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CRISTIANO GOLDSCHMIDT LIANA BORGES [Organização] ANA MARIA ARAÚJO FREIRE [Colaboradora] DIÁLOGOS COM PAULO FREIRE PARA ENTENDER E MUDAR MUNDO 100 ANOS DE UM EDUCADOR Diálogo Freiriano Veranópolis - RS 2022CONSELHO EDITORIAL Ivanio Dickmann Brasil Aline Lemos da Cunha Della Libera Aline Mendonça dos Santos - Brasil UFRGS Fausto Franco Martinez Espanha Danilo Romeu Streck UCS Jorge Alejandro Santos Argentina Dóris Bittencourt Almeida UFRGS Martinho Condini Brasil Gabriel Grabowski FEEVALE Miguel Escobar Guerrero México Hércules Tolêdo Corrêa UFOP Carla Luciane Blum Vestena Brasil Jaqueline Moll UFRGS/URI Ivo Dickmann Brasil Marcos Villela Pereira PUC-RS José Eustáquio Romão Brasil Sergio Haddad PUC-SP Enise Barth Brasil Simone Braz Ferrcira Gontijo IFB EXPEDIENTE Editor Chefe: Ivanio Dickmann Diagramação: Maria Aparecida Nilen Revisora: Rosane Teixeira de Vargas FICHA CATALOGRÁFICA D579 Diálogos com Paulo Freire: para entender e mudar mundo: 100 anos de um educador / Cristiano Goldschmidt, Liana Borges (organizadores) Veranópolis: Diálogo Freiriano, 2022. ISBN 978-65-87199-76-4 1. Educação I. Goldschmidt, Cristiano. II. Borges, Liana. 2022-0152 CDD 370.1 (Edição 23) Ficha catalográfica elaborada por Karina Ramos CRB 14/1056 EDITORA DIÁLOGO FREIRIANO [CNPJ 20.173.422/0001-76] Rua General Flores da Cunha, 172 - Centro CEP 95.330-000 Veranópolis RS cida.dialogar@gmail.com www.dialogofreiriano.com.br Whatsapp: [54] 98428.3547 3O LEGADO DE PAULO FREIRE E SONHO DA LIBERDADE Edite Maria da Silva de Faria¹ Kátia Simone Filardi Melo² Introdução O sonho pela humanização, cuja concretização é sempre processo, e sempre devir, passa pela ruptura das amarras reais, concretas, de ordem econômica, politica, social, ideológica etc., que nos estão condenando à desumanização. O sonho é assim uma exigência ou uma condição que se vem fazendo per- manente na história que fazemos e que nos faz e re-faz. (FREIRE, 1999, p. 99) O pensamento de Paulo Freire (1921-1997) é referência dentro de um conjunto de práticas e reflexões que perpassam áreas do conhecimento e for- mas de atuação política desde a segunda metade do século XX. ano de 2021 marca centenário de nascimento do Patrono da Educação Brasileira, edu- cador Paulo Freire, e coloca em evidência sua vida e obra, convidando à crí- tica, à reflexão e à releitura de seus fundamentos epistemológicos e metodoló- gicos. O artigo busca comemorar centenário de Paulo Freire, ressaltando a importância de sua obra e a defesa de seu legado. Nesse sentido, perguntamo- nos: Como a obra de Paulo Freire contribui para a Educação democrática e libertadora na contemporaneidade? Assim, entendemos a importância de refletirmos sobre a articulação entre que é único e 0 que é múltiplo, entre o que é global e 0 que é local. Pedagoga pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB), doutora em Educação e Contempo- raneidade pelo Professora adjunta do Departamento de Educação Concei- ção do Coité, Campus XIV da UNEB em regime de Dedicação Exclusiva (DE). Professora per- manente do Mestrado em Educação de Jovens e Adultos (MPEJA/UNEB). Membro da Coordenação Colegiada do Fórum Regional de EJA do Território do Sisal da Bahia e Lider do Grupo de pesquisa (GEPALE) Bahia. Pesquisadora associada à Curadora do com Paulo Freire Bahia. 2 Pedagoga pela Universidade Federal da Bahia. Especialista em Coordenação Pedagógica, Ges- tão Escolar, Psicopedagogia e Inclusão. Mestranda do Programa de Mestrado Profissional em Educação de Jovens e Adultos (MPEJA/UNEB). Coordenadora pedagógica da Escola Municipal General Labatut e também atua na Rede Estadual de Salvador no Colégio Estadual Bento Gon- calves. Membro do Fórum EJA Bahia. Pesquisadora do Grupo de Pesquisa Mem- bro do Café com Paulo Freire Bahia. 171DIÁLOGOS COM PAULO FREIRE Corrobora, nessa linha de pensamento, a perspectiva da ecologia de saberes, que se funda na premissa de que "não há conhecimento em geral; tampouco há ignorância em geral. Somos ignorantes de certos conhecimentos, mas não de todos" (SANTOS, 2011, p. 52). Assim como Freire (1996, p. 51) com a boniteza de sua coerência instiga nossas pesquisas, estudos e práticas para 0 fato de que "ensinar exige a de que a mudança é possível". Somos partícipes da mudança e do movimento em múltiplos espaços e tempos. So- mos sujeitos do inacabamento e com ele nos refazemos no movimento da pró- pria vida. Na América Latina (AL) e no contexto brasileiro, a defesa do legado de Paulo Freire constituiu-se como movimento envolvendo inúmeros coleti- e organizações populares do campo e das periferias que têm como um dos objetivos principais ampliar 0 olhar e diálogo com aquelas e aqueles que caminham na busca das utopias, sonhos, justiça, do ser mais e da esperança. fio condutor dessa rede de boniteza e resistência toma como base as lutas sociais populares, projetos e ações para o bem viver e a transformação do mundo e de cada pessoa. surgimento de múltiplas vozes vibrantes e setores em busca de no- vas diretrizes e erguimento de governos tidos como populares e democráti- trouxeram novas experiências, novos desafios, sentidos na AL e no con- texto brasileiro. Nesse sentido, a relação a ser construída baseia-se na cooperação, dando espaço para a ecologia de saberes, fazeres e valores pela consciência crítica e pela dialogicidade. Nesse contexto, a Educação Popular (EP) se potencializa ao deman- dar novos debates, maiores e melhores investimentos para a (re)organização de espaços de aprendizagem formais ou não formais. No que se refere à escola que atende crianças, jovens, adultos e idosos, a EP viabiliza a vivência e a valorização dos saberes culturais por meio da construção dialógica e liberta- dora ao investir em processos de emancipação desses sujeitos. Se qualquer atuação de pesquisa na área das ciências humanas exige scnsi- bilidade e posicionamento politico para com os processos de humanização e desumanização vividos pelos sujeitos, aqueles (as) que se dedicam ao campo da Educação de Jovens e Adultos carregam em si mesmos e nas in- vestigações que realizam um maior comprometimento e responsabilidade social, política e acadêmica de compreender, interpretar, denunciar, anun- ciar, refletir e, acima de tudo, analisar as trajetórias de vida, saberes, ensina- mentos e conhecimentos produzidos pelas pessoas jovens e adultas, tanto do campo quanto da cidade (FARIA, 2009, 155). 172DIÁLOGOS COM PAULO FREIRE Assumir legado do Paulo Freire a partir da EP para a construção de práticas pedagógicas emancipatórias na educação escolar dos sujeitos popula- res é fundamental e urgente no cenário educacional brasileiro, de tantos retro- cessos e descasos. Os princípios da EP e suas interconexões com a educação de crianças, jovens, adultos e idosos na contemporaneidade, aprofundando OS princípios e pressupostos do pensamento de Paulo Freire para a educação, a escola e os diversos espaços de aprendizagem num contexto educacional de incertezas e desafios, constituem base teórica e metodológica para (re)pensar e (re)signifi- car processo de ensino e aprendizagem numa perspectiva humanizadora, insubmissa e transgressora. A referência singular e protagonista de Paulo Freire no contexto da EP durante, aproximadamente, cinco décadas, contri- buiu para repensar a Educação como componente decisivo no diálogo entre história e cultura. Paulo Freire (2005), diante da realidade brasileira, identificou que a base de superação da miséria estaria na luta dos oprimidos contra a opressão e concebeu a Pedagogia do Oprimido. Como diz Boff (2016, p. 10), [...] não é uma pedagogia para oprimido, ou um roteiro que pessoas soli- dárias e de boa vontade devem usar para libertar oprimido. Ao contrário, é uma pedagogia que permite ao oprimido extrojetar de dentro de si e, por ele mesmo, opressor, a fim de resgatar seu ser livre e plasmar uma história na qual a prática seja a liberdade e a dialogação de todos com todos, prática que torna menos dificil a solidariedade, a fratemidade e 0 amor. Assim, a educação é a tomada de consciência de si e do mundo e o consequente desenvolvimento da ação libertadora. A educação é a prática per- manente da liberdade. Portanto, a educação é sempre um processo incon- cluso, pois ela se torna um contínuo exercício de encontro e diálogo entre os indivíduos diversos, sempre em busca do horizonte da humanização. Desse modo, Freire (2005, p. 68) nos ensina que "Ninguém educa a ninguém, nin- guém educa a si mesmo, homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo". Fronteira entre a opressão e a liberdade A liberdade é uma condição de existência sem a qual não se pode considerar a existência humana. A liberdade é fruto da emancipação dos su- jeitos. Ninguém promove a liberdade de ninguém, ela é uma conquista dos 173DIÁLOGOS COM PAULO FREIRE indivíduos, como condição para tornarem-se sujeitos de suas próprias histó- rias. A educação de crianças, jovens, adultos e idosos no cenário contem- porâneo exige dialogicidade, problematização e contextualização na elabora- ção na implementação de propostas pedagógicas emancipatórias e humani- zadoras nos diferentes espaços de aprendizagem. E que entendemos por opressão? É a ação desenvolvida por indiví- duos ou mesmo pelo conjunto da sociedade, por meio de estruturas sociais, no sentido de impedir a expressão da humanidade que há em cada um de nós. A opressão não permite espaço para a educação. Opressão e liberdade se opõem. A opressão é a negação do que pode haver de humano nas pessoas. Os sujeitos pertencentes aos setores populares, tanto do campo como na