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ESTRUTURAS PSICANALÍTICAS 
AULA 4 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Prof.ª Juliana dos Santos Lourenço 
 
 
 
2 
CONVERSA INICIAL 
Já caminhamos bastante e passamos por conceitos fundamentalmente 
teóricos. Agora, para dar continuidade ao nosso percurso sobre os estudos das 
estruturas psicanalíticas, passaremos a estudar o modo clínico como cada 
estrutura se apresenta. 
Começaremos pela neurose, considerando que a psicanálise foi 
inicialmente desenvolvida com o objetivo de tratá-la. Assim, nesta etapa, 
procuraremos destacar o recalque que é por excelência o mecanismo específico 
da neurose; sua principal função é afastar da consciência todas as 
representações insuportáveis, mantendo-as no inconsciente. Essa dinâmica dá 
origem a um conflito interno: de um lado, a força com que o conteúdo recalcado 
busca voltar à consciência e, de outro, o desejo de não saber nada sobre isso. 
Essa tensão é o que Freud identifica como o núcleo do conflito neurótico, que 
resulta no surgimento de sintomas como forma de compromisso com o conteúdo 
recalcado. 
TEMA 1 – O RECALQUE 
O inconsciente na metapsicologia freudiana está indissociável do 
mecanismo do recalque. Foi por meio da concepção do recalque que Freud 
concebeu a dinâmica entre as áreas do psiquismo, pois, ainda que certos 
conteúdos não consigam chegar à consciência, eles continuam influenciando a 
vida consciente e suas representações, deixando marcas que produzem efeitos 
perceptíveis. 
Uma das primeiras teses de Freud sobre a origem do conflito psíquico foi 
apresentada no Projeto para uma psicologia científica, de 1895 (Freud, 1986). 
Nesse artigo, ele aponta para a perspectiva econômica do aparelho psíquico, na 
qual a consciência é responsável pelo processo de descarga do excesso de 
tensão. No entanto, diante de lembranças ou experiências extremamente 
penosas, a consciência pode se tornar incapaz de processar essas 
representações, acionando o mecanismo do recalque como forma de defesa, 
que afasta essas lembranças da consciência, relegando-as ao inconsciente. 
 
 
3 
No artigo O recalque, de 1915, Freud traz novas definições. Ele conclui 
que o recalque é um mecanismo de defesa do eu, que atua tornando as forças 
pulsionais ineficazes, ou seja, impedindo que elas se manifestem na 
consciência. Nesse sentido, o recalque seria o principal destino das pulsões, 
pois, nesse contexto, a satisfação pulsional geraria um sentimento de 
desconforto ou frustração em vez de prazer, motivo pelo qual a resistência por 
parte do eu se opõe à sua plena expressão. 
Assim, o recalque está diretamente ligado ao funcionamento psíquico, 
impondo uma barreira para impedir que conteúdos inconscientes cheguem à 
consciência. Contudo, Freud ressalta que esses conteúdos recalcados e 
reprimidos não permanecem passivos; pelo contrário, eles ganham força e uma 
maior organização no inconsciente, gerando um embate constante entre a 
repressão (censura por parte do ego) e a expressão dos conteúdos 
inconscientes, sendo essa dinâmica o que caracteriza o conflito central da 
neurose. 
Portanto, a neurose é compreendida como o resultado de um conflito 
psíquico que impede a realização das descargas pulsionais necessárias, 
levando à formação de um estado recalcado. Otto Fenichel (2004, p. 119) 
descreve esse processo ao afirmar que “o conflito neurótico é um conflito que 
surge entre uma tendência que busca a descarga e outra tendência que tenta 
impedir essa realização”. Esse embate interno entre forças psíquicas reflete a 
dinâmica central da neurose, em que o recalque desempenha um papel 
fundamental ao bloquear e redirecionar a energia pulsional. 
No decorrer de sua prática clínica, Freud percebeu que o recalque, 
embora tenha como objetivo afastar da consciência representações 
consideradas insuportáveis, é um mecanismo que não funciona de maneira 
totalmente eficiente. Esses conteúdos reprimidos, apesar de serem mantidos no 
inconsciente, não desaparecem; ao contrário, eles retornam de forma disfarçada. 
Esse retorno acontece por meio de formações inconscientes que encontram 
maneiras indiretas de se expressar, como sonhos, atos falhos ou, 
principalmente, sintomas. Foi assim que Freud nomeou o sintoma como a 
manifestação de um compromisso entre o conteúdo recalcado e a resistência da 
 
