Prévia do material em texto
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Angélica Ilacqua CRB-8/7057 Carson, D. A., 1946- O Sermão do Monte : exposição de Mateus 5—7 / D. A. Carson ; tradução de Lucília Marques. - São Paulo : Vida Nova, 2018. 176 p. ISBN 978-65-86136-05-0 (recurso eletrônico) Título original: The Sermon on the Mount: An evangelical exposition of Matthew 5—7 1. Sermão da montanha - Comentários I. Título II. Marques, Lucília 18-2191 CDD 226.907 Índices para catálogo sistemático 1. Sermão da montanha - Comentários ©1978, de Baker Book House Company Título do original: The Sermon on the Mount: an Evangelical exposition of Matthew 5—7, edição publicada por BAKER BOOKS, divisão da BAKER BOOK HOUSE COMPANY (Grand Rapids, Michigan, EUA). Todos os direitos em língua portuguesa reservados por SOCIEDADE RELIGIOSA EDIÇÕES VIDA NOVA Rua Antônio Carlos Tacconi, 63, São Paulo, SP, 04810-020 vidanova.com.br | vidanova@vidanova.com.br 1.ª edição: 2019 Proibida a reprodução por quaisquer meios, salvo em citações breves, com indicação da fonte. Todas as citações bíblicas sem indicação da versão foram traduzidas diretamente da New International Version. As citações com indicação da versão in loco foram traduzidas diretamente da King James Version (KJV), da Revised Standard Version (RSV), da NEB (New English Bible) e extraídas da Nova Versão Internacional (NVI), da Almeida Revista e Corrigida (ARC) e da Phillips (Phillips). O grifo nas citações bíblicas é de responsabilidade do autor. ____________________________________ DIREÇÃO EXECUTIVA Kenneth Lee Davis GERÊNCIA EDITORIAL Fabiano Silveira Medeiros EDIÇÃO DE TEXTO Lenita Ananias Rosa M. Ferreira PREPARAÇÃO DE TEXTO Lucas Torres Marcia B. Medeiros REVISÃO DE PROVAS Ubevaldo G. Sampaio GERÊNCIA DE PRODUÇÃO Sérgio Siqueira Moura DIAGRAMAÇÃO Claudia Fatel Lino CAPA Souto Crescimento de Marca CONVERSÃO PARA EPUB Cumbuca Studio ____________________________________ À CAMBRIDGEINTER-COLLEGIATE CHRISTIAN UNION (CICCU), com gratidão e apreço pelo entusiasmo de seu testemunho cristão e pela oportunidade de lecionar, nessa instituição, um trecho tão desafiador das Escrituras. Sumário 1. Capa 2. Folha de Rosto 3. Créditos 4. Prefácio 5. 1. O REINO DO CÉU: SUAS NORMAS E TESTEMUNHO (5.1-16) 1. Introdução (5.1,2) 2. As normas do reino (5.3-12) 3. O testemunho do reino (5.13-16) 6. 2. O REINO DO CÉU: SUAS REIVINDICAÇÕES EM RELAÇÃO AO ANTIGO TESTAMENTO (5.17-48) 1. Jesus como cumprimento do Antigo Testamento (5.17-20) 2. Aplicação (Mateus 5.21-47) 3. Conclusão: A exigência de perfeição (5.48) 7. 3. HIPOCRISIA RELIGIOSA: SUA DESCRIÇÃO E DESTRUIÇÃO (6.1-18) 1. O princípio (6.1) 2. Os exemplos (6.2-18) 8. 4. PERSPECTIVAS DO REINO (6.19-34) 1. Lealdade inabalável aos valores do reino: três metáforas (6.19-24) 2. Confiança irrestrita (6.25-34) 9. 5. EQUILÍBRIO E PERFEIÇÃO (7.1-12) 1. O perigo de julgar os outros (7.1-5) 2. O perigo de não saber discernir (7.6) 3. O perigo de não ter persistência confiante (7.7-11) 4. Equilíbrio e perfeição (7.12) 10. 6. CONCLUSÃO: DOIS CAMINHOS (7.13-27) 1. Dois caminhos (7.13,14) 2. Duas árvores (7.15-20) 3. Duas reivindicações (7.21-23) 4. Duas casas (7.24-27) 5. O final do sermão (7.28,29) 11. APÊNDICES 1. 1. Reflexões sobre abordagens críticas do Sermão do Monte 2. 2. Reflexões sobre interpretações teológicas do Sermão do Monte N Prefácio o início de 1974, fui convidado a apresentar seis palestras sobre o Sermão do Monte na Cambridge Inter-Collegiate Christian Union (CICCU). Essas palestras, programadas para o último período do ano escolar de 1975, consumiram grande parcela do meu tempo e energia durante as seis semanas em que foram apresentadas. Acho que nunca senti tanto satisfação de ensinar as Escrituras quanto naquele tempo em que falei para uma plateia de quatrocentos ou quinhentos alunos que vinham me ouvir todo sábado à noite. Excepcionalmente receptivos, eles me motivavam com seu interesse genuíno pela Palavra de Deus. Desde essa época, repeti a série de palestras duas ou três vezes em igrejas da Colúmbia Britânica, no Canadá. Dentro de minhas limitações de tempo, revisei a série, escrevendo-a em forma mais adequada à página impressa do que um sermão ou estudo bíblico costuma ser. No entanto, intencionalmente não retirei todos os traços da antiga forma. Acrescentei dois apêndices, em resposta a perguntas que me foram feitas. Parte do material do primeiro apêndice estava entremeado na série original, mas achei melhor separá-lo neste livro. Qual a diferença entre este livro e outros que se encontram em circulação e tratam da mesma passagem? Por que apresentar mais um estudo do Sermão do Monte? Alguns motivos me vêm à mente. Esta exposição é mais curta do que a maioria das outras voltadas para o público em geral; mas isso porque é mais resumida. Fiz um grande esforço para ficar menos preso às categorias da teologia sistemática do que alguns de meus antecessores, mas quero que meu trabalho seja formado pelos pontos de vista teológicos mais importantes. O material dos dois apêndices em geral não consta de apresentações destinadas ao público, mas creio que possa ajudar o leitor interessado a ver a interpretação do Sermão do Monte de uma forma mais equilibrada e a ter um entendimento mais profundo. Contudo, meu principal motivo para oferecer esses estudos a um público mais amplo é minha profunda convicção de que a igreja de Cristo precisa estudar o Sermão do Monte muitas vezes. Tenho o prazer de expressar aqui minha profunda gratidão a um grande número de autores. Li algumas exposições não acadêmicas, mas, além do próprio texto sagrado, fiz questão de ler os melhores comentários que encontrei. O livro The Sermon on the Mount: a history of interpretation and bibliography [O Sermão do Monte: uma história de interpretação e bibliografia], de W. S. Kissinger, foi uma ferramenta de valor inestimável nas etapas posteriores do estudo. Uma mina de ouro de informações, que me apresentou a alguns trabalhos sérios que eu desconhecia. Os leitores mais informados também conseguem perceber neste meu trabalho a influência do livro Jesus and the Law in the synoptic tradition [Jesus e a Lei na tradição sinótica], de Robert Banks. Quero deixar registrado meu agradecimento à Tyndale House, de Cambridge, que me deu a oportunidade de ler uma cópia da tese de doutorado de Banks antes que a revisão publicada tomasse forma. Li apenas algumas obras em língua estrangeira sobre o Sermão do Monte. Lamento, assim como lamento não ter podido examinar detalhadamente uma quantidade maior do imenso corpo de literatura relacionada. Mesmo nos periódicos que passaram pela minha mesa durante o último trimestre, não faltaram estudos sobre esses três capítulos do Evangelho de Mateus. Meu agradecimento sincero a Eileen Appleby, que transcreveu as gravações das palestras originais. Agradeço também a Sue Wonnacott e especialmente a Diane Smith, que transformaram um manuscrito confuso em um texto digitado limpo e praticamente impecável. Soli Deo gloria. D. A. Carson, Northwest Baptist Theological Seminary, Vancouver, Canadá Q 1 O reino do céu: suas normas e testemunho Introdução uanto mais leio esses três capítulos — Mateus 5, 6 e 7 —, mais me sinto atraído e ao mesmo tempo envergonhado por eles. Sua luz brilhante me atrai como a lâmpada atrai para si a mariposa; mas a luz é tão brilhante, que seca e queima. Não há lugar para formas de piedade que sejam apenas verniz e fingimento. O que se exige é perfeição. Jesus diz: “Sejam perfeitos como é perfeito o Pai celestial de vocês” (5.48). O magnífico tema desses três capítulos é o reino do céu. “O reino do céu” é a expressão comumente usadavez disso, como ele afirma em outro trecho, a Escritura não pode ser anulada (Jo 10.35).1 Essas observações também nos deixam em dificuldades. Se Jesus não se via abolindo a Lei e os Profetas, mas cumprindo-os, por que, então, há boas provas de que ele aboliu, por exemplo, as leis alimentares (Mc 7.19)? Por que os autores do Novo Testamento, após a morte e ressurreição de Jesus, insistem em que o sistema sacrificial do Antigo Testamento agora é, no mínimo, desnecessário, e em princípio foi abolido (veja Hb 8.13; 10.1-18)? Por que os cristãos de hoje não procuram seguir ao pé da letra a lei do Antigo Testamento? Várias respostas foram apresentadas a esses questionamentos. Pelo menos desde a época de Tomás de Aquino (c. 1225-1274), muitos cristãos dividem a lei em três categorias: moral, civil e cerimonial. Alguns dizem que a lei civil do Antigo Testamento foi abolida porque o povo de Deus já não constitui uma nação. A lei cerimonial caducou porque ela apontava para Jesus, que a “cumpriu” morrendo na cruz, assim tornando obsoletas as cerimônias do Antigo Testamento. Resta-nos a lei moral; e, segundo esse argumento, em Mateus 5.17-20 Jesus está de fato se referindo apenas à lei moral, que nunca muda. O primeiro problema com essa ideia é que a expressão “nem um jota ou um til” (5.18, KJV) parece mais abrangente do que uma referência exclusiva à lei moral permitiria. Além disso, nem o Antigo Testamento nem o Novo fazem essa tríplice distinção. É claro que esse fator por si só não é conclusivo: muitas distinções legítimas podem ser deduzidas das Escrituras, apesar de não serem explicitamente ensinadas. O problema dessa divisão em três partes é que como está não fica claro o que significa “moral”. Se o termo se refere ao que é fundamentalmente certo ou errado, eu argumentaria que o que Deus aprova é fundamentalmente certo e o que ele proíbe é fundamentalmente errado. Nesse caso, quando Deus aprovou certos sacrifícios cerimoniais no Antigo Testamento, as pessoas ficavam moralmente obrigadas a praticá-los. Dentro do mesmo raciocínio, se Deus proibiu certas práticas civis no Antigo Testamento, seria imoral continuar praticando-as, exatamente porque foi Deus quem as proibiu. Portanto, essa definição de “moral” é problemática quando se adota a divisão em três partes: moral, cerimonial e civil. As três categorias não se excluem mutuamente. Se, porém, lei moral se refere ao que Deus sempre aprova, então estamos diante de duas dificuldades: (1) Se Jesus em 5.18 está afirmando que somente a lei moral jamais muda, ele está sendo redundante, isto é: “Somente a lei que Deus sempre aprova (e por isso nunca muda) nunca muda”. (2) Em contrapartida, se Jesus pretende estabelecer essa definição de lei moral, é estranho que ele se expresse com tal enunciado abrangente (5.18). Recorrer à histórica divisão tríplice da lei sem dúvida tem mérito em determinados contextos, mas creio que tal recurso não nos ajuda a explicar o que Jesus quer dizer em Mateus 5.17ss. Outra abordagem comum dessa passagem é a hipótese de que “cumprir” aqui significa algo como “confirmar; comprovar”. Jesus cumpriu a lei guardando-a perfeitamente e agora ele a cumpre na vida de seus seguidores por meio de seu Espírito: o texto de Romanos 8.4 diz que Deus enviou seu Filho “a fim de que as justas exigências da lei fossem plenamente satisfeitas em nós, que não vivemos segundo nossa natureza pecaminosa, mas segundo o Espírito”. Nesse sentido, alega-se, o que a lei significa realmente é confirmado pela vida de Jesus e a de seus discípulos. Esses pontos são verdadeiros, sem dúvida, mas parece que não são eles que estão sendo ensinados aqui. Os termos empregados no versículo 18 parecem mais precisos que isso. Muitos comentaristas defendem que Cristo cumpre a lei e os profetas de duas maneiras diferentes. Os Profetas são cumpridos por Jesus de forma preditiva: o que eles predizem acontece, e assim é cumprido. A Lei, no entanto, não é preditiva, isto é, profética, e se cumpre de algum outro modo. Alguns dizem que ela se cumpre no sentido defendido anteriormente — isto é, ela se confirma em seu significado mais profundo. Outros dizem que Jesus cumpriu a Lei morrendo na cruz, assim satisfazendo as exigências da lei sobre todos os que creem nele. Tenho certeza de que todas essas ideias encontram apoio em alguma parte do Novo Testamento, mas será que alguma delas é convincente nesse contexto? Será que elas estão de acordo com o modo de Mateus usar as palavras ou com os temas que Mateus enfatiza? Ao longo dos anos, de tempo em tempo se propõe uma abordagem um pouco diferente, e ela tem muitos méritos, penso. Em outro trecho, Mateus registra Jesus dizendo: “Desde os dias de João Batista até agora, o reino do céu tem avançado vigorosamente, e os fortes se apoderam dele. Pois todos os Profetas e a Lei profetizaram até João (Mt 11.12,13). Não são apenas os Profetas que profetizam; a Lei também profetiza. Todo o Antigo Testamento tem função profética, e Jesus veio cumprir o Antigo Testamento. Contudo, para entender como Jesus o cumpre, precisamos entender como o Antigo Testamento profetiza. Parte dele é profecia no sentido comum de predição; e, pela leitura do Novo Testamento, fica claro que o foco das profecias do Antigo Testamento é o Messias. Por exemplo, o lugar de seu nascimento é predito (Mq 5.2; Mt 2.5,6). Porém, algumas profecias do Antigo Testamento citadas por Mateus não são nem de longe tão claras. Por exemplo, Oseias 11.1: “... do Egito chamei meu filho”, é um texto usado para indicar a volta de Jesus do Egito para a Palestina depois da morte de Herodes, o Grande (Mt 2.15). Originariamente, porém, esse texto se referia ao Êxodo dos israelitas, sob a liderança de Moisés. Parece que, nesse caso, é a história dos judeus que aponta para Cristo, e não em sentido claro de predição. No Evangelho de Mateus há muitos indícios de que essa forma de “profecia” não é incomum. Desse modo, se em Deuteronômio 8 Moisés lembra aos israelitas que eles vagaram durante quarenta anos pelo deserto, onde Deus permitiu que passassem fome para aprenderem que o homem não vive só de pão, Jesus também passou fome por quarenta dias no deserto e, quando foi tentado a duvidar da provisão de Deus, respondeu que “nem só de pão o homem viverá, mas de toda palavra que procede da boca de Deus” (Mt 4.1-4). Essa citação é do Pentateuco (Dt 8.2,3), que os judeus chamavam de Lei no sentido estrito, e que aqui se pressupõe que tenha alguma função profética. O Novo Testamento entende que o Antigo Testamento aponta futuramente para Cristo e as bênçãos que ele traz. O sistema sacrificial, por exemplo, apontava para o sacrifício de Jesus (Hb 9.8,9; 10.1,2). De fato, tudo o que estava escrito sobre Cristo na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos (Lc 24.44) tinha de ser cumprido. Portanto, o Senhor ressurreto podia explicar a seus discípulos o que foi dito a seu respeito em todas as Escrituras — começando por Moisés e todos os Profetas (Lc 24.27). As Escrituras testificam dele (Jo 5.39). Logo, em Mateus 5.17,18, temos de nos livrar de concepções estreitas demais do que seja cumprimento. Jesus cumpre todo o Antigo Testamento — a Lei e os Profetas — de muitas maneiras. Uma vez que ambos apontam para ele, certamente ele não veio revogá-los. Ao contrário, ele veio cumpri-los de diversas maneiras, uma rica diversidade que esses parágrafos mal sugerem. Nem um item sequer da Lei ou dos Profetas passará, disse Jesus: até que o céu e a terra passem — antes que tudo se cumpra. A oração adverbial “até que o céu e a terra passem” simplesmente significa “nunca, até o fim dos tempos”, mas é restringidapela oração adverbial seguinte: “até que tudo se cumpra”. Em outras palavras, Jesus não concebe sua vida e seu ministério como oposição ao Antigo Testamento, mas, sim, como um cumprimento daquilo que o Antigo Testamento prevê. Logo, a Lei e os Profetas, longe de serem abolidos, têm sua continuidade vigente levando em conta o cumprimento em Jesus. Os preceitos detalhados do Antigo Testamento podem ser suplantados, porque tudo o que é profético tem de ser, em algum sentido, provisório. Ao mesmo tempo, porém, tudo o que é profético encontra sua continuidade legítima na feliz chegada do que foi profetizado. Tudo isso pressupõe que uma nova abordagem do Antigo Testamento está sendo inaugurada por Jesus, concomitantemente com a perspectiva transformada resultante do avanço do reino. De fato, o próprio Jesus mais adiante ensina exatamente isso. Ele diz: “Por isso, todo mestre da lei instruído sobre o reino do céu é semelhante ao dono de uma casa que tira do seu tesouro coisas novas e coisas velhas” (Mt 13.52). Na passagem anteriormente citada de Mateus 11.12,13, observamos ainda que a Lei e os Profetas exercem essa função profética até João Batista. De João Batista em diante, o reino do céu avança (cf. tb. Lucas 16.16,17, onde a expressão é “reino de Deus”). Semelhantemente, nos dois versículos seguintes de Mateus 5 (19 e 20), Jesus deixa de falar sobre a Lei e os Profetas e passa a falar sobre o reino: “Qualquer um que violar um desses mandamentos, por menor que seja, e ensinar os outros a fazer o mesmo, será chamado o menor no reino do céu; mas todo aquele que praticar e ensinar esses mandamentos será chamado grande no reino do céu”. A expressão “esses mandamentos”, em minha opinião, não se refere aos mandamentos da lei do Antigo Testamento, mas, sim, aos mandamentos do reino do céu, reino mencionado três vezes nos versículos 19 e 20. São os mandamentos já preceituados e os que ainda virão no Sermão do Monte. Alguns acham que os judeus esperavam uma nova lei quando o Messias viesse. Não estou de acordo. O fluxo da argumentação nessa passagem aponta numa direção ligeiramente diferente. Ela se desenvolve mais ou menos assim: Jesus não veio para abolir o Antigo Testamento, mas para cumpri-lo — cumpri-lo no sentido de que ele mesmo era o alvo para o qual as Escrituras apontavam. Por isso, é o cúmulo da loucura não dar ouvidos aos seus mandamentos, os mandamentos do reino. (Veja um raciocínio semelhante em Hebreus 2.1-3.) O que se exige é “justiça [que] exceda a dos fariseus e dos mestres da lei (5.20), caso contrário não há como entrar no reino do céu. Na verdade, até a posição dentro do reino depende da obediência aos mandamentos de Jesus (5.19); mas isso não é de surpreender, quando lembramos a tremenda ênfase que o Sermão do Monte dá à obediência a Jesus (cf. Mt 7.21-23) ou o refrão que Jesus repete: “Mas eu lhes digo...” (veja Mt 5.20,22,26,28,32,34,39,44). O Antigo Testamento apontava para o Messias e o reino que ele inauguraria. Jesus, afirmando cumprir essa previsão do Antigo Testamento, apresenta o reino a seus seguidores. Ao fazer isso, ele ressalta a obediência e a justiça excelente, sem as quais ninguém pode entrar no reino. É importante notar que as palavras finais de Jesus no Evangelho de Mateus enfatizam novamente a obediência: os crentes têm de fazer discípulos de todas as nações, batizando-os e ensinando-os a obedecer a tudo o que Jesus ordenou (28.18-20). Os mandamentos de Jesus são destacados também em 5.19. A esta altura, está claro que o Sermão do Monte não é sentimentalismo barato concebido para induzir uma tola e ingênua mentalidade de filantropia. Tampouco esses capítulos sancionam a opinião de que os conceitos de Jesus acerca da justiça eram tão temperados com amor que a justiça cai para um nível inferior ao padrão estabelecido pela lei. Em vez disso, percebemos que a justiça exigida por Jesus ultrapassa qualquer coisa imaginada pelos fariseus, o grupo religioso ortodoxo da época de Jesus. O método de Jesus é mais desafiador e mais exigente — e também mais recompensador — do que qualquer sistema legal jamais poderia ser. Além disso, seu método foi indicado profeticamente antes de chegar de fato. Como diz Paulo: “Mas agora, sem a lei, manifestou-se a justiça de Deus, atestada pela Lei e pelos Profetas” (Rm 3.21). Desse modo, por outra via voltamos à pureza interior definida nas bem- aventuranças. Assim como as bem-aventuranças fazem da pobreza em espírito condição necessária para a entrada no reino, Mateus 5.17-20 também acaba exigindo um tipo de justiça que deve ter deixado os ouvintes de Jesus perturbados e conscientes do próprio fracasso espiritual. Com isso, o Sermão do Monte lança o alicerce das doutrinas neotestamentárias da justificação pela graça mediante a fé e da santificação pela obra regeneradora do Espírito Santo. Não é de admirar que Paulo, aquele zeloso e irrepreensível fariseu (Fp 3.4-6), quando entendeu o evangelho de Cristo, tenha considerado todos os seus recursos espirituais nada mais que refugo. Seu novo desejo era ganhar a Cristo, não tendo justiça sua provinda da lei, mas a que vem de Deus e pela fé em Cristo (Fp 3.8,9). APLICAÇÃO Mateus 5.21-47 Com autoridade ímpar, Jesus se fez o pivô de toda a história. O Antigo Testamento aponta para ele. Agora, tendo chegado, ele introduz o reino e mostra que o Antigo Testamento encontra a essência de sua legitimidade e sua real continuidade nele e em sua doutrina. Ao mesmo tempo, Jesus precisa lidar com outro problema. Ele não pode presumir que tudo o que as pessoas ouviram sobre o conteúdo das Escrituras do Antigo Testamento estava de fato no Antigo Testamento. Isso porque os fariseus e doutores da lei consideravam que certas tradições orais tinham a mesma autoridade que a própria Escritura e, assim, contaminaram o ensino da Escritura com algumas interpretações falaciosas, todavia defendidas com unhas e dentes. Portanto, em cada um dos cinco blocos do material a seguir, Jesus diz algo assim: “Vocês ouviram o que foi dito [...], mas eu lhes digo...”. Ele não começa essas oposições expondo a seus ouvintes o que o Antigo Testamento diz, mas o que eles tinham ouvido que ele dizia. Essa observação é importante, porque Jesus não está negando algo do Antigo Testamento, mas, sim, o que eles entendiam do Antigo Testamento. Em outras palavras, parece que Jesus tem aqui dois interesses: derrubar tradições incorretas e, com sua autoridade, indicar a verdadeira direção para a qual as Escrituras do Antigo Testamento apontam. Ira difamatória e reconciliação (5.21-26) As pessoas tinham ouvido o que fora dito a seus ancestrais: “Não matarás, e quem matar estará sujeito a julgamento”. Essa proibição explícita é o sexto dos dez mandamentos; a ameaça de julgamento fazia parte da lei mosaica relativa ao homicídio. A pessoa que tivesse matado alguém tinha de ser levada à presença de um tribunal para ser julgada. Será, porém, que o homicídio é só uma ação, cometida sem relação com o caráter do assassino? Será que não existe algo mais fundamental em jogo, isto é, como ele considera os outros (mesmo sua vítima ou suas vítimas)? Será que o ódio ignóbil e a ira vingativa do homicida não estão à espreita nas sombras por trás do ato em si? Será que isso não significa que a ira e o furor são em si condenáveis? Por isso, Jesus insiste em que não só o assassino, mas qualquer um que tenha raiva de seu irmão, está sujeito a julgamento. Aqui cabem algumas observações. Em primeiro lugar, alguns manuscritos mais antigos do Novo Testamento acrescentam as palavras “sem motivo” depois de “se irar contra seu irmão”. Isto é: “Maseu lhes digo que todo aquele que se irar contra seu irmão sem motivo será sujeito a julgamento”. É quase certo que essas palavras foram acrescentadas depois. Alguns escribas certamente acreditavam que Jesus não poderia ter sido tão rigoroso a ponto de não excluir nenhum tipo de ira, por isso inseriram as palavras para atenuar a declaração. Em segundo lugar, esse modo categórico e antagônico de falar caracteriza grande parte das pregações de Jesus e, na minha opinião, reflete uma maneira de pensar semítica e poética. Teremos de lidar com isso repetidas vezes no Sermão do Monte, mas também encontraremos essa característica em outras partes. Em Lucas 14.26, por exemplo, Jesus declara: “Se alguém vem a mim e não odeia seu pai e sua mãe, mulher e filhos, irmãos e irmãs e até a própria vida, não pode ser meu discípulo”. O verbo “odiar” nesse versículo não pode ser entendido em sentido restrito. O que Jesus está dizendo é que o amor e a lealdade se devem a ele acima de tudo e de todos; não se deve permitir que nenhum concorrente usurpe o que não lhe é devido. Mas Jesus diz isso desse jeito contrastante (cf. Mt 10.37), apesar de defender em outra passagem a importância de, por exemplo, honrar pai e mãe (Mc 7.10ss.). Na verdade, é importante deixar essa forma antitética e categórica de discurso falar, com toda sua rígida incondicionalidade, antes que tentemos moderá-la com considerações mais gerais. Em Mateus 5.21ss., Jesus relaciona a ira ao assassinato: aceite essa relação e não pondere que alguns tipos de ira, mesmo na própria vida de Jesus, não apenas sejam justificáveis, mas legítimas. Falarei mais sobre isso adiante. Em terceiro lugar, se a ira é proibida, o desprezo também é. Raca é um insulto em aramaico. A palavra significa “vazio” e talvez pudesse ser traduzida por “seu cabeça-oca!” ou algo semelhante. Isto é, ninguém pode dizer para outra pessoa: “Seu idiota!”. As pessoas que têm ações e atitudes desse tipo são sujeitas a julgamento, ao Sinédrio, à Geena. O Sinédrio era a suprema corte judaica. Geena é a transliteração grega de duas palavras semíticas que significam “vale do Hinom”, uma ravina no sul de Jerusalém onde era jogado e queimado o lixo e que, consequentemente, passou a ser um eufemismo para “o fogo do inferno”. Alguns tentaram entender nesses três passos — ira, Raca, “Seu idiota!” — uma gradação. Mas é difícil acreditar que Jesus esteja se curvando a esse sofisma. Será que ele recorreria a essas filigranas de distinguir entre Raca e “Seu idiota”? E será que qualquer uma das duas poderia ser dita sem ira? Jesus está tão somente dando vários exemplos para se fazer entender. Ele é um pregador que expõe seu argumento e depois faz seus ouvintes sentirem o peso. Ele confronta seus ouvintes: Vocês, que se acham muito diferentes, moralmente falando, dos assassinos — nunca sentiram ódio? Nunca desejaram que alguém morresse? Não se rebaixam frequentemente a ponto de desprezar e até caluniar os outros? Toda essa ira difamatória está na raiz do homicídio e faz com que um homem zeloso tome consciência de que moralmente não difere nem um pouco de um assassino de verdade. Da mesma forma, há dúvida de que os três castigos — julgamento, Sinédrio e fogo do inferno — devam ser entendidos como uma gradação. Na teocracia do Antigo Testamento, o próprio Deus respaldava o sistema jurídico do Estado. O julgamento, embora civil, também era divino. Aqui, Jesus percorre o sistema oficial até a punição máxima para deixar claro que o julgamento a ser temido é de fato divino, pois se baseia na avaliação que Deus faz do coração e pode levar ao fogo do inferno. Esses versículos dizem algo muito importante. Não se deve pensar que a lei do Antigo Testamento que proíbe o homicídio está sendo adequadamente cumprida desde que não haja derramamento de sangue. Em vez disso, a lei indica um problema mais fundamental: a ira difamatória do ser humano. Jesus, por sua própria autoridade, insiste em que o julgamento que se pensava estar reservado apenas para alguém que comete um assassinato na realidade paira sobre os irascíveis, os maldosos e os espezinhadores. Existe, portanto, alguém que permaneça sem condenação? Alguém poderia perguntar: “Mas o próprio Jesus não ficou bastante irado algumas vezes?”. Sim, é verdade. Ele sem dúvida ficou contrariado com o comércio praticado nas dependências do templo (Mt 21.12ss. e passagens paralelas). O Evangelho de Marcos registra a ira de Jesus contra aqueles que, por razões legalistas e hipócritas, tentavam encontrar algo errado nas curas que ele realizou no sábado (Mc 3.1ss.). E certa ocasião, ao dirigir-se aos escribas e fariseus, Jesus disse: “Insensatos e cegos!” (Mt 23.17). Será que Jesus é culpado de grave incoerência? De fato, há lugar para arder de raiva contra o pecado e a injustiça. Nosso problema é que nós ardemos de indignação e ira não contra o pecado e a injustiça, mas contra o que nos ofende pessoalmente. Em nenhum dos casos em que Jesus se irou vemos seu ego envolvido na questão. Ainda mais revelador é que, quando foi preso injustamente, julgado de forma arbitrária, açoitado sem condenação, insultado com cusparadas, crucificado e escarnecido, quando de fato ele tinha todos os motivos para que seu ego se revoltasse, Pedro diz: “Quando insultado, não revidava, quando sofria, não fazia ameaças” (1Pe 2.23). De seus lábios ressecados, saíram, em vez disso, estas palavras bondosas: “Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que fazem” (Lc 23.34). Admitamos: em geral somos rápidos para ficar irados quando somos pessoalmente afrontados e ofendidos, mas lentos para sentir ira quando vemos o pecado e a injustiça se multiplicarem em outras áreas. Nesses casos, somos mais inclinados a filosofar. Na verdade, o problema é até mais complicado que isso. Às vezes nos envolvemos numa questão legítima e discernimos, talvez com precisão, o certo e o errado na situação. Contudo, ao defender o lado certo, nosso ego fica tão preso à questão que, para nós, os oponentes não só estão do lado errado, mas também nos atacando. Quando reagimos com ira, podemos nos iludir, pensando que estamos defendendo a verdade e o direito, mas lá no fundo estamos mais preocupados em nos defender. No Sermão do Monte, apesar do modo incondicional com que proíbe a ira, Jesus não está proibindo todo tipo de ira, mas a que se origina nas relações pessoais. Isso é óbvio não apenas pelos ensinamentos e conduta de Jesus em outras ocasiões e porque a ira em questão é a que se encontra no coração do assassino, mas também pelos dois exemplos que Jesus dá para tornar seu argumento ainda mais incisivo (5.23-26). O primeiro (5.23,24) fala de uma pessoa que vem cumprir seus deveres religiosos (nesse caso, a oferta de um sacrifício no altar do templo), mas ofendeu seu irmão. Jesus insiste em que é muito mais importante essa pessoa se reconciliar com seu irmão do que se desincumbir de seu dever religioso, pois este último passa a ser fingimento e enganação se o adorador se comportou tão mal que seu irmão tem algo contra ele. É mais importante ser absolvido da ofensa diante de todos os homens do que chegar no horário certo ao culto de domingo de manhã. Esqueça o culto de adoração e se reconcilie com seu irmão; só depois adore a Deus. Os homens gostam de substituir integridade, pureza e amor por cerimônias, mas Jesus não aceita nada disso. O segundo exemplo (5.25,26) novamente usa uma metáfora jurídica. Na época de Jesus, assim como em séculos mais recentes, quem não pagasse suasdívidas podia ir para uma prisão para devedores até pagar a quantia devida. Enquanto estivesse preso, certamanente não recebia nenhum dinheiro e, portanto, dificilmente conseguiria quitar a dívida e recuperar a liberdade. Porém, seus amigos e entes queridos, ansiosos por tirá-lo de lá, podiam fazer imenso e sacrificial esforço para conseguir o dinheiro. Seria levar a metáfora longe demais deduzir que Jesus está ensinando que o tribunal celeste condenará os culpados à “prisão” (inferno?) somente até que tenham quitado suas dívidas. As dívidas em questão são ofensas pessoais. Como, então, serão pagas? E como outras pessoas podem pagar essas dívidas pelo preso? O que Jesus está ressaltando, na verdade, é a urgência da reconciliação pessoal. O juízo está às portas, e a justiça será feita: portanto, afaste-se de toda maldade e ofensa contra os outros, pois até aquele “que se irar contra seu irmão será sujeito a julgamento” (5.22). Desse modo, vemos que, nesses dois casos, é a animosidade pessoal que é condenada. Adultério e pureza (5.27-30) Os contemporâneos de Jesus também tinham ouvido o que fora dito: “Não adulterarás”. Trata-se, claro, de uma referência ao sétimo mandamento (Êx 20.14). Nossa sociedade se afastou bastante dessa proibição. Muitos pensadores modernos defendem a legitimidade do adultério — se houver amor. Até o cristianismo é invocado para santificar esse ponto de vista. Afinal de contas, dizem eles, o ponto central do evangelho não é o amor? De fato, como veremos, essa filosofia distorce a perspectiva bíblica tanto do amor quanto do casamento. Na religião, que erro pode ser abominável se alguma fronte austera o defende e aprova com a citação de um texto encobrindo com bonito fraseado a deformidade?2 Enquanto nossa sociedade se afasta do sétimo mandamento, Jesus caminha em outra direção. Ele não se contenta com o mero cumprimento formal do mandamento, nem o está interpretando com rigor. Em vez disso, com sua própria autoridade, ele está ressaltando a pureza para a qual a lei aponta: “Mas eu lhes digo que qualquer um que olhar cobiçosamente para uma mulher já cometeu adultério com ela no coração” (5.28). De fato, ao colocar na concupiscência o rótulo de adultério, Jesus aprofundou o sétimo mandamento em relação ao décimo, que proíbe a cobiça. A questão não é proibir a atração normal que existe entre homem e mulher, mas da cobiça, ou lascívia, com raízes profundas que consome e devora, ataca e viola em pensamento, que contempla mentalmente e comete o adultério. Se nossa sociedade está minimizando a proibição do adultério, em grau muito maior está alimentando nossa luxúria. A publicidade vende produtos usando o apelo do sexo. As livrarias enchem as prateleiras com tudo o que é obsceno e pervertido. A ampla maioria das canções populares realça as relações homem/mulher, em geral com referência à satisfação sexual, ao desejo físico, à infidelidade e coisas semelhantes. A essa sociedade, Jesus transmite sua mensagem contundente: “Qualquer um que olhar cobiçosamente para uma mulher já cometeu adultério com ela no coração”. Escrevo esta frase com vergonha: qual de nós não é culpado de adultério? Sinceridade diante de Deus nesse assunto pode produzir em nós a pobreza de espírito que nossos triunfos jamais trarão e nos fazer chorar junto com o autor do hino: Uma coisa eu do Senhor almejo — pois todo o meu caminhar tem sido trevas — seja por terremoto, vento ou fogo, Senhor, purifica-me. Senhor, purifica-me!3 Precisamos da atitude mencionada por Jesus em 5.29,30: “Se o seu olho direito o fizer pecar, arranque-o e jogue-o fora. É melhor perder uma parte do seu corpo do que ser todo ele lançado no inferno. Se a sua mão direita o fizer pecar, corte-a e jogue-a fora. É melhor perder uma parte do seu corpo do que ir todo ele para o inferno”. O olho foi escolhido nessa passagem porque olhou e cobiçou; a mão foi escolhida provavelmente porque o adultério, mesmo em pensamento, é um tipo de roubo. Alguns interpretaram essas palavras literalmente. Orígenes (c. 195-254) castrou-se para não ser tentado. Mas isso, acredito, erra o alvo do argumento de Jesus e o caráter absoluto da pregação de Jesus que observamos anteriormente, pois, se eu arranco meu olho direito porque ele olhou e cobiçou, meu olho esquerdo não pode fazer o mesmo? E, se eu me cegar, será que não posso cobiçar da mesma maneira e contemplar mentalmente coisas proibidas? O que Jesus quer dizer, então? Apenas isto: temos de lidar com o pecado radicalmente. Não devemos acariciá-lo, flertar com ele nem fazer concessões de vez em quando. Temos de odiar o pecado, esmagá-lo, extirpá-lo. “Portanto, façam morrer tudo o que pertence à sua natureza terrena: imoralidade sexual, impureza, paixões, maus desejos e a avareza, que é idolatria” (Cl 3.5). Paulo acrescenta: “Por causa dessas coisas é que vem a ira de Deus” (Cl 3.6) — como em Mateus 5.29,30. Jesus ameaça com o inferno todos aqueles que não lidam com o pecado radicalmente. Nossa geração tem uma atitude condescendente em relação ao pecado. O pecado na nossa sociedade é visto mais como anormalidade ou doença. Precisa de tratamento, não de condenação ou arrependimento; e não deve ser reprimido, porque isso pode causar dano psicológico. Sei muito bem como o pecado seduz, envolve e produz vítimas patéticas, mas as vítimas não são sujeitos passivos. No ensino de Jesus, o pecado leva para o inferno, e esse é o principal motivo por que deve ser levado a sério. Extrapolação: divórcio e novo casamento (5.31,32) A discussão sobre adultério e pureza leva naturalmente à questão do divórcio. Os judeus da época de Jesus tinham ouvido que o homem que quisesse se divorciar de sua mulher tinha de lhe dar um documento de divórcio. Na verdade, o que eles tinham ouvido não era totalmente verdadeiro. A passagem do Antigo Testamento a que se recorria era Deuteronômio 24.1-4. A essência dessa passagem é: se um homem descobre alguma impureza em sua mulher e se divorcia dela, dando-lhe um documento de divórcio, e ela depois se casa com outro homem que também acaba se divorciando dela, então o primeiro marido não pode se casar de novo com ela. Na época de Jesus, esse princípio importantíssimo havia sido posto de lado com o intuito de concentrar a atenção na “impureza” que tornaria legítimo o primeiro divórcio. A expressão empregada nesse caso para “impureza” só é usada outra vez no Antigo Testamento, quando se refere à depuração humana. Não está claro a que impureza sexual Deuteronômio 24.1 se refere. De qualquer modo, trata-se, mesmo na perspectiva mosaica, de algo excepcional. Nos dias de Jesus, porém, alguns até ensinavam que podia ser alguma imperfeição da esposa de caráter absolutamente trivial, como servir ao marido comida acidentalmente queimada. Jesus, porém, não permite sofismas. Aqui, assim como em Mateus 19.3ss., ele volta aos primeiros princípios. No começo, Deus fez um homem e uma mulher, e eles foram unidos. Inicialmente, todo divórcio era inconcebível; quando Deus criou homens e mulheres, não deu nenhuma permissão para isso. O Criador disse: “Por isso, o homem deixará seu pai e sua mãe e se unirá à sua mulher, e os dois serão uma só carne”. Jesus acrescenta: “Assim, eles já não são dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus uniu o homem não separe” (Mt 19.5,6). Deus, de fato, odeia o divórcio (Ml 2.16). Dentro dessa estrutura, portanto, é óbvio que, se Moisés permitiu o divórcio por alguma impureza repulsiva, isso foi uma exceção que tem sua raison d’être no coração duro e pecaminoso do homem. Em Mateus 5.31,32, Jesus esclareceas ideias erradas e mostra para qual direção o Antigo Testamento aponta. Qualquer um que se divorcie de sua mulher está errado, porque está fazendo que ela cometa adultério caso venha a se casar com outro, já que o primeiro vínculo não está rompido. Segue-se, portanto, que o homem que se casa com uma divorciada também está cometendo adultério. Diante de Deus, ele está de fato se casando com a mulher de outro homem (5.32). A única exceção que Jesus faz é a “fornicação”. Cristãos de diferentes tendências têm dito que essa palavra se refere a todo tipo de pecados específicos; mas, até onde sei, esse é um termo inclusivo que se refere a toda irregularidade sexual. Para um casal casado, envolve infidelidade sexual. Mesmo nesse caso, o homem não é obrigado a se divorciar de sua mulher, mas tem a permissão de fazê-lo como uma concessão. A mesma condição de exclusão aparece em Mateus 19 e se refere tanto ao divórcio quanto ao novo casamento. Isso não é tudo o que a Bíblia tem a dizer sobre o assunto, e precisamos ter muito cuidado ao juntar todos os pedaços. No entanto, esse é o cerne da questão, e nossa geração precisa ser confrontada com tais exigências. Antigamente o divórcio era um problema raramente encontrado nos círculos evangélicos. Para nossa vergonha, isso mudou. Nossa sociedade, incluindo muitos cristãos professos, rejeitou o conceito bíblico de amor e casamento. O amor passou a ser uma mistura de desejo físico e sentimentalismo vago; o casamento tornou-se uma união sexual provisória que dura até o momento em que esse amor patético e nanico acaba. Como é diferente a perspectiva bíblica! Na Palavra de Deus, casamento e amor são para os fortes. Casamento é compromisso, e, em vez de roer a corda quando as coisas ficam difíceis, os cônjuges devem resolver seus problemas à luz das Escrituras. Devem persistir, esforçando-se para melhorar o relacionamento, exatamente porque prometeram, diante de Deus e dos homens, viver juntos e amar um ao outro na alegria e na tristeza, na riqueza e na pobreza, na saúde e na doença, até que a morte os separe. Amor é o compromisso determinado de procurar o bem do outro, tratar com carinho, proteger, cuidar, edificar e ser paciente. Esse compromisso, posto em prática por causa da profunda obediência a Deus, também traz consigo os aspectos emocionais e sentimentais do amor. Jesus pressupõe esse conceito elevado de casamento quando, com apenas uma exceção, proíbe terminantemente o divórcio. E é esse conceito elevado do casamento que sublinha as palavras incisivas de Jesus a respeito da cobiça (5.27-30) e dá unidade a esse bloco temático (5.27-32). Casamento não é sujo, sexo não é imundície. Os dois são maravilhosos dons do Criador, mas são prostituídos pela luxúria e aviltados pelo divórcio. A Lei e os Profetas, pela autoridade do próprio Jesus, indicam a necessidade de absoluta pureza, que não deve ser trivializada por sofismas que buscam excluí-la. Juramentos e honestidade (5.33-37) No terceiro bloco de texto, Jesus aborda a questão da honestidade. As pessoas tinham ouvido o que fora dito muito tempo atrás: “Não quebre sua promessa, mas cumpra os juramentos que fez ao Senhor” (5.33). Isso não é citação direta do Antigo Testamento, mas uma alusão a passagens como Êxodo 20.7, Levítico 19.12, Números 30.2 e Deuteronômio 23.21-24. Contudo, Jesus agora diz: “Não jurem de forma alguma” (5.34). Alguns pensam que isso as proíbe de fazer juramento num tribunal ou de prestar juramento de lealdade. O desejo dessas pessoas de obedecer à Palavra de Deus é admirável, mas tenho de admitir que elas não a entenderam direito. Como sempre, Jesus está pregando por antítese, e é importante descobrir exatamente o que ele está dizendo antes de tomarmos sua declaração com essa incondicionalidade insensível. Antes de tudo, é preciso notar que o Antigo Testamento permite que os homens façam juramentos, até em nome de Deus: “Temam o Senhor, o seu Deus, e sirvam a ele. Apeguem-se a ele e jurem somente pelo seu nome” (Dt 10.20). Mesmo no Novo Testamento, Paulo, por exemplo, jura com frequência pelo nome de Deus. Ele até convoca Deus como sua testemunha (Rm 1.9; 2Co 1.23; 1Ts 2.5,10; cf. Fp 1.8). Portanto, se Paulo sabia desse ensino de Jesus, ele certamente não o interpretou de forma absoluta. O próprio Deus jura: ele jura não enviar outro dilúvio universal (Gn 9.9-11), jura enviar um redentor (Lc 1.68,73), jura ressuscitar seu Filho dentre os mortos (Sl 16.10; At 2.27-31), e muito mais. Todos esses votos e esses juramentos têm o propósito de estimular a honestidade ou torná-la ainda mais solene e garantida. Às vezes isso é até soletrado para nós. Em um caso, por exemplo, lemos: “Porque Deus, querendo mostrar claramente a natureza imutável de seu propósito aos herdeiros da promessa, confirmou-o com um juramento” (Hb 6.17). Pelo mesmo motivo, o código mosaico proibia apenas os juramentos falsos ou irreverentes, que devem ser considerados profanação do nome de Deus. Infelizmente, contudo, na época de Jesus, os judeus haviam construído todo um sistema legalista em torno dos ensinamentos do Antigo Testamento. O código jurídico judeu, a Mishná, contém um tratado inteiro dedicado à questão dos juramentos, incluindo uma análise detalhada de quando eles são compulsórios e quando não são. Por exemplo, um rabino diz que, se alguém jurar por Jerusalém, não está obrigado por seu voto; mas se jurar na direção de Jerusalém, está obrigado a cumprir seu voto. Assim, os juramentos degeneram numa série de regras terríveis que informam quando é possível usar mentiras e falsidade impunemente e quando não é. Esses juramentos não incentivam mais a honestidade, mas enfraquecem a causa da verdade e promovem o engano. Jurar evasivamente passa a ser uma desculpa para mentir. Jesus não permite esse tipo de sofisma entre seus seguidores. Se os homens querem fazer esse jogo com os votos, ele simplesmente acaba com todo e qualquer voto. Jesus está interessado em honestidade, sua constância e incondicionalidade. Jesus dá exemplos. Os homens não devem jurar pelo céu nem pela terra, pois estes são respectivamente o trono de Deus e o escabelo de seus pés. As pessoas também não devem jurar voltadas em direção a Jerusalém (se traduzirmos a preposição literalmente), pois é a cidade de Deus, o grande Rei. Não se deve jurar nem pela própria cabeça (cp. com 1Sm 1.26; Sl 15.4), pois não podem mudar a cor de um fio de cabelo sequer: isto é, estão jurando por uma coisa sobre a qual só Deus tem total controle. Em outras palavras, Jesus associa todo voto a Deus. Jurar por qualquer coisa é jurar por Deus, pois ele está por trás de tudo. Portanto, nenhum juramento é trivial, nenhum juramento é uma evasiva justificável; todo juramento é uma promessa solene de falar a verdade. Jesus expande essa questão em outra passagem: Ai de vocês, guias cegos! Vocês dizem: “Se alguém jurar pelo templo, isso não tem importância; mas, se alguém jurar pelo ouro do templo, fica obrigado pelo seu juramento”. Cegos e insensatos! O que é maior: o ouro ou o templo, que santifica o ouro? Vocês também dizem: “Se alguém jurar pelo altar, isso não tem importância; mas, se alguém jurar pela oferta sobre ele, fica obrigado por seu juramento”. Cegos! O que é maior: a oferta ou o altar, que santifica a oferta? Portanto, quem jurar pelo altar jura por ele e por tudo o que está sobre ele. Quem jurar pelo templo jura por ele e por aquele que nele habita; e quem jurar pelo céu jura pelo trono de Deus e por quem está assentado nele (Mt 23.16-22). A verdadeira questão aqui é a honestidade. Para o seguidor de Jesus, é melhorapenas dizer “sim” ou dizer “não” com sinceridade. No contexto da época de Jesus, tudo o que passe disso vem do Maligno (5.37), que é chamado bem apropriadamente de pai da mentira (Jo 8.44). O ensino de Jesus sobre a honestidade causou profunda impressão na igreja primitiva, pois naquela que foi talvez a primeira epístola do Novo Testamento, a Epístola de Tiago, a mesma questão é enfatizada (Tg 5.12). Os cristãos afirmam ter a verdade e seguir aquele que é a Verdade (Jo 14.6). Em nossas conversas, portanto, verdade deve ser o nosso lema. Quantos de nós floreamos um pouco nossas histórias de uma forma reprovável, seja para reforçar nosso argumento, seja para parecermos mais interessantes aos olhos dos outros do que os fatos reais permitiriam? Quantos de nós dizemos que vamos fazer uma coisa e depois voltamos atrás porque cumprir a promessa nos traz algum inconveniente? Vocês, que, como eu, são mestres e pregadores, quantas vezes também forjam provas para demonstrar um ponto de vista ou falam categoricamente sobre assuntos que desconhecem, na esperança de que sua postura dogmática consiga esconder a própria ignorância? Não estou falando de um erro honesto, mas de fraude. Nosso Senhor insiste em que a Escritura do Antigo Testamento aponta para a honestidade, e todos os que se submetem à autoridade dele devem falar somente a verdade. Abuso pessoal e autossacrifício (5.38-42) O povo judeu tinha ouvido o que fora dito: “Olho por olho e dente por dente”. Essa lei famosa encontra-se em Êxodo 21, Levítico 24 e Deuteronômio 19. É preciso lembrar dois aspectos a respeito dessa lei. Primeiro, por mais prescritiva que possa ter sido, ela também era restritiva e, por isso, um instrumento excelente para eliminar vingança entre famílias e guerras