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FUNDAMENTOS DO GESTOR FINANCEIRO AULA 6 Prof. Daniel Weigert Cavagnari 2 CONVERSA INICIAL Profissional consciente e sensível Até aqui passamos por muitos perfis do egresso previsto para o mercado de trabalho. Ético e comprometido; propositivo e colaborativo; crítico e reflexivo; analítico e responsável; e, todos nas mais diversas competências, envolvendo estratégia, mercado, cenários e ciência. Encerraremos nosso estudo trazendo algo menos tangível e mais sensível, consciente. Não é apenas saber e compreender; é usar o conhecimento e as consequências a que ele pode levar. Para isso, utilizaremos questões relacionadas ao perfil de um profissional consciente e sensível presentes nos dois últimos Enades (Exame Nacional de Desempenho de Estudantes), de 2018 e 2022 – os mais didáticos e relacionados a essa condição prática. CONTEXTUALIZANDO Crédito: Daniel Weigert Cavagnari/ Dall-e (OpenAI). Consciência e sensibilidade são atribuições de pessoas engajadas e bem- informadas, acima de tudo. A exemplo disso, podemos mentalizar as discussões acerca de combustíveis e a geração de dióxido de carbono (CO2). Por um lado, um veículo a gasolina, em movimento, gera CO2 na atmosfera. Bastante. Movido a diesel, mais ainda. Já um carro elétrico, com bateria de lítio, não gera CO2. Não quando está andando, mas segundo especialistas, para produzir a bateria, é emitido, sim – e muito. 3 Um carro a álcool gera menos CO2, comprovadamente. Desde que a colheita da cana-de-açúcar que produziu o álcool não tenha sido por meio de queimada para dinamizar a produção. A queima gera muito CO2. Muito mesmo. Note aqui que apenas entender profundamente do assunto, pode não esclarecer a verdade: quem polui menos e em que condições. Afirmações são a base do senso comum – não a sensibilidade. Portanto, elas são inválidas, sem base científica, nem estudo aplicado. Saber que nem todas as baterias são produzidas com a geração de CO2 em excesso, nem todas as plantações de cana são queimadas, leva à sensibilização do contexto, evitando apostar em uma verdade que pode ser relativa ou desnecessária. Lembre-se: conhecer e entender não é o suficiente. É preciso vivência e ciência. A escolha dependerá das consequências. Tudo tem um custo, seja ele financeiro ou social. TEMA 1 – TAXA DE DESOCUPAÇÃO DESSAZONALIZADA Crédito: Daniel Weigert Cavagnari/ Dall-e (OpenAI). Segundo Cavagnari (2023), a questão de trabalho e ocupação vem das condições de população ativa e população inativa, ou seja, das pessoas que trabalham no sistema e conduzem a produtividade coletiva, e as que consomem, ora porque se preparam (estudantes), ora porque formam pessoas (donas e donos de casa), ora porque já contribuíram por muito tempo para esse sistema ( aposentados). Assim, temos as seguintes definições: • População Economicamente Ativa (PEA): São todos os indivíduos capacitados a intervir no processo produtivo de um país e que tenham idade entre 16 e 65 anos (legislação trabalhista brasileira), ou seja, todos 4 aqueles que podem trabalhar, trabalham, ou estão desempregados e procuram emprego. • População Economicamente Inativa (PEI): São todos os indivíduos que não podem trabalhar, ou que simplesmente nunca trabalharam e, portanto, não procuram emprego (menores de 16 anos – exceto aprendizes a partir dos 14 anos –, aposentados, incapacitados de trabalhar, donos e donas de casa, estudantes). Mas a condição de emprego e desemprego vai além. Pessoas ativas podem fazer parte do contexto de quem procura emprego, mas que nunca trabalhou; esses ocuparão o mercado de trabalho, reduzindo a taxa de desemprego. O desemprego, portanto, é: População de desempregados economicamente ativos/ População economicamente ativa Mas o conceito de que vamos tratar aqui é mais social, embora econômico. É uma questão de consciência e sensibilidade. É a taxa de desocupação. Pessoas que procuram emprego, mas não encontram. O que diferencia a taxa de desocupação da taxa de desemprego é semântica. Há quem diga que não há diferença: é PEA e pronto. Mas há quem diga que o desocupado é o indivíduo que procura emprego (mesmo que nunca tenha trabalhado) e quem perdeu emprego: é neste que vamos focar. Há ainda quem considera desocupados os desempregados que já trabalhavam antes, mas esse conceito é um pouco raso e difícil de calcular. Dessazonalizado é contrário a sazonalidade, ou seja, não pertence a um período específico, como final de ano, safras etc. Para entendermos e nos sensibilizarmos acerca desse tema, vamos avaliar a questão discursiva número 04 do Enade de 2022 (Gestão Financeira), que trata desse conceito. 