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DIREITO CONSTITUCIONAL DIREITOS POLÍTICOS 1 DIREITOS POLÍTICOS DIREITO CONSTITUCIONAL DIREITOS POLÍTICOS 2 Sumário DIREITO CONSTITUCIONAL: DIREITOS POLÍTICOS ............................................................................................. 3 1. DIREITOS POLÍTICOS ...................................................................................................................................... 3 1.1 Direitos Políticos Positivos ....................................................................................................................... 4 1.2 Direitos Eleitorais Negativos .................................................................................................................... 8 1.3 Privação de Direitos Políticos ................................................................................................................ 12 1.4. Servidor Público e Exercício do Mandato Eletivo ................................................................................. 15 2. PARTIDOS POLÍTICOS ................................................................................................................................... 16 DIREITO CONSTITUCIONAL DIREITOS POLÍTICOS 3 DIREITO CONSTITUCIONAL: DIREITOS POLÍTICOS TODOS OS ARTIGOS CF/88 ⦁ Art. 14 a 17 ⦁ Art. 37, §4º ⦁ Art. 55, IV ⦁ Art. 62, §1º, “a” ⦁ Art. 68, §1º, II ⦁ Art. 85, III ARTIGOS MAIS IMPORTANTES – NÃO PODEM DEIXAR DE LER CF/88 ⦁ Art. 14 e 15 (leitura completa! Importantíssimo!) ⦁ Art. 37, §4º SÚMULAS RELACIONADAS AO TEMA Súmula vinculante 18-STF: A dissolução da sociedade ou do vínculo conjugal, no curso do mandato, não afasta a inelegibilidade prevista no § 7º do artigo 14 da Constituição Federal. 1. DIREITOS POLÍTICOS Conforme o professor Pedro Lenza, os direitos políticos nada mais são que instrumentos por meio dos quais a CF garante o exercício da soberania popular, atribuindo poderes aos cidadãos para interferirem na condução da coisa pública, seja direta, seja indiretamente. Na esteira de Bernardo Gonçalves, Os direitos políticos são entendidos como um conjunto de regras que disciplina o exercício da soberania popular. Nesse sentido, é um grupo de normas que envolvem a participação dos indivíduos (cidadãos) nos processos de poder, ou seja, nas tomadas de decisões que envolvem a vida pública do Estado e da sociedade. Os direitos políticos fundamentam o princípio democrático presente no § único do art. 1° da CR/88 e são desenvolvidos por meio de normas que dizem respeito à escolha de representantes para o exercício do poder em nome do povo ou pela própria participação direta do povo no exercício do poder. Podem ser divididos: ● DIREITOS POLÍTICOS POSITIVOS: segundo José Afonso da Silva, consistem no “conjunto de normas que asseguram o direito subjetivo de participação no processo político e nos órgãos governamentais”. DIREITO CONSTITUCIONAL DIREITOS POLÍTICOS 4 Nas palavras do autor Marcelo Novelino “os direitos políticos positivos são aqueles consubstanciados em normas que asseguram a participação do indivíduo no processo político e nos órgãos governamentais. As formas de exercício da soberania popular abrangem a participação em eleições (votando e podendo ser votado), plebiscitos, referendo, iniciativas populares, bem como na criação, organização e composição de partidos políticos.” O autor ainda continua dizendo que “os direitos políticos negativos são determinações constitucionais impositivas de privações ao direito de participar do processo político e dos órgãos governamentais, como as contidas nas normas referentes à inelegibilidade, perda e suspensão dos direitos políticos.” ● DIREITOS POLÍTICOS NEGATIVOS: decorrem das normas que privam o cidadão, definitiva ou temporariamente, dos direitos políticos positivos, especialmente do direito de votar e de ser votado. De modo geral podemos classificar os regimes democráticos em três espécies: a) democracia direta, em que o povo exerce por si o poder, sem intermediários, sem representantes; b) democracia representativa, na qual o povo, soberano, elege representantes, outorgando-lhes poderes, para que, em nome deles e para o povo, governem o país; e c) democracia semidireta ou participativa, um “sistema híbrido”, uma democracia representativa, com peculiaridades e atributos da democracia direta (LENZA, 2022). ⮚ A democracia participativa ou semidireta assimilada pela CF/88 (arts. 1.º, parágrafo único, e 14) caracteriza-se, portanto, como a base para que se possa, na atualidade, falar em participação popular no poder por intermédio de um processo, no caso, o exercício da soberania, que se instrumentaliza por meio do plebiscito, referendo, iniciativa popular, bem como pelo ajuizamento da ação popular. 1.1 Direitos Políticos Positivos As formas de exercício da soberania popular são o direito de sufrágio ativo (direito de votar) e passivo (direito de ser votado), a iniciativa popular, a ação popular e a organização e participação em partidos políticos. A) INSTRUMENTOS DE PARTICIPAÇÃO DIRETA: ● PLEBISCITO: é consulta prévia formulada ao cidadão para que manifeste sua concordância/discordância em relação a um tema contido em ato administrativo ou legislativo. Além disso, conforme art. 49, XV, CRFB, o CN convoca plebiscito. Exemplo: plebiscito para a escolha entre a forma (república ou monarquia constitucional) e sistema de governo (presidencialismo ou parlamentarismo) (1993). ● REFERENDO: é uma consulta realizada posteriormente à edição do ato legislativo ou administrativo, com o intuito de ratificá-lo ou rejeitá-lo. Além disso, conforme art. 49, XV, CRFB, o CN autoriza o referendo. Exemplos: referendo para manutenção ou não do regime parlamentarista (1963); DIREITO CONSTITUCIONAL DIREITOS POLÍTICOS 5 referendo para a manifestação do eleitorado sobre a manutenção ou rejeição da proibição da comercialização de armas de fogo e munição em todo o território nacional (2005). O professor Lenza assim ensina: A diferença está no momento da consulta: a) no plebiscito, a consulta é prévia, sendo convocado com anterioridade ao ato legislativo ou administrativo, cabendo ao povo, por meio do voto, aprovar ou denegar o que lhe tenha sido submetido à apreciação. Ou seja, primeiro consulta-se o povo, para depois, só