entre tribos. Imagine que alguém decepe a mão de meu irmão, e eu vá até lá e corte a cabeça do agressor. A violência inicial imediatamente aumentou de proporção, e a família do agressor pode achar que tem o dever de honra de massacrar a mim e à minha família. Onde isso vai parar? Porém, se, em vez disso, o ato inicial de violência é retribuído precisamente no mesmo tipo e no mesmo grau, um olho por um olho e um dente por um dente, isso põe fim à questão. Em segundo lugar, a lei foi dada ao povo judeu como nação. Não se destinava a ser aplicada por indivíduos na execução de vinganças pessoais, mas pelo judiciário. Na época de Jesus, no entanto, esses dois fundamentos eram frequentemente deixados de lado. Tornou-se muito fácil entender a lei como prescritiva e só ligeiramente restritiva. A questão, assim, passou a ser: Até que ponto posso ir com minha vingança pessoal sem infringir a lei? Pior ainda: a lei estava sendo arrastada para a arena pessoal, em que dificilmente podia promover nem mesmo uma justiça grosseira, antes só rancor, desejo de vingança, maldade e ódio. Jesus responde com avassaladora autoridade: “Mas eu lhes digo: ‘Não resistam ao homem mau” (5.39). Como se deve interpretar essa declaração? A ideia de Tolstói de que não deveria haver soldados, policiais nem magistrados porque eles resistem aos homens maus ficou famosa. Mas preste atenção no que Tolstói está fazendo: ele está extrapolando a declaração de Jesus para dizer que ninguém pode resistir a um homem mau que esteja atacando uma terceira pessoa. Por exemplo, por duas vezes estive em uma situação em que minha presença física impediu a violência. Ambas ocorreram tarde da noite num bairro marginalizado de Toronto. Em uma das ocasiões, um homem estava agredindo uma moça e fugiu correndo quando eu me aproximei. Na outra, um bêbado estava ameaçando com uma garrafa um casal, que se encolhia de medo num canto. Eu me meti entre o bêbado e o casal e mandei que eles saíssem correndo dali. É claro que o bêbado se voltou contra mim, mas nem tentou enfiar a garrafa na minha cara, e assim me poupou da necessidade de arrancá-la da mão dele. No entanto, não há como negar que eu sou culpado de resistir a uma pessoa má. Será que a ordem de Jesus me condena pelo que fiz? Poucos responderiam que sim. Contudo, muitos cristãos estariam preparados para discutir, com base no que Jesus diz aqui, que nenhum cristão deve jamais resistir ao mal dirigido contra ele. Portanto, em princípio, nenhum cristão deveria jamais entrar para a polícia ou para as forças armadas. Tais pessoas reconhecem que Deus deu o poder da espada ao Estado (cf. Rm 13.1-7), mas concluem que nenhum cristão jamais deveria se encontrar em nenhuma força de segurança ou autoridade civil que lhe exija resistir a pessoas más. Esses pacifistas consideram que qualquer alternativa enfraquece o que Jesus ensina no Sermão do Monte.4 Esse problema não é fácil, e não é o que eu escrevo aqui que vai resolvê- lo. Contudo, é preciso levar em conta tanto o ambiente histórico-cultural em que Jesus estava pregando quanto o estilo antitético tão característico de seu discurso. Por exemplo, Jesus diz em 5.42: “Dê a quem lhe pede”. Em Cambridge, na Inglaterra, onde apresentei este conteúdo em forma de palestra pela primeira vez, uma grande quantidade de mendigos anda atrás dos alunos, e muitas vezes são até agressivos, exigindo dinheiro, comida ou roupas. Alguns desses mendigos estão em miséria extrema, e é uma vergonha que não exista um centro de assistência adequado para atender essas pessoas. Mas muitos estão só se aproveitando dos estudantes. Eles sabem quais são os de coração mais mole, e o que fazem com eles é predação em sentido literal. Várias vezes fui abordado por alguém me pedindo dinheiro para comprar comida ou pagar um abrigo, mas quando, em vez de dar dinheiro, eu me oferecia para ir comprar um prato de comida para o pedinte ou ir com ele procurar um abrigo, ele não aceitava e me respondia com um monte de desaforos. Eles sempre dizem que querem dinheiro porque estão com fome ou não têm onde dormir; em muitos casos, porém, gastam o dinheiro com bebida. Será que é responsabilidade do cristão sustentar mendigos profissionais ou pagar a droga que está arruinando a vida de um ser humano? Quando Jesus diz: “Dê a quem lhe pede”, será que está dizendo que não existem circunstâncias em que essa ordem não se aplica? Conheço um aluno de pós- graduação de Cambridge cuja terna consciência o fez pensar que sim, e ele acabou falido por causa disso, quase passando fome, enquanto dava dinheiro para suprir de bebida alcoólica meia dúzia de homens que estariam bem melhor se não bebessem. No fim, algumas pessoas o ajudaram a entender que suas ações, embora bem-intencionadas, não estavam ajudando nem aqueles homens nem a ele mesmo, além de não honrarem a Jesus nem seus ensinamentos. Logo, por mais que desejemos seguir a Jesus com seriedade, descobrimos, mais cedo ou mais tarde, que isso implica meditar muito e seriamente sobre o que ele disse e o que não disse. Talvez não cheguemos à unanimidade em todos os pontos, mas temos de concordar que absolutizar qualquer texto, sem o devido respeito pelo contexto e fluxo de raciocínio, bem como por outras declarações de Jesus em outras passagens, tem grande probabilidade de gerar distorções e erros de interpretação. Do modo que entendo esses versículos, não creio que Jesus tivesse em mente policiais e soldados. O ensino explícito do Novo Testamento em relação a essas profissões tem mais a ver com integridade, contentamento com o salário e coisas assim.5 Em vez disso, em Mateus 5.38-42 Jesus está falando de abuso pessoal e sacrifício pessoal, usando a interpretação equivocada da lei do Antigo Testamento como ponto de partida de seu ensino.Os quatro exemplos que ele dá apoiam essa ideia. O primeiro refere-se a alguém que recebe um forte tapa no rosto com as costas da mão, um tremendo insulto. O seguidor de Jesus deve estar disposto a levar mais um em vez de revidar. Há histórias famosas de pessoas cujo caráter foi transformado após a conversão, como, por exemplo, Billy Bray, o pugilista e Tom Skinner, líder dos Harlem Lords. Antes brigões, hostis e agressivos, depois de convertidos eles se tornaram humildes diante dos insultos e golpes que recebem e não reagem mais a tais agressões (com essa atitude, impressionaram muitos de seus agressores). Essa conduta é particularmente importante, é claro, quando a violência e o abuso ocorrem em consequência de alguma posição de defesa da justiça (cf. 5.10-12), mas o texto não precisa se restringir a isso. O segundo exemplo diz respeito a um processo legal em que um homem vai provavelmente perder sua “túnica”, uma vestimenta longa que corresponde a um vestido ou terno dos dias de hoje. O seguidor de Jesus entrega essa túnica também, embora tal traje fosse considerado um bem inalienável segundo a lei judaica (Êx 22.26,27). Obviamente, é pouco provável que houvesse uma disputa judicial por causa de uma peça de roupa. Mas o que está em jogo aqui é um princípio: precisamos estar prontos a abrir mão até daquilo que consideramos nossos direitos garantidos por lei. Em outro contexto, Paulo discorre mais sobre esse princípio, quando insiste em que os seguidores de Jesus devem preferir ser injustiçados a entrar em litígio com outro seguidor de Jesus (1Co 6.7,8). O terceiro exemplo provavelmente se refere à prática romana de exigir que civis realizassem tarefas. “Se alguém obrigar você a caminhar uma milha, vá com ele duas” (5.41). Um soldado romano comum podia ordenar legalmente a um civil que o ajudasse, por exemplo, a carregar sua bagagem por uma distância determinada. Os seguidores de Jesus não devem ficar irritados nem se sentir explorados nesses casos, como se estivessem sendo pessoalmente insultados. Em vez disso, devem aceitar a imposição de bom grado e dobrar a distância. O último exemplo de Jesus fala de dar e emprestar com boa vontade e alegria. A questão aqui não é a sabedoria ou a tolice de emprestar dinheiro a todo o mundo que venha pedir (sobre isso, veja Pv 11.15; 17.18; 22.26) — como também os pedintes de Cambridge não são a questão em debate. O tema central da passagem é: Cristo não tolera atitude mercenária, avarenta, mesquinha, que é o análogo financeiro da interpretação legalista de “olho por olho e dente por dente”. “Dê a quem lhe pede e não volte as costas a quem deseja lhe pedir emprestado” (5.42). Não fique se perguntando o tempo todo: “O que eu ganho com isso? O que posso conseguir em troca?”. A mentalidade legalista, que tem fixação por represália e pelo que considera equidade, dá muita importância aos direitos de um indivíduo. O que Jesus está dizendo nesses versículos, mais do que qualquer outra coisa, é que seus seguidores não têm direitos. Eles não têm o direito de pagar na mesma moeda e de executar vingança (5.39), eles não têm direito a seus bens (5.40), nem a seu tempo e dinheiro (5.41,42). Mesmo seus direitos individuais protegidos por lei às vezes podem ser abandonados. Por isso, seria um erro interpretar a passagem de 5.41 como se ela dissesse, por exemplo, que o seguidor de Jesus deve estar preparado para andar duas milhas, mas nem um centímetro a mais! O sacrifício individual substitui a retaliação individual, pois foi esse o caminho que o próprio Salvador tomou, o caminho da cruz. O caminho da cruz, não noções de “certo ou errado”, é o princípio de conduta do cristão. Ódio e amor (5.43-47) A discussão sobre abusos praticados contra a pessoa e a reação de sacrifício individual leva naturalmente à questão mais ampla do amor e do ódio. As pessoas tinham ouvido o que fora dito: “Ame o seu próximo e odeie o seu inimigo” (5.43). Mais uma vez, o que ouviram não era verdade. As Escrituras do Antigo Testamento dizem: “Ame o seu próximo” (Lv 19.18), mas não há nenhuma passagem dizendo “odeie o seu inimigo”. Contudo, alguns judeus interpretavam a palavra “próximo” como exclusiva: temos de amar apenas o nosso próximo, pensavam. Logo, devemos odiar nossos inimigos. Na verdade, isso era ensinado em alguns círculos. Um dos lemas da comunidade monástica que vivia nas proximidades do mar Morto era: “Ame os irmãos; odeie os forasteiros”. O problema de identificar o “próximo” era um assunto corrente na época de Jesus. Foi exatamente essa questão que levou Jesus a contar a parábola do Bom Samaritano (Lc 10.29ss.), em que Jesus mostra que nosso próximo é qualquer pessoa ao alcance de nossa ajuda. Jesus diz: “Amem seus inimigos e orem pelos que perseguem vocês” (5.44). Os inimigos específicos para os quais Jesus chama a atenção dos ouvintes são os perseguidores, provavelmente os que perseguiam seus seguidores por causa da justiça e do próprio Jesus (5.10-12). Amá-los e orar por eles é parte importante de ser um filho do Pai celestial. Afinal de contas, Deus “faz o seu sol nascer sobre maus e bons e vir chuvas sobre justos e injustos” (5.45). Deus amou pecadores rebeldes a ponto de enviar seu Filho ao mundo (Jo 3.16; Rm 5.8). Logo, se somos seus filhos, devemos ter seu caráter. Ser perseguido por causa da justiça é estar alinhado com os profetas (5.12), mas abençoar e orar pelos que nos perseguem é estar alinhado com o caráter de Deus. Em parte alguma essa atitude sublime é mais flagrante do que no próprio Jesus, que, mesmo sofrendo a injusta agonia na cruz, clamou: “Pai, perdoa- lhes, pois não sabem o que estão fazendo” (Lc 23.34). Diante desse padrão, não basta apenas amar nossos amigos e restringir-se a isso. “Se vocês amarem quem os ama, que recompensa terão? Os coletores de impostos também não fazem o mesmo?” Os coletores de impostos talvez tenham má fama hoje em dia, mas nada se compara à reputação que tinham na Palestina do primeiro século. O sistema tributário do Império Romano valia-se de intermediários, em troca de certa comissão, para arrecadar o imposto devido pela população. O governo especificava a quantia a ser arrecadada em determinada área e indicava um homem para a coletar. Esse homem, por sua vez, podia indicar outros sob seu comando, os quais também podiam indicar outros como seus próprios subalternos. Cada indicado tinha de obter sua cota, e o que passasse disso ele podia pegar para si. O potencial para propina e corrupção ao longo de toda a pirâmide desse sistema de coleta terceirizado era imenso, e todos tiravam partido de cada brecha. Como era de se esperar, os coletores de impostos judeus eram odiados, mais ainda entre os próprios judeus, porque esses coletores entravam em contato com os gentios, os dominadores romanos, e por isso eram cerimonialmente impuros. Contudo, mesmo esses homens vis, traidores e repulsivos tinham amigos — outros publicanos, por exemplo! Logo, como poderá um discípulo de Jesus ser de algum modo superior aos desprezíveis coletores de impostos se amar somente os próprios amigos? “E, se vocês saudarem apenas os seus irmãos, o que estão fazendo de mais? Os pagãos também não fazem o mesmo?” (5.47). Um cumprimento pode dizer muito, sobretudo se traz o desejo de bem-estar. Se determinadas pessoas são intencionalmente ignoradas e só os que nos são chegados recebem nossos sinceros votos de felicidade, em que somos diferentes dos pagãos? Em outras palavras, o seguidor de Jesus não deve se curvar aos padrões mesquinhos da sociedade. Ao contrário, seu padrão deve ser o Pai celestial.O discípulo de Jesus deve se destacar no mundo pela natureza divina de seu amor. De fato, em outra passagem Jesus até eleva o amor entre os cristãos à categoria de marca indicativa de que eles lhe pertencem (Jo 13.34,35). Assim, Jesus deixa clara a verdadeira direção para a qual a lei do Antigo Testamento aponta. É um padrão mais elevado do que o legalismo e o casuísmo podem admitir. CONCLUSÃO: A EXIGÊNCIA DE PERFEIÇÃO Mateus 5.48 Como vimos, amar os inimigos é próprio de Deus (5.45). Porém, o amor não é a única característica divina que Jesus espera que seus seguidores imitem. À medida que a passagem prossegue, fica tremendamente óbvio que Jesus está apresentando uma definição, no tocante à moral, impressionante— definição que põe o próprio Deus como padrão de tudo. “Sejam, pois, perfeitos, assim como o Pai celestial de vocês é perfeito” (5.48) Nós temos de ser santos, pois o Senhor nosso Deus é santo (Lv 19.2); amorosos, porque Deus é amor (1Jo 4.7ss.); perfeitos, assim como nosso Pai celestial é perfeito (Mt 5.48). Duas questões finais ainda precisam ser observadas sobre essa seção do Sermão do Monte. A primeira é que a autoridade de Jesus é uma das características dominantes desse capítulo. A Lei e os Profetas apontam para ele, mas é ele quem determina o significado, o cumprimento e a continuidade deles com autoridade nada menos que divina. É importante lembrar que as Escrituras do Antigo Testamento não têm nenhum status intrínseco independentemente de Deus: toda a autoridade que ela têm é derivada. Contudo, porque a procedência é de Deus, para interpretar e explicá-las assim é preciso nada menos que autoridade divina. Implicitamente, portanto, Jesus está reclamando essa autoridade para si. A segunda questão é que aquilo que a Lei e os Profetas indicavam chegou na pessoa de Jesus e no reino (o reino salvífico) a que ele dá início. Com toda autoridade, Jesus esclarece as exigências do reino e suas relações com as Escrituras do Antigo Testamento. A exigência comum é santidade, perfeição. Só é possível entender corretamente todas as leis do Antigo Testamento quando as interpretamos à luz dessa consideração esmagadora. A ênfase na pureza transparente e na santidade genuína, imitando a perfeição do Pai, exclui por completo toda hipocrisia religiosa, toda simulação de espiritualidade, toda exibição de justiça, todo ritual religioso realizado com ostentação. Mas Jesus explicita essa dedução em Mateus 6. 1J. W. Wenham escreveu um livro que ajuda muito a compreender a perspectiva de Jesus sobre o Antigo Testamento. Trata-se de Christ and the Bible (Eugene: Wipf and Stock, 2009). 2O mercador de Veneza, ato III, cena 2. 3Walter Chalmers Smith (1824-1908). [Conhecido no Brasil com o título Eu peço algo ao meu Deus, acessível em: http://hinario.org/detail.php?id=483. (N. do E.)] 4Talvez a melhor defesa recente dessa posição seja J. H. Yoder, The politics of Jesus (Grand Rapids: Eerdmans, 1994) [edição em português: A política de Jesus (São Leopoldo: Sinodal, 1988)]. 5Para os que quiserem ler uma perspectiva cristã sobre a violência e a autoridade do Estado, escrita em linguagem acessível e cujos destaques me agradam, recomendo o capítulo 5 de Os Guinness, The dust of death (Downers Grove: InterVarsity, 1973). N 3 Hipocrisia religiosa: sua descrição e destruição O PRINCÍPIO Mateus 6.1 ós, seres humanos, somos muito estranhos. Ouvimos preceitos morais sublimes e vislumbramos um pouquinho apenas da verdadeira beleza da perfeita santidade, mas depois degradamos essa visão sonhando acordados com a boa opinião que os outros teriam de nós se fôssemos assim. A exigência de perfeição genuína se perde no objetivo menor de exibir piedade exteriormente. O objetivo de agradar o Pai é trocado por seu primo nanico: agradar seres humanos. Parece até que, quanto maior a exigência de santidade, maior a chance de hipocrisia. Por isso desconfio que o perigo é maior entre os líderes religiosos. Tendo exigido de seus seguidores nada menos que a perfeição (5.48), Jesus tem absoluta consciência da tendência natural do coração humano para o autoengano e faz um alerta contundente: “Tenham o cuidado de não praticar suas ‘obras de justiça’ diante dos outros para serem vistos por eles. Se fizerem isso, vocês não terão nenhuma recompensa do seu Pai celestial” (6.1). Sejam perfeitos (5.48), mas tomem cuidado (6.1). Logo, a questão sobre de quem é a aprovação que buscamos se apresenta de outro modo. Assim como as bem-aventuranças me perguntam se é a bênção de Deus que eu quero ou a aprovação de outra pessoa, assim também as exigências de justiça que Jesus apresentou jamais podem ser confundidas com a aparência de piedade: essa justiça agrada ao Pai e é recompensada por ele. A versão King James (KJV) começa o capítulo 6 com as palavras: “Guar- dai-vos de dar vossas esmolas diante dos homens, para serdes vistos por eles...”. Em outras palavras, essa versão introduz a questão das esmolas no primeiro versículo, não no segundo. Mas a NIV conserva a redação dos melhores e mais antigos manuscritos. No versículo 1, Jesus estabelece o princípio geral: todas as “obras de justiça” devem ser praticadas sem ostentação exibicionista e sem o aviltamento da busca de aprovação social. Em seguida, nos versículos 2-18, ele se concentra nas três obras fundamentais da piedade judaica, isto é, dar esmolas (6.2-4), orar (6.5-15) e jejuar (6.16-18). Ele escolhe essas três para representar todas as outras “obras de justiça”, tratando cada uma da mesma maneira. Em primeiro lugar, ele descreve e condena especificamente cada obra de piedade exibicionista típica das mais degeneradas formas de farisaísmo, tanto as de antigamente quanto as de hoje. Em segundo lugar, ele faz uma afirmação irônica sobre os resultados limitados dessa falsa piedade: os atores recebem sua recompensa integral. Entende-se aqui que a recompensa é o aplauso da plateia volúvel. E isso é tudo o que os atores recebem. Em terceiro lugar, ele faz uma descrição comparativa da verdadeira piedade e seus resultados. Vamos delinear essa forma nos três exemplos. OS EXEMPLOS Mateus 6.2-18 Esmolas (6.2-4) A revelação bíblica sempre defendeu a importância de dar esmolas, de dar aos necessitados (veja Dt 15.11; Sl 41.1; Pv 19.17). Contudo, grande parte da nossa doação está menos preocupada em suprir necessidades e agradar a Deus do que em conquistar reputação por nossa generosidade e piedade. “Portanto, quando você der aos necessitados, não anuncie com trombetas, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem glorificados pelos outros” (6.2). As trombetas podem ser metafóricas; a filantropia não deve ser acompanhada do som repulsivo do filantropo chamando a atenção para si. Mas também pode ser que se trate literalmente de trombetas: as trombetas do templo de Jerusalém convocando os cidadãos a contribuírem para suprir alguma necessidade urgente. A oportunidade de ostentação nessas circunstâncias é inigualável — as trombetas soam, eu fecho minha loja rapidamente e saio correndo pela rua. Todo mundo sabe para onde estou indo, e a velocidade com que corro não só chama a atenção para o meu destino, mas também comprova o meu zelo. No entanto, Jesus diz que as pessoas que dão esmolas dessa maneira, quer na rua, quer na sinagoga, quer nas igrejas, quer para instituições de caridade, quer como artifício de relações públicas de uma empresa, quer como meio de autopromoção — tais pessoas são hipócritas. Existem diversos tipos de hipocrisia. Em um específico, o hipócrita finge ser bom, masna verdade é mau, como aqueles que tentavam “apanhar” Jesus nas palavras que ele dizia (Mt 22.15ss.). Esse tipo de hipócrita sabe que é enganador. Em outro, o hipócrita se envaidece de seu senso de importância e justiça própria. Incapaz de enxergar os próprios defeitos, ele pode mesmo não ter consciência de que é hipócrita — embora seja muito duro para com os outros e seus pecados. Jesus fala desse tipo de hipocrisia em Mateus 7.1-5, como veremos. Podemos pelo menos nos consolar pelo fato de os observadores identificarem prontamente essa forma de hipocrisia, ainda que o próprio hipócrita não se dê conta de seus dois pesos e duas medidas. O tipo, porém, de hipocrisia abordado em Mateus 6.2 é mais sutil que os dois anteriores. Nesse caso, o hipócrita se convenceu de que no fundo está agindo pelo bem dos necessitados. Desse modo, ele pode não ter consciência da própria hipocrisia. Além do mais, é muito pouco provável que os necessitados reclamem; eles demonstram gratidão comovente e, assim, contribuem para o autoengano do hipócrita. E todos os que observam, exceto os mais perspicazes, vão elogiar o feito do filantropo, pois todos reconhecem que fazer caridade é bom. O hipócrita é por definição um ator — tenha ele consciência disso ou não. Aliás, a clássica palavra grega traduzida aqui por “hipócrita” a princípio significava “ator”. A piedade hipócrita não vem do coração, não é genuína, é uma encenação teatral de piedade. Esse tipo de filantropia é motivado por uma forma de egoísmo. Nos recônditos secretos que escondem suas ambições mais acalentadas, esses hipócritas dão esmolas “para serem glorificados pelos outros”. E Jesus declara: “Em verdade eu lhes digo que esses já receberam sua recompensa” (6.2b). Eles conseguem o que querem, e isso é tudo o que recebem. Tudo não passa de um golpe publicitário bem-sucedido. Não há nenhuma “obra de justiça” verdadeira, nenhuma piedade sincera — e nenhuma recompensa de Deus. “Mas, quando você der aos necessitados, não saiba a sua mão esquerda o que está fazendo a direita; para que a sua esmola fique em segredo” (6.3,4a). É quase como se o Mestre estivesse usando uma metáfora exagerada para expressar adequadamente o quanto nossas obras de caridade devem ser silenciosas e secretas. Essa privacidade não tem nenhum mérito em si, mas garante que nossas boas ações não sejam nem um pouco estimuladas pelo desejo de receber o elogio dos outros. Ninguém deve saber o que nós demos. Se houver o menor risco de alimentar orgulho secreto, nem nós mesmos devemos saber o que demos: a mão esquerda não sabe o que a direita faz. Ninguém deve saber sobre essa doação feita em segredo; ninguém, exceto Deus. Precisamente porque só o Pai sabe, essa doação secreta é outro meio de assegurar que estamos realizando uma “obra de justiça” genuína, que agrada a Deus. Ele verá que nós demos motivados por compaixão sincera pela pessoa necessitada e pelo desejo transparente de agradar a ele. Assim, seremos como os coríntios, que primeiramente deram a si mesmos ao Senhor, e depois deram seu dinheiro para a obra do Senhor (2Co 8.5). Portanto, temos de ofertar “em segredo”, tanto para nos proteger da falsa piedade exibicionista quanto para garantir que estamos agindo com retidão diante do Senhor. “Assim”, diz Jesus, “o seu Pai, que vê o que se faz em segredo, recompensará você” (6.4). Mais uma vez fica bem claro que o seguidor de Jesus está interessado nas recompensas e bênçãos de Deus, não na aprovação passageira dos outros. Além disso, como se depreende do texto, o discípulo de Jesus não está ofertando em segredo a fim de receber recompensa celestial; em vez disso, ele doa em segredo para evitar o fascínio das honrarias humanas, para agradar seu Pai e para suprir necessidades reais. A consequência é a recompensa espiritual. É obvio que Jesus não está se opondo à doação. De fato, ele pressupõe que seus seguidores vão doar. Contudo, tais seguidores, cujo alvo é a perfeição, não se devem iludir pensando que toda oferta agrada a Cristo ou que a caridade por si é uma “obra de justiça”. O coração humano é suficientemente engenhoso para permitir que essa simples insinuação sobreviva. Oração (6.5-8) “Quando vocês orarem, não sejam como os hipócritas, pois eles gostam de orar nas sinagogas e nas esquinas das ruas para serem vistos pelos outros. Eu lhes digo a verdade, eles já receberam sua plena recompensa” (6.5). A encenação das esmolas agora dá lugar à encenação da oração. Assim como Jesus não se opunha a dar esmolas, ele também não se opõe à oração. Ele presume que seus seguidores vão orar: “quando vocês orarem...”. O que ele rejeita categoricamente é a atitude dos que “gostam de orar [...] para serem vistos pelos outros”. Nas sinagogas, a oração pública era normalmente liderada por um homem, membro da congregação, que ficava em pé diante da arca da lei e cumpria essa responsabilidade. Era muito fácil sucumbir à tentação de orar para impressionar a plateia/congregação. Os clichês aceitáveis, os sentimentos apropriados, o tom de voz, o fervor expresso na hora certa, tudo isso se transformava em meios de receber aprovação e talvez de competir com o colega que dirigiu a oração na semana anterior. Além disso, nas ocasiões de jejum público, e talvez no momento do sacrifício diário que acontecia toda tarde no templo, as trombetas soavam avisando que estava na hora de orar. Exatamente onde estivesse, mesmo na rua, um homem tinha de se voltar para a direção do templo e fazer sua oração. Essa oportunidade de ostentar piedade era mesmo muito gratificante. Não devemos ser tão rígidos para com os judeus da época de Jesus antes de fazer um autoexame adequado. Sei muito bem o quanto sou capaz de me enganar e me iludir, e acho que não sou um caso isolado nisso. O crente convidado a orar num culto batista, o leitor solicitado a participar de um culto vespertino da igreja anglicana, o irmão convidado a pregar numa reunião da Irmandade, o estudante que lê a passagem bíblica no culto presbiteriano e o ministro em qualquer uma dessas reuniões — todos são extremamente tentados nessa área. E todos recebem a mesma recompensa: o desejado louvor de seus pares. Essa é a única e plena recompensa deles; não há outra, e certamente nenhuma oração respondida pelo Senhor. O que, então, deve caracterizar nossas orações? Jesus menciona dois requisitos. Primeiro: “Quando orar, entre no seu quarto, feche a porta e ore a seu Pai, que não pode ser visto. E seu Pai, que vê o que se faz em segredo, recompensará você” (6.6). Mais uma vez, não acredito que Jesus esteja tentando proibir toda oração pública. Se estava, a igreja primitiva não o entendeu, a julgar pelos exemplos de oração pública no livro de Atos (1.24; 3.1; 4.24ss. etc.). Vamos entender melhor o que Jesus quer dizer se nos fizermos estas perguntas: Oro com maior frequência e maior fervor quando estou a sós com Deus ou quando estou em público? Amo o local de oração em segredo? Minha oração pública é apenas o transbordar da minha oração particular? Se as respostas não forem afirmativas entusiásticas, não passamos no teste e nos incluímos na acusação de Jesus. Somos hipócritas. Será que o principal motivo de não termos mais orações atendidas é que estamos menos preocupados em apresentar nossos pedidos a Deus do que em nos mostrar diante dos outros? Existe uma história bem conhecida de um ministro da Nova Inglaterra que se referiu a uma oração bem elaborada e refinada feita numa igreja elegante de Boston como “a oração mais eloquente já oferecida a uma audiênciade Boston”. É exatamente isso. Em que penso quando estou orando em público? Será que fico tão ocupado tentando encontrar expressões para agradar os outros irmãos presentes no culto que não concentro minha atenção em Deus e mal me dou conta de sua presença, apesar de ser a ele que supostamente minhas orações se dirigem? Jesus insiste em que o melhor meio de vencer esse mal é se dedicar à oração a sós. “Assim, o seu Pai, que vê o que se faz em segredo, recompensará você.” Jesus menciona um segundo aspecto que deve caracterizar nossa oração: “Quando vocês orarem, não fiquem repetindo as mesmas coisas como os pagãos, pois eles pensam que serão ouvidos pelo muito falar” (6.7,8). Alguns pagãos acreditavam que, se mencionassem o nome de todos os seus deuses e dirigissem a cada um deles suas petições, e depois as repetissem algumas vezes, teriam mais chances de ser atendidos. Jesus diz a seus contemporâneos judeus que grande parte das orações deles é semelhante à ladainha dos pagãos; e tenho certeza de que diria o mesmo a nós hoje, se estivesse falando diretamente conosco. A oração não deve ser uma sucessão de chavões, de repetições vãs, nem deve basear-se na hipótese ridícula de que a probabilidade de ser atendido é diretamente proporcional ao número de palavras da oração. “Não se precipite com a boca, nem seja o seu coração impulsivo em pronunciar palavra alguma diante de Deus. Deus está no céu, e você está na terra, portanto sejam poucas as suas palavras” (Ec 5.2). É uma vergonha pensar que podemos conseguir favores de Deus pelo tamanho enorme de uma oração, entoada mecanicamente. Em uma igreja onde ministrei, na reunião de oração do meio da semana, era costume os homens e os meninos saírem para orar em uma sala do prédio, e as mulheres e as meninas, em outra. Algumas igrejas dividem a congregação em grupos muito menores. Os grupos pequenos têm algumas vantagens — por exemplo, mais pessoas podem participar. Mas também têm desvantagens. É preciso haver momentos em que todos os membros da família da igreja orem juntos, em parte para promover a unidade e em parte para cada grupo da igreja tomar conhecimento das preocupações espirituais dos outros. De qualquer modo, eu tinha herdado aquele problema de segregação e achava que fosse apenas uma opção, não uma parte essencial da tradição eclesiástica. Por isso, certa noite, propus delicadamente que orássemos todos juntos, pelo menos naquela semana. Quando a reunião acabou, um irmão veio falar comigo bastante incomodado. Ele achava que a reunião tinha sido uma perda de tempo porque “não se conseguiu orar muito”. De fato, era verdade que o número de pessoas que oraram em voz alta tinha sido menor do que das outras vezes, mas não havia nenhum motivo para que o mesmo número de pessoas de sempre não pudesse ter orado. De qualquer modo, a quantidade de palavras não é o fator crucial, e dificilmente um fator importante. Mas não é importante orar continuamente? E a parábola em Lucas 18.1- 8, em que Jesus conta uma história com o propósito claro de ensinar que devemos “orar sempre e nunca desanimar” (Lc 18.1)? Acredito que mais uma vez descobrimos um padrão já observado em outras relações. Jesus tinha uma forma de pregar em termos absolutos, mesmo quando estava abordando situações muito específicas. Se isso não for levado em conta, podemos não perceber ou até distorcer o que ele diz em outras passagens sobre o mesmo assunto, mas em circunstâncias diferentes. Em outras palavras: Jesus apresenta a maioria de seus ensinamentos tendo em vista certas relações. Seu ensino não tem nenhum traço de teologia sistemática. Não há dúvida de que tal teologia é uma disciplina legítima, mas, se a teologia sistematiza determinado ensino de Jesus cedo demais em sua análise, pode acabar minimizando a importância de outros de seus ensinamentos relevantes. Ela também pode negar as limitações implícitas impostas a determinada passagem pelo padrão de relações que Jesus usou naquele caso. No exemplo que estamos analisando agora, se tomarmos a passagem de Mateus 6.7,8 em sentido absoluto, a conclusão lógica é que os seguidores de Jesus nunca devem fazer orações longas e raramente, ou nunca, devem pedir nada, uma vez que Deus já sabe de todas as necessidades deles. Se tomarmos, em vez do trecho de Mateus, a passagem de Lucas 18.1-8 em sentido absoluto, chegaremos à conclusão de que, se levamos Deus a sério, não só faremos orações longas, mas também poderemos esperar que as bênçãos recebidas sejam proporcionais à nossa verbosidade. Contudo, se ouvirmos as duas passagens com um pouco mais de sensibilidade, vamos descobrir que Mateus 6.7,8. na verdade não diz respeito ao tamanho das orações, mas, sim, à atitude do coração que pensa que será ouvido por causa de suas muitas palavras. Da mesma forma, descobrimos que o propósito de Lucas 18.1-8 não é determinar o tamanho das orações, mas, sim, combater a tendência que certos seguidores de Cristo têm de desistir de orar. Esses cristãos, quando pressionados pelas circunstâncias, geralmente correm o risco de jogar a toalha. Mas eles precisam perseverar. O melhor exemplo quando se trata de oração é o próprio Jesus. Embora orasse muito em público, ele orava muito mais a sós. O evangelista Lucas faz questão de demonstrar isso (veja Lc 5.16; 6.12; 9.18,28; 11.1; 22.41,42). Apesar de às vezes orar com extrema brevidade, Jesus também se dedicava a longas vigílias noturnas. E ensinou seus seguidores a se dirigirem a Deus como Pai, não apenas garantindo-lhes que seu Pai celestial conhece as necessidades de seus filhos antes que estes lhe peçam, mas também incentivando-os a pedir com confiança e fé. Em suma: Jesus quer nos ensinar que a oração, para ser uma verdadeira obra de justiça, não deve ser feita com ostentação, deve ser dirigida ao Pai, não a homens, deve ser feita sobretudo em particular e sem a ilusão de que Deus pode ser manipulado por tagarelice vazia. Assim, como devemos orar? O próprio Jesus nos dá um exemplo magnífico, em geral chamado de “Oração do Senhor” (“Pai-Nosso”), porém mais apropriadamente chamada de oração-modelo, pois Jesus a ensinou aos discípulos como paradigma para as orações deles. Extrapolação: a oração-modelo do Senhor (6.9-15) É irônico o contexto que proíbe vãs repetições na oração situar-se na passagem do Evangelho de Mateus em que se encontra a oração-modelo do Senhor, pois nenhuma oração tem sido mais repetida do que essa, muitas vezes sem nenhum entendimento de quem a repete. Já no segundo século, um documento hoje chamado de Didaquê determinava que os cristãos repetissem essa oração três vezes ao dia. Isso não é necessariamente ruim, assim como não é necessariamente ruim repeti-la em uníssono nos cultos da igreja. Mas não devemos jamais fazer isso mecanicamente e temos de nos lembrar de que o próprio Jesus concebia essa oração como um modelo: “Vocês devem orar assim” (6.9a); ele não disse: “É isso que vocês devem orar”. Essa oração tem seis petições. É pertinente que as três primeiras digam respeito diretamente a Deus: seu nome, seu reino e sua vontade. Logo, os principais interesses e preocupações do crente são a glorificação do nome de Deus, a vinda de seu reino e a realização de sua vontade na terra, assim como no céu. Só depois vêm as outras três petições, e elas têm a ver diretamente com o ser humano: nosso alimento diário, nossos pecados (“nossas dívidas”) e nossas tentações. É alentador saber que nessa oração-modelo Jesus contempla tanto as nossas necessidades físicas quanto as espirituais. Antes de examinarpor Mateus para se referir ao que outros autores do Novo Testamento preferiram chamar de “o reino de Deus”. Mateus, como muitos judeus de seu tempo, evitava usar a palavra “Deus”. Para eles, era uma palavra muito sagrada, sublime demais; por isso, empregavam eufemismos, como “céu”, em seu lugar. Quanto ao significado, reino do céu é idêntico a reino de Deus (cf. Mt 19.23,24; Mc 10.23,24 etc.). Quatro observações preliminares talvez ajudem a esclarecer o sentido dessas expressões. Primeiramente, a ideia de “reino”, tanto no Antigo Testamento quanto no Novo, é sobretudo dinâmica, e não espacial. Não se trata tanto de um reino com fronteiras geográficas; a ideia principal aqui é a de “domínio e autoridade do rei” ou soberania. Nas Escrituras, o significado espacial de reino é secundário e derivado. Em segundo lugar, embora o reino de Deus possa se referir à totalidade da soberania de Deus, não é isso que está em vista no Sermão do Monte. De fato, no sentido universal, o reino de Deus — sua soberania — é eterno e abrange tudo. Não há nada nem ninguém que esteja fora dele. A partir do momento da ressurreição e exaltação de Jesus, toda essa divina soberania passou a ser mediada por Cristo. O próprio Jesus ensinou: “Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra” (Mt 28.18). É a essa autoridade universal que Paulo se refere quando diz que é necessário que Cristo reine até que Deus tenha posto todos os seus inimigos debaixo de seus pés (1Co 15.25). Alguns se referem a esse “reino” como o reino mediador de Deus, porque a autoridade de Deus, sua soberania, é mediada por Cristo. Contudo, não pode ser esse o reino de Deus a que o Novo Testamento se refere com maior frequência. No Sermão do Monte, não são todos os que entram no reino do céu, mas só os que são pobres em espírito (5.3), obedientes (7.21) e extraordinariamente justos (5.20). Do mesmo modo, no Evangelho de João, apenas quem é nascido do alto pode ver o reino de Deus ou entrar nele (Jo 3.3,5). Como o reino universal, por definição, deve incluir todas as pessoas, quer gostem dele, quer não, percebemos que o reino a que essas passagens se referem não pode ser universal. Existem condições a ser satisfeitas para que a entrada seja permitida. O reino que quero abordar nesses ensaios, o reino pregado por Jesus, é uma parte do reino universal. Temos uma ideia do que esse reino significa quando comparamos dois versículos de Marcos: 9.45 e 9.47. O primeiro diz: “Se o seu pé o fizer pecar, corte-o. É melhor você entrar na vida aleijado, do que, tendo os dois pés, ser lançado no inferno”. O segundo diz: “Se o seu olho o fizer pecar, arranque-o. É melhor você entrar no reino de Deus com um olho só do que, tendo os dois olhos, ser lançado no inferno”. Entrar no reino de Deus, portanto, é entrar na vida. Esse é o vocabulário típico do Evangelho de João. Contudo, é encontrado no próprio Sermão do Monte. Esses três capítulos de Mateus tratam da entrada no reino (Mt 5.3,10; 7.21), que equivale a entrar na vida (7.13,14; cf. 19.14,16). Portanto, o reino do céu, nesse sentido restrito, é o exercício da soberania de Deus que tem ligação direta com seus propósitos salvíficos. Todos os que estão no reino têm a vida; todos os que não estão no reino não têm a vida. Podemos esquematizar essas conclusões da seguinte maneira: Ou, se os propósitos salvíficos de Deus estão no cerne de sua soberania, podemos aperfeiçoar o diagrama desta forma: É claro que esse diagrama esquematiza de forma hiperbólica as evidências. A palavra “reino”, que se refere primordialmente à dinâmica, pode ser usada no sentido mais amplo ou no sentido salvífico especial. Por exemplo, em outra passagem, Jesus conta uma parábola em que compara o reino com um homem que semeou boa semente em seu campo, mas depois viu ervas daninhas brotando por toda parte, semeadas por um inimigo (Mt 13.24-29,36-43). É como se o reino, nesse ponto, englobasse tanto o trigo quando a erva daninha; em termos não metafóricos, o reino abrange tanto os seres humanos que têm a vida quanto os que não a têm. Transportando a metáfora para o diagrama circular anterior, a linha que separa o círculo interior do exterior se torna muito fina. A ênfase parece estar no reino universal, embora a semeadura da boa semente seja seu propósito central. De fato, por causa desse propósito, a mistura de trigo e erva daninha, que se vê agora no campo, um dia será separada: na hora da colheita, o joio é atado em feixes e queimado, e o trigo é recolhido no celeiro do dono (Mt 13.30). Essa ambiguidade nos ajuda a entender a passagem de Mateus 8.10-12, na qual Jesus diz: “Digo-lhes a verdade, não encontrei ninguém em Israel com tamanha fé. Eu lhes digo que muitos virão do Oriente e do Ocidente e se sentarão à mesa com Abraão, Isaque e Jacó no reino do céu. Mas os súditos do reino serão lançados fora, nas trevas, onde haverá choro e ranger de dentes”. Esperava-se que os judeus, que tinham o privilégio de ser os herdeiros da revelação do Antigo Testamento, fossem os “súditos do reino”; mas Jesus afirma que na verdade muitas pessoas vindas do mundo inteiro se juntarão aos patriarcas no reino. Ele também adverte que muitos dos que esperavam ser súditos serão excluídos das alegrias do reino salvífico de Deus. Em terceiro lugar, a expressão “reino de Deus”, no sentido da salvação (o único sentido em que empregarei de agora em diante), aplica-se tanto ao presente quanto ao futuro. Tomados em conjunto, os livros do Novo Testamento enfatizam que o reino de Deus já chegou; uma pessoa pode entrar no reino e receber a vida agora, vida “com plenitude” (Jo 10.10). O próprio Jesus argumenta que, se ele expulsa demônios pelo Espírito de Deus (e ele realmente faz isso), então o reino de Deus chegou (Mt 12.28). Contudo, os livros do Novo Testamento insistem em que o reino será herdado somente no futuro, quando Cristo voltar. Embora já seja vivida agora, a vida eterna só será consumada naquele dia, em conjunto com uma renovação do universo de tal proporção que só pode ser descrita adequadamente como “novos céus e nova terra” (Is 65.17; 66.22; 2Pe 3.13; Ap 21.1; cf. Rm 8.21ss.). Jesus conta algumas parábolas com o objetivo específico de eliminar da mente de seus seguidores quaisquer conceitos errados que os levassem a crer que a chegada plena do reino ocorreria sem demora nenhuma. Ele queria que eles pensassem o contrário: a chegada do reino em sua plenitude podia ainda demorar muito. Por exemplo, em uma parábola do Evangelho de Lucas (Lc 19.11ss.), Jesus fala de um homem de nobre nascimento que vai para um país distante e depois retorna. Esse homem só recebe total autoridade sobre um reino após sua volta. Jesus é esse nobre, e a consumação do reino aguarda seu retorno. Este outro diagrama pode ajudar a explicar essas verdades: Toda a humanidade vive no plano “[d]este mundo”. Porém, do momento da vinda de Cristo até o fim do mundo, os herdeiros do reino (e somente eles) vivem também no plano do reino. Desse modo, os diagramas circulares mostram claramente que uma pessoa pode ou não estar no reino de Deus; o diagrama linear mostra que, se a pessoa está no reino agora, pode esperar sua consumação no fim do mundo, quando Cristo voltar. O reino tem um aspecto “já” e outro “ainda não”: o reino já veio, mas ainda não chegou. Em quarto lugar, apesar de serem sinônimos, entrar na vida e entrar no reino não são sempre estritamente intercambiáveis. A própria ideia de “reino” como “soberania dinâmica” traz em si nuances de autoridade e submissão que em geral não vêm à mente quando falamos de “vida”. O reino de Deus fala da autoridade de Deus,essas seis petições um pouco mais detalhadamente, devemos prestar atenção à invocação inicial: “Pai nosso, que estás no céu”. Jesus não nos ensinou a orar: “Meu Pai, que estás no céu”, mas, sim, “Pai nosso”. Os cristãos não devem orar em magnífico isolamento e não devem conceber a espiritualidade em relação ao individualismo exacerbado que tanto caracteriza a mentalidade ocidental. O apóstolo João reflete um dos grandes temas do Novo Testamento quando diz, em 1João 5.1: “Todo aquele que crê que Jesus é o Cristo é nascido de Deus, e todo aquele que ama o Pai [i.e., Deus] também ama o que dele foi gerado [i.e., outros cristãos]”. É claro que há lugar para orar individualmente a Deus, mas o padrão geral da nossa oração deve ser mais amplo que isso. Portanto, quando eu, como um seguidor de Cristo entre muitos, me dirijo a nosso Pai, minha preocupação é com o nosso pão de cada dia, os nossos pecados e as nossas tentações — não somente com as minhas. Com referência à designação “Pai”, três coisas precisam ser ditas. Primeiramente, apesar de ser encontrada em escritos judaicos da época de Cristo, essa designação é extremamente rara. Um estudioso alemão bem conhecido, Joachim Jeremias, mostrou quanto os primeiros seguidores de Jesus devem ter ficado estarrecidos e assombrados com o uso que ele fez desse vocativo. Os judeus daquela época preferiam empregar títulos elevados para se referir a Deus, como “Senhor soberano”, “Rei do universo” e outros semelhantes. Jesus o chamava de Pai (cf. Mt 11.25; 26.39,42; Mc 14.36; Lc 23.34; Jo 11.41; 12.27; 17.1,5,11,21,24,25). “Aba”, ele disse a Deus. Essa é uma palavra aramaica usada pelas crianças para chamar seus pais. Não é tão íntimo quanto “meu paizinho”, mas é mais íntimo que “meu pai”. Isso me lembra como as crianças canadenses francofônicas costumam chamar seus pais: “papa”. Sem dúvida, Jesus era o Filho de Deus em um sentido singular; Deus era singularmente seu Pai. O modo de Jesus se dirigir a Deus faz parte de um quadro mais amplo em que ele afirma, de muitas maneiras diferentes, ser excepcionalmente um com Deus. Porém, o extraordinário nesse modelo de oração é que Jesus está ensinando seus discípulos a se dirigirem a Deus do mesma forma. Essa observação nos leva a outro grande tema do Novo Testamento. É comum os autores do Novo Testamento se referirem a tornar-se um discípulo de Jesus como tornar-se um filho de Deus. Os que se arrependem de seus pecados e confiam em Jesus como aquele que pagou por esses pecados ao morrer por eles, que prometem fidelidade e obediência a Jesus, que confessam: “Jesus é o Senhor!” — esses são os mesmos que a Bíblia diz serem nascidos de Deus (Jo 3), filhos de Deus por adoção (Rm 8). Antes destinados para a ira (Ef 2.3), agora foram vivificados diante de Deus. Eles desfrutam a nova relação com o próprio Deus. Embora a filiação deles em alguns aspectos seja qualitativamente diferente da filiação de Jesus, ainda assim herdarão junto com Cristo os esplendores de um novo céu e uma nova terra (Rm 8.15ss.). Mesmo agora, Deus enviou o Espírito de seu Filho para habitar o coração deles — o Espírito que clama “Aba, Pai” (Gl 4.6). Não admira que, depois da morte e ressurreição, Jesus, vitorioso, tenha orientado Maria: “Vá a meus irmãos e diga-lhes: ‘Estou voltando para meu Pai e Pai de vocês, para meu Deus e Deus de vocês’” (Jo 20.17). Com seu ministério, morte e ressurreição, Jesus produziu os meios pelos quais as pessoas podem chegar a Deus todo- poderoso e dizer com propriedade: “Pai nosso”. Esta é, portanto, a segunda observação que precisa ser feita sobre tal designação: o modo pelo qual Deus é considerado Pai nas Escrituras normalmente não está relacionado à noção genérica de “paternidade de Deus” (“Deus é o Pai, e todos os homens são irmãos”), mas à relação especial entre Deus