1.1 Questão discursiva 4 (Enade 2022) De forma simplificada, o desemprego diz respeito às pessoas com idade para trabalhar (acima de 14 anos) que não estão trabalhando, mas estão disponíveis e tentam encontrar ocupação. De acordo com a metodologia usada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) na Pesquisa Nacional 5 por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), o estudante e a dona de casa estão fora da força de trabalho. A PNAD Contínua mostra quantos desempregados há no Brasil. Nela, o que é conhecido popularmente como desemprego é registrado como desocupação. Nesse sentido, no trimestre de março a maio de 2022, a taxa de desocupação (9,8%) recuou 1,4 ponto percentual, comparada à do trimestre anterior, de dezembro de 2021 a fevereiro de 2022. A partir do 4º trimestre de 2021, começou-se a observar um processo de inserção da população ocupada em atividades como construção, indústria, agricultura e serviços relacionados à tecnologia da informação e comunicação. Com a melhoria no quadro da pandemia, os serviços mais presenciais, que tinham sido bastante afetados, começaram a vislumbrar uma recuperação. Trata-se de um processo de reversão das perdas que ocorreram em 2020, com gradativa melhora ao longo de 2021. A economia, a renda e os empregos de uma parcela considerável da população brasileira foram profundamente afetados pelos distúrbios criados pela pandemia. O resultado desse processo para as famílias brasileiras foi desastroso, uma vez que, durante esse período, a renda domiciliar per capita diminuiu. No início de 2022, houve certa estabilidade da população ocupada, retomando-se a expansão em diversas atividades econômicas, conforme apresenta o gráfico a seguir. Fonte: Enade GF, 2022. 6 Comando da questão Considerando as informações apresentadas, redija um texto sobre a taxa de desocupação e os impactos da pandemia de Covid-19 na vida das famílias brasileiras. Em seu texto, aborde os seguintes aspectos: • o impacto da pandemia na renda das famílias brasileiras, considerando a taxa de desemprego no Brasil; • a taxa de desocupação no trimestre de março a maio de 2022 comparada à do trimestre anterior. Padrão de resposta (Enade 2022) O estudante deve mencionar em seu texto que o impacto da Covid-19 na economia afetou o trabalho das famílias brasileiras, aumentando a taxa de desocupação no Brasil, conforme dados da PNAD Contínua. Muitos trabalhadores ficaram desempregados e, com a crise econômica, diminuiu o poder de compra do cidadão, agravando-se profundamente a renda das famílias. As famílias de menor renda foram as mais afetadas. Muitos setores utilizaram o home office, no período mais grave da pandemia, como medida emergencial. Conforme mostra o gráfico, em 2020, com a chegada da pandemia ao país, houve aumento da taxa de desocupação, a qual começou a reduzir-se a parar do 3o trimestre de 2021. No 2o trimestre de 2022, começou-se a observar um processo de recuperação, no qual a taxa de desocupação foi reduzida para 9,8%, recuando 1,4 ponto percentual, se comparada à do trimestre anterior, de dezembro de 2021 a fevereirode 2022, ano em que o percentual era de 11,2%. (Fonte: Enade, 2022). 1.2 Texto sugerido de resposta à Questão 04 A pandemia da Covid-19 marcou profundamente a economia brasileira, refletindo-se diretamente na vida das famílias com o aumento da taxa de desocupação. Segundo a PNAD Contínua, muitos trabalhadores perderam seus empregos, exacerbando a crise econômica e reduzindo o poder de compra. Esse cenário agravou a situação de famílias, especialmente as de menor renda. A adaptação ao home office foi uma das medidas emergenciais adotadas por diversos setores. 