então, a decisão política ser tomada, ficando o governante condicionado ao que for deliberado pelo povo; b) por outro lado, no referendum, primeiro se tem o ato legislativo ou administrativo, para, só então, submetê-lo à apreciação do povo, que o ratifica (confirma) ou o rejeita (afasta). A autorização de referendo e a convocação de plebiscito são da competência exclusiva do Congresso Nacional (CF, art. 49, XV). Por fim, a competência para autorizar referendo e convocar plebiscito, de acordo com o art. 49, XV, da CF/88, é exclusiva do Congresso Nacional, materializada, como visto, por decreto legislativo. O RESULTADO DO PLEBISCITO OU DO REFERENDO PODE SER MODIFICADO POR LEI OU EMENDA À CONSTITUIÇÃO? De acordo com Pedro Lenza, em outras palavras, proclamado o resultado do plebiscito ou do referendo, poderia o legislador contrariar a manifestação popular editando lei ou emenda à Constituição (EC) em sentido contrário? Exemplificando: tendo o povo confirmado, pelo voto, ser contra a proibição do porte de armas, poderia o legislador editar uma lei em sentido contrário? Essa lei teria validade? Ou, ainda, tendo o povo manifestado em plebiscito a preferência pelo presidencialismo, poderia uma emenda à Constituição instituir o parlamentarismo no Brasil? Entende-se que tanto a lei como a EC seriam flagrantemente inconstitucionais. Isso porque, umavez manifestada a vontade popular, esta passa a ser vinculante, não podendo ser desrespeitada. No caso, seus dispositivos seriam inconstitucionais por violarem o art. 14, I ou II, c/c o art. 1.º, parágrafo único, qual seja, o princípio da soberania popular. Assim sendo, parece-nos possível concluir que a democracia direta prevalece sobre a democracia representativa. ● INICIATIVA POPULAR: consiste na apresentação de projeto de lei à Câmara dos Deputados, subscrito por, no mínimo, um por cento do eleitorado nacional, distribuído pelo menos por cinco Estados, com não menos de três décimos por cento dos eleitores de cada um deles. DIREITO CONSTITUCIONAL DIREITOS POLÍTICOS 6 Caiu em prova Delegado RS/2018! A soberania popular será exercida pelo sufrágio universal e pelo voto direto e secreto, com valor igual para todos, e, nos termos da lei, mediante: I – plebiscito; II – referendo; III – iniciativa popular. (ITEM CORRETO) B) SUFRÁGIO: É o direito de participar votando e sendo votado em eleições; É o direito de votar e ser votado. C) ALISTABILIDADE: É a capacidade eleitoral ativa, direito de votar. Características do voto no Brasil: ● LIVRE: a escolha pode dar-se entre os candidatos, ou ainda anular ou votar em branco. Em contraposição à ideia do famoso voto de cabresto; ● DIRETO: os representantes são escolhidos diretamente pelo povo, com exceção do art. 81, § 1º da CF. O cidadão vota diretamente no candidato, sem intermediário. Excepcionalmente, porém, existe uma única hipótese de eleição indireta no Brasil (art. 81, § 1.º), qual seja, quando vagarem os cargos de Presidente e Vice-Presidente da República nos últimos 2 anos do mandato. Nessa situação excepcional, a eleição para ambos os cargos será feita pelo Congresso Nacional, na forma da lei (LENZA, 2022); ● SECRETO: Aqui vale esclarecer que é diferente do voto parlamentar. Conforme Pedro Lenza: Decidiu o STF que as deliberações parlamentares devem pautar-se pelo princípio da publicidade, a traduzir dogma do regime constitucional democrático. “(...) A cláusula tutelar inscrita no art. 14, caput, da Constituição tem por destinatário específico e exclusivo o eleitor comum, no exercício das prerrogativas inerentes ao status activae civitatis. Essa norma de garantia não se aplica, contudo, ao membro do Poder Legislativo nos procedimentos de votação parlamentar, em cujo âmbito prevalece, como regra, o postulado da deliberação ostensiva ou aberta. (...) A votação pública e ostensiva nas Casas Legislativas constitui um dos instrumentos mais significativos de controle do poder estatal pela sociedade civil” (ADI 1.057-MC, Rel. Min. Celso de Mello, j. 20.04.94, DJ de 06.04.2001). ● UNIVERSAL: seu exercício não está ligado a nenhuma condição discriminatória; ● PERIÓDICO: característica da República, pois a Democracia exige mandatos por prazo determinado; ● LIVRE; ● PERSONALÍSSIMO: é vetada a votação por procurador; ● COM VALOR IGUAL PARA TODOS. IMPORTANTE DIREITO CONSTITUCIONAL DIREITOS POLÍTICOS 7 O voto é obrigatório para os que têm entre 18 e 70 anos, e facultativo para aqueles que têm entre 16 e 18 anos e para os maiores de 70 anos e analfabetos. O constituinte originário, elevando à categoria de cláusulas pétreas, inadmitiu qualquer proposta de emenda à Constituição tendente a abolir o voto direto, secreto, universal e periódico (art. 60, § 4.º, II). Muito embora haja previsão constitucional do voto obrigatório nas hipóteses previstas na Constituição, a obrigatoriedade do voto não é cláusula pétrea, podendo ser aprovada emenda constitucional tornando-o facultativo. INALISTÁVEIS (ART. 14, §2º, CF/88): ● Estrangeiros, salvo os portugueses equiparados (“quase nacionais”); ● Conscritos (aqueles em serviço militar obrigatório). O conceito de conscrito não é estendido somente às pessoas que têm 17 e 18 anos, mas também aos médicos, dentistas, farmacêuticos, e veterinários que estejam em serviço militar obrigatório conforme art. 4° da Lei 5.292/67. D) ELEGIBILIDADE: É a capacidade eleitoral passiva, ou seja, o direito de ser votado. O direito de ser votado, no entanto, só se torna absoluto se o eventual candidato preencher todas as condições de elegibilidade para o cargo ao qual se candidata e, ainda, não incidir em nenhum dos impedimentos constitucionalmente previstos, quais sejam, os direitos políticos negativos: Art. 14, § 3º - São condições de elegibilidade, na forma da lei: A nacionalidade brasileira; O pleno exercício dos direitos políticos; O alistamento eleitoral; O domicílio eleitoral na circunscrição; A filiação partidária; A idade mínima de: a) Trinta e cinco anos para Presidente e Vice-Presidente da República e Senador; b) Trinta anos para Governador e Vice-Governador de Estado e do Distrito Federal; c) Vinte e um anos para Deputado Federal, Deputado Estadual ou Distrital, Prefeito, Vice-Prefeito e juiz de paz; d) Dezoito anos para Vereador. IMPORTANTE O domicílio eleitoral não se confunde com o domicílio civil, razão pela qual a circunstância de o eleitor residir em determinado Município não o impede de se candidatar por outra localidade onde é inscrito e com a qual mantém vínculos negociais, patrimoniais, profissionais, afetivos ou políticos. DIREITO CONSTITUCIONAL DIREITOS POLÍTICOS 8 1.2 Direitos Eleitorais Negativos Conforme o doutrinador Pedro Lenza, ao contrário dos direitos políticos positivos, os direitos políticos negativos individualizam-se ao definirem formulações constitucionais restritivas e impeditivas das atividades político partidárias, privando o cidadão do exercício de seus direitos políticos, bem como impedindo-o de eleger um candidato (capacidade eleitoral ativa) ou de ser eleito (capacidade eleitoral passiva). São hipóteses: A. INELEGIBILIDADES: É a falta de capacidade eleitoral passiva (art. 14, §§ 4.