 
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consciência. O sintoma da neurose, portanto, é o reflexo do conflito psíquico 
entre o desejo reprimido e a barreira imposta pelo recalque. 
TEMA 2 – NEUROSE 
Os sintomas neuróticos são vistos como manifestações das mais 
sofisticadas do material recalcado, que, apesar de ser reprimido, consegue 
alcançar a consciência, pois, como aponta Freud, o recalque sempre fracassa. 
No entanto, esse acesso não ocorre de forma direta, mas por via de distorções, 
que seguem as leis que governam o inconsciente, dando origem aos sintomas 
pelos mecanismos de deslocamento e condensação, assim como apresentados 
em A interpretação dos sonhos, de 1900. 
A propósito dos sonhos, vale lembrar que foi através deles que Freud 
pode conceber os mecanismos que regem o funcionamento psíquico. Para 
ele, os sonhos são a via régia do inconsciente, de modo que sua interpretação é 
a chave para entender as leis do inconsciente. Freud (1900) declara: “o sonho é 
a realização de um desejo inconsciente”. Todavia, trata-se de uma realização 
disfarçada de um desejo reprimido que, durante o sono, encontra um 
rebaixamento da repressão, por meio da qual o conteúdo reprimido reaparece 
nos sonhos via mecanismos de deslocamento e condensação. 
Essas distorções permitem que conteúdos reprimidos se expressem de 
forma disfarçada, tornando-se mais aceitáveis para a consciência. Se essas 
distorções não ocorressem, o material recalcado permaneceria completamente 
inacessível à consciência. Da mesma forma, os sintomas mantêm compromisso 
com o conteúdo inconsciente. 
Outra forma de acessar o inconsciente, segundo Freud, é por meio do 
chiste, as tiradas espirituosas. Nesse caso, o chiste serve como uma expressão 
indireta de conteúdos reprimidos, revelando o caráter incompleto do recalque, 
um non sense. Por exemplo: quando uma pessoa faz uma piada ou um 
comentário espirituoso, ela, sem perceber, pode estar trazendo à tona 
pensamentos ou desejos inconscientes de uma forma disfarçada: “morri, mas 
estou bem”. Assim, em vez de provocar desprazer, como normalmente ocorreria 
com esses conteúdos recalcados, o chiste temporariamente transforma esse 
 
 
5 
desprazer em prazer. O que seria, num outro contexto, uma representação 
insuportável, ao ser disfarçado de forma engraçada ou espirituosa acaba sendo 
percebido como algo agradável, permitindo que o inconsciente se manifeste sem 
gerar um impacto negativo direto. 
Outro apontamento sobre as formas como o inconsciente se manifesta 
refere-se ao ato falho. Nessa manifestação, considera-se que certos 
acontecimentos aparentemente não intencionais não são meras coincidências, 
mas possuem causas determinadas por motivos inconscientes. Dito de outra 
forma, erros como lapsos de fala, esquecimentos ou ações involuntárias podem 
revelar desejos, conflitos ou pensamentos que estão reprimidos no inconsciente, 
manifestando-se de forma indireta. Assim, aquilo que parece acidental pode, na 
verdade, ter um significado oculto ligado ao funcionamento psíquico. Por 
exemplo: com um pai acamado por muitos meses, em uma crise em que foi 
internado, o filho chega para sua mãe e pergunta “o que deu no exame de 
óbito?”. O sofrimento que o filho sentia em ver seu pai acamado e inválido o fazia 
desejar sua morte, motivo pelo qual a ideia reprimida reaparece no ato falho, em 
que exame de sague é trocado por exame de óbito. 
O recalque na neurose está profundamente conectado ao complexo de 
Édipo, como apresentamos nas etapas anteriores, pois é a partir dele que o 
desejo proibido se estabelece, criando um conflito interno no sujeito. Essedesejo, considerado inaceitável ou ameaçador, é afastado da consciência por 
meio do recalque, mas continua atuando no inconsciente. Esse processo gera 
uma divisão no sujeito: de um lado, há a força que busca reprimir o desejo 
proibido, enquanto, de outro, permanece o impulso inconsciente que tenta 
manifestar-se. Essa tensão define a relação conflituosa do sujeito com seu 
próprio desejo, característica central na estrutura neurótica que estará sempre 
atrelada à fantasia edipiana. 
TEMA 3 – A CLÍNICA DA FANTASIA 
Se fossemos esquematizar o destino dos acontecimentos psíquicos na 
neurose, poderíamos colocá-los nesta ordem: 
Inconsciente – Pulsão – Desejo – Recalque – Fantasia  Sintoma 
 
