitos produtores musicais brasileiros. Outro marco para o samba-jazz no Brasil foi a gravação do disco Moderno instrumental do Trio Tampa do pianista Luizinho Eça. A Companhia Brasileira de Discos contou com esse grupo para gravar o álbum, já que esses músicos estavam em evidência nas temporadas de apresentações nas boates Bottle’s Bar e Bon Gourmet. Outro dado: Juares, um saxofonista tenor em destaque em sessões no Little Club, gravou o disco Bossa-Nova nos States pela gravadora Masterplay. Apesar da boa recepção pelo público, o disco ainda deixou a desejar pelo uso de padrões convencionais nos arranjos, além de as músicas serem curtas, não tendo assim espaços para solos (que era o principal para esse estilo em ascensão) (ibidem, p.3). Celerier afirmou que a gravadora que resolveu investir no novo estilo foi a RCA Victor, ao gravar o disco Brazilian Jazz Sextet, extrapolando o tempo comum de três minutos que as faixas normalmente tinham e permitindo improvisos mais livres. Com esse disco ficou claro que o músico brasileiro ainda não havia absorvido devidamente o jazz, provando que a migração de Laurindo Almeida para os Estados Unidos foi muito válida. Beber, de certa forma, direto da “fonte” colocou Laurindo um passo à frente dos demais músicos brasileiros (ibidem, p.3). A desconfiança dos críticos musicais da década de 1950 em relação à mescla entre samba e jazz evidenciava um tradicionalismo equivocado; um receio de que nossa música desaparecesse diante do imperialismo cultural norte-americano. Se o samba resultou do lundu e do maxixe, assim também ocorreu com o samba-jazz, que uniu dois ramos musicais que, não obstante a distância geográfica, tinham a música africana como base; dois extremos que, enfim, se reencontravam (MCCANN, 2010, p. 104). 8 2. LAURINDO ALMEIDA (1917-1995) Ainda criança, os primeiros contatos musicais de Laurindo Almeida aconteceram na cidade paulista de Santos, onde ele aprendeu algumas lições ao piano com sua mãe. A família Almeida cultivava muita música em casa, com audições de músicas de vários gêneros e estilos. Laurindo também teve algumas aulas ao piano com sua irmã Maria Elisa, que foram adaptadas por ele para serem tocadas ao violão, instrumento que nesse período era marginalizado e considerado como pertencente às camadas mais baixas da sociedade e que Laurindo praticava em segredo. Quando a família Almeida se mudou para a cidade de São Paulo, Getúlio Vargas tomou o governo por meio de um golpe (década de 1930), mandando fechar todas as instituições legislativas do país, demitindo todos os presidentes dos Estados (exceto o de Minas Gerais) e colocando interventores em seus lugares. Em 1932 ocorreu a Revolução Constitucionalista de São Paulo, que convocou aproximadamente 135 mil homens para lutar contra o governo. Entre os convocados estava Laurindo, que posteriormente teve uma inflamação na virilha. No hospital, por conta da inflamação, conheceu o também violonista Garoto, que tocava voluntariamente para os feridos da guerra. Aí então nasceu uma parceria (FRANCISCHINI, 2009, p.18). Graças ao rádio, os músicos da época garantiram seu sustento através de contratos. Laurindo Almeida, depois de se apresentar em um evento de grande visibilidade, foi convidado para trabalhar na rádio São Paulo. Depois, também atuou na rádio Record ao lado de Armando Neves, seu “padrinho musical” (ibidem, p.20). Em 1936, Laurindo ingressou na rádio Mayrink Veiga, então aquela de maior repercussão do período. Segundo Alexandre Francischini (2009), o Rio de Janeiro daquela década era o maior centro político, econômico e cultural do país devidoà sua atividade cafeeira e aplicações industriais. Consequentemente, o Rio era também o destino das pessoas que procuravam por melhores oportunidades de trabalho e assim fez Laurindo. Chegando lá, o jovem músico ingressou na regional da rádio Mayrink Veiga, na qual trabalhou ao lado de grandes nomes como Pixinguinha e Garoto. Com o último, formou a Dupla do Ritmo Sincopado e o Conjunto de Cordas Quentes, que acompanhavam artistas, como Dorival Caymmi, compunham arranjos e gravavam pela Odeon, RCA Victor e Continental Records. Pela Mayrink Veiga, Laurindo trabalhou também com Carmem Miranda, realizando algumas produções como acompanhante e gravou duas músicas suas juntamente com ela: Mulato antimetropolitano e Você nasceu para ser grã-fina. Foi convidado por Carmem para fazer parte do Bando da Lua, grupo oficial que acompanhava a artista, porém recusou. Um relato de seu irmão, 9 Edgar Almeida, diz que Laurindo recusou o convite devido à invisibilidade que os músicos acompanhantes tinham na época. Ainda pela rádio Mayrink, ele trabalhou com Radamés Gnattali. Em 1950, Radamés dedicou a Laurindo o Concerto nº1, Concerto Carioca, que tinha como formação violão elétrico, piano, orquestra sinfônica e bateria de escola de samba. Gnatalli dedicou mais nove obras a Laurindo Almeida, sendo de maior destaque Atabaque e Tocata. Em 1940, o então presidente dos Estados Unidos Franklin Delano Roosevelt promoveu sua “política de boa vizinhança” com os demais países do continente. Mandou ao Brasil o maestro Leopold Stokowsky, juntamente com sua orquestra All American Youth Orchestra, para que selecionasse os músicos de maior reconhecimento local com o intuito de compor uma coletânea. Para isso, Stokowsky pediu ajuda a Heitor Villa-Lobos, Angenor de Oliveira (Cartola) e Ernesto Joaquim Maria dos Santos (Donga), principalmente, para fazer a seleção dos músicos e compositores brasileiros. Por fim, reuniram-se dez músicos, dentre eles, Pixinguinha e Laurindo Almeida (ibidem, p.28). Como resultado da iniciativa de Franklin Roosevelt, em 1942 foi lançado, nos Estados Unidos, pela Columbia Records, o álbum Native brazilian music, que reuniu músicas de Pixinguinha, João da Baiana, José Gonçalves (Zé da Zilda) e Laurindo Almeida, dentre outros. No Brasil, o álbum foi lançado somente em 1987 e surtiu pouco efeito na carreira de Laurindo Almeida. A gravação da coletânea, no entanto, serviu para aproximar Laurindo Almeida de Heitor Villa-Lobos, tornando-os grandes amigos. Mais tarde, Laurindo divulgou a música de Villa-Lobos na Europa e nos Estados Unidos e gravou algumas composições do amigo pela Capitol Records. Francischini relata que Celina Cortes publicou no Caderno B do Jornal do