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ESTRUTURAS PSICANALÍTICAS AULA 4 Prof.ª Juliana dos Santos Lourenço 2 CONVERSA INICIAL Já caminhamos bastante e passamos por conceitos fundamentalmente teóricos. Agora, para dar continuidade ao nosso percurso sobre os estudos das estruturas psicanalíticas, passaremos a estudar o modo clínico como cada estrutura se apresenta. Começaremos pela neurose, considerando que a psicanálise foi inicialmente desenvolvida com o objetivo de tratá-la. Assim, nesta etapa, procuraremos destacar o recalque que é por excelência o mecanismo específico da neurose; sua principal função é afastar da consciência todas as representações insuportáveis, mantendo-as no inconsciente. Essa dinâmica dá origem a um conflito interno: de um lado, a força com que o conteúdo recalcado busca voltar à consciência e, de outro, o desejo de não saber nada sobre isso. Essa tensão é o que Freud identifica como o núcleo do conflito neurótico, que resulta no surgimento de sintomas como forma de compromisso com o conteúdo recalcado. TEMA 1 – O RECALQUE O inconsciente na metapsicologia freudiana está indissociável do mecanismo do recalque. Foi por meio da concepção do recalque que Freud concebeu a dinâmica entre as áreas do psiquismo, pois, ainda que certos conteúdos não consigam chegar à consciência, eles continuam influenciando a vida consciente e suas representações, deixando marcas que produzem efeitos perceptíveis. Uma das primeiras teses de Freud sobre a origem do conflito psíquico foi apresentada no Projeto para uma psicologia científica, de 1895 (Freud, 1986). Nesse artigo, ele aponta para a perspectiva econômica do aparelho psíquico, na qual a consciência é responsável pelo processo de descarga do excesso de tensão. No entanto, diante de lembranças ou experiências extremamente penosas, a consciência pode se tornar incapaz de processar essas representações, acionando o mecanismo do recalque como forma de defesa, que afasta essas lembranças da consciência, relegando-as ao inconsciente. 3 No artigo O recalque, de 1915, Freud traz novas definições. Ele conclui que o recalque é um mecanismo de defesa do eu, que atua tornando as forças pulsionais ineficazes, ou seja, impedindo que elas se manifestem na consciência. Nesse sentido, o recalque seria o principal destino das pulsões, pois, nesse contexto, a satisfação pulsional geraria um sentimento de desconforto ou frustração em vez de prazer, motivo pelo qual a resistência por parte do eu se opõe à sua plena expressão. Assim, o recalque está diretamente ligado ao funcionamento psíquico, impondo uma barreira para impedir que conteúdos inconscientes cheguem à consciência. Contudo, Freud ressalta que esses conteúdos recalcados e reprimidos não permanecem passivos; pelo contrário, eles ganham força e uma maior organização no inconsciente, gerando um embate constante entre a repressão (censura por parte do ego) e a expressão dos conteúdos inconscientes, sendo essa dinâmica o que caracteriza o conflito central da neurose. Portanto, a neurose é compreendida como o resultado de um conflito psíquico que impede a realização das descargas pulsionais necessárias, levando à formação de um estado recalcado. Otto Fenichel (2004, p. 119) descreve esse processo ao afirmar que “o conflito neurótico é um conflito que surge entre uma tendência que busca a descarga e outra tendência que tenta impedir essa realização”. Esse embate interno entre forças psíquicas reflete a dinâmica central da neurose, em que o recalque desempenha um papel fundamental ao bloquear e redirecionar a energia pulsional. No decorrer de sua prática clínica, Freud percebeu que o recalque, embora tenha como objetivo afastar da consciência representações consideradas insuportáveis, é um mecanismo que não funciona de maneira totalmente eficiente. Esses conteúdos reprimidos, apesar de serem mantidos no inconsciente, não desaparecem; ao contrário, eles retornam de forma disfarçada. Esse retorno acontece por meio de formações inconscientes que encontram maneiras indiretas de se expressar, como sonhos, atos falhos ou, principalmente, sintomas. Foi assim que Freud nomeou o sintoma como a manifestação de um compromisso entre o conteúdo recalcado e a resistência da 4 consciência. O sintoma da neurose, portanto, é o reflexo do conflito