 
6 
Resumidamente, podemos traçar da seguinte maneira o caminho que 
Freud percorreu para estabelecer a clínica da neurose articulada à fantasia: 
1º) Verificamos que Freud situou no início da vida psíquica uma afirmação 
primitiva (bejahung) que, quando ocorre, dispõe o sujeito a uma relação com o 
Outro. Assim, o inconsciente vai sendo marcado pulsionalmente pelas 
experiências de prazer e desprazer que se originam no corpo e fazem fronteira 
com o psiquismo. 
O corpo funciona como uma superfície na qual são registradas as 
primeiras experiências que deixam marcas psíquicas. Nesse sentido, ele se 
torna o centro dos investimentos pulsionais, passando de um corpo puramente 
natural (um pedaço de carne) para estruturar-se no campo simbólico. Esse 
processo implica uma perda de um gozo original, ou seja, uma renúncia 
necessária para que o indivíduo possa ingressar no campo simbólico e fazer 
parte de uma ordem social. Veja que até aqui estamos no campo do 
inconsciente, pois vale ressaltar que o inconsciente não é formado só pelo 
recalcado, mas pela totalidade das experiências, sendo o núcleo das pulsões. 
2º) A pulsão é a energia sexual humana, portanto, é ela que nos 
diferencia do instinto sexual dos outros animais. A pulsão é uma força constante 
no psiquismo, de modo que ela nunca renuncia a uma experiência de prazer, 
exercendo força para reencontrar o objeto da satisfação. Porém, no 
desenvolvimento psicossexual essa busca encontra uma barreira que impede 
sua satisfação. Essa barreira foi posta por Freud através do mito de Édipo e 
interpretada por Lacan na metáfora paterna. 
3º) Diante de uma lei que impede a satisfação pulsional, entra em cena o 
recalque, que separa da consciência o conteúdo inapropriado. Assim, o sujeito 
experimenta a falta, pois se vê obrigado a renunciar ao objeto de sua satisfação. 
4º) O sentimento da falta faz com que o sujeito deseje o objeto renunciado 
e perdido. Nesse ponto, o falo é elevado ao significante do desejo do Outro, já 
que o Outro também está em busca do objeto da satisfação. 
5º) Para dar conta do seu desejo marcado pela falta, o sujeito passa a 
investir na fantasia, configurando o “ciclo da fantasia”, nomeado assim por 
Coutinho Jorge (2010), cujo encadeamento transcorre em uma lógica entre o 
inconsciente e a pulsão. 
 
 
7 
a fantasia representa, como no sonho, a realização de um desejo. São 
os desejos insatisfeitos que constituem a força motivadora das 
fantasias, por isso Freud utiliza frequentemente a expressão fantasia 
de desejo. Sabemos com Freud, desde A interpretação dos sonhos, 
que nada a não ser o desejo está em condições de acionar nosso 
aparelho psíquico. (Coutinho Jorge, 2010, p. 46) 
 
