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00
35
5
Revista E | dezembro de 2024 
nº 06 | ano 31
Vidas em 
cena 
A alteridade no 
teatro de Mariana 
de Althaus 
Abdias 
Nascimento 
A produção 
estética negra como 
resistência no Brasil 
Sesc 
Franca 
Nova unidade 
inaugurada no 
interior de SP 
Naquela 
manhã 
Texto inédito 
de Ignácio de 
Loyola Brandão 
EXPOSIÇÕES
PRORROGADAS
SAIBA MAIS EM SESCSP.ORG.BR
UM DEFEITO
DE COR
Curadoria de Amanda 
Bonan, Ana Maria Gonçalves 
e Marcelo Campos.
Idealização: Boitempo
ATÉ 26 FEV 2025
Pinheiros
LÉLIA EM NÓS: 
FESTAS POPULARES
E AMEFRICANIDADE
Curadoria de Glaucea Britto 
e Raquel Barreto.
Idealização e concepção: 
Museu de Arte do Rio (MAR). 
Parceria Institucional: 
Organização de Estados 
Ibero-americanos (OEI)
ATÉ 9 FEV 2025
Vila Mariana
Fotos: Andréia Beltrão / Sesc
Fotos: Matheus José Maria / Sesc
EXPOSIÇÕES
PRORROGADAS
SAIBA MAIS EM SESCSP.ORG.BR
UM DEFEITO
DE COR
Curadoria de Amanda 
Bonan, Ana Maria Gonçalves 
e Marcelo Campos.
Idealização: Boitempo
ATÉ 26 FEV 2025
Pinheiros
LÉLIA EM NÓS: 
FESTAS POPULARES
E AMEFRICANIDADE
Curadoria de Glaucea Britto 
e Raquel Barreto.
Idealização e concepção: 
Museu de Arte do Rio (MAR). 
Parceria Institucional: 
Organização de Estados 
Ibero-americanos (OEI)
ATÉ 9 FEV 2025
Vila Mariana
Fotos: Andréia Beltrão / Sesc
Fotos: Matheus José Maria / Sesc
Legendas Acessibilidade
Em estabelecimentos 
de uso coletivo 
é assegurado o 
acompanhamento de 
cão-guia. As unidades 
do Sesc estão 
preparadas para receber 
todos os públicos.
Portal do Sesc 
(QR Code ao lado) 
Leia também a revista 
em versão digital na sua 
plataforma favorita:
APP Sesc São Paulo 
para tablets e celulares 
 
 
 
CAPA: Detalhe arquitetônico da fachada do Sesc 
Franca, nova unidade que abre suas portas no dia 
28/11. Com capacidade para atender até 2,5 mil 
pessoas por dia, o Sesc Franca conta com piscinas, 
teatro, quadras de areia, de campo, de grama sintética, 
ginásio e sala de ginástica funcional. Dispõe ainda de 
biblioteca, espaços expositivos, espaço de brincar – 
para bebês e crianças de até seis anos – e Espaço de 
Tecnologias e Artes. Saiba mais: sescsp.org.br/franca
Crédito: Matheus José Maria 
O ano de 2024 termina com a celebração da abertura de mais 
uma unidade do Sesc em São Paulo. Inaugurado em 28 de 
novembro, o Sesc Franca já se configura como a maior unidade 
do Sesc no interior paulista, com 35 mil metros quadrados de 
área construída. Seguindo as premissas da entidade em seu 
compromisso com a sustentabilidade, o novo centro cultural e 
esportivo apresenta uma arquitetura que convida a população 
aos encontros, com espaços integrados para apresentações 
artísticas, práticas físico-esportivas e áreas de lazer. 
A nova unidade do Sesc tem capacidade para receber até 
2,5 mil pessoas por dia, que poderão usufruir de: ginásio 
poliesportivo, duas quadras de areia, conjunto aquático, sala 
de ginástica multifuncional, além de teatro, biblioteca, espaço 
expositivo e clínica odontológica. Com a inauguração do 
Sesc Franca, a entidade soma 43 unidades em operação em 
todo Estado, distribuídas pela capital, região metropolitana e 
litoral. A chegada em definitivo a Franca faz parte do plano de 
expansão da rede, que prevê, até 2033, mais nove unidades. 
Com essa iniciativa, o empresariado do setor de comércio 
e serviços, que mantém o Sesc, reafirma seu compromisso 
com a sociedade em promover o desenvolvimento integral 
dos indivíduos, tendo a ação educativa como um eixo 
transversal e permanente. 
Abram Szajman
Presidente do Conselho Regional 
do Sesc no Estado de São Paulo
Chegada 
em Franca 
Lugar para promover encontros, exaltar a pluralidade, 
desenvolver-se, ampliar as relações interpessoais, 
construir vínculos. A cidade de Franca, no noroeste 
paulista, acolhe a mais nova unidade do Sesc, um 
espaço que convida o público a participar dessa ação 
reconhecidamente emancipadora em seu âmbito 
educativo e transformador. A iniciativa apoia-se 
nas experiências acumuladas pela instituição ao 
longo de seus 78 anos, voltadas à sua missão de 
buscar a melhoria da qualidade de vida de seus 
frequentadores. São esforços que se efetivam numa 
ampla programação com apresentações, cursos, 
bate-papos, vivências, entre outras propostas 
voltadas, essencialmente, ao exercício da cidadania. 
A partir de agora, a população de Franca e dos 
municípios do entorno terão acesso a uma vasta e 
diversificada programação, que é alicerçada em cinco 
eixos: Cultura, Educação, Saúde, Lazer e Assistência. 
Tudo isso ofertado numa arquitetura construída com 
parâmetros de sustentabilidade e privilegiando os 
espaços de convivência. A chegada do Sesc em Franca 
fortalece e expande o diálogo com o território e seus 
moradores, sempre no sentido de somar esforços 
e saberes para melhorar a vida em sociedade. 
Reportagem desta edição da Revista E apresenta 
moradores ilustres da cidade que pulsa diversidade 
e se renova, dia a dia, por meio da criatividade e 
do protagonismo de seus cidadãos. Boa leitura! 
Luiz Deoclecio Massaro Galina
Diretor do Sesc São Paulo
Um novo Sesc 
para celebrar 
SERVIÇO SOCIAL DO COMÉRCIO – SESC 
Administração Regional no Estado de São Paulo
Av. Álvaro Ramos, 991 – Belenzinho
CONSELHO REGIONAL DO SESC EM SÃO PAULO
Presidente: Abram Abe Szajman
Diretor do Departamento Regional: Luiz Deoclecio Massaro Galina
Efetivos: Arnaldo Odlevati Junior, Benedito Toso de Arruda, Dan Guinsburg, Jair 
Francisco Mafra, José de Sousa Lima, José Maria de Faria, José Roberto Pena, Manuel 
Henrique Farias Ramos, Marcus Alves de Mello, Milton Zamora, Paulo Cesar Garcia Lopes, 
Paulo João de Oliveira Alonso, Paulo Roberto Gullo, Rafik Hussein Saab, Reinaldo Pedro 
Correa, Rosana Aparecida da Silva, Valterli Martinez, Vanderlei Barbosa dos Santos.
Suplentes: Aguinaldo Rodrigues da Silva, Antonio Cozzi Junior, Antonio Di Girolamo, 
Antônio Fojo Costa, Antonio Geraldo Giannini, Célio Simões Cerri, Cláudio Barnabé 
Cajado, Costabile Matarazzo Junior, Edison Severo Maltoni, Omar Abdul Assaf, Sérgio 
Vanderlei da Silva, Vilter Croqui Marcondes, Vitor Fernandes, William Pedro Luz.
REPRESENTANTES JUNTO AO CONSELHO NACIONAL
Efetivos: Abram Abe Szajman, Ivo Dall’Acqua Júnior, Rubens Torres Medrano
Suplentes: Álvaro Luiz Bruzadin Furtado, Marcelo Braga, Vicente Amato Sobrinho
CONSELHO EDITORIAL | Revista E
Adauto Perin, Adriana Yuri Tashima, Ana Cristina Feitosa de Pinho, Ana Paula Neves 
Cabral de Vasconcellos, André Luiz Santos Silva, Anna Luisa de Souza, Beatriz da 
Silva Nunes, Camila Freitas Curaca, Caroline da Silva Mariano, Cinthya de Rezende 
Martins, Cristina Balland, Danilo Cava Pereira, Danilo Lima da Silva, Danny Abensur, 
Davi dos Santos Ferreira, Deborah Dias Matos, Diego Polezel Zebele, Diego Vinicius 
Teixeira Ferreira, Douglas Marcelo Bianchi Ramachotte, Edmar Rodrigues de Fátima 
Júnior, Eliana Kameoka, Eloá de Paula Cipriano, Fabia Lopez Uccelli dos Santos, Felipe 
Campagna de Gaspari, Fernanda Porta Nova Ferreira da Silva, Fernanda Rochitti Soler, 
Flavio Aquistapace Martins, Francisca Meyre Martins Vitorino, Frederico Vieira Dias, 
Gabriela Camargo das Graças, Gabriela Carraro Dias, Gabriela Grande Amorim, Gabriella 
Pereira Rocha, Geraldo Soares Ramos Junior, Gleiceane Conceição Nascimento, Gloria 
Rodrigues Ramos, Graziela Delalibera, Guilherme de Oliveira Gottsfritz, Gustavo 
Nogueira de Paula, Indiara Fernanda da Cunha Duarte, Ivan Lucas Araujo Rolfsen, 
Ivy Beritelli Jose de Souza, Jade Stella Martins, Jair de Souza Moreira Júnior, Janete 
Bergonci, Jean Guilherme Paz, Jose Mauricio Rodrigues Lima, Julia Parpulov Augusto 
dos Santos, Juliana Neves dos Santos, Karen Cristine Pimentel dos Santos, Ligia 
Azevedo Capuano, Luana Brito Lima, Marcel Antonio Verrumo, Marcela Pagani Calabria, 
Marcos Afonso Schiavon Falsier, Marcos Vinicius Fonseca, Maria Elaine Andreoti, Maria 
Rizoneide Pereira dos Santos, Marina Borges Barroso, Marina Reis, Michael Anielewicz, 
Monique Mendonça dos Santos, Norma Tami Maruyamaprojetos solo, após 
um hiato de 10 anos. O disco tem, 
ainda, a participação de músicos 
da Orquestra de São Petersburgo, 
da Rússia, responsáveis pelos 
instrumentos de cordas. A edição 
em vinil e capa gatefold (que abre 
como se fosse um livro) apresenta 
todo o repertório presente no 
álbum digital e CD, além de ter 
um encarte com as letras das 
canções e textos do compositor 
Dori Caymmi, do poeta e produtor 
Hermínio Bello de Carvalho e do 
diretor do Sesc São Paulo, Luiz 
Deoclecio Massaro Galina. 
Acesse o QR Code e ouça o álbum 
Nana, Tom, Vinícius, do Selo Sesc.
CANÇÃO DO TEMPO
 
A temática ambiental retornaria 
na última entrevista do artista, em 
novembro de 1994, ao jornalista 
Walter da Silva para a Revista 
Qualis. “A Mata mais linda do 
mundo, com um clima tropical de 
montanha, quer dizer, faz até frio 
no alto da floresta, com mil espécies. 
Isso tudo foi arrasado! Quer dizer, 
sempre queimando o mato. Às vezes, 
nem cortar as madeiras-de-lei, 
eles cortaram, botaram fogo 
simplesmente. E com isso 
desaparecem centenas de espécies 
vegetais e animais, destruíram tudo. 
Lamentável essa coisa de sempre 
destruir tudo e plantar café, de 
plantar cana, que é a história do Rio 
de Janeiro, a história de São Paulo, 
a história do Paraná, a história da 
Mata Atlântica”, denunciou Jobim. 
Em seu último trabalho, Antonio 
Brasileiro (1994), estavam “Piano 
na Mangueira”, composta com 
Chico Buarque, após o maestro ser 
homenageado pela escola de samba 
Estação Primeira de Mangueira, no 
Carnaval de 1992, e “Forever Green”, 
feita para a Conferência das Nações 
Unidas sobre o Desenvolvimento e 
Meio Ambiente, que ficou conhecida 
como ECO-92, realizada no Rio 
de Janeiro, em junho de 1992. Na 
época de seu falecimento, o artista 
estava finalizando o livro de 
fotografias intitulado Toda minha 
obra é inspirada na Mata Atlântica, 
lançado postumamente, em 2001, 
fruto de parceria com a esposa, 
cantora e fotógrafa Ana Lontra 
Jobim, responsável pelas imagens. 
Já havia composto mais de 400 
letras e, mesmo assim, trabalhava 
todos os dias, sempre atento à vida 
ao seu redor e ávido por registrar 
tudo o que via, ouvia e sentia a 
partir do contato com o verde que 
tanto o emocionou e inspirou. 
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ENCANTADOR 
DE FUTUROS
A estética negra na obra visual de 
Abdias Nascimento como lugar político
de fortalecimento e resgate
das tradições africanas e afro-brasileiras
POR ANA CRISTINA PINHO
Máscara Ancestral (1988). 
Acrílica sobre tela.
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ara algumas religiões de matriz africana, 
Xangô é o orixá da justiça, aquele que 
equilibra sabedoria e força para encarnar 
a luta por direitos e dignidade. Abdias 
Nascimento (1914-2011), que tinha 
Xangô como referência em discursos e criações, 
perseguiu, ao longo da vida, tanto a restituição da 
identidade cultural negra como transformações 
importantes nas relações raciais no Brasil. 
Nascido 26 anos após a abolição jurídica da 
escravização, em 1914, na cidade de Franca (SP), era 
filho de Georgina Ferreira do Nascimento, conhecida 
como Dona Josina, doceira, ama de leite e especialista 
em plantas medicinais; e José Ferreira do Nascimento, 
Seu Bem-Bem, sapateiro. Teve seis irmãos. Abdias 
cresceu em um contexto de extrema desigualdade, 
cujos ecos da escravatura eram bastante presentes. 
Em suas palavras: “Nas fazendas que visitávamos, 
praticamente todos os negros (…) eram crias, filhos, 
netos e ex-escravos que trabalhavam em serviços 
domésticos. Não se chamavam eles como escravos, 
mas a estrutura do regime escravocrata ficava 
mantida ali, como se fosse imutável”, relatou em 
entrevista para a revista Acervo, publicada em 2009. 
Aos 14 anos, mudou-se para a capital e participou do 
front paulista na Revolução Constitucionalista de 1932. 
Também foi a reuniões da Frente Negra Brasileira (FNB), 
uma das primeiras organizações do século 20 a exigir 
igualdade de direitos para a população negra. Pouco 
depois, ao viajar por países da América Latina, Abdias 
Nascimento foi duramente impactado em Lima, no Peru, 
ao assistir à peça O Imperador Jones, de Eugene O’Neill 
(1888-1953), na qual um ator branco havia pintado o 
rosto de preto para interpretar o personagem principal. 
Indignado, voltou ao Brasil e fundou o Teatro 
Experimental do Negro (TEN), cuja atividade cênica 
influenciou uma geração de cidadãos negros por meio 
da conscientização racial, da crítica ao etnocentrismo 
europeu e da valorização da herança cultural africana. 
De acordo com Júlio Menezes Silva, jornalista no 
Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros, 
o Ipeafro, “o Teatro Experimental do Negro foi um 
momento de ruptura que permitiu que se passasse 
a considerar a atuação da pessoa negra dentro das 
artes cênicas. Foi a primeira companhia de teatro 
a possibilitar a atuação de negras e negros na 
condição de protagonistas, pensando o espetáculo 
do ponto de vista cênico, da direção, da produção”. 
Além de dramaturgo, ator, escritor e professor, Abdias 
se dedicou também às artes visuais, depois dos 50 anos 
de idade. Como curador, liderou o desenvolvimento do 
Museu de Arte Negra, para divulgar a influência africana 
na arte moderna ocidental e representar a pluralidade 
da produção artística da diáspora negra. Sua obra visual 
como pintor é carregada de simbolismo africano e 
afro-brasileiro, explorando temas como ancestralidade, 
resistência, religiosidade e a força cultural dos povos 
africanos e seus descendentes. “A produção de Abdias 
como artista é um reflexo da produção dele como 
intelectual, como escritor, como dramaturgo, como 
ator. Ele faz um resgate das religiões de matrizes 
africanas na pintura, pensando que a religião, os orixás, 
não são deuses estagnados, eles são a vida, uma outra 
filosofia. São o vento, o mar, o rio”, destaca Douglas de 
Freitas, curador coordenador do Instituto Inhotim. 
A multiplicidade de caminhos trilhados por Abdias 
alcançou a política. Suas propostas como deputado 
federal, senador e secretário de Estado influenciaram 
leis e políticas públicas em vigor hoje. “Ele propôs 
cotas na admissão às instituições de ensino 
superior, no mercado de trabalho, no funcionalismo 
público; também o ensino da história e cultura 
afro-brasileira e africana não só na educação 
básica, como também na educação superior; e a 
designação do dia 20 de novembro como o Dia 
Nacional da Consciência Negra”, relembra Elisa Larkin 
Nascimento, fundadora, com Abdias, do Ipeafro. 
Aos 97 anos, Abdias Nascimento faleceu em maio 
de 2011. Tal qual o martelo de Xangô, ele forjou 
na força e na sabedoria o equilíbrio entre arte, 
política e resistência, não apenas para restituir 
a cultura afro-brasileira ao seu lugar, mas para 
reavivar a esperança de um país que um dia possa 
honrar, plenamente, suas verdadeiras origens. 
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Quilombismo (Exu e Ogum) (1980).
Óleo sobre tela.
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Xangô Rodrigues Alves (1970).
Acrílica sobre tela.
Composição nº 3 (1971). 
Acrílica sobre tela.
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Onipotente e Imortal n. 1 
(Adinkra Asante) (1992).
Acrílica sobre tela.
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O vale do Exu (1969).
Acrílica sobre tela.
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Paz e poder (1970).
Acrílica sobre linho.Ace
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O sonho nº 2 (1973).
Acrílica sobre tela 
fixada em cartão.C
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Baía de Sangue (Luanda) (1996).
Acrílica sobre tela.
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EXPRESSIVIDADE 
PAN-AFRICANISTA 
Exposição no Sesc Franca retrata a obra 
e a trajetória de Abdias Nascimento 
Pan-Africanismo e Quilombismo 
são conceitos que visam resgatar 
e fortalecer a ancestralidade 
africana, promover a autonomia 
cultural e política, e construir 
um futuro em que a população 
negra possa existir plenamente. 
O primeiro amplia a 
solidariedade e a resistência 
entre afrodescendentes numa 
perspectiva internacional, 
enquanto o segundo propõe um 
modelo de organização política e 
social inspirado na memória dos 
quilombos históricos, como o de 
Palmares. Na exposição Abdias 
Nascimento – O Quilombismo: 
Documentos de uma Militância 
Pan-Africanista, em cartaz até 29 
de junho de 2025 no Sesc Franca, 
essas concepções ganham forma 
A curadoria é assinada 
coletivamente por Douglas de 
Freitas, Deri Andrade e Lucas 
Menezes do Instituto Inhotim, 
e por Elisa Larkin Nascimento 
e Julio Menezes Silva do 
Instituto de Pesquisas e Estudos 
Afro-Brasileiros – Ipeafro. Ambos 
os institutos foram responsáveis 
pela primeira versão da montagem, 
em Brumadinho (MG), e agora 
se unem ao Sesc, triangulando 
essa construção institucional 
coletiva de valorização de 
todo o legado de Abdias. 
Da combinação de Pan-Africanismo 
e Quilombismo nas pinturas de 
Abdias Nascimento, presente 
na mostra, evoca-se a ideia de 
uma rede global de resistência e 
apoio mútuo, em que os valores 
de solidariedade e autonomia se 
entrelaçam. Assim, suas obras não 
apenas celebram a cultura africana 
e afrodescendente, mas também 
se tornam convites para um 
movimento coletivo em defesa dos 
direitos humanos e da liberdade. 
FRANCA 
Abdias Nascimento – 
O Quilombismo: 
Documentos de uma 
Militância Pan-Africanista 
Curadoria: Douglas de Freitas, 
Deri Andrade e Lucas Menezes, do 
Instituto Inhotim, e Elisa Larkin 
Nascimento e Julio Menezes 
Silva, do Instituto de Pesquisas e 
Estudos Afro-Brasileiros – Ipeafro 
Programação de inauguração: 
de 28/11 a 1/12. Quinta a 
domingo, 10h às 18h30. 
De 3/12 a 29/06/25. Terça a sexta, 
9h30 às 21h30. Sábados, domingos 
e feriados, 10h às 18h30. GRÁTIS. 
Saiba mais: sescsp.org.br/franca 
 
e cor, traduzindo-se em uma 
linguagem visual e simbólica. 
Em suas telas, elementos como 
máscaras, orixás e formas 
geométricas remetem a tradições 
culturais, não como elementos 
distantes, mas como forças vivas que 
conectam o passado ao presente 
e reivindicam um lugar legítimo 
das heranças culturais negras na 
construção da identidade brasileira. 
Para Douglas de Freitas, curador 
coordenador do Instituto Inhotim, 
a exposição que agora chega a 
Franca: “É um recorte de pinturas 
do Abdias, então é, de maneira 
geral, focado na produção pictórica, 
tendo em vista essa questão da 
religião como um movimento de 
luta antirracista e de resgate”. A
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A obra Anjo (1968) compõe a exposição no Sesc Franca, dedicada 
ao legado nas artes visuais de Abdias Nascimento.