psíquico entre o desejo reprimido e a barreira imposta pelo recalque. TEMA 2 – NEUROSE Os sintomas neuróticos são vistos como manifestações das mais sofisticadas do material recalcado, que, apesar de ser reprimido, consegue alcançar a consciência, pois, como aponta Freud, o recalque sempre fracassa. No entanto, esse acesso não ocorre de forma direta, mas por via de distorções, que seguem as leis que governam o inconsciente, dando origem aos sintomas pelos mecanismos de deslocamento e condensação, assim como apresentados em A interpretação dos sonhos, de 1900. A propósito dos sonhos, vale lembrar que foi através deles que Freud pode conceber os mecanismos que regem o funcionamento psíquico. Para ele, os sonhos são a via régia do inconsciente, de modo que sua interpretação é a chave para entender as leis do inconsciente. Freud (1900) declara: “o sonho é a realização de um desejo inconsciente”. Todavia, trata-se de uma realização disfarçada de um desejo reprimido que, durante o sono, encontra um rebaixamento da repressão, por meio da qual o conteúdo reprimido reaparece nos sonhos via mecanismos de deslocamento e condensação. Essas distorções permitem que conteúdos reprimidos se expressem de forma disfarçada, tornando-se mais aceitáveis para a consciência. Se essas distorções não ocorressem, o material recalcado permaneceria completamente inacessível à consciência. Da mesma forma, os sintomas mantêm compromisso com o conteúdo inconsciente. Outra forma de acessar o inconsciente, segundo Freud, é por meio do chiste, as tiradas espirituosas. Nesse caso, o chiste serve como uma expressão indireta de conteúdos reprimidos, revelando o caráter incompleto do recalque, um non sense. Por exemplo: quando uma pessoa faz uma piada ou um comentário espirituoso, ela, sem perceber, pode estar trazendo à tona pensamentos ou desejos inconscientes de uma forma disfarçada: “morri, mas estou bem”. Assim, em vez de provocar desprazer, como normalmente ocorreria com esses conteúdos recalcados, o chiste temporariamente transforma esse 5 desprazer em prazer. O que seria, num outro contexto, uma representação insuportável, ao ser disfarçado de forma engraçada ou espirituosa acaba sendo percebido como algo agradável, permitindo que o inconsciente se manifeste sem gerar um impacto negativo direto. Outro apontamento sobre as formas como o inconsciente se manifesta refere-se ao ato falho. Nessa manifestação, considera-se que certos acontecimentos aparentemente não intencionais não são meras coincidências, mas possuem causas determinadas por motivos inconscientes. Dito de outra forma, erros como lapsos de fala, esquecimentos ou ações involuntárias podem revelar desejos, conflitos ou pensamentos que estão reprimidos no inconsciente, manifestando-se de forma indireta. Assim, aquilo que parece acidental pode, na verdade, ter um significado oculto ligado ao funcionamento psíquico. Por exemplo: com um pai acamado por muitos meses, em uma crise em que foi internado, o filho chega para sua mãe e pergunta “o que deu no exame de óbito?”. O sofrimento que o filho sentia em ver seu pai acamado e inválido o fazia desejar sua morte, motivo pelo qual a ideia reprimida reaparece no ato falho, em que exame de sague é trocado por exame de óbito. O recalque na neurose está profundamente conectado ao complexo de Édipo, como apresentamos nas etapas anteriores, pois é a partir dele que o desejo proibido se estabelece, criando um conflito interno no sujeito. Essedesejo, considerado inaceitável ou ameaçador, é afastado da consciência por meio do recalque, mas continua atuando no inconsciente. Esse processo gera uma divisão no sujeito: de um lado, há a força que busca reprimir o desejo proibido, enquanto, de outro, permanece o impulso inconsciente que tenta manifestar-se. Essa tensão define a relação conflituosa do sujeito com seu próprio desejo, característica central na estrutura neurótica que estará sempre atrelada à fantasia edipiana. TEMA 3 – A CLÍNICA DA FANTASIA Se fossemos esquematizar o destino dos acontecimentos psíquicos na neurose, poderíamos colocá-los nesta ordem: Inconsciente – Pulsão – Desejo – Recalque – Fantasia Sintoma 6 Resumidamente, podemos traçar da seguinte maneira o caminho que Freud percorreu para estabelecer a clínica da neurose articulada à fantasia: 1º) Verificamos