Freud (1911) conclui que a fantasia é uma “moeda neurótica”, ou seja, 
uma forma de continuar investindo nos objetais mesmo quando levado a 
renunciá-lo para viver em sociedade. O sintoma surge quando o investimento 
libidinal colocado na fantasia de um desejo reprimido intensifica-se, de modo que 
esse investimento libidinal cresce a ponto de exercer pressão para tornar-se 
realidade. Nesse processo, a libido recolhe-se nos pontos de fixação libidinal do 
objeto externo, abrindo caminho para a satisfação recalcada através das 
fantasias. 
3.1 Sintoma 
Veja, então, que o sintoma é o efeito de toda essa articulação entre 
inconsciente x pulsão x desejo x recalque x fantasia. Dessa forma, enquanto a 
psicologia e a medicina geralmente tratam os sintomas como disfunções a serem 
corrigidas, a psicanálise busca compreender a lógica inconsciente que os 
sustenta. Por meio de uma escuta atenta, a psicanálise investiga a posição 
fantasística subjacente aos sintomas, reconhecendo-os como expressões de um 
conflito psíquico e não apenas como perturbações a serem eliminadas. 
Portanto, para a psicanálise o sintoma permite que o sujeito permaneça 
em um modo de satisfação fantasmático, funcionando como uma forma 
substitutiva de realização da pulsão. Esse processo ocorre por meio da criação 
de novas formas de satisfação libidinal que operam a partir de deslocamento e 
condensação/metáfora e metonímia, isto é, como uma estrutura de linguagem. 
TEMA 4 – SINTOMAS HISTÉRICOS 
Para a psicanálise, a histeria é compreendida como uma forma de o 
sujeito neurótico enlaçar-se e tecer sua realidade e suas relações com os outros 
com base em suas fantasias. Dessa forma, a histeria não pode ser reduzida a 
 
 
8 
uma perturbação individual; ela é um modo específico de subjetivação e de 
relação com o mundo em que as fantasias inconscientes estruturam a maneira 
como o sujeito se insere nos laços sociais. 
Nesse sentido, Coutinho Jorge (2010) explica que a fantasia é uma 
espécie de matriz psíquica que funciona mediatizando o encontro do sujeito com 
o real. Assim, a fantasia não apenas organiza a experiência subjetiva, mas 
também constitui o próprio princípio da realidade para cada indivíduo. “Essa 
fantasia, em que o sujeito é preso, é, como tal, o suporte do que se chama 
expressamente, na teoria freudiana, o princípio de realidade” (Lacan citado por 
Coutinho Jorge, 2010, p. 77). 
Ao distinguir a fantasia inconsciente do histérico, Freud aponta para a 
vivência traumática do encontro com o sexo. No entanto, como destacam 
Coutinho Jorge e Travasso (2021, p. 60), esse evento traumático não é por conta 
de um acidente externo, mas sim algo inevitável – um “trauma contingencial”: 
“Trata-se aqui do real inerente ao pulsional, do inassimilável inerente à 
sexualidade, com sua intensidade e excesso”. 
A sexualidade, devido a sua intensidade corporal, apresenta-se como 
uma experiência que ultrapassa a capacidade do psiquismo, ainda arcaico, de 
representá-la plenamente. Isso se deve à falta de uma inscrição simbólica da 
diferença sexual no inconsciente, ou seja, não há um significante que dê conta 
plenamente dessa diferença. 
Dessa forma, Freud indica que o sujeito histérico, ao vivenciar o trauma 
contingente da estruturação psíquica, encontra-se em um paradoxo em relação 
ao próprio corpo e ao sexo. Como destacam Coutinho Jorge e Travasso (2021, 
p. 61), “podemos dizer que na histeria todo o corpo é sexualizado, exceto o 
próprio sexo.” Isso significa que, na histeria, a excitação libidinal desloca -se para 
diversas partes do corpo, manifestando-se em sintomas somáticos, motivo pelo 
qual a eleição pela parte do corpo não obedece à anatomia, ao significante 
inconsciente. 
No texto Fragmento da análise de um caso de histeria, de 1905, Freud 
afirma: “Eu tomaria por histérica, sem hesitação, qualquer pessoa em quem uma 
oportunidade de excitação sexual despertasse sentimentos preponderantes ou 
 
