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Resumo: A Escrita dos Surdos e a Educação Bilíngue
Este conteúdo explora a Língua Brasileira de Sinais (Libras) como a primeira língua dos surdos, as características de sua escrita em português como segunda língua, e os desafios enfrentados pela comunidade surda para acessar uma educação verdadeiramente bilíngue.
1. As Línguas de Sinais e a Escrita dos Surdos
· Línguas de Sinais (Ex: Libras): São línguas visuais-gestuais, articuladas por meio de gestos das mãos, face e corpo. Possuem um fluxo simultâneo, o que significa que um sinal não corresponde linearmente a uma palavra falada.
· Línguas Orais (Ex: Português): Possuem um fluxo linear e são captadas auditivamente e articuladas verbalmente.
· A Escrita do Surdo em Português:
· Textos de surdos em português frequentemente apresentam características que os distinguem de falantes nativos. Observa-se a ausência de elementos conectivos, problemas de pontuação e sintaxe que refletem a estrutura viso-espacial da Libras, em vez da estrutura oral-auditiva do português.
· Similaridade com Estrangeiros: O material argumenta que a relação do surdo brasileiro com a língua portuguesa escrita é similar à de um estrangeiro aprendendo português como segunda língua (L2). Ambos sofrem influência de sua língua materna na aquisição e uso da L2, resultando em "erros" que são, na verdade, transferências de estruturas linguísticas.
· Diferença Fundamental: Para o estrangeiro ouvinte, a L2 oral-auditiva é acessível. Para o surdo, que pensa e "fala" em uma língua viso-espacial (Libras), a L2 (Português) possui uma modalidade diferente (oral-auditiva), o que impõe obstáculos únicos na escrita e leitura. O surdo tende a "traduzir" a estrutura da Libras para o português, criando um "português librado".
· Proficiência é Possível: É possível que o surdo seja proficiente em Português escrito, mas isso exige metodologias de ensino diferenciadas, pautadas na experiência visual do surdo e que considerem a Libras como sua língua natural e o Português como L2.
2. Elementos Constituintes dos Sinais (Parâmetros)
Assim como as línguas orais têm fonemas, as línguas de sinais têm "parâmetros" que as constituem:
· Parâmetros Primários:
· Configuração das Mãos (CM): A forma que a(s) mão(s) assume(m) ao fazer o sinal.
· Ponto de Articulação (PA): O local no espaço ou no corpo onde o sinal é feito.
· Movimento (M): A presença ou ausência de movimento e seu tipo (ex: neutro, vai e vem).
· Parâmetros Secundários:
· Orientação/Direção das Mãos (OM): A direção para a qual as palmas ou dedos estão apontando.
· Região de Contato (RC): O toque da mão em alguma parte do corpo.
· Expressão Facial: Fundamental para a entonação e nuances de significado (análoga à voz humana).
· Empréstimos na Libras: A Libras também incorpora elementos de outras línguas:
· Inicialização: Uso da Configuração de Mão correspondente à primeira letra da palavra em Português (ex: sinal de "Brasil" começa com CM de 'B').
· Empréstimo de Itens Lexicais: Sinais com origem em outras Línguas de Sinais (ex: ASL, LSF).
· Empréstimos de Domínio Semântico: Adaptações devido à modalidade viso-espacial da Libras.
· Empréstimos de Ordem Fonética: Tentativa de representação visual de um som percebido (ex: "tchau").
3. Desafios para a Educação Bilíngue do Surdo
O acesso do surdo à Libras e a uma educação bilíngue (Libras como L1 e Português escrito como L2) enfrenta várias barreiras:
· Escola:
· Pressão do sistema educacional que não atende às necessidades de pessoas especiais.
· Falta de profissionais com conhecimento de Libras e das características dos estudantes surdos.
· Atividades convencionais sem adaptações curriculares e pedagógicas bilíngues.
· Ausência de surdos em cargos administrativos e conselhos.
· Professor (Ouvinte):
· Falta de formação acadêmica adequada em Libras e em metodologias para surdos.
· Alguns ainda priorizam a "fala" em detrimento da Libras.
· Capacitações em Libras muitas vezes ocorrem fora do contexto escolar e não consideram a cultura surda.
· Professor Surdo:
· Fundamental para que crianças surdas adquiram Libras desde cedo e se identifiquem com a comunidade surda.
· Número insuficiente de professores surdos e pouca cooperação com colegas ouvintes.
· Sua ausência impede a escola de ser um "locus" de aprendizagem da Libras e de difusão da cultura surda.
· Familiares:
· Muitos negligenciam o aprendizado da Libras devido ao luto inicial pela surdez.
· Busca incessante pela fala, desvalorização da Libras, pouca adoção da Libras em casa.
· Receio da convivência com a comunidade surda e envolvimento tardio em suas atividades culturais.
· Comunidade Surda:
· Distante do ambiente escolar e vice-versa.
· A escola é vista como um local de convivência com outros surdos, mas não como um espaço que favorece o aprendizado curricular via Libras.
· A comunidade surda é, paradoxalmente, o principal (e muitas vezes único) espaço onde os surdos têm livre acesso à Libras.
· Consequências: A inibição do aprendizado da Libras resulta em atraso escolar para o aluno surdo, pois ele não tem um meio para desenvolver plenamente sua competência linguística e social. A escola, que deveria ser um ambiente de estímulo, muitas vezes impede o desenvolvimento da Libras, mesmo com respaldo legal.

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