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ECOLOGIA VEGETAL AULA 5 Profª Letícia Estela Cavichiolo 2 CONVERSA INICIAL Biologia da conservação Após o estudo da forma como as espécies se comportam dentro de populações e comunidades, bem como dos processos de sucessão ecológica e da análise estatística da biodiversidade, vamos aprofundar os nossos conhecimentos para compreender e preservar essa biodiversidade. Para tanto, o presente texto encontra-se organizado nos seguintes temas e objetivos principais: • O valor da biodiversidade, com o objetivo de compreender modelos estatísticos para precificar o seu valor; • As ameaças e o decréscimo da biodiversidade, buscando compreender essa problemática atual; • As populações pequenas e fragmentadas, identificando os fatores que impactam esse tipo de ecossistema; • A conservação in-situ e ex-situ, buscando compreender as diferentes formas de preservação da natureza; • Áreas protegidas e unidades de conservação, buscando compreender os tipos de áreas protegidas, a sua classificação e os seus objetivos principais. TEMA 1 – VALOR DA BIODIVERSIDADE Em etapa anterior, aprendemos a compreender a diversidade ecológica de um ecossistema por meio de índices de biodiversidade e de dominância. Mas será que podemos estimar o valor da biodiversidade? Existem muitas formas de elaborar essa resposta, principalmente porque há muitas formas de interpretar o conceito de valor. Há quem só veja o valor de uma determinada commodity (como a soja), e por isso dá pouco valor à diversidade, ignorando até mesmo que aspectos como a frequência de chuvas e o controle de pragas dependem da biodiversidade. Há quem veja a biodiversidade como fonte de novos fármacos e fonte da cura para as mais difíceis enfermidades humanas, razão pela qual ela apresentaria valor altíssimo. Existem pesquisadores que propõem modelos estatísticos para precificar o valor da biodiversidade. Assim, seguindo uma lógica semelhante à do uso dos 3 índices de dominância e de diversidade ecológica, o estudo da valoração da biodiversidade estaria facilitado. Nesse contexto, Mendonça (2002, p. 1) afirma: Se a biodiversidade não pode ser medida, não há como formar decisões racionais no sentido de estabelecer o que deve ser preservado. Embora a valoração da biodiversidade se configure como uma etapa posterior a sua mensuração, existe a necessidade premente de valorar esse recurso, na medida em que, sem que isso ocorra, a análise de medidas que visem à conservação ecológica fica prejudicada, tendo em mente que cada qual carrega consigo ganhos esperados e perdas imediatas de bem-estar para a sociedade. Visando solucionar esse problema, os pesquisadores Montgomery, Pollack, Freemarck e White propuseram, em 1999, o trabalho “Precificando a biodiversidade” (original em inglês: “Pricing biodiversity”), no qual propõem um método de valoração da biodiversidade e de estimativa do preço para a sua proteção. Ao testar esse método para espécies brasileiras, Mendonça (2002, p. 10) concluiu que os gastos do governo com a preservação parecem estar muito abaixo do socialmente desejado. O autor também observou que as análises não levam em consideração os benefícios advindos da preservação, que repercutem tanto no curto como no longo prazo. Com o passar do tempo, surgiram outras propostas e métodos de análise. Uma das maneiras atuais de valorar a biodiversidade é por meio do desenvolvimento de técnicas de avaliação econômica dos serviços ecossistêmicos que ela fornece. Os serviços ecossistêmicos são benefícios que as pessoas obtêm dos ecossistemas naturais, como polinização, controle de pragas e doenças, regulação do clima e fornecimento de água limpa. Tais serviços podem ser quantificados e valorizados economicamente, permitindo uma melhor compreensão do seu impacto na economia e na sociedade. De acordo com um estudo de Strand et al., intitulado “Valoração espacialmente explícita dos serviços ecossistêmicos da Floresta Amazônica brasileira” (original em inglês: “Spatially explicit valuation of the Brazilian Amazon Forest’s Ecosystem Services”), o valor econômico gerado pela conservação da Amazônia pode chegar a incríveis US$737 por hectare, por ano. Muitos outros estudos, assim como este, apontam