Prévia do material em texto
PRÓSTATA As glândulas da próstata são formadas por um epitélio cuboide alto ou pseudoestratificado colunar. São envolvidas por tecido conjuntivo e músculo liso. A próstata é um conjunto de glândulas situadas em torno da uretra prostática. Glândulas tubuloalveolares da próstata formadas por células cuboides ou colunares. Corte de próstata evidenciando concreções prostáticas Entre os produtos de secreção da glândula destacam-se a fosfatase ácida prostática e o antígeno específico da próstata (PSA, do inglês prostate specific antigen). A secreção é armazenada nas glândulas, sendo expulsa durante a ejaculação. Da mesma maneira como a vesícula seminal, a estrutura e a função da próstata são reguladas por testosterona. Pequenos corpos esféricos formados por glicoproteínas, medindo de 0,2 a 2 mm de diâmetro e frequentemente calcificados, são comumente observados no lúmen de glândulas da próstata de adultos. São chamados concreções prostáticas ou corpora amylacea (Corpora amylacea são concreções prostáticas formadas por acúmulo de secreção prostática, comuns no envelhecimento, sem relevância clínica direta, mas frequentemente vistas em HPB e em processos inflamatórios da próstata) (Figura 21.24). Sua quantidade aumenta com a idade, porém seu significado não é conhecido. HIPERPLASIA PROSTÁTICA BENIGNA DENIFIÇÃO A próstata é composta por quatro zonas: periférica, central, transicional e estroma. Também pode ser dividida por lobos: anterior, posterior, lateral e mediano. A hiperplasia prostática benigna (HPB) é uma condição que pode levar a sinais/sintomas do sistema urinário inferior, o que pode ter um impacto negativo significativo na qualidade de vida. As queixas associadas à HPB podem estar relacionadas a dificuldade de micção (p. ex., hesitação urinária, fluxo fraco, esforço e micção prolongada) ou dificuldade em controlar o armazenamento urinário (p. ex., urgência urinária, noctúria). A HPB é um diagnóstico histológico definido pela proliferação de músculo liso e células epiteliais dentro da zona de transição prostática. EPIDEMIOLOGIA A idade é o principal fator de risco para HPB. Um diagnóstico histológico de HPB se desenvolverá em aproximadamente 50% dos homens com mais de 50 anos e 90% dos homens na casa dos 80 anos.1 Desses homens, aproximadamente 50% desenvolverão sinais/sintomas do sistema urinário inferior, que aumentam em prevalência de forma linear entre as idades de 40 e 80 anos. PATOGÊNESE Embora a causa de HPB não seja totalmente conhecida, o crescimento excessivo dos elementos estromais e glandulares dependente de androgênios tem um papel central. A HPB não ocorre em homens castrados antes do início da puberdade ou em homens com doenças genéticas que bloqueiam a atividade androgênica. A di-hidrotestosterona (DHT), que é o androgênio mediador final do crescimento prostático, é 10 vezes mais potente que a testosterona; ela é sintetizada na próstata a partir da testosterona circulante pela ação da enzima 5α- redutase tipo 2. A DHT liga-se aos receptores do androgênio nuclear (que também ligam a testosterona) e desse modo regula a expressão dos genes de apoio ao crescimento e à sobrevivência do epitélio prostático e das células estromais. Acredita-se que os fatores de crescimento induzidos pela DHT atuem por meio de maior proliferação das células estromais e diminuição da morte das células epiteliais. Com o envelhecimento, os níveis de testosterona declinam, enquanto os níveis de estrógeno permanecem inalterados e podem aumentar pela conversão periférica dos androgênios; os estrógenos podem atuar sinergicamente com a DHT para impulsionar o crescimento das células epiteliais e estromais que expressam os receptores de estrógeno. BIOPATOLOGIA Durante o enchimento da bexiga, a pressão intravesical se mantém baixa graças à ação do sistema nervoso simpático, que inibe a contração do músculo detrusor, permitindo o armazenamento da urina sem desconforto. No entanto, quando há aumento da próstata, como ocorre na