º a 8.º, CRFB). Podem ser: ● INELEGIBILIDADES ABSOLUTAS: impedem o exercício da capacidade eleitoral passiva para qualquer cargo eletivo. Previstos no art. 14, § 4º, da CF: ∘ INALISTÁVEIS: estrangeiros e conscritos; ∘ ANALFABETOS: embora possam votar facultativamente, em nenhuma hipótese poderão ser votados. ● INELEGIBILIDADES RELATIVAS: impedem o exercício da capacidade eleitoral passiva para determinados cargos ou em relação a determinado período. A inelegibilidade nesses casos dá-se, conforme as regras constitucionais, em decorrência da função exercida, de parentesco, ou se o candidato for militar, bem como em virtude das situações previstas em lei complementar (art. 14, § 9.º). Da função exercida - art. 14, §§ 5º e 6º: Art. 14. (...) § 5º O Presidente da República, os Governadores de Estado e do Distrito Federal, os Prefeitos e quem os houver sucedido, ou substituído no curso dos mandatos poderão ser reeleitos para um único período subsequente. § 6º Para concorrerem a outros cargos, o Presidente da República, os Governadores de Estado e do Distrito Federal e os Prefeitos devem renunciar aos respectivos mandatos até seis meses antes do pleito. Veja a questão interessante indagando se os vices podem ser candidatos à sucessão do titular reeleito, uma vez que este não pode mais ser candidato a um terceiro mandato sucessivo. O STF no julgamento da RE 366.488, Rel. Carlos Velloso (04.10.2005), decidiu nos seguintes termos: “EMENTA: CONSTITUCIONAL. ELEITORAL. VICE-GOVERNADOR ELEITO DUAS VEZES CONSECUTIVAS: EXERCÍCIO DO CARGO DE GOVERNADOR POR SUCESSÃO DO DIREITO CONSTITUCIONAL DIREITOS POLÍTICOS 9 TITULAR: REELEIÇÃO: POSSIBILIDADE. CF, art. 14, § 5.º. I. Vice-governador eleito duas vezes para o cargo de vice-governador. No segundo mandato de vice, sucedeu o titular. Certo que, no seu primeiro mandato de vice,teria substituído o governador. Possibilidade de reeleger-se ao cargo de governador, porque o exercício da titularidade do cargo dá-se mediante eleição ou por sucessão. Somente quando sucedeu o titular é que passou a exercer o seu primeiro mandato como titular do cargo. II. Inteligência do disposto no § 5.º do art. 14 da Constituição Federal. III. RE conhecido e improvido”. IMPORTANTE PREFEITO ITINERANTE ou PREFEITO PROFISSIONAL: caracteriza-se pela alteração do domicílio eleitoral com finalidade de burlar a regra que tolera apenas uma reeleição. O sujeito não pode se eleger por mais de um mandato no Município A e então muda seu domicílio eleitoral para o Município B, vizinho de A, onde tentará eleger-se prefeito. O STF entendeu tal conduta incompatível com o princípio republicano, em respeito à temporariedade e à alternância no exercício do poder, pois visa à perpetuação no poder. O art. 14, § 6.º, estabelece que, para concorrer a outros cargos, o Presidente da República, os Governadores de Estado e do Distrito Federal e os Prefeitos devem renunciar aos respectivos mandatos até 6 meses antes do pleito. Por fim, frisa-se que a desincompatibilização deve dar-se somente para a candidatura a outros cargos, diversos, diferentes. Para a reeleição, os Chefes do Executivo não precisam, portanto, renunciar 6 meses antes do pleito. Finalmente, em relação aos vices, a mencionada regra da desincompatibilização não incide, na medida em que não são mencionados no art. 14, § 6.º, a não ser que tenham, nos 6 meses anteriores ao pleito, sucedido ou substituído os titulares. Cabe asseverar apenas que a renúncia afasta a presente inelegibilidade, ou seja, se o Chefe do Executivo renunciar, é possível que sua família se candidate a qualquer cargo no território de jurisdição do titular. Tal renúncia deve se dar em até seis meses antes do pleito. É a chamada heterodesincompatibilização, pois o sujeito se desincompatibiliza para terceiro poder concorrer a outros cargos. A exceção se dá no caso em que a renúncia se dá no segundo mandato. Nesse caso o membro da família não poderá concorrer ao terceiro mandato, eis que, conforme entendimento da Justiça Eleitoral, é vedado que uma mesma família ocupe determinado cargo por três mandatos consecutivos, conforme já decidiu o TSE no caso “Garotinho” (ex-governador do Rio de Janeiro). Em caso de desmembramento, o STF entende que a família do titular do executivo, ente desmembrado, não pode se candidatar a cargos eletivos no novo ente criado. Ex.: Município A dá origem ao Município B -> a família do Prefeito do Município A não pode concorrer a cargos eletivos no Município B. ● INELEGIBILIDADE REFLEXA – ART. 14, §7º: a inelegibilidade em razão do parentesco torna inelegíveis no território de jurisdição do Chefe do Poder Executivo o cônjuge e os parentes, consanguíneos ou afins, até o segundo grau ou por adoção, salvo quando estes já forem detentores de mandato eletivo e candidatos à reeleição. DIREITO CONSTITUCIONAL DIREITOS POLÍTICOS 10 A ideia da inelegibilidade relativa em razão do parentesco, conforme anotou o STF, deve ser interpretada “... de maneira a dar eficácia e efetividade aos postulados republicanos e democráticos da Constituição, evitando-se a perpetuidade ou alongada presença de familiares no poder” (RE 543.117-AgR, Rel. Min. Eros Grau, j. 24.06.2008, DJE de 22.08.2008). STF: A inelegibilidade reflexa abrange uniões homoafetivas. Também abrange o cunhado/ cunhada (RE 171061) Súmula Vinculante nº 18: A dissolução da sociedade ou do vínculo conjugal, no curso do mandato, não afasta a inelegibilidade prevista no § 7º do artigo 14 da Constituição Federal. Buscava-se, acima de tudo, evitar a possibilidade de se fraudar ou burlar a regra constitucional da inelegibilidade, em razão de separações, por vezes, fictícias. Em caso de morte, vale destacar o seguinte julgado: CONSTITUCIONAL E ELEITORAL. MORTE DE PREFEITO NO CURSO DO MANDATO, MAIS DE UM ANO ANTES DO TÉRMINO. INELEGIBILIDADE DO CÔNJUGE SUPÉRSTITE. CF, ART. 14, § 7º. INOCORRÊNCIA. 