7 Os dados revelam que, após um pico de desemprego em 2020, houve uma gradual recuperação a partir do terceiro trimestre de 2021. No segundo trimestre de 2022, a taxa de desocupação caiu para 9,8%, evidenciando uma melhora significativa frente aos 11,2% do trimestre anterior, marcando um caminho de recuperação econômica. 1.3 Análise e estrutura da questão Inicialmente, repare na conceitualização do termo, no primeiro parágrafo e no início do segundo do texto da Questão 04 (grifado em cinza), importante para evitar confusão acerca dos termos desemprego e desocupação. PEA e PEI ficaram claros. Aqui, eles são tratados igualmente. Se não fosse assim, essa questão provavelmente seria anulada. No trecho seguinte (grifado em verde), há a articulação dos números, a ciência e a consciência das informações do gráfico, pois ele menciona dados que não estão explícitos no gráfico, mas devemos percebê-los. O trimestre entre março e maio de 2022 é representado apenas pelo início do trimestre (abril), partindo do número 9,4%; 11,2% também não aparece. O que ocorre é que o texto apresenta os dados efetivos e até posteriores, deixando um gráfico para você se sensibilizar e perceber a veracidade e clareza da informação. É pelo gráfico também que vemos a taxa de desocupação (desemprego) subir e, depois, descer. Note no gráfico que, do início de 2015 ao final de 2021, o desemprego só aumenta. Perceba ainda que se você se sensibilizar com essa informação, um bom texto será redigido. O texto final, sem grifo, aumenta mais ainda a sensibilização e a consciência. O intuito é perceber o quanto você é consciente (no sentido de entender de cenário e de economia) e sensível (ético e responsável), como egresso de Gestão Financeira. 8 TEMA 2 – EFEITOS DAS VARIAÇÕES DOS CENÁRIOS ECONÔMICOS E SOCIAIS Crédito: Daniel Weigert Cavagnari/ Dall-e (OpenAI). Consciência na prática em Gestão Financeira é uma condição que nos leva a ficar atentos às ocorrências no ambiente. Isso significa que a atenção cotidiana e a sensibilidade para as mudanças estão entre os principais papéis do profissional. A exemplo disso, vamos resolver e analisar duas questões do Enade de 2022. A Questão 32 trata da ciência das criptomoedas, sua condição como ativo, e não de moeda de transação oficial. Essa questão é da postura do Gestor Financeiro consciente. A Questão 33 é mais sensível: entender sobre o conceito de inflação e de PIB não são suficientes se não forem compreendidas as consequências sociais das alterações dessas variáveis do cenário na economia. 2.1 Questão 32 (Enade 2022) Após a recessão econômica mundial ocasionada pela pandemia de Covid-19, muitos brasileiros veem o mercado de moedas digitais como uma aplicação financeira. Tais ativos financeiros, também conhecidos como criptomoedas ou moedas virtuais, assemelham-se a moedas, em seu sentido tradicional, com a grande diferença de que estas são controladas por um órgão ou governo – a Casa da Moeda, no caso do Brasil –, ao passo que aquelas, em sua maioria, não se submetem a um órgão regulador. Prometendo descomplicar o sistema financeiro, as criptomoedas dispensam intermediários em suas transações, que são realizadas por meio de 9 um sistema chamado blockchain, composto por dois mecanismos: o block, capaz de registrar a movimentação dos ativos, e o chain, função algorítmica que gera uma impressão digital, o que possibilita individualizar cada criptomoeda. Quando o assunto passa a ser a regulamentação das moedas digitais no cenário nacional, é imperioso destacar o Comunicado Bacen n. 25.306/2014, no qual se diferencia criptomoedas de “moeda eletrônica”1 (Enad, 2022). Considerando o exposto, avalie as afirmações a seguir. I. As moedas virtuais não são emitidas, garantidas ou reguladas pelo Banco Central do Brasil e possuem forma, denominação e valor próprios. II. As moedas virtuais podem ser usadas como aplicações financeiras, estando, nesse caso, a compra e a guarda delas sujeitas aos riscos de perda de todo o capital investido, em razão de fraudes e da variação de seu preço. III. As moedas virtuais não se confundem com o padrão monetário do real, de curso forçado, ou com o padrão de qualquer outra autoridade monetária; assim, também não se confundem com a moeda eletrônica prevista na legislação, que se caracteriza como recurso, em