hiperplasia prostática benigna (HPB), podem surgir sinais e sintomas do trato urinário inferior. Isso acontece porque a próstata aumentada pode comprimir mecanicamente a uretra ou elevar o tônus do músculo prostático, dificultando a passagem da urina. Como consequência da obstrução, muitos pacientes desenvolvem uma bexiga hiperativa, caracterizada por contrações involuntárias e, em alguns casos, retenção urinária, já que a bexiga precisa fazer mais força para vencer a resistência na saída. Alterações na vascularização da próstata e da bexiga também podem agravar esse quadro, contribuindo para maior sensibilidade e piora dos sintomas. É importante destacar que o grau de aumento prostático varia muito entre os indivíduos e não se correlaciona diretamente com a gravidade dos sintomas — ou seja, uma próstata muito aumentada nem sempre gera mais sintomas do que uma com aumento moderado. Na HPB, esse aumento resulta da combinação de hipertrofia do estroma e hiperplasia das glândulas prostáticas, especialmente na zona de transição, que circunda a uretra. Clinicamente, considera-se aumento prostático quando o volume ultrapassa 30 mL. MORFOLOGIA Na HPB, o peso da próstata aumenta geralmente de 3 a 5 vezes (60 a 100 g) ou mais. A HPB afeta a zona de transição e, por isso, geralmente invade a uretra e a comprime em um orifício em formato de fenda. Em corte transversal, observa-se que, dependendo de seu conteúdo celular, a cor e a consistência dos nódulos hiperplásicos é variável (Figura 16.11 A). Os nódulos podem parecer sólidos ou conter espaços císticos; estes últimos correspondem às glândulas dilatadas. Microscopicamente, os nódulos hiperplásicos são compostos de proporções variáveis de elementos glandulares em proliferação e de estroma fibromuscular (Figura 16.11 B). As glândulas hiperplásicas são revestidas por células epiteliais colunares altas e uma camada periférica de células basais planas (Figura 16.11 C). Este é um ponto de distinção das glândulas malignas no carcinoma da próstata (discutido a seguir). Os lumens glandulares em geral contêm um material secretor proteináceo em lamelas, que é conhecido como corpos amiláceos. Hiperplasia prostática benigna (HPB). A. Nódulos bem definidos de HPB comprimem a uretra em um lúmen tipo fenda. B. Fotomicrografia de pequeno aumento mostrando nódulos de glândulas hiperplásicas em ambos os lados da uretra. Em outros casos de hiperplasia nodular, a nodularidade é causada predominantemente por proliferação estromal, em vez de glandular. C. Fotomicrografia de grande aumento mostrando a morfologia das glândulas hiperplásicas, que são grandes e possuem invaginações papilares. Ao contrário do adenocarcinoma da próstata, as células basais estão presentes (setas). MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS Os principais sintomas da HPB são decorrentes da obstrução urinária causada pelo aumento da próstata (compressão mecânica) e pela contração do músculo liso estromal (mediada por noradrenalina em receptores α1-adrenérgicos). A resistência aumentada na saída da bexiga gera sobrecarga, levando à hipertrofia e distensão da bexiga, esvaziamento incompleto e acúmulo de urina residual, que favorece infecções urinárias. 꼠 Sintomas de Obstrução / Fase Miccional (esvaziamento) Hesitação urinária: dificuldade para começar a urinar. Jato fraco: fluxo de urina reduzido, sem força. Esforço miccional: necessidade de fazer força para urinar. Micção prolongada: demora para esvaziar completamente. Interrupção do fluxo: urina em jatos intermitentes. Gotejamento terminal: pinga-pinga no final da micção. 跚跛跜距 Explicação: Esses sintomas ocorrem porque a próstata apertada dificulta a passagem da urina, fazendo o paciente precisar gerar mais pressão para conseguir esvaziar a bexiga. 꼠 Sintomas de Armazenamento (irritativos) Aumento da frequência urinária:urinar mais vezes que o normal. Urgência urinária: vontade súbita e difícil de adiar. Noctúria: acordar uma ou mais vezes à noite para urinar. Incontinência de urgência: perda involuntária de urina associada à urgência. Micção de pequenos volumes: sensação de bexiga cheia, mas libera pouco. 