1. O que orientou a edição da Súmula Vinculante 18 e os recentes precedentes do STF foi a preocupação de inibir que a dissolução fraudulenta ou simulada de sociedade conjugal seja utilizada como mecanismo de burla à norma da inelegibilidade reflexa prevista no § 7º do art. 14 da Constituição. Portanto, não atrai a aplicação do entendimento constante da referida súmula a extinção do vínculo conjugal pela morte de um dos cônjuges. 2. Recurso extraordinário a que se dá provimento. (RE 758461, Relator(a): Min. TEORI ZAVASCKI, Tribunal Pleno, julgado em 22/05/2014, ACÓRDÃO ELETRÔNICO REPERCUSSÃO GERAL - MÉRITO DJe-213 DIVULG 29-10-2014 PUBLIC 30-10-2014) Assim, temos a regra: DISSOLVER O VÍNCULO CONJUGAL NO CURSO DO MANDATO NÃO AFASTA A INELEGIBILIDADE DO ARTIGO 14, §7º CRFB. E a exceção: Se o vínculo conjugal tiver sido rompido pela morte de um dos cônjuges, a inelegibilidade em comento está afastada. Motivo: neste último caso, não há fraude para fins eleitorais. TESE DE REPERCUSSÃO GERAL 678: A Súmula Vinculante 18 do STF (“A dissolução da sociedade ou do vínculo conjugal, no curso do mandato, não afasta a inelegibilidade prevista no § 7º do artigo 14 da Constituição Federal”) não se aplica aos casos de extinção do vínculo conjugal pela morte de um dos cônjuges.” DIREITO CONSTITUCIONAL DIREITOS POLÍTICOS 11 Mais recentemente, o Supremo Tribunal Federal decidiu que: A inelegibilidade por parentesco (CF/1988, art. 14, § 7º) não impede que cônjuges, companheiros ou parentes em linha reta, colateral ou por afinidade, até o segundo grau, ocupem, concomitantemente e na mesma unidade da Federação, os cargos de chefe do Poder Executivo e de presidente da Casa Legislativa. O dispositivo constitucional mencionado, ao veicular regra de inelegibilidade reflexa, limita o exercício dos direitos políticos fundamentais, razão pela qual deve ser interpretado restritivamente. STF, ADPF 1.089/DF, relatora Ministra Cármen Lúcia, julgamento finalizado em 05.06.2024 (Info 1040) Há também a possibilidade de inelegibilidade em razão de outras hipóteses (LEGAL), pois, segundo o art. 14, §9° da CF, lei complementar pode estabelecer, ainda, outras hipóteses como no caso da LC 64/90, alterada pela Lei da Ficha Limpa (LC 135/10), esta declarada constitucional pelo STF. O objetivo é a fim de que sejam protegidos os preceitos da: probidade administrativa; moralidade para o exercício de mandato, considerada a vida pregressa do candidato; normalidade e legitimidade das eleições contra a influência do poder econômico ou o abuso do exercício de função, cargo ou emprego na administração direta ou indireta. De acordo com Pedro Lenza, Dentre os vários aspectos do acórdão de 375 páginas (e que vale a leitura!), podemos destacar o reconhecimento da observância das exigências de moralidade e probidade no tocante à vida pregressa, bem como a interpretação conforme a Constituição das alíneas “e” e “l” do inciso I do art. 1.º da LC n. 64/90, na redação dada pela LC n. 135/2010, para admitir a redução de tempo que transcorreu entre a condenação e o seu trânsito em julgado do prazo de 8 anos de inelegibilidades após o cumprimento da pena (detração). Veja, ainda, STF: É possível aplicar o prazo de 8 anos de inelegibilidade, introduzido pela LC 135/2010 (Lei da Ficha Limpa), às condenações por abuso de poder, mesmo nos casos em que o processo já tinha transitado em julgado quando a Lei da Ficha Limpa entrou em vigor (Plenário. ARE 1180658 AgR/RN, rel. orig. Min. Alexandre de Moraes, red. p/ o ac. Min. Rosa Weber, julgado em 10/9/2019 - Info 951). Por fim, no tocante ao militar, art. 14, §8°, CRBF, destaca-se que o militar alistável é elegível, atendidas as seguintes condições: I. Se contarmenor de dez anos de serviço, deverá afastar-se da atividade; e II. Se contar mais de dez anos de serviço, será agregado pela autoridade superior e, se eleito, passará automaticamente, no ato da diplomação, para a inatividade. IMPORTANTE DIREITO CONSTITUCIONAL DIREITOS POLÍTICOS 12 O militar, enquanto em serviço ativo, não pode estar filiado a partidos políticos, conforme, art. 142, § 3º, V, da CF. “EMENTA: SERVIDOR PÚBLICO. Militar alistável. Elegibilidade. Policial da Brigada Militar do Rio Grande do Sul, com menos de 10 (dez) anos de serviço. Candidatura a mandato eletivo. Demissão oficial por conveniência do serviço. Necessidade de afastamento definitivo, ou exclusão do serviço ativo. Pretensão de reintegração no posto de que foi exonerado. Inadmissibilidade. Situação diversa daquela ostentada por militar com mais de 10 (dez) anos de efetivo exercício. Mandado de segurança indeferido. Recurso extraordinário provido para esse fim. Interpretação das disposições do art. 14, § 8.º, I e II, da CF. Voto vencido. Diversamente do que sucede ao militar com mais de dez anos de serviço, deve afastar-se definitivamente da atividade, o servidor militar que, contando menos de dez anos de serviço, pretenda candidatar-se a cargo eletivo” (RE 279.469, Rel. p/ o ac. Min. Cezar Peluso, j. 16.03.2011, Plenário, DJE de 20.06.2011). IMPORTANTE Os casos de inelegibilidade estabelecidos pela Constituição possuem natureza de normas de eficácia plena. Caiu na prova Delegado PA/2016! Todo inalistável é inelegível, mas nem todo inelegível é inalistável. (ITEM CORRETO) #DICA DD: Veja alguns conceitos básicos, mas que salvam: Inalistável = que não pode se alistar Inelegível = que não pode se eleger Todo inalistável é inelegível, mas nem todo inelegível é inalistável. Ex. Analfabeto. 