reais, mantido em meio eletrônico. Dessas alternativas, quais estão corretas? a) I, apenas. b) III, apenas. c) I e II, apenas. d) II e III, apenas. e) I, II e III. (Fonte: Enade, 2022). Repare que essa é uma questão que atende até mesmo à condição de inovação das competências da Gestão Financeira, pois só é abordada como ciência em Blockchain e Criptomoedas e Sistema Financeiro Digital. Claro, quem já simpatizava e atualizava sua leitura acerca das criptomoedas, entenderia seu conceito. Criptomoedas, como Bitcoin, Ethereum etc., são interpretados pela Receita Federal como ativos digitais. Ou seja, algo que você compra e que se valoriza ou desvaloriza digitalmente. Não são moedas de circulação, e qualquer aceite em nosso mercado é entendido como escambo, não como moeda. De qualquer forma, segundo a Receita Federal, deve ser declarado, pois gera ganhos de capital. Portanto, as três afirmações estão 1 Disponível em: https://exame.com/bussola/tributacao-de-criptomoedas-avanco-ou-violacao- da-legalidade/. Acesso em: 22 abr. 2024. 10 corretas, sem qualquer dúvida. O mais interessante acerca da questão é que ela também ensina. 2.2 Questão 33 (Enade 2022) A inflação provoca vários efeitos negativos na economia. Entre eles está a queda no poder de compra e a redução no consumo, que por sua vez reduz a expectativa de vendas. Além disso, tende a gerar diminuição nos investimentos. A queda no consumo e na taxa de investimento também geram impactos negativos no Produto Interno Bruto (PIB). Com o consumo e o investimento sofrendo queda, provavelmente haverá redução no crescimento econômico. Com base nas informações apresentadas, avalie as afirmações a seguir. I. As camadas mais pobres da população são as mais prejudicadas pela inflação, visto que sua renda está envolvida na maioria dos produtos inelásticos. II. Os índices de preços são números que agregam e representam os preços de determinada cesta de bens e serviços específicos. III. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) serve de base para o reajuste do salário-mínimo. IV. A inflação de custos é causada pelo aumento da oferta agregada. É correto apenas o que se afirma em a) I e II. b) II e IV. c) III e IV. d) I, II e III. e) I, III e IV. (Fonte: Enade, 2022). Interessante é que, apesar da teoria acerca da inflação, independentemente da formação do cidadão, ou ele entende, ou ele vive as condições de inflação. O enunciado da questão apresenta uma definição conceitual, principalmente ao comparar o PIB (variável de crescimento econômico) à inflação. Aumento de preços, queda nas vendas: vende menos, produz menos, menor o PIB. O item I diz exatamente o que sabemos na prática. Não é a ciência, mas a sensibilidade que compreende que é uma verdade. 11 O segundo item também está correto, mas é mais conceitual: a formação dos índices de inflação. No casoo INPC (Índice de Preços ao Consumidor), o mais comum, que se baseia em cestas de consumo de produtos e serviços, cujo cálculo é baseado no aumento ou redução (deflação, nesse caso) de um período a outro, geralmente mês a mês. O terceiro é ainda mais conceitual. O salário-mínimo é base e é determinado ou atualizado em conformidade com o índice de inflação oficial – no caso o INPC. Já inflação de custos, apesar de ser o aumento generalizado, não é o de preços ao consumidor, mas dos custos e da matéria-prima. A inflação de demanda pode ocorrer pela inflação de custos, e não o contrário. A inflação de custos acontece geralmente por questões sazonais (safra), ou deficiências de matéria-prima. Pode até acontecer por uma demanda agregada exacerbada (demanda de grande proporção), ou por falha típica da oferta (safra deficiente), mas oferta agregada (geral), não. Portanto, o item IV não está correto. TEMA 3 – ANALISAR INFORMAÇÕES DE INDICADORES FINANCEIROS Crédito: Daniel Weigert Cavagnari/ Dall-e (OpenAI). Algumas pessoas sempre dizem que não compreendem por que devem aprender a calcular, uma vez que calculadoras, computadores e sistemas fazem isso com mais rapidez e precisão. Certo, mas aprendermos o processo do cálculo, tem sua importância. Uma variável, por exemplo, é apenas uma sigla, quando estamos observando. Mas o que há nela? Como chegamos até ela? Como garantir que um computador ou sistema não tenha uma falha? 