 
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exclusivamente desprazerosos, fosse ela ou não capaz de produzir sintomas 
somáticos.” 
Essa definição ressalta que, para Freud, a histeria não pode ser 
reconhecida apenas pela manifestação de sintomas físicos, como paralisias ou 
dores sem causa orgânica aparente. Mas o critério central para a constatação 
de um discurso histérico está na forma como o sujeito reage à excitação sexual: 
se essa experiência for predominantemente marcada pelo desprazer ou pelo 
conflito psíquico, já se pode identificar um funcionamento histérico,independentemente da presença de sintomas corporais evidentes. 
A inibição sexual histérica, no entanto, não deve ser entendida como um 
simples retraimento ou recuo passivo. Nasio (1991) explica que na verdade trata-
se de um movimento ativo de rechaço. Isso significa que, em vez de apenas 
evitar a sexualidade, o sujeito histérico estabelece uma dinâmica de resistência 
e negação, muitas vezes marcada por um jogo ambivalente de desejo e recusa. 
Esse mecanismo reflete o conflito inconsciente característico da histeria, no qual 
o sujeito erotiza o corpo, mas ao mesmo tempo impede a vivência plena da 
sexualidade, deslocando a excitação para outros territórios psíquicos e 
corporais. 
A impotência, a ejaculação precoce, o vaginismo ou a frigidez, todos 
são distúrbios característicos da vida sexual do histérico, os quais, de 
uma maneira ou de outra, exprimem a angústia inconsciente do 
homem de penetrar no corpo da mulher, e a angústia inconsciente da 
mulher de se deixar penetrar. O paradoxo do histérico diante da 
sexualidade caracteriza-se, portanto, por uma contradição: de um lado, 
há homens e mulheres excessivamente preocupados com a 
sexualidade, procurando erotizar toda e qualquer relação social, e de 
outro, eles sofrem – sem saber por que sofrem – por ter que passar 
pela experiência do encontro genital com o sexo oposto. (Nasio, 1991, 
p. 45) 
Portanto, é fundamental compreender que a sexualidade histérica não se 
baseia na genitalidade, mas sim em um “simulacro de sexualidade”. Isso significa 
que o gozo histérico reside mais na produção de sinais sexuais do que na efetiva 
realização do ato sexual ao qual esses sinais parecem remeter. Como aponta 
Nasio (1991, p. 18), “se há um desejo a que o histérico se atém é o de que esse 
ato (sexual enunciado por ele) fracasse; mais exatamente, ele se apega ao 
desejo inconsciente de não realização do ato”. Em outras palavras, para o 
 
 
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histérico, o verdadeiro desejo não está na satisfação plena, mas na manutenção 
do desejo como algo sempre insatisfeito. Isso porque o desejo histérico se 
alimenta da própria falta, mantendo-se em um estado constante de tensão e 
busca, sem nunca se resolver completamente na realização do ato sexual. 
o histérico é fundamentalmente um ser de medo que, para atenuar sua 
angústia, não encontrou outro recurso senão manter incessantemente, 
em suas fantasias e em sua vida, o doloroso estado de insatisfação, 
pois, para ele, o perigo pressentido que o levaria a seu aniquilamento 
é “o perigo de viver o gozo máximo”. (Nasio 1991, p. 15) 
O sujeito histérico, portanto, mantém-se em um estado de insatisfação 
fantasmática como forma de defesa contra um gozo excessivo. Para evitar a 
ameaça de um gozo pleno e avassalador, ele constrói, de maneira inconsciente, 
um cenário fantasístico no qual a falta mantém-se como elemento central. Nesse 
jogo psíquico, o histérico busca constantemente provar a si mesmo que algo lhe 
escapa, garantindo, assim, que seu desejo permaneça insatisfeito. Dessa forma, 
a insatisfação não é apenas uma consequência, mas uma condição estruturante 
de seu modo de gozar. 
Nota 
O paradigma da estrutura histérica foi apresentado por Freud no Caso 
Dora, publicado no artigo Fragmento da análise de um caso de histeria, de 1905. 
TEMA 5 – SINTOMAS OBSESSIVOS 
Que a psicanálise foi inventada por Freud ao escutar o sofrimento 
histérico todos nós já sabemos. No entanto, um aspecto menos destacado é que 
Freud também foi responsável por “inventar” a neurose obsessiva, no sentido de 
identificá-la e diferenciá-la como uma estrutura clínica específica. Como enfatiza 
Carneiro (2011, p. 23) em Um certo tipo de mulher, Freud foi o “pai da neurose 
obsessiva”, uma criação fruto de seu rigor investigativo e do cuidado meticuloso 
com o diagnóstico diferencial. 
Diferentemente da histeria, na qual os sintomas manifestam-se 
principalmente no corpo por meio de conversões somáticas, na neurose 
obsessiva o sofrimento do sujeito está ligado ao domínio dos pensamentos. O 
obsessivo se vê aprisionado em ruminações incessantes, dúvidas paralisantes 
 