e os seguidores de Jesus. É verdade, claro, que todos os seres humanos são “descendência de Deus” (At 17.29) no sentido de que Deus criou a todos e tem soberania sobre eles como Criador e Sustentador. Contudo, não é nesse sentido que os autores do Novo Testamento em geral usam as metáforas da relação “pai-filho” relativamente a Deus e os seres humanos. Por exemplo, em 1João 3.1, João distingue entre os “filhos de Deus” e “o mundo”. Escrevendo a crentes, ele diz: “Como é grande o amor que o Pai nos concedeu, a ponto de sermos chamados filhos de Deus, o que de fato somos! Por isso o mundo não nos conhece, porque não o conheceu”. Portanto, é muito rica a relação entre Deus, o Pai celestial, e os que se tornaram seus filhos pela fé no seu Filho e obediência a ele. Existe vida, perdão, aceitação, herança, família e disciplina nesse relacionamento. Sim, até disciplina. Porém, nosso Pai perfeito e amoroso ministra essa disciplina “a fim de sermos participantes da sua santidade” (Hb 12.10; cf. 12.4-11). Além disso, precisamos notar que Deus é o nosso Pai “no céu”. Essa é a terceira observação a respeito dessa designação. Em geral, os judeus da época de Jesus eram propensos a conceber Deus de uma forma tão exaltada que dificilmente conseguiam imaginar um relacionamento pessoal com ele. Deus era tão transcendente que muitas vezes se perdia de vista a riqueza da sua personalidade. A maior parte do evangelicalismo moderno, ao contrário, costuma retratá-lo como um Deus exclusivamente pessoal e carinhoso. Não se sabe por quê, a soberania e a elevada transcendência divinas desaparecem. Se você entrar em certas igrejas americanas, ouvirá algum corinho animado (me recuso a chamar de “música ou hino”), como “He’s a great big wonderful God” [Ele é um Deus grande, formidável e maravilhoso]. Infelizmente, não consigo deixar de imaginar um grande, formidável e maravilhoso ursinho de pelúcia. Esses “corinhos” não chegam a ser heréticos nem blasfemos. Às vezes eu gostaria de que fossem, pois assim poderiam ser prontamente condenados por um mal específico. Eles são algo muito pior que blasfêmia ou heresia isolada. Fazem parte de um modelo de irreverência, de teologia superficial e critérios religiosos dominados pela experiência, o que aniquilou enorme e considerável parte do vigor evangélico no Ocidente. Isso não contradiz meus comentários anteriores sobre a natureza pessoal de Deus representada pela designação “Pai nosso”. Quando Jesus ensinou seus discípulos a orarem dessa maneira, ele estava falando com homens que já estavam convencidos da grandiosidade da transcendência de Deus, da magnificência da inefável sublimidade de Deus. Quando eles, ainda tímidos, oraram pela primeira vez: “Pai nosso, que estás no céu”, sem dúvida sentiram profundamente o tremendo privilégio de se aproximarem desse Deus maravilhoso de uma forma tão pessoal e íntima. Mas hoje os que perderam de vista a transcendência de Deus não conseguem mais dar o devido valor ao privilégio de chamá-lo de Pai. Felizmente, ainda há crentes que se reúnem com reverência, solenidade, consciência e dignidade para cantar louvores como este: Imortal, invisível, Deus sapientíssimo, em luz inacessível oculto de nossos olhos, mui bendito, mui glorioso, o Ancião de Dias, Todo-Poderoso, vitorioso, teu grande nome exaltamos. Grandioso Pai de glória, puro Pai de luz, teus anjos te adoram, todos de olhos cobertos por um véu; todo louvor te daremos: oh, ajuda-nos a ver. É só o esplendor da luz que te oculta.1 Quando esses crentes orarem então: “Pai nosso, que estás no céu”, não poderão senão calar-se e humilhar-se diante de Deus. Com essa introdução equilibrada, é significativo que a primeira petição diga respeito a esse Pai excelso: “Santificado seja o teu nome”. Na perspectiva semítica, o nome de uma pessoaé intimamente ligado ao que ela é. Portanto, ao revelar no Antigo Testamento que tem esse ou aquele nome, Deus está usando seu nome para se revelar como ele é. Os nomes são explicativos, reveladores. Entre os vários nomes de Deus, estão: o Altíssimo, o Todo- Poderoso, Eu Sou, e compostos deste último, que podem ser traduzidos por Eu sou Aquele que te ajuda, Eu sou Aquele que é a tua justiça, por exemplo. E, quando pensamos no caráter de Deus oculto por trás desses nomes, devemos orar: “Santificado seja o teu nome”. “Santificar” é tornar santo ou considerar santo. O verbo é usado em 1Pedro 3.15: “Antes, santifiquem a Cristo como Senhor no coração de vocês”. Temos de reverenciar, honrar, considerar santo e reconhecer Cristo como o Senhor santo. Semelhantemente, devemos reverenciar, honrar, considerar santo e reconhecer o nome de Deus e, portanto, o próprio Deus. Na minha opinião, um aspecto intrigante dessa petição é que, apesar de ser uma súplica para que o nome de Deus seja santificado e, portanto, supostamente um pedido para que Deus santifique seu próprio nome, trata- se, contudo, de uma oração que, quando atendida, significa que nós vamos santificar o nome de Deus. Em outras palavras, os seguidores de Cristo estão pedindo a seu Pai celestial que aja de tal maneira que eles e um número cada vez maior de pessoas reverenciem a Deus, glorifiquem o seu nome e o reconheçam. Muitos usam “Deus” e “Jesus” como palavrão quando estão irritados ou aborrecidos ou em piadas. Porém, à medida que essa oração é atendida, eles não só deixarão esse hábito, mas também passarão a considerar o nome de Deus tão santo que simplesmente pensar nele será suficiente para incitar espírito de reverência e temor santo. De certa forma, orar “santificado seja o teu nome” é orar: “Faz-me santo. Permite que eu te reverencie. Opera em mim e em outras pessoas para que reconheçamos sempre tua santidade gloriosa e insuperável”. Mas a petição como Jesus a ensina se estrutura não tanto em relação ao que tem de acontecer conosco para a oração ser atendida, mas, sim, em relação ao próprio alvo. O alvo mais elevado não é nós sermos santificados, mas, sim, o nome de Deus ser santificado. Isso tira o ser humano do centro da cena e dá esse lugar somente a Deus. O homem — mesmo o homem transformado — não é o centro do universo. A principal raison-d’être do ser humano é de fato, como os teólogos disseram, glorificar a Deus e desfrutar eternamente de sua presença. Essa breve petição tem sozinha tanto conteúdo para meditação, tantas implicações sobre como devemos pensar sobre Deus, que é suficiente para nos pôr de joelhos. A segunda petição é tão curta quanto a primeira: “Venha o teu reino” (6.10). Isso não pode ser um pedido para que a soberania universal de Deus seja exercida, pois ela está sempre em vigor. Refere-se ao reino salvífico de Deus, que, como vimos, em um aspecto já está presente, mas em outro ainda aguarda sua plena consumação no futuro. Orar “venha o teu reino” é orar para que o reino salvífico de Deus se expanda mesmo agora e, mais ainda, que Deus traga o reino consumado. O reino de Deus virá em sua plenitude porque será inaugurado pela volta de Jesus. Se os primeiros cristãos desejavam ardentemente que o poder e a autoridade de Jesus se manifestassem por meio deles no seu constante testemunho (veja At 4.28,29), estavam ainda mais ansiosos pela volta de Jesus e oravam: “Maranata” — “Vem, Senhor!” (1Co 16.22). Eles aguardavam com expectativa “novos céus e nova terra, onde habita a justiça” (2Pe 3.13). O último livro da Bíblia conclui com a oração: “Vem, Senhor Jesus!” (Ap 22.20). “Venha o teu reino.” Os cristãos não devem fazer esse pedido de maneira frívola ou descuidada. Ao longo dos séculos, os seguidores de Jesus debaixo de perseguição brutal têm feito essa oração com consciência e fervor. Mas tenho a impressão de que os bancos confortáveis de nossas igrejas zombam de nossa sinceridade quando repetimos essa frase hoje. Não temos nenhuma objeção à volta do Senhor, acredito, contanto que ele espere um pouco e nos deixe primeiro terminar a faculdade, ou nos deixe experimentar a vida de casado, ou nos dê tempo para termos êxito nos negócios ou na vida profissional, ou nos dê a alegria de ver nossos netos nascerem. Será mesmo que desejamos ardentemente que o reino venha em toda a sua insuperável justiça? Ou será que preferimos patinhar num atoleiro de falsidade e injustiça? A terceira petição amplia um pouco e especifica os limites da segunda. Depois de “venha o teu reino” vem “seja feita a tua vontade assim na terra como no céu”. Essa oração pode bem ser um pedido para que o reino de Deus venha em sua plenitude, pois a característica mais maravilhosa dessa vinda será o cumprimento perfeito da vontade do Pai, sem demora, rebeldia, prevaricação, agentes do mal nem aquelas misteriosas mudanças de acontecimentos pelas quais Deus opera hoje, mesmo usando a maldade dos homens (veja Gn 50.20; Is 10.5-19). A ambiguidade linguística desse pedido permite uma aplicação mais geral. A vontade ética de Deus (se é que posso usar essa expressão para falar do desejo dele de ver a justiça praticada) só será completamente cumprida no reino consumado. Contudo, os que agora pertencem a esse reino, como ele se manifesta atualmente entre nós, já têm a obrigação especial de cumprir essa vontade. A maior parte do texto de Mateus 5 diz exatamente isto: para entrar no reino do céu é obrigatório ter justiça incomparável (5.20). No reino consumado, é claro que não será necessário estabelecer regras acerca de divórcio, dar a outra face, ódio, cobiça, hipocrisia e outras transgressões. No momento, entretanto, um aspecto essencial de nossa busca da ética do reino é que essa ética deve ser demonstrada em um mundo onde o mal ainda predomina. Na consumação, não serei mais tentado a revidar se alguém me der um tapa na cara, porque não haverá mais tapa na cara; não serei mais tentado a odiar meus inimigos, porque não terei mais inimigos. Logo, embora as exigências absolutas de justiça não sejam diminuídas nem atenuadas pela desculpa da pressão da presente era maligna, elas são concebidas levando em conta a oposição ao mal desta era. É assim que elas apontam para a perfeição futura do reino consumado, quando a vontade de Deus será cumprida ampla, aberta e livremente, sem exceções nem restrições e sem a dolorosa necessidade de defini-la com referência à oposição ao mal. Talvez eu possa resumir tudo isso de outra maneira. Quando Jesus diz: “Seja feita a tua vontade assim na terra como no céu”, imagino que ele tenha escolhido palavras que levam em conta alguns contrastes. Ele pode estar nos ensinando a orar para que (1) os desejos de Deus em relação à justiça sejam plenamente cumpridos agora na terra, assim como são cumpridos agora no céu; (2) os desejos de Deus em relação à justiça sejam por fim cumpridos tão plenamente na terra assim como são cumpridos agora no céu — isto é, essa frase é análoga a “venha o teu reino”; (3) os desejos de Deus em relação à justiça sejam finalmente cumpridos na terra da mesma maneira que são cumpridos no céu — isto é, sem referência à oposição do mal, mas pura e absolutamente. Precisamos entender que, se estamos orando para que a vontade de Deus seja feita na terra, estamos assumindo duas importantes responsabilidades. Em primeiro lugar, estamos nos comprometendo a aprender tudo o que pudermos sobre a vontade dele. Isso significa estudar as Escrituras com constância e humildade. Uma coisa que me dói é ouvir cristãos insistirem na autoridade e infalibilidade dasEscrituras quando esses mesmos crentes não se empenham em estudar as Escrituras com zelo. Quais são os temas de Zacarias e Gálatas? O que aprendemos acerca da vontade de Deus no texto de Êxodo e no de Efésios? Em que o retrato de Jesus traçado por Mateus e o traçado por João diferem e em que se complementam um ao outro? Esta semana, quando estudamos a vontade de Deus, o que aprendemos que provocou aperfeiçoamento e melhora em nossa vida? Isso nos leva à segunda responsabilidade. Se o anseio profundo do meu coração é que a vontade de Deus seja feita, então, ao fazer essa oração, também estou prometendo que, com a ajuda e a graça de Deus, vou fazer a vontade dele até onde eu a conheço! Essas são as três petições da oração-modelo do Senhor. Os principais interesses e prazeres do seguidor de Jesus são a glória de Deus, o reino de Deus e a vontade de Deus. Só depois disso o cristão pensa em suas necessidades pessoais e nas dos outros. A primeira petição desse grupo é: “O pão nosso de cada dia nos dá hoje” (6.11). A palavra traduzida por “de cada dia” ocorre muito raramente em grego. Na verdade, ela é encontrada com cem por cento de certeza somente nessa oração, mas muito provavelmente aparece também em um dos papiros, no qual a palavra está rasurada mais ou menos no meio. Parece tratar-se de um adjetivo que significa “do dia que está vindo”. Se pedimos pela manhã o nosso alimento “[d]o dia que está vindo”, estamos querendo dizer “o alimento de hoje”; se pedimos à noite, estamos falando do alimento de amanhã. De qualquer modo, o propósito é o mesmo, que infelizmente se perdeu nas complicadas estruturas da sociedade ocidental moderna. Na época de Jesus, os trabalhadores normalmente eram pagos pelo trabalho que haviam realizado no mesmo dia, e o que recebiam era tão ínfimo que era quase impossível poupar um pouco. Portanto, o pagamento do dia comprava a comida daquele dia. Além disso, a sociedade era basicamente agrária: qualquer problema na colheita podia significar um grande desastre. Nesse tipo de sociedade, orar “o pão nosso de cada dia nos dá hoje” não era retórica vazia. Vivendo de forma relativamente precária, os seguidores de Jesus deviam aprender a confiar que seu Pai celestial lhes supriria as necessidades físicas. Contudo, um princípio ainda maior está em jogo aqui. Tiago, o meio- irmão de Jesus, lembra-nos: “Toda boa dádiva e todo dom perfeito vêm do alto, descendo do Pai das luzes celestes, o qual não muda como sombras inconstantes” (Tg 1.17). Paulo é ainda mais contundente: “Pois quem o faz diferente de qualquer outro? O que você tem que não tenha recebido? E, se você recebeu, por que se orgulha, como se não o tivesse recebido?” (1Co 4.7) — isto é, como se o tivesse conquistado por seus próprios méritos ou cultivado sozinho. Em outras palavras, as Escrituras ensinam que Deus é a fonte suprema de todo bem, seja comida, roupa, trabalho, lazer, força, inteligência, amizade, seja qualquer outra coisa. Além do mais, ele não nos deve essas coisas. Uma vez que todos nós, em um ou outro momento da vida, trilhamos caminhos indignos, fizemos nossa própria vontade e mostramos os punhos cerrados para Deus, afirmando nossa independência, ele não seria injusto se não nos concedesse essas bênçãos. Nossa própria ingratidão é um insulto à Divindade; esta geração ingrata é uma afronta a ele. Tratamos suas dádivas como algo corriqueiro e garantido e, quando elas começam a escassear, reclamamos e questionamos a própria existência desse Deus benigno. A vida em boa parte da sociedade ocidental não é precária como era no primeiro século. Recebemos muito mais dádivas. Infelizmente, porém, essa riqueza contribuiu para nossa ingratidão, para nossa falência espiritual. Enquanto escrevo estas linhas, chegam notícias de uma seca na Europa, na Austrália e em outras partes do mundo. Não estou aqui dizendo que existe mais maldade na Europa do que no resto do mundo, mas me pergunto se Deus não está começando a advertir o Ocidente usando a linguagem terrível do juízo, até aprendermos algumas lições de arrependimento, gratidão, pobreza de espírito e, talvez mais do que qualquer outra coisa, de consciência da nossa dependência dele. Se tempos difíceis nos sobrevierem, o seguidor de Jesus é quem encontrará refúgio nesta petição: “O pão nosso de cada dia nos dá hoje” (Mt 6.11). Não se trata de uma simples questão de orar assim para aprendermos a depender de Deus, embora em parte seja isso. A verdade é que os registros da história cristã estão repletos de testemunhos de que Deus é capaz de atender a esse pedido com a maior fidelidade possível.2 A segunda petição encontra-se no versículo 12: “Perdoa-nos as nossas dívidas, como também perdoamos aos nossos devedores”. Após terminar sua oração-modelo, Jesus prossegue, ampliando a questão, pois nos versículos 14 e 15 acrescenta: “Porque, se vocês perdoarem aos homens as ofensas contra vocês, o Pai celestial também perdoará vocês. Se, porém, vocês não perdoarem aos homens as ofensas deles, tampouco o seu Pai lhes perdoará os pecados”. O pecado é figurado na oração como dívida. É uma dívida que precisa ser paga. Portanto, se alguém tem tal dívida para conosco, e nós não o libertamos, perdoando-lhe a dívida, o Pai também não nos perdoará as dívidas que temos com ele. Na verdade, em aramaico, a língua em que provavelmente Jesus pregou esse sermão, não é incomum referir-se ao pecado como dívida. Será que Jesus está nos falando de algum tipo de esquema toma lá dá cá? Eu perdoo o João, e então o Senhor me perdoa (na verdade, para que o Senhor me perdoe)? A tradução do versículo 12 na NIV reforça essa interpretação, embora o original grego possa simplesmente significar “como nós, com isso, perdoamos [presente] os nossos devedores”, e não necessariamente “assim como nós também perdoamos [pretérito] os nossos devedores”. Mas, então, o que significam as condições tão explícitas dos versículos 14 e 15? A parábola que Jesus conta em Mateus 18.23-35 lança um pouco de luz sobre essa passagem: Por isso, o reino do céu é comparado a um rei que quis acertar contas com seus servos. Quando começou o acerto, trouxeram a sua presença um homem que lhe devia dez mil talentos. Como esse homem não tinha condições de pagar, o senhor ordenou que ele, sua mulher, seus filhos e todos os seus bens fossem vendidos para saldar a dívida. O servo se pôs de joelhos diante dele e rogou “Tenha paciência comigo, que lhe pagarei tudo”. O senhor desse servo teve compaixão dele, cancelou a dívida e o deixou ir. Porém, quando saiu, esse servo encontrou um dos seus conservos que lhe devia cem denários. Ele agarrou o companheiro e começou a sufocá-lo, exigindo: “Pague o que você me deve”. O seu conservo caiu de joelhos e lhe suplicou: “Tenha paciência comigo, que lhe pagarei”. Mas ele não quis. Antes, saiu e mandou lançarem o companheiro na prisão até que esse pagasse a dívida. Quando os outros servos viram o que tinha acontecido, ficaram muito tristes e foram contar ao senhor deles tudo o que acontecera. Então o senhor chamou aquele primeiro servo à sua presença e disse-lhe: “Servo mau, eu cancelei toda aquela sua dívida porque você me suplicou. Você também não devia ter tido compaixão do seu companheiro assim como tive de você?”. Indignado, o senhor o entregou aos carcereiros até que ele pagasse tudo o que devia. Assim também o meu Pai celestial tratará cada um de vocês se não perdoarem de coração ao seu irmão. Parece que o ponto principal da parábola não é tanto a sequência temporal (X precisa perdoar Y antes que Z perdoe X), mas, sim, a atitude. Não há perdão para quemnão perdoa. E não poderia ser de outra forma. O espírito incapaz de perdoar dá forte testemunho de que nunca se arrependeu. É da essência da vida cristã a abnegação. Todo aquele que considera a si ou à sua própria vida fundamental para uma existência significativa perde tudo; todo aquele que toma sua cruz, segue a Cristo e perde sua vida a encontra de fato. Nesse sentido, a famosa oração atribuída a Francisco de Assis analisa as categorias em que esse pedido da oração-modelo do Senhor deve ser entendida: Senhor, faze de mim um instrumento de tua paz. Onde há ódio, que eu leve o amor. Onde há ofensa, que eu leve o perdão. Onde há dúvida, que eu leve a fé. Onde há desespero, que eu leve a esperança. Onde há trevas, que eu leve a luz. Onde há tristeza, que eu leve a alegria. Ó Mestre Divino, faze que eu procure mais consolar que ser consolado; compreender que ser compreendido; amar que ser amado. Pois é dando que se recebe, é perdoando que se é perdoado e é morrendo que se vive para a vida eterna. A última petição do Pai-Nosso é: “E não nos induzas à tentação, mas livra-nos do mal” (6.13, ARC). À primeira vista, esse é um pedido muito estranho. Por que devemos pedir a Deus que não nos induza à tentação? Não deveríamos ter isso como certo e garantido? Pedir a Deus que não sejamos tentados seria mais compreensível, mas pedir que ele não nos induza à tentação é difícil de entender. Muito já se escreveu acerca dessa petição, mas suspeito que a verdadeira explicação dessa frase intrigante seja mais simples do que a maioria das soluções propostas. Acredito que se trate de uma lítotes, uma figura de linguagem que expressa uma coisa negando o seu contrário. Por exemplo, “não poucos” significa “muitos”; ao negar “poucos”, produzimos uma lítotes. Em João 6.37, Jesus afirma: “Todo aquele que o Pai me dá virá a mim; e o que vem a mim de modo algum o lançarei fora”. Muitos acreditam que a última parte do versículo seja uma lítotes, cujo significado é: “Eu certamente receberei todo aquele que vem a mim”. De fato, é uma lítotes até mais forte que isso. Como os versículos seguintes mostram, ela significa: “Eu certamente manterei comigo todo aquele que vem a mim”. Assim, ao negar “lançar fora”, uma expressão vigorosa e um tanto irônica, gera-se “manter comigo”. Na minha opinião, o “não nos induzas à tentação” é uma lítotes semelhante às apresentadas nesses exemplos. A locução “à tentação” é negada: Induza-nos não à tentação, mas para longe dela, para a justiça, para situações em que, longe de sermos tentados, seremos protegidos e, portanto, mantidos justos. Como a segunda parte dessa petição expressa, assim seremos libertos do mal. Essa petição é um poderoso lembrete de que, assim como devemos depender conscientemente de Deus para nosso sustento físico, também devemos perceber que somos dependentes dele para ter triunfo moral e vitória espiritual. Aliás, falhar nesse ponto é já ter caído em tentação, pois isso faz parte daquela horrível luta pela independência que se recusa a reconhecer nossa posição de criaturas diante de Deus. À medida que o cristão progride na santidade de vida, ele percebe sua fraqueza moral inata e se alegra de saber que qualquer virtude que tem brota como fruto do Espírito. Cada vez mais, ele reconhece as sutilezas enganadoras de seu próprio coração e as astúcias destruidoras do Maligno, e clama com fervor ao seu Pai celestial: “Não nos induzas à tentação, mas livra-nos do mal”. Qual foi a última vez que você fez essa oração? Será que deixar de lado essas orações não é sinal de desleixo espiritual e insensibilidade aos aspectos espirituais da existência humana? O fato de a súplica para evitar a tentação estar situada entre o pedido referente ao perdão (6.12) e seu esclarecimento posterior (6.14,15) talvez dê a entender que a principal tentação em vista nessa passagem é a da amargura — a tentação de manter um verniz de religião verdadeira mesmo quando os pensamentos secretos estão arrebentando de corrupção, como uvas fermentando. Isso também se ajusta ao tema predominante da passagem (6.1- 18), que é a descrição e a destruição da hipocrisia religiosa. A doxologia impressa em algumas versões (“pois teu é o reino, o poder e a glória para sempre. Amém!”) ao que parece foi acrescentada no segundo século, não antes disso. Essa observação não questiona que o reino, o poder e a glória de fato pertencem a Deus eternamente; muitas outras passagens dizem coisa semelhante. Contudo, não há comprovação de que Jesus tenha ensinado esse trecho como parte de sua oração-modelo. Temos muito que aprender a respeito de oração; a maioria de nós ainda é pouco mais que um aprendiz. Um dos mais proveitosos estudos das Escrituras é a análise das orações registradas em suas páginas. Depois, é claro, o estudante precisa praticar o que aprendeu. Porém, por mais tesouros que venha a descobrir, ele jamais encontrará uma oração mais abrangente, mais precisa, mais exemplar que a oração-modelo do Senhor. Bem-aventurado o seguidor de Jesus que pode cantar com sinceridade, sem se sentir envergonhado nem intimidado (apesar da estranheza de algumas expressões): Doce hora de oração! Doce hora de oração! Que me chama deste mundo de aflições para levar ao trono de meu Pai todos os meus anseios e petições. Nos momentos tristes de pesar, minh’alma pode descansar, e se livrar do laço do tentador, pela tua retribuição, bendita hora de oração! Doce hora de oração! Doce hora de oração! Tuas asas levam minha petição àquele cuja verdade e fidelidade fazem minh’alma esperançosa louvar. E, como ele me convida a sua face buscar, crer em sua palavra e em sua graça confiar, sobre ele ponho todo o meu cuidado, e espero por ti, doce hora de oração.3 Jejum (6.16-18) O terceiro exemplo de piedade exibicionista que Jesus apresenta é o modo de jejuar. Ele diz: “Quando vocês jejuarem, não mostrem aparência melancólica como os hipócritas, pois eles desfiguram o rosto a fim de mostrar aos homens que estão jejuando. Em verdade lhes digo que eles já receberam toda a sua recompensa” (6.16). Do mesmo modo que Jesus não menospreza o dar esmolas e a oração, também não recrimina o jejum em si: ele supõe que seus discípulos vão jejuar. Em outra situação, porém, ele defende seus discípulos por não jejuarem (Mt 9.14-17). De qualquer modo, no Sermão do Monte, o objetivo de Jesus é condenar os abusos dessa prática e expor seus perigos. No calendário judaico, havia determinados jejuns especiais de que todos participavam. Esses jejuns ocorriam por ocasião das comemorações dos dias de festa mais importantes, como o Dia da Expiação ou o Ano Novo judaico. Podiam-se convocar jejuns também quando, por exemplo, as chuvas de outono não caíam; tais jejuns tinham igualmente âmbito nacional. Além disso, muitas pessoas jejuavam em outras ocasiões, supostamente por razões de autodisciplina moral e religiosa, principalmente como sinal de profundo arrependimento e quebrantamento diante do Senhor, e talvez como parte de algum importante pedido apresentado ao Senhor. Contudo, o que começou como autodisciplina se corrompeu e passou a ser uma oportunidade para uma pomposa exibição de falsa justiça. Alguns faziam uma cara triste, um ar de sofrimento profundo, não se lavavam, não penteavam o cabelo e jogavam cinzas na cabeça — tudo isso para mostrar aos outros que estavam jejuando. O que antes era sinal de humilhação tornou-se um sinal de justiça própria exibicionista. Infelizmente, fazemos coisas semelhantes hoje. Antigamente as pessoas vestiam a melhor roupa no domingo em sinal de respeito e reverência diante do Senhor. Não demorou muito e a qualidade das roupas tornou-se mais importante que a reverência; em pouco tempo, aspessoas estavam competindo para ver quem se vestia melhor. Não admira que muitos jovens acabaram rejeitando todo vestígio desse desfile de modas e começaram a ir de jeans para a igreja. Muitos podem ter feito isso por motivos nada louváveis, mas os motivos de seus pais para se arrumarem demais também não eram nada louváveis. Num trabalho evangelístico na universidade, os alunos cristãos foram incentivados a levar a Bíblia para a faculdade como sinal de sua fé e testemunho para os outros. Afinal, se eles não tinham vergonha de andar com um livro de Freud ou um de química ou algum romance, por que deveriam se constranger de carregar a Bíblia? Mas, não demorou muito, percebi que alguns cristãos estavam andando com Bíblias muito grandes... Assim como os hipócritas da época de Jesus, esses jovens estavam tentando ganhar a fama de piedosos. Praticamente tudo o que possa servir como sinal exterior de uma atitude interior pode ser barateado por essa piedade hipócrita. Jesus disse aos que queriam jejuar: “Mas você, quando jejuar, ponha óleo na cabeça e lave o rosto, para não ficar evidente aos outros que você está jejuando, mas somente a seu Pai, que está em secreto; e seu Pai, que vê o que é secreto, recompensará você” (6.17,18). Jesus está dizendo a seus seguidores que eles devem agir normalmente quando jejuarem, de modo que ninguém saiba disso a não ser Deus. Eles devem sacudir as cinzas, lavar o rosto, usar desodorante ou talco, ou óleo, ou qualquer outra coisa, e agir normalmente. Nenhum ato voluntário de disciplina espiritual deve ser usado para autopromoção. Do contrário, qualquer valor que o ato possa ter estará invalidado. O golpe de Mateus 6.1-18 é humilhante. A exigência de justiça de Mateus 5 agora é complementada pela insistência em que essa justiça nunca deve ser confundida com ostentação de piedade, com fingimento de santidade. A pergunta se apresenta nos termos mais práticos possíveis: Quem eu estou tentando agradar com minhas práticas religiosas? A reflexão sincera sobre essa questão pode produzir resultados muito inquietantes. Se isso acontecer, grande parte da solução é começar a praticar piedade na intimidade secreta da presença do Senhor. Se suas “obras de justiça” não são feitas sobretudo em segredo, diante dele, talvez secretamente elas estejam sendo praticadas para agradar outros. As negativas desses versículos são de fato um bom meio de chegar ao que é supremo e positivo, a saber, a justiça transparente. Santidade genuína, virtude não fingida, piedade sincera — tudo isso é extremamente puro e atraente. A verdadeira beleza da justiça não deve ser manchada pela fraude. Que Deus nos ajude. 1Walter Chalmers Smith (1824-1908). [Conhecido no Brasil na versão de João Wilson Faustini intitulada Deus sábio, invisível, perfeito, imortal, in: Hinário para o culto cristão, 2. ed. (São Paulo: IBB, 2011), hino 13. (N. do E.)] 2Talvez a mais notável narrativa a respeito desse tema seja a biografia de A. T. Pierson, George Müller of Bristol (Grand Rapids: Kregel Classics, 1999). 3William W. Walford (1772-1850) [conhecido no Brasil na versão de Sarah Poulton Kalley intitulada Bendita a hora de oração, in: Salmos e hinos com músicas sacras (Rio de Janeiro: Igreja Evangélica Fluminense, 1975), hino 488. (N. do E.)]. A 4 Perspectivas do reino primeira parte de Mateus 6, como vimos no último capítulo, deixa a hipocrisia desconcertada. Por isso, em grande parte seu tom é negativo. Contudo, esse tom faz com que a lição positiva seja claramente entendida. Na busca da justiça do reino, precisamos nos certificar de que nossas “obras de justiça”, especificamente as religiosas, sejam isentas de hipocrisia. Podemos evitar a hipocrisia garantindo que nosso objetivo final seja agradar a Deus e sermos recompensados por ele. Na prática, é preciso evitar todo tipo de autopromoção nos atos de piedade. O que está em jogo são as perspectivas do reino. A vida no reino não é uma questão de tão somente transpor um obstáculo ou ser aprovado em um teste e depois viver em relativa indiferença às normas do reino. Em vez disso, deve haver o arrependimento profundo que orienta voluntariamente toda a vida em torno dessas normas. A segunda metade de Mateus 6, portanto, baseia-se no que veio anteriormente. Os seguidores de Jesus não apenas evitam a hipocrisia no dever religioso, mas compreendem positivamente que todos os aspectos de sua vida e todos os seus atos devem estar de acordo com as perspectivas do reino. Jesus enuncia duas perspectivas do reino que são gerais, porém abrangentes. A primeira é lealdade inabalável aos valores do reino e a segunda é confiança irrestrita em Deus. LEALDADE INABALÁVEL AOS VALORES DO REINO: TRÊS METÁFORAS Mateus 6.19-24 Tesouro (6.19-21) “Não acumulem para vocês tesouros na terra, onde traça e ferrugem destroem, e os ladrões invadem e roubam. Mas acumulem para vocês tesouros no céu, onde nem traça nem ferrugem destroem, e os ladrões não invadem nem roubam. Porque onde estiver o seu tesouro, aí estará também o seu coração.” Não há dúvida de que entre os tesouros na terra mencionados aqui estão as ricas vestes orientais, o tipo de roupa que qualquer traça que se preze adoraria encontrar. A palavra traduzida por “ferrugem” pode significar exatamente isso e, portanto, estar ligada à corrosão dos metais. Mas também pode referir-se a outros tipos de deterioração e ruína. Por exemplo, pode ser uma referência a algo que devora um suprimento de grãos. Os comentaristas mais antigos, com os quais estou de concordo, veem nesse exemplo a imagem de uma lavoura com seus produtos e provisões sendo arruinada, corroída, corrompida, deteriorada. Concomitantemente, os bens que não podem ser corroídos ou devorados podem ser roubados. Muitos “tesouros na terra” fazem a alegria dos ladrões, que invadem e roubam. De fato, eles “escavam” e roubam, já que as paredes da maioria das casas da Palestina na Antiguidade eram feitas de barro cru, que se esfarelava facilmente nas mãos de qualquer ladrão com um instrumento perfurante. Em princípio, ao usar a expressão “tesouros na terra”, Jesus estava se referindo a qualquer coisa valiosa que seja perecível ou que se perca de algum modo. Como o tesouro se perde não importa (mas, entre os meios que o consomem em nossos dias, certamente está a inflação galopante). Os seguidores de Jesus, ao contrário, devem acumular para si tesouros no céu, onde nem traça nem ferrugem os consomem, e os ladrões não invadem nem roubam — onde não existe inflação. Esses tesouros são coisas resultantes da aprovação divina e que serão dadas generosamente aos discípulos na consumação do reino. A maravilha dos tesouros do novo céu e da nova terra ultrapassa a nossa mais surreal imaginação. Em alguns momentos, as páginas das Escrituras nos permitem vislumbres manifestos em brilhantes metáforas, quando são empregados recursos estilísticos para nos falar de coisas que mal se podem conceber. Outras vezes, as Escrituras extrapolam as amostras antecipadas que usufruímos aqui e retratam amor puro, um modo de vida absolutamente sem pecado, de integridade sem mácula, trabalho e responsabilidade sem fadiga, emoções profundas sem lágrimas, adoração sem restrição, nem desarmonia, nem fingimento e, o melhor de tudo, a presença de Deus de forma irrestrita, absoluta e pessoal. Esses tesouros não podem ser roubados nem atacados pela corrosão. Não creio que Jesus esteja condenando todo tipo de riqueza, assim como não está condenando todo tipo de roupa. Ele não está proibindo coisas, mas, sim, o amor às coisas. Não o dinheiro, mas o amor ao dinheiro é a raiz de todosos males (1Tm 6.10). Jesus nos proíbe de fazer de simples bens materiais nosso tesouro, de acumular coisas como se tivessem importância suprema. Eclesiastes, o pregador, pode nos ajudar aqui. Ele fala da construção de edifícios, ética do trabalho, sexo, fama, poder, várias filosofias e depois despreza um por um, afirmando que não passam de vaidade, de correr atrás do vento. O dr. Harold Dressler, meu colega e amigo, convenceu-me de que a palavra traduzida por “vaidade” não deve ser entendida com o significado de que todas essas coisas são igualmente inúteis, bobagens, “vãs”, mas, sim, que são todas transitórias. Elas são “vaidade” no sentido de que não duram, são passageiras. Tais coisas são, por assim dizer, amaldiçoadas com a temporariedade, com a transitoriedade. Quando eu morrer, levarei comigo exatamente o que trouxe para este mundo — nada. Portanto, mesmo que os ladrões e a ferrugem não ataquem meus bens enquanto eu viver, é vaidade acumular tesouros que têm esse valor tão limitado pelo tempo. É claro que defender o que Jesus defende aqui pressupõe crer em recompensas e castigos do céu. Por isso, só quem tem fé reconhece a validade desse argumento, porque, como disse o escritor de Hebreus: “Sem fé é impossível agradar a Deus, pois é necessário que quem se aproxima dele creia que ele existe e recompensa os que o buscam” (Hb 11.6). Porém, se sou verdadeiramente comprometido com o reino de Deus, meus valores mais importantes serão estabelecidos por Deus. Assim como o reino já está presente, ainda que incipiente, também o discípulo de Jesus já está acumulando tesouros no céu e desfrutando deles. E, assim como o reino ainda está por vir em toda a plenitude de seu esplendor, também o discípulo de Jesus aguarda essa consumação a fim de entrar na plenitude das bênçãos que o Pai lhe preparou. O discípulo vive pela fé, mas, dada a realidade dos objetos dessa fé, as restrições aqui expostas são razoáveis. Temos de nos perguntar (se é que, repito, posso me referir à eternidade considerando divisões de tempo) que importância terão para nós os bens transitórios atuais daqui a cinquenta bilhões de trilhões de milênios. Trocar o eterno pelo temporário é um mau negócio, não importa com quantas lantejoulas se enfeite o temporário para torná-lo mais chamativo. Será muito triste se tivermos de seguir os exemplos de Acã, de Salomão, do jovem rico e de Demas para descobrir essa verdade por nós mesmos. Não é apenas uma questão de receber recompensas no final. É muito mais que isso, porque as coisas que estimamos de fato governam nossa vida. O que nós valorizamos nos direciona a mente e as emoções e consome nosso tempo, pois ficamos planejando, sonhando acordados e nos esforçando para alcançá-las. Como disse Jesus: “Porque onde estiver o seu tesouro, aí também estará também o seu coração”. Se alguém deseja, acima de qualquer coisa, ganhar muito dinheiro, comprar uma casa luxuosa, esquiar nos Alpes ou velejar no Mediterrâneo, assumir o controle de sua empresa ou comprar a do seu concorrente, construir uma boa reputação ou obter aquela tão sonhada promoção, defender uma posição política ou ser nomeado para um cargo público, será devorado por esses objetivos, e os valores do reino serão postos de lado. Note que nenhum dos objetivos que mencionei é intrinsecamente mau, mas nenhum deles tem valor supremo. Portanto, qualquer um deles pode tornar-se mau se for considerado nosso maior tesouro e, assim, usurpar o lugar que pertence ao reino. E a situação é muito pior quando os objetivos são de fato maus! O princípio, porém, é o mesmo: pensamos em nossos tesouros, somos atraídos por eles, nos inquietamos, medimos outras coisas (e outras pessoas) em relação aos nossos tesouros. Infelizmente, isso é tão real que qualquer um que se examine com sinceridade consegue descobrir quais são seus verdadeiros tesouros apenas analisando seus desejos mais profundos. No Canadá, a neve recém-caída em geral é seca e quebradiça, não úmida e pegajosa. Um campo coberto de neve recente é muito convidativo, pois cintila no sol do inverno. Não há marcas nem pegadas; temos o privilégio de andar sobre a neve e formar o desenho que quisermos. Se fixarmos o olhar em nossos pés e tentarmos atravessar o campo em linha reta, vamos fazer uma trilha toda irregular. Se, em vez disso, fixarmos os olhos numa árvore ou numa rocha do outro lado e andarmos em direção a ela, a trilha será extraordinariamente reta. Quando eu e Joy estávamos noivos, prestes a nos casar, morávamos em Cambridge, na Inglaterra. Gostávamos de sair às vezes para andar de bicicleta no caminho que margeia o rio Cam, usado antigamente pelos cavalos que rebocavam barcos. Enquanto pedalávamos, a distância entre minha bicicleta e a margem íngreme do rio nunca era maior que cerca de 60 a 90 centímetros; bastava virar o guidão acidentalmente, e eu iria parar dentro d’água. Nos trechos mais largos do caminho, nós pedalávamos lado a lado, mas Joy ia pelo lado de dentro. Se, durante a conversa, ela começasse a olhar para mim, eu tinha de frear, senão as bicicletas acabavam se enganchando ou eu caía dentro do rio. Essas ilustrações mostram que nossa tendência é mover-nos em direção ao objeto no qual fixamos o olhar. Da mesma maneira, toda a nossa vida se move inexoravelmente para onde estão guardados nossos tesouros, porque nosso coração nos levará para lá. Portanto, seguir Jesus fielmente significa o desenvolvimento constante de nossas afeições mais profundas: educar-nos para cultivar lealdade inabalável aos valores do reino e ter prazer em tudo o que Deus aprova. Não admira que Paulo tenha escrito: “Portanto, já que vocês ressuscitaram com Cristo, desejem de todo o coração as coisas de cima, onde Cristo está assentado à direita de Deus. Pensem nas coisas de cima, não nas que são da terra” (Cl 3.1,2). Ou ainda: “Ordene aos ricos do presente mundo que não sejam arrogantes, nem ponham a esperança na instabilidade da riqueza, mas em Deus, que nos provê abundantemente de tudo para nossa satisfação. Ordene-lhes que pratiquem o bem, para serem ricos em boas obras, e sejam generosos e prontos a repartir. Desse modo, acumularão um bom tesouro para eles mesmos, um firme fundamento para a era vindoura, a fim de tomarem posse da verdadeira vida” (1Tm 6.17-19). Luz (6.22,23) A metáfora seguinte é um pouco mais difícil de entender. Jesus afirma: “Os olhos são a candeia do corpo. Se os seus olhos forem bons, todo o seu corpo terá luz. Se, porém, os seus olhos forem maus, todo o seu corpo estará repleto de trevas. Portanto, se a luz que há em você são trevas, que grandes trevas serão!”. É possível que essa ideia tenha origem no parágrafo anterior. Se for isso, os olhos são a candeia do corpo no sentido de que eles permitem ao corpo encontrar seu caminho. Seus olhos precisam ser “bons” para poderem guiar “todo o seu corpo” (uma expressão semítica que significa “você mesmo”) para o que é bom. No entanto, é possível (e preferível, a meu ver) interpretar os versículos 22 e 23 de uma forma um pouco mais simples. O corpo todo — isto é, a pessoa toda — é representado por uma sala, ou uma casa. A finalidade dos olhos é iluminar essa sala, garantir que ela “seja cheia de luz”. Os olhos, portanto, funcionam como a fonte de luz. Podemos pensar na única janela de um cômodo, apesar de Jesus de fato usar a metáfora de uma candeia, não a de uma janela. Para que o indivíduo seja cheio de luz, portanto, seus olhos têm de ser “bons”. Se forem maus, se sua chama for fumacenta ou o vidro estiver sujo de fuligem, se o pavio não estiver bem aparado ou se não houver querosene suficiente,a pessoa continuará na escuridão total. Obviamente, é importante descobrir o que Jesus quer dizer não metaforicamente, ao exigir que os olhos sejam “bons”. O adjetivo “bom”, porém, é um tanto intrigante. A palavra do original foi empregada na Septuaginta com o sentido de “sinceridade de propósito, lealdade não dividida”, daí o uso de “simples” na KJV. No entanto, entre os rabinos, “olho mau” denota egoísmo. Nesse caso, olhos bons podem indicar compromisso com a generosidade. Ser cheio de luz é equivalente a ser generoso, e parece que isso se encaixa muito bem como ampliação das advertências do parágrafo anterior acerca do tesouro mal escolhido. Na minha opinião, o significado que a Septuaginta dá à palavra é melhor, se julgarmos pelo contexto. Embora à primeira vista a ideia alternativa de generosidade pareça combinar bem com a ênfase do parágrafo anterior no tesouro e com a advertência do parágrafo seguinte em relação ao dinheiro, uma análise mais minuciosa revela que a adequação não é tão perfeita assim. Os versículos 19 e 20 estão menos relacionados com riqueza financeira e generosidade do que com a escala de valores com que uma pessoa determina qual é o seu maior tesouro. Do mesmo modo, o foco do versículo 24 não é tanto o dinheiro, mas, sim, o serviço e o compromisso. Em outras palavras, os versículos de 19-21 e o versículo 24 exigem lealdade inabalável aos valores do reino; as analogias usadas são tesouro e dinheiro. A ênfase está na sinceridade de propósito — fidelidade do coração — para com Deus. Por isso, é muito provável que a palavra traduzida por “bons” na NIV signifique “sinceridade de propósito, lealdade não dividida” — que, contexto à parte, é a interpretação mais natural. Os olhos bons são os que estão fixos em Deus, sem se desviar dessa constante contemplação. O resultado é o indivíduo todo “cheio de luz”. Acho essa expressão adorável. Se entendermos luz em suas conotações usuais de revelação e pureza, o indivíduo que tem olhos bons para com os valores do reino é alguém caracterizado pelo entendimento máximo da verdade divinamente revelada e pela conduta inabalavelmente pura. Além disso, a expressão “cheio de luz” provavelmente não se limita ao que a pessoa é em si, isoladamente, mas também diz que essa pessoa será tão cheia de luz que emitirá luz. É mediante esse compromisso irrestrito com os valores do reino que os cristãos se tornam “a luz do mundo” (Mt 5.14). O oposto é ser “cheio de trevas”, destituído de revelação e de pureza. Essas trevas são particularmente pavorosas se a pessoa se ilude. Se pensa que seus olhos são bons, quando na verdade são maus, ela se convence de que sua lealdade nominal aos valores do reino é profunda e genuína, quando na verdade é superficial e fingida. A pessoa cujas trevas são mais densas é aquela que acredita que essas trevas são luz: “Portanto, se a luz que há em você forem trevas, que grandes trevas serão!”. Escravidão (6.24) “Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou odiará um e amará o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Vocês não podem servir a Deus e ao dinheiro” (6.24). À primeira vista, o texto parece um pouco radical na polarização. Contudo, é preciso ter em mente duas questões para poder entendê-lo corretamente. Em primeiro lugar, quando fala em “senhores”, Jesus não está pensando em patrões do nosso século (cuja autoridade — da maioria — é limitada pelos sindicatos de empregados), mas em algo mais próximo de senhores de escravos (embora talvez não tão estereotipados). É possível trabalhar para dois patrões; não é tão fácil servir a dois senhores. Em segundo, a oposição entre amor e ódio é uma expressão idiomática semítica comum. Nenhuma de suas partes pode ser entendida em sentido absoluto. Odiar um dos dois e amar o outro significa tão somente que o último é o preferido, principalmente se houver alguma competição entre os dois. Essa expressão idiomática ajuda a entender outras frases de Jesus: “Se alguém vem a mim e não odeia seu pai e sua mãe, mulher e filhos, irmãos e irmãs — e mesmo a própria vida —, não pode ser meu discípulo” (Lc 14.26). Em outra passagem, esse mesmo Jesus insiste em que honremos nossos pais com integridade (Mc 7.9-13). É evidente, portanto, que ele não está defendendo o ódio. Ele quer dizer que o amor mais profundo e a principal lealdade de toda pessoa devem ser dirigidos ao Pai e ao Filho que ele enviou e que até os laços familiares devem ser considerados secundários. Da mesma forma, Mateus 6.24 nos adverte de que em momentos de crise temos de escolher entre nossas lealdades, e só uma pode ser a principal. Um “senhor” terá a preferência. Nas crises se revela a que ou a quem preferimos servir. Então, Jesus nos dá um exemplo incisivo: “Vocês não podem servir a Deus e ao Dinheiro”. A palavra traduzida por “dinheiro” na NVI é transliterada na maioria das versões por “Mamom”. A princípio, a palavra significava “alguma coisa em que se deposita a confiança”, ou algo assim. Por fim, não dúvida já que o ser humano em geral deposita sua confiança nas riquezas, a palavra passou a se referir a todos os bens materiais: proveito financeiro, riqueza, dinheiro. Ninguém pode se dedicar a Deus e ao dinheiro ao mesmo tempo. Admitamos. Muitos de nós, quase todos, aliás, fazemos um grande esforço para encontrar um meio-termo nessa área. Quando surgem duas vagas de emprego, o fator decisivo na hora de optar por uma delas é o salário, não a oportunidade que cada uma nos proporciona de servir ao Senhor. Compramos, sem necessidade, um carro maior e melhor ou uma casa maior e melhor com o único objetivo de nos igualarmos aos nossos amigos, parentes ou vizinhos (ou de superá-los). Compare essa atitude com a do comentarista Matthew Henry (1662- 1714), que, quando foi roubado, voltou para casa e escreveu uma mensagem sobre isso no seu diário: Senhor, eu te agradeço porque nunca fui roubado antes; porque, embora tenham levado meu dinheiro, minha vida foi poupada; porque, embora tenham levado tudo o que eu tinha, não era muito; porque eu fui a vítima, não quem praticou o roubo. Matthew Henry era um homem que servia a Deus. Essas três metáforas — tesouro, luz e escravidão — unem-se para exigir lealdade inabalável aos valores do reino. CONFIANÇA IRRESTRITA Mateus 6.25-34 “Portanto, eu lhes digo: Não se preocupem com sua própria vida, quanto ao que comer ou beber; nem com seu próprio corpo, quanto ao que vestir. Não é a vida mais importante que a comida, e o corpo mais importante que a roupa?” O que esse “portanto” está fazendo aí? Trata-se de uma conjunção conclusiva, que chama a atenção para o que foi dito antes: Porque os tesouros terrenos passageiros não satisfazem e não duram (6.19-21), porque a visão moral e espiritual facilmente se distorce e se obscurece (6.22,23), porque é preciso escolher entre Deus e o Dinheiro (6.24), porque o reino de Deus exige lealdade inabalável a seus valores (6.19-24), portanto não se preocupem e, principalmente, não se preocupem com meras coisas materiais. Contudo, vamos analisar uma ligação mais sutil. Jesus vem minimizando a importância dos bens materiais, e não poucos de seus ouvintes sem dúvida devem ter-se perguntado: “Mas e as nossas necessidades? É muito fácil dar as costas para a riqueza quando se é rico, mas eu tenho mulher e filhos para sustentar, e mal consigo prover comida, roupa e moradia. O que o senhor está me dizendo?”