12 São justamente as origens das informações que nos sensibilizam acerca do resultado. Sabe aquele copo que enxergamos com ¾ de líquido e que recebemos como metade? É uma condição de consciência. Por exemplo, o ILC é o Índice de Liquidez Corrente de uma competência (ano ou mês) que demostra uma informação financeira importante sobre a saúde da empresa (liquidez corrente é a capacidade da empresa em honrar seus pagamentos em dia). Sua fórmula é: ILC = 𝐴𝑡𝑖𝑣𝑜 𝐶𝑖𝑟𝑐𝑢𝑙𝑎𝑛𝑡𝑒 𝑃𝑎𝑠𝑠𝑖𝑣𝑜 𝐶𝑖𝑟𝑐𝑢𝑙𝑎𝑛𝑡𝑒 Se esse resultado for maior que 1 (um), ou seja, o Ativo Circulante (o que a empresa tem de giro) for maior que o Passivo Circulante (o que ela tem para pagar de giro), significa que ela tem recursos suficientes para pagar suas dívidas. Agora, você analisando o resultado do ILC, saberá em que condições está a empresa. Melhor: você não vai esquecer como o ILC foi composto e, se perceber que um ativo for menor que o passivo, resultará em um número menor do que 1, isto significa que a empresa não tem ativo circulante suficiente para pagar suas dívidas de curo prazo (Passivo Circulante). Vejamos outros índices: Índice Financeiro Fórmula Significado Liquidez Corrente (ILC) Ativo Circulante/ Passivo Circulante Mede a capacidade da empresa em honrar seus compromissos de curto prazo. Se for maior que 1, indica que a empresa tem recursos suficientes para pagar suas dívidas. Endividamento (IE) Dívida Total/Ativo Total Mostra a proporção do financiamento da empresa que vem de dívidas. Quanto maior, mais endividada está a empresa. Índice de Cobertura de Juros (ICJ) EBIT/Despesas com Juros Mede a capacidade da empresa de pagar os juros sobre sua dívida com o lucro operacional. Quanto maior, maior é a folga financeira da empresa. Liquidez Seca (ILS) (Ativo Circulante - Estoques)/ Passivo Circulante Similar ao Índice de Liquidez Corrente, mas exclui os estoques do Ativo Circulante. Mede a capacidade de pagamento de dívidas sem depender da venda de estoques. Se maior que 1, a empresa pode pagar suas dívidas de curto prazo sem vender estoques. Liquidez Imediata (ILI) Disponibilidades/ Passivo Circulante Mede a capacidade da empresa de pagar suas obrigações imediatas com os recursos disponíveis em caixa e equivalentes de caixa. Quanto maior, melhor a posição de liquidez imediata da empresa. Relação Capital de Terceiros/Capital Próprio (RCT/CP) RCT/CP = Passivo Exigível Total/ Patrimônio Líquido Indica a proporção do financiamento da empresa que vem de fontes externas (dívidas) em relação ao capital próprio investido pelos proprietários. Uma medida de alavancagem financeira da empresa. 13 Imobilização de Recursos Permanentes (IRP) IRP = Ativo Permanente/ (Patrimônio Líquido + Passivo a Longo Prazo) Mostra quanto do capital permanente (soma do patrimônio líquido com o passivo a longo prazo) está investido em ativos permanentes. Indica a proporção de recursos de longo prazo usados para financiar ativos de longa duração. Retorno sobre o Investimento (ROI) ROI = (Lucro Líquido/ Investimento Total) x 100 Indica a rentabilidade de um investimento. Quanto maior o valor, mais lucrativo é o investimento. Margem Líquida (ML) ML = Lucro Líquido/ Receita Total Representa o percentual de lucro líquido obtido a partir da receita total. Quanto maior, mais eficiente é a empresa em converter receita em lucro real. EBITDA (LAJIDA) Lucro Antes dos Juros, Impostos, Depreciação e Amortização Reflete a geração de caixa operacional da empresa, independentemente de suas decisões de financiamento e investimento. Vejamos a seguir essa aplicação de índice de uma perspectiva de prova do Enade – no caso, da Questão 04 do Enade de Gestão Financeira de 2018. Embora ainda não estejamos em fase de aprendizado desses índices, é importante que tenhamos consciência de como eles são aplicados no cotidiano. 3.1 Questão 04 (Enade 2018) Considere os quadros a seguir, que apresentam os dados relativos ao desempenho econômico e financeiro de uma empresa. 