跚跛跜距 Explicação: Aqui, a bexiga hiperativa entra em cena, reagindo à resistência imposta pela próstata. Ela começa a se contrair de forma involuntária, gerando esses sintomas irritativos. 꼠 Sintomas Pós-Miccionais Sensação de esvaziamento incompleto: bexiga parece que nunca esvazia totalmente. Gotejamento pós-micção: pinga-pinga depois de ter terminado de urinar. 跚跛跜距 Explicação: Isso ocorre porque a obstrução impede o esvaziamento completo, mantendo urina residual. Complicações Associadas Urina residual: ambiente propício para infecções urinárias (cistite, pielonefrite). Infecções recorrentes: pela estase urinária. Hidronefrose: quando a obstrução é intensa e reflete nos rins. Distensão dolorosa da bexiga: em casos de obstrução total aguda. ꨔꨕꨖ Observação sobre Tratamento (resumido) Tratamento inicial com: o Bloqueadores α-adrenérgicos → relaxam o músculo liso da próstata. o Inibidores da 5α-redutase → reduzem o volume prostático ao inibir a conversão de testosterona em DHT. Casos refratários → opção por cirurgias minimamente invasivas ou convencionais (ex.: RTU de próstata, HIFU, laser, eletrovaporização, radiofrequência). TRATAMENTO A HPB gera sintomas do trato urinário inferior (STUI) que se dividem em três grandes grupos: armazenamento, esvaziamento (micção) e pós- micção. Esses sintomas ocorrem devido ao aumento do volume da próstata, que gera obstrução da saída da bexiga, associado ao tônus aumentado do músculo liso prostático (componente dinâmico da obstrução). 脥� Sintomas de armazenamento (irritativos) Polaciúria (aumento da frequência urinária) Noctúria (acordar à noite para urinar) Urgência miccional (desejo súbito e incontrolável de urinar) Incontinência urinária de urgência Micção em pequenos volumes 跚跛跜距 Esses sintomas estão muito ligados à bexiga hiperativa, que frequentemente aparece associada à HPB. 脥� Sintomas de esvaziamento (obstrutivos) Hesitação miccional (demora pra começar a urinar) Jato urinário fraco Esforço miccional (precisa fazer força pra urinar) Intermitência (jato que para e volta durante a micção) Micção prolongada (leva mais tempo que o normal pra esvaziar a bexiga) Disúria (dor ou ardência ao urinar) Retenção urinária (incapacidade total ou parcial de esvaziar a bexiga) 跚跛跜距 Esses são diretamente relacionados ao efeito mecânico do aumento prostático sobre a uretra. 脥� Sintomas pós-miccionais Gotejamento terminal (pingos após achar que terminou de urinar) Sensação de esvaziamento incompleto Complicações possíveis se não tratado: Urina residual elevada, que favorece: o Infecções urinárias recorrentes o Formação de cálculos vesicais Hidronefrose (dilatação dos rins pelo refluxo urinário) Insuficiência renal aguda ou crônica (em casos graves e prolongados) Distensão dolorosa da bexiga ��� Avaliação Clínica Anamnese detalhada: o Verificar doenças neurológicas (Parkinson, AVC, EM) o Cirurgias prévias o Uso de medicamentos (diuréticos, descongestionantes, anti- histamínicos) o Fatores dietéticos (cafeína, álcool, adoçantes) que irritam a bexiga Ferramentas de avaliação padronizada: o IPSS (International Prostate Symptom Score) – mede a gravidade dos sintomas e monitora evolução Exame físico: o Toque retal: avalia tamanho, consistência e presença de nódulos (não substitui exames de imagem, pois só avalia a parte posterior da próstata) o Palpação abdominal: procurar bexiga distendida (sugere retenção urinária) o Exame neurológico focado: avaliar mobilidade, sensibilidade e tônus do esfíncter anal Exames laboratoriais e complementares: o EAS (urinálise): pesquisa hematúria e infecção o PSA: rastreio de câncer de próstata, mas sobe também na HPB o Urofluxometria: avalia fluxo urinário o USG de bexiga: mede resíduo pós- miccional o Cistoscopia: indicada se houver hematúria ou suspeita de alteração anatômica o Imagem do trato urinário superior: se há hematúria, cálculos ou complicações