. De fato, Jesus responde que, assim como os bens terrenos podem se tornar um ídolo que toma o lugar de Deus ao se tornar desproporcionalmente importante, tambémas necessidades terrenas podem se tornar uma fonte de preocupações que toma o lugar de Deus ao alimentar a falta de confiança. A lealdade aos valores do reino rejeita toda subserviência a coisas temporais, quer essa subserviência seja do tipo que acumula incessantemente, quer seja do tipo marcado pela busca frenética, sem fé e ansiosa por suprimentos de primeira necessidade. Antes de analisar o que a passagem de Mateus 6.25-34 diz a respeito da preocupação, acho prudente fazer algumas observações gerais sobre preocupação e a resposta que o Novo Testamento dá para ela. Digo isso porque ansiedade e tensão se tornaram um dos grandes temas de discussão em nossa sociedade, e as atitudes em relação a elas degeneraram em algumas posições radicais polarizadas. É necessário ter equilíbrio e cautela. Imagine três indivíduos. O primeiro é despreocupado, alegre e quase irresponsável. Raramente termina o que começa e, quando termina, é sempre com atraso. Não se preocupa nem com os próximos 5 minutos, quanto mais com o dia de amanhã. Responsabilidade é uma coisa que ele não leva a sério; a vida é uma festa. Se é cristão, é muito difícil fazê-lo desempenhar qualquer tarefa com fidelidade. Provavelmente nunca vai causar tensão com ninguém por atitudes geradas por uma índole rancorosa ou vingativa: todos o consideram um “cara legal”. Em contrapartida, esse indivíduo se mostra insensível às necessidades e sentimentos dos outros e não se abala nem um pouco com os milhões de almas perdidas espiritualmente. O segundo indivíduo é quase hiper-responsável. Leva a sério todos os sofrimentos e fardos. Se tem um problema, angustia-se tanto que chega a ter úlcera no estômago. A economia do país lhe tira o sono e não lhe sai da cabeça: ele não só se preocupa com o dia de amanhã, mas também imagina o que vai fazer para pagar as contas quando se aposentar daqui a 42 anos.1 Ele pode transformar tudo em motivo de preocupação, de modo que qualquer má notícia ou mesmo a ínfima possibilidade de uma má notícia desencadeia uma nova crise de ansiedade; ou talvez ele concentre sua preocupação e o exagerado senso de responsabilidade em algumas áreas apenas e, consequentemente, exclua por completo outras pessoas e outros assuntos. O terceiro indivíduo é um jovem cristão equilibrado e sensato, conhecido por sua integridade, dedicação e disciplina no trabalho. Casado e pai de dois filhos, ele sustenta fielmente a família ao mesmo tempo que se empenha para concluir o doutorado. Faltando cerca de um ano para a conclusão do curso, ele acorda certa noite e vê que a esposa não consegue falar nem mover o lado direito do corpo. Os médicos descobrem um tumor cerebral, mas dizem que a cirurgia seria inútil. Eles dizem ao marido que o período de recuperação seria longo e, de qualquer modo, não devolveria à esposa os movimentos nem a clareza mental normais. De fato, o prognóstico de evolução da doença é de três anos, período em que ela começaria a entrar em estado vegetativo progressivo e por fim morreria. Esses três indivíduos ouvem um pregador que usa o texto de Mateus 6.25-34 como base de um longo sermão sobre o grande mal da preocupação. O pregador diz que a preocupação significa falta de confiança em Deus, e isso é vergonhoso. Como será a reação de cada um deles? O primeiro continuará bem feliz, pois sempre achou que os outros vivem sempre muito tensos. Por que se esforçar tanto para tirar “A” numa prova? Só passar de ano já está muito bom. Por que ficar tão obcecado em cumprir compromissos? Ele é feliz e livre, e obedece alegremente à ordem do Senhor de não nos preocuparmos. O segundo pode se sentir muito criticado pelo sermão. Sabe que a mensagem é para ele. Fica preocupado de estar negando o Senhor e se desespera com seus pecados e com ele mesmo. Sem nenhum senso de ironia, eu diria que ele começa a ficar preocupado por preocupar-se. O terceiro homem ouve o sermão e, se não for excepcionalmente maduro e cheio de graça, resmunga para si mesmo alguma frase amarga sobre o pregador ter de saber o que é ver a própria esposa morrer aos poucos, antes de se aventurar num assunto difícil como esse. E, se esse terceiro homem estiver se sentindo cansado e um pouco rancoroso, talvez comece a fazer uma lista mental de algumas coisas com que as pessoas poderiam muito bem começar a se preocupar: problemas ambientais, ameaça de um holocausto nuclear, inflação galopante, guerras por toda parte, preconceito racial, totalitarismo cruel, opressão econômica, epidemia de alcoolismo na França e de doenças venéreas nos Estados Unidos. Talvez ele também arrole outros problemas pessoais: divórcio, competição por promoções no trabalho, prazos a cumprir, brigas de família, adolescentes rebeldes e assim por diante. Essas frustrações e desavenças pessoais acabam se misturando com as inquietações internas e externas, porque tudo isso é despejado na nossa mente pelos meios de comunicação. Não se preocupar? O terceiro homem ouve essa ordem e a coloca no outro prato da balança, comparando-a com todas as ansiedades excruciantes que lhe perturbam o espírito e prejudicam a saúde, e murmura: “Você não entende nada. Não dá para fazer isso”. Essas três são apenas algumas das muitas reações possíveis, mas ilustram os tipos de problema que essa exposição do texto enfrenta constantemente. Interpretar as Escrituras requer ao mesmo tempo equilíbrio e precisão: equilíbrio para agrupar ensinamentos diversos e precisão para que nenhum desses ensinos seja extrapolado irrefletida e desproporcionalmente. Além disso, a aplicação desses destaques diversos requer certa percepção pastoral acerca das necessidades de cada indivíduo. O primeiro homem precisa ouvir sobre disciplina, autossacrifício e trabalho duro, e precisa aprender a distinguir tudo isso da ansiedade ilógica. O segundo homem precisa ouvir sobre a providência de Deus, sobre os meios e resultados da oração e sobre o egocentrismo, que muitas vezes é um dos principais componentes dessa preocupação constante. O terceiro homem precisa de um irmão confiança e amoroso que o ajude a levar a carga, que chore com ele, dê apoio e talvez indique mais uma vez a prova definitiva da benevolência divina, a cruz de Cristo. Eu apresento duas proposições: (1) Há um sentido em que a preocupação não só é boa, mas também em que sua ausência é, do ponto de vista bíblico, irresponsável. (2) Há um sentido em que a preocupação não só é má, mas também em que sua presença significa incredulidade e desobediência. O primeiro tipo de “preocupação” é simplesmente o desejo que o seguidor de Jesus tem de ser fiel e útil na obra de seu mestre. Mesmo uma leitura pouco atenta do corpus paulino deixa claro que Paulo viveu e ministrou com intensidade inegável e compromisso vibrante não só de ser mais semelhante a Cristo, mas também de lutar batalhas espirituais em favor de uma quantidade de outros crentes que crescia exponencialmente. Seu compromisso lhe custou as privações e os sofrimentos narrados com detalhes em 2Coríntios 11.23ss. “Além disso”, acrescenta o apóstolo, “enfrento diariamente a pressão da preocupação com todas as igrejas. Quem está fraco, que eu não me sinta fraco? Quem é levado a tropeçar, que eu não me inflame interiormente?” (2Co 11.28,29). Além dessas preocupações, o cristão pode fazer muito esforço em relação ao pecado, como atestam as próprias bem-aventuranças (cf. tb Sl 38 e 51). Não admira que a vida cristã seja comparada a uma luta, um combate ou um esforço, uma corrida que exige todo o empenho para alcançar oalvo e receber o prêmio. As Escrituras têm pouco motivo para retratar a vida cristã como alegria constante e contagiante, paz ilimitada, serenidade permanente; e há ainda menos justificativa para irresponsabilidade diante do Senhor no uso de seus dons. Existe alegria, paz e liberdade, mas só dentro da matriz do compromisso total e puro com Jesus, acompanhadas de todas as pressões que esse compromisso inevitavelmente traz. Nenhuma dessas “preocupações” é puramente egoísta. Além do mais, esses cuidados (um termo com carga emocional menor que “preocupações”) são essencialmente voltados para Deus. Isto é, consequência de olhar para as coisas da perspectiva de Deus e procurar garantir que a vontade dele seja feita na terra assim como no céu. A ausência desse tipo de “preocupação” é irresponsabilidade. Por sua vez, muitas preocupações são desaprovadas e prejudiciais. Não há nada de errado em ficar horas ocupado na cozinha. Porém, se o trabalho na cozinha gera impaciência e valores distorcidos, merece repreensão (Lc 10.38-42). Algumas sementes são plantadas e brotam de uma forma muito promissora a princípio, até que os espinheiros sufocam toda a vida que há nelas. Esses espinheiros são “as preocupações desta vida e o engano das riquezas” (Mt 13.22). Podemos perceber em Filipenses 4.6,7 o desejo de Paulo de eliminar a preocupação destrutiva: “Não andem ansiosos por coisa alguma, mas em tudo, por oração e súplicas, com ação de graças, apresentem os seus pedidos a Deus. E a paz de Deus, que excede todo entendimento, guardará o coração e a mente de vocês em Cristo Jesus”. Muitos cristãos não se dão conta de que aqui o apóstolo nos mostra, assim como sua proibição, os meios de vencer as preocupações. Não posso negligenciar a oração e a ação de graças, se quiser desfrutar a paz transcendente de Deus e vencer minhas preocupações. Tenho de abominar a amargura ingrata e evitar o mau humor. Minhas preocupações devem ser mencionadas uma a uma diante do Pai, juntamente com minhas petições sensatas, moldadas segundo a vontade dele. A apresentação desses pedidos deve ser acompanhada de sincera gratidão pelas muitas bênçãos imerecidas que já recebi e pelo privilégio de exercitar minha fé pelo contato com essa nova dificuldade. Assim, o seguidor de Jesus aprende a confiar na onisciente e amabilíssima soberania de Deus (Rm 8.28), À medida que começa a experimentar a profundidade da ordem de Pedro: “Portanto, humilhem-se debaixo da poderosa mão de Deus, para que ele os exalte no devido tempo. Lancem sobre ele toda a ansiedade, porque ele tem cuidado de vocês” (1Pe 5.6,7). A maioria das preocupações proibidas — se não todas — indica uma falta aguda de confiança em Deus e, portanto, são em alguma medida egocêntricas. A maioria está ligada a questões temporais; quando não estão, como no caso do irmão que teme que a graça de Deus não seja suficiente para perdoá-lo, todas as ricas promessas do evangelho estão disponíveis para controlá-las. Os tipos de preocupação mais traiçoeiros talvez sejam os que combinam inquietação legítima com preocupação egocêntrica. Por exemplo, o pregador pode estar legitimamente inquieto por causa de um sermão que terá de pregar, pois quer que ele seja verdadeiro, útil, ungido pelo Espírito de Deus e transmitido com amor. No entanto, ele também pode estar preocupado com sua reputação. Nós, seres humanos, temos uma capacidade muito grande de criar motivos e preocupações conflitantes. Que Deus nos ajude a reforçar o que é bom e a abominar o que é mau. A que tipo de preocupação nosso Senhor se refere em Mateus 6.25-34? É claro que ele não está defendendo a irresponsabilidade despreocupada. Ele está ensinando que mesmo as necessidades materiais não são causa legítima de preocupação para os herdeiros do reino. Portanto, nossas necessidades físicas, por mais procedentes que sejam, jamais devem suplantar nosso compromisso com o reino de Deus e a sua justiça. Além disso, ele ensina que essas mesmas necessidades se tornam oportunidades de viver de um jeito diferente do modo de viver dos pagãos à nossa volta, que não aprenderam a confiar em Deus nem para o suprimento de suas necessidades básicas. O princípio geral (6.25) “Portanto eu lhes digo: Não se preocupem com sua própria vida, quanto ao que comer ou beber; nem com seu próprio corpo, quanto ao que vestir. Não é a vida mais importante que a comida, e o corpo mais importante que a roupa?” A tradução da NIV, “Não se preocupem”, é melhor que a da KJV, “Não pensem”, já que a ordem não tem o objetivo de defender o descuido, a falta de reflexão, mas, sim, a ausência de preocupação. A passagem tem implícito um argumento a fortiori. O argumento a fortiori tem a seguinte formulação: “Se isto acontece, então aquilo não acontecerá com muito mais razão?”. O Novo Testamento tem alguns exemplos bem conhecidos desse tipo de raciocínio. Talvez o mais notável seja a passagem de Romanos 8.32: “Aquele que não poupou o próprio Filho, mas o entregou por todos nós, como não nos dará juntamente com ele, de graça, todas as coisas?”. Deus já nos deu sua melhor dádiva; com muito mais razão, então, ele nos dará coisas menores! Outro excelente exemplo de argumento a fortiori encontra-se no capítulo que estamos estudando: “Se Deus veste assim a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada ao fogo, não vestirá muito mais a vocês, homens de pequena fé?” (Mt 6.30). E, novamente, em Mateus 7.11, encontramos: “Se vocês, apesar de serem maus, sabem dar boas coisas a seus filhos, quanto mais o Pai de vocês, que está no céu, dará boas coisas aos que lhe pedirem!”. Em Mateus 6.25, o argumento a fortiori só está implícito porque a formulação não está presente. Contudo, o raciocínio parece ser mais ou menos este: ele, que nos provê de vida, de um corpo (que, do nosso ponto de vista, é o mais importante), quanto mais também nos proverá de coisas menos importantes, como alimentação e vestuário! Portanto, o seguidor de Jesus não deve se preocupar com essas necessidades, por mais essenciais que elas sejam. Dois exemplos permitem entender essa questão. Dois exemplos (6.26-30) Vida e alimento (6.26,27) “Observem as aves do céu: elas não semeiam, não colhem, nem armazenam em celeiros; contudo, o Pai celestial de vocês as alimenta. Acaso vocês não têm muito mais valor do que elas? Quem de vocês, por se preocupar, pode acrescentar uma hora sequer à sua vida?” Durante os três agradáveis anos que vivi em Cambridge, na Inglaterra, eu passava a maior parte do tempo nas excelentes dependências da Biblioteca Tyndale. Pela janela ao lado de minha escrivaninha, observava um lindo jardim, muito bem cuidado. Toda manhã, e muitas vezes durante o resto do dia, dezenas de pássaros vinham ciscar a terra e puxar minhocas com o bico. Porém, mesmo com toda essa atividade, eles pareciam despreocupados e atentos; piavam e cantavam, as notas agudas do pintarroxo misturadas ao trinado mais doce do tordo e ao canto comum do pardal. Essas criaturas vivem um dia de cada vez, “não semeiam, não colhem, nem armazenam em celeiros”. Jesus, porém, não está dizendo que elas devem ser nosso paradigma e que nós também deveríamos abolir a agricultura. Ele prossegue dizendo que, apesar da existência simples, de um dia de cada vez, das aves, ainda assim “o Pai celestial as alimenta”. A conclusão é inevitável: “Não têm vocês muito mais valor do que elas?”. Se o Pai celestial de vocês as alimenta, será que ele não alimentará vocês, principalmente tendo em vista que ele os considera mais valiosos que elas? Portanto, será que a constante preocupação com o que haveremos de comer amanhã e depois de amanhã não é uma afronta a Deus,uma acusação de que não podemos confiar em sua providência? Jesus já não havia ensinado os herdeiros do reino a orar: “O pão nosso de cada dia nos dá hoje”? E o Todo-Poderoso zombaria dessa oração, ensinada pelo próprio Jesus? A validade do argumento de Jesus, tanto nesse exemplo quanto no seguinte, depende de uma cosmologia bíblica. Vejamos quatro modelos. O primeiro pode ser chamado de universo aberto. Nesse primeiro modelo, o “d” representa deuses. A base do diagrama é o universo físico conforme percebido pelos povos primitivos. Minha irmã viveu muitos anos numa tribo da região montanhosa da Nova Guiné. A tecnologia dessa tribo era anterior à da Idade da Pedra — isto é, por mais sofisticados que fossem em outras áreas, a ponta de suas flechas era feita de teca ou bambu, não de pedra (muito menos de metal!). Sua cosmologia era bem semelhante ao modelo do diagrama anterior. Eles acreditavam que suas atividades de alguma maneira influenciavam os deuses; e esses deuses, ou melhor, espíritos (um termo mais apropriado, já que o povo era animista) influenciavam coisas, pessoas e acontecimentos no mundo visível. Esses espíritos são um tanto voluntariosos e volúveis. Por isso, as pessoas gastam muito tempo, atenção e esforço para aplacá-los e ganhar o favor deles. Práticas religiosas seguidas rigidamente, cuidado para não quebrar tabus e sacrifícios propiciatórios adequados, tudo isso ajuda a garantir boas colheitas, vitória nos conflitos iminentes com a tribo vizinha, sobrevivência dos recém- nascidos, entre outras coisas. Nesse universo aberto, é claro, a ciência (como a conhecemos) é inconcebível. Os deuses (espíritos) são muito imprevisíveis; não é possível descobrir as “leis” de causa e efeito porque elas são imprevistas e, mesmo que pudessem ser encontradas, seriam interpretadas de outra maneira. O segundo modelo cosmológico é o universo fechado. Pode ser esquematizado da seguinte forma: Tudo o que existe está dentro do círculo, e tudo o que ocorre deve ser explicado pelo que já está dentro do círculo. O melhor exemplo moderno desse modelo cosmológico é a ciência do tipo puramente mecanicista e ateísta. Não existe nada além de matéria, energia e espaço. Mesmo o tempo e a probabilidade são secundários. E cada coisa, cada pessoa, cada emoção, cada acontecimento deve ser explicado pelos princípios mecanicistas de causa e efeito. A ciência não é só possível; ela é a única perspectiva considerada legítima. Alguns podem fazer uma alteração nesse modelo: À primeira vista, trata-se de um avanço e tanto: Deus está no centro das coisas. Porém, na verdade, esse modelo difere pouco do segundo, porque Deus é tão somente parte do mecanismo. Os melhores exemplos modernos desse tipo de cosmologia encontram-se entre alguns filósofos e teólogos. Esses homens não são ateus no sentido de negarem a existência de um deus, mas, sim, ateus no sentido em que negam a existência de um Deus pessoal e transcendente. Deus é para eles a base do ser, a força impessoal que dirige o homem à existência autêntica, entre outras coisas. Palavras para Deus são comuns, mas elas se referem a algum “Ser” muito diferente do Deus retratado na Bíblia. Além disso, quanto ao modo de os homens entenderem a realidade, a ciência (com suas leis de causa e efeito) é a força dominante. Os homens podem tomar decisões, mas a reflexão séria revela que mesmo essas decisões são determinadas pelos fatos da ciência (quer seja de forma absoluta, quer de acordo com os caprichos do acaso estatístico). Penso que essa cosmologia pode ser chamada de universo existencialista quase-teísta. Um quarto modelo pode ser usado para representar a cosmologia bíblica. É o universo controlado. Nesse diagrama, tudo o que existe no universo fenomenológico encontra-se, sem exceção, dentro do círculo, juntamente com todas as outras coisas e seres criados. Dentro desse universo, há leis científicas a serem descobertas e uma ordem padronizada que rege princípios de causa e efeito. Acima desse universo está Deus. Na verdade, por causa da onipresença de Deus, ele se encontra tanto acima quanto dentro desse universo (para empregar categorias espaciais). Contudo, o Deus pessoal-infinito não pode ser igualado a sua criação. Nesse sentido, Deus está ontologicamente em posição oposta a sua criação, como seu Criador e Sustentador. Projetado por ele, o universo funciona segundo leis regulares e previsíveis, porém isso acontece somente porque Deus exerce constantemente sua soberania sobre o todo. Nenhuma parte do sistema jamais opera independentemente por completo. Além disso, Deus tem inteira liberdade de suspender ou abolir as “leis” científicas a qualquer momento que decidir; só isso já explica um milagre como a ressurreição de Jesus. O ser humano pode descobrir as “leis” científicas; na verdade, ele deve descobri-las, já que foi comissionado para fazer isso como o intendente da criação. Todavia, o cientista que adota essa cosmologia bíblica não só reconhecerá essas leis e admitirá exceções divinamente induzidas, mas também perceberá que essas leis permanecem constantes graças ao poder sustentador de Deus. Mais especificamente, como a soberania divina é mediada pelo Filho, o cristão sustenta que é o Filho que, mesmo agora, está “sustentando todas as coisas por sua palavra poderosa” (Hb 1.3). É preciso ter o cuidado de distinguir essa cosmologia bíblica de duas falsificações. A primeira é proposta pelo deísmo: Deus pôs toda a máquina em movimento, como um relógio gigantesco, mas agora ele de certo modo deixou esse imenso relógio funcionando por conta própria. A Bíblia, porém, apresenta Deus como o Sustentador. A segunda falsificação reconhece a soberania e a transcendência de Deus, mas considera o controle divino tão direto que exclui a ciência. O modelo se torna semelhante ao universo aberto que mencionei no início, e todos os Ds se aglutinam em um único Deus. Mas isso não é o suficiente para explicar a estrutura e a ordem metódica que Deus instalou no sistema nem o mandato que ele deu ao homem em relação a esse sistema, a criação. Os crentes do Antigo Testamento sabiam muito bem que a água evapora, forma nuvens que derramam chuva, a qual forma arroios, ribeiros e rios que correm para o mar. Porém, em geral eles preferiam dizer que Deus envia a chuva. Tal é a cosmologia bíblica. Essa cosmologia está subentendida em Mateus 6.26. Só os que a adotam conseguem perceber o teor dessa passagem. O cristão olha para um pássaro de bela plumagem ou para uma águia em voo, ou para um tordo empenhado num cabo-de-guerra com um verme parrudo, e vê nisso tudo a mão e o cuidado de seu Pai. Um morcego dá uma rasante no cair da noite, e o cristão não diz: “Ah! Que aerodinâmica maravilhosa! A evolução é uma coisa maravilhosa!”. Em vez disso, seja ou não um especialista, ele testemunha a atividade de Deus por trás do voo. E a cambaxirra, que trabalha o dia inteiro para alimentar os filhotes, é evidência da provisão de Deus para os tenros filhotes da avezinha. O crente que entendeu e adotou essa cosmologia bíblica encontra em toda parte um constante e abundante conjunto de provas da providência e da beneficência divina. Jesus enfatiza ainda mais esse exemplo. Ele pergunta: “Quem de vocês, por se preocupar, pode acrescentar uma hora sequer à sua vida? (6.27). Esse versículo foi traduzido de muitas maneiras. Por exemplo, além da versão NIV, que acabei de citar, encontramos: Qual de vós, pelo muito pensar, pode acrescentar um cúbito à sua estatura? (KJV) Pode algum de vocês, por mais que se preocupe, acrescentar uma polegadamediada por Cristo. Portanto, fala igualmente de nossa submissão sincera a essa autoridade. É por isso que a passagem de Mateus 7.21-23 enfatiza tanto a obediência: “Nem todo o que me diz ‘Senhor, Senhor’ entrará no reino do céu, mas somente aquele que faz a vontade de meu Pai, que está no céu. Muitos me dirão naquele dia: ‘Senhor, Senhor’, não profetizamos nós em teu nome? Em teu nome não expulsamos demônios e não fizemos muitos milagres?’ Então lhes direi claramente: ‘Nunca os conheci. Afastem-se de mim, vocês que praticam o mal’”. O reino do céu é, portanto, o tema principal do Sermão do Monte. No final de Mateus 4, temos conhecimento de que Jesus percorreu toda a Galileia “pregando as boas-novas do reino” (4.23). Sua pregação e as curas milagrosas atraíam grandes multidões. Por isso, o capítulo 5 de Mateus se inicia com as seguintes palavras: “Quando viu as multidões, Jesus subiu ao monte e se sentou. Seus discípulos se aproximaram dele, e ele começou a ensiná-los”. Alguns defendem a tese de que a reação de Jesus diante da multidão foi retirar-se e ensinar seus discípulos. Preparando-os, Jesus estaria multiplicando seu próprio ministério. Isso é ir além do que se pode concluir do texto, pois no Evangelho de Mateus a palavra “discípulo” não se refere necessariamente aos doze apóstolos nem mesmo a crentes e seguidores fiéis. Pode se referir a alguém que está apenas seguindo e aprendendo naquele momento — sem referência ao seu nível de compromisso (veja, p. ex., Mt 8.21; ou o de Judas Iscariotes). Além disso, mesmo que às vezes se faça distinção entre “discípulos” e “as multidões” (como em Mt 23.1), podemos assegurar de que as multidões se aglomeravam com frequência para ouvir os ensinamentos destinados principalmente aos que mais desejavam aprender. Dentre as enormes multidões que se reuniam por todo o norte da Palestina, talvez uma multidão menor de “discípulos” tenha seguido Jesus até a sossegada região de colinas, no oeste da Galileia, para receber instrução mais profunda; e talvez cada vez mais pessoas se juntassem ao grupo, em parte porque a reputação de Jesus estava crescendo, e em parte porque uma multidão atrai outra. Essa maneira de entender o texto é confirmada pela conclusão do Sermão do Monte em Mateus: “Quando Jesus terminou de dizer essas palavras, as multidões estavam maravilhadas com seu ensino” (7.28). Isso também é confirmado pelo fato de Jesus insistir em que esses “discípulos” entrem no reino, entrem na vida (7.13,14; 7.21-23). Jesus chegou ao lugar que escolhera e “se sentou”. Naquela época, essa era a posição tradicional de um mestre em uma sinagoga ou escola. Algumas versões em inglês trazem em seguida: “Ele abriu a boca e começou a ensiná- los, dizendo...”. Podemos perguntar, em tom jocoso, como ele poderia ensinar sem abrir a boca, mas só enquanto não reconhecemos que se trata de uma expressão idiomática semita, uma fórmula tradicional. Ao que parece, a expressão acrescenta intencionalidade e solenidade ao que vem em seguida. AS NORMAS DO REINO Mateus 5.3-12 As bem-aventuranças (5.3-10) Existem algumas observações gerais a fazer acerca dessas bem-aventuranças antes de examiná-las separadamente. Em primeiro lugar, a palavra “bem- aventurança” encontra-se traduzida nas versões mais antigas por “beatitude”, derivada do latim beatus. Alguns cristãos chamam essas beatitudes de “macarismos”, termo derivado da palavra grega makarios. Tanto “beatitude” quanto “macarismo” são termos oriundos de palavras estrangeiras cuja melhor tradução é “bênção”. Embora algumas traduções modernas prefiram “feliz” a “abençoado”, essa troca deixa a desejar. Os abençoados em geral são profundamente felizes, mas bênção não pode se reduzir a felicidade. Na Bíblia o homem pode abençoar Deus, e Deus pode abençoar o homem. Essa dualidade nos dá uma pista sobre o significado desse termo. Ser “abençoado” significa, basicamente, ser aprovado, ter aprovação. Quando o homem abençoa a Deus, ele está aprovando Deus. É claro que ele não está fazendo isso como deferência, mas, sim, como um elogio, bendizendo e louvando a Deus. Quando Deus abençoa o homem, ele o está aprovando, e esse é sempre um ato de aproximação divina. Como esse é o universo de Deus, não pode haver bênção maior do que ser aprovado por ele. Temos de nos perguntar de quem é a bênção que buscamos com tanta diligência. Se a bênção de Deus significa mais para nós do que a aprovação dos nossos entes amados, por mais queridos que sejam, ou de colegas, não importa o quanto sejam influentes, então as bem- aventuranças falarão ao nosso coração muito profunda e particularmente. Outra observação é que o tipo de bênção não é arbitrário em nenhuma das oito beatitudes. O que se promete em cada caso brota naturalmente (ou melhor, sobrenaturalmente) do caráter descrito. No versículo 6, por exemplo, aquele que tem fome e sede de justiça é saciado (com justiça); no versículo 7, os misericordiosos obtêm misericórdia. A bênção está sempre relacionada com a condição, como veremos. Finalmente, é preciso notar que duas bem-aventuranças prometem a mesma recompensa. A primeira diz: “Bem-aventurados os pobres em espírito, pois deles é o reino do céu” (5.3). A última diz: “Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, pois deles é o reino do céu” (5.10). Começar e terminar com a mesma expressão é um recurso estilístico chamado inclusio. Isso significa que tudo se encontra entre as duas molduras, isto é, as duas expressões iguais, conforma-se ao mesmo tema, neste caso, o reino do céu. Foi por isso que chamei as bem-aventuranças, coletivamente, de “As normas do reino”. Primeira: “Bem-aventurados os pobres em espírito, pois deles é o reino do céu” (5.3) O que é pobreza no espírito? Sem dúvida não é privação financeira nem necessidade material. Também não é pobreza de consciência espiritual, muito menos pusilanimidade, isto é, falta de coragem ou vigor. E certamente não denota carência do Espírito Santo. A expressão parece ter surgido na época do Antigo Testamento. O povo de Deus muitas vezes era chamado de “os pobres” ou “os pobres do Senhor” por causa de sua extrema carência econômica. Essa pobreza em geral era resultante de opressão. Algumas palavras hebraicas usadas para “pobre” também podem significar “inferior” ou “humilde”: a associação das duas ideias é bem natural. Por exemplo, em Provérbios 16.19 lemos: “É melhor ser humilde de espírito com os humildes do que repartir o despojo com os orgulhosos”. A palavra traduzida aqui por “humilde” aparece em outras passagens traduzida por “pobre”, e tanto “pobre” como “humilde” se encaixam no contexto. Dois versículos de Isaías têm significado bem próximo da pobreza de espírito de que Jesus fala: “Assim diz o Alto e Sublime, que habita a eternidade e cujo nome é santo: Habito no lugar alto e santo, e também com o contrito e humilde de espírito” (Is 57.15); e: “Para esse homem olharei, a saber, ao humilde e contrito de espírito e que treme diante da minha palavra” (Is 66.2). A pobreza de espírito é o reconhecimento pessoal da falência espiritual. É a confissão consciente da própria indignidade diante de Deus. Portanto, é a mais profunda forma de arrependimento. Ela é exemplificada pelo publicano que reconhece sua culpa, num canto do Templo: “Ó Deus, tem misericórdia de mim, um pecador!”. O que está retratado aqui não é um homem confessando que é ontologicamente insignificante ou sem nenhum valor pessoal, pois isso não seria verdade. Trata-se antes de uma confissão de que ele é pecador e rebelde e totalmente destituído de virtudes morais que o recomendemà sua altura? (Phillips) E qual de vós, por sua ansiedade, pode acrescentar um cúbito à duração de sua vida? (RSV) Há alguém entre vós que, pelos pensamentos ansiosos, consiga acrescentar um pé à sua altura? (NEB) O problema é que a palavra traduzida por “vida” pela NIV pode significar tanto estatura quanto idade. Zaqueu era de pequena estatura (Lc 19.3); Abraão já havia passado da idade de gerar filhos (Hb 11.11). No Novo Testamento original, em grego, a mesma palavra é usada nos dois versículos. Por isso, em Mateus 6.27, pergunta-se quem dentre nós pode acrescentar um cúbito (medida linear de aproximadamente 45 centímetros) sequer à sua estatura ou à sua idade. Essa última menção parece inadequada: não se pode somar medidas lineares a uma idade. Mas à estatura também não parece tão apropriada, porque a força da pergunta nesse caso reside num comprimento linear muito pequeno, certamente não um cúbito. Todas as variantes de tradução citadas foram geradas por essas dificuldades. Minha tendência é seguir os que enxergam aqui uma expressão idiomática, mais ou menos como: “Qual de vocês, por se preocupar, consegue acrescentar ao caminho de sua vida um cúbito sequer?”. Nos Estados Unidos, uma pessoa pode dizer no dia de seu aniversário: “Bem, alcancei mais uma milha”. É claro que isso não é literal; a pessoa usou uma medida de distância como metáfora para a idade. À medida que uma pessoa percorre o caminho de sua vida, chega um momento em que Deus determina seu fim. Preocupar-se não altera esse decreto; ninguém pode caminhar nem mais um cúbito. Por que, então, se preocupar? Corpo e vestuário (6.28-30) O vestuário não é menos importante que comida, e Jesus trata ambos da mesma maneira. “Por que vocês se preocupam com roupa? Vejam como os lírios do campo crescem. Eles não trabalham nem tecem. Contudo, eu lhes digo que nem Salomão, em todo o seu esplendor, vestiu-se como um deles. Se Deus veste assim a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada ao fogo, não vestirá muito mais a vocês, homens de pequena fé?” (6.28-30). A palavra traduzida por “lírios” é, no original, uma palavra obscura que provavelmente significa “flores silvestres”, flores do campo, complementando as “aves do céu” do versículo 26. Vejam essas flores crescerem: elas não fazem nada para ganhar ou comprar a beleza que têm. Elas crescem. Cada flor individualmente e todas as que estão no campo, decorando juntas a grama verde, deixam pálido o opulento esplendor dos trajes de Salomão. Isso é obra de Deus; a cosmologia bíblica mais uma vez está subentendida. O cristão vê o verde viçoso da grama bem regada e, ainda que não reconheça o efeito da clorofila, certamente reconhece Deus por trás da clorofila. Deus veste a erva com flores espetaculares, ainda que essa erva esteja destinada a ser cortada e queimada. Será que ele não está muito mais interessado em nos vestir, sendo nós seus filhos? Em outras palavras, a cosmologia bíblica somada aos olhos observadores gera confiança autêntica em Deus. Não é de admirar que Jesus chame os que não percebem essas lições de “homens de pequena fé” (6.30). Um viver diferente (6.31,32) No final de Mateus 5, Jesus insiste em que seus seguidores devem amar a seus inimigos, pois até os pagãos e os pecadores notórios amam seus amigos. As normas do reino exigem que nosso estilo de vida seja diferente. Agora, no capítulo 6, descobrimos: assim como ocorre com o amor, o mesmo princípio se aplica à preocupação “Portanto, não se preocupem, dizendo: ‘Que vamos comer?’ ou ‘Que vamos beber?’ ou ‘Que vamos vestir?’. Pois os pagãos é que correm atrás de todas essas coisas, e o Pai celestial de vocês sabe que vocês precisam delas” (6.31,32). A falta da firme confiança em Deus não só é uma afronta para ele, mas também uma atitude essencialmente pagã. Em outras palavras, o versículo 32 nos dá duas razões importantes para que não fiquemos preocupados e frustrados a exemplo das pessoas deste mundo. A primeira é que, se nos preocupamos como os pagãos, fica patente que estamos buscando as mesmas coisas que eles; e, se for verdade, então o reino nos será necessariamente negado, porque seus valores são totalmente diferentes. Em segundo, essa preocupação por parte dos que confessam fé em Deus constitui uma espécie de contradição da confissão, uma vez que o Pai celestial tem total conhecimento de nossas necessidades (cf. também 6.8), e o nosso comportamento está gritando em alto e bom som que não acreditamos nisso. Nossas preocupações não devem se assemelhar às preocupações do mundo. Quando um cristão enfrenta a pressão dos exames, será que ele diz as mesmas coisas que o incrédulo da sala ao lado? Quando lhe falta dinheiro, até para as necessidades essenciais, ele reclama com o mesmo tom, as mesmas palavras, a mesma atitude que os incrédulos ao seu redor? Abaixo com o pensamento secular! O seguidor de Jesus se preocupa em ter um estilo de vida diferente, caracterizado por valores e perspectivas tão opostos aos dos pagãos que é como se sua vida e sua conduta estivessem carimbadas em tudo com os dizeres: “Fabricado no (made in) Reino de Deus”. Qual a implicação desse princípio para os cristãos no ambiente profissional, nos sindicatos, nas grandes empresas? Imagine o que aconteceria se apenas um décimo dos evangélicos nominais de hoje examinasse as páginas da Escritura para saber como deveria ser seu estilo de vida e, com equilíbrio, determinação, mansidão e coragem, encontrasse graça para viver de acordo com os ensinamentos lidos. Que transformação se realizaria em nosso mundo! Como a luz aliviaria as trevas e como o sal preservaria a sociedade! No século 4, o imperador romano Juliano, o Apóstata, não teve êxito em seu empenho de acabar com o cristianismo, em grande parte por causa do modo de vida diferente que encontrou nos crentes. Ele disse ao homens sob seu comando: “Temos de nos envergonhar. Não se encontra um mendigo sequer entre os judeus, e aqueles galileus ímpios [ele se referia aos cristãos] alimentam não só seu próprio povo, mas também o nosso, enquanto nosso povo não recebe nenhuma ajuda de nós”. Temos algumas coisas a aprender com os primeiros cristãos (sem mencionar muitos outros que surgiram mais tarde, como os anabatistas) sobre compartilhar os bens materiais. Contudo, de forma mais abrangente, temos ainda mais a aprender sobre a importância do estilo de vida que anseia buscar os interesses do reino. O assunto em foco é a preocupação. Não seria maravilhoso se algum líder mundial se visse forçado a admitir hoje: “Temos de nos envergonhar. Não se encontra nem um indivíduo preocupado ou ansioso, sequer entre aqueles fanáticos que se chamam cristãos. Além de enfrentarem as mesmas pressões que todo mundo enfrenta, eles também têm de aguentar as pressões que impomos sobre eles. E eles ainda consolam alguns de nós quando nos preocupamos, enquanto nossa gente está sempre tomando um monte de tranquilizantes, consultando todo tipo de terapeuta e tendo feridas por causa de obesidade”. O cerne da questão (6.33) Como nosso Pai celestial sabe do que precisamos e deu sua palavra de que seria generoso com seus filhos, Jesus faz esta promessa: “Busquem, pois, em primeiro lugar o seu reino e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão acrescentadas” (6.33). Cabe a nós evitar as preocupações que nos consomem, mesmo com os itens de primeira necessidade, e buscar o reino de Deus. O verbo “buscar” está no imperativo presente, no grego, dando a ideia de busca incessante. A parte de Deus é prover seus filhos daquilo que necessitam. Devem-se observar aqui três restrições: (1) Essa promessa é para os filhos de Deus, não paratodas as pessoas indiscriminadamente. Isso fica claro pela contraposição entre os discípulos de Jesus e os pagãos em 6.31,32, bem como pela condicionante de 6.33a: “Busquem, pois, em primeiro lugar o seu reino e a sua justiça”. (2) Jesus prometeu que as necessidades serão supridas (o contexto especifica alimento, bebida e vestuário), não luxos. Muitos cristãos do nosso mundo ocidental achariam muito difícil se tivessem de viver no nível de subsistência, pois há muito tempo consideram essenciais coisas que outros avaliariam como luxos. Deus, em sua generosa misericórdia, muitas vezes dá muito mais do que o essencial. Mas aqui ele se compromete apenas com o essencial. (3) Em minha opinião, a principal exceção a essa promessa ocorre quando cristãos estão sofrendo por causa da justiça. Alguns são martirizados pela fome e pela exposição a circunstâncias extremas. A tremenda importância do reino talvez exija autossacrifício mesmo nesse último grau. Deus cumpre essa promessa. No rico Ocidente, pouquíssimos de nós, sobretudo os jovens, provaram a fidelidade de Deus em relação a isso. Alguns, porém, tiveram o privilégio de viver situações de grande pressão a ponto de não ter absolutamente nenhum recurso além de Deus. Conheço um casal que, alguns anos atrás, estava servindo numa pequena igreja que congregava pessoas de classe social baixa, em Montreal. No dia de Natal, o marido distribuiu cestas básicas, angariadas pela igreja, para os desprovidos da vizinhança. Ele voltou para casa, sentou-se com a esposa, e os dois agradeceram ao Senhor o alimento que ele lhes dera: uma lata de feijão. Meia hora depois, foram convidados para uma ceia de Natal. São muitas as histórias semelhantes a essa. Deus responde à oração e supre as necessidades dos seus. Eu mesmo sou testemunha disso, pois em várias ocasiões experimentei sua graça, principalmente durante os longos anos em que era estudante e estava quase sempre sem dinheiro. Contudo, o que era bom, eu estava estudando. O que podemos dizer da fome extrema que assola grande parte do mundo hoje? Não passei muito por isso, mas o que vi em um contexto cristão confirma a promessa de Mateus 6.33. Deus supre as necessidades dos que são dele. Isso de modo algum reduz nossa responsabilidade de compartilhar o que temos. Ao contrário, aumenta- a, pois o meio mais comum de Deus atender às necessidades materiais de seus filhos mais pobres é sensibilizando o coração e a consciência de seus outros filhos em relação a tais necessidades. Isso nos sugere duas outras reflexões que, mesmo não estando explicitamente enunciadas no próprio texto, são muito importantes. Elas tratam de assuntos que espreitam no fundo de nossa mente no momento em que os evangélicos estão reavaliando sua responsabilidade social e, ao mesmo tempo, quando a chamada “ética protestante do trabalho” vem sendo atacada. A primeira reflexão é que nós, cristãos, precisamos urgentemente avaliar nossos objetivos e compromissos à luz do que as Escrituras ensinam sobre cuidar dos que têm fome (veja Pv 22.9; 25.21,22; Is 32.6; 58.6ss.; Ez 16.49; 18.7; Mt 25.42; Lc 3.11; 12.48; At 4.32ss.). Os cristãos devem em primeiro lugar dar assistência aos seus, todavia devem estender também a mão para outros. Cedo ou tarde, a busca desenfreada por ter sempre mais e mais bens terá de cessar. Que os cristãos optem por sair dessa corrida agora, antes que não haja mais escolha. O segundo ponto de reflexão é que o trabalho e o lucro não devem ser desprezados. Os puritanos são muito criticados atualmente, mas eles têm muito para nos ensinar sobre trabalhar com integridade. Eles encaravam o trabalho como uma forma de serviço para o Senhor e, acreditando que deviam ser fiéis tanto nas coisas pequenas quanto nas grandes, trabalhavam com zelo e diligência. Além disso, o desejo deles por conhecimento e instrução lhes trouxe progresso, e seu estilo de vida simples multiplicou suas economias. (Quanto, em média, uma família de quatro pessoas gasta por ano em cigarros, bobagens e comida em excesso, bebidas alcoólicas e diversões questionáveis? Esse cálculo dá um resultado surpreendente.) A tragédia dos puritanos foi que as gerações posteriores passaram a acreditar — embora poucos sejam tão grosseiros a ponto de dizer isso abertamente — que a justiça e o trabalho diligente são virtudes valiosas porque geram poupança e riqueza. Esses descendentes se disciplinaram a fim de acumular bens materiais. Aos poucos uma visão bíblica foi sendo desvirtuada e se transformou em um materialismo abominável. Os discípulos de Jesus têm de pensar nessas coisas com clareza. Devem buscar em primeiro lugar o reino e a justiça do Pai celestial, convictos de que ele vai prover o suficiente para lhes suprir as necessidades. E, por mais laboriosos e honestos que sejam, devem recusar-se a submeter sua vida e felicidade a tesouros que podem ser corroídos e roubados. Quer ricos, quer pobres, os discípulos de Jesus têm de se esforçar para saber qual a melhor maneira de agradar ao Pai com a riqueza que ele lhes confiou. O alvo, portanto, é sempre o reino de Deus. Não há outro para o cristão, o discípulo de Jesus. A lógica decorrente desse simples fato dirige seu pensamento para os valores do reino e ao mesmo tempo extingue a preocupação com coisas meramente temporais, preocupação essa que compromete a confiança do cristão em seu Pai celestial. Razão definitiva para acabar com a preocupação (6.34) Acredito que Jesus deve ter pronunciado a advertência de Mateus 6.34 com um sorriso irônico. Até agora, suas razões para lançar as preocupações no esquecimento são essencialmente teológicas. Giraram em torno da compaixão e da providência de Deus e do excepcional valor do reino. Mas esta última razão é puramente pragmática: “Portanto, não se preocupem com o dia de amanhã, pois o dia de amanhã terá suas próprias preocupações. Basta a cada dia o seu problema” (6.34). É como se Jesus reconhecesse que sempre haverá alguma preocupação inevitável. Mas vamos restringi-la aos problemas de hoje! Nosso Deus cheio de graça quer que demos um passo de cada vez, não mais que isso; quer que sejamos responsáveis hoje e não nos preocupemos com o que possa acontecer amanhã. “Basta a cada dia o seu problema.” E, se houver novos problemas amanhã, também haverá nova graça. A pessoa que entra no reino adota as perspectivas do reino. De modo geral, isso significa lealdade inabalável aos valores ditados por Deus e confiança irrestrita nele. Diante de um chamado tão elevado, nosso autoexame produzirá alguns resultados desanimadores; e vamos querer orar com as palavras de T. B. Pollock (1836-1896): Nós não te conhecemos como deveríamos, nem aprendemos a tua sabedoria, graça e poder; encheram nossa mente as coisas da terra, e a vaidade das riquezas passageiras. Senhor, dá-nos luz para ver a tua verdade, e faze-nos sábios por te conhecer. Nós não te tememos como deveríamos, nem nos curvamos sob o teu olhar aterrador, nem guardamos atos, palavras e pensamentos, lembrando que nosso Deus estava perto. Senhor, dá-nos fé para saber que tu estás perto, e concede a graça do santo temor. Nós não te amamos como deveríamos, nem fizemos caso de que somos amados por ti; a tua presença buscamos friamente, e sem ardor desejamos o teu rosto ver. Senhor, dá-nos um coração puro e amoroso para sentir e confessar o amor que tu és. Nós não te servimos como deveríamos. Ai de nós! Os deveres deixamos em falta, o trabalho com pouco fervor realizamos, as batalhas perdemos ou mal ganhamos! Senhor, dá-nos o zelo e o poder, para trabalhar por ti, para por ti lutar. Quando iremos conhecer-te como deveríamos,e temer, e amar, e servir corretamente? Quando iremos nós, que fomos poupados do juízo, Ser perfeitos na terra da luz? Senhor, que nos preparemos, dia a dia, para ver o teu rosto e te servir aí. 1Esse número é uma referência ao livro de Douglas Adams, O guia do mochileiro das galáxias (Rio de Janeiro: Sextante, 2009), no qual a resposta à pergunta suprema sobre o sentido da vida, do universo e de todas as coisas é 42. O uso desse número aqui indica que o tal homem ansioso só se aposentará naquele dia perfeito que responda a todas as suas preocupações, ou seja, nunca. (N. do T.) N 5 Equilíbrio e perfeição ós, seres humanos, demonstramos uma enorme capacidade de autoengano. Por exemplo, adulteramos a justiça, tornando-a justiça própria — uma arrogância de superioridade moral — e transformamos a perfeição em nossa reputação perfeita. Mas realizamos essa adulteração com tanta habilidade que, na melhor das hipóteses, temos apenas vaga consciência da monstruosidade que forjamos. Jesus já havia falado com veemência contra todo esse arremedo de religião (Mt 6.1-18), preenchendo a advertência com exigências que levam ao autoexame e exigem a adesão sincera às perspectivas do reino (Mt 6.19-34). Antes de encerrar o Sermão do Monte e esclarecer as alternativas que os homens devem enfrentar (Mt 7.13-27), Jesus adverte contra outros três perigos. Os dois primeiros são imperativos negativos: não devemos julgar (7.1-5) e, no entanto, não devemos agir sem discernimento (7.6). O terceiro é um imperativo afirmativo: devemos persistir em nossa busca de Deus, tendo a mesma atitude de confiança que uma criança tem em relação a seus pais (7.7-11). Observando atentamente essas três advertências, vamos descobrir como elas se desenvolvem até chegar à regra de ouro (7.12). O PERIGO DE JULGAR OS OUTROS Mateus 7.1-5 O princípio (7.1) É fácil perceber quanto a tentação de julgar os outros é poderosa e perigosa. O desafio de ser santo foi levado a sério, e um bom grau de disciplina, serviço e obediência formal foram conquistados meticulosamente. Agora, eu imagino, posso me dar ao luxo de olhar de cima para meus colegas e pares menos disciplinados. Ou talvez tenha recebido uma medida generosa da graça de Deus, mas, por algum motivo, interpretei mal e acho que eu conquistei essa graça. Por causa disso, talvez eu olhe com superioridade para aqueles cuja visão, na minha opinião, não é tão ampla quanto a minha; cuja fé não é tão firme; cujo entendimento das verdades profundas de Deus não é tão magistral; cuja folha de serviços não é tão impressionante (pelo menos aos olhos dos homens); cujo empenho não foi tão considerável. Essas pessoas são pequenas aos meus olhos; considero o valor dessas pessoas inferior ao meu. A atitude crítica e recriminatória pode tornar-se tão venenosa que pessoas cuja estatura espiritual, integridade e prestatividade são muito superiores às minhas de alguma forma elas aparecem como pigmeus espirituais e indigentes intelectuais quando termino minha avaliação. Talvez uma pequena falha ou incoerência na vida delas lhes diminua a estatura moral, na minha opinião. Se em Mateus 6 o amor ao dinheiro e a ansiedade que brota da falta de confiança arruínam o caráter cristão, em Mateus 7 acontece a mesma coisa com esse tipo de zelo injurioso. Tudo isso, claro, é uma forma de hipocrisia grosseira (veja 7.5), a segunda das três formas que mencionei anteriormente (veja p. 63). Para que os desafios e os padrões impecáveis do Sermão do Monte não gerem pecado tão feio, Jesus adverte: “Não julguem, para que não sejam julgados” (7.1). É imporante, no entanto, analisarmos primeiro o que esse texto não diz. Certamente ele não ordena que os filhos de Deus, os discípulos de Jesus, sejam pessoas sem opinião nem discernimento, que nunca, em nenhuma circunstância, emitem opinião alguma sobre certo e errado. Devemos ficar calados diante dos erros de um Hitler, um Stalin, um Nixon? Diante do adultério, da exploração econômica, da preguiça, da fraude? O próprio Novo Testamento exclui uma interpretação tão estúpida. Alguns versículos depois, o próprio Senhor Jesus se refere a determinadas pessoas como porcos e cães (7.6) — algum tipo de julgamento negativo certamente ocorreu! Um pouco mais adiante, Jesus adverte: “Cuidado com os falsos profetas. Eles vêm a vocês vestidos de pele de ovelha, mas por dentro são lobos devoradores” (7.15). Com essas palavras, Jesus não só rotula determinados mestres com os epítetos mais condenatórios, mas também exige que seus seguidores reconheçam esses mestres pelo que são; e isso certamente exige o uso de habilidades para distinguir. Em outra passagem, o apóstolo Paulo está preparado para entregar a Satanás certo homem promíscuo (1Co 5.5), exigindo que sua igreja local o discipline. Essa disciplina requer julgamento. Em Gálatas 1.8,9, Paulo lança um anátema sobre todos os que pregam alguma versão do evangelho que não seja o verdadeiro evangelho, que o próprio Paulo proclama. Em Filipenses 3.2, ele emprega palavras fortes para alertar seus leitores contra alguns falsos mestres: “Cuidado com os cães, cuidado com esses que praticam o mal, cuidado com a falsa circuncisão!”