14 Com base nas informações apresentadas, faça o que se pede nos itens a seguir. a) Analise os indicadores de liquidez apresentados para os períodos 2016 e 2017. Padrão de resposta (ENADE, 2018): O estudante deverá explicar que o indicador de Liquidez Corrente indica que, para cada R$ 1,00 de dívidas circulantes (curto prazo), a empresa mantém R$ 1,59 de ativos realizáveis no curto prazo, em 2016, e R$ 1,53, em 2017. O indicador mostra que existe um capital circulante (capital de giro) líquido positivo nos dois anos analisados. Também deve explicar que o indicador de Liquidez Seca revela que, para cada R$ 1,00 de dívidas de curto prazo, a empresa possuía R$ 0,81 e R$ 0,75 de ativos circulantes de maior liquidez (desconsiderando-se os estoques) em 2016 e 2017, respectivamente. Deve, ainda, explicar que o indicador de Liquidez Imediata indica que, para cada R$ 1,00 de dívidas circulantes (curto prazo), a empresa mantém R$ 0,20 (em 2016) e R$ 0,12 (em 2017) de ativos monetários circulantes (de alta liquidez), principalmente caixa e aplicação financeira. b) Calcule e analise o impacto no indicador de endividamento Relação Capital de Terceiros/Capital Próprio considerando a aquisição de uma máquina por meio de financiamento no valor de R$ 95 000,00 no ano de 2018. Padrão de resposta (ENADE, 2018): O estudante deverá apresentar o seguinte cálculo: relação entre capital de terceiros/capitais próprios = [347.000 (PC 2017) + 108.000 (PNC) + 95.000 (financiamento 2018)] / 275.000 = 2,00. O estudante deve, também, apresentar a seguinte análise: após a transação indicada, ocorreu um aumento de R$ 95.000,00 no Passivo Total (Capitais de Terceiros), sem aumentar os capitais próprios (patrimônio líquido). O indicador apresentou um aumento, o que mostra que, para cada R$ 1,00 de capitais próprios, existem R$ 2,00 de dívidas totais. Isso revela que a empresa está mais dependente dos recursos de terceiros em 2018 do que estava nos períodos anteriores. Fonte: Enade, 2018. 15 A Questão 04 demanda que o candidato esteja preparado para três coisas: • Compreender o que significam os resultados (maior ou menor que um nesses índices). • Conhecer os índices e recalculá-los quando necessário, com novos dados (alternativa b). • Saber se expressar acercadas informações que está lendo. Repare ainda que não há nenhuma exigência de articulação, como: • O que fazer com esse resultado? • O que quer dizer esse índice? • Quais as medidas a serem tomadas? Isso ocorre porque a questão está testando apenas a sensibilidade para o conhecimento – e não apenas o conceito de ILC, por exemplo, nem o gerenciamento de recursos, dado o resultado (embora seja uma condição do Gestor Financeiro, só que em outro perfil) –, é admitir a consciência dos resultados e estar preparado para se sensibilizar. Em outras palavras, se você souber a composição dessas simples fórmulas, será sensível aos resultados; caso contrário, verá apenas números. E não são apenas números, são a saúde e o futuro da empresa. TEMA 4 – UTILIZAÇÃO DE INSTRUMENTOS QUANTITATIVOS PARA TOMADAS DE DECISÃO 16 Crédito: Daniel Weigert Cavagnari/ Dall-e (OpenAI). Quando pensamos em utilizar instrumentos quantitativos para tomadas de decisões, na gestão financeira, vem à nossa mente números estatísticos e complexos. Tomar decisões parece difícil e complexo, mas, muitas vezes, é só uma questão de sensibilidade aos números. Percebê-los, antes mesmo de relembrar o conceito que está por trás deles. Por exemplo: Prazo médio de recebimento: PMR = 𝐶𝑜𝑛𝑡𝑎𝑠 𝑎 𝑅𝑒𝑐𝑒𝑏𝑒𝑟 𝑅𝑒𝑐𝑒𝑖𝑡𝑎 𝑀é𝑑𝑖𝑎 𝐷𝑖á𝑟𝑖𝑎 Prazo médio de pagamento: PMP = 𝐶𝑜𝑛𝑡𝑎𝑠 𝑎 𝑃𝑎𝑔𝑎𝑟 𝑀é𝑑𝑖𝑎 𝑑𝑒 𝑃𝑎𝑔𝑎𝑚𝑒𝑛𝑡𝑜𝑠 𝐷𝑖á𝑟𝑖𝑜 Será que precisamos mesmo calcular os resultados entre esses dois índices para saber se teremos condições de pagar ou receber as contas? A essência pode estar apenas nos dizeres e naquilo que precisamos. A lógica do problema está na comparação desses índices. Observe a questão 25 do Enade de 2018 e responda a ela facilmente, sem cálculos, apenas com a lógica e a sensibilidade aos números. 4.1 Questão 25 (Enade 2018) Um consultor financeiro, na análise da gestão de contas a receber e de contas a pagar de um mercado de bairro, fez o levantamento do prazo médio de pagamento de cinco fornecedores e o relacionou com o prazo médio de recebimento das vendas, conforme tabela a seguir. 