ꨔꨕꨖ Tratamento clínico (primeira linha): Três classes de fármacos são usados para tratar a HPB: antagonistas α1- adrenérgicos, inibidores da 5-α-redutase e inibidores da PDE-5. A. Antagonistas 1-adrenérgicos Os fármacos utilizados no tratamento da HPB são bloqueadores alfa1a-adrenérgicos (α1a- adrenérgicos) de ação periférica, que exercem a sua ação principalmente no músculo liso da próstata e do colo da bexiga. Com o bloqueio da norepinefrina. Terazosina, doxazosina, tansulosina, alfuzosina e silodosina são bloqueadores competitivos seletivos do receptor α1. Os cinco são indicados para o tratamento da HPB. A prazosina é um α- bloqueador usado extrabula para tratamento da HPB. Entretanto, as normas atuais não endossam seu uso para essa indicação 1. Mecanismo de ação: Os receptores α1A são encontrados na próstata, os receptores α1B estão presentes na próstata e nos vasos e os receptores α1D são encontrados nos vasos. Bloqueando os receptores α1A e α1B na próstata, os α-bloqueadores causam relaxamento do músculo liso prostático, o que melhora o fluxo da urina. Doxazosina, terazosina e alfuzosina bloqueiam os receptores α1A e α1B, ao passo que tansulosina e silodosina são mais seletivos para o receptor α1A. Como doxazosina, terazosina e alfuzosina bloqueiam os receptores α1B, eles diminuem a resistência vascular periférica e a pressão arterial, por relaxarem os músculos lisos arteriais e venosos. Em contraste, tansulosina e silodosina têm menor efeito na pressão arterial, pois são mais seletivos para o receptor α1A específico da próstata. Em geral, os α- bloqueadores causam mudanças mínimas no débito cardíaco, no fluxo sanguíneo renal e na velocidade de filtração glomerular. Inibidores da 5-ALFA-redutase Finasterida e dutasterida inibem a 5-α-redutase. Comparados a α-bloqueadores, que aliviam os sintomas da HPB de 7 a 10 dias, os inibidores da 5- α-redutase podem precisar de 12 meses para diminuir os sintomas. 1. Mecanismo de ação: Finasterida e dutasterida inibem a enzima 5-α-redutase, que é responsável por converter testosterona em di- - hidrotestosterona (DHT) mais ativa. A DHT é o androgênio que estimula o crescimento da próstata. Reduzindo a DHT, a próstata encolhe, e o fluxo melhora. Comparada com finasterida, a dutaste- rida é mais potente e causa maior redução na DHT. Para que os inibidores da 5-α-redutase sejam eficazes, a próstata deve estar aumentada. Assim, é apropriado usar um inibidor da 5-α-redutase em combinação com um α-bloqueador quando a próstata está aumentada. Finasterida e dutasterida também são usadas contra alopecia, pois a redução de DHT no escalpo e no soro previne a queda de cabelos. Inibidores da 5-fosfodiesterase Tadalafila é o único inibidor da PDE-5 aprovado para o tratamento da HPB. A PDE-5 está presente na próstata e na bexiga. Assim, a inibição da PDE- 5 pela tadalafila permite a vasodilatação e o relaxamento do músculo liso da próstata e da bexiga, o que reduz os sintomas da HPB. o Melhoram STUI, especialmente se houver disfunção erétil associada o Cuidado com uso concomitante com alfa-bloqueadores (risco de hipotensão) A terapia medicamentosa combinada é uma opção quando a monoterapia é insuficiente. Os dados sugerem que a melhor combinação seja um inibidor da 5-alfarredutase e um bloqueador alfa- adrenérgico,A5 embora a combinação de um bloqueador alfa-adrenérgico e um inibidor da fosfodiesterase 5 também seja eficaz.A6,A7 Da mesma forma, a combinação de tansulosina, dutasteridae um agente antimuscarínico (ver Tabela 120.1) consegue melhorar os sinais/sintomas da bexiga hiperativa que responderam inadequadamente à tansulosina sozinha.A8 De acordo com estudos randomizados, o Saw palmetto, o agente fitoterápico mais comumente usado, não melhorou os parâmetros urinários durante um período de tratamento de 12 meses e não é recomendado mesmo como terapia complementar. Tratamento cirúrgico (segunda linha): Indicado quando há: Falha no tratamento medicamentoso Retenção urinária recorrente Infecções urinárias