. E são palavras brandas em comparação com as de Gálatas 5.12. João também exige algum tipo de julgamento quando escreve: “Amados, não creiam em qualquer espírito, mas examinem os espíritos para ver se eles procedem de Deus, porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo” (1Jo 4.1). Além disso, quando uma multidão faz mau juízo de Jesus porque seu ministério de cura estende-se ao sábado, ele não proíbe todo julgamento, mas responde: “Não julguem apenas pela aparência, mas façam julgamentos justos” (Jo 7.24). O que Jesus quer dizer, então, com seu imperativo em Mateus 7.1: “Não julguem, para que não sejam julgados”? Grande parte dessa confusão é esclarecida quando se entende o campo semântico da palavra grega traduzida por “julgar”. “Julgar” pode significar discernir, julgar judicialmente, ser crítico, condenar (judicialmente ou não). O contexto deve determinar o matiz preciso de significado. O contexto aqui indica que o versículo significa: “Não seja julgador”. Não adote um espírito crítico, atitude condenatória. O mesmo verbo é encontrado duas vezes em Romanos 14.10ss. com significado idêntico: “Você, por que julga seu irmão? E por que despreza seu irmão? Pois todos compareceremos diante do tribunal de Deus. Porque está escrito: ‘Por mim mesmo jurei’, diz o Senhor, ‘diante de mim todo joelho se dobrará e toda língua confessará a Deus’. Assim, cada um de nós prestará contas de si mesmo a Deus. Portanto, deixemos de julgar uns aos outros. Em vez disso, façamos o propósito de não pôr pedra de tropeço ou obstáculo no caminho do irmão”. O próprio Jesus ordena: “Não julguem”. Esse aspecto da personalidade não é fácil de resolver. Por um lado, algumas pessoas são tão críticas que têm prazer em ridicularizar o pregador no almoço de domingo; e alguns pregadores são tão críticos que descarregam a metralhadora verbal na maioria dos colegas, especialmente os que dão mais fruto que eles. Por outro, os discípulos de Jesus devem reconhecer que alguns pregadores são falsos por causa do seu fruto (7.16) e não devem dar ouvidos a eles. O pregador que atribui a todos os seus pares precisamente a mesma graça e o mesmo entendimento está muito abaixo das atitudes de bom senso e discernimento de Paulo. O problema é que a responsabilidade que todo cristão tem de discernir, uma vez concedida, é rapidamente desvirtuada em justificativa para criticar. O indivíduo excessivamente crítico se sente completamente à vontadecom todas as passagens que nos incentivam a detectar os falsos profetas por seus frutos. “Não estou sendo julgador”, ele protesta, “sou apenas um fiscalizador de frutos”. Mas ele se condena pela própria boca: tornou-se um fiscalizador de frutos, assumiu para si uma função especial. Basicamente, o que está em jogo aqui, na minha opinião, é a postura. Isso se depreende claramente daquele tipo especial de espírito crítico encontrado na fofoca. Nem sempre o que o fofoqueiro diz é mentira mal- intencionada; pode até ser algo estritamente verdadeiro. Mas o que sempre acontece é que ele diz isso com má intenção; ou seja, fala sem nenhum intuito construtivo, sem preocupação verdadeira alguma de incutir discernimento. Ele quer apenas se engrandecer ou ser ouvido, ou enaltecer sua própria reputação, ou rebaixar a pessoa de quem está falando. Se a atitude de um cristão for correta, a Palavra de Deus prevê que ele confronte seu irmão, mostrando-lhe o erro (veja Mt 18.15ss.). De fato, os líderes espirituais não ignoram o pecado flagrante de um de seus irmãos em Cristo, mas procuram restaurá-lo — amorosamente e conscientes de sua própria fraqueza (Gl 6.1). “Não julguem”, diz Jesus, e acrescenta em seguida: “para que não sejam julgados” (7.1). A última frase talvez possa ser interpretada como a primeira: se você é julgador, outros serão julgadores em relação a você. Outra interpretação, dependendo da ambiguidade do verbo grego, pode ser: não seja julgador, senão você será condenado (seja por Deus, seja pelos outros). De qualquer forma, a frase torna a ordem ainda mais incisiva e apresenta a justificativa teológica para abolir todas as atitudes de crítica. A justificativa teológica (7.2) “Porque do mesmo modo que vocês julgam os outros vocês serão julgados; e a mesma medida que vocês usam também será usada para medir vocês” (7.2). Em tese é possível compreender essas falas de mais de uma maneira, assim como as de 7.1b. Elas podem significar que a medida que usamos para medir os outros será a mesma que os outros usarão para nos medir; a pessoa crítica atrai muitas críticas. Outra hipótese é que o versículo 2 pode significar que a medida que usamos para medir os outros será a mesma que Deus usará para nos medir. Acredito que a segunda interpretação é a pretendida. Nesse caso, a ambiguidade em 7.1b deve ser interpretada da mesma forma. A ideia desses dois versículos não é que devemos ser moderados em nosso julgamento a fim de que outros sejam moderados para conosco, mas, sim, que devemos abolir as atitudes de julgamento para que nós mesmos não sejamos terminantemente condenados diante de Deus. A atitude sentenciosa nos exclui do perdão de Deus, pois denuncia um espírito que não foi quebrantado. A ideia é semelhante à de 5.7 e 6.14,15: “Bem-aventurados os misericordiosos, pois obterão misericórdia [...] Porque, se vocês perdoarem aos homens as ofensas contra vocês, o Pai celestial também perdoará vocês. Se, porém, vocês não perdoarem aos homens as ofensas deles, tampouco o seu Pai lhes perdoará os pecados”. Porque do mesmo modo que vocês julgam os outros vocês serão julgados... Alguns rabinos diziam que Deus tem duas medidas com que avalia as pessoas, a medida da justiça e a medida da misericórdia. É possível que em 7.2 Jesus esteja usando essa crença para esclarecer sua afirmação — dessas duas medidas, a que usarmos também será aplicada a nós. Suponhamos, por exemplo, que encontremos um mentiroso desprezível. O que pensamos dele? Se o medirmos apenas pela justiça, seremos muito críticos e condenadores. Mas esse critério será usado conosco: até que ponto somos verdadeiros? Com que frequência inventamos dados e histórias para nos beneficiar ou ganhar uma discussão? Quem sabe apliquemos o padrão de justiça ao adúltero ou à prostituta. Como nos sairemos quando o mesmo padrão for aplicado a nós, sobretudo diante de Mateus 5.27-30? Ou, ainda, talvez apliquemos o padrão de justiça de Deus aos ricos que exploram os pobres com práticas injustas e pela ganância. Mas quantas vezes temos sido gananciosos? Quantas vezes diminuímos o valor de outras pessoas por dinheiro (até no trabalho, por exemplo)? Queremos mesmo que o padrão da justiça de Deus seja aplicado a nós da mesma forma que o aplicamos aos outros? Como já vimos, isso não significa que o discípulo de Jesus nunca deve falar contra pecado algum, exercendo uma espécie de misericórdia insípida e negligente. O padrão de justiça de Deus jamais deixará de existir. Esses versículos atacam atitudes de julgamento, mas não negam que pecados reais podem estar presentes. No exemplo que vem a seguir (7.3-5), o cisco de serragem no olho do paciente precisa de fato ser removido, ainda que a operação não deva ser realizada por um cirurgião que está com uma viga no próprio olho. Além disso, essa passagem não insinua que podemos ganhar a misericórdia de Deus se praticarmos um pouco de misericórdia para com os outros. Misericórdia, por definição, não pode ser conquistada por mérito. Mas podemos nos excluir da misericórdia por uma altivez e arrogância constantes, por uma atitude que reflete o oposto da verdadeira pobreza em espírito. Com efeito, Deus exerce tanto justiça quanto misericórdia, mesmo para com seu próprio povo (sobre isso, falarei mais no início do próximo capítulo). Portanto, o povo de Deus deve refletir o caráter dele, vivendo com justiça e demonstrando misericórdia. E, por terem consciência de suas próprias falhas e rebeldia, esse povo não pode deixar de ser profundamente grato pela misericórdia que recebe, mesmo em meio à luta pela perfeição e exaltação da santidade. Essa perspectiva equilibrada nos protege tanto do espírito sentencioso quanto da apatia moral. Talvez deva dizer de passagem que alguns vêm uma ligação entre 7.1,2 e a “Regra Áurea” de 7.12. Para tais intérpretes, essa é uma forte prova de que 7.2 diz respeito a como os outros nos julgarão, não com o modo que Deus nos julgará. Eles entendem que 7.1,2 significa que um forte motivo por que não devemos ser julgadores em relação aos outros é que, consequentemente, os outros não nos julgarão. Eles alegam que esse é um aspecto da “Regra Áurea”. Por razões que já apresentei, creio que essa interpretação não compreende o sentido de 7.1,2, mas me apresso em acrescentar que ela também não entende a “Regra Áurea” (7.12). Essa regra nos manda fazer aos outros o que queremos que eles nos façam; não diz para fazer coisas boas para os outros a fim de que eles façam coisas boas para nós. Fazer aos outros o que queremos que eles nos façam estabelece um código para a nossa própria conduta; e não um motivo para essa conduta. A razão é dada na afirmação seguinte: essa conduta resume a Lei e os Profetas. Um exemplo (7.3-5) “Por que você repara no cisco que está no olho do seu irmão e não se dá conta da viga que está no seu próprio olho? Como você pode dizer ao seu irmão: ‘Deixe-me tirar o cisco do seu olho’, quando há uma viga no seu? Hipócrita! Tire primeiro a viga do seu olho e então você enxergará claramente para tirar o cisco do olho do seu irmão” (7.3-5). Não devemos permitir que essa ilustração tão pitoresca perca sua força por causa de nossa familiaridade com ela, muito menos porque ela está no campo da oftalmologia. O problema descrito nesse breve enredo ocorre com tanta frequência e tão pateticamente nos círculos de cristãos professos que o contraste entre um cisco e uma viga não é nem um pouco exagerado. O exemplo mais óbvio na Bíblia, suponho, encontra-se em 2Samuel 12.1-7. O rei Davi rouba a esposa de outro homem.Apesar de seu grande harém, o rei cobiça essa mulher em especial; ele a seduz, e depois descobre que ela engravidou dele. O marido está ausente, encontra-se na frente de batalha (lutando as guerras do rei), e então David providencia que ele seja morto. O rei agora é culpado de adultério e assassinato. O profeta Natã entra na corte real. Contudo, em vez de confrontar seu monarca diretamente, ele conta uma parábola, uma breve história sobre um pobre fazendeiro cuja única ovelhinha fora roubada por um vizinho rico e poderoso, dono de um grande rebanho. Davi fica indignado. Talvez parte de sua ira venha de sua própria culpa reprimida. Furioso e sem perceber nenhum traço de ironia, ele pergunta quem é esse perverso fazendeiro. Natã responde: “Esse homem é você!”. Por algum motivo, o rei Davi, incrivelmente cego, não tinha percebido a viga em seu próprio olho, enquanto ardia de raiva pelo cisco no olho do fazendeiro rico. É muito fácil ter a mesma conduta de Davi, de uma forma ou de outra. Às vezes fazemos isso ressaltando certos pecados públicos que outros são propensos a cometer e denunciando com prazer esses pecados, ao mesmo tempo que demonstramos uma perturbadora ignorância em relação aos pecados que cometemos. Os críticos doutrinários muitas vezes são os piores nessa categoria. O crítico doutrinário pode concordar que outra pessoa é sua irmã em Cristo, tem sido consideravelmente usada pelo Senhor, é ponderada e sincera em sua submissão às Escrituras. Porém, como o crítico se concentra na única área de doutrina em que os dois estão em desacordo, essa outra pessoa pode ser pintada publicamente em tons de cinza e preto. Enquanto esse crítico está ocupado “defendendo a verdade”, ele se esquece de que os cristãos devem demonstrar amor visível (Jo 13.34,35; 17.20-23). Não estou minimizando a importância da verdade nem negando que haja limites para a comunhão. Estou dizendo duas coisas. Em primeiro lugar, os crentes genuínos têm mais em comum do que reconhecem, quando, com mentalidade sectária, concentram atenção e energia nas diferenças, em grande parte para reforçar o que interpretam como sua própria razão de ser. Se eu reconheço sinceramente como irmãos cristãos apenas aqueles que enxergam as coisas exatamente como eu, jamais vou reconhecer ninguém, exceto, talvez, um punhado de seguidores sem firmeza de opinião. Em segundo lugar, nunca devemos perder de vista a ênfase de Mateus 7.1-5 nas atitudes. Os cristãos discordam honestamente em certos pontos doutrinários, mas as disputas acaloradas não ajudam ninguém. As diferenças devem ser discutidas com calma e serenidade, com submissão sincera à Palavra de Deus e repúdio a argumentos que, constantemente e sem motivo, atribuem motivações indignas aos irmãos que defendem posição contrária. Quem sabe? Talvez uma discussão franca e uma análise humilde das Escrituras e de como o outro as entende produzam uma opinião consensual. No mínimo, produzirão consciência dos aspectos e dimensões do debate e identificarão os pontos em que atualmente há diferenças de opinião irreconciliáveis, algumas das quais podem vir a ser removidas por novas reflexões e mais pesquisas. Ironicamente, o pior censurador de erros dos outros, seja no campo doutrinário, seja em outra área da vida, jamais admite seus próprios defeitos. Quando fica provado que o cisco que ele descobriu no olho de outra pessoa não existe, ou se a grande viga no seu próprio olho é apontada com brandura, ele sai caçando até encontrar outro cisco no olho de seu alvo. Esse crítico sempre procura algo mais para criticar; ele não se sente bem se não estiver constantemente denunciando e condenando. Não sei como ele interpreta sua responsabilidade de amar o próximo como a si mesmo, nem o que pensa das passagens: “O amor é paciente; o amor é bondoso. Não inveja, não se vangloria, não se orgulha. Não maltrata, não busca os próprios interesses, não se ira facilmente, não guarda rancor. Não tem prazer na injustiça, mas se alegra com a verdade. Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta” (1Co 13.4-7); “O fim de todas as coisas está próximo. Portanto, sejam sensatos e sóbrios para se dedicaram à oração. Acima de tudo, amem-se profundamente uns aos outros, porque o amor cobre uma multidão de pecados” (1Pe 4.7,8). Quanto mais reflito sobre Mateus 7.1-5, mais vejo que eu mesmo me condeno. Que Deus me dê graça para praticar o que prego. Eu acreditava que os que mais precisavam dessa passagem eram os jovens, principalmente os estudantes. Eles lutam para encontrar a própria identidade, tentando assimilar ideias novas. Essas novas ideias são prontamente adotadas e tenazmente defendidas ou rapidamente rejeitadas e irrefletidamente ridicularizadas. Mas os jovens e os estudantes estão longe de ser os únicos que passam por períodos de crise de identidade e de contato com novas ideias. As pessoas mais velhas, temendo perder suas posições, preocupadas com seu prestígio e muitas vezes incomodadas por um sentimento de que sua vida está estagnada, com frequência se tornam particularmente defensivas, rígidas, muito críticas, intolerantes, até desagradáveis e mesquinhas. Os jovens pelo menos podem amadurecer e superar essa fase; mas, para os mais velhos abandonarem esse padrão de comportamento já arraigado, geralmente é preciso uma demonstração drástica de intervenção divina, talvez na forma de uma experiência esmagadora e devastadora que gere humildade. A pessoa que se empenha escrupulosamente em remover a viga de seu próprio olho não está por isso isenta de qualquer outra responsabilidade. Tendo adquirido a capacidade de enxergar claramente, ela pode ajudar a remover o cisco do olho de seu irmão (7.5). Na verdade, só depois disso esse irmão receberá bem sua ajuda. O PERIGO DE NÃO SABER DISCERNIR Mateus 7.6 Chegamos agora ao que é basicamente o perigo inverso daquele tratado por nosso Senhor em Mateus 7.1-5: o perigo de não ter bom senso. É fácil ver como esse novo perigo surge. O discípulo de Jesus ouviu que deve amar o próximo como a si mesmo e amar também seus inimigos. Ele deve espelhar a graça de Deus, o Deus que envia imparcialmente sua chuva sobre os justos e os injustos. Ele acabou de ouvir que não deve adotar mentalidade de julgamento. Diante disso, está sempre correndo o risco de se tornar insípido, sem opinião, de recusar distinções legítimas entre verdade e engano, entre bem e mal. Talvez até tente tratar todas as pessoas exatamente da mesma maneira, caindo em total falta de critério. Por isso, depois de nos alertar contra o comportamento crítico, Jesus nos adverte contra a falta de discernimento, especialmente na escolha das pessoas a quem apresentamos as maravilhosas riquezas do evangelho. No entanto, para fazer plena justiça a essa advertência de 7.6, temos de notar que esses cinco versículos se destinam às pessoas que julgam as outras, enquanto apenas um é usado para falar das que não têm bom senso. Essa proporção reflete uma avaliação precisa de onde está o perigo maior. O Senhor Jesus diz: “Não deem aos cães o que é sagrado, nem lancem suas pérolas aos porcos. Se fizerem isso, estes as pisarão, e os cães, voltando-se, despedaçarão vocês”. Os cães a que a passagem se refere não são animais de estimação fofinhos, carinhosos, que abanam a cauda quando veem o dono e adoram que alguém lhes coce as orelhas. São cães quase selvagens que andam em bando procurando comida pelas ruas e colinas, com a língua pendurada para fora da boca e com pelo sujo e emaranhado, cheio de carrapichos. E o porco doméstico palestino não só era uma abominação para os judeus,mas também provavelmente um parente do javali europeu, capaz de violência inegável. Os dois animais juntos funcionam como modelo de pessoas violentas, perversas, que vivem em abominação. Os dois aparecem novamente em 2Pedro 2.22, em um contexto igualmente negativo: “Sobre eles [as pessoas mencionadas na passagem], são verdadeiros os provérbios: “O cão volta ao seu vômito”, e “A porca lavada volta a revolver-se na lama”. Jesus esboça a figura de um homem segurando uma bolsa cheia de pérolas preciosas e que se defronta com uma matilha de cães ameaçadores e alguns porcos selvagens. Como os animais rosnam de fome, ele pega as pérolas e as joga na rua. Pensando que as pérolas são porções de comida, os animais correm para devorá-las. O engano logo se desfaz: as pérolas são muito difíceis de mastigar, não têm gosto e não são nem um pouco apetitosas. Enfurecidos, os animais selvagens cospem as pérolas, atacam o homem e o dilaceram. Pode-se acampar em vastas áreas silvestres da América do Norte. Mas uma das regras a ser observada à risca é: Não alimente os ursos! Alimente os esquilos-terrestres, alimente os veados, alimente os guaxinins, até os coiotes, mas não alimente os ursos. Se não ficarem satisfeitos, eles vão estraçalhar você. Em linguagem metafórica (o que torna a sua advertência ainda mais chocante do que se tivesse falado sem metáforas), Jesus está ordenando a seus discípulos que não compartilhem as partes mais preciosas da verdade espiritual com pessoas persistentemente perversas, indiferentes e insatisfeitas. Assim como as pérolas não satisfizeram os animais selvagens, mas os deixaram enfurecidos e perigosos, também muitas das riquezas da revelação de Deus não agradam a muita gente. E, por mais doloroso que seja ver isso, essas verdades preciosas só servem para enfurecê-las. No Novo Testamento há vários exemplos desse princípio. Em Mateus 15.14, Jesus, falando de certos fariseus, diz aos discípulos: “Deixem-nos; eles são guias cegos! Se um cego guiar outro cego, ambos cairão num buraco”. De acordo com Atos 18.5,6, Paulo abandona seu ministério aos judeus em Corinto porque eles se opõem a ele e se tornam agressivos. Diante disso, ele se volta para os gentios e passa a ministrar a eles. Paulo recomenda a Tito que aja de modo semelhante em relação a pessoas que estão provocando divisão dentro da comunidade cristã professa: “Advirta aquele que provoca divisões primeira e segunda vez. Depois disso, rejeite-o. Você sabe que tal indivíduo está pervertido e vive pecando; ele já condenou a si mesmo” (Tt 3.10,11). Quero chamar a atenção para cinco implicações ou alusões incorporadas nessa ordem incisiva. Primeira, não é por acaso que Jesus fala de pérolas, e não de cascalhos. O homem dessa história carrega um grande tesouro. Interpretando a metáfora, entendemos que as boas-novas de Jesus Cristo, com toda a história e revelação que as prenunciam, de fato são um tesouro inestimável. É uma inefável maravilha. Todas as riquezas materiais se tornam insignificantes comparadas com esse tesouro. Como este mundo pertence a Deus, nada é mais importante para mim do que ter meus pecados perdoados e ser aceito por ele; e nada é mais maravilhoso que o meio pelo qual Deus fez isso, enviando seu próprio Filho para morrer em meu lugar. Por sua graça, Deus deu aos homens, tanto na linguagem humana (a Bíblia) quanto em uma pessoa humana (Jesus), a verdadeira e segura revelação de si mesmo. Nada, absolutamente nada é mais precioso, nem mais importante, nem tem maiores consequências do que isso. Em segundo lugar, no entanto, essa passagem é o sombrio reconhecimento de que nem todas as pessoas vão aceitar essa revelação. Alguns, como cães e porcos diante de pérolas, permanecem absolutamente insensíveis a ela. Essa revelação não satisfaz seus apetites imediatos, e eles não têm outros critérios para avaliá-la. Assim, por esses versículos, estamos sendo preparados para a divisão da raça humana em dois grupos, retratados pelo Senhor Jesus em Mateus 7.13ss. Em terceiro lugar, o problema não é simplesmente que alguns não aceitam essa revelação, pois o ponto central de 7.6 é que os discípulos de Jesus não devem nem sequer apresentar as riquezas reveladas a algumas pessoas de disposição perversa e sempre insatisfeitas. Sua zombaria cínica, a arrogância intelectual, o amor pela decadência moral e a autossuficiência presunçosa desses indivíduos os fazem totalmente refratários à pessoa e à mensagem de Cristo. Com o passar dos anos, aos poucos cheguei a um ponto em que me recuso a tentar explicar o cristianismo e a apresentar Cristo a pessoas que só querem zombar, discutir e ridicularizar. Perder tempo com essas pessoas não traz nada de bom, e há muitas outras oportunidades em que se pode investir tempo e energia com mais proveito. Essa conclusão inevitável deve ser equilibrada com uma quarta observação: essa ordem do próprio Senhor Jesus está inserida em um contexto mais amplo, que exige amor pelos inimigos e uma qualidade de vida caracterizada pela perfeita justiça. Em outras palavras, não é porque os cristãos não devem lançar suas pérolas aos cães e aos porcos que têm licença para ser desagradáveis e rancorosos, muito menos para ignorar tudo o mais que Jesus ensinou. Além disso, não há justificativa nesse versículo para deixar de lado todo testemunho verbal, alegando que só há cães e porcos, e todos eles, sem exceção, são perversos. Muitos — se não a maioria — dos adultos pensantes que se tornaram discípulos sinceros do Senhor Jesus Cristo começaram essa peregrinação hesitando, e não poucos, zombando. Há muitas situações em que os cristãos precisam persistir no testemunho e ser pacientes na semeadura da verdade de Deus. A colheita chegará no devido tempo se não desanimarmos por covardia ou preguiça. O que Jesus está pedindo é discernimento; e a essência do discernimento é saber que não se pode esperar que regras simples produzam uma resposta infalível. Aqui, novamente, é bom procurar seguir o exemplo do próprio Mestre. É extremamente proveitoso examinar sua abordagem a diferentes indivíduos e grupos. Ele pode rejeitar um grupo (como vimos em Mateus 15.14), dispensar um Herodes (Lc 13.31-33), profetizar juízo sobre cidades inteiras (Mt 11.20-24), mas também pode ser paciente com um grupo (veja Lc 9.51- 55; Mc 6.31-34), apresentar provas indiscutíveis a um Tomé cheio de dúvidas (Jo 20.24ss.) e chorar por uma cidade (Lc 19.41ss.). Os cristãos não podem ter o atrevimento de escolher qual tendência das reações de Jesus vão seguir mais estreitamente; eles têm de seguir ambas. E desconfio que, quanto mais forte a inclinação de seguir uma tendência em detrimento da outra, maior o perigo de desequilíbrio e maior a necessidade de crescer em discernimento e conformidade com Cristo. Além disso, embora os cristãos tenham de aprender a ter critério e discernimento espiritual e, assim, não saírem desperdiçando suas pérolas por aí de forma imprudente, sua conduta e a qualidade de sua vida podem ser usadas por Deus para levar os cães e os porcos a refletir. Se há esperança para pessoas perdidas e endurecidas, ela está, como disse James Montgomery Boice, “na soberania de Deus e na realidade evidente da verdadeira vida cristã”. Enquanto eu escrevia essas linhas, um aluno de medicina de uma das universidades próximas me chamou de lado para que lhe explicasse os fundamentos do cristianismo bíblico. Vale ressaltar que, conforme me disse, sua curiosidade inicial pela Bíblia e por Cristo foi motivada em parte pela curiosidade intelectual, mas particularmente o que lhe chamou a atenção foi o modo de vida de alguns alunoscristãos que conheceu. O sal não tinha perdido o sabor; a luz ainda estava brilhando. Em suma, devemos ter cuidado ao lidar com as verdades da revelação bíblica, pois elas são sagradas e não devem ser lançadas por aí indiscriminadamente, mas com zelo, atenção, responsabilidade e estratégia. Talvez seja válido deduzir que a discriminação explicitamente exigida nesse texto constitui apenas uma parte da responsabilidade maior de ser criterioso. O PERIGO DE NÃO TER PERSISTÊNCIA CONFIANTE Mateus 7.7-11 É fácil e triste perceber como as pessoas sem persistência na fé cristã se desenvolvem. O indivíduo fica muito entusiasmado com os ensinamentos de Jesus. Muitas coisas o atraem: os sentimentos nobres, o chamado ao autossacrifício, o sublime tom moral, o compromisso com a pureza, a ênfase na verdade imaculada, a fé no futuro, a cativante libertação da mentalidade julgadora — coisas maravilhosas! Comprometendo-se com esses bons ensinamentos, ele experimenta uma espécie de catarse, que supõe ser um sinal de vida espiritual. Esse estímulo o impulsiona para a frente; sua conduta promete uma rica colheita de graças espirituais. Ninguém é mais ávido para se oferecer para o trabalho espiritual, ninguém é mais fiel na frequência aos estudos bíblicos e às reuniões de oração, ninguém está mais preocupado em seguir os ensinamentos de Cristo em todas as esferas da existência humana. Então, eis que sua chama enfraquece, vacila vergonhosamente uma ou duas vezes e se apaga. É como se ele tivesse brotado em algum lugar rochoso sem muita profundidade de terra. A semente da verdade cai nesse solo e logo cresce tão somente porque o solo é muito raso. Porém, quando o sol quente do verão lança seus raios abrasadores, as raízes tenras da planta não têm onde buscar umidade. A planta murcha, estorrica-se e morre. Nas palavras de Jesus: “E o que foi semeado em terreno pedregoso é o homem que ouve a palavra e a recebe imediatamente com alegria. Todavia, visto que não tem raiz em si, ele permanece pouco tempo. Quando vem a tribulação ou a perseguição por causa da palavra, ele logo a abandona” (Mt 13.20,21; cf. 13.1-9). O que aconteceu de errado com essa pessoa? Em primeiro lugar, falta- lhe persistência; sua capacidade de fixação é insuficiente. O verdadeiro compromisso cristão é perseverante. “Ninguém que ponha a mão no arado e olhe para trás é apto para o serviço do reino de Deus” (Lc 9.62), insiste Jesus — atitude refletida igualmente em João, segundo o qual os que recuam na verdade nunca pertenceram ao povo de Cristo (1Jo 2.19). Em segundo lugar, porém, e mais importante, esse discípulo do tipo fogo de palha foi motivado por sentimentos elevados e ideias nobres, mas, por algum motivo, o significado da primeira bem-aventurança lhe escapou totalmente: “Bem- aventurados os pobres em espírito, pois deles é o reino do céu” (5.3). O que o move é sua determinação, seus próprios ideais elevados e recém-estimulados. Por incrível que pareça, o Sermão do Monte o faz pensar que pode viver sozinho por aqueles preceitos. Em vez de enxergar sua própria falência espiritual pela luz do Sermão do Monte, ele vê apenas a beleza da luz em si. Portanto, em vez de se voltar para Deus e pedir a graça, a misericórdia, o perdão, a aceitação e o socorro que seu estado espiritual falido exige, ele simplesmente vira uma nova página de sua vida. Não é de admirar que logo se sinta desanimado e derrotado. É por isso que Jesus diz: “Peçam, e lhes será dado; busquem, e acharão; batam, e a porta se abrirá para vocês. Porque todo o que pede recebe; quem busca acha; e, ao que bate, a porta será aberta” (7.7,8). Na perfeita simetria tripla desses dois versículos, os imperativos são enfáticos e estão no presente. Continue pedindo, continue buscando, continue batendo; peça, busque, bata e continue fazendo isso; pois “todo o que pede recebe; quem busca acha; e, ao que bate, a porta será aberta”. É preciso perseverança. Mas perseverança em quê? A resposta é perseverança na oração: não aquele tipo de oração esporádica por uma bênção isolada, mas, no contexto do Sermão do Monte, uma oração que traduz a busca entusiasmada de Deus. Esse “pedir” é pedir as virtudes que Jesus acabou de expor; esse “buscar” é buscar a Deus; esse “bater” é bater à porta da sala do trono do céu. Trata-se da resposta divinamente capacitada ao convite direto de Deus: “Vocês me buscarão e me encontrarão quando me buscarem de todo o coração” (Jr 29:13). O reino do céu exige pobreza de espírito, pureza de coração, verdade, compaixão, espírito não vingativo e vida íntegra; mas nos faltam todas essas virtudes. Por isso, vamos pedi-las! Você é tão santo, tão manso, tão verdadeiro, tão amoroso, tão puro, tão obediente a Deus quanto gostaria de ser? Então peça-lhe graça para que essas qualidades se multipliquem em sua vida! Esse pedido, quando feito com sinceridade e humildade, já é um passo de arrependimento e fé, pois é o reconhecimento de que você não tem as virtudes que o reino exige e de que apenas Deus pode concedê-las. Além disso, suspeito que o objeto certo desse pedir, buscar e bater é um pacote inteiro. Não se busca a santidade e se rejeita a obediência; não se procura a obediência e se foge da pureza. Trata-se de uma busca sincera do reino de Deus e da sua justiça. E essa busca é marcada por perseverança: é um persistente pedir, buscar, bater (cf. Lc 11.5-10; 18.1-8; 1Ts 5.17). O mundo ocidental não se destaca pela oração. Em geral, para nossa vergonha indescritível, até os cristãos genuínos do Ocidente não se destacam pela oração. Nossa sociedade gosta de agitação, de organizações competentes e instituições poderosas, de autoconfiança e das conquistas humanas, de opiniões novas e propostas inovadoras; e a igreja de Jesus Cristo se conformou tão bem a esse ambiente que muitas vezes, nesses aspectos, fica difícil perceber diferença entre ela e o paganismo contemporâneo. Existem, sem dúvida, exceções; mas estou me referindo ao que é característico. Nosso declínio espiritual está diretamente ligado à fragilidade vacilante das nossas orações: “Vocês não têm nada porque não pedem a Deus. Vocês pedem e não recebem, porque pedem com motivos errados, só para gastarem nos prazeres de vocês” (Tg 4.2b,3). Esse pedido tem um corolário inevitável: se temos de pedir, não há meio de recebermos as virtudes características dos participantes do reino se Deus não as der. Essa observação é de extrema importância porque faz parte de um tema que permeia todo o Novo Testamento. Em outras palavras, ninguém conquista seu lugar no reino de Deus. Ninguém marca pontos de mérito até juntar o suficiente para herdar a vida eterna. Ninguém é capaz, por si mesmo, de se aproximar do modo de vida retratado no Sermão do Monte. Certamente também ninguém jamais entrará no reino consumado apenas porque resolveu se aperfeiçoar para se tornar apresentável diante de Deus. A primeira bem-aventurança já deu o tom: a aprovação de Deus está sobre aquele que é pobre em espírito. Essa pessoa, reconhecendo sua falência espiritual e sua incapacidade de se adequar às perspectivas do reino, ficará ansiosa por pedir a Deus graça e ajuda, impaciente por buscar as bênçãos que só Deus pode dar e terá prazer em bater às portas do céu. Também reconhece que a salvação agora — e toda a riqueza dessa salvação no reino consumado — depende da graça de Deus, o favor gratuito e imerecido de Deus. Essa pessoa se alegra em ler o convite de Jesus para que ela peça, busque e bata. Ela se aproxima dele como um humilde pedinte, buscando perdão e graça. Fica claro, portanto, que as palavras de Jesus servem de antídoto para o perigo de murchar emsolo rochoso. A pessoa que fica entusiasmada com os elevados ideais do Sermão do Monte deve aprender que nenhum progresso espiritual ocorre sem a graça de Deus. Por isso, vai entender que não há nada mais importante do que pedir a Deus essa graça. Além disso, essa pessoa começará a entender a solene verdade de que o cristianismo bíblico não é um estado de euforia temporária que às vezes temos e outras vezes não, dependendo de nosso nível de empolgação ou de desânimo. Pelo contrário, é uma reorientação completa da vida, um compromisso eterno cujo sucesso se baseia na fidelidade de Deus. Fracassos e reveses podem vir, mas Deus permanece absolutamente fiel, imparcial, isento da volubilidade dos caprichos humanos, e ainda dá a quem pede, apresenta o tesouro espiritual a quem busca e abre a porta a quem bate. Será que Deus faz isso de má vontade? Essa é uma questão de importância considerável, pois organizamos nossos pedidos de acordo com o que sabemos do caráter daquele a quem nos dirigimos. A criança que tem um pai amável, bondoso e firme não tem medo de lhe pedir coisas, mas no fundo se sente feliz com a certeza de que seu pai não lhe daria algo que, segundo sua maior sabedoria e experiência, julgue nocivo ao filho. A criança que tem um pai esbanjador e irresponsável aproxima-se dele com arrogância e faz exigências, sabendo que não será contrariada. A criança que tem um pai mesquinho, mal-humorado e abusivo raramente pedirá alguma coisa, temendo outra agressão gratuita. Assim, como devemos nos aproximar de Deus? Jesus dá um exemplo breve, mas revelador, para consolidar o ponto principal: como filhos do reino, temos de nos aproximar de Deus com persistência e confiança em sua bondade quando lhe pedimos o suprimento do dia. “Quem de vocês”, Jesus pergunta, “se o filho lhe pedir pão, dará a ele uma pedra? Ou, se lhe pedir peixe, dará uma cobra?”. Essa hipótese é totalmente absurda. Que pai acharia engraçado dar ao filho uma pedra parecida com um pão, em vez de um pão de verdade? A conclusão de Jesus para sua pergunta retórica é óbvia: “Se vocês, apesar de serem maus, sabem dar boas coisas a seus filhos, quanto mais o Pai de vocês, que está no céu, dará boas coisas aos que lhe pedirem!” (7.9- 11). Infelizmente, muitos filhos de Deus sofrem por causa da ideia errada de que seu Pai celestial sente alegria perversa ao ver seus filhos sofrendo de vez em quando. Claro, eles não são tão blasfemos a ponto de expressar seu pensamento com tais termos, mas sua vida de oração revela que eles não estão completamente convencidos da bondade de Deus e do amor que Deus tem por eles. O argumento de Jesus é a fortiori: se os pais humanos — que, segundo os padrões divinos de justiça perfeita, só podem ser definidos como maus — sabem dar bons presentes aos filhos, será que Deus não dará presentes muito melhores aos que lhe pedem? Estamos falando do Deus que disse ao seu povo: “Pode uma mulher esquecer-se do seu bebê que ainda mama e não ter compaixão do filho do seu ventre? Mas, ainda que ela se esquecesse, eu não me esquecerei de ti” (Is 49.15). O cristão deve lembrar-se constantemente da pura bondade de Deus e, dessa forma, dos recursos que seu Pai celestial põe à sua disposição: Vem, minh’alma, tua causa apresentar; Jesus tem prazer em responder à oração; foi ele mesmo que te convidou a orar. Portanto, jamais te dirá “não”. Tu estás te aproximando de um Rei; grandes petições traze contigo; pois sua graça e poder são tais Que ninguém pode pedir demais.1 EQUILÍBRIO E PERFEIÇÃO Mateus 7.12 Dei a este capítulo, que trata de Mateus 7.1-12, o título de “Equilíbrio e perfeição”; e esses temas atingem o ápice no versículo 12: “Em tudo façam aos outros o que vocês querem que eles lhes façam, porque esta é a Lei e os Profetas”. No segundo capítulo, expliquei que os versículos 5.17-20 e 7.12 formam uma inclusio — isto é, delimitam o corpo principal do Sermão do Monte, conforme o registro de Mateus, e indicam que o sermão diz respeito a como o reino de Deus cumpre a Lei e os Profetas. Grande parte disso é exposto em Mateus 5. O Antigo Testamento, como vimos, prenuncia Jesus e o reino que ele anuncia e encontra neles sua verdadeira continuidade. Mas a justiça exigida pelo reino pode ser desvirtuada por alguns e transformada em “obras de justiça” hipócritas, e Jesus passa a advertir contra tal hipocrisia em Mateus 6, insistindo na lealdade sincera às perspectivas do reino. No começo de Mateus 7, então, Jesus trata dos últimos equívocos possíveis. Exatamente porque costuma pregar em categorias absolutas, ele se esforça para juntar as partes de um modo que garanta equilíbrio e proporção. Claro, não sabemos tudo o que Jesus disse naquele dia na região montanhosa da Galileia, mas há boas razões para acreditar que Mateus captou toda a força e equilíbrio de seu discurso. O primeiro perigo de que Jesus trata é o do julgamento (7.1-5), mas ele o contrabalança com o perigo da falta de discernimento (7.6). E toda a pregação é temperada por sua advertência contra a falta de confiança persistente (7.7-11), pois com isso fica claro que Jesus não está defendendo a mera determinação pessoal de se tornar melhor. Em vez disso, ele insiste em afirmar que a entrada e o progresso no reino exigem a mão salvadora de Deus. Assim, todo o corpo do Sermão do Monte foi polido e acabado com excepcional equilíbrio. Em seguida, Jesus o arremata com a conhecida “Regra Áurea”. A forma negativa dessa regra é conhecida em muitas religiões — isto é, ela frequentemente aparece em outros textos na forma: “Não faça aos outros o que não gostaria que fizessem a você”. Por exemplo, o rabino Hillel ensinava: “O que é odioso para você, não faça com seus semelhantes. Essa é toda a lei. Tudo o mais é explicação”. Mas Jesus dá uma forma afirmativa a essa regra, e a diferença entre as duas é profunda. A forma negativa, por exemplo, ensinaria atitudes como estas: se você não gosta de ser roubado, não roube os outros. Se você não gosta de ser amaldiçoado, não amaldiçoe os outros. Se você não gosta de ser odiado, não odeie os outros. Se você não quer que lhe deem uma paulada na cabeça, não dê paulada na cabeça dos outros. Contudo, a forma afirmativa ensina condutas como estas: se você gosta de ser amado, ame os outros. Se você gosta de receber presentes, dê presentes aos outros. Se você gosta de ser valorizado, valorize os outros. A forma afirmativa, portanto, penetra muito mais fundo na alma do que sua contrapartida negativa. Ela não me dá licença para me refugiar em um mundo onde não ofendo ninguém, mas também não faço nada de bom a ninguém. O que você gostaria que lhe fizessem? O que você de fato gostaria? Então, faça isso aos outros. Duplique tanto a qualidade dessas coisas quanto a quantidade — “em tudo”. Por que temos de agir desse modo? Jesus não diz que devemos fazer aos outros o que gostaríamos de que eles nos fizessem para que eles façam isso. Não há aqui nenhum valor utilitarista como “a honestidade compensa” ou coisa parecida. Em vez disso, o motivo por que temos de fazer aos outros o que queremos que eles nos façam é que essa atitude resume a Lei e os Profetas. Em outras palavras, essa atitude está em conformidade com os requisitos do reino de Deus, o reino que é o cumprimento da Lei e dos Profetas. Essa regra é um meio rápido de testar a perfeição exigida em 5.48, o amor mencionado em 5.43ss., a verdade retratada em 5.33ss., e assim por diante. Não é de surpreender que a “Regra Áurea” não dê muita ênfase à nossa relação com Deus. Os versículos anteriores já ressaltaram a importância de estar consciente de nossa constante dependência de Deus para amadurecer e cumprir as exigênciasdas normas do reino. Em outra passagem, Jesus ensina que o maior mandamento é: “Ame o Senhor seu Deus de todo o coração, de toda a alma e de todo o entendimento” e que o segundo maior é: “Ame o seu próximo como a você mesmo” (Mt 22.37,39). No ensinamento de Jesus, contudo, é incontestável que o segundo jamais será observado sem o primeiro: nunca amaremos o próximo como gostaríamos de ser amados enquanto não amarmos a Deus de todo o coração, toda a alma e todo o entendimento. À medida que a distância avassaladora entre essas exigências e nossa conduta expõe nossa falência espiritual, Deus nos dá o ardente desejo de nos aproximar dele com humildade e persistência — pedindo, buscando, batendo. Desse modo, nos tornamos “praticantes” da Palavra, não apenas “ouvintes”. 