que Freud situou no início da vida psíquica uma afirmação primitiva (bejahung) que, quando ocorre, dispõe o sujeito a uma relação com o Outro. Assim, o inconsciente vai sendo marcado pulsionalmente pelas experiências de prazer e desprazer que se originam no corpo e fazem fronteira com o psiquismo. O corpo funciona como uma superfície na qual são registradas as primeiras experiências que deixam marcas psíquicas. Nesse sentido, ele se torna o centro dos investimentos pulsionais, passando de um corpo puramente natural (um pedaço de carne) para estruturar-se no campo simbólico. Esse processo implica uma perda de um gozo original, ou seja, uma renúncia necessária para que o indivíduo possa ingressar no campo simbólico e fazer parte de uma ordem social. Veja que até aqui estamos no campo do inconsciente, pois vale ressaltar que o inconsciente não é formado só pelo recalcado, mas pela totalidade das experiências, sendo o núcleo das pulsões. 2º) A pulsão é a energia sexual humana, portanto, é ela que nos diferencia do instinto sexual dos outros animais. A pulsão é uma força constante no psiquismo, de modo que ela nunca renuncia a uma experiência de prazer, exercendo força para reencontrar o objeto da satisfação. Porém, no desenvolvimento psicossexual essa busca encontra uma barreira que impede sua satisfação. Essa barreira foi posta por Freud através do mito de Édipo e interpretada por Lacan na metáfora paterna. 3º) Diante de uma lei que impede a satisfação pulsional, entra em cena o recalque, que separa da consciência o conteúdo inapropriado. Assim, o sujeito experimenta a falta, pois se vê obrigado a renunciar ao objeto de sua satisfação. 4º) O sentimento da falta faz com que o sujeito deseje o objeto renunciado e perdido. Nesse ponto, o falo é elevado ao significante do desejo do Outro, já que o Outro também está em busca do objeto da satisfação. 5º) Para dar conta do seu desejo marcado pela falta, o sujeito passa a investir na fantasia, configurando o “ciclo da fantasia”, nomeado assim por Coutinho Jorge (2010), cujo encadeamento transcorre em uma lógica entre o inconsciente e a pulsão. 7 a fantasia representa, como no sonho, a realização de um desejo. São os desejos insatisfeitos que constituem a força motivadora das fantasias, por isso Freud utiliza frequentemente a expressão fantasia de desejo. Sabemos com Freud, desde A interpretação dos sonhos, que nada a não ser o desejo está em condições de acionar nosso aparelho psíquico. (Coutinho Jorge, 2010, p. 46) Freud (1911) conclui que a fantasia é uma “moeda neurótica”, ou seja, uma forma de continuar investindo nos objetais mesmo quando levado a renunciá-lo para viver em sociedade. O sintoma surge quando o investimento libidinal colocado na fantasia de um desejo reprimido intensifica-se, de modo que esse investimento libidinal cresce a ponto de exercer pressão para tornar-se realidade. Nesse processo, a libido recolhe-se nos pontos de fixação libidinal do objeto externo, abrindo caminho para a satisfação recalcada através das fantasias. 3.1 Sintoma Veja, então, que o sintoma é o efeito de toda essa articulação entre inconsciente x pulsão x desejo x recalque x fantasia. Dessa forma, enquanto a psicologia e a medicina geralmente tratam os sintomas como disfunções a serem corrigidas, a psicanálise busca compreender a lógica inconsciente que os sustenta. Por meio de uma escuta atenta, a psicanálise investiga a posição fantasística subjacente aos sintomas, reconhecendo-os como expressões de um conflito psíquico e não apenas como perturbações a serem eliminadas. Portanto, para a psicanálise o sintoma permite que o sujeito permaneça em um modo de satisfação fantasmático, funcionando como uma forma substitutiva de realização da pulsão. Esse processo ocorre por meio da criação de novas formas de satisfação libidinal que operam a partir de deslocamento e condensação/metáfora e metonímia, isto é, como uma estrutura de linguagem. TEMA 4 – SINTOMAS HISTÉRICOS Para a psicanálise, a histeria é compreendida como uma forma de o sujeito neurótico enlaçar-se e tecer sua realidade e suas relações com os outros com base em suas fantasias. Dessa forma, a histeria não pode ser reduzida a 8 uma perturbação individual; ela é um modo específico de subjetivação e de relação com o mundo em que as fantasias inconscientes