Brasil (25 de fevereiro de 1996) que Laurindo Almeida foi um embaixador de músicos brasileiros nos Estados Unidos, divulgando a música de Heitor Villa-Lobos e Radamés Gnattali (ibidem, p.29). Em 30 de abril de 1946, o presidente Eurico Gaspar Dutra colocou em prática o decreto- lei nº 9.215, que proibiu todo e qualquer tipo de jogo de azar em território nacional. Como consequência, foram fechados todos os cassinos no Brasil e cerca de 40 mil artistas e funcionários perderam seus empregos da noite para o dia, incluindo Laurindo Almeida. O violonista trabalhava no Cassino da Urca desde 1942, o que lhe garantia boa condição financeira, apoiada por atividades também nos cassinos Copacabana, Atlântico e Icaraí. Laurindo compôs em 1939, juntamente com Ubirajara Nesdan, uma marchinha chamada Aldeia de Roupa Branca, em homenagem a uma colônia portuguesa no Brasil. A gravadora RCA Vitor fez uma versão inglesa dessa música que se intitulou Johnny Peddler, sendo de grande repercussão nos Estados Unidos, auxiliando na divulgação do nome de Laurindo Almeida por lá. Perdido seu emprego nos cassinos cariocas, Laurindo Almeida vendeu seu apartamento, seu carro 10 e migrou com sua esposa para os Estados Unidos no dia 16 de março de 1947 (FRANCISCHINI, 2007). Finalizada a Segunda Guerra Mundial, a economia norte-americana estava aquecida. Surgiam os rádios portáteis transistorizados, a televisão e os discos de vinil. A música de jazz era destaque mundial. O cinema alçava o posto de principal meio de comunicação e entretenimento, garantindo ótima fonte de renda aos artistas a ele ligados. Devido a esse contexto histórico e seu comprometimento com a carreira musical, Laurindo Almeida teve grande êxito nos Estados Unidos, morou em uma mansão em Los Angeles e foi um dos compositores de trilha sonora para filmes de Hollywood ao lado de John Williams. A primeira participação de Laurindo se deu em A song is born, filme que contou também com Benny Goodman, Jimmy e Tommy Dorsey, Ella Fitzgerald, Louis Armstrong e Nat King Cole. Esse era o primeiro trabalho do violonista dentre os mais de 800 que realizaria. Três filmes dos quais participou ganharam o Oscar: The Old man and the sea (1958), trilha sonora composta pelo maestro Dimitri Tionkim com a participação de Laurindo Almeida; The magic pear tree (1968), no qual a trilha e a execução foram do próprio Laurindo, e, por último, The unforgiven (1992), trilha de Lennie Niehaus na qual Laurindo fez um solo de violão. Laurindo Almeida participou também, logo quando chegou aos Estados Unidos, da orquestra de Stan Kenton, de 1947 a 1950. Ele conseguiu a vaga graças à indicação dos irmãos Jimmy e Tommy Dorsey, que o conheceram trabalhando juntos no filme A song is born. Com a orquestra de Stan Kenton, Laurindo fez turnês pelos Estados Unidos e Canadá, chegando a se apresentar em lugares renomados como o Carnegie Hall, o Hollywood Bowl e o Paramount Theater. Esse emprego trouxe a Laurindo fama e reputação, tendo sido nomeado pela revista Down beat como quarto melhor guitarrista do ano em 1948, segundo em 1949 e primeiro em 1958. A revista Guitar player de 1976, lançou uma edição comemorativa com os guitarristas de maior expressão da época e ao lado de B. B. King e outros nomes famosos estava Laurindo Almeida (ibidem, p.41). Stan Kenton solicitou a Laurindo que fizesse uma peça para violão que unisse música clássica, jazz e música popular brasileira (extraindo principalmente o ritmo desta última). Nasceu então a obra Amazônia que integrou o álbum The innovations orchestra (1950). Como se nota, a associação entre jazz e música brasileira já era um tanto corrente na vida musical de Laurindo Almeida. Segundo Francischini (2009), Laurindo Almeida era também um músico renomado no meio clássico. Em uma declaração feita, o violonista relatou que sempre foi um músico clássico, mas que foi levado a introduzir o popular por uma questão de sobrevivência, pois era o que o meio esperava dele na época. Dentre seus mais de cem álbuns produzidos nos Estados Unidos, mais de 50% foram de música clássica (ibidem, p.44). Laurindo gravou obras de Manuel de Falla, 11 Alessandro Scarlatti, Francisco Tárrega, Andrés Segovia, Bach, Debussy, Chopin, Ravel, Tchaikovsky e Beethoven. Laurindo recebeu cinco Grammy Awards, sendo quatro deles de música clássica: Grammy de Melhor Performance Instrumental de Música Clássica, Solista e Duo, álbum The spanish guitar of Laurindo Almeida (1960); Melhor Performance de Música Clássica, Vocal e Instrumental, álbum Conversations with the guitar (1960); Melhor Composição Contemporânea de Música Clássica, peça Discantus, para três violões (1961); Melhor Performance Instrumental de Música Clássica, para Solista e Orquestra, álbum Reverie for spanish guitars (1961). A peça Discantus concorreu com a peça Movements for piano and orchestra de Igor Stavisnky, que mais tarde (1965) convidou Laurindo para gravar uma série de quatro canções russas nomeadas Four russian peasant songs. Com Deltra Ruth Eamon (Didi Almeida), sua quarta e última esposa, Laurindo gravou em 1972 pela Orion Records três álbuns: Intermezzo, Virtuoso e Thetwin guitars of Laurindo Almeida. Laurindo gravou com a orquestra de Los Angeles (1980), pela gravadora Corcord Jazz Record, a obra The first concert for guitar and orchestra. Nessa época, Laurindo Almeida já era um referencial quando o assunto era violão clássico (ibidem, p.45). Em 1950, depois de participar da orquestra de Stan Kenton, Laurindo Almeida formou o grupo Laurindo Almeida Quartet, que contava com o saxofonista Bud Shank, que também havia integrado a orquestra de Kenton. O quarteto lançou, pela World Pacific Records, um álbum com três volumes intitulado Brazilliance, à frente analisado. Esses álbuns buscavam a fusão do jazz norte-americano (em que há espaço de chorus de improvisação em meio aos temas) com ritmos brasileiros. O lançamento dessa coletânea antecipou em dez anos a primeira aparição da bossa nova nos Estados Unidos (ibidem, p.47). Com o grupo The Modern Jazz Quartet, do conhecido pianista John Lewis, Laurindo fez turnês pela Europa, Estados Unidos e Japão em 1963 e 1964. O L. A. Four foi outro grupo formado por Laurindo Almeida em 1970. A origem do nome fez menção às iniciais de Laurindo Almeida e das inicias da cidade de Los Angeles, de