1.3 Privação de Direitos Políticos A) CASSAÇÃO: É vedada. O art. 15 da CF veda a retirada arbitrária de direitos políticos, pois a restrição dos direitos políticos será sempre provisória, ou seja, sem caráter perpétuo, e ocorrerá nos casos de suspensão e perda; IMPORTANTE Em nenhuma hipótese, ressalte-se, será permitida a cassação de direitos políticos. B) PERDA: Configura privação definitiva, sendo necessária atividade específica do interessado para a reaquisição. Hipóteses: DIREITO CONSTITUCIONAL DIREITOS POLÍTICOS 13 1. Cancelamento da naturalização por sentença transitada em julgado (art. 15, I): ação que tramita na justiça federal, na qual o naturalizado volta a ser considerado estrangeiro; 2. Recusa de cumprir obrigação a todos imposta ou prestação alternativa, nos termos do art. 5º, VIII (art. 15, IV). Enquanto não houver edição de lei regulamentando a prestação alternativa, não há possibilidade de perder os direitos políticos; Recusa de cumprir obrigação a todos imposta ou prestação alternativa: o art. 5.º, VIII, estabelece, como regra, que ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política. No entanto, se as invocar para eximir-se de obrigação legal a todos imposta (ex.: serviço militar obrigatório — cf. art. 143) e recusar-se a cumprir a prestação alternativa, fixada em lei, terá, como sanção, a declaração da perda de seus direitos políticos. Sobre essa hipótese, alertamos que a maioria dos autores de direito eleitoral vem entendendo como situação de suspensão, e não de perda de direitos políticos, nos termos da literalidade do art. 4.º, § 2.º, da Lei n. 8.239/91. Apenas nos alinhamos ao conceito de perda, com José Afonso da Silva, já que para readquirir os direitos políticos a pessoa precisará tomar a decisão de prestar o serviço alternativo, não sendo o vício suprimido por decurso de prazo. (Pedro Lenza em Direito Constitucional Esquematizado). 3. A aquisição de outra nacionalidade acarretava, em regra, a perda da nacionalidade brasileira, salvo nos casos de reconhecimento de nacionalidade originária pela lei estrangeira e imposição de naturalização pela norma estrangeira. Veja a redação do texto constitucional ANTES da promulgação da EC 131/2023: CF, Art. 12. (...) § 4º - Será declarada a perda da nacionalidade do brasileiro que: II - adquirir outra nacionalidade, salvo nos casos: (Redação dada pela Emenda Constitucional de Revisão nº 3, de 1994) a) de reconhecimento de nacionalidade originária pela lei estrangeira; (Incluído pela Emenda Constitucional de Revisão nº 3, de 1994) b) de imposição de naturalização, pela norma estrangeira, ao brasileiro residente em estado estrangeiro, como condição para permanência em seu território ou para o exercício de direitos civis; (Incluído pela Emenda Constitucional de Revisão nº 3, de 1994) Com a mudança promovida pela Emenda Constitucional 131/2023, o cidadão apenas perderá (não confunda perda com cancelamento!) a nacionalidade brasileira se fizer um pedido expresso (§4º, II), e mesmo assim poderá readquiri-la (§5º). Vejamos a redação ATUALIZADA da Constituição Federal: DIREITO CONSTITUCIONAL DIREITOS POLÍTICOS 14 CF, Art. 12. (...) § 4º - Será declarada a perda da nacionalidade do brasileiro que: (...) II - fizer pedido expresso de perda da nacionalidade brasileira perante autoridade brasileira competente, ressalvadas situações que acarretem apatridia. (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 131, de 2023) a) revogada; (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 131, de 2023) b) revogada. (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 131, de 2023) § 5º A renúncia da nacionalidade, nos termos do inciso II do § 4º deste artigo, não impede o interessado de readquirir sua nacionalidade brasileira originária, nos termos da lei. (Incluído pela Emenda Constitucional nº 131, de 2023) Perdido o direito político, na hipótese de cancelamento da naturalização por sentença transitada em julgado, a reaquisição só se dará por meio de ação rescisória. Se a hipótese for a perda por recusa de cumprir obrigação a todos imposta ou prestação alternativa, a reaquisição dar-se-á quando o indivíduo, a qualquer tempo, cumprir a obrigação devida. C) SUSPENSÃO: Possui caráter temporário, e a reaquisição decorre automaticamente após determinado período ou o implemento de determinada condição. Hipóteses: ⮚ INCAPACIDADE CIVIL ABSOLUTA; ⮚ CONDENAÇÃO CRIMINAL TRANSITADA EM JULGADO, ENQUANTO DURAREM SEUS EFEITOS. Em relação à hipótese em análise, o STF estabeleceu a seguinte interpretação: “1. A regra de suspensão dos direitos políticos prevista no art. 15, III, é autoaplicável, pois trata-se de consequência imediata da sentença penal condenatória transitada em julgado. 2. A autoaplicação independe da natureza da pena imposta. 3. A opção do legislador constituinte foi no sentido de que os condenados criminalmente, com trânsito em julgado, enquanto durar os efeitos da sentença condenatória, não exerçam os seus direitos políticos”. Assim, “a suspensão de direitos políticos prevista no art. 15, III, da Constituição Federal aplica-se no caso de substituição da pena privativa de liberdade pela restritiva de direitos” (RE n. 601.182, tema 370 da repercussão geral, Pleno, j. 08.05.2019, DJE de 02.10.2019). Veja, ainda, julgado do STF interessante: A suspensão de direitos políticos prevista no art. 15, III, da CF, aplica-se tanto para condenados a penas privativas de liberdade como também a penas restritivas de direitos (RE 601182/MG, Rel. Min. Marco Aurélio, red. p/ o ac. Min. Alexandre de Moraes, julgado em 8/5/2019. -Info 939) DIREITO CONSTITUCIONAL DIREITOS POLÍTICOS 15 Contudo, a suspensão dos direitos políticos prevista no artigo 15, III, da Constituição Federal (‘condenação criminal transitada em julgado, enquanto durarem seus efeitos’)não impede a nomeação e posse de candidato aprovado em concurso público, desde que não incompatível com a infração penal praticada, em respeito aos princípios da dignidade da pessoa humana e do valor social do trabalho (CF, art. 1º, III e IV) e do dever do Estado em proporcionar as condições necessárias para a harmônica integração social do condenado, objetivo principal da execução penal, nos termos do artigo 1º da LEP (Lei nº 7.210/84). O início do efetivo exercício do cargo ficará condicionado ao regime da pena ou à decisão judicial do juízo de execuções, que analisará a compatibilidade de horários. RE 1.282.553/RR, relator Ministro Alexandre de Moraes, julgamento finalizado em 4.10.2023. Tema 1190 – Repercussão Geral. ⮚ IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA, NOS TERMOS DO ART. 37, § 4º, CF. Segundo José Afonso da Silva, “a improbidade diz respeito à prática de ato que gere prejuízo ao erário público em proveito do agente. Cuida-se de uma imoralidade administrativa qualificada pelo dano ao erário e correspondente vantagem ao ímprobo. O ímprobo administrativo é o devasso da Administração pública”. OUTRAS HIPÓTESES: ➢ exercício assegurado pela cláusula de reciprocidade (art. 12, § 1.