recorrentes Cálculos vesicais Hidronefrose ou insuficiência renal secundária à obstrução Procedimentos mais comuns: RTU de próstata (Ressecção Transuretral) – padrão ouro Incisão transuretral da próstata – para próstatas menores Prostatectomia aberta (retropúbica, suprapúbica, perineal) – para próstatas muito volumosas Técnicas minimamente invasivas: laser, ultrassom focalizado (HIFU), ablação por radiofrequência, hipertermia, stents CÂNCER DE PRÓSTATA DEFINIÇÃO O câncer de próstata é a neoplasia maligna não cutânea mais comum em homens nos EUA, responsável por aproximadamente 160.000 casos incidentes e 27.000 mortes a cada ano. Esta acentuada discrepância entre as taxas de incidência e mortalidade reflete a acentuada heterogeneidade clínica da doença, variando desde a doença de evolução arrastada e não clinicamente importante até um fenótipo virulento e rapidamente letal. EPIDEMIOLOGIA O adenocarcinoma da próstata é a forma mais comum de câncer em homens; estima-se que tenha representado 21% dos casos de câncer masculino nos EUA em 2022. O câncer de próstata é a segunda principal causa de morte relacionada ao câncer em homens, superado apenas pelo câncer de pulmão. É principalmente uma doença do envelhecimento. Com base em estudos de necropsia, a incidência de câncer de próstata aumenta de 20% nos homens em seus 50 anos para aproximadamente 70% nos homens entre 70 e 80 anos. Há uma ampla variação na evolução natural do câncer de próstata, que vai da doença agressiva e rapidamente fatal até a mais comum doença indolente de pequeno significado clínico. Nos EUA, os homens afro-americanos morrem por câncer de próstata com rapidez superior ao dobro daquela ocorrida em homens euro-americanos. As causas dessa disparidade não são conhecidas, embora o acesso desigual à triagem e ao tratamento seja uma importante contribuição. BIOPATOLOGIA O câncer de próstata é mais comum em parentes de homens com câncer de próstata de aparecimento precoce. Embora muitas anormalidades genéticas com perda e ganho de função tenham sido identificadas, nenhuma ocorre em mais de 10% dos pacientes com câncer de próstata localizado. Mutações em linhagens germinativas nos genes de reparo de danos do DNA, incluindo BRCA1, BRCA2, ATM e CHEK2, têm sido observadas em 12% dos homens com câncer de próstata metastático, um valor consideravelmente mais alto do que a incidência relatada de 1,8% de BRCA2 no câncer de próstata localizado.3 As alterações genômicas que ocorrem inicialmente e posteriormente na história natural do câncer de próstata possibilitaram a classificação destes cânceres em subtipos moleculares.4 Os cânceres de próstata acumulam alterações genômicas adicionais que parecem ser específicas para o subtipo primário, que pode ou não impulsionar o câncer de próstata a apresentar metástases. Aproximadamente metade dos cânceres de próstata demonstram rearranjos genéticos,5 incluindo fusão de promotores ou intensificadores de genes responsivos ao androgênio, como TMPRSS2 (protease transmembrana, serina 2) com fatores de transcrição ETS (E-26) oncogênicos, como ERG (gene relacionado a ETS). Os genes de fusão levam à expressão excessiva desses fatores de transcrição oncogênicos. A testosterona é fundamental para a manutenção do epitélio prostático saudável, sendo essencial para sua integridade e funcionamento normal. No entanto, esse mesmo hormônio também é um fator determinante no desenvolvimento e progressão do câncer de próstata. As células prostáticas, tanto normais quanto cancerígenas, expressam uma grande quantidade de receptores de androgênio (RA). A ligação da testosterona, ou de seu derivado mais potente, a di-hidrotestosterona (DHT), a esses receptores ativa a transcrição de genes que estimulam crescimento, proliferação e sobrevivência celular. No contexto do câncer de próstata, essa sinalização androgênica é crucial para o desenvolvimento, progressão e invasão tumoral. Por isso, uma das principais estratégias terapêuticas no manejo desse câncer é a privação