onde eram os integrantes. Em sua formação estava novamente o saxofonista Bud Shank. Entre 1970 e 1985, o quarteto lançou cerca de dez álbuns pela gravadora Concord Jazz Records, todos eles focados em mesclar o jazz, música clássica e música popular brasileira. A mistura de linguagens musicais era o que Laurindo Almeida buscava desde que chegou aos Estados Unidos. Desfeito o grupo L. A. Four, Laurindo juntou-se com o guitarrista Larry Coryell e com o violonista Sharon Isbin, formando o Guitarjam. Em 1985, lançaram o álbum Three guitars three pela gravadora Pro Arte, adquirindo assim grande prestígio. Na década de 1980, Laurindo formou um duo com o violonista Charlie Byrd gravando quatro álbuns pela gravadora Concord Jazz Records. De 1980 a 1995, Laurindo Almeida formou também o Laurindo Almeida trio, com o contrabaixista Bob Magnussen e o baterista Jim Plank. Em 1964, Laurindo gravou o álbum Guitar 12 from Ipanema, pela Capitol Records, e por ele ganhou o Grammy de Melhor Performance Instrumental de Jazz, competindo com renomados nomes como Henry Mancini, Quincy Jones e Miles Davis. Segundo Francischini, em 1957, Laurindo Almeida veio ao Brasil e trouxe consigo o álbum Brazilliance vol.1 para que seus amigos ouvissem. É possível que as audições tivessem gerado, ou contribuído, para a ideia do que viria a ser a bossa nova posteriormente (FRANCISCHINI, 2009, p.51). Em 1967, Laurindo veio ao Rio de Janeiro como convidado especial do II Festival Internacional da Canção, produzido pela TV Globo, e recebeu o troféu de Destaque do Mês, realizado em conjunto pela TV Continental e pela Revista Radiolândia. Em 1972 e 1987, Laurindo veio ao Brasil para fazer parte do júri do Concurso Internacional de Violão Villa-Lobos, sendo convidado por Arminda Villa-Lobos e Turíbio Santos, respectivamente. Aproveitando a estadia brasileira de 1987, Laurindo apresentou-se no Free Jazz Festival em São Paulo, quando os brasileiros puderam conhecer esse músico brasileiro radicado no exterior. No início da década de 1990, Laurindo Almeida foi diagnosticado com câncer (leucemia) e precisou de tratamento com quimioterapia e radioterapia, resultando numa queda considerável de sua produção musical. Como últimos trabalhos ele executou parte da trilha sonora do filme The unforgiven (1992), compôs a Suite aquarelle, em homenagem à cidade de Los Angeles (1993) e participou do álbum Naked sea em parceria com Danny Welton (lançado em 1995). Em 26 de julho de 1995, faleceu Laurindo Almeida no Valley Presbyterian Hospital, sendo sepultado no Cemitério e Parque Missão de San Francisco, em Los Angeles. Sua morte foi noticiada pelos jornais The New York Times e The guardians (Londres, Inglaterra). No Brasil foi noticiado pelo Jornal do Brasil com o título: Morre o violonista que acompanhava Carmem Miranda nos Estados Unidos, informação, aliás, incorreta. Em 23 de setembro de 1995, no teatro da California State University, Northridge, foi realizado um tributo em memória de Laurindo Almeida, tendo como participantes: Didi Almeida (viúva de Laurindo), Bud Shank, Charlie Byrd, John Pisano, Bob Magnussen, Jim Plank, Jimmy Stewart e Chuck Flores. Todos os citados são músicos que participaram da carreira de Laurindo Almeida em diferentes momentos de sua vida. Arquivos pessoais, dentre discos e partituras, estão sob a guarda do Departamento de Música da Biblioteca do Congresso Nacional dos Estados Unidos, em Washington, ao lado de obras de compositores como J. S. Bach, J. Brahms e gravações de Frank Sinatra (ibidem, p.55). 13 3. BUD SHANK (1926-2009) Cliffort Everett Junior, ou simplesmente Bud Shank, nasceu na cidade de Dayton, estado de Ohio, Estados Unidos, em 1926. Quando ele completou 20 anos de idade, em 1945-1946, o bebop era a “onda” do momento entre os jazzistas mais arrojados e foi essa a primeira influência musical que o saxofonista teve. Muitos músicos da época seguiam fielmente o saxofonista tenor Lester Young e posteriormente Charlie Parker e Dizzy Gillespie, quando o bebop foi inaugurado pelos dois. A mesma influência sucedeu com Bud Shank (JAZZ LOGICAL, 1998). Em 1947/1948, com 21 anos de idade, Bud Shank participou da orquestra de Charlie Barnet, na qual tocavam jazz com influências da orquestra de Duke Ellington. Quando Charlie Barnet estava ausente, Bud Shank assumia o papel de solista, sendo um de seus momentos preferidos. A orquestra de Barnet servia tanto para concerto quanto para baile. As big bands, do final dos anos 1940 e início dos anos 1950, eram muito contratadas para bailes, mas sempre iniciavam o espetáculo com um concerto que durava cerca de uma hora. Logo após, os dançarinos entravam e no resto da noite acontecia o baile. Shank afirmou que o formato de concerto seguido de baile foi se tornando padrão, sendo adotado posteriormente até mesmo pela orquestra de Stan Kenton (ibidem, 1998). Bud Shank iniciou os estudos em música com o clarinete, na cidade de Vandalia, Estado de Ohio, por influência de Benny Goodman e Artie Shaw, que ouvia no rádio. Na Universidade da Carolina do Norte foi onde o músico passou a tocar sax alto, sendo comparado posteriormente com Lester Young pelo som suave e leve que produzia. Com 23 anos de idade, Shank já era responsável pela sessão de saxofones da orquestra de Stan Kenton, na qual ingressou em 1946, tocando ao lado de Art Pepper. Na década de 1950, o que ajudou o saxofonista a ter reconhecimento foram as apresentações no clube The Lighthouse. Mais adiante Shank tocou flauta nos álbuns Improvisations, de Ravi Shankar, e Koto & Flute (The Japanese koto music of Kimio Eto featuring the flute of Bud Shank), de Kimio Eto, e saxofone no LP Bud Shank plays, com Manny Albam, Vic Lewis e a The Royal Philharmonic Orchestra (álbum de 1987, gravadora Concord Club) (NPR, 2016). Bud Shank tocou no clube The Lighthouse Café em Hermosa Beach no início dos anos de 1950, e gravou juntamente com outros músicos o álbum Howard Rumsey’s lighthouse all-stars vol.6 em 1955. Bud Shank tocou, além do sax alto, flauta, em duas faixas desse álbum. Em uma de suas declarações, de 1984, ele disse que precisou optar entre a flauta e o saxofone alto. Para 14 isso ele pensou na essência, ou seja, no que o levou a se tornar músico e qual estilo queria tocar. Ficou com o saxofone alto, pois os estudos com a flauta o estavam impedindo