que as florestas em pé valem mais do que derrubadas, pois fornecem serviços ecossistêmicos que permitem a manutenção da vida, o fornecimento de água e alimentos e a regulação do clima para a humanidade. Isso significa que a preservação dos biomas e ecossistemas poderia gerar benefícios econômicos significativos, além 4 da venda de serviços ambientais para empresas e governos interessados em compensar as suas emissões de carbono e preservar a biodiversidade. Em entrevista à BBC News Brasil (2019), Sutton revelou como o custo dos serviços ecossistêmicos são calculados: "Se tivéssemos de substituir a polinização feita pelas abelhas por trabalho humano, para polinizar manualmente a lavoura, o custo seria US$ 200 bilhões por ano". Ele explicou que o valor da polinização é o custo que é evitado quando as abelhas fazem esse serviço para nós, gratuitamente. O pesquisador ainda complementou: "Nós concordamos, a natureza é infinitamente valiosa. Mas não a tratamos como tal. Estamos tratando a natureza como se o seu valor fosse zero." TEMA 2 – AMEAÇAS E DECRÉSCIMO DA BIODIVERSIDADE A economia humana, contexto no qual a equidade raramente é discutida, vem crescendo drasticamente. Com ela, crescem as taxas de perda de habitat e extinção de espécies. Desde o início do Antropoceno, a maioria dos habitats mais ricos em espécies do mundo, como florestas tropicais, foi destruída ou significativamente impactada. Esse cenário levou ao sexto e maior evento de extinção da história terrestre, coincidentemente o primeiro causado pela atividade humana. Estima-se que a taxa de extinção aumentou entre 100 e 1.000 vezes em relação aos níveis intrínsecos aos ecossistemas. Projeta-se que esse índice trágico aumente mais dez vezes antes do final deste século (Costanza et al., 2015, p. 13). É consenso que os fenômenos que mais provocam a perda da biodiversidade são a destruição e a alteração de habitats, a exploração de espécies nativas, a introdução de espécies exóticas, a poluição e mudanças ambientais globais. As razões para a perda da biodiversidade são as mais variadas. A Mata Atlântica, por exemplo, sofre desde o século XVI com o desmatamento para a exploração de recursos madeireiros, a agricultura e a agropecuária desordenadas. Segundo a WWF-Brasil, uma das principais organizações da sociedade civil brasileira, de natureza não-governamental, e com grande impacto no cenário mundial de preservação ambiental, a Mata Atlântica, que já foi o segundo maior bioma da América do Sul, se resume hoje a 7% de sua cobertura original. Ainda assim, esse bioma, atualmente distribuído ao longo de 17 estados brasileiros, ainda abriga uma biodiversidade invejável. 5 O cultivo da soja merece destaque no cenário de perda da biodiversidade no Brasil, uma vez que o seu plantio (de alto retorno no mercado internacional) vem sendo incentivado há décadas no bioma do Cerrado. Na última década, avança rapidamente sobre a Amazônia, com grau significativo de mecanização e uso de insumos químicos e agrotóxicos, após o esgotamento do solo pela atividade de pecuária bovina extensiva, atividade que desponta como principal causadora do desmatamento (IBAM, 2015). Segundo Brasil (2007), a substituição das florestas amazônicas por pastagens e plantio de soja pode ter um forte impacto sobre a ciclagem da água na região. Uma vez que a área foliar da “nova” vegetação é reduzida, a evapotranspiração cai drasticamente, o que pode ter efeitos desastrosos no regime de chuvas, uma vez que metade das chuvas da Amazônia são atribuídas à água recicladaatravés da floresta: A alteração no regime de chuvas deverá ser uma das principais responsáveis pela savanização de grande parte do bioma, prevista nas simulações dos efeitos do aquecimento global. Estima-se que para a manutenção do atual regime de chuvas seja necessário manter cerca de 70% da cobertura florestal original. (Brasil, 2007, p. 29) Vale salientar que, em 2019, ocorreu uma disparada de queimadas na Amazônia, o que provocou danos ambientais na região, poluiu o ar em todo o país e causou desgaste político para o governo, instalando uma crise que recebeu imensa atenção mundial. Já no Pantanal, dentre as ameaças à conservação da biodiversidade, destaca-se o desmatamento, que resulta em processos erosivos severos e deposição de sedimento nas depressões, o que acaba alterando os padrões de fluxo de água e regimes hidrológicos. Atualmente, somam-se à essas ameaças a caça, a invasão de espécies exóticas e a poluição resultante do uso de pesticidas nas áreas agrícolas localizadas ao longo das cabeceiras dos principais rios da planície (Brasil, 2007). Todo o território nacional sofre com diversos níveis de caça e/ou tráfico ilegal de espécies. O tráfico ilegal de animais silvestres é expressivo e tem contribuído para a morte de milhões de animais brasileiros, com a extinção de espécies e a consequente perda da biodiversidade. “As aves, por exemplo, são muito importantes na dispersão de sementes e de outras estruturas reprodutoras das plantas, o que contribui com a dispersão e a permanência da vegetação” (Prado; Malheiros, 2012, p. 1). 6 O tráfico animal é pouco combatido, por conta da falta de preocupação dos governantes com a fauna, da ineficiente fiscalização e da ignorância das leis e do saber ambiental por parte da população. Soma-se a essa problemática a liberação dos chamados clubes de caça. Desde 2019, o Brasil sofre com projetos sobre armas para caçadores e atiradores desportivos (CACs). Atualmente, por ser espécie exótica, invasora e com grande poder reprodutivo, adaptativo e predatório, apenas o javali tem a caça permitida no Brasil. Contudo, Brito (2021, p. 6) destaca que há inúmeros projetos de leis tramitando no Parlamento brasileiro, com o intuito de liberar a prática da caça. A autora destaca que é “de suma relevância a análise jurídica voltada para a preservação do meio ambiente e todos os seus recursos”. Esse assunto que causa divergências no meio jurídico, visto que hoje encontramos muitos apoiadores da liberação da caça, até mesmo como forma de lazer. Soma-se a esse desastroso contexto a existência de punições com penas brandas no ordenamento jurídico brasileiro. “Sendo assim, podemos afirmar que o Poder Público não possui meios capazes para o combate à caça e não tem sido eficaz na aplicabilidade de suas normas para inibir essa prática”, conclui Brito (2021, p. 6). TEMA 3 – POPULAÇÕES PEQUENAS E FRAGMENTADAS Diversas das ações humanas, como desmatamento desordenado e uso de fogo no manejo inadequado na agricultura, têm contribuído não apenas para a perda da biodiversidade, mas também para a fragmentação dos ecossistemas. Áreas geograficamente isoladas, como relictos de florestas circundados por pasto ou áreas urbanas, por exemplo, se comportam de modo semelhante a ilhas rodeadas pelo oceano. Nelas, a biodiversidade pode ser afetada. Ao estudar ilhas, os ecólogos Robert MacArthur e Edward O. Wilson propuseram a chamada teoria de ilhas (também conhecida como biogeografia de ilhas), para explicar ecologicamente a distribuição e a diversidade de espécies em áreas geograficamente isoladas. De acordo com essa teoria, a biodiversidade em uma ilha ou área isolada depende de vários fatores, incluindo a taxa de imigração de novas espécies para a área e a taxa de extinção das espécies existentes. A taxa de imigração é influenciada pela distância da área em relação a outras áreas onde as espécies podem ser encontradas, e também pela capacidade das espécies de colonizar 7 novas áreas. Já a taxa de extinção é influenciada pela competição entre espécies, pela disponibilidade de recursos e pelo tamanho da população. A teoria de ilhas é importante para o estudo da conservação da biodiversidade, porque fornece uma base teórica para entender como as áreas isoladas podem afetar a diversidade e a composição das espécies – por exemplo, para prever como a biodiversidade dessas áreas pode ser afetada pela perda de habitat e pelo isolamento geográfico. Atualmente, esse estudo abrange também as relações entre o número de espécies com o tamanho da área. Segundo Schulze, Beck e Müller-Hohenstein (2002, p. 556), as espécies autocóricas são mais afetadas quanto mais distantes forem os fragmentos. O tamanho dos fragmentos também é importante, uma vez que, quanto maior a área do fragmento, maior será o seu número de espécies. Essa é uma observação tão frequente em estudos da relação entre espécies e área que é popularmente conhecida como lei da ecologia. Drakare et al. (2006) relatam que o futuro da diversidade global está ligado ao número de espécies que uma área pode suportar. Os autores relatam que as espécies apresentam diferentes respostas à perda de habitat. Espécies maiores, que vivem em menores latitudes ou em florestas, por exemplo, parecem ser mais sensíveis à perda de área e à redução de habitat, de modo que um grande número de espécies acaba sendo ameaçado de extinção. Além disso, a teoria de ilhas e os estudos da relação espécie-área são úteis para informar a conservação e a restauração de habitats. Por exemplo, a teoria sugere que a conexão entre áreas de habitat pode aumentar a taxa de imigração de novas espécies para a área, reduzindo a taxa de extinção. Portanto, a restauração de corredores ecológicos entre fragmentos de habitat isolados pode ser uma estratégia eficaz para aumentar a diversidade e a resiliência da biodiversidade local. TEMA 4 – CONSERVAÇÃO IN-SITU E EX-SITU A conservação de vegetais acontece em diversos locais do mundo, passando por abordagens muito variadas. Os esforços para a conservação podem ser divididos entre conservação in situ e conservação ex situ, detalhados a seguir. Quando a conservação acontece por meio da preservação de ecossistemas e habitats naturais, ou por meio da manutenção e da recuperação 8 de populações viáveis de espécies em seus ambientes naturais, ela é chamada de conservação in situ. Esse termo também é empregado em referência a espécies domesticadas ou cultivadas, nos ambientes onde elas se adaptaram (José et al., 2019, p. 65). A implementação de áreas para a conservação e o cultivo de plantas em sistemas agroflorestais são exemplos de estratégias para conservação in situ (Costa de Oliveira, 2010, p. 77). Já a conservação ex situ é aquela em que a conservação dos componentes da diversidade biológica ocorre fora dos habitats naturais. São exemplos de conservação ex situ: bancos de germoplasma e esforços biotecnológicos, como cultivo in vitro e micropropagação (Costa de Oliveira, 2010, p. 77). Para a conservação in situ, destaque para as seguintes estratégias (Miller; Spoonman, 2009): • Estabelecimento de um sistema de áreas protegidas, desenhado para contemplar a preservação da diversidade biológica do país a longo prazo; • Desenvolvimento de um programa de pesquisa, para permitir o conhecimento da biodiversidade no país e de suas necessidades da conservação; • Monitoramento da biodiversidade brasileira, das espécies ameaçadas de extinção e das espécies invasoras, de modo contínuo; • Levantamento de atividades que resultem em erosão da biodiversidade, buscando meios para o seu controle; • Implementação de um sistema de incentivos, para auxiliar na conservação; • Manejo sustentável, para gestar os recursos naturais de forma sustentável, preservando a biodiversidade e garantindo o seu usono longo prazo; • Educação ambiental, para a conscientização da população sobre a importância da conservação da biodiversidade e a adoção de práticas sustentáveis; • Restauração de ecossistemas degradados, como florestas e manguezais, para reestruturar a biodiversidade e as suas funções ecossistêmicas; • Desenvolvimento de corredores ecológicos, permitindo a conexão de habitats naturais através da movimentação e da dispersão de espécies. 9 A conservação ex situ desponta como alternativa para diminuir a perda contínua de recursos genéticos. Essa perda pode decorrer de pressões de seleção artificial, destruição e fragmentação de habitats, além de mudanças climáticas. Nesse contexto, “a conservação ex situ torna-se uma estratégia importante de conservação, uma vez que resgata, conserva e disponibiliza o germoplasma para uso futuro, em ações de recuperação de habitats, reintroduções de espécies e em programas de melhoramento genético” (José et al., 2019, p. 66). São estratégias de conservação ex-situ: • Conservação de material genético em bancos de germosplasma e bancos de DNA, para preservar a diversidade genética; • Micropropagação, permitindo a propagação de plantas através de técnicas de cultura de tecidos (clonagem) e de sementes em laboratório; • Banco de sementes, colecionando sementes de plantas em risco de extinção e armazenando-as em locais seguros para preservação; • Criogenia, ou seja, armazenamento de material biológico em temperaturas extremamente baixas para posterior reprodução em massa; • Programas de reintrodução, que reintroduzem espécies extintas ou em risco de extinção em seus habitats de ocorrência natural; • Conservação de espécies ameaçadas através do cultivo em jardins botânicos e aquários; • Museus de história natural, armazenando espécimes e itens de importância científica para fins educativos e de preservação. É importante observar que nenhuma dessas estratégias pode responder, de maneira isolada, por conservação adequada. A conservação in situ e ex situ são complementares. Portanto, devem ser utilizadas em conjunto para o sucesso da conservação. TEMA 5 – ÁREAS PROTEGIDAS E UNIDADES DE CONSERVAÇÃO A concepção de conservação in situ da natureza pressupõe a existência de áreas preservadas, protegidas para esse fim. No Brasil, o Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC – Lei n. 9.985/2000) define e regulamenta as categorias de unidades de conservação nas instâncias federal, estadual e municipal. Elas podem ser subdivididas em dois grupos: de proteção integral (Quadro 1), que tem por objetivo principal a conservação da biodiversidade, e 10 áreas de uso sustentável (Quadro 2), que, ao permitir determinadas formas de utilização dos recursos naturais, apresentam o objetivo secundário de proteção da biodiversidade. Quadro 1 – Tipos de áreas de proteção integral Tipo Objetivo Estação Ecológica Realização de pesquisas científicas. Exceto com objetivo educacional, é proibida a visitação. Reserva Biológica Preservação integral da biota e demais atributos. Proibida a visitação, exceto com objetivo educacional Parque Nacional Permite atividades de educação ambiental, turismo ecológico e pesquisas científicas. Preserva ecossistemas de grande relevância ecológica e beleza cênica. Monumento Preservar sítios raros, singulares ou de grande beleza. Refúgio da vida silvestre Protege ambientes naturais que asseguram condições para existência ou reprodução de determinadas espécies. Fonte: elaborado por Cavichiolo, 2023, com base em Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC). As áreas de proteção integral incluem os parques nacionais, as reservas biológicas, as estações ecológicas, os monumentos naturais e os refúgios de vida silvestre (Quadro 1). Já as unidades de uso sustentável (Quadro 2) incluem a floresta nacional, as áreas de proteção ambiental, as áreas de relevante interesse ecológico, as reservas extrativistas, além de reservas de fauna, reservas de desenvolvimento sustentável e reservas particulares do patrimônio natural (RPPNs) (Rylands; Brandon, 2005, p. 31). Quadro 2 – Tipos de áreas de uso sustentável Tipo Objetivo Área de proteção ambiental (APA) Protegem extensas paisagens naturais, promovendo o desenvolvimento sustentável da região. As atividades econômicas são permitidas, mas devem ser realizadas de forma sustentável e com base em princípios de conservação ambiental. Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) RPPNs protegem áreas de interesse ecológico e paisagístico em propriedades privadas. Essas áreas são criadas pelos proprietários e são protegidas por lei. As atividades são limitadas, a fim de garantir a conservação dos recursos naturais e a preservação da biodiversidade. 11 Área de Relevante Interesse Ecológico (ARIE) Tem por objetivo principal proteger áreas (geralmente pequenas) que apresentam importância ecológica significativa, como nascentes de rios, áreas de recarga de aquíferos e habitats de espécies ameaçadas de extinção. Essas áreas são reguladas para garantir a conservação dos recursos naturais e a preservação da biodiversidade. Floresta Nacional (FLONA) Proteger as florestas nacionais, promovendo o uso sustentável e controlado dos recursos naturais, como a extração de madeira e a coleta de frutos e plantas. Reserva Extrativista (RESEX) Proteger as comunidades tradicionais que dependem de recursos naturais para a subsistência, como a pesca e a coleta de frutos e plantas. Essas reservas permitem o uso sustentável dos recursos naturais e a agricultura de subsistência, desde que não comprometam a integridade do ecossistema. Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Conciliar a conservação ambiental das populações tradicionais com o desenvolvimento sustentável. As atividades econômicas desenvolvidas ao longo de gerações, que são ligadas à exploração de recursos naturais, são permitidas desde que sejam realizadas de forma sustentável e com base em princípios de conservação ambiental. É permitida a pesquisa científica. Reserva de Fauna São áreas naturais com populações animais de espécies nativas, terrestres ou aquáticas, adequadas para estudos técnico- científicos sobre o manejo econômico sustentável de recursos faunísticos. Fonte: elaborado por Cavichiolo, 2023, com base em Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC). É um desafio preservar áreas significativas dos ecossistemas e biomas. Apesar desse destaque internacional, a bacia do Alto Rio Paraguai, por exemplo, tem apenas 2,5% de sua área oficialmente protegida sob a forma de unidades de conservação federais, estaduais e reservas particulares (Brasil, 2007, p.45). Outro desafio é proteger as áreas relevantes, do ponto de vista ambiental, localizadas nos dois biomas brasileiros mais povoados. Já as unidades de conservação da categoria “uso sustentável” encaram o desafio maior de definir o que pode ser utilizado, quem pode utilizá-lo e quanta utilização é sustentável. É urgente o desenvolvimento de políticas públicas para os biomas brasileiros. A ocupação desordenada da paisagem e o uso excessivo dos recursos naturais poderá trazer consequências ainda mais desastrosas, pois não somente a biodiversidade será afetada em sua composição, mas também os serviços advindos de seus ecossistemas. A ciclagem de nutrientes, a recarga 12 dos aquíferos e o fluxo das águas, por exemplo, são serviços ambientais que, uma vez afetados, comprometem a qualidade de vida das populações e a sustentabilidade das atividades econômicas e sociais em diversas regiões brasileiras. NA PRÁTICA Cite exemplos de unidades de conservação: uma área de proteção integral e uma área de uso sustentável do Brasil. FINALIZANDO Nesta etapa, estudamos as ameaças à biodiversidade, com foco na forma como a fragmentaçãode habitats se comporta nesse contexto. Seguimos aprofundando as formas de preservação in situ e ex situ, classificando os tipos de áreas de preservação permanente e de uso sustentável. Concluímos que é urgente desenvolver políticas públicas para os biomas brasileiros, uma vez que a ocupação desordenada da paisagem e do uso excessivo dos recursos naturais poderá trazer consequências desastrosas, tanto para a biodiversidade quanto para os serviços ecológicos advindos de seus ecossistemas. 13 REFERÊNCIAS BRASIL. Ministério do Meio Ambiente. Áreas Prioritárias para Conservação, Uso Sustentável e Repartição de Benefícios da Biodiversidade Brasileira: Atualização. Brasília: MMA, 2007. BRITO, E. V. Os limites jurídicos da caça e o comércio ilegal da fauna: análise crítica das atividades humanas que afetam a fauna silvestre brasileira. Monografia (Bacharel em Direito) – Centro Universitário de Brasília, Brasília, 2021. COSTA DE OLIVEIRA, R. L. Etnobotânica e plantas medicinais: estratégias de conservação. Revista de Biologia e Ciências da Terra, v. 10, n. 2, p. 76-82, 2010. COSTANZA, R. et al. An Introduction to Ecological Economics. Boca Raton: CRC Press.Taylor & Francis Group LLC, 2015. IBAM – Instituto Brasileiro de Administração Municipal. Caderno de estudo: bioma Amazônia e o desmatamento. Rio de Janeiro: IBAM, 2015. MENDONÇA, M. J. C. de. Texto para discussão n. 904: um estudo sobre valoração da biodiversidade. Rio de Janeiro: IPEA, 2002. MILLER, G. T.; SPOONMAN, S. E. Living in the Environment: Concepts, Connections, and Solutions. Boston: Cengage Learning, 2009. PRADO, L. A.; MALHEIROS, R. A perda da biodiversidade do cerrado goiano mediante o tráfico ilegal de fauna silvestre. CBGA, Goiânia, 2012. RYLANDS, A. B.; BRANDON, K. Unidades de conservação brasileiras. Megadiversidade, v. 1, n. 1, 2005. SCHULZE, E. D.; BECK, E.; MÜLLER-HOHENSTEIN, K. Plant Ecology. New York: Spinger, 2002. VASCONCELOS, M. R$ 7 trilhões por ano: os estudos que tentam calcular quanto a Amazônia, em pé, rende ao Brasil. BBC News Brasil, 23 nov. 2019. Disponível em: . Acesso em: 10 maio 2023.