androgênica, que pode ser feita de forma cirúrgica (orquiectomia) ou farmacológica (medicamentos que bloqueiam a produção de testosterona ou impedem sua ligação aos receptores). A redução dos níveis de testosterona interrompe a ativação dos receptores de androgênio nas células tumorais, levando essas células a entrarem em apoptose (morte celular programada) e causando a involução tumoral, ou seja, a redução do crescimento e da atividade do câncer de próstata. Entretanto, a terapia de privação de androgênio (TPA) acaba perdendo sua eficácia clínica. A amplificação de RA é um evento comum nestes pacientes e torna o câncer sensível a níveis mínimos de androgênio ou outros ligantes de RA. Os androgênios produzidos por vias acessórias pelas glândulas suprarrenais e a suprarregulação de reguladores enzimáticos das vias de síntese de androgênio nas células do câncer de próstata resistente à castração (CPRC) proporcionam fontes adicionais de ligante. A identificação de variantes da junção de RA que são constitutivamente ativas e independentes de ligantes suscita estas como um possível mecanismo por meio do qual há o desenvolvimento de resistência hormonal. Os depósitos metastáticos do CPRC apresentam frequentes aberrações de RA, TP53, Rb e PTEN (40 a 60% dos pacientes), bem como aberrações na via de reparo de danos do DNA em quase 20%. O desenvolvimento de resistência à potente inibição da sinalização de androgênio pode estar associado à emergência de câncer de próstata de pequenas células/neuroendócrino associado ao tratamento, agressivo e letal. Não se sabe se isto reflete um processo de transdiferenciação ou seleção clonal. MORFOLOGIA Em aproximadamente 70% dos casos, o carcinoma da próstata surge na zona periférica da glândula, tradicionalmente em uma localização posterior, onde ele pode ser palpável ao exame retal. Em corte transversal, o tecido neoplásico é granuloso e firme à palpação, mas algumas vezes é extremamente difícil de discernir. As lesões avançadas apresentam-se firmes, branco-acinzentadas e com margens mal definidas infiltradas na glândula adjacente (Figura 16.12). Figura 16.12 Adenocarcinoma da próstata. O tecido carcinomatoso é observado na face posterior (circulado, parte inferior esquerda). Observe a aparência sólida do câncer em contraste com a aparência esponjosa da zona periférica benigna na porção contralateral. Figura 16.13 A. Adenocarcinoma da próstata mostrando pequenas glândulas comprimidas entre as glândulas benignas maiores. B. A maior magnificação mostra várias glândulas malignas pequenas com núcleos aumentados, nucléolos proeminentes e citoplasma escuro em comparação com a glândula benigna maior (no alto). Figura 16.14 Graduação de Gleason do câncer de próstata. A. Adenocarcinoma da próstata de baixo grau (escore de Gleason 1 + 1 = 2) consistindo em glândulas malignas de tamanhos uniformes em posição dorsodorsal revestidas por uma só camada de células epiteliais. B. Um foco de adenocarcinoma da próstata de grau 4 de Gleason revela grandes glândulas cribriformes com múltiplas pontes celulares cruzando os lumens centrais. C. Adenocarcinoma do Grupo de Grau 5 (escore de Gleason 5 + 5 = 10) composto de lâminas de células malignas sem formação identificável de glândulas.(B. Cortesia de ExpertPath, copyright Elsevier.) A maioria dos cânceres de próstata consiste em adenocarcinomas moderadamente diferenciados que produzem glândulas bem definidas. As glândulas em geral são menores que as glândulas benignas (Figura 16.13 A), são revestidas por uma única camada uniforme de epitélio cuboide ou colunar baixo, e lhes falta a camada celular basal observada nas glândulas benignas envolvidas pela HPB. Além disso, as glândulas malignas são compactas e geralmente não têm as ramificações e as invaginações papilares observadas nas glândulas benignas. Os núcleos estão aumentados e, muitas vezes, contêm um ou mais nucléolos proeminentes (Figura 16.13 B). Alguma variação em tamanho e formato nucleares é usual, mas em geral o