estruturam a maneira como o sujeito se insere nos laços sociais. Nesse sentido, Coutinho Jorge (2010) explica que a fantasia é uma espécie de matriz psíquica que funciona mediatizando o encontro do sujeito com o real. Assim, a fantasia não apenas organiza a experiência subjetiva, mas também constitui o próprio princípio da realidade para cada indivíduo. “Essa fantasia, em que o sujeito é preso, é, como tal, o suporte do que se chama expressamente, na teoria freudiana, o princípio de realidade” (Lacan citado por Coutinho Jorge, 2010, p. 77). Ao distinguir a fantasia inconsciente do histérico, Freud aponta para a vivência traumática do encontro com o sexo. No entanto, como destacam Coutinho Jorge e Travasso (2021, p. 60), esse evento traumático não é por conta de um acidente externo, mas sim algo inevitável – um “trauma contingencial”: “Trata-se aqui do real inerente ao pulsional, do inassimilável inerente à sexualidade, com sua intensidade e excesso”. A sexualidade, devido a sua intensidade corporal, apresenta-se como uma experiência que ultrapassa a capacidade do psiquismo, ainda arcaico, de representá-la plenamente. Isso se deve à falta de uma inscrição simbólica da diferença sexual no inconsciente, ou seja, não há um significante que dê conta plenamente dessa diferença. Dessa forma, Freud indica que o sujeito histérico, ao vivenciar o trauma contingente da estruturação psíquica, encontra-se em um paradoxo em relação ao próprio corpo e ao sexo. Como destacam Coutinho Jorge e Travasso (2021, p. 61), “podemos dizer que na histeria todo o corpo é sexualizado, exceto o próprio sexo.” Isso significa que, na histeria, a excitação libidinal desloca -se para diversas partes do corpo, manifestando-se em sintomas somáticos, motivo pelo qual a eleição pela parte do corpo não obedece à anatomia, ao significante inconsciente. No texto Fragmento da análise de um caso de histeria, de 1905, Freud afirma: “Eu tomaria por histérica, sem hesitação, qualquer pessoa em quem uma oportunidade de excitação sexual despertasse sentimentos preponderantes ou 9 exclusivamente desprazerosos, fosse ela ou não capaz de produzir sintomas somáticos.” Essa definição ressalta que, para Freud, a histeria não pode ser reconhecida apenas pela manifestação de sintomas físicos, como paralisias ou dores sem causa orgânica aparente. Mas o critério central para a constatação de um discurso histérico está na forma como o sujeito reage à excitação sexual: se essa experiência for predominantemente marcada pelo desprazer ou pelo conflito psíquico, já se pode identificar um funcionamento histérico,independentemente da presença de sintomas corporais evidentes. A inibição sexual histérica, no entanto, não deve ser entendida como um simples retraimento ou recuo passivo. Nasio (1991) explica que na verdade trata- se de um movimento ativo de rechaço. Isso significa que, em vez de apenas evitar a sexualidade, o sujeito histérico estabelece uma dinâmica de resistência e negação, muitas vezes marcada por um jogo ambivalente de desejo e recusa. Esse mecanismo reflete o conflito inconsciente característico da histeria, no qual o sujeito erotiza o corpo, mas ao mesmo tempo impede a vivência plena da sexualidade, deslocando a excitação para outros territórios psíquicos e corporais. A impotência, a ejaculação precoce, o vaginismo ou a frigidez, todos são distúrbios característicos da vida sexual do histérico, os quais, de uma maneira ou de outra, exprimem a angústia inconsciente do homem de penetrar no corpo da mulher, e a angústia inconsciente da mulher de se deixar penetrar. O paradoxo do histérico diante da sexualidade caracteriza-se, portanto, por uma contradição: de um lado, há homens e mulheres excessivamente preocupados com a sexualidade, procurando erotizar toda e qualquer relação social, e de outro, eles sofrem – sem saber por que sofrem – por ter que passar pela experiência do encontro genital com o sexo oposto. (Nasio, 1991, p. 45) Portanto, é fundamental compreender que a sexualidade histérica não se baseia na genitalidade, mas sim em um “simulacro de sexualidade”. Isso significa que o gozo histérico reside mais na produção de sinais sexuais do que na efetiva realização do ato sexual ao qual esses sinais parecem remeter. Como aponta Nasio (1991, p. 18), “se há um desejo a que o