º): na dicção do art. 17.3 do Decreto n. 3.927/2001 (Promulga o Tratado de Amizade, Cooperação e Consulta, entre a República Federativa do Brasil e a República Portuguesa, celebrado em Porto Seguro em 22 de abril de 2000), “o gozo de direitos políticos no Estado de residência importa na suspensão do exercício dos mesmos direitos no Estado da nacionalidade”. Assim, o gozo dos direitos políticos em Portugal (por brasileiro) importará na suspensão do exercício dos mesmos direitos no Brasil; ➢ art. 55, II e § 1.º, c/c o art. 1.º, I, “b”, da LC n. 64/90: procedimento do Deputado ou Senador declarado incompatível com o decoro parlamentar — inelegibilidade por 8 anos (art. 1.º, I, “b”, da LC n. 64/90. Cespe, Oral RO/2023 (espelho): Frisa-se que a Constituição não cria restrições jurídicas ao exercício de direitos políticos por pessoas em prisão processual antes do trânsito em julgado de condenação criminal ou de condenação por órgão colegiado de tribunal. Tanto é assim que essas pessoas podem votar (capacidade eleitoral ativa) (bastando que a Justiça Eleitoral lhes forneça meios concretos de fazê-lo, nas seções eleitorais em unidades prisionais, como frequentemente ocorre) e podem igualmente ser votadas (capacidade eleitoral passiva), desde que não haja outra causa de inelegibilidade. O que afeta a capacidade eleitoral passiva é a existência de condenação criminal proferida por órgão colegiado de tribunal, mesmo antes do trânsito em julgado, por força da Lei das Inelegibilidades (Lei Complementar n.º 64, de 18 de maio de 1990, art. 1.º, inciso I, alínea e). 1.4. Servidor Público e Exercício do Mandato Eletivo De acordo com o art. 38 da CF/88: DIREITO CONSTITUCIONAL DIREITOS POLÍTICOS 16 Art. 38. Ao servidor público da administração direta, autárquica e fundacional, no exercício de mandato eletivo, aplicam-se as seguintes disposições: (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 19, de 1998) I - tratando-se de mandato eletivo federal, estadual ou distrital, ficará afastado de seu cargo, emprego ou função; II - investido no mandato de Prefeito, será afastado do cargo, emprego ou função, sendo-lhe facultado optar pela sua remuneração; III - investido no mandato de Vereador, havendo compatibilidade de horários, perceberá as vantagens de seu cargo, emprego ou função, sem prejuízo da remuneração do cargo eletivo, e, não havendo compatibilidade, será aplicada a norma do inciso anterior; IV - em qualquer caso que exija o afastamento para o exercício de mandato eletivo, seu tempo de serviço será contado para todos os efeitos legais, exceto para promoção por merecimento; V - na hipótese de ser segurado de regime próprio de previdência social, permanecerá filiado a esse regime, no ente federativo de origem. (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 103, de 2019) 2. PARTIDOS POLÍTICOS Partido político pode ser conceituado, conforme o autor Pedro Lenza, como uma “... organização de pessoas reunidas em torno de um mesmo programa político com a finalidade de assumir o poder e de mantê- lo ou, ao menos, de influenciar na gestão da coisa pública através de críticas e oposição”. Dentre os fundamentos da República Federativa do Brasil está o pluralismo político (art. 1.º, V). De acordo com o art. 17, caput, consagra-se a liberdade de organização partidária, visto ser livre a criação, a fusão, a incorporação e a extinção dos partidos políticos. A) REGISTRO: Devem se registrar tanto no Cartório de Registro Civil quanto no TSE: ● REGISTRO CIVIL: É requerimento do registro do partido junto ao Registro Civil de Pessoas Jurídicas da Capital Federal e é o meio pelo qual há a aquisição da personalidade jurídica. ● REGISTRO ELEITORAL: Efetivado perante o Tribunal Superior Eleitoral, e tem como finalidade o gozo de prerrogativas de participar do processo eleitoral, receber recursos do fundo partidário e ter acesso à rádio e à televisão para difusão de suas ideias e programas, conforme art. 7º, §2º, da Lei 9.096/95. Não existe no Brasil a candidatura avulsa, de modo que o candidato deve estar filiado a algum partido político. Candidaturas avulsas são aquelas de pessoas não filiadas a partido político. A Constituição de 1988 não as admite, porque exige filiação partidária, como condição de elegibilidade (art. 14, § 3.º, inciso V). DIREITO CONSTITUCIONAL DIREITOS POLÍTICOS 17 E, também, não existe no Brasil a candidatura nata, ou seja, o direito de o titular do mandato eletivo ser, obrigatoriamente, escolhido e registrado pelo partido como candidato à reeleição. A “candidatura nata” é o direito que o titular do mandato eletivo possui de, obrigatoriamente, ser escolhido e registrado pelo partido político como candidato à reeleição. O STF, contudo, entendeu que esse § 1º do art. 8º da Lei nº 9.504/97 é inconstitucional, não sendo possível a chamada “candidatura nata”. O instituto da “candidatura nata” é incompatível com a Constituição Federal de 1988, tanto por violar a isonomia entre os postulantes a cargos eletivos como, sobretudo, por atingir a autonomia partidária (art. 5º, “caput”, e art. 17 da CF/88). STF. Plenário. ADI 2530/DF, Rel. Min. Nunes Marques, julgado em 18/8/2021 (Info 1026). B) PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS DE ORGANIZAÇÃO PARTIDÁRIA: 1. LIBERDADE PARTIDÁRIA: é livre a criação, fusão, incorporação e extinção dos partidos políticos. No entanto, deve obedecer ao disposto na Constituição: ● Caráter nacional; ● Proibição de recebimento de recursos financeiros de entidades ou governos estrangeiros ou de subordinação a estes; ● Prestação de contas à Justiça Eleitoral; ● Funcionamento parlamentar de acordo com a lei. 2. AUTONOMIA PARTIDÁRIA: autonomia para definir sua estrutura interna, organização e funcionamento, devendo seus estatutos estabelecer normas de fidelidade e disciplina partidárias (art. 17, § 1º). 3. VEDAÇÃO A PARTIDOS COMO ORGANIZAÇÃO PARAMILITAR (ART. 14, § 4º): é vedado ao partido político ministrar instrução militar ou paramilitar bem como utilizar-se de organização da mesma natureza e adotar uniforme para seus membros. C) SISTEMAS ELEITORAIS: ● MAJORITÁRIO: o mandato eletivo fica com o candidato ou partido político que obteve a maioria dos votos, independente dos votos do seu partido. Adotado para eleições de Presidente, Senador, Governador e Prefeito; ● PROPORCIONAL: é obtido mediante alguns cálculos. Inicialmente, divide o número total de votos válidos pelos cargos em disputa (quociente eleitoral). Em seguida, pega os votos de cada partido ou coligação e divide pelo quociente eleitoral, anteriormente obtido (quociente partidário).Os candidatos mais bem votados desse partido irão ocupar tais vagas. Adotado para eleições de Deputado Federal, Estadual e Vereador. ● MISTO: mescla regras do majoritário e proporcional, com votos distritais e votos gerais. É o sistema adotado na Alemanha. No Brasil, não é adotado, embora seja ponto de discussão da reforma política. FIDELIDADE PARTIDÁRIA: DIREITO CONSTITUCIONAL DIREITOS POLÍTICOS 18 Se o titular do mandato eletivo, sem justa causa, sair do partido político no qual foi eleito, ele perderá o cargo que ocupa? (INF 787 STF) ● Sistema majoritário: não se aplica aos candidatos eleitos pelo sistema majoritário, sob pena de violação da soberania popular e das escolhas feitas pelo eleitor, já que o candidato escolhido é aquele que obteve mais votos, não importando o quociente eleitoral nem o quociente partidário. Segundo entendimento do STF, as características do sistema majoritário, com sua ênfase na figura do candidato, fazem com que a perda do mandato, no caso de mudança de partido, frustre a vontade do eleitor e vulnere a soberania popular (CF, art. 1.º, par. ún., e art. 14, caput)”. Assim, a perda de mandato por troca de partido não se aplica ao sistema majoritário. STF definiu, então, a seguinte tese: “a perda do mandato em razão da mudança de partido não se aplica aos candidatos eleitos pelo sistema majoritário, sob pena de violação da soberania popular e das escolhas feitas pelo eleitor”. ● Sistema proporcional: O mandato parlamentar no sistema proporcional pertence ao partido político, razão pela qual, em caso de mudança de partido político pelo parlamentar eleito, ele sofrerá um processo na Justiça Eleitoral que poderá resultar na perda do seu mandato. O assunto está disciplinado na Resolução nº 22.610/2007 do TSE, que elenca, inclusive, as hipóteses consideradas como “justa causa” para a perda do mandato. Em relação ao sistema proporcional (eleição de deputados federais, estaduais, distritais e vereadores), o STF, em 03 e 04.10.2007, julgando os MS 26.602, 26.603 e 26.604, resolveu a matéria e estabeleceu que a fidelidade partidária deve ser respeitada pelos candidatos eleitos. Dessa forma, teoricamente, aquele que mudar de partido (transferência de legenda) sem motivo justificado perderá o cargo eletivo. Isso porque reconheceu o STF o caráter eminentemente partidário do sistema proporcional e as interrelações entre o eleitor, o partido político e o representante eleito. Mudar de partido caracteriza desvio ético-político e gera desequilíbrio no Parlamento. É fraude contra a vontade do povo. OBS: TSE - Justa causa para desfiliação partidária só é aplicável se eleito estiver no fim do mandato vigente. De acordo com Admar Gonzaga, “o vereador poderá se desfiliar do seu partido com justa causa apenas no prazo da janela partidária que coincidir com o final do seu mandato, ou seja, nas vésperas das eleições municipais. Do mesmo modo, o detentor do cargo proporcional, como deputado federal e distrital, poderá fazer jus à janela partidária na proximidade de uma Eleição Geral”. A decisão do colegiado foi unânime. O tema partidos políticos foi objeto de diversas alterações por emendas constitucionais. A EC 52/06 trouxe a desverticalização, de modo que as coligações partidárias não precisam ser as mesmas em âmbito nacional, estadual e municipal, ou seja, não há obrigatoriedade de vinculação entre as candidaturas em âmbito nacional, estadual, distrital ou municipal. Mais adiante, a EC 97/17 veiculou a vedação de celebração de coligações em eleições proporcionais a partir de 2020. Vejamos como ficou a atual redação do art. 17, §1º da CF: § 1º É assegurada aos partidos políticos autonomia para definir sua estrutura interna e estabelecer regras sobre escolha, formação e duração de seus órgãos permanentes e provisórios e sobre sua organização e funcionamento e para adotar DIREITO CONSTITUCIONAL DIREITOS POLÍTICOS 19 os critérios de escolha e o regime de suas coligações nas eleições majoritárias, vedada a sua celebração nas eleições proporcionais, sem obrigatoriedade de vinculação entre as candidaturas em âmbito nacional, estadual, distrital ou municipal, devendo seus estatutos estabelecer normas de disciplina e fidelidade partidária. Sobre o tema, confira a dica da Professora Thaianne: https://youtu.be/QsYCdCcOWD4 Por fim, vale mencionar que a EC 97/17 estabeleceu alguns requisitos para os partidos terem acesso ao fundo partidário. Vejamos como ficou a redação do §3º do art. 17: § 3º Somente terão direito a recursos do fundo partidário e acesso gratuito ao rádio e à televisão, na forma da lei, os partidos políticos que alternativamente: (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 97, de 2017) I - obtiverem, nas eleições para a Câmara dos Deputados, no mínimo, 3% (três por cento) dos votos válidos, distribuídos em pelo menos um terço das unidades da Federação, com um mínimo de 2% (dois por cento) dos votos válidos em cada uma delas; ou (Incluído pela Emenda Constitucional nº 97, de 2017) II – tiverem elegido pelo menos quinze Deputados Federais distribuídos em pelo menos um terço das unidades da Federação. (Incluído pela Emenda Constitucional nº 97, de 2017) § 5º Ao eleito por partido que não preencher os requisitos previstos no § 3º deste artigo é assegurado o mandato e facultada a filiação, sem perda do mandato, a outro partido que os tenha atingido, não sendo essa filiação considerada para fins de distribuição dos recursos do fundo partidário e de acesso gratuito ao tempo de rádio e de televisão. (Incluído pela Emenda Constitucional nº 97, de 2017) Nas palavras do autor Marcelo Novelino cuida-se da chamada cláusula de desempenho, cláusula de barreira, patamar eleitoral, barreira constitucional ou cláusula de exclusão consistente em uma norma DIREITO CONSTITUCIONAL DIREITOS POLÍTICOS 20 impeditiva ou restritiva da atuação parlamentar de partidos políticos que não conseguiram alcançar determinado percentual de votos e/ou eleger determinado número de parlamentares. Essas regras, contudo, deverão ser observadas somente a partir das eleições de 2030 (art. 3.