1John Newton (1725-1807). A 6 Conclusão: Dois caminhos ntes de estudar Mateus 7.13-27, que trata da conclusão do Sermão do Monte, conforme o registro de Mateus, é bom voltar um pouco e analisar como o ensino desses capítulos se relaciona com alguns outros destaques importantes no Novo Testamento. Em especial, quero saber como Mateus 5—7 se encaixa nos principais destaques paulinos, sobretudo a ênfase do apóstolo na justificação pela graça mediante a fé, exposta com preeminência na Epístolas aos Romanos e aos Gálatas. Não tenho dúvidas de que esse parêntese ajudará a ter uma imagem mais nítida dos versículos finais do Sermão do Monte. EXCURSO O Sermão do Monte e os destaques paulinos Equilíbrio A alegre submissão cristã à autoridade das Escrituras traz consigo o compromisso com o equilíbrio no modo de abordarmos as Escrituras. O cristão deve crer na Bíblia como um todo, uma vez que a revelação posterior complementa e às vezes modifica a anterior. No próprio Novo Testamento, diferentes autores ressaltam temas que lhes interessam ou que são de particular interesse para os crentes a quem eles ministram. Ao dar-nos esse livro sagrado, Deus não queria nos prover um manual de teologia sistemática nem uma carta ditada. Em vez disso, ele moveu e inspirou soberanamente homens a escrever narrativas, descrições, cartas, experiências, visões e ordenanças de modo que o resultado fosse um reflexo fidedigno das impressões, análises, pesquisas, convicções e experiências do autor humano — e, ao mesmo tempo, as próprias palavras de Deus. Sendo mais específico, João não escreve como Paulo; o vocabulário deles é diferente, seus interesses históricos e teológicos são diferentes, cada um tem seu próprio estilo. Deus, no entanto, usa os dois. Por isso, não é aceitável nem lícito opor um ao outro, nem aceitar um como expressão normativa do cristianismo em detrimento do outro. Desse modo, portanto, a revelação bíblica não é monocromática. Por isso, não deve ser interpretada com esse pressuposto. Com base nisso, temos de aprender a organizar os diferentes raios de luz num espectro contínuo. O Sermão do Monte contém muitas instruções éticas — tantas que algumas pessoas concluíram que ele estabelece uma série de condições a ser cumpridas para que alguém entre no reino de Deus. Segundo essa interpretação, um indivíduo entra no reino porque sua obediência o fez merecer a entrada. Tal dedução é obviamente falsa. Observamos no capítulo anterior que a insistência de Jesus na pobreza do espírito (em 5.3) aliada à ênfase no pedir a Deus com humildade (em 7.7-11) combinam-se para invalidar essa conclusão. No entanto, é compreensível, para dizer o mínimo, que uma leitura superficial do Sermão do Monte leve o leitor desatento a essa falsa conclusão. Paulo Vamos comparar o ensino de Paulo sobre a salvação. Especificamente, examinaremos três elementos dessa doutrina. Primeiro, Paulo insiste em que as pessoas são salvas pela livre graça de Deus, e nada mais. Certamente elas não podem ser salvas por suas obras, pelos méritos que acumulam. O apóstolo usa os primeiros dois capítulos e meio de Romanos para provar que todos os seres humanos, sem exceção, são culpados diante de Deus. Deus é justo e santo; ele não pode ignorar o pecado e fingir que ele não tem importância. No entanto, Deus é misericordioso e amoroso, logo, não tem prazer em condenar culpados. Ele age, portanto, em perfeita conformidade com sua justiça e sua graça, envia seu filho para se tornar um homem, Jesus de Nazaré. Jesus, “o Ungido” de Deus (isto é, o escolhido de Deus, seu “Cristo”), como homem obedece voluntariamente a seu Pai em tudo e morre como representante e substituto de pessoas que não poderiam salvar-se por si mesmas. Deus fez isso “para demonstrar sua justiça no tempo presente, a fim de ser justo e justificador daquele que tem fé em Jesus” (Rm 3.26). “Onde está, então, o motivo de vanglória?”, Paulo pergunta; e responde: “Foi excluído. [...] Porque nós sustentamos que o homem é justificado pela fé, independentemente de observar a lei” (Rm 3.27,28). Em segundo lugar, de acordo com Paulo, essa salvação que vem pela graça de Deus, mediante a fé, não tolera a irresponsabilidade. Se alguém alega que Deus derrama sua graça proporcionalmente ao pecado (“Mas onde aumentou o pecado, a graça aumentou ainda mais...”, Rm 5.20b) e, por isso continua pecando para que a graça continue aumentando, Paulo rechaça veementemente tal ideia (Rm 6.1ss.). Além do mais, Paulo argumenta ainda que, como a morte de Jesus cumpriu judicialmente as justas exigências da lei, os discípulos de Jesus, perdoados pelo supremo ato de autossacrifício de seu Senhor, serão controlados pelo Espírito de Deus (Rm 8.1ss.). Na verdade, somente os que têm esse Espírito e cuja vida o demonstra e todos os que têm esse Espírito e cuja vida o demonstra foram verdadeiramente perdoados. Em outras palavras, a salvação que Deus dá pela graça não é estática; ela inevitavelmente resulta em boas obras. As boas obras não compram a salvação, mas certamente são consequência dela. A esse respeito, Efésios 2.10 precisa ser ponderado junto com o par de versículos mais habitualmente citados que o precedem: “Porque pela graça vocês são salvos, mediante a fé, e isso não vem de vocês, é dom de Deus — não vem das obras, para que ninguém se vanglorie. Porque somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para fazer as boas obras, as quais Deus preparou de antemão para que nós as praticássemos” (Ef 2.8-10). Conforme essa passagem, as boas obras podem ser interpretadas tanto como o alvo da salvação quanto como o teste da salvação. Em terceiro lugar, do ponto de vista do cristão que olha em retrospecto um período da revelação de Deus mais longo do que o período que havia transcorrido na época dos crentes do Antigo Testamento, fica claro que a lei do Antigo Testamento jamais foi concebida para salvar ninguém. Ela apontava para a salvação que estava chegando, e fazia isso de várias maneiras. Por exemplo, ela ensinava aos judeus a extensão real de sua culpa (Rm 2.17ss.), assim como a revelação natural e os princípios morais reconhecidos pela maioria ensinaram aos gentios a extensão de seu pecado (Rm 1.18—2.16). No que diz respeito aos judeus, a lei foi estabelecida como medida temporária até que a promessa da redenção se cumprisse em Jesus (Gl 3.19). Todo o seu sistema sacrificial prefigurava o sacrifício supremo do próprio Salvador. Por isso, a lei, prenunciando Cristo e combinando a culpa humana e a consciência dessa culpa, foi concebida para levar os homens a Cristo, a fim de que eles sejam justificados pela graça, por meio da fé (Gl 3.24). De fato, Paulo pode argumentar que ninguém jamais foi salvo pela lei (Gl 3.11) — isto é, tão somente cumprindo o suficiente do que a lei diz.Construir um modelo em que os pontos positivos de uma pessoa são somados e contrapesados com seus pontos negativos é ridículo de acordo com o critério paulino. Afinal, o bem deve ser feito sem exceção. Portanto, não há nenhum mérito em fazer o bem e obedecer à lei de Deus; e deixar de fazê-lo (isto é, a violar a lei de Deus) é um mal tão inequívoco que não temos como remediá-lo. Aquilo que gostamos de pensar que podemos remediar — isto é, fazer o bem — já é nossa obrigação de qualquer maneira, portanto não pode fazer expiação pelo mal. Paulo argumenta que, antes mesmo que Cristo viesse e o verdadeiro objeto da fé fosse totalmente revelado, os crentes do Antigo Testamento só eram aceitáveis para Deus com base na graça divina. A lei antevia a cruz e a ressurreição de Cristo, mais ou menos como o evangelho hoje recorda esses eventos culminantes. Os crentes do Antigo Testamento, ainda que procurassem obedecer à lei formal, tinham de se aproximar de Deus pela fé — em pobreza de espírito, desejando a graça divina — do contrário, não se aproximavam de forma alguma. O cristianismo de hoje É claro que Paulo está se referindo principalmente à função da lei na história do povo judeu. No entanto, tudo isso é válido também no nível individual. Normalmente ninguém grita por socorro para ser encontrado enquanto não sabe ou não suspeite que está perdido. Ninguém pede perdão enquanto não perceber que está condenado. Ninguém pedirá perdão enquanto não tomar consciência de sua culpa. Estou muito ciente que algumas pessoas se tornam cristãs sem passar por traumas profundos nessas áreas; no entanto, creio que alguns aspectos se aplicam de qualquer modo. Por exemplo, alguns se convertem porque são atraídos pela irrefutável magnificência do amor de Jesus, manifesta em seu autossacrifício. Mas isso significa que eles reconhecem que lhes falta algo na própria vida, ou que Cristo tem algum direito sobre eles, ou que existe nele uma superioridade intrínseca que eles mesmos não têm e gostariam de estabelecer como meta. E tenho a impressão de que essas pessoas não são a maioria das conversões genuínas. Indo um pouco mais longe, diria que o motivo por que atualmente estamos vendo essa porcentagem tão alta de conversões espúrias é justamente porque primeiro não ensinamos às pessoas que elas precisam de Cristo. Em uma de suas cartas a um jovem que queria saber como pregar o evangelho, John Wesley propõe uma abordagem bem diferente. Ele diz que, sempre que chegava a um novo lugar para pregar o evangelho, começava com uma declaração geral sobre o amor de Deus. Em seguida, pregava “a lei” (com isso ele queria dizer todos os padrões justos de Deus e a pena da desobediência) da forma mais penetrante possível. Ele fazia isso até que uma grande quantidade de seus ouvintes se visse em profunda convicção de pecado, chegando até a perder qualquer esperança de serem perdoados por esse Deus santo. Só então ele apresentava as boas-novas de Jesus Cristo. Wesley explicava a importância salvífica da pessoa, do ministério, morte e ressurreição de Cristo e a verdade maravilhosa de que a salvação é unicamente pela graça de Deus, por meio da fé. Enquanto seus ouvintes não percebessem que eram culpados e totalmente impotentes para se salvarem, a maravilha e a disponibilidade da graça de Deus não significariam nada para eles. Wesley acrescenta que, depois que um número grande de pessoas se convertia, ele acrescentava mais temas relacionados com a “lei”. Fazia isso para ressaltar a verdade de que os crentes genuínos têm fome de experimentar a justiça e continuam reconhecendo a pobreza em espírito, confessando que a aceitação deles por Deus depende sempre e somente do sacrifício de Cristo. Grande parte do evangelismo de hoje pouco se preocupa em saber se Deus nos aceita, está mais preocupado em saber se nós o aceitamos. Pouca atenção se dá a agradar a Deus e muito se pensa se ele nos agrada ou não. Muitos métodos evangelísticos conhecidos são concebidos segundo essas considerações. Por isso se dá pouca ênfase ao caráter de Deus e aos requisitos do reino e muita ênfase às nossas necessidades. Pior ainda, nossas necessidades são classificadas em categorias eminentemente psicológicas, não morais (alienação e solidão, em vez de amargura, egoísmo e ódio; frustração e medo, em vez de falta de oração e incredulidade). Como se não bastasse, a paz, a alegria e o amor são pregados como objetivos desejáveis. Essas coisas são desejáveis, mas há dois problemas. Em primeiro lugar, virtudes como paz, alegria e amor podem ser facilmente interpretadas meramente em sentido pessoal, quase místicos. Por causa disso, o destaque bíblico para a paz com Deus e com os homens, para a alegria no Senhor e o amor persistente, que dá sacrificialmente a Deus e aos homens, se reduz a um brilho emocional e agradável. Em segundo lugar, essas virtudes precisam estar acompanhadas de virtudes complementares, tais como justiça, integridade, retidão, verdade, humildade e fé. Imagine um grande cone: Se a entrada para o reino for apresentada como grande e larga, muitos darão os primeiros passos. Entretanto, logo descobrirão que lá dentro o cone se estreita. Continuar significa livrar-se da carga que levam; as condições determinantes para a entrada são muito restritivas. Essas pessoas foram induzidas a entrar no cone por muita conversa sobre a vida, o perdão, a paz e a alegria; de repente, descobrem noções mais restringentes. Ficam sabendo do pecado e do arrependimento, da obediência e do discipulado. Não é de surpreender que muitas vezes ocorra uma erupção e um monte de gente saia por onde entrou. Mas o cone pode estar virado para o outro lado: Agora, a entrada é muito estreita. Ninguém pode entrar se não estiver sem nenhuma bagagem. Só se entra de acordo com as condições estabelecidas. Uma vez dentro, porém, para sua alegria, a pessoa descobre que os horizontes se expandem e a liberdade aumenta cada vez mais. Paulo, como vimos, entende que em geral o cone está nessa segunda posição. Ele explica que uma das principais funções da lei é condenar o ser humano. Isto é, longe de prover um código prático com os quais as pessoas possam obter méritos diante de Deus, a lei funciona para expor o pecado e condená-lo. Paulo escreve: “Ora, sabemos que tudo o que a lei diz, diz para os que estão debaixo da lei, para que toda boca se cale e o mundo todo preste contas a Deus. Portanto, ninguém será declarado justo diante dele pela observância da lei; pelo contrário, mediante a lei nos tornamos conscientes do pecado” (Rm 3.19,20). Consequentemente, quando uma pessoa se aproxima de Cristo, ela se apresenta despojada de qualquer pretensão de justiça própria, de qualquer alegação de mérito moral individual. Não estou dizendo que o ser humano não tem valor. Longe disso — cada um de nós é feito à imagem de Deus e, portanto, tem imensa importância, tanto quanto é importante o seu destino eterno. Contudo, diante de Deus ninguém tem nenhum valor moral meritório que lhe garanta perdão, salvação e entrada no reino de Deus. Em outras palavras, é característico de Paulo ressaltar, de um lado, a salvação pela graça, mediante a fé, e, de outro, a rendição inequívoca com a qual os homens devem se aproximar de Deus. Cristo Quantas e quantas vezes o próprio ministério de Jesus reflete as mesmas perspectivas! Ele tem a estranha capacidade de pôr o dedo na ferida ou no maior obstáculo na vida da pessoa com quem está tratando. O jovem rico, apaixonado por sua riqueza, precisa se livrar dela (Lc 18.18ss.). A samaritana está preparada para falar dediante de Deus. Dentro desse quadro, pobreza de espírito vem a ser uma confissão geral da necessidade que uma pessoa tem de Deus, o humilde reconhecimento de impotência sem ele. A pobreza de espírito pode terminar com um Gideão derrotando as tropas inimigas, todavia começa com um Gideão que primeiro se reconhece incapaz de cumprir a missão e declara categoricamente que, se o Senhor não for com ele, prefere ficar em casa e debulhar grãos. A pobreza de espírito não pode ser induzida artificialmente pelo autodesprezo. Menos ainda tem em comum com a ostentação de humildade. Tampouco os de espírito arrogante, que cobiçam suas qualidades, conseguem imitá-la com êxito. Essas tentativas podem ter algum sucesso simbólico diante dos homens, mas jamais conseguem enganar a Deus. Na verdade, quase todos nós sentimos repulsa pela humildade fingida, seja a nossa própria, seja a dos outros. Suponho que não haja orgulho mais mortal do que aquele que se baseia em grande conhecimento, muita piedade exterior ou na presunçosa defesa da ortodoxia. Não estou com isso questionando o valor do conhecimento, da piedade ou da ortodoxia, mas apenas expondo os crentes professos ao pleno resplendor dessa bem-aventurança. O orgulho baseado em virtudes genuínas tem o maior potencial de levar o indivíduo a se iludir; mas nosso Senhor não há de permitir isso. Ele insiste na pobreza de espírito: o reconhecimento total, sincero, factual, consciente e consciencioso da nossa falta de valor moral diante de Deus. A pobreza de espírito é, como dito anteriormente, a forma mais profunda de arrependimento. Não é de surpreender, portanto, que o reino do céu pertença aos pobres em espírito. Já no início do Sermão do Monte, descobrimos que não temos os recursos espirituais para pôr em prática nenhum dos preceitos do Sermão. Não podemos atingir os padrões de Deus por nós mesmos. Temos de nos apresentar diante de Deus e reconhecer nossa falência espiritual, esvaziando- nos de nosso senso de justiça própria, autoestima moral e vanglória pessoal. Uma vez esvaziados disso tudo, estamos prontos para que ele nos encha. Grande parte do restante do Sermão do Monte tem o propósito de retirar de nós esses autoenganos e promover a pobreza genuína de espírito. A sinceridade e a profundidade desse arrependimento são requisitos primordiais para entrar na vida. Segunda: “Bem-aventurados os que choram, pois serão consolados” (5.4) Esse versículo decorre naturalmente do anterior. O choro pode ser entendido como o complemento emocional da pobreza de espírito. O mundo em que vivemos gosta de rir. Os agentes do prazer vendem alegria e risadas, tudo em troca de lucro. O summum bonum da vida torna-se a diversão, e o objetivo imediato é chegar ao próximo pico de euforia. O mundo não gosta de pessoas chorosas; elas são desmancha-prazeres. Contudo, o Filho de Deus insiste: “Bem-aventurados os que choram, pois serão consolados”. Isso não significa que o cristão deva ser sempre triste, como se estivesse em luto constante. O cristão não deve corresponder ao estereótipo gravado na mente daquela garotinha que exclamou: “Aquele cavalo deve ser cristão; olha só que cara triste ele tem!”. Tampouco o versículo é uma desculpa para aquela tristeza que vem da autopiedade subserviente. O que é esse choro, então? Para o indivíduo, esse choro é o pesar que ele sente por seu próprio pecado. É a tristeza de alguém que começa a reconhecer o negrume de seu pecado quanto mais toma conhecimento da pureza de Deus. Isso aconteceu com Isaías quando lhe foi concedida uma visão da Divindade, em que até os próprios anjos do céu cobriam o rosto e clamavam em solene adoração: “Santo, santo, santo”. A reação de Isaías foi de total devastação (Is 6.5). Esse é o pranto de um homem que tenta alcançar a pureza por seus próprios esforços e descobre que não consegue atingi-la, por isso lamenta: “Miserável homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte?” (Rm 7.24). Contudo, pode haver também um choro estimulado por considerações mais gerais. Às vezes o pecado deste mundo, a falta de integridade, a injustiça, a crueldade, a mesquinhez, o egoísmo, tudo isso se acumula na consciência de uma pessoa sensível e a faz chorar. A maioria de nós prefere simplesmente condenar. Estamos preparados para andar com Jesus através de Mateus 23 e repetir seus pronunciamentos de juízo; mas paramos antes de chegar ao fim do capítulo e não nos juntamos a ele quando chora pela cidade. Os grandes luminares da história da igreja aprenderam a chorar — homens do calibre de Calvino, Whitefield, Wesley, Shaftesbury e Wilberforce. O cristão deve ser um realista autêntico. Ele percebe que a morte é um fato e precisa ser encarada. Deus existe e será conhecido de todos, como Salvador ou Juiz. O pecado é um fato, e é de uma feiura e escuridão inexprimíveis diante da pureza de Deus. A eternidade é um fato, e todo ser humano vivo caminha a passos largos para ela. A revelação de Deus é um fato, e as alternativas que ela apresenta acontecerão: vida ou morte, perdão ou condenação, céu ou inferno. São realidades que não vão desaparecer. O homem que tem consciência delas e avalia a si mesmo e ao seu mundo tendo- as como padrão não pode fazer outra coisa senão chorar. Ele chora pelos pecados e blasfêmias de sua nação. Chora pela erosão do conceito de verdade. Chora pela avareza, pelo ceticismo, pela falta de integridade. Chora por haver tão poucos que choram. Mas ele será consolado! E que consolo! Não há consolo ou alegria que se compare com o que Deus dá aos que choram. Eles trocam o pano de saco do lamento por vestes de louvor, as cinzas do luto pelo óleo da alegria. No nível individual, aquele que chora lamenta o seu próprio pecado porque vê como é grande sua transgressão diante de Deus; mas aprende a confiar em Jesus como aquele que pagou o resgate pelo pecado (Mc 10.45). Ele exulta de alegria ao descobrir por experiência própria que Jesus veio salvar seu povo de seus pecados (Mt 1.21). E, enquanto chora por outras pessoas, ele descobre maravilhado que Deus está respondendo a suas orações — muitas vezes até agindo por intermédio dele para desatar os nós do pecado e proporcionar a outros a experiência do novo nascimento, da nova justiça. Todavia, até esse grande consolo será superado: um dia, em novo céu e nova terra, o reino de Deus será consumado, e o próprio Deus enxugará toda lágrima dos olhos dos que antes choravam. Não haverá mais morte, nem lamento, nem choro, nem dor, porque a antiga ordem das coisas terá passado (Ap 21.4). Terceira: “Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra” (5.5) Qual é a diferença entre mansidão e pobreza de espírito? A diferença, creio, é esta: pobreza de espírito diz respeito à opinião que uma pessoa tem a respeito de si, sobretudo em relação a Deus, enquanto mansidão diz respeito a seu relacionamento com Deus e com os outros. Mansidão não é, como muitos imaginam, fraqueza. Não se deve confundir ser manso com se deixar levar pelos outros, não ter personalidade. Uma pessoa mansa não é necessariamente indecisa ou medrosa. Ela não é tão insegura a ponto de se deixar abater por ofensas. Mansidão também não deve ser confundida com mera amabilidade. Algumas pessoas são naturalmente agradáveis e de trato fácil, mas isso também se aplica a alguns cachorros. Mansidão é muito mais que isso. Mansidão é o desejo consciente de pôr os interesses do outro na frente dos nossos. Pense na consideração de Abraão por Ló: isso é mansidão. De acordo com Números 12.3, Moisés foi o homem mais manso que já existiu, e sua mansidão é demonstrada de forma excepcional nesse capítulo pela sua recusa em se defender, por seu firmereligião, mas Jesus traz à baila as relações adúlteras dessa mulher (Jo 4.7ss.). Ele adverte os potenciais discípulos a primeiro calcular o preço de o seguir (Lc 14.25ss.), concluindo suas ilustrações sobre esse assunto com a penetrante declaração: “Do mesmo modo, qualquer um de vocês que não renunciar a tudo quanto possui não pode ser meu discípulo” (Lc 14.33). Aí está — a extremidade estreita do cone. Essa ideia surge mais uma vez quando ele rejeita voluntários hesitantes ou despreparados (Lc 9.57-62). É claro que esse é apenas um dos lados da moeda. Também vemos Jesus fazendo convites gerais (veja Mt 11.28-30; Jo 7.37,38), e ele é conhecido como aquele que não esmagará a cana quebrada e não apagará o pavio que fumega (Mt 12.20). Mas isso só significa que ele é benevolente com o esmagado, o ferido, o oprimido e o cansado. Jesus veio como médico para os doentes, não para os sãos; como o Salvador para os pecadores, não para os justos (Mt 9.12,13). As pessoas alquebradas não precisam de grandes lições sobre pobreza em espírito: elas já aprenderam e agora precisam de palavras de graça e esperança. Estou chegando agora ao núcleo da questão, no que se refere ao Sermão do Monte. Paulo deixa claro que a lei torna os homens conscientes do pecado, que eles são salvos pela graça, por meio da fé, e que Deus não aceita ninguém que venha com condições e ressalvas. Paulo explica a função da lei, e o que ele está explicando em Romanos e em Gálatas, Jesus explica no Sermão do Monte. Não é à toa que o Sermão do Monte começa com a exigência da pobreza em espírito. Ele começa exigindo que os que esperam entrar no reino reconheçam sua falência espiritual, sua necessidade. Além disso, assim como Paulo, Jesus está explicando algumas relações entre a lei e o evangelho (Mateus 5.17-20), mas faz isso para ressaltar a exigência de justiça no reino. Se a lei do Antigo Testamento ainda tem alguma autoridade vinculativa, ela a tem naquilo que já a cumpriu, isto é, no reino. Portanto, em certo sentido Jesus está pregando a lei: ele está pregando o alvo para o qual a Lei e os Profetas apontavam. Ao proclamar assim as normas e exigências do reino, ele simultaneamente apresenta aos discípulos genuínos as perspectivas do reino e faz todos os outros dolorosamente conscientes de seus defeitos irremediáveis. É claro que Jesus está pregando para pessoas que ainda não tiveram de lidar com as consequências da morte dele, nem se alegraram com o fato histórico e os aspectos escatológicos de sua ressurreição. Esse ambiente anterior à Paixão sem dúvida influencia o quanto Jesus lhes diz e em que condições. No entanto, insisto em dizer que, se o Sermão do Monte for interpretado apenas como um requisito legal para a entrada no reino, ninguém jamais entrará: pode alguém meditar muito tempo em Mateus 5—7 e não se sentir envergonhado? O Sermão do Monte dá um golpe mortal no nosso senso de justiça própria e nos convida, em seguida, a pedir o favor de Deus (7.7-11), sem o qual é impossível a admissão ao reino. Ao mesmo tempo, ele faz um esboço do modo de vida daqueles que entram, os que fazem petições a Deus (7.7-11), pedem perdão (6.12) e, pela graça de Deus, encontram não só o perdão, mas também a adequação cada vez maior às normas do reino. Não demora muito para que a vida deles comece a expressar a Lei e os Profetas. Nada pode ser mais desastroso do que meditar longa e profundamente em Mateus 5.1—7.12 e depois resolver melhorar um pouco. O discipulado que Jesus exige é absoluto, radical no sentido (etimológico) de chegar à raiz da conduta humana e à raiz das relações entre Deus e os homens. Uma pessoa entra no reino ou não entra; caminha pela estrada que leva à vida ou caminha pela estrada que leva à destruição. Não existe terceira alternativa. Nada, absolutamente nada, pode ter importância mais crucial do que seguir Jesus. Ainda que hoje isso esteja longe de ser uma verdade reconhecida universalmente, um dia todos os seres humanos, sem exceção, a confessarão, alguns para o próprio pesar eterno. Jesus, portanto, conclui o Sermão do Monte com uma série de pares de alternativas. Ele fala de dois caminhos (7.13,14), duas árvores (7.15-20), duas alegações (7.21-23) e duas casas (7.24-27). Com esses pares, ele insiste em que há dois e somente dois caminhos. Esses últimos versículos do Sermão do Monte exigem a decisão e o compromisso do tipo que implora a Deus por misericórdia e perdão. Tal discipulado se caracteriza pelo arrependimento profundo, que não almeja nada além da conformidade com a vontade de Deus. Porém, porque há apenas dois caminhos, simplesmente deixar de assumir esse compromisso tão profundo já é o compromisso de não o assumir. O caminho de Jesus exige arrependimento, confiança e obediência. Por conseguinte, a recusa, resultante de arrogância impenitente, incredulidade e/ou desobediência — em suma, egocentrismo em vez de uma vida centrada em Deus —, só pode ser interpretada como rebelião. Dois e somente dois caminhos. O Sermão do Monte não termina com pensamentos elevados sobre a bondade humana, salpicados generosamente com a esperança ingênua na inevitabilidade do progresso humano. Ele oferece dois e somente dois caminhos. Um termina em vida (7.14), bons frutos (7.17), entrada no reino do céu (7.21) e estabilidade (7.25). O outro termina em destruição (7.13), frutos ruins e fogo (7.19), exclusão do reino junto com outros malfeitores (7.23) e ruína (7.27). Essas reflexões são muito sérias. Quem ignora o peso de tais bênçãos e maldições corre o risco da condenação eterna. DOIS CAMINHOS Mateus 7.13,14 Jesus diz, antes de mais nada: “Entrem pela porta estreita, porque larga é a porta e amplo o caminho que leva à perdição, e são muitos os que entram por ela. Mas estreita é a porta, e apertado o caminho que leva à vida, e são poucos os que a encontram” (7.13,14.). O sentido da metáfora é bem claro. Temos de imaginar dois caminhos, duas estradas. O primeiro é espaçoso (não “fácil”, como aparece na RSV), e sua porta é larga. Ele acomoda muitas pessoas, e todas se sentem confortáveis e felizes com sua amplidão. Contudo, apesar de ser tão bom de percorrer, ele acaba em destruição. O outro caminho é apertado, e a porta que lhe dá acesso é estreita. Ele é restrito, e relativamente poucos viajantes se encontram nele. Mas ele conduz à “vida” — sinônimo de reino. Que conclusões legítimas podem ser extraídas desses dois versículos? Citarei cinco. Em primeiro lugar, o caminho de Deus não é espaçoso, mas limitado. Pobreza em espírito não é fácil; oração não é fácil; justiça não é fácil; atitudes teocêntricas transformadas não são facilmente alcançadas. Na verdade, tudo isso nos é impossível sem a graça de Deus. São virtudes estranhas a muito do que há em nós e que grita para ser ouvido; portanto, o realinhamento, que é parte essencial da conversão genuína, é restrito. Não há espaço para eu expor minha opinião contra o Senhor, não há espaço para estabelecer nenhuma meta conflitante com as dele, não há espaço para afetos que disputem o lugar central, que deve ser do Senhor Jesus. Corro o risco de que a imagem que estou pintando seja vista como um tom cinza melancólico, para não dizer mórbido. Para que isso não aconteça, apresso-me em fazer algumas ressalvas ao que acabei de dizer. Existe todo um espectro de alegrias e liberdades para o cristão. Nesse espectro, a alegria mais profunda é conhecer a Deus pessoalmente, por meio de Cristo, assim como as alegrias humanas mais profundas sempre foram as amizades íntimas. Também se encontra nele a liberdade de teros pecados perdoados e da vitória cada vez maior sobre a tentação. Logo proliferam novos amores e amizades com outros discípulos de Cristo, tanto é que Jesus afirma: “Eu lhes digo a verdade: ninguém que tenha deixado casa ou irmãos, ou irmãs, ou mãe, ou pai, ou filhos, ou campos, por minha causa e pelo evangelho deixará de receber cem vezes mais agora, no presente (casa, irmãos, irmãs, mães, filhos e campos — e com eles perseguições), e, no mundo vindouro, a vida eterna” (Mc 10.29,30). Quando a Trindade se torna o centro dos pensamentos do cristão, toda a vida passa a ser mais fascinante e atraente, à medida que ele vislumbra a plenitude e a perfeição das coisas sob o domínio de Deus. O céu lá em cima é de um azul mais límpido, a terra em volta é de um verde mais brilhante; há algo de mais vívido em cada matiz, que os olhos sem Cristo jamais viram: pássaros transbordam de cânticos mais alegres, flores com maior beleza brilham, desde que eu soube o que agora sei, eu sou dele, e ele é meu.1 Apesar disso, o caminho é restrito. Na verdade, quanto maior for a hesitação em seguir o caminho de Cristo de todo o coração, sem reservas, mais estreito o caminho dele parecerá. Todavia, quanto mais entusiasmo houver em segui-lo, independentemente da opinião pessoal ou da pressão dos colegas, apesar do preço que se paga, mais libertador o caminho de Cristo parecerá. Em segundo lugar, podemos deduzir de Mateus 7.13,14 que não se pode descobrir o caminho de Deus recorrendo à opinião da maioria, pois a maioria está na estrada que leva à destruição. Os cristãos aplicam as palavras de Paulo a muitas circunstâncias: “Seja Deus verdadeiro, e todo homem, mentiroso” (Rm 3.4). Se alguém perguntar diretamente: “Isso significa que apenas alguns serão salvos e que o resto está perdido?”, a resposta mais segura é a do próprio Jesus (Lc 13.22-30): Depois Jesus foi pelas cidades e povoados, ensinando enquanto se dirigia para Jerusalém. Alguém lhe perguntou: “Senhor, são poucos os que vão ser salvos?” Ele lhes respondeu: “Esforçai-vos por entrar pela porta estreita; porque eu vos digo que muitos tentarão entrar e não conseguirão. Quando o dono da casa se levantar e fechar a porta, vocês ficarão de fora batendo e pedindo: ‘Senhor, abre-nos a porta’. Ele, porém, responderá: ‘Não conheço vocês nem sei de onde vêm’. Então vocês começarão a dizer: ‘Comemos e bebemos com o senhor, e o senhor ensinou nas nossas ruas’. Mas ele responderá: ‘Não conheço vocês nem sei de onde são. Afastem- se de mim, todos vocês que praticam o mal!’. Haverá choro e ranger de dentes quando vocês virem Abraão, Isaque, Jacó e todos os profetas no reino de Deus, mas vocês lançados fora. Pessoas virão do oriente e do ocidente, do norte e do sul, e ocuparão o lugar delas no banquete do reino de Deus. De fato, há últimos que serão primeiros e primeiros que serão últimos”. Palavras duras! Elas foram ditas primeiro aos judeus contemporâneos de Jesus que estavam rejeitando seu próprio Messias, todavia a essência da resposta de Jesus não muda. Ele exige de seus questionadores menos especulação acerca do número preciso de quem “será salvo” e mais preocupação com a própria salvação deles. Em terceiro lugar, conclui-se que o caminho estreito para a vida não pode ser trilhado enquanto formos movidos pelo desejo de agradar a maioria das pessoas. A maioria anda pela estrada larga; a estrada estreita é um pouco solitária. Essa é outra maneira de expressar uma verdade que surge reiteradamente no Sermão do Monte, a de que os verdadeiros discípulos de Jesus não jogam para a torcida nem formam seus valores segundo os princípios da aprovação passageira dos caprichos da moda. As bem- aventuranças nos dizem que só o que importa é a aprovação de Deus. Em Mateus 6, Jesus censura duramente a forma de hipocrisia que pratica a piedade para conquistar a aprovação dos homens. E aqui, em Mateus 7, ele nos diz que o caminho para a vida é estreito e não tão popular quanto o caminho para a destruição. “Escolham hoje a quem vocês vão servir [...] Mas eu e minha casa serviremos ao Senhor” (Js 24.15). O desafio de Josué a Israel chega a nós hoje com o mesmo vigor, o vigor nascido de uma análise lúcida. Isso nos traz à memória o espírito de Atanásio, o teólogo do quarto século que, por algum tempo, ficou praticamente sozinho na defesa da divindade de Cristo. Seu trabalho resistiu em grande parte ao teste do tempo, e no seu próprio tempo ele finalmente teve reconhecimento. No entanto, durante os períodos mais sombrios, quando estava sendo tragado pelo turbilhão da polêmica teológica e parecia isolado de seus amigos e colegas, ele foi aconselhado a renegar suas opiniões porque o mundo inteiro estava contra ele. Sua resposta foi arrasadoramente simples: “Então é Atanásio contra o mundo inteiro”. Claro que é possível assumir essa posição por pura arrogância e independência teimosa. Quem se inclina para um egoísmo tão odioso ainda não aprendeu sequer as primeiras lições do Sermão do Monte. As diferenças com que essa pessoa procura manter seu isolamento são mais tradicionais e individuas do que bíblicas. Entretanto, feitas essas considerações, permanece o fato de que o caminho estreito ganha poucos concursos de popularidade. Isso ocorre em parte porque a justiça pura do Sermão do Monte é muito abrangente e exigente para ser atraente a uma humanidade que prefere concessões e todo tipo de corrupção individual. Além disso, a preocupação do Sermão com a verdade é tão grande que a intolerância pessoal ao ensino espúrio é uma decorrência necessária (como veremos em Mateus 7.15-20). Em quarto lugar, os dois caminhos não são fins em si mesmos, mas têm um significado eterno além deles. Um leva à destruição, o outro, à vida. Ironicamente, é o caminho espaçoso e popular que leva à destruição, e o confinado e relativamente impopular, o que leva à vida. Nos dois casos, a questão é a mesma: não o caminho, mas o destino a que ele conduz é de extrema importância. O trágico é que pessoas sensatas em todos os outros aspectos ficam tão encantadas com a amplidão e a popularidade do seu caminho que nem pensam muito no destino para onde estão indo. Se ouvem que ele conduz à destruição, elas contestam, alegando que não são piores do que a maioria dos outros nessa mesma estrada e que, de qualquer modo, Deus não permitiria a destruição de tantas pessoas. Deixe-me afirmar enfaticamente que as Escrituras não incentivam esse otimismo. O próprio Jesus insiste em que apenas o caminho estreito leva à vida. Somente o caminho que parece tão estreito explode em vitalidade no final: a consumação do reino de Deus. Por fim, em quinto lugar, quero ressaltar mais uma vez que existem apenas dois caminhos. Em outras palavras, podemos dizer que não há outro caminho para a vida, nenhum outro meio de evitar a destruição a não ser o caminho estreito. As pessoas não vão ganhar o reino adorando a natureza, nem com sentimentos piedosos, tampouco por deixar-se levar para a salvação sem decisão e compromisso, menos ainda pelo hedonismo e pela expressão da própria personalidade. As pessoas entram na vida submetendo-se às normas do reino e são salvas pela graça de Deus mediante a fé em Cristo, caso contrário vão caminhar para a destruição. Jesus insiste nesse ponto. DUAS ÁRVORES Mateus 7.15-20 Os discípulos de Jesus Cristo não são muito suscetíveis a convites explícitos para pecar. É pouco provável que sejam atraídos pelo mestre/pregador que defende hedonismo gritante, anarquia e formas variadas de incredulidade. O problema está no pregador que parece piedoso,que ora, que à primeira vista parece ter todas as marcas de um cristão. Ele usa todos os clichês religiosos certos, e o próprio dogmatismo que ele exala parece dar testemunho de sua ortodoxia. Ele se mostra como uma das ovelhas do rebanho de Cristo, e a maioria das ovelhas verdadeiras não percebe que ele na verdade é um lobo devorador. “Cuidado com os falsos profetas”, Jesus adverte. “Eles se aproximam de vocês disfarçados em pele de ovelha, mas interiormente são lobos devoradores” (7.15). O problema dos falsos profetas sempre existiu entre nós. Um profeta é fundamentalmente mensageiro de outra pessoa, e esses falsos profetas alegam estar falando da parte de Deus. A gravidade do perigo que eles representam é que são aceitos pelo que dizem ser — surgem na igreja e reúnem ali um grupo de seguidores. Em outra passagem, Jesus adverte que “surgirão muitos falsos profetas e enganarão a muitos” (Mt 24.11). Perto do fim de seu ministério, o apóstolo Paulo advertiu os anciãos da igreja de Éfeso: “Eu sei que, depois da minha partida, lobos cruéis entrarão no meio de vocês e não pouparão o rebanho. Mesmo entre vocês mesmos se levantarão homens e distorcerão a verdade a fim de atrair discípulos para si. Por isso, fiquem atentos! Lembrem-se de que durante três anos não cessei de avisar cada um de vocês, dia e noite, com lágrimas” (At 20.29-31). Temos ainda as palavras solenes de 2Pedro 2.1-3,17-22: Mas entre o povo também houve falsos profetas, assim como entre vós haverá falsos mestres. Eles introduzirão secretamente heresias destrutivas, negando até o soberano Senhor que os resgatou, trazendo para si mesmos repentina destruição. Muitos seguirão os caminhos vergonhosos desses homens, e o caminho da verdade será difamado por causa deles. Movidos pela ganância, esses mestres vão explorar vocês com histórias que inventaram. A condenação desses homens há muito tempo paira sobre eles, e a sua destruição não tarda. [...] Esses homens são fontes sem água e névoas levadas pela tempestade. Para eles está reservada a escuridão das trevas. Porque proferem palavras vazias e arrogantes e, apelando a paixões sensuais da natureza humana pecaminosa, seduzem os que estão quase escapando do erro. Prometem-lhes liberdade, embora eles próprios sejam escravos da depravação — pois o homem é escravo daquilo que o domina. Se escaparam da corrupção do mundo pelo conhecimento do Senhor e Salvador Jesus Cristo e são novamente envolvidos e vencidos por ela, seu último estado é pior que o primeiro. Teria sido melhor que não tivessem conhecido o caminho da justiça do que, depois de conhecê-lo, darem as costas ao santo mandamento que lhes fora transmitido. Sobre eles são verdadeiros os provérbios: “O cão volta a seu vômito” e “A porca lavada volta a revolver-se na lama”. Isso não deveria nos causar surpresa, se nos lembrarmos do arquétipo que subjaz a esses falsos profetas. Paulo, escrevendo a respeito de alguns homens com quem teve de lidar, revela a verdadeira imagem deles: “Esses homens são falsos profetas, obreiros enganadores, disfarçados de apóstolos de Cristo. E não é de admirar, pois o próprio Satanás se disfarça de anjo de luz. Portanto, não surpreende que também os seus servos se disfarcem de servos da justiça. O fim deles será de acordo com suas obras” (2Co 11.13-15). Como, então, podemos reconhecer esses lobos em pele de cordeiro? Muitas sugestões para desmascará-los estão distribuídas ao longo das Escrituras, mas apenas duas estão em consideração aqui. A primeira se baseia em uma observação contextual. No contexto do Sermão do Monte, o falso profeta só pode ser alguém que não defende o caminho estreito apresentado por Jesus. Ele pode não ser desatinadamente herético em outras áreas; na verdade, pode se mostrar um firme defensor da ortodoxia. Mas o caminho que esse falso mestre recomenda não é estreito nem perturbador e, por isso, ele pode ganhar muitos ouvintes. Essas pessoas me fazem lembrar certos profetas político-religiosos da época de Jeremias, a respeito de quem Deus diz: “Porque são todos gananciosos, do menor ao mais rico deles, e todos eles agem com falsidade, do profeta até o sacerdote. Também se ocupam em curar superficialmente a ferida do meu povo, dizendo: Paz, paz! Mas não há paz. Por acaso se envergonharam da abominação que praticaram? Não, de maneira alguma; nem mesmo sabem o que é envergonhar-se” (Jr 6.13-15; cf. Jr 8.8-12). Não há nada na pregação deles que promova a pobreza de espírito, nada que sonde a consciência e faça as pessoas clamarem a Deus por misericórdia, nada que condene todas as formas de hipocrisia religiosa, nada que promova retidão de conduta e atitude a ponto de tornar inevitável algum tipo de perseguição. É até possível que, em algumas circunstâncias, tudo o que esses falsos profetas digam seja verdade. Contudo, como omitem as partes difíceis, não dizem a verdade completa, e a mensagem toda deles é falsa. O segundo teste não se baseia em observações contextuais, mas no argumento explícito do texto. Jesus diz: “Vocês os conhecerão por seus frutos. Pode alguém colher uvas de um espinheiro ou figos de cardos? Do mesmo modo, toda árvore boa produz bons frutos, mas a árvore ruim produz frutos ruins. A árvore boa não pode dar frutos ruins nem a árvore ruim, dar frutos bons. Toda árvore que não produz fruto bom é cortada e lançada no fogo. Portanto, pelos frutos vocês os reconhecerão” (7.16-20). Esse modo semítico de dizer as coisas (isto é, tanto afirmativa quanto negativamente: toda árvore boa dá bons frutos, nenhuma árvore boa dá frutos ruins etc.) deixa o teste muito seguro. Na época de Jesus, todos sabiam que o espinheiro tinha pequenas bagas pretas que podiam ser confundidas com uvas e que havia um cardo cuja flor, a certa distância, podia ser confundida com um figo. Mas ninguém acharia que o fruto do espinheiro era uva quando começasse a usar a fruta para fazer vinho. Ninguém se enganaria com as flores do cardo quando chegasse a hora de comer figos no jantar. Em outras palavras, de certa perspectiva os falsos profetas podem parecer profetas verdadeiros, e seus frutos podem até parecer genuínos. Mas a natureza do falso profeta não pode ser escondida para sempre: cedo ou tarde ele revelará quem realmente é. Da mesma forma que ele não defende o caminho estreito de Jesus, também não consegue viver segundo esse caminho. Um dia isso ficará patente a todos os que amam o caminho estreito. Assim, Mateus 7.15-20 serve como uma ponte entre 7.13,14 e 7.21-23. O texto de Mateus 7.13,14 fala dos dois caminhos; a passagem de 7.21-23 (como veremos) retrata um homem que tem toda a aparência exterior de um discípulo de Jesus, mas não se caracteriza pela obediência a Jesus. A ponte (7.15-20) mostra os falsos profetas que não ensinam o caminho estreito nem o praticam. A falsidade do ensino deles se revela na desobediência de sua vida. Devo enfatizar que Jesus aqui não está incentivando nenhuma mentalidade de caça às heresias. Afinal, ele mesmo acabara de condenar as atitudes julgadoras. Contudo, os falsos mestres têm de ser identificados. Se eles não forem reconhecidos imediatamente pela doutrina que pregam, mais cedo ou mais tarde serão reconhecidos por seu estilo de vida. Aquilo em que um homem acredita um dia há de se manifestar em suas ações. Jesus confirma um elo indissociável entre fé e conduta. Além do mais, o objetivo desses versículos não é tanto ameaçar os falsos profetas em si (embora as árvores ruins sejam lançadas no fogo), e sim incentivar os discípulos comuns a identificá-los: “Vocêsos conhecerão pelos frutos”. Esse teste não deve ser aplicado superficialmente. Não adianta usar apenas esse texto, encontrar um pagão socialmente útil e considerá-lo um profeta verdadeiro. Muito menos basta adotar critérios seculares para avaliar os frutos de um homem: sucesso, estilo, equilíbrio e popularidade. Tampouco bastam padrões de discurso e conduta aceitáveis para o evangelicalismo contemporâneo. O fruto que o Senhor Jesus procura é uma vida em conformidade cada vez maior com as normas do reino: justiça, humildade transparente, pureza, confiança e persistência de oração, obediência aos mandamentos de Jesus, fé, amor, generosidade, rejeição de tudo o que é hipócrita. Pode demorar um tempo para o teste dar resultado. No entanto, quando a aberração doutrinária não puder ser detectada imediata e inequivocamente, o “teste dos frutos” é um guia seguro. Estamos vivendo uma época em que o pluralismo está na ordem do dia. Contudo, embora todos possam ter direito à sua própria opinião, nem todas as opiniões são corretas. Para alguns, só falar de “falsos” profetas parece uma tremenda intolerância. Todavia, é assim que Jesus se refere aos pretensos porta-vozes de Deus que não ensinam o que o próprio Jesus ensina. “Cuidado com os falsos profetas”, diz o Mestre, “pelos frutos vocês os conhecerão”. A questão é o reino de Deus. Não dar ouvidos ao aviso de Jesus significa que a ameaça de juízo que paira sobre a cabeça dos falsos mestres também vem a ser uma ameaça para outros. Não só o destino deles está em risco, mas também o nosso, o seu e o meu, se não conseguirmos identificar e evitar os falsos profetas. DUAS REIVINDICAÇÕES Mateus 7.21-23 “Nem todo o que me diz ‘Senhor, Senhor!’ entrará no reino do céu, mas somente aquele que faz a vontade de meu Pai, que está no céu. Naquele dia, muitos me dirão: ‘Senhor, Senhor, nós não profetizamos em seu nome? Em seu nome não expulsamos demônios? Em seu nome não fizemos muitos milagres?’ Então lhes direi claramente: ‘Nunca os conheci; afastem-se de mim, vocês que praticam o mal’” (7.21-23). São feitas duas reivindicações, e dois tipos de reclamantes são retratados. O primeiro grupo se aproxima de Jesus com reverência “naquele dia”, o dia do juízo; e seus membros se dirigem a ele como “Senhor”. Provavelmente a fé deles é perfeitamente ortodoxa. Além disso, eles têm um registro impressionante de experiências espirituais. Profetizaram em nome de Jesus, exorcizaram demônios em nome de Jesus e em nome de Jesus realizaram muitos milagres. O Senhor não nega nenhuma das alegações deles, e nós também não devemos negar. Podemos, portanto, esperar que mesmo em nossos dias haja muita (7.22) gente que emprega o vocabulário certo e realiza maravilhas espirituais em nome de Jesus, mas que não são discípulos genuínos. Um dos componentes mais trágicos desse enredo é que essas pessoas se consideram crentes genuínos. Sem dúvida esperam a admissão no reino consumado. Claro que às vezes pessoas que tentam usar o nome de Jesus para fazer muitas dessas coisas são apanhadas muito antes do juízo final. Em Atos 19, por exemplo, os sete filhos de Ceva são desmascarados como charlatães. Como castigo, eles são espancados e perseguidos pela rua por um demônio particularmente agressivo. Seja agora, seja no dia do juízo, os falsos discípulos serão desmascarados. Jesus por fim os rejeitará: “Nunca conheci vocês”. Ele os expulsará de sua presença: “Afastem-se de mim”. E os despedirá como malfeitores, pessoas “sem lei, que praticam o mal”. Qual é, portanto, a característica essencial do verdadeiro crente, o genuíno discípulo de Jesus Cristo? Não é fazer uma profissão de fé que chame a atenção de todo mundo, nem ter triunfos espirituais espetaculares, tampouco afirmar que tem muita experiência espiritual. Em vez disso, sua principal característica é a obediência. Os verdadeiros crentes fazem a vontade do Pai, de acordo com sua oração: “Seja feita a sua vontade, assim na terra como no céu”. Não esquecem que, no início do Sermão do Monte, Jesus disse: “Quem desobedecer a um desses mandamentos, ainda que dos menores, e ensinar os outros a fazer o mesmo, será chamado menor no reino do céu, mas todo aquele que pratica e ensina esses mandamentos será chamado grande no reino do céu. Pois eu lhes digo que, se a justiça de vocês não for superior à dos fariseus e à dos mestres da lei, vocês certamente não entrarão no reino do céu” (5.19,20). Assim, eles praticam a obediência. A vontade do Pai não é simplesmente admirada, discutida, louvada, debatida; ela é feita. Não é analisada de acordo com a teologia, nem louvada por seu alto teor ético; ela é feita. O teste é reformulado por um famoso documento do segundo século, a Didaquê, que diz: “Nem todo aquele que fala no Espírito é profeta, mas só o que tem a conduta do Senhor”. Muitas são as maneiras de se autoenganar acerca das coisas espirituais. Por exemplo, é possível desfrutar algum tipo de experiência espiritual singular e viver de seu brilho em detrimento de uma experiência espiritual constante e da obediência prática incessante. Ouvi falar de um homem que passou por uma experiência que considerou um derramamento especial da bênção de Deus. Ele se sentiu transportado ao terceiro céu, como Paulo. O acontecimento foi tão significativo que ele o registrou por inteiro em um texto ao qual deu o título de “Minha experiência”. Passados alguns meses, ele se tornou indiferente às coisas espirituais. De início, ele conservou a aparência e ainda mostrava seu texto aos visitantes. Porém, à medida que os meses se transformavam em anos, até a forma de piedade foi abandonada, e sua experiência ficou esquecida em uma gaveta empoeirada. Muitos anos depois, um ministro bateu à sua porta. O homem, pensando em impressionar o visitante, chamou a esposa, que estava no andar de cima, e pediu que ela lhe trouxesse “Minha experiência”. Ela revirou tudo, até que finalmente encontrou o documento todo corroído, e respondeu: “Desculpe, querido, mas sua experiência foi comida pelas traças”. Simples assim: o homem se deixara levar pela apatia espiritual irresponsável, vivendo das lembranças de uma experiência passada. Contudo, o texto de Mateus 7.21-23 deixa evidente outro modo de autoengano. Nesse caso, o problema não é tanto o falso cristão se deixar levar pela apatia espiritual, e sim confundir profissão de fé pública e histórias e experiências sobrenaturais quase mágicas com espiritualidade verdadeira e piedade genuína. Mas deixar a obediência de lado. A pressão pelo extraordinário excluiu a continuidade do crescimento em conformidade com a vontade do Pai. Por achar que está tendo resultados, que são imediatos e espetaculares, ele acha que está próximo do cerne da verdadeira religião. Seus índices de sucesso estão crescendo vertiginosamente: a bênção de Deus deve estar sobre ele. Sem dúvida, Deus vai entender e se compadecer se ele nem sempre tem tempo suficiente para a oração, o autoexame e para o arrependimento consciente. O que importa são os resultados. Se a verdade às vezes fica um pouquinho distorcida, é só porque os seguidores precisam ouvir certas coisas. E será que é prudente correr o risco de afastar esses ouvintes falando sobre o caminho estreito? Assim como os assessores mais próximos de Nixon conseguiram se convencer de que sua causa era mais importante do que a ética, também esses extrovertidos religiosos se convencem de que suas vitórias espetaculares voltadas para o sucesso são mais importantes do que os aspectosessenciais de um discipulado sólido. É verdade, claro, que ninguém entra no reino por causa de sua obediência, mas é igualmente verdade que ninguém que entre no reino é desobediente. É verdade que as pessoas são salvas pela graça de Deus mediante a fé em Cristo, mas é igualmente verdade que a graça de Deus na vida de um indivíduo resulta inevitavelmente em obediência. Qualquer outra ideia de graça diminui seu valor e a transforma em algo irreconhecível. A graça barata prega perdão sem arrependimento, membresia da igreja sem disciplina eclesiástica rigorosa, discipulado sem obediência, bênção sem perseguição, alegria sem justiça, resultados sem obediência. Será que em toda a história da igreja houve outra geração com tantos cristãos nominais e tão poucos verdadeiros (isto é, obedientes)? E quando o cristianismo nominal se combina com uma profissão de fé espetacular, é muito provável que fabrique sua própria falsa segurança. DUAS CASAS Mateus 7.24-27 A entrada no reino, afinal, depende da obediência — não a obediência que gera pontos de mérito, mas a que se curva ao senhorio de Jesus em tudo e sem reservas. Essa obediência se combina necessariamente com o arrependimento genuíno, tornando os dois quase indissociáveis. Nesse quadro, a obediência é tudo. Os versículos anteriores acabaram de mostrar que é assim. Agora Jesus conclui o Sermão do Monte com um parágrafo iniciado com um incisivo “portanto”. Porque somente aquele que faz a vontade de seu Pai entrará no reino, Jesus diz: Portanto, quem ouve estas minhas palavras e as pratica é como um homem prudente que construiu sua casa sobre a rocha. Caiu a chuva, transbordaram os rios, sopraram os ventos e deram contra aquela casa, mas ela não caiu, porque tinha seus alicerces na rocha. Mas quem ouve estas minhas palavras e não as pratica é como um insensato que construiu sua casa sobre a areia. Caiu a chuva, transbordaram os rios, sopraram os ventos e deram contra aquela casa, e ela caiu. E foi grande a sua queda (Mt 7.24-27). Imagine essas duas casas. Pode não haver muito na aparência delas que permita ao observador menos atento enxergar alguma diferença entre as duas. Ambas parecem bonitas e limpas, recém-pintadas, talvez. No entanto, o alicerce de uma está assentado firmemente num leito rochoso; a outra tem como base nada mais sólido do que areia. Somente uma tempestade mais forte vai mostrar a diferença. Vinda a tempestade, porém, a revelação é inevitável. A metáfora do “alicerce” ou “fundamento” é usada várias vezes nas Escrituras. Por exemplo, o conhecimento pessoal que o povo de Deus tem dele é um fundamento divino que dá segurança a esse povo (2Tm 2.19). As boas obras são alicerce para a era vindoura, não tanto no sentido de nos tornarem merecedores de vida, mas, sim, no sentido de que sem elas não há vida (1Tm 6.17-19). Porém, de modo geral, o próprio Jesus é o fundamento, uma base segura. Profetizado no Antigo Testamento (Is 28.16), ele vem no Novo Testamento para ser o alicerce da segurança de seu povo. Nesse sentido, como Pedro discerne sabiamente, não há salvação em nenhum outro (At 4.12): o próprio Jesus Cristo, em sua pessoa e sua missão, é o único fundamento. No entanto, Jesus não é o alicerce a que Mateus 7.24-27 se refere. Na verdade, o foco não está nos fundamentos escolhidos, rocha e areia, mas nos dois construtores e seus respectivos projetos. O homem que constrói sua casa sobre um fundamento instável é comparado à pessoa que ouve as palavras de Jesus, mas não as põe em prática. O homem que constrói sua casa sobre a rocha é comparado à pessoa que não só ouve as palavras de Jesus, mas também as pratica. Portanto, a diferença entre as duas casas é comparável à diferença entre obediência e desobediência. Nessa metáfora ampliada, a rocha pode muito bem representar as palavras de Jesus: “Estas minhas palavras”, diz Jesus duas vezes, sendo o “minhas” bastante enfático. A expressão lembra o refrão reiterado e cheio de autoridade: “Vocês ouviram o que foi dito [...] Eu, porém, lhes digo”. Talvez haja mais uma nuance. Essas palavras são particularmente palavras de Jesus no sentido de que a própria vida dele é perfeitamente coerente com suas palavras. Eu, que escrevo estas linhas, posso repetir as palavras de Jesus, mas continuo sendo um pecador como você, que as lê. Nesse sentido, as palavras de Jesus não são minhas palavras; elas são somente dele. Portanto, pôr em prática essas palavras é como construir uma casa sobre um alicerce seguro. O outro homem constrói só a casa propriamente, acima do alicerce, e nada mais. A tempestade violenta revela a diferença entre os dois edifícios. No Antigo Testamento, e também em outros escritos judaicos, a tempestade às vezes serve de símbolo do julgamento de Deus (veja Ez 13.10ss.), especialmente o juízo escatológico de Deus, seu juízo final. Nenhum poder era mais capaz de infundir terror no ser humano da era pré-nuclear do que a fúria incontrolada da natureza — o símbolo, portanto, era adequado. Este é o momento de fazermos uma pausa para refletir sobre as ameaças que Jesus vem fazendo até aqui. Em 7.13,14, ele promete destruição para aqueles que andam pelo caminho largo. Em seguida, vem primeiro a imagem de um fogo queimando ramos improdutivos (7.15-20), depois a rejeição categórica dos desobedientes (7.21-23). Agora, para encerrar, o homem que ouve as palavras de Jesus e não as pratica é comparado a uma casa destruída, reduzida a pó e varrida por uma tempestade violenta. A pergunta que não quer calar é: Será que Jesus está querendo assustar as pessoas para que elas entrem no reino? Em certo sentido, é claro, a resposta deve ser sim. Algumas pessoas talvez se aproximem de Cristo por causa da atração do perdão. Outras talvez sintam os primeiros impulsos de segui-lo quando vislumbram pela primeira vez a imensidão de seu amor e a integridade de sua vida, ou quando sentem a vergonha gerada pelo olhar perscrutador do Mestre. Mas não são poucos os que se aproximam de Jesus somente porque percebem que as questões com as quais Jesus está preocupado são questões eternas — em última análise, nada menos do que o céu e o inferno. De fato, o ensino de Jesus tem coisas importantes a dizer sobre relações raciais, justiça social e integridade pessoal, mas não é justo reduzi-lo às preocupações temporais da minha vida aqui. Há um paraíso a ganhar e um inferno a ser evitado. Se você está dormindo um sono profundo em uma casa perigosamente ameaçada de inundação, devia me agradecer por bater à sua porta para despertá-lo. No mínimo, é pouco provável que me acuse de assustá-lo para garantir sua segurança. Eu vou assustá-lo, vou tentar levá-lo para um lugar seguro, mas você não vai me acusar de “assustá-lo para deixá-lo em segurança”. Se você estivesse tão apegado à sua casa que não pudesse suportar a ideia de deixá-la, talvez preferisse ficar e correr o risco de morrer; ou, se não tivesse mesmo consciência do perigo, talvez me mandasse embora e me chamasse de maluco. Mas, embora eu o tenha assustado para levá-lo a um lugar seguro, você não me acusaria de fazer isso. Da mesma forma, Jesus conclui o Sermão do Monte tentando sinceramente deixar homens e mulheres tão assustados a ponto de procurarem entrar no reino, encontrar a salvação. Talvez você não acredite que existe um inferno. Nesse caso, talvez não dê atenção a Jesus por achá-lo mentiroso ou maluco. De outro modo, você pode estar tão apegado ao seu pecado que mesmo a ameaça de um juízo final e catastrófico não é capaz de fazê-lo abandonaro pecado. Mas não passará de um verdadeiro tolo se simplesmente acusar Jesus de assustá-lo para fazê-lo entrar no reino. A verdadeira questão aqui é a verdade subjacente às palavras de Jesus, a verdade que provoca o aviso de Jesus. Ou existe um inferno a ser evitado ou não existe. Se não existir inferno, toda a credibilidade de Jesus se despedaça, pois ele mesmo fala sobre o inferno com o dobro da frequência que fala do céu. As páginas da Bíblia ressaltam metáforas e transbordam de recursos linguísticos para descrever as delícias sagradas do novo céu e da nova terra, ainda por vir, mas esse empenho verbal não é menor quando esboçam os horrores e os terrores do inferno. A Bíblia se refere a ele de várias formas, como o lugar de trevas exteriores, o lugar onde o verme não morre, o lugar de exclusão e rejeição, o lugar de fogo e tormento, o lugar onde haverá choro e ranger de dentes. Não estou tentando lhe dar as coordenadas do inferno, nem situá-lo num mapa. Assim como sou incapaz de descrever o novo céu e a nova terra sem usar as metáforas das Escrituras, também não consigo descrever o inferno senão usando as metáforas das Escrituras. Mas essas metáforas são assombrosas. Você reconhecer ou não a existência do inferno depende em grande parte de sua avaliação da pessoa e do ministério de Jesus. Quem consegue ser indiferente a ele tem pouca dificuldade em ser indiferente ao inferno. Quem afirma que o segue não tem como fazer isso com integridade de modo subjetivo, evitando tudo o que é inconveniente e desagradável.2 Meu principal objetivo, no entanto, não é polemizar sobre a questão do julgamento e do inferno, mas ajudar outras pessoas a chegarem a uma compreensão clara do Sermão do Monte. O Sermão termina com a ameaça de julgamento. As quatro seções que compõem a conclusão desses três capítulos coincidem nesse tema. De fato, esses quatro parágrafos, apesar da diversidade de suas metáforas, enfatizam dois temas inflexíveis. O primeiro é que existem apenas dois caminhos, um que acaba no reino de Deus e outro, na destruição. O segundo tema é que o primeiro caminho é caracterizado pela obediência a Jesus e pela aceitação e prática de todos os seus ensinamentos. Esses pronunciamentos devem inculcar em nós um temor santo. Qual de nós não se sente envergonhado diante dos preceitos do Sermão do Monte? Será que essas ameaças de julgamento não nos impelem à pobreza de espírito, que é a primeira norma do reino? É bom lembrar que Paulo está escrevendo a verdade quando insiste em afirmar que os homens são salvos apenas porque Cristo agiu como substituto deles e morreu por eles. O cristianismo não é simplesmente uma religião moralista de altos ideais. Ele tem altos ideais — de fato, os mais elevados; mas também apresenta um Salvador que foi crucificado, porém ressuscitado, que perdoa homens arrependidos e lhes dá vida para se desenvolverem até atingirem esses ideais. Não podemos esquecer que o registro de Mateus do Sermão do Monte deve ser interpretado dentro do contexto de todo o seu Evangelho. Não é à toa que esse Evangelho começa com uma profecia a respeito de Jesus que enfatiza seu papel de Salvador: “Ela [Maria] dará à luz um filho, a quem você [José] dará o nome de Jesus; porque ele salvará seu povo dos seus pecados” (Mt 1.21). Nesse contexto, o Sermão do Monte não força homens e mulheres a se desesperar, muito menos a procurar salvar-se por eles mesmos. Em vez disso, conduz homens e mulheres a Jesus. O Sermão do Monte não reflete nenhuma alegria perversa com a possibilidade da perdição, nenhuma felicidade de mandar tantos para a destruição. O aviso é de fato uma súplica. Que Deus conceda a seu povo um espírito contrito, que rogue a ele por graça e perdão, em nome de Jesus Cristo, além de conformidade cada vez maior às normas e perspectivas do reino. O FINAL DO SERMÃO Mateus 7.28,29 “Quando Jesus acabou de dizer essas coisas, as multidões estavam maravilhadas com seu ensino, porque ele as ensinava como quem tem autoridade, e não como os escribas” (Mt 7.28,29). Os escribas ensinavam o que aprenderam, isto é, referindo-se às autoridades. Jesus, porém, ensinava com sua própria autoridade. Todos nós ficamos impressionados com alguém cuja destreza e conhecimento de um assunto são tão notáveis que ele remove os resíduos de equívocos e mal- entendidos e revela a verdade da questão com traços precisos e incisivos. Era esse efeito que Jesus tinha sobre seus primeiros ouvintes. Esses ouvintes ficavam maravilhados com Jesus. Talvez isso faça parte do aproximar-se dele, do necessário reconhecimento de sua autoridade. Que Deus, em sua misericórdia, permita que jamais deixemos de nos maravilhar, mas, sim, que prossigamos no firme compromisso da canção: Sê tu minha Visão, ó Senhor do meu coração; que tudo mais seja nada para mim, exceto o que tu és — tu és meu melhor pensamento, de dia ou de noite, em vigília ou dormindo, tua presença é minha luz. Por ti, minha Sabedoria, tu, minha Palavra verdadeira; eu sempre contigo, tu sempre comigo, Senhor; tu, meu grande Pai, eu, teu filho leal; tu em mim habitando, e eu sendo um contigo. Sê tu a minha armadura, minha espada na batalha; sê tu minha dignidade, tu o meu prazer, tu o abrigo da minh’alma, tu a minha torre forte: ressuscita-me para que eu suba ao céu, ó Poder da minha força. Riquezas não busco, nem o vão louvor dos homens; Tu és a minha herança, agora e para sempre: tu e tu somente, o primeiro em meus afetos, exaltado Rei do céu, meu tesouro és tu. Exaltado Rei do céu, conquistada a vitória, possa eu alcançar o júbilo celestial, ó brilhante Sol do céu! Coração do meu próprio coração, venha o que vier, sê ainda minha Visão, ó Soberano que a todos governa.3 1George W. Robinson (1838-1877). 2Se você quer saber mais sobre Jesus Cristo ou sobre os documentos do Novo Testamento que constituem nossas fontes primárias a respeito dele, recomendo especialmente dois livros: John R. W. Scott, Basic Christianity (Downers Grove: InterVarsity, 2012); F. F. Bruce, The New Testament documents: are they reliable? (Grand Rapids: Eerdmans, 2003) [edição em português: Merece confiança o Novo Testamento?, 3. ed. rev., tradução de Waldyr Carvalho Luz (São Paulo: Vida Nova, 2010)]. 3Antigo hino irlandês. Tradução para o inglês de E. H. Hull (1860-1935). Versificado por M. E. Byrne (1880-1931). [Conhecido no Brasil na versão de Hope Gordon Silva intitulada Sê minha vida, ó Deus de poder, in: Hinário para o culto cristão (São Paulo: IBB, 2011), hino 363. (N. do E.)] M APÊNDICE 1 Reflexões sobre abordagens críticas do Sermão do Monte uitos leitores da Bíblia cristã esquadrinham suas páginas com o único propósito de descobrir verdades teológicas e serem renovados espiritualmente. Isso é muito bom e louvável. Se não lermos esse livro com essa finalidade, estaremos fazendo mau uso dele. No entanto, uma leitura mais detalhada do Novo Testamento suscita também uma enormidade de questões críticas. Com o termo “crítica” não estou me referindo a julgamentos negativos nem a um espírito crítico (i.e., condenatório). Em vez disso, uso a expressão “questões críticas” em sentido técnico, para me referir a análises de autoria, data, destinatários, fontes (se houver) e relações literárias com outras obras. Fazer essas perguntas a respeito dos documentos que compõem a Bíblia não é sinal necessário de piedade nem sinal necessário de impiedade. Na maior parte, são perguntas que surgem naturalmente, porque o assunto está lá. Muitas vezes, quando abordo uma passagem das Escrituras como o registro de Mateus do Sermão do Monte e a exponho a leigos, alguém me procura depois de algumas sessões e me faz perguntas comoestas: A passagem de Lucas 6.20-49 não é o registro de Lucas do Sermão do Monte? Por que, então, ela diz que o sermão aconteceu numa planície (Lc 6.17), e não num monte? Por que o relato de Lucas é muito mais curto que o de Mateus? Por que Mateus registra oito bem-aventuranças positivas (Mt 5.3-12), enquanto Lucas registra apenas quatro bem-aventuranças positivas e quatro “ais” correspondentes (Lc 6.20-26)? Por que a redação não é a mesma em outras passagens em que Mateus e Lucas estão registrando o mesmo ensino, mas com um vocabulário ligeiramente diferente? Por que Mateus situa a “Regra de ouro” mais para o fim de sua narrativa (7.12), enquanto Lucas a insere na metade (Lc 6.31)? E por que Lucas omite a oração explicativa “porque esta é a Lei e os Profetas”? Por que Lucas não registra a oração-modelo do Senhor? Ou melhor, por que, quando a registra, ele a situa num contexto inteiramente diferente, onde ela aparece como resposta de Jesus ao pedido dos discípulos para que ele lhes ensinasse a orar (Lc 11.1ss.)? Por que muitos versículos de Mateus 5—7 não se encontram em Lucas 6.20-49, e sim espalhados por todo o Evangelho de Lucas? Se o Sermão do Monte é tão importante, por que Marcos e João não o registram também? Mateus leu o Evangelho de Lucas antes de escrever o seu? Ou foi o contrário? Ou nenhum dos dois leu o do outro? Quem exatamente é Mateus? Não pretendo dar respostas detalhadas a essas perguntas. Se eu apenas começasse a fazer isso, dobraria o tamanho deste livro. Neste breve Apêndice 1, pretendo simplesmente esboçar alguns dos princípios que norteiam as respostas. Também quero esquematizar alguns avanços no campo dos estudos acadêmicos contemporâneos do Novo Testamento, incluindo algumas abordagens e conclusões que considero inválidas e que, em minha opinião, não resistirão ao teste do tempo. Começo apresentando duas tabelas. A primeira começa com o Sermão do Monte registrado por Mateus e mostra a distribuição desse material (ou material muito semelhante) no Evangelho de Lucas. A segunda começa com o Sermão conforme o registro do Evangelho de Lucas e mostra como esse material está distribuído no Evangelho de Mateus. Vale a pena fazer uma pausa agora e abrir o Novo Testamento para examinar cada um desses pares. Você descobrirá rapidamente que as tabelas fazem o problema parecer mais simples do que realmente é. Só para dar um exemplo: embora eu tenha posto Lucas 11.1-4 ao lado de Mateus 6.7-15, Lucas na verdade omite parte do material de Mateus 6.7-15. Nesse caso, ele constrói seu texto de modo um pouco diferente, apesar de ambos os escritores dizerem aproximadamente a mesma coisa. E, ainda por cima, seu contexto é completamente diferente. TABELA 1 Mateus 5—7 Lucas 5.3-12 6.20-26 5.13 14.34,35 5.14-16 8.16 5.17-20 16.16,17 5.21-26 12.57-59 5.27-32 (16.18) 5.33-37 — 5.38-42 6.29,30 5.43-48 6.27,28,32-36 6.1-4 — 6.5,6 — 6.7-15 11.1-4 6.16-18 — 6.19-21 12.33,34 6.22,23 11.34-36 6.24 16.13 6.25-34 12.22-32 7.1-5 6.37-42 7.6 — 7.7-11 11.9-13 7.12 6.31 7.13,14 13.23,24 7.15-20 (cf. 12.33-35) 6.43-45 7.21-23 6.46; 13.25-27 7.24-27 6.47-49 TABELA 2 Lucas 6.20-49 Mateus 6.20-23 5.3-6,11,12 6.27-30 5.39b-42 6.31 7.12 6.32-36 5.44-48 6.37,38 7.1,2 6.39,40 — 6.41,42 7.3-5 6.43-45 7.16-20 6.46 7.21 6.47-49 7.24-27 Para muitos autores modernos, esses problemas são oportunidade de engendrar profundo ceticismo. Alguns acadêmicos atuais acreditam que Jesus de fato pregou um grande sermão, preservado de formas diferentes por Mateus e Lucas, que usaram uma fonte documental comum (ou mais de uma). Muitos outros, entretanto, acham que esse sermão nunca foi pregado. É comum alguém propor que o texto de Mateus 5—7 é principalmente um amálgama de fragmentos de talvez vinte sermões de Jesus. Segundo essa hipótese, o cenário de Mateus é uma ficção literária. Outro argumento muito comum é que a maior parte do material provém da igreja primitiva, não de Jesus. Segundo essa corrente, o chamado “Sermão do Monte” é simplesmente uma coletânea de material catequético da igreja, organizado por volta de 90 d.C. e atribuído a Jesus, em parte por causa da crença popular (mas equivocada) e em parte para dar mais autoridade ao material. É preciso abordar uma questão relacionada a esse assunto: o Problema Sinótico. Mateus, Marcos e Lucas em conjunto são chamados de “Evangelhos Sinóticos”. Um estudo aprofundado desses três evangelhos demonstra que eles são suficientemente próximos uns dos outros no estilo de escrita e na ordem dos acontecimentos, a ponto de permitir dizer que existe algum tipo de relação literária entre eles. Existe um consenso (acertado, na minha opinião) de que Marcos foi escrito primeiro e que Mateus e Lucas tinham pelo menos lido o Evangelho de Marcos antes de redigir seus respectivos textos. Além disso, Mateus e Lucas têm uma grande quantidade de material em comum que não se encontra em Marcos. Esse material, em geral denominado Q (de Quelle, palavra alemã que significa “fonte”), é composto principalmente de declarações de Jesus. Discute-se se havia uma fonte escrita que teria sido usada tanto por Mateus quanto por Lucas ou se havia muitas fontes diferentes. Os argumentos são complexos, e não quero repeti-los aqui. Mas vale ressaltar que o Sermão do Monte é material de Q. Falar de “fontes” e “dependência literária” não deve ser alarmante: Lucas, pelo menos, registra sua própria dependência de relatos de testemunhas oculares e de fontes literárias (Lc 1.1-4). A pesquisa acadêmica contemporânea sobre o Novo Testamento vai muito além dessa questão fundamental. Ela observa que os diferentes tipos de material literário em geral se classificam em formas literárias. A “crítica da forma”, como é chamado o estudo das formas literárias, é em primeiro lugar altamente descritiva. Infelizmente, porém, nas mãos de muitos críticos da forma, o que é meramente descritivo se torna prescritivo. Esses críticos começam dizendo que determinadas formas têm de estar presentes. Além do mais, se houver dois relatos da oração-modelo do Senhor, eles começam perguntando qual é a mais antiga, de acordo com a forma literária de cada uma. Em seguida, tentam adivinhar como deve ter sido o “original”. Depois perguntam que alterações Mateus e Lucas fizeram nesse original e, com base nisso, tentam deduzir em que a teologia de Mateus difere da teologia de Lucas, e assim por diante. Para aumentar ainda mais a imensidade de problemas correlatos, a força de qualquer pressuposto de um acadêmico precisa ser levada em conta. Não são poucos os pesquisadores modernos do Novo Testamento de que se tem notícia que negaram a possibilidade de milagres, a existência de anjos, a divindade de Cristo e muito mais. Eles percebem que o Novo Testamento afirma esses fatos, mas alegam que tais crenças são relíquias culturais de uma era pré-científica e que a verdadeira mensagem do cristianismo não depende absolutamente de tais crenças. De minha parte, continuo convencido de que esses pressupostos refletem a acomodação ao secularismo atual e não são de forma alguma exigidos pelas evidências. O testemunho da Bíblia a respeito de si mesma é que ela é a Palavra de Deus. E considero irrefutável sua evidência interna, sem falar das evidências relacionadas a ela. É importante, portanto, procurar entender esse livro em suas próprias condições e evitar o máximo possível os preconceitos do século 20 e 21, para não fazermos que a Bíblia diga apenas o que queremos ouvir. Vou me abster de falar aqui sobre como interpretar a Palavra de Deus, mas vou dizer apenas que as regras gramaticais comuns e a filologia, bem como os cânones comuns da críticahistórica, podem ser aplicados com segurança para entendermos melhor tudo o que ela afirma. Desse modo, por muitas razões, considero inaceitável o ceticismo radical de certos críticos. Entretanto, isso ainda deixa em nossas mãos o Problema Sinótico; as reflexões genuínas da crítica da forma; a relação entre Mateus 5— 7 e Lucas 6.20-49 e desses dois evangelhos com uma suposta fonte Q escrita; e mais outras questões. Embora as Escrituras (não apenas os homens que a escreveram) sejam inspiradas por Deus e embora homens santos de Deus tenham falado da parte de Deus conduzidos pelo Espírito Santo (2Tm 3.16; 2Pe 1.21), a ação divina aconteceu de tal maneira que Paulo escreveu no estilo próprio para responder às necessidades que ele via nas igrejas. Mateus escreveu segundo o que lhe pareceu necessário. E Lucas não se desobrigou do exaustivo trabalho de pesquisa (Lc 1.1-4). Eu me proponho, portanto, a esboçar algumas observações que talvez ajudem o leitor em geral a aceitar a disparidade dos dados e, ainda assim, reter — mesmo reforçar — sua confiança na Palavra de Deus. Meu foco estará no Sermão do Monte. Repito que este é um esboço breve. Qualquer análise mais profunda deve ser buscada em outra obra. Primeira: É muito provável que Jesus pregasse principalmente, se não exclusivamente, em aramaico, um dialeto do hebraico. Os documentos do Novo Testamento foram escritos em grego. Como qualquer um que já tenha feito alguma tradução pode atestar, a probabilidade de interpretações variantes em diferentes traduções do mesmo material é imensa. Se o material Q de fato se apresenta em diversas fontes escritas, quantas dessas fontes foram escritas em aramaico? Que efeito isso teria nos Evangelhos terminados de Mateus e Lucas? Isso explica pelo menos algumas variações. Segunda: Em geral o que se conservou até nós não são registros ipsis litteris de tudo o que Jesus disse em determinada ocasião, mas relatos altamente condensados. Se aceitarmos que Mateus 5—7 é um resumo do que Jesus pregou em certa colina da Galileia, é preciso assinalar que a leitura desses capítulos leva apenas uns quinze minutos — mesmo para quem lê devagar. O acontecimento retratado em Mateus 5—7 parece uma palestra completa. Sem dúvida, a reunião durou horas, com Jesus pregando o equivalente a muitas horas dos nossos sermões. Acredito, por exemplo, que as bem-aventuranças podem muito bem ter sido pontos de uma mensagem maior ou conclusões sucintas e objetivas extraídas de tópicos mais amplos. Talvez houvesse outros pontos que foram omitidos nos relatos condensados de que dispomos. Não tenho dificuldade em defender a hipótese de que os ais do relato de Lucas faziam parte dessa pregação. Se em outras partes do Sermão Lucas omite mais do que Mateus, os dois omitem muito mais do que realmente foi dito. Terceira: O Problema Sinótico é um assunto tremendamente complexo, repleto de muitas incertezas e especulações. Não é problema os escritores do primeiro século terem usado textos uns dos outros em larga escala; isso era comum na Antiguidade (cp, p. ex., Judas e 2Pedro 2). A questão é muito mais profunda. O Problema Sinótico nunca foi “resolvido” e provavelmente nunca será — as incógnitas são muitas. Isso não anula a fé de modo nenhum, mas torna as explicações sobre intertextualidade extremamente complicadas.1 Relacionada com esse problema está a questão da autoria. O Evangelho de Lucas não foi escrito por um apóstolo; e o Evangelho de Mateus? Não há nada no Evangelho em si afirmando a autoria de Mateus, por isso não podemos ter certeza. Indícios externos apoiam uma crença dos primórdios da igreja de que Mateus de fato o escreveu, e as evidências em contrário não são tão fortes quanto alguns pensam.2 Alguns estudiosos dão ao documento uma data mais tardia e o atribuem a autores desconhecidos pois isso, na opinião deles, reduziria sua credibilidade histórica. Chamo a atenção para essas questões não para oferecer respostas fáceis a tais perguntas, mas para indicar que a discussão sobre a relação entre Mateus 5—7 e Lucas 6.20-49 envolve pontos muito difíceis. Devem-se evitar soluções simplistas. Quarta: Os evangelistas tinham cada um sua própria finalidade ao escrever. Embora estejam falando sobre partes selecionadas da vida, ministério, morte e ressurreição de um homem, Jesus de Nazaré, eles revestem suas obras com vocabulários um pouco diferentes. Eles se dirigem a leitores diferentes e incluem ou excluem material de acordo com seus objetivos e interesses. Além disso, às vezes organizam suas narrativas cronologicamente e outras vezes tematicamente. Por causa disso, determinado milagre pode ser deslocado por um evangelista para uma parte diferente de sua narrativa apenas porque se encaixa melhor no tema que ele está desenvolvendo. Nós fazemos a mesma coisa hoje em dia, mas talvez não na mesma proporção. Acabei de ler a excelente biografia Cromwell: our chief of men, de Antonia Fraser.3 A partir do ponto em que Cromwell se torna Lorde Protetor, a autora organiza os capítulos seguintes do livro numa estrutura de tópicos que analisa o governo de Cromwell por vários ângulos. Cada capítulo abrange todo o período do Protetorado; os capítulos não podem ser lidos cronologicamente. Nos comentários liberais mais antigos, sempre que determinado evangelista omitia alguma coisa, era comum ler algo do tipo: “Lucas desconhecia isso”, ou “Essa declaração não se encontrava na fonte de Mateus”. Hoje, porém, há mais prudência e se reconhece que um evangelista pode ter deixado de registrar ou omitido um relato ou certos detalhes apenas porque fogem do propósito de seu texto. Os quatro evangelistas nos dão quatro “teologias” que se complementam mutuamente e nos fornecem um testemunho multiforme da pessoa e da obra do Senhor Jesus Cristo. Devemos ser gratos pelo fato de o Espírito de Deus ter supervisionado o trabalho deles de maneira que pudéssemos receber uma série de retratos de riqueza inesgotável. Infelizmente, não poucos acadêmicos que estudam o Novo Testamento, ainda em recente contato com a teologia de cada Evangelista, põem a teologia em conflito com a história. Cada pequena diferença é motivo para mirabolantes hipóteses teológicas especulativas, enquanto a mais simples harmonização pode ser o melhor caminho a seguir. Se Jesus sobe a encosta de um monte e se senta, no texto de Mateus, e desce para um lugar plano e fica em pé, no relato de Lucas (Mt 5.1; Lc 6.17), será que precisamos ver nisso todo tipo de simbolismo profundo? Talvez ele tenha começado fazendo o que Mateus descreve, mas depois, comovido pelas necessidades das multidões que não o deixavam (Lc 6.18,19), fez o que Lucas descreveu e continuou seu ensino. Meia dúzia de outras possibilidades me vêm à mente. Em todo caso, é certo que tanto Mateus quanto Lucas dão a impressão de que o conteúdo do ensino de Jesus que apresentam é uma boa sinopse de partes desse ensino ministrado naquela ocasião em particular. É desnecessário e, do ponto de vista metodológico, impróprio supor que Mateus 5—7 seja um amálgama de afirmações isoladas vagamente recordadas pela igreja e fundidas por Mateus e Lucas para formar uma espécie de amostra de sermão que Jesus nunca pregou. Os evangelistas não dizem que é uma amostra do ensino de Jesus, apesar de às vezes apresentarem as parábolas de Jesus com uma imprecisão condizente com a ideia. Não; eles apresentam a especificidade histórica do Sermão do Monte. Isso é característico do papel de historiadores e teólogos dos evangelistas, sob a inspiração de Deus. Quinta: Além de tudo o mais, Jesus de Nazaré era umpregador itinerante. Isso não significa negar que ele era mais que isso; é apenas uma maneira de sublinhar seu modus operandi. Isso quer dizer que ele pregava os mesmos tipos de mensagem repetidamente, de vila em vila, de cidade em cidade. Sem dúvida os mesmos temas se repetiam, e mesmo muitas das frases impactantes. Durante alguns anos, estive envolvido num ministério itinerante de tempo parcial. Falo por experiência própria que os mesmos sermões são aprimorados e adaptados, repetidos e aplicados de maneiras diversas, à medida que o pregador vai de um local para outro. Parágrafos inteiros saem praticamente iguais ao que foi pregado na última cidade. As alterações podem ser acidentais ou propositais. Acredito que essa seja uma das características mais negligenciadas do ministério de Jesus conforme registrado nos Evangelhos. (Talvez porque muito poucos estudiosos do Novo Testamento fizeram pregação itinerante!) Se parte da mensagem de Jesus no relato de Mateus do Sermão do Monte se encontra em Lucas em outro contexto, isso pode significar simplesmente que Jesus pregou a mesma coisa mais de uma vez. Em alguns casos, até a descoberta de um par ordenado de ideias associadas em contextos diferentes nos dois Evangelhos indica tão somente que o próprio Jesus emparelhava as duas ideias desse jeito. Observe a oração-modelo do Senhor. Lucas associa claramente a versão dessa oração com o pedido dos discípulos de orientação para orarem (Lc 11.1-4). A versão de Mateus situa a oração no meio do Sermão do Monte (Mt 6.9-13). Como podemos explicar essa diferença? De acordo com o que vimos até agora, temos algumas possibilidades: (1) Mateus baseou-se em Lucas (ou, menos provavelmente, o contrário) ou ambos se basearam em uma fonte comum. Isso significa que o cenário de pelo menos um desses dois evangelhos é artificial. Essa ideia é bem divulgada. No entanto, muito longe de criar hipóteses acerca da natureza das Escrituras, tenho de perguntar se essa é a solução mais provável, a solução mais sensível às realidades históricas do ministério itinerante de Jesus. Eu defenderia veementemente o contrário, sobretudo se, como acredito, esses dois livros foram escritos quando ainda havia testemunhas oculares suficientes para esclarecer os fatos. (2) O cenário de Lucas é historicamente preciso. Mateus registra um resumo de um sermão pregado por Jesus no cenário que ele descreve no capítulo 5, mas acrescenta algum conteúdo extra, incluindo a oração-modelo do Senhor, que Jesus na verdade não ensinou naquela ocasião, mas que se adequava bem ao contexto. Em outras palavras, Mateus acrescenta pelo menos um pequeno conteúdo ao seu resumo. Esse material é autêntico no sentido de que ele é de fato ensino de Jesus, mas não é inautêntico no sentido de que não pertencia originalmente ao mesmo contexto histórico. Mateus o introduziu aí por razões temáticas características de seus métodos. E, afinal de contas, meu esboço de Mateus 5—7 não dá a entender que 6.9-15 é de certa forma um excurso? (3) Outra possibilidade é que Jesus ensinou sua oração-modelo nesse sermão inicial, mas depois precisou ensinar de novo esse modelo de oração. Afinal, o trecho de Mateus 5—7 tem muito a dizer sobre humildade, mas os discípulos de Jesus não aprenderam muito dessa lição na primeira vez. Ele teve de voltar ao tema mais de uma vez. Não tenho dificuldade em crer que os discípulos fossem igualmente lentos para aprender a orar e, quando pediram ajuda a Jesus em Lucas 11, ele pode muito bem ter ensinado a mesma forma básica que havia esboçado anteriormente em Mateus 6. O que podemos dizer, então, sobre as diferenças internas entre a oração- modelo do Senhor registrada em Mateus e a registrada em Lucas? É curioso observar que os críticos acadêmicos que se apoiam fortemente na crítica da forma estão divididos quanto a que forma veio primeiro. Por isso, os critérios deles não são assim tão objetivos quanto eles às vezes querem nos fazer crer. Além do mais, se a possibilidade (2) está correta, então a forma de Lucas veio primeiro; e essa hipótese não pode simplesmente ser descartada. Mas, se a possibilidade (3) está correta, a questão é irrelevante: não há razão para que ambas não sejam autênticas. Em relação a isso, vale a pena observar que a função com que cada pronunciamento de Jesus é inserido ajuda a definir seu contexto. Às vezes, parece que os evangelistas estão apresentando declarações avulsas para ilustrar um assunto, mas, quando especificam o momento e o lugar em que Jesus disse isso ou aquilo, entendo que eles esperam que o leitor creia que o testemunho deles reflete com precisão o que ele disse, ou parte do que ele disse, naquela ocasião. Eles estão nos dizendo que a função imediata de determinada declaração, ou pelo menos parte de sua função, foi preservada em seu contexto histórico. Argumentos que ignoram essa observação estão adulterando as evidências objetivas a favor de teorias especulativas. Sexta: Nos Evangelhos, há muito mais evidências internas que apoiam sua confiabilidade histórica geral do que em geral se reconhece. Lamento profundamente que alguns livros que demonstram isso não tenham recebido a ampla divulgação que merecem. Mesmo onde há ligeira diferença e não se verifica dependência literária direta entre duas narrativas dos Evangelhos, temos testemunho de reforço, não de contradição; pois a ausência de conluio nesses casos significa que há múltiplos testemunhos. Outro fator merece ser levado em conta. Lecionando para africanos e asiáticos num ambiente ocidental, observei que eles têm um desempenho excelente sempre que o aprendizado envolve memorização. Mas não são tão fortes quando se trata de entender e formular conceitos abstratos. É claro que estou generalizando, mas conversei sobre isso com pós-graduandos de nosso seminário vindos de países asiáticos e africanos e eles reconheceram a diferença fundamental na abordagem pedagógica. Essa diferença não é genética. Filhos e netos de asiáticos imigrantes ao que parece não desfrutam de nenhuma capacidade especial de memorização nem têm nenhuma dificuldade na área conceitual. (Vale a pena uma investigação mais a fundo desses fenômenos.) Na Palestina do século primeiro, a educação era fortemente baseada na memorização. Alguns até tentaram defender a teoria de que Jesus treinava seus discípulos para memorizar todos os seus ensinamentos da mesma maneira que os rabinos judeus memorizavam toda a Bíblia hebraica (o Antigo Testamento), além de um grande volume de tradição. Embora essa teoria vá longe demais, não há dúvida de que os discípulos de Jesus eram de fato capazes de memorizar grandes conteúdos rapidamente, mesmo quando não entendiam tudo de imediato. Acredito que essa observação ajude a apoiar a credibilidade histórica das testemunhas oculares em quem Lucas, por exemplo, se baseou. Além disso, a estabilidade das formas orais características de parte do material dos evangelhos antes que ele fosse passado para a escrita é mais bem entendida tendo em vista essa capacidade de memorização do que em relação às “formas” estilizadas que levariam muito mais décadas para se desenvolver do que as evidências permitem considerar. Última: As posições adotadas pela maioria dos estudiosos, não importa de que tendência, são o resultado de um firme entrelaçado de vários fragmentos de provas sólidas, deduções, especulações e pressupostos. Até a hipótese mais delirante pode começar a parecer crível se for possível ligá-la coerentemente a uma estrutura maior. Por causa dessas cadeias interconectadas, derrubar a teoria de alguém é umcompromisso com o Senhor quando sua pessoa e seus privilégios estavam ameaçados. Mas Jesus é o único que pode dizer com total propriedade: “Venham a mim, todos vocês que estão cansados e sobrecarregados, e eu lhes darei descanso. Tomem o meu jugo sobre vocês e aprendam de mim, pois sou manso e humilde de coração; e vocês acharão descanso para sua alma (Mt 11.28, 29). O dr. Martyn Lloyd-Jones explica: O homem verdadeiramente manso é aquele que se admira de que Deus e os homens possam ter uma opinião tão boa a seu respeito e tratá-lo tão bem quanto tratam [...] Finalmente, eu diria assim: temos de deixar tudo — nós mesmos, nossos direitos, nossa causa, todo o nosso futuro — nas mãos de Deus, principalmente se achamos que estamos sofrendo injustamente.1 As Escrituras enfatizam e dão muita importância à mansidão (veja 2Co 10.1; Gl 5.22,23; Cl 3.12; 1Pe 3.15,16; Tg 1.19-21), e isso só torna ainda mais espantoso que a mansidão não seja uma característica tão comum entre nós, que afirmamos ser cristãos. Tanto no nível pessoal, em que geralmente estamos mais preocupados em nos justificar do que em edificar nosso irmão, quanto no nível coletivo, em que nos saímos melhor na organização de manifestações públicas, instituições e grupos de pressão do que em propagar o reino de Deus, já faz muito tempo que a mansidão não é a marca da maioria dos cristãos. À medida que a mansidão é praticada entre nós — na mesma proporção, podemos ter certeza —, um mundo ostensivamente materialista se oporá a ela. O materialista diz: “Agarre o que puder; o forte chega primeiro, o resto é cada um por si”. Isso se aplica tanto a indivíduos que estejam à direita quanto aos que estejam à esquerda do espectro político. Individualmente, o ser humano costuma presumir, sem raciocinar, que está no centro do universo. Por isso, cada um de nós se relaciona mal com os outros sete bilhões e meio de seres humanos que têm essa mesma ilusão. Contudo, o homem manso enxerga a si mesmo e aos outros debaixo do domínio de Deus. Como é pobre em espírito, ele não tem opinião mais elevada de si mesmo do que deveria. Por isso, é capaz de se relacionar bem com os outros. E os mansos herdarão a terra! Essa afirmação, citada de Salmos 37.11, contraria drasticamente o materialismo filosófico tão predominante em nossa época. Mas essa bênção de herança é verdadeira em pelo menos dois aspectos. Em primeiro lugar, só alguém genuinamente manso se sente satisfeito; seu ego não é inflado a ponto de achar que tem de ter sempre mais. Além disso, ele já se vê “possuindo tudo” em Cristo (2Co 6.10; cf. 1Co 3.21-23). Tendo em vista essa perspectiva eterna, ele pode se permitir ser manso. Além do mais, um dia ele entrará na plenitude de sua herança, quando verá a bem- aventurança cumprida de fato. Cinquenta bilhões de trilhões de anos eternidade adentro (se é que eu posso falar de eternidade da perspectiva do tempo), o povo de Deus estará ainda se regozijando por essa bem- aventurança ser absolutamente verdadeira. Em um novo céu e uma nova terra, essas pessoas serão gratas porque pela graça aprenderam a ser mansas durante seus primeiros setenta anos.2 Quarta: “Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos” (5.6) A justiça perfeita muitas vezes é parodiada em alguma forma obsoleta de recato vitoriano ou de espírito tacanho e legalismo veemente. A busca da justiça não é admirada nem entre os que se professam cristãos. Muitos hoje em dia estão preparados para buscar outras coisas: maturidade espiritual, felicidade verdadeira, o poder do Espírito, capacitação para testemunhar. Outros vão de pregador em pregador, de conferência em conferência, procurando alguma vaga “bênção” do alto. Eles têm fome de experiência espiritual; têm sede da percepção de Deus. Mas quantos têm fome e sede de justiça? Não estou dizendo com isso que essas outras coisas não sejam desejáveis, mas, sim, que elas não são tão fundamentais quanto a justiça. Não é sem razão que essa é a quarta bem-aventurança. O indivíduo marcado pela pobreza em espírito (5.3), que chora pelo pecado pessoal e social (5.4) e se aproxima de Deus e dos outros com mansidão (5.5) também deve ser caracterizado pela fome e sede de justiça (5.6). Não que ele queira ser um pouquinho melhor, muito menos que considere a justiça um luxo opcional a ser acrescentado a suas outras graças; ao contrário, ele tem fome e sede de justiça. Ele não pode sobreviver sem justiça; ela é tão essencial para ele quanto comer e beber. A maioria das pessoas que lê essas linhas praticamente nunca sentiu fome nem sede. Eu mesmo não sou velho o bastante para ter passado pelas provações que muitos enfrentaram durante a Grande Depressão ou a última guerra mundial. Contudo, duas ou três vezes na década de 1960, quando eu era estudante, primeiro na universidade e depois no seminário, fiquei, ao mesmo tempo, sem dinheiro e sem comida. Orgulhoso demais para pedir ajuda e esperando para ver se Deus ia suprir o que eu precisava, bebia água para meu estômago parar de roncar e continuava levando a vida como de costume. Depois de dois ou três dias, comecei a entender o que é sentir fome. As normas do reino exigem que homens e mulheres tenham fome e sede de justiça. Isso é tão fundamental para a vida cristã que o dr. D. Martyn Lloyd-Jones diz: Quando se trata de profissão de fé cristã, não conheço teste melhor para uma pessoa aplicar a si mesma do que um versículo como esse. Se, para você, esse versículo é uma das declarações mais abençoadas de toda a Escritura, pode ter certeza de que você é um cristão. Mas, se não for, é melhor examinar mais uma vez os fundamentos.3 O que é essa justiça que devemos buscar? Nas epístolas de Paulo, “justiça” pode se referir à justiça de Cristo, que Deus credita na conta do crente, do mesmo modo que credita o pecado do crente na conta de Jesus Cristo. Se fosse essa a justiça mencionada aqui, Jesus estaria convidando os não crentes a buscarem a justiça que Deus concede em virtude da morte substitutiva de Cristo. Alguns teorizaram que no Evangelho de Mateus “justiça” se refere à defesa dos oprimidos e afligidos. Ultimamente, porém, os que estudam o emprego da palavra em Mateus reconhecem cada vez mais que “justiça” aqui (e nos versículos 10 e 20) significa um padrão de vida em conformidade com a vontade de Deus. Justiça, portanto, inclui em seu campo semântico todos os significados derivados ou especializados, mas não pode se limitar a nenhum deles. Desse modo, quem tem fome e sede de justiça tem fome e sede de viver conforme a vontade de Deus. É alguém que não está à deriva num mar de religiosidade vazia, muito menos à toa na vida distraído com banalidades. Em vez disso, todo o seu ser ecoa a oração de um santo escocês que clamava: “Ó, Deus, faz-me tão justo quanto um pecador perdoado pode ser!”