17 Após a análise dos prazos médios de pagamento e de recebimento, o consultor deve aconselhar ao proprietário do mercado que ajuste a sua relação financeira com o a) fornecedor 1. b) fornecedor 2. c) fornecedor 3. d) fornecedor 4. e) fornecedor 5. Fonte: Enade, 2018. A questão aqui é: Por que fornecedor 1? Simples: se repararmos no prazo médio de pagamento, veremos que, toda vez que ele é maior que o prazo médio de recebimento, temos um problema. Imagine que você tem R$ 1.000,00 para receber até o final da semana que vem. Porém, amanhã terá de pagar uma conta, também de R$ 1.000,00. É possível? Note que, nesse caso, o prazo de pagamento é menor que o de recebimento, e não será possível honrar o compromisso. Logo, se a única opção (fornecedor 1) apresenta um prazo de pagamento menor do que o de recebimento, essa é a resposta certa. Há outras percepções de prazo médio de pagamento e de decisões, porém, em que não há fornecedor com menor prazo. Nesse caso, devemos ajustar os prazos de recebimento. Há empresas que colocam de 30 a 60 dias de prazo aos clientes, contra apenas 20 dias dos fornecedores. TEMA 5 – PLANEJAR E TOMAR DECISÕES FINANCEIRAS COM BASE NAS QUESTÕES CONJUNTURAIS Crédito: Daniel Weigert Cavagnari/ Dall-e (OpenAI). Quando há alterações no cenário e na conjuntura econômica, elas podem ser de médio a longo prazo (geralmente médio), mas tem de acontecer. 18 A vantagem de uma política alterada, apesar do desconforto, próprio da mudança, é que há a necessidade de uma estratégia, a qual deve ser eficiente. A questão 34 do Enade de 2018, a seguir, é uma das mais simples, exigindo conhecimento e sensibilidade às variáveis de conjuntura. No caso, ela trata de uma postura de política monetária contracionista (chamamos de política monetária porque faz uso de mecanismos que alteram a quantidade de moeda, e contracionista porque essa quantidade de moeda é diminuída, no intuito de conter a inflação pelo excesso de procura). 5.1 Questão 34 (Enade 2018) No processo de planejamento de uma empresa alimentícia, está sendo considerado um ambiente econômico pautado por altas taxas de juros para conter a alta da inflação. A partir desse contexto, avalie as afirmações a seguir. I. Em um cenário com a manutenção das altas taxas de juros, a empresa deveria considerar com cautela novos investimentos. II. Mantendo-se essa conjuntura econômica, com altas taxas de juros e de inflação, possivelmente o custo dos financiamentos e empréstimos para a empresa diminuirá. III. Em um cenário com perspectiva de manutenção da alta taxa de juros, há risco de diminuição do consumo dos produtos da empresa pelos clientes. Dessas alternativas, quais estão corretas? a) I, apenas b) II, apenas c) I e III, apenas d) II e III, apenas e) I, II e III. Fonte: Enade, 2018. Em uma política monetária, as altas taxas de juros são definidas pela Selic. Com a Selic alta, há um interesse em aplicar o dinheiro em renda fixa, pois as taxas estão altas e atraentes. É um modo de ganhar dinheiro sem esforço. Com o dinheiro aplicado, há menos moeda em circulação para empréstimos e, portanto, uma redução do consumo e, portanto, menos vendas. Esse é um mecanismo para conter a inflação (inflação de demanda – a procura do que é mais vendido causa aumento dos preços), mas também contém o consumo, podendo causar recessão (redução da atividade econômica). 19 Assim, o item I está correto. Note que investimento é comprar equipamentos (como vimos em conteúdos anteriores), portanto será necessário recursos externos além do capital próprio. Com juros altos, o financiamento é caro. Note que o item II contraria o I, perdendo seu sentido. Taxas de juros altas, financiamento caro. O item III está correto. Altas taxas de juros, menos dinheiro, menos pessoas comprando. A alternativa correta é a c. TROCANDO IDEIAS Esses foram os primeiros momentos de estudo em Gestão Financeira e o primeiro contato com a prática. Eles geraram algumas dúvidas e até incertezas, quando tentamos compreender cada um desses critérios e teorias. Fique tranquilo, até lá tem bastante coisa para ser estudada, e cada uma relacionada a uma área com a qual você mais se identifica. Outras nem tanto, mas saber que elas existem, é fundamental. Por isso, é importante um contato com o que o MEC espera de você