 
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e rituais compulsivos, os quais funcionam como defesas contra a angústia do 
desejo. 
Na neurose obsessiva, o encontro contingente com o sexo é sempre 
vivido de forma traumática, mas, ao mesmo tempo, provoca um prazer 
excessivo. Esse prazer, ao ser trazido à consciência, gera sentimento de culpa 
e autorrecriminação. Como resultado, a pessoa tenta reprimir essa experiência 
e desloca as emoções para uma ideia ou preocupação substitutiva. Assim, o 
indivíduo obsessivo começa a ser atormentado por um constante sentimento de 
culpa relacionado a acontecimentos que, à primeira vista, parecem triviais ou 
sem importância. 
Freud diz que, na verdade, a ideia obsessiva é correta no que tange ao 
afeto e à categoria, mas é falsa em decorrência do deslocamento e da 
substituição por analogia. Ou seja: a ideia obsessiva pode ser contrária 
a qualquer lógica, embora sua força compulsiva seja inabalável. 
(Carneiro, 2011, p. 16) 
Na neurose obsessiva, a formação dos sintomas ocorre por meio do 
deslocamento do afeto e da substituição da lembrança traumática por outra 
semelhante. Esse mecanismo torna o recalque mais frágil do que na histeria, na 
qual o conflito psíquico manifesta-se diretamente no corpo por meio da 
conversão. 
Assim, elementos recalcados ganham passagens no discurso do sujeito, 
mas de forma reativa. Isso pode ser observado na clínica, por exemplo, quando 
um analisante relata um sonho de conteúdo erótico e, ao final, afirma: “não era 
a minha mãe”. Segundo Freud (1925), o movimento contrário ao desejo 
recalcado faz com que o “não” surja no lugar do “sim”. O próprio fato de o 
paciente introduzir a mãe na narrativa revela o funcionamento de seu 
inconsciente e o modo como o recalque opera na neurose obsessiva. 
Outra característica dos sintomas obsessivos é a crença na 
representação recalcada. O neurótico obsessivo acredita nas próprias 
autorrecriminações e na verdade do conteúdo recalcado, pelo qual ele é culpado. 
No entanto, é justamente por acreditar que ele se permite duvidar. 
A dúvida, como aponta Carneiro (2011), foi elevada por Descartes ao 
status de método filosófico. Porém, no contexto da neurose obsessiva, ela 
funciona como uma defesa contra a angústia. Essa angústia surge do afeto 
 
 
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recalcado que se desloca de uma representação para outra. Assim, a dúvida 
funciona como uma tentativa de controle sobre essa instabilidade psíquica. 
Como resultado, o neurótico obsessivo tende a esvaziar seu afeto, mantendo-se 
preso a um ciclo de questionamentos incessantes. Um exemplo é a famosa frase 
“não sei se caso ou compro uma bicicleta”. A neurose obsessiva cria seus 
dilemas, no qual fica presa, e seu afeto é esvaziado de seu real desejo. 
Para destacar o modelo psíquico da neurose obsessiva, Freud a compara 
à paranoia, justamente para evidenciar suas diferenças. Em ambas, o encontro 
com a sexualidade é vivenciado com um gozo excessivo, mas a forma como 
cada sujeito lida com a culpa é radicalmente distinta. 
Na neurose obsessiva, o sujeito acredita nas próprias autorrecriminações, 
assumindo internamente a responsabilidade pelo desejo ou pelo conflito 
psíquico. Já na paranoia, essa dinâmica inverte-se: o sujeito não internaliza a 
culpa, mas a projeta sobre outra pessoa ou força externa, em vez de culpar-se, 
deslocando o conflito para fora de si, motivo pelo qual o outro se torna seu 
perseguidor. 
Portanto, na neurose obsessiva a fantasia inconsciente está 
profundamente ligada ao tema da morte, pois representa, de maneira simbólica, 
a castração. Isso ocorre porque, na lógica da fantasia, o desejo e o gozo em 
relação à mãe trazem a ameaça de punição por parte do pai, que poderia matá-
lo como consequência desse desejo proibido. Desse modo, a culpa está na base 
da formação dos sintomas obsessivos, que surgemcomo uma solução de 
compromisso para lidar com a representação intolerável do trauma. 
Outra consequência dessa fantasia inconsciente na neurose obsessiva é 
a tentativa constante, por parte do sujeito, de anular seu próprio desejo. Para 
isso, ele adota diversas estratégias psíquicas que podem manifestar-se de 
diferentes formas na clínica, mas que compartilham o mesmo objetivo: aniquilar 
o desejo, como se fosse um curto-circuito. Carneiro (2011) afirma: 
A estratégia obsessiva divide-se em duas partes: em primeiro lugar, 
trata-se de fazer calar o desejo do outro reduzindo-o aos pedidos que 
o outro lhe faz. Assim, um obsessivo pode ser muito solícito, muito 
gentil, atendendo da melhor maneira a tudo que lhe pedem para não 
deixar espaço para o desejo, que está oculto para além do que se pede 
explicitamente. Ou então pode ser um sujeito “do contra”, que se opõe 
aos pedidos dos outros, mantendo assim a ilusão de que anula o 
 
 
13 
desejo. São manobras opostas a serviço da mesma estratégia. 
(Carneiro, 2011, p. 25) 
Para evitar o confronto com o próprio desejo, o sujeito obsessivo o 
mantém no campo do impossível. Dessa forma, a procrastinação torna-se uma 
característica marcante de sua dinâmica psíquica, pois ele adia indefinidamente 
aquilo que deseja, como se tentasse suspender sua realização. Como 
consequência, ele só age quando não há mais escolha, ou seja, quando o tempo 
se esgota e a ação torna-se inevitável. Esse adiamento constante funciona como 
uma estratégia inconsciente para manter o desejo sempre a distância, sem 
jamais realizá-lo plenamente. 
Nota 
O paradigma da neurose obsessiva foi apresentado por Freud, no caso 
clínico Homem dos ratos, publicado no artigo Notas sobre um caso de neurose 
obsessiva, de 1909. 
NA PRÁTICA 
Na clínica da neurose obsessiva, o Outro é percebido como aquele que 
goza, assim como o capitão na história Homem dos ratos. Esse Outro encarna 
a figura do pai da horda primitiva, que impõe uma interdição ao desejo do sujeito, 
barrando seu acesso ao gozo. 
Para impedir que o gozo do Outro se manifeste, o sujeito obsessivo busca 
anular o próprio desejo. Ele faz isso por meio da dúvida incessante, da 
formulação de pensamentos trágicos e de cálculos intermináveis e impossíveis. 
Essas estratégias funcionam como defesas psíquicas que mantêm o sujeito em 
uma posição de submissão frente ao Outro, como se estivesse condenado a 
ocupar o lugar de escravo diante de uma autoridade inquestionável. 
Para exemplo, ilustraremos um caso clínico em que o sujeito, em sua 
relação complexa com o desejo e a culpa, narra que desde a infância acreditava 
que não poderia ser um fardo para sua família, o que o levou a buscar 
independência financeira o mais cedo possível. Ainda muito jovem começou a 
trabalhar e assumiu, com grande esforço, os custos da própria educação. 
Descreve-se como alguém “dinheirista”, muito ligado à questão do dinheiro, mas, 
 
 
14 
ao mesmo tempo, nunca se sentiu confortável em pedir algo a sua mãe. Esse 
comportamento pode revelar um mecanismo obsessivo no qual a busca pela 
autossuficiência funciona como uma defesa contra um sentimento inconsciente 
de dívida em relação à figura materna. 
Com a perda do pai, a mãe do analisante ficou muito "depressiva". Essa 
mudança no contexto familiar levou o analisante a assumir o papel de "supridor". 
Como se fosse sua responsabilidade preencher a falta deixada pela ausência do 
pai e pela fragilidade emocional da mãe, forçava-se a "tamponar" esse vazio, 
oferecendo recursos e apoio de maneira excessiva. 
No decorrer do tratamento, ele gradualmente se dá conta das 
contradições em sua vida. Ao longo dos anos, direcionou-se constantemente 
para caminhos que iam contra os próprios desejos, como se suas vontades 
fossem sempre secundárias em relação ao desejo do outro. Essa dinâmica o 
coloca em uma posição de submissão, uma espécie de "relação de escravo", na 
qual seu desejo é anulado pela autoridade do desejo alheio. 
Portanto, é possível observar que a fantasia que sustenta a neurose 
obsessiva é alimentada por uma "dívida simbólica" que parece impagável. Essa 
dívida, em termos psíquicos, coloca o sujeito em uma posição de culpa constante 
em relação ao próprio desejo, como se estivesse sempre em débito com algo ou 
alguém, o que gera um ciclo de autocensura e negação das próprias 
necessidades e vontades. 
FINALIZANDO 
O recalque está intimamente relacionado ao funcionamento psíquico da 
neurose. Ele age erigindo uma barreira que impede que conteúdos inconscientes 
se tornem conscientes. Essa dinâmica de defesa do ego visa proteger o sujeito 
de desejos, impulsos ou memórias que seriam considerados intoleráveis ou 
ameaçadores para sua integridade psíquica. 
Os sintomas neuróticos podem ser vistos como manifestações 
sofisticadas do material recalcado que, apesar de ser reprimido, acaba 
conseguindo alcançar a consciência. Freud aponta que o recalque, por sua 
natureza, sempre fracassa em sua totalidade, pois o conteúdo reprimido busca 
 
 
15 
constantemente uma forma de expressão. No entanto, esse acesso à 
consciência não ocorre de maneira direta ou clara. Em vez disso, os conteúdos 
recalcados apresentam-se por meio de distorções, seguindo as leis do 
inconsciente. 
O sintoma, portanto, é o resultado de uma complexa articulação entre o 
inconsciente, as pulsões, o desejo, o recalque e a fantasia. Esse processo 
psíquico cria uma dinâmica na qual o sintoma não é apenas uma disfunção a ser 
corrigida, como muitas vezes é tratado na psicologia e na medicina, mas uma 
manifestação que carrega significados profundos relacionados a conflitos 
internos. 
Ao contrário da histeria, na qual os sintomas manifestam-se 
principalmente no corpo por meio de conversões somáticas (como paralisias ou 
dores sem explicação orgânica), na neurose obsessiva o sofrimento do sujeito 
está centrado no domínio dos pensamentos. O obsessivo fica preso em um ciclo 
interminável de ruminações, dúvidas paralisantes e rituais compulsivos que se 
tornam uma tentativa de defesa contra a angústia provocada pelo desejo 
inconsciente. 
 
 
 
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REFERÊNCIAS 
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COUTINHO JORGE, M. A. Fundamentos da psicanálise de Freud a Lacan. 
Rio de Janeiro: Zahar, 2010. v. 2: A clínica da fantasia. 
_______; TRAVASSO, N. P. Histeria e sexualidade. Rio de Janeiro: Zahar, 
2021. 
FREUD, S. Projeto para uma psicologia científica. 1895. In: _______. Obras 
completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. 1. 
_______. Carta 125. In: _______. Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 
1996. v. 1. 
_______. Fragmento da análise de um caso de histeria. 1905. In: _______. 
Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. 7. 
_______. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. In: _______. Rio de 
Janeiro: Imago, 1996. v. 7. 
NASIO, J. D. A histeria: teoria e clínica psicanalítica. Rio de Janeiro: Zahar, 
1991.

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