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Mães, pais e filhos atípicos utilizam redes 
sociais para compartilhar informações, lutar 
contra o capacitismo e avançar na defesa da 
individualidade das pessoas com deficiência
POR LUNA D’ALAMA
DIVERSAS
famílias
Grávida de sete meses, a 
administradora de empresas 
Mônica Pitanga teve uma 
apendicite supurada e precisou 
fazer uma cirurgia de emergência, 
que acabou incluindo uma cesariana 
para salvar a primogênita, Luísa, 
hoje com 21 anos. Mãe e filha foram 
para Unidades de Terapia Intensiva 
(UTIs) separadas, em Cachoeiro de 
Itapemirim (ES), e só se conheceram 
quando a menina já tinha dez dias de 
vida. A alta do bebê veio após quase 
um mês, associada a um diagnóstico 
de paralisia cerebral leve. Mônica 
ficou emocionalmente abalada, 
inclusive acredita que teve uma 
depressão pós-parto não tratada 
na época. Mas, ao lado do marido, o 
médico Bruno Pitanga, reuniu forças 
para enfrentar as adversidades, 
cuidar de Luísa e, tempos depois, 
teve outros dois filhos: Thor, 
de 15 anos, e Laila, de 12. 
Na pré-adolescência, Luísa precisou 
operar os quadris e nunca mais 
voltou a caminhar sem andador. Foi 
aí que os médicos a diagnosticaram 
com uma doença rara: Charcot- 
-Marie-Tooth (CMT), que causa 
fraqueza e falta de sensibilidade 
e equilíbrio nas mãos e nos pés. 
Cerca de 80 mil brasileiros(as) e 
três milhões de pessoas em todo 
mundo vivem com CMT atualmente. 
“A primeira escola onde Luísa 
estudou não tinha acessibilidade, 
era impossível participar do 
recreio. Ela sofreu bullying, foi 
excluída. Quando passou no 
cursinho pré-vestibular, havia uma 
escadaria imensa, e o andador não 
entrava no banheiro. A instituição 
sugeriu que ela estudasse de 
casa, em vez de promover 
adaptações”, conta Mônica. 
Aos 15 anos, mãe e filha viajaram 
para Nova York (Estados Unidos), 
onde Luísa alugou uma scooter 
adaptada e, assim, pôde rodar pela 
ilha de Manhattan e região. Ficou 
impressionada com as calçadas 
largas, as rampas de acesso e os 
postes subterrâneos. “Na hora 
de voltar, ela me disse que não 
queria, pois lá poderia ser quem 
realmente era. Foi, então, que virei 
uma ‘mãe leoa’ e, em 2019, fundei 
a ONG Mova-se para conscientizar 
a sociedade – principalmente, 
crianças em escolas – sobre pessoas 
com deficiência”, revela. Mônica 
também começou a atender mães 
e pais, dar palestras sobre educação A
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Luísa Pitanga e sua 
mãe em uma prova de 
corrida de rua neste 
ano. Na ocasião, Mônica 
Pitanga postou nas 
redes sociais: "Que 
possamos repensar os 
eventos e ambientes 
de modo que todos 
possam participar com 
equidade e dignidade".
positiva e escreveu o livro Pontos 
de afeto – Lições da maternidade 
atípica (Literare Books International, 
2022), além de compartilhar esses 
assuntos em seu perfil no Instagram. 
“Atendo muitas famílias que passam 
anos com o diagnóstico errado, ou 
que nem fecham um diagnóstico. 
Algumas doenças são menos 
conhecidas, outras ainda nem foram 
catalogadas. Por pior que seja, 
receber um diagnóstico é libertador, 
porque você entende o que está 
acontecendo. Mas um diagnóstico 
nunca define um indivíduo”, 
destaca Mônica. Segundo ela, cada 
criança e adolescente é único, tem 
temperamentos e necessidades 
diferentes, pontos fortes e fracos 
que precisam ser considerados. 
“O movimento das pessoas com 
deficiência diz: ‘Nada sobre nós sem 
nós’. Por isso, hoje a presidência 
da ONG é ocupada pela jornalista 
Bárbara Gaspari, que é cadeirante e 
tem paralisia cerebral. Precisamos 
avançar na educação inclusiva, usar 
os termos corretos, romper barreiras 
comunicacionais e atitudinais, lutar 
contra o capacitismo e possibilitar 
que essas pessoas ocupem espaços 
com protagonismo”, reivindica. 
Hoje, Mônica vê na própria casa os 
resultados de sua luta: Luísa vive 
com bastante autonomia, cursa 
jornalismo, trabalha home office, 
tem conta em banco e paga seus 
próprios boletos. Também já viajou 
com amigas para o Maranhão e 
Minas Gerais, e foi para a Austrália 
visitar uma tia. “Isso é fruto do que 
plantei lá atrás, incentivando-a (e 
os demais filhos) a tomar decisões, 
resolver problemas e comunicar 
o que sente. É preciso enxergar 
além da deficiência”, enfatiza. 
Este ano, em outubro, as duasresolveram aceitar um novo 
desafio: uma corrida de rua de cinco 
quilômetros. “Não tinha categoria 
PCD [pessoa com deficiência], 
nem rampas, o asfalto era cheio 
de buracos, havia morro. Ficamos 
em 140º lugar. Fomos com mais 
três amigos com deficiência, em 
um grupo de 640 atletas. Mas 
terminamos o percurso”, comemora. 
PERCEBER E ACOLHER 
A médica veterinária Laís Palma 
Elsing estudava para um concurso 
público quando engravidou, sem 
tratamento, de trigêmeas: Athena, 
Sophia e Helena, hoje com seis 
anos. Durante o pré-natal, Laís 
descobriu que havia um problema 
no cordão umbilical de uma das 
filhas. O trio nasceu prematuro, 
com 26 semanas de gestação. 
Foi um longo período de angústia 
na UTI neonatal. Helena nasceu 
com uma cardiopatia, precisou 
fazer uma cirurgia no coração, e 
tanto ela quanto Sophia foram 
diagnosticadas com síndrome 
de West, doença neurológica 
rara caracterizada por espasmos 
epiléticos e regressão ou atraso 
no desenvolvimento. Além disso, 
as três têm paralisia cerebral: 
Athena, grau I; e Sophia e Helena, 
grau V. Athena tem, ainda, 
transtorno do espectro autista 
(TEA), com nível de suporte 1. 
Ao lado do filho, Benyamin Luiz, de nove anos, a psicopedagoga Gabriela Pereira 
e seu marido, Moisés dos Santos: o casal compartilha o cotidiano nas redes sociais 
e no canal do YouTube Família Afro Atípica.
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AFRO ATÍPICA 
Segundo dados da Pesquisa 
Nacional por Amostra de Domicílios 
(PNAD) feita em 2022, o número 
de pessoas com deficiência no 
Brasil, acima dos dois anos de 
idade, é estimado em 18,6 milhões, 
o que corresponde a 8,9% da 
população nessa faixa etária. A 
deficiência pode ser física, sensorial 
(auditiva, visual), intelectual, 
psicossocial ou múltipla. Na 
família da psicopedagoga, ativista 
e influenciadora digital Gabriela 
Pereira, de Sorocaba (SP), ela, o 
marido, Moisés dos Santos, e o 
filho, Benyamin Luiz, de nove anos, 
convivem com diferentes tipos de 
deficiências. Gaaby, como prefere 
ser chamada, foi diagnosticada há 
três anos com Transtorno do Déficit 
de Atenção com Hiperatividade 
(TDAH) e Transtorno do Espectro do 
Autismo [TEA] de nível suporte 1. 
Moisés também tem TDAH e está 
investigando TEA. Já Beny tem 
múltiplas deficiências: síndrome 
de Down, surdez, TEA (nível de 
suporte 2) e está sendo avaliado em 
relação a uma suspeita de TDAH. 
“Os médicos diziam que eu era 
uma mãe especial, que meu filho 
era especial, não o chamavam pelo 
nome. Eu virei ‘mãezinha’. Antes 
do diagnóstico, já sabia que Beny 
“Até me tornar mãe, eu nunca 
tinha convivido com pessoas com 
deficiência. No início, foi muito 
sofrido, tive que entender que 
eu mesma tinha preconceitos. 
Pensava no que poderia acontecer 
com minhas filhas se eu morresse, 
quem lidaria com essa situação. 
Demorei para entender que 
elas têm um diagnóstico, mas 
esse não é o destino delas. E, 
embora sejam trigêmeas, cada 
uma é única”, analisa Laís. Ela e 
o marido, o advogado Fernando 
Bucci, dividem os cuidados com 
os avós paternos, com a escola e 
com instituições onde as meninas 
fazem terapias, em São Paulo (SP). 
Mas a maternidade atípica de Laís 
é uma exceção num país onde, 
segundo pesquisas estatísticas, até 
80% dos casamentos terminam 
em divórcio quando há um filho 
com deficiência. Muitas mães 
abandonam suas carreiras e vivem 
em função das crianças, inclusive 
virando enfermeiras ou terapeutas 
delas. “Há todo um machismo, 
o que intensifica a sobrecarga 
materna. Mesmo privilegiados, 
nós passamos por momentos 
difíceis, fui para a terapia”, lembra. 
Laís avalia que a luta anticapacitista 
precisa ser uma desconstrução 
contínua e coletiva, que inclua toda 
a sociedade, políticas públicas e, 
sobretudo, a educação, e fala sobre 
isso em seu perfil no Instagram. 
“As escolas ainda não são para 
todos, mas deveriam. A criança 
com deficiência tem que ser 
olhada, acolhida, e os pais atípicos 
também”, analisa. Athena, Sophia 
e Helena estudam no mesmo 
colégio, mas cada uma numa sala, 
com sua própria turma – o que 
ajuda na formação da identidade 
e da individualidade delas. “Temos 
que ir além das aparências, e não 
infantilizar ou vitimizar essas 
pessoas e suas famílias. Minhas 
filhas são indivíduos singulares, 
com qualidades e defeitos. Aliás, 
no aniversário delas, em novembro, 
cada uma optou por um tema 
diferente. “A gente que lute”, 
pontua a mãe, descontraída. 
Para Laís, a sociedade precisa 
estar aberta para receber e 
conviver com as diversidades, 
outros corpos, gêneros, raças 
e orientações sexuais. “Só 
vamos conseguir um mundo 
mais justo e igualitário dessa 
forma. Aprendemos a respeitar 
as pessoas diferentes de nós 
quando convivemos com 
elas. Por isso, as pessoas 
com deficiência precisam ter 
representatividade, acessibilidade 
e dar as caras nas ruas, nos 
espaços públicos”, completa. 
PRECISAMOS CRIAR NOSSOS FILHOS PARA SE RELACIONAR 
COM TODO MUNDO, E A SOCIEDADE, EM CONTRAPARTIDA, 
DEVE ABRIR A MENTE PARA ENTENDER A DIVERSIDADE
Gabriela Pereira, psicopedagoga e criadora do canal Família Afro Atípica
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seria excluído socialmente, por ser 
preto, então me tornei mãe já com 
a consciência de que precisaria 
empoderá-lo”, ressalta Gaaby. 
Hoje, ela e o marido lutam contra o 
capacitismo e por políticas públicas 
que apoiem mães e pais atípicos. 
Criaram, inclusive, o Instituto 
Ampara, para acolher famílias 
diversas. Com apenas 40 dias de 
vida, Beny fez um procedimento 
pulmonar e, com um ano, operou 
o coração. Andou aos três anos 
e meio, e hoje senta-se, pula e 
corre. “Gostamos de fazer textos 
bem-humorados, passar emoção 
e conscientização no canal [Família 
Afro Atípica, nas redes sociais 
e YouTube], nada de ficar com 
pena. Queremos que as pessoas 
reflitam, pois não existem verdades 
absolutas. Somos protagonistas da 
nossa própria história. Beny tem 
voz, apenas traduzo o que ele quer 
dizer, não falo por ele. Educamos 
nosso filho numa chave antirracista 
e anticapacitista”, explica Gaaby. 
No início do ano, a família conseguiu 
verba pública para o menino 
fazer equoterapia (com cavalos), 
hidroterapia e terapia ocupacional – 
as duas últimas foram interrompidas 
em junho, pelas instituições. 
“Com a equoterapia, por exemplo, 
o garoto fica mais tranquilo, 
melhora a postura, fortalece a 
cervical e desenvolve a atenção”, 
cita a mãe, que hoje dá palestras, 
presta consultorias e participa 
de congressos. “Levo meu filho a 
eventos de cultura negra, povos 
originários, pessoas LGBTQIAPN+, 
para ele também aprender a conviver 
com as diferenças. Precisamos criar 
nossos filhos para se relacionar 
com todo mundo, e a sociedade, em 
contrapartida, deve abrir a mente 
para entender a diversidade. Ferir 
a existência do outro é crime, e 
isso precisa ser responsabilizado. 
Ninguém tem que fazer pergunta, 
dar opinião ou conselho sem ser 
solicitado”, argumenta a mãe 
de Beny, uma criança que gosta 
de pipoca, salada e que detesta 
que o tratem como um bebê ou 
como se fosse de porcelana. 
EXERCÍCIO DE PATERNIDADE 
Editor da seção Vida Pública e 
colunista de Diversidade no jornal 
Folha de S.Paulo, o jornalista Jairo 
Marques teve poliomielite aos nove 
meses de idade. Desde a infância, 
usa cadeira de rodas e, após os 40 
anos, viu sua vida ser radicalmente 
transformada com a chegada de 
Elis, hoje com nove anos. Em seu 
canal Assim Como Você, Marques 
faz vídeos bem-humorados, 
escreve crônicas e conta histórias 
por um mundo mais diverso. “Não 
tinha planos de ser pai, foi um 
impacto muito grande na minha 
vida. Tinha receio de que um(a) 
filho(a) viesse a sofrer os reflexos 
das situações e dos preconceitos 
que enfrento. Tanto em termos 
de atitudes e comportamentos, 
quanto de barreiras físicas”, conta. 
O jornalista e a mãe da menina se 
separaram há quatro anos e hoje 
compartilham a rotina da filha, 
em casas separadas. Marques 
revela que uma atitudefrequente 
das pessoas, principalmente 
quando Elis era menor, era não o 
reconhecer como pai, estranhando 
quando o viam passeando com um 
bebê no shopping, por exemplo. 
“Havia uma preocupação, velada 
ou explícita, de a criança estar 
junto a um homem cadeirante. 
Ainda bem que Elis se adaptou 
rápido, tira tudo de letra, e hoje até 
guarda minha cadeira de rodas no 
porta-malas do carro”, acrescenta. 
O jornalista acredita, acima de 
tudo, no poder da escola e da 
educação para transformar a 
sociedade num espaço mais 
inclusivo, diverso e acessível. “A 
criança precisa conviver com 
outras. Seja para aprender outros 
idiomas ou apenas ‘fofocar’, ela 
deve estar nesse ambiente, ser 
vista. Privar uma pessoa com 
deficiência disso é uma forma 
brutal de exclusão. Nós somos 
indivíduos plenos”, finaliza. 
O colunista Jairo Marques viu sua vida mudar radicalmente com a chegada da filha Elis
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ações para cidadania
ACESSIBILIDADE 
E PARTICIPAÇÃO
No mês do Dia Internacional da Pessoa com 
Deficiência (3/12), Sesc São Paulo encerra a 
sétima edição do projeto Modos de Acessar 
e faz parte da 10ª Virada Inclusiva
Atento às questões de diversidade, 
acessibilidade e visibilidade social 
das pessoas com deficiência, o 
Sesc São Paulo realiza até 3/12, em 
29 unidades da capital, interior e 
litoral, a sétima edição do projeto 
Modos de Acessar. Na programação, 
espetáculos, oficinas, debates, 
entre outras atividades em 
diversas linguagens. Neste ano, o 
tema “Construindo acessibilidade 
em territórios diversos” joga 
luz sobre a acessibilidade 
como um processo contínuo 
de adaptação e aprendizado 
em seus locais de atuação. 
“Os modos de acessar das pessoas 
são diversos, mudam ao longo da 
vida e dizem respeito a maneiras 
diferentes de habitar o mundo e 
experimentá-lo. Levar em conta 
essa diversidade no desenho de 
espaços e, sobretudo, nas relações 
é benéfico para a sociedade e 
fundamental para a ação cidadã do 
Sesc São Paulo, que, por meio da 
dimensão da educação permanente, 
busca promover o acesso à 
cultura, à participação social e 
ao desenvolvimento humano em 
todas as fases da vida”, afirma Lígia 
Zamaro, especialista em educação 
para acessibilidade da Gerência de 
Educação para Sustentabilidade 
e Cidadania do Sesc São Paulo. M
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Além disso, entre os dias 2 e 8/12, 
o Sesc São Paulo integra a Virada 
Inclusiva, iniciativa realizada 
desde 2010 pela Secretaria de 
Estado dos Direitos da Pessoa 
com Deficiência. A ação busca 
promover a participação e o 
protagonismo de pessoas com 
deficiência, por meio de atividades 
esportivas, culturais e educativas, 
em celebração ao Dia Internacional 
da Pessoa com Deficiência (3/12). 
Confira destaques 
da programação: 
CENTRO DE PESQUISA 
E FORMAÇÃO
Memórias do acesso: 
movimento pelos direitos 
da pessoa com deficiência 
O encontro propõe um resgate 
de memórias sobre o movimento 
das pessoas com deficiência. 
Com as ativistas dos direitos das 
pessoas com deficiência Lia Crespo 
e Elza Ambrosio, pesquisadora. 
Mediação de Marta Almeida Gil. 
Dia 6/12. Sexta, das 15h 
às 17h30. GRÁTIS. 
SANTOS 
Artes manuais para 
jovens e adultos com 
deficiência intelectual 
Oficina com Vânia Paula, Adriana 
de Souza e Renata de Barros 
Dias. Por meio da construção de 
objetos, promove a interação 
entre os participantes e a 
reflexão sobre suas experiências. 
Pessoas com deficiência 
tuteladas devem participar com 
acompanhante ou responsável. 
Dia 8/12. Domingo, das 
15h às 17h. GRÁTIS. 
PINHEIROS 
Mulheres, DEFs e arte 
Com Isabel Portella, crítica de arte, 
Isadora Ifanger, artista DEF, Lua 
Cavalcante, artista e educadora. 
Mediação: Daniel Moraes, mestre em 
pintura pela Universidade de Lisboa. 
Dia 8/12. Domingo, das 
13h às 15h30. A partir 
de 12 anos. GRÁTIS. 
sescsp.org.br/modosdeacessar 
e pessoacomdeficiencia.sp.gov.
br/virada-inclusiva-2024 
para ver no sesc / ações para cidadania
Atividades culturais, educativas e 
esportivas compõem a programação 
da Virada Inclusiva no Sesc São Paulo.
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GESTÃO
cultural 
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incontestável diversidade cultural 
e pluralidade de expressões artísti-
cas que constituem o Brasil ainda é 
questionada por políticas culturais 
que, identificadas com a “síndrome 
do patinho feio”, reforçam um pensamento euro-
cêntrico. Afinal, o que é cultura e por que se perpe-
tuam medições, como alta ou baixa cultura? Seria 
o funk menos merecedor de incentivos que a mú-
sica popular brasileira? Estariam em desvantagem 
a promoção e a preservação de festas populares, 
como o Maracatu Rural em Pernambuco, por leis 
de incentivo à cultura? Diante desses obstáculos, o 
trabalho de gestores culturais encontra-se perma-
nentemente em um território de disputa. 
“A cultura periférica, as expressões culturais tra-
dicionais e as práticas artísticas que fogem a um 
determinado cânone, por vezes, ficam à margem 
dos recursos, reforçando desigualdades históri-
cas. Superar esse modelo requer uma abordagem 
que privilegie a participação das diversas comu-
nidades de fazedores de cultura na definição e im-
plementação das políticas culturais”, aponta José 
Veríssimo Romão Netto, mestre e doutor em ciên-
cia política pela Universidade de São Paulo (USP), 
pesquisador do Centro Brasileiro de Análise e Pla-
nejamento (CEBRAP). Netto ainda confirma que 
para uma mudança nesse cenário, “essa discussão 
requer uma dupla reflexão: o que entendemos por 
‘cultura’, e que mecanismos institucionais têm sido 
utilizados para promover as políticas culturais?”, 
questiona. 
Por isso, “a gestão da cultura mora nesse fio de na-
valha entre reiterar violências e alimentar potên-
cias”, observa Ivan Montanari, mestre em Gestão de 
Políticas Públicas pela Universidade de São Paulo 
(USP) e especialista em Gestão e Políticas Culturais 
pela Universidade de Girona (Espanha). “É funda-
mental compreender qual é a relação com o públi-
co que a gestão cultural promove: busca impor um 
modelo ou cria condições de autonomia para que 
este público defina suas próprias necessidades e 
alcance seus próprios fins? De que posição essa re-
lação se dá: há uma visão horizontal com o público 
ou essa relação é hierárquica, de cima para baixo, 
como “quem tem cultura x quem não tem?” Essas 
são questões que vão do autoritarismo colonialista 
de [Marquês de] Pombal à liberdade de artistas de 
rua para performar sua arte; da ideia de levar cul-
tura a de fomentar culturas, no plural”, conclui. 
Neste Em Pauta, Montanari e Netto trazem concei-
tos, práticas e desafios no cenário da gestão cultu-
ral no Brasil. 
em pauta
59
Gestão cultural é um conjunto de práticas de plane-
jamento, organização e direção, voltadas para a cul-
tura. Falar de gestão cultural, então, implica falar 
sobre cultura. Cultura é um conceito muito abstra-
to e com muitos significados diferentes. Em alguns 
círculos sociais, por exemplo, cultura tem uma 
conotação positiva e costuma ser entendida como 
algo elevado. Essa visão concebe a cultura enquan-
to belas-artes: as linguagens artísticas de tradição 
europeia (como teatro, dança, música, artes visuais 
etc.). Aquilo que não se enquadra nessa ideia pode 
ser entendido, por esse olhar, como folclore, primi-
tivo ou vulgar. De outro lado, há uma visão ampla, 
comumente referida como antropológica, na qual 
cultura aparece em oposição à ideia de natureza, re-
lacionada com tudo que é próprio da humanidade, 
suas formas de viver e de se organizar. A amplitude 
desse sentido leva a um número praticamente infi-
nito do que seria obra, expressão ou bem cultural: 
da linguagem e formas de culto a biotecnologias e 
estações espaciais. 
A verdade é que deve haver teses e teses de dou-
torado buscando uma definição para o termo. As 
ideias são muitas – e, por vezes, contraditórias 
entre si. Quando falamos de gestão cultural, esbar-
ramos nessa dimensão múltipla: trata-se de uma 
prática comuma gama imensa de possibilidades 
de ação. Assim, a gestão cultural é bastante subje-
tiva: envolve uma forma particular de perceber um 
contexto, uma realidade social, e de se difundir ou 
promover determinadas estéticas, fundamentos e 
valores. É a partir dessa visão que o gestor cultural 
propõe algum tipo de ação. Essa forma particular 
de enxergar um contexto e sugerir uma proposi-
ção nem sempre é bela ou boa – também existem 
culturas nocivas para outras pessoas, para o meio 
ambiente etc. A imagem da cultura como algo eleva-
do ou sublime é parcial e não dá conta das infinitas 
possibilidades de produção cultural. 
No que se refere ao Estado, especialmente quando 
não há um órgão voltado à área, a gestão da cultura 
pode ser difusa. No entanto, se entendemos a lín-
gua como um bem cultural, em 1758, ainda no Brasil 
colônia, houve uma ação estatal que se enquadra 
como gestão da cultura: a proibição de outras lín-
guas que não o português nos territórios da colô-
nia, assinada pelo Marquês de Pombal (1699-1782). 
Foram proibidas as línguas de origem dos diversos 
povos indígenas e africanos, além das originadas 
da mistura entre essas e o português. Depois, nos 
períodos autoritários de Getúlio Vargas (de 1930 a 
1945) e da ditadura militar (de 1964 a 1985), a gestão 
da cultura tinha a censura como uma das marcas 
mais importantes, embora esses mesmos regimes 
tenham desenvolvido formas de lidar com a cultu-
ra para além da censura, como a criação de órgãos 
específicos para a área (exemplos: Serviço do Pa-
trimônio Histórico e Artístico Nacional, de 1937, e 
Conselho Federal de Cultura, de 1966). Assim, uma 
mesma gestão cultural pode agir de mais de um 
modo à sua prática. 
No Brasil de hoje, a gestão cultural é praticada por 
instituições públicas (federais, estaduais e munici-
pais), entidades do sistema S e do terceiro setor, em-
presas ou pessoas e coletivos, mais informalmente. 
Incluem-se em empresas, os canais de TV ou rádio, 
as redes sociais e as plataformas de streaming. Cada 
um desses agentes possui uma determinada visão 
do contexto, do que entende por cultura e do que 
considera uma ação válida nesse sentido. Inde-
pendentemente disso, e olhando para um contexto 
democrático, a prática da gestão cultural envolve 
diferentes funções (com ideias do professor cata-
lão Alfons Martinell): curadoria e definição das 
ações culturais a serem desenvolvidas; produção, 
organização e planejamento para operacionalizar 
as ações; funções de projeto (criação do documen-
to, mobilização de equipe, captação de recursos e 
desenho dos conceitos); funções de mediação ou 
intermediação entre criadores e público, e entre 
esses e os demais envolvidos, como patrocinadores 
Gestão da 
cultura: potências 
e violências
POR IVAN MONTANARI 
em pauta
60
para o futuro? Promover expressões de cultura que 
podem ser entendidas como cânones ou fazeres 
culturais marginalizados/alternativos? Valorizar 
o produto final ou os processos de criação? Difun-
dir o que vem de fora ou promover expressões lo-
cais?; entre outras questões. A definição, no caso 
da gestão cultural, está envolvida em um processo 
de (re)afirmar, questionar, resgatar e propor novos 
valores culturais em relação ao público para o qual 
suas ações se destinam. 
Por último, é fundamental compreender qual é a re-
lação com o público que a gestão cultural promove: 
busca impor um modelo ou cria condições de auto-
nomia para que este público defina suas próprias 
necessidades e alcance seus próprios fins? De que 
posição essa relação se dá: há uma visão horizon-
tal com o público ou essa relação é hierárquica, de 
cima para baixo, como “quem tem cultura x quem 
não tem”? Essas são questões que vão do autorita-
rismo colonialista de Pombal à liberdade de artistas 
de rua para performar sua arte; da ideia de levar 
cultura a de fomentar culturas, no plural. A gestão 
da cultura mora nesse fio de navalha entre reiterar 
violências e alimentar potências. 
Ivan Montanari é mestre em Gestão de Políticas 
Públicas pela Universidade de São Paulo (USP) e 
especialista em Gestão e Políticas Culturais pela 
Cátedra UNESCO de Políticas Culturais e Coo-
peração da Universidade de Girona (Espanha). 
Foi Secretário Municipal de Cultura e Turis-
mo (SMCT) de Bragança Paulista (SP) em 2016. 
Atualmente é consultor em gestão e políticas 
culturais. 
e instituições; administração na lida com contratos, 
regras, leis, burocracias, recursos humanos e fi-
nanceiros; facilitação, provendo os meios para que 
outros agentes alcancem seus fins, sem administrar 
os conteúdos, como a cessão de espaços; e funções 
criativas e inovadoras, com a capacidade de impro-
visação e de realizar coisas em formatos diferentes. 
As ações culturais desenvolvidas por gestores de 
cultura podem ser divididas em: criação ou produ-
ção, quando se trata de uma nova obra de cultura; 
preservação ou conservação de obras já existentes; 
difusão, espalhamento ou exibição de obras, possi-
bilitando assim o contato com o público; e forma-
ção, como cursos, oficinas, residências ou outros 
formatos. Também vale perceber a maneira como 
essas ações são definidas e realizadas: se há algum 
tipo de diálogo ou consulta pública; se essas defi-
nições se dão a partir de metadados, algoritmos e 
big data; se a execução se dá de maneira mais direta 
pela gestão ou se é realizada a partir de parcerias, 
podendo incluir transferência de recursos etc. 
No entanto, essa classificação não aborda os conteú-
dos, ou seja, o que será criado, preservado, difundi-
do ou objeto de ações de formação. Isso é definido 
pela gestão: por sua visão de cultura e sua percep-
ção do contexto social em que as ações ocorrerão. 
Também a maneira de tomar a decisão é definida 
pela gestão cultural. Não há gestão cultural neutra, 
porque a definição de cultura, neste âmbito, passa 
sempre por uma dimensão subjetiva. Podemos, no 
entanto, elencar algumas tensões implicadas nessa 
decisão: pensar a partir da diversidade cultural ou 
focar em determinadas expressões culturais? Lidar 
com questões locais ou globais? Focar nas obras 
do presente, do passado ou que inovam e apontam 
A imagem da cultura como algo elevado ou 
sublime é parcial e não dá conta das infinitas 
possibilidades de produção cultural
em pauta
61
“– Ai! que preguiça!”. Há quem defenda que Macu-
naíma é um herói caleidoscópico em razão de suas 
faltas, disse Carlos Sandroni em Mário contra Ma-
cunaíma (Edições Sesc São Paulo, 2024). “Herói sem 
nenhum caráter”, Macunaíma não seria bom nem 
ruim, o que permitiu a Mário de Andrade (1893-
1945) fazer uma crítica cultural contra a ideia de 
que o Brasil seria composto por várias faltas, mani-
festas em suas eternas incompletudes. Incompletu-
des retratadas ao avesso por Richard Morse (1922-
2001) em O espelho de próspero (1982), ao defender 
um iberismo ainda encantado, não contaminado 
pela modernidade. A tradição conservadora do 
pensamento brasileiro sustentou a ideia da falta 
de uma cultura política nacional, apontando que, 
ao contrário das culturas europeias, o Brasil nunca 
teria tido seus druidas deliberando sob a sombra 
dos carvalhos e, assim, jamais estaria apto ao auto-
governo, como ponderaram Visconde do Uruguai 
(1807-1866) e Oliveira Vianna (1883-1951). 
Pensar em políticas culturais no Brasil é, em parte, 
enfrentar essa longa narrativa das supostas faltas 
que nos teriam constituído. Nesse contexto, o de-
bate atual sobre a gestão de políticas culturais se 
reveste de uma urgência particular: como seguir 
na trilha da promoção de políticas culturais que re-
conheçam e valorizem a pluralidade brasileira, re-
sistindo a discursos que tentam ler nossa produção 
cultural pela lente da falta? Essa discussão requer 
uma dupla reflexão: o que entendemos por “cultu-
ra”, e que mecanismos institucionais têm sido utili-
zados para promover as políticas culturais? 
É importante começarmos pela evidente diversi-
dade cultural e de expressões artísticas brasilei-
ras. O Brasil é umpaís de contrastes: das tradições 
indígenas às manifestações afro-brasileiras, das 
expressões amazônicas aos modos de vida serta-
nejos, das culturas urbanas periféricas aos diver-
sos festejos religiosos. É verdade que discursos 
que evidenciam essa pluralidade têm influenciado 
as políticas públicas de cultura no Brasil, e essa 
pluralidade tem sido manifestada em diversos as-
pectos dessas políticas. Todavia, também é notório 
que ainda há acordes dissonantes que questionam 
manifestações artísticas a partir de aspectos que 
podem ser associados à narrativa da falta: a falta 
de “moralidade” em performances artísticas con-
sideradas mais “ousadas”; a ausência de “valor 
cultural” em expressões artísticas periféricas; e a 
“falta de tradição” em movimentos culturais con-
temporâneos e urbanos, como as batalhas de rima 
e o pixo. Quem nunca ouviu: “Isso não é arte”; “Fu-
lano não tem cultura”? 
Acerca dos mecanismos institucionais que gover-
nam as políticas culturais, nota-se uma tensão en-
tre uma visão gerencialista da cultura, que mede 
seu valor em termos de resultados e produtos en-
tregues, e uma abordagem mais horizontal, que 
entende a cultura como um processo em rede. Por 
um lado, há os que defendem que uma política cul-
tural eficaz deve ser planejada e avaliada com base 
em métricas claras, como o número de atividades 
culturais realizadas e a distribuição dos recursos 
investidos. Por outro, há quem argumente que 
essa visão reduz a cultura a uma mercadoria, igno-
rando a riqueza e a complexidade das expressões 
culturais. 
Uma leitura possível é a de que a visão gerencialista 
tem uma proposição a partir de uma percepção da 
falta. Deve-se levar a cultura onde não há cultura; 
elevar o número de espetáculos na cidade; aumen-
tar a quantidade de pessoas formadas em diversas 
expressões artísticas; e aumentar os gastos na área. 
Promover políticas culturais, na minha opinião, 
nunca é um equívoco. Errado é pensar em políticas 
culturais, exclusivamente, a partir do “quanto” sem 
incluir “com quem” e “para quê”. 
Essa tensão se manifesta, por exemplo, na forma 
como se conduz a política de editais. Programas 
Políticas culturais 
e identidade(s) 
no Brasil 
POR JOSÉ VERÍSSIMO ROMÃO NETTO
em pauta
62
como o ProAC, em São Paulo, representam uma ten-
tativa de promover uma gestão cultural que con-
temple a diversidade, mas acabam reproduzindo 
uma lógica de competição e de avaliação que nem 
sempre são sensíveis às singularidades culturais. 
A cultura periférica, as expressões culturais tradi-
cionais e as práticas artísticas que fogem a um de-
terminado cânone, por vezes, ficam à margem dos 
recursos, reforçando desigualdades históricas. Su-
perar esse modelo requer uma abordagem que pri-
vilegie a participação das diversas comunidades de 
fazedores de cultura na definição e implementação 
das políticas culturais. 
Políticas culturais que favoreçam a lógica da gover-
nança em rede, diferentemente de um modelo que 
premia a competição, promovem espaços para que 
as redes definam suas agendas culturais. A luta por 
uma gestão cultural plural também precisa enfren-
tar a hegemonia do pensamento eurocêntrico. Mu-
seus, galerias e outros espaços culturais, por vezes, 
operam sob uma lógica de valorização da arte e da 
cultura baseada na falta. Como abrir espaço para 
que as culturas indígenas, quilombolas e outras 
brasilidades sejam reconhecidas e valorizadas pelo 
que têm a oferecer? Esse rompimento passa por es-
feras como o genuíno financiamento dessas expres-
sões pelas elites econômicas para além da pontual 
renúncia fiscal; pelo aumento da diversidade nos 
seus conselhos curadores; pela democratização 
do acesso aos espaços; e, fundamentalmente, pela 
criação de espaços de participação compostos pela 
comunidade fazedora de arte e pela sociedade, con-
sumidora de arte. 
A gestão das políticas de cultura é um espaço do fa-
zer político. A cultura é um espaço de disputa e con-
testação. Uma gestão cultural plural é, em última 
análise, uma ação política que combate a narrativa 
da falta ao preencher os espaços do fazer cultural 
com a diversidade brasileira, sem mirar-se no opa-
co espelho do Norte, que reflete apenas sua própria 
imagem. Esse fazer cultural não é estar alheio ao 
debate e à produção cultural com potencial de in-
ternacionalização ou, ao contrário, com exclusiva 
proposta regionalista. Políticas culturais diversas e 
inclusivas contribuem com a cultura a partir do Sul 
Global, implicando não apenas reconhecer vozes 
periféricas, mas criar estruturas que permitam sua 
expressão e protagonismo. 
Uma gestão plural de políticas de cultura passa pela 
construção de políticas que reconheçam a cultura 
como um processo vivo e diverso, que não pode ser 
reduzido a métricas ou a proposições narrativas 
de falta. Ao abrir espaço para as múltiplas formas 
de expressão que compõem a cultura brasileira, as 
políticas culturais conversarão com o mundo de 
maneira polifônica, tomando parte em um caleidos-
cópio, como Mário de Andrade buscou representar. 
Dessa maneira, os números chegarão, com artistas 
e plateias satisfeitas em se reconhecer, e contarem 
ao mundo, em conjunto, quem são. 
José Veríssimo Romão Netto é mestre e doutor 
em ciência política pela Universidade de São Pau-
lo (USP). Atualmente é pesquisador do Centro 
Brasileiro de Análise e Planejamento (CEBRAP), 
onde atua investigando espaços participativos 
de cogestão entre a sociedade civil e o Estado em 
processos de formulação e implementação de po-
líticas públicas.
Como seguir na trilha da promoção de políticas 
culturais que reconheçam e valorizem a pluralidade 
brasileira, resistindo a discursos que tentam ler 
nossa produção cultural pela lente da falta? 
em pauta
63
Médico infectologista, Vinícius Borges criou personagem 
e canal nas redes sociais há dez anos para falar sobre 
saúde sexual com a população LGBTQIA+ 
POR MARIA JÚLIA LLEDÓ
Doutor
MARAVILHA
Pelos rincões do país, 
Doutor Maravilha atravessa 
distintas paisagens a fim 
de conversar com um público de 
diferentes idades, classes sociais 
e níveis de escolaridade, sobre 
saúde sexual. O personagem 
criado em 2015 pelo médico 
infectologista Vinícius Borges lhe 
rendeu bastante popularidade, o 
que foi essencial para o especialista 
levar conhecimento sobre HIV 
e ISTs (Infecções Sexualmente 
Transmissíveis) a um público 
cada vez maior. Estima-se que, 
atualmente, um milhão de pessoas 
vivam com HIV no Brasil, segundo 
dados do Ministério da Saúde. Desse 
total, 650 mil são do sexo masculino 
e 350 mil do sexo feminino. 
No caso da comunidade LGBTQIA+ 
que vive com HIV, além do 
preconceito, há também lacunas no 
atendimento médico em centros 
urbanos, mas, majoritariamente, 
em cidades interioranas. Com 
uma linguagem informal, e muito 
acolhimento e cuidado, Dr. Vinícius 
percebeu que pacientes com 
orientação sexual diferente da 
heteronormatividade sentiam 
medo de compartilhar dúvidas 
e queixas nos ambulatórios. A 
constatação surgiu quando ele 
fazia a residência de infectologia, 
em 2014. Foi o sinal que 
precisava para dedicar-se a esse 
público e derrubar fronteiras de 
desconhecimento e estigmatização. 
Nas redes sociais, o Doutor 
Maravilha entra em ação, tirando 
dúvidas e falando sobre prevenção 
de doenças sexualmente 
transmissíveis, profilaxia pré e 
pós-exposição ao HIV (PrEP e 
PEP, respectivamente), entre 
outros temas. “O Brasil tem um 
dos melhores sistemas de saúde 
pública, referência no tratamento 
de HIV. Hoje a prevenção não é só 
a camisinha, um ótimo método, 
mas que para funcionar tem 
que usar. Já são 40 anos falando 
da camisinha e a epidemia de 
HIV ainda não está controlada. 
Então, precisamos de outras 
ações”, reforça. Neste Encontros, 
o médico infectologista fala sobre 
viver e conviver com HIV, políticas 
públicas e desafios para acesso à 
prevenção e pesquisa da cura. 
PERSONAGEM CATIVANTE 
A questão de “sair do armário” para 
minha família foi bem cedo, acho 
que aos 18 anos,e para mim não 
era nenhum tipo de empecilho falar 
sobre a minha própria sexualidade, 
então, eu me perguntei: “Se 
posso conversar com as pessoas 
abertamente desse jeito num 
consultório, na residência, no 
hospital, nos ambulatórios, por 
que eu não faço isso numa escala 
e | 64 
encontros
Lé
o
 N
ov
el
li
Nascido na cidade de Ijaci (MG), o médico formado pela Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais, 
em 2011, encantou-se pela infectologia durante a residência no Hospital das Clínicas da UFMG.
 65 | e 
encontros
maior? Foi aí que eu criei o blog 
Doutor Maravilha e a página no 
Facebook. No começo, pensei em 
criar uma persona para deixá-la 
mais afastada da minha pessoa 
física, seria o Doutor Maravilha: 
um médico abertamente gay, com 
estetoscópio de arco-íris, um 
jaleco esvoaçante. Pensava: ele vai 
ser o super-herói dos LGBTs. Em 
2025, vai completar dez anos que 
criei a página Doutor Maravilha. 
Se atualmente médicos falam 
de uma maneira mais aberta, 
isso tem muito a ver, também, 
com o advento e o crescimento 
das redes sociais. Eu fui um dos 
pioneiros, mas hoje a gente vê 
médicos LGBTQIA+ de várias áreas. 
DERRUBAR ESTIGMAS 
Eu sempre digo: se você não vive 
com HIV, você convive com HIV. 
Viver é para quem foi diagnosticado, 
conviver é para todo mundo que 
tem algum conhecido – e com 
certeza você deve ter – vivendo com 
HIV. Às vezes, você não sabe porque 
não é uma coisa que as pessoas 
falam, justamente, pelo estigma; 
mas a chance de você ter namorado 
alguém, de ter algum conhecido 
ou primo vivendo com HIV é alta. 
Como Doutor Maravilha, pude 
viajar pelo país para dar palestras e 
conhecer muitos grupos de jovens. 
Tem gente que está há 15 anos 
tratando e ainda não falou para a 
família. Ninguém sabe. E quando 
precisa retirar remédio no SUS, paga 
a alguém, porque tem medo de 
ficar na fila. Uma vez, nos rincões do 
Brasil, estava falando de prevenção 
e uma senhora me interrompeu: 
“Queria saber se a minha filha, que 
acabou de ser diagnosticada com 
isso, pode usar o mesmo talher e 
o mesmo vaso sanitário?”. Isso foi 
há mais ou menos cinco anos. 
LONGE DOS ÍDOLOS 
O peso não é só do diagnóstico de 
HIV, que já traz as inseguranças 
inerentes, mas também vem 
à cabeça quem perdemos em 
40 anos: ídolos, como Cazuza 
(1958-1990) e Renato Russo 
(1960-1996). Há o peso, também, 
de notícias preconceituosas. A 
gente mostra que não é assim: o 
HIV não precisa ser uma sentença 
de morte e de sofrimento. Ele 
modifica a sua vida, mas não cerceia 
os seus sonhos. Você pode seguir 
com qualidade de vida, por muito 
tempo, realizando seus objetivos. 
Mas o HIV gera, nesse começo, o 
medo da morte e o medo de como 
as pessoas vão reagir, que é a morte 
social, tão cruel quanto. Não basta 
tomar a medicação, a pessoa quer 
continuar inserida na sociedade e 
o remédio não tem esse poder. A 
informação existe, mas ela ainda 
está restrita a bolhas. No Brasil, 
a estimativa de 2019 era de 130 
mil pessoas vivendo com HIV sem 
saber. Por isso, é muito importante 
mostrar para essas pessoas que 
elas não estão sozinhas, e que esses 
diagnósticos não são sentenças. 
PELA LONGEVIDADE 
É bom sempre separar: o HIV é 
um vírus, a exemplo do vírus da 
dengue, da gripe etc. Se eu me 
infectar hoje, vou ter HIV, mas 
não tenho a doença. A doença 
vai levar, em média, de oito a dez 
anos para se desenvolver – em 
alguns mais rapidamente, em 
outros, lentamente. Então, essa 
pessoa que é diagnosticada já no 
início, e que começa o tratamento 
– o ideal é iniciar em sete dias, 
segundo a Organização Mundial 
da Saúde (OMS) – consegue 
viver bem. Também é possível 
engravidar quando o vírus já 
estiver indetectável, mas a mãe 
não poderá amamentar. Já a 
pessoa com aids está um pouco 
mais debilitada, pode estar com 
tuberculose, pneumonia e infecções 
no cérebro. Nesses casos, a maioria 
tem cura. A vida sexual continua 
– a partir do momento em que o 
vírus fica indetectável e persiste 
indetectável, não se transmite 
mais o vírus por via sexual. 
JOVENS E IDOSOS 
Essa cultura de achar que todo 
idoso é igual ao meu pai, à minha 
mãe, ao meu avô… Outra questão, 
idosos não tiveram uma educação 
sexual, então muitos vieram de 
um mundo pré-aids, quando não 
tinha essa questão da utilização 
da camisinha, muito menos de 
PrEP [Profilaxia Pré-Exposição é 
um tratamento preventivo que 
combina dois medicamentos A
n
d
ré
 A
m
er
u
so
e | 66 
encontros
O médico infectologista Vinicius 
Borges participou da reunião 
virtual do Conselho Editorial da 
Revista E no dia 24 de outubro. 
A mediação do bate-papo foi 
de Rafaela Ometto, jornalista e 
editora web da Gerência de Saúde 
e Odontologia do Sesc São Paulo.
O HIV NÃO PRECISA SER UMA SENTENÇA DE 
MORTE E DE SOFRIMENTO. ELE MODIFICA A SUA 
VIDA, MAS NÃO CERCEIA OS SEUS SONHOS. 
para bloquear a entrada do HIV 
no organismo]. Hoje a gente sabe 
que há um envelhecimento mais 
saudável, então homens e mulheres 
estão ativos por mais tempo. A 
função sexual não se extingue, 
ela se modifica. E se não tomar 
cuidado, a terceira idade pode se 
infectar. Já os jovens, às vezes, a 
gente acha que eles sabem tudo, 
mas o nível de informação deles 
ainda é baixo. Nas escolas, nem 
se fala, porque tem a questão 
política que às vezes diminui o 
alcance da educação sexual. 
VACINA E CURA 
O HIV é um vírus simples de RNA, 
mas ele se multiplica e é mutável. 
Ou seja, se eu vivesse com HIV, 
o meu vírus seria diferente do 
seu, porque ele tem as próprias 
modificações. No Estudo Mosaico 
[realizado em oito países da Europa 
e Américas, incluindo os Estados 
Unidos, de 2019 a 2023] tentaram 
englobar vários tipos de vírus mais 
comuns para criar uma vacina. 
Na metade do estudo, fizeram 
uma análise preliminar para ver 
se estava protegendo ou não. Um 
grupo tomava a vacina e outro 
tomava PrEP. Viram que o grupo 
de PrEP estava mais protegido que 
o da vacina. A dificuldade do HIV 
é que são vários tipos e subtipos, 
ou seja, não será uma vacina única 
que conseguirá nos proteger de 
todos. Além disso, esse é um vírus 
que tem facilidade de se esconder 
do sistema imunológico. Ele pode 
ficar escondido nos gânglios, no 
cérebro, nas gônadas, no fígado, 
onde o medicamento não consegue 
entrar, em reservatórios. Sobre 
a possibilidade de cura, nesse 
caminho, o pesquisador Ricardo 
Dias, da Universidade Federal de 
São Paulo (Unifesp), avalia como 
retirar esses vírus dos reservatórios 
para que o medicamento 
consiga agir. No entanto, se 
tiver cura ou não, a aids vai 
continuar existindo. Desigualdade 
econômica e de acesso à saúde, e 
a serviços básicos, matam tanto 
ou mais que o vírus em si. 
DEMOCRATIZAR A PREVENÇÃO 
O Brasil tem um dos melhores 
sistemas de saúde pública, 
referência no tratamento de 
HIV. Hoje a prevenção não é só 
a camisinha, um ótimo método, 
mas que para funcionar tem que 
usar. Já são 40 anos falando da 
camisinha e a epidemia de HIV 
ainda não está controlada. Então, 
precisamos de outras ações. A 
prevenção combinada é o conjunto 
de prevenções, a PrEP e o PEP 
[Profilaxia Pós-Exposição, uma 
medida de prevenção de urgência 
para ser utilizada em situação de 
risco à infecção pelo HIV]. São Paulo 
é referência por ser a cidade do 
país que mais oferta PrEP. Não à 
toa, houve uma queda de 54% dos 
casos nos últimos anos. Você pode 
fazer uma consulta online com 
médicos, enfermeiros, profissionais 
de saúde da prefeitura, recebe 
uma receita com QR code, depois 
adquire o PrEP ou PEP em uma das 
máquinas instaladas nas estações 
de transporte público. Todos 
os países do mundo que estão 
conseguindo frear a epidemia de 
HIV-aids, estão ofertando PrEP. 
Pensando em política pública, é 
muito mais barato prevenir do que 
tratar sequelas. Então, isso precisa 
ser cada vez mais democratizado. 
 67 | e 
encontros
NAQUELA 
MANHÃ 
POR IGNÁCIO DE LOYOLA BRANDÃO
ILUSTRAÇÕES JULIANA RUSSO
Naquela manhã de março de 1957, meu pai levou-me à 
estação ferroviária deAraraquara, onde nasci, para o 
momento decisivo de minha vida. Partir para São Paulo. 
Minha decisão foi dolorida para minha mãe. “Filho, fique! 
Arranje um bom emprego, case, tenha uma família, você 
precisa de segurança. Vá para a estrada de ferro, como se 
dizia.” Era a ferrovia. Havia duas que passavam pela cidade. 
A Paulista e a Araraquarense, a qual meu pai pertencia, 
ali ele fez carreira, passou a vida. Mamãe acrescentava, 
repetidas vezes: “Busque segurança, Ignácio. Preste 
concurso no Banco do Brasil ou na Caixa Econômica.” 
inéditos
Eu, do alto de meus 21 anos, já tendo assistido à 
Juventude transviada (1955), aderido ao rock de Elvis 
Presley e tendo James Dean como ídolo, respondi: 
“Não, mãe! Vou para São Paulo. Quero ser jornalista 
ou mexer com cinema, teatro, talvez escrever. Aqui 
não tem nada disso”. O “talvez” era mentira, escrever 
era tudo o que eu queria. Tive uma infância repleta 
de livros. Aos dez anos li um, achei espantoso, me 
comoveu. Alice no País das Maravilhas (1865), de Lewis 
Carroll. Um soco no estômago. Libertador. Ainda hoje 
releio fascinado. Foi dele a primeira grande lição 
de escrita que tive. A de que a realidade pode ser 
modificada, inventada, ser diferente, sem deixar de ser 
realidade. Ao crescer descobri que o mundo real é mais 
espantoso, às vezes absurdo, disparatado, ridículo. 
Outro livro que li aos dez anos, e hoje mantenho na minha 
estante, é Robinson Crusoe, de Daniel Defoe. Um clássico 
publicado na Inglaterra, em 1719, com muito sucesso, 
e várias vezes adaptado para o cinema. Ainda releio, 
principalmente edições comentadas, para ver o que perdi 
e reganhar. Robinson sofreu um naufrágio e acabou 
isolado em uma ilha, onde ficou por 28 anos. Sozinho, 
como ele enfrentou? Em lugar de se deixar dominar pelo 
desespero, porque estava no meio do oceano imenso, 
sem a mínima possibilidade de comunicação, tratou de 
construir uma vida, erguendo uma casa, aprendendo 
a pescar, caçar e plantar para comer. Desde então, 
nunca mais tive medo da solidão, fico a imaginar como 
 69 | e 
inéditos
resolvê-la. O que eu queria e quero é viver. Hoje, vocês 
podem perguntar: e se Robinson tivesse um celular? Claro, 
resolveria. Porém o primeiro celular surgiu no mundo em 
1973, ou seja, 254 anos depois do livro ter sido escrito. 
As leituras foram herança de meu pai que, no início 
dos anos 1940, tinha uma biblioteca de mil volumes, 
comprados um a um, durante anos, fazendo economia 
tostão a tostão, como se dizia. Seria hoje centavo a centavo. 
Mas voltando à minha mãe, ela tinha razão. Minha avó 
Cecilia morreu quando mamãe tinha 13 anos e passou 
a cuidar de seis ou sete irmãos. Ela não terminou os 
estudos fundamentais. Ela pensou em segurança a vida 
inteira e sabia que meus caminhos eram “aventureiros”, 
não fixos. Uma pergunta recorrente de minha mãe ao 
meu pai era: “Totó, tem certeza de que não vamos perder 
a casa?”. Mas não me arrependi de um só passo que dei. 
Trabalho ou emprego? 
Naquele momento em que me colocava no 
trem, despedindo, meu pai perguntou: 
– Ignácio, você quer trabalho ou emprego? 
– Qual é, pai? É a mesma coisa! 
– Não, filho, é diferente. Emprego você tem para ganhar 
um salário a fim de pagar as contas, a comida, a escola 
dos filhos e algum para o divertimento. No trabalho, 
além de tudo isso, você coloca um sonho. Querer ser 
alguma coisa que faça sua vida diferente. Que te deixe 
sem fôlego pela alegria, ou sem fôlego pela dúvida. 
Hoje, depois de publicar 56 livros, entre romances, contos, 
crônicas, viagens, biografias, infantis, depois de viajar pelo 
mundo e estar em duas academias, a Brasileira e a Paulista, 
e ser doutor Honoris Causa pela Unesp Araraquara, 
vejo que eu queria trabalho e sonho. E como sonhei. 
Passei por muitos riscos, mas a vida é isso. O quanto 
hesitei ao passar de um jornal para uma revista, de 
uma revista para outra. Um dia, decidi abandonar 
tudo por um ano. Tentar a vida em Roma, enorme 
sonho. Cobri a morte do papa João XXIII, entrevistei 
Federico Fellini e Orson Welles, estive frente a frente 
com Elizabeth Taylor e vi que ela realmente tinha olhos 
violetas. Arrisquei, passei apertado, mas nunca passei 
fome. Entrei em canais errados, afundei. Fiquei mal. 
Mas, deixei para lá. Disse Churchill, um dos grandes 
primeiros-ministros da Inglaterra, que durante a 
Segunda Guerra Mundial ergueu e segurou o ânimo 
e | 70 
inéditos
do seu país, que na vida a gente pode fracassar o 
quanto for, desde que continue entusiasmado. 
Decidi pelo jornalismo. Ele me levou à literatura, 
às viagens, ao cinema, ao palco. Duas professoras 
do Fundamental, Lourdes Prado e Ruth Segnini, me 
diziam: “Quer inspiração? Olhe pela janela! Saia à 
rua. Observe. Pergunte. Anote”. Um dia, aos 23 anos, 
perguntei a Nelson Rodrigues, o maior dos modernos 
dramaturgos, onde ele se inspirava para seus romances, 
crônicas e peças. Ele: “Olhando pela janela. A vida está 
toda aí, recolha. Mas saiba recolher e principalmente 
saiba olhar”. Terminou: “E saiba escrever”. 
 
Assim vivi o Brasil, este país que sempre retratei. 
Jurandyr Gonçalves, professor de português no ginásio, 
me deu uma lição fundamental. Na aula de português, 
ele pediu que a classe lesse e comentasse o romance de 
Franz Kafka, A metamorfose (1915). Lemos com espanto e 
prazer a história de um jovem que acorda, certa manhã, 
transformado em um estranho inseto. Muitos dizem que 
seria uma barata, mas o tradutor Modesto Carone, em 
belíssimo trabalho, se refere ao bicho como repulsivo 
inseto. E o livro inteiro é narrado do ponto de vista 
 71 | e 
inéditos
e | 72 
inéditos
deste bicho. E assim, atravessamos entre problemas do 
cotidiano humano, das dores, angústias, sonhos. Todos os 
problemas e angústias dos humanos estão aqui, o bem e o 
mal, as relações em família, a sociedade complexa. Quando, 
ao ser arguido, disse ao professor que tinha adorado, 
mas achado absurdo demais, ele respondeu: “Não tenha 
medo, a vida é mais absurda que o próprio absurdo”. 
Arrisquei. Hoje sou escritor, estou em duas academias, 
viajei o mundo, sou cronista, faço palestras por este 
país afora, conversando com estudantes e professores. 
Velhos amigos me abraçam: “Está na boa, hein? Em todos 
os jornais, televisão, famoso”. Replico: “Não ganho por 
notícia, ganho pelo trabalho, pelo que escrevo”. Não 
sou um homem solitário. Sempre penso que, em algum 
momento, alguém esteja lendo uma página que escrevi, 
afinal são 56 livros e 10 mil crônicas em jornal. Ao ler 
e gostar, essa pessoa transfere este amor para mim. 
Confesso que ouço com frequência uma pergunta 
insólita. Amigos de muitos anos, ou recentes, indagam: 
“– Ignácio, você não trabalha? Não faz nada? Só escreve?”. 
A princípio, eu imaginava que trabalhar era aquilo que meu 
pai fazia. Acordava cedo, tomava café, ia para o escritório, 
voltava para o almoço, regressava à escrivaninha, mexia com 
papeis, contas etc. A rotina clássica, a repetição, a mesmice. 
Aquela geração envelhecia cedo. Um dia, anos 1960, repórter 
do jornal Última Hora – que desapareceu – fui entrevistar 
Vinicius de Moraes, poeta, compositor, cantor e casador. 
Casou-se nove vezes com interessantes mulheres. Conta-se 
que um dia se aproximou da linda baiana Gessy Gesse e 
indagou: “Quer ser minha viúva?”. Ela quis. Naquela tarde, 
Vinicius estava sentado na varanda de um restaurante, 
a imprensa toda à sua frente, o filme Orfeu Negro, por ele 
escrito, tinha ganhado o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. 
O compositor-escritor tinha sobre a mesa um litro de 
uísque, um copão e um balde de gelo. E ia respondendo 
e bebendo, mantendo-se impecável. Um jornalista não 
resistiu: “Que bela vida o senhor leva, hein? É famoso, 
casado com belas mulheres, cinco da tarde está aqui dando 
entrevista, sentado, tomando um uíscão, despreocupado”. 
Vinicius olhou: 
“– Você não entendeu nada? Não percebe que isso 
é parte do meu trabalho? O que faço em casa, o 
suor, a busca de uma ideia, elaboraro poema, isso 
ninguém vê”. Desde então, mudei meu conceito de 
trabalho. Ele não é apenas suor e angústia, é também 
divertimento, fairplay, prazer, sonho, a delícia de fazer 
o que gosta, mesmo que tenha muito trabalho. 
Chegado aos 88 anos, viajo e faço palestras. Ainda 
há pouco, em Aracaju (SE), terminada uma fala 
com estudantes, uma jovem perguntou: 
“– Qual é o seu segredo? Nesta idade, viaja, fala, 
não tem voz de velho... Qual é sua fórmula? 
A receita? Não fuma, não bebe, faz exercícios 
especiais? O quê? Como chegou até aqui?” 
Fiquei me perguntando: O que é voz de velho? 
Envelhecer. A mídia está coalhada de fórmulas e 
remédios para tudo. Ora pro nobis, massagens, 
colágenos, fitoterapias para ter cabelo, não ter ruga. 
Respondi: 
“– Fórmula? Receita? Sabe por que estou aqui?”. 
Aos 88 anos? Simples: Porque não morri”. 
Foi uma gargalhada só. Estou aqui porque na minha 
frente sempre tem um projeto, um sonho, algo a fazer. 
E corro atrás. Li uma frase, creio que de Bertrand 
Russell, o filósofo pacifista que aos 95 anos ainda 
tomava parte em passeatas em Londres: “Quando uma 
pessoa se aproxima do fim, procura saber o sentido 
da vida”. Descobri isso aos 16 anos, quando escrevi 
meu primeiro texto, uma crítica de cinema. Com a 
escrita entendi, retratei o Brasil e os brasileiros. E 
ainda tenho projetos. Caminho, eles também. 
Assim continuo indo em frente. 
Ignácio de Loyola Brandão, jornalista e escritor, 
nasceu em Araraquara (SP), em 1936. Tem 56 livros 
publicados, entre romances, contos, crônicas, 
infantis, biografias e uma peça teatral. É vencedor do 
Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de 
Letras, em 2016, como Mestre da Narrativa. Seu mais 
conhecido romance, Não verás país nenhum (Global, 
2008), tornou-se clássico do ambientalismo no Brasil. 
Pertence às Academias Brasileira e Paulista de Letras 
e é doutor Honoris Causa pela Unesp Araraquara. 
Juliana Russo é artista visual, desenhista, 
curadora, montadora, ativista pelos direitos 
dos povos originários, pelo direito à moradia e 
profundamente interessada pelas propriedades 
curativas das plantas. Desde 2004, mescla seu 
trabalho autoral com ilustrações para revistas, 
jornais e livros. Em 2015, lançou seu primeiro 
livro autoral, São Paulo Infinita (Gustavo Gili). 
 73 | e 
inéditos
Ator, diretor e professor, Caio Blat mergulha 
em diferentes contextos sociais e histórias de 
vida ao longo de mais de 30 anos de carreira
POR MARIA JÚLIA LLEDÓ
ENTRE 
MUNDOS
N
ão duvide se o livro Dias 
absurdos for publicado pelo 
ator, diretor e professor do 
Grupo Nós do Morro, Caio 
Blat. Mesmo que o tenha 
como um rascunho despretensioso 
e título pré-definido, o artista 
nascido na capital paulista poderia 
se aventurar no meio literário. 
Afinal, em mais de três décadas 
de carreira – 30 peças, 30 filmes 
e 30 novelas –, ele coleciona 
vivências tão surpreendentes 
quanto díspares. Passou meses 
na extinta Casa de Detenção de 
São Paulo para o filme Carandiru 
(2003) de Hector Babenco; conviveu 
com monges budistas no Nepal, 
para a novela Joia Rara (2013), da 
rede Globo; esteve com os povos 
indígenas do Xingu, nas gravações 
de Xingu (2012), de Cao Hamburger, 
entre muitos outros cenários. 
Nascido em uma família de 
médicos e dentistas, Caio Blat 
cresceu no bairro do Ipiranga, zona 
Sul da cidade, e não pensava em 
ser ator como o primo Ricardo 
Blat. Até que, encorajado pela 
mãe, fez testes para comerciais 
e, logo, estreou na televisão, aos 
10 anos. Seu primeiro papel foi na 
TV Cultura, uma participação na 
série Mundo da Lua, em 1992, ao 
lado dos veteranos Gianfrancesco 
Guarnieri (1934-2006) e Antônio 
Fagundes. Blat ainda cursou, por 
pouco tempo, a Faculdade de 
Direito do Largo São Francisco, 
em São Paulo, mas deixou o 
curso para apostar todas as 
fichas nas artes. Sua formação 
foi construída, principalmente, 
pela troca com atores e diretores, 
como Fauzi Arap (1938-2013), 
Felipe Hirsch e Bia Lessa, com 
quem trabalhou no espetáculo 
Grande Sertão: Veredas (2017) 
e no filme O diabo na rua no 
meio do redemunho (2023), 
ambas leituras da obra-prima de 
Guimarães Rosa (1908-1967). 
Caio Blat prepara-se para 
a realização de um projeto 
gestado há mais de 20 anos: 
a estreia da peça Os Irmãos 
Karamazov, obra de Dostoiévski, 
e | 74 
depoimento
Caio Blat no Centro de 
Pesquisa e Formação 
(CPF) do Sesc São Paulo, 
onde falou sobre vida 
e carreira na atividade 
Em Primeira Pessoa, no 
mês de julho de 2024.
sob sua direção e adaptação. 
Neste Depoimento, o ator e 
diretor fala sobre seu mais recente 
trabalho no teatro, episódios 
da carreira, o mergulho nos 
personagens, entre outros temas. 
mirim 
Eu sempre admirei muito o Ricardo 
[Blat], ia a todas as peças quando 
ele estava em cartaz em São Paulo, 
acho que ele é um dos atores 
mais complexos do Brasil, um cara 
revolucionário. Mas a gente não 
tinha uma relação próxima. Ele 
morava no Rio e a gente em São 
Paulo. Eu cresci no Ipiranga e a 
minha família toda é de médicos 
e dentistas. A minha mãe tinha 
uma paciente cujo filho fazia 
propagandas, e ela falou: “Por que 
você não leva o Caio?”. Daí, minha 
mãe me levou para uma agência 
infantil, quando eu tinha oito ou 
nove anos. Eu não fazia a menor 
ideia do que estava fazendo 
ali. Realmente foi uma coisa 
que a minha mãe sacou. Fiz um 
teste, lembro que tinha umas 
400, 500 crianças esperando. 
Fui sem nenhuma preparação, 
mas passei. Aí, comecei a fazer 
muitas propagandas. Hoje em 
dia, a profissão do ator mirim é 
super regulamentada, e na minha 
época não tinha nada disso. A
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 75 | e 
Sesc Consolação, baseada na 
vida e obra de Hans Christian 
Andersen (1805-1875). Uma 
grande produção, cenário do J.C. 
Serroni, uma das minhas primeiras 
peças de teatro, porque o pessoal 
da novela Éramos Seis me puxou 
para algumas produções. Comecei 
a fazer teatro na Praça Roosevelt 
e, depois, no Sesc Consolação. 
Conforme foi chegando o dia da 
estreia, vi que coincidia com o dia 
da Fuvest. Eu sempre quis estudar 
no Largo São Francisco pela história 
da faculdade, pelas pessoas que 
estudaram lá: os poetas Álvares 
de Azevedo (1831-1852) e Castro 
Alves (1847-1871), os atores 
Paulo Autran (1922-2007) e 
Zé Celso (1937-2023). Quando 
chegou o dia, nervosismo. Depois 
da prova, cheguei no teatro, o 
público já estava indo embora – 
tinham cancelado a peça. Entrei 
completamente desolado e o 
Vladimir Capella, sentado sozinho 
na plateia. Nunca vou esquecer 
esse dia. Morrendo de vergonha, 
me sentei ao lado dele e ele me 
falou: “Se algum dia você virar 
advogado, eu corto esse dedo fora”. 
salto 
Eu tinha uma carreira que estava 
começando a se solidificar, uma 
peça em que eu era o protagonista, 
um musical importante, mas ainda 
tinha cobrança da minha família 
por uma carreira, por outro plano. 
Passei, então, o primeiro ano na 
faculdade. Foi uma delícia porque o 
Largo é incrível, tem muita tradição, 
tem a Academia de Letras, onde a 
gente lê poemas, mas logo no final 
do primeiro ano, [o diretor] Luiz 
Fernando Carvalho me convidou para 
astronauta 
Até hoje, a TV Cultura é um 
patrimônio e, naquela época 
[anos 1990], estava produzindo 
coisas lindas como Mundo da 
Lua (1991-1992), uma série com 
Antônio Fagundes, Gianfrancesco 
Guarnieri. Fiz uma participação na 
série, foi meu primeiro trabalho 
na televisão, devia ser 1992. 
Depois, fiquei na Cultura fazendo 
um programa educativo que se 
chamava O Professor (1992) – a 
gente ia na casa de um vizinho 
que era professor e, se a bicicleta 
estivesse quebrada, ele dava 
uma explicação sobre roldanas 
etc. Então, tive o privilégio de 
aprender como funciona o meio 
da televisão na TV Cultura, que 
era um ambiente acolhedor com 
as crianças, com a educação. 
mestres 
Em 1994, o SBT trouxe grandes 
atores e produziu uma coisa 
belíssima que foi a novela Éramos 
Seis, com Irene Ravache, Othon 
Bastos, Nathália Timberg, Jussara 
Freire… Enfim, era um elencoabsurdo. Eu, ainda moleque, tive a 
experiência de fazer minha primeira 
novela e logo uma novela dirigida 
por Nilton Travesso e Henrique 
Martins. Tive uma escola muito 
privilegiada: convivi com essas 
pessoas na minha infância. Aprendi 
na prática a fazer coisas lindas. 
Dali, eu ia correndo para a aula 
depois. Eu tinha a carreira de ator 
como um grande aprendizado, 
um hobby. Por ser uma carreira 
que não dá segurança. Então, eu 
tinha essa cobrança dos meus pais: 
“Isso aí é só uma brincadeira”. 
escolhas 
Estava fazendo uma peça com 
o Vladimir Capella (1951-2015), 
grande diretor de peças infantis. 
Era O homem das galochas, no D
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No papel de Riobaldo em O diabo na rua no meio do redemunho (2023), de Bia Lessa, 
adaptação de Grande Sertão: Veredas, obra-prima de Guimarães Rosa.
e | 76 
depoimento
filmar Lavoura Arcaica (2001). No 
ano seguinte, tranquei a matrícula 
e fui para o Rio, com 18 anos, e 
não voltei mais. Estou há 25 anos 
morando lá, fiquei 24 anos na Rede 
Globo, 30 novelas, séries, especiais, 
enfim muita coisa, uma história lá. 
cinema 
O filme Cama de Gato (2002) 
foi para o Festival de Cinema de 
Brasília, e lá eu conheci o Cláudio 
Assis, que me chamou para filmar 
na Zona da Mata, o Baixio das 
Bestas (2007), outro filme muito 
forte. Depois, Helvécio Ratton me 
chamou para fazer Batismo de 
Sangue (2006), que traz a história 
do Frei Betto, do envolvimento 
dos monges dominicanos com 
Marighella (1911-1969) e com a 
luta armada. Trabalhei também 
com Jorge Duran, em outro filme 
belíssimo, Proibido Proibir (2006). 
Minha carreira se dividiu em duas: 
ator de novela – personagens 
bonitinhos, mas sempre tentando 
cavar bons personagens – e, 
paralelamente, eu fazia muitos 
filmes radicais e autorais com 
grandes cineastas. Aí, comecei a 
ganhar prêmios no cinema. Acho 
que eu consegui ter uma carreira 
extremamente equilibrada, dividida 
entre TV, teatro e cinema. 
professor 
Eu tinha uma amiga que conhecia 
o pessoal do Nós do Morro e 
pensei: “Quem sabe a gente não 
troca experiências?”. Perguntei se 
poderiam fazer um exercício de 
improvisação com os meus atores, 
Caco Ciocler e Daniel Oliveira [para 
a peça Êxtase, em 2001, estreia de 
Caio Blat na direção]. Me empolguei, 
aluguei uma casa no Vidigal 
[comunidade na zona Sul do Rio de 
Janeiro (RJ)], e falei: “Vamos ensaiar 
aqui, vamos morar aqui e aprender 
com esse pessoal daqui”. Comecei 
a trabalhar com o Nós no Morro, 
e a peça estreou lá no Casarão do 
grupo. Em 2005, fiz outra peça 
lá, só que com os atores do Nós 
do Morro e meus atores eram os 
convidados. Foi uma peça do Mário 
Bortolotto, A frente fria que a chuva 
traz, sobre garotos ricos que alugam 
uma laje na favela para tirar onda. 
A partir daí aconteceu uma coisa 
linda: virei parceiro do Nós do Morro. 
Lá eu comecei a dar aulas para as 
crianças, ia lá com todos os meus 
projetos e aprendia com eles. Me 
dá muito orgulho essa parceria de 
24 anos, e ser professor – até o ano 
passado, estava com duas turmas. 
É um lugar emocionante, lindo, 
que dá sentido à nossa profissão. 
mensageiro 
O ator entra em lugares que são 
inacessíveis, vive dores que são de 
outras pessoas, a fim de reproduzir 
aquilo para outros públicos, às 
vezes em lugares que você nem 
imagina. Acho que o ator serve 
como ponte entre esses lugares e 
histórias que são inacessíveis, mas 
também lugares do passado. Então, 
vai a esses lugares muitas vezes 
tristes, horríveis, coleta histórias, 
resgata a história daqueles 
personagens e leva para festivais 
de cinema, para diferentes 
públicos, para outras gerações. 
É muito legal essa ponte. Sempre 
que eu vejo o absurdo do lugar 
onde eu fui filmar e o lugar onde 
eu fui mostrar o filme, me sinto 
como um mensageiro, como uma 
ponte entre mundos distantes. 
adiante 
Eu acabei de sair da Globo, no ano 
passado (2023), um lugar onde eu 
cresci muito, onde aprendi muito. 
Sempre corria para fora para fazer 
peças e filmes bacanas. Mas agora 
que eu parei, vou fazer os meus 
projetos. Volto a dirigir uma peça 
que eu adaptei, e com a qual sonho 
há mais de 20 anos, que é um 
romance de Dostoiévski, Os Irmãos 
Karamazov (1880). Freud (1856-
1939) dizia que esse é o maior livro 
já escrito. Claro, ele puxa a sardinha 
para o assunto dele: filhos querendo 
matar o pai, o complexo de Édipo, 
está tudo ali. Esse é um livro que 
estou estudando e adaptando 
desde que morava em São Paulo e, 
finalmente, vou conseguir produzir, 
realizar e dirigir – fazia muitos 
anos que não dirigia no teatro. 
Também vou dirigir meu segundo 
filme, que será sobre a vida da 
Cacilda Becker (1921-1969), a 
maior atriz do nosso teatro. 
EU ME SINTO COMO UM MENSAGEIRO, 
COMO UMA PONTE ENTRE MUNDOS DISTANTES 
 77 | e 
depoimento
E ntrar em um mercado municipal é sempre uma 
experiência única, inspirada por diversas opções 
de produtos frescos, coloridos e saborosos, 
acompanhados pelos causos contados pelos 
comerciantes. Na capital paulista, somente na 
zona Leste, há seis desses gigantes do comércio, 
espalhados pelos distritos de Vila Formosa, São 
Miguel Paulista, Guaianases, Sapopemba, Penha e 
Teotônio Vilela. Já na zona Oeste, são três: Lapa, 
Pinheiros e Pirituba. O mais famoso de todos os 
mercadões, situado na região central, está prestes 
a completar 92 anos de história. Todos esses, assim 
como os sacolões e as centrais de abastecimento 
da cidade, são espaços vivos e efervescentes, 
que se ligam ao dia a dia dos moradores em cada 
território. A seguir, conheça mais detalhes do 
Mercadão Central e de outros quatros mercados 
municipais da capital paulista. Bom proveito! 
Para além dos sabores
Nos mercadões da cidade de São Paulo, um passeio por cheiros, 
cores e histórias que dão vida a esses espaços
POR LUNA D’ALAMA 
O estilo neoclássico na arquitetura e seus mais de 70 vitrais também são atrativos do tradicional Mercadão de São Paulo, na região central da cidade.
e | 78 
ALMANAQUE
Fundado em 17 de julho de 1949, o 
Mercado Municipal Waldemar Costa 
Filho, ou Mercado do Tucuruvi, 
ocupou, por duas décadas, um galpão na 
avenida Nova Cantareira. Em janeiro de 
1969, suas instalações passaram para o 
edifício atual, onde antes operava uma 
empresa de tecelagem. Em julho de 2024, 
o local completou 75 anos de existência, 
com vários eventos comemorativos. 
Funcionam no mercado, hoje, quase 
30 boxes e dez bancas que oferecem 
os mais diversos produtos nacionais 
e importados. Destacam-se carnes, 
peixes (como bacalhau), aves, massas, 
vinhos, doces, laticínios, frios, frutas 
frescas e secas, doces, pastéis, caldo de 
cana e flores. Além disso, possui uma 
praça de alimentação com opções de 
pratos típicos de várias culturas. 
Avenida Nova Cantareira, 1686, 
Tucuruvi, São Paulo (SP). De 
terça a sábado, das 8h às 19h. 
Domingo, das 8h às 13h. 
instagram.com/
mercadomunicipaltucuruvi
centro 
TRADICIONAL MERCADÃO
zona norte 
TECIDO A SABORES 
Projetado pelo arquiteto Ramos de Azevedo (1851-
1928) e inaugurado em 25 de janeiro de 1933 – dia do 
aniversário de São Paulo –, o Mercado Municipal 
Paulistano, ou apenas Mercadão para os íntimos, 
é parada obrigatória para moradores da capital e 
turistas. Nele é possível experimentar o tradicional 
sanduíche de mortadela, o famoso bolinho de bacalhau, 
pastéis gigantes ou frutas tropicais. Nos 12.600 metros 
quadrados do prédio, erguido às margens do rio 
Tamanduateí e inspirado no Mercado Central de Berlim, 
os visitantes também encontram bares, restaurantes 
e mais de 250 boxes onde se vendem carnes, peixes, 
aves, massas, doces, frutas, especiarias, embutidos, 
queijos, vinhos e produtos importados. Patrimônio 
histórico e cultural tombado, o Mercadão tem em 
sua arquitetura o estilo neoclássico, com detalhes 
góticos, em uma estrutura de alvenaria e concreto. 
Destaque para a arte em seus mais de 70 vitrais.
Rua da Cantareira, 306, Centro, São Paulo (SP). 
Para o público geral, abre de segunda a sábado, 
das 6h às 18h, eTchalian, Octavio Weber Neto, 
Olivia Tamie Botosso Okasima, Rafaela Ometto Berto, Raphael Cutis Dias, Raphael Viana 
Morata Valverde, Rejane Pereira da Silva, Renata Barros da Silva, Renata Zanin Covizzi, 
Renato Diego Alves de Jesus, Rodrigo Marcel Bezerra Machado, Samara Fernanda Rosa 
Baptista, Sandra Ribeiro Alves, Sergio Gouveia Spinola, Suamit Marques Barreiro, Talita 
Ferreira dos Santos, Tamara Demuner, Teresa Maria da Ponte Gutierrez, Thais Cristina 
Kruse, Thais Ferreira Rodrigues, Thamires Magalhaes Motta, Thiago da Silva Costa, 
Vivianne de Castro, Wendell de Lima Vieira. 
Coordenação-Geral: Ricardo Gentil 
Coordenação-Executiva: Ligia Moreli e Silvio Basilio 
Editora-Executiva: Adriana Reis Paulics • Edição de Arte e Diagramação: Estúdio 
Thema (Thea Severino e Marcio Freitas) • Edição de Textos: Adriana Reis Paulics, 
Guilherme Barreto e Maria Júlia Lledó • Revisão de Textos: Pedro P. Silva • Edição de 
Fotografia: Adriana Vichi • Repórteres: Ana Cristina Pinho, Lúcia Nascimento, Luna 
D’Alama, Manuela Ferreira e Maria Júlia Lledó • Coordenação Editorial Revista E: 
Adriana Reis Paulics, Guilherme Barreto e Marina Pereira • Propaganda: Edmar Júnior, 
Eduardo Monteiro, Gabriela Grande Amorim, Jefferson Santanielo e José Gonçalves 
Júnior • Apoio Administrativo: Juliana Neves dos Santos e Talita Ferreira dos Santos • 
Arte de Anúncios: Alexandre do Amaral, Frederico Zarnauskas, Gabriela Borsoi, Sergio 
Henrique de Souza • Supervisão Gráfica: Rogerio Ianelli • Criação Digital Revista E: 
Rodrigo Losano • Circulação e Distribuição: Vanessa Zago
Jornalista responsável: Adriana Reis Paulics (MTB 37.488)
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Expoente na 
cena teatral 
contemporânea, 
a dramaturga e 
diretora peruana 
Mariana de 
Althaus fala 
sobre as artes 
cênicas como 
um exercício 
de alteridade
Entre os 
destaques de 
dezembro, 
Contato – Ações 
Para a Promoção 
da Saúde Sexual 
e Prevenção das 
ISTs e HIV/Aids 
realiza oficinas, 
apresentações e 
outras atividades
Polo de resistência 
cultural e berço 
de importantes 
nomes da história 
do país, cidade 
de Franca abriga 
maior unidade do 
Sesc São Paulo no 
interior paulista
Pássaros, árvores 
e outras espécies 
e paisagens 
inspiraram vida 
e obra do músico 
e compositor 
Antônio Carlos 
Brasileiro 
de Almeida 
Jobim, eterno 
Tom Jobim
Um passeio pela 
estética negra 
e pelo resgate 
das tradições 
africanas e 
afro-brasileiras 
na obra visual 
de Abdias 
Nascimento
A diversidade 
de formatos e 
desafios, somada 
à quebra de 
paradigmas, 
joga luz sobre a 
visibilidade de 
famílias atípicas
p.52p.11 p.16 p.24 p.34 p.40 A
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S.
p.64 p.68 p.74 p.78 p.82
Doutor 
Maravilha, 
personagem 
criado pelo 
médico 
infectologista 
Vinícius Borges 
para falar sobre 
saúde sexual 
Ignácio 
de Loyola 
Brandão (prosa) 
Juliana Russo 
(ilustrações)
Textos de José 
Veríssimo 
Romão Netto 
e de Ivan 
Montanari 
refletem sobre 
conceito e 
desafios da 
gestão cultural 
no Brasil
Camila 
Machado
Reconhecido 
por trabalhos 
no cinema, 
no teatro e na 
televisão, o ator e 
diretor Caio Blat 
experimenta 
diferentes 
mundos 
possíveis em 
cada papel 
p.58
Conheça cinco 
mercadões 
municipais na 
capital paulista 
e experimente 
diferentes 
sabores, cheiros 
e histórias desses 
tradicionais 
espaços urbanos
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O6.12
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2O25
Terça a sexta das 13h às 21h
Sábado, domingo e feriados 
das 9h30 às 18h
Sesc Ribeirão Preto
sescsp.org.br/maj
Curadoria
Camila Fontenele 
e Tiago Gualberto
46 artistas 
selecionados
31ª 
edição
Revista E_23x30_CMYK.pdf 1 19/11/24 07:58
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Terça a sexta das 13h às 21h
Sábado, domingo e feriados 
das 9h30 às 18h
Sesc Ribeirão Preto
sescsp.org.br/maj
Curadoria
Camila Fontenele 
e Tiago Gualberto
46 artistas 
selecionados
31ª 
edição
Revista E_23x30_CMYK.pdf 1 19/11/24 07:58
Após ser atropelada, Alaíde (Djin Sganzerla), uma mulher 
atravessada pela realidade, delírios e memórias, experimenta 
a vertigem entre a vida e a morte, no espetáculo Vestido de 
Noiva, em cartaz no Sesc Consolação, até dia 8/12. Ao longo 
da trama, a personagem revela segredos familiares, enquanto 
enfrenta a culpa por ter protagonizado uma disputa amorosa 
com sua irmã, Lúcia (Simone Spoladore), pelo marido, Pedro 
(Jiddu Pinheiro). Sob direção de Helena Ignez, a peça do 
dramaturgo Nelson Rodrigues (1912-1980) ainda tem, no 
elenco, a atriz Lucélia Santos, no papel de Madame Clessi. Fe
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em cena
29 de novembro a 10 de dezembro de 2024
Ações para promoção da saúde sexual
e prevenção das ISTs e Aids
Atividades promovem reflexões sobre gênero, 
diversidades, desigualdades sociais e direitos 
humanos, incentivando o acesso à informação 
e a desconstrução de preconceitos para 
promover a saúde sexual. 
Em diversas unidades do Sesc São Paulo.
sescsp.org.br/contato
29 de novembro a 10 de dezembro de 2024
Ações para promoção da saúde sexual
e prevenção das ISTs e Aids
Atividades promovem reflexões sobre gênero, 
diversidades, desigualdades sociais e direitos 
humanos, incentivando o acesso à informação 
e a desconstrução de preconceitos para 
promover a saúde sexual. 
Em diversas unidades do Sesc São Paulo.
sescsp.org.br/contato
Projeto Contato fomenta discussões para a promoção 
da saúde sexual e reprodutiva e a prevenção 
das infecções sexualmente transmissíveis 
Novos imaginários
Vivências, oficinas, bate-papos e outras atividades fazem 
parte da programação do projeto Contato.
O contato com 
diferentes culturas, 
manifestações artísticas 
e discussões sobre outras 
realidades possíveis 
permite que o público 
possa problematizar 
e experienciar 
novas concepções 
sociais de saúde.
Teresa Maria da Ponte Gutierrez, 
assistente na Gerência de Saúde 
e Odontologia do Sesc São PauloV
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Sesc São Paulo realiza, de 
29/11 a 10/12, a sétima edição 
do projeto Contato – Ações 
Para a Promoção da Saúde Sexual 
e Prevenção das ISTs e HIV/Aids. 
O objetivo da ação é chamar a 
atenção do público sobre cuidados 
preventivos e romper estigmas, 
incentivando uma abordagem mais 
aberta sobre a importância do 
acesso a informações, do direito à 
liberdade de expressão, à segurança 
e ao respeito em todas as relações, 
como forma de promover saúde.
A partir de uma perspectiva 
sensível e diversa, a programação, 
que é gratuita, reúne oficinas, 
apresentações, performances, 
bate-papos e vivências que buscam 
desconstruir estereótipos que 
ainda povoam o imaginário coletivo. 
Entre os temas abordados estão 
o autocuidado, diversidades, 
prevenção de ISTs/HIV e a quebra 
de estigmas e preconceitos. O 
projeto também prevê ações 
sobre direitos humanos e debates 
relacionados a gênero, raça e 
classe, e como as desigualdades 
sociais impactam a saúde de 
populações vulnerabilizadas. 
“Desenvolverdomingo, das 6h às 16h. Para 
venda em atacado, funciona das 22h às 6h.
mercadomunicipalsp.com
No local antes ocupado por uma empresa de tecelagem, o Mercado do Tucuruvi celebra 
75 anos como um espaço dedicado ao comércio, mas também, aos encontros.A
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 79 | e 
zona sul 
PRIMEIRO DO BAIRRO 
Inaugurado em 18 de janeiro de 
1971, numa área de 3 mil metros 
quadrados, o Mercado Municipal 
Antonio Meneghini, ou simplesmente 
Mercado da Vila Formosa, nasceu 
com o objetivo de abastecer esse 
distrito com diversos gêneros 
alimentícios frescos (como carnes, 
peixes, frango, laticínios, frutas, 
legumes, verduras, pães e frios), 
além de flores, utilidades domésticas 
e outros itens. São mais de 30 boxes 
com produtos naturais, orgânicos, 
integrais e fitoterápicos, e ainda há 
várias opções de restaurantes. O 
local passou por uma reforma em 
2011, quando completou 40 anos. 
Praça das Canárias, s/n, Vila 
Formosa, São Paulo (SP). De 
segunda a sábado, das 8h às 19h. 
Domingo, das 8h às 13h. 
instagram.com/
mercadaodevilaformosa
zona leste 
DIVERSIDADE EM FORMOSA 
O Mercado Municipal José Gomes 
de Moraes Neto, mais conhecido 
como Mercado do Ipiranga, foi 
fundado em 22 de junho de 1940. 
Está localizado em uma das ruas 
de comércio mais famosas da 
região. Foi o primeiro lugar do 
bairro onde os moradores podiam 
comprar alimentos com uma 
grande variedade de produtos 
a granel. Hoje, o mercado tem 
25 comerciantes autorizados, 
que vendem itens de hortifruti, 
açougue, peixaria, frios, laticínios, 
armarinho, empório, mercearia e 
No Ipiranga, o Mercado Municipal José Gomes de Moraes Neto foi o primeiro 
lugar no bairro onde moradores podiam comprar alimentos.
Além da variedade de alimentos, no Mercado 
da Vila Formosa é possível participar de 
cursos, feiras de artesanato e festas.A
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até de petshop. Há, ainda, uma praça 
de alimentação com lanchonetes, 
restaurantes (culinárias árabe e 
asiática, entre outras), pastelaria, 
sorveteria, doceria e cafeteria, além 
de um amplo mezanino. Em 2021, 
ganhou uma nova área superior e 
teve os banheiros modernizados. 
Rua Silva Bueno, 2.109, Ipiranga, 
São Paulo (SP). De terça a 
sábado, das 8h às 19h. Domingos 
e feriados, das 8h às 13h.
instagram.com/
mercadomunicipaldoipiranga
e | 80 
ALMANAQUE
zona oeste 
PRIMO ITALIANO
Mais conhecido como Mercado da Lapa, o Mercado 
Municipal Rinaldo Rivetti foi inaugurado em 24 de agosto 
de 1954, ano do quarto centenário de São Paulo. De forma 
triangular, o prédio foi considerado, na época de sua 
edificação, um dos mais modernos do Brasil e da América 
Latina. Com uma área construída de quase 5 mil metros 
quadrados, teve a maioria dos boxes inicialmente ocupada 
por comerciantes de um extinto mercadinho da Rua Clélia, 
quase todos imigrantes italianos recém-chegados ao país. 
Atualmente, reúne quase cem comerciantes autorizados, 
que negociam itens de hortifruti, mercearia e petshop, 
além de carnes, peixes, aves, doces, flores, frios e laticínios. 
Há, ainda, lanchonetes para quem quiser comer por lá. 
Rua Herbart, 47, Lapa, São Paulo (SP). De segunda 
a sábado, das 8h às 18h. mercadodalapa.com.br
Originalmente ocupado por comerciantes italianos recém-chegado ao país, 
o Mercado da Lapa reúne hoje uma diversidade de vendedores e públicos.
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Que sorte 
a nossa! 
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Já dizia Guimarães Rosa – “O real não está na saída 
nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no 
meio da travessia”. 
Minha vida toda, incluindo os 22 anos de trajetória 
no Sesc, foi vivida no interior do Estado de São Paulo. 
Tenho a sorte e orgulho de ser caipira. A cada chegada 
em uma nova cidade, o desejo de explorar, conhecer 
e fazer parte renasce junto com as expectativas. Que 
território é esse? Quais suas vocações e demandas? 
Quem são as pessoas desse lugar? De que maneira nosso 
trabalho pode somar e fazer diferença nesse espaço? 
Os diálogos com a cidade são essenciais na construção 
de um programa robusto, transversal e que reflita a 
comunidade. Mas que vozes ecoam neste território? 
Quais vozes refletem a cidade de todas as pessoas? 
Nesse meu recomeço em Franca, trago uma voz interna, 
de fala mansa, característica das pessoas daqui: é a voz 
de minha avó paterna. Maria Messias, ou vó Celina, por 
aqui viveu até a mocidade e, depois de deixar a cidade 
natal, ao casar-se com meu avô, matava a saudade da 
terra e dos parentes por meio de cartas ditadas por ela 
para os ouvidos do filho mais velho, recém-alfabetizado: 
meu pai. Os dois na cozinha, meu pai lendo as notícias 
da família, minha avó sentindo o sal das lágrimas ao 
sorrir. Esse sorriso, essa voz, chegaram comigo. 
Foi também uma voz que me ofereceu outras histórias 
e prosa da boa, que me fez sentir, mais uma vez, 
emocionada, provocada e alegre (tudo ao mesmo 
tempo). A voz é de Carlos Assumpção, o poeta de 97 
anos que, com seu cajado e imagem de mestre, abriu as 
portas de sua casa para um café. Como não me sentir 
honrada de viver no mesmo tempo de Mestre Carlos? 
Ou pisar no mesmo chão por onde andou Carolina 
Maria de Jesus, e por onde anda hoje Isa do Rosário? 
A chegada a Franca e o contato com suas realidades 
durante esses dez meses em que estou aqui, me 
mostram que as respostas para tantas perguntas são 
como setas, nascidas de um mesmo eixo, apontadas 
para múltiplas direções. E o eixo que potencializa 
toda força e beleza desse caminho é a memória. 
A memória de Abdias Nascimento, poeta, escritor, 
dramaturgo, artista visual e ativista pan-africanista e seu 
legado, reverberam e pulsam por todos os cantos dessa 
cidade. No nome e na imagem pintada na Casa da Cultura 
e do Artista Francano, na inspiração de grupos teatrais, 
na grandeza do movimento hip hop, na resistência da 
Batalha das Minas, no Sarau Protesto, na presença dos 
coletivos e indivíduos que, desde a minha chegada, 
me recebem, me acolhem e me provocam a questionar 
como de fato pensar um Sesc para todas as pessoas. 
Tenho escutado por onde passo: “que bom que 
vocês chegaram!”, “esperamos por vocês há 
anos!”, “que alegria ter um Sesc em Franca!”. 
Ser recebida dessa forma na cidade em que o 
acolhimento é marca registrada me faz constatar 
que a maior alegria por ter chegado a Franca 
é nossa, e me pego muitas vezes pensando: 
o Sesc é uma instituição de sorte! 
Franca tem sido um poderoso reencontro e uma grata 
surpresa. A cidade, já conhecida como capital do calçado, 
do café e do basquete, agora também será a cidade do 
Sesc. E com o Sesc, peço licença para realizar um trabalho 
que reverencie a memória da cidade, ao passo que 
registra no presente uma carta escrita a muitas mãos, 
endereçada a um futuro acessível, plural e desperto. 
Sim, o Sesc é uma instituição de sorte. 
Camila Machado é educadora, gestora 
cultural e gerente do Sesc Franca. 
e | 82 
P.S.
DEZEMBRO 
2024
CONHEÇA O SESC FRANCA
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VENDA PROIBIDA
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	17
	18ações no campo da 
saúde sexual, para além da esfera 
biológica, pressupõe a valorização e 
o respeito à diversidade de corpos e 
expressões. O contato com outras 
culturas, manifestações artísticas 
e discussões sobre diferentes 
realidades possíveis permite que 
o público possa problematizar e 
experienciar novas concepções 
sociais de saúde. O universo de 
ações propostas pelo projeto 
inclui espaços dialógicos que 
compreendem ciclos de vida e 
diversidades, discutindo, além disso, 
intersecções sociais e seus impactos 
sobre a saúde geral e sexual”, afirma 
Teresa Maria da Ponte Gutierrez, 
assistente na Gerência de Saúde e 
Odontologia do Sesc São Paulo. 
Estão entre os destaques da 
programação, no Sesc Carmo, o 
bate-papo Potência, Resistência e 
Sensibilidade nas Ações Culturais 
em Saúde, que reúne, no dia 2/12, 
André Mesquita, curador do Masp, 
Ronaldo Serruya, ator e dramaturgo, 
e Marina Vergueiro, cinepoeta e 
jornalista, para falar sobre arte, 
comunicação e diversidades. No 
dia 3/12, o Sesc Avenida Paulista 
recebe o projeto Day With (Out) 
Art com o tema “Red Reminds Me”, 
com performance de Pepê Pota 
Marginal, e exibição de vídeos sobre 
o espectro emocional de viver 
com HIV nos dias de hoje, além 
do bate-papo Memórias de Aids. 
E, no Sesc 24 de Maio, Gretta Starr 
e Silvetty Montila se reúnem, em 
3/12, para o bate-papo Memórias 
de São Paulo: A Arte Transformista 
na Resposta à Epidemia de HIV/Aids. 
Confira a programação completa 
em: sescsp.org.br/contato
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DOSSIÊ
Já está disponível, gratuitamente, 
na plataforma de educação a 
distância do Sesc Digital o curso 
Dispositivo de Racialidade, com 
a filósofa, ativista antirracista 
e feminista Sueli Carneiro. As 
dinâmicas das relações raciais 
no Brasil são amplificadas 
por Sueli que, ao se basear 
no conceito de “dispositivo”, 
formulado por Michel Foucault 
(1926-1984), desenvolve uma 
análise sobre a existência de 
um mecanismo que configura a 
racialidade como um domínio. 
Para representar diferentes 
modalidades de resistência, 
ou seja, as vozes insubmissas 
que ousaram enfrentar os 
processos de assujeitamentos do 
dispositivo, Sueli convoca seus 
gigantes: Edson Cardoso, Sônia 
Nascimento, Fátima Oliveira e 
Arnaldo Xavier, cujos trechos dos 
testemunhos presentes na obra 
foram lidos no EAD pelos atores 
Thomás Aquino, Grace Passô, 
Naloana Costa e Jhonas Araújo, 
respectivamente. Inscreva-se 
em sescsp.org.br/ead
VOZES INSUBMISSAS
A mostra Revista E – 30 Anos em Perspectiva faz uma homenagem 
às três décadas da publicação gratuita do Sesc São Paulo, dedicada 
à mediação cultural e ao diálogo do Sesc com seus públicos. Em 
exposição no Sesc Memórias, capas ampliadas revelam os temas 
que o Sesc destacou ao longo dos anos, em sintonia com contextos 
institucionais e sociais. A mostra também apresenta a evolução 
gráfica e editorial da revista, incluindo o período em que circulou 
apenas online, durante a pandemia. Para visitar, o acesso ao espaço 
é feito via agendamento prévio por sescmemorias@sescsp.org.br. 
O Sesc Memórias atende o público de segunda a sexta, das 10h 
às 19h, no seguinte endereço: Rua Doutor Plínio Barreto, 285, 3º 
andar, Bela Vista. Saiba mais: sescsp.org.br/sescmemorias
Memórias em exposição
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Há 34 anos, o Sesc Carmo realiza 
o projeto Centro em Concerto, 
promovendo apresentações e 
ações formativas voltadas à música 
de concerto em várias estéticas. 
Com curadoria do jornalista Felipe 
Brito, a edição deste ano destaca 
as memórias negras da cidade, 
unindo música de concerto às 
tradições da negritude, como 
samba, terreiros, gospel e canto. 
No encerramento, dia 3/12, às 
13h, haverá apresentação da 
Cantata para Geraldo Filme em 
Quatro Movimentos, na Igreja Santa 
Cruz das Almas dos Enforcados. 
Em 4/12, às 18h, um bate-papo 
com Anna Maria Kieffer, Camila 
Fresca e Felipe Brito marca o 
lançamento da série Vozes de São 
Paulo no Sesc Digital. Produzida na 
edição do Centro em Concerto de 
2022, a série reúne sonoridades 
e diversidade cultural da cidade, 
desde sua formação inicial até o 
século 21. Assista em sesc.digital
TRADIÇÕES DA NEGRITUDE EM CONCERTO
Na programação deste ano, o projeto Centro em Concerto 
une música clássica às sonoridades afrodiaspóricas.
A filósofa Sueli Carneiro ministra 
o curso gratuito Dispositivo 
de Racialidade, disponível na 
plataforma EAD do Sesc.
e | 12 
DOSSIÊ
A 36ª edição do Troféu HQMIX, reconhecido como 
o “Oscar dos Quadrinhos” no Brasil, celebra os 
principais trabalhos de HQs, cartuns, charges 
e artes gráficas produzidos no país. A cada ano 
são escolhidos, por meio de votação, os que mais 
se destacaram entre as várias categorias que 
compõem a premiação. A estatueta desta edição 
homenageia a personagem Muriel, da cartunista 
Laerte, simbolizando também a transição de 
gênero que conecta a personagem à autora. 
Outros nomes da produção de personagens sob a 
perspectiva LGBTQIA+, Henrique Magalhães e Anita 
Costa Prado, reforçam o coro das homenagens. A 
cerimônia de entrega dos troféus será realizada no 
Teatro Raul Cortez, do Sesc 14 Bis, no dia 11/12, 
às 19h. Saiba mais: sescsp.org.br/14bis
E o troféu vai para...
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O pensamento sociológico e 
literário brasileiro pode ser 
dividido entre antes e depois das 
contribuições de Antonio Candido 
(1918-2017). Autor de obras 
fundamentais como Os Parceiros 
do Rio Bonito (1964) e Formação da 
Literatura Brasileira (1959), Candido 
defendeu, ao longo da vida, que 
o acesso à literatura é um direito 
universal e essencial à formação 
integral do ser humano. Para além 
das salas de aula e das produções 
acadêmicas, as memórias e afetos 
de um dos mais importantes 
intelectuais brasileiros foram 
evidenciadas no documentário 
O avô na sala de estar: A prosa 
leve de Antonio Candido (2024), 
dirigido por Marcelo Machado 
e Fabiana Werneck. As cenas 
foram captadas pela jornalista e 
neta de Antonio Candido, Maria 
Clara Vergueiro, durante quatro 
almoços na casa do mestre. No 
contexto singelo do cotidiano, a 
intimidade da relação próxima 
entre avô e neta revela outro 
lado desse personagem singular. 
Assista em sesctv.org.br/doc
ENCONTRO DE GERAÇÕES
No documentário O avô na sala de estar: A prosa leve de Antonio Candido (2024), a jornalista Maria Clara Vergueiro, 
neta do sociólogo, professor e crítico literário, mostra outras nuances do cotidiano do mestre.
 13 | e 
DOSSIÊ
Pessoas que trabalham 
ou se aposentaram em 
empresas do comércio 
de bens, serviços ou 
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Neste curso online e gratuito, a 
filósofa e escritora discute temas 
como epistemicídio, ativismo 
negro e educação a partir do 
conceito de “dispositivo”, de 
Michel Foucault.
Participação de:
Grace Passô
Jhonas Araújo
Naloana Lima Costa
Thomás Aquino
Chama acesa
Expoente da cena contemporânea, a dramaturga e diretora 
peruana Mariana de Althaus acende a fagulha da esperança 
e convoca o público a repensar suas ações no mundo
POR MARIA JÚLIA LLEDÓ 
FOTOS ADRIANA VICHI
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o cenário, folhas secas, uma mesa e um sofá 
ao redor do palco. O cheiro de eucalipto, em 
todo teatro, traz o público a uma imersão 
numa “floresta”. Neste ambiente, zona rural 
peruana, está a casa onde moram avó, mãe e 
filha que, em silêncio, queimam por dentro casos de abusos 
que vivenciaram. Por fora, acompanham, assustadas, 
pela janela, floresta e animais incendiados de maneira 
criminosa. Em Quemar el bosque contigo adentro [Queimar 
o bosque com você dentro], peça escrita e dirigida pela 
peruana Mariana de Althaus, uma das principais vozes do 
teatro ibero-americano da contemporaneidade, a violência 
começa com uma simples fagulha, a qual deixamos escapar, 
desatentos. Apresentado na sétima edição do MIRADA – 
Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas, realizado em 
setembro, no Sesc Santos, que neste ano homenageou o Peru, 
Quemar el bosque contigo adentro e o segundo espetáculo 
de Althaus, levado ao festival La vida en otros planetas [A 
vida em outros planetas], trouxeram algo em comum. 
Ambas as peças tocaram em feridas ainda tão presentes: a 
violência contra os corpos mais vulneráveis – mulheres, 
crianças, fauna, flora – e as injustiças sociais contra 
professores e alunos de escolas públicas em zonas rurais, 
no caso de La vida en otros planetas. No entanto, a diretora 
e dramaturga desdenha a resignação, e convoca o público 
ao exercício de empatia para a realização de uma mudança 
a partir desse novo olhar para o outro. “Gostaria que as 
minhas obras levassem os espectadores a questionar seu 
papel em assuntos políticos e sociais que os afetam, sem 
deixar de lado o prazer, a celebração da vida e aquilo que os 
une, sem perder o sentido do humor, que é o que permite 
nos aproximarmos de nossas feridas”, disse Althaus. 
Também faz parte da obra de Mariana de Althaus, que 
em junho completou 50 anos, uma revisão histórica do 
autoritarismo, da violência e de conflitos no país natal. 
Ponto este que converge com o tema de outros encenadores 
ibero-americanos, debruçados sobre uma crítica à história 
oficial que, por séculos, excluiu uma diversidade de 
protagonistas e narrativas. “Creio que o teatro seja um 
lugar que chama essas histórias. Por isso, acredito que 
também vamos ao teatro para recordar, para não voltar a 
cometer os erros do passado, para nos perguntar o que há 
no passado que segue acontecendo; o que no passado nos 
informa sobre o nosso presente e que não conseguimos 
ver. Às vezes, nos vemos mais refletidos pelo passado, 
que por um espelho aqui, próximo”, observa a diretora. 
Nesta Entrevista, Mariana de Althaus fala sobre seu 
processo criativo, as motivações que transpõe para 
suas histórias encenadas no palco, de que forma 
o teatro testemunhal aproxima-se ainda mais do 
público, e como o humor pode disparar gatilhos. 
e | 16 
entrevista
O teatro de Mariana de Althaus 
convoca a esperança em tempos 
de desalento mundial.
Você já escreveu 26 peças, das quais dirigiu 20, 
e transita entre o documental, o testemunhal 
e o ficcional. Recentemente, adaptou uma 
ficção, A gaivota, de Anton Tchekhov. O que lhe 
atrai na escolha desses diferentes gêneros? 
Na verdade, a maior parte das obras que já escrevi são 
ficções. Eu comecei pela ficção. Somente escrevi quatro 
obras de teatro testemunhal e esta – La vida en otros 
planetas [A vida em outros planetas] –, que é documental. 
Quanto ao teatro testemunhal, comecei a abordá-lo 
há 15 anos, mas alterno: escrevo uma obra de ficção, 
depois uma testemunhal. Escrevi também uma obra de 
autoficção, depois da pandemia, na qual a personagem 
é uma dramaturga, chama-se Mariana, e está em crise. 
E em 2024, estou fazendo uma versão própria de A gaivota, 
de Tchekhov. Essa é a primeira vez que adapto um texto 
clássico, ou parto de um texto clássico para criar algo 
próprio sobre meu país, sobre minha comunidade, sobre o 
mundo onde vivo. Então, essa é a primeira vez que monto 
uma obra de teatro clássica, mas com minhas palavras. 
Inclusive, tem outro título [Detrás ruge el lago, e em 
português, Atrás ruge o lago]. Antes, eu fiz uma versão de 
Os Irmãos Karamazov, de Dostoiévski, mas era um romance. 
Na sua opinião, o teatro testemunhal 
chega mais próximo ao público? 
O testemunhal tem uma particularidade. Quando os atores 
e atrizes estão no palco contando suas histórias, sem a 
máscara da ficção, enfrentam o pudor, a vergonha, o medo 
e isso é reconhecido pelo público. Assim, se estabelece 
uma conexão muito mais direta, sem intermediários, 
com a história. Como quando vamos ver uma obra 
de ficção, de alguma maneira, estamos sentados nas 
poltronas, protegidos, porque sabemos que é mentira 
aquilo que está acontecendo em cena. E assim, ficamos 
tranquilos. Mas quando dizem no palco: “Isso não é 
mentira. Aconteceu conosco”, essa capa que nos protegia, 
que nos abrigava, cai e ficamos nus diante do que se 
apresenta. Aí se estabelece uma comunicação muito mais 
direta e forte, e se produz o efeito do espelho com mais 
intensidade. Ou seja, se eu conto no palco algo pessoal, 
com generosidade, sabendo que é algo universal, o público 
imediatamente pensa: “Comigo acontece o mesmo”; “Eu 
também me sinto assim”. Então, dá-se um diálogo intenso. 
Como é seu processo criativo: a escrita vem 
acompanhada pelas cenas que você já imagina 
no palco? Porque, na maioria das vezes, você 
escreve e dirige seus próprios espetáculos. 
Sim. Eu sempre imagino os corpos no palco em uma 
situação de conflito. E essa imagem me leva a escrever. 
Primeiro, escrevo várias versões do texto sozinha, às vezes 
quando faço teatro documental, escrevo paralelamente às 
entrevistas que faço com os artistas que estarão na obra. 
Então, esse material serve para que eu escreva. Chego ao 
primeiro dia de ensaio com uma boa versão, mas que na 
verdade é uma desculpa para começar outra etapa, que é 
a mais interessante: como levar essas palavras ao palco e 
como convertê-las num espetáculo? Aí sim, o texto vai se 
transformando conforme o que vai acontecendo com os 
dispositivos cênicos que encontramos: as necessidades do 
grupo de atores, as minhas novas ideias ou nossas novas 
ideias. Com isso, o texto que chega ao primeiro dia de 
ensaio é muito diferente daquele que escrevi em casa. 
Chego ao primeiro dia de ensaio com uma boa 
versão, mas que na verdade é uma desculpa 
para começar outra etapa, que é a mais 
interessante: como levar essas palavras ao 
palco e como convertê-las num espetáculo? 
e | 18 
entrevista
Na sétima edição do MIRADA, três ramos deram 
suporte à pesquisa curatorial desenvolvida para 
compor a programação: o sonho, a floresta e a 
esperança. Gostaria que falasse da dimensão 
do sonho e da esperança, que estão presentes 
em seus espetáculos, principalmente em A vida 
em outros planetas, ao trazer a resistência e 
contribuição dos professores de escolas rurais 
peruanas para milhares de jovens. Como você 
chegou até essas histórias e de que forma 
pensou em adaptá-las para o teatro? 
Acredito que A vida em outros planetas conta a história 
da possibilidade de sonhar. Porque no Peru e, imagino 
que, em muitos lugares da América Latina, há muitos 
meninos e meninas sem acesso à educação de qualidade e 
que não têm, portanto, sequer a possibilidade de sonhar 
com uma vida melhor que a de seus pais e avós. E são 
esses professores os protagonistas dessa obra,que dão 
a essas crianças a possibilidade de se desenvolverem de 
outra maneira e sair da pobreza. Portanto, de alguma 
maneira, o espetáculo conta a história de vários sonhos. 
Não se sabe se eles serão concretizados, mas ter a 
possibilidade de sonhar em nosso país é um privilégio. 
Tive acesso a essas histórias porque li um livro que se 
chama Desde el corazón de la educación rural [Desde o 
coração da educação rural (2023)], de Daniela Rotalde, uma 
peruana que reuniu histórias de diferentes professoras 
de um programa chamado Ensina Peru, que consiste em 
que egressos de universidades peruanas passem dois 
anos ensinando em escolas rurais abandonadas pelo 
Estado. São eles que dão esperança a essas crianças, 
dando-lhes ferramentas para enfrentar o mundo, mas 
também, para que creiam nelas mesmas. Essas histórias 
me sacudiram e me deram muita esperança, mas também, 
muita raiva, que são os dois pré-requisitos de uma 
história para que eu possa contá-la. Também tive acesso 
ao depoimento de outros professores e professoras. 
Reuni tudo isso e decidi criar uma obra de teatro. 
Além de todo esse material, neste espetáculo, 
os atores também compartilham suas 
próprias experiências em escolas públicas, 
correto? Como foi essa contribuição? 
Sim. Decidimos que os atores e atrizes que interpretariam 
esses professores tinham que ter passado pela experiência 
de alunos de escolas públicas, inclusive, de escolas rurais. 
Então, eles têm, em cena, a coragem e a generosidade de 
compartilhar episódios sobre seus colégios, mas também as 
dificuldades que seus pais tiveram, por exemplo, em escolas 
rurais, ou em escolas públicas muito precárias. Além disso, 
contam como seguiram adiante apesar de maus professores 
O teatro é um espaço 
privilegiado para 
pensarmos enquanto 
comunidade, mas 
também para pensar 
em nossas feridas 
esquecidas ou ocultas 
ou, talvez, graças a um professor que olhou para eles, os 
valorizou e lhes deu as ferramentas para seguir adiante. 
Esse potencial de transformação da escola que 
vemos na peça é essencial para o desenvolvimento 
do pensamento crítico, principalmente em 
tempos de disseminação de fake news e discursos 
de ódio. Como analisa esse papel da escola hoje? 
A escola tanto pode lhe dar a possibilidade de desenvolver 
seus valores e qualidades, como também, mutilar esses 
aspectos. A escola também é esse espaço onde, de repente, 
é possível crescer valorizando nossas especificidades e 
convertê-las em ferramentas para uma mudança, e para o 
pensamento crítico. Há uma educação tradicional muito 
vertical que põe o professor acima dos alunos, levando-os a 
uma ordem, na sala de aula, por meio de métodos punitivos.
Uma verticalidade violenta, que inibe não somente os 
afetos, mas também a autoestima, a autovalorização e a 
possibilidade de se fazer perguntas sobre o mundo, sobre o 
espaço educativo, sobre sua própria vida e sobre seu país. 
Apesar disso, eu acredito que a escola é esse lugar ideal 
para exercitar justamente esse músculo do pensamento 
crítico, para se fazer perguntas sobre o mundo. 
Essa capacidade de provocar reflexões foi uma das 
características que lhe encantou no fazer artístico? 
Sim, claro. Mas no teatro não vamos somente para 
refletir. Vamos para sonhar e, também, vamos para 
 19 | e 
entrevista
encontrar a nós mesmos. Desde o princípio, eu via 
dessa forma, e hoje, mais do que nunca, acredito que 
a maioria das coisas com as quais vivemos – celular, 
computador etc. –, e como está organizada a nossa vida, 
nos afastam de nós mesmos. De nosso mundo interior, 
de nossas próprias necessidades. E o teatro, que é um 
lugar onde vamos ver o outro, também é um espelho 
que nos permite olhar para nós mesmos. Nos aproximar 
dos demais e de si. E, também, nos permite sentir menos 
sozinhos, porque estamos sempre pensando que somos 
defeituosos, que somos os únicos que têm uma ferida, 
que sentimos dor e que somos diferentes. Até que, 
no teatro, nos damos conta de que há outras pessoas 
que sofrem, assim como você, e não necessariamente 
pelas mesmas razões. Isso também pode nos levar a 
refletir sobre como o mundo está nos configurando de 
uma maneira. Como essa ferida está sendo provocada 
por um contexto político e que não necessariamente 
é você essa peça que não funciona no sistema. 
Sobre o espetáculo Quemar el bosque contigo 
adentro [Queimar o bosque com você dentro], 
a violência de gênero e a violência contra a 
natureza dialogam. Como construiu esse paralelo 
entre esses dois tipos de violência, contra 
dois corpos tão distintos e tão similares? 
Essa é uma obra de ficção que escrevi ao longo de muitos 
anos, enquanto escrevia outras obras, e que foi ganhando 
forma. Comecei com a história de três mulheres: uma 
avó, uma mãe e uma neta que vivem em um espaço rural 
ameaçado pelas violências da natureza, mas também 
pelas violências de gênero. Três mulheres assediadas 
por diferentes tipos de perigo no seu entorno. Enquanto 
eu escrevia, começavam a aparecer os animais feridos, 
como um reflexo das próprias feridas das três mulheres. 
Então, a obra passou a ser não sobre violência de gênero, 
mas sobre as violências patriarcais que atingem todos 
os corpos vulneráveis. Quer seja o corpo das mulheres 
ou o corpo das crianças, quer seja o corpo dos animais 
ou da natureza. A natureza, como esse corpo vulnerável, 
sempre exposta às violências dos seres humanos. 
Outro tema também recorrente em sua 
carreira é revisão histórica. Seu espetáculo 
Ruído, por exemplo, foi montado no Brasil 
em 2022, e traz as suas memórias dos anos 
1980. Acredita que seja possível falar sobre o 
passado de forma que o público mais jovem 
possa se identificar com ele e se comparar? 
O teatro é uma arte que convoca todos os tempos. Se 
colocamos algo no palco, imediatamente sentimos os 
ecos do passado e do presente. O teatro é um espaço 
privilegiado para pensarmos enquanto comunidade, 
mas também para pensar em nossas feridas esquecidas 
ou ocultas. No cinema, talvez isso seja mais difícil, 
mas o teatro sempre nos leva a revisitar o passado e 
isso é fundamental, sobretudo, nesses tempos – creio 
que, ao menos, na Hispanoamérica, a memória esteja 
ameaçada. Temos medo da memória, medo de recordar os 
desaparecidos, os mortos, recordar que houve governos 
autoritários e que agora, voltamos a vê-los em alguns de 
nossos países. No Peru, por exemplo, temos muito medo 
e | 20 
entrevista
da memória. E o Estado persegue constantemente todos 
os espaços e oportunidades de memória. Há também 
um grande negacionismo sobre o que aconteceu. E isso 
acontece na Argentina, na Espanha… Creio que o teatro 
seja um lugar que chama essas histórias. Por isso, acredito 
que também vamos ao teatro para recordar, para não 
voltar a cometer os erros do passado, para nos perguntar 
o que há no passado que segue acontecendo; o que o 
passado nos informa sobre o nosso presente e que não 
conseguimos ver. Às vezes, nos vemos mais refletidos 
pelo passado, que por um espelho aqui, próximo. 
Essa revisão histórica, seja no teatro peruano 
ou no teatro brasileiro, é um dos muitos 
pontos de convergência que existem entre as 
produções dramatúrgicas desses países? 
Sim. Claro que há uma grande necessidade de memória em 
nossos países e o teatro acolhe essa necessidade. Vemos 
essa questão, constantemente, no teatro latino-americano. 
Histórias que se debruçam sobre o passado com a certeza 
e a intuição de que há ali uma informação criptografada 
que está nos faltando para compreendermos o que 
está acontecendo hoje. Por isso é fascinante o teatro, 
porque ele nunca vai deixar de refletir sobre todos 
os lados: sobre o hoje, mas também sobre o ontem. 
Na peça Ruído, o humor está presente – caso 
da personagem Augusta, mãe da família, que 
assiste à televisão compulsivamente e se 
sente orgulhosa por conseguir vinho argentino 
contrabandeado –, apesar de retratar, um cenário 
de escassez, violência e terrorismo. Como fazer 
uso do humor para tratar temassensíveis? 
Às vezes, o humor é a única forma de tocar a ferida. Essa 
obra, Ruído, que foi montada em São Paulo [pela Cia do 
Escombro], é a obra mais engraçada que eu já escrevi 
e, curiosamente, ela trata sobre o momento mais difícil 
da minha vida, enquanto contexto histórico. No meu 
caso, minha adolescência foi o período de conflito 
armado no Peru. Em Lima, havia carros-bomba, apagões, 
As atrizes Grapa 
Paola e Macla 
Yamada (à direita) 
interpretam 
avó e neta em 
Quemar el bosque 
contigo adentro, 
encenada no 
MIRADA - Festival 
Ibero-Americano 
de Artes Cênicas, 
em setembro 
deste ano, no 
Sesc Santos.
 21 | e 
entrevista
assassinatos e crise econômica. Minha adolescência se 
deu num entorno protegido e privilegiado, mas toda 
vez que íamos ao cinema, por exemplo, tínhamos que 
ensaiar como nos jogar ao chão caso houvesse bombas 
etc. Então, a forma que eu encontrei para falar desse 
momento foi por meio do humor. Talvez seja uma das obras 
mais engraçadas e, ao mesmo tempo, a mais dolorida. 
Ao longo das últimas décadas, como você avalia a 
participação e reconhecimento das mulheres nos 
campos da direção e da dramaturgia no Peru? 
Melhorou muito a participação das mulheres tanto na 
dramaturgia quanto na direção nos teatros de Lima, 
mas não sei se posso estender essa observação ao teatro 
feito em outras regiões do país. Em Lima, elevou a 
demanda por diretoras e dramaturgas. Algumas estão 
desenvolvendo uma carreira muito interessante e de 
maneira constante. No entanto, constatamos uma maioria 
masculina nesses postos, não pela falta de demanda e 
de oportunidades, mas por uma questão estrutural: em 
uma sociedade tão machista e patriarcal, ainda custa 
muito às mulheres acreditar que elas tenham uma voz 
importante para decidir ocupar postos de liderança. 
Por fim, o que você gostaria de provocar 
no público com suas peças? 
Talvez hoje, cada vez mais, tenhamos dificuldade para 
Acredito que também vamos ao teatro para recordar, 
para não voltar a cometer os erros do passado, 
para nos perguntar o que há no passado que segue 
acontecendo; o que o passado nos informa sobre 
o nosso presente e que não conseguimos ver
escutar o outro. Estamos fechados em nossa própria 
verdade, em nossas próprias certezas. É mais difícil dar 
esse passo, tentar entender aquele que pensa de forma 
diferente da gente. E o teatro é esse lugar privilegiado 
em que um vai escutar o “inimigo”, aquele que não pensa 
como você, aquele que, na rotina, você assinalaria como 
“o mau”, “o incorreto”, “o injusto” e, talvez, no teatro 
possamos perceber que somos mais parecidos com ele 
do que sequer imaginávamos. E isso pode ajudar a nos 
compreender melhor e, também, a compreender o mundo. 
Acredito que o teatro seja um espaço privilegiado para 
provocar perguntas na comunidade. Gostaria que as 
minhas obras levassem os espectadores a questionar 
seu papel em assuntos políticos e sociais que os afetam, 
sem deixar de lado o prazer, a celebração da vida e 
aquilo que os une, sem perder o senso de humor, que é 
o que permite nos aproximarmos de nossas feridas. 
Assista a trechos da entrevista 
com a dramaturga e diretora 
peruana Mariana de Althaus, 
realizada na sétima edição do 
MIRADA – Festival Ibero-Americano 
de Artes Cênicas, no Sesc Santos, 
em setembro de 2024. 
e | 22 
entrevista
/selosesc
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Relicário: Renato Teixeira
(ao vivo no Sesc 1978)
Disponível em 
O ícone da música caipira brasileira traz o espírito da vida no 
interior em registro histórico no palco do Sesc Consolação
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 AO ViVO NO SESC_1978
RENATO 
TEiXEiRA
entre 
colinas,
HISTÓRIA 
E ARTE
Conhecida como a capital do basquete e dos 
calçados, a cidade de Franca, no interior paulista, 
destaca-se como polo de resistência cultural 
POR LÚCIA NASCIMENTO 
FOTOS MATHEUS JOSÉ MARIA 
PRODUÇÃO ADAUTO PERIN E INDIARA DUARTE 
e | 24 
expansão
Moradora de Franca, Isa do Rosário foi convidada a expor suas obras na 
Bienal de Arte Contemporânea de Liverpool, no Reino Unido, em 2023.
 25 | e 
expansão
C
om quantas histórias se faz uma 
cidade? Se os caminhos percorridos 
forem geográficos, Franca é a cidade 
do noroeste paulista situada entre 
os rios Pardo e Grande, uma região 
de colinas. Se os caminhos forem 
ambientais, a imagem é de uma 
região de Cerrado, que também 
preserva áreas de Mata Atlântica. 
Se a história narrada for a oficial, 
aquela que aparece nos livros didáticos, Franca 
pode ser lembrada como a região que recebeu uma 
população grande vinda do estado de Minas Gerais, 
no início do século 19. Esse grupo de pessoas se 
estabeleceu em terras, hoje francanas, para formar 
uma vila que, em novembro de 1824, foi emancipada 
com o nome de Vila Franca do Imperador. 
A história pode ser contada também por um viés 
econômico, e nesse caso não daria para deixar de lado 
as plantações de café e, posteriormente, a indústria 
que transformou a cidade na capital nacional do 
calçado. Se a opção for uma narrativa gastronômica, 
não ficariam de fora o tradicional filé à JK e a salada 
Dakota. Ainda é possível descrever a cidade lembrando 
algumas de suas glórias, como o orgulho por ver 
seu time de basquete tantas vezes campeão, ou 
por ser o berço de um dos maiores artistas visuais 
brasileiros, Abdias Nascimento (1914-2011), que 
chegou a ser indicado ao Prêmio Nobel da Paz de 
2010 e que também foi deputado federal, senador e 
fundador do Teatro Experimental do Negro. Sempre 
há, no entanto, mais histórias a serem contadas. 
“Há, em Franca, um protagonismo grande da 
população negra, mesmo diante de todos os racismos 
e da desigualdade social”, afirma Rosicler Lemos 
da Silva, doutora em serviço social e professora da 
Universidade Estadual Paulista (Unesp), além de ter 
sido titular do Conselho Municipal de Participação e 
Desenvolvimento da Comunidade Negra de Franca 
(Comdecon). Para a pesquisadora, é fundamental 
olhar para esse protagonismo e conhecer uma história 
narrada por uma diversidade maior de pessoas, 
“aquelas que não estão nos livros ou que, quando 
aparecem, tantas vezes são lembradas apenas 
por terem sido escravizadas, e não como pessoas 
que também construíram a cidade, econômica e 
culturalmente”. Protagonistas que fazem de Franca, 
nos dias de hoje, um polo de resistência cultural. 
TAMBOR DENTRO DO PEITO 
Uma das vozes mais potentes da cidade é a do poeta 
Carlos de Assumpção, que hoje tem 97 anos. Nascido 
em Tietê, também no interior paulista, o poeta vive 
desde 1969 em Franca, onde escreveu grande parte de 
sua obra e cursou as faculdades de letras e direito na 
Unesp. Sua história com a poesia começou na infância, 
quando a mãe ensinava outras crianças a recitarem 
quadrinhas, que são poemas rimados de quatro 
versos, para animar as festividades da região. “Minha 
mãe tinha só o primário, mas lia muito e gostava de 
literatura. Ela ensaiava as quadrinhas em rodas com as 
crianças, e eu ficava assistindo. Achava aquilo bonito”, 
rememora Assumpção. Ele também se lembra de um 
poeta de Tietê, um repentista negro. “Ele parecia um 
Dom Quixote, e declamava poesia pelas ruas. Fazia 
crítica social, mas era analfabeto, não escrevia nada. 
Sei que esses dois fatos me entusiasmaram. Então, um 
dia, falei para minha mãe: vou ser poeta.” E, a partir 
daí, começou uma produção intensa, que alcança no 
poema “Protesto” um de seus pontos mais altos. Os 
versos iniciais anunciam: “Mesmo que voltem as costas 
/ Às minhas palavras de fogo / Não pararei de gritar 
/ Não pararei / Não pararei de gritar”. Para o poeta, 
o protesto é um modo de resistência e vice-versa. 
e | 26 
expansão
A VIDA AQUI TEM SENTIDO 
/ AQUI É QUE É MEU 
LUGAR / AGORA LIVRE DE 
ABISMO / LIVRE PÁSSARO 
A VOAR / AQUI TENHO 
VIDA PLENA / COM A 
BÊNÇÃO DOS ORIXÁS
Carlos de Assumpção, poeta
É de um dos versos desse poema que vem o título da 
antologia Não pararei de gritar, publicadaem 2020 
pela editora Companhia das Letras. No posfácio, 
Alberto Pucheu, poeta e professor de teoria literária 
da faculdade de letras da Universidade Federal do Rio 
de Janeiro (UFRJ), escreve que, “ao sinalizar uma de 
nossas faltas fundadoras e revelar a exclusão como 
estratégia de domínio colonizador, a poesia de Carlos 
de Assumpção se apresenta como uma fundação 
tardia do Brasil”. Em seus versos, narrativas que sempre 
ficaram à margem ganham protagonismo. Situações 
de racismo são escancaradas, e é impossível não ver 
as tentativas de apagamento a que ainda é submetido 
o povo negro. “Muita gente diz que não existe racismo 
aqui, mas a escravidão brasileira foi terrível. Como 
nós somos atacados, vamos nos defender. De que 
forma? Adquirindo cultura”, sentencia o poeta. 
Apesar da potência de sua escrita, o trabalho do 
poeta ainda é pouco divulgado no mundo editorial, no 
meio jornalístico e nos espaços de crítica. Esse fato, 
no entanto, nunca foi suficiente para fazê-lo parar, 
mesmo tendo vivido períodos em que se distanciou 
dos versos. Professor primário nos anos de juventude, 
Carlos de Assumpção chegou a morar por alguns 
anos em São Paulo, mas nunca se deu muito bem 
com a capital. Foi assim que, no início dos anos 1960, 
mudou-se para uma cidade próxima de Franca, na 
barranca do Rio Grande. Contudo, ali, “não escrevi uma 
poesia sequer”, rememora. “Foi só em 1969, quando 
me mudei de vez para Franca, que a poesia despertou 
de novo.” O feito se deve a um desses encontros 
fortuitos da vida: “Encontrei um amigo que era muito 
exigente. Mostrei uma poesia e ele acabou comigo”. 
Foi quando o poeta, que nunca se deu por vencido, 
decidiu lapidar o poema: mudou o começo, repensou 
o final. Quando mostrou novamente seus escritos ao 
amigo, a reação foi completamente diferente, houve 
um maravilhamento. “Aí despertou tudo de novo”. 
Aos 97 anos, o poeta Carlos de Assumpção celebra 
os versos escritos ao longo de 55 anos em Franca.
 27 | e 
expansão
SARAU PROTESTO 
Se Franca foi a responsável pela continuidade da 
poesia de Carlos de Assumpção, foi também na cidade 
que ele idealizou o Sarau Protesto. Tudo começou 
com uma apresentação na Casa da Cultura e do 
Artista Francano, há cerca de dez anos. Assumpção 
e outros artistas da cidade convidaram um grupo 
de Ribeirão Preto para realizarem um sarau em que 
seriam declamadas poesias musicadas de Carlos de 
Assumpção e de outros artistas negros. Até aquele 
momento, as apresentações que faziam eram 
chamadas apenas de “sarau”, então o evento também 
marcou a escolha de um nome para o projeto: todos os 
participantes puderam votar na palavra que achassem 
mais interessante. “No começo, eu não queria que 
o sarau se chamasse ‘protesto’, mas fui vencido na 
votação. O povo brasileiro tem medo dessa palavra 
protesto, acham que é muito forte. Porém, é possível 
protestar por muitas coisas. Nós protestamos por dias 
melhores, por amizade, por amor, por fraternidade. 
Esse é o nosso protesto”, afirma Assumpção. 
O Sarau reúne diversos artistas francanos, incluindo 
pessoas que foram alunas de Carlos de Assumpção 
quando ele ainda era professor primário, como o 
músico Don Antena, que teve aulas de caligrafia com 
o poeta, quando tinha cerca de dez anos. Depois da 
apresentação que marcou a nomeação do projeto, o 
grupo passou a se apresentar pelo menos uma vez 
por mês no espaço cultural, mas não só. “O poeta e 
os integrantes do sarau começaram a visitar várias 
escolas da cidade. Por meio de poemas, de música, 
de tambor, apresentam críticas sociais fortes, 
principalmente contra os racismos”, explica Rosicler 
Lemos da Silva, professora da Unesp. E não para por aí. 
Nessa década de existência, o Sarau Protesto já 
foi apresentado em diversas instituições. “Nós já 
fizemos uma edição para os moradores de rua. Foi 
bem interessante, eles puseram a melhor roupa, 
vieram todos arrumados”, lembra Assumpção. Se 
Franca fosse uma poesia, ela certamente seria 
assinada pelo poeta. Talvez seus versos dissessem: 
“A vida aqui tem sentido / Aqui é que é meu lugar / 
Agora livre de abismo / Livre pássaro a voar / Aqui 
tenho vida plena / Com a bênção dos orixás”, como 
dizem alguns dos versos de seu poema “Raízes”. 
BONECAS PRETAS 
Franca foi também a cidade escolhida pela artista e 
artesã Eveline de Souza. Nascida no Rio de Janeiro, 
ela chegou a Franca em 2015, quando o filho foi 
convidado a jogar num time de basquete local. Com 
o passar dos anos, o filho competiu em outros times, 
mudou de estado, mas Eveline de Souza permaneceu 
NOSSO TRABALHO ATUA NA ECONOMIA CRIATIVA, 
O QUE IMPULSIONA A ECONOMIA LOCAL. ASSIM, 
PROMOVE O FORTALECIMENTO DA COMUNIDADE 
PELAS TROCAS DE EXPERIÊNCIAS E SABERES.
Eveline de Souza, artesã
e | 28 
expansão
Francana de coração, a carioca Eveline de Souza tece outros sonhos e futuros em forma de bonecas Abayomi.
 29 | e 
expansão
na cidade. “Fui acolhida em Franca por uma família 
cujo filho também jogava basquete. Além de ser 
recebida pelo Comdecon, o Conselho Municipal de 
Participação e Desenvolvimento da Comunidade 
Negra de Franca. Eles formaram uma rede de apoio 
para mim. Tudo isso foi muito importante”, afirma. 
Hoje, é reconhecida na cidade por suas bonecas 
Abayomi, símbolo de resistência e ancestralidade. 
“As Abayomis entraram na minha vida na década de 
1980. Eu era professora da rede estadual do Rio de 
Janeiro, e os professores recebiam treinamento para 
trabalhar com os alunos em oficinas de baixo custo. 
Em uma dessas oficinas, aprendi a fazer as Abayomis”, 
lembra. As bonecas pretas são feitas de pano e a 
artesã lembra que elas foram criadas originalmente 
pela Lena Martins [artista maranhense nascida em 
1950], com quem aprendeu a moldá-las. Nas últimas 
décadas, as Abayomis passaram a ser associadas a 
uma lenda que remonta à história das mulheres negras 
escravizadas, mães que arrancavam retalhos de suas 
roupas para criar bonecas que seriam um acalanto 
para os filhos. Mas não há registros históricos sobre 
esse fato. “As bonecas Abayomi não são africanas, são 
brasileiras”, acredita a artesã. “Junto com as Abayomis 
que produzo, eu coloco uma cartinha, explicando que 
meu trabalho é uma releitura da criação da Lena, 
e que a história das bonecas feitas pelas mulheres 
que vinham escravizadas da África é uma lenda”. 
Se a lenda se apropria da criação artesanal de uma 
boneca que nasceu livre e a substitui pelo relato de 
uma boneca dos tempos da escravidão, o trabalho 
de Eveline de Souza caminha no sentido contrário. 
Para ela, a cultura preta propicia o pertencimento e 
ajuda na criação de uma identidade cultural na cidade. 
Afinal, promove a diversidade e a aceitação, desenvolve 
a resistência e a resiliência, e ajuda a combater 
desigualdades. Sem contar seu papel para a economia 
local. “Franca é uma cidade com alto potencial 
EU NÃO BORDO SOZINHA, BORDO COM 
OS ORIXÁS, SÃO ELES QUE ME GUIAM. 
ELES ME DIZEM O QUE FAZER, OS DESENHOS 
SÃO DAS VOZES QUE EU OUÇO.
Isa do Rosário, bordadeira, contadora de histórias e artista visual
e | 30 
expansão
econômico, que pode oferecer oportunidades. E nosso 
trabalho atua na economia criativa, o que impulsiona 
a economia local. Assim, promove o fortalecimento da 
comunidade pelas trocas de experiências e saberes.” 
Como o poeta Carlos de Assumpção, a artesã também 
acredita que a educação é instrumento-chave para 
a promoção de mudanças na sociedade. Por isso, seu 
trabalho envolve a realização de oficinas em escolas, nas 
universidades francanas e em Centros de Referência 
da Assistência Social (CRAS), onde ensina mais pessoas 
a produzirem suas próprias Abayomis, fomentando 
o reconhecimento de suas próprias histórias. 
BORDADOS E ORIXÁS 
O trabalho artístico da bordadeira, contadora de 
histórias e artista visual Isa do Rosário também 
tem relação profunda com a cidade de Franca. Há 
cerca de 12 anos, representantes do movimento 
negro convidaram a artista para fazer contaçõesde histórias afro-brasileiras na Casa da Cultura e 
do Artista Francano. A aproximação foi crescendo 
e, durante a pandemia de Covid-19, Rosário 
se mudou definitivamente para a cidade. 
Nascida em Batatais, no interior paulista, e bisneta 
de um angolano que veio escravizado para o Brasil, a 
artista recebe influências de toda a sua ancestralidade 
para a realização de seu trabalho. “Eu fui iniciada no 
bordado com cinco anos. Minha avó fazia tapetes, 
colchas, e eu cortava os retalhos para ela. Minha mãe 
falava para eu fazer igual. No começo, eu não queria 
saber, mas depois fui gostando. Na pandemia, voltei 
definitivamente para o bordado”, diz. Suas criações 
mesclam materiais, pinturas em carvão, montagens 
com bordado e muitos tons de verde e azul. Há também 
estrelas, uma ressignificação daquele dito que nos 
lembra que nossos mortos viraram corpos celestes. 
São muitos os protagonismos de Franca, cidade no interior do estado de São Paulo, com mais de 350 mil habitantes.
 31 | e 
Apesar de já ter exposto em centros culturais e escolas 
por todo o estado de São Paulo, o reconhecimento 
de sua arte veio com um convite para expor na Bienal 
de Arte Contemporânea de Liverpool, no Reino Unido, 
ano passado. Um dos trabalhos expostos recebe o 
título de Dança com a Morte no Atlântico. Nele, a 
artista representa a vida e a morte: um memorial 
para todos os que perderam suas vidas durante o 
tráfico transatlântico de pessoas escravizadas. Ela 
também expôs sua coleção Orixás, obras têxteis 
guiadas por conversas espirituais da artista. “Eu 
não bordo sozinha, bordo com os Orixás, são eles 
que me guiam”, afirma. “Eles me dizem o que 
fazer, os desenhos são das vozes que eu ouço.” 
PASSEIOS LITERÁRIOS 
Se a arte é uma das possibilidades mais interessantes 
para conhecer a cultura de um lugar, uni-la a passeios 
pelas ruas é um modo inovador de visitar a cidade. No 
primeiro passeio literário idealizado por José Lourenço 
Alves, que também foi presidente da Academia 
Francana de Letras (AFL) entre 2021 e 2023, o tema 
foi a obra e a vida da escritora Carolina Maria de 
Jesus (1914-1977), que na década de 1920 morou 
em Franca. “Os passeios literários passam por alguns 
locais da cidade contando a história, mas não só 
aquela narrada por quem nos colonizou: eles contam, 
também, a história da população preta e periférica”, 
explica Rosicler Lemos da Silva, professora da Unesp. 
Cada uma das mais de 20 edições do evento abordou 
obras de diferentes artistas, valorizando a cultura 
da cidade. “No começo, a gente procurou artistas 
francanas para declamar textos da Carolina Maria de 
Jesus”, lembra Alves. A iniciativa deu tão certo que as 
artistas passaram a se intitular As Carolinas e a realizar 
apresentações independentes dos passeios literários. 
“É interessante andar pelas ruas sabendo onde está 
pisando. Muitos francanos acabam descobrindo 
fatos que desconheciam”, afirma o idealizador. Afinal, 
apesar de seu viés literário, os passeios também 
exploram a arquitetura, o espaço, a história e as raízes 
migratórias da região. São retomadas importantes 
de todos os capítulos que compõem a história da 
cidade. Os passeios, assim, permitem o resgate de 
raízes que muitas vezes não são consideradas por uma 
narrativa oficial. “Esse é o ponto forte do trabalho e 
é, também, o que inspira outros artistas”, finaliza. 
É INTERESSANTE 
ANDAR PELAS RUAS 
SABENDO ONDE ESTÁ 
PISANDO. MUITOS 
FRANCANOS ACABAM 
DESCOBRINDO FATOS 
QUE DESCONHECIAM.
José Lourenço Alves, idealizador 
do Passeio Literário
e | 32 
expansão
O SESC EM FRANCA
A partir de 28 de novembro, o Sesc abre as 
portas na cidade, com uma programação 
diversa voltada para todos os públicos
A partir de uma arquitetura que 
privilegia os encontros, o Sesc 
Franca contará com os principais 
programas do Sesc São Paulo e terá 
capacidade para atender até 2,5 mil 
pessoas por dia. Na infraestrutura 
dessa que é a maior unidade do 
Sesc no interior paulista: piscinas, 
teatro (um dos maiores palcos 
do Sesc no Estado), quadras 
de areia, de campo, de grama e 
sintética, além de ginásio e sala 
de ginástica funcional. A unidade 
contará ainda com biblioteca, 
espaços expositivos; Espaço de 
Brincar, para bebês e crianças 
de até seis anos; e o Espaço de 
Tecnologias e Artes, que une 
laboratório e ateliê em atividades 
para públicos de todas as idades. 
“Ao entregar sua nova unidade na 
cidade de Franca, o Sesc reafirma 
o compromisso com a sociedade 
em promover o desenvolvimento 
integral dos indivíduos, tendo a 
educação como eixo transversal e 
permanente. A iniciativa apoia-se 
nas experiências acumuladas pela 
instituição ao longo de seus 78 
anos, voltadas à sua missão de 
buscar a melhoria da qualidade de 
vida dos trabalhadores do comércio 
de bens, serviços e turismo, seus 
familiares e da comunidade em 
geral. São esforços que se efetivam 
numa ampla programação com 
apresentações, cursos, encontros, 
vivências, entre outras propostas 
voltadas, essencialmente, ao 
exercício da cidadania”, afirma 
para ver no sesc / expansão
Luiz Deoclecio Massaro Galina, 
diretor do Sesc São Paulo. 
A programação de abertura, que 
acontece de 28 de novembro a 1º 
de dezembro, tem como destaque 
a exposição O Quilombismo: 
Documentos de uma Militância 
Pan-Africanista, que apresenta um 
panorama de obras e a trajetória 
do escritor, ator, dramaturgo, 
artista visual, político Abdias 
Nascimento. Além disso, a unidade 
receberá espetáculos musicais e 
cênicos e uma série de instalações 
e vivências que trazem para dentro 
do Sesc elementos do Cerrado, 
bioma predominante na região. 
FRANCA 
Inauguração 
Dia 28/11, a partir 
das 10h. Grátis.
Av. Doutor Ismael Alonso 
Y. Alonso, 3071. Jardim 
Piratininga II, Franca – SP 
sescsp.org.br/franca 
Maior unidade no interior paulista tem capacidade para atender até 2,5 mil pessoas por dia
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O olhar visionário de Tom Jobim, 
um dos criadores da Bossa Nova, e 
seu legado em defesa da natureza 
POR MANUELA FERREIRA
sinfonia 
VERDE
O 
compositor, arranjador, maestro, pianista 
e cantor Antônio Carlos Brasileiro de 
Almeida Jobim (1927-1994) viveu, por muito 
tempo, entre dois endereços. O primeiro 
deles, uma ampla casa no bairro Jardim 
Botânico, no Rio de Janeiro, estava nas imediações 
da estátua do Cristo Redentor, cercado de árvores e 
pássaros nativos da Mata Atlântica. Na residência, 
tocava piano de frente para um janelão, de onde via o 
jardim em que gostava de brincar com a filha caçula, 
Maria Luiza. No segundo domicílio, um apartamento na 
ilha de Manhattan, em Nova York, nos Estados Unidos, 
a natureza se fazia presente nas caminhadas que o 
artista realizava, com regularidade, pelo Central Park. 
Ambas moradas se tornaram emblemáticas em sua 
história pessoal e artística, e evidenciaram de onde partia 
a inspiração que permeou muitas de suas composições 
icônicas. Entre ipês amarelos, palmeiras-imperiais, 
embaúbas e samambaias, ou avistando as aves 
migratórias que pousam a cada mudança de estação 
no espaço verde nova-iorquino, Tom Jobim fez de 
sua obra uma vanguardista e sensível ode ao meio 
ambiente – temática que, três décadas após o seu 
falecimento, gera preocupações em todo o mundo. 
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bio
O maestro Tom Jobim e seu binóculos 
para observação dos pássaros, em sua 
casa no bairro Jardim Botânico, no 
Rio de Janeiro, em junho de 1980.
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bio
Uma síntese da postura pioneira do artista foi descrita 
pelo biógrafo e jornalista Ruy Castro no livro O Ouvidor 
do Brasil: 99 vezes Tom Jobim (Companhia das Letras, 2024). 
“Enquanto tantos de seus parceiros e contemporâneos 
foram reduzidos a referências nos livros de história, Tom 
parece fisicamente vivo e ativo. Mas sua preocupação 
com o meio ambiente, em termos de preservação e defesa 
de mares, matas e seres, que tantas incompreensões lhe 
rendeu, só há pouco entrou para a pauta nacional. Tom foi,antes de muitos, um ouvidor do Brasil, um ombudsman 
por conta própria. Ninguém o contratou ou escalou para 
isso, ao contrário – era um voluntário da pátria. E, não 
fosse ele um músico, ninguém mais equipado para ouvir 
o país, do pio do inhambu aos gritos da floresta sendo 
abatida de machado ou serra. Mas quantos outros músicos 
o seguiram nessa missão?”, questiona o escritor na crônica 
“O voluntário da pátria”, originalmente publicada no 
jornal Folha de S. Paulo e presente no livro recém-lançado. 
HARMONIAS NATURAIS 
A proximidade com a fauna brasileira esteve no centro, por 
exemplo, do processo criativo que resultou em alguns dos 
discos mais importantes da música brasileira, conforme 
explica o jornalista, pesquisador e escritor Rodrigo 
Faour, doutor em letras pela Pontifícia Universidade 
Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e autor de História 
da Música Popular Brasileira sem Preconceitos - Vol. 2 
(Record, 2022). “A preocupação ecológica persegue Tom 
Jobim desde os anos 1970, como é flagrante nos álbuns 
Matita Perê (1973), Urubu (1976) e o posterior Passarim 
(1987) – os três com nomes de pássaros. Nesse meio 
tempo, ele compôs o clássico ‘Águas de março’ no seu 
sítio na cidade de Poço Fundo (MG), considerada uma das 
canções mais belas de todos os tempos”, explica Faour. 
Lançada em 1972, “Águas de março” ganhou a versão 
definitiva ao lado de Elis Regina (1945-1982), no antológico 
álbum Elis & Tom (1974), “considerado pela crítica um 
dos dez melhores álbuns da MPB já gravados e cultuados 
mundialmente – era, por exemplo, o disco de cabeceira do 
cantor Tony Bennett (1926-2023)”, conta o pesquisador e 
jornalista. Com uma letra repleta de imagens sensoriais 
que versam sobre os constantes fluxos e renovações que 
a natureza provoca, ela se tornaria um dos marcos da 
carreira de Tom Jobim fora do país, amparada, sobretudo, 
na sua versão em inglês, também de autoria do artista. 
“A música brasileira no exterior, que só era conhecida 
por meia dúzia de canções e, principalmente, pela figura 
de Carmen Miranda (1909-1955), passou a inscrever 
seu nome na história, graças à Bossa Nova, tendo as 
obras de Tom Jobim à frente”, analisa Rodrigo Faour. 
MENINO DO RIO 
Tal chegada no mercado internacional se deu, primeiro, 
com “A felicidade” (1965), parceria com o poeta e compositor 
Vinicius de Moraes (1913-1980), da trilha sonora do filme 
Orfeu (1959) e gravada por Agostinho dos Santos (1932-1973). 
“O impulso definitivo aconteceu após a gravação do 
álbum Desafinado, de Stan Getz (1927-1991) e Charlie Byrd 
(1925-1999), e do concerto da turma da Bossa Nova no 
Carnegie Hall [casa de espetáculos], em Nova York, ambos 
em 1962. No ano seguinte, sai The composer of Desafinado 
plays…, o primeiro álbum solo de Tom, feito sob medida 
para o mercado americano. Ali, gravou ‘O amor em paz’, 
‘Água de beber’, ‘Vivo sonhando’, ‘O morro não tem vez’, 
‘Insensatez’, ‘Corcovado’, ‘Samba de uma nota só’, ‘Meditação’, 
‘Só danço samba’ e ‘Chega de saudade’”, detalha Faour. 
Antes de morar na casa do Jardim Botânico, o maestro 
viveu no bairro de Ipanema nos anos 1960, em um 
apartamento na Rua Nascimento Silva, número 107 – 
local que se tornou famoso na canção “Carta ao Tom 74”, 
composta por Vinicius de Moraes e Toquinho. Àquela 
altura, já era um artista de alma boêmia e reconhecido 
mundialmente. No início de 1964, sairia o single do LP 
que João Gilberto (1931-2019) e Stan Getz (com Tom, ao 
piano) gravaram juntos, trazendo Astrud Gilberto (1940-
2023) como vocalista. A escolhida? “Garota de Ipanema”, 
que em inglês foi intitulada “The girl from Ipanema”. 
“Foi um estouro tão grande que rendeu ao disco três 
indicações e um prêmio Grammy que abocanhou no mesmo 
ano do estouro mundial dos Beatles, sendo o único ano 
em que o jazz superou a música pop nesta premiação. 
Para se ter uma ideia da revolução, esta canção, até hoje, 
é a segunda mais regravada no mundo inteiro e uma 
das 100 mais ouvidas nos Estados Unidos em todos os 
tempos. Os grandes jazzistas de então, carentes de um 
novo compositor que pudessem ‘jazzificar’ as canções, 
viram em Tom um mundo a ser explorado”, afirma Faour. 
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O maestro, músico e compositor carioca 
cantou as belezas do Rio de Janeiro, 
da "menina que vem e que passa" pela 
orla de Ipanema, mas principalmente os 
pássaros e as árvores da Mata Atlântica.
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MEU SABIÁ 
Em 1967, veio a consagração definitiva de Tom e da própria 
música brasileira no exterior, com o álbum Francis Albert 
Sinatra & Antonio Carlos Jobim. “Frank Sinatra (1915-1998), 
então considerado o cantor mais popular do mundo, 
jamais havia feito um songbook de nenhum compositor. E 
eles ainda gravaram um novo álbum, com um lado inteiro 
só de músicas de Tom – Sinatra & Company, lançado em 
1971. Dez anos depois, até mesmo a primeira-dama do 
jazz, Ella Fitzgerald (1917-1996), também lhe prestaria um 
tributo no LP Ella abraça Jobim. Na fase que morou nos 
Estados Unidos, Tom renovou seu prestígio em álbuns 
como Wave (1967), trazendo canções como a faixa-título 
e ‘Triste’, além de ‘Stone Flower’ (1970), em que relia 
‘Sabiá’, dele com Chico Buarque”, esmiúça o escritor. 
Nos versos de “Sabiá”, consagrada em primeiro lugar no 
III Festival Internacional da Canção, de 1968, sentimentos 
como saudade e nostalgia, trazidos pelo exílio vivenciado 
por muitos brasileiros no período, ganham representação 
metafórica na figura do sabiá-laranjeira, ave típica 
da fauna brasileira, de gorjeio suave e melancólico. O 
canto dos pássaros era uma das maiores paixões do 
artista, que se definia como um ornitólogo amador. 
Na casa do Jardim Botânico, Tom Jobim podia avistar, 
enquanto tocava piano, espécies como bem-te-vi, 
tiê-sangue, sanhaço e cambacica. “O [compositor e 
maestro] Heitor Villa-Lobos (1887-1959), conhece muito 
passarinho também. Inclusive, nas obras dele, coisas 
sinfônicas, você escuta pássaros. E eu posso te dizer que 
passarinho ele estava imitando com a orquestra”, disse 
Tom Jobim, em depoimento no documentário Visões do 
Paraíso (1997), do cineasta Lírio Ferreira. “Tudo o que 
eu fiz foi em decorrência da Mata Atlântica, da floresta 
Atlântica. A Mata Atlântica é esse espaço onde a vida 
tem seu máximo de explosão (...) Sempre vivi no mato. O 
Rio de Janeiro era todo mato. Eu comecei a me apaixonar 
por essa coisa toda muito antes de conhecer palavras 
como ecologia (...) e eu fui no dicionário ver o que era 
ecologia”, declarou o compositor, no mesmo depoimento. 
Onde quer que estivesse, suas janelas só davam para 
o Brasil. Ao abri-las, o que ele enxergava eram os 
recônditos da Amazônia, as águas da Lagoa, o mar do 
Arpoador, as majestades de pedra dos Dois Irmãos, 
os pequenos habitantes cascudos da floresta, a chuva 
na roseira, os tico-ticos passeando no molhado. Sua 
música tentou nos tornar melhores como brasileiros e 
nos alertar para a vida que, por cumplicidade e omissão, 
estávamos permitindo que fosse destruída.
Ruy Castro, trecho de “Em permanente estado de assembleia”, no livro 
O ouvidor do Brasil: 99 vezes Tom Jobim (Companhia das Letras, 2024) 
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A BELEZA DOS ENCONTROS
Álbum Nana, Tom, Vinícius, indicado ao 22º Grammy 
Latino, é lançado em versão vinil pelo Selo Sesc
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Selo Sesc lança na versão vinil 
o álbum Nana, Tom, Vinícius, 
da cantora Nana Caymmi, que 
interpreta canções da dupla Tom 
Jobim e Vinicius de Moraes. O 
disco, que tem direção artística, 
violão e arranjos de Dori Caymmi, 
traz releituras de clássicos 
como “Eu sei que vou te amar” e 
“Canção do amor demais”, escritas 
pelos lendários compositores. 
O álbum também registra as 
interpretações da cantora para 
“Valsa de Eurídice”, de Vinicius, e 
“As praias desertas”, de Jobim. 
Indicado ao 22º Grammy Latino 
na categoria Álbum do Ano, a obra 
foi lançada em 2020 e marcou o 
retorno da cantora aos estúdios 
para gravar

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