no Enade. Se quiser se antecipar em alguns conhecimentos, acesse e baixe as provas de Gestão Financeira já efetuadas (2009, 2012, 2015, 2018, 2022)2, e seus respectivos gabaritos e padrões de respostas das questões discursivas. Vai ser uma viagem bem interessante. NA PRÁTICA Drex é uma moeda digital. É o Real digital. Não é uma criptomoeda, mas utiliza a tecnologia Blockchain, smartcontracts, tokens, entre outras. É o Real, mas sem emissão em papel. Sim, o dinheiro que movimentamos em nossas contas vem das impressões de moeda e de algumas permissões aos bancos em multiplicá-la eletronicamente (moeda eletrônica não é moeda digital). O Drex ainda não está em funcionamento, mas já possui processos pilotos. Desse modo, pesquise sobre o Drex, aplicações e novos conceitos que ele vai colocar no mercado. Aponte pelo menos três particularidades dessa moeda que você considera futuristas. 2 Disponível em: https://www.gov.br/inep/pt-br/areas-de-atuacao/avaliacao-e-exames- educacionais/enade/provas-e-gabaritos. Acesso em: 22 abr. 2024. 20 FINALIZANDO Nesta abordagem, vimos algumas questões dos Enade de 2018 e 2022, exigindo um pouco mais de conhecimento das teorias envolvidas, como sentir a falta de emprego, tanto para a economia quanto para a sociedade, de perceber nas questões inovadoras a informaçãocorreta, sem fantasia ou acessórios, de entender a origem de cálculos, percebendo que um número pode dizer muito, desde que esteja certo e com suas bases corretas, e de compreender o quanto um influencia o outro. REFERÊNCIAS ANDRICH, E. G.; CRUZ, J. A. W. Gestão financeira moderna: uma abordagem prática. Curitiba: InterSaberes, 2013. ASSAF NETO, A. Finanças corporativas e valor. 5. ed. São Paulo: Atlas, 2010. BANCO CENTRAL DO BRASIL. O que é o Drex? Disponível em: https://www.bcb.gov.br/estabilidadefinanceira/drex. Acesso em: 22 abr. 2024. BLANCHARD, O. Macroeconomia. 7. ed. São Paulo: Pearson, 2017. BRAGA, R. Fundamentos e técnicas de administração financeira. 16. ed. São Paulo: Atlas, 2008. BRASIL. ENAP – Escola Nacional de Administração Pública. O que é um think tank e qual é a sua importância para políticas públicas no Brasil, 13 set. 2021. Disponível em: https://www.enap.gov.br/pt/acontece/noticias/afinal-o-que- e-um-think-tank-e-qual-e-a-sua-importancia-para-politicas-publicas-no-brasil. Acesso em: 22 abr. 2024. BRASIL. Ministério da Educação. CST em Gestão Financeira. In: Catálogo Nacional de Cursos Superiores 2016. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias =98211-cncst-2016-a&category_slug=outubro-2018-pdf-1&Itemid=30192. Acesso em: 22 abr. 2024. BRASIL. Ministério da Educação. INEP – Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira. Provas e gabaritos, 29 nov. 2023. Disponível em: https://www.gov.br/inep/pt-br/areas-de-atuacao/avaliacao-e- exames-educacionais/enade/provas-e-gabaritos. Acesso em: 22 abr. 2024. 21 BRASIL. Ministério do Trabalho. CBO – Classificação Brasileira de Ocupações Disponível em: http://www.mtecbo.gov.br/cbosite/pages/home.jsf. Acesso em: 22 abr. 2024. CAMPOS, A. Brasil perde 5,8 mil agências bancárias em 7 anos; cooperativas dobram. Valor Econômico, 21 set. 2022. Disponível em: https://valor.globo.com/financas/noticia/2022/09/21/brasil-perde-58-mil-agncias- bancrias-em-7-anos-cooperativas-dobram.ghtml. Acesso em: 22 abr. 2024. CARRO elétrico sempre emite menos CO2 do que os demais? Depende. O Globo, 3 abr. 2023. Disponível em: https://oglobo.globo.com/economia/negocios/noticia/2023/04/carro-eletrico- sempre-emite-menos-co2-do-que-os-demais-depende.ghtml. Acesso em: 22 abr. 2024. CARSTENS, D.; FONSECA, E. Gestão da tecnologia e inovação. Curitiba: InterSaberes, 2019. CAVAGNARI, D. W. Administração financeira e o gerenciamento de capital. Curitiba: InterSaberes, 2023. CAVAGNARI, D. W. Pequenas e médias empresas no Brasil. Curitiba: Aymará, 2008. CAVAGNARI, D. W. Lidando com as diferenças nas equipes. Rio de Janeiro: FGV, 2004. (Resumo do texto). CHIAVENATO, I. Gestão financeira: uma abordagem introdutória. 3 ed. Barueri: Manole, 2014. CHIAVENATTO, I. Iniciação à teoria das organizações. Barueri: Manole, 2010. FEBRABAN. Federação Brasileira de Bancos. A transformação das fintechs. Disponível em: