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Dados	Internacionais	de	Catalogação	na	Publicação	(CIP)
Angélica	Ilacqua	CRB-8/7057
Carson,	D.	A.,	1946-
O	Sermão	do	Monte	:	exposição	de	Mateus	5—7	/	D.	A.	Carson
;	tradução	de	Lucília	Marques.	-	São	Paulo	:	Vida	Nova,	2018.
176	p.
ISBN	978-65-86136-05-0	(recurso	eletrônico)
Título	original:	The	Sermon	on	the	Mount:	An	evangelical	exposition
of	Matthew	5—7
1.	Sermão	da	montanha	-	Comentários	I.	Título	II.	Marques,	Lucília
18-2191
CDD	226.907
Índices	para	catálogo	sistemático
1.	Sermão	da	montanha	-	Comentários
©1978,	de	Baker	Book	House	Company
Título	do	original:	The	Sermon	on	the	Mount:	an	Evangelical	exposition	of	Matthew	5—7,	edição	publicada
por	BAKER	BOOKS,	divisão	da	BAKER	BOOK	HOUSE	COMPANY	(Grand	Rapids,	Michigan,	EUA).
Todos	os	direitos	em	língua	portuguesa	reservados	por	SOCIEDADE	RELIGIOSA	EDIÇÕES	VIDA	NOVA
Rua	Antônio	Carlos	Tacconi,	63,	São	Paulo,	SP,	04810-020
vidanova.com.br	|	vidanova@vidanova.com.br
1.ª	edição:	2019
Proibida	a	reprodução	por	quaisquer	meios,	salvo	em	citações	breves,	com	indicação	da	fonte.
Todas	as	citações	bíblicas	sem	indicação	da	versão	foram	traduzidas	diretamente	da	New	International
Version.	As	citações	com	indicação	da	versão	in	loco	foram	traduzidas	diretamente	da	King	James	Version
(KJV),	da	Revised	Standard	Version	(RSV),	da	NEB	(New	English	Bible)	e	extraídas	da	Nova	Versão
Internacional	(NVI),	da	Almeida	Revista	e	Corrigida	(ARC)	e	da	Phillips	(Phillips).
O	grifo	nas	citações	bíblicas	é	de	responsabilidade	do	autor.
____________________________________
DIREÇÃO	EXECUTIVA
Kenneth	Lee	Davis
GERÊNCIA	EDITORIAL
Fabiano	Silveira	Medeiros
EDIÇÃO	DE	TEXTO
Lenita	Ananias
Rosa	M.	Ferreira
PREPARAÇÃO	DE	TEXTO
Lucas	Torres
Marcia	B.	Medeiros
REVISÃO	DE	PROVAS
Ubevaldo	G.	Sampaio
GERÊNCIA	DE	PRODUÇÃO
Sérgio	Siqueira	Moura
DIAGRAMAÇÃO
Claudia	Fatel	Lino
CAPA
Souto	Crescimento	de	Marca
CONVERSÃO	PARA	EPUB
Cumbuca	Studio
____________________________________
À
CAMBRIDGEINTER-COLLEGIATE	CHRISTIAN	UNION	(CICCU),
com	gratidão	e	apreço
pelo	entusiasmo	de	seu	testemunho	cristão	e
pela	oportunidade	de	lecionar,	nessa	instituição,
um	trecho	tão	desafiador	das	Escrituras.
Sumário
1.	 Capa
2.	 Folha	de	Rosto
3.	 Créditos
4.	 Prefácio
5.	 1.	O	REINO	DO	CÉU:	SUAS	NORMAS	E	TESTEMUNHO	(5.1-16)
1.	 Introdução	(5.1,2)
2.	 As	normas	do	reino	(5.3-12)
3.	 O	testemunho	do	reino	(5.13-16)
6.	 2.	O	REINO	DO	CÉU:	 SUAS	REIVINDICAÇÕES	EM	RELAÇÃO
AO	ANTIGO	TESTAMENTO	(5.17-48)
1.	 Jesus	como	cumprimento	do	Antigo	Testamento	(5.17-20)
2.	 Aplicação	(Mateus	5.21-47)
3.	 Conclusão:	A	exigência	de	perfeição	(5.48)
7.	 3.	HIPOCRISIA	RELIGIOSA:	 SUA	DESCRIÇÃO	E	DESTRUIÇÃO
(6.1-18)
1.	 O	princípio	(6.1)
2.	 Os	exemplos	(6.2-18)
8.	 4.	PERSPECTIVAS	DO	REINO	(6.19-34)
1.	 Lealdade	inabalável	aos	valores	do	reino:	três	metáforas	(6.19-24)
2.	 Confiança	irrestrita	(6.25-34)
9.	 5.	EQUILÍBRIO	E	PERFEIÇÃO	(7.1-12)
1.	 O	perigo	de	julgar	os	outros	(7.1-5)
2.	 O	perigo	de	não	saber	discernir	(7.6)
3.	 O	perigo	de	não	ter	persistência	confiante	(7.7-11)
4.	 Equilíbrio	e	perfeição	(7.12)
10.	 6.	CONCLUSÃO:	DOIS	CAMINHOS	(7.13-27)
1.	 Dois	caminhos	(7.13,14)
2.	 Duas	árvores	(7.15-20)
3.	 Duas	reivindicações	(7.21-23)
4.	 Duas	casas	(7.24-27)
5.	 O	final	do	sermão	(7.28,29)
11.	 APÊNDICES
1.	 1.	Reflexões	sobre	abordagens	críticas	do	Sermão	do	Monte
2.	 2.	Reflexões	sobre	interpretações	teológicas	do	Sermão	do	Monte
N
	 Prefácio
o	 início	 de	 1974,	 fui	 convidado	 a	 apresentar	 seis	 palestras	 sobre	 o
Sermão	 do	 Monte	 na	 Cambridge	 Inter-Collegiate	 Christian	 Union
(CICCU).	Essas	palestras,	programadas	para	o	último	período	do	ano	escolar
de	1975,	consumiram	grande	parcela	do	meu	tempo	e	energia	durante	as	seis
semanas	em	que	foram	apresentadas.	Acho	que	nunca	senti	tanto	satisfação	de
ensinar	as	Escrituras	quanto	naquele	tempo	em	que	falei	para	uma	plateia	de
quatrocentos	 ou	 quinhentos	 alunos	 que	 vinham	 me	 ouvir	 todo	 sábado	 à
noite.	 Excepcionalmente	 receptivos,	 eles	 me	 motivavam	 com	 seu	 interesse
genuíno	pela	Palavra	de	Deus.
Desde	essa	época,	repeti	a	série	de	palestras	duas	ou	três	vezes	em	igrejas
da	Colúmbia	Britânica,	no	Canadá.	Dentro	de	minhas	 limitações	de	tempo,
revisei	 a	 série,	 escrevendo-a	em	 forma	mais	 adequada	à	página	 impressa	do
que	um	sermão	ou	estudo	bíblico	costuma	ser.	No	entanto,	intencionalmente
não	 retirei	 todos	os	 traços	 da	 antiga	 forma.	Acrescentei	 dois	 apêndices,	 em
resposta	 a	 perguntas	 que	 me	 foram	 feitas.	 Parte	 do	 material	 do	 primeiro
apêndice	 estava	 entremeado	 na	 série	 original,	 mas	 achei	 melhor	 separá-lo
neste	livro.
Qual	 a	 diferença	 entre	 este	 livro	 e	 outros	 que	 se	 encontram	 em
circulação	e	tratam	da	mesma	passagem?	Por	que	apresentar	mais	um	estudo
do	 Sermão	 do	Monte?	Alguns	motivos	me	 vêm	 à	mente.	 Esta	 exposição	 é
mais	curta	do	que	a	maioria	das	outras	voltadas	para	o	público	em	geral;	mas
isso	porque	é	mais	resumida.	Fiz	um	grande	esforço	para	ficar	menos	preso	às
categorias	 da	 teologia	 sistemática	 do	 que	 alguns	 de	meus	 antecessores,	mas
quero	que	meu	 trabalho	 seja	 formado	pelos	pontos	de	vista	 teológicos	mais
importantes.	 O	 material	 dos	 dois	 apêndices	 em	 geral	 não	 consta	 de
apresentações	 destinadas	 ao	 público,	 mas	 creio	 que	 possa	 ajudar	 o	 leitor
interessado	 a	 ver	 a	 interpretação	do	 Sermão	do	Monte	 de	 uma	 forma	mais
equilibrada	e	a	ter	um	entendimento	mais	profundo.	Contudo,	meu	principal
motivo	 para	 oferecer	 esses	 estudos	 a	 um	 público	 mais	 amplo	 é	 minha
profunda	 convicção	 de	 que	 a	 igreja	 de	Cristo	 precisa	 estudar	 o	 Sermão	 do
Monte	muitas	vezes.
Tenho	o	prazer	de	expressar	aqui	minha	profunda	gratidão	a	um	grande
número	 de	 autores.	 Li	 algumas	 exposições	 não	 acadêmicas,	 mas,	 além	 do
próprio	 texto	 sagrado,	 fiz	 questão	 de	 ler	 os	 melhores	 comentários	 que
encontrei.	O	livro	The	Sermon	on	the	Mount:	a	history	of	interpretation	and
bibliography	 [O	 Sermão	 do	 Monte:	 uma	 história	 de	 interpretação	 e
bibliografia],	de	W.	S.	Kissinger,	foi	uma	ferramenta	de	valor	inestimável	nas
etapas	 posteriores	 do	 estudo.	 Uma	 mina	 de	 ouro	 de	 informações,	 que	 me
apresentou	 a	 alguns	 trabalhos	 sérios	 que	 eu	 desconhecia.	 Os	 leitores	 mais
informados	também	conseguem	perceber	neste	meu	trabalho	a	influência	do
livro	Jesus	 and	 the	Law	 in	 the	 synoptic	 tradition	 [Jesus	 e	 a	Lei	 na	 tradição
sinótica],	 de	 Robert	 Banks.	 Quero	 deixar	 registrado	 meu	 agradecimento	 à
Tyndale	House,	de	Cambridge,	que	me	deu	a	oportunidade	de	ler	uma	cópia
da	tese	de	doutorado	de	Banks	antes	que	a	revisão	publicada	tomasse	forma.
Li	 apenas	 algumas	 obras	 em	 língua	 estrangeira	 sobre	 o	 Sermão	 do	Monte.
Lamento,	assim	como	lamento	não	ter	podido	examinar	detalhadamente	uma
quantidade	 maior	 do	 imenso	 corpo	 de	 literatura	 relacionada.	 Mesmo	 nos
periódicos	 que	 passaram	 pela	 minha	 mesa	 durante	 o	 último	 trimestre,	 não
faltaram	estudos	sobre	esses	três	capítulos	do	Evangelho	de	Mateus.
Meu	 agradecimento	 sincero	 a	 Eileen	 Appleby,	 que	 transcreveu	 as
gravações	 das	 palestras	 originais.	 Agradeço	 também	 a	 Sue	 Wonnacott	 e
especialmente	a	Diane	Smith,	que	transformaram	um	manuscrito	confuso	em
um	texto	digitado	limpo	e	praticamente	impecável.
Soli	Deo	gloria.
D.	A.	Carson,
Northwest	Baptist	Theological	Seminary,
Vancouver,	Canadá
Q
1 O	reino	do	céu:
suas	normas	e	testemunho
Introdução
uanto	mais	leio	esses	três	capítulos	—	Mateus	5,	6	e	7	—,	mais	me	sinto
atraído	 e	 ao	mesmo	 tempo	 envergonhado	 por	 eles.	 Sua	 luz	 brilhante
me	atrai	como	a	lâmpada	atrai	para	si	a	mariposa;	mas	a	 luz	é	tão	brilhante,
que	 seca	 e	queima.	Não	há	 lugar	para	 formas	de	piedade	que	 sejam	apenas
verniz	e	 fingimento.	O	que	se	exige	é	perfeição.	 Jesus	diz:	“Sejam	perfeitos
como	é	perfeito	o	Pai	celestial	de	vocês”	(5.48).
O	magnífico	 tema	desses	 três	 capítulos	 é	o	 reino	do	 céu.	 “O	 reino	do
céu”	é	a	expressão	comumente	usadavez	disso,	como	ele	afirma	em	outro	trecho,	a	Escritura	não	pode	ser	anulada
(Jo	10.35).1
Essas	observações	 também	nos	deixam	em	dificuldades.	Se	 Jesus	não	 se
via	abolindo	a	Lei	e	os	Profetas,	mas	cumprindo-os,	por	que,	então,	há	boas
provas	de	que	ele	aboliu,	por	exemplo,	as	leis	alimentares	(Mc	7.19)?	Por	que
os	 autores	 do	 Novo	 Testamento,	 após	 a	 morte	 e	 ressurreição	 de	 Jesus,
insistem	 em	 que	 o	 sistema	 sacrificial	 do	 Antigo	 Testamento	 agora	 é,	 no
mínimo,	desnecessário,	 e	 em	princípio	 foi	 abolido	 (veja	Hb	8.13;	10.1-18)?
Por	que	os	cristãos	de	hoje	não	procuram	seguir	ao	pé	da	letra	a	lei	do	Antigo
Testamento?
Várias	respostas	foram	apresentadas	a	esses	questionamentos.	Pelo	menos
desde	a	época	de	Tomás	de	Aquino	(c.	1225-1274),	muitos	cristãos	dividem	a
lei	em	três	categorias:	moral,	civil	e	cerimonial.	Alguns	dizem	que	a	lei	civil
do	Antigo	Testamento	 foi	 abolida	porque	o	povo	de	Deus	 já	não	constitui
uma	nação.	A	 lei	cerimonial	caducou	porque	ela	apontava	para	Jesus,	que	a
“cumpriu”	 morrendo	 na	 cruz,	 assim	 tornando	 obsoletas	 as	 cerimônias	 do
Antigo	Testamento.	Resta-nos	 a	 lei	moral;	 e,	 segundo	 esse	 argumento,	 em
Mateus	5.17-20	Jesus	está	de	fato	se	referindo	apenas	à	lei	moral,	que	nunca
muda.
O	primeiro	problema	com	essa	ideia	é	que	a	expressão	“nem	um	jota	ou
um	til”	(5.18,	KJV)	parece	mais	abrangente	do	que	uma	referência	exclusiva	à
lei	 moral	 permitiria.	 Além	 disso,	 nem	 o	 Antigo	 Testamento	 nem	 o	 Novo
fazem	essa	tríplice	distinção.	É	claro	que	esse	fator	por	si	só	não	é	conclusivo:
muitas	distinções	legítimas	podem	ser	deduzidas	das	Escrituras,	apesar	de	não
serem	explicitamente	ensinadas.
O	problema	dessa	divisão	em	três	partes	é	que	como	está	não	fica	claro	o
que	significa	“moral”.	Se	o	termo	se	refere	ao	que	é	fundamentalmente	certo
ou	 errado,	 eu	 argumentaria	 que	 o	 que	 Deus	 aprova	 é	 fundamentalmente
certo	 e	 o	 que	 ele	 proíbe	 é	 fundamentalmente	 errado.	 Nesse	 caso,	 quando
Deus	aprovou	certos	sacrifícios	cerimoniais	no	Antigo	Testamento,	as	pessoas
ficavam	moralmente	obrigadas	a	praticá-los.	Dentro	do	mesmo	raciocínio,	se
Deus	 proibiu	 certas	 práticas	 civis	 no	 Antigo	 Testamento,	 seria	 imoral
continuar	 praticando-as,	 exatamente	 porque	 foi	 Deus	 quem	 as	 proibiu.
Portanto,	essa	definição	de	“moral”	é	problemática	quando	se	adota	a	divisão
em	 três	 partes:	moral,	 cerimonial	 e	 civil.	As	 três	 categorias	 não	 se	 excluem
mutuamente.	 Se,	 porém,	 lei	 moral	 se	 refere	 ao	 que	 Deus	 sempre	 aprova,
então	estamos	diante	de	duas	dificuldades:	(1)	Se	Jesus	em	5.18	está	afirmando
que	 somente	 a	 lei	 moral	 jamais	 muda,	 ele	 está	 sendo	 redundante,	 isto	 é:
“Somente	 a	 lei	 que	 Deus	 sempre	 aprova	 (e	 por	 isso	 nunca	 muda)	 nunca
muda”.	 (2)	Em	contrapartida,	 se	Jesus	pretende	estabelecer	essa	definição	de
lei	moral,	é	estranho	que	ele	se	expresse	com	tal	enunciado	abrangente	(5.18).
Recorrer	 à	 histórica	 divisão	 tríplice	 da	 lei	 sem	 dúvida	 tem	 mérito	 em
determinados	contextos,	mas	creio	que	tal	recurso	não	nos	ajuda	a	explicar	o
que	Jesus	quer	dizer	em	Mateus	5.17ss.
Outra	abordagem	comum	dessa	passagem	é	a	hipótese	de	que	“cumprir”
aqui	 significa	 algo	 como	 “confirmar;	 comprovar”.	 Jesus	 cumpriu	 a	 lei
guardando-a	perfeitamente	e	agora	ele	a	cumpre	na	vida	de	seus	seguidores
por	meio	de	seu	Espírito:	o	texto	de	Romanos	8.4	diz	que	Deus	enviou	seu
Filho	 “a	 fim	de	que	 as	 justas	 exigências	da	 lei	 fossem	plenamente	 satisfeitas
em	nós,	que	não	vivemos	segundo	nossa	natureza	pecaminosa,	mas	segundo
o	 Espírito”.	 Nesse	 sentido,	 alega-se,	 o	 que	 a	 lei	 significa	 realmente	 é
confirmado	 pela	 vida	 de	 Jesus	 e	 a	 de	 seus	 discípulos.	 Esses	 pontos	 são
verdadeiros,	 sem	 dúvida,	 mas	 parece	 que	 não	 são	 eles	 que	 estão	 sendo
ensinados	aqui.	Os	termos	empregados	no	versículo	18	parecem	mais	precisos
que	isso.
Muitos	comentaristas	defendem	que	Cristo	cumpre	a	lei	e	os	profetas	de
duas	 maneiras	 diferentes.	 Os	 Profetas	 são	 cumpridos	 por	 Jesus	 de	 forma
preditiva:	 o	 que	 eles	 predizem	 acontece,	 e	 assim	 é	 cumprido.	 A	 Lei,	 no
entanto,	não	é	preditiva,	isto	é,	profética,	e	se	cumpre	de	algum	outro	modo.
Alguns	dizem	que	ela	se	cumpre	no	sentido	defendido	anteriormente	—	isto
é,	ela	se	confirma	em	seu	significado	mais	profundo.	Outros	dizem	que	Jesus
cumpriu	a	Lei	morrendo	na	cruz,	assim	satisfazendo	as	exigências	da	lei	sobre
todos	os	que	creem	nele.
Tenho	 certeza	 de	 que	 todas	 essas	 ideias	 encontram	 apoio	 em	 alguma
parte	do	Novo	Testamento,	mas	será	que	alguma	delas	é	convincente	nesse
contexto?	 Será	 que	 elas	 estão	 de	 acordo	 com	 o	 modo	 de	 Mateus	 usar	 as
palavras	ou	com	os	temas	que	Mateus	enfatiza?
Ao	longo	dos	anos,	de	tempo	em	tempo	se	propõe	uma	abordagem	um
pouco	diferente,	e	ela	tem	muitos	méritos,	penso.	Em	outro	trecho,	Mateus
registra	 Jesus	dizendo:	 “Desde	os	dias	de	 João	Batista	 até	 agora,	o	 reino	do
céu	tem	avançado	vigorosamente,	e	os	fortes	se	apoderam	dele.	Pois	todos	os
Profetas	 e	 a	 Lei	 profetizaram	 até	 João	 (Mt	 11.12,13).	 Não	 são	 apenas	 os
Profetas	que	profetizam;	a	Lei	também	profetiza.	Todo	o	Antigo	Testamento
tem	função	profética,	e	Jesus	veio	cumprir	o	Antigo	Testamento.
Contudo,	 para	 entender	 como	 Jesus	 o	 cumpre,	 precisamos	 entender
como	 o	 Antigo	 Testamento	 profetiza.	 Parte	 dele	 é	 profecia	 no	 sentido
comum	de	 predição;	 e,	 pela	 leitura	 do	Novo	Testamento,	 fica	 claro	 que	 o
foco	das	profecias	do	Antigo	Testamento	é	o	Messias.	Por	exemplo,	o	lugar
de	seu	nascimento	é	predito	(Mq	5.2;	Mt	2.5,6).	Porém,	algumas	profecias	do
Antigo	Testamento	citadas	por	Mateus	não	são	nem	de	longe	tão	claras.	Por
exemplo,	Oseias	11.1:	“...	do	Egito	chamei	meu	filho”,	é	um	texto	usado	para
indicar	a	volta	de	Jesus	do	Egito	para	a	Palestina	depois	da	morte	de	Herodes,
o	Grande	(Mt	2.15).	Originariamente,	porém,	esse	texto	se	referia	ao	Êxodo
dos	 israelitas,	 sob	a	 liderança	de	Moisés.	Parece	que,	nesse	caso,	é	a	história
dos	judeus	que	aponta	para	Cristo,	e	não	em	sentido	claro	de	predição.
No	 Evangelho	 de	 Mateus	 há	 muitos	 indícios	 de	 que	 essa	 forma	 de
“profecia”	 não	 é	 incomum.	 Desse	 modo,	 se	 em	 Deuteronômio	 8	 Moisés
lembra	 aos	 israelitas	 que	 eles	 vagaram	 durante	 quarenta	 anos	 pelo	 deserto,
onde	Deus	permitiu	que	passassem	fome	para	aprenderem	que	o	homem	não
vive	 só	 de	 pão,	 Jesus	 também	passou	 fome	por	 quarenta	 dias	 no	 deserto	 e,
quando	foi	tentado	a	duvidar	da	provisão	de	Deus,	respondeu	que	“nem	só	de
pão	o	homem	viverá,	mas	de	toda	palavra	que	procede	da	boca	de	Deus”	(Mt
4.1-4).	Essa	citação	é	do	Pentateuco	(Dt	8.2,3),	que	os	judeus	chamavam	de
Lei	 no	 sentido	 estrito,	 e	 que	 aqui	 se	 pressupõe	 que	 tenha	 alguma	 função
profética.
O	 Novo	 Testamento	 entende	 que	 o	 Antigo	 Testamento	 aponta
futuramente	para	Cristo	e	as	bênçãos	que	ele	 traz.	O	sistema	sacrificial,	por
exemplo,	apontava	para	o	sacrifício	de	Jesus	(Hb	9.8,9;	10.1,2).	De	fato,	tudo
o	que	estava	escrito	sobre	Cristo	na	Lei	de	Moisés,	nos	Profetas	e	nos	Salmos
(Lc	 24.44)	 tinha	 de	 ser	 cumprido.	 Portanto,	 o	 Senhor	 ressurreto	 podia
explicar	a	seus	discípulos	o	que	foi	dito	a	seu	respeito	em	todas	as	Escrituras
—	 começando	 por	 Moisés	 e	 todos	 os	 Profetas	 (Lc	 24.27).	 As	 Escrituras
testificam	dele	(Jo	5.39).
Logo,	 em	Mateus	 5.17,18,	 temos	 de	 nos	 livrar	 de	 concepções	 estreitas
demais	do	que	seja	cumprimento.	Jesus	cumpre	todo	o	Antigo	Testamento	—
a	Lei	e	os	Profetas	—	de	muitas	maneiras.	Uma	vez	que	ambos	apontam	para
ele,	certamente	ele	não	veio	revogá-los.	Ao	contrário,	ele	veio	cumpri-los	de
diversas	 maneiras,	 uma	 rica	 diversidade	 que	 esses	 parágrafos	 mal	 sugerem.
Nem	um	item	sequer	da	Lei	ou	dos	Profetas	passará,	disse	Jesus:	até	que	o	céu
e	a	terra	passem	—	antes	que	tudo	se	cumpra.	A	oração	adverbial	“até	que	o
céu	e	a	terra	passem”	simplesmente	significa	“nunca,	até	o	fim	dos	tempos”,
mas	é	restringidapela	oração	adverbial	seguinte:	“até	que	tudo	se	cumpra”.
Em	outras	 palavras,	 Jesus	 não	 concebe	 sua	 vida	 e	 seu	ministério	 como
oposição	ao	Antigo	Testamento,	mas,	 sim,	como	um	cumprimento	 daquilo
que	o	Antigo	Testamento	prevê.	Logo,	a	Lei	e	os	Profetas,	 longe	de	 serem
abolidos,	têm	sua	continuidade	vigente	levando	em	conta	o	cumprimento	em
Jesus.	Os	preceitos	detalhados	do	Antigo	Testamento	podem	ser	suplantados,
porque	tudo	o	que	é	profético	tem	de	ser,	em	algum	sentido,	provisório.	Ao
mesmo	 tempo,	 porém,	 tudo	 o	 que	 é	 profético	 encontra	 sua	 continuidade
legítima	na	feliz	chegada	do	que	foi	profetizado.
Tudo	 isso	pressupõe	que	uma	nova	abordagem	do	Antigo	Testamento
está	 sendo	 inaugurada	 por	 Jesus,	 concomitantemente	 com	 a	 perspectiva
transformada	 resultante	 do	 avanço	 do	 reino.	De	 fato,	 o	 próprio	 Jesus	mais
adiante	ensina	exatamente	isso.	Ele	diz:	“Por	isso,	todo	mestre	da	lei	instruído
sobre	 o	 reino	 do	 céu	 é	 semelhante	 ao	 dono	 de	 uma	 casa	 que	 tira	 do	 seu
tesouro	coisas	novas	e	coisas	velhas”	(Mt	13.52).
Na	 passagem	 anteriormente	 citada	 de	 Mateus	 11.12,13,	 observamos
ainda	que	a	Lei	e	os	Profetas	exercem	essa	função	profética	até	João	Batista.
De	 João	 Batista	 em	 diante,	 o	 reino	 do	 céu	 avança	 (cf.	 tb.	 Lucas	 16.16,17,
onde	 a	 expressão	 é	 “reino	de	Deus”).	 Semelhantemente,	nos	dois	 versículos
seguintes	de	Mateus	5	(19	e	20),	Jesus	deixa	de	falar	sobre	a	Lei	e	os	Profetas	e
passa	a	falar	sobre	o	reino:	“Qualquer	um	que	violar	um	desses	mandamentos,
por	menor	 que	 seja,	 e	 ensinar	 os	 outros	 a	 fazer	 o	mesmo,	 será	 chamado	 o
menor	 no	 reino	 do	 céu;	 mas	 todo	 aquele	 que	 praticar	 e	 ensinar	 esses
mandamentos	 será	 chamado	 grande	 no	 reino	 do	 céu”.	 A	 expressão	 “esses
mandamentos”,	em	minha	opinião,	não	se	refere	aos	mandamentos	da	lei	do
Antigo	 Testamento,	 mas,	 sim,	 aos	 mandamentos	 do	 reino	 do	 céu,	 reino
mencionado	 três	 vezes	 nos	 versículos	 19	 e	 20.	 São	 os	 mandamentos	 já
preceituados	e	os	que	ainda	virão	no	Sermão	do	Monte.
Alguns	acham	que	os	judeus	esperavam	uma	nova	lei	quando	o	Messias
viesse.	Não	estou	de	acordo.	O	fluxo	da	argumentação	nessa	passagem	aponta
numa	direção	ligeiramente	diferente.	Ela	se	desenvolve	mais	ou	menos	assim:
Jesus	 não	 veio	 para	 abolir	 o	 Antigo	 Testamento,	 mas	 para	 cumpri-lo	 —
cumpri-lo	no	sentido	de	que	ele	mesmo	era	o	alvo	para	o	qual	as	Escrituras
apontavam.	 Por	 isso,	 é	 o	 cúmulo	 da	 loucura	 não	 dar	 ouvidos	 aos	 seus
mandamentos,	 os	 mandamentos	 do	 reino.	 (Veja	 um	 raciocínio	 semelhante
em	Hebreus	2.1-3.)	O	que	se	exige	é	“justiça	[que]	exceda	a	dos	fariseus	e	dos
mestres	da	lei	(5.20),	caso	contrário	não	há	como	entrar	no	reino	do	céu.	Na
verdade,	 até	 a	 posição	 dentro	 do	 reino	 depende	 da	 obediência	 aos
mandamentos	 de	 Jesus	 (5.19);	 mas	 isso	 não	 é	 de	 surpreender,	 quando
lembramos	 a	 tremenda	 ênfase	 que	 o	 Sermão	 do	 Monte	 dá	 à	 obediência	 a
Jesus	(cf.	Mt	7.21-23)	ou	o	refrão	que	Jesus	repete:	“Mas	eu	lhes	digo...”	(veja
Mt	 5.20,22,26,28,32,34,39,44).	 O	 Antigo	 Testamento	 apontava	 para	 o
Messias	e	o	reino	que	ele	inauguraria.	Jesus,	afirmando	cumprir	essa	previsão
do	Antigo	Testamento,	apresenta	o	reino	a	seus	seguidores.	Ao	fazer	isso,	ele
ressalta	a	obediência	e	a	justiça	excelente,	sem	as	quais	ninguém	pode	entrar
no	reino.	É	importante	notar	que	as	palavras	finais	de	Jesus	no	Evangelho	de
Mateus	enfatizam	novamente	a	obediência:	os	crentes	têm	de	fazer	discípulos
de	 todas	 as	 nações,	 batizando-os	 e	 ensinando-os	 a	 obedecer	 a	 tudo	 o	 que
Jesus	ordenou	(28.18-20).	Os	mandamentos	de	Jesus	são	destacados	também
em	5.19.
A	esta	altura,	está	claro	que	o	Sermão	do	Monte	não	é	sentimentalismo
barato	concebido	para	induzir	uma	tola	e	ingênua	mentalidade	de	filantropia.
Tampouco	esses	capítulos	sancionam	a	opinião	de	que	os	conceitos	de	Jesus
acerca	da	 justiça	 eram	 tão	 temperados	 com	amor	que	 a	 justiça	 cai	para	um
nível	inferior	ao	padrão	estabelecido	pela	lei.	Em	vez	disso,	percebemos	que	a
justiça	exigida	por	Jesus	ultrapassa	qualquer	coisa	imaginada	pelos	fariseus,	o
grupo	 religioso	 ortodoxo	 da	 época	 de	 Jesus.	 O	 método	 de	 Jesus	 é	 mais
desafiador	 e	 mais	 exigente	 —	 e	 também	 mais	 recompensador	 —	 do	 que
qualquer	 sistema	 legal	 jamais	 poderia	 ser.	 Além	 disso,	 seu	 método	 foi
indicado	 profeticamente	 antes	 de	 chegar	 de	 fato.	 Como	 diz	 Paulo:	 “Mas
agora,	 sem	 a	 lei,	manifestou-se	 a	 justiça	 de	Deus,	 atestada	 pela	 Lei	 e	 pelos
Profetas”	(Rm	3.21).
Desse	modo,	por	outra	via	voltamos	à	pureza	interior	definida	nas	bem-
aventuranças.	 Assim	 como	 as	 bem-aventuranças	 fazem	 da	 pobreza	 em
espírito	condição	necessária	para	a	entrada	no	reino,	Mateus	5.17-20	também
acaba	exigindo	um	tipo	de	justiça	que	deve	ter	deixado	os	ouvintes	de	Jesus
perturbados	e	conscientes	do	próprio	fracasso	espiritual.	Com	isso,	o	Sermão
do	Monte	lança	o	alicerce	das	doutrinas	neotestamentárias	da	justificação	pela
graça	 mediante	 a	 fé	 e	 da	 santificação	 pela	 obra	 regeneradora	 do	 Espírito
Santo.	Não	é	de	admirar	que	Paulo,	aquele	zeloso	e	irrepreensível	fariseu	(Fp
3.4-6),	quando	entendeu	o	evangelho	de	Cristo,	tenha	considerado	todos	os
seus	recursos	espirituais	nada	mais	que	refugo.	Seu	novo	desejo	era	ganhar	a
Cristo,	não	tendo	justiça	sua	provinda	da	lei,	mas	a	que	vem	de	Deus	e	pela	fé
em	Cristo	(Fp	3.8,9).
APLICAÇÃO
Mateus	5.21-47
Com	 autoridade	 ímpar,	 Jesus	 se	 fez	 o	 pivô	 de	 toda	 a	 história.	 O	 Antigo
Testamento	 aponta	 para	 ele.	Agora,	 tendo	 chegado,	 ele	 introduz	 o	 reino	 e
mostra	que	o	Antigo	Testamento	encontra	a	essência	de	 sua	 legitimidade	e
sua	real	continuidade	nele	e	em	sua	doutrina.
Ao	mesmo	tempo,	Jesus	precisa	lidar	com	outro	problema.	Ele	não	pode
presumir	que	tudo	o	que	as	pessoas	ouviram	sobre	o	conteúdo	das	Escrituras
do	Antigo	Testamento	estava	de	fato	no	Antigo	Testamento.	Isso	porque	os
fariseus	 e	 doutores	 da	 lei	 consideravam	 que	 certas	 tradições	 orais	 tinham	 a
mesma	autoridade	que	a	própria	Escritura	e,	 assim,	contaminaram	o	ensino
da	 Escritura	 com	 algumas	 interpretações	 falaciosas,	 todavia	 defendidas	 com
unhas	e	dentes.	Portanto,	em	cada	um	dos	cinco	blocos	do	material	a	seguir,
Jesus	diz	algo	assim:	“Vocês	ouviram	o	que	foi	dito	[...],	mas	eu	lhes	digo...”.
Ele	 não	 começa	 essas	 oposições	 expondo	 a	 seus	 ouvintes	 o	 que	 o	 Antigo
Testamento	diz,	mas	o	que	eles	tinham	ouvido	que	ele	dizia.	Essa	observação
é	 importante,	 porque	 Jesus	 não	 está	 negando	 algo	 do	Antigo	Testamento,
mas,	sim,	o	que	eles	entendiam	do	Antigo	Testamento.
Em	outras	palavras,	parece	que	 Jesus	 tem	aqui	dois	 interesses:	derrubar
tradições	incorretas	e,	com	sua	autoridade,	indicar	a	verdadeira	direção	para	a
qual	as	Escrituras	do	Antigo	Testamento	apontam.
Ira	difamatória	e	reconciliação	(5.21-26)
As	pessoas	tinham	ouvido	o	que	fora	dito	a	seus	ancestrais:	“Não	matarás,	e
quem	matar	 estará	 sujeito	 a	 julgamento”.	Essa	 proibição	 explícita	 é	 o	 sexto
dos	 dez	 mandamentos;	 a	 ameaça	 de	 julgamento	 fazia	 parte	 da	 lei	 mosaica
relativa	ao	homicídio.	A	pessoa	que	tivesse	matado	alguém	tinha	de	ser	levada
à	presença	de	um	tribunal	para	ser	julgada.
Será,	porém,	que	o	homicídio	é	só	uma	ação,	cometida	sem	relação	com
o	caráter	do	assassino?	Será	que	não	existe	algo	mais	 fundamental	em	jogo,
isto	é,	como	ele	considera	os	outros	(mesmo	sua	vítima	ou	suas	vítimas)?	Será
que	 o	 ódio	 ignóbil	 e	 a	 ira	 vingativa	 do	 homicida	 não	 estão	 à	 espreita	 nas
sombras	por	trás	do	ato	em	si?	Será	que	isso	não	significa	que	a	ira	e	o	furor
são	em	si	condenáveis?	Por	isso,	Jesus	insiste	em	que	não	só	o	assassino,	mas
qualquer	um	que	tenha	raiva	de	seu	irmão,	está	sujeito	a	julgamento.
Aqui	 cabem	 algumas	 observações.	 Em	 primeiro	 lugar,	 alguns
manuscritos	mais	antigos	do	Novo	Testamento	acrescentam	as	palavras	“sem
motivo”	depois	de	“se	 irar	contra	 seu	 irmão”.	 Isto	é:	 “Maseu	 lhes	digo	que
todo	 aquele	 que	 se	 irar	 contra	 seu	 irmão	 sem	 motivo	 será	 sujeito	 a
julgamento”.	 É	 quase	 certo	 que	 essas	 palavras	 foram	 acrescentadas	 depois.
Alguns	 escribas	 certamente	 acreditavam	 que	 Jesus	 não	 poderia	 ter	 sido	 tão
rigoroso	 a	 ponto	 de	 não	 excluir	 nenhum	 tipo	 de	 ira,	 por	 isso	 inseriram	 as
palavras	para	atenuar	a	declaração.
Em	 segundo	 lugar,	 esse	 modo	 categórico	 e	 antagônico	 de	 falar
caracteriza	grande	parte	das	pregações	de	 Jesus	e,	na	minha	opinião,	 reflete
uma	 maneira	 de	 pensar	 semítica	 e	 poética.	 Teremos	 de	 lidar	 com	 isso
repetidas	 vezes	 no	 Sermão	 do	 Monte,	 mas	 também	 encontraremos	 essa
característica	em	outras	partes.	Em	Lucas	14.26,	por	exemplo,	 Jesus	declara:
“Se	alguém	vem	a	mim	e	não	odeia	seu	pai	e	sua	mãe,	mulher	e	filhos,	irmãos
e	 irmãs	e	 até	 a	própria	vida,	não	pode	 ser	meu	discípulo”.	O	verbo	“odiar”
nesse	versículo	não	pode	ser	entendido	em	sentido	restrito.	O	que	Jesus	está
dizendo	é	que	o	amor	e	a	lealdade	se	devem	a	ele	acima	de	tudo	e	de	todos;
não	 se	 deve	 permitir	 que	 nenhum	 concorrente	 usurpe	 o	 que	 não	 lhe	 é
devido.	Mas	 Jesus	 diz	 isso	 desse	 jeito	 contrastante	 (cf.	Mt	 10.37),	 apesar	 de
defender	 em	 outra	 passagem	 a	 importância	 de,	 por	 exemplo,	 honrar	 pai	 e
mãe	 (Mc	 7.10ss.).	 Na	 verdade,	 é	 importante	 deixar	 essa	 forma	 antitética	 e
categórica	 de	 discurso	 falar,	 com	 toda	 sua	 rígida	 incondicionalidade,	 antes
que	tentemos	moderá-la	com	considerações	mais	gerais.	Em	Mateus	5.21ss.,
Jesus	 relaciona	 a	 ira	 ao	 assassinato:	 aceite	 essa	 relação	 e	 não	 pondere	 que
alguns	 tipos	 de	 ira,	 mesmo	 na	 própria	 vida	 de	 Jesus,	 não	 apenas	 sejam
justificáveis,	mas	legítimas.	Falarei	mais	sobre	isso	adiante.
Em	terceiro	lugar,	se	a	ira	é	proibida,	o	desprezo	também	é.	Raca	é	um
insulto	em	aramaico.	A	palavra	significa	“vazio”	e	talvez	pudesse	ser	traduzida
por	 “seu	cabeça-oca!”	ou	algo	 semelhante.	 Isto	 é,	ninguém	pode	dizer	para
outra	pessoa:	“Seu	idiota!”.
As	pessoas	que	têm	ações	e	atitudes	desse	tipo	são	sujeitas	a	julgamento,
ao	 Sinédrio,	 à	 Geena.	 O	 Sinédrio	 era	 a	 suprema	 corte	 judaica.	 Geena	 é	 a
transliteração	 grega	 de	 duas	 palavras	 semíticas	 que	 significam	 “vale	 do
Hinom”,	uma	ravina	no	sul	de	Jerusalém	onde	era	jogado	e	queimado	o	lixo
e	 que,	 consequentemente,	 passou	 a	 ser	 um	 eufemismo	 para	 “o	 fogo	 do
inferno”.
Alguns	tentaram	entender	nesses	três	passos	—	ira,	Raca,	“Seu	idiota!”	—
uma	 gradação.	 Mas	 é	 difícil	 acreditar	 que	 Jesus	 esteja	 se	 curvando	 a	 esse
sofisma.	 Será	que	 ele	 recorreria	 a	 essas	 filigranas	 de	distinguir	 entre	Raca	 e
“Seu	idiota”?	E	será	que	qualquer	uma	das	duas	poderia	ser	dita	sem	ira?	Jesus
está	 tão	 somente	 dando	 vários	 exemplos	 para	 se	 fazer	 entender.	 Ele	 é	 um
pregador	 que	 expõe	 seu	 argumento	 e	 depois	 faz	 seus	 ouvintes	 sentirem	 o
peso.	 Ele	 confronta	 seus	 ouvintes:	 Vocês,	 que	 se	 acham	 muito	 diferentes,
moralmente	falando,	dos	assassinos	—	nunca	sentiram	ódio?	Nunca	desejaram
que	alguém	morresse?	Não	se	rebaixam	frequentemente	a	ponto	de	desprezar
e	até	caluniar	os	outros?	Toda	essa	ira	difamatória	está	na	raiz	do	homicídio	e
faz	 com	que	 um	homem	 zeloso	 tome	 consciência	 de	 que	moralmente	 não
difere	nem	um	pouco	de	um	assassino	de	verdade.
Da	 mesma	 forma,	 há	 dúvida	 de	 que	 os	 três	 castigos	 —	 julgamento,
Sinédrio	e	fogo	do	inferno	—	devam	ser	entendidos	como	uma	gradação.	Na
teocracia	 do	 Antigo	 Testamento,	 o	 próprio	 Deus	 respaldava	 o	 sistema
jurídico	do	Estado.	O	 julgamento,	 embora	 civil,	 também	era	 divino.	Aqui,
Jesus	percorre	o	sistema	oficial	até	a	punição	máxima	para	deixar	claro	que	o
julgamento	a	ser	temido	é	de	fato	divino,	pois	se	baseia	na	avaliação	que	Deus
faz	do	coração	e	pode	levar	ao	fogo	do	inferno.
Esses	versículos	dizem	algo	muito	importante.	Não	se	deve	pensar	que	a
lei	do	Antigo	Testamento	que	proíbe	o	homicídio	está	sendo	adequadamente
cumprida	desde	que	não	haja	derramamento	de	 sangue.	Em	vez	disso,	 a	 lei
indica	 um	 problema	 mais	 fundamental:	 a	 ira	 difamatória	 do	 ser	 humano.
Jesus,	por	sua	própria	autoridade,	insiste	em	que	o	julgamento	que	se	pensava
estar	 reservado	 apenas	para	 alguém	que	comete	um	assassinato	na	 realidade
paira	 sobre	 os	 irascíveis,	 os	maldosos	 e	 os	 espezinhadores.	 Existe,	 portanto,
alguém	que	permaneça	sem	condenação?
Alguém	 poderia	 perguntar:	 “Mas	 o	 próprio	 Jesus	 não	 ficou	 bastante
irado	algumas	vezes?”.	Sim,	é	verdade.	Ele	sem	dúvida	ficou	contrariado	com
o	comércio	praticado	nas	dependências	do	 templo	 (Mt	21.12ss.	 e	passagens
paralelas).	O	Evangelho	de	Marcos	registra	a	ira	de	Jesus	contra	aqueles	que,
por	 razões	 legalistas	 e	 hipócritas,	 tentavam	 encontrar	 algo	 errado	 nas	 curas
que	 ele	 realizou	 no	 sábado	 (Mc	 3.1ss.).	 E	 certa	 ocasião,	 ao	 dirigir-se	 aos
escribas	e	fariseus,	Jesus	disse:	“Insensatos	e	cegos!”	(Mt	23.17).	Será	que	Jesus
é	culpado	de	grave	incoerência?
De	fato,	há	lugar	para	arder	de	raiva	contra	o	pecado	e	a	injustiça.	Nosso
problema	 é	 que	 nós	 ardemos	 de	 indignação	 e	 ira	 não	 contra	 o	 pecado	 e	 a
injustiça,	mas	contra	o	que	nos	ofende	pessoalmente.	Em	nenhum	dos	casos
em	 que	 Jesus	 se	 irou	 vemos	 seu	 ego	 envolvido	 na	 questão.	 Ainda	 mais
revelador	é	que,	quando	foi	preso	injustamente,	julgado	de	forma	arbitrária,
açoitado	 sem	 condenação,	 insultado	 com	 cusparadas,	 crucificado	 e
escarnecido,	quando	de	 fato	ele	 tinha	 todos	os	motivos	para	que	seu	ego	se
revoltasse,	 Pedro	 diz:	 “Quando	 insultado,	 não	 revidava,	 quando	 sofria,	 não
fazia	 ameaças”	 (1Pe	 2.23).	 De	 seus	 lábios	 ressecados,	 saíram,	 em	 vez	 disso,
estas	palavras	bondosas:	“Pai,	perdoa-lhes,	pois	não	sabem	o	que	fazem”	(Lc
23.34).
Admitamos:	 em	 geral	 somos	 rápidos	 para	 ficar	 irados	 quando	 somos
pessoalmente	afrontados	e	ofendidos,	mas	lentos	para	sentir	ira	quando	vemos
o	pecado	e	a	injustiça	se	multiplicarem	em	outras	áreas.	Nesses	casos,	somos
mais	 inclinados	 a	 filosofar.	Na	 verdade,	 o	 problema	 é	 até	mais	 complicado
que	 isso.	 Às	 vezes	 nos	 envolvemos	 numa	 questão	 legítima	 e	 discernimos,
talvez	com	precisão,	o	certo	e	o	errado	na	situação.	Contudo,	ao	defender	o
lado	certo,	nosso	ego	fica	tão	preso	à	questão	que,	para	nós,	os	oponentes	não
só	estão	do	 lado	errado,	mas	 também	nos	atacando.	Quando	reagimos	com
ira,	 podemos	 nos	 iludir,	 pensando	 que	 estamos	 defendendo	 a	 verdade	 e	 o
direito,	mas	lá	no	fundo	estamos	mais	preocupados	em	nos	defender.
No	Sermão	do	Monte,	apesar	do	modo	incondicional	com	que	proíbe	a
ira,	 Jesus	 não	 está	 proibindo	 todo	 tipo	 de	 ira,	 mas	 a	 que	 se	 origina	 nas
relações	pessoais.	 Isso	 é	óbvio	não	 apenas	pelos	 ensinamentos	 e	 conduta	de
Jesus	 em	outras	ocasiões	 e	porque	 a	 ira	 em	questão	é	 a	que	 se	 encontra	no
coração	 do	 assassino,	 mas	 também	 pelos	 dois	 exemplos	 que	 Jesus	 dá	 para
tornar	seu	argumento	ainda	mais	incisivo	(5.23-26).
O	primeiro	(5.23,24)	fala	de	uma	pessoa	que	vem	cumprir	seus	deveres
religiosos	 (nesse	 caso,	 a	 oferta	 de	 um	 sacrifício	 no	 altar	 do	 templo),	 mas
ofendeu	seu	irmão.	Jesus	insiste	em	que	é	muito	mais	importante	essa	pessoa
se	 reconciliar	com	seu	 irmão	do	que	 se	desincumbir	de	 seu	dever	 religioso,
pois	 este	 último	 passa	 a	 ser	 fingimento	 e	 enganação	 se	 o	 adorador	 se
comportou	tão	mal	que	seu	irmão	tem	algo	contra	ele.	É	mais	importante	ser
absolvido	 da	 ofensa	 diante	 de	 todos	 os	 homens	 do	 que	 chegar	 no	 horário
certo	 ao	 culto	 de	 domingo	 de	 manhã.	 Esqueça	 o	 culto	 de	 adoração	 e	 se
reconcilie	 com	 seu	 irmão;	 só	 depois	 adore	 a	Deus.	Os	 homens	 gostam	 de
substituir	 integridade,	 pureza	 e	 amor	 por	 cerimônias,	mas	 Jesus	 não	 aceita
nada	disso.
O	segundo	exemplo	(5.25,26)	novamente	usa	uma	metáfora	jurídica.	Na
época	de	Jesus,	assim	como	em	séculos	mais	recentes,	quem	não	pagasse	suasdívidas	podia	 ir	para	uma	prisão	para	devedores	até	pagar	a	quantia	devida.
Enquanto	 estivesse	 preso,	 certamanente	 não	 recebia	 nenhum	 dinheiro	 e,
portanto,	 dificilmente	 conseguiria	 quitar	 a	 dívida	 e	 recuperar	 a	 liberdade.
Porém,	seus	amigos	e	entes	queridos,	ansiosos	por	tirá-lo	de	lá,	podiam	fazer
imenso	e	sacrificial	esforço	para	conseguir	o	dinheiro.
Seria	levar	a	metáfora	longe	demais	deduzir	que	Jesus	está	ensinando	que
o	tribunal	celeste	condenará	os	culpados	à	“prisão”	(inferno?)	somente	até	que
tenham	 quitado	 suas	 dívidas.	 As	 dívidas	 em	 questão	 são	 ofensas	 pessoais.
Como,	então,	serão	pagas?	E	como	outras	pessoas	podem	pagar	essas	dívidas
pelo	 preso?	 O	 que	 Jesus	 está	 ressaltando,	 na	 verdade,	 é	 a	 urgência	 da
reconciliação	pessoal.	O	 juízo	 está	 às	 portas,	 e	 a	 justiça	 será	 feita:	 portanto,
afaste-se	de	 toda	maldade	e	ofensa	contra	os	outros,	pois	até	aquele	“que	 se
irar	contra	 seu	 irmão	será	 sujeito	a	 julgamento”	 (5.22).	Desse	modo,	vemos
que,	nesses	dois	casos,	é	a	animosidade	pessoal	que	é	condenada.
Adultério	e	pureza	(5.27-30)
Os	contemporâneos	de	Jesus	 também	tinham	ouvido	o	que	 fora	dito:	“Não
adulterarás”.	Trata-se,	 claro,	 de	 uma	 referência	 ao	 sétimo	mandamento	 (Êx
20.14).
Nossa	 sociedade	 se	 afastou	bastante	dessa	proibição.	Muitos	pensadores
modernos	 defendem	 a	 legitimidade	 do	 adultério	—	 se	 houver	 amor.	Até	 o
cristianismo	é	invocado	para	santificar	esse	ponto	de	vista.	Afinal	de	contas,
dizem	 eles,	 o	 ponto	 central	 do	 evangelho	 não	 é	 o	 amor?	 De	 fato,	 como
veremos,	essa	filosofia	distorce	a	perspectiva	bíblica	tanto	do	amor	quanto	do
casamento.
Na	religião,
que	erro	pode	ser	abominável	se	alguma	fronte	austera
o	defende	e	aprova	com	a	citação	de	um	texto
encobrindo	com	bonito	fraseado	a	deformidade?2
Enquanto	 nossa	 sociedade	 se	 afasta	 do	 sétimo	 mandamento,	 Jesus
caminha	 em	outra	 direção.	Ele	não	 se	 contenta	 com	o	mero	 cumprimento
formal	do	mandamento,	nem	o	está	interpretando	com	rigor.	Em	vez	disso,
com	 sua	 própria	 autoridade,	 ele	 está	 ressaltando	 a	 pureza	 para	 a	 qual	 a	 lei
aponta:	 “Mas	 eu	 lhes	 digo	 que	 qualquer	 um	que	 olhar	 cobiçosamente	 para
uma	mulher	 já	 cometeu	 adultério	 com	 ela	 no	 coração”	 (5.28).	De	 fato,	 ao
colocar	na	concupiscência	o	 rótulo	de	adultério,	 Jesus	aprofundou	o	 sétimo
mandamento	em	relação	ao	décimo,	que	proíbe	a	cobiça.
A	 questão	 não	 é	 proibir	 a	 atração	 normal	 que	 existe	 entre	 homem	 e
mulher,	 mas	 da	 cobiça,	 ou	 lascívia,	 com	 raízes	 profundas	 que	 consome	 e
devora,	ataca	e	viola	em	pensamento,	que	contempla	mentalmente	e	comete
o	 adultério.	 Se	 nossa	 sociedade	 está	minimizando	 a	 proibição	 do	 adultério,
em	grau	muito	maior	 está	 alimentando	nossa	 luxúria.	A	 publicidade	 vende
produtos	usando	o	apelo	do	sexo.	As	livrarias	enchem	as	prateleiras	com	tudo
o	que	é	obsceno	e	pervertido.	A	ampla	maioria	das	canções	populares	realça
as	 relações	 homem/mulher,	 em	 geral	 com	 referência	 à	 satisfação	 sexual,	 ao
desejo	 físico,	 à	 infidelidade	 e	 coisas	 semelhantes.	 A	 essa	 sociedade,	 Jesus
transmite	 sua	 mensagem	 contundente:	 “Qualquer	 um	 que	 olhar
cobiçosamente	para	uma	mulher	 já	cometeu	adultério	com	ela	no	coração”.
Escrevo	 esta	 frase	 com	 vergonha:	 qual	 de	 nós	 não	 é	 culpado	 de	 adultério?
Sinceridade	diante	de	Deus	nesse	assunto	pode	produzir	em	nós	a	pobreza	de
espírito	 que	 nossos	 triunfos	 jamais	 trarão	 e	 nos	 fazer	 chorar	 junto	 com	 o
autor	do	hino:
Uma	coisa	eu	do	Senhor	almejo	—
pois	todo	o	meu	caminhar	tem	sido	trevas	—
seja	por	terremoto,	vento	ou	fogo,
Senhor,	purifica-me.	Senhor,	purifica-me!3
Precisamos	da	atitude	mencionada	por	Jesus	em	5.29,30:	“Se	o	seu	olho
direito	o	fizer	pecar,	arranque-o	e	jogue-o	fora.	É	melhor	perder	uma	parte
do	seu	corpo	do	que	ser	todo	ele	lançado	no	inferno.	Se	a	sua	mão	direita	o
fizer	pecar,	corte-a	e	jogue-a	fora.	É	melhor	perder	uma	parte	do	seu	corpo
do	 que	 ir	 todo	 ele	 para	 o	 inferno”.	 O	 olho	 foi	 escolhido	 nessa	 passagem
porque	 olhou	 e	 cobiçou;	 a	 mão	 foi	 escolhida	 provavelmente	 porque	 o
adultério,	mesmo	em	pensamento,	é	um	tipo	de	roubo.
Alguns	 interpretaram	essas	palavras	 literalmente.	Orígenes	 (c.	195-254)
castrou-se	para	não	ser	tentado.	Mas	isso,	acredito,	erra	o	alvo	do	argumento
de	 Jesus	 e	 o	 caráter	 absoluto	 da	 pregação	 de	 Jesus	 que	 observamos
anteriormente,	 pois,	 se	 eu	 arranco	 meu	 olho	 direito	 porque	 ele	 olhou	 e
cobiçou,	meu	olho	esquerdo	não	pode	fazer	o	mesmo?	E,	se	eu	me	cegar,	será
que	não	posso	cobiçar	da	mesma	maneira	e	contemplar	mentalmente	coisas
proibidas?
O	que	Jesus	quer	dizer,	então?	Apenas	isto:	temos	de	lidar	com	o	pecado
radicalmente.	Não	devemos	acariciá-lo,	flertar	com	ele	nem	fazer	concessões
de	 vez	 em	 quando.	 Temos	 de	 odiar	 o	 pecado,	 esmagá-lo,	 extirpá-lo.
“Portanto,	 façam	 morrer	 tudo	 o	 que	 pertence	 à	 sua	 natureza	 terrena:
imoralidade	 sexual,	 impureza,	 paixões,	 maus	 desejos	 e	 a	 avareza,	 que	 é
idolatria”	(Cl	3.5).	Paulo	acrescenta:	“Por	causa	dessas	coisas	é	que	vem	a	ira
de	Deus”	(Cl	3.6)	—	como	em	Mateus	5.29,30.	Jesus	ameaça	com	o	inferno
todos	aqueles	que	não	lidam	com	o	pecado	radicalmente.
Nossa	geração	tem	uma	atitude	condescendente	em	relação	ao	pecado.
O	 pecado	 na	 nossa	 sociedade	 é	 visto	mais	 como	 anormalidade	 ou	 doença.
Precisa	de	tratamento,	não	de	condenação	ou	arrependimento;	e	não	deve	ser
reprimido,	porque	isso	pode	causar	dano	psicológico.	Sei	muito	bem	como	o
pecado	 seduz,	 envolve	 e	 produz	 vítimas	 patéticas,	 mas	 as	 vítimas	 não	 são
sujeitos	passivos.	No	ensino	de	Jesus,	o	pecado	leva	para	o	inferno,	e	esse	é	o
principal	motivo	por	que	deve	ser	levado	a	sério.
Extrapolação:	divórcio	e	novo	casamento	(5.31,32)
A	discussão	sobre	adultério	e	pureza	leva	naturalmente	à	questão	do	divórcio.
Os	 judeus	 da	 época	 de	 Jesus	 tinham	ouvido	 que	 o	 homem	que	 quisesse	 se
divorciar	 de	 sua	 mulher	 tinha	 de	 lhe	 dar	 um	 documento	 de	 divórcio.	 Na
verdade,	 o	 que	 eles	 tinham	 ouvido	 não	 era	 totalmente	 verdadeiro.	 A
passagem	do	Antigo	Testamento	a	que	se	recorria	era	Deuteronômio	24.1-4.
A	 essência	 dessa	 passagem	é:	 se	um	homem	descobre	 alguma	 impureza	 em
sua	mulher	 e	 se	divorcia	dela,	 dando-lhe	um	documento	de	divórcio,	 e	 ela
depois	 se	 casa	 com	 outro	 homem	 que	 também	 acaba	 se	 divorciando	 dela,
então	o	primeiro	marido	não	pode	se	casar	de	novo	com	ela.
Na	 época	 de	 Jesus,	 esse	 princípio	 importantíssimo	 havia	 sido	 posto	 de
lado	 com	 o	 intuito	 de	 concentrar	 a	 atenção	 na	 “impureza”	 que	 tornaria
legítimo	 o	 primeiro	 divórcio.	 A	 expressão	 empregada	 nesse	 caso	 para
“impureza”	 só	é	usada	outra	vez	no	Antigo	Testamento,	quando	se	refere	à
depuração	humana.	Não	está	claro	a	que	impureza	sexual	Deuteronômio	24.1
se	refere.	De	qualquer	modo,	trata-se,	mesmo	na	perspectiva	mosaica,	de	algo
excepcional.	Nos	 dias	 de	 Jesus,	 porém,	 alguns	 até	 ensinavam	que	podia	 ser
alguma	imperfeição	da	esposa	de	caráter	absolutamente	trivial,	como	servir	ao
marido	comida	acidentalmente	queimada.
Jesus,	 porém,	 não	 permite	 sofismas.	 Aqui,	 assim	 como	 em	 Mateus
19.3ss.,	ele	volta	aos	primeiros	princípios.	No	começo,	Deus	fez	um	homem	e
uma	 mulher,	 e	 eles	 foram	 unidos.	 Inicialmente,	 todo	 divórcio	 era
inconcebível;	 quando	 Deus	 criou	 homens	 e	 mulheres,	 não	 deu	 nenhuma
permissão	para	isso.	O	Criador	disse:	“Por	isso,	o	homem	deixará	seu	pai	e	sua
mãe	e	se	unirá	à	sua	mulher,	e	os	dois	serão	uma	só	carne”.	Jesus	acrescenta:
“Assim,	eles	já	não	são	dois,	mas	uma	só	carne.	Portanto,	o	que	Deus	uniu	o
homem	não	 separe”	 (Mt	19.5,6).	Deus,	de	 fato,	odeia	o	divórcio	 (Ml	2.16).
Dentro	dessa	estrutura,	portanto,	é	óbvio	que,	se	Moisés	permitiu	o	divórcio
por	 alguma	 impureza	 repulsiva,	 isso	 foi	 uma	 exceção	 que	 tem	 sua	 raison
d’être	no	coração	duro	e	pecaminoso	do	homem.
Em	Mateus	5.31,32,	 Jesus	esclareceas	 ideias	erradas	e	mostra	para	qual
direção	o	Antigo	Testamento	 aponta.	Qualquer	um	que	 se	 divorcie	 de	 sua
mulher	está	errado,	porque	está	fazendo	que	ela	cometa	adultério	caso	venha
a	se	casar	com	outro,	já	que	o	primeiro	vínculo	não	está	rompido.	Segue-se,
portanto,	 que	 o	 homem	 que	 se	 casa	 com	 uma	 divorciada	 também	 está
cometendo	 adultério.	 Diante	 de	 Deus,	 ele	 está	 de	 fato	 se	 casando	 com	 a
mulher	 de	 outro	 homem	 (5.32).	 A	 única	 exceção	 que	 Jesus	 faz	 é	 a
“fornicação”.	Cristãos	 de	 diferentes	 tendências	 têm	dito	 que	 essa	 palavra	 se
refere	a	todo	tipo	de	pecados	específicos;	mas,	até	onde	sei,	esse	é	um	termo
inclusivo	 que	 se	 refere	 a	 toda	 irregularidade	 sexual.	 Para	 um	 casal	 casado,
envolve	infidelidade	sexual.	Mesmo	nesse	caso,	o	homem	não	é	obrigado	a	se
divorciar	 de	 sua	 mulher,	 mas	 tem	 a	 permissão	 de	 fazê-lo	 como	 uma
concessão.	A	mesma	condição	de	exclusão	aparece	em	Mateus	19	e	se	refere
tanto	ao	divórcio	quanto	ao	novo	casamento.
Isso	não	é	tudo	o	que	a	Bíblia	tem	a	dizer	sobre	o	assunto,	e	precisamos
ter	muito	cuidado	ao	juntar	todos	os	pedaços.	No	entanto,	esse	é	o	cerne	da
questão,	 e	 nossa	 geração	 precisa	 ser	 confrontada	 com	 tais	 exigências.
Antigamente	o	divórcio	era	um	problema	raramente	encontrado	nos	círculos
evangélicos.	 Para	 nossa	 vergonha,	 isso	 mudou.	 Nossa	 sociedade,	 incluindo
muitos	cristãos	professos,	rejeitou	o	conceito	bíblico	de	amor	e	casamento.	O
amor	 passou	 a	 ser	 uma	mistura	 de	 desejo	 físico	 e	 sentimentalismo	 vago;	 o
casamento	tornou-se	uma	união	 sexual	provisória	que	dura	 até	o	momento
em	que	esse	amor	patético	e	nanico	acaba.
Como	é	diferente	a	perspectiva	bíblica!	Na	Palavra	de	Deus,	casamento	e
amor	são	para	os	fortes.	Casamento	é	compromisso,	e,	em	vez	de	roer	a	corda
quando	as	coisas	ficam	difíceis,	os	cônjuges	devem	resolver	seus	problemas	à
luz	 das	 Escrituras.	 Devem	 persistir,	 esforçando-se	 para	 melhorar	 o
relacionamento,	 exatamente	 porque	 prometeram,	 diante	 de	 Deus	 e	 dos
homens,	viver	juntos	e	amar	um	ao	outro	na	alegria	e	na	tristeza,	na	riqueza	e
na	 pobreza,	 na	 saúde	 e	 na	 doença,	 até	 que	 a	 morte	 os	 separe.	 Amor	 é	 o
compromisso	determinado	de	procurar	o	bem	do	outro,	tratar	com	carinho,
proteger,	cuidar,	edificar	e	ser	paciente.	Esse	compromisso,	posto	em	prática
por	causa	da	profunda	obediência	a	Deus,	 também	traz	consigo	os	aspectos
emocionais	e	sentimentais	do	amor.
Jesus	pressupõe	esse	conceito	elevado	de	casamento	quando,	com	apenas
uma	exceção,	proíbe	terminantemente	o	divórcio.	E	é	esse	conceito	elevado
do	casamento	que	sublinha	as	palavras	incisivas	de	Jesus	a	respeito	da	cobiça
(5.27-30)	 e	 dá	 unidade	 a	 esse	 bloco	 temático	 (5.27-32).	 Casamento	 não	 é
sujo,	 sexo	não	é	 imundície.	Os	dois	 são	maravilhosos	dons	do	Criador,	mas
são	 prostituídos	 pela	 luxúria	 e	 aviltados	 pelo	 divórcio.	A	 Lei	 e	 os	 Profetas,
pela	autoridade	do	próprio	 Jesus,	 indicam	a	necessidade	de	absoluta	pureza,
que	não	deve	ser	trivializada	por	sofismas	que	buscam	excluí-la.
Juramentos	e	honestidade	(5.33-37)
No	terceiro	bloco	de	texto,	Jesus	aborda	a	questão	da	honestidade.	As	pessoas
tinham	ouvido	o	que	fora	dito	muito	tempo	atrás:	“Não	quebre	sua	promessa,
mas	cumpra	os	juramentos	que	fez	ao	Senhor”	(5.33).	Isso	não	é	citação	direta
do	 Antigo	 Testamento,	 mas	 uma	 alusão	 a	 passagens	 como	 Êxodo	 20.7,
Levítico	 19.12,	 Números	 30.2	 e	 Deuteronômio	 23.21-24.	 Contudo,	 Jesus
agora	diz:	“Não	jurem	de	forma	alguma”	(5.34).
Alguns	pensam	que	 isso	as	proíbe	de	 fazer	 juramento	num	tribunal	ou
de	 prestar	 juramento	 de	 lealdade.	 O	 desejo	 dessas	 pessoas	 de	 obedecer	 à
Palavra	de	Deus	é	admirável,	mas	tenho	de	admitir	que	elas	não	a	entenderam
direito.	 Como	 sempre,	 Jesus	 está	 pregando	 por	 antítese,	 e	 é	 importante
descobrir	 exatamente	 o	 que	 ele	 está	 dizendo	 antes	 de	 tomarmos	 sua
declaração	com	essa	incondicionalidade	insensível.
Antes	de	tudo,	é	preciso	notar	que	o	Antigo	Testamento	permite	que	os
homens	 façam	 juramentos,	 até	 em	nome	de	Deus:	 “Temam	o	 Senhor,	 o	 seu
Deus,	e	sirvam	a	ele.	Apeguem-se	a	ele	e	jurem	somente	pelo	seu	nome”	(Dt
10.20).	 Mesmo	 no	 Novo	 Testamento,	 Paulo,	 por	 exemplo,	 jura	 com
frequência	pelo	nome	de	Deus.	Ele	até	convoca	Deus	como	sua	testemunha
(Rm	 1.9;	 2Co	 1.23;	 1Ts	 2.5,10;	 cf.	 Fp	 1.8).	 Portanto,	 se	 Paulo	 sabia	 desse
ensino	 de	 Jesus,	 ele	 certamente	 não	 o	 interpretou	 de	 forma	 absoluta.	 O
próprio	Deus	 jura:	 ele	 jura	não	 enviar	 outro	dilúvio	universal	 (Gn	9.9-11),
jura	 enviar	 um	 redentor	 (Lc	 1.68,73),	 jura	 ressuscitar	 seu	 Filho	 dentre	 os
mortos	(Sl	16.10;	At	2.27-31),	e	muito	mais.
Todos	 esses	 votos	 e	 esses	 juramentos	 têm	 o	 propósito	 de	 estimular	 a
honestidade	 ou	 torná-la	 ainda	 mais	 solene	 e	 garantida.	 Às	 vezes	 isso	 é	 até
soletrado	 para	 nós.	 Em	 um	 caso,	 por	 exemplo,	 lemos:	 “Porque	 Deus,
querendo	 mostrar	 claramente	 a	 natureza	 imutável	 de	 seu	 propósito	 aos
herdeiros	 da	 promessa,	 confirmou-o	 com	 um	 juramento”	 (Hb	 6.17).	 Pelo
mesmo	 motivo,	 o	 código	 mosaico	 proibia	 apenas	 os	 juramentos	 falsos	 ou
irreverentes,	que	devem	ser	considerados	profanação	do	nome	de	Deus.
Infelizmente,	contudo,	na	época	de	 Jesus,	os	 judeus	haviam	construído
todo	um	sistema	legalista	em	torno	dos	ensinamentos	do	Antigo	Testamento.
O	 código	 jurídico	 judeu,	 a	Mishná,	 contém	um	 tratado	 inteiro	 dedicado	 à
questão	dos	juramentos,	incluindo	uma	análise	detalhada	de	quando	eles	são
compulsórios	e	quando	não	são.	Por	exemplo,	um	rabino	diz	que,	se	alguém
jurar	por	Jerusalém,	não	está	obrigado	por	seu	voto;	mas	se	jurar	na	direção
de	 Jerusalém,	 está	 obrigado	 a	 cumprir	 seu	 voto.	 Assim,	 os	 juramentos
degeneram	numa	 série	 de	 regras	 terríveis	 que	 informam	quando	 é	 possível
usar	mentiras	e	falsidade	impunemente	e	quando	não	é.	Esses	juramentos	não
incentivam	 mais	 a	 honestidade,	 mas	 enfraquecem	 a	 causa	 da	 verdade	 e
promovem	 o	 engano.	 Jurar	 evasivamente	 passa	 a	 ser	 uma	 desculpa	 para
mentir.
Jesus	 não	 permite	 esse	 tipo	 de	 sofisma	 entre	 seus	 seguidores.	 Se	 os
homens	querem	 fazer	 esse	 jogo	com	os	votos,	 ele	 simplesmente	 acaba	com
todo	e	qualquer	voto.	Jesus	está	interessado	em	honestidade,	sua	constância	e
incondicionalidade.
Jesus	dá	exemplos.	Os	homens	não	devem	jurar	pelo	céu	nem	pela	terra,
pois	estes	são	respectivamente	o	trono	de	Deus	e	o	escabelo	de	seus	pés.	As
pessoas	 também	 não	 devem	 jurar	 voltadas	 em	 direção	 a	 Jerusalém	 (se
traduzirmos	a	preposição	literalmente),	pois	é	a	cidade	de	Deus,	o	grande	Rei.
Não	se	deve	jurar	nem	pela	própria	cabeça	(cp.	com	1Sm	1.26;	Sl	15.4),	pois
não	podem	mudar	a	cor	de	um	fio	de	cabelo	sequer:	isto	é,	estão	jurando	por
uma	coisa	sobre	a	qual	só	Deus	tem	total	controle.	Em	outras	palavras,	Jesus
associa	todo	voto	a	Deus.	Jurar	por	qualquer	coisa	é	jurar	por	Deus,	pois	ele
está	 por	 trás	 de	 tudo.	 Portanto,	 nenhum	 juramento	 é	 trivial,	 nenhum
juramento	é	uma	evasiva	justificável;	todo	juramento	é	uma	promessa	solene
de	falar	a	verdade.	Jesus	expande	essa	questão	em	outra	passagem:
Ai	de	vocês,	guias	cegos!	Vocês	dizem:	“Se	alguém	jurar	pelo	templo,	isso	não	tem	importância;
mas,	 se	 alguém	 jurar	 pelo	 ouro	 do	 templo,	 fica	 obrigado	 pelo	 seu	 juramento”.	 Cegos	 e
insensatos!	O	que	é	maior:	o	ouro	ou	o	templo,	que	santifica	o	ouro?	Vocês	também	dizem:	“Se
alguém	jurar	pelo	altar,	isso	não	tem	importância;	mas,	se	alguém	jurar	pela	oferta	sobre	ele,	fica
obrigado	por	seu	juramento”.	Cegos!	O	que	é	maior:	a	oferta	ou	o	altar,	que	santifica	a	oferta?
Portanto,	quem	jurar	pelo	altar	 jura	por	ele	e	por	 tudo	o	que	está	 sobre	ele.	Quem	jurar	pelo
templo	jura	por	ele	e	por	aquele	que	nele	habita;	e	quem	jurar	pelo	céu	jura	pelo	trono	de	Deus
e	por	quem	está	assentado	nele	(Mt	23.16-22).
A	verdadeira	questão	aqui	 é	 a	honestidade.	Para	o	 seguidor	de	 Jesus,	 é
melhorapenas	dizer	“sim”	ou	dizer	“não”	com	sinceridade.	No	contexto	da
época	de	Jesus,	tudo	o	que	passe	disso	vem	do	Maligno	(5.37),	que	é	chamado
bem	apropriadamente	de	pai	da	mentira	(Jo	8.44).	O	ensino	de	Jesus	sobre	a
honestidade	causou	profunda	impressão	na	igreja	primitiva,	pois	naquela	que
foi	 talvez	 a	 primeira	 epístola	 do	Novo	Testamento,	 a	 Epístola	 de	Tiago,	 a
mesma	questão	é	enfatizada	(Tg	5.12).
Os	cristãos	 afirmam	 ter	 a	verdade	e	 seguir	 aquele	que	é	 a	Verdade	 (Jo
14.6).	Em	nossas	conversas,	portanto,	verdade	deve	ser	o	nosso	lema.	Quantos
de	 nós	 floreamos	 um	pouco	 nossas	 histórias	 de	 uma	 forma	 reprovável,	 seja
para	 reforçar	 nosso	 argumento,	 seja	 para	 parecermos	mais	 interessantes	 aos
olhos	dos	outros	do	que	os	fatos	reais	permitiriam?	Quantos	de	nós	dizemos
que	 vamos	 fazer	 uma	 coisa	 e	 depois	 voltamos	 atrás	 porque	 cumprir	 a
promessa	nos	traz	algum	inconveniente?	Vocês,	que,	como	eu,	são	mestres	e
pregadores,	quantas	vezes	também	forjam	provas	para	demonstrar	um	ponto
de	 vista	 ou	 falam	 categoricamente	 sobre	 assuntos	 que	 desconhecem,	 na
esperança	 de	 que	 sua	 postura	 dogmática	 consiga	 esconder	 a	 própria
ignorância?	Não	 estou	 falando	 de	 um	 erro	 honesto,	mas	 de	 fraude.	Nosso
Senhor	 insiste	 em	 que	 a	 Escritura	 do	 Antigo	 Testamento	 aponta	 para	 a
honestidade,	 e	 todos	 os	 que	 se	 submetem	 à	 autoridade	 dele	 devem	 falar
somente	a	verdade.
Abuso	pessoal	e	autossacrifício	(5.38-42)
O	 povo	 judeu	 tinha	 ouvido	 o	 que	 fora	 dito:	 “Olho	 por	 olho	 e	 dente	 por
dente”.	 Essa	 lei	 famosa	 encontra-se	 em	 Êxodo	 21,	 Levítico	 24	 e
Deuteronômio	 19.	 É	 preciso	 lembrar	 dois	 aspectos	 a	 respeito	 dessa	 lei.
Primeiro,	por	mais	prescritiva	que	possa	ter	sido,	ela	também	era	restritiva	e,
por	 isso,	 um	 instrumento	 excelente	 para	 eliminar	 vingança	 entre	 famílias	 e
guerras	entre	tribos.	Imagine	que	alguém	decepe	a	mão	de	meu	irmão,	e	eu
vá	 até	 lá	 e	 corte	 a	 cabeça	 do	 agressor.	 A	 violência	 inicial	 imediatamente
aumentou	de	proporção,	e	a	família	do	agressor	pode	achar	que	tem	o	dever
de	honra	de	massacrar	a	mim	e	à	minha	família.	Onde	isso	vai	parar?	Porém,
se,	 em	 vez	 disso,	 o	 ato	 inicial	 de	 violência	 é	 retribuído	 precisamente	 no
mesmo	 tipo	 e	no	mesmo	grau,	 um	olho	por	 um	olho	 e	 um	dente	 por	 um
dente,	isso	põe	fim	à	questão.	Em	segundo	lugar,	a	lei	foi	dada	ao	povo	judeu
como	nação.	Não	se	destinava	a	ser	aplicada	por	indivíduos	na	execução	de
vinganças	pessoais,	mas	pelo	judiciário.
Na	 época	 de	 Jesus,	 no	 entanto,	 esses	 dois	 fundamentos	 eram
frequentemente	deixados	de	lado.	Tornou-se	muito	fácil	entender	a	lei	como
prescritiva	e	só	ligeiramente	restritiva.	A	questão,	assim,	passou	a	ser:	Até	que
ponto	posso	ir	com	minha	vingança	pessoal	sem	infringir	a	lei?	Pior	ainda:	a
lei	 estava	 sendo	 arrastada	 para	 a	 arena	 pessoal,	 em	 que	 dificilmente	 podia
promover	 nem	 mesmo	 uma	 justiça	 grosseira,	 antes	 só	 rancor,	 desejo	 de
vingança,	maldade	e	ódio.
Jesus	 responde	 com	 avassaladora	 autoridade:	 “Mas	 eu	 lhes	 digo:	 ‘Não
resistam	ao	homem	mau”	(5.39).	Como	se	deve	interpretar	essa	declaração?	A
ideia	de	Tolstói	de	que	não	deveria	haver	soldados,	policiais	nem	magistrados
porque	eles	 resistem	aos	homens	maus	 ficou	 famosa.	Mas	preste	atenção	no
que	 Tolstói	 está	 fazendo:	 ele	 está	 extrapolando	 a	 declaração	 de	 Jesus	 para
dizer	que	ninguém	pode	resistir	a	um	homem	mau	que	esteja	atacando	uma
terceira	pessoa.	Por	exemplo,	por	duas	vezes	estive	em	uma	situação	em	que
minha	presença	 física	 impediu	a	violência.	Ambas	ocorreram	tarde	da	noite
num	 bairro	marginalizado	 de	Toronto.	 Em	 uma	 das	 ocasiões,	 um	 homem
estava	agredindo	uma	moça	e	fugiu	correndo	quando	eu	me	aproximei.	Na
outra,	 um	 bêbado	 estava	 ameaçando	 com	 uma	 garrafa	 um	 casal,	 que	 se
encolhia	de	medo	num	canto.	Eu	me	meti	entre	o	bêbado	e	o	casal	e	mandei
que	eles	saíssem	correndo	dali.	É	claro	que	o	bêbado	se	voltou	contra	mim,
mas	 nem	 tentou	 enfiar	 a	 garrafa	 na	 minha	 cara,	 e	 assim	 me	 poupou	 da
necessidade	de	arrancá-la	da	mão	dele.	No	entanto,	não	há	como	negar	que
eu	 sou	culpado	de	 resistir	 a	uma	pessoa	má.	Será	que	 a	ordem	de	 Jesus	me
condena	pelo	que	fiz?
Poucos	 responderiam	 que	 sim.	 Contudo,	 muitos	 cristãos	 estariam
preparados	para	discutir,	com	base	no	que	Jesus	diz	aqui,	que	nenhum	cristão
deve	 jamais	 resistir	 ao	 mal	 dirigido	 contra	 ele.	 Portanto,	 em	 princípio,
nenhum	cristão	deveria	jamais	entrar	para	a	polícia	ou	para	as	forças	armadas.
Tais	pessoas	reconhecem	que	Deus	deu	o	poder	da	espada	ao	Estado	(cf.	Rm
13.1-7),	mas	concluem	que	nenhum	cristão	 jamais	deveria	 se	encontrar	em
nenhuma	 força	 de	 segurança	 ou	 autoridade	 civil	 que	 lhe	 exija	 resistir	 a
pessoas	más.	Esses	pacifistas	consideram	que	qualquer	alternativa	enfraquece	o
que	Jesus	ensina	no	Sermão	do	Monte.4
Esse	problema	não	é	fácil,	e	não	é	o	que	eu	escrevo	aqui	que	vai	resolvê-
lo.	Contudo,	é	preciso	levar	em	conta	tanto	o	ambiente	histórico-cultural	em
que	Jesus	estava	pregando	quanto	o	estilo	antitético	tão	característico	de	seu
discurso.	 Por	 exemplo,	 Jesus	 diz	 em	 5.42:	 “Dê	 a	 quem	 lhe	 pede”.	 Em
Cambridge,	 na	 Inglaterra,	 onde	 apresentei	 este	 conteúdo	 em	 forma	 de
palestra	 pela	 primeira	 vez,	 uma	 grande	 quantidade	 de	mendigos	 anda	 atrás
dos	alunos,	e	muitas	vezes	 são	até	agressivos,	exigindo	dinheiro,	comida	ou
roupas.	Alguns	desses	mendigos	estão	em	miséria	extrema,	e	é	uma	vergonha
que	não	exista	um	centro	de	assistência	adequado	para	atender	essas	pessoas.
Mas	muitos	estão	só	se	aproveitando	dos	estudantes.	Eles	sabem	quais	são	os
de	coração	mais	mole,	e	o	que	fazem	com	eles	é	predação	em	sentido	literal.
Várias	 vezes	 fui	 abordado	 por	 alguém	 me	 pedindo	 dinheiro	 para	 comprar
comida	 ou	 pagar	 um	 abrigo,	mas	 quando,	 em	 vez	 de	 dar	 dinheiro,	 eu	me
oferecia	para	 ir	 comprar	um	prato	de	comida	para	o	pedinte	ou	 ir	 com	ele
procurar	 um	 abrigo,	 ele	 não	 aceitava	 e	 me	 respondia	 com	 um	 monte	 de
desaforos.	Eles	 sempre	dizem	que	querem	dinheiro	porque	estão	com	fome
ou	não	 têm	onde	dormir;	em	muitos	casos,	porém,	gastam	o	dinheiro	com
bebida.
Será	que	 é	 responsabilidade	do	cristão	 sustentar	mendigos	profissionais
ou	 pagar	 a	 droga	 que	 está	 arruinando	 a	 vida	 de	 um	 ser	 humano?	Quando
Jesus	 diz:	 “Dê	 a	 quem	 lhe	 pede”,	 será	 que	 está	 dizendo	 que	 não	 existem
circunstâncias	em	que	essa	ordem	não	se	aplica?	Conheço	um	aluno	de	pós-
graduação	de	Cambridge	cuja	 terna	consciência	o	 fez	pensar	que	sim,	e	ele
acabou	falido	por	causa	disso,	quase	passando	fome,	enquanto	dava	dinheiro
para	 suprir	 de	 bebida	 alcoólica	 meia	 dúzia	 de	 homens	 que	 estariam	 bem
melhor	se	não	bebessem.	No	fim,	algumas	pessoas	o	ajudaram	a	entender	que
suas	 ações,	 embora	bem-intencionadas,	 não	 estavam	 ajudando	 nem	 aqueles
homens	 nem	 a	 ele	 mesmo,	 além	 de	 não	 honrarem	 a	 Jesus	 nem	 seus
ensinamentos.
Logo,	 por	 mais	 que	 desejemos	 seguir	 a	 Jesus	 com	 seriedade,
descobrimos,	 mais	 cedo	 ou	 mais	 tarde,	 que	 isso	 implica	 meditar	 muito	 e
seriamente	sobre	o	que	ele	disse	e	o	que	não	disse.	Talvez	não	cheguemos	à
unanimidade	 em	 todos	 os	 pontos,	mas	 temos	 de	 concordar	 que	 absolutizar
qualquer	 texto,	 sem	 o	 devido	 respeito	 pelo	 contexto	 e	 fluxo	 de	 raciocínio,
bem	como	por	outras	declarações	de	Jesus	em	outras	passagens,	 tem	grande
probabilidade	de	gerar	distorções	e	erros	de	interpretação.
Do	modo	que	entendo	esses	versículos,	não	creio	que	 Jesus	 tivesse	 em
mente	 policiais	 e	 soldados.	 O	 ensino	 explícito	 do	 Novo	 Testamento	 em
relação	 a	 essas	 profissões	 tem	 mais	 a	 ver	 com	 integridade,	 contentamento
com	o	salário	e	coisas	assim.5
Em	vez	disso,	em	Mateus	5.38-42	Jesus	está	 falando	de	abuso	pessoal	e
sacrifício	 pessoal,	 usando	 a	 interpretação	 equivocada	 da	 lei	 do	 Antigo
Testamento	como	ponto	de	partida	de	seu	ensino.Os	quatro	exemplos	que
ele	dá	apoiam	essa	ideia.
O	primeiro	refere-se	a	alguém	que	recebe	um	forte	tapa	no	rosto	com	as
costas	da	mão,	um	tremendo	insulto.	O	seguidor	de	Jesus	deve	estar	disposto
a	 levar	 mais	 um	 em	 vez	 de	 revidar.	 Há	 histórias	 famosas	 de	 pessoas	 cujo
caráter	foi	transformado	após	a	conversão,	como,	por	exemplo,	Billy	Bray,	o
pugilista	 e	 Tom	 Skinner,	 líder	 dos	 Harlem	 Lords.	 Antes	 brigões,	 hostis	 e
agressivos,	 depois	 de	 convertidos	 eles	 se	 tornaram	 humildes	 diante	 dos
insultos	e	golpes	que	recebem	e	não	reagem	mais	a	 tais	agressões	 (com	essa
atitude,	 impressionaram	 muitos	 de	 seus	 agressores).	 Essa	 conduta	 é
particularmente	 importante,	 é	 claro,	quando	a	violência	 e	o	 abuso	ocorrem
em	consequência	de	alguma	posição	de	defesa	da	justiça	(cf.	5.10-12),	mas	o
texto	não	precisa	se	restringir	a	isso.
O	 segundo	 exemplo	 diz	 respeito	 a	 um	 processo	 legal	 em	 que	 um
homem	 vai	 provavelmente	 perder	 sua	 “túnica”,	 uma	 vestimenta	 longa	 que
corresponde	 a	 um	 vestido	 ou	 terno	 dos	 dias	 de	 hoje.	O	 seguidor	 de	 Jesus
entrega	 essa	 túnica	 também,	 embora	 tal	 traje	 fosse	 considerado	 um	 bem
inalienável	 segundo	 a	 lei	 judaica	 (Êx	 22.26,27).	 Obviamente,	 é	 pouco
provável	que	houvesse	uma	disputa	judicial	por	causa	de	uma	peça	de	roupa.
Mas	o	que	está	em	jogo	aqui	é	um	princípio:	precisamos	estar	prontos	a	abrir
mão	 até	 daquilo	 que	 consideramos	 nossos	 direitos	 garantidos	 por	 lei.	 Em
outro	contexto,	Paulo	discorre	mais	 sobre	esse	princípio,	quando	 insiste	em
que	os	seguidores	de	Jesus	devem	preferir	ser	injustiçados	a	entrar	em	litígio
com	outro	seguidor	de	Jesus	(1Co	6.7,8).
O	terceiro	exemplo	provavelmente	se	refere	à	prática	romana	de	exigir
que	civis	realizassem	tarefas.	“Se	alguém	obrigar	você	a	caminhar	uma	milha,
vá	 com	 ele	 duas”	 (5.41).	 Um	 soldado	 romano	 comum	 podia	 ordenar
legalmente	a	um	civil	que	o	ajudasse,	por	exemplo,	a	carregar	sua	bagagem
por	 uma	 distância	 determinada.	 Os	 seguidores	 de	 Jesus	 não	 devem	 ficar
irritados	 nem	 se	 sentir	 explorados	 nesses	 casos,	 como	 se	 estivessem	 sendo
pessoalmente	 insultados.	 Em	 vez	 disso,	 devem	 aceitar	 a	 imposição	 de	 bom
grado	e	dobrar	a	distância.
O	último	exemplo	de	Jesus	 fala	de	dar	e	emprestar	com	boa	vontade	e
alegria.	A	questão	aqui	não	é	a	sabedoria	ou	a	tolice	de	emprestar	dinheiro	a
todo	o	mundo	que	venha	pedir	 (sobre	 isso,	 veja	Pv	11.15;	 17.18;	 22.26)	—
como	 também	os	 pedintes	 de	Cambridge	 não	 são	 a	 questão	 em	debate.	O
tema	central	da	passagem	é:	Cristo	não	 tolera	 atitude	mercenária,	 avarenta,
mesquinha,	que	é	o	análogo	financeiro	da	interpretação	legalista	de	“olho	por
olho	e	dente	por	dente”.	“Dê	a	quem	lhe	pede	e	não	volte	as	costas	a	quem
deseja	lhe	pedir	emprestado”	(5.42).	Não	fique	se	perguntando	o	tempo	todo:
“O	que	eu	ganho	com	isso?	O	que	posso	conseguir	em	troca?”.
A	 mentalidade	 legalista,	 que	 tem	 fixação	 por	 represália	 e	 pelo	 que
considera	 equidade,	 dá	muita	 importância	 aos	 direitos	 de	 um	 indivíduo.	O
que	Jesus	está	dizendo	nesses	versículos,	mais	do	que	qualquer	outra	coisa,	é
que	 seus	 seguidores	 não	 têm	 direitos.	 Eles	 não	 têm	 o	 direito	 de	 pagar	 na
mesma	moeda	e	de	executar	vingança	(5.39),	eles	não	têm	direito	a	seus	bens
(5.40),	nem	a	seu	tempo	e	dinheiro	(5.41,42).	Mesmo	seus	direitos	individuais
protegidos	por	 lei	 às	vezes	podem	ser	 abandonados.	Por	 isso,	 seria	um	erro
interpretar	 a	 passagem	 de	 5.41	 como	 se	 ela	 dissesse,	 por	 exemplo,	 que	 o
seguidor	de	Jesus	deve	estar	preparado	para	andar	duas	milhas,	mas	nem	um
centímetro	 a	 mais!	 O	 sacrifício	 individual	 substitui	 a	 retaliação	 individual,
pois	foi	esse	o	caminho	que	o	próprio	Salvador	tomou,	o	caminho	da	cruz.	O
caminho	da	cruz,	não	noções	de	“certo	ou	errado”,	é	o	princípio	de	conduta
do	cristão.
Ódio	e	amor	(5.43-47)
A	discussão	 sobre	 abusos	praticados	 contra	 a	pessoa	 e	 a	 reação	de	 sacrifício
individual	 leva	 naturalmente	 à	 questão	mais	 ampla	 do	 amor	 e	 do	 ódio.	 As
pessoas	 tinham	ouvido	o	que	 fora	dito:	 “Ame	o	 seu	próximo	e	odeie	o	 seu
inimigo”	(5.43).	Mais	uma	vez,	o	que	ouviram	não	era	verdade.	As	Escrituras
do	Antigo	Testamento	dizem:	“Ame	o	seu	próximo”	(Lv	19.18),	mas	não	há
nenhuma	passagem	dizendo	“odeie	o	seu	inimigo”.	Contudo,	alguns	judeus
interpretavam	a	palavra	“próximo”	como	exclusiva:	 temos	de	amar	apenas	o
nosso	próximo,	pensavam.	Logo,	devemos	odiar	nossos	inimigos.
Na	 verdade,	 isso	 era	 ensinado	 em	 alguns	 círculos.	 Um	 dos	 lemas	 da
comunidade	monástica	que	vivia	nas	proximidades	do	mar	Morto	era:	“Ame
os	 irmãos;	odeie	os	 forasteiros”.	O	problema	de	 identificar	o	 “próximo”	era
um	 assunto	 corrente	 na	 época	 de	 Jesus.	 Foi	 exatamente	 essa	 questão	 que
levou	 Jesus	 a	 contar	 a	 parábola	 do	 Bom	 Samaritano	 (Lc	 10.29ss.),	 em	 que
Jesus	mostra	que	nosso	próximo	é	qualquer	pessoa	ao	alcance	de	nossa	ajuda.
Jesus	diz:	 “Amem	seus	 inimigos	e	orem	pelos	que	perseguem	vocês”	 (5.44).
Os	inimigos	específicos	para	os	quais	Jesus	chama	a	atenção	dos	ouvintes	são
os	perseguidores,	provavelmente	os	que	perseguiam	seus	seguidores	por	causa
da	 justiça	 e	 do	 próprio	 Jesus	 (5.10-12).	 Amá-los	 e	 orar	 por	 eles	 é	 parte
importante	de	ser	um	filho	do	Pai	celestial.	Afinal	de	contas,	Deus	“faz	o	seu
sol	nascer	sobre	maus	e	bons	e	vir	chuvas	sobre	justos	e	injustos”	(5.45).	Deus
amou	pecadores	rebeldes	a	ponto	de	enviar	seu	Filho	ao	mundo	(Jo	3.16;	Rm
5.8).	Logo,	se	somos	seus	filhos,	devemos	ter	seu	caráter.	Ser	perseguido	por
causa	da	justiça	é	estar	alinhado	com	os	profetas	(5.12),	mas	abençoar	e	orar
pelos	que	nos	perseguem	é	estar	alinhado	com	o	caráter	de	Deus.
Em	parte	alguma	essa	atitude	sublime	é	mais	flagrante	do	que	no	próprio
Jesus,	que,	mesmo	sofrendo	a	 injusta	agonia	na	cruz,	clamou:	“Pai,	perdoa-
lhes,	pois	não	 sabem	o	que	estão	 fazendo”	 (Lc	23.34).	Diante	desse	padrão,
não	basta	apenas	amar	nossos	amigos	e	restringir-se	a	isso.	“Se	vocês	amarem
quem	os	ama,	que	recompensa	terão?	Os	coletores	de	impostos	também	não
fazem	o	mesmo?”
Os	coletores	de	impostos	talvez	tenham	má	fama	hoje	em	dia,	mas	nada
se	 compara	 à	 reputação	 que	 tinham	 na	 Palestina	 do	 primeiro	 século.	 O
sistema	 tributário	do	 Império	Romano	valia-se	 de	 intermediários,	 em	 troca
de	 certa	 comissão,	 para	 arrecadar	 o	 imposto	 devido	 pela	 população.	 O
governo	 especificava	 a	 quantia	 a	 ser	 arrecadada	 em	 determinada	 área	 e
indicava	um	homem	para	a	coletar.	Esse	homem,	por	sua	vez,	podia	indicar
outros	sob	seu	comando,	os	quais	também	podiam	indicar	outros	como	seus
próprios	subalternos.	Cada	indicado	tinha	de	obter	sua	cota,	e	o	que	passasse
disso	ele	podia	pegar	para	si.	O	potencial	para	propina	e	corrupção	ao	longo
de	 toda	 a	 pirâmide	desse	 sistema	de	 coleta	 terceirizado	 era	 imenso,	 e	 todos
tiravam	 partido	 de	 cada	 brecha.	 Como	 era	 de	 se	 esperar,	 os	 coletores	 de
impostos	 judeus	 eram	odiados,	mais	 ainda	 entre	os	próprios	 judeus,	porque
esses	 coletores	 entravam	 em	 contato	 com	 os	 gentios,	 os	 dominadores
romanos,	e	por	 isso	eram	cerimonialmente	 impuros.	Contudo,	mesmo	esses
homens	vis,	 traidores	 e	 repulsivos	 tinham	amigos	—	outros	publicanos,	por
exemplo!	 Logo,	 como	 poderá	 um	 discípulo	 de	 Jesus	 ser	 de	 algum	 modo
superior	aos	desprezíveis	coletores	de	impostos	se	amar	somente	os	próprios
amigos?
“E,	 se	 vocês	 saudarem	 apenas	 os	 seus	 irmãos,	 o	 que	 estão	 fazendo	 de
mais?	Os	 pagãos	 também	 não	 fazem	 o	mesmo?”	 (5.47).	Um	 cumprimento
pode	dizer	muito,	sobretudo	se	traz	o	desejo	de	bem-estar.	Se	determinadas
pessoas	 são	 intencionalmente	 ignoradas	 e	 só	 os	 que	 nos	 são	 chegados
recebem	 nossos	 sinceros	 votos	 de	 felicidade,	 em	 que	 somos	 diferentes	 dos
pagãos?	 Em	 outras	 palavras,	 o	 seguidor	 de	 Jesus	 não	 deve	 se	 curvar	 aos
padrões	mesquinhos	 da	 sociedade.	Ao	 contrário,	 seu	 padrão	 deve	 ser	 o	 Pai
celestial.O	discípulo	de	Jesus	deve	se	destacar	no	mundo	pela	natureza	divina
de	 seu	 amor.	De	 fato,	 em	 outra	 passagem	 Jesus	 até	 eleva	 o	 amor	 entre	 os
cristãos	 à	 categoria	 de	 marca	 indicativa	 de	 que	 eles	 lhe	 pertencem	 (Jo
13.34,35).	Assim,	 Jesus	deixa	 clara	 a	 verdadeira	direção	para	 a	qual	 a	 lei	 do
Antigo	Testamento	aponta.	É	um	padrão	mais	elevado	do	que	o	legalismo	e
o	casuísmo	podem	admitir.
CONCLUSÃO:	A	EXIGÊNCIA	DE	PERFEIÇÃO
Mateus	5.48
Como	vimos,	amar	os	inimigos	é	próprio	de	Deus	(5.45).	Porém,	o	amor	não
é	a	única	característica	divina	que	Jesus	espera	que	seus	seguidores	imitem.	À
medida	que	a	passagem	prossegue,	fica	tremendamente	óbvio	que	Jesus	está
apresentando	uma	definição,	no	tocante	à	moral,	impressionante—	definição
que	põe	o	próprio	Deus	como	padrão	de	tudo.	“Sejam,	pois,	perfeitos,	assim
como	o	Pai	celestial	de	vocês	é	perfeito”	(5.48)
Nós	 temos	de	 ser	 santos,	 pois	 o	 Senhor	nosso	Deus	 é	 santo	 (Lv	 19.2);
amorosos,	porque	Deus	é	amor	(1Jo	4.7ss.);	perfeitos,	assim	como	nosso	Pai
celestial	é	perfeito	(Mt	5.48).
Duas	questões	 finais	 ainda	precisam	 ser	observadas	 sobre	 essa	 seção	do
Sermão	 do	 Monte.	 A	 primeira	 é	 que	 a	 autoridade	 de	 Jesus	 é	 uma	 das
características	 dominantes	 desse	 capítulo.	A	Lei	 e	 os	Profetas	 apontam	para
ele,	 mas	 é	 ele	 quem	 determina	 o	 significado,	 o	 cumprimento	 e	 a
continuidade	 deles	 com	 autoridade	 nada	 menos	 que	 divina.	 É	 importante
lembrar	 que	 as	 Escrituras	 do	 Antigo	 Testamento	 não	 têm	 nenhum	 status
intrínseco	 independentemente	 de	 Deus:	 toda	 a	 autoridade	 que	 ela	 têm	 é
derivada.	 Contudo,	 porque	 a	 procedência	 é	 de	 Deus,	 para	 interpretar	 e
explicá-las	 assim	 é	 preciso	 nada	 menos	 que	 autoridade	 divina.
Implicitamente,	portanto,	Jesus	está	reclamando	essa	autoridade	para	si.
A	 segunda	 questão	 é	 que	 aquilo	 que	 a	 Lei	 e	 os	 Profetas	 indicavam
chegou	na	pessoa	de	Jesus	e	no	reino	(o	reino	salvífico)	a	que	ele	dá	 início.
Com	 toda	 autoridade,	 Jesus	 esclarece	 as	 exigências	 do	 reino	 e	 suas	 relações
com	as	Escrituras	 do	Antigo	Testamento.	A	 exigência	 comum	é	 santidade,
perfeição.	 Só	 é	 possível	 entender	 corretamente	 todas	 as	 leis	 do	 Antigo
Testamento	quando	as	interpretamos	à	luz	dessa	consideração	esmagadora.	A
ênfase	na	pureza	 transparente	 e	na	 santidade	genuína,	 imitando	 a	perfeição
do	 Pai,	 exclui	 por	 completo	 toda	 hipocrisia	 religiosa,	 toda	 simulação	 de
espiritualidade,	 toda	 exibição	 de	 justiça,	 todo	 ritual	 religioso	 realizado	 com
ostentação.	Mas	Jesus	explicita	essa	dedução	em	Mateus	6.
1J.	W.	Wenham	escreveu	um	livro	que	ajuda	muito	a	compreender	a	perspectiva	de	Jesus	sobre	o
Antigo	Testamento.	Trata-se	de	Christ	and	the	Bible	(Eugene:	Wipf	and	Stock,	2009).
2O	mercador	de	Veneza,	ato	III,	cena	2.
3Walter	Chalmers	 Smith	 (1824-1908).	 [Conhecido	 no	 Brasil	 com	 o	 título	 Eu	 peço	 algo	 ao	 meu
Deus,	acessível	em:	http://hinario.org/detail.php?id=483.	(N.	do	E.)]
4Talvez	a	melhor	defesa	recente	dessa	posição	seja	J.	H.	Yoder,	The	politics	of	Jesus	(Grand	Rapids:
Eerdmans,	1994)	[edição	em	português:	A	política	de	Jesus	(São	Leopoldo:	Sinodal,	1988)].
5Para	os	que	quiserem	ler	uma	perspectiva	cristã	sobre	a	violência	e	a	autoridade	do	Estado,	escrita
em	linguagem	acessível	e	cujos	destaques	me	agradam,	recomendo	o	capítulo	5	de	Os	Guinness,	The
dust	of	death	(Downers	Grove:	InterVarsity,	1973).
N
3 Hipocrisia	religiosa:
sua	descrição	e	destruição
O	PRINCÍPIO
Mateus	6.1
ós,	 seres	humanos,	 somos	muito	 estranhos.	Ouvimos	preceitos	morais
sublimes	e	vislumbramos	um	pouquinho	apenas	da	verdadeira	beleza	da
perfeita	 santidade,	 mas	 depois	 degradamos	 essa	 visão	 sonhando	 acordados
com	 a	 boa	 opinião	 que	 os	 outros	 teriam	 de	 nós	 se	 fôssemos	 assim.	 A
exigência	de	perfeição	genuína	se	perde	no	objetivo	menor	de	exibir	piedade
exteriormente.	O	objetivo	de	agradar	o	Pai	é	trocado	por	seu	primo	nanico:
agradar	 seres	 humanos.	 Parece	 até	 que,	 quanto	 maior	 a	 exigência	 de
santidade,	maior	 a	 chance	 de	 hipocrisia.	 Por	 isso	 desconfio	 que	 o	 perigo	 é
maior	entre	os	líderes	religiosos.
Tendo	 exigido	 de	 seus	 seguidores	 nada	menos	 que	 a	 perfeição	 (5.48),
Jesus	tem	absoluta	consciência	da	tendência	natural	do	coração	humano	para
o	 autoengano	 e	 faz	 um	 alerta	 contundente:	 “Tenham	 o	 cuidado	 de	 não
praticar	suas	‘obras	de	justiça’	diante	dos	outros	para	serem	vistos	por	eles.	Se
fizerem	isso,	vocês	não	terão	nenhuma	recompensa	do	seu	Pai	celestial”	(6.1).
Sejam	perfeitos	 (5.48),	mas	 tomem	cuidado	 (6.1).	Logo,	 a	questão	 sobre	de
quem	é	a	aprovação	que	buscamos	se	apresenta	de	outro	modo.	Assim	como
as	bem-aventuranças	me	perguntam	se	é	a	bênção	de	Deus	que	eu	quero	ou	a
aprovação	de	outra	pessoa,	 assim	 também	as	exigências	de	 justiça	que	 Jesus
apresentou	 jamais	podem	 ser	 confundidas	 com	a	 aparência	de	piedade:	 essa
justiça	agrada	ao	Pai	e	é	recompensada	por	ele.
A	versão	King	James	(KJV)	começa	o	capítulo	6	com	as	palavras:	“Guar-
dai-vos	 de	 dar	 vossas	 esmolas	 diante	 dos	 homens,	 para	 serdes	 vistos	 por
eles...”.	 Em	 outras	 palavras,	 essa	 versão	 introduz	 a	 questão	 das	 esmolas	 no
primeiro	 versículo,	 não	 no	 segundo.	 Mas	 a	 NIV	 conserva	 a	 redação	 dos
melhores	 e	 mais	 antigos	 manuscritos.	 No	 versículo	 1,	 Jesus	 estabelece	 o
princípio	 geral:	 todas	 as	 “obras	 de	 justiça”	 devem	 ser	 praticadas	 sem
ostentação	 exibicionista	 e	 sem	 o	 aviltamento	 da	 busca	 de	 aprovação	 social.
Em	seguida,	nos	versículos	2-18,	ele	se	concentra	nas	três	obras	fundamentais
da	piedade	judaica,	isto	é,	dar	esmolas	(6.2-4),	orar	(6.5-15)	e	jejuar	(6.16-18).
Ele	 escolhe	 essas	 três	 para	 representar	 todas	 as	 outras	 “obras	 de	 justiça”,
tratando	 cada	 uma	 da	 mesma	 maneira.	 Em	 primeiro	 lugar,	 ele	 descreve	 e
condena	 especificamente	 cada	obra	 de	piedade	 exibicionista	 típica	 das	mais
degeneradas	formas	de	farisaísmo,	tanto	as	de	antigamente	quanto	as	de	hoje.
Em	 segundo	 lugar,	 ele	 faz	 uma	 afirmação	 irônica	 sobre	 os	 resultados
limitados	 dessa	 falsa	 piedade:	 os	 atores	 recebem	 sua	 recompensa	 integral.
Entende-se	 aqui	 que	 a	 recompensa	 é	 o	 aplauso	 da	 plateia	 volúvel.	 E	 isso	 é
tudo	 o	 que	 os	 atores	 recebem.	 Em	 terceiro	 lugar,	 ele	 faz	 uma	 descrição
comparativa	 da	 verdadeira	 piedade	 e	 seus	 resultados.	 Vamos	 delinear	 essa
forma	nos	três	exemplos.
OS	EXEMPLOS
Mateus	6.2-18
Esmolas	(6.2-4)
A	revelação	bíblica	sempre	defendeu	a	importância	de	dar	esmolas,	de	dar	aos
necessitados	 (veja	 Dt	 15.11;	 Sl	 41.1;	 Pv	 19.17).	 Contudo,	 grande	 parte	 da
nossa	doação	está	menos	preocupada	em	suprir	necessidades	e	agradar	a	Deus
do	que	em	conquistar	reputação	por	nossa	generosidade	e	piedade.
“Portanto,	 quando	 você	 der	 aos	 necessitados,	 não	 anuncie	 com
trombetas,	 como	 fazem	 os	 hipócritas	 nas	 sinagogas	 e	 nas	 ruas,	 para	 serem
glorificados	 pelos	 outros”	 (6.2).	 As	 trombetas	 podem	 ser	 metafóricas;	 a
filantropia	 não	 deve	 ser	 acompanhada	 do	 som	 repulsivo	 do	 filantropo
chamando	a	atenção	para	si.	Mas	também	pode	ser	que	se	trate	 literalmente
de	trombetas:	as	trombetas	do	templo	de	Jerusalém	convocando	os	cidadãos	a
contribuírem	 para	 suprir	 alguma	 necessidade	 urgente.	 A	 oportunidade	 de
ostentação	nessas	circunstâncias	é	inigualável	—	as	trombetas	soam,	eu	fecho
minha	 loja	 rapidamente	 e	 saio	 correndo	 pela	 rua.	 Todo	 mundo	 sabe	 para
onde	estou	indo,	e	a	velocidade	com	que	corro	não	só	chama	a	atenção	para
o	meu	destino,	mas	também	comprova	o	meu	zelo.
No	entanto,	Jesus	diz	que	as	pessoas	que	dão	esmolas	dessa	maneira,	quer
na	rua,	quer	na	sinagoga,	quer	nas	igrejas,	quer	para	instituições	de	caridade,
quer	como	artifício	de	relações	públicas	de	uma	empresa,	quer	como	meio	de
autopromoção	—	tais	pessoas	são	hipócritas.
Existem	diversos	tipos	de	hipocrisia.	Em	um	específico,	o	hipócrita	finge
ser	bom,	masna	verdade	é	mau,	como	aqueles	que	tentavam	“apanhar”	Jesus
nas	 palavras	 que	 ele	 dizia	 (Mt	 22.15ss.).	 Esse	 tipo	 de	 hipócrita	 sabe	 que	 é
enganador.	Em	outro,	o	hipócrita	se	envaidece	de	seu	senso	de	importância	e
justiça	própria.	Incapaz	de	enxergar	os	próprios	defeitos,	ele	pode	mesmo	não
ter	 consciência	 de	 que	 é	 hipócrita	—	 embora	 seja	muito	 duro	 para	 com	os
outros	 e	 seus	 pecados.	 Jesus	 fala	 desse	 tipo	 de	 hipocrisia	 em	Mateus	 7.1-5,
como	 veremos.	 Podemos	 pelo	 menos	 nos	 consolar	 pelo	 fato	 de	 os
observadores	identificarem	prontamente	essa	forma	de	hipocrisia,	ainda	que	o
próprio	hipócrita	não	se	dê	conta	de	seus	dois	pesos	e	duas	medidas.
O	tipo,	porém,	de	hipocrisia	abordado	em	Mateus	6.2	é	mais	sutil	que	os
dois	 anteriores.	Nesse	 caso,	o	hipócrita	 se	 convenceu	de	que	no	 fundo	está
agindo	pelo	bem	dos	necessitados.	Desse	modo,	ele	pode	não	ter	consciência
da	 própria	 hipocrisia.	 Além	 do	 mais,	 é	 muito	 pouco	 provável	 que	 os
necessitados	 reclamem;	 eles	 demonstram	 gratidão	 comovente	 e,	 assim,
contribuem	para	o	autoengano	do	hipócrita.	E	todos	os	que	observam,	exceto
os	mais	perspicazes,	vão	elogiar	o	feito	do	filantropo,	pois	todos	reconhecem
que	fazer	caridade	é	bom.
O	hipócrita	 é	 por	definição	um	ator	—	 tenha	 ele	 consciência	 disso	ou
não.	Aliás,	a	clássica	palavra	grega	traduzida	aqui	por	“hipócrita”	a	princípio
significava	“ator”.	A	piedade	hipócrita	não	vem	do	coração,	não	é	genuína,	é
uma	 encenação	 teatral	 de	 piedade.	 Esse	 tipo	 de	 filantropia	 é	motivado	 por
uma	forma	de	egoísmo.	Nos	recônditos	secretos	que	escondem	suas	ambições
mais	acalentadas,	esses	hipócritas	dão	esmolas	 “para	 serem	glorificados	pelos
outros”.	E	Jesus	declara:	“Em	verdade	eu	lhes	digo	que	esses	já	receberam	sua
recompensa”	 (6.2b).	 Eles	 conseguem	 o	 que	 querem,	 e	 isso	 é	 tudo	 o	 que
recebem.	Tudo	não	 passa	 de	 um	golpe	 publicitário	 bem-sucedido.	Não	 há
nenhuma	 “obra	 de	 justiça”	 verdadeira,	 nenhuma	 piedade	 sincera	 —	 e
nenhuma	recompensa	de	Deus.
“Mas,	quando	você	der	aos	necessitados,	não	saiba	a	sua	mão	esquerda	o
que	está	fazendo	a	direita;	para	que	a	sua	esmola	fique	em	segredo”	(6.3,4a).	É
quase	 como	 se	 o	 Mestre	 estivesse	 usando	 uma	 metáfora	 exagerada	 para
expressar	 adequadamente	 o	 quanto	 nossas	 obras	 de	 caridade	 devem	 ser
silenciosas	 e	 secretas.	 Essa	 privacidade	 não	 tem	nenhum	mérito	 em	 si,	mas
garante	 que	 nossas	 boas	 ações	 não	 sejam	 nem	 um	 pouco	 estimuladas	 pelo
desejo	de	receber	o	elogio	dos	outros.	Ninguém	deve	saber	o	que	nós	demos.
Se	 houver	 o	 menor	 risco	 de	 alimentar	 orgulho	 secreto,	 nem	 nós	 mesmos
devemos	 saber	 o	 que	 demos:	 a	mão	 esquerda	 não	 sabe	 o	 que	 a	 direita	 faz.
Ninguém	 deve	 saber	 sobre	 essa	 doação	 feita	 em	 segredo;	 ninguém,	 exceto
Deus.
Precisamente	porque	só	o	Pai	sabe,	essa	doação	secreta	é	outro	meio	de
assegurar	que	estamos	realizando	uma	“obra	de	justiça”	genuína,	que	agrada	a
Deus.	Ele	verá	que	nós	demos	motivados	por	compaixão	sincera	pela	pessoa
necessitada	e	pelo	desejo	transparente	de	agradar	a	ele.	Assim,	seremos	como
os	 coríntios,	 que	 primeiramente	 deram	 a	 si	 mesmos	 ao	 Senhor,	 e	 depois
deram	seu	dinheiro	para	a	obra	do	Senhor	(2Co	8.5).
Portanto,	temos	de	ofertar	“em	segredo”,	tanto	para	nos	proteger	da	falsa
piedade	exibicionista	quanto	para	garantir	que	estamos	 agindo	com	retidão
diante	 do	 Senhor.	 “Assim”,	 diz	 Jesus,	 “o	 seu	 Pai,	 que	 vê	 o	 que	 se	 faz	 em
segredo,	 recompensará	 você”	 (6.4).	 Mais	 uma	 vez	 fica	 bem	 claro	 que	 o
seguidor	de	Jesus	está	interessado	nas	recompensas	e	bênçãos	de	Deus,	não	na
aprovação	passageira	dos	outros.	Além	disso,	como	se	depreende	do	texto,	o
discípulo	 de	 Jesus	 não	 está	 ofertando	 em	 segredo	 a	 fim	 de	 receber
recompensa	celestial;	em	vez	disso,	ele	doa	em	segredo	para	evitar	o	fascínio
das	honrarias	humanas,	para	agradar	seu	Pai	e	para	suprir	necessidades	reais.	A
consequência	é	a	recompensa	espiritual.
É	obvio	que	Jesus	não	está	se	opondo	à	doação.	De	fato,	ele	pressupõe
que	 seus	 seguidores	 vão	 doar.	 Contudo,	 tais	 seguidores,	 cujo	 alvo	 é	 a
perfeição,	não	se	devem	iludir	pensando	que	toda	oferta	agrada	a	Cristo	ou
que	 a	 caridade	 por	 si	 é	 uma	 “obra	 de	 justiça”.	 O	 coração	 humano	 é
suficientemente	 engenhoso	 para	 permitir	 que	 essa	 simples	 insinuação
sobreviva.
Oração	(6.5-8)
“Quando	vocês	orarem,	não	 sejam	como	os	hipócritas,	 pois	 eles	gostam	de
orar	nas	sinagogas	e	nas	esquinas	das	ruas	para	serem	vistos	pelos	outros.	Eu
lhes	 digo	 a	 verdade,	 eles	 já	 receberam	 sua	 plena	 recompensa”	 (6.5).	 A
encenação	 das	 esmolas	 agora	 dá	 lugar	 à	 encenação	 da	 oração.	Assim	 como
Jesus	 não	 se	 opunha	 a	 dar	 esmolas,	 ele	 também	 não	 se	 opõe	 à	 oração.	 Ele
presume	que	seus	seguidores	vão	orar:	“quando	vocês	orarem...”.	O	que	ele
rejeita	categoricamente	é	a	atitude	dos	que	“gostam	de	orar	[...]	para	 serem
vistos	pelos	outros”.
Nas	 sinagogas,	 a	 oração	 pública	 era	 normalmente	 liderada	 por	 um
homem,	membro	da	congregação,	que	 ficava	em	pé	diante	da	arca	da	 lei	e
cumpria	 essa	 responsabilidade.	 Era	muito	 fácil	 sucumbir	 à	 tentação	 de	 orar
para	impressionar	a	plateia/congregação.	Os	clichês	aceitáveis,	os	sentimentos
apropriados,	 o	 tom	 de	 voz,	 o	 fervor	 expresso	 na	 hora	 certa,	 tudo	 isso	 se
transformava	 em	 meios	 de	 receber	 aprovação	 e	 talvez	 de	 competir	 com	 o
colega	que	dirigiu	a	oração	na	semana	anterior.
Além	 disso,	 nas	 ocasiões	 de	 jejum	 público,	 e	 talvez	 no	 momento	 do
sacrifício	 diário	 que	 acontecia	 toda	 tarde	 no	 templo,	 as	 trombetas	 soavam
avisando	que	estava	na	hora	de	orar.	Exatamente	onde	estivesse,	mesmo	na
rua,	 um	 homem	 tinha	 de	 se	 voltar	 para	 a	 direção	 do	 templo	 e	 fazer	 sua
oração.	Essa	oportunidade	de	ostentar	piedade	era	mesmo	muito	gratificante.
Não	devemos	ser	tão	rígidos	para	com	os	judeus	da	época	de	Jesus	antes
de	fazer	um	autoexame	adequado.	Sei	muito	bem	o	quanto	sou	capaz	de	me
enganar	 e	me	 iludir,	 e	 acho	 que	 não	 sou	 um	 caso	 isolado	 nisso.	O	 crente
convidado	 a	 orar	 num	 culto	 batista,	 o	 leitor	 solicitado	 a	 participar	 de	 um
culto	 vespertino	 da	 igreja	 anglicana,	 o	 irmão	 convidado	 a	 pregar	 numa
reunião	 da	 Irmandade,	 o	 estudante	 que	 lê	 a	 passagem	 bíblica	 no	 culto
presbiteriano	 e	 o	 ministro	 em	 qualquer	 uma	 dessas	 reuniões	 —	 todos	 são
extremamente	tentados	nessa	área.	E	todos	recebem	a	mesma	recompensa:	o
desejado	louvor	de	seus	pares.	Essa	é	a	única	e	plena	recompensa	deles;	não	há
outra,	e	certamente	nenhuma	oração	respondida	pelo	Senhor.
O	 que,	 então,	 deve	 caracterizar	 nossas	 orações?	 Jesus	 menciona	 dois
requisitos.	Primeiro:	“Quando	orar,	entre	no	seu	quarto,	feche	a	porta	e	ore	a
seu	Pai,	que	não	pode	ser	visto.	E	seu	Pai,	que	vê	o	que	se	faz	em	segredo,
recompensará	 você”	 (6.6).	 Mais	 uma	 vez,	 não	 acredito	 que	 Jesus	 esteja
tentando	 proibir	 toda	 oração	 pública.	 Se	 estava,	 a	 igreja	 primitiva	 não	 o
entendeu,	a	 julgar	pelos	exemplos	de	oração	pública	no	livro	de	Atos	(1.24;
3.1;	 4.24ss.	 etc.).	 Vamos	 entender	 melhor	 o	 que	 Jesus	 quer	 dizer	 se	 nos
fizermos	estas	perguntas:	Oro	com	maior	frequência	e	maior	fervor	quando
estou	a	sós	com	Deus	ou	quando	estou	em	público?	Amo	o	local	de	oração
em	segredo?	Minha	oração	pública	é	apenas	o	transbordar	da	minha	oração
particular?	Se	 as	 respostas	não	 forem	afirmativas	 entusiásticas,	não	passamos
no	teste	e	nos	incluímos	na	acusação	de	Jesus.	Somos	hipócritas.
Será	que	o	principal	motivo	de	não	termos	mais	orações	atendidas	é	que
estamos	menos	preocupados	em	apresentar	nossos	pedidos	a	Deus	do	que	em
nos	 mostrar	 diante	 dos	 outros?	 Existe	 uma	 história	 bem	 conhecida	 de	 um
ministro	 da	Nova	 Inglaterra	 que	 se	 referiu	 a	 uma	 oração	 bem	 elaborada	 e
refinada	feita	numa	igreja	elegante	de	Boston	como	“a	oração	mais	eloquente
já	oferecida	a	uma	audiênciade	Boston”.	É	exatamente	 isso.	Em	que	penso
quando	 estou	 orando	 em	 público?	 Será	 que	 fico	 tão	 ocupado	 tentando
encontrar	 expressões	 para	 agradar	 os	 outros	 irmãos	 presentes	 no	 culto	 que
não	concentro	minha	atenção	em	Deus	e	mal	me	dou	conta	de	sua	presença,
apesar	de	ser	a	ele	que	supostamente	minhas	orações	se	dirigem?	Jesus	insiste
em	que	o	melhor	meio	de	vencer	esse	mal	é	se	dedicar	à	oração	a	sós.	“Assim,
o	seu	Pai,	que	vê	o	que	se	faz	em	segredo,	recompensará	você.”
Jesus	menciona	um	segundo	aspecto	que	deve	caracterizar	nossa	oração:
“Quando	 vocês	 orarem,	 não	 fiquem	 repetindo	 as	 mesmas	 coisas	 como	 os
pagãos,	pois	eles	pensam	que	serão	ouvidos	pelo	muito	falar”	(6.7,8).	Alguns
pagãos	acreditavam	que,	se	mencionassem	o	nome	de	todos	os	seus	deuses	e
dirigissem	 a	 cada	 um	 deles	 suas	 petições,	 e	 depois	 as	 repetissem	 algumas
vezes,	teriam	mais	chances	de	ser	atendidos.	Jesus	diz	a	seus	contemporâneos
judeus	que	grande	parte	das	orações	deles	é	semelhante	à	ladainha	dos	pagãos;
e	 tenho	 certeza	 de	 que	 diria	 o	 mesmo	 a	 nós	 hoje,	 se	 estivesse	 falando
diretamente	 conosco.	 A	 oração	 não	 deve	 ser	 uma	 sucessão	 de	 chavões,	 de
repetições	 vãs,	 nem	 deve	 basear-se	 na	 hipótese	 ridícula	 de	 que	 a
probabilidade	 de	 ser	 atendido	 é	 diretamente	 proporcional	 ao	 número	 de
palavras	 da	 oração.	 “Não	 se	 precipite	 com	 a	 boca,	 nem	 seja	 o	 seu	 coração
impulsivo	em	pronunciar	palavra	alguma	diante	de	Deus.	Deus	está	no	céu,	e
você	 está	na	 terra,	 portanto	 sejam	poucas	 as	 suas	 palavras”	 (Ec	 5.2).	É	uma
vergonha	 pensar	 que	 podemos	 conseguir	 favores	 de	 Deus	 pelo	 tamanho
enorme	de	uma	oração,	entoada	mecanicamente.
Em	uma	igreja	onde	ministrei,	na	reunião	de	oração	do	meio	da	semana,
era	costume	os	homens	e	os	meninos	saírem	para	orar	em	uma	sala	do	prédio,
e	 as	 mulheres	 e	 as	 meninas,	 em	 outra.	 Algumas	 igrejas	 dividem	 a
congregação	em	grupos	muito	menores.	Os	grupos	pequenos	 têm	algumas
vantagens	—	por	exemplo,	mais	pessoas	podem	participar.	Mas	também	têm
desvantagens.	 É	 preciso	 haver	 momentos	 em	 que	 todos	 os	 membros	 da
família	da	igreja	orem	juntos,	em	parte	para	promover	a	unidade	e	em	parte
para	cada	grupo	da	 igreja	 tomar	conhecimento	das	preocupações	espirituais
dos	 outros.	 De	 qualquer	 modo,	 eu	 tinha	 herdado	 aquele	 problema	 de
segregação	e	achava	que	fosse	apenas	uma	opção,	não	uma	parte	essencial	da
tradição	 eclesiástica.	 Por	 isso,	 certa	 noite,	 propus	 delicadamente	 que
orássemos	 todos	 juntos,	 pelo	 menos	 naquela	 semana.	 Quando	 a	 reunião
acabou,	um	irmão	veio	falar	comigo	bastante	incomodado.	Ele	achava	que	a
reunião	 tinha	 sido	 uma	 perda	 de	 tempo	 porque	 “não	 se	 conseguiu	 orar
muito”.	De	 fato,	 era	verdade	que	o	número	de	pessoas	que	oraram	em	voz
alta	tinha	sido	menor	do	que	das	outras	vezes,	mas	não	havia	nenhum	motivo
para	que	o	mesmo	número	de	pessoas	de	sempre	não	pudesse	ter	orado.	De
qualquer	modo,	a	quantidade	de	palavras	não	é	o	fator	crucial,	e	dificilmente
um	fator	importante.
Mas	não	é	importante	orar	continuamente?	E	a	parábola	em	Lucas	18.1-
8,	 em	 que	 Jesus	 conta	 uma	 história	 com	 o	 propósito	 claro	 de	 ensinar	 que
devemos	“orar	sempre	e	nunca	desanimar”	(Lc	18.1)?
Acredito	 que	 mais	 uma	 vez	 descobrimos	 um	 padrão	 já	 observado	 em
outras	relações.	Jesus	tinha	uma	forma	de	pregar	em	termos	absolutos,	mesmo
quando	estava	abordando	situações	muito	específicas.	Se	 isso	não	for	 levado
em	 conta,	 podemos	 não	 perceber	 ou	 até	 distorcer	 o	 que	 ele	 diz	 em	 outras
passagens	sobre	o	mesmo	assunto,	mas	em	circunstâncias	diferentes.
Em	outras	palavras:	Jesus	apresenta	a	maioria	de	seus	ensinamentos	tendo
em	 vista	 certas	 relações.	 Seu	 ensino	 não	 tem	 nenhum	 traço	 de	 teologia
sistemática.	Não	há	dúvida	de	que	tal	teologia	é	uma	disciplina	legítima,	mas,
se	 a	 teologia	 sistematiza	 determinado	 ensino	 de	 Jesus	 cedo	 demais	 em	 sua
análise,	 pode	 acabar	 minimizando	 a	 importância	 de	 outros	 de	 seus
ensinamentos	 relevantes.	 Ela	 também	 pode	 negar	 as	 limitações	 implícitas
impostas	 a	 determinada	 passagem	 pelo	 padrão	 de	 relações	 que	 Jesus	 usou
naquele	caso.
No	exemplo	que	estamos	analisando	agora,	se	tomarmos	a	passagem	de
Mateus	6.7,8	em	sentido	absoluto,	a	conclusão	lógica	é	que	os	seguidores	de
Jesus	nunca	devem	fazer	orações	longas	e	raramente,	ou	nunca,	devem	pedir
nada,	uma	vez	que	Deus	já	sabe	de	todas	as	necessidades	deles.	Se	tomarmos,
em	 vez	 do	 trecho	 de	 Mateus,	 a	 passagem	 de	 Lucas	 18.1-8	 em	 sentido
absoluto,	 chegaremos	 à	 conclusão	 de	 que,	 se	 levamos	Deus	 a	 sério,	 não	 só
faremos	 orações	 longas,	 mas	 também	 poderemos	 esperar	 que	 as	 bênçãos
recebidas	sejam	proporcionais	à	nossa	verbosidade.	Contudo,	se	ouvirmos	as
duas	 passagens	 com	 um	 pouco	mais	 de	 sensibilidade,	 vamos	 descobrir	 que
Mateus	6.7,8.	na	verdade	não	diz	respeito	ao	tamanho	das	orações,	mas,	sim,	à
atitude	 do	 coração	 que	 pensa	 que	 será	 ouvido	 por	 causa	 de	 suas	 muitas
palavras.	Da	mesma	forma,	descobrimos	que	o	propósito	de	Lucas	18.1-8	não
é	 determinar	 o	 tamanho	 das	 orações,	 mas,	 sim,	 combater	 a	 tendência	 que
certos	 seguidores	 de	 Cristo	 têm	 de	 desistir	 de	 orar.	 Esses	 cristãos,	 quando
pressionados	 pelas	 circunstâncias,	 geralmente	 correm	 o	 risco	 de	 jogar	 a
toalha.	Mas	eles	precisam	perseverar.
O	melhor	exemplo	quando	se	trata	de	oração	é	o	próprio	Jesus.	Embora
orasse	muito	em	público,	ele	orava	muito	mais	a	sós.	O	evangelista	Lucas	faz
questão	 de	 demonstrar	 isso	 (veja	 Lc	 5.16;	 6.12;	 9.18,28;	 11.1;	 22.41,42).
Apesar	de	às	vezes	orar	com	extrema	brevidade,	Jesus	também	se	dedicava	a
longas	 vigílias	 noturnas.	 E	 ensinou	 seus	 seguidores	 a	 se	 dirigirem	 a	 Deus
como	 Pai,	 não	 apenas	 garantindo-lhes	 que	 seu	 Pai	 celestial	 conhece	 as
necessidades	 de	 seus	 filhos	 antes	 que	 estes	 lhe	 peçam,	 mas	 também
incentivando-os	a	pedir	com	confiança	e	fé.
Em	suma:	Jesus	quer	nos	ensinar	que	a	oração,	para	ser	uma	verdadeira
obra	de	 justiça,	não	deve	 ser	 feita	com	ostentação,	deve	 ser	dirigida	ao	Pai,
não	a	homens,	deve	ser	 feita	 sobretudo	em	particular	e	 sem	a	 ilusão	de	que
Deus	pode	ser	manipulado	por	tagarelice	vazia.
Assim,	 como	 devemos	 orar?	 O	 próprio	 Jesus	 nos	 dá	 um	 exemplo
magnífico,	em	geral	chamado	de	“Oração	do	Senhor”	(“Pai-Nosso”),	porém
mais	 apropriadamente	chamada	de	oração-modelo,	pois	 Jesus	 a	ensinou	aos
discípulos	como	paradigma	para	as	orações	deles.
Extrapolação:	a	oração-modelo	do	Senhor	(6.9-15)
É	 irônico	 o	 contexto	 que	 proíbe	 vãs	 repetições	 na	 oração	 situar-se	 na
passagem	do	Evangelho	de	Mateus	em	que	se	encontra	a	oração-modelo	do
Senhor,	 pois	 nenhuma	 oração	 tem	 sido	 mais	 repetida	 do	 que	 essa,	 muitas
vezes	 sem	nenhum	entendimento	de	quem	a	 repete.	 Já	no	 segundo	 século,
um	 documento	 hoje	 chamado	 de	 Didaquê	 determinava	 que	 os	 cristãos
repetissem	 essa	 oração	 três	 vezes	 ao	 dia.	 Isso	 não	 é	 necessariamente	 ruim,
assim	como	não	é	necessariamente	ruim	repeti-la	em	uníssono	nos	cultos	da
igreja.	 Mas	 não	 devemos	 jamais	 fazer	 isso	 mecanicamente	 e	 temos	 de	 nos
lembrar	 de	 que	 o	 próprio	 Jesus	 concebia	 essa	 oração	 como	 um	 modelo:
“Vocês	devem	orar	assim”	(6.9a);	ele	não	disse:	“É	isso	que	vocês	devem	orar”.
Essa	oração	tem	seis	petições.	É	pertinente	que	as	 três	primeiras	digam
respeito	 diretamente	 a	Deus:	 seu	 nome,	 seu	 reino	 e	 sua	 vontade.	 Logo,	 os
principais	interesses	e	preocupações	do	crente	são	a	glorificação	do	nome	de
Deus,	a	vinda	de	seu	reino	e	a	realização	de	sua	vontade	na	terra,	assim	como
no	céu.	Só	depois	vêm	as	outras	 três	petições,	 e	 elas	 têm	a	ver	diretamente
com	o	ser	humano:	nosso	alimento	diário,	nossos	pecados	(“nossas	dívidas”)	e
nossas	tentações.	É	alentador	saber	que	nessa	oração-modelo	Jesus	contempla
tanto	as	nossas	necessidades	físicas	quanto	as	espirituais.
Antes	 de	 examinarpor	Mateus	para	se	referir	ao	que	outros
autores	 do	 Novo	 Testamento	 preferiram	 chamar	 de	 “o	 reino	 de	 Deus”.
Mateus,	 como	muitos	 judeus	 de	 seu	 tempo,	 evitava	 usar	 a	 palavra	 “Deus”.
Para	 eles,	 era	 uma	 palavra	 muito	 sagrada,	 sublime	 demais;	 por	 isso,
empregavam	eufemismos,	como	“céu”,	em	seu	lugar.	Quanto	ao	significado,
reino	do	céu	é	idêntico	a	reino	de	Deus	(cf.	Mt	19.23,24;	Mc	10.23,24	etc.).
Quatro	 observações	 preliminares	 talvez	 ajudem	 a	 esclarecer	 o	 sentido
dessas	 expressões.	 Primeiramente,	 a	 ideia	 de	 “reino”,	 tanto	 no	 Antigo
Testamento	quanto	no	Novo,	é	sobretudo	dinâmica,	e	não	espacial.	Não	se
trata	tanto	de	um	reino	com	fronteiras	geográficas;	a	ideia	principal	aqui	é	a
de	“domínio	e	autoridade	do	rei”	ou	soberania.	Nas	Escrituras,	o	significado
espacial	de	reino	é	secundário	e	derivado.
Em	segundo	lugar,	embora	o	reino	de	Deus	possa	se	referir	à	totalidade
da	soberania	de	Deus,	não	é	isso	que	está	em	vista	no	Sermão	do	Monte.	De
fato,	 no	 sentido	 universal,	 o	 reino	 de	Deus	—	 sua	 soberania	—	 é	 eterno	 e
abrange	 tudo.	Não	há	nada	nem	ninguém	que	esteja	 fora	dele.	A	partir	do
momento	 da	 ressurreição	 e	 exaltação	 de	 Jesus,	 toda	 essa	 divina	 soberania
passou	a	ser	mediada	por	Cristo.	O	próprio	Jesus	ensinou:	“Toda	a	autoridade
me	foi	dada	no	céu	e	na	terra”	(Mt	28.18).	É	a	essa	autoridade	universal	que
Paulo	 se	 refere	quando	diz	que	 é	necessário	que	Cristo	 reine	 até	que	Deus
tenha	posto	todos	os	seus	inimigos	debaixo	de	seus	pés	(1Co	15.25).	Alguns
se	 referem	 a	 esse	 “reino”	 como	 o	 reino	 mediador	 de	 Deus,	 porque	 a
autoridade	de	Deus,	sua	soberania,	é	mediada	por	Cristo.
Contudo,	não	pode	ser	esse	o	reino	de	Deus	a	que	o	Novo	Testamento
se	refere	com	maior	frequência.	No	Sermão	do	Monte,	não	são	todos	os	que
entram	 no	 reino	 do	 céu,	 mas	 só	 os	 que	 são	 pobres	 em	 espírito	 (5.3),
obedientes	 (7.21)	e	extraordinariamente	 justos	 (5.20).	Do	mesmo	modo,	no
Evangelho	de	João,	apenas	quem	é	nascido	do	alto	pode	ver	o	reino	de	Deus
ou	entrar	nele	(Jo	3.3,5).	Como	o	reino	universal,	por	definição,	deve	incluir
todas	as	pessoas,	quer	gostem	dele,	quer	não,	percebemos	que	o	reino	a	que
essas	 passagens	 se	 referem	 não	 pode	 ser	 universal.	 Existem	 condições	 a	 ser
satisfeitas	para	que	a	entrada	seja	permitida.	O	reino	que	quero	abordar	nesses
ensaios,	o	reino	pregado	por	Jesus,	é	uma	parte	do	reino	universal.
Temos	uma	 ideia	do	que	esse	reino	significa	quando	comparamos	dois
versículos	de	Marcos:	9.45	e	9.47.	O	primeiro	diz:	“Se	o	seu	pé	o	fizer	pecar,
corte-o.	É	melhor	você	entrar	na	vida	aleijado,	do	que,	tendo	os	dois	pés,	ser
lançado	no	inferno”.	O	segundo	diz:	“Se	o	seu	olho	o	fizer	pecar,	arranque-o.
É	melhor	você	entrar	no	reino	de	Deus	 com	um	olho	 só	do	que,	 tendo	os
dois	 olhos,	 ser	 lançado	 no	 inferno”.	 Entrar	 no	 reino	 de	 Deus,	 portanto,	 é
entrar	na	vida.	Esse	é	o	vocabulário	típico	do	Evangelho	de	João.	Contudo,	é
encontrado	 no	 próprio	 Sermão	 do	 Monte.	 Esses	 três	 capítulos	 de	 Mateus
tratam	da	entrada	no	 reino	 (Mt	5.3,10;	7.21),	que	equivale	a	entrar	na	vida
(7.13,14;	cf.	19.14,16).
Portanto,	 o	 reino	 do	 céu,	 nesse	 sentido	 restrito,	 é	 o	 exercício	 da
soberania	 de	 Deus	 que	 tem	 ligação	 direta	 com	 seus	 propósitos	 salvíficos.
Todos	os	que	estão	no	reino	têm	a	vida;	todos	os	que	não	estão	no	reino	não
têm	a	vida.	Podemos	esquematizar	essas	conclusões	da	seguinte	maneira:
Ou,	se	os	propósitos	salvíficos	de	Deus	estão	no	cerne	de	sua	soberania,
podemos	aperfeiçoar	o	diagrama	desta	forma:
É	 claro	 que	 esse	 diagrama	 esquematiza	 de	 forma	 hiperbólica	 as
evidências.	A	palavra	“reino”,	que	se	refere	primordialmente	à	dinâmica,	pode
ser	 usada	 no	 sentido	 mais	 amplo	 ou	 no	 sentido	 salvífico	 especial.	 Por
exemplo,	 em	outra	passagem,	 Jesus	 conta	uma	parábola	 em	que	 compara	o
reino	com	um	homem	que	semeou	boa	semente	em	seu	campo,	mas	depois
viu	 ervas	daninhas	brotando	por	 toda	parte,	 semeadas	por	um	 inimigo	 (Mt
13.24-29,36-43).	É	 como	 se	 o	 reino,	 nesse	 ponto,	 englobasse	 tanto	o	 trigo
quando	a	erva	daninha;	em	termos	não	metafóricos,	o	reino	abrange	tanto	os
seres	 humanos	 que	 têm	 a	 vida	 quanto	 os	 que	 não	 a	 têm.	Transportando	 a
metáfora	 para	 o	 diagrama	 circular	 anterior,	 a	 linha	 que	 separa	 o	 círculo
interior	 do	 exterior	 se	 torna	 muito	 fina.	 A	 ênfase	 parece	 estar	 no	 reino
universal,	embora	a	semeadura	da	boa	semente	seja	seu	propósito	central.	De
fato,	por	causa	desse	propósito,	a	mistura	de	trigo	e	erva	daninha,	que	se	vê
agora	no	campo,	um	dia	será	separada:	na	hora	da	colheita,	o	joio	é	atado	em
feixes	e	queimado,	e	o	trigo	é	recolhido	no	celeiro	do	dono	(Mt	13.30).
Essa	ambiguidade	nos	ajuda	a	entender	a	passagem	de	Mateus	8.10-12,
na	 qual	 Jesus	 diz:	 “Digo-lhes	 a	 verdade,	 não	 encontrei	 ninguém	 em	 Israel
com	tamanha	fé.	Eu	lhes	digo	que	muitos	virão	do	Oriente	e	do	Ocidente	e
se	sentarão	à	mesa	com	Abraão,	Isaque	e	Jacó	no	reino	do	céu.	Mas	os	súditos
do	 reino	 serão	 lançados	 fora,	 nas	 trevas,	 onde	 haverá	 choro	 e	 ranger	 de
dentes”.	 Esperava-se	 que	 os	 judeus,	 que	 tinham	 o	 privilégio	 de	 ser	 os
herdeiros	da	revelação	do	Antigo	Testamento,	fossem	os	“súditos	do	reino”;
mas	Jesus	afirma	que	na	verdade	muitas	pessoas	vindas	do	mundo	inteiro	se
juntarão	 aos	 patriarcas	 no	 reino.	 Ele	 também	 adverte	 que	 muitos	 dos	 que
esperavam	ser	súditos	serão	excluídos	das	alegrias	do	reino	salvífico	de	Deus.
Em	terceiro	lugar,	a	expressão	“reino	de	Deus”,	no	sentido	da	salvação	(o
único	 sentido	 em	 que	 empregarei	 de	 agora	 em	 diante),	 aplica-se	 tanto	 ao
presente	 quanto	 ao	 futuro.	 Tomados	 em	 conjunto,	 os	 livros	 do	 Novo
Testamento	 enfatizam	 que	 o	 reino	 de	 Deus	 já	 chegou;	 uma	 pessoa	 pode
entrar	no	 reino	 e	 receber	 a	 vida	 agora,	 vida	 “com	plenitude”	 (Jo	10.10).	O
próprio	Jesus	argumenta	que,	se	ele	expulsa	demônios	pelo	Espírito	de	Deus
(e	 ele	 realmente	 faz	 isso),	 então	 o	 reino	 de	 Deus	 chegou	 (Mt	 12.28).
Contudo,	 os	 livros	 do	 Novo	 Testamento	 insistem	 em	 que	 o	 reino	 será
herdado	 somente	 no	 futuro,	 quando	 Cristo	 voltar.	 Embora	 já	 seja	 vivida
agora,	a	vida	eterna	só	será	consumada	naquele	dia,	em	conjunto	com	uma
renovação	 do	 universo	 de	 tal	 proporção	 que	 só	 pode	 ser	 descrita
adequadamente	 como	 “novos	 céus	 e	nova	 terra”	 (Is	 65.17;	 66.22;	 2Pe	3.13;
Ap	21.1;	cf.	Rm	8.21ss.).
Jesus	conta	algumas	parábolas	com	o	objetivo	específico	de	eliminar	da
mente	de	seus	seguidores	quaisquer	conceitos	errados	que	os	levassem	a	crer
que	a	chegada	plena	do	reino	ocorreria	sem	demora	nenhuma.	Ele	queria	que
eles	pensassem	o	contrário:	a	chegada	do	reino	em	sua	plenitude	podia	ainda
demorar	muito.	Por	exemplo,	em	uma	parábola	do	Evangelho	de	Lucas	(Lc
19.11ss.),	Jesus	fala	de	um	homem	de	nobre	nascimento	que	vai	para	um	país
distante	 e	depois	 retorna.	Esse	homem	 só	 recebe	 total	 autoridade	 sobre	um
reino	após	sua	volta.	Jesus	é	esse	nobre,	e	a	consumação	do	reino	aguarda	seu
retorno.
Este	outro	diagrama	pode	ajudar	a	explicar	essas	verdades:
Toda	 a	 humanidade	 vive	 no	 plano	 “[d]este	 mundo”.	 Porém,	 do
momento	da	vinda	de	Cristo	até	o	 fim	do	mundo,	os	herdeiros	do	reino	(e
somente	eles)	vivem	também	no	plano	do	reino.	Desse	modo,	os	diagramas
circulares	mostram	claramente	que	uma	pessoa	pode	ou	não	estar	no	reino	de
Deus;	 o	 diagrama	 linear	mostra	 que,	 se	 a	 pessoa	 está	 no	 reino	 agora,	 pode
esperar	 sua	 consumação	 no	 fim	 do	mundo,	 quando	Cristo	 voltar.	O	 reino
tem	 um	 aspecto	 “já”	 e	 outro	 “ainda	 não”:	 o	 reino	 já	 veio,	 mas	 ainda	 não
chegou.
Em	quarto	lugar,	apesar	de	serem	sinônimos,	entrar	na	vida	e	entrar	no
reino	não	são	sempre	estritamente	intercambiáveis.	A	própria	ideia	de	“reino”
como	“soberania	dinâmica”	traz	em	si	nuances	de	autoridade	e	submissão	que
em	geral	não	vêm	à	mente	quando	falamos	de	“vida”.	O	reino	de	Deus	fala	da
autoridade	de	Deus,essas	 seis	 petições	 um	 pouco	mais	 detalhadamente,
devemos	 prestar	 atenção	 à	 invocação	 inicial:	 “Pai	 nosso,	 que	 estás	 no	 céu”.
Jesus	 não	 nos	 ensinou	 a	 orar:	 “Meu	 Pai,	 que	 estás	 no	 céu”,	mas,	 sim,	 “Pai
nosso”.	Os	cristãos	não	devem	orar	 em	magnífico	 isolamento	e	não	devem
conceber	 a	 espiritualidade	 em	 relação	 ao	 individualismo	 exacerbado	 que
tanto	 caracteriza	 a	 mentalidade	 ocidental.	 O	 apóstolo	 João	 reflete	 um	 dos
grandes	temas	do	Novo	Testamento	quando	diz,	em	1João	5.1:	“Todo	aquele
que	crê	que	Jesus	é	o	Cristo	é	nascido	de	Deus,	e	todo	aquele	que	ama	o	Pai
[i.e.,	Deus]	também	ama	o	que	dele	foi	gerado	[i.e.,	outros	cristãos]”.	É	claro
que	há	lugar	para	orar	individualmente	a	Deus,	mas	o	padrão	geral	da	nossa
oração	 deve	 ser	 mais	 amplo	 que	 isso.	 Portanto,	 quando	 eu,	 como	 um
seguidor	de	Cristo	entre	muitos,	me	dirijo	a	nosso	Pai,	minha	preocupação	é
com	o	nosso	pão	de	cada	dia,	os	nossos	pecados	e	as	nossas	tentações	—	não
somente	com	as	minhas.
Com	 referência	 à	 designação	 “Pai”,	 três	 coisas	 precisam	 ser	 ditas.
Primeiramente,	 apesar	 de	 ser	 encontrada	 em	 escritos	 judaicos	 da	 época	 de
Cristo,	 essa	 designação	 é	 extremamente	 rara.	 Um	 estudioso	 alemão	 bem
conhecido,	 Joachim	 Jeremias,	 mostrou	 quanto	 os	 primeiros	 seguidores	 de
Jesus	devem	ter	ficado	estarrecidos	e	assombrados	com	o	uso	que	ele	fez	desse
vocativo.	Os	judeus	daquela	época	preferiam	empregar	títulos	elevados	para
se	 referir	 a	 Deus,	 como	 “Senhor	 soberano”,	 “Rei	 do	 universo”	 e	 outros
semelhantes.	 Jesus	o	 chamava	de	Pai	 (cf.	Mt	11.25;	 26.39,42;	Mc	14.36;	Lc
23.34;	 Jo	 11.41;	 12.27;	 17.1,5,11,21,24,25).	 “Aba”,	 ele	 disse	 a	 Deus.	 Essa	 é
uma	palavra	aramaica	usada	pelas	crianças	para	chamar	 seus	pais.	Não	é	 tão
íntimo	quanto	 “meu	paizinho”,	mas	 é	mais	 íntimo	que	 “meu	pai”.	 Isso	me
lembra	 como	 as	 crianças	 canadenses	 francofônicas	 costumam	 chamar	 seus
pais:	“papa”.
Sem	dúvida,	Jesus	era	o	Filho	de	Deus	em	um	sentido	singular;	Deus	era
singularmente	 seu	Pai.	O	modo	de	 Jesus	 se	 dirigir	 a	Deus	 faz	 parte	 de	um
quadro	 mais	 amplo	 em	 que	 ele	 afirma,	 de	 muitas	 maneiras	 diferentes,	 ser
excepcionalmente	um	com	Deus.	Porém,	o	extraordinário	nesse	modelo	de
oração	 é	 que	 Jesus	 está	 ensinando	 seus	discípulos	 a	 se	 dirigirem	 a	Deus	 do
mesma	forma.
Essa	observação	nos	 leva	a	outro	grande	tema	do	Novo	Testamento.	É
comum	 os	 autores	 do	 Novo	 Testamento	 se	 referirem	 a	 tornar-se	 um
discípulo	de	Jesus	como	tornar-se	um	filho	de	Deus.	Os	que	se	arrependem
de	seus	pecados	e	confiam	em	Jesus	como	aquele	que	pagou	por	esses	pecados
ao	 morrer	 por	 eles,	 que	 prometem	 fidelidade	 e	 obediência	 a	 Jesus,	 que
confessam:	“Jesus	é	o	Senhor!”	—	esses	são	os	mesmos	que	a	Bíblia	diz	serem
nascidos	de	Deus	(Jo	3),	filhos	de	Deus	por	adoção	(Rm	8).	Antes	destinados
para	a	ira	(Ef	2.3),	agora	foram	vivificados	diante	de	Deus.	Eles	desfrutam	a
nova	relação	com	o	próprio	Deus.	Embora	a	filiação	deles	em	alguns	aspectos
seja	qualitativamente	diferente	da	filiação	de	Jesus,	ainda	assim	herdarão	junto
com	Cristo	os	esplendores	de	um	novo	céu	e	uma	nova	 terra	 (Rm	8.15ss.).
Mesmo	 agora,	Deus	 enviou	 o	Espírito	 de	 seu	 Filho	 para	 habitar	 o	 coração
deles	—	o	Espírito	que	clama	“Aba,	Pai”	(Gl	4.6).	Não	admira	que,	depois	da
morte	 e	 ressurreição,	 Jesus,	 vitorioso,	 tenha	 orientado	 Maria:	 “Vá	 a	 meus
irmãos	e	diga-lhes:	 ‘Estou	voltando	para	meu	Pai	 e	Pai	de	vocês,	para	meu
Deus	e	Deus	de	vocês’”	(Jo	20.17).	Com	seu	ministério,	morte	e	ressurreição,
Jesus	produziu	os	meios	pelos	quais	 as	pessoas	podem	chegar	 a	Deus	 todo-
poderoso	e	dizer	com	propriedade:	“Pai	nosso”.
Esta	 é,	 portanto,	 a	 segunda	 observação	 que	 precisa	 ser	 feita	 sobre	 tal
designação:	 o	 modo	 pelo	 qual	 Deus	 é	 considerado	 Pai	 nas	 Escrituras
normalmente	 não	 está	 relacionado	 à	 noção	 genérica	 de	 “paternidade	 de
Deus”	(“Deus	é	o	Pai,	e	todos	os	homens	são	irmãos”),	mas	à	relação	especial
entre	 Deus	 e	 os	 seguidores	 de	 Jesus.	 É	 verdade,	 claro,	 que	 todos	 os	 seres
humanos	 são	 “descendência	 de	 Deus”	 (At	 17.29)	 no	 sentido	 de	 que	 Deus
criou	 a	 todos	 e	 tem	 soberania	 sobre	 eles	 como	 Criador	 e	 Sustentador.
Contudo,	não	é	nesse	sentido	que	os	autores	do	Novo	Testamento	em	geral
usam	 as	 metáforas	 da	 relação	 “pai-filho”	 relativamente	 a	 Deus	 e	 os	 seres
humanos.	 Por	 exemplo,	 em	 1João	 3.1,	 João	 distingue	 entre	 os	 “filhos	 de
Deus”	e	“o	mundo”.	Escrevendo	a	crentes,	ele	diz:	“Como	é	grande	o	amor
que	o	Pai	nos	concedeu,	a	ponto	de	sermos	chamados	filhos	de	Deus,	o	que
de	fato	somos!	Por	isso	o	mundo	não	nos	conhece,	porque	não	o	conheceu”.
Portanto,	é	muito	rica	a	relação	entre	Deus,	o	Pai	celestial,	e	os	que	se
tornaram	 seus	 filhos	 pela	 fé	 no	 seu	 Filho	 e	 obediência	 a	 ele.	 Existe	 vida,
perdão,	aceitação,	herança,	família	e	disciplina	nesse	relacionamento.	Sim,	até
disciplina.	Porém,	nosso	Pai	perfeito	e	amoroso	ministra	essa	disciplina	“a	fim
de	sermos	participantes	da	sua	santidade”	(Hb	12.10;	cf.	12.4-11).
Além	disso,	precisamos	notar	que	Deus	é	o	nosso	Pai	“no	céu”.	Essa	é	a
terceira	observação	a	respeito	dessa	designação.	Em	geral,	os	judeus	da	época
de	 Jesus	 eram	 propensos	 a	 conceber	 Deus	 de	 uma	 forma	 tão	 exaltada	 que
dificilmente	conseguiam	imaginar	um	relacionamento	pessoal	com	ele.	Deus
era	 tão	 transcendente	 que	muitas	 vezes	 se	 perdia	 de	 vista	 a	 riqueza	 da	 sua
personalidade.	 A	 maior	 parte	 do	 evangelicalismo	 moderno,	 ao	 contrário,
costuma	retratá-lo	como	um	Deus	exclusivamente	pessoal	e	carinhoso.	Não
se	sabe	por	quê,	a	soberania	e	a	elevada	transcendência	divinas	desaparecem.
Se	você	entrar	em	certas	 igrejas	americanas,	ouvirá	algum	corinho	animado
(me	recuso	a	chamar	de	“música	ou	hino”),	como	“He’s	a	great	big	wonderful
God”	[Ele	é	um	Deus	grande,	 formidável	e	maravilhoso].	 Infelizmente,	não
consigo	deixar	de	imaginar	um	grande,	formidável	e	maravilhoso	ursinho	de
pelúcia.	Esses	“corinhos”	não	chegam	a	ser	heréticos	nem	blasfemos.	Às	vezes
eu	gostaria	de	que	fossem,	pois	assim	poderiam	ser	prontamente	condenados
por	 um	 mal	 específico.	 Eles	 são	 algo	 muito	 pior	 que	 blasfêmia	 ou	 heresia
isolada.	Fazem	parte	de	um	modelo	de	irreverência,	de	teologia	superficial	e
critérios	 religiosos	 dominados	 pela	 experiência,	 o	 que	 aniquilou	 enorme	 e
considerável	parte	do	vigor	evangélico	no	Ocidente.
Isso	não	contradiz	meus	comentários	anteriores	sobre	a	natureza	pessoal
de	Deus	representada	pela	designação	“Pai	nosso”.	Quando	Jesus	ensinou	seus
discípulos	 a	 orarem	 dessa	 maneira,	 ele	 estava	 falando	 com	 homens	 que	 já
estavam	 convencidos	 da	 grandiosidade	 da	 transcendência	 de	 Deus,	 da
magnificência	da	inefável	sublimidade	de	Deus.	Quando	eles,	ainda	tímidos,
oraram	pela	primeira	vez:	“Pai	nosso,	que	estás	no	céu”,	sem	dúvida	sentiram
profundamente	 o	 tremendo	 privilégio	 de	 se	 aproximarem	 desse	 Deus
maravilhoso	de	uma	forma	tão	pessoal	e	íntima.	Mas	hoje	os	que	perderam	de
vista	 a	 transcendência	 de	Deus	não	 conseguem	mais	 dar	 o	 devido	 valor	 ao
privilégio	de	chamá-lo	de	Pai.
Felizmente,	ainda	há	crentes	que	se	reúnem	com	reverência,	solenidade,
consciência	e	dignidade	para	cantar	louvores	como	este:
Imortal,	invisível,	Deus	sapientíssimo,
em	luz	inacessível	oculto	de	nossos	olhos,
mui	bendito,	mui	glorioso,	o	Ancião	de	Dias,
Todo-Poderoso,	vitorioso,	teu	grande	nome	exaltamos.
Grandioso	Pai	de	glória,	puro	Pai	de	luz,
teus	anjos	te	adoram,	todos	de	olhos	cobertos	por	um	véu;
todo	louvor	te	daremos:	oh,	ajuda-nos	a	ver.
É	só	o	esplendor	da	luz	que	te	oculta.1
Quando	esses	crentes	orarem	então:	 “Pai	nosso,	que	estás	no	céu”,	não
poderão	senão	calar-se	e	humilhar-se	diante	de	Deus.
Com	essa	introdução	equilibrada,	é	significativo	que	a	primeira	petição
diga	respeito	a	esse	Pai	excelso:	“Santificado	seja	o	teu	nome”.	Na	perspectiva
semítica,	o	nome	de	uma	pessoaé	intimamente	ligado	ao	que	ela	é.	Portanto,
ao	 revelar	no	Antigo	Testamento	que	 tem	esse	ou	 aquele	nome,	Deus	 está
usando	 seu	 nome	 para	 se	 revelar	 como	 ele	 é.	 Os	 nomes	 são	 explicativos,
reveladores.	 Entre	 os	 vários	 nomes	 de	 Deus,	 estão:	 o	 Altíssimo,	 o	 Todo-
Poderoso,	Eu	Sou,	e	compostos	deste	último,	que	podem	ser	 traduzidos	por
Eu	sou	Aquele	que	te	ajuda,	Eu	sou	Aquele	que	é	a	tua	justiça,	por	exemplo.
E,	 quando	 pensamos	 no	 caráter	 de	 Deus	 oculto	 por	 trás	 desses	 nomes,
devemos	orar:	“Santificado	seja	o	teu	nome”.
“Santificar”	 é	 tornar	 santo	 ou	 considerar	 santo.	 O	 verbo	 é	 usado	 em
1Pedro	 3.15:	 “Antes,	 santifiquem	 a	 Cristo	 como	 Senhor	 no	 coração	 de
vocês”.	Temos	de	 reverenciar,	honrar,	considerar	 santo	e	 reconhecer	Cristo
como	 o	 Senhor	 santo.	 Semelhantemente,	 devemos	 reverenciar,	 honrar,
considerar	santo	e	reconhecer	o	nome	de	Deus	e,	portanto,	o	próprio	Deus.
Na	minha	opinião,	um	aspecto	intrigante	dessa	petição	é	que,	apesar	de
ser	 uma	 súplica	 para	 que	 o	 nome	 de	 Deus	 seja	 santificado	 e,	 portanto,
supostamente	um	pedido	para	que	Deus	santifique	seu	próprio	nome,	trata-
se,	 contudo,	de	uma	oração	que,	quando	atendida,	 significa	que	nós	vamos
santificar	o	nome	de	Deus.	Em	outras	palavras,	os	seguidores	de	Cristo	estão
pedindo	a	seu	Pai	celestial	que	aja	de	tal	maneira	que	eles	e	um	número	cada
vez	 maior	 de	 pessoas	 reverenciem	 a	 Deus,	 glorifiquem	 o	 seu	 nome	 e	 o
reconheçam.	 Muitos	 usam	 “Deus”	 e	 “Jesus”	 como	 palavrão	 quando	 estão
irritados	 ou	 aborrecidos	 ou	 em	 piadas.	 Porém,	 à	medida	 que	 essa	 oração	 é
atendida,	eles	não	só	deixarão	esse	hábito,	mas	também	passarão	a	considerar
o	nome	de	Deus	tão	santo	que	simplesmente	pensar	nele	será	suficiente	para
incitar	espírito	de	reverência	e	temor	santo.
De	certa	forma,	orar	“santificado	seja	o	teu	nome”	é	orar:	“Faz-me	santo.
Permite	que	eu	te	reverencie.	Opera	em	mim	e	em	outras	pessoas	para	que
reconheçamos	 sempre	 tua	 santidade	 gloriosa	 e	 insuperável”.	 Mas	 a	 petição
como	 Jesus	 a	 ensina	 se	 estrutura	 não	 tanto	 em	 relação	 ao	 que	 tem	 de
acontecer	 conosco	 para	 a	 oração	 ser	 atendida,	 mas,	 sim,	 em	 relação	 ao
próprio	alvo.	O	alvo	mais	elevado	não	é	nós	sermos	santificados,	mas,	sim,	o
nome	de	Deus	ser	santificado.	Isso	tira	o	ser	humano	do	centro	da	cena	e	dá
esse	lugar	somente	a	Deus.	O	homem	—	mesmo	o	homem	transformado	—
não	 é	 o	 centro	 do	 universo.	A	 principal	 raison-d’être	 do	 ser	 humano	 é	 de
fato,	como	os	teólogos	disseram,	glorificar	a	Deus	e	desfrutar	eternamente	de
sua	presença.	Essa	breve	petição	tem	sozinha	tanto	conteúdo	para	meditação,
tantas	 implicações	sobre	como	devemos	pensar	sobre	Deus,	que	é	suficiente
para	nos	pôr	de	joelhos.
A	 segunda	petição	é	 tão	 curta	quanto	 a	primeira:	 “Venha	o	 teu	 reino”
(6.10).	Isso	não	pode	ser	um	pedido	para	que	a	soberania	universal	de	Deus
seja	exercida,	pois	 ela	está	 sempre	em	vigor.	Refere-se	ao	 reino	 salvífico	de
Deus,	que,	como	vimos,	em	um	aspecto	já	está	presente,	mas	em	outro	ainda
aguarda	 sua	 plena	 consumação	 no	 futuro.	Orar	 “venha	 o	 teu	 reino”	 é	 orar
para	 que	o	 reino	 salvífico	de	Deus	 se	 expanda	mesmo	 agora	 e,	mais	 ainda,
que	Deus	traga	o	reino	consumado.	O	reino	de	Deus	virá	em	sua	plenitude
porque	será	inaugurado	pela	volta	de	Jesus.	Se	os	primeiros	cristãos	desejavam
ardentemente	que	o	poder	e	a	autoridade	de	Jesus	se	manifestassem	por	meio
deles	 no	 seu	 constante	 testemunho	 (veja	 At	 4.28,29),	 estavam	 ainda	 mais
ansiosos	 pela	 volta	 de	 Jesus	 e	 oravam:	 “Maranata”	—	 “Vem,	 Senhor!”	 (1Co
16.22).	 Eles	 aguardavam	 com	 expectativa	 “novos	 céus	 e	 nova	 terra,	 onde
habita	a	 justiça”	 (2Pe	3.13).	O	último	 livro	da	Bíblia	conclui	com	a	oração:
“Vem,	Senhor	Jesus!”	(Ap	22.20).
“Venha	o	teu	reino.”	Os	cristãos	não	devem	fazer	esse	pedido	de	maneira
frívola	ou	descuidada.	Ao	 longo	dos	 séculos,	os	 seguidores	de	Jesus	debaixo
de	 perseguição	 brutal	 têm	 feito	 essa	 oração	 com	 consciência	 e	 fervor.	Mas
tenho	a	impressão	de	que	os	bancos	confortáveis	de	nossas	igrejas	zombam	de
nossa	 sinceridade	 quando	 repetimos	 essa	 frase	 hoje.	 Não	 temos	 nenhuma
objeção	à	volta	do	Senhor,	acredito,	contanto	que	ele	espere	um	pouco	e	nos
deixe	 primeiro	 terminar	 a	 faculdade,	 ou	 nos	 deixe	 experimentar	 a	 vida	 de
casado,	 ou	 nos	 dê	 tempo	 para	 termos	 êxito	 nos	 negócios	 ou	 na	 vida
profissional,	ou	nos	dê	a	 alegria	de	ver	nossos	netos	nascerem.	Será	mesmo
que	 desejamos	 ardentemente	 que	 o	 reino	 venha	 em	 toda	 a	 sua	 insuperável
justiça?	Ou	será	que	preferimos	patinhar	num	atoleiro	de	falsidade	e	injustiça?
A	terceira	petição	amplia	um	pouco	e	especifica	os	 limites	da	 segunda.
Depois	de	 “venha	o	 teu	 reino”	vem	“seja	 feita	 a	 tua	vontade	 assim	na	 terra
como	 no	 céu”.	 Essa	 oração	 pode	 bem	 ser	 um	 pedido	 para	 que	 o	 reino	 de
Deus	 venha	 em	 sua	 plenitude,	 pois	 a	 característica	 mais	 maravilhosa	 dessa
vinda	será	o	cumprimento	perfeito	da	vontade	do	Pai,	sem	demora,	rebeldia,
prevaricação,	 agentes	 do	 mal	 nem	 aquelas	 misteriosas	 mudanças	 de
acontecimentos	pelas	quais	Deus	opera	hoje,	mesmo	usando	a	maldade	dos
homens	(veja	Gn	50.20;	Is	10.5-19).
A	 ambiguidade	 linguística	 desse	 pedido	 permite	 uma	 aplicação	 mais
geral.	A	vontade	ética	de	Deus	(se	é	que	posso	usar	essa	expressão	para	falar
do	desejo	dele	de	ver	a	justiça	praticada)	só	será	completamente	cumprida	no
reino	consumado.	Contudo,	os	que	agora	pertencem	a	esse	reino,	como	ele
se	manifesta	atualmente	entre	nós,	já	têm	a	obrigação	especial	de	cumprir	essa
vontade.	A	maior	parte	do	texto	de	Mateus	5	diz	exatamente	isto:	para	entrar
no	 reino	 do	 céu	 é	 obrigatório	 ter	 justiça	 incomparável	 (5.20).	 No	 reino
consumado,	 é	 claro	 que	 não	 será	 necessário	 estabelecer	 regras	 acerca	 de
divórcio,	dar	a	outra	face,	ódio,	cobiça,	hipocrisia	e	outras	transgressões.	No
momento,	entretanto,	um	aspecto	essencial	de	nossa	busca	da	ética	do	reino	é
que	 essa	 ética	 deve	 ser	 demonstrada	 em	 um	 mundo	 onde	 o	 mal	 ainda
predomina.	Na	consumação,	não	serei	mais	tentado	a	revidar	se	alguém	me
der	 um	 tapa	 na	 cara,	 porque	 não	 haverá	mais	 tapa	 na	 cara;	 não	 serei	mais
tentado	 a	 odiar	 meus	 inimigos,	 porque	 não	 terei	 mais	 inimigos.	 Logo,
embora	 as	 exigências	 absolutas	 de	 justiça	 não	 sejam	 diminuídas	 nem
atenuadas	 pela	 desculpa	 da	 pressão	 da	 presente	 era	 maligna,	 elas	 são
concebidas	 levando	em	conta	a	oposição	ao	mal	desta	era.	É	assim	que	elas
apontam	para	a	perfeição	futura	do	reino	consumado,	quando	a	vontade	de
Deus	será	cumprida	ampla,	aberta	e	livremente,	sem	exceções	nem	restrições
e	sem	a	dolorosa	necessidade	de	defini-la	com	referência	à	oposição	ao	mal.
Talvez	eu	possa	resumir	 tudo	isso	de	outra	maneira.	Quando	Jesus	diz:
“Seja	feita	a	tua	vontade	assim	na	terra	como	no	céu”,	imagino	que	ele	tenha
escolhido	palavras	que	levam	em	conta	alguns	contrastes.	Ele	pode	estar	nos
ensinando	a	orar	para	que	(1)	os	desejos	de	Deus	em	relação	à	justiça	sejam
plenamente	cumpridos	agora	na	 terra,	 assim	como	 são	cumpridos	 agora	 no
céu;	(2)	os	desejos	de	Deus	em	relação	à	justiça	sejam	por	fim	cumpridos	tão
plenamente	na	terra	assim	como	são	cumpridos	agora	no	céu	—	isto	é,	essa
frase	 é	 análoga	 a	 “venha	 o	 teu	 reino”;	 (3)	 os	 desejos	 de	Deus	 em	 relação	 à
justiça	 sejam	 finalmente	 cumpridos	 na	 terra	 da	 mesma	 maneira	 que	 são
cumpridos	 no	 céu	—	 isto	 é,	 sem	 referência	 à	 oposição	 do	mal,	mas	 pura	 e
absolutamente.
Precisamos	entender	que,	se	estamos	orando	para	que	a	vontade	de	Deus
seja	feita	na	terra,	estamos	assumindo	duas	importantes	responsabilidades.	Em
primeiro	 lugar,	 estamos	 nos	 comprometendo	 a	 aprender	 tudo	 o	 que
pudermos	 sobre	 a	 vontade	 dele.	 Isso	 significa	 estudar	 as	 Escrituras	 com
constância	e	humildade.	Uma	coisa	que	me	dói	é	ouvir	cristãos	insistirem	na
autoridade	e	infalibilidade	dasEscrituras	quando	esses	mesmos	crentes	não	se
empenham	em	estudar	as	Escrituras	com	zelo.	Quais	são	os	temas	de	Zacarias
e	Gálatas?	O	que	aprendemos	acerca	da	vontade	de	Deus	no	texto	de	Êxodo	e
no	de	Efésios?	Em	que	o	retrato	de	Jesus	traçado	por	Mateus	e	o	traçado	por
João	diferem	e	em	que	se	complementam	um	ao	outro?	Esta	semana,	quando
estudamos	 a	 vontade	 de	 Deus,	 o	 que	 aprendemos	 que	 provocou
aperfeiçoamento	e	melhora	em	nossa	vida?
Isso	nos	leva	à	segunda	responsabilidade.	Se	o	anseio	profundo	do	meu
coração	 é	 que	 a	 vontade	 de	 Deus	 seja	 feita,	 então,	 ao	 fazer	 essa	 oração,
também	estou	prometendo	que,	com	a	ajuda	e	a	graça	de	Deus,	vou	fazer	a
vontade	dele	até	onde	eu	a	conheço!
Essas	 são	 as	 três	 petições	 da	 oração-modelo	 do	 Senhor.	 Os	 principais
interesses	 e	 prazeres	 do	 seguidor	 de	 Jesus	 são	 a	 glória	 de	Deus,	 o	 reino	 de
Deus	 e	 a	 vontade	 de	 Deus.	 Só	 depois	 disso	 o	 cristão	 pensa	 em	 suas
necessidades	pessoais	e	nas	dos	outros.
A	primeira	petição	desse	grupo	é:	“O	pão	nosso	de	cada	dia	nos	dá	hoje”
(6.11).	 A	 palavra	 traduzida	 por	 “de	 cada	 dia”	 ocorre	 muito	 raramente	 em
grego.	Na	verdade,	ela	é	encontrada	com	cem	por	cento	de	certeza	somente
nessa	oração,	mas	muito	provavelmente	aparece	também	em	um	dos	papiros,
no	qual	a	palavra	está	rasurada	mais	ou	menos	no	meio.	Parece	 tratar-se	de
um	adjetivo	que	significa	“do	dia	que	está	vindo”.	Se	pedimos	pela	manhã	o
nosso	alimento	“[d]o	dia	que	está	vindo”,	estamos	querendo	dizer	“o	alimento
de	hoje”;	se	pedimos	à	noite,	estamos	falando	do	alimento	de	amanhã.
De	qualquer	modo,	o	propósito	é	o	mesmo,	que	infelizmente	se	perdeu
nas	 complicadas	 estruturas	 da	 sociedade	 ocidental	 moderna.	 Na	 época	 de
Jesus,	 os	 trabalhadores	 normalmente	 eram	 pagos	 pelo	 trabalho	 que	 haviam
realizado	 no	 mesmo	 dia,	 e	 o	 que	 recebiam	 era	 tão	 ínfimo	 que	 era	 quase
impossível	 poupar	 um	 pouco.	 Portanto,	 o	 pagamento	 do	 dia	 comprava	 a
comida	 daquele	 dia.	 Além	 disso,	 a	 sociedade	 era	 basicamente	 agrária:
qualquer	 problema	 na	 colheita	 podia	 significar	 um	 grande	 desastre.	 Nesse
tipo	de	sociedade,	orar	“o	pão	nosso	de	cada	dia	nos	dá	hoje”	não	era	retórica
vazia.	 Vivendo	 de	 forma	 relativamente	 precária,	 os	 seguidores	 de	 Jesus
deviam	aprender	 a	 confiar	que	 seu	Pai	 celestial	 lhes	 supriria	 as	necessidades
físicas.
Contudo,	um	princípio	ainda	maior	está	em	jogo	aqui.	Tiago,	o	meio-
irmão	de	Jesus,	 lembra-nos:	“Toda	boa	dádiva	e	 todo	dom	perfeito	vêm	do
alto,	 descendo	 do	 Pai	 das	 luzes	 celestes,	 o	 qual	 não	 muda	 como	 sombras
inconstantes”	 (Tg	1.17).	Paulo	é	ainda	mais	contundente:	 “Pois	quem	o	 faz
diferente	de	qualquer	outro?	O	que	você	tem	que	não	tenha	recebido?	E,	se
você	recebeu,	por	que	se	orgulha,	como	se	não	o	tivesse	recebido?”	(1Co	4.7)
—	 isto	 é,	 como	 se	 o	 tivesse	 conquistado	 por	 seus	 próprios	 méritos	 ou
cultivado	 sozinho.	 Em	 outras	 palavras,	 as	 Escrituras	 ensinam	 que	Deus	 é	 a
fonte	 suprema	 de	 todo	 bem,	 seja	 comida,	 roupa,	 trabalho,	 lazer,	 força,
inteligência,	 amizade,	 seja	qualquer	outra	 coisa.	Além	do	mais,	 ele	não	nos
deve	essas	coisas.	Uma	vez	que	todos	nós,	em	um	ou	outro	momento	da	vida,
trilhamos	caminhos	indignos,	fizemos	nossa	própria	vontade	e	mostramos	os
punhos	 cerrados	 para	 Deus,	 afirmando	 nossa	 independência,	 ele	 não	 seria
injusto	se	não	nos	concedesse	essas	bênçãos.	Nossa	própria	 ingratidão	é	um
insulto	à	Divindade;	esta	geração	ingrata	é	uma	afronta	a	ele.	Tratamos	suas
dádivas	 como	 algo	 corriqueiro	 e	 garantido	 e,	 quando	 elas	 começam	 a
escassear,	 reclamamos	 e	 questionamos	 a	 própria	 existência	 desse	 Deus
benigno.
A	vida	em	boa	parte	da	sociedade	ocidental	não	é	precária	como	era	no
primeiro	 século.	 Recebemos	muito	mais	 dádivas.	 Infelizmente,	 porém,	 essa
riqueza	 contribuiu	 para	 nossa	 ingratidão,	 para	 nossa	 falência	 espiritual.
Enquanto	 escrevo	 estas	 linhas,	 chegam	notícias	 de	uma	 seca	na	Europa,	 na
Austrália	 e	 em	outras	partes	do	mundo.	Não	estou	aqui	dizendo	que	existe
mais	maldade	 na	Europa	 do	 que	 no	 resto	 do	mundo,	mas	me	 pergunto	 se
Deus	não	está	começando	a	advertir	o	Ocidente	usando	a	linguagem	terrível
do	 juízo,	 até	 aprendermos	 algumas	 lições	 de	 arrependimento,	 gratidão,
pobreza	de	espírito	e,	talvez	mais	do	que	qualquer	outra	coisa,	de	consciência
da	nossa	dependência	dele.
Se	 tempos	 difíceis	 nos	 sobrevierem,	 o	 seguidor	 de	 Jesus	 é	 quem
encontrará	refúgio	nesta	petição:	“O	pão	nosso	de	cada	dia	nos	dá	hoje”	(Mt
6.11).	Não	se	trata	de	uma	simples	questão	de	orar	assim	para	aprendermos	a
depender	de	Deus,	embora	em	parte	seja	isso.	A	verdade	é	que	os	registros	da
história	cristã	estão	repletos	de	testemunhos	de	que	Deus	é	capaz	de	atender	a
esse	pedido	com	a	maior	fidelidade	possível.2
A	 segunda	 petição	 encontra-se	 no	 versículo	 12:	 “Perdoa-nos	 as	 nossas
dívidas,	como	também	perdoamos	aos	nossos	devedores”.	Após	terminar	sua
oração-modelo,	Jesus	prossegue,	ampliando	a	questão,	pois	nos	versículos	14
e	15	acrescenta:	 “Porque,	 se	vocês	perdoarem	aos	homens	as	ofensas	contra
vocês,	 o	 Pai	 celestial	 também	 perdoará	 vocês.	 Se,	 porém,	 vocês	 não
perdoarem	aos	homens	as	ofensas	deles,	tampouco	o	seu	Pai	lhes	perdoará	os
pecados”.	O	 pecado	 é	 figurado	 na	 oração	 como	 dívida.	 É	 uma	 dívida	 que
precisa	ser	paga.	Portanto,	se	alguém	tem	tal	dívida	para	conosco,	e	nós	não	o
libertamos,	 perdoando-lhe	 a	 dívida,	 o	 Pai	 também	 não	 nos	 perdoará	 as
dívidas	 que	 temos	 com	 ele.	 Na	 verdade,	 em	 aramaico,	 a	 língua	 em	 que
provavelmente	 Jesus	 pregou	 esse	 sermão,	 não	 é	 incomum	 referir-se	 ao
pecado	como	dívida.
Será	que	Jesus	está	nos	falando	de	algum	tipo	de	esquema	toma	lá	dá	cá?
Eu	 perdoo	 o	 João,	 e	 então	 o	 Senhor	 me	 perdoa	 (na	 verdade,	 para	 que	 o
Senhor	 me	 perdoe)?	 A	 tradução	 do	 versículo	 12	 na	 NIV	 reforça	 essa
interpretação,	embora	o	original	grego	possa	simplesmente	significar	“como
nós,	 com	 isso,	 perdoamos	 [presente]	 os	 nossos	 devedores”,	 e	 não
necessariamente	 “assim	 como	 nós	 também	 perdoamos	 [pretérito]	 os	 nossos
devedores”.	 Mas,	 então,	 o	 que	 significam	 as	 condições	 tão	 explícitas	 dos
versículos	14	e	15?
A	parábola	que	Jesus	conta	em	Mateus	18.23-35	lança	um	pouco	de	luz
sobre	essa	passagem:
Por	isso,	o	reino	do	céu	é	comparado	a	um	rei	que	quis	acertar	contas	com	seus	servos.	Quando
começou	o	acerto,	trouxeram	a	sua	presença	um	homem	que	lhe	devia	dez	mil	talentos.	Como
esse	homem	não	tinha	condições	de	pagar,	o	senhor	ordenou	que	ele,	sua	mulher,	seus	filhos	e
todos	os	seus	bens	fossem	vendidos	para	saldar	a	dívida.	O	servo	se	pôs	de	joelhos	diante	dele	e
rogou	“Tenha	paciência	comigo,	que	lhe	pagarei	tudo”.	O	senhor	desse	servo	teve	compaixão
dele,	 cancelou	 a	dívida	 e	o	deixou	 ir.	Porém,	quando	 saiu,	 esse	 servo	encontrou	um	dos	 seus
conservos	 que	 lhe	 devia	 cem	 denários.	 Ele	 agarrou	 o	 companheiro	 e	 começou	 a	 sufocá-lo,
exigindo:	“Pague	o	que	você	me	deve”.	O	seu	conservo	caiu	de	joelhos	e	lhe	suplicou:	“Tenha
paciência	 comigo,	 que	 lhe	 pagarei”.	 Mas	 ele	 não	 quis.	 Antes,	 saiu	 e	 mandou	 lançarem	 o
companheiro	na	prisão	até	que	esse	pagasse	a	dívida.	Quando	os	outros	servos	viram	o	que	tinha
acontecido,	ficaram	muito	tristes	e	foram	contar	ao	senhor	deles	tudo	o	que	acontecera.	Então	o
senhor	chamou	aquele	primeiro	servo	à	sua	presença	e	disse-lhe:	“Servo	mau,	eu	cancelei	toda
aquela	sua	dívida	porque	você	me	suplicou.	Você	também	não	devia	ter	tido	compaixão	do	seu
companheiro	assim	como	tive	de	você?”.	Indignado,	o	senhor	o	entregou	aos	carcereiros	até	que
ele	pagasse	tudo	o	que	devia.	Assim	também	o	meu	Pai	celestial	tratará	cada	um	de	vocês	se	não
perdoarem	de	coração	ao	seu	irmão.
Parece	 que	 o	 ponto	 principal	 da	 parábola	 não	 é	 tanto	 a	 sequência
temporal	 (X	precisa	perdoar	Y	antes	que	Z	perdoe	X),	mas,	 sim,	 a	 atitude.
Não	há	perdão	para	quemnão	perdoa.	E	não	poderia	ser	de	outra	forma.	O
espírito	incapaz	de	perdoar	dá	forte	testemunho	de	que	nunca	se	arrependeu.
É	da	essência	da	vida	cristã	a	abnegação.	Todo	aquele	que	considera	a	si
ou	 à	 sua	 própria	 vida	 fundamental	 para	 uma	 existência	 significativa	 perde
tudo;	 todo	 aquele	 que	 toma	 sua	 cruz,	 segue	 a	 Cristo	 e	 perde	 sua	 vida	 a
encontra	 de	 fato.	 Nesse	 sentido,	 a	 famosa	 oração	 atribuída	 a	 Francisco	 de
Assis	analisa	as	categorias	em	que	esse	pedido	da	oração-modelo	do	Senhor
deve	ser	entendida:
Senhor,	faze	de	mim	um	instrumento	de	tua	paz.
Onde	há	ódio,	que	eu	leve	o	amor.
Onde	há	ofensa,	que	eu	leve	o	perdão.
Onde	há	dúvida,	que	eu	leve	a	fé.
Onde	há	desespero,	que	eu	leve	a	esperança.
Onde	há	trevas,	que	eu	leve	a	luz.
Onde	há	tristeza,	que	eu	leve	a	alegria.
Ó	Mestre	Divino,	faze	que	eu	procure	mais
consolar	que	ser	consolado;
compreender	que	ser	compreendido;
amar	que	ser	amado.
Pois	é	dando	que	se	recebe,
é	perdoando	que	se	é	perdoado
e	é	morrendo	que	se	vive	para	a	vida	eterna.
A	última	 petição	 do	 Pai-Nosso	 é:	 “E	 não	 nos	 induzas	 à	 tentação,	mas
livra-nos	 do	 mal”	 (6.13,	 ARC).	 À	 primeira	 vista,	 esse	 é	 um	 pedido	 muito
estranho.	Por	que	devemos	pedir	a	Deus	que	não	nos	induza	à	tentação?	Não
deveríamos	 ter	 isso	como	certo	e	garantido?	Pedir	 a	Deus	que	não	 sejamos
tentados	 seria	 mais	 compreensível,	 mas	 pedir	 que	 ele	 não	 nos	 induza	 à
tentação	é	difícil	de	entender.
Muito	já	se	escreveu	acerca	dessa	petição,	mas	suspeito	que	a	verdadeira
explicação	 dessa	 frase	 intrigante	 seja	 mais	 simples	 do	 que	 a	 maioria	 das
soluções	 propostas.	 Acredito	 que	 se	 trate	 de	 uma	 lítotes,	 uma	 figura	 de
linguagem	que	 expressa	 uma	 coisa	 negando	 o	 seu	 contrário.	 Por	 exemplo,
“não	poucos”	significa	“muitos”;	ao	negar	“poucos”,	produzimos	uma	lítotes.
Em	João	6.37,	 Jesus	afirma:	“Todo	aquele	que	o	Pai	me	dá	virá	a	mim;	e	o
que	 vem	 a	mim	 de	modo	 algum	 o	 lançarei	 fora”.	Muitos	 acreditam	 que	 a
última	parte	do	versículo	seja	uma	lítotes,	cujo	significado	é:	“Eu	certamente
receberei	todo	aquele	que	vem	a	mim”.	De	fato,	é	uma	lítotes	até	mais	forte
que	isso.	Como	os	versículos	seguintes	mostram,	ela	significa:	“Eu	certamente
manterei	comigo	todo	aquele	que	vem	a	mim”.	Assim,	ao	negar	“lançar	fora”,
uma	expressão	vigorosa	e	um	tanto	irônica,	gera-se	“manter	comigo”.
Na	 minha	 opinião,	 o	 “não	 nos	 induzas	 à	 tentação”	 é	 uma	 lítotes
semelhante	às	apresentadas	nesses	exemplos.	A	locução	“à	tentação”	é	negada:
Induza-nos	não	à	tentação,	mas	para	longe	dela,	para	a	justiça,	para	situações
em	que,	longe	de	sermos	tentados,	seremos	protegidos	e,	portanto,	mantidos
justos.	Como	a	 segunda	parte	dessa	petição	expressa,	 assim	 seremos	 libertos
do	mal.
Essa	 petição	 é	 um	 poderoso	 lembrete	 de	 que,	 assim	 como	 devemos
depender	 conscientemente	 de	 Deus	 para	 nosso	 sustento	 físico,	 também
devemos	 perceber	 que	 somos	 dependentes	 dele	 para	 ter	 triunfo	 moral	 e
vitória	espiritual.	Aliás,	falhar	nesse	ponto	é	já	ter	caído	em	tentação,	pois	isso
faz	parte	daquela	horrível	luta	pela	independência	que	se	recusa	a	reconhecer
nossa	posição	de	criaturas	diante	de	Deus.	À	medida	que	o	cristão	progride
na	santidade	de	vida,	ele	percebe	sua	fraqueza	moral	inata	e	se	alegra	de	saber
que	qualquer	virtude	que	tem	brota	como	fruto	do	Espírito.	Cada	vez	mais,
ele	 reconhece	 as	 sutilezas	 enganadoras	 de	 seu	 próprio	 coração	 e	 as	 astúcias
destruidoras	do	Maligno,	e	clama	com	fervor	ao	 seu	Pai	celestial:	 “Não	nos
induzas	à	tentação,	mas	livra-nos	do	mal”.
Qual	foi	a	última	vez	que	você	fez	essa	oração?	Será	que	deixar	de	lado
essas	orações	não	é	 sinal	de	desleixo	espiritual	e	 insensibilidade	aos	aspectos
espirituais	da	existência	humana?
O	 fato	 de	 a	 súplica	 para	 evitar	 a	 tentação	 estar	 situada	 entre	 o	 pedido
referente	ao	perdão	(6.12)	e	seu	esclarecimento	posterior	(6.14,15)	talvez	dê	a
entender	que	a	principal	tentação	em	vista	nessa	passagem	é	a	da	amargura	—
a	 tentação	 de	 manter	 um	 verniz	 de	 religião	 verdadeira	 mesmo	 quando	 os
pensamentos	 secretos	 estão	 arrebentando	 de	 corrupção,	 como	 uvas
fermentando.	Isso	também	se	ajusta	ao	tema	predominante	da	passagem	(6.1-
18),	que	é	a	descrição	e	a	destruição	da	hipocrisia	religiosa.
A	doxologia	impressa	em	algumas	versões	(“pois	teu	é	o	reino,	o	poder	e
a	 glória	 para	 sempre.	Amém!”)	 ao	 que	 parece	 foi	 acrescentada	 no	 segundo
século,	não	antes	disso.	Essa	observação	não	questiona	que	o	reino,	o	poder	e
a	 glória	 de	 fato	 pertencem	 a	 Deus	 eternamente;	 muitas	 outras	 passagens
dizem	coisa	 semelhante.	Contudo,	não	há	comprovação	de	que	 Jesus	 tenha
ensinado	esse	trecho	como	parte	de	sua	oração-modelo.
Temos	muito	que	aprender	a	respeito	de	oração;	a	maioria	de	nós	ainda
é	 pouco	 mais	 que	 um	 aprendiz.	 Um	 dos	 mais	 proveitosos	 estudos	 das
Escrituras	é	a	análise	das	orações	registradas	em	suas	páginas.	Depois,	é	claro,
o	 estudante	precisa	 praticar	o	que	 aprendeu.	Porém,	por	mais	 tesouros	que
venha	a	descobrir,	 ele	 jamais	encontrará	uma	oração	mais	 abrangente,	mais
precisa,	mais	exemplar	que	a	oração-modelo	do	Senhor.
Bem-aventurado	o	seguidor	de	Jesus	que	pode	cantar	com	sinceridade,
sem	 se	 sentir	 envergonhado	 nem	 intimidado	 (apesar	 da	 estranheza	 de
algumas	expressões):
Doce	hora	de	oração!	Doce	hora	de	oração!
Que	me	chama	deste	mundo	de	aflições
para	levar	ao	trono	de	meu	Pai
todos	os	meus	anseios	e	petições.
Nos	momentos	tristes	de	pesar,
minh’alma	pode	descansar,
e	se	livrar	do	laço	do	tentador,
pela	tua	retribuição,	bendita	hora	de	oração!
Doce	hora	de	oração!	Doce	hora	de	oração!
Tuas	asas	levam	minha	petição
àquele	cuja	verdade	e	fidelidade
fazem	minh’alma	esperançosa	louvar.
E,	como	ele	me	convida	a	sua	face	buscar,
crer	em	sua	palavra	e	em	sua	graça	confiar,
sobre	ele	ponho	todo	o	meu	cuidado,
e	espero	por	ti,	doce	hora	de	oração.3
Jejum	(6.16-18)
O	terceiro	exemplo	de	piedade	exibicionista	que	Jesus	apresenta	é	o	modo	de
jejuar.	Ele	diz:	“Quando	vocês	jejuarem,	não	mostrem	aparência	melancólica
como	os	hipócritas,	pois	eles	desfiguram	o	rosto	a	fim	de	mostrar	aos	homens
que	estão	 jejuando.	Em	verdade	 lhes	digo	que	eles	 já	 receberam	 toda	a	 sua
recompensa”	 (6.16).	 Do	 mesmo	 modo	 que	 Jesus	 não	 menospreza	 o	 dar
esmolas	e	a	oração,	também	não	recrimina	o	jejum	em	si:	ele	supõe	que	seus
discípulos	vão	 jejuar.	Em	outra	 situação,	porém,	ele	defende	 seus	discípulos
por	não	jejuarem	(Mt	9.14-17).	De	qualquer	modo,	no	Sermão	do	Monte,	o
objetivo	de	Jesus	é	condenar	os	abusos	dessa	prática	e	expor	seus	perigos.
No	calendário	judaico,	havia	determinados	jejuns	especiais	de	que	todos
participavam.	Esses	 jejuns	ocorriam	por	ocasião	das	comemorações	dos	dias
de	festa	mais	importantes,	como	o	Dia	da	Expiação	ou	o	Ano	Novo	judaico.
Podiam-se	 convocar	 jejuns	 também	 quando,	 por	 exemplo,	 as	 chuvas	 de
outono	 não	 caíam;	 tais	 jejuns	 tinham	 igualmente	 âmbito	 nacional.	 Além
disso,	muitas	pessoas	 jejuavam	em	outras	ocasiões,	 supostamente	por	 razões
de	 autodisciplina	moral	 e	 religiosa,	 principalmente	 como	 sinal	 de	profundo
arrependimento	e	quebrantamento	diante	do	Senhor,	e	talvez	como	parte	de
algum	importante	pedido	apresentado	ao	Senhor.
Contudo,	o	que	começou	como	autodisciplina	se	corrompeu	e	passou	a
ser	 uma	 oportunidade	 para	 uma	 pomposa	 exibição	 de	 falsa	 justiça.	 Alguns
faziam	uma	cara	 triste,	um	ar	de	 sofrimento	profundo,	não	se	 lavavam,	não
penteavam	o	cabelo	e	jogavam	cinzas	na	cabeça	—	tudo	isso	para	mostrar	aos
outros	que	estavam	jejuando.	O	que	antes	era	sinal	de	humilhação	tornou-se
um	sinal	de	justiça	própria	exibicionista.
Infelizmente,	 fazemos	 coisas	 semelhantes	 hoje.	Antigamente	 as	 pessoas
vestiam	a	melhor	roupa	no	domingo	em	sinal	de	respeito	e	reverência	diante
do	 Senhor.	 Não	 demorou	 muito	 e	 a	 qualidade	 das	 roupas	 tornou-se	 mais
importante	 que	 a	 reverência;	 em	 pouco	 tempo,	 aspessoas	 estavam
competindo	para	ver	quem	se	vestia	melhor.	Não	admira	que	muitos	jovens
acabaram	rejeitando	todo	vestígio	desse	desfile	de	modas	e	começaram	a	ir	de
jeans	para	a	igreja.	Muitos	podem	ter	feito	isso	por	motivos	nada	louváveis,
mas	 os	motivos	 de	 seus	 pais	 para	 se	 arrumarem	 demais	 também	 não	 eram
nada	louváveis.
Num	 trabalho	 evangelístico	 na	 universidade,	 os	 alunos	 cristãos	 foram
incentivados	 a	 levar	 a	 Bíblia	 para	 a	 faculdade	 como	 sinal	 de	 sua	 fé	 e
testemunho	para	os	outros.	Afinal,	se	eles	não	tinham	vergonha	de	andar	com
um	livro	de	Freud	ou	um	de	química	ou	algum	romance,	por	que	deveriam
se	constranger	de	carregar	 a	Bíblia?	Mas,	não	demorou	muito,	percebi	que
alguns	cristãos	estavam	andando	com	Bíblias	muito	grandes...	Assim	como	os
hipócritas	da	época	de	Jesus,	esses	jovens	estavam	tentando	ganhar	a	fama	de
piedosos.
Praticamente	tudo	o	que	possa	servir	como	sinal	exterior	de	uma	atitude
interior	 pode	 ser	 barateado	 por	 essa	 piedade	 hipócrita.	 Jesus	 disse	 aos	 que
queriam	 jejuar:	 “Mas	 você,	 quando	 jejuar,	 ponha	 óleo	 na	 cabeça	 e	 lave	 o
rosto,	para	não	ficar	evidente	aos	outros	que	você	está	jejuando,	mas	somente
a	seu	Pai,	que	está	em	secreto;	e	seu	Pai,	que	vê	o	que	é	secreto,	recompensará
você”	 (6.17,18).	 Jesus	 está	 dizendo	 a	 seus	 seguidores	 que	 eles	 devem	 agir
normalmente	quando	jejuarem,	de	modo	que	ninguém	saiba	disso	a	não	ser
Deus.	Eles	devem	sacudir	as	cinzas,	lavar	o	rosto,	usar	desodorante	ou	talco,
ou	 óleo,	 ou	 qualquer	 outra	 coisa,	 e	 agir	 normalmente.	 Nenhum	 ato
voluntário	 de	 disciplina	 espiritual	 deve	 ser	 usado	 para	 autopromoção.	 Do
contrário,	qualquer	valor	que	o	ato	possa	ter	estará	invalidado.
O	 golpe	 de	 Mateus	 6.1-18	 é	 humilhante.	 A	 exigência	 de	 justiça	 de
Mateus	5	agora	é	complementada	pela	insistência	em	que	essa	justiça	nunca
deve	 ser	 confundida	 com	 ostentação	 de	 piedade,	 com	 fingimento	 de
santidade.	A	pergunta	se	apresenta	nos	termos	mais	práticos	possíveis:	Quem
eu	estou	tentando	agradar	com	minhas	práticas	religiosas?	A	reflexão	sincera
sobre	 essa	 questão	 pode	 produzir	 resultados	 muito	 inquietantes.	 Se	 isso
acontecer,	 grande	 parte	 da	 solução	 é	 começar	 a	 praticar	 piedade	 na
intimidade	secreta	da	presença	do	Senhor.	Se	suas	“obras	de	justiça”	não	são
feitas	 sobretudo	 em	 segredo,	 diante	 dele,	 talvez	 secretamente	 elas	 estejam
sendo	praticadas	para	agradar	outros.
As	 negativas	 desses	 versículos	 são	 de	 fato	 um	bom	meio	 de	 chegar	 ao
que	é	supremo	e	positivo,	a	saber,	a	justiça	transparente.	Santidade	genuína,
virtude	 não	 fingida,	 piedade	 sincera	 —	 tudo	 isso	 é	 extremamente	 puro	 e
atraente.	A	verdadeira	beleza	da	justiça	não	deve	ser	manchada	pela	fraude.
Que	Deus	nos	ajude.
1Walter	 Chalmers	 Smith	 (1824-1908).	 [Conhecido	 no	 Brasil	 na	 versão	 de	 João	 Wilson	 Faustini
intitulada	Deus	 sábio,	 invisível,	 perfeito,	 imortal,	 in:	Hinário	 para	 o	 culto	 cristão,	 2.	 ed.	 (São	 Paulo:
IBB,	2011),	hino	13.	(N.	do	E.)]
2Talvez	 a	mais	 notável	 narrativa	 a	 respeito	 desse	 tema	 seja	 a	 biografia	 de	A.	T.	 Pierson,	 George
Müller	of	Bristol	(Grand	Rapids:	Kregel	Classics,	1999).
3William	 W.	 Walford	 (1772-1850)	 [conhecido	 no	 Brasil	 na	 versão	 de	 Sarah	 Poulton	 Kalley
intitulada	Bendita	 a	 hora	 de	 oração,	 in:	 Salmos	 e	 hinos	 com	 músicas	 sacras	 (Rio	 de	 Janeiro:	 Igreja
Evangélica	Fluminense,	1975),	hino	488.	(N.	do	E.)].
A
4 Perspectivas	do	reino
primeira	 parte	 de	 Mateus	 6,	 como	 vimos	 no	 último	 capítulo,	 deixa	 a
hipocrisia	 desconcertada.	 Por	 isso,	 em	 grande	 parte	 seu	 tom	 é	 negativo.
Contudo,	esse	tom	faz	com	que	a	lição	positiva	seja	claramente	entendida.	Na
busca	da	 justiça	do	 reino,	precisamos	nos	certificar	de	que	nossas	 “obras	de
justiça”,	 especificamente	 as	 religiosas,	 sejam	 isentas	 de	 hipocrisia.	 Podemos
evitar	a	hipocrisia	garantindo	que	nosso	objetivo	final	seja	agradar	a	Deus	e
sermos	 recompensados	 por	 ele.	 Na	 prática,	 é	 preciso	 evitar	 todo	 tipo	 de
autopromoção	nos	atos	de	piedade.
O	que	está	em	jogo	são	as	perspectivas	do	reino.	A	vida	no	reino	não	é
uma	questão	de	tão	somente	transpor	um	obstáculo	ou	ser	aprovado	em	um
teste	e	depois	viver	em	relativa	indiferença	às	normas	do	reino.	Em	vez	disso,
deve	haver	o	arrependimento	profundo	que	orienta	voluntariamente	 toda	a
vida	 em	 torno	 dessas	 normas.	 A	 segunda	 metade	 de	 Mateus	 6,	 portanto,
baseia-se	 no	 que	 veio	 anteriormente.	 Os	 seguidores	 de	 Jesus	 não	 apenas
evitam	a	hipocrisia	no	dever	religioso,	mas	compreendem	positivamente	que
todos	os	aspectos	de	sua	vida	e	todos	os	seus	atos	devem	estar	de	acordo	com
as	perspectivas	do	reino.
Jesus	 enuncia	 duas	 perspectivas	 do	 reino	 que	 são	 gerais,	 porém
abrangentes.	A	primeira	é	lealdade	inabalável	aos	valores	do	reino	e	a	segunda
é	confiança	irrestrita	em	Deus.
LEALDADE	INABALÁVEL	AOS	VALORES	DO	REINO:
TRÊS	METÁFORAS
Mateus	6.19-24
Tesouro	(6.19-21)
“Não	 acumulem	 para	 vocês	 tesouros	 na	 terra,	 onde	 traça	 e	 ferrugem
destroem,	e	os	ladrões	invadem	e	roubam.	Mas	acumulem	para	vocês	tesouros
no	céu,	onde	nem	traça	nem	ferrugem	destroem,	e	os	 ladrões	não	 invadem
nem	 roubam.	 Porque	 onde	 estiver	 o	 seu	 tesouro,	 aí	 estará	 também	 o	 seu
coração.”	Não	há	dúvida	de	que	entre	os	tesouros	na	terra	mencionados	aqui
estão	as	ricas	vestes	orientais,	o	tipo	de	roupa	que	qualquer	traça	que	se	preze
adoraria	 encontrar.	 A	 palavra	 traduzida	 por	 “ferrugem”	 pode	 significar
exatamente	isso	e,	portanto,	estar	ligada	à	corrosão	dos	metais.	Mas	também
pode	referir-se	a	outros	tipos	de	deterioração	e	ruína.	Por	exemplo,	pode	ser
uma	referência	a	algo	que	devora	um	suprimento	de	grãos.	Os	comentaristas
mais	antigos,	com	os	quais	estou	de	concordo,	veem	nesse	exemplo	a	imagem
de	 uma	 lavoura	 com	 seus	 produtos	 e	 provisões	 sendo	 arruinada,	 corroída,
corrompida,	deteriorada.
Concomitantemente,	 os	 bens	 que	 não	 podem	 ser	 corroídos	 ou
devorados	 podem	 ser	 roubados.	Muitos	 “tesouros	 na	 terra”	 fazem	 a	 alegria
dos	ladrões,	que	invadem	e	roubam.	De	fato,	eles	“escavam”	e	roubam,	já	que
as	 paredes	 da	maioria	 das	 casas	 da	 Palestina	 na	Antiguidade	 eram	 feitas	 de
barro	cru,	que	se	esfarelava	facilmente	nas	mãos	de	qualquer	ladrão	com	um
instrumento	perfurante.
Em	 princípio,	 ao	 usar	 a	 expressão	 “tesouros	 na	 terra”,	 Jesus	 estava	 se
referindo	a	qualquer	coisa	valiosa	que	seja	perecível	ou	que	se	perca	de	algum
modo.	 Como	 o	 tesouro	 se	 perde	 não	 importa	 (mas,	 entre	 os	 meios	 que	 o
consomem	em	nossos	dias,	certamente	está	a	inflação	galopante).
Os	seguidores	de	Jesus,	ao	contrário,	devem	acumular	para	si	tesouros	no
céu,	onde	nem	traça	nem	ferrugem	os	consomem,	e	os	ladrões	não	invadem
nem	roubam	—	onde	não	existe	inflação.	Esses	tesouros	são	coisas	resultantes
da	 aprovação	 divina	 e	 que	 serão	 dadas	 generosamente	 aos	 discípulos	 na
consumação	do	reino.	A	maravilha	dos	tesouros	do	novo	céu	e	da	nova	terra
ultrapassa	a	nossa	mais	surreal	imaginação.	Em	alguns	momentos,	as	páginas
das	Escrituras	nos	permitem	vislumbres	manifestos	em	brilhantes	metáforas,
quando	são	empregados	recursos	estilísticos	para	nos	falar	de	coisas	que	mal
se	 podem	 conceber.	 Outras	 vezes,	 as	 Escrituras	 extrapolam	 as	 amostras
antecipadas	 que	 usufruímos	 aqui	 e	 retratam	 amor	 puro,	 um	modo	 de	 vida
absolutamente	 sem	 pecado,	 de	 integridade	 sem	 mácula,	 trabalho	 e
responsabilidade	sem	fadiga,	emoções	profundas	sem	lágrimas,	adoração	sem
restrição,	nem	desarmonia,	nem	fingimento	e,	o	melhor	de	tudo,	a	presença
de	Deus	de	forma	irrestrita,	absoluta	e	pessoal.	Esses	tesouros	não	podem	ser
roubados	nem	atacados	pela	corrosão.
Não	creio	que	Jesus	esteja	condenando	todo	tipo	de	riqueza,	assim	como
não	está	condenando	todo	tipo	de	roupa.	Ele	não	está	proibindo	coisas,	mas,
sim,	o	amor	às	 coisas.	Não	o	dinheiro,	mas	o	amor	ao	dinheiro	é	 a	 raiz	de
todosos	 males	 (1Tm	 6.10).	 Jesus	 nos	 proíbe	 de	 fazer	 de	 simples	 bens
materiais	 nosso	 tesouro,	 de	 acumular	 coisas	 como	 se	 tivessem	 importância
suprema.
Eclesiastes,	o	pregador,	pode	nos	ajudar	aqui.	Ele	fala	da	construção	de
edifícios,	 ética	 do	 trabalho,	 sexo,	 fama,	 poder,	 várias	 filosofias	 e	 depois
despreza	um	por	um,	afirmando	que	não	passam	de	vaidade,	de	correr	atrás
do	vento.	O	dr.	Harold	Dressler,	meu	colega	e	amigo,	convenceu-me	de	que
a	palavra	 traduzida	por	“vaidade”	não	deve	ser	entendida	com	o	significado
de	que	 todas	 essas	 coisas	 são	 igualmente	 inúteis,	 bobagens,	 “vãs”,	mas,	 sim,
que	 são	 todas	 transitórias.	Elas	 são	“vaidade”	no	 sentido	de	que	não	duram,
são	 passageiras.	 Tais	 coisas	 são,	 por	 assim	 dizer,	 amaldiçoadas	 com	 a
temporariedade,	 com	 a	 transitoriedade.	Quando	 eu	morrer,	 levarei	 comigo
exatamente	o	que	trouxe	para	este	mundo	—	nada.	Portanto,	mesmo	que	os
ladrões	 e	 a	 ferrugem	não	ataquem	meus	bens	 enquanto	eu	viver,	 é	vaidade
acumular	tesouros	que	têm	esse	valor	tão	limitado	pelo	tempo.
É	 claro	 que	 defender	 o	 que	 Jesus	 defende	 aqui	 pressupõe	 crer	 em
recompensas	e	castigos	do	céu.	Por	isso,	só	quem	tem	fé	reconhece	a	validade
desse	 argumento,	 porque,	 como	 disse	 o	 escritor	 de	 Hebreus:	 “Sem	 fé	 é
impossível	agradar	a	Deus,	pois	é	necessário	que	quem	se	aproxima	dele	creia
que	 ele	 existe	 e	 recompensa	 os	 que	 o	 buscam”	 (Hb	 11.6).	 Porém,	 se	 sou
verdadeiramente	 comprometido	 com	 o	 reino	 de	 Deus,	 meus	 valores	 mais
importantes	serão	estabelecidos	por	Deus.
Assim	 como	 o	 reino	 já	 está	 presente,	 ainda	 que	 incipiente,	 também	 o
discípulo	de	Jesus	já	está	acumulando	tesouros	no	céu	e	desfrutando	deles.	E,
assim	como	o	reino	ainda	está	por	vir	em	toda	a	plenitude	de	seu	esplendor,
também	 o	 discípulo	 de	 Jesus	 aguarda	 essa	 consumação	 a	 fim	 de	 entrar	 na
plenitude	das	bênçãos	que	o	Pai	lhe	preparou.	O	discípulo	vive	pela	fé,	mas,
dada	a	realidade	dos	objetos	dessa	fé,	as	restrições	aqui	expostas	são	razoáveis.
Temos	 de	 nos	 perguntar	 (se	 é	 que,	 repito,	 posso	 me	 referir	 à	 eternidade
considerando	 divisões	 de	 tempo)	 que	 importância	 terão	 para	 nós	 os	 bens
transitórios	atuais	daqui	a	cinquenta	bilhões	de	trilhões	de	milênios.	Trocar	o
eterno	 pelo	 temporário	 é	 um	 mau	 negócio,	 não	 importa	 com	 quantas
lantejoulas	se	enfeite	o	temporário	para	torná-lo	mais	chamativo.	Será	muito
triste	se	tivermos	de	seguir	os	exemplos	de	Acã,	de	Salomão,	do	jovem	rico	e
de	Demas	para	descobrir	essa	verdade	por	nós	mesmos.
Não	 é	 apenas	 uma	 questão	 de	 receber	 recompensas	 no	 final.	 É	muito
mais	que	isso,	porque	as	coisas	que	estimamos	de	fato	governam	nossa	vida.
O	que	nós	valorizamos	nos	direciona	a	mente	e	as	emoções	e	consome	nosso
tempo,	pois	 ficamos	planejando,	 sonhando	acordados	e	nos	esforçando	para
alcançá-las.	Como	disse	Jesus:	“Porque	onde	estiver	o	seu	tesouro,	aí	também
estará	 também	 o	 seu	 coração”.	 Se	 alguém	 deseja,	 acima	 de	 qualquer	 coisa,
ganhar	 muito	 dinheiro,	 comprar	 uma	 casa	 luxuosa,	 esquiar	 nos	 Alpes	 ou
velejar	no	Mediterrâneo,	assumir	o	controle	de	sua	empresa	ou	comprar	a	do
seu	 concorrente,	 construir	uma	boa	 reputação	ou	obter	 aquela	 tão	 sonhada
promoção,	 defender	 uma	 posição	 política	 ou	 ser	 nomeado	 para	 um	 cargo
público,	será	devorado	por	esses	objetivos,	e	os	valores	do	reino	serão	postos
de	 lado.	Note	que	nenhum	dos	objetivos	que	mencionei	 é	 intrinsecamente
mau,	 mas	 nenhum	 deles	 tem	 valor	 supremo.	 Portanto,	 qualquer	 um	 deles
pode	tornar-se	mau	se	for	considerado	nosso	maior	tesouro	e,	assim,	usurpar
o	lugar	que	pertence	ao	reino.	E	a	situação	é	muito	pior	quando	os	objetivos
são	 de	 fato	 maus!	 O	 princípio,	 porém,	 é	 o	 mesmo:	 pensamos	 em	 nossos
tesouros,	somos	atraídos	por	eles,	nos	inquietamos,	medimos	outras	coisas	(e
outras	 pessoas)	 em	 relação	 aos	 nossos	 tesouros.	 Infelizmente,	 isso	 é	 tão	 real
que	qualquer	um	que	se	examine	com	sinceridade	consegue	descobrir	quais
são	seus	verdadeiros	tesouros	apenas	analisando	seus	desejos	mais	profundos.
No	 Canadá,	 a	 neve	 recém-caída	 em	 geral	 é	 seca	 e	 quebradiça,	 não
úmida	e	pegajosa.	Um	campo	coberto	de	neve	recente	é	muito	convidativo,
pois	 cintila	 no	 sol	 do	 inverno.	 Não	 há	 marcas	 nem	 pegadas;	 temos	 o
privilégio	 de	 andar	 sobre	 a	 neve	 e	 formar	 o	 desenho	 que	 quisermos.	 Se
fixarmos	o	olhar	em	nossos	pés	e	tentarmos	atravessar	o	campo	em	linha	reta,
vamos	 fazer	 uma	 trilha	 toda	 irregular.	 Se,	 em	 vez	 disso,	 fixarmos	 os	 olhos
numa	árvore	ou	numa	rocha	do	outro	 lado	e	andarmos	em	direção	a	ela,	 a
trilha	será	extraordinariamente	reta.
Quando	eu	e	Joy	estávamos	noivos,	prestes	a	nos	casar,	morávamos	em
Cambridge,	na	Inglaterra.	Gostávamos	de	sair	às	vezes	para	andar	de	bicicleta
no	 caminho	 que	margeia	 o	 rio	Cam,	 usado	 antigamente	 pelos	 cavalos	 que
rebocavam	barcos.	Enquanto	pedalávamos,	a	distância	entre	minha	bicicleta	e
a	margem	íngreme	do	rio	nunca	era	maior	que	cerca	de	60	a	90	centímetros;
bastava	 virar	 o	 guidão	 acidentalmente,	 e	 eu	 iria	 parar	 dentro	 d’água.	 Nos
trechos	mais	largos	do	caminho,	nós	pedalávamos	lado	a	lado,	mas	Joy	ia	pelo
lado	de	dentro.	Se,	durante	a	conversa,	ela	começasse	a	olhar	para	mim,	eu
tinha	de	frear,	senão	as	bicicletas	acabavam	se	enganchando	ou	eu	caía	dentro
do	rio.
Essas	ilustrações	mostram	que	nossa	tendência	é	mover-nos	em	direção
ao	objeto	no	qual	fixamos	o	olhar.	Da	mesma	maneira,	toda	a	nossa	vida	se
move	 inexoravelmente	 para	 onde	 estão	 guardados	 nossos	 tesouros,	 porque
nosso	coração	nos	levará	para	lá.	Portanto,	seguir	Jesus	fielmente	significa	o
desenvolvimento	 constante	 de	 nossas	 afeições	 mais	 profundas:	 educar-nos
para	cultivar	lealdade	inabalável	aos	valores	do	reino	e	ter	prazer	em	tudo	o
que	 Deus	 aprova.	 Não	 admira	 que	 Paulo	 tenha	 escrito:	 “Portanto,	 já	 que
vocês	ressuscitaram	com	Cristo,	desejem	de	todo	o	coração	as	coisas	de	cima,
onde	Cristo	está	assentado	à	direita	de	Deus.	Pensem	nas	coisas	de	cima,	não
nas	 que	 são	 da	 terra”	 (Cl	 3.1,2).	Ou	 ainda:	 “Ordene	 aos	 ricos	 do	 presente
mundo	que	não	sejam	arrogantes,	nem	ponham	a	esperança	na	instabilidade
da	riqueza,	mas	em	Deus,	que	nos	provê	abundantemente	de	tudo	para	nossa
satisfação.	 Ordene-lhes	 que	 pratiquem	 o	 bem,	 para	 serem	 ricos	 em	 boas
obras,	 e	 sejam	generosos	e	prontos	 a	 repartir.	Desse	modo,	 acumularão	um
bom	tesouro	para	eles	mesmos,	um	firme	fundamento	para	a	era	vindoura,	a
fim	de	tomarem	posse	da	verdadeira	vida”	(1Tm	6.17-19).
Luz	(6.22,23)
A	metáfora	seguinte	é	um	pouco	mais	difícil	de	entender.	Jesus	afirma:	“Os
olhos	são	a	candeia	do	corpo.	Se	os	seus	olhos	forem	bons,	todo	o	seu	corpo
terá	luz.	Se,	porém,	os	seus	olhos	forem	maus,	todo	o	seu	corpo	estará	repleto
de	 trevas.	Portanto,	 se	 a	 luz	que	há	 em	você	 são	 trevas,	que	grandes	 trevas
serão!”.
É	possível	que	essa	ideia	tenha	origem	no	parágrafo	anterior.	Se	for	isso,
os	olhos	 são	a	candeia	do	corpo	no	 sentido	de	que	eles	permitem	ao	corpo
encontrar	 seu	caminho.	Seus	olhos	precisam	ser	 “bons”	para	poderem	guiar
“todo	o	seu	corpo”	(uma	expressão	semítica	que	significa	“você	mesmo”)	para
o	que	é	bom.
No	entanto,	é	possível	(e	preferível,	a	meu	ver)	interpretar	os	versículos
22	 e	 23	 de	 uma	 forma	 um	 pouco	mais	 simples.	O	 corpo	 todo	—	 isto	 é,	 a
pessoa	 toda	—	 é	 representado	 por	 uma	 sala,	 ou	 uma	 casa.	A	 finalidade	 dos
olhos	 é	 iluminar	 essa	 sala,	 garantir	 que	 ela	 “seja	 cheia	 de	 luz”.	 Os	 olhos,
portanto,	funcionam	como	a	fonte	de	luz.	Podemos	pensar	na	única	janela	de
um	cômodo,	apesar	de	Jesus	de	fato	usar	a	metáfora	de	uma	candeia,	não	a	de
uma	janela.
Para	que	o	indivíduo	seja	cheio	de	 luz,	portanto,	seus	olhos	têm	de	ser
“bons”.	Se	forem	maus,	se	sua	chama	for	fumacenta	ou	o	vidro	estiver	sujo	de
fuligem,	 se	 o	 pavio	 não	 estiver	 bem	 aparado	 ou	 se	 não	 houver	 querosene
suficiente,a	pessoa	continuará	na	escuridão	total.	Obviamente,	é	importante
descobrir	o	que	Jesus	quer	dizer	não	metaforicamente,	ao	exigir	que	os	olhos
sejam	“bons”.
O	adjetivo	“bom”,	porém,	é	um	tanto	intrigante.	A	palavra	do	original
foi	 empregada	 na	 Septuaginta	 com	o	 sentido	 de	 “sinceridade	 de	 propósito,
lealdade	não	dividida”,	daí	o	uso	de	“simples”	na	KJV.	No	entanto,	entre	os
rabinos,	“olho	mau”	denota	egoísmo.	Nesse	caso,	olhos	bons	podem	indicar
compromisso	 com	 a	 generosidade.	 Ser	 cheio	 de	 luz	 é	 equivalente	 a	 ser
generoso,	 e	 parece	 que	 isso	 se	 encaixa	 muito	 bem	 como	 ampliação	 das
advertências	do	parágrafo	anterior	acerca	do	tesouro	mal	escolhido.
Na	 minha	 opinião,	 o	 significado	 que	 a	 Septuaginta	 dá	 à	 palavra	 é
melhor,	 se	 julgarmos	 pelo	 contexto.	 Embora	 à	 primeira	 vista	 a	 ideia
alternativa	de	generosidade	pareça	combinar	bem	com	a	ênfase	do	parágrafo
anterior	no	tesouro	e	com	a	advertência	do	parágrafo	seguinte	em	relação	ao
dinheiro,	 uma	 análise	 mais	 minuciosa	 revela	 que	 a	 adequação	 não	 é	 tão
perfeita	assim.	Os	versículos	19	e	20	estão	menos	 relacionados	com	riqueza
financeira	 e	 generosidade	 do	 que	 com	 a	 escala	 de	 valores	 com	 que	 uma
pessoa	determina	qual	 é	o	 seu	maior	 tesouro.	Do	mesmo	modo,	o	 foco	do
versículo	24	não	é	tanto	o	dinheiro,	mas,	sim,	o	serviço	e	o	compromisso.
Em	 outras	 palavras,	 os	 versículos	 de	 19-21	 e	 o	 versículo	 24	 exigem
lealdade	 inabalável	 aos	 valores	 do	 reino;	 as	 analogias	 usadas	 são	 tesouro	 e
dinheiro.	A	ênfase	está	na	sinceridade	de	propósito	—	fidelidade	do	coração
—	 para	 com	Deus.	 Por	 isso,	 é	muito	 provável	 que	 a	 palavra	 traduzida	 por
“bons”	na	NIV	signifique	“sinceridade	de	propósito,	lealdade	não	dividida”	—
que,	 contexto	 à	 parte,	 é	 a	 interpretação	mais	natural.	Os	olhos	bons	 são	os
que	estão	fixos	em	Deus,	sem	se	desviar	dessa	constante	contemplação.
O	 resultado	 é	 o	 indivíduo	 todo	 “cheio	 de	 luz”.	 Acho	 essa	 expressão
adorável.	 Se	 entendermos	 luz	 em	 suas	 conotações	 usuais	 de	 revelação	 e
pureza,	 o	 indivíduo	 que	 tem	 olhos	 bons	 para	 com	 os	 valores	 do	 reino	 é
alguém	 caracterizado	 pelo	 entendimento	 máximo	 da	 verdade	 divinamente
revelada	e	pela	conduta	inabalavelmente	pura.	Além	disso,	a	expressão	“cheio
de	 luz”	provavelmente	não	 se	 limita	ao	que	a	pessoa	é	em	si,	 isoladamente,
mas	 também	 diz	 que	 essa	 pessoa	 será	 tão	 cheia	 de	 luz	 que	 emitirá	 luz.	 É
mediante	esse	compromisso	irrestrito	com	os	valores	do	reino	que	os	cristãos
se	tornam	“a	luz	do	mundo”	(Mt	5.14).
O	 oposto	 é	 ser	 “cheio	 de	 trevas”,	 destituído	 de	 revelação	 e	 de	 pureza.
Essas	trevas	são	particularmente	pavorosas	se	a	pessoa	se	ilude.	Se	pensa	que
seus	olhos	são	bons,	quando	na	verdade	são	maus,	ela	se	convence	de	que	sua
lealdade	 nominal	 aos	 valores	 do	 reino	 é	 profunda	 e	 genuína,	 quando	 na
verdade	é	superficial	e	fingida.	A	pessoa	cujas	trevas	são	mais	densas	é	aquela
que	 acredita	 que	 essas	 trevas	 são	 luz:	 “Portanto,	 se	 a	 luz	 que	 há	 em	 você
forem	trevas,	que	grandes	trevas	serão!”.
Escravidão	(6.24)
“Ninguém	pode	servir	a	dois	senhores;	porque	ou	odiará	um	e	amará	o	outro,
ou	se	dedicará	a	um	e	desprezará	o	outro.	Vocês	não	podem	servir	a	Deus	e
ao	dinheiro”	(6.24).
À	 primeira	 vista,	 o	 texto	 parece	 um	 pouco	 radical	 na	 polarização.
Contudo,	 é	 preciso	 ter	 em	 mente	 duas	 questões	 para	 poder	 entendê-lo
corretamente.	Em	primeiro	lugar,	quando	fala	em	“senhores”,	Jesus	não	está
pensando	 em	 patrões	 do	 nosso	 século	 (cuja	 autoridade	 —	 da	 maioria	 —	 é
limitada	 pelos	 sindicatos	 de	 empregados),	 mas	 em	 algo	 mais	 próximo	 de
senhores	 de	 escravos	 (embora	 talvez	 não	 tão	 estereotipados).	 É	 possível
trabalhar	para	dois	patrões;	não	é	tão	fácil	servir	a	dois	senhores.
Em	segundo,	a	oposição	entre	amor	e	ódio	é	uma	expressão	idiomática
semítica	 comum.	 Nenhuma	 de	 suas	 partes	 pode	 ser	 entendida	 em	 sentido
absoluto.	 Odiar	 um	 dos	 dois	 e	 amar	 o	 outro	 significa	 tão	 somente	 que	 o
último	é	o	preferido,	principalmente	se	houver	alguma	competição	entre	os
dois.	 Essa	 expressão	 idiomática	 ajuda	 a	 entender	 outras	 frases	 de	 Jesus:	 “Se
alguém	vem	a	mim	e	não	odeia	seu	pai	e	sua	mãe,	mulher	e	filhos,	irmãos	e
irmãs	—	e	mesmo	a	própria	vida	—,	não	pode	ser	meu	discípulo”	(Lc	14.26).
Em	outra	passagem,	esse	mesmo	Jesus	 insiste	em	que	honremos	nossos	pais
com	 integridade	 (Mc	 7.9-13).	 É	 evidente,	 portanto,	 que	 ele	 não	 está
defendendo	o	ódio.	Ele	quer	dizer	que	o	amor	mais	profundo	e	a	principal
lealdade	de	toda	pessoa	devem	ser	dirigidos	ao	Pai	e	ao	Filho	que	ele	enviou	e
que	até	os	laços	familiares	devem	ser	considerados	secundários.
Da	 mesma	 forma,	 Mateus	 6.24	 nos	 adverte	 de	 que	 em	 momentos	 de
crise	temos	de	escolher	entre	nossas	lealdades,	e	só	uma	pode	ser	a	principal.
Um	 “senhor”	 terá	 a	 preferência.	 Nas	 crises	 se	 revela	 a	 que	 ou	 a	 quem
preferimos	 servir.	 Então,	 Jesus	 nos	 dá	 um	 exemplo	 incisivo:	 “Vocês	 não
podem	servir	a	Deus	e	ao	Dinheiro”.
A	palavra	traduzida	por	“dinheiro”	na	NVI	é	transliterada	na	maioria	das
versões	por	 “Mamom”.	A	princípio,	 a	 palavra	 significava	 “alguma	coisa	 em
que	se	deposita	a	confiança”,	ou	algo	assim.	Por	fim,	não	dúvida	já	que	o	ser
humano	em	geral	deposita	 sua	confiança	nas	 riquezas,	 a	palavra	passou	a	 se
referir	 a	 todos	 os	 bens	 materiais:	 proveito	 financeiro,	 riqueza,	 dinheiro.
Ninguém	pode	se	dedicar	a	Deus	e	ao	dinheiro	ao	mesmo	tempo.
Admitamos.	 Muitos	 de	 nós,	 quase	 todos,	 aliás,	 fazemos	 um	 grande
esforço	 para	 encontrar	 um	 meio-termo	 nessa	 área.	 Quando	 surgem	 duas
vagas	de	emprego,	o	fator	decisivo	na	hora	de	optar	por	uma	delas	é	o	salário,
não	 a	 oportunidade	 que	 cada	 uma	 nos	 proporciona	 de	 servir	 ao	 Senhor.
Compramos,	sem	necessidade,	um	carro	maior	e	melhor	ou	uma	casa	maior	e
melhor	com	o	único	objetivo	de	nos	igualarmos	aos	nossos	amigos,	parentes
ou	vizinhos	(ou	de	superá-los).
Compare	 essa	 atitude	 com	 a	 do	 comentarista	 Matthew	 Henry	 (1662-
1714),	que,	quando	foi	roubado,	voltou	para	casa	e	escreveu	uma	mensagem
sobre	isso	no	seu	diário:
Senhor,	eu	te	agradeço
porque	nunca	fui	roubado	antes;
porque,	embora	tenham	levado	meu	dinheiro,	minha	vida	foi	poupada;
porque,	embora	tenham	levado	tudo	o	que	eu	tinha,	não	era	muito;
porque	eu	fui	a	vítima,	não	quem	praticou	o	roubo.
Matthew	Henry	era	um	homem	que	servia	a	Deus.
Essas	três	metáforas	—	tesouro,	 luz	e	escravidão	—	unem-se	para	exigir
lealdade	inabalável	aos	valores	do	reino.
CONFIANÇA	IRRESTRITA
Mateus	6.25-34
“Portanto,	eu	lhes	digo:	Não	se	preocupem	com	sua	própria	vida,	quanto	ao
que	comer	ou	beber;	nem	com	seu	próprio	corpo,	quanto	ao	que	vestir.	Não
é	 a	 vida	mais	 importante	 que	 a	 comida,	 e	 o	 corpo	mais	 importante	 que	 a
roupa?”	O	que	esse	 “portanto”	 está	 fazendo	aí?	Trata-se	de	uma	conjunção
conclusiva,	que	chama	a	atenção	para	o	que	foi	dito	antes:	Porque	os	tesouros
terrenos	 passageiros	 não	 satisfazem	 e	 não	 duram	 (6.19-21),	 porque	 a	 visão
moral	 e	 espiritual	 facilmente	 se	 distorce	 e	 se	 obscurece	 (6.22,23),	 porque	 é
preciso	 escolher	 entre	 Deus	 e	 o	 Dinheiro	 (6.24),	 porque	 o	 reino	 de	 Deus
exige	lealdade	inabalável	a	seus	valores	(6.19-24),	portanto	não	se	preocupem
e,	principalmente,	não	se	preocupem	com	meras	coisas	materiais.
Contudo,	vamos	analisar	uma	ligação	mais	sutil.	Jesus	vem	minimizando
a	importância	dos	bens	materiais,	e	não	poucos	de	seus	ouvintes	sem	dúvida
devem	ter-se	perguntado:	“Mas	e	as	nossas	necessidades?	É	muito	fácil	dar	as
costas	 para	 a	 riqueza	 quando	 se	 é	 rico,	mas	 eu	 tenho	mulher	 e	 filhos	 para
sustentar,	 e	mal	 consigo	 prover	 comida,	 roupa	 e	moradia.	O	que	 o	 senhor
está	me	dizendo?”.	De	fato,	Jesus	responde	que,	assim	como	os	bens	terrenos
podem	 se	 tornar	 um	 ídolo	 que	 toma	 o	 lugar	 de	 Deus	 ao	 se	 tornar
desproporcionalmente	importante,	tambémas	necessidades	terrenas	podem	se
tornar	uma	fonte	de	preocupações	que	toma	o	lugar	de	Deus	ao	alimentar	a
falta	de	confiança.	A	lealdade	aos	valores	do	reino	rejeita	toda	subserviência	a
coisas	 temporais,	 quer	 essa	 subserviência	 seja	 do	 tipo	 que	 acumula
incessantemente,	 quer	 seja	 do	 tipo	 marcado	 pela	 busca	 frenética,	 sem	 fé	 e
ansiosa	por	suprimentos	de	primeira	necessidade.
Antes	 de	 analisar	 o	 que	 a	 passagem	 de	 Mateus	 6.25-34	 diz	 a	 respeito	 da
preocupação,	 acho	 prudente	 fazer	 algumas	 observações	 gerais	 sobre
preocupação	 e	 a	 resposta	 que	 o	 Novo	 Testamento	 dá	 para	 ela.	 Digo	 isso
porque	ansiedade	e	tensão	se	tornaram	um	dos	grandes	temas	de	discussão	em
nossa	 sociedade,	 e	 as	 atitudes	 em	 relação	 a	 elas	 degeneraram	 em	 algumas
posições	radicais	polarizadas.	É	necessário	ter	equilíbrio	e	cautela.
Imagine	 três	 indivíduos.	 O	 primeiro	 é	 despreocupado,	 alegre	 e	 quase
irresponsável.	Raramente	termina	o	que	começa	e,	quando	termina,	é	sempre
com	atraso.	Não	se	preocupa	nem	com	os	próximos	5	minutos,	quanto	mais
com	o	dia	de	amanhã.	Responsabilidade	é	uma	coisa	que	ele	não	leva	a	sério;
a	vida	é	uma	festa.	Se	é	cristão,	é	muito	difícil	fazê-lo	desempenhar	qualquer
tarefa	com	fidelidade.	Provavelmente	nunca	vai	causar	tensão	com	ninguém
por	 atitudes	 geradas	 por	 uma	 índole	 rancorosa	 ou	 vingativa:	 todos	 o
consideram	 um	 “cara	 legal”.	 Em	 contrapartida,	 esse	 indivíduo	 se	 mostra
insensível	 às	 necessidades	 e	 sentimentos	 dos	 outros	 e	 não	 se	 abala	 nem	um
pouco	com	os	milhões	de	almas	perdidas	espiritualmente.
O	 segundo	 indivíduo	 é	 quase	 hiper-responsável.	 Leva	 a	 sério	 todos	 os
sofrimentos	e	fardos.	Se	tem	um	problema,	angustia-se	tanto	que	chega	a	ter
úlcera	 no	 estômago.	 A	 economia	 do	 país	 lhe	 tira	 o	 sono	 e	 não	 lhe	 sai	 da
cabeça:	ele	não	só	se	preocupa	com	o	dia	de	amanhã,	mas	também	imagina	o
que	vai	fazer	para	pagar	as	contas	quando	se	aposentar	daqui	a	42	anos.1	Ele
pode	 transformar	 tudo	 em	motivo	 de	 preocupação,	 de	modo	 que	 qualquer
má	notícia	ou	mesmo	a	ínfima	possibilidade	de	uma	má	notícia	desencadeia
uma	 nova	 crise	 de	 ansiedade;	 ou	 talvez	 ele	 concentre	 sua	 preocupação	 e	 o
exagerado	 senso	 de	 responsabilidade	 em	 algumas	 áreas	 apenas	 e,
consequentemente,	exclua	por	completo	outras	pessoas	e	outros	assuntos.
O	 terceiro	 indivíduo	 é	 um	 jovem	 cristão	 equilibrado	 e	 sensato,
conhecido	por	sua	integridade,	dedicação	e	disciplina	no	trabalho.	Casado	e
pai	 de	 dois	 filhos,	 ele	 sustenta	 fielmente	 a	 família	 ao	mesmo	 tempo	 que	 se
empenha	 para	 concluir	 o	 doutorado.	 Faltando	 cerca	 de	 um	 ano	 para	 a
conclusão	do	 curso,	 ele	 acorda	 certa	noite	 e	 vê	 que	 a	 esposa	não	 consegue
falar	nem	mover	o	lado	direito	do	corpo.	Os	médicos	descobrem	um	tumor
cerebral,	mas	dizem	que	a	cirurgia	 seria	 inútil.	Eles	dizem	ao	marido	que	o
período	 de	 recuperação	 seria	 longo	 e,	 de	 qualquer	modo,	 não	 devolveria	 à
esposa	os	movimentos	nem	a	clareza	mental	normais.	De	fato,	o	prognóstico
de	evolução	da	doença	é	de	três	anos,	período	em	que	ela	começaria	a	entrar
em	estado	vegetativo	progressivo	e	por	fim	morreria.
Esses	 três	 indivíduos	 ouvem	 um	 pregador	 que	 usa	 o	 texto	 de	 Mateus
6.25-34	como	base	de	um	longo	sermão	sobre	o	grande	mal	da	preocupação.
O	pregador	 diz	 que	 a	 preocupação	 significa	 falta	 de	 confiança	 em	Deus,	 e
isso	é	vergonhoso.
Como	será	a	reação	de	cada	um	deles?
O	 primeiro	 continuará	 bem	 feliz,	 pois	 sempre	 achou	 que	 os	 outros
vivem	 sempre	muito	 tensos.	 Por	 que	 se	 esforçar	 tanto	 para	 tirar	 “A”	 numa
prova?	Só	passar	de	ano	 já	está	muito	bom.	Por	que	 ficar	 tão	obcecado	em
cumprir	compromissos?	Ele	é	feliz	e	livre,	e	obedece	alegremente	à	ordem	do
Senhor	de	não	nos	preocuparmos.
O	 segundo	 pode	 se	 sentir	 muito	 criticado	 pelo	 sermão.	 Sabe	 que	 a
mensagem	 é	 para	 ele.	 Fica	 preocupado	 de	 estar	 negando	 o	 Senhor	 e	 se
desespera	com	seus	pecados	e	com	ele	mesmo.	Sem	nenhum	senso	de	ironia,
eu	diria	que	ele	começa	a	ficar	preocupado	por	preocupar-se.
O	 terceiro	 homem	 ouve	 o	 sermão	 e,	 se	 não	 for	 excepcionalmente
maduro	e	cheio	de	graça,	resmunga	para	si	mesmo	alguma	frase	amarga	sobre
o	pregador	ter	de	saber	o	que	é	ver	a	própria	esposa	morrer	aos	poucos,	antes
de	 se	 aventurar	 num	 assunto	 difícil	 como	 esse.	 E,	 se	 esse	 terceiro	 homem
estiver	se	sentindo	cansado	e	um	pouco	rancoroso,	talvez	comece	a	fazer	uma
lista	 mental	 de	 algumas	 coisas	 com	 que	 as	 pessoas	 poderiam	 muito	 bem
começar	 a	 se	 preocupar:	 problemas	 ambientais,	 ameaça	 de	 um	 holocausto
nuclear,	 inflação	 galopante,	 guerras	 por	 toda	 parte,	 preconceito	 racial,
totalitarismo	cruel,	opressão	econômica,	epidemia	de	alcoolismo	na	França	e
de	 doenças	 venéreas	 nos	 Estados	Unidos.	 Talvez	 ele	 também	 arrole	 outros
problemas	pessoais:	divórcio,	competição	por	promoções	no	trabalho,	prazos
a	 cumprir,	brigas	de	 família,	 adolescentes	 rebeldes	 e	 assim	por	diante.	Essas
frustrações	e	desavenças	pessoais	acabam	se	misturando	com	as	 inquietações
internas	e	externas,	porque	tudo	isso	é	despejado	na	nossa	mente	pelos	meios
de	comunicação.	Não	se	preocupar?	O	terceiro	homem	ouve	essa	ordem	e	a
coloca	 no	 outro	 prato	 da	 balança,	 comparando-a	 com	 todas	 as	 ansiedades
excruciantes	que	lhe	perturbam	o	espírito	e	prejudicam	a	saúde,	e	murmura:
“Você	não	entende	nada.	Não	dá	para	fazer	isso”.
Essas	três	são	apenas	algumas	das	muitas	reações	possíveis,	mas	ilustram
os	 tipos	de	problema	que	 essa	 exposição	do	 texto	 enfrenta	 constantemente.
Interpretar	 as	 Escrituras	 requer	 ao	 mesmo	 tempo	 equilíbrio	 e	 precisão:
equilíbrio	 para	 agrupar	 ensinamentos	 diversos	 e	 precisão	 para	 que	 nenhum
desses	ensinos	seja	extrapolado	irrefletida	e	desproporcionalmente.
Além	disso,	a	aplicação	desses	destaques	diversos	requer	certa	percepção
pastoral	 acerca	 das	 necessidades	 de	 cada	 indivíduo.	 O	 primeiro	 homem
precisa	 ouvir	 sobre	 disciplina,	 autossacrifício	 e	 trabalho	 duro,	 e	 precisa
aprender	 a	 distinguir	 tudo	 isso	 da	 ansiedade	 ilógica.	 O	 segundo	 homem
precisa	 ouvir	 sobre	 a	 providência	 de	 Deus,	 sobre	 os	 meios	 e	 resultados	 da
oração	 e	 sobre	 o	 egocentrismo,	 que	 muitas	 vezes	 é	 um	 dos	 principais
componentes	dessa	preocupação	constante.	O	terceiro	homem	precisa	de	um
irmão	confiança	e	amoroso	que	o	ajude	a	levar	a	carga,	que	chore	com	ele,	dê
apoio	 e	 talvez	 indique	 mais	 uma	 vez	 a	 prova	 definitiva	 da	 benevolência
divina,	a	cruz	de	Cristo.
Eu	apresento	duas	proposições:
(1)	Há	um	sentido	em	que	a	preocupação	não	só	é	boa,	mas	também	em
que	sua	ausência	é,	do	ponto	de	vista	bíblico,	irresponsável.
(2)	Há	um	sentido	em	que	a	preocupação	não	só	é	má,	mas	também	em
que	sua	presença	significa	incredulidade	e	desobediência.
O	 primeiro	 tipo	 de	 “preocupação”	 é	 simplesmente	 o	 desejo	 que	 o
seguidor	de	 Jesus	 tem	de	 ser	 fiel	 e	útil	na	obra	de	 seu	mestre.	Mesmo	uma
leitura	 pouco	 atenta	 do	 corpus	 paulino	 deixa	 claro	 que	 Paulo	 viveu	 e
ministrou	 com	 intensidade	 inegável	 e	 compromisso	 vibrante	 não	 só	 de	 ser
mais	semelhante	a	Cristo,	mas	também	de	lutar	batalhas	espirituais	em	favor
de	 uma	 quantidade	 de	 outros	 crentes	 que	 crescia	 exponencialmente.	 Seu
compromisso	lhe	custou	as	privações	e	os	sofrimentos	narrados	com	detalhes
em	 2Coríntios	 11.23ss.	 “Além	 disso”,	 acrescenta	 o	 apóstolo,	 “enfrento
diariamente	a	pressão	da	preocupação	com	todas	as	igrejas.	Quem	está	fraco,
que	eu	não	me	sinta	fraco?	Quem	é	levado	a	tropeçar,	que	eu	não	me	inflame
interiormente?”	(2Co	11.28,29).
Além	dessas	preocupações,	o	cristão	pode	fazer	muito	esforço	em	relação
ao	 pecado,	 como	 atestam	 as	 próprias	 bem-aventuranças	 (cf.	 tb	 Sl	 38	 e	 51).
Não	admira	que	a	vida	cristã	seja	comparada	a	uma	luta,	um	combate	ou	um
esforço,	 uma	 corrida	 que	 exige	 todo	 o	 empenho	 para	 alcançar	 oalvo	 e
receber	o	prêmio.	As	Escrituras	têm	pouco	motivo	para	retratar	a	vida	cristã
como	alegria	constante	e	contagiante,	paz	ilimitada,	serenidade	permanente;
e	 há	 ainda	menos	 justificativa	 para	 irresponsabilidade	 diante	 do	 Senhor	 no
uso	de	seus	dons.	Existe	alegria,	paz	e	liberdade,	mas	só	dentro	da	matriz	do
compromisso	total	e	puro	com	Jesus,	acompanhadas	de	todas	as	pressões	que
esse	compromisso	inevitavelmente	traz.
Nenhuma	 dessas	 “preocupações”	 é	 puramente	 egoísta.	 Além	 do	 mais,
esses	cuidados	(um	termo	com	carga	emocional	menor	que	“preocupações”)
são	essencialmente	voltados	para	Deus.	Isto	é,	consequência	de	olhar	para	as
coisas	da	perspectiva	de	Deus	e	procurar	garantir	que	a	vontade	dele	seja	feita
na	 terra	 assim	 como	 no	 céu.	 A	 ausência	 desse	 tipo	 de	 “preocupação”	 é
irresponsabilidade.
Por	 sua	vez,	muitas	preocupações	 são	desaprovadas	 e	prejudiciais.	Não
há	nada	de	errado	em	ficar	horas	ocupado	na	cozinha.	Porém,	se	o	trabalho
na	 cozinha	 gera	 impaciência	 e	 valores	 distorcidos,	 merece	 repreensão	 (Lc
10.38-42).	 Algumas	 sementes	 são	 plantadas	 e	 brotam	 de	 uma	 forma	muito
promissora	 a	 princípio,	 até	 que	 os	 espinheiros	 sufocam	 toda	 a	 vida	 que	 há
nelas.	 Esses	 espinheiros	 são	 “as	 preocupações	 desta	 vida	 e	 o	 engano	 das
riquezas”	 (Mt	 13.22).	 Podemos	 perceber	 em	 Filipenses	 4.6,7	 o	 desejo	 de
Paulo	de	eliminar	a	preocupação	destrutiva:	“Não	andem	ansiosos	por	coisa
alguma,	mas	em	tudo,	por	oração	e	súplicas,	com	ação	de	graças,	apresentem
os	 seus	 pedidos	 a	Deus.	 E	 a	 paz	 de	Deus,	 que	 excede	 todo	 entendimento,
guardará	o	coração	e	a	mente	de	vocês	em	Cristo	Jesus”.	Muitos	cristãos	não
se	dão	conta	de	que	aqui	o	apóstolo	nos	mostra,	assim	como	sua	proibição,	os
meios	de	vencer	as	preocupações.
Não	posso	negligenciar	a	oração	e	a	ação	de	graças,	se	quiser	desfrutar	a
paz	 transcendente	 de	 Deus	 e	 vencer	 minhas	 preocupações.	 Tenho	 de
abominar	 a	 amargura	 ingrata	 e	 evitar	 o	mau	humor.	Minhas	 preocupações
devem	ser	mencionadas	uma	a	uma	diante	do	Pai,	 juntamente	com	minhas
petições	 sensatas,	 moldadas	 segundo	 a	 vontade	 dele.	 A	 apresentação	 desses
pedidos	 deve	 ser	 acompanhada	 de	 sincera	 gratidão	 pelas	 muitas	 bênçãos
imerecidas	que	já	recebi	e	pelo	privilégio	de	exercitar	minha	fé	pelo	contato
com	essa	nova	dificuldade.	Assim,	o	 seguidor	de	 Jesus	aprende	a	confiar	na
onisciente	 e	 amabilíssima	 soberania	 de	 Deus	 (Rm	 8.28),	 À	 medida	 que
começa	 a	 experimentar	 a	 profundidade	 da	 ordem	 de	 Pedro:	 “Portanto,
humilhem-se	 debaixo	 da	 poderosa	mão	 de	Deus,	 para	 que	 ele	 os	 exalte	 no
devido	tempo.	Lancem	sobre	ele	toda	a	ansiedade,	porque	ele	tem	cuidado	de
vocês”	(1Pe	5.6,7).
A	maioria	das	preocupações	proibidas	—	se	não	todas	—	indica	uma	falta
aguda	 de	 confiança	 em	 Deus	 e,	 portanto,	 são	 em	 alguma	 medida
egocêntricas.	A	maioria	está	 ligada	a	questões	 temporais;	quando	não	estão,
como	no	 caso	 do	 irmão	que	 teme	que	 a	 graça	 de	Deus	 não	 seja	 suficiente
para	perdoá-lo,	todas	as	ricas	promessas	do	evangelho	estão	disponíveis	para
controlá-las.
Os	tipos	de	preocupação	mais	traiçoeiros	talvez	sejam	os	que	combinam
inquietação	legítima	com	preocupação	egocêntrica.	Por	exemplo,	o	pregador
pode	 estar	 legitimamente	 inquieto	 por	 causa	 de	 um	 sermão	 que	 terá	 de
pregar,	pois	quer	que	ele	seja	verdadeiro,	útil,	ungido	pelo	Espírito	de	Deus	e
transmitido	com	amor.	No	entanto,	ele	também	pode	estar	preocupado	com
sua	reputação.	Nós,	seres	humanos,	temos	uma	capacidade	muito	grande	de
criar	motivos	e	preocupações	conflitantes.	Que	Deus	nos	ajude	a	reforçar	o
que	é	bom	e	a	abominar	o	que	é	mau.
A	 que	 tipo	 de	 preocupação	 nosso	 Senhor	 se	 refere	 em	Mateus	 6.25-34?	 É
claro	 que	 ele	 não	 está	 defendendo	 a	 irresponsabilidade	 despreocupada.	 Ele
está	ensinando	que	mesmo	as	necessidades	materiais	não	são	causa	legítima	de
preocupação	para	os	herdeiros	do	reino.	Portanto,	nossas	necessidades	físicas,
por	mais	procedentes	que	sejam,	jamais	devem	suplantar	nosso	compromisso
com	o	reino	de	Deus	e	a	sua	justiça.	Além	disso,	ele	ensina	que	essas	mesmas
necessidades	 se	 tornam	 oportunidades	 de	 viver	 de	 um	 jeito	 diferente	 do
modo	de	viver	dos	pagãos	à	nossa	volta,	que	não	aprenderam	a	confiar	em
Deus	nem	para	o	suprimento	de	suas	necessidades	básicas.
O	princípio	geral	(6.25)
“Portanto	eu	lhes	digo:	Não	se	preocupem	com	sua	própria	vida,	quanto	ao
que	comer	ou	beber;	nem	com	seu	próprio	corpo,	quanto	ao	que	vestir.	Não
é	 a	 vida	mais	 importante	 que	 a	 comida,	 e	 o	 corpo	mais	 importante	 que	 a
roupa?”	A	 tradução	da	NIV,	 “Não	 se	preocupem”,	é	melhor	que	a	da	KJV,
“Não	pensem”,	já	que	a	ordem	não	tem	o	objetivo	de	defender	o	descuido,	a
falta	de	reflexão,	mas,	sim,	a	ausência	de	preocupação.
A	 passagem	 tem	 implícito	 um	 argumento	 a	 fortiori.	 O	 argumento	 a
fortiori	 tem	 a	 seguinte	 formulação:	 “Se	 isto	 acontece,	 então	 aquilo	 não
acontecerá	 com	 muito	 mais	 razão?”.	 O	 Novo	 Testamento	 tem	 alguns
exemplos	bem	conhecidos	desse	tipo	de	raciocínio.	Talvez	o	mais	notável	seja
a	passagem	de	Romanos	8.32:	“Aquele	que	não	poupou	o	próprio	Filho,	mas
o	entregou	por	todos	nós,	como	não	nos	dará	juntamente	com	ele,	de	graça,
todas	as	coisas?”.	Deus	já	nos	deu	sua	melhor	dádiva;	com	muito	mais	razão,
então,	ele	nos	dará	coisas	menores!	Outro	excelente	exemplo	de	argumento	a
fortiori	encontra-se	no	capítulo	que	estamos	estudando:	“Se	Deus	veste	assim
a	 erva	 do	 campo,	 que	 hoje	 existe	 e	 amanhã	 é	 lançada	 ao	 fogo,	 não	 vestirá
muito	mais	 a	vocês,	homens	de	pequena	 fé?”	 (Mt	6.30).	E,	novamente,	 em
Mateus	7.11,	encontramos:	“Se	vocês,	apesar	de	serem	maus,	sabem	dar	boas
coisas	 a	 seus	 filhos,	quanto	mais	o	Pai	de	vocês,	que	está	no	céu,	dará	boas
coisas	aos	que	lhe	pedirem!”.
Em	 Mateus	 6.25,	 o	 argumento	 a	 fortiori	 só	 está	 implícito	 porque	 a
formulação	 não	 está	 presente.	 Contudo,	 o	 raciocínio	 parece	 ser	 mais	 ou
menos	este:	ele,	que	nos	provê	de	vida,	de	um	corpo	(que,	do	nosso	ponto	de
vista,	é	o	mais	importante),	quanto	mais	também	nos	proverá	de	coisas	menos
importantes,	como	alimentação	e	vestuário!	Portanto,	o	seguidor	de	Jesus	não
deve	se	preocupar	com	essas	necessidades,	por	mais	essenciais	que	elas	sejam.
Dois	exemplos	permitem	entender	essa	questão.
Dois	exemplos	(6.26-30)
Vida	e	alimento	(6.26,27)
“Observem	as	aves	do	céu:	elas	não	semeiam,	não	colhem,	nem	armazenam
em	celeiros;	 contudo,	o	Pai	 celestial	 de	 vocês	 as	 alimenta.	Acaso	vocês	não
têm	muito	mais	valor	do	que	elas?	Quem	de	vocês,	por	 se	preocupar,	pode
acrescentar	uma	hora	sequer	à	sua	vida?”
Durante	os	 três	agradáveis	anos	que	vivi	em	Cambridge,	na	Inglaterra,
eu	passava	a	maior	parte	do	tempo	nas	excelentes	dependências	da	Biblioteca
Tyndale.	 Pela	 janela	 ao	 lado	 de	 minha	 escrivaninha,	 observava	 um	 lindo
jardim,	muito	bem	cuidado.	Toda	manhã,	e	muitas	vezes	durante	o	resto	do
dia,	dezenas	de	pássaros	vinham	ciscar	a	terra	e	puxar	minhocas	com	o	bico.
Porém,	 mesmo	 com	 toda	 essa	 atividade,	 eles	 pareciam	 despreocupados	 e
atentos;	 piavam	 e	 cantavam,	 as	 notas	 agudas	 do	 pintarroxo	 misturadas	 ao
trinado	mais	doce	do	tordo	e	ao	canto	comum	do	pardal.
Essas	 criaturas	 vivem	um	dia	 de	 cada	 vez,	 “não	 semeiam,	não	 colhem,
nem	armazenam	em	celeiros”.	Jesus,	porém,	não	está	dizendo	que	elas	devem
ser	nosso	paradigma	e	que	nós	também	deveríamos	abolir	a	agricultura.	Ele
prossegue	dizendo	que,	apesar	da	existência	simples,	de	um	dia	de	cada	vez,
das	 aves,	 ainda	 assim	“o	Pai	 celestial	 as	 alimenta”.	A	conclusão	é	 inevitável:
“Não	têm	vocês	muito	mais	valor	do	que	elas?”.	Se	o	Pai	celestial	de	vocês	as
alimenta,	 será	que	 ele	não	 alimentará	 vocês,	 principalmente	 tendo	 em	vista
que	 ele	 os	 considera	mais	 valiosos	 que	 elas?	 Portanto,	 será	 que	 a	 constante
preocupação	 com	o	 que	 haveremos	 de	 comer	 amanhã	 e	 depois	 de	 amanhã
não	é	uma	afronta	a	Deus,uma	acusação	de	que	não	podemos	confiar	em	sua
providência?	Jesus	já	não	havia	ensinado	os	herdeiros	do	reino	a	orar:	“O	pão
nosso	de	cada	dia	nos	dá	hoje”?	E	o	Todo-Poderoso	zombaria	dessa	oração,
ensinada	pelo	próprio	Jesus?
A	 validade	 do	 argumento	 de	 Jesus,	 tanto	 nesse	 exemplo	 quanto	 no
seguinte,	 depende	de	uma	cosmologia	bíblica.	Vejamos	quatro	modelos.	O
primeiro	pode	ser	chamado	de	universo	aberto.
Nesse	primeiro	modelo,	o	“d”	representa	deuses.	A	base	do	diagrama	é	o
universo	 físico	 conforme	 percebido	 pelos	 povos	 primitivos.	 Minha	 irmã
viveu	 muitos	 anos	 numa	 tribo	 da	 região	 montanhosa	 da	 Nova	 Guiné.	 A
tecnologia	 dessa	 tribo	 era	 anterior	 à	 da	 Idade	 da	 Pedra	—	 isto	 é,	 por	mais
sofisticados	que	 fossem	em	outras	 áreas,	 a	ponta	de	 suas	 flechas	 era	 feita	de
teca	ou	bambu,	não	de	pedra	 (muito	menos	de	metal!).	Sua	cosmologia	era
bem	semelhante	ao	modelo	do	diagrama	anterior.	Eles	acreditavam	que	suas
atividades	 de	 alguma	 maneira	 influenciavam	 os	 deuses;	 e	 esses	 deuses,	 ou
melhor,	 espíritos	 (um	 termo	 mais	 apropriado,	 já	 que	 o	 povo	 era	 animista)
influenciavam	 coisas,	 pessoas	 e	 acontecimentos	 no	 mundo	 visível.	 Esses
espíritos	 são	 um	 tanto	 voluntariosos	 e	 volúveis.	 Por	 isso,	 as	 pessoas	 gastam
muito	 tempo,	 atenção	 e	 esforço	 para	 aplacá-los	 e	 ganhar	 o	 favor	 deles.
Práticas	 religiosas	 seguidas	 rigidamente,	 cuidado	 para	 não	 quebrar	 tabus	 e
sacrifícios	propiciatórios	adequados,	tudo	isso	ajuda	a	garantir	boas	colheitas,
vitória	nos	conflitos	iminentes	com	a	tribo	vizinha,	sobrevivência	dos	recém-
nascidos,	entre	outras	coisas.	Nesse	universo	aberto,	é	claro,	a	ciência	(como	a
conhecemos)	 é	 inconcebível.	Os	 deuses	 (espíritos)	 são	muito	 imprevisíveis;
não	é	possível	descobrir	as	“leis”	de	causa	e	efeito	porque	elas	são	imprevistas
e,	 mesmo	 que	 pudessem	 ser	 encontradas,	 seriam	 interpretadas	 de	 outra
maneira.
O	 segundo	 modelo	 cosmológico	 é	 o	 universo	 fechado.	 Pode	 ser
esquematizado	da	seguinte	forma:
Tudo	o	que	existe	está	dentro	do	círculo,	e	tudo	o	que	ocorre	deve	ser
explicado	 pelo	 que	 já	 está	 dentro	 do	 círculo.	O	melhor	 exemplo	moderno
desse	 modelo	 cosmológico	 é	 a	 ciência	 do	 tipo	 puramente	 mecanicista	 e
ateísta.	Não	existe	nada	além	de	matéria,	energia	e	espaço.	Mesmo	o	tempo	e
a	probabilidade	são	secundários.	E	cada	coisa,	cada	pessoa,	cada	emoção,	cada
acontecimento	 deve	 ser	 explicado	 pelos	 princípios	 mecanicistas	 de	 causa	 e
efeito.	 A	 ciência	 não	 é	 só	 possível;	 ela	 é	 a	 única	 perspectiva	 considerada
legítima.
Alguns	podem	fazer	uma	alteração	nesse	modelo:
À	primeira	vista,	trata-se	de	um	avanço	e	tanto:	Deus	está	no	centro	das
coisas.	 Porém,	 na	 verdade,	 esse	 modelo	 difere	 pouco	 do	 segundo,	 porque
Deus	é	 tão	 somente	parte	do	mecanismo.	Os	melhores	exemplos	modernos
desse	 tipo	 de	 cosmologia	 encontram-se	 entre	 alguns	 filósofos	 e	 teólogos.
Esses	homens	não	são	ateus	no	sentido	de	negarem	a	existência	de	um	deus,
mas,	sim,	ateus	no	sentido	em	que	negam	a	existência	de	um	Deus	pessoal	e
transcendente.	Deus	é	para	eles	a	base	do	ser,	a	força	impessoal	que	dirige	o
homem	 à	 existência	 autêntica,	 entre	 outras	 coisas.	 Palavras	 para	 Deus	 são
comuns,	mas	elas	se	referem	a	algum	“Ser”	muito	diferente	do	Deus	retratado
na	Bíblia.	Além	disso,	quanto	ao	modo	de	os	homens	entenderem	a	realidade,
a	ciência	 (com	suas	 leis	de	causa	e	efeito)	 é	 a	 força	dominante.	Os	homens
podem	tomar	decisões,	mas	a	reflexão	séria	revela	que	mesmo	essas	decisões
são	determinadas	pelos	fatos	da	ciência	(quer	seja	de	forma	absoluta,	quer	de
acordo	 com	 os	 caprichos	 do	 acaso	 estatístico).	 Penso	 que	 essa	 cosmologia
pode	ser	chamada	de	universo	existencialista	quase-teísta.
Um	quarto	modelo	pode	ser	usado	para	representar	a	cosmologia	bíblica.
É	o	universo	controlado.
Nesse	 diagrama,	 tudo	 o	 que	 existe	 no	 universo	 fenomenológico
encontra-se,	sem	exceção,	dentro	do	círculo,	juntamente	com	todas	as	outras
coisas	 e	 seres	 criados.	 Dentro	 desse	 universo,	 há	 leis	 científicas	 a	 serem
descobertas	e	uma	ordem	padronizada	que	rege	princípios	de	causa	e	efeito.
Acima	 desse	 universo	 está	Deus.	Na	 verdade,	 por	 causa	 da	 onipresença	 de
Deus,	 ele	 se	 encontra	 tanto	 acima	 quanto	 dentro	 desse	 universo	 (para
empregar	 categorias	 espaciais).	Contudo,	 o	Deus	 pessoal-infinito	 não	 pode
ser	 igualado	 a	 sua	 criação.	 Nesse	 sentido,	 Deus	 está	 ontologicamente	 em
posição	oposta	a	sua	criação,	como	seu	Criador	e	Sustentador.	Projetado	por
ele,	 o	 universo	 funciona	 segundo	 leis	 regulares	 e	 previsíveis,	 porém	 isso
acontece	somente	porque	Deus	exerce	constantemente	sua	soberania	sobre	o
todo.	 Nenhuma	 parte	 do	 sistema	 jamais	 opera	 independentemente	 por
completo.
Além	disso,	Deus	 tem	inteira	 liberdade	de	 suspender	ou	abolir	as	 “leis”
científicas	 a	 qualquer	 momento	 que	 decidir;	 só	 isso	 já	 explica	 um	 milagre
como	 a	 ressurreição	 de	 Jesus.	 O	 ser	 humano	 pode	 descobrir	 as	 “leis”
científicas;	 na	 verdade,	 ele	 deve	 descobri-las,	 já	 que	 foi	 comissionado	 para
fazer	 isso	como	o	intendente	da	criação.	Todavia,	o	cientista	que	adota	essa
cosmologia	 bíblica	 não	 só	 reconhecerá	 essas	 leis	 e	 admitirá	 exceções
divinamente	 induzidas,	 mas	 também	 perceberá	 que	 essas	 leis	 permanecem
constantes	graças	ao	poder	sustentador	de	Deus.	Mais	especificamente,	como
a	soberania	divina	é	mediada	pelo	Filho,	o	cristão	sustenta	que	é	o	Filho	que,
mesmo	agora,	está	“sustentando	todas	as	coisas	por	sua	palavra	poderosa”	(Hb
1.3).
É	 preciso	 ter	 o	 cuidado	 de	 distinguir	 essa	 cosmologia	 bíblica	 de	 duas
falsificações.	A	primeira	é	proposta	pelo	deísmo:	Deus	pôs	toda	a	máquina	em
movimento,	 como	 um	 relógio	 gigantesco,	 mas	 agora	 ele	 de	 certo	 modo
deixou	esse	imenso	relógio	funcionando	por	conta	própria.	A	Bíblia,	porém,
apresenta	 Deus	 como	 o	 Sustentador.	 A	 segunda	 falsificação	 reconhece	 a
soberania	 e	 a	 transcendência	 de	Deus,	mas	 considera	 o	 controle	 divino	 tão
direto	que	exclui	a	ciência.	O	modelo	se	torna	semelhante	ao	universo	aberto
que	mencionei	no	início,	e	todos	os	Ds	se	aglutinam	em	um	único	Deus.	Mas
isso	não	é	o	suficiente	para	explicar	a	estrutura	e	a	ordem	metódica	que	Deus
instalou	no	sistema	nem	o	mandato	que	ele	deu	ao	homem	em	relação	a	esse
sistema,	a	criação.
Os	 crentes	 do	 Antigo	 Testamento	 sabiam	 muito	 bem	 que	 a	 água
evapora,	forma	nuvens	que	derramam	chuva,	a	qual	forma	arroios,	ribeiros	e
rios	que	correm	para	o	mar.	Porém,	em	geral	eles	preferiam	dizer	que	Deus
envia	a	chuva.	Tal	é	a	cosmologia	bíblica.
Essa	cosmologia	está	subentendida	em	Mateus	6.26.	Só	os	que	a	adotam
conseguem	perceber	o	 teor	dessa	passagem.	O	cristão	olha	para	um	pássaro
de	bela	plumagem	ou	para	uma	águia	em	voo,	ou	para	um	tordo	empenhado
num	 cabo-de-guerra	 com	 um	 verme	 parrudo,	 e	 vê	 nisso	 tudo	 a	 mão	 e	 o
cuidado	de	seu	Pai.	Um	morcego	dá	uma	rasante	no	cair	da	noite,	e	o	cristão
não	 diz:	 “Ah!	 Que	 aerodinâmica	 maravilhosa!	 A	 evolução	 é	 uma	 coisa
maravilhosa!”.	 Em	 vez	 disso,	 seja	 ou	 não	 um	 especialista,	 ele	 testemunha	 a
atividade	de	Deus	por	trás	do	voo.	E	a	cambaxirra,	que	trabalha	o	dia	inteiro
para	 alimentar	 os	 filhotes,	 é	 evidência	 da	 provisão	 de	 Deus	 para	 os	 tenros
filhotes	da	avezinha.	O	crente	que	entendeu	e	adotou	essa	cosmologia	bíblica
encontra	 em	 toda	 parte	 um	 constante	 e	 abundante	 conjunto	 de	 provas	 da
providência	e	da	beneficência	divina.
Jesus	enfatiza	ainda	mais	esse	exemplo.	Ele	pergunta:	“Quem	de	vocês,
por	se	preocupar,	pode	acrescentar	uma	hora	sequer	à	sua	vida?	 (6.27).	Esse
versículo	 foi	 traduzido	 de	 muitas	 maneiras.	 Por	 exemplo,	 além	 da	 versão
NIV,	que	acabei	de	citar,	encontramos:
Qual	de	vós,	pelo	muito	pensar,	pode	acrescentar	um	cúbito	à	sua	estatura?	(KJV)
Pode	 algum	 de	 vocês,	 por	 mais	 que	 se	 preocupe,	 acrescentar	 uma	 polegadamediada	por	Cristo.	Portanto,	 fala	 igualmente	de	nossa
submissão	 sincera	 a	 essa	 autoridade.	 É	 por	 isso	 que	 a	 passagem	 de	Mateus
7.21-23	 enfatiza	 tanto	 a	 obediência:	 “Nem	 todo	 o	 que	 me	 diz	 ‘Senhor,
Senhor’	 entrará	no	 reino	do	céu,	mas	 somente	aquele	que	 faz	a	vontade	de
meu	Pai,	que	está	no	céu.	Muitos	me	dirão	naquele	dia:	‘Senhor,	Senhor’,	não
profetizamos	nós	em	teu	nome?	Em	teu	nome	não	expulsamos	demônios	e
não	 fizemos	 muitos	 milagres?’	 Então	 lhes	 direi	 claramente:	 ‘Nunca	 os
conheci.	Afastem-se	de	mim,	vocês	que	praticam	o	mal’”.
O	reino	do	céu	é,	portanto,	o	tema	principal	do	Sermão	do	Monte.	No
final	de	Mateus	4,	temos	conhecimento	de	que	Jesus	percorreu	toda	a	Galileia
“pregando	as	boas-novas	do	reino”	(4.23).	Sua	pregação	e	as	curas	milagrosas
atraíam	grandes	multidões.	Por	isso,	o	capítulo	5	de	Mateus	se	inicia	com	as
seguintes	 palavras:	 “Quando	 viu	 as	 multidões,	 Jesus	 subiu	 ao	 monte	 e	 se
sentou.	 Seus	 discípulos	 se	 aproximaram	 dele,	 e	 ele	 começou	 a	 ensiná-los”.
Alguns	 defendem	 a	 tese	 de	 que	 a	 reação	 de	 Jesus	 diante	 da	 multidão	 foi
retirar-se	e	ensinar	seus	discípulos.	Preparando-os,	Jesus	estaria	multiplicando
seu	próprio	ministério.	Isso	é	ir	além	do	que	se	pode	concluir	do	texto,	pois
no	Evangelho	de	Mateus	a	palavra	“discípulo”	não	se	refere	necessariamente
aos	doze	apóstolos	nem	mesmo	a	crentes	e	seguidores	fiéis.	Pode	se	referir	a
alguém	 que	 está	 apenas	 seguindo	 e	 aprendendo	 naquele	 momento	 —	 sem
referência	ao	seu	nível	de	compromisso	(veja,	p.	ex.,	Mt	8.21;	ou	o	de	Judas
Iscariotes).	 Além	 disso,	 mesmo	 que	 às	 vezes	 se	 faça	 distinção	 entre
“discípulos”	e	“as	multidões”	(como	em	Mt	23.1),	podemos	assegurar	de	que
as	 multidões	 se	 aglomeravam	 com	 frequência	 para	 ouvir	 os	 ensinamentos
destinados	 principalmente	 aos	 que	 mais	 desejavam	 aprender.	 Dentre	 as
enormes	multidões	que	se	reuniam	por	todo	o	norte	da	Palestina,	talvez	uma
multidão	menor	de	“discípulos”	tenha	seguido	Jesus	até	a	sossegada	região	de
colinas,	no	oeste	da	Galileia,	para	 receber	 instrução	mais	profunda;	 e	 talvez
cada	vez	mais	pessoas	se	juntassem	ao	grupo,	em	parte	porque	a	reputação	de
Jesus	 estava	 crescendo,	 e	 em	 parte	 porque	 uma	 multidão	 atrai	 outra.	 Essa
maneira	 de	 entender	 o	 texto	 é	 confirmada	 pela	 conclusão	 do	 Sermão	 do
Monte	 em	 Mateus:	 “Quando	 Jesus	 terminou	 de	 dizer	 essas	 palavras,	 as
multidões	 estavam	 maravilhadas	 com	 seu	 ensino”	 (7.28).	 Isso	 também	 é
confirmado	 pelo	 fato	 de	 Jesus	 insistir	 em	 que	 esses	 “discípulos”	 entrem	 no
reino,	entrem	na	vida	(7.13,14;	7.21-23).
Jesus	chegou	ao	 lugar	que	escolhera	e	“se	 sentou”.	Naquela	época,	essa
era	a	posição	tradicional	de	um	mestre	em	uma	sinagoga	ou	escola.	Algumas
versões	em	inglês	trazem	em	seguida:	“Ele	abriu	a	boca	e	começou	a	ensiná-
los,	 dizendo...”.	 Podemos	 perguntar,	 em	 tom	 jocoso,	 como	 ele	 poderia
ensinar	sem	abrir	a	boca,	mas	só	enquanto	não	reconhecemos	que	se	trata	de
uma	expressão	idiomática	semita,	uma	fórmula	tradicional.	Ao	que	parece,	a
expressão	acrescenta	intencionalidade	e	solenidade	ao	que	vem	em	seguida.
AS	NORMAS	DO	REINO
Mateus	5.3-12
As	bem-aventuranças	(5.3-10)
Existem	algumas	observações	gerais	 a	 fazer	 acerca	dessas	 bem-aventuranças
antes	 de	 examiná-las	 separadamente.	 Em	 primeiro	 lugar,	 a	 palavra	 “bem-
aventurança”	encontra-se	traduzida	nas	versões	mais	antigas	por	“beatitude”,
derivada	 do	 latim	 beatus.	 Alguns	 cristãos	 chamam	 essas	 beatitudes	 de
“macarismos”,	termo	derivado	da	palavra	grega	makarios.	Tanto	“beatitude”
quanto	“macarismo”	são	termos	oriundos	de	palavras	estrangeiras	cuja	melhor
tradução	é	“bênção”.
Embora	 algumas	 traduções	 modernas	 prefiram	 “feliz”	 a	 “abençoado”,
essa	troca	deixa	a	desejar.	Os	abençoados	em	geral	são	profundamente	felizes,
mas	 bênção	 não	 pode	 se	 reduzir	 a	 felicidade.	 Na	 Bíblia	 o	 homem	 pode
abençoar	Deus,	e	Deus	pode	abençoar	o	homem.	Essa	dualidade	nos	dá	uma
pista	sobre	o	significado	desse	termo.	Ser	“abençoado”	significa,	basicamente,
ser	 aprovado,	 ter	 aprovação.	 Quando	 o	 homem	 abençoa	 a	 Deus,	 ele	 está
aprovando	Deus.	É	claro	que	ele	não	está	fazendo	isso	como	deferência,	mas,
sim,	como	um	elogio,	bendizendo	e	louvando	a	Deus.	Quando	Deus	abençoa
o	 homem,	 ele	 o	 está	 aprovando,	 e	 esse	 é	 sempre	 um	 ato	 de	 aproximação
divina.
Como	esse	é	o	universo	de	Deus,	não	pode	haver	bênção	maior	do	que
ser	 aprovado	 por	 ele.	 Temos	 de	 nos	 perguntar	 de	 quem	 é	 a	 bênção	 que
buscamos	com	tanta	diligência.	Se	a	bênção	de	Deus	significa	mais	para	nós
do	que	a	aprovação	dos	nossos	entes	amados,	por	mais	queridos	que	sejam,	ou
de	 colegas,	 não	 importa	 o	 quanto	 sejam	 influentes,	 então	 as	 bem-
aventuranças	falarão	ao	nosso	coração	muito	profunda	e	particularmente.
Outra	observação	é	que	o	tipo	de	bênção	não	é	arbitrário	em	nenhuma
das	oito	beatitudes.	O	que	se	promete	em	cada	caso	brota	naturalmente	(ou
melhor,	sobrenaturalmente)	do	caráter	descrito.	No	versículo	6,	por	exemplo,
aquele	que	tem	fome	e	sede	de	justiça	é	saciado	(com	justiça);	no	versículo	7,
os	 misericordiosos	 obtêm	 misericórdia.	 A	 bênção	 está	 sempre	 relacionada
com	a	condição,	como	veremos.
Finalmente,	 é	 preciso	 notar	 que	 duas	 bem-aventuranças	 prometem	 a
mesma	recompensa.	A	primeira	diz:	“Bem-aventurados	os	pobres	em	espírito,
pois	 deles	 é	 o	 reino	 do	 céu”	 (5.3).	 A	 última	 diz:	 “Bem-aventurados	 os
perseguidos	por	causa	da	justiça,	pois	deles	é	o	reino	do	céu”	(5.10).	Começar
e	terminar	com	a	mesma	expressão	é	um	recurso	estilístico	chamado	inclusio.
Isso	 significa	 que	 tudo	 se	 encontra	 entre	 as	 duas	 molduras,	 isto	 é,	 as	 duas
expressões	 iguais,	 conforma-se	ao	mesmo	 tema,	neste	caso,	o	 reino	do	céu.
Foi	por	isso	que	chamei	as	bem-aventuranças,	coletivamente,	de	“As	normas
do	reino”.
Primeira:	“Bem-aventurados	os	pobres	em	espírito,	pois	deles	é	o	reino	do
céu”	(5.3)
O	 que	 é	 pobreza	 no	 espírito?	 Sem	 dúvida	 não	 é	 privação	 financeira	 nem
necessidade	material.	Também	não	é	pobreza	de	consciência	espiritual,	muito
menos	pusilanimidade,	 isto	é,	 falta	de	coragem	ou	vigor.	E	certamente	não
denota	carência	do	Espírito	Santo.
A	expressão	parece	ter	surgido	na	época	do	Antigo	Testamento.	O	povo
de	Deus	muitas	vezes	era	chamado	de	“os	pobres”	ou	“os	pobres	do	Senhor”
por	 causa	 de	 sua	 extrema	 carência	 econômica.	 Essa	 pobreza	 em	 geral	 era
resultante	 de	 opressão.	 Algumas	 palavras	 hebraicas	 usadas	 para	 “pobre”
também	 podem	 significar	 “inferior”	 ou	 “humilde”:	 a	 associação	 das	 duas
ideias	é	bem	natural.	Por	exemplo,	em	Provérbios	16.19	lemos:	“É	melhor	ser
humilde	 de	 espírito	 com	 os	 humildes	 do	 que	 repartir	 o	 despojo	 com	 os
orgulhosos”.	 A	 palavra	 traduzida	 aqui	 por	 “humilde”	 aparece	 em	 outras
passagens	 traduzida	 por	 “pobre”,	 e	 tanto	 “pobre”	 como	 “humilde”	 se
encaixam	no	contexto.	Dois	versículos	de	Isaías	têm	significado	bem	próximo
da	 pobreza	 de	 espírito	 de	 que	 Jesus	 fala:	 “Assim	diz	 o	Alto	 e	 Sublime,	 que
habita	 a	 eternidade	 e	 cujo	 nome	 é	 santo:	 Habito	 no	 lugar	 alto	 e	 santo,	 e
também	 com	 o	 contrito	 e	 humilde	 de	 espírito”	 (Is	 57.15);	 e:	 “Para	 esse
homem	olharei,	a	saber,	ao	humilde	e	contrito	de	espírito	e	que	treme	diante
da	minha	palavra”	(Is	66.2).
A	pobreza	de	espírito	é	o	reconhecimento	pessoal	da	falência	espiritual.
É	a	confissão	consciente	da	própria	indignidade	diante	de	Deus.	Portanto,	é	a
mais	profunda	forma	de	arrependimento.	Ela	é	exemplificada	pelo	publicano
que	reconhece	sua	culpa,	num	canto	do	Templo:	“Ó	Deus,	tem	misericórdia
de	 mim,	 um	 pecador!”.	 O	 que	 está	 retratado	 aqui	 não	 é	 um	 homem
confessando	 que	 é	 ontologicamente	 insignificante	 ou	 sem	 nenhum	 valor
pessoal,	pois	 isso	não	seria	verdade.	Trata-se	antes	de	uma	confissão	de	que
ele	 é	 pecador	 e	 rebelde	 e	 totalmente	 destituído	 de	 virtudes	 morais	 que	 o
recomendemà	 sua	 altura?
(Phillips)
E	qual	de	vós,	por	sua	ansiedade,	pode	acrescentar	um	cúbito	à	duração	de	sua	vida?	(RSV)
Há	alguém	entre	vós	que,	pelos	pensamentos	ansiosos,	consiga	acrescentar	um	pé	à	sua	altura?
(NEB)
O	 problema	 é	 que	 a	 palavra	 traduzida	 por	 “vida”	 pela	 NIV	 pode
significar	 tanto	 estatura	 quanto	 idade.	 Zaqueu	 era	 de	 pequena	 estatura	 (Lc
19.3);	Abraão	já	havia	passado	da	idade	de	gerar	filhos	(Hb	11.11).	No	Novo
Testamento	original,	em	grego,	a	mesma	palavra	é	usada	nos	dois	versículos.
Por	isso,	em	Mateus	6.27,	pergunta-se	quem	dentre	nós	pode	acrescentar	um
cúbito	 (medida	 linear	 de	 aproximadamente	 45	 centímetros)	 sequer	 à	 sua
estatura	ou	à	sua	idade.	Essa	última	menção	parece	inadequada:	não	se	pode
somar	medidas	 lineares	a	uma	idade.	Mas	à	estatura	também	não	parece	tão
apropriada,	porque	a	força	da	pergunta	nesse	caso	reside	num	comprimento
linear	 muito	 pequeno,	 certamente	 não	 um	 cúbito.	 Todas	 as	 variantes	 de
tradução	citadas	foram	geradas	por	essas	dificuldades.
Minha	 tendência	 é	 seguir	 os	 que	 enxergam	 aqui	 uma	 expressão
idiomática,	 mais	 ou	 menos	 como:	 “Qual	 de	 vocês,	 por	 se	 preocupar,
consegue	 acrescentar	 ao	 caminho	 de	 sua	 vida	 um	 cúbito	 sequer?”.	 Nos
Estados	 Unidos,	 uma	 pessoa	 pode	 dizer	 no	 dia	 de	 seu	 aniversário:	 “Bem,
alcancei	mais	uma	milha”.	É	claro	que	 isso	não	é	 literal;	a	pessoa	usou	uma
medida	de	distância	como	metáfora	para	a	idade.	À	medida	que	uma	pessoa
percorre	o	caminho	de	sua	vida,	chega	um	momento	em	que	Deus	determina
seu	fim.	Preocupar-se	não	altera	esse	decreto;	ninguém	pode	caminhar	nem
mais	um	cúbito.	Por	que,	então,	se	preocupar?
Corpo	e	vestuário	(6.28-30)
O	 vestuário	 não	 é	 menos	 importante	 que	 comida,	 e	 Jesus	 trata	 ambos	 da
mesma	maneira.	 “Por	que	vocês	 se	preocupam	com	roupa?	Vejam	como	os
lírios	do	campo	crescem.	Eles	não	 trabalham	nem	 tecem.	Contudo,	eu	 lhes
digo	que	nem	Salomão,	em	todo	o	seu	esplendor,	vestiu-se	como	um	deles.
Se	Deus	veste	assim	a	erva	do	campo,	que	hoje	existe	e	amanhã	é	lançada	ao
fogo,	não	vestirá	muito	mais	a	vocês,	homens	de	pequena	 fé?”	 (6.28-30).	A
palavra	 traduzida	 por	 “lírios”	 é,	 no	 original,	 uma	 palavra	 obscura	 que
provavelmente	significa	“flores	silvestres”,	flores	do	campo,	complementando
as	“aves	do	céu”	do	versículo	26.
Vejam	 essas	 flores	 crescerem:	 elas	 não	 fazem	 nada	 para	 ganhar	 ou
comprar	a	beleza	que	têm.	Elas	crescem.	Cada	flor	individualmente	e	todas	as
que	 estão	 no	 campo,	 decorando	 juntas	 a	 grama	 verde,	 deixam	 pálido	 o
opulento	esplendor	dos	trajes	de	Salomão.	Isso	é	obra	de	Deus;	a	cosmologia
bíblica	mais	uma	vez	está	subentendida.	O	cristão	vê	o	verde	viçoso	da	grama
bem	 regada	 e,	 ainda	 que	 não	 reconheça	 o	 efeito	 da	 clorofila,	 certamente
reconhece	 Deus	 por	 trás	 da	 clorofila.	 Deus	 veste	 a	 erva	 com	 flores
espetaculares,	 ainda	que	essa	erva	esteja	destinada	a	 ser	cortada	e	queimada.
Será	que	 ele	não	 está	muito	mais	 interessado	em	nos	vestir,	 sendo	nós	 seus
filhos?
Em	outras	palavras,	a	cosmologia	bíblica	somada	aos	olhos	observadores
gera	confiança	autêntica	em	Deus.	Não	é	de	admirar	que	Jesus	chame	os	que
não	percebem	essas	lições	de	“homens	de	pequena	fé”	(6.30).
Um	viver	diferente	(6.31,32)
No	final	de	Mateus	5,	Jesus	insiste	em	que	seus	seguidores	devem	amar	a	seus
inimigos,	pois	até	os	pagãos	e	os	pecadores	notórios	amam	seus	amigos.	As
normas	do	 reino	 exigem	que	nosso	 estilo	 de	 vida	 seja	 diferente.	Agora,	 no
capítulo	6,	descobrimos:	assim	como	ocorre	com	o	amor,	o	mesmo	princípio
se	aplica	à	preocupação	“Portanto,	não	se	preocupem,	dizendo:	 ‘Que	vamos
comer?’	ou	‘Que	vamos	beber?’	ou	‘Que	vamos	vestir?’.	Pois	os	pagãos	é	que
correm	atrás	de	 todas	 essas	 coisas,	 e	o	Pai	 celestial	 de	vocês	 sabe	que	vocês
precisam	delas”	(6.31,32).
A	falta	da	firme	confiança	em	Deus	não	só	é	uma	afronta	para	ele,	mas
também	uma	atitude	essencialmente	pagã.	Em	outras	palavras,	o	versículo	32
nos	 dá	 duas	 razões	 importantes	 para	 que	 não	 fiquemos	 preocupados	 e
frustrados	 a	 exemplo	 das	 pessoas	 deste	 mundo.	 A	 primeira	 é	 que,	 se	 nos
preocupamos	como	os	pagãos,	fica	patente	que	estamos	buscando	as	mesmas
coisas	 que	 eles;	 e,	 se	 for	 verdade,	 então	 o	 reino	 nos	 será	 necessariamente
negado,	 porque	 seus	 valores	 são	 totalmente	 diferentes.	 Em	 segundo,	 essa
preocupação	por	parte	dos	que	confessam	fé	em	Deus	constitui	uma	espécie
de	 contradição	 da	 confissão,	 uma	 vez	 que	 o	 Pai	 celestial	 tem	 total
conhecimento	 de	 nossas	 necessidades	 (cf.	 também	 6.8),	 e	 o	 nosso
comportamento	está	gritando	em	alto	e	bom	som	que	não	acreditamos	nisso.
Nossas	 preocupações	 não	 devem	 se	 assemelhar	 às	 preocupações	 do
mundo.	Quando	um	cristão	enfrenta	a	pressão	dos	exames,	será	que	ele	diz	as
mesmas	coisas	que	o	incrédulo	da	sala	ao	lado?	Quando	lhe	falta	dinheiro,	até
para	 as	 necessidades	 essenciais,	 ele	 reclama	 com	 o	 mesmo	 tom,	 as	 mesmas
palavras,	 a	 mesma	 atitude	 que	 os	 incrédulos	 ao	 seu	 redor?	 Abaixo	 com	 o
pensamento	secular!	O	seguidor	de	Jesus	se	preocupa	em	ter	um	estilo	de	vida
diferente,	caracterizado	por	valores	e	perspectivas	tão	opostos	aos	dos	pagãos
que	é	como	se	sua	vida	e	sua	conduta	estivessem	carimbadas	em	tudo	com	os
dizeres:	“Fabricado	no	(made	in)	Reino	de	Deus”.
Qual	 a	 implicação	 desse	 princípio	 para	 os	 cristãos	 no	 ambiente
profissional,	nos	sindicatos,	nas	grandes	empresas?	Imagine	o	que	aconteceria
se	apenas	um	décimo	dos	evangélicos	nominais	de	hoje	examinasse	as	páginas
da	Escritura	para	saber	como	deveria	ser	seu	estilo	de	vida	e,	com	equilíbrio,
determinação,	mansidão	e	coragem,	encontrasse	graça	para	viver	de	acordo
com	os	ensinamentos	lidos.	Que	transformação	se	realizaria	em	nosso	mundo!
Como	a	luz	aliviaria	as	trevas	e	como	o	sal	preservaria	a	sociedade!
No	século	4,	o	imperador	romano	Juliano,	o	Apóstata,	não	teve	êxito	em
seu	 empenho	de	 acabar	 com	o	 cristianismo,	 em	grande	 parte	 por	 causa	 do
modo	de	vida	diferente	que	encontrou	nos	crentes.	Ele	disse	ao	homens	sob
seu	 comando:	 “Temos	 de	 nos	 envergonhar.	Não	 se	 encontra	 um	mendigo
sequer	 entre	os	 judeus,	 e	 aqueles	galileus	 ímpios	 [ele	 se	 referia	 aos	 cristãos]
alimentam	não	 só	 seu	próprio	povo,	mas	 também	o	nosso,	 enquanto	nosso
povo	não	recebe	nenhuma	ajuda	de	nós”.	Temos	algumas	coisas	a	aprender
com	os	primeiros	cristãos	(sem	mencionar	muitos	outros	que	surgiram	mais
tarde,	como	os	anabatistas)	sobre	compartilhar	os	bens	materiais.	Contudo,	de
forma	mais	abrangente,	temos	ainda	mais	a	aprender	sobre	a	importância	do
estilo	de	vida	que	anseia	buscar	os	interesses	do	reino.
O	 assunto	 em	 foco	 é	 a	 preocupação.	Não	 seria	maravilhoso	 se	 algum
líder	mundial	 se	 visse	 forçado	 a	 admitir	hoje:	 “Temos	de	nos	 envergonhar.
Não	 se	 encontra	 nem	 um	 indivíduo	 preocupado	 ou	 ansioso,	 sequer	 entre
aqueles	 fanáticos	 que	 se	 chamam	 cristãos.	 Além	 de	 enfrentarem	 as	mesmas
pressões	que	todo	mundo	enfrenta,	eles	também	têm	de	aguentar	as	pressões
que	 impomos	 sobre	 eles.	 E	 eles	 ainda	 consolam	 alguns	 de	 nós	 quando	 nos
preocupamos,	 enquanto	 nossa	 gente	 está	 sempre	 tomando	 um	 monte	 de
tranquilizantes,	consultando	todo	tipo	de	terapeuta	e	tendo	feridas	por	causa
de	obesidade”.
O	cerne	da	questão	(6.33)
Como	nosso	Pai	 celestial	 sabe	do	que	precisamos	 e	 deu	 sua	 palavra	 de	 que
seria	generoso	com	seus	 filhos,	 Jesus	 faz	esta	promessa:	“Busquem,	pois,	em
primeiro	 lugar	 o	 seu	 reino	 e	 a	 sua	 justiça,	 e	 todas	 essas	 coisas	 vos	 serão
acrescentadas”	(6.33).	Cabe	a	nós	evitar	as	preocupações	que	nos	consomem,
mesmo	com	os	 itens	de	primeira	necessidade,	 e	buscar	o	 reino	de	Deus.	O
verbo	“buscar”	está	no	imperativo	presente,	no	grego,	dando	a	ideia	de	busca
incessante.	A	parte	de	Deus	é	prover	seus	filhos	daquilo	que	necessitam.
Devem-se	observar	aqui	três	restrições:	(1)	Essa	promessa	é	para	os	filhos
de	Deus,	não	paratodas	as	pessoas	 indiscriminadamente.	 Isso	 fica	claro	pela
contraposição	entre	os	discípulos	de	Jesus	e	os	pagãos	em	6.31,32,	bem	como
pela	condicionante	de	6.33a:	“Busquem,	pois,	em	primeiro	lugar	o	seu	reino
e	 a	 sua	 justiça”.	 (2)	 Jesus	 prometeu	 que	 as	 necessidades	 serão	 supridas	 (o
contexto	especifica	alimento,	bebida	e	vestuário),	não	 luxos.	Muitos	cristãos
do	 nosso	 mundo	 ocidental	 achariam	 muito	 difícil	 se	 tivessem	 de	 viver	 no
nível	de	 subsistência,	pois	há	muito	 tempo	consideram	essenciais	coisas	que
outros	 avaliariam	 como	 luxos.	Deus,	 em	 sua	 generosa	misericórdia,	muitas
vezes	dá	muito	mais	do	que	o	essencial.	Mas	aqui	ele	se	compromete	apenas
com	o	essencial.	 (3)	Em	minha	opinião,	a	principal	exceção	a	essa	promessa
ocorre	 quando	 cristãos	 estão	 sofrendo	 por	 causa	 da	 justiça.	 Alguns	 são
martirizados	 pela	 fome	 e	 pela	 exposição	 a	 circunstâncias	 extremas.	 A
tremenda	 importância	 do	 reino	 talvez	 exija	 autossacrifício	 mesmo	 nesse
último	grau.
Deus	 cumpre	 essa	 promessa.	No	 rico	Ocidente,	 pouquíssimos	 de	 nós,
sobretudo	os	jovens,	provaram	a	fidelidade	de	Deus	em	relação	a	isso.	Alguns,
porém,	tiveram	o	privilégio	de	viver	situações	de	grande	pressão	a	ponto	de
não	 ter	 absolutamente	 nenhum	 recurso	 além	 de	 Deus.	 Conheço	 um	 casal
que,	alguns	anos	atrás,	estava	servindo	numa	pequena	igreja	que	congregava
pessoas	 de	 classe	 social	 baixa,	 em	 Montreal.	 No	 dia	 de	 Natal,	 o	 marido
distribuiu	 cestas	 básicas,	 angariadas	 pela	 igreja,	 para	 os	 desprovidos	 da
vizinhança.	 Ele	 voltou	 para	 casa,	 sentou-se	 com	 a	 esposa,	 e	 os	 dois
agradeceram	ao	Senhor	o	alimento	que	ele	lhes	dera:	uma	lata	de	feijão.	Meia
hora	depois,	foram	convidados	para	uma	ceia	de	Natal.
São	 muitas	 as	 histórias	 semelhantes	 a	 essa.	 Deus	 responde	 à	 oração	 e
supre	 as	 necessidades	 dos	 seus.	 Eu	 mesmo	 sou	 testemunha	 disso,	 pois	 em
várias	 ocasiões	 experimentei	 sua	 graça,	 principalmente	 durante	 os	 longos
anos	em	que	era	estudante	e	estava	quase	sempre	sem	dinheiro.
Contudo,	o	que	era	bom,	eu	estava	estudando.	O	que	podemos	dizer	da
fome	extrema	que	assola	grande	parte	do	mundo	hoje?	Não	passei	muito	por
isso,	mas	o	que	vi	 em	um	contexto	cristão	confirma	a	promessa	de	Mateus
6.33.	Deus	supre	as	necessidades	dos	que	são	dele.	Isso	de	modo	algum	reduz
nossa	responsabilidade	de	compartilhar	o	que	temos.	Ao	contrário,	aumenta-
a,	pois	o	meio	mais	comum	de	Deus	atender	às	necessidades	materiais	de	seus
filhos	mais	pobres	é	 sensibilizando	o	coração	e	a	consciência	de	 seus	outros
filhos	em	relação	a	tais	necessidades.
Isso	 nos	 sugere	 duas	 outras	 reflexões	 que,	 mesmo	 não	 estando
explicitamente	 enunciadas	 no	 próprio	 texto,	 são	 muito	 importantes.	 Elas
tratam	de	assuntos	que	espreitam	no	fundo	de	nossa	mente	no	momento	em
que	os	evangélicos	estão	reavaliando	sua	responsabilidade	social	e,	ao	mesmo
tempo,	quando	a	chamada	“ética	protestante	do	trabalho”	vem	sendo	atacada.
A	primeira	reflexão	é	que	nós,	cristãos,	precisamos	urgentemente	avaliar
nossos	 objetivos	 e	 compromissos	 à	 luz	 do	 que	 as	 Escrituras	 ensinam	 sobre
cuidar	dos	que	 têm	fome	(veja	Pv	22.9;	25.21,22;	 Is	32.6;	58.6ss.;	Ez	16.49;
18.7;	Mt	25.42;	Lc	3.11;	12.48;	At	4.32ss.).	Os	cristãos	devem	em	primeiro
lugar	 dar	 assistência	 aos	 seus,	 todavia	 devem	 estender	 também	 a	mão	 para
outros.	Cedo	ou	tarde,	a	busca	desenfreada	por	ter	sempre	mais	e	mais	bens
terá	de	cessar.	Que	os	cristãos	optem	por	sair	dessa	corrida	agora,	antes	que
não	haja	mais	escolha.
O	segundo	ponto	de	reflexão	é	que	o	trabalho	e	o	lucro	não	devem	ser
desprezados.	 Os	 puritanos	 são	 muito	 criticados	 atualmente,	 mas	 eles	 têm
muito	 para	 nos	 ensinar	 sobre	 trabalhar	 com	 integridade.	 Eles	 encaravam	 o
trabalho	 como	 uma	 forma	 de	 serviço	 para	 o	 Senhor	 e,	 acreditando	 que
deviam	 ser	 fiéis	 tanto	nas	 coisas	 pequenas	 quanto	nas	 grandes,	 trabalhavam
com	 zelo	 e	 diligência.	 Além	 disso,	 o	 desejo	 deles	 por	 conhecimento	 e
instrução	lhes	trouxe	progresso,	e	seu	estilo	de	vida	simples	multiplicou	suas
economias.	(Quanto,	em	média,	uma	família	de	quatro	pessoas	gasta	por	ano
em	 cigarros,	 bobagens	 e	 comida	 em	 excesso,	 bebidas	 alcoólicas	 e	 diversões
questionáveis?	 Esse	 cálculo	 dá	 um	 resultado	 surpreendente.)	A	 tragédia	 dos
puritanos	 foi	 que	 as	 gerações	 posteriores	 passaram	 a	 acreditar	 —	 embora
poucos	sejam	tão	grosseiros	a	ponto	de	dizer	isso	abertamente	—	que	a	justiça
e	o	trabalho	diligente	são	virtudes	valiosas	porque	geram	poupança	e	riqueza.
Esses	 descendentes	 se	 disciplinaram	 a	 fim	 de	 acumular	 bens	 materiais.	 Aos
poucos	 uma	 visão	 bíblica	 foi	 sendo	 desvirtuada	 e	 se	 transformou	 em	 um
materialismo	abominável.
Os	discípulos	de	Jesus	 têm	de	pensar	nessas	coisas	com	clareza.	Devem
buscar	em	primeiro	lugar	o	reino	e	a	justiça	do	Pai	celestial,	convictos	de	que
ele	 vai	 prover	 o	 suficiente	 para	 lhes	 suprir	 as	 necessidades.	 E,	 por	 mais
laboriosos	 e	 honestos	 que	 sejam,	 devem	 recusar-se	 a	 submeter	 sua	 vida	 e
felicidade	a	 tesouros	que	podem	ser	corroídos	e	 roubados.	Quer	 ricos,	quer
pobres,	 os	 discípulos	 de	 Jesus	 têm	 de	 se	 esforçar	 para	 saber	 qual	 a	 melhor
maneira	de	agradar	ao	Pai	com	a	riqueza	que	ele	lhes	confiou.
O	alvo,	portanto,	é	sempre	o	reino	de	Deus.	Não	há	outro	para	o	cristão,
o	 discípulo	 de	 Jesus.	 A	 lógica	 decorrente	 desse	 simples	 fato	 dirige	 seu
pensamento	 para	 os	 valores	 do	 reino	 e	 ao	 mesmo	 tempo	 extingue	 a
preocupação	 com	 coisas	 meramente	 temporais,	 preocupação	 essa	 que
compromete	a	confiança	do	cristão	em	seu	Pai	celestial.
Razão	definitiva	para	acabar	com	a	preocupação	(6.34)
Acredito	que	Jesus	deve	ter	pronunciado	a	advertência	de	Mateus	6.34	com
um	 sorriso	 irônico.	 Até	 agora,	 suas	 razões	 para	 lançar	 as	 preocupações	 no
esquecimento	 são	 essencialmente	 teológicas.	 Giraram	 em	 torno	 da
compaixão	e	da	providência	de	Deus	e	do	excepcional	valor	do	 reino.	Mas
esta	última	razão	é	puramente	pragmática:	“Portanto,	não	se	preocupem	com
o	dia	de	amanhã,	pois	o	dia	de	amanhã	terá	suas	próprias	preocupações.	Basta
a	cada	dia	o	seu	problema”	(6.34).
É	 como	 se	 Jesus	 reconhecesse	 que	 sempre	 haverá	 alguma	preocupação
inevitável.	Mas	vamos	restringi-la	aos	problemas	de	hoje!	Nosso	Deus	cheio
de	graça	quer	que	demos	um	passo	de	cada	vez,	não	mais	que	isso;	quer	que
sejamos	responsáveis	hoje	e	não	nos	preocupemos	com	o	que	possa	acontecer
amanhã.	 “Basta	 a	 cada	 dia	 o	 seu	 problema.”	 E,	 se	 houver	 novos	 problemas
amanhã,	também	haverá	nova	graça.
A	pessoa	que	entra	no	reino	adota	as	perspectivas	do	reino.	De	modo	geral,
isso	 significa	 lealdade	 inabalável	 aos	 valores	 ditados	 por	 Deus	 e	 confiança
irrestrita	 nele.	 Diante	 de	 um	 chamado	 tão	 elevado,	 nosso	 autoexame
produzirá	 alguns	 resultados	 desanimadores;	 e	 vamos	 querer	 orar	 com	 as
palavras	de	T.	B.	Pollock	(1836-1896):
Nós	não	te	conhecemos	como	deveríamos,
nem	aprendemos	a	tua	sabedoria,	graça	e	poder;
encheram	nossa	mente	as	coisas	da	terra,
e	a	vaidade	das	riquezas	passageiras.
Senhor,	dá-nos	luz	para	ver	a	tua	verdade,
e	faze-nos	sábios	por	te	conhecer.
Nós	não	te	tememos	como	deveríamos,
nem	nos	curvamos	sob	o	teu	olhar	aterrador,
nem	guardamos	atos,	palavras	e	pensamentos,
lembrando	que	nosso	Deus	estava	perto.
Senhor,	dá-nos	fé	para	saber	que	tu	estás	perto,
e	concede	a	graça	do	santo	temor.
Nós	não	te	amamos	como	deveríamos,
nem	fizemos	caso	de	que	somos	amados	por	ti;
a	tua	presença	buscamos	friamente,
e	sem	ardor	desejamos	o	teu	rosto	ver.
Senhor,	dá-nos	um	coração	puro	e	amoroso
para	sentir	e	confessar	o	amor	que	tu	és.
Nós	não	te	servimos	como	deveríamos.	Ai	de	nós!
Os	deveres	deixamos	em	falta,
o	trabalho	com	pouco	fervor	realizamos,
as	batalhas	perdemos	ou	mal	ganhamos!
Senhor,	dá-nos	o	zelo	e	o	poder,
para	trabalhar	por	ti,	para	por	ti	lutar.
Quando	iremos	conhecer-te	como	deveríamos,e	temer,	e	amar,	e	servir	corretamente?
Quando	iremos	nós,	que	fomos	poupados	do	juízo,
Ser	perfeitos	na	terra	da	luz?
Senhor,	que	nos	preparemos,	dia	a	dia,
para	ver	o	teu	rosto	e	te	servir	aí.
1Esse	número	é	uma	referência	ao	livro	de	Douglas	Adams,	O	guia	do	mochileiro	das	galáxias	(Rio
de	Janeiro:	Sextante,	2009),	no	qual	a	resposta	à	pergunta	suprema	sobre	o	sentido	da	vida,	do	universo
e	de	 todas	as	coisas	é	42.	O	uso	desse	número	aqui	 indica	que	o	 tal	homem	ansioso	só	se	aposentará
naquele	dia	perfeito	que	responda	a	todas	as	suas	preocupações,	ou	seja,	nunca.	(N.	do	T.)
N
5 Equilíbrio	e	perfeição
ós,	 seres	 humanos,	 demonstramos	 uma	 enorme	 capacidade	 de
autoengano.	 Por	 exemplo,	 adulteramos	 a	 justiça,	 tornando-a	 justiça
própria	 —	 uma	 arrogância	 de	 superioridade	 moral	 —	 e	 transformamos	 a
perfeição	em	nossa	 reputação	perfeita.	Mas	 realizamos	essa	adulteração	com
tanta	habilidade	que,	na	melhor	das	hipóteses,	temos	apenas	vaga	consciência
da	monstruosidade	que	forjamos.	Jesus	já	havia	falado	com	veemência	contra
todo	esse	arremedo	de	religião	(Mt	6.1-18),	preenchendo	a	advertência	com
exigências	que	levam	ao	autoexame	e	exigem	a	adesão	sincera	às	perspectivas
do	reino	(Mt	6.19-34).
Antes	de	encerrar	o	Sermão	do	Monte	e	esclarecer	as	alternativas	que	os
homens	 devem	 enfrentar	 (Mt	 7.13-27),	 Jesus	 adverte	 contra	 outros	 três
perigos.	 Os	 dois	 primeiros	 são	 imperativos	 negativos:	 não	 devemos	 julgar
(7.1-5)	e,	no	entanto,	não	devemos	agir	sem	discernimento	(7.6).	O	terceiro
é	um	imperativo	afirmativo:	devemos	persistir	em	nossa	busca	de	Deus,	tendo
a	mesma	 atitude	 de	 confiança	 que	 uma	 criança	 tem	 em	 relação	 a	 seus	 pais
(7.7-11).	 Observando	 atentamente	 essas	 três	 advertências,	 vamos	 descobrir
como	elas	se	desenvolvem	até	chegar	à	regra	de	ouro	(7.12).
O	PERIGO	DE	JULGAR	OS	OUTROS
Mateus	7.1-5
O	princípio	(7.1)
É	fácil	perceber	quanto	a	tentação	de	julgar	os	outros	é	poderosa	e	perigosa.
O	desafio	de	ser	santo	foi	levado	a	sério,	e	um	bom	grau	de	disciplina,	serviço
e	 obediência	 formal	 foram	 conquistados	 meticulosamente.	 Agora,	 eu
imagino,	posso	me	dar	ao	 luxo	de	olhar	de	cima	para	meus	colegas	e	pares
menos	 disciplinados.	 Ou	 talvez	 tenha	 recebido	 uma	 medida	 generosa	 da
graça	 de	 Deus,	 mas,	 por	 algum	 motivo,	 interpretei	 mal	 e	 acho	 que	 eu
conquistei	essa	graça.	Por	causa	disso,	talvez	eu	olhe	com	superioridade	para
aqueles	cuja	visão,	na	minha	opinião,	não	é	tão	ampla	quanto	a	minha;	cuja	fé
não	é	tão	firme;	cujo	entendimento	das	verdades	profundas	de	Deus	não	é	tão
magistral;	 cuja	 folha	 de	 serviços	 não	 é	 tão	 impressionante	 (pelo	menos	 aos
olhos	dos	homens);	cujo	empenho	não	foi	tão	considerável.	Essas	pessoas	são
pequenas	aos	meus	olhos;	considero	o	valor	dessas	pessoas	inferior	ao	meu.
A	 atitude	 crítica	 e	 recriminatória	 pode	 tornar-se	 tão	 venenosa	 que
pessoas	 cuja	 estatura	 espiritual,	 integridade	 e	 prestatividade	 são	 muito
superiores	 às	 minhas	 de	 alguma	 forma	 elas	 aparecem	 como	 pigmeus
espirituais	e	indigentes	intelectuais	quando	termino	minha	avaliação.	Talvez
uma	 pequena	 falha	 ou	 incoerência	 na	 vida	 delas	 lhes	 diminua	 a	 estatura
moral,	na	minha	opinião.	Se	em	Mateus	6	o	amor	ao	dinheiro	e	a	ansiedade
que	 brota	 da	 falta	 de	 confiança	 arruínam	 o	 caráter	 cristão,	 em	 Mateus	 7
acontece	a	mesma	coisa	com	esse	tipo	de	zelo	injurioso.
Tudo	 isso,	 claro,	 é	 uma	 forma	 de	 hipocrisia	 grosseira	 (veja	 7.5),	 a
segunda	das	três	formas	que	mencionei	anteriormente	(veja	p.	63).	Para	que
os	desafios	e	os	padrões	impecáveis	do	Sermão	do	Monte	não	gerem	pecado
tão	feio,	Jesus	adverte:	“Não	julguem,	para	que	não	sejam	julgados”	(7.1).
É	imporante,	no	entanto,	analisarmos	primeiro	o	que	esse	texto	não	diz.
Certamente	 ele	 não	 ordena	 que	 os	 filhos	 de	 Deus,	 os	 discípulos	 de	 Jesus,
sejam	 pessoas	 sem	 opinião	 nem	 discernimento,	 que	 nunca,	 em	 nenhuma
circunstância,	 emitem	 opinião	 alguma	 sobre	 certo	 e	 errado.	Devemos	 ficar
calados	 diante	 dos	 erros	 de	 um	 Hitler,	 um	 Stalin,	 um	 Nixon?	 Diante	 do
adultério,	da	exploração	econômica,	da	preguiça,	da	fraude?	O	próprio	Novo
Testamento	exclui	uma	interpretação	tão	estúpida.	Alguns	versículos	depois,
o	próprio	Senhor	Jesus	se	refere	a	determinadas	pessoas	como	porcos	e	cães
(7.6)	—	algum	tipo	de	julgamento	negativo	certamente	ocorreu!	Um	pouco
mais	adiante,	Jesus	adverte:	“Cuidado	com	os	falsos	profetas.	Eles	vêm	a	vocês
vestidos	 de	 pele	 de	 ovelha,	 mas	 por	 dentro	 são	 lobos	 devoradores”	 (7.15).
Com	essas	palavras,	Jesus	não	só	rotula	determinados	mestres	com	os	epítetos
mais	condenatórios,	mas	também	exige	que	seus	seguidores	reconheçam	esses
mestres	 pelo	 que	 são;	 e	 isso	 certamente	 exige	 o	 uso	 de	 habilidades	 para
distinguir.
Em	 outra	 passagem,	 o	 apóstolo	 Paulo	 está	 preparado	 para	 entregar	 a
Satanás	certo	homem	promíscuo	 (1Co	5.5),	 exigindo	que	 sua	 igreja	 local	o
discipline.	Essa	disciplina	 requer	 julgamento.	Em	Gálatas	 1.8,9,	Paulo	 lança
um	anátema	sobre	todos	os	que	pregam	alguma	versão	do	evangelho	que	não
seja	 o	 verdadeiro	 evangelho,	 que	 o	 próprio	 Paulo	 proclama.	 Em	Filipenses
3.2,	ele	emprega	palavras	fortes	para	alertar	seus	 leitores	contra	alguns	falsos
mestres:	 “Cuidado	 com	 os	 cães,	 cuidado	 com	 esses	 que	 praticam	 o	 mal,
cuidado	com	a	falsa	circuncisão!”.	E	são	palavras	brandas	em	comparação	com
as	 de	 Gálatas	 5.12.	 João	 também	 exige	 algum	 tipo	 de	 julgamento	 quando
escreve:	 “Amados,	 não	 creiam	 em	 qualquer	 espírito,	 mas	 examinem	 os
espíritos	 para	 ver	 se	 eles	 procedem	 de	Deus,	 porque	muitos	 falsos	 profetas
têm	saído	pelo	mundo”	(1Jo	4.1).	Além	disso,	quando	uma	multidão	faz	mau
juízo	 de	 Jesus	 porque	 seu	ministério	 de	 cura	 estende-se	 ao	 sábado,	 ele	 não
proíbe	todo	julgamento,	mas	responde:	“Não	julguem	apenas	pela	aparência,
mas	façam	julgamentos	justos”	(Jo	7.24).
O	que	Jesus	quer	dizer,	então,	com	seu	imperativo	em	Mateus	7.1:	“Não
julguem,	 para	 que	 não	 sejam	 julgados”?	 Grande	 parte	 dessa	 confusão	 é
esclarecida	quando	se	entende	o	campo	semântico	da	palavra	grega	traduzida
por	 “julgar”.	 “Julgar”	 pode	 significar	 discernir,	 julgar	 judicialmente,	 ser
crítico,	 condenar	 (judicialmente	 ou	 não).	 O	 contexto	 deve	 determinar	 o
matiz	 preciso	 de	 significado.	 O	 contexto	 aqui	 indica	 que	 o	 versículo
significa:	 “Não	 seja	 julgador”.	 Não	 adote	 um	 espírito	 crítico,	 atitude
condenatória.	O	mesmo	verbo	é	encontrado	duas	vezes	em	Romanos	14.10ss.
com	 significado	 idêntico:	 “Você,	 por	 que	 julga	 seu	 irmão?	 E	 por	 que
despreza	seu	irmão?	Pois	todos	compareceremos	diante	do	tribunal	de	Deus.
Porque	 está	 escrito:	 ‘Por	mim	mesmo	 jurei’,	 diz	 o	 Senhor,	 ‘diante	 de	mim
todo	joelho	se	dobrará	e	 toda	 língua	confessará	a	Deus’.	Assim,	cada	um	de
nós	prestará	contas	de	si	mesmo	a	Deus.	Portanto,	deixemos	de	julgar	uns	aos
outros.	Em	vez	disso,	 façamos	o	propósito	de	não	pôr	pedra	de	 tropeço	ou
obstáculo	no	caminho	do	irmão”.	O	próprio	Jesus	ordena:	“Não	julguem”.
Esse	 aspecto	 da	 personalidade	 não	 é	 fácil	 de	 resolver.	 Por	 um	 lado,
algumas	pessoas	 são	 tão	críticas	que	 têm	prazer	em	ridicularizar	o	pregador
no	almoço	de	domingo;	e	alguns	pregadores	são	tão	críticos	que	descarregam
a	metralhadora	verbal	na	maioria	dos	colegas,	especialmente	os	que	dão	mais
fruto	que	eles.	Por	outro,	os	discípulos	de	Jesus	devem	reconhecer	que	alguns
pregadores	são	falsos	por	causa	do	seu	fruto	(7.16)	e	não	devem	dar	ouvidos	a
eles.	 O	 pregador	 que	 atribui	 a	 todos	 os	 seus	 pares	 precisamente	 a	 mesma
graça	e	o	mesmo	entendimento	está	muito	abaixo	das	atitudes	de	bom	senso
e	 discernimento	 de	 Paulo.	 O	 problema	 é	 que	 a	 responsabilidade	 que	 todo
cristão	 tem	de	discernir,	uma	vez	concedida,	é	 rapidamente	desvirtuada	em
justificativa	 para	 criticar.	 O	 indivíduo	 excessivamente	 crítico	 se	 sente
completamente	 à	 vontadecom	 todas	 as	 passagens	 que	 nos	 incentivam	 a
detectar	 os	 falsos	 profetas	 por	 seus	 frutos.	 “Não	 estou	 sendo	 julgador”,	 ele
protesta,	 “sou	 apenas	 um	 fiscalizador	 de	 frutos”.	 Mas	 ele	 se	 condena	 pela
própria	boca:	tornou-se	um	fiscalizador	de	frutos,	assumiu	para	si	uma	função
especial.
Basicamente,	 o	que	 está	 em	 jogo	 aqui,	na	minha	opinião,	 é	 a	 postura.
Isso	 se	 depreende	 claramente	 daquele	 tipo	 especial	 de	 espírito	 crítico
encontrado	na	 fofoca.	Nem	 sempre	o	que	o	 fofoqueiro	diz	 é	mentira	mal-
intencionada;	 pode	 até	 ser	 algo	 estritamente	verdadeiro.	Mas	o	que	 sempre
acontece	 é	 que	 ele	 diz	 isso	 com	 má	 intenção;	 ou	 seja,	 fala	 sem	 nenhum
intuito	 construtivo,	 sem	 preocupação	 verdadeira	 alguma	 de	 incutir
discernimento.	Ele	quer	 apenas	 se	 engrandecer	ou	 ser	ouvido,	ou	 enaltecer
sua	própria	reputação,	ou	rebaixar	a	pessoa	de	quem	está	falando.
Se	a	atitude	de	um	cristão	for	correta,	a	Palavra	de	Deus	prevê	que	ele
confronte	 seu	 irmão,	 mostrando-lhe	 o	 erro	 (veja	 Mt	 18.15ss.).	 De	 fato,	 os
líderes	espirituais	não	ignoram	o	pecado	flagrante	de	um	de	seus	irmãos	em
Cristo,	 mas	 procuram	 restaurá-lo	 —	 amorosamente	 e	 conscientes	 de	 sua
própria	fraqueza	(Gl	6.1).
“Não	julguem”,	diz	Jesus,	e	acrescenta	em	seguida:	“para	que	não	sejam
julgados”	(7.1).	A	última	frase	talvez	possa	ser	interpretada	como	a	primeira:
se	 você	 é	 julgador,	 outros	 serão	 julgadores	 em	 relação	 a	 você.	 Outra
interpretação,	 dependendo	 da	 ambiguidade	 do	 verbo	 grego,	 pode	 ser:	 não
seja	 julgador,	 senão	você	 será	condenado	 (seja	por	Deus,	 seja	pelos	outros).
De	qualquer	 forma,	 a	 frase	 torna	a	ordem	ainda	mais	 incisiva	e	 apresenta	 a
justificativa	teológica	para	abolir	todas	as	atitudes	de	crítica.
A	justificativa	teológica	(7.2)
“Porque	do	mesmo	modo	que	vocês	julgam	os	outros	vocês	serão	julgados;	e
a	mesma	medida	que	vocês	usam	também	será	usada	para	medir	vocês”	(7.2).
Em	 tese	 é	 possível	 compreender	 essas	 falas	 de	mais	 de	 uma	maneira,	 assim
como	as	de	7.1b.	Elas	podem	significar	que	a	medida	que	usamos	para	medir
os	outros	será	a	mesma	que	os	outros	usarão	para	nos	medir;	a	pessoa	crítica
atrai	muitas	críticas.	Outra	hipótese	é	que	o	versículo	2	pode	significar	que	a
medida	que	usamos	para	medir	os	outros	será	a	mesma	que	Deus	usará	para
nos	medir.
Acredito	 que	 a	 segunda	 interpretação	 é	 a	 pretendida.	 Nesse	 caso,	 a
ambiguidade	em	7.1b	deve	ser	 interpretada	da	mesma	forma.	A	ideia	desses
dois	versículos	não	é	que	devemos	ser	moderados	em	nosso	julgamento	a	fim
de	que	outros	sejam	moderados	para	conosco,	mas,	sim,	que	devemos	abolir
as	 atitudes	 de	 julgamento	 para	 que	 nós	 mesmos	 não	 sejamos
terminantemente	 condenados	 diante	 de	 Deus.	 A	 atitude	 sentenciosa	 nos
exclui	 do	 perdão	 de	 Deus,	 pois	 denuncia	 um	 espírito	 que	 não	 foi
quebrantado.	A	ideia	é	semelhante	à	de	5.7	e	6.14,15:	“Bem-aventurados	os
misericordiosos,	 pois	 obterão	misericórdia	 [...]	 Porque,	 se	 vocês	 perdoarem
aos	homens	as	ofensas	 contra	vocês,	o	Pai	 celestial	 também	perdoará	vocês.
Se,	porém,	vocês	não	perdoarem	aos	homens	as	ofensas	deles,	tampouco	o	seu
Pai	lhes	perdoará	os	pecados”.	Porque	do	mesmo	modo	que	vocês	julgam	os
outros	vocês	serão	julgados...
Alguns	 rabinos	 diziam	 que	Deus	 tem	 duas	medidas	 com	que	 avalia	 as
pessoas,	a	medida	da	justiça	e	a	medida	da	misericórdia.	É	possível	que	em	7.2
Jesus	 esteja	 usando	 essa	 crença	 para	 esclarecer	 sua	 afirmação	—	 dessas	 duas
medidas,	 a	 que	 usarmos	 também	 será	 aplicada	 a	 nós.	 Suponhamos,	 por
exemplo,	que	encontremos	um	mentiroso	desprezível.	O	que	pensamos	dele?
Se	 o	medirmos	 apenas	 pela	 justiça,	 seremos	muito	 críticos	 e	 condenadores.
Mas	esse	critério	será	usado	conosco:	até	que	ponto	somos	verdadeiros?	Com
que	 frequência	 inventamos	 dados	 e	 histórias	 para	 nos	 beneficiar	 ou	 ganhar
uma	discussão?	Quem	sabe	apliquemos	o	padrão	de	justiça	ao	adúltero	ou	à
prostituta.	Como	nos	 sairemos	quando	o	mesmo	padrão	 for	aplicado	a	nós,
sobretudo	diante	de	Mateus	5.27-30?	Ou,	ainda,	talvez	apliquemos	o	padrão
de	 justiça	de	Deus	aos	ricos	que	exploram	os	pobres	com	práticas	 injustas	e
pela	 ganância.	 Mas	 quantas	 vezes	 temos	 sido	 gananciosos?	 Quantas	 vezes
diminuímos	 o	 valor	 de	 outras	 pessoas	 por	 dinheiro	 (até	 no	 trabalho,	 por
exemplo)?	Queremos	mesmo	que	o	padrão	da	justiça	de	Deus	seja	aplicado	a
nós	da	mesma	forma	que	o	aplicamos	aos	outros?
Como	já	vimos,	 isso	não	significa	que	o	discípulo	de	Jesus	nunca	deve
falar	contra	pecado	algum,	exercendo	uma	espécie	de	misericórdia	insípida	e
negligente.	 O	 padrão	 de	 justiça	 de	 Deus	 jamais	 deixará	 de	 existir.	 Esses
versículos	atacam	atitudes	de	julgamento,	mas	não	negam	que	pecados	reais
podem	 estar	 presentes.	 No	 exemplo	 que	 vem	 a	 seguir	 (7.3-5),	 o	 cisco	 de
serragem	 no	 olho	 do	 paciente	 precisa	 de	 fato	 ser	 removido,	 ainda	 que	 a
operação	não	deva	ser	realizada	por	um	cirurgião	que	está	com	uma	viga	no
próprio	olho.
Além	 disso,	 essa	 passagem	 não	 insinua	 que	 podemos	 ganhar	 a
misericórdia	de	Deus	se	praticarmos	um	pouco	de	misericórdia	para	com	os
outros.	 Misericórdia,	 por	 definição,	 não	 pode	 ser	 conquistada	 por	 mérito.
Mas	 podemos	 nos	 excluir	 da	 misericórdia	 por	 uma	 altivez	 e	 arrogância
constantes,	 por	uma	 atitude	que	 reflete	o	oposto	da	verdadeira	pobreza	 em
espírito.	Com	efeito,	Deus	exerce	 tanto	 justiça	quanto	misericórdia,	mesmo
para	 com	 seu	 próprio	 povo	 (sobre	 isso,	 falarei	 mais	 no	 início	 do	 próximo
capítulo).	Portanto,	o	povo	de	Deus	deve	refletir	o	caráter	dele,	vivendo	com
justiça	 e	 demonstrando	 misericórdia.	 E,	 por	 terem	 consciência	 de	 suas
próprias	 falhas	 e	 rebeldia,	 esse	povo	não	pode	deixar	de	 ser	profundamente
grato	pela	misericórdia	que	 recebe,	mesmo	em	meio	à	 luta	pela	perfeição	e
exaltação	 da	 santidade.	 Essa	 perspectiva	 equilibrada	 nos	 protege	 tanto	 do
espírito	sentencioso	quanto	da	apatia	moral.
Talvez	deva	dizer	de	passagem	que	alguns	vêm	uma	ligação	entre	7.1,2	e
a	“Regra	Áurea”	de	7.12.	Para	tais	intérpretes,	essa	é	uma	forte	prova	de	que
7.2	diz	respeito	a	como	os	outros	nos	 julgarão,	não	com	o	modo	que	Deus
nos	julgará.	Eles	entendem	que	7.1,2	significa	que	um	forte	motivo	por	que
não	devemos	ser	julgadores	em	relação	aos	outros	é	que,	consequentemente,
os	 outros	 não	 nos	 julgarão.	 Eles	 alegam	 que	 esse	 é	 um	 aspecto	 da	 “Regra
Áurea”.	 Por	 razões	 que	 já	 apresentei,	 creio	 que	 essa	 interpretação	 não
compreende	 o	 sentido	 de	 7.1,2,	 mas	 me	 apresso	 em	 acrescentar	 que	 ela
também	não	entende	a	“Regra	Áurea”	(7.12).	Essa	regra	nos	manda	fazer	aos
outros	o	que	queremos	que	eles	nos	façam;	não	diz	para	fazer	coisas	boas	para
os	outros	a	fim	de	que	eles	façam	coisas	boas	para	nós.	Fazer	aos	outros	o	que
queremos	 que	 eles	 nos	 façam	 estabelece	 um	 código	 para	 a	 nossa	 própria
conduta;	e	não	um	motivo	para	 essa	 conduta.	A	 razão	é	dada	na	 afirmação
seguinte:	essa	conduta	resume	a	Lei	e	os	Profetas.
Um	exemplo	(7.3-5)
“Por	 que	 você	 repara	 no	 cisco	 que	 está	 no	 olho	 do	 seu	 irmão	 e	 não	 se	 dá
conta	da	viga	que	está	no	 seu	próprio	olho?	Como	você	pode	dizer	 ao	 seu
irmão:	 ‘Deixe-me	 tirar	 o	 cisco	 do	 seu	 olho’,	 quando	 há	 uma	 viga	 no	 seu?
Hipócrita!	 Tire	 primeiro	 a	 viga	 do	 seu	 olho	 e	 então	 você	 enxergará
claramente	para	tirar	o	cisco	do	olho	do	seu	irmão”	(7.3-5).
Não	devemos	permitir	que	essa	 ilustração	 tão	pitoresca	perca	 sua	 força
por	 causa	 de	 nossa	 familiaridade	 com	 ela,	muito	menos	 porque	 ela	 está	 no
campo	da	oftalmologia.	O	problema	descrito	nesse	breve	enredo	ocorre	com
tanta	frequência	e	tão	pateticamente	nos	círculos	de	cristãos	professos	que	o
contraste	entre	um	cisco	e	uma	viga	não	é	nem	um	pouco	exagerado.
O	 exemplo	 mais	 óbvio	 na	 Bíblia,	 suponho,	 encontra-se	 em	 2Samuel
12.1-7.	O	 rei	Davi	 rouba	 a	 esposa	de	outro	homem.Apesar	 de	 seu	grande
harém,	o	 rei	 cobiça	essa	mulher	em	especial;	 ele	 a	 seduz,	e	depois	descobre
que	 ela	 engravidou	 dele.	 O	 marido	 está	 ausente,	 encontra-se	 na	 frente	 de
batalha	 (lutando	 as	 guerras	 do	 rei),	 e	 então	David	 providencia	 que	 ele	 seja
morto.	O	rei	agora	é	culpado	de	adultério	e	assassinato.	O	profeta	Natã	entra
na	corte	real.	Contudo,	em	vez	de	confrontar	seu	monarca	diretamente,	ele
conta	 uma	 parábola,	 uma	 breve	 história	 sobre	 um	 pobre	 fazendeiro	 cuja
única	ovelhinha	fora	roubada	por	um	vizinho	rico	e	poderoso,	dono	de	um
grande	 rebanho.	Davi	 fica	 indignado.	Talvez	parte	de	 sua	 ira	venha	de	 sua
própria	culpa	reprimida.	Furioso	e	sem	perceber	nenhum	traço	de	ironia,	ele
pergunta	 quem	 é	 esse	 perverso	 fazendeiro.	Natã	 responde:	 “Esse	 homem	 é
você!”.
Por	algum	motivo,	o	rei	Davi,	incrivelmente	cego,	não	tinha	percebido
a	viga	em	 seu	próprio	olho,	 enquanto	ardia	de	 raiva	pelo	cisco	no	olho	do
fazendeiro	rico.
É	muito	fácil	ter	a	mesma	conduta	de	Davi,	de	uma	forma	ou	de	outra.
Às	 vezes	 fazemos	 isso	 ressaltando	 certos	 pecados	 públicos	 que	 outros	 são
propensos	 a	 cometer	 e	 denunciando	 com	 prazer	 esses	 pecados,	 ao	 mesmo
tempo	 que	 demonstramos	 uma	 perturbadora	 ignorância	 em	 relação	 aos
pecados	que	cometemos.	Os	críticos	doutrinários	muitas	vezes	são	os	piores
nessa	categoria.	O	crítico	doutrinário	pode	concordar	que	outra	pessoa	é	sua
irmã	em	Cristo,	tem	sido	consideravelmente	usada	pelo	Senhor,	é	ponderada
e	sincera	em	sua	submissão	às	Escrituras.	Porém,	como	o	crítico	se	concentra
na	 única	 área	 de	 doutrina	 em	 que	 os	 dois	 estão	 em	 desacordo,	 essa	 outra
pessoa	 pode	 ser	 pintada	 publicamente	 em	 tons	 de	 cinza	 e	 preto.	 Enquanto
esse	 crítico	 está	 ocupado	 “defendendo	 a	 verdade”,	 ele	 se	 esquece	de	que	os
cristãos	devem	demonstrar	amor	visível	(Jo	13.34,35;	17.20-23).
Não	 estou	 minimizando	 a	 importância	 da	 verdade	 nem	 negando	 que
haja	limites	para	a	comunhão.	Estou	dizendo	duas	coisas.	Em	primeiro	lugar,
os	crentes	genuínos	têm	mais	em	comum	do	que	reconhecem,	quando,	com
mentalidade	 sectária,	 concentram	 atenção	 e	 energia	 nas	 diferenças,	 em
grande	parte	para	reforçar	o	que	interpretam	como	sua	própria	razão	de	ser.
Se	 eu	 reconheço	 sinceramente	 como	 irmãos	 cristãos	 apenas	 aqueles	 que
enxergam	 as	 coisas	 exatamente	 como	 eu,	 jamais	 vou	 reconhecer	 ninguém,
exceto,	 talvez,	 um	 punhado	 de	 seguidores	 sem	 firmeza	 de	 opinião.	 Em
segundo	lugar,	nunca	devemos	perder	de	vista	a	ênfase	de	Mateus	7.1-5	nas
atitudes.	Os	cristãos	discordam	honestamente	em	certos	pontos	doutrinários,
mas	 as	 disputas	 acaloradas	 não	 ajudam	 ninguém.	 As	 diferenças	 devem	 ser
discutidas	com	calma	e	serenidade,	com	submissão	sincera	à	Palavra	de	Deus
e	 repúdio	 a	 argumentos	 que,	 constantemente	 e	 sem	 motivo,	 atribuem
motivações	indignas	aos	irmãos	que	defendem	posição	contrária.	Quem	sabe?
Talvez	uma	discussão	franca	e	uma	análise	humilde	das	Escrituras	e	de	como
o	 outro	 as	 entende	 produzam	 uma	 opinião	 consensual.	 No	 mínimo,
produzirão	consciência	dos	aspectos	e	dimensões	do	debate	e	identificarão	os
pontos	em	que	atualmente	há	diferenças	de	opinião	irreconciliáveis,	algumas
das	quais	podem	vir	a	ser	removidas	por	novas	reflexões	e	mais	pesquisas.
Ironicamente,	 o	 pior	 censurador	 de	 erros	 dos	 outros,	 seja	 no	 campo
doutrinário,	seja	em	outra	área	da	vida,	jamais	admite	seus	próprios	defeitos.
Quando	fica	provado	que	o	cisco	que	ele	descobriu	no	olho	de	outra	pessoa
não	existe,	ou	se	a	grande	viga	no	seu	próprio	olho	é	apontada	com	brandura,
ele	 sai	 caçando	 até	 encontrar	 outro	 cisco	 no	 olho	 de	 seu	 alvo.	 Esse	 crítico
sempre	procura	 algo	mais	para	 criticar;	 ele	não	 se	 sente	bem	 se	não	 estiver
constantemente	denunciando	e	condenando.	Não	sei	como	ele	interpreta	sua
responsabilidade	de	amar	o	próximo	como	a	si	mesmo,	nem	o	que	pensa	das
passagens:	 “O	 amor	 é	 paciente;	 o	 amor	 é	 bondoso.	 Não	 inveja,	 não	 se
vangloria,	não	se	orgulha.	Não	maltrata,	não	busca	os	próprios	interesses,	não
se	 ira	 facilmente,	 não	 guarda	 rancor.	 Não	 tem	 prazer	 na	 injustiça,	 mas	 se
alegra	com	a	verdade.	Tudo	sofre,	tudo	crê,	tudo	espera,	tudo	suporta”	(1Co
13.4-7);	 “O	 fim	de	 todas	 as	 coisas	 está	próximo.	Portanto,	 sejam	 sensatos	 e
sóbrios	para	se	dedicaram	à	oração.	Acima	de	tudo,	amem-se	profundamente
uns	aos	outros,	porque	o	amor	cobre	uma	multidão	de	pecados”	(1Pe	4.7,8).
Quanto	mais	 reflito	 sobre	Mateus	 7.1-5,	mais	 vejo	 que	 eu	mesmo	me
condeno.	Que	Deus	me	dê	graça	para	praticar	o	que	prego.
Eu	 acreditava	 que	 os	 que	 mais	 precisavam	 dessa	 passagem	 eram	 os
jovens,	 principalmente	 os	 estudantes.	 Eles	 lutam	 para	 encontrar	 a	 própria
identidade,	 tentando	 assimilar	 ideias	 novas.	 Essas	 novas	 ideias	 são
prontamente	 adotadas	 e	 tenazmente	defendidas	ou	 rapidamente	 rejeitadas	 e
irrefletidamente	ridicularizadas.	Mas	os	jovens	e	os	estudantes	estão	longe	de
ser	 os	 únicos	 que	 passam	 por	 períodos	 de	 crise	 de	 identidade	 e	 de	 contato
com	 novas	 ideias.	 As	 pessoas	 mais	 velhas,	 temendo	 perder	 suas	 posições,
preocupadas	 com	 seu	 prestígio	 e	 muitas	 vezes	 incomodadas	 por	 um
sentimento	 de	 que	 sua	 vida	 está	 estagnada,	 com	 frequência	 se	 tornam
particularmente	 defensivas,	 rígidas,	 muito	 críticas,	 intolerantes,	 até
desagradáveis	 e	 mesquinhas.	 Os	 jovens	 pelo	 menos	 podem	 amadurecer	 e
superar	 essa	 fase;	 mas,	 para	 os	 mais	 velhos	 abandonarem	 esse	 padrão	 de
comportamento	 já	 arraigado,	 geralmente	 é	 preciso	 uma	 demonstração
drástica	 de	 intervenção	 divina,	 talvez	 na	 forma	 de	 uma	 experiência
esmagadora	e	devastadora	que	gere	humildade.
A	pessoa	que	 se	empenha	escrupulosamente	em	remover	a	viga	de	 seu
próprio	 olho	 não	 está	 por	 isso	 isenta	 de	 qualquer	 outra	 responsabilidade.
Tendo	 adquirido	 a	 capacidade	 de	 enxergar	 claramente,	 ela	 pode	 ajudar	 a
remover	o	cisco	do	olho	de	seu	irmão	(7.5).	Na	verdade,	só	depois	disso	esse
irmão	receberá	bem	sua	ajuda.
O	PERIGO	DE	NÃO	SABER	DISCERNIR
Mateus	7.6
Chegamos	agora	ao	que	é	basicamente	o	perigo	inverso	daquele	tratado	por
nosso	Senhor	em	Mateus	7.1-5:	o	perigo	de	não	 ter	bom	senso.	É	 fácil	ver
como	esse	novo	perigo	 surge.	O	discípulo	de	 Jesus	ouviu	que	deve	amar	o
próximo	como	a	si	mesmo	e	amar	também	seus	inimigos.	Ele	deve	espelhar	a
graça	de	Deus,	o	Deus	que	envia	imparcialmente	sua	chuva	sobre	os	justos	e
os	 injustos.	 Ele	 acabou	 de	 ouvir	 que	 não	 deve	 adotar	 mentalidade	 de
julgamento.	Diante	disso,	está	sempre	correndo	o	risco	de	se	tornar	insípido,
sem	 opinião,	 de	 recusar	 distinções	 legítimas	 entre	 verdade	 e	 engano,	 entre
bem	 e	 mal.	 Talvez	 até	 tente	 tratar	 todas	 as	 pessoas	 exatamente	 da	 mesma
maneira,	caindo	em	total	falta	de	critério.
Por	isso,	depois	de	nos	alertar	contra	o	comportamento	crítico,	Jesus	nos
adverte	contra	a	falta	de	discernimento,	especialmente	na	escolha	das	pessoas
a	 quem	 apresentamos	 as	 maravilhosas	 riquezas	 do	 evangelho.	 No	 entanto,
para	 fazer	 plena	 justiça	 a	 essa	 advertência	 de	 7.6,	 temos	 de	 notar	 que	 esses
cinco	versículos	se	destinam	às	pessoas	que	julgam	as	outras,	enquanto	apenas
um	é	usado	para	falar	das	que	não	têm	bom	senso.	Essa	proporção	reflete	uma
avaliação	precisa	de	onde	está	o	perigo	maior.
O	Senhor	Jesus	diz:	“Não	deem	aos	cães	o	que	é	sagrado,	nem	lancem
suas	pérolas	aos	porcos.	Se	fizerem	isso,	estes	as	pisarão,	e	os	cães,	voltando-se,
despedaçarão	vocês”.	Os	cães	a	que	a	passagem	se	refere	não	são	animais	de
estimação	fofinhos,	carinhosos,	que	abanam	a	cauda	quando	veem	o	dono	e
adoram	que	alguém	lhes	coce	as	orelhas.	São	cães	quase	selvagens	que	andam
em	bando	procurando	comida	pelas	ruas	e	colinas,	com	a	 língua	pendurada
para	fora	da	boca	e	com	pelo	sujo	e	emaranhado,	cheio	de	carrapichos.	E	o
porco	doméstico	palestino	não	 só	era	uma	abominação	para	os	 judeus,mas
também	 provavelmente	 um	 parente	 do	 javali	 europeu,	 capaz	 de	 violência
inegável.	 Os	 dois	 animais	 juntos	 funcionam	 como	 modelo	 de	 pessoas
violentas,	 perversas,	 que	 vivem	 em	 abominação.	 Os	 dois	 aparecem
novamente	 em	2Pedro	 2.22,	 em	um	contexto	 igualmente	negativo:	 “Sobre
eles	[as	pessoas	mencionadas	na	passagem],	são	verdadeiros	os	provérbios:	“O
cão	volta	ao	seu	vômito”,	e	“A	porca	lavada	volta	a	revolver-se	na	lama”.
Jesus	 esboça	 a	 figura	 de	 um	 homem	 segurando	 uma	 bolsa	 cheia	 de
pérolas	preciosas	e	que	se	defronta	com	uma	matilha	de	cães	ameaçadores	e
alguns	 porcos	 selvagens.	 Como	 os	 animais	 rosnam	 de	 fome,	 ele	 pega	 as
pérolas	e	as	joga	na	rua.	Pensando	que	as	pérolas	são	porções	de	comida,	os
animais	 correm	 para	 devorá-las.	 O	 engano	 logo	 se	 desfaz:	 as	 pérolas	 são
muito	 difíceis	 de	 mastigar,	 não	 têm	 gosto	 e	 não	 são	 nem	 um	 pouco
apetitosas.	 Enfurecidos,	 os	 animais	 selvagens	 cospem	 as	 pérolas,	 atacam	 o
homem	e	o	dilaceram.
Pode-se	 acampar	 em	 vastas	 áreas	 silvestres	 da	 América	 do	Norte.	Mas
uma	das	regras	a	ser	observada	à	risca	é:	Não	alimente	os	ursos!	Alimente	os
esquilos-terrestres,	alimente	os	veados,	alimente	os	guaxinins,	até	os	coiotes,
mas	 não	 alimente	 os	 ursos.	 Se	 não	 ficarem	 satisfeitos,	 eles	 vão	 estraçalhar
você.
Em	 linguagem	 metafórica	 (o	 que	 torna	 a	 sua	 advertência	 ainda	 mais
chocante	do	que	se	tivesse	falado	sem	metáforas),	Jesus	está	ordenando	a	seus
discípulos	 que	 não	 compartilhem	 as	 partes	 mais	 preciosas	 da	 verdade
espiritual	com	pessoas	persistentemente	perversas,	 indiferentes	e	insatisfeitas.
Assim	como	as	pérolas	não	satisfizeram	os	animais	selvagens,	mas	os	deixaram
enfurecidos	 e	 perigosos,	 também	muitas	 das	 riquezas	 da	 revelação	 de	Deus
não	 agradam	 a	 muita	 gente.	 E,	 por	 mais	 doloroso	 que	 seja	 ver	 isso,	 essas
verdades	preciosas	só	servem	para	enfurecê-las.
No	Novo	Testamento	há	 vários	 exemplos	 desse	 princípio.	Em	Mateus
15.14,	Jesus,	falando	de	certos	fariseus,	diz	aos	discípulos:	“Deixem-nos;	eles
são	guias	cegos!	Se	um	cego	guiar	outro	cego,	 ambos	cairão	num	buraco”.
De	 acordo	 com	Atos	 18.5,6,	 Paulo	 abandona	 seu	ministério	 aos	 judeus	 em
Corinto	porque	eles	se	opõem	a	ele	e	se	tornam	agressivos.	Diante	disso,	ele
se	volta	para	os	gentios	e	passa	a	ministrar	a	eles.	Paulo	recomenda	a	Tito	que
aja	de	modo	semelhante	em	relação	a	pessoas	que	estão	provocando	divisão
dentro	da	comunidade	cristã	professa:	 “Advirta	 aquele	que	provoca	divisões
primeira	e	segunda	vez.	Depois	disso,	rejeite-o.	Você	sabe	que	tal	indivíduo
está	pervertido	e	vive	pecando;	ele	já	condenou	a	si	mesmo”	(Tt	3.10,11).
Quero	chamar	a	atenção	para	cinco	implicações	ou	alusões	incorporadas
nessa	ordem	 incisiva.	Primeira,	não	 é	por	 acaso	que	 Jesus	 fala	 de	pérolas,	 e
não	 de	 cascalhos.	 O	 homem	 dessa	 história	 carrega	 um	 grande	 tesouro.
Interpretando	 a	 metáfora,	 entendemos	 que	 as	 boas-novas	 de	 Jesus	 Cristo,
com	toda	a	história	e	 revelação	que	as	prenunciam,	de	 fato	 são	um	tesouro
inestimável.	É	uma	inefável	maravilha.	Todas	as	riquezas	materiais	se	tornam
insignificantes	comparadas	com	esse	 tesouro.	Como	este	mundo	pertence	a
Deus,	nada	é	mais	importante	para	mim	do	que	ter	meus	pecados	perdoados	e
ser	aceito	por	ele;	e	nada	é	mais	maravilhoso	que	o	meio	pelo	qual	Deus	fez
isso,	 enviando	 seu	próprio	Filho	para	morrer	em	meu	 lugar.	Por	 sua	graça,
Deus	deu	aos	homens,	tanto	na	linguagem	humana	(a	Bíblia)	quanto	em	uma
pessoa	humana	 (Jesus),	 a	 verdadeira	 e	 segura	 revelação	de	 si	mesmo.	Nada,
absolutamente	nada	é	mais	precioso,	nem	mais	importante,	nem	tem	maiores
consequências	do	que	isso.
Em	 segundo	 lugar,	 no	 entanto,	 essa	 passagem	 é	 o	 sombrio
reconhecimento	 de	 que	 nem	 todas	 as	 pessoas	 vão	 aceitar	 essa	 revelação.
Alguns,	 como	 cães	 e	 porcos	 diante	 de	 pérolas,	 permanecem	 absolutamente
insensíveis	a	ela.	Essa	revelação	não	satisfaz	seus	apetites	imediatos,	e	eles	não
têm	outros	critérios	para	avaliá-la.	Assim,	por	esses	versículos,	estamos	sendo
preparados	 para	 a	 divisão	 da	 raça	 humana	 em	 dois	 grupos,	 retratados	 pelo
Senhor	Jesus	em	Mateus	7.13ss.
Em	 terceiro	 lugar,	 o	 problema	 não	 é	 simplesmente	 que	 alguns	 não
aceitam	essa	revelação,	pois	o	ponto	central	de	7.6	é	que	os	discípulos	de	Jesus
não	devem	nem	sequer	apresentar	as	riquezas	reveladas	a	algumas	pessoas	de
disposição	perversa	e	 sempre	 insatisfeitas.	Sua	zombaria	cínica,	 a	 arrogância
intelectual,	 o	 amor	 pela	 decadência	 moral	 e	 a	 autossuficiência	 presunçosa
desses	 indivíduos	os	 fazem	totalmente	 refratários	à	pessoa	e	à	mensagem	de
Cristo.	Com	o	passar	dos	anos,	aos	poucos	cheguei	a	um	ponto	em	que	me
recuso	a	tentar	explicar	o	cristianismo	e	a	apresentar	Cristo	a	pessoas	que	só
querem	zombar,	discutir	e	ridicularizar.	Perder	tempo	com	essas	pessoas	não
traz	nada	de	bom,	e	há	muitas	outras	oportunidades	em	que	se	pode	investir
tempo	e	energia	com	mais	proveito.
Essa	 conclusão	 inevitável	 deve	 ser	 equilibrada	 com	 uma	 quarta
observação:	essa	ordem	do	próprio	Senhor	Jesus	está	inserida	em	um	contexto
mais	 amplo,	 que	 exige	 amor	 pelos	 inimigos	 e	 uma	 qualidade	 de	 vida
caracterizada	pela	perfeita	justiça.	Em	outras	palavras,	não	é	porque	os	cristãos
não	devem	lançar	suas	pérolas	aos	cães	e	aos	porcos	que	têm	licença	para	ser
desagradáveis	e	rancorosos,	muito	menos	para	ignorar	tudo	o	mais	que	Jesus
ensinou.	Além	disso,	não	há	 justificativa	nesse	versículo	para	deixar	de	 lado
todo	testemunho	verbal,	alegando	que	só	há	cães	e	porcos,	e	todos	eles,	sem
exceção,	 são	perversos.	Muitos	—	se	não	a	maioria	—	dos	adultos	pensantes
que	 se	 tornaram	discípulos	 sinceros	do	Senhor	 Jesus	Cristo	começaram	essa
peregrinação	hesitando,	e	não	poucos,	zombando.
Há	muitas	situações	em	que	os	cristãos	precisam	persistir	no	testemunho
e	 ser	 pacientes	 na	 semeadura	 da	 verdade	 de	 Deus.	 A	 colheita	 chegará	 no
devido	 tempo	 se	não	desanimarmos	por	 covardia	ou	preguiça.	O	que	 Jesus
está	pedindo	é	discernimento;	e	a	essência	do	discernimento	é	saber	que	não
se	 pode	 esperar	 que	 regras	 simples	 produzam	 uma	 resposta	 infalível.	 Aqui,
novamente,	 é	 bom	 procurar	 seguir	 o	 exemplo	 do	 próprio	 Mestre.	 É
extremamente	proveitoso	examinar	sua	abordagem	a	diferentes	indivíduos	e
grupos.	 Ele	 pode	 rejeitar	 um	 grupo	 (como	 vimos	 em	 Mateus	 15.14),
dispensar	um	Herodes	 (Lc	13.31-33),	 profetizar	 juízo	 sobre	 cidades	 inteiras
(Mt	11.20-24),	mas	também	pode	ser	paciente	com	um	grupo	(veja	Lc	9.51-
55;	Mc	6.31-34),	apresentar	provas	indiscutíveis	a	um	Tomé	cheio	de	dúvidas
(Jo	20.24ss.)	e	chorar	por	uma	cidade	(Lc	19.41ss.).	Os	cristãos	não	podem	ter
o	atrevimento	de	escolher	qual	tendência	das	reações	de	Jesus	vão	seguir	mais
estreitamente;	eles	têm	de	seguir	ambas.	E	desconfio	que,	quanto	mais	forte	a
inclinação	de	seguir	uma	tendência	em	detrimento	da	outra,	maior	o	perigo
de	 desequilíbrio	 e	 maior	 a	 necessidade	 de	 crescer	 em	 discernimento	 e
conformidade	com	Cristo.
Além	 disso,	 embora	 os	 cristãos	 tenham	 de	 aprender	 a	 ter	 critério	 e
discernimento	espiritual	e,	assim,	não	saírem	desperdiçando	suas	pérolas	por
aí	 de	 forma	 imprudente,	 sua	 conduta	 e	 a	 qualidade	 de	 sua	 vida	 podem	 ser
usadas	por	Deus	para	levar	os	cães	e	os	porcos	a	refletir.	Se	há	esperança	para
pessoas	 perdidas	 e	 endurecidas,	 ela	 está,	 como	 disse	 James	 Montgomery
Boice,	 “na	 soberania	 de	 Deus	 e	 na	 realidade	 evidente	 da	 verdadeira	 vida
cristã”.	Enquanto	eu	escrevia	essas	linhas,	um	aluno	de	medicina	de	uma	das
universidades	 próximas	 me	 chamou	 de	 lado	 para	 que	 lhe	 explicasse	 os
fundamentos	do	cristianismo	bíblico.	Vale	ressaltar	que,	conforme	me	disse,
sua	 curiosidade	 inicial	 pela	 Bíblia	 e	 por	Cristo	 foi	motivada	 em	 parte	 pela
curiosidade	intelectual,	mas	particularmente	o	que	lhe	chamou	a	atenção	foi
o	 modo	 de	 vida	 de	 alguns	 alunoscristãos	 que	 conheceu.	 O	 sal	 não	 tinha
perdido	o	sabor;	a	luz	ainda	estava	brilhando.
Em	 suma,	 devemos	 ter	 cuidado	 ao	 lidar	 com	 as	 verdades	 da	 revelação
bíblica,	 pois	 elas	 são	 sagradas	 e	 não	 devem	 ser	 lançadas	 por	 aí
indiscriminadamente,	mas	 com	 zelo,	 atenção,	 responsabilidade	 e	 estratégia.
Talvez	 seja	válido	deduzir	que	a	discriminação	explicitamente	exigida	nesse
texto	constitui	apenas	uma	parte	da	responsabilidade	maior	de	ser	criterioso.
O	PERIGO	DE	NÃO	TER	PERSISTÊNCIA	CONFIANTE
Mateus	7.7-11
É	 fácil	 e	 triste	 perceber	 como	 as	 pessoas	 sem	 persistência	 na	 fé	 cristã	 se
desenvolvem.	O	indivíduo	fica	muito	entusiasmado	com	os	ensinamentos	de
Jesus.	 Muitas	 coisas	 o	 atraem:	 os	 sentimentos	 nobres,	 o	 chamado	 ao
autossacrifício,	o	sublime	tom	moral,	o	compromisso	com	a	pureza,	a	ênfase
na	verdade	 imaculada,	 a	 fé	no	 futuro,	 a	 cativante	 libertação	da	mentalidade
julgadora	 —	 coisas	 maravilhosas!	 Comprometendo-se	 com	 esses	 bons
ensinamentos,	ele	experimenta	uma	espécie	de	catarse,	que	supõe	ser	um	sinal
de	 vida	 espiritual.	 Esse	 estímulo	 o	 impulsiona	 para	 a	 frente;	 sua	 conduta
promete	uma	rica	colheita	de	graças	espirituais.	Ninguém	é	mais	ávido	para
se	oferecer	para	o	trabalho	espiritual,	ninguém	é	mais	 fiel	na	frequência	aos
estudos	bíblicos	e	às	reuniões	de	oração,	ninguém	está	mais	preocupado	em
seguir	os	ensinamentos	de	Cristo	em	todas	as	esferas	da	existência	humana.
Então,	 eis	que	 sua	chama	enfraquece,	vacila	vergonhosamente	uma	ou
duas	vezes	e	se	apaga.	É	como	se	ele	tivesse	brotado	em	algum	lugar	rochoso
sem	muita	profundidade	de	terra.	A	semente	da	verdade	cai	nesse	solo	e	logo
cresce	tão	somente	porque	o	solo	é	muito	raso.	Porém,	quando	o	sol	quente
do	verão	lança	seus	raios	abrasadores,	as	raízes	tenras	da	planta	não	têm	onde
buscar	umidade.	A	planta	murcha,	estorrica-se	e	morre.	Nas	palavras	de	Jesus:
“E	o	que	foi	semeado	em	terreno	pedregoso	é	o	homem	que	ouve	a	palavra	e
a	recebe	imediatamente	com	alegria.	Todavia,	visto	que	não	tem	raiz	em	si,
ele	permanece	pouco	tempo.	Quando	vem	a	tribulação	ou	a	perseguição	por
causa	da	palavra,	ele	logo	a	abandona”	(Mt	13.20,21;	cf.	13.1-9).
O	que	aconteceu	de	errado	com	essa	pessoa?	Em	primeiro	 lugar,	 falta-
lhe	 persistência;	 sua	 capacidade	 de	 fixação	 é	 insuficiente.	 O	 verdadeiro
compromisso	cristão	é	perseverante.	“Ninguém	que	ponha	a	mão	no	arado	e
olhe	para	trás	é	apto	para	o	serviço	do	reino	de	Deus”	(Lc	9.62),	insiste	Jesus
—	 atitude	 refletida	 igualmente	 em	 João,	 segundo	o	 qual	 os	 que	 recuam	na
verdade	nunca	pertenceram	ao	povo	de	Cristo	(1Jo	2.19).	Em	segundo	lugar,
porém,	e	mais	importante,	esse	discípulo	do	tipo	fogo	de	palha	foi	motivado
por	 sentimentos	 elevados	 e	 ideias	 nobres,	 mas,	 por	 algum	 motivo,	 o
significado	 da	 primeira	 bem-aventurança	 lhe	 escapou	 totalmente:	 “Bem-
aventurados	os	pobres	em	espírito,	pois	deles	é	o	reino	do	céu”	(5.3).	O	que	o
move	é	sua	determinação,	seus	próprios	ideais	elevados	e	recém-estimulados.
Por	 incrível	 que	 pareça,	 o	 Sermão	 do	Monte	 o	 faz	 pensar	 que	 pode	 viver
sozinho	 por	 aqueles	 preceitos.	 Em	 vez	 de	 enxergar	 sua	 própria	 falência
espiritual	pela	luz	do	Sermão	do	Monte,	ele	vê	apenas	a	beleza	da	luz	em	si.
Portanto,	 em	 vez	 de	 se	 voltar	 para	Deus	 e	 pedir	 a	 graça,	 a	misericórdia,	 o
perdão,	 a	 aceitação	 e	 o	 socorro	 que	 seu	 estado	 espiritual	 falido	 exige,	 ele
simplesmente	vira	uma	nova	página	de	sua	vida.	Não	é	de	admirar	que	logo
se	sinta	desanimado	e	derrotado.
É	por	isso	que	Jesus	diz:	“Peçam,	e	lhes	será	dado;	busquem,	e	acharão;
batam,	e	a	porta	se	abrirá	para	vocês.	Porque	todo	o	que	pede	recebe;	quem
busca	acha;	 e,	 ao	que	bate,	 a	porta	 será	 aberta”	 (7.7,8).	Na	perfeita	 simetria
tripla	desses	dois	versículos,	os	imperativos	são	enfáticos	e	estão	no	presente.
Continue	pedindo,	continue	buscando,	continue	batendo;	peça,	busque,	bata
e	continue	fazendo	isso;	pois	“todo	o	que	pede	recebe;	quem	busca	acha;	e,	ao
que	bate,	a	porta	será	aberta”.
É	 preciso	 perseverança.	 Mas	 perseverança	 em	 quê?	 A	 resposta	 é
perseverança	 na	 oração:	 não	 aquele	 tipo	 de	 oração	 esporádica	 por	 uma
bênção	 isolada,	 mas,	 no	 contexto	 do	 Sermão	 do	 Monte,	 uma	 oração	 que
traduz	 a	 busca	 entusiasmada	 de	Deus.	 Esse	 “pedir”	 é	 pedir	 as	 virtudes	 que
Jesus	 acabou	de	expor;	 esse	 “buscar”	 é	buscar	 a	Deus;	 esse	 “bater”	 é	bater	 à
porta	da	sala	do	trono	do	céu.	Trata-se	da	resposta	divinamente	capacitada	ao
convite	direto	de	Deus:	 “Vocês	me	buscarão	 e	me	 encontrarão	quando	me
buscarem	de	todo	o	coração”	(Jr	29:13).
O	reino	do	céu	exige	pobreza	de	espírito,	pureza	de	coração,	verdade,
compaixão,	espírito	não	vingativo	e	vida	íntegra;	mas	nos	faltam	todas	essas
virtudes.	 Por	 isso,	 vamos	 pedi-las!	 Você	 é	 tão	 santo,	 tão	 manso,	 tão
verdadeiro,	tão	amoroso,	tão	puro,	tão	obediente	a	Deus	quanto	gostaria	de
ser?	Então	peça-lhe	graça	para	que	essas	qualidades	se	multipliquem	em	sua
vida!	Esse	pedido,	quando	feito	com	sinceridade	e	humildade,	já	é	um	passo
de	 arrependimento	 e	 fé,	 pois	 é	 o	 reconhecimento	 de	 que	 você	 não	 tem	 as
virtudes	 que	 o	 reino	 exige	 e	 de	 que	 apenas	Deus	 pode	 concedê-las.	 Além
disso,	 suspeito	 que	 o	 objeto	 certo	 desse	 pedir,	 buscar	 e	 bater	 é	 um	 pacote
inteiro.	Não	se	busca	a	santidade	e	se	rejeita	a	obediência;	não	se	procura	a
obediência	 e	 se	 foge	da	pureza.	Trata-se	de	uma	busca	 sincera	do	 reino	de
Deus	 e	 da	 sua	 justiça.	 E	 essa	 busca	 é	 marcada	 por	 perseverança:	 é	 um
persistente	pedir,	buscar,	bater	(cf.	Lc	11.5-10;	18.1-8;	1Ts	5.17).
O	 mundo	 ocidental	 não	 se	 destaca	 pela	 oração.	 Em	 geral,	 para	 nossa
vergonha	indescritível,	até	os	cristãos	genuínos	do	Ocidente	não	se	destacam
pela	oração.	Nossa	sociedade	gosta	de	agitação,	de	organizações	competentes
e	 instituições	 poderosas,	 de	 autoconfiança	 e	 das	 conquistas	 humanas,	 de
opiniões	 novas	 e	 propostas	 inovadoras;	 e	 a	 igreja	 de	 Jesus	 Cristo	 se
conformou	 tão	bem	a	 esse	 ambiente	que	muitas	 vezes,	 nesses	 aspectos,	 fica
difícil	perceber	diferença	entre	ela	e	o	paganismo	contemporâneo.	Existem,
sem	dúvida,	exceções;	mas	estou	me	referindo	ao	que	é	característico.	Nosso
declínio	 espiritual	 está	 diretamente	 ligado	 à	 fragilidade	 vacilante	 das	 nossas
orações:	“Vocês	não	têm	nada	porque	não	pedem	a	Deus.	Vocês	pedem	e	não
recebem,	porque	pedem	com	motivos	errados,	só	para	gastarem	nos	prazeres
de	vocês”	(Tg	4.2b,3).
Esse	pedido	tem	um	corolário	inevitável:	se	temos	de	pedir,	não	há	meio
de	 recebermos	 as	 virtudes	 características	 dos	participantes	do	 reino	 se	Deus
não	as	der.	Essa	observação	é	de	extrema	importância	porque	faz	parte	de	um
tema	que	permeia	 todo	o	Novo	Testamento.	Em	outras	 palavras,	 ninguém
conquista	seu	lugar	no	reino	de	Deus.	Ninguém	marca	pontos	de	mérito	até
juntar	o	suficiente	para	herdar	a	vida	eterna.	Ninguém	é	capaz,	por	si	mesmo,
de	 se	 aproximar	 do	 modo	 de	 vida	 retratado	 no	 Sermão	 do	 Monte.
Certamente	 também	 ninguém	 jamais	 entrará	 no	 reino	 consumado	 apenas
porque	resolveu	se	aperfeiçoar	para	se	tornar	apresentável	diante	de	Deus.
A	 primeira	 bem-aventurança	 já	 deu	 o	 tom:	 a	 aprovação	 de	Deus	 está
sobre	aquele	que	é	pobre	em	espírito.	Essa	pessoa,	reconhecendo	sua	falência
espiritual	 e	 sua	 incapacidade	 de	 se	 adequar	 às	 perspectivas	 do	 reino,	 ficará
ansiosa	por	pedir	a	Deus	graça	e	ajuda,	impaciente	por	buscar	as	bênçãos	que
só	Deus	pode	dar	e	terá	prazer	em	bater	às	portas	do	céu.	Também	reconhece
que	a	salvação	agora	—	e	toda	a	riqueza	dessa	salvação	no	reino	consumado
—	 depende	 da	 graça	 de	Deus,	 o	 favor	 gratuito	 e	 imerecido	 de	Deus.	 Essa
pessoa	se	alegra	em	ler	o	convite	de	Jesus	para	que	ela	peça,	busque	e	bata.	Ela
se	aproxima	dele	como	um	humilde	pedinte,	buscando	perdão	e	graça.
Fica	claro,	portanto,	que	as	palavras	de	Jesus	servem	de	antídoto	para	o
perigo	de	murchar	emsolo	rochoso.	A	pessoa	que	fica	entusiasmada	com	os
elevados	 ideais	do	Sermão	do	Monte	deve	aprender	que	nenhum	progresso
espiritual	ocorre	sem	a	graça	de	Deus.	Por	isso,	vai	entender	que	não	há	nada
mais	 importante	 do	 que	 pedir	 a	 Deus	 essa	 graça.	 Além	 disso,	 essa	 pessoa
começará	a	entender	a	solene	verdade	de	que	o	cristianismo	bíblico	não	é	um
estado	 de	 euforia	 temporária	 que	 às	 vezes	 temos	 e	 outras	 vezes	 não,
dependendo	de	nosso	nível	de	empolgação	ou	de	desânimo.	Pelo	contrário,	é
uma	reorientação	completa	da	vida,	um	compromisso	eterno	cujo	sucesso	se
baseia	 na	 fidelidade	 de	 Deus.	 Fracassos	 e	 reveses	 podem	 vir,	 mas	 Deus
permanece	absolutamente	fiel,	imparcial,	isento	da	volubilidade	dos	caprichos
humanos,	 e	 ainda	 dá	 a	 quem	 pede,	 apresenta	 o	 tesouro	 espiritual	 a	 quem
busca	e	abre	a	porta	a	quem	bate.
Será	 que	 Deus	 faz	 isso	 de	 má	 vontade?	 Essa	 é	 uma	 questão	 de
importância	considerável,	pois	organizamos	nossos	pedidos	de	acordo	com	o
que	sabemos	do	caráter	daquele	a	quem	nos	dirigimos.	A	criança	que	tem	um
pai	amável,	bondoso	e	firme	não	tem	medo	de	lhe	pedir	coisas,	mas	no	fundo
se	sente	 feliz	com	a	certeza	de	que	seu	pai	não	 lhe	daria	algo	que,	 segundo
sua	maior	sabedoria	e	experiência,	julgue	nocivo	ao	filho.	A	criança	que	tem
um	 pai	 esbanjador	 e	 irresponsável	 aproxima-se	 dele	 com	 arrogância	 e	 faz
exigências,	 sabendo	 que	 não	 será	 contrariada.	 A	 criança	 que	 tem	 um	 pai
mesquinho,	 mal-humorado	 e	 abusivo	 raramente	 pedirá	 alguma	 coisa,
temendo	outra	agressão	gratuita.
Assim,	 como	 devemos	 nos	 aproximar	 de	 Deus?	 Jesus	 dá	 um	 exemplo
breve,	 mas	 revelador,	 para	 consolidar	 o	 ponto	 principal:	 como	 filhos	 do
reino,	temos	de	nos	aproximar	de	Deus	com	persistência	e	confiança	em	sua
bondade	quando	 lhe	pedimos	o	suprimento	do	dia.	“Quem	de	vocês”,	 Jesus
pergunta,	 “se	o	 filho	 lhe	pedir	pão,	dará	 a	 ele	uma	pedra?	Ou,	 se	 lhe	pedir
peixe,	dará	uma	cobra?”.	Essa	hipótese	é	totalmente	absurda.	Que	pai	acharia
engraçado	dar	ao	filho	uma	pedra	parecida	com	um	pão,	em	vez	de	um	pão
de	 verdade?	 A	 conclusão	 de	 Jesus	 para	 sua	 pergunta	 retórica	 é	 óbvia:	 “Se
vocês,	apesar	de	serem	maus,	sabem	dar	boas	coisas	a	seus	filhos,	quanto	mais
o	Pai	de	vocês,	que	está	no	céu,	dará	boas	coisas	aos	que	lhe	pedirem!”	(7.9-
11).
Infelizmente,	muitos	filhos	de	Deus	sofrem	por	causa	da	ideia	errada	de
que	seu	Pai	celestial	sente	alegria	perversa	ao	ver	seus	filhos	sofrendo	de	vez
em	 quando.	 Claro,	 eles	 não	 são	 tão	 blasfemos	 a	 ponto	 de	 expressar	 seu
pensamento	com	tais	termos,	mas	sua	vida	de	oração	revela	que	eles	não	estão
completamente	convencidos	da	bondade	de	Deus	e	do	amor	que	Deus	 tem
por	 eles.	 O	 argumento	 de	 Jesus	 é	 a	 fortiori:	 se	 os	 pais	 humanos	 —	 que,
segundo	os	padrões	divinos	de	justiça	perfeita,	só	podem	ser	definidos	como
maus	—	sabem	dar	bons	presentes	aos	filhos,	será	que	Deus	não	dará	presentes
muito	melhores	 aos	que	 lhe	pedem?	Estamos	 falando	do	Deus	que	disse	 ao
seu	povo:	“Pode	uma	mulher	esquecer-se	do	seu	bebê	que	ainda	mama	e	não
ter	compaixão	do	 filho	do	 seu	ventre?	Mas,	 ainda	que	ela	 se	 esquecesse,	 eu
não	me	esquecerei	de	ti”	(Is	49.15).
O	cristão	deve	lembrar-se	constantemente	da	pura	bondade	de	Deus	e,
dessa	forma,	dos	recursos	que	seu	Pai	celestial	põe	à	sua	disposição:
Vem,	minh’alma,	tua	causa	apresentar;
Jesus	tem	prazer	em	responder	à	oração;
foi	ele	mesmo	que	te	convidou	a	orar.
Portanto,	jamais	te	dirá	“não”.
Tu	estás	te	aproximando	de	um	Rei;
grandes	petições	traze	contigo;
pois	sua	graça	e	poder	são	tais
Que	ninguém	pode	pedir	demais.1
EQUILÍBRIO	E	PERFEIÇÃO
Mateus	7.12
Dei	 a	 este	 capítulo,	 que	 trata	 de	 Mateus	 7.1-12,	 o	 título	 de	 “Equilíbrio	 e
perfeição”;	 e	 esses	 temas	 atingem	o	 ápice	no	versículo	12:	 “Em	 tudo	 façam
aos	outros	o	que	vocês	querem	que	eles	lhes	façam,	porque	esta	é	a	Lei	e	os
Profetas”.
No	segundo	capítulo,	expliquei	que	os	versículos	5.17-20	e	7.12	formam
uma	 inclusio	—	 isto	 é,	 delimitam	 o	 corpo	 principal	 do	 Sermão	 do	Monte,
conforme	o	registro	de	Mateus,	e	indicam	que	o	sermão	diz	respeito	a	como
o	reino	de	Deus	cumpre	a	Lei	e	os	Profetas.	Grande	parte	disso	é	exposto	em
Mateus	5.	O	Antigo	Testamento,	como	vimos,	prenuncia	Jesus	e	o	reino	que
ele	 anuncia	 e	 encontra	 neles	 sua	 verdadeira	 continuidade.	 Mas	 a	 justiça
exigida	pelo	reino	pode	ser	desvirtuada	por	alguns	e	transformada	em	“obras
de	justiça”	hipócritas,	e	Jesus	passa	a	advertir	contra	tal	hipocrisia	em	Mateus
6,	insistindo	na	lealdade	sincera	às	perspectivas	do	reino.
No	 começo	 de	 Mateus	 7,	 então,	 Jesus	 trata	 dos	 últimos	 equívocos
possíveis.	Exatamente	porque	costuma	pregar	em	categorias	absolutas,	ele	se
esforça	para	juntar	as	partes	de	um	modo	que	garanta	equilíbrio	e	proporção.
Claro,	não	sabemos	tudo	o	que	Jesus	disse	naquele	dia	na	região	montanhosa
da	Galileia,	mas	há	boas	razões	para	acreditar	que	Mateus	captou	toda	a	força
e	 equilíbrio	 de	 seu	 discurso.	 O	 primeiro	 perigo	 de	 que	 Jesus	 trata	 é	 o	 do
julgamento	 (7.1-5),	 mas	 ele	 o	 contrabalança	 com	 o	 perigo	 da	 falta	 de
discernimento	 (7.6).	 E	 toda	 a	 pregação	 é	 temperada	 por	 sua	 advertência
contra	a	 falta	de	confiança	persistente	 (7.7-11),	pois	com	isso	 fica	claro	que
Jesus	não	está	defendendo	a	mera	determinação	pessoal	de	se	tornar	melhor.
Em	 vez	 disso,	 ele	 insiste	 em	 afirmar	 que	 a	 entrada	 e	 o	 progresso	 no	 reino
exigem	a	mão	salvadora	de	Deus.	Assim,	todo	o	corpo	do	Sermão	do	Monte
foi	polido	e	acabado	com	excepcional	equilíbrio.
Em	seguida,	Jesus	o	arremata	com	a	conhecida	“Regra	Áurea”.	A	forma
negativa	 dessa	 regra	 é	 conhecida	 em	 muitas	 religiões	 —	 isto	 é,	 ela
frequentemente	aparece	em	outros	 textos	na	 forma:	 “Não	 faça	aos	outros	o
que	não	gostaria	que	fizessem	a	você”.	Por	exemplo,	o	rabino	Hillel	ensinava:
“O	que	é	odioso	para	você,	não	faça	com	seus	semelhantes.	Essa	é	toda	a	lei.
Tudo	o	mais	é	explicação”.	Mas	Jesus	dá	uma	forma	afirmativa	a	essa	regra,	e
a	 diferença	 entre	 as	 duas	 é	 profunda.	 A	 forma	 negativa,	 por	 exemplo,
ensinaria	atitudes	como	estas:	se	você	não	gosta	de	ser	roubado,	não	roube	os
outros.	 Se	você	não	gosta	de	 ser	 amaldiçoado,	não	 amaldiçoe	os	outros.	 Se
você	não	gosta	de	ser	odiado,	não	odeie	os	outros.	Se	você	não	quer	que	lhe
deem	uma	paulada	na	cabeça,	não	dê	paulada	na	cabeça	dos	outros.	Contudo,
a	 forma	afirmativa	ensina	condutas	como	estas:	 se	você	gosta	de	ser	amado,
ame	os	outros.	Se	você	gosta	de	receber	presentes,	dê	presentes	aos	outros.	Se
você	gosta	de	ser	valorizado,	valorize	os	outros.	A	forma	afirmativa,	portanto,
penetra	muito	mais	fundo	na	alma	do	que	sua	contrapartida	negativa.	Ela	não
me	dá	 licença	para	me	refugiar	em	um	mundo	onde	não	ofendo	ninguém,
mas	também	não	faço	nada	de	bom	a	ninguém.	O	que	você	gostaria	que	lhe
fizessem?	O	que	você	de	fato	gostaria?	Então,	faça	isso	aos	outros.	Duplique
tanto	a	qualidade	dessas	coisas	quanto	a	quantidade	—	“em	tudo”.
Por	que	temos	de	agir	desse	modo?	Jesus	não	diz	que	devemos	fazer	aos
outros	o	que	gostaríamos	de	que	eles	nos	 fizessem	para	que	eles	 façam	isso.
Não	 há	 aqui	 nenhum	 valor	 utilitarista	 como	 “a	 honestidade	 compensa”	 ou
coisa	parecida.	Em	vez	disso,	o	motivo	por	que	temos	de	fazer	aos	outros	o
que	 queremos	 que	 eles	 nos	 façam	 é	 que	 essa	 atitude	 resume	 a	 Lei	 e	 os
Profetas.	 Em	 outras	 palavras,	 essa	 atitude	 está	 em	 conformidade	 com	 os
requisitos	 do	 reino	 de	 Deus,	 o	 reino	 que	 é	 o	 cumprimento	 da	 Lei	 e	 dos
Profetas.	Essa	regra	é	um	meio	rápido	de	testar	a	perfeição	exigida	em	5.48,	o
amor	 mencionado	 em	 5.43ss.,	 a	 verdade	 retratada	 em	 5.33ss.,	 e	 assim	 por
diante.
Não	é	de	surpreender	que	a	“Regra	Áurea”	não	dê	muita	ênfase	à	nossa
relação	 com	Deus.	Os	 versículos	 anteriores	 já	 ressaltaram	 a	 importância	 de
estar	consciente	de	nossa	constante	dependência	de	Deus	para	amadurecer	e
cumprir	as	exigênciasdas	normas	do	reino.	Em	outra	passagem,	Jesus	ensina
que	o	maior	mandamento	é:	“Ame	o	Senhor	seu	Deus	de	todo	o	coração,	de
toda	a	alma	e	de	todo	o	entendimento”	e	que	o	segundo	maior	é:	“Ame	o	seu
próximo	 como	 a	 você	 mesmo”	 (Mt	 22.37,39).	 No	 ensinamento	 de	 Jesus,
contudo,	 é	 incontestável	 que	 o	 segundo	 jamais	 será	 observado	 sem	 o
primeiro:	 nunca	 amaremos	 o	 próximo	 como	 gostaríamos	 de	 ser	 amados
enquanto	 não	 amarmos	 a	 Deus	 de	 todo	 o	 coração,	 toda	 a	 alma	 e	 todo	 o
entendimento.
À	 medida	 que	 a	 distância	 avassaladora	 entre	 essas	 exigências	 e	 nossa
conduta	expõe	nossa	falência	espiritual,	Deus	nos	dá	o	ardente	desejo	de	nos
aproximar	dele	com	humildade	e	persistência	—	pedindo,	buscando,	batendo.
Desse	modo,	nos	tornamos	“praticantes”	da	Palavra,	não	apenas	“ouvintes”.
1John	Newton	(1725-1807).
A
6 Conclusão:
Dois	caminhos
ntes	de	 estudar	Mateus	7.13-27,	que	 trata	da	 conclusão	do	Sermão	do
Monte,	 conforme	 o	 registro	 de	 Mateus,	 é	 bom	 voltar	 um	 pouco	 e
analisar	 como	 o	 ensino	 desses	 capítulos	 se	 relaciona	 com	 alguns	 outros
destaques	importantes	no	Novo	Testamento.	Em	especial,	quero	saber	como
Mateus	5—7	se	encaixa	nos	principais	destaques	paulinos,	sobretudo	a	ênfase
do	 apóstolo	 na	 justificação	 pela	 graça	 mediante	 a	 fé,	 exposta	 com
preeminência	na	Epístolas	aos	Romanos	e	aos	Gálatas.	Não	tenho	dúvidas	de
que	esse	parêntese	ajudará	a	ter	uma	imagem	mais	nítida	dos	versículos	finais
do	Sermão	do	Monte.
EXCURSO
O	Sermão	do	Monte	e	os	destaques	paulinos
Equilíbrio
A	 alegre	 submissão	 cristã	 à	 autoridade	 das	 Escrituras	 traz	 consigo	 o
compromisso	 com	 o	 equilíbrio	 no	 modo	 de	 abordarmos	 as	 Escrituras.	 O
cristão	deve	crer	na	Bíblia	como	um	todo,	uma	vez	que	a	revelação	posterior
complementa	 e	 às	 vezes	modifica	 a	 anterior.	No	próprio	Novo	Testamento,
diferentes	 autores	 ressaltam	 temas	 que	 lhes	 interessam	 ou	 que	 são	 de
particular	 interesse	para	os	 crentes	 a	quem	eles	ministram.	Ao	dar-nos	esse
livro	sagrado,	Deus	não	queria	nos	prover	um	manual	de	teologia	sistemática
nem	 uma	 carta	 ditada.	 Em	 vez	 disso,	 ele	moveu	 e	 inspirou	 soberanamente
homens	 a	 escrever	 narrativas,	 descrições,	 cartas,	 experiências,	 visões	 e
ordenanças	 de	 modo	 que	 o	 resultado	 fosse	 um	 reflexo	 fidedigno	 das
impressões,	 análises,	 pesquisas,	 convicções	 e	 experiências	do	 autor	 humano
—	e,	ao	mesmo	tempo,	as	próprias	palavras	de	Deus.	Sendo	mais	específico,
João	não	escreve	como	Paulo;	o	vocabulário	deles	é	diferente,	seus	interesses
históricos	e	teológicos	são	diferentes,	cada	um	tem	seu	próprio	estilo.	Deus,
no	entanto,	usa	os	dois.	Por	isso,	não	é	aceitável	nem	lícito	opor	um	ao	outro,
nem	aceitar	um	como	expressão	normativa	do	cristianismo	em	detrimento	do
outro.
Desse	modo,	portanto,	a	revelação	bíblica	não	é	monocromática.	Por	isso,
não	deve	ser	 interpretada	com	esse	pressuposto.	Com	base	nisso,	temos	de
aprender	a	organizar	os	diferentes	raios	de	luz	num	espectro	contínuo.
O	 Sermão	 do	 Monte	 contém	 muitas	 instruções	 éticas	 —	 tantas	 que
algumas	pessoas	concluíram	que	ele	estabelece	uma	série	de	condições	a	ser
cumpridas	 para	 que	 alguém	 entre	 no	 reino	 de	 Deus.	 Segundo	 essa
interpretação,	 um	 indivíduo	 entra	 no	 reino	 porque	 sua	 obediência	 o	 fez
merecer	a	entrada.	Tal	dedução	é	obviamente	falsa.	Observamos	no	capítulo
anterior	 que	 a	 insistência	 de	 Jesus	 na	pobreza	do	 espírito	 (em	5.3)	 aliada	 à
ênfase	 no	 pedir	 a	 Deus	 com	 humildade	 (em	 7.7-11)	 combinam-se	 para
invalidar	essa	conclusão.	No	entanto,	é	compreensível,	para	dizer	o	mínimo,
que	uma	leitura	superficial	do	Sermão	do	Monte	leve	o	leitor	desatento	a	essa
falsa	conclusão.
Paulo
Vamos	 comparar	 o	 ensino	 de	 Paulo	 sobre	 a	 salvação.	 Especificamente,
examinaremos	três	elementos	dessa	doutrina.	Primeiro,	Paulo	 insiste	em	que
as	pessoas	são	salvas	pela	livre	graça	de	Deus,	e	nada	mais.	Certamente	elas
não	 podem	 ser	 salvas	 por	 suas	 obras,	 pelos	 méritos	 que	 acumulam.	 O
apóstolo	usa	os	primeiros	dois	capítulos	e	meio	de	Romanos	para	provar	que
todos	os	seres	humanos,	sem	exceção,	são	culpados	diante	de	Deus.	Deus	é
justo	 e	 santo;	 ele	 não	 pode	 ignorar	 o	 pecado	 e	 fingir	 que	 ele	 não	 tem
importância.	 No	 entanto,	 Deus	 é	 misericordioso	 e	 amoroso,	 logo,	 não	 tem
prazer	 em	 condenar	 culpados.	 Ele	 age,	 portanto,	 em	perfeita	 conformidade
com	sua	justiça	e	sua	graça,	envia	seu	filho	para	se	tornar	um	homem,	Jesus
de	 Nazaré.	 Jesus,	 “o	 Ungido”	 de	 Deus	 (isto	 é,	 o	 escolhido	 de	 Deus,	 seu
“Cristo”),	como	homem	obedece	voluntariamente	a	seu	Pai	em	tudo	e	morre
como	representante	e	substituto	de	pessoas	que	não	poderiam	salvar-se	por
si	mesmas.	Deus	 fez	 isso	“para	demonstrar	sua	 justiça	no	tempo	presente,	a
fim	de	ser	justo	e	justificador	daquele	que	tem	fé	em	Jesus”	(Rm	3.26).	“Onde
está,	 então,	 o	 motivo	 de	 vanglória?”,	 Paulo	 pergunta;	 e	 responde:	 “Foi
excluído.	 [...]	 Porque	 nós	 sustentamos	 que	 o	 homem	 é	 justificado	 pela	 fé,
independentemente	de	observar	a	lei”	(Rm	3.27,28).
Em	 segundo	 lugar,	 de	 acordo	 com	 Paulo,	 essa	 salvação	 que	 vem	 pela
graça	 de	 Deus,	 mediante	 a	 fé,	 não	 tolera	 a	 irresponsabilidade.	 Se	 alguém
alega	que	Deus	derrama	sua	graça	proporcionalmente	ao	pecado	(“Mas	onde
aumentou	o	pecado,	a	graça	aumentou	ainda	mais...”,	Rm	5.20b)	e,	por	 isso
continua	 pecando	 para	 que	 a	 graça	 continue	 aumentando,	 Paulo	 rechaça
veementemente	 tal	 ideia	 (Rm	6.1ss.).	Além	do	mais,	 Paulo	 argumenta	 ainda
que,	como	a	morte	de	Jesus	cumpriu	judicialmente	as	justas	exigências	da	lei,
os	discípulos	de	Jesus,	perdoados	pelo	supremo	ato	de	autossacrifício	de	seu
Senhor,	 serão	 controlados	 pelo	 Espírito	 de	 Deus	 (Rm	 8.1ss.).	 Na	 verdade,
somente	os	que	têm	esse	Espírito	e	cuja	vida	o	demonstra	e	todos	os	que	têm
esse	Espírito	e	cuja	vida	o	demonstra	foram	verdadeiramente	perdoados.
Em	outras	palavras,	a	salvação	que	Deus	dá	pela	graça	não	é	estática;	ela
inevitavelmente	 resulta	 em	 boas	 obras.	 As	 boas	 obras	 não	 compram	 a
salvação,	mas	certamente	são	consequência	dela.	A	esse	respeito,	Efésios	2.10
precisa	 ser	 ponderado	 junto	 com	 o	 par	 de	 versículos	 mais	 habitualmente
citados	que	o	precedem:	“Porque	pela	graça	vocês	são	salvos,	mediante	a	fé,
e	 isso	 não	 vem	de	 vocês,	 é	 dom	de	Deus	—	não	 vem	das	 obras,	 para	 que
ninguém	 se	 vanglorie.	 Porque	 somos	 feitura	 dele,	 criados	 em	 Cristo	 Jesus
para	fazer	as	boas	obras,	as	quais	Deus	preparou	de	antemão	para	que	nós	as
praticássemos”	 (Ef	 2.8-10).	Conforme	essa	passagem,	 as	 boas	 obras	 podem
ser	 interpretadas	 tanto	 como	 o	 alvo	 da	 salvação	 quanto	 como	 o	 teste	 da
salvação.
Em	terceiro	lugar,	do	ponto	de	vista	do	cristão	que	olha	em	retrospecto
um	período	 da	 revelação	 de	Deus	mais	 longo	 do	 que	 o	 período	 que	 havia
transcorrido	na	época	dos	crentes	do	Antigo	Testamento,	fica	claro	que	a	lei
do	Antigo	Testamento	jamais	foi	concebida	para	salvar	ninguém.	Ela	apontava
para	 a	 salvação	 que	 estava	 chegando,	 e	 fazia	 isso	 de	 várias	 maneiras.	 Por
exemplo,	ela	ensinava	aos	 judeus	a	extensão	 real	de	sua	culpa	 (Rm	2.17ss.),
assim	 como	 a	 revelação	 natural	 e	 os	 princípios	 morais	 reconhecidos	 pela
maioria	ensinaram	aos	gentios	a	extensão	de	seu	pecado	(Rm	1.18—2.16).	No
que	diz	 respeito	 aos	 judeus,	 a	 lei	 foi	 estabelecida	 como	medida	 temporária
até	que	a	promessa	da	redenção	se	cumprisse	em	Jesus	(Gl	3.19).	Todo	o	seu
sistema	 sacrificial	 prefigurava	 o	 sacrifício	 supremo	 do	 próprio	 Salvador.	 Por
isso,	a	lei,	prenunciando	Cristo	e	combinando	a	culpa	humana	e	a	consciência
dessa	culpa,	 foi	concebida	para	 levar	os	homens	a	Cristo,	a	 fim	de	que	eles
sejam	 justificados	pela	graça,	por	meio	da	 fé	 (Gl	3.24).	De	 fato,	Paulo	pode
argumentar	 que	 ninguém	 jamais	 foi	 salvo	 pela	 lei	 (Gl	 3.11)	 —	 isto	 é,	 tão
somente	cumprindo	o	suficiente	do	que	a	lei	diz.Construir	 um	 modelo	 em	 que	 os	 pontos	 positivos	 de	 uma	 pessoa	 são
somados	 e	 contrapesados	 com	 seus	 pontos	 negativos	 é	 ridículo	 de	 acordo
com	o	 critério	paulino.	Afinal,	 o	bem	deve	 ser	 feito	 sem	exceção.	Portanto,
não	há	nenhum	mérito	em	fazer	o	bem	e	obedecer	à	lei	de	Deus;	e	deixar	de
fazê-lo	(isto	é,	a	violar	a	lei	de	Deus)	é	um	mal	tão	inequívoco	que	não	temos
como	remediá-lo.	Aquilo	que	gostamos	de	pensar	que	podemos	remediar	—
isto	é,	fazer	o	bem	—	já	é	nossa	obrigação	de	qualquer	maneira,	portanto	não
pode	fazer	expiação	pelo	mal.	Paulo	argumenta	que,	antes	mesmo	que	Cristo
viesse	e	o	verdadeiro	objeto	da	 fé	 fosse	 totalmente	 revelado,	os	crentes	do
Antigo	Testamento	só	eram	aceitáveis	para	Deus	com	base	na	graça	divina.	A
lei	antevia	a	cruz	e	a	ressurreição	de	Cristo,	mais	ou	menos	como	o	evangelho
hoje	 recorda	 esses	 eventos	 culminantes.	Os	 crentes	 do	Antigo	 Testamento,
ainda	 que	 procurassem	 obedecer	 à	 lei	 formal,	 tinham	 de	 se	 aproximar	 de
Deus	 pela	 fé	 —	 em	 pobreza	 de	 espírito,	 desejando	 a	 graça	 divina	 —	 do
contrário,	não	se	aproximavam	de	forma	alguma.
O	cristianismo	de	hoje
É	claro	que	Paulo	está	se	referindo	principalmente	à	função	da	lei	na	história
do	 povo	 judeu.	No	 entanto,	 tudo	 isso	 é	 válido	 também	 no	 nível	 individual.
Normalmente	ninguém	grita	por	 socorro	para	 ser	encontrado	enquanto	não
sabe	ou	não	suspeite	que	está	perdido.	Ninguém	pede	perdão	enquanto	não
perceber	que	está	condenado.	Ninguém	pedirá	perdão	enquanto	não	tomar
consciência	de	sua	culpa.	Estou	muito	ciente	que	algumas	pessoas	se	tornam
cristãs	sem	passar	por	traumas	profundos	nessas	áreas;	no	entanto,	creio	que
alguns	 aspectos	 se	 aplicam	 de	 qualquer	 modo.	 Por	 exemplo,	 alguns	 se
convertem	 porque	 são	 atraídos	 pela	 irrefutável	 magnificência	 do	 amor	 de
Jesus,	 manifesta	 em	 seu	 autossacrifício.	 Mas	 isso	 significa	 que	 eles
reconhecem	 que	 lhes	 falta	 algo	 na	 própria	 vida,	 ou	 que	 Cristo	 tem	 algum
direito	 sobre	eles,	ou	que	existe	nele	uma	superioridade	 intrínseca	que	eles
mesmos	não	têm	e	gostariam	de	estabelecer	como	meta.	E	tenho	a	impressão
de	que	 essas	 pessoas	 não	 são	 a	maioria	 das	 conversões	 genuínas.	 Indo	 um
pouco	mais	longe,	diria	que	o	motivo	por	que	atualmente	estamos	vendo	essa
porcentagem	 tão	 alta	de	 conversões	espúrias	 é	 justamente	porque	primeiro
não	ensinamos	às	pessoas	que	elas	precisam	de	Cristo.
Em	 uma	 de	 suas	 cartas	 a	 um	 jovem	 que	 queria	 saber	 como	 pregar	 o
evangelho,	John	Wesley	propõe	uma	abordagem	bem	diferente.	Ele	diz	que,
sempre	 que	 chegava	 a	 um	 novo	 lugar	 para	 pregar	 o	 evangelho,	 começava
com	uma	declaração	geral	sobre	o	amor	de	Deus.	Em	seguida,	pregava	“a	lei”
(com	 isso	 ele	 queria	 dizer	 todos	 os	 padrões	 justos	 de	 Deus	 e	 a	 pena	 da
desobediência)	da	forma	mais	penetrante	possível.	Ele	fazia	isso	até	que	uma
grande	 quantidade	 de	 seus	 ouvintes	 se	 visse	 em	 profunda	 convicção	 de
pecado,	chegando	até	a	perder	qualquer	esperança	de	serem	perdoados	por
esse	 Deus	 santo.	 Só	 então	 ele	 apresentava	 as	 boas-novas	 de	 Jesus	 Cristo.
Wesley	 explicava	 a	 importância	 salvífica	 da	 pessoa,	 do	 ministério,	 morte	 e
ressurreição	 de	 Cristo	 e	 a	 verdade	 maravilhosa	 de	 que	 a	 salvação	 é
unicamente	pela	graça	de	Deus,	por	meio	da	fé.	Enquanto	seus	ouvintes	não
percebessem	que	eram	culpados	e	totalmente	impotentes	para	se	salvarem,	a
maravilha	e	 a	disponibilidade	da	graça	de	Deus	não	 significariam	nada	para
eles.	Wesley	 acrescenta	 que,	 depois	 que	 um	número	grande	de	pessoas	 se
convertia,	 ele	 acrescentava	mais	 temas	 relacionados	 com	 a	 “lei”.	 Fazia	 isso
para	 ressaltar	 a	 verdade	 de	 que	 os	 crentes	 genuínos	 têm	 fome	 de
experimentar	 a	 justiça	 e	 continuam	 reconhecendo	 a	 pobreza	 em	 espírito,
confessando	que	a	aceitação	deles	por	Deus	depende	sempre	e	somente	do
sacrifício	de	Cristo.
Grande	parte	do	evangelismo	de	 hoje	pouco	 se	preocupa	em	 saber	 se
Deus	nos	aceita,	está	mais	preocupado	em	saber	se	nós	o	aceitamos.	Pouca
atenção	se	dá	a	agradar	a	Deus	e	muito	se	pensa	se	ele	nos	agrada	ou	não.
Muitos	 métodos	 evangelísticos	 conhecidos	 são	 concebidos	 segundo	 essas
considerações.	 Por	 isso	 se	 dá	 pouca	 ênfase	 ao	 caráter	 de	 Deus	 e	 aos
requisitos	do	reino	e	muita	ênfase	às	nossas	necessidades.	Pior	ainda,	nossas
necessidades	 são	 classificadas	 em	 categorias	 eminentemente	 psicológicas,
não	 morais	 (alienação	 e	 solidão,	 em	 vez	 de	 amargura,	 egoísmo	 e	 ódio;
frustração	e	medo,	em	vez	de	falta	de	oração	e	incredulidade).	Como	se	não
bastasse,	a	paz,	a	alegria	e	o	amor	são	pregados	como	objetivos	desejáveis.
Essas	 coisas	 são	 desejáveis,	 mas	 há	 dois	 problemas.	 Em	 primeiro	 lugar,
virtudes	 como	 paz,	 alegria	 e	 amor	 podem	 ser	 facilmente	 interpretadas
meramente	em	sentido	pessoal,	quase	místicos.	Por	causa	disso,	o	destaque
bíblico	para	a	paz	com	Deus	e	com	os	homens,	para	a	alegria	no	Senhor	e	o
amor	persistente,	que	dá	sacrificialmente	a	Deus	e	aos	homens,	se	reduz	a	um
brilho	emocional	e	agradável.	Em	segundo	lugar,	essas	virtudes	precisam	estar
acompanhadas	 de	 virtudes	 complementares,	 tais	 como	 justiça,	 integridade,
retidão,	verdade,	humildade	e	fé.
Imagine	um	grande	cone:
Se	a	entrada	para	o	 reino	 for	apresentada	como	grande	e	 larga,	muitos
darão	os	primeiros	passos.	Entretanto,	logo	descobrirão	que	lá	dentro	o	cone
se	 estreita.	 Continuar	 significa	 livrar-se	 da	 carga	 que	 levam;	 as	 condições
determinantes	 para	 a	 entrada	 são	 muito	 restritivas.	 Essas	 pessoas	 foram
induzidas	a	entrar	no	cone	por	muita	conversa	sobre	a	vida,	o	perdão,	a	paz	e
a	alegria;	de	 repente,	descobrem	noções	mais	 restringentes.	Ficam	sabendo
do	pecado	e	do	arrependimento,	da	obediência	e	do	discipulado.	Não	é	de
surpreender	que	muitas	vezes	ocorra	uma	erupção	e	um	monte	de	gente	saia
por	onde	entrou.
Mas	o	cone	pode	estar	virado	para	o	outro	lado:
Agora,	 a	 entrada	 é	muito	 estreita.	Ninguém	pode	 entrar	 se	 não	 estiver
sem	 nenhuma	 bagagem.	 Só	 se	 entra	 de	 acordo	 com	 as	 condições
estabelecidas.	Uma	 vez	dentro,	 porém,	para	 sua	 alegria,	 a	 pessoa	descobre
que	os	horizontes	se	expandem	e	a	liberdade	aumenta	cada	vez	mais.
Paulo,	 como	 vimos,	 entende	 que	 em	 geral	 o	 cone	 está	 nessa	 segunda
posição.	Ele	explica	que	uma	das	principais	 funções	da	 lei	é	condenar	o	 ser
humano.	Isto	é,	 longe	de	prover	um	código	prático	com	os	quais	as	pessoas
possam	obter	méritos	diante	de	Deus,	a	 lei	 funciona	para	expor	o	pecado	e
condená-lo.	Paulo	escreve:	“Ora,	sabemos	que	tudo	o	que	a	lei	diz,	diz	para
os	 que	 estão	 debaixo	 da	 lei,	 para	 que	 toda	 boca	 se	 cale	 e	 o	mundo	 todo
preste	contas	a	Deus.	Portanto,	ninguém	será	declarado	justo	diante	dele	pela
observância	da	lei;	pelo	contrário,	mediante	a	lei	nos	tornamos	conscientes	do
pecado”	(Rm	3.19,20).	Consequentemente,	quando	uma	pessoa	se	aproxima
de	 Cristo,	 ela	 se	 apresenta	 despojada	 de	 qualquer	 pretensão	 de	 justiça
própria,	de	qualquer	alegação	de	mérito	moral	individual.	Não	estou	dizendo
que	o	 ser	 humano	não	 tem	valor.	 Longe	disso	—	cada	um	de	nós	é	 feito	 à
imagem	 de	 Deus	 e,	 portanto,	 tem	 imensa	 importância,	 tanto	 quanto	 é
importante	 o	 seu	 destino	 eterno.	 Contudo,	 diante	 de	 Deus	 ninguém	 tem
nenhum	valor	moral	meritório	que	lhe	garanta	perdão,	salvação	e	entrada	no
reino	de	Deus.
Em	 outras	 palavras,	 é	 característico	 de	 Paulo	 ressaltar,	 de	 um	 lado,	 a
salvação	pela	graça,	mediante	a	fé,	e,	de	outro,	a	rendição	inequívoca	com	a
qual	os	homens	devem	se	aproximar	de	Deus.
Cristo
Quantas	 e	 quantas	 vezes	 o	 próprio	 ministério	 de	 Jesus	 reflete	 as	 mesmas
perspectivas!	Ele	 tem	a	estranha	capacidade	de	pôr	o	dedo	na	 ferida	ou	no
maior	 obstáculo	 na	 vida	 da	 pessoa	 com	quem	está	 tratando.	O	 jovem	 rico,
apaixonado	por	sua	riqueza,	precisa	se	 livrar	dela	 (Lc	18.18ss.).	A	samaritana
está	 preparada	 para	 falar	 dediante	de	Deus.	Dentro	desse	quadro,	pobreza	de	espírito	vem	a
ser	 uma	 confissão	 geral	 da	 necessidade	 que	 uma	 pessoa	 tem	 de	 Deus,	 o
humilde	reconhecimento	de	impotência	sem	ele.	A	pobreza	de	espírito	pode
terminar	com	um	Gideão	derrotando	as	tropas	inimigas,	todavia	começa	com
um	Gideão	que	primeiro	se	reconhece	incapaz	de	cumprir	a	missão	e	declara
categoricamente	 que,	 se	 o	 Senhor	não	 for	 com	ele,	 prefere	 ficar	 em	 casa	 e
debulhar	grãos.
A	 pobreza	 de	 espírito	 não	 pode	 ser	 induzida	 artificialmente	 pelo
autodesprezo.	Menos	ainda	tem	em	comum	com	a	ostentação	de	humildade.
Tampouco	os	de	espírito	arrogante,	que	cobiçam	suas	qualidades,	conseguem
imitá-la	com	êxito.	Essas	tentativas	podem	ter	algum	sucesso	simbólico	diante
dos	homens,	mas	jamais	conseguem	enganar	a	Deus.	Na	verdade,	quase	todos
nós	sentimos	repulsa	pela	humildade	fingida,	seja	a	nossa	própria,	seja	a	dos
outros.
Suponho	que	não	haja	orgulho	mais	mortal	do	que	aquele	que	se	baseia
em	grande	conhecimento,	muita	piedade	exterior	ou	na	presunçosa	defesa	da
ortodoxia.	Não	 estou	 com	 isso	 questionando	 o	 valor	 do	 conhecimento,	 da
piedade	ou	da	ortodoxia,	mas	apenas	expondo	os	crentes	professos	ao	pleno
resplendor	dessa	bem-aventurança.	O	orgulho	baseado	em	virtudes	genuínas
tem	o	maior	potencial	de	levar	o	indivíduo	a	se	iludir;	mas	nosso	Senhor	não
há	de	permitir	isso.	Ele	insiste	na	pobreza	de	espírito:	o	reconhecimento	total,
sincero,	 factual,	 consciente	 e	 consciencioso	 da	 nossa	 falta	 de	 valor	 moral
diante	de	Deus.	A	pobreza	de	espírito	é,	como	dito	anteriormente,	a	 forma
mais	profunda	de	arrependimento.
Não	é	de	surpreender,	portanto,	que	o	reino	do	céu	pertença	aos	pobres
em	espírito.	Já	no	início	do	Sermão	do	Monte,	descobrimos	que	não	temos	os
recursos	 espirituais	 para	 pôr	 em	 prática	 nenhum	 dos	 preceitos	 do	 Sermão.
Não	 podemos	 atingir	 os	 padrões	 de	Deus	 por	 nós	mesmos.	Temos	 de	 nos
apresentar	diante	de	Deus	e	reconhecer	nossa	falência	espiritual,	esvaziando-
nos	de	nosso	senso	de	 justiça	própria,	autoestima	moral	e	vanglória	pessoal.
Uma	 vez	 esvaziados	 disso	 tudo,	 estamos	 prontos	 para	 que	 ele	 nos	 encha.
Grande	parte	do	restante	do	Sermão	do	Monte	tem	o	propósito	de	retirar	de
nós	 esses	 autoenganos	 e	 promover	 a	 pobreza	 genuína	 de	 espírito.	 A
sinceridade	e	a	profundidade	desse	arrependimento	são	requisitos	primordiais
para	entrar	na	vida.
Segunda:	“Bem-aventurados	os	que	choram,	pois	serão	consolados”	(5.4)
Esse	versículo	decorre	naturalmente	do	anterior.	O	choro	pode	ser	entendido
como	o	complemento	emocional	da	pobreza	de	espírito.
O	mundo	em	que	vivemos	gosta	de	rir.	Os	agentes	do	prazer	vendem
alegria	e	risadas,	tudo	em	troca	de	lucro.	O	summum	bonum	da	vida	torna-se
a	 diversão,	 e	 o	 objetivo	 imediato	 é	 chegar	 ao	 próximo	 pico	 de	 euforia.	O
mundo	não	gosta	de	pessoas	chorosas;	elas	são	desmancha-prazeres.
Contudo,	 o	 Filho	 de	 Deus	 insiste:	 “Bem-aventurados	 os	 que	 choram,
pois	serão	consolados”.	Isso	não	significa	que	o	cristão	deva	ser	sempre	triste,
como	 se	 estivesse	 em	 luto	 constante.	 O	 cristão	 não	 deve	 corresponder	 ao
estereótipo	 gravado	 na	 mente	 daquela	 garotinha	 que	 exclamou:	 “Aquele
cavalo	 deve	 ser	 cristão;	 olha	 só	 que	 cara	 triste	 ele	 tem!”.	 Tampouco	 o
versículo	 é	 uma	 desculpa	 para	 aquela	 tristeza	 que	 vem	 da	 autopiedade
subserviente.
O	que	é	esse	choro,	então?	Para	o	indivíduo,	esse	choro	é	o	pesar	que	ele
sente	 por	 seu	 próprio	 pecado.	 É	 a	 tristeza	 de	 alguém	 que	 começa	 a
reconhecer	 o	 negrume	 de	 seu	 pecado	 quanto	mais	 toma	 conhecimento	 da
pureza	 de	 Deus.	 Isso	 aconteceu	 com	 Isaías	 quando	 lhe	 foi	 concedida	 uma
visão	da	Divindade,	em	que	até	os	próprios	anjos	do	céu	cobriam	o	rosto	e
clamavam	em	solene	adoração:	“Santo,	santo,	santo”.	A	reação	de	Isaías	foi	de
total	devastação	(Is	6.5).	Esse	é	o	pranto	de	um	homem	que	tenta	alcançar	a
pureza	por	seus	próprios	esforços	e	descobre	que	não	consegue	atingi-la,	por
isso	 lamenta:	 “Miserável	 homem	que	 sou!	Quem	me	 livrará	 do	 corpo	desta
morte?”	(Rm	7.24).
Contudo,	pode	haver	 também	um	choro	estimulado	por	considerações
mais	 gerais.	 Às	 vezes	 o	 pecado	 deste	 mundo,	 a	 falta	 de	 integridade,	 a
injustiça,	 a	 crueldade,	 a	 mesquinhez,	 o	 egoísmo,	 tudo	 isso	 se	 acumula	 na
consciência	de	uma	pessoa	sensível	e	a	 faz	chorar.	A	maioria	de	nós	prefere
simplesmente	condenar.	Estamos	preparados	para	andar	com	Jesus	através	de
Mateus	 23	 e	 repetir	 seus	 pronunciamentos	 de	 juízo;	mas	 paramos	 antes	 de
chegar	ao	fim	do	capítulo	e	não	nos	juntamos	a	ele	quando	chora	pela	cidade.
Os	grandes	luminares	da	história	da	igreja	aprenderam	a	chorar	—	homens	do
calibre	de	Calvino,	Whitefield,	Wesley,	Shaftesbury	e	Wilberforce.
O	cristão	deve	ser	um	realista	autêntico.	Ele	percebe	que	a	morte	é	um
fato	 e	 precisa	 ser	 encarada.	 Deus	 existe	 e	 será	 conhecido	 de	 todos,	 como
Salvador	 ou	 Juiz.	 O	 pecado	 é	 um	 fato,	 e	 é	 de	 uma	 feiura	 e	 escuridão
inexprimíveis	diante	da	pureza	de	Deus.	A	eternidade	é	um	fato,	e	 todo	ser
humano	 vivo	 caminha	 a	 passos	 largos	 para	 ela.	A	 revelação	 de	Deus	 é	 um
fato,	e	as	alternativas	que	ela	apresenta	acontecerão:	vida	ou	morte,	perdão	ou
condenação,	 céu	 ou	 inferno.	 São	 realidades	 que	 não	 vão	 desaparecer.	 O
homem	que	tem	consciência	delas	e	avalia	a	si	mesmo	e	ao	seu	mundo	tendo-
as	 como	 padrão	 não	 pode	 fazer	 outra	 coisa	 senão	 chorar.	 Ele	 chora	 pelos
pecados	e	blasfêmias	de	sua	nação.	Chora	pela	erosão	do	conceito	de	verdade.
Chora	pela	avareza,	pelo	ceticismo,	pela	falta	de	integridade.	Chora	por	haver
tão	poucos	que	choram.
Mas	ele	será	consolado!	E	que	consolo!	Não	há	consolo	ou	alegria	que	se
compare	com	o	que	Deus	dá	aos	que	choram.	Eles	trocam	o	pano	de	saco	do
lamento	por	vestes	de	louvor,	as	cinzas	do	luto	pelo	óleo	da	alegria.	No	nível
individual,	aquele	que	chora	lamenta	o	seu	próprio	pecado	porque	vê	como	é
grande	sua	transgressão	diante	de	Deus;	mas	aprende	a	confiar	em	Jesus	como
aquele	que	pagou	o	resgate	pelo	pecado	(Mc	10.45).	Ele	exulta	de	alegria	ao
descobrir	 por	 experiência	 própria	 que	 Jesus	 veio	 salvar	 seu	 povo	 de	 seus
pecados	 (Mt	 1.21).	 E,	 enquanto	 chora	 por	 outras	 pessoas,	 ele	 descobre
maravilhado	que	Deus	 está	 respondendo	 a	 suas	 orações	—	muitas	 vezes	 até
agindo	por	 intermédio	dele	para	desatar	os	nós	do	pecado	e	proporcionar	a
outros	a	experiência	do	novo	nascimento,	da	nova	justiça.	Todavia,	até	esse
grande	consolo	será	superado:	um	dia,	em	novo	céu	e	nova	terra,	o	reino	de
Deus	será	consumado,	e	o	próprio	Deus	enxugará	toda	lágrima	dos	olhos	dos
que	antes	choravam.	Não	haverá	mais	morte,	nem	lamento,	nem	choro,	nem
dor,	porque	a	antiga	ordem	das	coisas	terá	passado	(Ap	21.4).
Terceira:	“Bem-aventurados	os	mansos,	porque	eles	herdarão	a	terra”	(5.5)
Qual	é	a	diferença	entre	mansidão	e	pobreza	de	espírito?	A	diferença,	creio,	é
esta:	pobreza	de	espírito	diz	respeito	à	opinião	que	uma	pessoa	tem	a	respeito
de	 si,	 sobretudo	 em	 relação	 a	Deus,	 enquanto	mansidão	 diz	 respeito	 a	 seu
relacionamento	com	Deus	e	com	os	outros.
Mansidão	 não	 é,	 como	 muitos	 imaginam,	 fraqueza.	 Não	 se	 deve
confundir	ser	manso	com	se	deixar	levar	pelos	outros,	não	ter	personalidade.
Uma	pessoa	mansa	não	é	necessariamente	indecisa	ou	medrosa.	Ela	não	é	tão
insegura	a	ponto	de	se	deixar	abater	por	ofensas.	Mansidão	também	não	deve
ser	 confundida	 com	 mera	 amabilidade.	 Algumas	 pessoas	 são	 naturalmente
agradáveis	 e	 de	 trato	 fácil,	 mas	 isso	 também	 se	 aplica	 a	 alguns	 cachorros.
Mansidão	é	muito	mais	que	isso.
Mansidão	é	o	desejo	consciente	de	pôr	os	 interesses	do	outro	na	frente
dos	 nossos.	 Pense	 na	 consideração	 de	Abraão	 por	 Ló:	 isso	 é	mansidão.	De
acordo	com	Números	12.3,	Moisés	foi	o	homem	mais	manso	que	já	existiu,	e
sua	 mansidão	 é	 demonstrada	 de	 forma	 excepcional	 nesse	 capítulo	 pela	 sua
recusa	em	se	defender,	por	seu	firmereligião,	 mas	 Jesus	 traz	 à	 baila	 as	 relações
adúlteras	 dessa	 mulher	 (Jo	 4.7ss.).	 Ele	 adverte	 os	 potenciais	 discípulos	 a
primeiro	calcular	o	preço	de	o	seguir	(Lc	14.25ss.),	concluindo	suas	ilustrações
sobre	esse	assunto	com	a	penetrante	declaração:	“Do	mesmo	modo,	qualquer
um	 de	 vocês	 que	 não	 renunciar	 a	 tudo	 quanto	 possui	 não	 pode	 ser	 meu
discípulo”	 (Lc	 14.33).	 Aí	 está	—	 a	 extremidade	 estreita	 do	 cone.	 Essa	 ideia
surge	 mais	 uma	 vez	 quando	 ele	 rejeita	 voluntários	 hesitantes	 ou
despreparados	(Lc	9.57-62).
É	claro	que	esse	é	apenas	um	dos	lados	da	moeda.	Também	vemos	Jesus
fazendo	 convites	 gerais	 (veja	 Mt	 11.28-30;	 Jo	 7.37,38),	 e	 ele	 é	 conhecido
como	aquele	que	não	esmagará	a	cana	quebrada	e	não	apagará	o	pavio	que
fumega	 (Mt	 12.20).	 Mas	 isso	 só	 significa	 que	 ele	 é	 benevolente	 com	 o
esmagado,	o	ferido,	o	oprimido	e	o	cansado.	Jesus	veio	como	médico	para	os
doentes,	não	para	os	sãos;	como	o	Salvador	para	os	pecadores,	não	para	os
justos	 (Mt	9.12,13).	As	pessoas	alquebradas	não	precisam	de	grandes	 lições
sobre	pobreza	em	espírito:	elas	 já	aprenderam	e	agora	precisam	de	palavras
de	graça	e	esperança.
Estou	chegando	agora	ao	núcleo	da	questão,	no	que	se	refere	ao	Sermão
do	 Monte.	 Paulo	 deixa	 claro	 que	 a	 lei	 torna	 os	 homens	 conscientes	 do
pecado,	que	eles	são	salvos	pela	graça,	por	meio	da	fé,	e	que	Deus	não	aceita
ninguém	que	venha	com	condições	e	ressalvas.	Paulo	explica	a	função	da	lei,	e
o	que	ele	está	explicando	em	Romanos	e	em	Gálatas,	Jesus	explica	no	Sermão
do	Monte.
Não	é	à	toa	que	o	Sermão	do	Monte	começa	com	a	exigência	da	pobreza
em	 espírito.	 Ele	 começa	 exigindo	 que	 os	 que	 esperam	 entrar	 no	 reino
reconheçam	sua	falência	espiritual,	sua	necessidade.	Além	disso,	assim	como
Paulo,	 Jesus	 está	 explicando	 algumas	 relações	 entre	 a	 lei	 e	 o	 evangelho
(Mateus	5.17-20),	mas	faz	isso	para	ressaltar	a	exigência	de	justiça	no	reino.	Se
a	 lei	 do	 Antigo	 Testamento	 ainda	 tem	 alguma	 autoridade	 vinculativa,	 ela	 a
tem	 naquilo	 que	 já	 a	 cumpriu,	 isto	 é,	 no	 reino.	 Portanto,	 em	 certo	 sentido
Jesus	 está	 pregando	 a	 lei:	 ele	 está	 pregando	o	 alvo	para	 o	 qual	 a	 Lei	 e	 os
Profetas	apontavam.	Ao	proclamar	assim	as	normas	e	exigências	do	reino,	ele
simultaneamente	apresenta	aos	discípulos	genuínos	as	perspectivas	do	reino	e
faz	todos	os	outros	dolorosamente	conscientes	de	seus	defeitos	irremediáveis.
É	claro	que	Jesus	está	pregando	para	pessoas	que	ainda	não	tiveram	de
lidar	 com	 as	 consequências	 da	 morte	 dele,	 nem	 se	 alegraram	 com	 o	 fato
histórico	 e	 os	 aspectos	 escatológicos	 de	 sua	 ressurreição.	 Esse	 ambiente
anterior	 à	 Paixão	 sem	 dúvida	 influencia	 o	 quanto	 Jesus	 lhes	 diz	 e	 em	 que
condições.	 No	 entanto,	 insisto	 em	 dizer	 que,	 se	 o	 Sermão	 do	 Monte	 for
interpretado	 apenas	 como	 um	 requisito	 legal	 para	 a	 entrada	 no	 reino,
ninguém	jamais	entrará:	pode	alguém	meditar	muito	tempo	em	Mateus	5—7
e	não	se	sentir	envergonhado?	O	Sermão	do	Monte	dá	um	golpe	mortal	no
nosso	senso	de	justiça	própria	e	nos	convida,	em	seguida,	a	pedir	o	favor	de
Deus	(7.7-11),	sem	o	qual	é	impossível	a	admissão	ao	reino.	Ao	mesmo	tempo,
ele	 faz	 um	 esboço	 do	 modo	 de	 vida	 daqueles	 que	 entram,	 os	 que	 fazem
petições	 a	 Deus	 (7.7-11),	 pedem	 perdão	 (6.12)	 e,	 pela	 graça	 de	 Deus,
encontram	 não	 só	 o	 perdão,	 mas	 também	 a	 adequação	 cada	 vez	 maior	 às
normas	 do	 reino.	 Não	 demora	 muito	 para	 que	 a	 vida	 deles	 comece	 a
expressar	a	Lei	e	os	Profetas.
Nada	 pode	 ser	mais	 desastroso	 do	 que	meditar	 longa	 e	 profundamente	 em
Mateus	5.1—7.12	e	depois	 resolver	melhorar	um	pouco.	O	discipulado	que
Jesus	 exige	 é	 absoluto,	 radical	no	 sentido	 (etimológico)	de	 chegar	 à	 raiz	da
conduta	humana	e	à	raiz	das	relações	entre	Deus	e	os	homens.	Uma	pessoa
entra	no	reino	ou	não	entra;	caminha	pela	estrada	que	leva	à	vida	ou	caminha
pela	 estrada	 que	 leva	 à	 destruição.	 Não	 existe	 terceira	 alternativa.	 Nada,
absolutamente	nada,	pode	 ter	 importância	mais	 crucial	do	que	 seguir	 Jesus.
Ainda	 que	 hoje	 isso	 esteja	 longe	 de	 ser	 uma	 verdade	 reconhecida
universalmente,	um	dia	todos	os	seres	humanos,	sem	exceção,	a	confessarão,
alguns	para	o	próprio	pesar	eterno.
Jesus,	portanto,	conclui	o	Sermão	do	Monte	com	uma	série	de	pares	de
alternativas.	Ele	fala	de	dois	caminhos	(7.13,14),	duas	árvores	(7.15-20),	duas
alegações	(7.21-23)	e	duas	casas	(7.24-27).	Com	esses	pares,	ele	insiste	em	que
há	 dois	 e	 somente	 dois	 caminhos.	 Esses	 últimos	 versículos	 do	 Sermão	 do
Monte	exigem	a	decisão	e	o	compromisso	do	 tipo	que	 implora	a	Deus	por
misericórdia	 e	 perdão.	 Tal	 discipulado	 se	 caracteriza	 pelo	 arrependimento
profundo,	 que	 não	 almeja	 nada	 além	 da	 conformidade	 com	 a	 vontade	 de
Deus.	 Porém,	 porque	 há	 apenas	 dois	 caminhos,	 simplesmente	 deixar	 de
assumir	 esse	 compromisso	 tão	 profundo	 já	 é	 o	 compromisso	 de	 não	 o
assumir.	O	caminho	de	Jesus	exige	arrependimento,	confiança	e	obediência.
Por	 conseguinte,	 a	 recusa,	 resultante	 de	 arrogância	 impenitente,
incredulidade	e/ou	desobediência	—	em	suma,	egocentrismo	em	vez	de	uma
vida	centrada	em	Deus	—,	só	pode	ser	interpretada	como	rebelião.
Dois	e	somente	dois	caminhos.	O	Sermão	do	Monte	não	termina	com
pensamentos	 elevados	 sobre	 a	 bondade	 humana,	 salpicados	 generosamente
com	 a	 esperança	 ingênua	 na	 inevitabilidade	 do	 progresso	 humano.	 Ele
oferece	 dois	 e	 somente	 dois	 caminhos.	 Um	 termina	 em	 vida	 (7.14),	 bons
frutos	 (7.17),	 entrada	no	 reino	do	 céu	 (7.21)	 e	 estabilidade	 (7.25).	O	outro
termina	 em	 destruição	 (7.13),	 frutos	 ruins	 e	 fogo	 (7.19),	 exclusão	 do	 reino
junto	com	outros	malfeitores	(7.23)	e	ruína	(7.27).	Essas	reflexões	são	muito
sérias.	 Quem	 ignora	 o	 peso	 de	 tais	 bênçãos	 e	 maldições	 corre	 o	 risco	 da
condenação	eterna.
DOIS	CAMINHOS
Mateus	7.13,14
Jesus	 diz,	 antes	 de	mais	 nada:	 “Entrem	pela	 porta	 estreita,	 porque	 larga	 é	 a
porta	e	amplo	o	caminho	que	leva	à	perdição,	e	são	muitos	os	que	entram	por
ela.	Mas	estreita	é	a	porta,	e	apertado	o	caminho	que	leva	à	vida,	e	são	poucos
os	que	a	encontram”	(7.13,14.).
O	sentido	da	metáfora	é	bem	claro.	Temos	de	imaginar	dois	caminhos,
duas	estradas.	O	primeiro	é	espaçoso	 (não	“fácil”,	como	aparece	na	RSV),	e
sua	porta	é	larga.	Ele	acomoda	muitas	pessoas,	e	todas	se	sentem	confortáveis
e	felizes	com	sua	amplidão.	Contudo,	apesar	de	ser	tão	bom	de	percorrer,	ele
acaba	em	destruição.	O	outro	caminho	é	apertado,	e	a	porta	que	lhe	dá	acesso
é	estreita.	Ele	é	restrito,	e	relativamente	poucos	viajantes	se	encontram	nele.
Mas	ele	conduz	à	“vida”	—	sinônimo	de	reino.
Que	 conclusões	 legítimas	 podem	 ser	 extraídas	 desses	 dois	 versículos?
Citarei	 cinco.	Em	primeiro	 lugar,	o	caminho	de	Deus	não	é	 espaçoso,	mas
limitado.	 Pobreza	 em	 espírito	 não	 é	 fácil;	 oração	 não	 é	 fácil;	 justiça	 não	 é
fácil;	 atitudes	 teocêntricas	 transformadas	 não	 são	 facilmente	 alcançadas.	Na
verdade,	 tudo	 isso	 nos	 é	 impossível	 sem	 a	 graça	 de	 Deus.	 São	 virtudes
estranhas	a	muito	do	que	há	em	nós	e	que	grita	para	ser	ouvido;	portanto,	o
realinhamento,	que	é	parte	essencial	da	conversão	genuína,	é	restrito.	Não	há
espaço	 para	 eu	 expor	minha	 opinião	 contra	 o	 Senhor,	 não	 há	 espaço	 para
estabelecer	nenhuma	meta	conflitante	com	as	dele,	não	há	espaço	para	afetos
que	disputem	o	lugar	central,	que	deve	ser	do	Senhor	Jesus.
Corro	o	risco	de	que	a	imagem	que	estou	pintando	seja	vista	como	um
tom	cinza	melancólico,	para	não	dizer	mórbido.	Para	que	isso	não	aconteça,
apresso-me	em	fazer	algumas	ressalvas	ao	que	acabei	de	dizer.	Existe	todo	um
espectro	de	alegrias	e	liberdades	para	o	cristão.	Nesse	espectro,	a	alegria	mais
profunda	é	conhecer	a	Deus	pessoalmente,	por	meio	de	Cristo,	assim	como	as
alegrias	humanas	mais	profundas	sempre	foram	as	amizades	íntimas.	Também
se	encontra	nele	a	liberdade	de	teros	pecados	perdoados	e	da	vitória	cada	vez
maior	 sobre	 a	 tentação.	 Logo	 proliferam	 novos	 amores	 e	 amizades	 com
outros	discípulos	de	Cristo,	tanto	é	que	Jesus	afirma:	“Eu	lhes	digo	a	verdade:
ninguém	que	 tenha	 deixado	 casa	 ou	 irmãos,	 ou	 irmãs,	 ou	mãe,	 ou	 pai,	 ou
filhos,	ou	campos,	por	minha	causa	e	pelo	evangelho	deixará	de	receber	cem
vezes	mais	agora,	no	presente	(casa,	irmãos,	irmãs,	mães,	filhos	e	campos	—	e
com	eles	perseguições),	e,	no	mundo	vindouro,	a	vida	eterna”	(Mc	10.29,30).
Quando	a	Trindade	se	torna	o	centro	dos	pensamentos	do	cristão,	toda	a	vida
passa	a	ser	mais	fascinante	e	atraente,	à	medida	que	ele	vislumbra	a	plenitude
e	a	perfeição	das	coisas	sob	o	domínio	de	Deus.
O	céu	lá	em	cima	é	de	um	azul	mais	límpido,
a	terra	em	volta	é	de	um	verde	mais	brilhante;
há	algo	de	mais	vívido	em	cada	matiz,
que	os	olhos	sem	Cristo	jamais	viram:
pássaros	transbordam	de	cânticos	mais	alegres,
flores	com	maior	beleza	brilham,
desde	que	eu	soube	o	que	agora	sei,
eu	sou	dele,	e	ele	é	meu.1
Apesar	 disso,	 o	 caminho	 é	 restrito.	 Na	 verdade,	 quanto	 maior	 for	 a
hesitação	 em	 seguir	 o	 caminho	 de	Cristo	 de	 todo	 o	 coração,	 sem	 reservas,
mais	 estreito	 o	 caminho	 dele	 parecerá.	 Todavia,	 quanto	 mais	 entusiasmo
houver	em	segui-lo,	independentemente	da	opinião	pessoal	ou	da	pressão	dos
colegas,	 apesar	 do	 preço	 que	 se	 paga,	mais	 libertador	 o	 caminho	 de	Cristo
parecerá.
Em	segundo	lugar,	podemos	deduzir	de	Mateus	7.13,14	que	não	se	pode
descobrir	o	caminho	de	Deus	recorrendo	à	opinião	da	maioria,	pois	a	maioria
está	na	estrada	que	leva	à	destruição.	Os	cristãos	aplicam	as	palavras	de	Paulo
a	muitas	 circunstâncias:	 “Seja	Deus	 verdadeiro,	 e	 todo	 homem,	mentiroso”
(Rm	3.4).	Se	alguém	perguntar	diretamente:	“Isso	significa	que	apenas	alguns
serão	salvos	e	que	o	resto	está	perdido?”,	a	resposta	mais	segura	é	a	do	próprio
Jesus	(Lc	13.22-30):
Depois	 Jesus	 foi	 pelas	 cidades	 e	 povoados,	 ensinando	 enquanto	 se	 dirigia	 para	 Jerusalém.
Alguém	 lhe	 perguntou:	 “Senhor,	 são	 poucos	 os	 que	 vão	 ser	 salvos?”	 Ele	 lhes	 respondeu:
“Esforçai-vos	por	entrar	pela	porta	estreita;	porque	eu	vos	digo	que	muitos	tentarão	entrar	e	não
conseguirão.	Quando	o	dono	da	casa	se	levantar	e	fechar	a	porta,	vocês	ficarão	de	fora	batendo	e
pedindo:	 ‘Senhor,	 abre-nos	 a	 porta’.	Ele,	 porém,	 responderá:	 ‘Não	 conheço	vocês	nem	 sei	 de
onde	vêm’.	Então	vocês	 começarão	 a	dizer:	 ‘Comemos	 e	bebemos	 com	o	 senhor,	 e	o	 senhor
ensinou	nas	nossas	ruas’.	Mas	ele	responderá:	‘Não	conheço	vocês	nem	sei	de	onde	são.	Afastem-
se	de	mim,	 todos	vocês	que	praticam	o	mal!’.	Haverá	choro	e	 ranger	de	dentes	quando	vocês
virem	 Abraão,	 Isaque,	 Jacó	 e	 todos	 os	 profetas	 no	 reino	 de	 Deus,	 mas	 vocês	 lançados	 fora.
Pessoas	virão	do	oriente	e	do	ocidente,	do	norte	e	do	sul,	e	ocuparão	o	lugar	delas	no	banquete
do	reino	de	Deus.	De	fato,	há	últimos	que	serão	primeiros	e	primeiros	que	serão	últimos”.
Palavras	duras!	Elas	foram	ditas	primeiro	aos	judeus	contemporâneos	de
Jesus	 que	 estavam	 rejeitando	 seu	 próprio	 Messias,	 todavia	 a	 essência	 da
resposta	 de	 Jesus	 não	 muda.	 Ele	 exige	 de	 seus	 questionadores	 menos
especulação	 acerca	 do	 número	 preciso	 de	 quem	 “será	 salvo”	 e	 mais
preocupação	com	a	própria	salvação	deles.
Em	 terceiro	 lugar,	 conclui-se	 que	 o	 caminho	 estreito	 para	 a	 vida	 não
pode	ser	trilhado	enquanto	formos	movidos	pelo	desejo	de	agradar	a	maioria
das	pessoas.	A	maioria	anda	pela	estrada	larga;	a	estrada	estreita	é	um	pouco
solitária.	 Essa	 é	 outra	 maneira	 de	 expressar	 uma	 verdade	 que	 surge
reiteradamente	no	Sermão	do	Monte,	a	de	que	os	verdadeiros	discípulos	de
Jesus	 não	 jogam	 para	 a	 torcida	 nem	 formam	 seus	 valores	 segundo	 os
princípios	 da	 aprovação	 passageira	 dos	 caprichos	 da	 moda.	 As	 bem-
aventuranças	 nos	 dizem	que	 só	 o	 que	 importa	 é	 a	 aprovação	 de	Deus.	Em
Mateus	 6,	 Jesus	 censura	 duramente	 a	 forma	 de	 hipocrisia	 que	 pratica	 a
piedade	para	conquistar	a	aprovação	dos	homens.	E	aqui,	em	Mateus	7,	ele
nos	 diz	 que	 o	 caminho	 para	 a	 vida	 é	 estreito	 e	 não	 tão	 popular	 quanto	 o
caminho	para	a	destruição.
“Escolham	 hoje	 a	 quem	 vocês	 vão	 servir	 [...]	 Mas	 eu	 e	 minha	 casa
serviremos	ao	Senhor”	(Js	24.15).	O	desafio	de	Josué	a	Israel	chega	a	nós	hoje
com	o	mesmo	vigor,	o	vigor	nascido	de	uma	análise	 lúcida.	 Isso	nos	 traz	à
memória	o	espírito	de	Atanásio,	o	teólogo	do	quarto	século	que,	por	algum
tempo,	 ficou	 praticamente	 sozinho	 na	 defesa	 da	 divindade	 de	 Cristo.	 Seu
trabalho	resistiu	em	grande	parte	ao	teste	do	tempo,	e	no	seu	próprio	tempo
ele	 finalmente	 teve	 reconhecimento.	No	 entanto,	 durante	os	 períodos	mais
sombrios,	quando	estava	sendo	tragado	pelo	turbilhão	da	polêmica	teológica
e	parecia	isolado	de	seus	amigos	e	colegas,	ele	foi	aconselhado	a	renegar	suas
opiniões	 porque	 o	 mundo	 inteiro	 estava	 contra	 ele.	 Sua	 resposta	 foi
arrasadoramente	simples:	“Então	é	Atanásio	contra	o	mundo	inteiro”.
Claro	 que	 é	 possível	 assumir	 essa	 posição	 por	 pura	 arrogância	 e
independência	teimosa.	Quem	se	inclina	para	um	egoísmo	tão	odioso	ainda
não	aprendeu	sequer	as	primeiras	lições	do	Sermão	do	Monte.	As	diferenças
com	que	 essa	pessoa	procura	manter	 seu	 isolamento	 são	mais	 tradicionais	 e
individuas	do	que	bíblicas.	Entretanto,	feitas	essas	considerações,	permanece
o	 fato	de	que	o	caminho	estreito	ganha	poucos	concursos	de	popularidade.
Isso	 ocorre	 em	 parte	 porque	 a	 justiça	 pura	 do	 Sermão	 do	 Monte	 é	 muito
abrangente	 e	 exigente	 para	 ser	 atraente	 a	 uma	 humanidade	 que	 prefere
concessões	e	todo	tipo	de	corrupção	individual.	Além	disso,	a	preocupação	do
Sermão	 com	 a	 verdade	 é	 tão	 grande	 que	 a	 intolerância	 pessoal	 ao	 ensino
espúrio	é	uma	decorrência	necessária	(como	veremos	em	Mateus	7.15-20).
Em	quarto	lugar,	os	dois	caminhos	não	são	fins	em	si	mesmos,	mas	têm
um	 significado	 eterno	 além	 deles.	 Um	 leva	 à	 destruição,	 o	 outro,	 à	 vida.
Ironicamente,	 é	 o	 caminho	 espaçoso	 e	 popular	 que	 leva	 à	 destruição,	 e	 o
confinado	 e	 relativamente	 impopular,	 o	 que	 leva	 à	 vida.	Nos	 dois	 casos,	 a
questão	 é	 a	mesma:	 não	 o	 caminho,	mas	 o	 destino	 a	 que	 ele	 conduz	 é	 de
extrema	 importância.	O	 trágico	 é	 que	 pessoas	 sensatas	 em	 todos	 os	 outros
aspectos	 ficam	 tão	 encantadas	 com	 a	 amplidão	 e	 a	 popularidade	 do	 seu
caminho	que	nem	pensam	muito	no	destino	para	onde	estão	indo.	Se	ouvem
que	ele	conduz	à	destruição,	elas	contestam,	alegando	que	não	são	piores	do
que	a	maioria	dos	outros	nessa	mesma	estrada	e	que,	de	qualquer	modo,	Deus
não	 permitiria	 a	 destruição	 de	 tantas	 pessoas.	 Deixe-me	 afirmar
enfaticamente	 que	 as	 Escrituras	 não	 incentivam	 esse	 otimismo.	 O	 próprio
Jesus	 insiste	 em	 que	 apenas	 o	 caminho	 estreito	 leva	 à	 vida.	 Somente	 o
caminho	 que	 parece	 tão	 estreito	 explode	 em	 vitalidade	 no	 final:	 a
consumação	do	reino	de	Deus.
Por	 fim,	 em	 quinto	 lugar,	 quero	 ressaltar	 mais	 uma	 vez	 que	 existem
apenas	dois	caminhos.	Em	outras	palavras,	podemos	dizer	que	não	há	outro
caminho	para	a	vida,	nenhum	outro	meio	de	evitar	a	destruição	a	não	ser	o
caminho	 estreito.	 As	 pessoas	 não	 vão	 ganhar	 o	 reino	 adorando	 a	 natureza,
nem	com	sentimentos	piedosos,	tampouco	por	deixar-se	levar	para	a	salvação
sem	decisão	e	compromisso,	menos	ainda	pelo	hedonismo	e	pela	expressão	da
própria	personalidade.	As	pessoas	 entram	na	vida	 submetendo-se	 às	normas
do	 reino	 e	 são	 salvas	 pela	 graça	 de	 Deus	 mediante	 a	 fé	 em	 Cristo,	 caso
contrário	vão	caminhar	para	a	destruição.	Jesus	insiste	nesse	ponto.
DUAS	ÁRVORES
Mateus	7.15-20
Os	discípulos	de	Jesus	Cristo	não	são	muito	suscetíveis	a	convites	explícitos
para	 pecar.	 É	 pouco	 provável	 que	 sejam	 atraídos	 pelo	mestre/pregador	 que
defende	hedonismo	gritante,	anarquia	e	formas	variadas	de	incredulidade.	O
problema	está	no	pregador	que	parece	piedoso,que	ora,	que	à	primeira	vista
parece	 ter	 todas	as	marcas	de	um	cristão.	Ele	usa	 todos	os	clichês	 religiosos
certos,	e	o	próprio	dogmatismo	que	ele	exala	parece	dar	testemunho	de	sua
ortodoxia.	 Ele	 se	mostra	 como	 uma	 das	 ovelhas	 do	 rebanho	 de	Cristo,	 e	 a
maioria	das	ovelhas	 verdadeiras	não	percebe	que	 ele	na	verdade	 é	um	 lobo
devorador.	 “Cuidado	 com	 os	 falsos	 profetas”,	 Jesus	 adverte.	 “Eles	 se
aproximam	de	 vocês	 disfarçados	 em	 pele	 de	 ovelha,	mas	 interiormente	 são
lobos	devoradores”	(7.15).
O	problema	dos	 falsos	profetas	 sempre	existiu	entre	nós.	Um	profeta	é
fundamentalmente	mensageiro	de	outra	pessoa,	e	esses	falsos	profetas	alegam
estar	falando	da	parte	de	Deus.	A	gravidade	do	perigo	que	eles	representam	é
que	 são	 aceitos	 pelo	 que	 dizem	 ser	 —	 surgem	 na	 igreja	 e	 reúnem	 ali	 um
grupo	de	seguidores.	Em	outra	passagem,	Jesus	adverte	que	“surgirão	muitos
falsos	 profetas	 e	 enganarão	 a	 muitos”	 (Mt	 24.11).	 Perto	 do	 fim	 de	 seu
ministério,	 o	 apóstolo	Paulo	 advertiu	os	 anciãos	da	 igreja	de	Éfeso:	 “Eu	 sei
que,	depois	da	minha	partida,	 lobos	cruéis	entrarão	no	meio	de	vocês	e	não
pouparão	 o	 rebanho.	 Mesmo	 entre	 vocês	 mesmos	 se	 levantarão	 homens	 e
distorcerão	 a	 verdade	 a	 fim	 de	 atrair	 discípulos	 para	 si.	 Por	 isso,	 fiquem
atentos!	Lembrem-se	de	que	durante	três	anos	não	cessei	de	avisar	cada	um
de	vocês,	dia	e	noite,	com	lágrimas”	(At	20.29-31).	Temos	ainda	as	palavras
solenes	de	2Pedro	2.1-3,17-22:
Mas	 entre	o	povo	 também	houve	 falsos	 profetas,	 assim	 como	entre	 vós	haverá	 falsos	mestres.
Eles	 introduzirão	 secretamente	 heresias	 destrutivas,	 negando	 até	 o	 soberano	 Senhor	 que	 os
resgatou,	 trazendo	 para	 si	 mesmos	 repentina	 destruição.	 Muitos	 seguirão	 os	 caminhos
vergonhosos	desses	homens,	 e	o	 caminho	da	verdade	 será	difamado	por	 causa	deles.	Movidos
pela	 ganância,	 esses	mestres	 vão	 explorar	 vocês	 com	histórias	 que	 inventaram.	A	 condenação
desses	homens	há	muito	tempo	paira	sobre	eles,	e	a	sua	destruição	não	tarda.
[...]	Esses	homens	são	fontes	sem	água	e	névoas	levadas	pela	tempestade.	Para	eles	está	reservada
a	 escuridão	 das	 trevas.	 Porque	 proferem	 palavras	 vazias	 e	 arrogantes	 e,	 apelando	 a	 paixões
sensuais	 da	 natureza	 humana	 pecaminosa,	 seduzem	 os	 que	 estão	 quase	 escapando	 do	 erro.
Prometem-lhes	liberdade,	embora	eles	próprios	sejam	escravos	da	depravação	—	pois	o	homem	é
escravo	daquilo	que	o	domina.	 Se	 escaparam	da	 corrupção	do	mundo	pelo	 conhecimento	do
Senhor	e	Salvador	Jesus	Cristo	e	são	novamente	envolvidos	e	vencidos	por	ela,	seu	último	estado
é	pior	que	o	primeiro.	Teria	sido	melhor	que	não	tivessem	conhecido	o	caminho	da	justiça	do
que,	 depois	 de	 conhecê-lo,	 darem	 as	 costas	 ao	 santo	mandamento	 que	 lhes	 fora	 transmitido.
Sobre	eles	são	verdadeiros	os	provérbios:	“O	cão	volta	a	seu	vômito”	e	“A	porca	lavada	volta	a
revolver-se	na	lama”.
Isso	não	deveria	nos	causar	surpresa,	se	nos	lembrarmos	do	arquétipo	que
subjaz	a	esses	falsos	profetas.	Paulo,	escrevendo	a	respeito	de	alguns	homens
com	quem	teve	de	lidar,	revela	a	verdadeira	imagem	deles:	“Esses	homens	são
falsos	 profetas,	 obreiros	 enganadores,	 disfarçados	 de	 apóstolos	 de	 Cristo.	 E
não	é	de	admirar,	pois	o	próprio	Satanás	se	disfarça	de	anjo	de	luz.	Portanto,
não	surpreende	que	também	os	seus	servos	se	disfarcem	de	servos	da	justiça.
O	fim	deles	será	de	acordo	com	suas	obras”	(2Co	11.13-15).
Como,	 então,	 podemos	 reconhecer	 esses	 lobos	 em	 pele	 de	 cordeiro?
Muitas	 sugestões	 para	 desmascará-los	 estão	 distribuídas	 ao	 longo	 das
Escrituras,	mas	apenas	duas	estão	em	consideração	aqui.
A	 primeira	 se	 baseia	 em	 uma	 observação	 contextual.	 No	 contexto	 do
Sermão	 do	 Monte,	 o	 falso	 profeta	 só	 pode	 ser	 alguém	 que	 não	 defende	 o
caminho	 estreito	 apresentado	 por	 Jesus.	 Ele	 pode	 não	 ser	 desatinadamente
herético	em	outras	áreas;	na	verdade,	pode	se	mostrar	um	firme	defensor	da
ortodoxia.	Mas	 o	 caminho	 que	 esse	 falso	mestre	 recomenda	 não	 é	 estreito
nem	perturbador	e,	por	isso,	ele	pode	ganhar	muitos	ouvintes.	Essas	pessoas
me	fazem	lembrar	certos	profetas	político-religiosos	da	época	de	Jeremias,	a
respeito	 de	 quem	 Deus	 diz:	 “Porque	 são	 todos	 gananciosos,	 do	 menor	 ao
mais	rico	deles,	e	todos	eles	agem	com	falsidade,	do	profeta	até	o	sacerdote.
Também	 se	 ocupam	 em	 curar	 superficialmente	 a	 ferida	 do	 meu	 povo,
dizendo:	 Paz,	 paz!	 Mas	 não	 há	 paz.	 Por	 acaso	 se	 envergonharam	 da
abominação	que	praticaram?	Não,	de	maneira	alguma;	nem	mesmo	sabem	o
que	é	envergonhar-se”	 (Jr	6.13-15;	cf.	 Jr	8.8-12).	Não	há	nada	na	pregação
deles	que	promova	a	pobreza	de	espírito,	nada	que	sonde	a	consciência	e	faça
as	 pessoas	 clamarem	 a	 Deus	 por	 misericórdia,	 nada	 que	 condene	 todas	 as
formas	de	hipocrisia	religiosa,	nada	que	promova	retidão	de	conduta	e	atitude
a	ponto	de	 tornar	 inevitável	 algum	tipo	de	perseguição.	É	até	possível	que,
em	 algumas	 circunstâncias,	 tudo	 o	 que	 esses	 falsos	 profetas	 digam	 seja
verdade.	 Contudo,	 como	 omitem	 as	 partes	 difíceis,	 não	 dizem	 a	 verdade
completa,	e	a	mensagem	toda	deles	é	falsa.
O	 segundo	 teste	 não	 se	 baseia	 em	 observações	 contextuais,	 mas	 no
argumento	 explícito	 do	 texto.	 Jesus	 diz:	 “Vocês	 os	 conhecerão	 por	 seus
frutos.	 Pode	 alguém	 colher	 uvas	 de	 um	 espinheiro	 ou	 figos	 de	 cardos?	Do
mesmo	modo,	toda	árvore	boa	produz	bons	frutos,	mas	a	árvore	ruim	produz
frutos	ruins.	A	árvore	boa	não	pode	dar	frutos	ruins	nem	a	árvore	ruim,	dar
frutos	bons.	Toda	árvore	que	não	produz	fruto	bom	é	cortada	e	 lançada	no
fogo.	Portanto,	pelos	frutos	vocês	os	reconhecerão”	(7.16-20).
Esse	modo	 semítico	 de	 dizer	 as	 coisas	 (isto	 é,	 tanto	 afirmativa	 quanto
negativamente:	toda	árvore	boa	dá	bons	frutos,	nenhuma	árvore	boa	dá	frutos
ruins	etc.)	deixa	o	teste	muito	seguro.	Na	época	de	Jesus,	todos	sabiam	que	o
espinheiro	tinha	pequenas	bagas	pretas	que	podiam	ser	confundidas	com	uvas
e	que	havia	um	cardo	cuja	flor,	a	certa	distância,	podia	ser	confundida	com
um	 figo.	Mas	 ninguém	 acharia	 que	 o	 fruto	 do	 espinheiro	 era	 uva	 quando
começasse	 a	 usar	 a	 fruta	 para	 fazer	 vinho.	 Ninguém	 se	 enganaria	 com	 as
flores	do	cardo	quando	chegasse	a	hora	de	comer	figos	no	jantar.
Em	outras	palavras,	de	certa	perspectiva	os	falsos	profetas	podem	parecer
profetas	 verdadeiros,	 e	 seus	 frutos	 podem	 até	 parecer	 genuínos.	 Mas	 a
natureza	do	falso	profeta	não	pode	ser	escondida	para	sempre:	cedo	ou	tarde
ele	 revelará	 quem	 realmente	 é.	 Da	 mesma	 forma	 que	 ele	 não	 defende	 o
caminho	 estreito	 de	 Jesus,	 também	 não	 consegue	 viver	 segundo	 esse
caminho.	Um	dia	isso	ficará	patente	a	todos	os	que	amam	o	caminho	estreito.
Assim,	Mateus	 7.15-20	 serve	 como	 uma	 ponte	 entre	 7.13,14	 e	 7.21-23.	O
texto	de	Mateus	7.13,14	fala	dos	dois	caminhos;	a	passagem	de	7.21-23	(como
veremos)	 retrata	 um	 homem	 que	 tem	 toda	 a	 aparência	 exterior	 de	 um
discípulo	 de	 Jesus,	mas	 não	 se	 caracteriza	 pela	 obediência	 a	 Jesus.	 A	 ponte
(7.15-20)	mostra	os	falsos	profetas	que	não	ensinam	o	caminho	estreito	nem
o	praticam.	A	falsidade	do	ensino	deles	se	revela	na	desobediência	de	sua	vida.
Devo	 enfatizar	 que	 Jesus	 aqui	 não	 está	 incentivando	 nenhuma
mentalidade	 de	 caça	 às	 heresias.	 Afinal,	 ele	mesmo	 acabara	 de	 condenar	 as
atitudes	 julgadoras.	Contudo,	 os	 falsos	mestres	 têm	 de	 ser	 identificados.	 Se
eles	não	forem	reconhecidos	imediatamente	pela	doutrina	que	pregam,	mais
cedo	ou	mais	tarde	serão	reconhecidos	por	seu	estilo	de	vida.	Aquilo	em	que
um	homem	acredita	um	dia	há	de	se	manifestar	em	suas	ações.	Jesus	confirma
um	 elo	 indissociável	 entre	 fé	 e	 conduta.	 Além	 do	 mais,	 o	 objetivo	 desses
versículos	 não	 é	 tanto	 ameaçar	 os	 falsos	 profetas	 em	 si	 (embora	 as	 árvores
ruins	 sejam	 lançadas	 no	 fogo),	 e	 sim	 incentivar	 os	 discípulos	 comuns	 a
identificá-los:	“Vocêsos	conhecerão	pelos	frutos”.
Esse	 teste	 não	 deve	 ser	 aplicado	 superficialmente.	 Não	 adianta	 usar
apenas	 esse	 texto,	 encontrar	 um	 pagão	 socialmente	 útil	 e	 considerá-lo	 um
profeta	verdadeiro.	Muito	menos	basta	adotar	critérios	seculares	para	avaliar
os	frutos	de	um	homem:	sucesso,	estilo,	equilíbrio	e	popularidade.	Tampouco
bastam	 padrões	 de	 discurso	 e	 conduta	 aceitáveis	 para	 o	 evangelicalismo
contemporâneo.	 O	 fruto	 que	 o	 Senhor	 Jesus	 procura	 é	 uma	 vida	 em
conformidade	 cada	 vez	maior	 com	 as	 normas	 do	 reino:	 justiça,	 humildade
transparente,	 pureza,	 confiança	 e	 persistência	 de	 oração,	 obediência	 aos
mandamentos	 de	 Jesus,	 fé,	 amor,	 generosidade,	 rejeição	 de	 tudo	 o	 que	 é
hipócrita.	Pode	demorar	um	 tempo	para	o	 teste	 dar	 resultado.	No	entanto,
quando	 a	 aberração	 doutrinária	 não	 puder	 ser	 detectada	 imediata	 e
inequivocamente,	o	“teste	dos	frutos”	é	um	guia	seguro.
Estamos	vivendo	uma	época	em	que	o	pluralismo	está	na	ordem	do	dia.
Contudo,	embora	todos	possam	ter	direito	à	sua	própria	opinião,	nem	todas
as	opiniões	são	corretas.	Para	alguns,	só	falar	de	“falsos”	profetas	parece	uma
tremenda	 intolerância.	 Todavia,	 é	 assim	 que	 Jesus	 se	 refere	 aos	 pretensos
porta-vozes	 de	 Deus	 que	 não	 ensinam	 o	 que	 o	 próprio	 Jesus	 ensina.
“Cuidado	 com	 os	 falsos	 profetas”,	 diz	 o	 Mestre,	 “pelos	 frutos	 vocês	 os
conhecerão”.	A	questão	é	o	reino	de	Deus.	Não	dar	ouvidos	ao	aviso	de	Jesus
significa	que	 a	 ameaça	de	 juízo	que	paira	 sobre	 a	 cabeça	dos	 falsos	mestres
também	vem	a	ser	uma	ameaça	para	outros.	Não	só	o	destino	deles	está	em
risco,	mas	também	o	nosso,	o	seu	e	o	meu,	se	não	conseguirmos	identificar	e
evitar	os	falsos	profetas.
DUAS	REIVINDICAÇÕES
Mateus	7.21-23
“Nem	 todo	 o	 que	 me	 diz	 ‘Senhor,	 Senhor!’	 entrará	 no	 reino	 do	 céu,	 mas
somente	aquele	que	faz	a	vontade	de	meu	Pai,	que	está	no	céu.	Naquele	dia,
muitos	me	dirão:	 ‘Senhor,	Senhor,	nós	não	profetizamos	em	seu	nome?	Em
seu	 nome	 não	 expulsamos	 demônios?	 Em	 seu	 nome	 não	 fizemos	 muitos
milagres?’	 Então	 lhes	 direi	 claramente:	 ‘Nunca	 os	 conheci;	 afastem-se	 de
mim,	vocês	que	praticam	o	mal’”	(7.21-23).
São	feitas	duas	reivindicações,	e	dois	tipos	de	reclamantes	são	retratados.
O	primeiro	grupo	se	aproxima	de	Jesus	com	reverência	“naquele	dia”,	o	dia
do	juízo;	e	seus	membros	se	dirigem	a	ele	como	“Senhor”.	Provavelmente	a
fé	 deles	 é	 perfeitamente	 ortodoxa.	 Além	 disso,	 eles	 têm	 um	 registro
impressionante	 de	 experiências	 espirituais.	 Profetizaram	 em	nome	 de	 Jesus,
exorcizaram	 demônios	 em	 nome	 de	 Jesus	 e	 em	 nome	 de	 Jesus	 realizaram
muitos	 milagres.	 O	 Senhor	 não	 nega	 nenhuma	 das	 alegações	 deles,	 e	 nós
também	 não	 devemos	 negar.	 Podemos,	 portanto,	 esperar	 que	 mesmo	 em
nossos	dias	haja	muita	(7.22)	gente	que	emprega	o	vocabulário	certo	e	realiza
maravilhas	 espirituais	 em	 nome	 de	 Jesus,	 mas	 que	 não	 são	 discípulos
genuínos.	 Um	 dos	 componentes	 mais	 trágicos	 desse	 enredo	 é	 que	 essas
pessoas	se	consideram	crentes	genuínos.	Sem	dúvida	esperam	a	admissão	no
reino	consumado.
Claro	que	às	vezes	pessoas	que	tentam	usar	o	nome	de	Jesus	para	 fazer
muitas	 dessas	 coisas	 são	 apanhadas	muito	 antes	 do	 juízo	 final.	Em	Atos	 19,
por	 exemplo,	 os	 sete	 filhos	 de	 Ceva	 são	 desmascarados	 como	 charlatães.
Como	castigo,	eles	 são	espancados	e	perseguidos	pela	 rua	por	um	demônio
particularmente	agressivo.	Seja	agora,	seja	no	dia	do	juízo,	os	falsos	discípulos
serão	desmascarados.	Jesus	por	fim	os	rejeitará:	“Nunca	conheci	vocês”.	Ele	os
expulsará	 de	 sua	 presença:	 “Afastem-se	 de	 mim”.	 E	 os	 despedirá	 como
malfeitores,	pessoas	“sem	lei,	que	praticam	o	mal”.
Qual	 é,	 portanto,	 a	 característica	 essencial	 do	 verdadeiro	 crente,	 o
genuíno	 discípulo	 de	 Jesus	 Cristo?	 Não	 é	 fazer	 uma	 profissão	 de	 fé	 que
chame	a	 atenção	de	 todo	mundo,	nem	 ter	 triunfos	 espirituais	 espetaculares,
tampouco	 afirmar	 que	 tem	muita	 experiência	 espiritual.	 Em	 vez	 disso,	 sua
principal	 característica	 é	 a	 obediência.	 Os	 verdadeiros	 crentes	 fazem	 a
vontade	do	Pai,	de	acordo	com	sua	oração:	“Seja	feita	a	sua	vontade,	assim	na
terra	 como	 no	 céu”.	 Não	 esquecem	 que,	 no	 início	 do	 Sermão	 do	 Monte,
Jesus	 disse:	 “Quem	 desobedecer	 a	 um	 desses	 mandamentos,	 ainda	 que	 dos
menores,	e	ensinar	os	outros	a	fazer	o	mesmo,	será	chamado	menor	no	reino
do	 céu,	 mas	 todo	 aquele	 que	 pratica	 e	 ensina	 esses	 mandamentos	 será
chamado	grande	no	reino	do	céu.	Pois	eu	lhes	digo	que,	se	a	justiça	de	vocês
não	 for	 superior	à	dos	 fariseus	e	à	dos	mestres	da	 lei,	vocês	certamente	não
entrarão	 no	 reino	 do	 céu”	 (5.19,20).	 Assim,	 eles	 praticam	 a	 obediência.	 A
vontade	 do	 Pai	 não	 é	 simplesmente	 admirada,	 discutida,	 louvada,	 debatida;
ela	é	 feita.	Não	é	analisada	de	acordo	com	a	 teologia,	nem	louvada	por	 seu
alto	teor	ético;	ela	é	feita.	O	teste	é	reformulado	por	um	famoso	documento
do	 segundo	 século,	 a	 Didaquê,	 que	 diz:	 “Nem	 todo	 aquele	 que	 fala	 no
Espírito	é	profeta,	mas	só	o	que	tem	a	conduta	do	Senhor”.
Muitas	 são	 as	maneiras	 de	 se	 autoenganar	 acerca	 das	 coisas	 espirituais.
Por	 exemplo,	 é	 possível	 desfrutar	 algum	 tipo	 de	 experiência	 espiritual
singular	 e	 viver	 de	 seu	brilho	 em	detrimento	de	uma	 experiência	 espiritual
constante	e	da	obediência	prática	 incessante.	Ouvi	 falar	de	um	homem	que
passou	 por	 uma	 experiência	 que	 considerou	 um	 derramamento	 especial	 da
bênção	de	Deus.	Ele	se	sentiu	transportado	ao	terceiro	céu,	como	Paulo.	O
acontecimento	 foi	 tão	 significativo	 que	 ele	 o	 registrou	 por	 inteiro	 em	 um
texto	ao	qual	deu	o	título	de	“Minha	experiência”.	Passados	alguns	meses,	ele
se	 tornou	 indiferente	 às	 coisas	 espirituais.	 De	 início,	 ele	 conservou	 a
aparência	e	ainda	mostrava	seu	texto	aos	visitantes.	Porém,	à	medida	que	os
meses	se	 transformavam	em	anos,	até	a	 forma	de	piedade	foi	abandonada,	e
sua	 experiência	 ficou	 esquecida	 em	 uma	 gaveta	 empoeirada.	 Muitos	 anos
depois,	um	ministro	bateu	à	sua	porta.	O	homem,	pensando	em	impressionar
o	visitante,	chamou	a	esposa,	que	estava	no	andar	de	cima,	e	pediu	que	ela	lhe
trouxesse	 “Minha	 experiência”.	 Ela	 revirou	 tudo,	 até	 que	 finalmente
encontrou	 o	 documento	 todo	 corroído,	 e	 respondeu:	 “Desculpe,	 querido,
mas	 sua	 experiência	 foi	 comida	 pelas	 traças”.	 Simples	 assim:	 o	 homem	 se
deixara	 levar	pela	 apatia	 espiritual	 irresponsável,	 vivendo	das	 lembranças	de
uma	experiência	passada.
Contudo,	 o	 texto	 de	 Mateus	 7.21-23	 deixa	 evidente	 outro	 modo	 de
autoengano.	Nesse	caso,	o	problema	não	é	tanto	o	falso	cristão	se	deixar	levar
pela	 apatia	 espiritual,	 e	 sim	 confundir	 profissão	 de	 fé	 pública	 e	 histórias	 e
experiências	 sobrenaturais	 quase	 mágicas	 com	 espiritualidade	 verdadeira	 e
piedade	 genuína.	 Mas	 deixar	 a	 obediência	 de	 lado.	 A	 pressão	 pelo
extraordinário	excluiu	a	continuidade	do	crescimento	em	conformidade	com
a	vontade	do	Pai.	Por	 achar	que	 está	 tendo	 resultados,	 que	 são	 imediatos	 e
espetaculares,	ele	acha	que	está	próximo	do	cerne	da	verdadeira	religião.	Seus
índices	de	sucesso	estão	crescendo	vertiginosamente:	a	bênção	de	Deus	deve
estar	 sobre	ele.	Sem	dúvida,	Deus	vai	entender	e	 se	compadecer	 se	ele	nem
sempre	 tem	 tempo	 suficiente	 para	 a	 oração,	 o	 autoexame	 e	 para	 o
arrependimento	consciente.	O	que	importa	são	os	resultados.	Se	a	verdade	às
vezes	fica	um	pouquinho	distorcida,	é	só	porque	os	seguidores	precisam	ouvir
certas	 coisas.	 E	 será	 que	 é	 prudente	 correr	 o	 risco	 de	 afastar	 esses	 ouvintes
falando	sobre	o	caminho	estreito?	Assim	como	os	assessores	mais	próximos	de
Nixon	conseguiram	 se	 convencer	de	que	 sua	causa	 era	mais	 importante	do
que	a	ética,	também	esses	extrovertidos	religiosos	se	convencem	de	que	suas
vitórias	espetaculares	voltadas	para	o	sucesso	são	mais	importantes	do	que	os
aspectosessenciais	de	um	discipulado	sólido.
É	 verdade,	 claro,	 que	 ninguém	 entra	 no	 reino	 por	 causa	 de	 sua
obediência,	mas	 é	 igualmente	 verdade	 que	 ninguém	 que	 entre	 no	 reino	 é
desobediente.	 É	 verdade	 que	 as	 pessoas	 são	 salvas	 pela	 graça	 de	 Deus
mediante	a	fé	em	Cristo,	mas	é	igualmente	verdade	que	a	graça	de	Deus	na
vida	de	um	indivíduo	resulta	inevitavelmente	em	obediência.	Qualquer	outra
ideia	 de	 graça	 diminui	 seu	 valor	 e	 a	 transforma	 em	 algo	 irreconhecível.	 A
graça	 barata	 prega	 perdão	 sem	 arrependimento,	 membresia	 da	 igreja	 sem
disciplina	 eclesiástica	 rigorosa,	 discipulado	 sem	 obediência,	 bênção	 sem
perseguição,	alegria	sem	justiça,	resultados	sem	obediência.	Será	que	em	toda
a	história	da	 igreja	houve	outra	geração	com	tantos	cristãos	nominais	e	 tão
poucos	verdadeiros	(isto	é,	obedientes)?	E	quando	o	cristianismo	nominal	se
combina	com	uma	profissão	de	fé	espetacular,	é	muito	provável	que	fabrique
sua	própria	falsa	segurança.
DUAS	CASAS
Mateus	7.24-27
A	entrada	no	 reino,	 afinal,	depende	da	obediência	—	não	a	obediência	que
gera	pontos	de	mérito,	mas	 a	que	 se	curva	 ao	 senhorio	de	 Jesus	 em	 tudo	e
sem	 reservas.	 Essa	 obediência	 se	 combina	 necessariamente	 com	 o
arrependimento	 genuíno,	 tornando	 os	 dois	 quase	 indissociáveis.	 Nesse
quadro,	 a	 obediência	 é	 tudo.	Os	 versículos	 anteriores	 acabaram	 de	mostrar
que	 é	 assim.	 Agora	 Jesus	 conclui	 o	 Sermão	 do	 Monte	 com	 um	 parágrafo
iniciado	 com	 um	 incisivo	 “portanto”.	 Porque	 somente	 aquele	 que	 faz	 a
vontade	de	seu	Pai	entrará	no	reino,	Jesus	diz:
Portanto,	 quem	 ouve	 estas	 minhas	 palavras	 e	 as	 pratica	 é	 como	 um	 homem	 prudente	 que
construiu	 sua	 casa	 sobre	 a	 rocha.	Caiu	 a	 chuva,	 transbordaram	 os	 rios,	 sopraram	 os	 ventos	 e
deram	 contra	 aquela	 casa,	mas	 ela	 não	 caiu,	 porque	 tinha	 seus	 alicerces	 na	 rocha.	Mas	 quem
ouve	estas	minhas	palavras	e	não	as	pratica	é	como	um	insensato	que	construiu	sua	casa	sobre	a
areia.	Caiu	a	chuva,	transbordaram	os	rios,	sopraram	os	ventos	e	deram	contra	aquela	casa,	e	ela
caiu.	E	foi	grande	a	sua	queda	(Mt	7.24-27).
Imagine	essas	duas	casas.	Pode	não	haver	muito	na	aparência	delas	que
permita	ao	observador	menos	atento	enxergar	alguma	diferença	entre	as	duas.
Ambas	 parecem	 bonitas	 e	 limpas,	 recém-pintadas,	 talvez.	 No	 entanto,	 o
alicerce	 de	 uma	 está	 assentado	 firmemente	 num	 leito	 rochoso;	 a	 outra	 tem
como	 base	 nada	 mais	 sólido	 do	 que	 areia.	 Somente	 uma	 tempestade	 mais
forte	 vai	 mostrar	 a	 diferença.	 Vinda	 a	 tempestade,	 porém,	 a	 revelação	 é
inevitável.
A	 metáfora	 do	 “alicerce”	 ou	 “fundamento”	 é	 usada	 várias	 vezes	 nas
Escrituras.	 Por	 exemplo,	 o	 conhecimento	pessoal	 que	o	 povo	de	Deus	 tem
dele	é	um	fundamento	divino	que	dá	segurança	a	esse	povo	(2Tm	2.19).	As
boas	 obras	 são	 alicerce	 para	 a	 era	 vindoura,	 não	 tanto	 no	 sentido	 de	 nos
tornarem	merecedores	de	vida,	mas,	sim,	no	sentido	de	que	sem	elas	não	há
vida	(1Tm	6.17-19).	Porém,	de	modo	geral,	o	próprio	Jesus	é	o	fundamento,
uma	base	 segura.	Profetizado	no	Antigo	Testamento	 (Is	28.16),	ele	vem	no
Novo	 Testamento	 para	 ser	 o	 alicerce	 da	 segurança	 de	 seu	 povo.	 Nesse
sentido,	como	Pedro	discerne	sabiamente,	não	há	salvação	em	nenhum	outro
(At	 4.12):	 o	 próprio	 Jesus	 Cristo,	 em	 sua	 pessoa	 e	 sua	 missão,	 é	 o	 único
fundamento.
No	entanto,	 Jesus	não	é	o	alicerce	a	que	Mateus	7.24-27	 se	 refere.	Na
verdade,	o	foco	não	está	nos	fundamentos	escolhidos,	rocha	e	areia,	mas	nos
dois	construtores	e	seus	respectivos	projetos.	O	homem	que	constrói	sua	casa
sobre	um	fundamento	instável	é	comparado	à	pessoa	que	ouve	as	palavras	de
Jesus,	mas	 não	 as	 põe	 em	prática.	O	homem	que	 constrói	 sua	 casa	 sobre	 a
rocha	 é	 comparado	 à	 pessoa	 que	 não	 só	 ouve	 as	 palavras	 de	 Jesus,	 mas
também	as	pratica.	Portanto,	a	diferença	entre	as	duas	casas	é	comparável	à
diferença	entre	obediência	e	desobediência.
Nessa	 metáfora	 ampliada,	 a	 rocha	 pode	 muito	 bem	 representar	 as
palavras	 de	 Jesus:	 “Estas	 minhas	 palavras”,	 diz	 Jesus	 duas	 vezes,	 sendo	 o
“minhas”	bastante	enfático.	A	expressão	lembra	o	refrão	reiterado	e	cheio	de
autoridade:	“Vocês	ouviram	o	que	foi	dito	[...]	Eu,	porém,	lhes	digo”.	Talvez
haja	mais	uma	nuance.	Essas	palavras	são	particularmente	palavras	de	Jesus	no
sentido	 de	 que	 a	 própria	 vida	 dele	 é	 perfeitamente	 coerente	 com	 suas
palavras.	Eu,	que	escrevo	estas	 linhas,	posso	repetir	as	palavras	de	Jesus,	mas
continuo	sendo	um	pecador	como	você,	que	as	lê.	Nesse	sentido,	as	palavras
de	 Jesus	 não	 são	minhas	 palavras;	 elas	 são	 somente	 dele.	 Portanto,	 pôr	 em
prática	essas	palavras	é	como	construir	uma	casa	sobre	um	alicerce	seguro.	O
outro	 homem	 constrói	 só	 a	 casa	 propriamente,	 acima	 do	 alicerce,	 e	 nada
mais.
A	 tempestade	 violenta	 revela	 a	 diferença	 entre	 os	 dois	 edifícios.	 No
Antigo	Testamento,	e	 também	em	outros	escritos	 judaicos,	 a	 tempestade	às
vezes	 serve	 de	 símbolo	 do	 julgamento	 de	 Deus	 (veja	 Ez	 13.10ss.),
especialmente	o	 juízo	escatológico	de	Deus,	 seu	 juízo	final.	Nenhum	poder
era	mais	capaz	de	infundir	terror	no	ser	humano	da	era	pré-nuclear	do	que	a
fúria	incontrolada	da	natureza	—	o	símbolo,	portanto,	era	adequado.
Este	é	o	momento	de	fazermos	uma	pausa	para	refletir	sobre	as	ameaças
que	 Jesus	 vem	 fazendo	 até	 aqui.	 Em	 7.13,14,	 ele	 promete	 destruição	 para
aqueles	que	andam	pelo	caminho	largo.	Em	seguida,	vem	primeiro	a	imagem
de	 um	 fogo	 queimando	 ramos	 improdutivos	 (7.15-20),	 depois	 a	 rejeição
categórica	dos	desobedientes	(7.21-23).	Agora,	para	encerrar,	o	homem	que
ouve	as	palavras	de	Jesus	e	não	as	pratica	é	comparado	a	uma	casa	destruída,
reduzida	 a	 pó	 e	 varrida	 por	 uma	 tempestade	 violenta.	A	 pergunta	 que	 não
quer	 calar	 é:	 Será	 que	 Jesus	 está	 querendo	 assustar	 as	 pessoas	 para	 que	 elas
entrem	no	reino?
Em	certo	sentido,	é	claro,	a	resposta	deve	ser	sim.	Algumas	pessoas	talvez
se	aproximem	de	Cristo	por	causa	da	atração	do	perdão.	Outras	talvez	sintam
os	 primeiros	 impulsos	 de	 segui-lo	 quando	 vislumbram	 pela	 primeira	 vez	 a
imensidão	 de	 seu	 amor	 e	 a	 integridade	 de	 sua	 vida,	 ou	 quando	 sentem	 a
vergonha	gerada	pelo	olhar	perscrutador	do	Mestre.	Mas	não	são	poucos	os
que	se	aproximam	de	Jesus	somente	porque	percebem	que	as	questões	com	as
quais	 Jesus	 está	preocupado	 são	questões	 eternas	—	em	última	análise,	nada
menos	 do	 que	 o	 céu	 e	 o	 inferno.	 De	 fato,	 o	 ensino	 de	 Jesus	 tem	 coisas
importantes	a	dizer	sobre	relações	raciais,	justiça	social	e	integridade	pessoal,
mas	não	é	justo	reduzi-lo	às	preocupações	temporais	da	minha	vida	aqui.	Há
um	paraíso	a	ganhar	e	um	inferno	a	ser	evitado.
Se	você	está	dormindo	um	sono	profundo	em	uma	casa	perigosamente
ameaçada	 de	 inundação,	 devia	 me	 agradecer	 por	 bater	 à	 sua	 porta	 para
despertá-lo.	No	mínimo,	é	pouco	provável	que	me	acuse	de	assustá-lo	para
garantir	 sua	 segurança.	Eu	vou	assustá-lo,	vou	 tentar	 levá-lo	para	um	 lugar
seguro,	 mas	 você	 não	 vai	 me	 acusar	 de	 “assustá-lo	 para	 deixá-lo	 em
segurança”.	Se	você	estivesse	tão	apegado	à	sua	casa	que	não	pudesse	suportar
a	ideia	de	deixá-la,	talvez	preferisse	ficar	e	correr	o	risco	de	morrer;	ou,	se	não
tivesse	 mesmo	 consciência	 do	 perigo,	 talvez	 me	 mandasse	 embora	 e	 me
chamasse	 de	maluco.	Mas,	 embora	 eu	 o	 tenha	 assustado	 para	 levá-lo	 a	 um
lugar	seguro,	você	não	me	acusaria	de	fazer	isso.
Da	 mesma	 forma,	 Jesus	 conclui	 o	 Sermão	 do	 Monte	 tentando
sinceramente	 deixar	 homens	 e	 mulheres	 tão	 assustados	 a	 ponto	 de
procurarem	entrar	no	reino,	encontrar	a	 salvação.	Talvez	você	não	acredite
que	existe	um	inferno.	Nesse	caso,	talvez	não	dê	atenção	a	Jesus	por	achá-lo
mentiroso	ou	maluco.	De	outro	modo,	você	pode	estar	 tão	apegado	ao	 seu
pecado	que	mesmo	a	ameaça	de	um	juízo	final	e	catastrófico	não	é	capaz	de
fazê-lo	 abandonaro	 pecado.	 Mas	 não	 passará	 de	 um	 verdadeiro	 tolo	 se
simplesmente	acusar	Jesus	de	assustá-lo	para	fazê-lo	entrar	no	reino.
A	verdadeira	questão	aqui	é	a	verdade	subjacente	às	palavras	de	Jesus,	a
verdade	que	provoca	o	aviso	de	Jesus.	Ou	existe	um	inferno	a	ser	evitado	ou
não	existe.	Se	não	existir	inferno,	toda	a	credibilidade	de	Jesus	se	despedaça,
pois	ele	mesmo	fala	sobre	o	inferno	com	o	dobro	da	frequência	que	fala	do
céu.	 As	 páginas	 da	 Bíblia	 ressaltam	 metáforas	 e	 transbordam	 de	 recursos
linguísticos	para	descrever	as	delícias	 sagradas	do	novo	céu	e	da	nova	 terra,
ainda	 por	 vir,	 mas	 esse	 empenho	 verbal	 não	 é	 menor	 quando	 esboçam	 os
horrores	 e	 os	 terrores	 do	 inferno.	A	Bíblia	 se	 refere	 a	 ele	 de	 várias	 formas,
como	o	lugar	de	trevas	exteriores,	o	lugar	onde	o	verme	não	morre,	o	lugar
de	exclusão	e	rejeição,	o	lugar	de	fogo	e	tormento,	o	lugar	onde	haverá	choro
e	 ranger	de	dentes.	Não	estou	 tentando	 lhe	dar	 as	 coordenadas	do	 inferno,
nem	situá-lo	num	mapa.	Assim	como	sou	incapaz	de	descrever	o	novo	céu	e
a	 nova	 terra	 sem	 usar	 as	 metáforas	 das	 Escrituras,	 também	 não	 consigo
descrever	 o	 inferno	 senão	 usando	 as	 metáforas	 das	 Escrituras.	 Mas	 essas
metáforas	são	assombrosas.
Você	 reconhecer	 ou	 não	 a	 existência	 do	 inferno	 depende	 em	 grande
parte	de	sua	avaliação	da	pessoa	e	do	ministério	de	Jesus.	Quem	consegue	ser
indiferente	a	ele	tem	pouca	dificuldade	em	ser	indiferente	ao	inferno.	Quem
afirma	 que	 o	 segue	 não	 tem	 como	 fazer	 isso	 com	 integridade	 de	 modo
subjetivo,	evitando	tudo	o	que	é	inconveniente	e	desagradável.2
Meu	principal	objetivo,	no	entanto,	não	é	polemizar	sobre	a	questão	do
julgamento	 e	 do	 inferno,	 mas	 ajudar	 outras	 pessoas	 a	 chegarem	 a	 uma
compreensão	clara	do	Sermão	do	Monte.	O	Sermão	termina	com	a	ameaça
de	 julgamento.	 As	 quatro	 seções	 que	 compõem	 a	 conclusão	 desses	 três
capítulos	 coincidem	nesse	 tema.	De	 fato,	 esses	 quatro	 parágrafos,	 apesar	 da
diversidade	de	suas	metáforas,	enfatizam	dois	temas	inflexíveis.	O	primeiro	é
que	existem	apenas	dois	caminhos,	um	que	acaba	no	reino	de	Deus	e	outro,
na	 destruição.	O	 segundo	 tema	 é	 que	 o	 primeiro	 caminho	 é	 caracterizado
pela	 obediência	 a	 Jesus	 e	 pela	 aceitação	 e	 prática	 de	 todos	 os	 seus
ensinamentos.
Esses	pronunciamentos	devem	inculcar	em	nós	um	temor	santo.	Qual	de
nós	não	 se	 sente	 envergonhado	diante	dos	preceitos	do	Sermão	do	Monte?
Será	que	essas	ameaças	de	julgamento	não	nos	impelem	à	pobreza	de	espírito,
que	é	a	primeira	norma	do	reino?
É	bom	lembrar	que	Paulo	está	escrevendo	a	verdade	quando	insiste	em
afirmar	que	os	homens	são	salvos	apenas	porque	Cristo	agiu	como	substituto
deles	 e	 morreu	 por	 eles.	 O	 cristianismo	 não	 é	 simplesmente	 uma	 religião
moralista	de	altos	ideais.	Ele	tem	altos	ideais	—	de	fato,	os	mais	elevados;	mas
também	apresenta	um	Salvador	que	foi	crucificado,	porém	ressuscitado,	que
perdoa	 homens	 arrependidos	 e	 lhes	 dá	 vida	 para	 se	 desenvolverem	 até
atingirem	esses	ideais.
Não	podemos	esquecer	que	o	registro	de	Mateus	do	Sermão	do	Monte
deve	ser	interpretado	dentro	do	contexto	de	todo	o	seu	Evangelho.	Não	é	à
toa	 que	 esse	 Evangelho	 começa	 com	 uma	 profecia	 a	 respeito	 de	 Jesus	 que
enfatiza	seu	papel	de	Salvador:	“Ela	[Maria]	dará	à	luz	um	filho,	a	quem	você
[José]	dará	o	nome	de	 Jesus;	porque	ele	 salvará	 seu	povo	dos	 seus	pecados”
(Mt	1.21).	Nesse	contexto,	o	Sermão	do	Monte	não	força	homens	e	mulheres
a	 se	desesperar,	muito	menos	a	procurar	 salvar-se	por	eles	mesmos.	Em	vez
disso,	 conduz	homens	 e	mulheres	 a	 Jesus.	O	Sermão	do	Monte	não	 reflete
nenhuma	 alegria	 perversa	 com	 a	 possibilidade	 da	 perdição,	 nenhuma
felicidade	de	mandar	tantos	para	a	destruição.	O	aviso	é	de	fato	uma	súplica.
Que	Deus	conceda	a	seu	povo	um	espírito	contrito,	que	rogue	a	ele	por
graça	 e	 perdão,	 em	nome	 de	 Jesus	Cristo,	 além	 de	 conformidade	 cada	 vez
maior	às	normas	e	perspectivas	do	reino.
O	FINAL	DO	SERMÃO
Mateus	7.28,29
“Quando	 Jesus	 acabou	 de	 dizer	 essas	 coisas,	 as	 multidões	 estavam
maravilhadas	 com	 seu	 ensino,	 porque	 ele	 as	 ensinava	 como	 quem	 tem
autoridade,	e	não	como	os	escribas”	(Mt	7.28,29).
Os	 escribas	 ensinavam	 o	 que	 aprenderam,	 isto	 é,	 referindo-se	 às
autoridades.	 Jesus,	 porém,	 ensinava	 com	 sua	própria	 autoridade.	Todos	nós
ficamos	 impressionados	 com	 alguém	 cuja	 destreza	 e	 conhecimento	 de	 um
assunto	 são	 tão	 notáveis	 que	 ele	 remove	 os	 resíduos	 de	 equívocos	 e	 mal-
entendidos	e	revela	a	verdade	da	questão	com	traços	precisos	e	incisivos.	Era
esse	efeito	que	Jesus	tinha	sobre	seus	primeiros	ouvintes.
Esses	ouvintes	ficavam	maravilhados	com	Jesus.	Talvez	isso	faça	parte	do
aproximar-se	 dele,	 do	 necessário	 reconhecimento	 de	 sua	 autoridade.	 Que
Deus,	em	sua	misericórdia,	permita	que	jamais	deixemos	de	nos	maravilhar,
mas,	sim,	que	prossigamos	no	firme	compromisso	da	canção:
Sê	tu	minha	Visão,	ó	Senhor	do	meu	coração;
que	tudo	mais	seja	nada	para	mim,	exceto	o	que	tu	és	—
tu	és	meu	melhor	pensamento,	de	dia	ou	de	noite,
em	vigília	ou	dormindo,	tua	presença	é	minha	luz.
Por	ti,	minha	Sabedoria,	tu,	minha	Palavra	verdadeira;
eu	sempre	contigo,	tu	sempre	comigo,	Senhor;
tu,	meu	grande	Pai,	eu,	teu	filho	leal;
tu	em	mim	habitando,	e	eu	sendo	um	contigo.
Sê	tu	a	minha	armadura,	minha	espada	na	batalha;
sê	tu	minha	dignidade,	tu	o	meu	prazer,
tu	o	abrigo	da	minh’alma,	tu	a	minha	torre	forte:
ressuscita-me	para	que	eu	suba	ao	céu,	ó	Poder	da	minha	força.
Riquezas	não	busco,	nem	o	vão	louvor	dos	homens;
Tu	és	a	minha	herança,	agora	e	para	sempre:
tu	e	tu	somente,	o	primeiro	em	meus	afetos,
exaltado	Rei	do	céu,	meu	tesouro	és	tu.
Exaltado	Rei	do	céu,	conquistada	a	vitória,
possa	eu	alcançar	o	júbilo	celestial,	ó	brilhante	Sol	do	céu!
Coração	do	meu	próprio	coração,	venha	o	que	vier,
sê	ainda	minha	Visão,	ó	Soberano	que	a	todos	governa.3
1George	W.	Robinson	(1838-1877).
2Se	 você	 quer	 saber	 mais	 sobre	 Jesus	 Cristo	 ou	 sobre	 os	 documentos	 do	 Novo	 Testamento	 que
constituem	nossas	 fontes	primárias	 a	 respeito	dele,	 recomendo	especialmente	dois	 livros:	 John	R.	W.
Scott,	 Basic	 Christianity	 (Downers	 Grove:	 InterVarsity,	 2012);	 F.	 F.	 Bruce,	 The	 New	 Testament
documents:	are	they	reliable?	(Grand	Rapids:	Eerdmans,	2003)	[edição	em	português:	Merece	confiança
o	Novo	Testamento?,	3.	ed.	rev.,	tradução	de	Waldyr	Carvalho	Luz	(São	Paulo:	Vida	Nova,	2010)].
3Antigo	hino	 irlandês.	Tradução	para	 o	 inglês	 de	E.	H.	Hull	 (1860-1935).	Versificado	por	M.	E.
Byrne	(1880-1931).	[Conhecido	no	Brasil	na	versão	de	Hope	Gordon	Silva	intitulada	Sê	minha	vida,	ó
Deus	de	poder,	in:	Hinário	para	o	culto	cristão	(São	Paulo:	IBB,	2011),	hino	363.	(N.	do	E.)]
M
	 APÊNDICE	1
Reflexões	sobre	abordagens	críticas	do	Sermão
do	Monte
uitos	 leitores	da	Bíblia	cristã	esquadrinham	suas	páginas	com	o	único
propósito	 de	 descobrir	 verdades	 teológicas	 e	 serem	 renovados
espiritualmente.	 Isso	é	muito	bom	e	 louvável.	Se	não	 lermos	esse	 livro	com
essa	 finalidade,	 estaremos	 fazendo	 mau	 uso	 dele.	 No	 entanto,	 uma	 leitura
mais	 detalhada	 do	 Novo	 Testamento	 suscita	 também	 uma	 enormidade	 de
questões	 críticas.	 Com	 o	 termo	 “crítica”	 não	 estou	 me	 referindo	 a
julgamentos	negativos	nem	a	um	espírito	crítico	(i.e.,	condenatório).	Em	vez
disso,	uso	a	expressão	“questões	críticas”	em	sentido	técnico,	para	me	referir	a
análises	de	autoria,	data,	destinatários,	 fontes	 (se	houver)	e	relações	 literárias
com	 outras	 obras.	 Fazer	 essas	 perguntas	 a	 respeito	 dos	 documentos	 que
compõem	a	Bíblia	não	é	sinal	necessário	de	piedade	nem	sinal	necessário	de
impiedade.	Na	maior	parte,	são	perguntas	que	surgem	naturalmente,	porque
o	assunto	está	lá.
Muitas	 vezes,	 quando	 abordo	 uma	 passagem	 das	 Escrituras	 como	 o
registro	de	Mateus	do	Sermão	do	Monte	e	 a	 exponho	a	 leigos,	 alguém	me
procura	depois	de	algumas	sessões	e	me	faz	perguntas	comoestas:	A	passagem
de	Lucas	6.20-49	não	é	o	registro	de	Lucas	do	Sermão	do	Monte?	Por	que,
então,	ela	diz	que	o	 sermão	aconteceu	numa	planície	 (Lc	6.17),	e	não	num
monte?	Por	que	o	relato	de	Lucas	é	muito	mais	curto	que	o	de	Mateus?	Por
que	Mateus	 registra	oito	bem-aventuranças	positivas	 (Mt	5.3-12),	enquanto
Lucas	 registra	 apenas	 quatro	 bem-aventuranças	 positivas	 e	 quatro	 “ais”
correspondentes	 (Lc	6.20-26)?	Por	que	a	redação	não	é	a	mesma	em	outras
passagens	 em	 que	Mateus	 e	 Lucas	 estão	 registrando	 o	mesmo	 ensino,	mas
com	um	vocabulário	 ligeiramente	diferente?	Por	que	Mateus	situa	a	“Regra
de	ouro”	mais	para	o	fim	de	sua	narrativa	(7.12),	enquanto	Lucas	a	insere	na
metade	(Lc	6.31)?	E	por	que	Lucas	omite	a	oração	explicativa	“porque	esta	é	a
Lei	e	os	Profetas”?	Por	que	Lucas	não	registra	a	oração-modelo	do	Senhor?
Ou	 melhor,	 por	 que,	 quando	 a	 registra,	 ele	 a	 situa	 num	 contexto
inteiramente	 diferente,	 onde	 ela	 aparece	 como	 resposta	 de	 Jesus	 ao	 pedido
dos	discípulos	para	que	ele	lhes	ensinasse	a	orar	(Lc	11.1ss.)?	Por	que	muitos
versículos	 de	 Mateus	 5—7	 não	 se	 encontram	 em	 Lucas	 6.20-49,	 e	 sim
espalhados	 por	 todo	 o	 Evangelho	 de	 Lucas?	 Se	 o	 Sermão	 do	Monte	 é	 tão
importante,	por	que	Marcos	e	 João	não	o	 registram	também?	Mateus	 leu	o
Evangelho	de	Lucas	antes	de	escrever	o	seu?	Ou	foi	o	contrário?	Ou	nenhum
dos	dois	leu	o	do	outro?	Quem	exatamente	é	Mateus?
Não	 pretendo	 dar	 respostas	 detalhadas	 a	 essas	 perguntas.	 Se	 eu	 apenas
começasse	a	fazer	isso,	dobraria	o	tamanho	deste	livro.	Neste	breve	Apêndice
1,	 pretendo	 simplesmente	 esboçar	 alguns	 dos	 princípios	 que	 norteiam	 as
respostas.	Também	quero	esquematizar	alguns	avanços	no	campo	dos	estudos
acadêmicos	 contemporâneos	 do	 Novo	 Testamento,	 incluindo	 algumas
abordagens	 e	 conclusões	que	considero	 inválidas	 e	que,	 em	minha	opinião,
não	resistirão	ao	teste	do	tempo.
Começo	apresentando	duas	 tabelas.	A	primeira	 começa	com	o	Sermão
do	Monte	 registrado	por	Mateus	 e	mostra	 a	 distribuição	desse	material	 (ou
material	muito	semelhante)	no	Evangelho	de	Lucas.	A	segunda	começa	com
o	Sermão	 conforme	o	 registro	do	Evangelho	de	Lucas	 e	mostra	 como	esse
material	está	distribuído	no	Evangelho	de	Mateus.
Vale	 a	 pena	 fazer	 uma	 pausa	 agora	 e	 abrir	 o	 Novo	 Testamento	 para
examinar	cada	um	desses	pares.	Você	descobrirá	 rapidamente	que	as	 tabelas
fazem	o	problema	parecer	mais	simples	do	que	realmente	é.	Só	para	dar	um
exemplo:	 embora	 eu	 tenha	 posto	 Lucas	 11.1-4	 ao	 lado	 de	 Mateus	 6.7-15,
Lucas	na	verdade	omite	parte	do	material	de	Mateus	6.7-15.	Nesse	caso,	ele
constrói	seu	texto	de	modo	um	pouco	diferente,	apesar	de	ambos	os	escritores
dizerem	aproximadamente	a	mesma	coisa.	E,	ainda	por	cima,	seu	contexto	é
completamente	diferente.
TABELA	1
Mateus	5—7 Lucas
5.3-12 6.20-26
5.13 14.34,35
5.14-16 8.16
5.17-20 16.16,17
5.21-26 12.57-59
5.27-32 (16.18)
5.33-37 —
5.38-42 6.29,30
5.43-48 6.27,28,32-36
6.1-4 —
6.5,6 —
6.7-15 11.1-4
6.16-18 —
6.19-21 12.33,34
6.22,23 11.34-36
6.24 16.13
6.25-34 12.22-32
7.1-5 6.37-42
7.6 —
7.7-11 11.9-13
7.12 6.31
7.13,14 13.23,24
7.15-20	(cf.	12.33-35) 6.43-45
7.21-23 6.46;	13.25-27
7.24-27 6.47-49
TABELA	2
Lucas	6.20-49 Mateus
6.20-23 5.3-6,11,12
6.27-30 5.39b-42
6.31 7.12
6.32-36 5.44-48
6.37,38 7.1,2
6.39,40 —
6.41,42 7.3-5
6.43-45 7.16-20
6.46 7.21
6.47-49 7.24-27
Para	 muitos	 autores	 modernos,	 esses	 problemas	 são	 oportunidade	 de
engendrar	profundo	ceticismo.	Alguns	acadêmicos	atuais	acreditam	que	Jesus
de	 fato	 pregou	 um	 grande	 sermão,	 preservado	 de	 formas	 diferentes	 por
Mateus	 e	 Lucas,	 que	 usaram	 uma	 fonte	 documental	 comum	 (ou	 mais	 de
uma).	Muitos	outros,	entretanto,	acham	que	esse	sermão	nunca	foi	pregado.
É	comum	alguém	propor	que	o	texto	de	Mateus	5—7	é	principalmente	um
amálgama	 de	 fragmentos	 de	 talvez	 vinte	 sermões	 de	 Jesus.	 Segundo	 essa
hipótese,	o	cenário	de	Mateus	é	uma	ficção	literária.	Outro	argumento	muito
comum	é	que	a	maior	parte	do	material	provém	da	igreja	primitiva,	não	de
Jesus.	Segundo	essa	corrente,	o	chamado	“Sermão	do	Monte”	é	simplesmente
uma	coletânea	de	material	catequético	da	igreja,	organizado	por	volta	de	90
d.C.	 e	 atribuído	 a	 Jesus,	 em	 parte	 por	 causa	 da	 crença	 popular	 (mas
equivocada)	e	em	parte	para	dar	mais	autoridade	ao	material.
É	 preciso	 abordar	 uma	questão	 relacionada	 a	 esse	 assunto:	 o	Problema
Sinótico.	Mateus,	Marcos	e	Lucas	em	conjunto	são	chamados	de	“Evangelhos
Sinóticos”.	 Um	 estudo	 aprofundado	 desses	 três	 evangelhos	 demonstra	 que
eles	 são	 suficientemente	 próximos	 uns	 dos	 outros	 no	 estilo	 de	 escrita	 e	 na
ordem	dos	acontecimentos,	a	ponto	de	permitir	dizer	que	existe	algum	tipo
de	 relação	 literária	 entre	 eles.	 Existe	 um	 consenso	 (acertado,	 na	 minha
opinião)	 de	 que	Marcos	 foi	 escrito	 primeiro	 e	 que	Mateus	 e	 Lucas	 tinham
pelo	 menos	 lido	 o	 Evangelho	 de	 Marcos	 antes	 de	 redigir	 seus	 respectivos
textos.	Além	disso,	Mateus	e	Lucas	 têm	uma	grande	quantidade	de	material
em	 comum	 que	 não	 se	 encontra	 em	 Marcos.	 Esse	 material,	 em	 geral
denominado	Q	(de	Quelle,	palavra	alemã	que	significa	“fonte”),	é	composto
principalmente	de	declarações	de	Jesus.	Discute-se	se	havia	uma	fonte	escrita
que	 teria	 sido	usada	 tanto	por	Mateus	quanto	por	Lucas	ou	 se	havia	muitas
fontes	diferentes.	Os	argumentos	são	complexos,	e	não	quero	repeti-los	aqui.
Mas	vale	ressaltar	que	o	Sermão	do	Monte	é	material	de	Q.
Falar	de	“fontes”	e	“dependência	literária”	não	deve	ser	alarmante:	Lucas,
pelo	 menos,	 registra	 sua	 própria	 dependência	 de	 relatos	 de	 testemunhas
oculares	e	de	fontes	literárias	(Lc	1.1-4).
A	 pesquisa	 acadêmica	 contemporânea	 sobre	 o	 Novo	 Testamento	 vai
muito	além	dessa	questão	fundamental.	Ela	observa	que	os	diferentes	tipos	de
material	 literário	 em	 geral	 se	 classificam	 em	 formas	 literárias.	 A	 “crítica	 da
forma”,	como	é	chamado	o	estudo	das	formas	literárias,	é	em	primeiro	lugar
altamente	 descritiva.	 Infelizmente,	 porém,	 nas	 mãos	 de	 muitos	 críticos	 da
forma,	 o	 que	 é	 meramente	 descritivo	 se	 torna	 prescritivo.	 Esses	 críticos
começam	dizendo	que	determinadas	formas	têm	de	estar	presentes.	Além	do
mais,	 se	 houver	 dois	 relatos	 da	 oração-modelo	 do	 Senhor,	 eles	 começam
perguntando	qual	 é	 a	mais	 antiga,	de	 acordo	com	a	 forma	 literária	de	cada
uma.	Em	seguida,	tentam	adivinhar	como	deve	ter	sido	o	“original”.	Depois
perguntam	que	alterações	Mateus	e	Lucas	fizeram	nesse	original	e,	com	base
nisso,	 tentam	 deduzir	 em	 que	 a	 teologia	 de	 Mateus	 difere	 da	 teologia	 de
Lucas,	e	assim	por	diante.
Para	aumentar	ainda	mais	a	imensidade	de	problemas	correlatos,	a	força
de	qualquer	pressuposto	de	um	acadêmico	precisa	ser	levada	em	conta.	Não
são	poucos	os	pesquisadores	modernos	do	Novo	Testamento	de	que	se	 tem
notícia	 que	 negaram	 a	 possibilidade	 de	 milagres,	 a	 existência	 de	 anjos,	 a
divindade	de	Cristo	 e	muito	mais.	Eles	 percebem	que	o	Novo	Testamento
afirma	esses	fatos,	mas	alegam	que	tais	crenças	são	relíquias	culturais	de	uma
era	pré-científica	e	que	a	verdadeira	mensagem	do	cristianismo	não	depende
absolutamente	de	tais	crenças.
De	minha	parte,	continuo	convencido	de	que	esses	pressupostos	refletem
a	acomodação	ao	secularismo	atual	e	não	são	de	forma	alguma	exigidos	pelas
evidências.	 O	 testemunho	 da	 Bíblia	 a	 respeito	 de	 si	 mesma	 é	 que	 ela	 é	 a
Palavra	de	Deus.	E	considero	irrefutável	sua	evidência	interna,	sem	falar	das
evidências	relacionadas	a	ela.	É	importante,	portanto,	procurar	entender	esse
livro	em	suas	próprias	condições	e	evitar	o	máximo	possível	os	preconceitos
do	 século	 20	 e	 21,	 para	 não	 fazermos	 que	 a	 Bíblia	 diga	 apenas	 o	 que
queremos	ouvir.	Vou	me	abster	de	falar	aqui	sobre	como	interpretar	a	Palavra
de	Deus,	mas	vou	dizer	apenas	que	as	regras	gramaticais	comuns	e	a	filologia,
bem	como	os	cânones	comuns	da	críticahistórica,	podem	ser	aplicados	com
segurança	para	entendermos	melhor	tudo	o	que	ela	afirma.
Desse	modo,	por	muitas	razões,	considero	inaceitável	o	ceticismo	radical
de	 certos	 críticos.	 Entretanto,	 isso	 ainda	 deixa	 em	nossas	mãos	 o	Problema
Sinótico;	as	reflexões	genuínas	da	crítica	da	forma;	a	relação	entre	Mateus	5—
7	e	Lucas	6.20-49	e	desses	dois	evangelhos	com	uma	suposta	fonte	Q	escrita;
e	mais	 outras	 questões.	 Embora	 as	 Escrituras	 (não	 apenas	 os	 homens	 que	 a
escreveram)	 sejam	 inspiradas	 por	 Deus	 e	 embora	 homens	 santos	 de	 Deus
tenham	falado	da	parte	de	Deus	conduzidos	pelo	Espírito	Santo	(2Tm	3.16;
2Pe	 1.21),	 a	 ação	 divina	 aconteceu	 de	 tal	 maneira	 que	 Paulo	 escreveu	 no
estilo	próprio	para	responder	às	necessidades	que	ele	via	nas	 igrejas.	Mateus
escreveu	segundo	o	que	lhe	pareceu	necessário.	E	Lucas	não	se	desobrigou	do
exaustivo	trabalho	de	pesquisa	(Lc	1.1-4).
Eu	me	 proponho,	 portanto,	 a	 esboçar	 algumas	 observações	 que	 talvez
ajudem	o	leitor	em	geral	a	aceitar	a	disparidade	dos	dados	e,	ainda	assim,	reter
—	mesmo	reforçar	—	sua	confiança	na	Palavra	de	Deus.	Meu	foco	estará	no
Sermão	do	Monte.	Repito	que	este	é	um	esboço	breve.	Qualquer	análise	mais
profunda	deve	ser	buscada	em	outra	obra.
Primeira:	 É	 muito	 provável	 que	 Jesus	 pregasse	 principalmente,	 se	 não
exclusivamente,	 em	 aramaico,	 um	 dialeto	 do	 hebraico.	 Os	 documentos	 do
Novo	Testamento	foram	escritos	em	grego.	Como	qualquer	um	que	já	tenha
feito	 alguma	 tradução	 pode	 atestar,	 a	 probabilidade	 de	 interpretações
variantes	em	diferentes	traduções	do	mesmo	material	é	imensa.	Se	o	material
Q	de	fato	se	apresenta	em	diversas	fontes	escritas,	quantas	dessas	fontes	foram
escritas	 em	 aramaico?	 Que	 efeito	 isso	 teria	 nos	 Evangelhos	 terminados	 de
Mateus	e	Lucas?	Isso	explica	pelo	menos	algumas	variações.
Segunda:	 Em	 geral	 o	 que	 se	 conservou	 até	 nós	 não	 são	 registros	 ipsis
litteris	 de	 tudo	 o	 que	 Jesus	 disse	 em	 determinada	 ocasião,	 mas	 relatos
altamente	condensados.	Se	aceitarmos	que	Mateus	5—7	é	um	resumo	do	que
Jesus	 pregou	 em	 certa	 colina	 da	 Galileia,	 é	 preciso	 assinalar	 que	 a	 leitura
desses	 capítulos	 leva	 apenas	 uns	 quinze	 minutos	 —	 mesmo	 para	 quem	 lê
devagar.	 O	 acontecimento	 retratado	 em	 Mateus	 5—7	 parece	 uma	 palestra
completa.	 Sem	 dúvida,	 a	 reunião	 durou	 horas,	 com	 Jesus	 pregando	 o
equivalente	a	muitas	horas	dos	nossos	sermões.	Acredito,	por	exemplo,	que	as
bem-aventuranças	 podem	 muito	 bem	 ter	 sido	 pontos	 de	 uma	 mensagem
maior	 ou	 conclusões	 sucintas	 e	 objetivas	 extraídas	 de	 tópicos	mais	 amplos.
Talvez	houvesse	outros	pontos	que	 foram	omitidos	nos	relatos	condensados
de	que	dispomos.	Não	tenho	dificuldade	em	defender	a	hipótese	de	que	os	ais
do	 relato	 de	 Lucas	 faziam	 parte	 dessa	 pregação.	 Se	 em	 outras	 partes	 do
Sermão	Lucas	omite	mais	do	que	Mateus,	os	dois	omitem	muito	mais	do	que
realmente	foi	dito.
Terceira:	O	Problema	Sinótico	é	um	assunto	tremendamente	complexo,
repleto	de	muitas	incertezas	e	especulações.	Não	é	problema	os	escritores	do
primeiro	 século	 terem	usado	 textos	uns	dos	outros	 em	 larga	 escala;	 isso	 era
comum	na	Antiguidade	(cp,	p.	ex.,	Judas	e	2Pedro	2).	A	questão	é	muito	mais
profunda.	O	Problema	Sinótico	nunca	foi	“resolvido”	e	provavelmente	nunca
será	—	as	 incógnitas	 são	muitas.	 Isso	não	anula	a	 fé	de	modo	nenhum,	mas
torna	as	explicações	sobre	intertextualidade	extremamente	complicadas.1
Relacionada	com	esse	problema	está	a	questão	da	autoria.	O	Evangelho
de	Lucas	não	foi	escrito	por	um	apóstolo;	e	o	Evangelho	de	Mateus?	Não	há
nada	 no	 Evangelho	 em	 si	 afirmando	 a	 autoria	 de	 Mateus,	 por	 isso	 não
podemos	ter	certeza.	Indícios	externos	apoiam	uma	crença	dos	primórdios	da
igreja	de	que	Mateus	de	fato	o	escreveu,	e	as	evidências	em	contrário	não	são
tão	fortes	quanto	alguns	pensam.2	Alguns	estudiosos	dão	ao	documento	uma
data	mais	 tardia	 e	o	 atribuem	a	 autores	desconhecidos	pois	 isso,	na	opinião
deles,	 reduziria	 sua	 credibilidade	 histórica.	 Chamo	 a	 atenção	 para	 essas
questões	não	para	oferecer	respostas	fáceis	a	tais	perguntas,	mas	para	indicar
que	a	discussão	 sobre	 a	 relação	entre	Mateus	5—7	e	Lucas	6.20-49	envolve
pontos	muito	difíceis.	Devem-se	evitar	soluções	simplistas.
Quarta:	 Os	 evangelistas	 tinham	 cada	 um	 sua	 própria	 finalidade	 ao
escrever.	 Embora	 estejam	 falando	 sobre	 partes	 selecionadas	 da	 vida,
ministério,	 morte	 e	 ressurreição	 de	 um	 homem,	 Jesus	 de	 Nazaré,	 eles
revestem	suas	obras	com	vocabulários	um	pouco	diferentes.	Eles	se	dirigem	a
leitores	 diferentes	 e	 incluem	 ou	 excluem	 material	 de	 acordo	 com	 seus
objetivos	 e	 interesses.	 Além	 disso,	 às	 vezes	 organizam	 suas	 narrativas
cronologicamente	 e	 outras	 vezes	 tematicamente.	 Por	 causa	 disso,
determinado	milagre	pode	ser	deslocado	por	um	evangelista	para	uma	parte
diferente	de	sua	narrativa	apenas	porque	se	encaixa	melhor	no	tema	que	ele
está	desenvolvendo.
Nós	 fazemos	 a	 mesma	 coisa	 hoje	 em	 dia,	 mas	 talvez	 não	 na	 mesma
proporção.	Acabei	de	ler	a	excelente	biografia	Cromwell:	our	chief	of	men,
de	 Antonia	 Fraser.3	 A	 partir	 do	 ponto	 em	 que	 Cromwell	 se	 torna	 Lorde
Protetor,	a	autora	organiza	os	capítulos	seguintes	do	livro	numa	estrutura	de
tópicos	que	analisa	o	governo	de	Cromwell	por	vários	ângulos.	Cada	capítulo
abrange	 todo	 o	 período	 do	 Protetorado;	 os	 capítulos	 não	 podem	 ser	 lidos
cronologicamente.
Nos	 comentários	 liberais	 mais	 antigos,	 sempre	 que	 determinado
evangelista	 omitia	 alguma	 coisa,	 era	 comum	 ler	 algo	 do	 tipo:	 “Lucas
desconhecia	isso”,	ou	“Essa	declaração	não	se	encontrava	na	fonte	de	Mateus”.
Hoje,	porém,	há	mais	prudência	e	se	reconhece	que	um	evangelista	pode	ter
deixado	de	registrar	ou	omitido	um	relato	ou	certos	detalhes	apenas	porque
fogem	 do	 propósito	 de	 seu	 texto.	 Os	 quatro	 evangelistas	 nos	 dão	 quatro
“teologias”	 que	 se	 complementam	 mutuamente	 e	 nos	 fornecem	 um
testemunho	multiforme	da	pessoa	e	da	obra	do	Senhor	Jesus	Cristo.	Devemos
ser	gratos	pelo	fato	de	o	Espírito	de	Deus	ter	supervisionado	o	trabalho	deles
de	 maneira	 que	 pudéssemos	 receber	 uma	 série	 de	 retratos	 de	 riqueza
inesgotável.
Infelizmente,	não	poucos	acadêmicos	que	estudam	o	Novo	Testamento,
ainda	 em	 recente	 contato	 com	 a	 teologia	 de	 cada	 Evangelista,	 põem	 a
teologia	em	conflito	com	a	história.	Cada	pequena	diferença	é	motivo	para
mirabolantes	 hipóteses	 teológicas	 especulativas,	 enquanto	 a	 mais	 simples
harmonização	pode	ser	o	melhor	caminho	a	seguir.	Se	Jesus	sobe	a	encosta	de
um	monte	e	se	senta,	no	texto	de	Mateus,	e	desce	para	um	lugar	plano	e	fica
em	pé,	no	 relato	de	Lucas	 (Mt	5.1;	Lc	6.17),	 será	que	precisamos	ver	nisso
todo	 tipo	 de	 simbolismo	 profundo?	 Talvez	 ele	 tenha	 começado	 fazendo	 o
que	Mateus	descreve,	mas	depois,	comovido	pelas	necessidades	das	multidões
que	não	o	deixavam	(Lc	6.18,19),	fez	o	que	Lucas	descreveu	e	continuou	seu
ensino.	Meia	dúzia	de	outras	possibilidades	me	vêm	à	mente.	Em	todo	caso,	é
certo	que	tanto	Mateus	quanto	Lucas	dão	a	impressão	de	que	o	conteúdo	do
ensino	 de	 Jesus	 que	 apresentam	 é	 uma	 boa	 sinopse	 de	 partes	 desse	 ensino
ministrado	naquela	ocasião	em	particular.	É	desnecessário	e,	do	ponto	de	vista
metodológico,	 impróprio	 supor	 que	 Mateus	 5—7	 seja	 um	 amálgama	 de
afirmações	isoladas	vagamente	recordadas	pela	igreja	e	fundidas	por	Mateus	e
Lucas	 para	 formar	 uma	 espécie	 de	 amostra	 de	 sermão	 que	 Jesus	 nunca
pregou.	Os	 evangelistas	 não	dizem	que	 é	 uma	 amostra	 do	 ensino	de	 Jesus,
apesar	 de	 às	 vezes	 apresentarem	 as	 parábolas	 de	 Jesus	 com	 uma	 imprecisão
condizente	 com	 a	 ideia.	Não;	 eles	 apresentam	 a	 especificidade	 histórica	 do
Sermão	do	Monte.	 Isso	é	característico	do	papel	de	historiadores	e	 teólogos
dos	evangelistas,	sob	a	inspiração	de	Deus.
Quinta:	 Além	 de	 tudo	 o	 mais,	 Jesus	 de	 Nazaré	 era	 umpregador
itinerante.	 Isso	não	 significa	negar	que	ele	 era	mais	que	 isso;	 é	 apenas	uma
maneira	de	sublinhar	seu	modus	operandi.	Isso	quer	dizer	que	ele	pregava	os
mesmos	 tipos	 de	 mensagem	 repetidamente,	 de	 vila	 em	 vila,	 de	 cidade	 em
cidade.	Sem	dúvida	os	mesmos	temas	se	repetiam,	e	mesmo	muitas	das	frases
impactantes.
Durante	 alguns	 anos,	 estive	 envolvido	 num	 ministério	 itinerante	 de
tempo	 parcial.	 Falo	 por	 experiência	 própria	 que	 os	 mesmos	 sermões	 são
aprimorados	e	adaptados,	repetidos	e	aplicados	de	maneiras	diversas,	à	medida
que	 o	 pregador	 vai	 de	 um	 local	 para	 outro.	 Parágrafos	 inteiros	 saem
praticamente	iguais	ao	que	foi	pregado	na	última	cidade.	As	alterações	podem
ser	acidentais	ou	propositais.
Acredito	 que	 essa	 seja	 uma	 das	 características	 mais	 negligenciadas	 do
ministério	 de	 Jesus	 conforme	 registrado	 nos	 Evangelhos.	 (Talvez	 porque
muito	poucos	estudiosos	do	Novo	Testamento	fizeram	pregação	itinerante!)
Se	parte	da	mensagem	de	Jesus	no	relato	de	Mateus	do	Sermão	do	Monte	se
encontra	em	Lucas	em	outro	contexto,	isso	pode	significar	simplesmente	que
Jesus	 pregou	 a	 mesma	 coisa	 mais	 de	 uma	 vez.	 Em	 alguns	 casos,	 até	 a
descoberta	de	um	par	ordenado	de	ideias	associadas	em	contextos	diferentes
nos	dois	Evangelhos	indica	tão	somente	que	o	próprio	Jesus	emparelhava	as
duas	ideias	desse	jeito.
Observe	a	oração-modelo	do	Senhor.	Lucas	associa	claramente	a	versão
dessa	 oração	 com	 o	 pedido	 dos	 discípulos	 de	 orientação	 para	 orarem	 (Lc
11.1-4).	A	versão	de	Mateus	situa	a	oração	no	meio	do	Sermão	do	Monte	(Mt
6.9-13).	Como	podemos	explicar	essa	diferença?
De	acordo	com	o	que	vimos	até	agora,	temos	algumas	possibilidades:
(1)	Mateus	baseou-se	em	Lucas	(ou,	menos	provavelmente,	o	contrário)
ou	ambos	se	basearam	em	uma	fonte	comum.	Isso	significa	que	o	cenário	de
pelo	menos	um	desses	dois	evangelhos	é	artificial.	Essa	ideia	é	bem	divulgada.
No	entanto,	muito	longe	de	criar	hipóteses	acerca	da	natureza	das	Escrituras,
tenho	de	perguntar	se	essa	é	a	solução	mais	provável,	a	solução	mais	sensível
às	 realidades	 históricas	 do	 ministério	 itinerante	 de	 Jesus.	 Eu	 defenderia
veementemente	 o	 contrário,	 sobretudo	 se,	 como	 acredito,	 esses	 dois	 livros
foram	 escritos	 quando	 ainda	 havia	 testemunhas	 oculares	 suficientes	 para
esclarecer	os	fatos.
(2)	 O	 cenário	 de	 Lucas	 é	 historicamente	 preciso.	 Mateus	 registra	 um
resumo	 de	 um	 sermão	 pregado	 por	 Jesus	 no	 cenário	 que	 ele	 descreve	 no
capítulo	5,	mas	acrescenta	algum	conteúdo	extra,	incluindo	a	oração-modelo
do	 Senhor,	 que	 Jesus	 na	 verdade	 não	 ensinou	 naquela	 ocasião,	mas	 que	 se
adequava	 bem	 ao	 contexto.	 Em	 outras	 palavras,	 Mateus	 acrescenta	 pelo
menos	 um	pequeno	 conteúdo	 ao	 seu	 resumo.	Esse	material	 é	 autêntico	no
sentido	de	que	ele	é	de	fato	ensino	de	Jesus,	mas	não	é	inautêntico	no	sentido
de	que	não	pertencia	originalmente	ao	mesmo	contexto	histórico.	Mateus	o
introduziu	aí	por	razões	temáticas	características	de	seus	métodos.	E,	afinal	de
contas,	meu	esboço	de	Mateus	5—7	não	dá	a	entender	que	6.9-15	é	de	certa
forma	um	excurso?
(3)	 Outra	 possibilidade	 é	 que	 Jesus	 ensinou	 sua	 oração-modelo	 nesse
sermão	inicial,	mas	depois	precisou	ensinar	de	novo	esse	modelo	de	oração.
Afinal,	o	trecho	de	Mateus	5—7	tem	muito	a	dizer	sobre	humildade,	mas	os
discípulos	 de	 Jesus	 não	 aprenderam	muito	 dessa	 lição	 na	 primeira	 vez.	 Ele
teve	de	voltar	ao	tema	mais	de	uma	vez.	Não	tenho	dificuldade	em	crer	que
os	 discípulos	 fossem	 igualmente	 lentos	 para	 aprender	 a	 orar	 e,	 quando
pediram	 ajuda	 a	 Jesus	 em	 Lucas	 11,	 ele	 pode	 muito	 bem	 ter	 ensinado	 a
mesma	forma	básica	que	havia	esboçado	anteriormente	em	Mateus	6.
O	que	podemos	dizer,	então,	sobre	as	diferenças	internas	entre	a	oração-
modelo	do	Senhor	registrada	em	Mateus	e	a	registrada	em	Lucas?	É	curioso
observar	que	os	críticos	acadêmicos	que	 se	apoiam	fortemente	na	crítica	da
forma	estão	divididos	quanto	a	que	forma	veio	primeiro.	Por	isso,	os	critérios
deles	não	são	assim	tão	objetivos	quanto	eles	às	vezes	querem	nos	fazer	crer.
Além	do	mais,	se	a	possibilidade	(2)	está	correta,	então	a	forma	de	Lucas	veio
primeiro;	 e	 essa	 hipótese	 não	 pode	 simplesmente	 ser	 descartada.	 Mas,	 se	 a
possibilidade	 (3)	está	correta,	a	questão	é	 irrelevante:	não	há	razão	para	que
ambas	não	sejam	autênticas.
Em	 relação	 a	 isso,	 vale	 a	 pena	 observar	 que	 a	 função	 com	 que	 cada
pronunciamento	de	 Jesus	 é	 inserido	 ajuda	 a	 definir	 seu	 contexto.	Às	 vezes,
parece	que	os	evangelistas	estão	apresentando	declarações	avulsas	para	ilustrar
um	 assunto,	mas,	 quando	 especificam	 o	momento	 e	 o	 lugar	 em	 que	 Jesus
disse	 isso	 ou	 aquilo,	 entendo	 que	 eles	 esperam	 que	 o	 leitor	 creia	 que	 o
testemunho	deles	 reflete	 com	precisão	 o	 que	 ele	 disse,	 ou	 parte	 do	 que	 ele
disse,	 naquela	 ocasião.	 Eles	 estão	 nos	 dizendo	 que	 a	 função	 imediata	 de
determinada	declaração,	 ou	pelo	menos	 parte	 de	 sua	 função,	 foi	 preservada
em	 seu	 contexto	 histórico.	Argumentos	 que	 ignoram	 essa	 observação	 estão
adulterando	as	evidências	objetivas	a	favor	de	teorias	especulativas.
Sexta:	Nos	Evangelhos,	 há	muito	mais	 evidências	 internas	 que	 apoiam
sua	 confiabilidade	 histórica	 geral	 do	 que	 em	 geral	 se	 reconhece.	 Lamento
profundamente	que	alguns	livros	que	demonstram	isso	não	tenham	recebido
a	ampla	divulgação	que	merecem.	Mesmo	onde	há	ligeira	diferença	e	não	se
verifica	 dependência	 literária	 direta	 entre	 duas	 narrativas	 dos	 Evangelhos,
temos	testemunho	de	reforço,	não	de	contradição;	pois	a	ausência	de	conluio
nesses	casos	significa	que	há	múltiplos	testemunhos.
Outro	 fator	merece	 ser	 levado	 em	 conta.	 Lecionando	 para	 africanos	 e
asiáticos	 num	 ambiente	 ocidental,	 observei	 que	 eles	 têm	 um	 desempenho
excelente	sempre	que	o	aprendizado	envolve	memorização.	Mas	não	são	tão
fortes	quando	se	trata	de	entender	e	formular	conceitos	abstratos.	É	claro	que
estou	generalizando,	mas	conversei	sobre	isso	com	pós-graduandos	de	nosso
seminário	 vindos	 de	 países	 asiáticos	 e	 africanos	 e	 eles	 reconheceram	 a
diferença	 fundamental	 na	 abordagem	 pedagógica.	 Essa	 diferença	 não	 é
genética.	Filhos	e	netos	de	asiáticos	imigrantes	ao	que	parece	não	desfrutam
de	 nenhuma	 capacidade	 especial	 de	 memorização	 nem	 têm	 nenhuma
dificuldade	na	área	conceitual.	 (Vale	a	pena	uma	 investigação	mais	a	 fundo
desses	fenômenos.)
Na	Palestina	do	século	primeiro,	a	educação	era	 fortemente	baseada	na
memorização.	 Alguns	 até	 tentaram	 defender	 a	 teoria	 de	 que	 Jesus	 treinava
seus	 discípulos	 para	 memorizar	 todos	 os	 seus	 ensinamentos	 da	 mesma
maneira	 que	 os	 rabinos	 judeus	 memorizavam	 toda	 a	 Bíblia	 hebraica	 (o
Antigo	Testamento),	 além	de	um	grande	 volume	de	 tradição.	Embora	 essa
teoria	vá	longe	demais,	não	há	dúvida	de	que	os	discípulos	de	Jesus	eram	de
fato	capazes	de	memorizar	grandes	conteúdos	 rapidamente,	mesmo	quando
não	entendiam	tudo	de	imediato.	Acredito	que	essa	observação	ajude	a	apoiar
a	 credibilidade	 histórica	 das	 testemunhas	 oculares	 em	 quem	 Lucas,	 por
exemplo,	se	baseou.	Além	disso,	a	estabilidade	das	formas	orais	características
de	parte	do	material	dos	evangelhos	antes	que	ele	fosse	passado	para	a	escrita
é	mais	bem	entendida	tendo	em	vista	essa	capacidade	de	memorização	do	que
em	 relação	 às	 “formas”	 estilizadas	 que	 levariam	muito	mais	 décadas	 para	 se
desenvolver	do	que	as	evidências	permitem	considerar.
Última:	As	 posições	 adotadas	 pela	maioria	 dos	 estudiosos,	 não	 importa
de	 que	 tendência,	 são	 o	 resultado	 de	 um	 firme	 entrelaçado	 de	 vários
fragmentos	 de	 provas	 sólidas,	 deduções,	 especulações	 e	 pressupostos.	 Até	 a
hipótese	mais	delirante	pode	começar	a	parecer	crível	 se	 for	possível	 ligá-la
coerentemente	a	uma	estrutura	maior.
Por	causa	dessas	cadeias	 interconectadas,	derrubar	a	 teoria	de	alguém	é
umcompromisso	com	o	Senhor	quando	sua
pessoa	e	 seus	privilégios	estavam	ameaçados.	Mas	 Jesus	é	o	único	que	pode
dizer	com	total	propriedade:	“Venham	a	mim,	todos	vocês	que	estão	cansados
e	sobrecarregados,	e	eu	lhes	darei	descanso.	Tomem	o	meu	jugo	sobre	vocês
e	aprendam	de	mim,	pois	sou	manso	e	humilde	de	coração;	e	vocês	acharão
descanso	para	sua	alma	(Mt	11.28,	29).
O	dr.	Martyn	Lloyd-Jones	explica:
O	homem	verdadeiramente	manso	é	aquele	que	se	admira	de	que	Deus	e	os	homens	possam	ter
uma	opinião	tão	boa	a	seu	respeito	e	tratá-lo	tão	bem	quanto	tratam	[...]	Finalmente,	eu	diria
assim:	temos	de	deixar	tudo	—	nós	mesmos,	nossos	direitos,	nossa	causa,	todo	o	nosso	futuro	—
nas	mãos	de	Deus,	principalmente	se	achamos	que	estamos	sofrendo	injustamente.1
As	Escrituras	enfatizam	e	dão	muita	 importância	à	mansidão	(veja	2Co
10.1;	Gl	5.22,23;	Cl	3.12;	1Pe	3.15,16;	Tg	1.19-21),	e	isso	só	torna	ainda	mais
espantoso	que	a	mansidão	não	seja	uma	característica	tão	comum	entre	nós,
que	 afirmamos	 ser	 cristãos.	 Tanto	 no	 nível	 pessoal,	 em	 que	 geralmente
estamos	mais	preocupados	em	nos	justificar	do	que	em	edificar	nosso	irmão,
quanto	 no	 nível	 coletivo,	 em	 que	 nos	 saímos	 melhor	 na	 organização	 de
manifestações	públicas,	instituições	e	grupos	de	pressão	do	que	em	propagar
o	 reino	 de	 Deus,	 já	 faz	 muito	 tempo	 que	 a	 mansidão	 não	 é	 a	 marca	 da
maioria	dos	cristãos.
À	medida	que	a	mansidão	é	praticada	entre	nós	—	na	mesma	proporção,
podemos	ter	certeza	—,	um	mundo	ostensivamente	materialista	se	oporá	a	ela.
O	materialista	 diz:	 “Agarre	 o	 que	 puder;	 o	 forte	 chega	 primeiro,	 o	 resto	 é
cada	um	por	si”.	Isso	se	aplica	tanto	a	indivíduos	que	estejam	à	direita	quanto
aos	 que	 estejam	 à	 esquerda	 do	 espectro	 político.	 Individualmente,	 o	 ser
humano	costuma	presumir,	 sem	raciocinar,	que	está	no	centro	do	universo.
Por	isso,	cada	um	de	nós	se	relaciona	mal	com	os	outros	sete	bilhões	e	meio
de	 seres	 humanos	 que	 têm	 essa	 mesma	 ilusão.	 Contudo,	 o	 homem	 manso
enxerga	a	si	mesmo	e	aos	outros	debaixo	do	domínio	de	Deus.	Como	é	pobre
em	espírito,	ele	não	 tem	opinião	mais	elevada	de	 si	mesmo	do	que	deveria.
Por	isso,	é	capaz	de	se	relacionar	bem	com	os	outros.
E	 os	mansos	 herdarão	 a	 terra!	 Essa	 afirmação,	 citada	 de	 Salmos	 37.11,
contraria	drasticamente	o	materialismo	filosófico	tão	predominante	em	nossa
época.	Mas	essa	bênção	de	herança	é	verdadeira	em	pelo	menos	dois	aspectos.
Em	primeiro	 lugar,	 só	 alguém	genuinamente	manso	 se	 sente	 satisfeito;	 seu
ego	não	é	inflado	a	ponto	de	achar	que	tem	de	ter	sempre	mais.	Além	disso,
ele	já	se	vê	“possuindo	tudo”	em	Cristo	(2Co	6.10;	cf.	1Co	3.21-23).	Tendo
em	 vista	 essa	 perspectiva	 eterna,	 ele	 pode	 se	 permitir	 ser	 manso.	 Além	 do
mais,	 um	dia	 ele	 entrará	na	 plenitude	de	 sua	herança,	 quando	verá	 a	 bem-
aventurança	 cumprida	 de	 fato.	 Cinquenta	 bilhões	 de	 trilhões	 de	 anos
eternidade	adentro	 (se	 é	que	eu	posso	 falar	de	eternidade	da	perspectiva	do
tempo),	 o	 povo	 de	 Deus	 estará	 ainda	 se	 regozijando	 por	 essa	 bem-
aventurança	 ser	 absolutamente	 verdadeira.	 Em	 um	 novo	 céu	 e	 uma	 nova
terra,	 essas	 pessoas	 serão	gratas	 porque	 pela	 graça	 aprenderam	 a	 ser	mansas
durante	seus	primeiros	setenta	anos.2
Quarta:	“Bem-aventurados	os	que	têm	fome	e	sede	de	justiça,	porque	eles
serão	fartos”	(5.6)
A	 justiça	 perfeita	 muitas	 vezes	 é	 parodiada	 em	 alguma	 forma	 obsoleta	 de
recato	 vitoriano	 ou	 de	 espírito	 tacanho	 e	 legalismo	 veemente.	 A	 busca	 da
justiça	não	é	admirada	nem	entre	os	que	 se	professam	cristãos.	Muitos	hoje
em	 dia	 estão	 preparados	 para	 buscar	 outras	 coisas:	 maturidade	 espiritual,
felicidade	 verdadeira,	 o	 poder	 do	 Espírito,	 capacitação	 para	 testemunhar.
Outros	 vão	 de	 pregador	 em	 pregador,	 de	 conferência	 em	 conferência,
procurando	 alguma	 vaga	 “bênção”	 do	 alto.	 Eles	 têm	 fome	 de	 experiência
espiritual;	têm	sede	da	percepção	de	Deus.
Mas	quantos	têm	fome	e	sede	de	justiça?
Não	estou	dizendo	com	isso	que	essas	outras	coisas	não	sejam	desejáveis,
mas,	 sim,	 que	 elas	 não	 são	 tão	 fundamentais	 quanto	 a	 justiça.	 Não	 é	 sem
razão	 que	 essa	 é	 a	 quarta	 bem-aventurança.	 O	 indivíduo	 marcado	 pela
pobreza	 em	espírito	 (5.3),	 que	 chora	 pelo	 pecado	pessoal	 e	 social	 (5.4)	 e	 se
aproxima	 de	 Deus	 e	 dos	 outros	 com	 mansidão	 (5.5)	 também	 deve	 ser
caracterizado	 pela	 fome	 e	 sede	 de	 justiça	 (5.6).	Não	 que	 ele	 queira	 ser	 um
pouquinho	melhor,	muito	menos	que	considere	a	justiça	um	luxo	opcional	a
ser	 acrescentado	 a	 suas	 outras	 graças;	 ao	 contrário,	 ele	 tem	 fome	 e	 sede	 de
justiça.	Ele	não	pode	sobreviver	sem	justiça;	ela	é	tão	essencial	para	ele	quanto
comer	e	beber.
A	maioria	das	pessoas	que	lê	essas	linhas	praticamente	nunca	sentiu	fome
nem	 sede.	 Eu	 mesmo	 não	 sou	 velho	 o	 bastante	 para	 ter	 passado	 pelas
provações	que	muitos	enfrentaram	durante	a	Grande	Depressão	ou	a	última
guerra	mundial.	Contudo,	duas	ou	três	vezes	na	década	de	1960,	quando	eu
era	 estudante,	 primeiro	 na	 universidade	 e	 depois	 no	 seminário,	 fiquei,	 ao
mesmo	 tempo,	 sem	 dinheiro	 e	 sem	 comida.	 Orgulhoso	 demais	 para	 pedir
ajuda	e	esperando	para	ver	se	Deus	 ia	suprir	o	que	eu	precisava,	bebia	água
para	meu	 estômago	 parar	 de	 roncar	 e	 continuava	 levando	 a	 vida	 como	 de
costume.	Depois	de	dois	ou	três	dias,	comecei	a	entender	o	que	é	sentir	fome.
As	normas	do	reino	exigem	que	homens	e	mulheres	tenham	fome	e	sede
de	 justiça.	 Isso	 é	 tão	 fundamental	 para	 a	 vida	 cristã	 que	 o	 dr.	 D.	 Martyn
Lloyd-Jones	diz:
Quando	se	trata	de	profissão	de	fé	cristã,	não	conheço	teste	melhor	para	uma	pessoa	aplicar	a	si
mesma	do	que	um	versículo	como	esse.	Se,	para	você,	esse	versículo	é	uma	das	declarações	mais
abençoadas	de	 toda	a	Escritura,	pode	 ter	certeza	de	que	você	é	um	cristão.	Mas,	 se	não	 for,	é
melhor	examinar	mais	uma	vez	os	fundamentos.3
O	 que	 é	 essa	 justiça	 que	 devemos	 buscar?	 Nas	 epístolas	 de	 Paulo,
“justiça”	 pode	 se	 referir	 à	 justiça	 de	 Cristo,	 que	 Deus	 credita	 na	 conta	 do
crente,	 do	mesmo	modo	que	 credita	 o	 pecado	do	 crente	na	 conta	 de	 Jesus
Cristo.	 Se	 fosse	 essa	 a	 justiça	mencionada	 aqui,	 Jesus	 estaria	 convidando	os
não	 crentes	 a	 buscarem	 a	 justiça	 que	 Deus	 concede	 em	 virtude	 da	 morte
substitutiva	 de	 Cristo.	 Alguns	 teorizaram	 que	 no	 Evangelho	 de	 Mateus
“justiça”	se	refere	à	defesa	dos	oprimidos	e	afligidos.	Ultimamente,	porém,	os
que	 estudam	 o	 emprego	 da	 palavra	 em	Mateus	 reconhecem	 cada	 vez	mais
que	“justiça”	aqui	(e	nos	versículos	10	e	20)	significa	um	padrão	de	vida	em
conformidade	com	a	vontade	de	Deus.	Justiça,	portanto,	inclui	em	seu	campo
semântico	todos	os	significados	derivados	ou	especializados,	mas	não	pode	se
limitar	a	nenhum	deles.
Desse	modo,	quem	tem	fome	e	sede	de	justiça	tem	fome	e	sede	de	viver
conforme	a	vontade	de	Deus.	É	alguém	que	não	está	à	deriva	num	mar	de
religiosidade	vazia,	muito	menos	à	toa	na	vida	distraído	com	banalidades.	Em
vez	disso,	todo	o	seu	ser	ecoa	a	oração	de	um	santo	escocês	que	clamava:	“Ó,
Deus,	faz-me	tão	justo	quanto	um	pecador	perdoado	pode	ser!”.	O	seu	prazer
é	 a	 Palavra	 de	 Deus,	 pois	 onde	 mais	 se	 encontra	 claramente	 expressa	 a
vontade	de	Deus	à	qual	esse	indivíduo	tem	fome	de	se	conformar?	Ele	quer
ser	 justo	 não	 apenas	 porque	 teme	 a	Deus,	mas	 porque	 a	 justiça	 é	 seu	mais
elevado	desejo	neste	mundo.
E	qual	é	o	resultado?	Os	que	têm	fome	e	sede	de	justiça	serão	fartos.	O
contexto	 exige	 que	 entendamos	 que	 a	 bênção	 significa:	 “serão	 fartos	 com
justiça”.	O	Senhor	concede	a	essa	pessoa	faminta	o	desejo	do	coração	dela.
Isso	não	quer	 dizer	 que	 agora	 a	 pessoa	 está	 tão	 satisfeita	 com	a	 justiça
recebida	que	sua	fome	e	sede	de	justiça	estão	saciadas	para	sempre.	Em	outra
passagem,	 Jesus	 fala	 desse	 assunto:	 “Quem	 beber	 da	 água	 que	 eu	 lhe	 der
nunca	mais	terá	sede	[...]	Eu	sou	o	pãoJesus	é	concebida	não	 só	para	o	período	até	 seu
segundo	advento,	mas	também	para	toda	a	eternidade;	pois,	embora	o	céu	e	a
terra	passem,	as	palavras	de	Jesus	jamais	passarão.
Uma	 segunda	 interpretação	 do	 Sermão	 do	 Monte	 é	 a	 existencial.	 De
acordo	 com	 essa	 perspectiva,	 o	 sermão	 não	 deve	 ser	 tomado	 como	 uma
exposição	 de	 princípios	 éticos	 concretos	 revestida	 de	 autoridade,	mas,	 sim,
como	 um	 desafio	 à	 decisão	 pessoal.	 Ele	 orienta	 a	 vida	 em	 direção	 a	 uma
perspectiva	 “escatológica”.	 Porém,	 com	 “escatológico”,	 os	 existencialistas
teológicos	não	querem	dizer	 que	 a	 era	 vindoura	 deva	 ser	 levada	 a	 sério	 ou
que	 ela	 já	 se	 justapõe	 à	 era	presente.	De	 fato,	 essas	 categorias	 temporais	 de
escatologia	 são	 sumariamente	 rejeitadas	 por	 serem	 consideradas	 construtos
míticos.	A	escatologia	é	reinterpretada;	a	tensão	bíblica	entre	a	vida	presente
e	o	 juízo	 final	é	 substituída	por	uma	 tensão	entre	vida	e	conduta	como	são
agora	 e	 vida	 e	 conduta	 como	deveriam	 ser.	Mas	 o	 que	 “deveria	 ser”	 não	 é
formulado	 relativamente	 às	 proposições	 do	 Sermão	 do	 Monte,	 mas	 em
relação	a	uma	atitude	de	abertura	para	o	 futuro,	que	traz	consigo	constante
autoexame	e	arrependimento.
Confesso	 que	 tenho	 muita	 dificuldade	 de	 ser	 complacente	 com	 essa
interpretação.	 Se	 o	 existencialismo	 teológico	 quer	 construir	 seus	 próprios
modelos	 éticos,	 tudo	 bem;	 mas	 não	 deve	 tentar	 impingi-los	 ao	 Novo
Testamento.	 Segundo	 essa	 concepção,	 a	 revelação	 proposicional	 é	 em
princípio	 impossível	—	assim	como	a	 intervenção	 sobrenatural	de	um	Deus
pessoal/infinito.	 Por	 conseguinte,	 os	 dados	 bíblicos	 são	 filtrados	 através	 de
uma	peneira	concebida	para	separar	e	remover	todo	esse	material	(“demitizar
o	 texto”).	 A	 estrutura	 resultante	 se	 encaixa	 perfeitamente	 nas	 categorias
existenciais,	mas	muito	mal	nos	textos	bíblicos.
Uma	terceira	abordagem	insiste	em	que	o	Sermão	do	Monte	é	destinado
a	 toda	 a	 presente	 era	 e	 deve	 ser	 rigorosamente	 obedecido.	 Geralmente,	 os
defensores	dessa	posição	 se	dividem	em	dois	grupos.	O	primeiro	diz	que	o
Sermão	do	Monte	é	lei	e	não	evangelho,	e	como	tal	não	é	compatível	com	a
teologia	paulina.	 Jesus	e	Paulo,	 segundo	essa	concepção,	não	andam	juntos.
De	fato,	Paulo	é	culpado	de	distorcer	a	doutrina	de	Jesus.	O	outro	grupo	é
muitas	vezes	associado	com	a	tradição	anabatista.	Ele	considera	que	o	Sermão
do	 Monte	 é	 uma	 reflexão	 precisa	 da	 vontade	 divina	 e	 deve	 ser	 obedecido
tanto	individual	quanto	coletivamente.	Esse	grupo	sustenta	que	a	salvação	é
pela	graça,	por	meio	da	fé,	mas	que	a	necessária	manifestação	dessa	salvação	é
uma	 vida	 em	 conformidade	 com	 os	 preceitos	 do	 Sermão	 do	 Monte.	 Em
geral,	o	pacifismo	faz	parte	dessa	vertente.	Portanto,	se	Deus	deu	a	espada	ao
Estado	 (Rm	 13.1ss.),	 segue-se	 que	 os	 cristãos	 não	 só	 devem	 se	 abster	 de
qualquer	 participação	 nas	 forças	 militares	 e	 policiais,	 mas	 também	 devem
evitar	todas	as	posições	políticas	que	requeiram	decisões	associadas	de	algum
modo	a	essas	forças.
Essas	 duas	 perspectivas	 levam	 o	 Sermão	 do	 Monte	 a	 sério.	 Contudo,
discordo	 da	 primeira	 porque	 ela	 não	 dá	 a	 devida	 importância	 à	 história	 da
salvação.	 Alegar	 antagonismo	 entre	 a	 doutrina	 de	 Jesus	 e	 a	 de	 Paulo	 é	 ser
insensível	ao	progresso	da	revelação	produzido	pela	obra	de	Cristo	na	cruz,
sua	 ressurreição	 e	 ascensão.	 Esse	 ponto	 de	 vista	 ignora	 os	 aspectos
escatológicos	 da	 própria	 pregação	 de	 Jesus	 e	 a	 forte	 ênfase	 que	 o	 próprio
Sermão	do	Monte	dá	à	pobreza	de	espírito	e	à	importância	de	pedir	e	buscar.
Ignora	também	que	o	Sermão	do	Monte	reconhece	a	necessidade	da	graça.
A	segunda	perspectiva,	a	tradição	anabatista/menonita,	considero	muito
atraente.	Contudo,	minha	própria	exposição	do	Sermão	do	Monte	mostrou
onde	eu	me	afasto	dela.	Penso	que	essa	interpretação	não	é	sensível	à	forma
antitética	que	Jesus	normalmente	prega	e	por	isso	acaba	lendo	mais	no	texto
do	que	 Jesus	ou	Mateus	defenderia.	O	Sermão	em	 si	não	é	um	comentário
definitivo	 sobre	 assuntos	 como	 guerra	 e	 pena	 capital	 —	 existem	 outras
considerações	 bíblicas.	Além	do	mais,	 fazer	 da	 proibição	 dessas	 coisas	 parte
essencial	da	 lei	moral	parece	dizer	que	houve	um	progresso	moral	em	Deus
ou	 nos	 seus	 mandamentos.	 Isso	 é	 de	 fundamental	 importância,	 pois	 dá	 a
entender	 que	 as	 ordens	 anteriores	 de	 Deus	 na	 verdade	 estavam	 em
contradição	 com	 sua	 verdadeira	 vontade.	 Se	 a	 moralidade	 não	 está
diretamente	relacionada	com	o	que	Deus	realmente	aprova,	mas	apenas	com
o	que	ele	ordena,	uma	tensão	terrível	se	estabelece	nele.	Além	disso,	o	modo
pelo	 qual	 o	 Novo	 Testamento	 trata	 a	 igreja	 não	 exige	 que	 os	 cristãos	 se
mantenham	 tão	 longe,	 digamos,	 da	 política	 quanto	 essa	 perspectiva	 parece
sugerir.
Uma	 quarta	 proposta	 para	 o	 significado	 do	 Sermão	 do	 Monte	 é	 a
defendida	 pela	 ortodoxia	 luterana.	 Ela	 afirma	 que	 o	 Sermão	 é	 um	 ideal
inatingível,	cujo	propósito	é	conscientizar	as	pessoas	de	seus	pecados	e	fazê-
las	 buscar	 perdão	 em	 Cristo.	 O	 Sermão,	 portanto,	 é	 basicamente	 uma
preparação	para	o	evangelho.	Essa	posição	faz	justiça	a	algumas	relações	entre
Jesus	 e	 Paulo,	 porém	 ela	 se	 parece	 mais	 com	 uma	 conclusão	 de	 teologia
sistemática	aplicada	cedo	demais	do	que	com	exegese	do	texto.
Uma	quinta	abordagem	é	a	do	liberalismo	clássico,	popular	no	início	do
século	20.	A	ortodoxia,	que	enfatizava	a	necessidade	de	redenção	do	homem,
a	morte	expiatória	de	Cristo	e	o	novo	nascimento	sobrenatural	foi	substituída
pelo	liberalismo	otimista,	que	considerava	o	Sermão	do	Monte	o	verdadeiro
evangelho,	o	evangelho	em	versão	condensada.	O	Sermão	passou	a	ser	visto
como	o	conjunto	dos	princípios	gerais	para	a	construção	de	uma	civilização
progressista.	Mas	esse	 sonho	do	 liberalismo	clássico	 foi	estilhaçado	por	duas
guerras	mundiais.	O	liberalismo	esqueceu	que	a	natureza	humana	precisa	de
perdão	e	ajuda.	Nutrido	por	uma	fé	otimista	na	inevitabilidade	do	progresso
evolutivo,	o	 liberalismo	de	 fato	 substituiu	o	 evangelho	verdadeiro	por	uma
filosofia	 de	 progresso	 secular.	 Sem	 consciência	 da	 subjetividade	 de	 suas
escolhas,	 essa	 corrente	 selecionou	as	partes	da	 revelação	bíblica	que	mais	 se
encaixavam	em	seu	espírito	e	teoria	e	descartou	o	resto.	O	resultado	deixou	o
ser	humano	sem	Salvador,	sem	Redentor,	sem	graça	divina,	sem	o	poder	do
Espírito,	 mas	 apenas	 com	 um	 lindo	 padrão	 moral,	 que	 o	 homem	 acabou
descobrindo	 que	 não	 era	 capaz	 de	 reproduzir	 contando	 apenas	 com	 seu
próprio	esforço.
Uma	 interpretação	 mais	 recente	 vê	 o	 Sermão	 do	 Monte	 como	 um
material	 catequético	 preparado	 pela	 igreja,	 parte	 do	 qual	 remonta	 ao	 Jesus
histórico.	Por	ser	um	material	catequético,	o	Sermão,	segundo	essa	tese,	era
sempre	 precedido	 da	 proclamação	 do	 evangelho	 e	 da	 conversão	 pessoal.	O
evangelho	 precede	 as	 exigências	 éticas	 do	 Sermão	 do	 Monte.	 Portanto,	 o
chamado	 de	 Jesus	 ao	 discipulado	 é	 dirigido	 apenas	 àqueles	 sobre	 quem	 o
poder	de	Satanás	já	foi	destruído	pelo	evangelho	e	que	já	é	herdeiro	do	reino
de	Deus.
O	 principal	 problema	 dessa	 interpretação	 é	 que	 ela	 não	 trata	 o
Evangelho	de	Mateus	como	um	documento	histórico	(e	teológico)	sério.	Se
Jesus	 nunca	 pregou	 um	 Sermão	 do	 Monte	 ou	 nem	 mesmo	 forneceu	 o
material	essencial	contido	em	Mateus	5—7,	então	é	legítima	a	hipótese	de	que
a	 ênfase	 paulina	 na	 graça,	 salvação,	 conversão	 e	 transformação	 precede	 o
conteúdo	 “catequético”	 do	 Sermão	 do	 Monte.	 Mas,	 se	 ele	 pregou	 esse
Sermão,	 então,	 mesmo	 que	 seu	 material	 tenha	 sido	 moldado	 de	 alguma
maneira	pela	preocupação	da	igreja	com	a	catequese	dos	novos	convertidos,
não	existe	justificativa	para	minimizar	a	importância	teológica	da	pregação	de
Jesus	em	seu	primeiro	contexto	histórico	com	base	nessa	catequese.
A	 esta	 altura,	 já	 deveda	vida.	Quem	vem	a	mim	jamais	terá
fome,	e	quem	crê	em	mim	jamais	terá	sede”	(Jo	4.14;	6.35).	Portanto,	há	um
sentido	em	que	estamos	satisfeitos	com	Jesus	e	com	tudo	o	que	ele	é	e	provê.
No	entanto,	em	outro	sentido	ainda	continuamos	insatisfeitos.
Um	 exemplo	 de	 Paulo	 permite	 entender	 esse	 paradoxo.	 Paulo	 pode
testemunhar:	 “Eu	 sei	 em	 quem	 tenho	 crido	 e	 estou	 certo	 de	 que	 ele	 é
poderoso	para	guardar	o	que	confiei	a	ele	até	aquele	dia”	(2Tm	1.12);	mas	o
apóstolo	 também	pode	 dizer:	 “Eu	 quero	 conhecer	Cristo	 e	 o	 poder	 da	 sua
ressurreição,	tomar	parte	nos	seus	sofrimentos,	tornando-me	como	ele	na	sua
morte...”	 (Fp	 3.10).	Em	outras	 palavras,	 Paulo	 chegou	 ao	 conhecimento	de
Cristo,	mas,	ainda	assim,	quer	conhecê-lo	melhor.
Semelhantemente,	aquele	que	tem	fome	e	sede	de	justiça	é	abençoado	e
saciado	por	Deus,	mas	a	justiça	com	que	é	saciado	é	tão	maravilhosa	que	ele
tem	fome	e	sede	de	receber	mais.	Esse	ciclo	natural	de	crescimento	é	fácil	de
entender	 tão	 logo	nos	 lembramos	de	que	nesse	 texto	 justiça	não	 se	 refere	a
obedecer	a	certas	regras,	mas	à	conformidade	com	toda	a	vontade	de	Deus.
Quanto	mais	 se	busca	conformidade	com	a	vontade	de	Deus,	mais	atraente
essa	meta	se	torna	para	nós	e	maiores	são	os	avanços	em	sua	direção.
Quinta:	“Bem-aventurados	os	misericordiosos,	pois	a	eles	se	mostrará
misericórdia”	(5.7)
Alguns	 tentam	 interpretar	 esse	 versículo	 de	 forma	 legalista,	 como	 se	 ele
dissesse	 que	 a	 única	 maneira	 de	 obter	 misericórdia	 de	 Deus	 fosse
demonstrando	misericórdia	para	com	os	outros.	Desse	modo,	a	misericórdia
de	 Deus	 passa	 essencialmente	 a	 ser	 dependente	 da	 nossa.	 Esses	 intérpretes
buscam	 apoio	 em	 Mateus	 6.14,15	 (que	 abordaremos	 no	 terceiro	 capítulo):
“Porque,	 se	 vocês	 perdoarem	 aos	 homens	 as	 ofensas	 contra	 vocês,	 o	 Pai
celestial	 também	 perdoará	 vocês.	 Se,	 porém,	 vocês	 não	 perdoarem	 aos
homens	as	ofensas	deles,	tampouco	o	seu	Pai	lhes	perdoará	os	pecados”.	Mas
sempre	que	esses	versículos	são	interpretados	dessa	forma,	penso	que	há	uma
compreensão	 equivocada	 tanto	 do	 contexto	 quanto	 da	 natureza	 da
misericórdia.
O	que	é	misericórdia?	Qual	é	a	diferença	entre	misericórdia	e	graça?	Os
dois	termos	são	frequentemente	sinônimos,	mas,	quando	existe	uma	distinção
entre	 os	 dois,	 parece	 que	 graça	 é	 uma	 resposta	 amorosa	 quando	 não	 se
merece	 amor,	 enquanto	misericórdia	 é	uma	 resposta	 amorosa	 induzida	pela
situação	 de	 infelicidade	 e	 completo	 desamparo	 daquele	 por	 quem	 se	 deve
demonstrar	 amor.	 A	 graça	 responde	 ao	 que	 não	 tem	 merecimento;	 a
misericórdia,	ao	angustiado	e	abatido.
Nessa	bem-aventurança,	Jesus	diz	que	nós	temos	de	ser	misericordiosos.
Temos	 de	 ser	 compassivos	 e	 bondosos,	 sobretudo	 para	 com	 os	 aflitos	 e
desamparados.	 Se	 não	 formos	misericordiosos,	 não	 veremos	 a	misericórdia.
Mas	 como	 pode	 alguém	 que	 não	 é	 misericordioso	 receber	 misericórdia?
Quem	não	é	misericordioso	inevitavelmente	é	tão	ignorante	de	seu	próprio
estado	que	acha	que	não	precisa	de	misericórdia.	Essa	pessoa	não	consegue	se
ver	como	pobre	e	desgraçada.	Portanto,	como	Deus	pode	ser	misericordioso
com	 essa	 pessoa?	 Ela	 é	 como	 aquele	 fariseu	 no	 templo,	 que	 não	 teve
misericórdia	 do	 publicano	 encolhido	 num	 canto	 (Lc	 18.10ss.).	 Em
contrapartida,	o	homem	cuja	vida	reflete	essas	bem-aventuranças	 tem	plena
consciência	de	 sua	miséria	 espiritual	 (Mt	5.3),	 chora	por	 causa	disso	 (5.4)	 e
tem	 sede	 de	 justiça	 (5.6).	 Ele	 é	 misericordioso	 para	 com	 os	 aflitos	 porque
reconhece	que	é	um	deles;	demonstrando	misericórdia,	ele	também	alcançará
misericórdia.
O	cristão,	além	disso,	está	numa	posição	intermediária.	Ele	deve	perdoar
os	outros	porque	antes	Cristo	já	o	perdoou	(cf.	Ef	4.32;	Cl	3.13).	Ao	mesmo
tempo,	 reconhece	 sua	 constante	 necessidade	 de	 mais	 perdão	 e	 se	 torna
também	perdoador	por	causa	dessa	perspectiva	(cf.	Mt	6.14,	e	especialmente
18.21-35).	O	cristão	perdoa	porque	foi	perdoado;	ele	perdoa	porque	precisa
de	perdão.	Precisamente	da	mesma	maneira	e	pela	mesma	razão	o	discípulo
de	Jesus	é	misericordioso.
Dizem	que	um	alcoólatra	que	não	admite	que	é	alcoólatra	odeia	todos	os
outros	alcoólatras.	Do	mesmo	modo,	quase	sempre	também	é	verdade	que	o
pecador	que	não	reconhece	seu	pecado	odeia	todos	os	outros	pecadores.	Mas
a	pessoa	que	reconheceu	o	próprio	desamparo	e	indigência	é	grata	por	toda
misericórdia	que	a	alcança	e	aprende	a	ser	misericordiosa	com	os	outros.
Esse	macarismo	(ou	bem-aventurança)	força	todo	aquele	que	se	declara
discípulo	de	 Jesus	Cristo	 a	 fazer	 a	 si	mesmo	algumas	perguntas	difíceis.	Eu
sou	misericordioso	ou	arrogante	com	os	menos	afortunados?	Sou	bondoso	ou
grosseiro	quando	lido	com	os	marginalizados?	Sou	solícito	ou	insensível	com
os	desvalidos?	Sou	compassivo	ou	impaciente	com	os	oprimidos?
Tenho	 plena	 convicção	 de	 que,	 se	 o	 Espírito	 de	 Deus	 trouxer	 outro
período	de	avivamento	ao	mundo	ocidental,	um	dos	primeiros	 sinais	 será	o
reconhecimento	da	falência	espiritual	que	encontra	satisfação	em	Deus	e	sua
justiça	e	que	resulta	em	plena	misericórdia	para	com	os	outros.
Sexta:	“Bem-aventurados	os	puros	de	coração,	pois	verão	a	Deus”	(5.8)
Nessa	 bem-aventurança,	 nosso	 Senhor	 confere	 bênção	 especial	 não	 aos	 de
intelecto	mais	aguçado	nem	aos	emocionalmente	piedosos,	mas	aos	puros	de
coração.	 Na	 linguagem	 figurada	 bíblica,	 o	 coração	 é	 o	 centro	 da
personalidade.	A	avaliação	que	Jesus	faz	do	coração	natural,	no	entanto,	não	é
muito	 animadora.	 Em	 outra	 passagem	 do	 Evangelho	 de	 Mateus,	 ele	 diz:
“Porque	 do	 coração	 saem	 os	 maus	 pensamentos,	 homicídios,	 adultérios,
imoralidade	 sexual,	 furtos,	 falsos	 testemunhos	e	 calúnias”	 (15.19;	 cf.	 Jr	17.9;
Rm	1.21;	2.5).
Apesar	 desse	 diagnóstico	 horrível,	 a	 sexta	 bem-aventurança	 insiste	 em
que	 a	 pureza	 de	 coração	 é	 o	 pré-requisito	 indispensável	 para	 a	 comunhão
com	Deus,	 para	 “ver”	 a	Deus.	 “Quem	 subirá	 ao	monte	 do	 Senhor?	Quem
permanecerá	no	seu	santo	lugar?	Aquele	que	tem	as	mãos	limpas	e	o	coração
puro,	que	não	entrega	a	alma	à	vaidade,	nem	jura	enganosamente”	(Sl	24.3,4;
cf.	 Sl	 73.1).	Deus	 é	 santo.	Por	 isso,	o	 autor	da	 epístola	 aos	Hebreus	 insiste:
“Esforcem-se	[...]	para	serem	santos.	Sem	santidade	ninguém	verá	o	Senhor”
(Hb	12.14).
Não	 se	 deve	 confundir	 pureza	 de	 coração	 com	 observância	 de	 regras
manifesta	exteriormente.	Como	o	coração	é	que	precisa	ser	puro,	essa	bem-
aventurança	 nos	 faz	 perguntas	 desconcertantes,	 tais	 como:	 Em	 que	 você
pensa	quando	sua	mente	fica	em	ponto	morto?	Quando	fica	sabendo	de	um
caso	em	que	uma	pessoa	passou	 a	perna	 em	outra,	 em	que	medida	 isso	 lhe
causa	satisfação,	 independentemente	do	grau	de	astúcia	e	engenhosidade	do
engodo?	Você	 gosta	 de	 humor	 negro,	 ainda	 que	 seja	muito	 engraçado?	A
que	você	se	dedica	com	fidelidade?	O	que	você	deseja	mais	do	que	qualquer
outra	coisa?	Que	coisas	e	que	pessoas	você	ama?	Até	que	ponto	suas	ações	e
palavras	são	o	reflexo	preciso	do	que	há	em	seu	coração?	Até	que	ponto	suas
ações	 e	 palavras	 são	 uma	 fachada	 para	 esconder	 o	 que	 há	 em	 seu	 coração?
Nosso	coração	tem	de	ser	puro,	limpo	e	sem	mancha.
Naquele	dia,	quando	o	reino	do	céu	se	consumar,	quando	houver	novo
céu	 e	 nova	 terra	 onde	 habita	 somente	 a	 justiça,	 quando	 Jesus	 Cristo	 se
manifestar,	 nós	 seremos	 como	 ele	 (1Jo	 3.2).	 Essa	 é	 a	 nossa	 expectativa	 de
longo	prazo,	nossa	esperança.	Com	base	nisso,	João	afirma:	“Todo	aquele	que
tem	esperança	nele	[isto	é,	em	Cristo]	se	purifica,	assim	como	ele	é	puro”	(1Jo
3.3).	 Em	 outras	 palavras,	 segundo	 João,	 o	 cristão	 se	 purifica	 agora	 porque
puro	é	o	que	ele	há	de	ser	no	final.	Seu	empenho	presente	condiz	com	sua
esperança	futura.	O	mesmo	tema	se	repete	de	várias	formas	em	todo	o	Novo
Testamento.	Em	certo	 sentido,	 é	claro,	 as	 exigências	do	 reino	não	mudam:
perfeição	é	requisito	permanente	(5.48).	Mas	disso	se	conclui	queo	discípulo
de	 Jesus	 que	 anseia	 pela	 consumação	 do	 reino	 em	 sua	 perfeição	 já	 está
determinado	a	se	preparar	para	ele	agora.	Sabendo	que	já	está	no	reino,	ele	se
preocupa	com	a	pureza	porque	reconhece	que	o	Rei	é	puro,	e	o	reino	em	sua
forma	perfeita	só	admitirá	pureza.
Os	puros	de	coração	são	abençoados	porque	verão	a	Deus.	Embora	isso
só	 se	 concretizará	 completamente	 quando	 surgirem	 o	 novo	 céu	 e	 a	 nova
terra,	 já	 é	 verdade	 mesmo	 agora.	 Nossa	 percepção	 de	 Deus	 e	 de	 seu	 agir,
assim	como	nossa	comunhão	com	ele,	depende	de	nossa	pureza	de	coração.	A
visio	Dei	—	que	incentivo	à	pureza!
Sétima:	“Bem-aventurados	os	pacificadores,	pois	serão	chamados	filhos	de
Deus”	(5.9)
Essa	 bem-aventurança	 não	 traz	 bênção	 para	 os	 pacíficos	 nem	 para	 os	 que
anseiam	pela	paz,	mas	para	os	pacificadores,	os	que	estabelecem	a	paz.
Dentro	de	toda	a	estrutura	da	Bíblia,	o	maior	pacificador	é	Jesus	Cristo
—	o	Príncipe	da	Paz.	Ele	estabelece	a	paz	entre	Deus	e	o	homem	removendo
o	pecado,	que	é	o	motivo	do	afastamento.	Ele	traz	a	paz	entre	o	homem	e	seu
semelhante	 removendo	 o	 pecado	 e	 conduzindo	 as	 pessoas	 a	 uma	 relação
direta	 com	 Deus	 (veja	 especialmente	 Ef	 2.11-22).	 Jesus	 deu	 ao	 tradicional
cumprimento	judaico	um	significado	mais	profundo	quando,	após	sua	morte
e	ressurreição,	saudou	seus	discípulos	com	estas	palavras:	“Paz	seja	com	vocês”
(Lc	 24.36;	 Jo	 20.19).	 Assim,	 as	 boas-novas	 de	 Jesus	 Cristo	 são	 a	 maior
mensagem	 de	 paz,	 e	 o	 cristão	 que	 dá	 testemunho	 e	 fala	 de	 sua	 fé	 é,
basicamente,	um	arauto	da	paz,	um	pacificador.	Não	admira	que	Paulo	use	a
linguagem	figurada	de	 Isaías,	que	 retrata	mensageiros	correndo	pelas	 trilhas
da	região	montanhosa	da	Judeia:	“Como	são	belos	sobre	os	montes	os	pés	dos
que	anunciam	boas-novas,	que	proclamam	a	paz,	que	anunciam	coisas	boas,
que	proclamam	a	salvação,	que	dizem	a	Sião:	O	seu	Deus	reina!”	(Is	52.7;	Rm
10.15).
Contudo,	não	há	nada	no	contexto	que	nos	permita	defender	a	ideia	de
que	em	Mateus	5.9	Jesus	está	se	restringindo	à	pacificação	do	evangelho.	Em
vez	disso,	o	discípulo	de	Jesus	Cristo	deve	ser	um	pacificador	no	sentido	mais
amplo	do	termo.	O	papel	de	pacificador	do	cristão	implica	não	só	propagar	o
evangelho,	 mas	 também	 acalmar	 tensões,	 buscar	 soluções,	 garantir	 que	 a
comunicação	seja	eficiente.	Talvez	essa	missão	seja	mais	difícil	nas	situações
em	 que	 há	 envolvimento	 pessoal.	Nesse	 caso,	 é	 preciso	 lembrar	 que	 “a	 ira
humana	não	produz	 a	 justiça	que	Deus	deseja”	 (Tg	1.20)	 e	que	 “a	 resposta
branda	desvia	 o	 furor”	 (Pv	 15.1).	O	 cristão	não	deve	 confundir	 problemas,
mesmo	 os	 importantes,	 com	 sua	 autoimagem;	 e,	 para	 não	 ser	 culpado	 de
gerar	mais	calor	do	que	luz,	ele	deve	aprender	a	baixar	seu	tom	de	voz	quanto
maior	for	a	intensidade	da	discussão,	e	ser	mais	bem	humorado.
Os	pacificadores	são	bem-aventurados	porque	serão	chamados	“filhos	de
Deus”	 —	 no	 gênero	 masculino,	 e	 não	 “descendentes”,	 ou	 qualquer	 outra
linguagem	neutra	que	signifique	filhos	ou	filhas,	como	na	KJV.	A	diferença
nas	palavras	é	sutil,	mas	importante.	No	pensamento	judaico,	“filho	”	(genero
masculino)	em	geral	 tem	o	significado	de	“portador	do	caráter	de”,	ou	algo
assim.	Se	alguém	chama	você	de	“filho	de	um	cão”,	não	está	insultando	seus
pais,	mas	você:	é	você	que	tem	o	caráter	semelhante	ao	de	um	cão.	Por	isso,
“filhos	de	Deus”	pode	ter	uma	conotação	diferente	de	“descendentes	[filhos	e
filhas]	 de	 Deus”.	 As	 duas	 expressões	 podem	 se	 referir	 ao	 mesmo	 tipo	 de
relação	filial,	mas	a	primeira	enfatiza	mais	o	caráter	do	que	a	relação.
A	recompensa	do	pacificador,	portanto,	é	que	ele	será	chamado	de	filho
de	Deus.	Ele	reflete	o	maravilhoso	caráter	pacificador	de	seu	Pai	celestial.	Em
nossos	 dias	 ainda	 existe	 um	 sentido	 em	 que	 os	 cristãos	 intuitivamente
reconhecem	 esse	 aspecto	 divino	 no	 caráter	 do	 pacificador.	 Por	 exemplo,
quando,	em	alguma	convenção	ou	reunião	da	igreja,	os	cristãos	se	envolvem
em	um	debate	acalorado,	o	 irmão	que	permanece	calmo,	escuta	cada	ponto
de	vista	 com	respeito,	 equidade	 e	 educação,	 acalmando	os	 ânimos	 à	 flor	da
pele,	 é	 considerado	 espiritual	 pelos	 outros	 irmãos,	 ainda	 que	 ninguém
manifeste	isso	verbalmente.	Mas	essa	conduta	deveria	ser	considerada	normal
entre	discípulos	de	Jesus	Cristo,	pois	o	próprio	Jesus	instituiu	essa	norma.	Ela
é	aspecto	essencial	do	ser	filho	de	Deus.
Oitava:	“Bem-aventurados	os	perseguidos	por	causa	da	justiça,	pois	deles	é	o
reino	do	céu”	(5.10)
Essa	 última	 bem-aventurança	 não	 diz:	 “Bem-aventurados	 os	 perseguidos
porque	 são	 repreensíveis,	 ou	 porque	 falam	 de	 maneira	 inflamada,	 como
fanáticos	perturbados,	ou	porque	defendem	alguma	causa	político-religiosa”.
A	bênção	se	restringe	aos	que	sofrem	perseguição	por	causa	da	justiça	(cf.	1Pe
3.13,14;	 4.12-16).	 Os	 crentes	 descritos	 nessa	 passagem	 são	 os	 que	 estão
determinados	a	viver	como	Jesus	viveu.
A	 perseguição	 pode	 assumir	 muitas	 formas.	 Não	 precisa	 limitar-se	 às
variadas	experiências	 rigorosas	que	nossos	 irmãos	cristãos	 sofrem	em	alguns
países	 repressores.	 Um	 cristão	 do	 mundo	 ocidental	 que	 pratique	 a	 justiça
talvez	seja	ridicularizado	pela	família,	marginalizado	pelos	parentes.	Mas	até	o
cristão	criado	em	um	lar	seguro	e	compreensivo	terá	de	enfrentar	oposição	e
críticas	em	algum	lugar.	Talvez	no	trabalho	ele	descubra	o	que	alguns	colegas
estão	dizendo	 a	 seu	 respeito:	 “Bom,	 ele	 é	 crente,	né,	mas	 leva	 isso	muito	 a
sério.	 Ele	 nem	 sequer	 trapaceia	 na	 declaração	 do	 imposto	 de	 renda	 para
sonegar.	Outro	dia,	quando	sugeri	que	ele	levasse	para	casa	uma	das	pastas	do
escritório,	porque	 sabia	que	ele	estava	precisando	de	uma	para	guardar	 seus
documentos	pessoais,	ele	disse	que	não.	Quando	insisti,	ele	disse	que	isso	seria
furto!	E	vocês	já	viram	a	cara	fechada	que	ele	faz	quando	eu	conto	uma	das
minhas	piadas?	Que	puritano!”.
A	recompensa	por	ser	perseguido	por	causa	da	justiça	é	o	reino	do	céu.
Em	outras	palavras,	essa	bem-aventurança	serve	de	teste	para	todas	as	outras.
Assim	como	uma	pessoa	deve	ser	pobre	em	espírito	para	entrar	no	reino	(5.3),
ela	 também	 será	 perseguida	 por	 causa	 da	 justiça	 para	 entrar	 no	 reino.	 Essa
última	bem-aventurança	 vem	 a	 ser	 uma	das	mais	 perscrutadoras	 de	 todas	 e
liga	todo	o	resto;	pois,	se	o	discípulo	de	Jesus	nunca	enfrenta	nenhum	tipo	de
perseguição,	pode-se	muito	bem	perguntar	onde	se	mostra	a	 justiça	em	sua
vida.	Se	não	há	justiça,	não	há	conformidade	com	a	vontade	de	Deus,	como
ele	pode	entrar	no	reino?
Esse	 princípio	 fundamental	 reaparece	 repetidamente	 no	 Novo
Testamento.	O	cristão	vive	em	um	mundo	caído.	Por	isso,	se	ele	demonstrar
justiça	 transparente	 e	genuína,	 será	 rejeitado	por	muitos.	A	 justiça	genuína
condena	as	pessoas	implicitamente,	e	não	é	de	admirar	que	elas	quase	sempre
reajam	 atacando,	 em	 represália.	 Desse	 modo,	 pelo	 viver	 justo	 e	 reto,	 os
discípulos	de	Cristo	dividem	as	pessoas	em	dois	grupos:	as	que	são	afastadas
do	 nosso	 precioso	 Salvador	 e	 as	 que	 são	 atraídas	 para	 ele.	O	 próprio	 Jesus
ensinou:
Se	 o	mundo	 os	 odeia,	 tenham	 em	mente	 que	me	 odiou	 primeiro.	 Se	 vocês	 pertencessem	 ao
mundo,	 ele	 os	 amaria	 como	 se	 fossem	 dele.	 Como	 vocês	 não	 pertencem	 ao	 mundo	 —	 pelo
contrário,	eu	os	escolhi	do	mundo	—,	o	mundo	os	odeia.	Lembrem-se	das	palavras	que	eu	lhes
disse:	 “Nenhum	 servo	 é	 maior	 que	 o	 seu	 senhor”.	 Se	 me	 perseguiram,	 também	 perseguirão
vocês.	Se	obedeceram	ao	meu	ensino,	também	obedecerão	ao	de	vocês	(Jo	15.18-20).
Paulo	 acrescenta:	 “Porque	 lhes	 foi	 concedido	 por	 amor	 de	Cristo	 não
somente	crer	nele,	mas	também	sofrer	por	ele”	(Fp	1.29).	“De	fato,	todos	os
que	querem	viver	uma	vida	piedosa	em	Cristo	Jesus	serão	perseguidos”	(2Tm
3.12;	cf.	1Ts	3.3,4).
Essa	 oitava	 bem-aventurança	 é	 tão	 importante	 que	 Jesus	 a	 amplia,
tornando-a	 mais	 ainda	 incisiva	 ao	 trocar	 a	 terceira	 pessoa	 dasbem-
aventuranças	pelo	discurso	direto	em	segunda	pessoa.
Ampliação	(5.11,12)
Bem-aventurados	são	vocês	quando	os	insultarem,	perseguirem	e,	mentindo,	disserem	todo	tipo
de	mal	contra	vocês	por	minha	causa.	Alegrem-se	e	exultem,	porque	sua	recompensa	no	céu	é
grande;	pois	do	mesmo	modo	perseguiram	os	profetas	que	viveram	antes	de	vocês.
Além	 do	 impacto	 do	 discurso	 direto,	 essa	 ampliação	 da	 oitava	 bem-
aventurança	permite	três	importantes	conclusões.
Primeiro,	 o	 sentido	 de	 perseguição	 é	 explicitamente	 ampliado	 e	 inclui
insultos	e	palavras	ditas	com	o	intuito	de	prejudicar.	Não	se	limita	a	tortura
ou	oposição	física.
Segundo,	 Jesus	 faz	 um	 paralelismo	 entre	 a	 expressão	 “por	 causa	 da
justiça”	(5.10)	e	“por	minha	causa”	(5.11).	Isso	confirma	que	a	justiça	de	vida
referida	aqui	é	a	imitação	de	Jesus.	Ao	mesmo	tempo,	esse	paralelo	identifica
de	tal	maneira	o	discípulo	de	Jesus	com	a	prática	da	justiça	de	Jesus	que	não
há	espaço	para	professar	fidelidade	a	Jesus	desacompanhada	de	justiça.
Terceiro,	 é	 clara	 a	ordem	para	que	o	cristão	 se	 alegre	e	exulte	quando
sofrer	perseguição	desse	tipo.	Em	outra	passagem	do	Novo	Testamento,	são
apresentadas	muitas	razões	diferentes	para	se	alegrar	em	meio	às	perseguições.
Os	apóstolos	exultaram	“porque	foram	julgados	dignos	de	sofrer	afrontas	pelo
Nome”	 (At	 5.41).	 Pedro	 entendia	 as	 provações	 como	 meio	 de	 graça	 para
testar	 a	 autenticidade	 da	 fé	 e	 aumentar	 sua	 pureza	 (1Pe	 1.6ss.).	No	Antigo
Testamento	 a	 fornalha	 ardente	 foi	 o	 lugar	 onde	 a	 Presença	 divina,	mesmo
mediante	 um	 emissário	 visível,	 manifestou-se	 a	 três	 jovens	 hebreus	 (Dn
3.24,25).	 Entretanto,	 na	 passagem	 que	 estamos	 examinando,	 vemos	 apenas
um	motivo	 para	 os	 discípulos	 de	 Jesus	 se	 alegrarem	 na	 perseguição,	 e	 essa
razão	 é	 suficiente:	 a	 recompensa	 deles	 no	 céu	 é	 grande.	 Portanto,	 os
discípulos	 de	 Jesus	 têm	 de	 determinar	 seus	 valores	 da	 perspectiva	 da
eternidade	(um	tema	que	Jesus	expande	em	Mt	6.19-21,33),	convencidos	de
que	 suas	 “tribulações	 leves	e	momentâneas	produzem	para	 [eles]	um	eterno
peso	de	glória	que	supera	 todas	elas”	 (2Co	4.17).	Eles	 se	alinharam	entre	os
profetas	que	foram	perseguidos	antes	deles.	Com	isso,	testificam	que	em	todas
as	épocas	o	povo	de	Deus	está	na	linha	de	mira.	Longe	de	ser	uma	perspectiva
deprimente,	 o	 sofrimento	 deles	 na	 perseguição	 —	 a	 qual	 é	 provocada	 pela
retidão	e	justiça	deles	—	é	um	sinal	triunfante	de	que	o	reino	lhes	pertence.
O	TESTEMUNHO	DO	REINO
Mateus	5.13-16
Esses	 versículos	 estão	 ligados	 aos	 anteriores	 de	duas	maneiras.	Em	primeiro
lugar,	 Jesus	 continua	 se	 dirigindo	 a	 seus	 ouvintes	 na	 segunda	 pessoa.	 Em
segundo,	e	mais	importante,	um	tema	implícito	nas	bem-aventuranças	agora
fica	explícito:	o	crente	como	testemunha.
Para	 entender	 como	 isso	 funciona,	 precisamos	 reconhecer	 que	 é
impossível	 seguir	as	normas	do	reino	unicamente	na	vida	privada.	A	 justiça
da	 vida	 que	 o	 crente	 vive	 vai	 chamar	 atenção,	 mesmo	 que	 essa	 atenção
normalmente	 se	 apresente	 em	 forma	 de	 oposição.	 Em	 outras	 palavras,	 o
cristão	não	é	pobre	em	espírito,	não	se	entristece	com	o	pecado,	não	é	manso,
não	 tem	 fome	 e	 sede	 de	 justiça,	 não	 é	 misericordioso,	 puro	 de	 coração	 e
pacificador	—	tudo	isso	—	em	esplêndido	isolamento.	Essas	normas	do	reino,
praticadas	 com	diligência	 em	um	mundo	pecaminoso,	 são	um	dos	 aspectos
principais	 do	 testemunho	 cristão,	 e	 esse	 testemunho	 desencadeia	 a
perseguição.	 Não	 obstante,	 a	 conduta	 dos	 discípulos	 de	 Jesus	 precisa	 ser
analisada	tendo	em	vista	seu	efeito	sobre	o	mundo,	assim	como	a	oposição	do
mundo	 foi	analisada	considerando	seu	efeito	 sobre	o	cristão.	Nos	versículos
13-16,	portanto,	Jesus	cria	duas	metáforas	expressivas	para	retratar	como	seus
discípulos,	mediante	seu	modo	de	viver,	devem	deixar	sua	marca	no	mundo,
este	que	é	tão	contrário	às	normas	do	reino.
Sal	(5.13)
Na	Antiguidade,	 o	 sal	 era	 usado	 principalmente	 como	 conservante.	Como
não	 havia	 refrigerador	 nem	 freezer,	 as	 pessoas	 usavam	o	 sal	 para	 conservar
muitos	alimentos.	Além	disso,	é	claro,	o	sal	também	ajuda	a	dar	sabor.
Na	 primeira	 metáfora,	 Jesus	 compara	 seus	 discípulos	 ao	 sal.
Implicitamente	ele	está	dizendo	que	o	mundo	 sem	seus	discípulos	 fica	cada
vez	mais	 deteriorado:	 a	 presença	 dos	 cristãos	 retarda	 a	 decadência	moral	 e
espiritual.	Se	esses	cristãos	vivem	de	acordo	com	as	normas	dos	versículos	3-
12,	não	há	como	não	exercerem	boa	influência	sobre	a	sociedade.
Mas	 suponhamos	 que	 o	 sal	 perca	 a	 sua	 capacidade	 de	 salgar.	 O	 que
acontece?	Ele	perde	sua	raison	d’être	e	pode	ser	jogado	na	rua	—	o	depósito
de	lixo	dos	tempos	antigos	—	para	ser	pisado	pelos	homens.
Essa	observação	tem	sido	interpretada	de	duas	maneiras.	Como	o	sal,	por
sua	própria	natureza,	não	pode	ser	outra	coisa	senão	sal,	ele	não	pode	perder
sua	salinidade.	Por	isso,	alguns	consideram	que	Jesus	está	dizendo	que	existe
uma	 necessidade	 interior	 que	 leva	 o	 cristão	 a	 testemunhar.	 Para	mim,	 essa
interpretação	 cheira	 a	 pedantismo.	 Embora	 o	 sal	 em	 si	 não	 possa	 perder	 a
salinidade,	 ele	 pode	 ser	 adulterado.	 Se	 for	 suficientemente	 adulterado,
digamos,	por	areia,	ele	não	pode	mais	 ser	usado	como	conservante.	Perde	a
capacidade	 de	 impedir	 o	 apodrecimento	 e	 por	 isso	 tem	 de	 ser	 descartado
como	 um	 produto	 inútil.	 A	 utilidade	 do	 sal	 é	 combater	 a	 deterioração,	 de
modo	que	ele	próprio	não	pode	se	deteriorar.
Quanto	 pior	 o	mundo	 se	 torna	 e	 quanto	mais	 rápido	 ele	 se	 deteriora,
mais	ele	precisa	dos	discípulos	de	Jesus.
Luz	(5.14-16)
A	segunda	metáfora	que	nosso	Senhor	usa	para	se	referir	ao	testemunho	do
cristão	é	a	 luz.	Os	cristãos	são	a	 luz	do	mundo	—	um	mundo	que,	como	se
subentende,	está	imerso	em	densas	trevas.
Jesus	 fala	 de	 duas	 fontes	 de	 luz	 no	 sentido	 físico:	 a	 luz	 de	 uma	 cidade
situada	 sobre	 um	 monte	 e	 a	 luz	 de	 uma	 lâmpada	 sobre	 um	 pedestal.	 A
primeira	fonte,	a	cidade,	muitas	vezes	é	alvo	de	controvérsia.	Alguns	acham
que	Mateus,	ao	 registrar	os	ensinamentos	de	 Jesus,	confundiu-se	e	escreveu
uma	 ilustração	 irrelevante	 sobre	 uma	 cidade	 visível	 a	 uma	grande	 distância
por	 causa	 de	 sua	 altitude.	 Para	 esses,	 a	 ilustração	 é	 original,	mas	 deslocada
num	contexto	relativo	à	luz.	Tais	críticos,	acredito,	só	mostram	com	isso	que
vivem	 no	 mundo	 industrializado,	 onde	 a	 luz	 é	 ampla	 e	 prontamente
disponível.	Eles	não	sabem	quanto	a	natureza	pode	ser	escura.	No	Canadá	é
possível	acampar	a	centenas	de	quilômetros	de	qualquer	cidade	ou	vilarejo.	Se
a	noite	estiver	nublada	e	não	houver	nenhum	objeto	fosforescente	na	área,	a
escuridão	é	total.	Não	se	consegue	enxergar	um	palmo	adiante	do	nariz.	Mas,
se	 houver	 uma	 cidade	 próxima,	 talvez	 a	 uma	 centena	 de	 quilômetros	 de
distância,	 a	 escuridão	 se	 atenua.	 A	 luz	 da	 cidade	 se	 reflete	 nas	 nuvens,	 e	 a
noite,	antes	negra	como	o	breu,	já	não	é	mais	tão	escura.	Da	mesma	forma,	os
cristãos	 que	 deixam	 sua	 luz	 brilhar	 diante	 dos	 homens	 não	 podem	 ser
escondidos,	e	a	boa	luz	que	eles	lançam	ao	redor	atenua	as	trevas	que,	sem	ela,
seriam	absolutas.
Quando	 imaginamos	 um	mundo	 sem	 as	 centenas	 de	watts	 de	 energia
elétrica	a	nossa	disposição,	começamos	a	entender	que	a	escuridão	pode	 ser
um	terror	e	símbolo	de	tudo	o	que	é	mau.	A	luz	da	cidade,	mesmo	que	não
seja	 tão	 intensa	 quanto	 as	 nossas	 modernas	 fontes	 de	 iluminação,	 torna	 as
trevas	um	pouco	mais	suportáveis	do	que	antes.	A	luz	é	tão	importante	que
chega	 a	 ser	 ridículo	 pensar	 que	 alguém	 possa	 querer	 apagar	 a	 chama
bruxuleante	 de	uma	 lamparina	 de	 azeite	 sufocando-a	debaixo	de	um	cesto.
Aquele	pavio	incandescente	pode	projetar	só	uma	luz	fraquinha	pelos	padrões
modernos,	 mas,	 se	 a	 alternativa	 é	 a	 escuridão	 total,	 sua	 luz	 é	 maravilhosa,
suficiente	para	iluminar	todos	os	que	estão	na	casa	(5.15).
“Assimtambém	brilhe	a	luz	de	vocês	diante	dos	homens,	para	que	vejam
as	suas	boas	obras	e	glorifiquem	o	Pai	de	vocês,	que	está	no	céu”	(5.16).	Que
luz	 é	 essa	 com	que	 os	 discípulos	 de	 Jesus	 iluminam	um	mundo	 em	 trevas?
Nesse	contexto,	não	se	fala	em	enfrentamento	pessoal	nem	em	declaração	de
fé	 de	 uma	 igreja.	 Em	 vez	 disso,	 a	 luz	 são	 as	 “boas	 obras”	 realizadas	 pelos
seguidores	 de	 Jesus	 —	 realizadas	 de	 tal	 maneira	 que	 pelo	 menos	 alguns
homens	reconhecem	esses	seguidores	de	Jesus	como	filhos	de	Deus	e	passam
a	glorificar	aquele	que	é	o	Pai	deles	(5.16).
As	normas	do	 reino,	postas	 em	prática	na	vida	dos	herdeiros	do	 reino,
são	 o	 testemunho	 do	 reino.	 Esses	 cristãos	 se	 recusam	 a	 roubar	 seus	 patrões
sendo	 preguiçosos	 no	 trabalho	 ou	 a	 roubar	 seus	 empregados	 sendo
gananciosos	 e	 mesquinhos.	 São	 os	 primeiros	 a	 ajudar	 um	 colega	 em
dificuldade	 e	 os	 últimos	 a	 dar	 uma	 resposta	 grosseira.	 Desejam	 de	 todo	 o
coração	o	 sucesso	 dos	 outros	 e	 detestam	 sinceramente	 as	 piadas	 indecentes.
Com	 honestidade	 transparente	 e	 preocupação	 genuína,	 rejeitam	 tanto	 a
resposta	fácil	do	político	doutrinário	quanto	a	atitude	laissez-faire	do	homem
secular	egoísta.	De	comportamento	manso,	demonstram	ousadia	na	busca	da
justiça.
Por	 vários	 motivos,	 os	 cristãos	 perderam	 essa	 noção	 de	 testemunho	 e
estão	demorando	a	recuperá-la.	Contudo,	em	tempos	melhores	e	em	outras
terras,	 a	 proclamação	 fiel	 e	 divinamente	 capacitada	 do	 evangelho	 de	 Jesus
Cristo	 (que	 é,	 ele	 mesmo,	 a	 luz	 do	 mundo	 par	 excellence	 [Jo	 8.12])
transformou	os	homens	de	tal	maneira	que	eles	se	tornaram	a	luz	do	mundo
(Mt	 5.14).	 Reforma	 do	 sistema	 carcerário,	 assistência	 médica,	 sindicatos
trabalhistas,	 controle	 de	 um	 comércio	 de	 bebidas	 alcoólicas	 pervertido	 e
perversor,	abolição	da	escravatura,	abolição	do	trabalho	infantil,	fundação	de
orfanatos,	reforma	do	código	penal	—	em	todas	essas	áreas,	os	seguidores	de
Jesus	 encabeçaram	 o	 movimento	 em	 busca	 de	 justiça.4	 As	 trevas	 foram
amenizadas.	E,	na	minha	opinião,	isso	acontece	sempre	que	cristãos	professos
estão	menos	 preocupados	 com	 seu	 prestígio	 pessoal	 e	mais	 interessados	 em
seguir	as	normas	do	reino.
“Assim	também	brilhe	a	luz	de	vocês	diante	dos	homens,	para	que	vejam
as	suas	boas	obras	e	glorifiquem	o	Pai	de	vocês,	que	está	no	céu.”
1D.	Martyn	Lloyd-Jones,	 Studies	 in	 the	 Sermon	 on	 the	Mount	 (Grand	Rapids:	 Eerdmans,	 1959-
1960),	 2	 vols.,	 v.	 1,	 p.	 69-70	 [edição	 em	 português:	 Estudos	 no	 Sermão	 do	 Monte	 (São	 José	 dos
Campos:	Fiel,	2018)].
2Uma	referência	a	Salmos	90.10.	(N.	do	T.)
3Op.	cit.,	v.	1,	p.	74.
4Recomendo	 a	 leitura	 de	 livros	 como:	 J.	 W.	 Bready,	 England:	 before	 and	 after	 Wesley	 (Grand
Rapids:	Eerdmans,	1994)	(na	versão	compacta	americana,	o	título	é	This	freedom	—	whence?);	D.	W.
Dayton,	 Discovering	 an	 Evangelical	 heritage	 (Grand	 Rapids:	 Baker	 Academic,	 1988),	 que	 é	 mais
recente.	Embora	suas	análises	 teológicas	nem	sempre	me	convençam,	esses	 livros	mostram	que	quase
todas	 as	mudanças	 sociais	 positivas	 foram	geradas	 pelo	Grande	Avivamento	 liderado	por	 homens	 de
Deus	como	George	Whitefield,	John	Wesley,	Howell	Harris,	Lord	Shaftesbury,	William	Wilberforce
entre	outros.
À
2 O	reino	do	céu:
suas	reivindicações	em	relação	ao	Antigo
Testamento
s	vezes	corremos	o	 risco	de	 tratar	 a	Palavra	de	Deus	como	se	ela	 fosse
uma	coleção	de	pedras	preciosas	soltas	e	não	classificadas.	Assim,	a	Bíblia
torna-se	 uma	 simples	 coletânea	 de	 “pensamentos	 preciosos”.	 Quando	 a
tratamos	 dessa	 forma,	 perdemos	 de	 vista	 muitos	 aspectos	 importantes:	 o
desenvolvimento	 histórico	 dos	 propósitos	 redentores	 de	 Deus;	 o	 grau	 de
compreensão	 teológica	crescente	do	povo	de	Deus	à	medida	que	ele	 revela
mais	 sobre	 si	mesmo	 e	 seus	 caminhos;	 a	 estrutura	 literária	 que	 amarra	 um
livro	 ou	 um	 discurso	 em	 temas	 e	 subtemas	 coesos	 e	 coerentes.	 Em
contrapartida,	 quando	 considerados	 adequadamente,	 esses	 fatores	 históricos,
teológicos	 e	 literários	 constituem	 uma	 contribuição	muito	 importante	 para
nosso	 entendimento	de	 cada	 parte	 da	Bíblia	—	 especialmente	 o	 Sermão	do
Monte.
Veja,	 por	 exemplo,	 a	 estrutura	 literária.	 O	 reino	 do	 céu	 é	 um	 tema
importante	 no	 Evangelho	 de	 Mateus,	 e	 nós	 já	 comentamos	 que,	 com	 o
recurso	 literário	 de	 uma	 inclusio	 (5.3,10),	 ele	 vem	 a	 ser	 o	 tema	 central	 nas
bem-aventuranças.	Além	disso,	os	dezesseis	primeiros	versículos	de	Mateus	5
introduzem	ou	antecipam	todos	os	temas	principais	de	Mateus	5—7	para	levar
o	 leitor	a	um	autoexame	e	despertar-lhe	o	 interesse	pelo	que	vem	a	 seguir.
Esses	capítulos	terminam	com	vários	opostos,	exigindo	que	se	escolha	um	de
dois	 caminhos,	 uma	 de	 duas	 árvores,	 uma	 de	 duas	 alegações,	 um	 de	 dois
fundamentos	(7.13-27).	Entre	a	 introdução	(5.3-16)	do	Sermão	do	Monte	e
sua	 conclusão	 (7.13-27)	 encontra-se	 seu	 corpo	 (5.17—7.12).	 Esse	 corpo	 é
delimitado	 por	 outra	 inclusio,	 isto	 é,	 a	 Lei	 e	 os	 Profetas	 (5.17;	 7.12),	 uma
maneira	 comum	 de	 fazer	 referência	 às	 Escrituras	 do	 Antigo	 Testamento.
Portanto,	 estudando	 5.17-48,	 reconhecemos	 dois	 fatos:	 primeiro,	 estamos
entrando	 no	 corpo	 principal	 do	 Sermão;	 segundo,	 Jesus	 procura	 relacionar
seu	ensino	com	o	Antigo	Testamento.
É	 claro	 que	 era	 de	 esperar	 essa	 ênfase	 no	Antigo	Testamento	 desde	 a
leitura	 da	 introdução,	 os	 primeiros	 dezesseis	 versículos,	 pois	 neles	 Jesus	 diz
que	os	que	praticam	as	normas	do	reino	e,	portanto,	dão	testemunho	do	reino
não	só	receberão	grande	recompensa	no	céu,	mas	também	serão	equiparados
aos	profetas	(5.12).
Assim,	 partindo	 de	 considerações	 predominantemente	 literárias,
chegamos	 a	 temas	 cruciais	 que	 levantam	 importantes	 questões	 históricas	 e
teológicas.	 O	 Sermão	 do	 Monte	 não	 só	 promete	 nos	 dar	 algumas
ponderações	desafiadoras	sobre	pobreza	de	espírito,	justiça,	amor,	perdão	etc.,
mas	 também	 revelar	 algo	 sobre	 como	 o	 próprio	 Jesus	 vê	 o	 seu	 lugar	 na
história,	 a	 relação	 entre	 sua	 pregação	 do	 reino	 e	 as	 Escrituras	 do	 Antigo
Testamento.
Além	 disso,	 se	 entendemos	 que	 Jesus	 ensinava	 como	 um	 judeu	 do
primeiro	século	a	judeus	do	primeiro	século,	devemos	esperar	que	seu	ensino
se	 organize	 em	 categorias	 voltadas	 principalmente	 para	 a	 compreensão	 de
seus	 ouvintes	 e	 com	 o	 objetivo,	 pelo	menos	 em	 parte,	 de	 corrigir	 ideias	 e
crenças	 do	 primeiro	 século	 que	 ele	 considerava	 errôneas.	 Essa	 observação
ancora	à	história	a	revelação	de	Deus	mediante	Jesus	Cristo	e,	como	veremos,
melhora	nosso	entendimento	do	Sermão	do	Monte.
JESUS	COMO	CUMPRIMENTO	DO	ANTIGO
TESTAMENTO
Mateus	5.17-20
Os	versículos	de	Mateus	5.17-20	estão	entre	os	mais	difíceis	da	Bíblia.	Num
olhar	superficial,	fica	claro	de	que	eles	tratam.	Jesus	retoma	o	tema	do	reino
(mencionado	 três	 vezes	 em	5.19,20)	 e	 agora	o	 correlaciona	 com	a	Lei	 e	os
Profetas.	Esses	versículos,	portanto,	servem	de	introdução	aos	cinco	blocos	de
texto	que	compõem	o	restante	do	capítulo.
Também	está	claro	que	Mateus	5.17,18	retrata	a	elevada	estima	de	Jesus
pelo	 que	 chamamos	 de	 Escrituras	 do	 Antigo	 Testamento.	 Jesus	 não	 veio
abolir	esses	escritos.	Ao	contrário,	ele	 reconhece	a	 imutabilidade	deles	até	a
menor	 letra,	o	“jota”,	ou	mesmo	o	menor	 sinal	 feito	pela	pena.	Esse	menor
sinal,	 o	 “til”	 (KJV),	 é	 o	 que	 hoje	 chamaríamos	 de	 serifa,	 o	 pequeno
prolongamento	 de	 algumas	 letras	 que	 distingue	 os	 tipos	 antigos	 dos	 mais
modernos.	 Em	 hebraico,	 esse	 diminuto	 prolongamento	 é	 necessário	 para
diferençar	 alguns	 pares	 de	 letras.	 Portanto,	 Jesus	 está	 corroborando	 a
confiabilidade	e	a	veracidade	do	texto	escrito.	Não	está	simplesmente	dizendo
que	 o	 Antigo	 Testamento	 contém	 alguma	 verdade,	 muito	 menos	 que	 se
torna	verdade	quando	os	homens	têm	um	encontro	significativo	com	ele.	EmJesus	é	concebida	não	 só	para	o	período	até	 seu
segundo	advento,	mas	também	para	toda	a	eternidade;	pois,	embora	o	céu	e	a
terra	passem,	as	palavras	de	Jesus	jamais	passarão.
Uma	 segunda	 interpretação	 do	 Sermão	 do	 Monte	 é	 a	 existencial.	 De
acordo	 com	 essa	 perspectiva,	 o	 sermão	 não	 deve	 ser	 tomado	 como	 uma
exposição	 de	 princípios	 éticos	 concretos	 revestida	 de	 autoridade,	mas,	 sim,
como	 um	 desafio	 à	 decisão	 pessoal.	 Ele	 orienta	 a	 vida	 em	 direção	 a	 uma
perspectiva	 “escatológica”.	 Porém,	 com	 “escatológico”,	 os	 existencialistas
teológicos	não	querem	dizer	 que	 a	 era	 vindoura	 deva	 ser	 levada	 a	 sério	 ou
que	 ela	 já	 se	 justapõe	 à	 era	presente.	De	 fato,	 essas	 categorias	 temporais	 de
escatologia	 são	 sumariamente	 rejeitadas	 por	 serem	 consideradas	 construtos
míticos.	A	escatologia	é	reinterpretada;	a	tensão	bíblica	entre	a	vida	presente
e	o	 juízo	 final	é	 substituída	por	uma	 tensão	entre	vida	e	conduta	como	são
agora	 e	 vida	 e	 conduta	 como	deveriam	 ser.	Mas	 o	 que	 “deveria	 ser”	 não	 é
formulado	 relativamente	 às	 proposições	 do	 Sermão	 do	 Monte,	 mas	 em
relação	a	uma	atitude	de	abertura	para	o	 futuro,	que	traz	consigo	constante
autoexame	e	arrependimento.
Confesso	 que	 tenho	 muita	 dificuldade	 de	 ser	 complacente	 com	 essa
interpretação.	 Se	 o	 existencialismo	 teológico	 quer	 construir	 seus	 próprios
modelos	 éticos,	 tudo	 bem;	 mas	 não	 deve	 tentar	 impingi-los	 ao	 Novo
Testamento.	 Segundo	 essa	 concepção,	 a	 revelação	 proposicional	 é	 em
princípio	 impossível	—	assim	como	a	 intervenção	 sobrenatural	de	um	Deus
pessoal/infinito.	 Por	 conseguinte,	 os	 dados	 bíblicos	 são	 filtrados	 através	 de
uma	peneira	concebida	para	separar	e	remover	todo	esse	material	(“demitizar
o	 texto”).	 A	 estrutura	 resultante	 se	 encaixa	 perfeitamente	 nas	 categorias
existenciais,	mas	muito	mal	nos	textos	bíblicos.
Uma	terceira	abordagem	insiste	em	que	o	Sermão	do	Monte	é	destinado
a	 toda	 a	 presente	 era	 e	 deve	 ser	 rigorosamente	 obedecido.	 Geralmente,	 os
defensores	dessa	posição	 se	dividem	em	dois	grupos.	O	primeiro	diz	que	o
Sermão	do	Monte	é	lei	e	não	evangelho,	e	como	tal	não	é	compatível	com	a
teologia	paulina.	 Jesus	e	Paulo,	 segundo	essa	concepção,	não	andam	juntos.
De	fato,	Paulo	é	culpado	de	distorcer	a	doutrina	de	Jesus.	O	outro	grupo	é
muitas	vezes	associado	com	a	tradição	anabatista.	Ele	considera	que	o	Sermão
do	 Monte	 é	 uma	 reflexão	 precisa	 da	 vontade	 divina	 e	 deve	 ser	 obedecido
tanto	individual	quanto	coletivamente.	Esse	grupo	sustenta	que	a	salvação	é
pela	graça,	por	meio	da	fé,	mas	que	a	necessária	manifestação	dessa	salvação	é
uma	 vida	 em	 conformidade	 com	 os	 preceitos	 do	 Sermão	 do	 Monte.	 Em
geral,	o	pacifismo	faz	parte	dessa	vertente.	Portanto,	se	Deus	deu	a	espada	ao
Estado	 (Rm	 13.1ss.),	 segue-se	 que	 os	 cristãos	 não	 só	 devem	 se	 abster	 de
qualquer	 participação	 nas	 forças	 militares	 e	 policiais,	 mas	 também	 devem
evitar	todas	as	posições	políticas	que	requeiram	decisões	associadas	de	algum
modo	a	essas	forças.
Essas	 duas	 perspectivas	 levam	 o	 Sermão	 do	 Monte	 a	 sério.	 Contudo,
discordo	 da	 primeira	 porque	 ela	 não	 dá	 a	 devida	 importância	 à	 história	 da
salvação.	 Alegar	 antagonismo	 entre	 a	 doutrina	 de	 Jesus	 e	 a	 de	 Paulo	 é	 ser
insensível	ao	progresso	da	revelação	produzido	pela	obra	de	Cristo	na	cruz,
sua	 ressurreição	 e	 ascensão.	 Esse	 ponto	 de	 vista	 ignora	 os	 aspectos
escatológicos	 da	 própria	 pregação	 de	 Jesus	 e	 a	 forte	 ênfase	 que	 o	 próprio
Sermão	do	Monte	dá	à	pobreza	de	espírito	e	à	importância	de	pedir	e	buscar.
Ignora	também	que	o	Sermão	do	Monte	reconhece	a	necessidade	da	graça.
A	segunda	perspectiva,	a	tradição	anabatista/menonita,	considero	muito
atraente.	Contudo,	minha	própria	exposição	do	Sermão	do	Monte	mostrou
onde	eu	me	afasto	dela.	Penso	que	essa	interpretação	não	é	sensível	à	forma
antitética	que	Jesus	normalmente	prega	e	por	isso	acaba	lendo	mais	no	texto
do	que	 Jesus	ou	Mateus	defenderia.	O	Sermão	em	 si	não	é	um	comentário
definitivo	 sobre	 assuntos	 como	 guerra	 e	 pena	 capital	 —	 existem	 outras
considerações	 bíblicas.	Além	do	mais,	 fazer	 da	 proibição	 dessas	 coisas	 parte
essencial	da	 lei	moral	parece	dizer	que	houve	um	progresso	moral	em	Deus
ou	 nos	 seus	 mandamentos.	 Isso	 é	 de	 fundamental	 importância,	 pois	 dá	 a
entender	 que	 as	 ordens	 anteriores	 de	 Deus	 na	 verdade	 estavam	 em
contradição	 com	 sua	 verdadeira	 vontade.	 Se	 a	 moralidade	 não	 está
diretamente	relacionada	com	o	que	Deus	realmente	aprova,	mas	apenas	com
o	que	ele	ordena,	uma	tensão	terrível	se	estabelece	nele.	Além	disso,	o	modo
pelo	 qual	 o	 Novo	 Testamento	 trata	 a	 igreja	 não	 exige	 que	 os	 cristãos	 se
mantenham	 tão	 longe,	 digamos,	 da	 política	 quanto	 essa	 perspectiva	 parece
sugerir.
Uma	 quarta	 proposta	 para	 o	 significado	 do	 Sermão	 do	 Monte	 é	 a
defendida	 pela	 ortodoxia	 luterana.	 Ela	 afirma	 que	 o	 Sermão	 é	 um	 ideal
inatingível,	cujo	propósito	é	conscientizar	as	pessoas	de	seus	pecados	e	fazê-
las	 buscar	 perdão	 em	 Cristo.	 O	 Sermão,	 portanto,	 é	 basicamente	 uma
preparação	para	o	evangelho.	Essa	posição	faz	justiça	a	algumas	relações	entre
Jesus	 e	 Paulo,	 porém	 ela	 se	 parece	 mais	 com	 uma	 conclusão	 de	 teologia
sistemática	aplicada	cedo	demais	do	que	com	exegese	do	texto.
Uma	quinta	abordagem	é	a	do	liberalismo	clássico,	popular	no	início	do
século	20.	A	ortodoxia,	que	enfatizava	a	necessidade	de	redenção	do	homem,
a	morte	expiatória	de	Cristo	e	o	novo	nascimento	sobrenatural	foi	substituída
pelo	liberalismo	otimista,	que	considerava	o	Sermão	do	Monte	o	verdadeiro
evangelho,	o	evangelho	em	versão	condensada.	O	Sermão	passou	a	ser	visto
como	o	conjunto	dos	princípios	gerais	para	a	construção	de	uma	civilização
progressista.	Mas	esse	 sonho	do	 liberalismo	clássico	 foi	estilhaçado	por	duas
guerras	mundiais.	O	liberalismo	esqueceu	que	a	natureza	humana	precisa	de
perdão	e	ajuda.	Nutrido	por	uma	fé	otimista	na	inevitabilidade	do	progresso
evolutivo,	o	 liberalismo	de	 fato	 substituiu	o	 evangelho	verdadeiro	por	uma
filosofia	 de	 progresso	 secular.	 Sem	 consciência	 da	 subjetividade	 de	 suas
escolhas,	 essa	 corrente	 selecionou	as	partes	da	 revelação	bíblica	que	mais	 se
encaixavam	em	seu	espírito	e	teoria	e	descartou	o	resto.	O	resultado	deixou	o
ser	humano	sem	Salvador,	sem	Redentor,	sem	graça	divina,	sem	o	poder	do
Espírito,	 mas	 apenas	 com	 um	 lindo	 padrão	 moral,	 que	 o	 homem	 acabou
descobrindo	 que	 não	 era	 capaz	 de	 reproduzir	 contando	 apenas	 com	 seu
próprio	esforço.
Uma	 interpretação	 mais	 recente	 vê	 o	 Sermão	 do	 Monte	 como	 um
material	 catequético	 preparado	 pela	 igreja,	 parte	 do	 qual	 remonta	 ao	 Jesus
histórico.	Por	ser	um	material	catequético,	o	Sermão,	segundo	essa	tese,	era
sempre	 precedido	 da	 proclamação	 do	 evangelho	 e	 da	 conversão	 pessoal.	O
evangelho	 precede	 as	 exigências	 éticas	 do	 Sermão	 do	 Monte.	 Portanto,	 o
chamado	 de	 Jesus	 ao	 discipulado	 é	 dirigido	 apenas	 àqueles	 sobre	 quem	 o
poder	de	Satanás	já	foi	destruído	pelo	evangelho	e	que	já	é	herdeiro	do	reino
de	Deus.
O	 principal	 problema	 dessa	 interpretação	 é	 que	 ela	 não	 trata	 o
Evangelho	de	Mateus	como	um	documento	histórico	(e	teológico)	sério.	Se
Jesus	 nunca	 pregou	 um	 Sermão	 do	 Monte	 ou	 nem	 mesmo	 forneceu	 o
material	essencial	contido	em	Mateus	5—7,	então	é	legítima	a	hipótese	de	que
a	 ênfase	 paulina	 na	 graça,	 salvação,	 conversão	 e	 transformação	 precede	 o
conteúdo	 “catequético”	 do	 Sermão	 do	 Monte.	 Mas,	 se	 ele	 pregou	 esse
Sermão,	 então,	 mesmo	 que	 seu	 material	 tenha	 sido	 moldado	 de	 alguma
maneira	pela	preocupação	da	igreja	com	a	catequese	dos	novos	convertidos,
não	existe	justificativa	para	minimizar	a	importância	teológica	da	pregação	de
Jesus	em	seu	primeiro	contexto	histórico	com	base	nessa	catequese.
A	 esta	 altura,	 já	 deve

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