. O seu prazer é a Palavra de Deus, pois onde mais se encontra claramente expressa a vontade de Deus à qual esse indivíduo tem fome de se conformar? Ele quer ser justo não apenas porque teme a Deus, mas porque a justiça é seu mais elevado desejo neste mundo. E qual é o resultado? Os que têm fome e sede de justiça serão fartos. O contexto exige que entendamos que a bênção significa: “serão fartos com justiça”. O Senhor concede a essa pessoa faminta o desejo do coração dela. Isso não quer dizer que agora a pessoa está tão satisfeita com a justiça recebida que sua fome e sede de justiça estão saciadas para sempre. Em outra passagem, Jesus fala desse assunto: “Quem beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede [...] Eu sou o pãoJesus é concebida não só para o período até seu segundo advento, mas também para toda a eternidade; pois, embora o céu e a terra passem, as palavras de Jesus jamais passarão. Uma segunda interpretação do Sermão do Monte é a existencial. De acordo com essa perspectiva, o sermão não deve ser tomado como uma exposição de princípios éticos concretos revestida de autoridade, mas, sim, como um desafio à decisão pessoal. Ele orienta a vida em direção a uma perspectiva “escatológica”. Porém, com “escatológico”, os existencialistas teológicos não querem dizer que a era vindoura deva ser levada a sério ou que ela já se justapõe à era presente. De fato, essas categorias temporais de escatologia são sumariamente rejeitadas por serem consideradas construtos míticos. A escatologia é reinterpretada; a tensão bíblica entre a vida presente e o juízo final é substituída por uma tensão entre vida e conduta como são agora e vida e conduta como deveriam ser. Mas o que “deveria ser” não é formulado relativamente às proposições do Sermão do Monte, mas em relação a uma atitude de abertura para o futuro, que traz consigo constante autoexame e arrependimento. Confesso que tenho muita dificuldade de ser complacente com essa interpretação. Se o existencialismo teológico quer construir seus próprios modelos éticos, tudo bem; mas não deve tentar impingi-los ao Novo Testamento. Segundo essa concepção, a revelação proposicional é em princípio impossível — assim como a intervenção sobrenatural de um Deus pessoal/infinito. Por conseguinte, os dados bíblicos são filtrados através de uma peneira concebida para separar e remover todo esse material (“demitizar o texto”). A estrutura resultante se encaixa perfeitamente nas categorias existenciais, mas muito mal nos textos bíblicos. Uma terceira abordagem insiste em que o Sermão do Monte é destinado a toda a presente era e deve ser rigorosamente obedecido. Geralmente, os defensores dessa posição se dividem em dois grupos. O primeiro diz que o Sermão do Monte é lei e não evangelho, e como tal não é compatível com a teologia paulina. Jesus e Paulo, segundo essa concepção, não andam juntos. De fato, Paulo é culpado de distorcer a doutrina de Jesus. O outro grupo é muitas vezes associado com a tradição anabatista. Ele considera que o Sermão do Monte é uma reflexão precisa da vontade divina e deve ser obedecido tanto individual quanto coletivamente. Esse grupo sustenta que a salvação é pela graça, por meio da fé, mas que a necessária manifestação dessa salvação é uma vida em conformidade com os preceitos do Sermão do Monte. Em geral, o pacifismo faz parte dessa vertente. Portanto, se Deus deu a espada ao Estado (Rm 13.1ss.), segue-se que os cristãos não só devem se abster de qualquer participação nas forças militares e policiais, mas também devem evitar todas as posições políticas que requeiram decisões associadas de algum modo a essas forças. Essas duas perspectivas levam o Sermão do Monte a sério. Contudo, discordo da primeira porque ela não dá a devida importância à história da salvação. Alegar antagonismo entre a doutrina de Jesus e a de Paulo é ser insensível ao progresso da revelação produzido pela obra de Cristo na cruz, sua ressurreição e ascensão. Esse ponto de vista ignora os aspectos escatológicos da própria pregação de Jesus e a forte ênfase que o próprio Sermão do Monte dá à pobreza de espírito e à importância de pedir e buscar. Ignora também que o Sermão do Monte reconhece a necessidade da graça. A segunda perspectiva, a tradição anabatista/menonita, considero muito atraente. Contudo, minha própria exposição do Sermão do Monte mostrou onde eu me afasto dela. Penso que essa interpretação não é sensível à forma antitética que Jesus normalmente prega e por isso acaba lendo mais no texto do que Jesus ou Mateus defenderia. O Sermão em si não é um comentário definitivo sobre assuntos como guerra e pena capital — existem outras considerações bíblicas. Além do mais, fazer da proibição dessas coisas parte essencial da lei moral parece dizer que houve um progresso moral em Deus ou nos seus mandamentos. Isso é de fundamental importância, pois dá a entender que as ordens anteriores de Deus na verdade estavam em contradição com sua verdadeira vontade. Se a moralidade não está diretamente relacionada com o que Deus realmente aprova, mas apenas com o que ele ordena, uma tensão terrível se estabelece nele. Além disso, o modo pelo qual o Novo Testamento trata a igreja não exige que os cristãos se mantenham tão longe, digamos, da política quanto essa perspectiva parece sugerir. Uma quarta proposta para o significado do Sermão do Monte é a defendida pela ortodoxia luterana. Ela afirma que o Sermão é um ideal inatingível, cujo propósito é conscientizar as pessoas de seus pecados e fazê- las buscar perdão em Cristo. O Sermão, portanto, é basicamente uma preparação para o evangelho. Essa posição faz justiça a algumas relações entre Jesus e Paulo, porém ela se parece mais com uma conclusão de teologia sistemática aplicada cedo demais do que com exegese do texto. Uma quinta abordagem é a do liberalismo clássico, popular no início do século 20. A ortodoxia, que enfatizava a necessidade de redenção do homem, a morte expiatória de Cristo e o novo nascimento sobrenatural foi substituída pelo liberalismo otimista, que considerava o Sermão do Monte o verdadeiro evangelho, o evangelho em versão condensada. O Sermão passou a ser visto como o conjunto dos princípios gerais para a construção de uma civilização progressista. Mas esse sonho do liberalismo clássico foi estilhaçado por duas guerras mundiais. O liberalismo esqueceu que a natureza humana precisa de perdão e ajuda. Nutrido por uma fé otimista na inevitabilidade do progresso evolutivo, o liberalismo de fato substituiu o evangelho verdadeiro por uma filosofia de progresso secular. Sem consciência da subjetividade de suas escolhas, essa corrente selecionou as partes da revelação bíblica que mais se encaixavam em seu espírito e teoria e descartou o resto. O resultado deixou o ser humano sem Salvador, sem Redentor, sem graça divina, sem o poder do Espírito, mas apenas com um lindo padrão moral, que o homem acabou descobrindo que não era capaz de reproduzir contando apenas com seu próprio esforço. Uma interpretação mais recente vê o Sermão do Monte como um material catequético preparado pela igreja, parte do qual remonta ao Jesus histórico. Por ser um material catequético, o Sermão, segundo essa tese, era sempre precedido da proclamação do evangelho e da conversão pessoal. O evangelho precede as exigências éticas do Sermão do Monte. Portanto, o chamado de Jesus ao discipulado é dirigido apenas àqueles sobre quem o poder de Satanás já foi destruído pelo evangelho e que já é herdeiro do reino de Deus. O principal problema dessa interpretação é que ela não trata o Evangelho de Mateus como um documento histórico (e teológico) sério. Se Jesus nunca pregou um Sermão do Monte ou nem mesmo forneceu o material essencial contido em Mateus 5—7, então é legítima a hipótese de que a ênfase paulina na graça, salvação, conversão e transformação precede o conteúdo “catequético” do Sermão do Monte. Mas, se ele pregou esse Sermão, então, mesmo que seu material tenha sido moldado de alguma maneira pela preocupação da igreja com a catequese dos novos convertidos, não existe justificativa para minimizar a importância teológica da pregação de Jesus em seu primeiro contexto histórico com base nessa catequese. A esta altura, já deveda vida. Quem vem a mim jamais terá fome, e quem crê em mim jamais terá sede” (Jo 4.14; 6.35). Portanto, há um sentido em que estamos satisfeitos com Jesus e com tudo o que ele é e provê. No entanto, em outro sentido ainda continuamos insatisfeitos. Um exemplo de Paulo permite entender esse paradoxo. Paulo pode testemunhar: “Eu sei em quem tenho crido e estou certo de que ele é poderoso para guardar o que confiei a ele até aquele dia” (2Tm 1.12); mas o apóstolo também pode dizer: “Eu quero conhecer Cristo e o poder da sua ressurreição, tomar parte nos seus sofrimentos, tornando-me como ele na sua morte...” (Fp 3.10). Em outras palavras, Paulo chegou ao conhecimento de Cristo, mas, ainda assim, quer conhecê-lo melhor. Semelhantemente, aquele que tem fome e sede de justiça é abençoado e saciado por Deus, mas a justiça com que é saciado é tão maravilhosa que ele tem fome e sede de receber mais. Esse ciclo natural de crescimento é fácil de entender tão logo nos lembramos de que nesse texto justiça não se refere a obedecer a certas regras, mas à conformidade com toda a vontade de Deus. Quanto mais se busca conformidade com a vontade de Deus, mais atraente essa meta se torna para nós e maiores são os avanços em sua direção. Quinta: “Bem-aventurados os misericordiosos, pois a eles se mostrará misericórdia” (5.7) Alguns tentam interpretar esse versículo de forma legalista, como se ele dissesse que a única maneira de obter misericórdia de Deus fosse demonstrando misericórdia para com os outros. Desse modo, a misericórdia de Deus passa essencialmente a ser dependente da nossa. Esses intérpretes buscam apoio em Mateus 6.14,15 (que abordaremos no terceiro capítulo): “Porque, se vocês perdoarem aos homens as ofensas contra vocês, o Pai celestial também perdoará vocês. Se, porém, vocês não perdoarem aos homens as ofensas deles, tampouco o seu Pai lhes perdoará os pecados”. Mas sempre que esses versículos são interpretados dessa forma, penso que há uma compreensão equivocada tanto do contexto quanto da natureza da misericórdia. O que é misericórdia? Qual é a diferença entre misericórdia e graça? Os dois termos são frequentemente sinônimos, mas, quando existe uma distinção entre os dois, parece que graça é uma resposta amorosa quando não se merece amor, enquanto misericórdia é uma resposta amorosa induzida pela situação de infelicidade e completo desamparo daquele por quem se deve demonstrar amor. A graça responde ao que não tem merecimento; a misericórdia, ao angustiado e abatido. Nessa bem-aventurança, Jesus diz que nós temos de ser misericordiosos. Temos de ser compassivos e bondosos, sobretudo para com os aflitos e desamparados. Se não formos misericordiosos, não veremos a misericórdia. Mas como pode alguém que não é misericordioso receber misericórdia? Quem não é misericordioso inevitavelmente é tão ignorante de seu próprio estado que acha que não precisa de misericórdia. Essa pessoa não consegue se ver como pobre e desgraçada. Portanto, como Deus pode ser misericordioso com essa pessoa? Ela é como aquele fariseu no templo, que não teve misericórdia do publicano encolhido num canto (Lc 18.10ss.). Em contrapartida, o homem cuja vida reflete essas bem-aventuranças tem plena consciência de sua miséria espiritual (Mt 5.3), chora por causa disso (5.4) e tem sede de justiça (5.6). Ele é misericordioso para com os aflitos porque reconhece que é um deles; demonstrando misericórdia, ele também alcançará misericórdia. O cristão, além disso, está numa posição intermediária. Ele deve perdoar os outros porque antes Cristo já o perdoou (cf. Ef 4.32; Cl 3.13). Ao mesmo tempo, reconhece sua constante necessidade de mais perdão e se torna também perdoador por causa dessa perspectiva (cf. Mt 6.14, e especialmente 18.21-35). O cristão perdoa porque foi perdoado; ele perdoa porque precisa de perdão. Precisamente da mesma maneira e pela mesma razão o discípulo de Jesus é misericordioso. Dizem que um alcoólatra que não admite que é alcoólatra odeia todos os outros alcoólatras. Do mesmo modo, quase sempre também é verdade que o pecador que não reconhece seu pecado odeia todos os outros pecadores. Mas a pessoa que reconheceu o próprio desamparo e indigência é grata por toda misericórdia que a alcança e aprende a ser misericordiosa com os outros. Esse macarismo (ou bem-aventurança) força todo aquele que se declara discípulo de Jesus Cristo a fazer a si mesmo algumas perguntas difíceis. Eu sou misericordioso ou arrogante com os menos afortunados? Sou bondoso ou grosseiro quando lido com os marginalizados? Sou solícito ou insensível com os desvalidos? Sou compassivo ou impaciente com os oprimidos? Tenho plena convicção de que, se o Espírito de Deus trouxer outro período de avivamento ao mundo ocidental, um dos primeiros sinais será o reconhecimento da falência espiritual que encontra satisfação em Deus e sua justiça e que resulta em plena misericórdia para com os outros. Sexta: “Bem-aventurados os puros de coração, pois verão a Deus” (5.8) Nessa bem-aventurança, nosso Senhor confere bênção especial não aos de intelecto mais aguçado nem aos emocionalmente piedosos, mas aos puros de coração. Na linguagem figurada bíblica, o coração é o centro da personalidade. A avaliação que Jesus faz do coração natural, no entanto, não é muito animadora. Em outra passagem do Evangelho de Mateus, ele diz: “Porque do coração saem os maus pensamentos, homicídios, adultérios, imoralidade sexual, furtos, falsos testemunhos e calúnias” (15.19; cf. Jr 17.9; Rm 1.21; 2.5). Apesar desse diagnóstico horrível, a sexta bem-aventurança insiste em que a pureza de coração é o pré-requisito indispensável para a comunhão com Deus, para “ver” a Deus. “Quem subirá ao monte do Senhor? Quem permanecerá no seu santo lugar? Aquele que tem as mãos limpas e o coração puro, que não entrega a alma à vaidade, nem jura enganosamente” (Sl 24.3,4; cf. Sl 73.1). Deus é santo. Por isso, o autor da epístola aos Hebreus insiste: “Esforcem-se [...] para serem santos. Sem santidade ninguém verá o Senhor” (Hb 12.14). Não se deve confundir pureza de coração com observância de regras manifesta exteriormente. Como o coração é que precisa ser puro, essa bem- aventurança nos faz perguntas desconcertantes, tais como: Em que você pensa quando sua mente fica em ponto morto? Quando fica sabendo de um caso em que uma pessoa passou a perna em outra, em que medida isso lhe causa satisfação, independentemente do grau de astúcia e engenhosidade do engodo? Você gosta de humor negro, ainda que seja muito engraçado? A que você se dedica com fidelidade? O que você deseja mais do que qualquer outra coisa? Que coisas e que pessoas você ama? Até que ponto suas ações e palavras são o reflexo preciso do que há em seu coração? Até que ponto suas ações e palavras são uma fachada para esconder o que há em seu coração? Nosso coração tem de ser puro, limpo e sem mancha. Naquele dia, quando o reino do céu se consumar, quando houver novo céu e nova terra onde habita somente a justiça, quando Jesus Cristo se manifestar, nós seremos como ele (1Jo 3.2). Essa é a nossa expectativa de longo prazo, nossa esperança. Com base nisso, João afirma: “Todo aquele que tem esperança nele [isto é, em Cristo] se purifica, assim como ele é puro” (1Jo 3.3). Em outras palavras, segundo João, o cristão se purifica agora porque puro é o que ele há de ser no final. Seu empenho presente condiz com sua esperança futura. O mesmo tema se repete de várias formas em todo o Novo Testamento. Em certo sentido, é claro, as exigências do reino não mudam: perfeição é requisito permanente (5.48). Mas disso se conclui queo discípulo de Jesus que anseia pela consumação do reino em sua perfeição já está determinado a se preparar para ele agora. Sabendo que já está no reino, ele se preocupa com a pureza porque reconhece que o Rei é puro, e o reino em sua forma perfeita só admitirá pureza. Os puros de coração são abençoados porque verão a Deus. Embora isso só se concretizará completamente quando surgirem o novo céu e a nova terra, já é verdade mesmo agora. Nossa percepção de Deus e de seu agir, assim como nossa comunhão com ele, depende de nossa pureza de coração. A visio Dei — que incentivo à pureza! Sétima: “Bem-aventurados os pacificadores, pois serão chamados filhos de Deus” (5.9) Essa bem-aventurança não traz bênção para os pacíficos nem para os que anseiam pela paz, mas para os pacificadores, os que estabelecem a paz. Dentro de toda a estrutura da Bíblia, o maior pacificador é Jesus Cristo — o Príncipe da Paz. Ele estabelece a paz entre Deus e o homem removendo o pecado, que é o motivo do afastamento. Ele traz a paz entre o homem e seu semelhante removendo o pecado e conduzindo as pessoas a uma relação direta com Deus (veja especialmente Ef 2.11-22). Jesus deu ao tradicional cumprimento judaico um significado mais profundo quando, após sua morte e ressurreição, saudou seus discípulos com estas palavras: “Paz seja com vocês” (Lc 24.36; Jo 20.19). Assim, as boas-novas de Jesus Cristo são a maior mensagem de paz, e o cristão que dá testemunho e fala de sua fé é, basicamente, um arauto da paz, um pacificador. Não admira que Paulo use a linguagem figurada de Isaías, que retrata mensageiros correndo pelas trilhas da região montanhosa da Judeia: “Como são belos sobre os montes os pés dos que anunciam boas-novas, que proclamam a paz, que anunciam coisas boas, que proclamam a salvação, que dizem a Sião: O seu Deus reina!” (Is 52.7; Rm 10.15). Contudo, não há nada no contexto que nos permita defender a ideia de que em Mateus 5.9 Jesus está se restringindo à pacificação do evangelho. Em vez disso, o discípulo de Jesus Cristo deve ser um pacificador no sentido mais amplo do termo. O papel de pacificador do cristão implica não só propagar o evangelho, mas também acalmar tensões, buscar soluções, garantir que a comunicação seja eficiente. Talvez essa missão seja mais difícil nas situações em que há envolvimento pessoal. Nesse caso, é preciso lembrar que “a ira humana não produz a justiça que Deus deseja” (Tg 1.20) e que “a resposta branda desvia o furor” (Pv 15.1). O cristão não deve confundir problemas, mesmo os importantes, com sua autoimagem; e, para não ser culpado de gerar mais calor do que luz, ele deve aprender a baixar seu tom de voz quanto maior for a intensidade da discussão, e ser mais bem humorado. Os pacificadores são bem-aventurados porque serão chamados “filhos de Deus” — no gênero masculino, e não “descendentes”, ou qualquer outra linguagem neutra que signifique filhos ou filhas, como na KJV. A diferença nas palavras é sutil, mas importante. No pensamento judaico, “filho ” (genero masculino) em geral tem o significado de “portador do caráter de”, ou algo assim. Se alguém chama você de “filho de um cão”, não está insultando seus pais, mas você: é você que tem o caráter semelhante ao de um cão. Por isso, “filhos de Deus” pode ter uma conotação diferente de “descendentes [filhos e filhas] de Deus”. As duas expressões podem se referir ao mesmo tipo de relação filial, mas a primeira enfatiza mais o caráter do que a relação. A recompensa do pacificador, portanto, é que ele será chamado de filho de Deus. Ele reflete o maravilhoso caráter pacificador de seu Pai celestial. Em nossos dias ainda existe um sentido em que os cristãos intuitivamente reconhecem esse aspecto divino no caráter do pacificador. Por exemplo, quando, em alguma convenção ou reunião da igreja, os cristãos se envolvem em um debate acalorado, o irmão que permanece calmo, escuta cada ponto de vista com respeito, equidade e educação, acalmando os ânimos à flor da pele, é considerado espiritual pelos outros irmãos, ainda que ninguém manifeste isso verbalmente. Mas essa conduta deveria ser considerada normal entre discípulos de Jesus Cristo, pois o próprio Jesus instituiu essa norma. Ela é aspecto essencial do ser filho de Deus. Oitava: “Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, pois deles é o reino do céu” (5.10) Essa última bem-aventurança não diz: “Bem-aventurados os perseguidos porque são repreensíveis, ou porque falam de maneira inflamada, como fanáticos perturbados, ou porque defendem alguma causa político-religiosa”. A bênção se restringe aos que sofrem perseguição por causa da justiça (cf. 1Pe 3.13,14; 4.12-16). Os crentes descritos nessa passagem são os que estão determinados a viver como Jesus viveu. A perseguição pode assumir muitas formas. Não precisa limitar-se às variadas experiências rigorosas que nossos irmãos cristãos sofrem em alguns países repressores. Um cristão do mundo ocidental que pratique a justiça talvez seja ridicularizado pela família, marginalizado pelos parentes. Mas até o cristão criado em um lar seguro e compreensivo terá de enfrentar oposição e críticas em algum lugar. Talvez no trabalho ele descubra o que alguns colegas estão dizendo a seu respeito: “Bom, ele é crente, né, mas leva isso muito a sério. Ele nem sequer trapaceia na declaração do imposto de renda para sonegar. Outro dia, quando sugeri que ele levasse para casa uma das pastas do escritório, porque sabia que ele estava precisando de uma para guardar seus documentos pessoais, ele disse que não. Quando insisti, ele disse que isso seria furto! E vocês já viram a cara fechada que ele faz quando eu conto uma das minhas piadas? Que puritano!”. A recompensa por ser perseguido por causa da justiça é o reino do céu. Em outras palavras, essa bem-aventurança serve de teste para todas as outras. Assim como uma pessoa deve ser pobre em espírito para entrar no reino (5.3), ela também será perseguida por causa da justiça para entrar no reino. Essa última bem-aventurança vem a ser uma das mais perscrutadoras de todas e liga todo o resto; pois, se o discípulo de Jesus nunca enfrenta nenhum tipo de perseguição, pode-se muito bem perguntar onde se mostra a justiça em sua vida. Se não há justiça, não há conformidade com a vontade de Deus, como ele pode entrar no reino? Esse princípio fundamental reaparece repetidamente no Novo Testamento. O cristão vive em um mundo caído. Por isso, se ele demonstrar justiça transparente e genuína, será rejeitado por muitos. A justiça genuína condena as pessoas implicitamente, e não é de admirar que elas quase sempre reajam atacando, em represália. Desse modo, pelo viver justo e reto, os discípulos de Cristo dividem as pessoas em dois grupos: as que são afastadas do nosso precioso Salvador e as que são atraídas para ele. O próprio Jesus ensinou: Se o mundo os odeia, tenham em mente que me odiou primeiro. Se vocês pertencessem ao mundo, ele os amaria como se fossem dele. Como vocês não pertencem ao mundo — pelo contrário, eu os escolhi do mundo —, o mundo os odeia. Lembrem-se das palavras que eu lhes disse: “Nenhum servo é maior que o seu senhor”. Se me perseguiram, também perseguirão vocês. Se obedeceram ao meu ensino, também obedecerão ao de vocês (Jo 15.18-20). Paulo acrescenta: “Porque lhes foi concedido por amor de Cristo não somente crer nele, mas também sofrer por ele” (Fp 1.29). “De fato, todos os que querem viver uma vida piedosa em Cristo Jesus serão perseguidos” (2Tm 3.12; cf. 1Ts 3.3,4). Essa oitava bem-aventurança é tão importante que Jesus a amplia, tornando-a mais ainda incisiva ao trocar a terceira pessoa dasbem- aventuranças pelo discurso direto em segunda pessoa. Ampliação (5.11,12) Bem-aventurados são vocês quando os insultarem, perseguirem e, mentindo, disserem todo tipo de mal contra vocês por minha causa. Alegrem-se e exultem, porque sua recompensa no céu é grande; pois do mesmo modo perseguiram os profetas que viveram antes de vocês. Além do impacto do discurso direto, essa ampliação da oitava bem- aventurança permite três importantes conclusões. Primeiro, o sentido de perseguição é explicitamente ampliado e inclui insultos e palavras ditas com o intuito de prejudicar. Não se limita a tortura ou oposição física. Segundo, Jesus faz um paralelismo entre a expressão “por causa da justiça” (5.10) e “por minha causa” (5.11). Isso confirma que a justiça de vida referida aqui é a imitação de Jesus. Ao mesmo tempo, esse paralelo identifica de tal maneira o discípulo de Jesus com a prática da justiça de Jesus que não há espaço para professar fidelidade a Jesus desacompanhada de justiça. Terceiro, é clara a ordem para que o cristão se alegre e exulte quando sofrer perseguição desse tipo. Em outra passagem do Novo Testamento, são apresentadas muitas razões diferentes para se alegrar em meio às perseguições. Os apóstolos exultaram “porque foram julgados dignos de sofrer afrontas pelo Nome” (At 5.41). Pedro entendia as provações como meio de graça para testar a autenticidade da fé e aumentar sua pureza (1Pe 1.6ss.). No Antigo Testamento a fornalha ardente foi o lugar onde a Presença divina, mesmo mediante um emissário visível, manifestou-se a três jovens hebreus (Dn 3.24,25). Entretanto, na passagem que estamos examinando, vemos apenas um motivo para os discípulos de Jesus se alegrarem na perseguição, e essa razão é suficiente: a recompensa deles no céu é grande. Portanto, os discípulos de Jesus têm de determinar seus valores da perspectiva da eternidade (um tema que Jesus expande em Mt 6.19-21,33), convencidos de que suas “tribulações leves e momentâneas produzem para [eles] um eterno peso de glória que supera todas elas” (2Co 4.17). Eles se alinharam entre os profetas que foram perseguidos antes deles. Com isso, testificam que em todas as épocas o povo de Deus está na linha de mira. Longe de ser uma perspectiva deprimente, o sofrimento deles na perseguição — a qual é provocada pela retidão e justiça deles — é um sinal triunfante de que o reino lhes pertence. O TESTEMUNHO DO REINO Mateus 5.13-16 Esses versículos estão ligados aos anteriores de duas maneiras. Em primeiro lugar, Jesus continua se dirigindo a seus ouvintes na segunda pessoa. Em segundo, e mais importante, um tema implícito nas bem-aventuranças agora fica explícito: o crente como testemunha. Para entender como isso funciona, precisamos reconhecer que é impossível seguir as normas do reino unicamente na vida privada. A justiça da vida que o crente vive vai chamar atenção, mesmo que essa atenção normalmente se apresente em forma de oposição. Em outras palavras, o cristão não é pobre em espírito, não se entristece com o pecado, não é manso, não tem fome e sede de justiça, não é misericordioso, puro de coração e pacificador — tudo isso — em esplêndido isolamento. Essas normas do reino, praticadas com diligência em um mundo pecaminoso, são um dos aspectos principais do testemunho cristão, e esse testemunho desencadeia a perseguição. Não obstante, a conduta dos discípulos de Jesus precisa ser analisada tendo em vista seu efeito sobre o mundo, assim como a oposição do mundo foi analisada considerando seu efeito sobre o cristão. Nos versículos 13-16, portanto, Jesus cria duas metáforas expressivas para retratar como seus discípulos, mediante seu modo de viver, devem deixar sua marca no mundo, este que é tão contrário às normas do reino. Sal (5.13) Na Antiguidade, o sal era usado principalmente como conservante. Como não havia refrigerador nem freezer, as pessoas usavam o sal para conservar muitos alimentos. Além disso, é claro, o sal também ajuda a dar sabor. Na primeira metáfora, Jesus compara seus discípulos ao sal. Implicitamente ele está dizendo que o mundo sem seus discípulos fica cada vez mais deteriorado: a presença dos cristãos retarda a decadência moral e espiritual. Se esses cristãos vivem de acordo com as normas dos versículos 3- 12, não há como não exercerem boa influência sobre a sociedade. Mas suponhamos que o sal perca a sua capacidade de salgar. O que acontece? Ele perde sua raison d’être e pode ser jogado na rua — o depósito de lixo dos tempos antigos — para ser pisado pelos homens. Essa observação tem sido interpretada de duas maneiras. Como o sal, por sua própria natureza, não pode ser outra coisa senão sal, ele não pode perder sua salinidade. Por isso, alguns consideram que Jesus está dizendo que existe uma necessidade interior que leva o cristão a testemunhar. Para mim, essa interpretação cheira a pedantismo. Embora o sal em si não possa perder a salinidade, ele pode ser adulterado. Se for suficientemente adulterado, digamos, por areia, ele não pode mais ser usado como conservante. Perde a capacidade de impedir o apodrecimento e por isso tem de ser descartado como um produto inútil. A utilidade do sal é combater a deterioração, de modo que ele próprio não pode se deteriorar. Quanto pior o mundo se torna e quanto mais rápido ele se deteriora, mais ele precisa dos discípulos de Jesus. Luz (5.14-16) A segunda metáfora que nosso Senhor usa para se referir ao testemunho do cristão é a luz. Os cristãos são a luz do mundo — um mundo que, como se subentende, está imerso em densas trevas. Jesus fala de duas fontes de luz no sentido físico: a luz de uma cidade situada sobre um monte e a luz de uma lâmpada sobre um pedestal. A primeira fonte, a cidade, muitas vezes é alvo de controvérsia. Alguns acham que Mateus, ao registrar os ensinamentos de Jesus, confundiu-se e escreveu uma ilustração irrelevante sobre uma cidade visível a uma grande distância por causa de sua altitude. Para esses, a ilustração é original, mas deslocada num contexto relativo à luz. Tais críticos, acredito, só mostram com isso que vivem no mundo industrializado, onde a luz é ampla e prontamente disponível. Eles não sabem quanto a natureza pode ser escura. No Canadá é possível acampar a centenas de quilômetros de qualquer cidade ou vilarejo. Se a noite estiver nublada e não houver nenhum objeto fosforescente na área, a escuridão é total. Não se consegue enxergar um palmo adiante do nariz. Mas, se houver uma cidade próxima, talvez a uma centena de quilômetros de distância, a escuridão se atenua. A luz da cidade se reflete nas nuvens, e a noite, antes negra como o breu, já não é mais tão escura. Da mesma forma, os cristãos que deixam sua luz brilhar diante dos homens não podem ser escondidos, e a boa luz que eles lançam ao redor atenua as trevas que, sem ela, seriam absolutas. Quando imaginamos um mundo sem as centenas de watts de energia elétrica a nossa disposição, começamos a entender que a escuridão pode ser um terror e símbolo de tudo o que é mau. A luz da cidade, mesmo que não seja tão intensa quanto as nossas modernas fontes de iluminação, torna as trevas um pouco mais suportáveis do que antes. A luz é tão importante que chega a ser ridículo pensar que alguém possa querer apagar a chama bruxuleante de uma lamparina de azeite sufocando-a debaixo de um cesto. Aquele pavio incandescente pode projetar só uma luz fraquinha pelos padrões modernos, mas, se a alternativa é a escuridão total, sua luz é maravilhosa, suficiente para iluminar todos os que estão na casa (5.15). “Assimtambém brilhe a luz de vocês diante dos homens, para que vejam as suas boas obras e glorifiquem o Pai de vocês, que está no céu” (5.16). Que luz é essa com que os discípulos de Jesus iluminam um mundo em trevas? Nesse contexto, não se fala em enfrentamento pessoal nem em declaração de fé de uma igreja. Em vez disso, a luz são as “boas obras” realizadas pelos seguidores de Jesus — realizadas de tal maneira que pelo menos alguns homens reconhecem esses seguidores de Jesus como filhos de Deus e passam a glorificar aquele que é o Pai deles (5.16). As normas do reino, postas em prática na vida dos herdeiros do reino, são o testemunho do reino. Esses cristãos se recusam a roubar seus patrões sendo preguiçosos no trabalho ou a roubar seus empregados sendo gananciosos e mesquinhos. São os primeiros a ajudar um colega em dificuldade e os últimos a dar uma resposta grosseira. Desejam de todo o coração o sucesso dos outros e detestam sinceramente as piadas indecentes. Com honestidade transparente e preocupação genuína, rejeitam tanto a resposta fácil do político doutrinário quanto a atitude laissez-faire do homem secular egoísta. De comportamento manso, demonstram ousadia na busca da justiça. Por vários motivos, os cristãos perderam essa noção de testemunho e estão demorando a recuperá-la. Contudo, em tempos melhores e em outras terras, a proclamação fiel e divinamente capacitada do evangelho de Jesus Cristo (que é, ele mesmo, a luz do mundo par excellence [Jo 8.12]) transformou os homens de tal maneira que eles se tornaram a luz do mundo (Mt 5.14). Reforma do sistema carcerário, assistência médica, sindicatos trabalhistas, controle de um comércio de bebidas alcoólicas pervertido e perversor, abolição da escravatura, abolição do trabalho infantil, fundação de orfanatos, reforma do código penal — em todas essas áreas, os seguidores de Jesus encabeçaram o movimento em busca de justiça.4 As trevas foram amenizadas. E, na minha opinião, isso acontece sempre que cristãos professos estão menos preocupados com seu prestígio pessoal e mais interessados em seguir as normas do reino. “Assim também brilhe a luz de vocês diante dos homens, para que vejam as suas boas obras e glorifiquem o Pai de vocês, que está no céu.” 1D. Martyn Lloyd-Jones, Studies in the Sermon on the Mount (Grand Rapids: Eerdmans, 1959- 1960), 2 vols., v. 1, p. 69-70 [edição em português: Estudos no Sermão do Monte (São José dos Campos: Fiel, 2018)]. 2Uma referência a Salmos 90.10. (N. do T.) 3Op. cit., v. 1, p. 74. 4Recomendo a leitura de livros como: J. W. Bready, England: before and after Wesley (Grand Rapids: Eerdmans, 1994) (na versão compacta americana, o título é This freedom — whence?); D. W. Dayton, Discovering an Evangelical heritage (Grand Rapids: Baker Academic, 1988), que é mais recente. Embora suas análises teológicas nem sempre me convençam, esses livros mostram que quase todas as mudanças sociais positivas foram geradas pelo Grande Avivamento liderado por homens de Deus como George Whitefield, John Wesley, Howell Harris, Lord Shaftesbury, William Wilberforce entre outros. À 2 O reino do céu: suas reivindicações em relação ao Antigo Testamento s vezes corremos o risco de tratar a Palavra de Deus como se ela fosse uma coleção de pedras preciosas soltas e não classificadas. Assim, a Bíblia torna-se uma simples coletânea de “pensamentos preciosos”. Quando a tratamos dessa forma, perdemos de vista muitos aspectos importantes: o desenvolvimento histórico dos propósitos redentores de Deus; o grau de compreensão teológica crescente do povo de Deus à medida que ele revela mais sobre si mesmo e seus caminhos; a estrutura literária que amarra um livro ou um discurso em temas e subtemas coesos e coerentes. Em contrapartida, quando considerados adequadamente, esses fatores históricos, teológicos e literários constituem uma contribuição muito importante para nosso entendimento de cada parte da Bíblia — especialmente o Sermão do Monte. Veja, por exemplo, a estrutura literária. O reino do céu é um tema importante no Evangelho de Mateus, e nós já comentamos que, com o recurso literário de uma inclusio (5.3,10), ele vem a ser o tema central nas bem-aventuranças. Além disso, os dezesseis primeiros versículos de Mateus 5 introduzem ou antecipam todos os temas principais de Mateus 5—7 para levar o leitor a um autoexame e despertar-lhe o interesse pelo que vem a seguir. Esses capítulos terminam com vários opostos, exigindo que se escolha um de dois caminhos, uma de duas árvores, uma de duas alegações, um de dois fundamentos (7.13-27). Entre a introdução (5.3-16) do Sermão do Monte e sua conclusão (7.13-27) encontra-se seu corpo (5.17—7.12). Esse corpo é delimitado por outra inclusio, isto é, a Lei e os Profetas (5.17; 7.12), uma maneira comum de fazer referência às Escrituras do Antigo Testamento. Portanto, estudando 5.17-48, reconhecemos dois fatos: primeiro, estamos entrando no corpo principal do Sermão; segundo, Jesus procura relacionar seu ensino com o Antigo Testamento. É claro que era de esperar essa ênfase no Antigo Testamento desde a leitura da introdução, os primeiros dezesseis versículos, pois neles Jesus diz que os que praticam as normas do reino e, portanto, dão testemunho do reino não só receberão grande recompensa no céu, mas também serão equiparados aos profetas (5.12). Assim, partindo de considerações predominantemente literárias, chegamos a temas cruciais que levantam importantes questões históricas e teológicas. O Sermão do Monte não só promete nos dar algumas ponderações desafiadoras sobre pobreza de espírito, justiça, amor, perdão etc., mas também revelar algo sobre como o próprio Jesus vê o seu lugar na história, a relação entre sua pregação do reino e as Escrituras do Antigo Testamento. Além disso, se entendemos que Jesus ensinava como um judeu do primeiro século a judeus do primeiro século, devemos esperar que seu ensino se organize em categorias voltadas principalmente para a compreensão de seus ouvintes e com o objetivo, pelo menos em parte, de corrigir ideias e crenças do primeiro século que ele considerava errôneas. Essa observação ancora à história a revelação de Deus mediante Jesus Cristo e, como veremos, melhora nosso entendimento do Sermão do Monte. JESUS COMO CUMPRIMENTO DO ANTIGO TESTAMENTO Mateus 5.17-20 Os versículos de Mateus 5.17-20 estão entre os mais difíceis da Bíblia. Num olhar superficial, fica claro de que eles tratam. Jesus retoma o tema do reino (mencionado três vezes em 5.19,20) e agora o correlaciona com a Lei e os Profetas. Esses versículos, portanto, servem de introdução aos cinco blocos de texto que compõem o restante do capítulo. Também está claro que Mateus 5.17,18 retrata a elevada estima de Jesus pelo que chamamos de Escrituras do Antigo Testamento. Jesus não veio abolir esses escritos. Ao contrário, ele reconhece a imutabilidade deles até a menor letra, o “jota”, ou mesmo o menor sinal feito pela pena. Esse menor sinal, o “til” (KJV), é o que hoje chamaríamos de serifa, o pequeno prolongamento de algumas letras que distingue os tipos antigos dos mais modernos. Em hebraico, esse diminuto prolongamento é necessário para diferençar alguns pares de letras. Portanto, Jesus está corroborando a confiabilidade e a veracidade do texto escrito. Não está simplesmente dizendo que o Antigo Testamento contém alguma verdade, muito menos que se torna verdade quando os homens têm um encontro significativo com ele. EmJesus é concebida não só para o período até seu segundo advento, mas também para toda a eternidade; pois, embora o céu e a terra passem, as palavras de Jesus jamais passarão. Uma segunda interpretação do Sermão do Monte é a existencial. De acordo com essa perspectiva, o sermão não deve ser tomado como uma exposição de princípios éticos concretos revestida de autoridade, mas, sim, como um desafio à decisão pessoal. Ele orienta a vida em direção a uma perspectiva “escatológica”. Porém, com “escatológico”, os existencialistas teológicos não querem dizer que a era vindoura deva ser levada a sério ou que ela já se justapõe à era presente. De fato, essas categorias temporais de escatologia são sumariamente rejeitadas por serem consideradas construtos míticos. A escatologia é reinterpretada; a tensão bíblica entre a vida presente e o juízo final é substituída por uma tensão entre vida e conduta como são agora e vida e conduta como deveriam ser. Mas o que “deveria ser” não é formulado relativamente às proposições do Sermão do Monte, mas em relação a uma atitude de abertura para o futuro, que traz consigo constante autoexame e arrependimento. Confesso que tenho muita dificuldade de ser complacente com essa interpretação. Se o existencialismo teológico quer construir seus próprios modelos éticos, tudo bem; mas não deve tentar impingi-los ao Novo Testamento. Segundo essa concepção, a revelação proposicional é em princípio impossível — assim como a intervenção sobrenatural de um Deus pessoal/infinito. Por conseguinte, os dados bíblicos são filtrados através de uma peneira concebida para separar e remover todo esse material (“demitizar o texto”). A estrutura resultante se encaixa perfeitamente nas categorias existenciais, mas muito mal nos textos bíblicos. Uma terceira abordagem insiste em que o Sermão do Monte é destinado a toda a presente era e deve ser rigorosamente obedecido. Geralmente, os defensores dessa posição se dividem em dois grupos. O primeiro diz que o Sermão do Monte é lei e não evangelho, e como tal não é compatível com a teologia paulina. Jesus e Paulo, segundo essa concepção, não andam juntos. De fato, Paulo é culpado de distorcer a doutrina de Jesus. O outro grupo é muitas vezes associado com a tradição anabatista. Ele considera que o Sermão do Monte é uma reflexão precisa da vontade divina e deve ser obedecido tanto individual quanto coletivamente. Esse grupo sustenta que a salvação é pela graça, por meio da fé, mas que a necessária manifestação dessa salvação é uma vida em conformidade com os preceitos do Sermão do Monte. Em geral, o pacifismo faz parte dessa vertente. Portanto, se Deus deu a espada ao Estado (Rm 13.1ss.), segue-se que os cristãos não só devem se abster de qualquer participação nas forças militares e policiais, mas também devem evitar todas as posições políticas que requeiram decisões associadas de algum modo a essas forças. Essas duas perspectivas levam o Sermão do Monte a sério. Contudo, discordo da primeira porque ela não dá a devida importância à história da salvação. Alegar antagonismo entre a doutrina de Jesus e a de Paulo é ser insensível ao progresso da revelação produzido pela obra de Cristo na cruz, sua ressurreição e ascensão. Esse ponto de vista ignora os aspectos escatológicos da própria pregação de Jesus e a forte ênfase que o próprio Sermão do Monte dá à pobreza de espírito e à importância de pedir e buscar. Ignora também que o Sermão do Monte reconhece a necessidade da graça. A segunda perspectiva, a tradição anabatista/menonita, considero muito atraente. Contudo, minha própria exposição do Sermão do Monte mostrou onde eu me afasto dela. Penso que essa interpretação não é sensível à forma antitética que Jesus normalmente prega e por isso acaba lendo mais no texto do que Jesus ou Mateus defenderia. O Sermão em si não é um comentário definitivo sobre assuntos como guerra e pena capital — existem outras considerações bíblicas. Além do mais, fazer da proibição dessas coisas parte essencial da lei moral parece dizer que houve um progresso moral em Deus ou nos seus mandamentos. Isso é de fundamental importância, pois dá a entender que as ordens anteriores de Deus na verdade estavam em contradição com sua verdadeira vontade. Se a moralidade não está diretamente relacionada com o que Deus realmente aprova, mas apenas com o que ele ordena, uma tensão terrível se estabelece nele. Além disso, o modo pelo qual o Novo Testamento trata a igreja não exige que os cristãos se mantenham tão longe, digamos, da política quanto essa perspectiva parece sugerir. Uma quarta proposta para o significado do Sermão do Monte é a defendida pela ortodoxia luterana. Ela afirma que o Sermão é um ideal inatingível, cujo propósito é conscientizar as pessoas de seus pecados e fazê- las buscar perdão em Cristo. O Sermão, portanto, é basicamente uma preparação para o evangelho. Essa posição faz justiça a algumas relações entre Jesus e Paulo, porém ela se parece mais com uma conclusão de teologia sistemática aplicada cedo demais do que com exegese do texto. Uma quinta abordagem é a do liberalismo clássico, popular no início do século 20. A ortodoxia, que enfatizava a necessidade de redenção do homem, a morte expiatória de Cristo e o novo nascimento sobrenatural foi substituída pelo liberalismo otimista, que considerava o Sermão do Monte o verdadeiro evangelho, o evangelho em versão condensada. O Sermão passou a ser visto como o conjunto dos princípios gerais para a construção de uma civilização progressista. Mas esse sonho do liberalismo clássico foi estilhaçado por duas guerras mundiais. O liberalismo esqueceu que a natureza humana precisa de perdão e ajuda. Nutrido por uma fé otimista na inevitabilidade do progresso evolutivo, o liberalismo de fato substituiu o evangelho verdadeiro por uma filosofia de progresso secular. Sem consciência da subjetividade de suas escolhas, essa corrente selecionou as partes da revelação bíblica que mais se encaixavam em seu espírito e teoria e descartou o resto. O resultado deixou o ser humano sem Salvador, sem Redentor, sem graça divina, sem o poder do Espírito, mas apenas com um lindo padrão moral, que o homem acabou descobrindo que não era capaz de reproduzir contando apenas com seu próprio esforço. Uma interpretação mais recente vê o Sermão do Monte como um material catequético preparado pela igreja, parte do qual remonta ao Jesus histórico. Por ser um material catequético, o Sermão, segundo essa tese, era sempre precedido da proclamação do evangelho e da conversão pessoal. O evangelho precede as exigências éticas do Sermão do Monte. Portanto, o chamado de Jesus ao discipulado é dirigido apenas àqueles sobre quem o poder de Satanás já foi destruído pelo evangelho e que já é herdeiro do reino de Deus. O principal problema dessa interpretação é que ela não trata o Evangelho de Mateus como um documento histórico (e teológico) sério. Se Jesus nunca pregou um Sermão do Monte ou nem mesmo forneceu o material essencial contido em Mateus 5—7, então é legítima a hipótese de que a ênfase paulina na graça, salvação, conversão e transformação precede o conteúdo “catequético” do Sermão do Monte. Mas, se ele pregou esse Sermão, então, mesmo que seu material tenha sido moldado de alguma maneira pela preocupação da igreja com a catequese dos novos convertidos, não existe justificativa para minimizar a importância teológica da pregação de Jesus em seu primeiro contexto histórico com base nessa catequese. A esta altura, já deve