de se dedicar ao seu instrumento primário. O músico declarou que era quase como ser duas pessoas diferentes, sendo impossível dominar bem os dois instrumentos. Segundo o próprio Bud Shank, a coletânea Brazilliance, nas décadas de 1950 e 1960, não pretendia ser bossa nova, mas jazz com melodias brasileiras - jazz comfolclore brasileiro. O saxofonista ainda revelou que o contrabaixista, Harry Babasin e o baterista Roy Harte, responsáveis pela parte rítmica do grupo, não tinham ideia do que iam tocar e, de certa forma, acabaram “improvisando”. Pelo fato de a “cozinha” (contrabaixo e bateria) do grupo ser americana, os ritmos das partes brasileiras do disco saíram americanizados (CONSERVATÓRIO DE BELAS ARTES DE JOINVILLE, 2016). Aconteceu aí uma experiência pela qual Laurindo Almeida esperava: a mistura da música brasileira com o jazz através da releitura por parte de músicos norte-americanos. Ainda assim, Shank insistia em afirmar que Brazilliance não tinha intenção nenhuma de ser disco de bossa nova e sim de jazz com música brasileira. Bud Shank realizou trabalhos de trilha sonora para filmes como Slippery when wet, no qual trabalhou no final da década de 1950 ganhando indicação ao Oscar, e Barefoot adventures. O saxofonista tocou ainda saxofone baixo na trilha do filme Private hell 36 (Don Siegel, 1954) e fez uma participação musical no filme War hunt. Nomes como Dave Brubeck, Shorty Rogers, Shelly Manne, Jimmy Giuffre, Bob Cooper e o próprio Bud Shank, em conjunto com suas experiências e práticas musicais, criaram uma sonoridade particular à east coast. Brubeck e Paul Desmond (que ajudou no desenvolvimento dos saxofonistas) foram dois dos poucos que não deixaram suas big bands e orquestras na East Coast para gravarem discos em Los Angeles (JAZZ LOGICAL, 1998). Esse êxodo musical de uma cidade para outra e o sucesso atingido chamaram a atenção dos nova-iorquinos que nomearam esse estilo musical de east coast jazz. Segundo o saxofonista, o bebop foi dando espaço ao east coast por um processo natural, um desenvolvimento que partiu do que vinha antes para o que estava em ascensão na época. Do dixieland de 1925 até o jazz de John Coltrane de 1965 foram-se 40 anos, explicando assim a evolução rápida e mostrando a grande distinção entre as sonoridades. A era do rock estava começando e dando vazão a estilos de forte apelo, voltados ao público mais jovem. Para Shank, a tentativa de avivar novamente o jazz aflorou com o quarteto L. A. Four, do qual Laurindo Almeida era integrante e fundador (1970). O intuito era obter grandes audiências, o que acabou funcionando, mas não cumpriu as expectativas de um “avivamento jazzístico” (ibidem, 1998). Bud Shank gravou com Perez Prado, pianista cubano, arranjos de Shorty Rogers. O saxofonista tocou com Miles Davis em 1953 no clube The Lighthouse e em 1955 no festival Blue 15 Note, na Filadélfia. No festival de Newport de 1955, na cidade com o mesmo nome, apresentou- se com Miles Davis (quando recebeu convite para tocar no festival Blue Note por dez dias), Gerry Mulligan e Kay Winding. Em 1954, Shank apresentou-se com Frank Sinatra na Austrália. Segundo David Rickert, Bud Shank foi um músico que soube atuar em diferentes configurações, big bands, estúdios e clubes. Em 1957, Shank gravou o disco Bud Shank plays tenor, aventurando-se a tocar um instrumento mais grave. Em 1958 foi lançado o álbum The swing's to TV, que continha temas tocados em programas de televisão em versão de swing. Outra inovação desse disco é a combinação dos timbres da flauta, tocada por Bud Shank, e do oboé, tocado por Bob Cooper. Outro disco que Shank gravou foi I'll take romance (1958), que trouxe na orquestra um trabalho mais desenvolvido sobre o saxofone e o naipe de cordas. O álbum em questão foi gravado na Itália sob a direção e arranjos de Len Mercer, o que proporcionou a Shank um ambiente musical ideal, na partitura, sem exageros de glissandos e em um registro considerado bom para flauta (ALL ABOUT JAZZ, 2012). Bud Shank frequentou a Universidade da Carolina do Norte de 1944 a 1946. No início, ele tocou alguns instrumentos de sopro, a flauta (como já citado antes), clarinete, saxofone alto e tenor. Destes instrumentos, Shank praticou mais saxofone alto e flauta, optando pelo primeiro. Depois da faculdade, o saxofonista mudou-se para a Califórnia para estudar com o trompetista Shorty Rogers, tocando em big bands como a de Charlie Barnet, de 1947 a 1948, e a de Stan Kenton, de 1950 a 1951. Bud gravou alguns discos para a World Pacific Records no final da década de 1950 e início da década de 1960. Durante a última década citada, Shank permaneceu gravando nos estúdios L. A., fazendo trabalhos paralelos de jazz e bossa nova com nomes como Chet Baker e Sérgio Mendes (MICROSOFT, 2016). O álbum Michelle (1966), com a participação de Chet Baker, teve forte aprovação popular alcançando o 56° lugar nas paradas de sucesso. Nas décadas de 1980 e 1990, Shank gravou alguns álbuns pelas gravadoras Contemporary, Concord e Candid Labels. De acordo com Kelsey, By request: Bud Shank meets the rhythm section (1997) foi, em termos técnico-musicais, o melhor disco já lançado pelo saxofonista, até porque foi um de seus últimos álbuns, sintetizando o aprendizado de toda uma vida. Em 2005, Shank formou em Los Angeles o grupo The Bud Shank Big Band que realizou em 2006 a gravação do álbum Taking the long way home pela Jazzed Media Label. Em 2007, ele gravou ainda mais um disco pela mesma gravadora, Beyond the red door, quando fez dueto com o pianista Bill Mays (JAZZ TIMES, 2010). Segundo Kelsey, em seus últimos dias Bud Shank não perdeu o apetite pelo jazz. Ele faleceu no dia dois de abril de 2009, aos 82 anos de idade, em sua casa na cidade de Tucson, Arizona, vítima de uma embolia pulmonar no retorno de uma sessão de gravações em San Diego. 16 Quando jovem, Bud Shank recebeu influências e vivenciou músicas que, assim como ocorreu com Laurindo Almeida, foram decisivas na escolha de seu instrumento. Os saxofonistas Lester Young e Charlie Parker foram seus grandes inspiradores. Shank trilhou ainda campos mais experimentais, quando tocou flauta (seu segundo instrumento) no clube The Lighthouse, por exemplo. Nesse mesmo clube, Bud Shank tocou com o oboísta Bob Cooper, acentuando o emprego e experiências com instrumentos de linhagem clássica. Laurindo Almeida e Bud Shank, portanto, tinham esses dados essenciais em comum: o gosto pela exploração de novos sons e pelas sínteses inusitadas de estilos. 