pleomorfismo não é acentuado. As figuras mitóticas são raras. Em graus mais altos, estão presentes estruturas glandulares irregulares ou desiguais, glândulas cribriformes, lâminas de células ou células individuais infiltrativas. Em aproximadamente 80% dos casos, o tecido prostático removido em razão de um carcinoma também apresenta presumidas lesões precursoras, referidas como neoplasia intraepitelial prostática de alto grau (HGPIN, do inglês high-grade prostatic intraepithelial neoplasia). Notavelmente, muitas das alterações moleculares observadas nos cânceres invasivos também são observadas na HGPIN. A graduação é baseada no sistema de Gleason, que estratifica o câncer de próstata em cinco graus com base nos padrões glandulares de crescimento. O grau 1 representa os tumores mais bem diferenciados, similares ao tecido prostático benigno (Figura 16.14 A), enquanto os tumores de grau 5 não formam glândulas e infiltram o estroma em cordões, lâminas e ninhos sólidos (Figura 16.14 C). Os outros graus se enquadram entre esses extremos (Figura 16.14 B). A maioria dos tumores contém mais de um padrão; nesses casos, um grau primário é atribuído ao padrão dominante e um grau secundário é atribuído ao segundo padrão mais frequente. Os dois graus numéricos são então adicionados para se obter um escore combinado de Gleason. A maioria dos cânceres potencialmente tratáveis detectados na biopsia por agulha como resultado de triagem apresenta escores 6 ou 7 de Gleason. Os tumores com escores de Gleason de 8 a 10 tendem a ser cânceres avançados com menor probabilidade de cura. Atualmente, os escores de Gleason são combinados em cinco Grupos de Graus, cada qual com um diferente prognóstico. O estadiamento patológico do câncer de próstata é usado em combinação com o grau para estratificar o tratamento do câncer de próstata. CLASSIFICAÇÃO DE GLEASON Imagina que o câncer de próstata é como uma bagunça na arquitetura da próstata. O Gleason serve pra medir o quão desorganizada tá essa bagunça. 뢂뢃뢄뢅뢆뢇 Como funciona? O patologista olha a lâmina e escolhe dois padrões mais comuns de crescimento tumoral: 꼠 O mais frequente (o que mais aparece na lâmina); 꼠 O segundo mais frequente (o segundo padrão mais presente). Cada um desses padrões recebe uma nota de 1 a 5, sendo: 1: tecido quase normal, super organizado (quase nunca é usado hoje em dia); 5: tudo destruído, super bagunçado, células crescendo de qualquer jeito. ��� Soma Gleason: Pega o primeiro número (padrão mais comum) e soma com o segundo (padrão secundário). 跚跛跜距 Exemplo: 3 + 4 = Gleason 7. 껠껡 Interpretação básica: 6 ou menos: câncer de baixo grau, mais bonzinho, cresce devagar. 7: grau intermediário. Aqui importa a ordem! o 3 + 4: mais puxado pro bonzinho. o 4 + 3: mais puxado pro malvadão. 8, 9 ou 10: câncer agressivo, cresce rápido e é mais perigoso. MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS A maioria dos pacientes com doença confinada à próstata em estágio inicial é assintomática. As manifestações de obstrução da micção (hesitação, jato urinário intermitente, diminuição da força do jato) em geral refletem a doença localmente avançada com crescimento para a uretra ou para o colo vesical, embora essas manifestações sejam indistinguíveis da HPB (ver Capítulo 120). Os tumores localmente avançados também podem resultar em hematúria e hematospermia. O câncer de próstata que se disseminou para os linfonodos pélvicos regionais ocasionalmente causa edema de membros inferiores ou desconforto nas áreas pélvica e perineal. As metástases ocorrem mais comumente para os ossos, onde com frequência são assintomáticas, mas também podem causar dor intensa e incessante. As metástases ósseas podem resultar em fraturas patológicas ou compressão raquimedular. Embora as metástases viscerais sejam raras como manifestações iniciais do câncer de próstata, há uma incidência cada vez maior de metástases pulmonares, hepáticas, pleurais, peritoneais e no sistema nervoso central, que parecem surgir com o tratamento. DIAGNÓSTICO