º da emenda), tendo sido estabelecidos requisitos gradativos a serem observados na forma do parágrafo único do art. 3.º da emenda. A nova janela partidária constitucional está descrita no art. 17, § 5.º, nos termos acima transcritos. VACÂNCIA E SUPLÊNCIA: O STF, no julgamento dos MS 30.260 e 30.272, em 27.04.2011, por 10 x 1, entendeu que a vaga decorrente do licenciamento de titulares de mandato parlamentar, no caso para assumirem cargos de secretarias de Estado, deverá ser ocupada pelos suplentes das coligações, e não dos partidos. Pode-se afirmar, então, que, se houve formação de coligação, o que é opcional e encontra fundamento na Constituição (art. 17, § 1.º), a vaga de suplência pertente a esta, e não ao partido político. ADI 4.650 - STF, em 17.09.2015, por maioria e nos termos do voto do Ministro Relator, julgou procedente em parte o pedido formulado na ADI em referência para declarar a inconstitucionalidade dos dispositivos legais que autorizavam as contribuições de pessoas jurídicas às campanhas eleitorais. Decidiu que “o exercício de direitos políticos é incompatível com as contribuições políticas de pessoas jurídicas.” De acordo com o STF, é inconstitucional proibir que emissoras de rádios e TVs difundam áudios ou vídeos que ridicularizem candidato ou partido político durante o período eleitoral. Por fim, veja ainda: Os Estados possuem autonomia relativa na solução normativa do problema da dupla vacância da Chefia do Poder Executivo, não estando vinculados ao modelo e ao procedimento federal (art. 81, CF), mas tampouco pode desviar-se dos princípios constitucionais que norteiam a matéria, por força do art. 25 da ConstituiçãoFederal devendo observar: (i) a necessidade de registro e votação dos candidatos a Governador e Vice-Governador por meio de chapa única; (ii) a observância das condições constitucionais de elegibilidade e das hipóteses de inelegibilidade previstas no art. 14 da Constituição Federal e na Lei Complementar a que se refere o § 9º do art. 14; e (iii) que a filiação partidária não pressupõe a escolha em convenção partidária nem o registro da candidatura pelo partido político; (iv) a regra da maioria, enquanto critério de averiguação do candidato vencedor, não se mostra afetada a qualquer preceito constitucional que vincule os Estados e o Distrito Federal. STF. ADPF 969/AL, relator Ministro Gilmar Mendes, julgamento virtual finalizado em 14.8.2023. (Info 1104) AÇÕES AFIRMATIVAS: DIREITO CONSTITUCIONAL DIREITOS POLÍTICOS 21 De acordo com o art. 2.º da EC n. 111/2021, para fins de distribuição entre os partidos políticos dos recursos do fundo partidário e do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC), os votos dados a candidatas mulheres ou a candidatos negros para a Câmara dos Deputados nas eleições realizadas de 2022 a 2030 serão contados em dobro. Essa contagem em dobro de votos somente se aplica uma única vez, ou seja, se uma candidata negra mulher receber votos, estes serão contados, nesse caso, em dobro. Na prática, apesar da regra legal que já impulsionava o número de candidatas mulheres em 30% (art. 10, § 3.º, da Lei n. 9.504/97 — Lei das Eleições), busca-se, através de incentivo financeiro, estimular a maior participação de candidatas mulheres e candidatos negros. A Emenda Constitucional nº 133/2024 versou, dentre outros temas, sobre as cotas raciais e financiamento de campanha, prevendo que os partidos devem aplicar, obrigatoriamente, 30% dos recursos públicos do FEFC e do Fundo Partidário destinado às campanhas eleitorais em candidaturas de pessoas pretas ou pardas. Insta salientar que as resoluções do Tribunal Superior Eleitoral já previam que a aplicação de recursos em candidaturas de pessoas negras deveria ser proporcional ao número de candidatos desse grupo, no entanto, alguns desses partidos não cumpriram essa exigência. Assim, a EC 133/2024 estabeleceu uma forma de os partidos regularizarem sua situação, passando a considerar cumprida a exigência desde que a agremiação partidária, a partir de 2026, aplique, nas 4 (quatro) eleições subsequentes, o montante correspondente àquele que deixou de ser aplicado para fins de cumprimento da cota racial nas eleições anteriores, sem prejuízo do cumprimento da cota estabelecida na Emenda Constitucional. As disposições da EC 133/2024 quanto ao percentual mínimo de recursos públicos para campanhas de pessoas pretas ou pardas serão aplicadas às Eleições de 2024? Por envolver alteração na forma de distribuição dos recursos públicos para as campanhas eleitorais, poder-se-ia cogitar, ainda que reflexamente, um impacto no processo eleitoral, de modo a atrair a incidência do princípio da anualidade. Contudo, em sentido contrário, de que não há violação ao princípio da anualidade, importante destacar a ADPF 738, em que o Plenário do STF, ao analisar uma decisão do TSE que reconhecia a necessidade de observar a proporcionalidade na distribuição de recursos para candidaturas negras, mas postergava sua aplicação, decidiu que o tema não se inseria no espectro de incidência do princípio da anualidade. Ou seja, a Corte entendeu que a distribuição proporcional de recursos poderia ser aplicada sem necessidade de observar o princípio da anualidade, vez que o aperfeiçoamento nas regras relativas à propaganda, ao financiamento das campanhas e à prestação de contas, possuem caráter eminentemente procedimental, com o elevado propósito de ampliar a participação de cidadãos negros no embate democrático pela conquista de cargos políticos. Fonte: CAVALCANTE, Márcio André Lopes. Comentários à Emenda Constitucional 133/2024. Buscador Dizer o Direito, Manaus. Disponível em: . Dizer o Direito. DIREITO CONSTITUCIONAL DIREITOS POLÍTICOS 22 Referências Bibliográficas: Direito Constitucional Esquematizado. Pedro Lenza. Direito Constitucional. Marcelo Novelino. Curso de Direito Constitucional. Bernardo Gonçalves Fernandes. Buscador Dizer o Direito.