17 4. ANÁLISE DO ÁLBUM BRAZILLIANCE vol.1 O álbum Brazilliance vol.1 foi o primeiro de uma coletânea de três volumes lançados em 1953, 1962 e 1963 e, em tese, aproximam samba e jazz numa síntese que teria formalizado o estilo samba-jazz. Aqui se analisa apenas o primeiro volume, de 1953. Laurindo Almeida, com a sua bagagem de musicista popular brasileiro e clássico produziu o álbum juntamente com Bud Shank, obra que é considerada por alguns como precursora ou impulsionadora da bossa nova. Participaram das gravações Laurindo Almeida (violão), Bud Shank (sax alto), Harry Babasin (contrabaixo) e Roy Harte (bateria e percussão). O álbum em questão tem 15 faixas: Atabaque, Amor flamengo, Stairway to the stars, Acércate más, Terra seca, Speak low, Speak low (alt. take), Inquietação, Baa-too-kee, Cariñoso, Tocata, Hazardous, Nonó, Noctambulism e Blue baião (note-se que a mistura aconteceu até mesmo no nome das canções). O método de análise musical consistiu em audições das músicas, já que não foram encontradas as respectivas partituras. Primeiramente, as audições e análises foram feitas pelo aluno. Numa segunda etapa, o professor orientador ouviu as músicas e leu as análises, ajustando- as e aprimorando-as quando necessário. O objetivo foi descrever como as músicas desse álbum foram construídas formalmente e como se deu a mescla entre música brasileira e jazz. O formato da análise pode ser considerado como descritivo dissertativo por ser puramente auditivo, não envolvendo transcrições, procedimento relativamente raro em trabalhos de análise musical. Em primeiro lugar, indicam-se os compositores de cada música. Em seguida, feitasas audições integrais, detectaram-se os traços de estilos musicais brasileiros e traços jazzísticos. Para o jazz, indica-se a presença de escalas be-bop, fundamentais na caracterização do jazz, a presença de sua rítmica característica, baseada no esquema colcheia pontuada, semicolcheia e semínima, e os improvisos. Em seguida, em uma escuta mais fragmentada da música, delimitava-se a forma, que seguiu o seguinte modelo: introdução – A – B – C – A’ – A’’ e assim por diante. O sufixo presente na parte A’, por exemplo, refere-se à variação da parte A. A descrição de perguntas e respostas melódicas e harmônicas, convenções (transições entre as partes da forma) e mudanças rítmicas também foram consideradas com a devida pertinência para uma melhor análise. 18 Faixa 01: Atabaque (02:49) A primeira música do álbum é, como todas as demais, puramente instrumental. Foi composta por Radamés Gnattali e enviada a Laurindo Almeida como homenagem. Sua forma tem o esquema introdução – A – B – introdução’ - A – B – C - D – E – introdução’ - A’. A introdução acontece com contrabaixo acústico e percussão, provavelmente de atabaque (como sugere o nome da música), em ritmo de samba, fazendo uma espécie de primeira camada para a entrada do violão, executado por Laurindo Almeida. O violão realiza a segunda camada, com acordes bem marcados, finalizando a frase com sons em harmônicos. Logo em seguida, acontece a entrada da última camada, com a melodia ao saxofone, iniciando assim a parte A. Após realizar sua frase melódica na região aguda, ocorre ainda uma execução oitavada descendente na parte A feita pelo saxofone, que passa do agudo para o grave. Essa mudança de tessitura marca a entrada da parte B, frase melódica do violão que é resposta ao fraseado do saxofone (parte A). Nessa resposta o saxofone passa então a marcar levemente (servindo como uma espécie de introdução e na sequência como acompanhamento) para que o violão possa realizar a melodia. Ao final da resposta, o contrabaixo realiza uma melodia ascendente que resulta numa “pergunta harmônica”, juntamente com o violão, que é assumida pelo saxofone, realizando uma espécie de coda. Essa coda é uma melodia realizada pelo saxofone em um padrão de oito notas descendentes, por graus conjuntos, três notas até estacionar na fundamental do acorde que inicia a introdução’. Essa parte (introdução’) é diferente da primeira introdução, pois começa diretamente com a segunda camada (já com a entrada do violão), esperando assim pelo início da parte A, ou tema, novamente (melodia do saxofone). Em seguida, ocorre a parte A como da primeira vez. Porém, no final da parte B o saxofone participa, juntamente com o resto do instrumental, da pergunta harmônica respondida pela segunda coda. Essa coda é realizada pelo violão com um padrão também descendente de seis notas até estacionar no acorde que abre a melodia da parte C. Essa sessão C é uma preparação para a parte D, funcionando como uma resposta à segunda coda em padrão ascendente de quatro notas, por graus conjuntos, até o acorde de entrada da parte seguinte. Na parte D o instrumental todo participa, ocorrendo como nas codas e na parte C. O saxofone realiza um padrão de oito notas descentes até estacionar no acorde de pergunta novamente, dando assim entrada ao improviso em rítmica jazzística incitado pelo prato de condução da bateria. A mudança da percussão utilizada no samba para a bateria do jazz chama o walking bass (baixo andante - notas tocadas no pulso que criam uma linha de contraponto que segue/define a harmonia) do contrabaixo, disponibilizando assim a parte E (improviso). Nessa parte, bem característica do jazz, o violão faz o acompanhamento harmônico e o saxofone fica com o papel de improvisador, utilizando escalas be-bop, arpejos e escalas modais. 19 A finalização do improviso ocorre com um acorde dominante em que o ritmo volta novamente ao samba da parte introdução’. Logo após, entra novamente o saxofone com a melodia, formando assim a parte A’. O diferencial desta parte em relação às anteriores está na variação do fraseado melódico do saxofone, ocorrendo diminuição da velocidade e da força sonora instrumental para a finalização. Esta música demonstra com clareza a interação entre samba e jazz, com mudança de movimento de um traço para outro, ao calmo ao agitado. Durante o improviso, a bateria deixa claro o contraste entre samba e jazz. No improviso, Laurindo Almeida utilizou acordes que lembram as partes tocadas no samba. Resumo Nota-se a presença das rítmicas de jazz e de samba, walking bass, escalas be-bop, arpejos e escalas modais e trechos improvisados à moda jazzística. Observações A rítmica inicial tem caráter indefinido, pendendo para um balanço latino caribenho, mas no decorrer da música os traços de música brasileira e jazz se definem com maior clareza e se mesclam. O final, contudo, retoma uma rítmica que não define muito bem sua origem. Faixa 02: Amor flamenco (02:58) Essa faixa mostra a mescla da música flamenca espanhola com uma estilização jazzística (composição do próprio Laurindo Almeida). Formalmente temos: introdução – A – B – C – A’ - D – E – F – introdução. A introdução da música apresenta instrumental compacto, somente com o violão realizando a parte principal harmonicamente. O contrabaixo faz como acompanhamento e o saxofone descreve detalhe melódico coerente com a harmonia. Os instrumentos executam uma progressão de acordes descendentes característicos da música flamenca. A rítmica se compõe de levadas no violão, sendo o instrumento de mais destaque nesta parte. A introdução pode ser dividida em duas partes. Na primeira parte ocorre uma apresentação da progressão harmônica e na segunda ocorre a reapresentação da primeira, porém com uma variação rítmica na acentuação dos contratempos. Ainda na segunda parte, entra o saxofone e ocorre um início de retardo (velocidade) no penúltimo acorde que se “agrava” no último acorde tendo uma levada rítmica bem mais leve dinamicamente. A progressão do forte para o fraco dá a “deixa” para a parte A. A parte A descreve um jogo de pergunta e resposta entre violão e contrabaixo em que o primeiro pergunta com um acorde e o segundo responde melodicamente com um padrão de 14 notas descendentes. O “acordo” parece ter sido feito proporcionando assim a entrada para a parte B (tema). As escalas utilizadas pelo contrabaixo deixam nítida a presença do flamenco, principalmente com as nuances de dinâmica. A parte B inicia com o contrabaixo e percussão, 20 provavelmente atabaque, fazendo um ritmo bem marcado e hipnótico. O contrabaixo é utilizado nessa parte como percussão também, marcando o ritmo em uma nota só. Isso acontece quatro vezes, sendo que na quinta vez começa o diálogo entre violão e saxofone. Dessa vez o contrabaixo passa a realizar um padrão rítmico e melódico que serve como cama harmônica em conjunto com a percussão. Enquanto isso, o violão “pergunta” numa melodia mais aguda e o saxofone “responde” numa melodia mais grave, remetendo assim a um conversa branda. Ao final dessa parte, o violão dá sua réplica numa progressão harmônica. Em seguida, ocorre uma variação, ainda na parte B, na qual saxofone e violão fazem uma exposição melódica em uníssono nas duas primeiras frases, sendo que a terceira e quarta frases ficam ao cargo do instrumento de sopro ainda em dinâmica mais fraca. Nessas duas últimas frases o violão entra em conjunto com a bateria fazendo a base harmônica com acordes e notas de passagem. O fim da parte B fica por conta de Laurindo Almeida com um acorde que dá entrada à próxima sessão. A parte C inicia com todos os instrumentos, tendo o violão como protagonista. Esse momento da música tem uma tensão relacionada à levada rítmica “arrastada” e à técnica de toque contínuo na corda mais aguda do violão, dando a intenção de melodia.O fato é que, pela qualidade técnica de Almeida, o violão realiza harmonia e melodia juntamente (a melodia realizada pela técnica já citada acima e a harmonia por um dedilhado começando no bordão e indo até a corda sol realizando arpejos). O contrabaixo, percussão e saxofone ficam com a harmonia e o suporte. Ao final dessa parte o violão faz um acorde e o repete uma 8ª acima dando início a um padrão melódico descendente associado a um ralentando. A este trecho pode-se chamar convenção (parte de transição). A seguir tem-se a parte A’ iniciando a sessão jazzística (parte em ritmo de jazz que contrasta com o restante da música). Trata-se de uma variação de A, tendo como diferença a execução dos acordes pelo violão (com mais batidas no instrumento, sendo que na primeira vez havia apenas uma batida deixando o som do acorde soar) e os rudimentos da bateria (ritmo jazzístico utilizando a vassourinha na caixa). Não há saxofone nesse trecho. Na primeira progressão de acordes, descendente, o contrabaixo faz o solo variando a melodia encontrada na parte A. A próxima progressão será aqui chamada de D, uma possível variação harmônica de A, então com o saxofone improvisando e o contrabaixo em walking bass. A sessão E vem logo em seguida com o saxofone ainda na melodia, aproveitando “a deixa” da parte D. Como composição instrumental tem-se o violão executando acordes “rasgueados” (com a mão direita arrastando e percutindo todas as cordas), característico da música flamenca, com uma dinâmica forte-fraco, e o contrabaixo marcando o acorde. Este trecho tem uma progressão descendente tanto harmônica quanto melódica, remetendo novamente ao ritmo espanhol que fez parte da sessão A e sua variação. A parte F refere-se ao solo executado por 21 Laurindo Almeida sobre a base harmônica do contrabaixo, podendo ser considerado como uma preparação ao retorno da introdução. O início da música é recapitulado como preparação para o final, com floreio do saxofone encerrando a faixa. Como um todo, Amor flamenco tem um arco dinâmico que cria nuances entre o forte e o fraco. O início tem espírito aberto e “alegre”, mas contido, como num diálogo que atinge uma conclusão. Em seguir é apresentado outro “problema”, com a tensão da parte C, que é também resolvida de maneira jazzística, com escalas be-bop e ritmo característico. Para finalização volta- se à calmaria que tem como função preparar a entrada alegre (introdução) novamente. Resumo Nota-se a presença de ritmos jazzísticos, walking bass e escalas be-bop. Observações Nesta faixa, o jazz se mescla ao flamenco, não havendo referências muito claras a traços típicos da música brasileira. É curioso que, num álbum intitulado Brazilliance, haja uma música que explore o estilo flamenco. Faixa 03: Stairway to the stars (03:02) Nessa música, de Frank Signorelli, Matty Malneck e Mitchell Parish, Laurindo Almeida e Bud Shank exploram andamento mais lento, melodia mais expressiva e bem marcada, numa ambientação cool jazz. Como forma, temos A – B – A’ – C – A’’. A parte A pode também ser chamada de introdução ou ainda de prelúdio, feita numa exposição harmônica e melódica ao violão, juntamente com contrabaixo e bateria, preparando a entrada do saxofone como solista principal. Essa sessão pode ser dividida em duas, marcadas pela melodia ao violão, por três vezes. Na primeira metade o contrabaixo é mais marcado e camuflado enquanto o violão vai ao primeiro plano com a harmonia e a melodia. Como transição, o violão realiza uma progressão de acordes descendentes para que a melodia, na próxima metade, fique no registro mais grave. Na segunda metade o violão faz uma variação na recapitulação da melodia, em região mais grave, como já mencionado. Na segunda vez ele volta ao registro mais agudo, como na primeira metade. O contrabaixo fica mais presente, com notas de passagem e alguns floreios, e a bateria se mantém até o final da música, marcando no prato de condução e na caixa, ambos com a vassourinha. Ao final da parte A, o violão executa uma convenção com uma melodia que o leva ao acorde de entrada do saxofone na parte B. A sessão B inicia com a melodia marcante do saxofone e escalas be-bop, que aparecem pela primeira vez na peça. Quando o sopro entra, toda a parte feita pelo violão anteriormente parece fazer sentido (por isso a sugestão de chamá-la também de prelúdio). Essa parte também se divide 22 em duas, tendo como marcação a melodia do saxofone, duas vezes. Na primeira metade, o violão e o contrabaixo fazem uma progressão de acordes descendentes, enquanto o saxofone realiza a melodia pela primeira vez (na segunda há pequena variação, porém dando a mesma intenção). Para a entrada da segunda metade, o contrabaixo faz uma melodia descendente que indica progressão harmônica em registro mais grave, consequentemente levando consigo a melodia do saxofone. A execução da segunda metade ocorre então mais grave, dando um pequeno contraste em relação à primeira mas ainda não deixando de ser uma variação. A indicação para a entrada da seção A’ se dá por progressão ascendente de acordes. A parte A’ é uma variação da parte A. Essa sessão tem somente a primeira metade em relação à sessão A, em que o violão realiza a melodia três vezes com algumas alterações. O saxofone faz alguns floreios em resposta à melodia do violão. Faz também uníssonos enquanto o contrabaixo realiza a marcação harmônica com notas de passagem. Como transição para a parte C, o saxofone executa um padrão melódico descendente sobre a harmonia das cordas. Na seção C, violão e contrabaixo ainda continuam na base harmônica e o saxofone faz a melodia principal duas vezes. Na terceira frase, o instrumento melódico utiliza o registro mais grave, outra vez citando o estilo cool, mas logo volta ao agudo. Para a passagem que leva à última parte, violão e contrabaixo fazem acordes ascendentes, que tomam o caminho descendente logo depois para chegar à harmonia que recapitula o início. A sessão A’’ é mais uma variação de A, com melodia sob responsabilidade de Bud Shank. Diferente da primeira, essa parte tem variação melódica executada pelo saxofone que toca três vezes a melodia. A progressão harmônica fica ao cargo do violonista e do contrabaixista. Depois da terceira repetição, ambos “respondem” e o instrumento de sopro dá sua “réplica”. Por fim, o violão termina a faixa com um acorde em tom de pergunta, resultado de dissonâncias. Stairway to the stars evidencia o jazz em sua plenitude, mas a melodia remete à música brasileira, especialmente em seu espírito de choro. Resumo Nota-se a presença de escalas be-bop, ambiente sonoro que remete ao cool jazz e ao choro. Observações A mistura entre o espírito jazzístico e o sentimento chorão é equilibrada ao longo de toda a peça, não havendo quebras ou seções dedicadas exclusivamente a este ou àquele traço musical. 23 Faixa 04: Acércate más (03:04) Essa composição, de Osvaldo Farrés, apresenta características de choro, mas com improviso jazzístico. A forma se resume em: introdução – A – B – A – B’ – C – D. A primeira parte, introdução, tem o instrumental guiado pelo violão de Laurindo Almeida com acompanhamento de contrabaixo e percussão. Como estrutura, tem-se um fraseado que é repetido duas vezes, assim como a progressão harmônica que o acompanha. Ao final da introdução (no quarto compasso, quarto tempo) os instrumentos fazem pausa para que o saxofone comece com a melodia em apojatura. Essa parte prepara a entrada da seção A, com solo de saxofone. Na parte A, violão, contrabaixo e percussão têm funções de acompanhantes. O destaque vai para o saxofone. Bud Shank apresenta a melodia duas vezes, com algumas variações na repetição. A melodia é ascendente, contrastando com a parte B. A sessão seguinte (B) tem melodia descendente, com uma frase que se repete, na segunda vez, transpostapara o grave. Na segunda metade da parte B, o saxofone faz melodia que se resolve, dando “a deixa” para os instrumentos responsáveis pela harmonia realizarem a “jogada rítmica” que acontece na introdução. Novamente, no quarto tempo do quarto compasso, a “cozinha” e o violão entram em pausa para que o saxofone faça a apojatura e adentre a parte A. Seguindo com a música, a sessão A é reiterada, como na primeira vez. Chegando à parte B’ há uma variação na segunda vez em que a melodia é repetida, que ao invés de ser transposta a um registro mais grave (como feita em B), acaba sendo transposta para um registro mais agudo. Na segunda metade de B’ ocorre, como em B, uma melodia direcionada para a resolução da cadência e para a entrada da parte C. Essa seção começa com o contrabaixo e a percussão fazendo espécie de exposição e preparação para a entrada de Laurindo Almeida, quatro compassos depois. Após esse trecho realizado pelo contrabaixo e bateria, Laurindo entra fazendo espécie de improviso que inicia com poucas notas no registro grave e vai avançando, durante oito compassos, para o agudo. Em sequência, o violão se integra ao contrabaixo e percussão dando “a deixa” para a nova entrada do saxofone. Quando este reaparece, muda-se a rítmica da percussão (utilizando o prato attack também), passando assim para um ambiente jazzístico. O que traz o jazz para essa música não é somente a mudança de figuras rítmicas, mas também a entrada forte e marcada do saxofone improvisando e executando escalas be-bop. A parte D se caracteriza pela mudança gradativa do forte para o fraco, durante os últimos 20 segundos da peça. A percussão e o contrabaixo assumem grande leveza ao acompanharem o solista. O violonista toca acordes, mas somente para a finalização do improviso do saxofone, ambos terminando em espécie de “acordo harmônico”. Acértate más é uma composição simétrica, que deixa bem dividida as partes com as devidas proporções. 