Mais de 60% dos pacientes com câncer de próstata são assintomáticos, e o diagnóstico é feito apenas em razão da elevação do nível de PSA detectada no rastreamento. Um nódulo palpável no toque retal, que é a segunda manifestação clínica inicial mais comum, em geral motiva a biopsia. Muito menos comumente, o câncer de próstata é diagnosticado em razão da doença avançada, que causa sintomas de obstrução da micção, desconforto pélvico ou perineal, edema em membros inferiores ou lesões ósseas sintomáticas.O prognóstico dos pacientes com câncer de próstata está correlacionado ao grau histológico e à extensão (estágio) da doença. Mais de 95% dos cânceres de próstata são adenocarcinomas, e é comum haver doença multifocal. Câncer de próstata de pequenas células de novo é muito incomum, ocorrendo em 1% ou menos dos casos de câncer de próstata. É diferente do câncer de próstata de pequenas células/neuroendócrino associado ao tratamento, que é observado em homens com câncer de próstata resistente à castração e que compartilha características do adenocarcinoma e câncer de pequenas células.5b O grau histológico (de Gleason) dos adenocarcinomas varia de 3 a 5, e uma pontuação é atribuída ao padrão primário e secundário observado, que em seguida é somada para produzir uma pontuação total. Tem sido cada vez mais utilizado o Gleason Grading Grouping, que define cinco grupos de risco com base na pontuação de Gleason.6 O novo sistema de graduação supera algumas das limitações do estadiamento de Gleason original e proporciona uma diferenciação mais refinada entre os grupos prognósticos. 꼆꼇꼈꼉꼊 Tratamento do Câncer de Próstata Localizado – Resumo Esquemático de Bolso 虌虇虈虉虊虋 Princípios da Terapia As 4 principais opções são: 1. 꺐꺑꺏 Vigilância ativa – Observação rigorosa sem tratar imediatamente. – Ideal para pacientes com câncer de baixo risco, pouco agressivo. 2. � Prostatectomia radical (retirada total da próstata) – Acesso retropúbico ou perineal. – Pode ser associada à radioterapia (RT) nas margens ou pelve se necessário. – Mais comum em pacientes mais jovens ou com expectativa de vida longa. 3. ����� Radioterapia externa – Tradicional ou intensidade modulada hipofracionada (menos sessões, dose maior). – Para quem não quer ou não pode operar. 4. �����껭껮껯껰껷껱껲껳껴껵껶껸 Braquiterapia (implante de sementes radioativas na próstata) – Isolada em casos bem localizados, ou combinada à RT externa se tiver maior risco. ��� Decisão do Tratamento → Individualização Absoluta! Leva-se em conta: – Comorbidades ꨌꨓꨍꨎꨏꨐꨑꨒ – Expectativa de vida ������ – Perfil do tumor (PSA, Gleason, extensão) ����� – Preferência do paciente 딖딗딘땀떍떎땂땃땄땅딜땆딞딟딠떏딡딢딣떐 Por Risco 꼞 Baixo risco – Geralmente vigilância ativa. – Cirurgia ou RT são opções, mas muitas vezes o paciente nunca precisará tratar. 믅 Risco intermediário – Normalmente cirurgia ou RT. – Pode associar com privação androgênica (TPA) curta (4 a 6 meses) se RT. – Estudo clássico mostrou que cirurgia reduz mortalidade em 40% em 18 anos! 꼝 Alto risco – Tumor com Gleason 8-10,PSA > 10 ou T3. – Opções: – Cirurgia + RT de resgate se PSA subir. – Ou RT + TPA longa (até 3 anos) — padrão ouro pra maioria dos pacientes. – Combinação com abiraterona (bloqueia produção de androgênio) é tendência atual e muito eficaz. 껠껡 Terapia de Privação Androgênica (TPA) → O bloqueio do "combustível" do tumor, que é testosterona. Castração farmacológica: agonistas/antagonistas de LHRH (ex.: leuprorrelina, goserelina, relugolix). Ou bloqueadores de síntese androgênica (ex.: abiraterona). Curiosidade médica marota: 跚跛跜距 Usar TPA antes da cirurgia não melhora desfecho! Só faz sentido com RT ou em contexto adjuvante/paliativo. 脥깢깣 Doença Recidivante (PSA subindo pós- cirurgia ou RT) – RT de resgate é eficaz. – Se RT + bloqueio androgênico (ex.: bicalutamida), melhora sobrevida e retarda metástases. – PET com fluciclovina ajuda a localizar recidiva (tecnologia moderna e elegante 跼跽跾跿). ��� Efeitos Adversos dos Tratamentos – Cirurgia: 꼡 Incontinência urinária (