histérico se atém é o de que esse ato (sexual enunciado por ele) fracasse; mais exatamente, ele se apega ao desejo inconsciente de não realização do ato”. Em outras palavras, para o 10 histérico, o verdadeiro desejo não está na satisfação plena, mas na manutenção do desejo como algo sempre insatisfeito. Isso porque o desejo histérico se alimenta da própria falta, mantendo-se em um estado constante de tensão e busca, sem nunca se resolver completamente na realização do ato sexual. o histérico é fundamentalmente um ser de medo que, para atenuar sua angústia, não encontrou outro recurso senão manter incessantemente, em suas fantasias e em sua vida, o doloroso estado de insatisfação, pois, para ele, o perigo pressentido que o levaria a seu aniquilamento é “o perigo de viver o gozo máximo”. (Nasio 1991, p. 15) O sujeito histérico, portanto, mantém-se em um estado de insatisfação fantasmática como forma de defesa contra um gozo excessivo. Para evitar a ameaça de um gozo pleno e avassalador, ele constrói, de maneira inconsciente, um cenário fantasístico no qual a falta mantém-se como elemento central. Nesse jogo psíquico, o histérico busca constantemente provar a si mesmo que algo lhe escapa, garantindo, assim, que seu desejo permaneça insatisfeito. Dessa forma, a insatisfação não é apenas uma consequência, mas uma condição estruturante de seu modo de gozar. Nota O paradigma da estrutura histérica foi apresentado por Freud no Caso Dora, publicado no artigo Fragmento da análise de um caso de histeria, de 1905. TEMA 5 – SINTOMAS OBSESSIVOS Que a psicanálise foi inventada por Freud ao escutar o sofrimento histérico todos nós já sabemos. No entanto, um aspecto menos destacado é que Freud também foi responsável por “inventar” a neurose obsessiva, no sentido de identificá-la e diferenciá-la como uma estrutura clínica específica. Como enfatiza Carneiro (2011, p. 23) em Um certo tipo de mulher, Freud foi o “pai da neurose obsessiva”, uma criação fruto de seu rigor investigativo e do cuidado meticuloso com o diagnóstico diferencial. Diferentemente da histeria, na qual os sintomas manifestam-se principalmente no corpo por meio de conversões somáticas, na neurose obsessiva o sofrimento do sujeito está ligado ao domínio dos pensamentos. O obsessivo se vê aprisionado em ruminações incessantes, dúvidas paralisantes 11 e rituais compulsivos, os quais funcionam como defesas contra a angústia do desejo. Na neurose obsessiva, o encontro contingente com o sexo é sempre vivido de forma traumática, mas, ao mesmo tempo, provoca um prazer excessivo. Esse prazer, ao ser trazido à consciência, gera sentimento de culpa e autorrecriminação. Como resultado, a pessoa tenta reprimir essa experiência e desloca as emoções para uma ideia ou preocupação substitutiva. Assim, o indivíduo obsessivo começa a ser atormentado por um constante sentimento de culpa relacionado a acontecimentos que, à primeira vista, parecem triviais ou sem importância. Freud diz que, na verdade, a ideia obsessiva é correta no que tange ao afeto e à categoria, mas é falsa em decorrência do deslocamento e da substituição por analogia. Ou seja: a ideia obsessiva pode ser contrária a qualquer lógica, embora sua força compulsiva seja inabalável. (Carneiro, 2011, p. 16) Na neurose obsessiva, a formação dos sintomas ocorre por meio do deslocamento do afeto e da substituição da lembrança traumática por outra semelhante. Esse mecanismo torna o recalque mais frágil do que na histeria, na qual o conflito psíquico manifesta-se diretamente no corpo por meio da conversão. Assim, elementos recalcados ganham passagens no discurso do sujeito, mas de forma reativa. Isso pode ser observado na clínica, por exemplo, quando um analisante relata um sonho de conteúdo erótico e, ao final, afirma: “não era a minha mãe”. Segundo Freud (1925), o movimento contrário ao desejo recalcado faz com que o “não” surja no lugar do “sim”. O próprio fato de o paciente introduzir a mãe na narrativa revela o funcionamento de seu inconsciente e o modo como o recalque opera na neurose obsessiva. Outra característica dos sintomas obsessivos é a crença na representação recalcada. O neurótico obsessivo acredita nas próprias autorrecriminações e na verdade do conteúdo recalcado, pelo qual ele é culpado. No entanto, é justamente por acreditar que ele se permite duvidar. A dúvida, como aponta Carneiro (2011), foi elevada por Descartes ao status de método filosófico. Porém, no contexto da neurose obsessiva, ela funciona como uma defesa contra a angústia. Essa angústia surge do afeto 12 recalcado que se desloca de uma representação para outra. Assim, a dúvida funciona como uma tentativa de controle sobre essa instabilidade psíquica. Como resultado, o neurótico obsessivo tende a esvaziar seu afeto, mantendo-se preso a um ciclo de questionamentos incessantes. Um exemplo é a famosa frase “não sei se caso ou compro uma bicicleta”. A neurose obsessiva cria seus dilemas, no qual fica presa, e seu afeto é esvaziado de seu real desejo. Para destacar o modelo psíquico da neurose obsessiva, Freud a compara à paranoia, justamente para evidenciar suas diferenças. Em ambas, o encontro com a sexualidade é vivenciado com um gozo excessivo, mas a forma como cada sujeito lida com a culpa é radicalmente distinta. Na neurose obsessiva, o sujeito acredita nas próprias autorrecriminações, assumindo internamente a responsabilidade pelo desejo ou pelo conflito psíquico. Já na paranoia, essa dinâmica inverte-se: o sujeito não internaliza a culpa, mas a projeta sobre outra pessoa ou força externa, em vez de culpar-se, deslocando o conflito para fora de si, motivo pelo qual o outro se torna seu perseguidor. Portanto, na neurose obsessiva a fantasia inconsciente está profundamente ligada ao tema da morte, pois representa, de maneira simbólica, a castração. Isso ocorre porque, na lógica da fantasia, o desejo e o gozo em relação à mãe trazem a ameaça de punição por parte do pai, que poderia matá- lo como consequência desse desejo proibido. Desse modo, a culpa está na base da formação dos sintomas obsessivos, que surgemcomo uma solução de compromisso para lidar com a representação intolerável do trauma. Outra consequência dessa fantasia inconsciente na neurose obsessiva é a tentativa constante, por parte do sujeito, de anular seu próprio desejo. Para isso, ele adota diversas estratégias psíquicas que podem manifestar-se de diferentes formas na clínica, mas que compartilham o mesmo objetivo: aniquilar o desejo, como se fosse um curto-circuito. Carneiro (2011) afirma: A estratégia obsessiva divide-se em duas partes: em primeiro lugar, trata-se de fazer calar o desejo do outro reduzindo-o aos pedidos que o outro lhe faz. Assim, um obsessivo pode ser muito solícito, muito gentil, atendendo da melhor maneira a tudo que lhe pedem para não deixar espaço para o desejo, que está oculto para além do que se pede explicitamente. Ou então pode ser um sujeito “do contra”, que se opõe aos pedidos dos outros, mantendo assim a ilusão de que anula o 13 desejo. São manobras opostas a serviço da mesma estratégia. (Carneiro, 2011, p. 25) Para evitar o confronto com o próprio desejo, o sujeito obsessivo o mantém no campo do impossível. Dessa forma, a procrastinação torna-se uma característica marcante de sua dinâmica psíquica, pois ele adia indefinidamente aquilo que deseja, como se tentasse suspender sua realização. Como consequência, ele só age quando não há mais escolha, ou seja, quando o tempo se esgota e a ação torna-se inevitável. Esse adiamento constante funciona como uma estratégia inconsciente para manter o desejo sempre a distância, sem jamais realizá-lo plenamente. Nota O paradigma da neurose obsessiva foi apresentado por Freud, no caso clínico Homem dos ratos, publicado no artigo Notas sobre um caso de neurose obsessiva, de 1909. NA PRÁTICA Na clínica da neurose obsessiva, o Outro é percebido como aquele que goza, assim como o capitão na história Homem dos ratos. Esse Outro encarna a figura do pai da horda primitiva, que impõe uma interdição ao desejo do sujeito, barrando seu acesso ao gozo. Para impedir que o gozo do Outro se manifeste, o sujeito obsessivo busca anular o próprio desejo. Ele faz isso por meio da dúvida incessante, da formulação de pensamentos trágicos e de cálculos intermináveis e impossíveis. Essas estratégias funcionam como defesas psíquicas que mantêm o sujeito em uma posição de submissão frente ao Outro, como se estivesse condenado a ocupar o lugar de escravo diante de uma autoridade inquestionável. Para exemplo, ilustraremos um caso clínico em que o sujeito, em sua relação complexa com o desejo e a culpa, narra que desde a infância acreditava que não poderia ser um fardo para sua família, o que o levou a buscar independência financeira o mais cedo possível. Ainda muito jovem começou a trabalhar e assumiu, com grande esforço, os custos da própria educação. Descreve-se como alguém “dinheirista”, muito ligado à questão do dinheiro, mas, 14 ao mesmo tempo, nunca se sentiu confortável em pedir algo a sua mãe. Esse comportamento pode revelar um mecanismo obsessivo no qual a busca pela autossuficiência funciona como uma defesa contra um sentimento inconsciente de dívida em relação à figura materna. Com a perda do pai, a mãe do analisante ficou muito "depressiva". Essa mudança no contexto familiar levou o analisante a assumir o papel de "supridor". Como se fosse sua responsabilidade preencher a falta deixada pela ausência do pai e pela fragilidade emocional da mãe, forçava-se a "tamponar" esse vazio, oferecendo recursos e apoio de maneira excessiva. No decorrer do tratamento, ele gradualmente se dá conta das contradições em sua vida. Ao longo dos anos, direcionou-se constantemente para caminhos que iam contra os próprios desejos, como se suas vontades fossem sempre secundárias em relação ao desejo do outro. Essa dinâmica o coloca em uma posição de submissão, uma espécie de "relação de escravo", na qual seu desejo é anulado pela autoridade do desejo alheio. Portanto, é possível observar que a fantasia que sustenta a neurose obsessiva é alimentada por uma "dívida simbólica" que parece impagável. Essa dívida, em termos psíquicos, coloca o sujeito em uma posição de culpa constante em relação ao próprio desejo, como se estivesse sempre em débito com algo ou alguém, o que gera um ciclo de autocensura e negação das próprias necessidades e vontades. FINALIZANDO O recalque está intimamente relacionado ao funcionamento psíquico da neurose. Ele age erigindo uma barreira que impede que conteúdos inconscientes se tornem conscientes. Essa dinâmica de defesa do ego visa proteger o sujeito de desejos, impulsos ou memórias que seriam considerados intoleráveis ou ameaçadores para sua integridade psíquica. Os sintomas neuróticos podem ser vistos como manifestações sofisticadas do material recalcado que, apesar de ser reprimido, acaba conseguindo alcançar a consciência. Freud aponta que o recalque, por sua natureza, sempre fracassa em sua totalidade, pois o conteúdo reprimido busca 15 constantemente uma forma de expressão. No entanto, esse acesso à consciência não ocorre de maneira direta ou clara. Em vez disso, os conteúdos recalcados apresentam-se por meio de distorções, seguindo as leis do inconsciente. O sintoma, portanto, é o resultado de uma complexa articulação entre o inconsciente, as pulsões, o desejo, o recalque e a fantasia. Esse processo psíquico cria uma dinâmica na qual o sintoma não é apenas uma disfunção a ser corrigida, como muitas vezes é tratado na psicologia e na medicina, mas uma manifestação que carrega significados profundos relacionados a conflitos internos. Ao contrário da histeria, na qual os sintomas manifestam-se principalmente no corpo por meio de conversões somáticas (como paralisias ou dores sem explicação orgânica), na neurose obsessiva o sofrimento do sujeito está centrado no domínio dos pensamentos. O obsessivo fica preso em um ciclo interminável de ruminações, dúvidas paralisantes e rituais compulsivos que se tornam uma tentativa de defesa contra a angústia provocada pelo desejo inconsciente. 16 REFERÊNCIAS CARNEIRO, M. A. A neurose obsessiva. Rio de Janeiro: Zahar, 2011. COUTINHO JORGE, M. A. Fundamentos da psicanálise de Freud a Lacan. Rio de Janeiro: Zahar, 2010. v. 2: A clínica da fantasia. _______; TRAVASSO, N. P. Histeria e sexualidade. Rio de Janeiro: Zahar, 2021. FREUD, S. Projeto para uma psicologia científica. 1895. In: _______. Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. 1. _______. Carta 125. In: _______. Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. 1. _______. Fragmento da análise de um caso de histeria. 1905. In: _______. Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. 7. _______. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. In: _______. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. 7. NASIO, J. D. A histeria: teoria e clínica psicanalítica. Rio de Janeiro: Zahar, 1991.