24 Resumo Notam-se características de choro, improvisos jazzísticos e escalas be-bop. Observações O sentimento chorão é nítido desde o início, mesclando-se com o espírito “jazzy” ao longo da música. A rítmica também persegue uma fusão de estilos, ainda que sem muita definição, deixando transparecer algo “caribenho”. É curioso notar o título em espanhol se o álbum se propôs a mesclar traços musicais brasileiros e norte-americanos. Faixa 05: Terra seca (03:12) Esta faixa do disco, composição de Ary Barroso, é basicamente samba com um improviso jazzístico. Nota-se que metade da faixa tem o traço brasileiro e metade, o norte-americano. O esquema estrutural é: introdução – A – B – A – C – A’ – D – A’’. O início da música, formado por percussão e contrabaixo, é a introdução. Ao longo de compassos, ambos instrumentos realizam um ritmo que permanece até o final da parte A’. No terceiro compasso aparece o violão para fazer parte da introdução, executando uma melodia curta com alguns acordes. Essa parte serve como uma preparação para a sessão A, na qual entra o saxofone com a melodia, durante três compassos. Na parte A, a melodia do saxofone (o tema) movimenta-se descendentemente, com acompanhamento do violão, que além da melodia dobrada nos dois primeiros compassos (em uma região mais grave, discretamente) também faz harmonia descendente nos dois últimos compassos. A repetição dessa melodia acontece por dois compassos, seguida por um floreio ao violão. Esse pequeno “solo” de Laurindo Almeida torna-se passagem para o tema novamente, agora transposto para região mais aguda e também com duração de dois compassos. Logo em seguida vem a sessão B, que é praticamente dominada pelo violão, na qual o mesmo executa acordes juntamente com a melodia. O saxofone realiza somente um pequeno floreio na região grave, um pouco antes do término dessa parte, e o instrumento de cordas solista faz uma técnica de harmônico no final da melodia, voltando assim ao tema (A). Novamente, surge a parte A, na qual o tema é reexposto com a mesma estrutura da primeira vez. Essa parte é composta de cinco compassos. Uma das variações, nessa reexposição, ocorre no quarto compasso, em que não há transposição da melodia. Porém, acontece uma mudança rítmica executada pelo saxofone. Já nos dois primeiros compassos, o violão deixa de apenas dobrar a melodia com o saxofone, aparecendo um pouco mais, sendo que no primeiro fraseado ele faz a dobra mais no grave e no segundo faz em uníssono, na região aguda. A parte C tem como protagonista o violão que expõe um segundo tema e o desenvolve por 15 compassos. O fraseado é organizado de quatro em quatro compassos, sendo que nos dois primeiros é realizada 25 uma melodia ascendente (pergunta) e nos dois seguintes uma melodia descendente (resposta). Nos quinto e nono compassos são feitas transposições melódicas gradativas para o agudo. O saxofone faz algumas frases melódicas de complemento, deixando assim o violão como instrumento principal da parte C. A parte A’ é uma variação de A, na qual o tema principal é recapitulado em dois compassos, sendo essa a mudança. Logo depois, a parte D é exposta como um improviso jazzístico do saxofone. O contrabaixo atua em walking bass, o violão fica na harmonização e a bateria entra conduzindo com o prato e marcando o tempo com o chimbal. Bud Shank utilizou a melodia do tema no improviso, juntamente com arpejos e blue notes. A sucessão do ritmo brasileiro ao norte- americano ocorre de repente, mas não de maneira brusca, propiciando uma aceleração progressiva do tempo em direção ao jazz. A parte A’’ começa no momento em que o saxofone inicia o tema novamente para a finalização. Como variação em relação à parte A, essa seção tem como diferença a execução do fraseado três vezes, durando três compassos. Outra mudança é a força instrumental que vai decaindo, numa espécie de fade out. Resumo Nota-se a presença de improvisos jazzísticos, walking bass e escalas be-bop. Observações Em trechos centrais, o violão antecipa muito do que definiria a bossa nova em termos rítmico-harmônicos. Em seguida, ele cede espaço para seções nitidamente jazzísticas, norte- americanas, tornando o título “terra seca” (designativo geral para o Nordeste brasileiro), um tanto fora de contexto, artificializado. Faixa 06: Speak low (02:22) A sexta faixa do disco é um samba composto por Kurt Weill e Ogden Nash. A ambientação sonora enquadra-se no cool jazz. As partes são: introdução – A – A’ – B – A’’. A introdução tem bateria (suporte rítmico com vassourinha sobre a caixa), contrabaixo (melodia) e violão (progressão harmônica descendente e com ritmo irregular). Como fraseado, essa parte tem duas repetições: na primeira o violão faz uma progressão no registro grave, na segunda ele faz uma progressão no agudo. Nessa segunda repetição, o violão faz os acordes de passagem descendentes, caindo assim na melodia da parte A. A seção A, ou tema, tem o violão como protagonista, acompanhado pelo contrabaixo e pela bateria. A seção pode ser dividida em duas partes e ali se nota uma simetria de quatro compassos, cada qual com uma frase. Na primeira metade, o violão executa a melodia em um registro agudo, fazendo também a harmonia. Na parte A, melodia e harmonia dialogam; a primeira 26 pergunta e a segunda responde. No quarto fraseado, o instrumento solista faz uma melodia mais aguda do que os três antecedentes, caracterizando a passagem para a segunda metade. Esse trecho é uma pequena variação do anterior, com diferenças rítmicas nas respostas harmônicas dos dois primeiros compassos. No terceiro compasso ocorre uma progressão harmônica descendente, que caminha para a resolução, juntamente com a melodia (técnica de harmonização por nota) do quarto compasso. Nesse último compasso ocorre também uma melodia de passagem descendente executada pelo contrabaixo. A parte A’ é a reexposição de