cidade, não tiveram acesso ainda às políticas educacionais, na medida do necessário e do direito, tampouco elas foram capazes de satisfazer seus an- seios, demandas e necessidades educacionais. Esses sujeitos carregam consigo uma das duas marcas principais em relação à educação pública: de um lado, a negação de acesso à escola e, de outro, a exclusão prematura do processo escolar, consequência de inserção precoce no trabalho e da luta pela própria sobrevivência, ou até mesmo pelo fato de a escola utilizar mecanismos que reforçam a desigualdade e a exclusão no seu interior, expulsando-os de um processo mal iniciado de escolarização. A partir dos princípios e dos pressupostos freireanos pela humaniza- ção, a educação configura-se como prática de liberdade. O direito à educação pública, obrigatória e gratuita é recorrente no discurso dos diversos segmentos que compõem a sociedade brasileira no contexto contemporâneo. A educação é importante, na medida em que busca contribuir tam- bém com fim da pobreza e da desigualdade social. Ambas, fruto do modelo capitalista exploratório, baseado na exploração humana, na produtividade e no consumismo. Mesmo aqueles que sabem ler e escrever foram condenados à explo- ração capitalista desumana e degradante. A educação conscientizadora, em acordo com as ideias de Freire, denuncia sistema explorador e sinaliza as possibilidades para a sua superação e transformação. A educação só tem sentido se visceralmente conectada e centrada com a vida. ser humano é "inacabado e incompleto", como diz Paulo Freire, em formação contínua. Diante disso, podemos ver que escolarizar não 174DIÁLOGOS COM PAULO FREIRE é educar. Muitas pessoas podem alcançar elevados níveis de escolarização sem terem sido educadas. A lógica perversa e desumana do trabalho no modelo do capital tem produzido uma sociedade de consumo. Pessoas se tornam mercadorias, mui- tas vezes incapazes de refletir sobre a realidade desigual sob intensa explora- ção, da qual são reféns e estrategicamente impossibilitadas de (re)conhecer e de exigir seus direitos. Crianças, jovens, adultos e idosos vivem na sociedade contemporânea um processo contínuo de encaixe-desencaixe, inclusão-exclusão, enraiza- Segundo Bauman (2007), a "sociedade" é vista na contemporaneidade como "rede" em vez de "estrutura", ela é percebida e en- carada como uma matriz de (des)conexões aleatórias e de um volume essen- cialmente infinito de permutações possíveis. A sociedade abrange jeitos de ser, viver, perceber, conhecer e pensar que se enfrentam. Entre tensões, modos distintos de construir identidades so- ciais e étnico-raciais e cidadania, sujeitos da diversidade tentam dialogar entre si. Nesse cenário, coloca-se em xeque papel da educação num contexto de incertezas, opressão, desumanização e ausência de sonhos. Se qualquer atuação acadêmica e de pesquisa na área das ciências hu- manas exige sensibilidade e posicionamento político para com processos de humanização e desumanização vividos pelos sujeitos, aqueles(as) que se dedi- cam à educação escolar dos populares carregam em si mesmos e nos estudos que realizam um maior comprometimento e responsabilidade social, política e acadêmica de compreender, interpretar, denunciar e anunciar. O direito à educação como prática da liberdade A educação como prática da liberdade se torna possível na medida em que nos reconhecemos como inacabados e, no diálogo com nossos se- melhantes, educamo-nos, percebemos as contradições do mundo e nos torna- mos sujeitos diante delas, emancipamo-nos. É assim que nos tornamos livres. Ela começa dentro de cada indivíduo e, na medida em que muitos indivíduos se tornam livres, eles também libertam mundo. Uma vez que a liberdade começa no âmago das nossas almas, portanto, ela não vem de fora para den- tro, mas de dentro para fora. O espaço da aprendizagem ampliou-se; a escola, ainda que seja a ins- tituição validada pela sociedade como espaço de socializar o conhecimento 175DIÁLOGOS COM PAULO FREIRE sistematizado, não é mais a única responsável pelo processo de formação edu- cacional de homens e mulheres. Inúmeros e diferentes espaços de aprendiza- gem surgiram, tais como: associações de bairro, sindicatos, igreja, canteiros de obras, hospitais, entre outros. O espaço da aprendizagem é aqui, em qual- quer lugar-espaço-tempo hoje e sempre. Diferentes segmentos sociais urbanos e rurais configuram a educação como um dos importantes e necessários caminhos de transformação social. O desafio é ampliar 0 olhar e 0 diálogo com sujeitos que caminham na busca das utopias, do ser mais, da esperança, por fim, como base das lutas sociais, dos sonhos, dos projetos e das ações para a transformação. A reflexão sobre o lugar da opressão, a partir do deslocamento dos oprimidos para o campo da liberdade, provoca-lhes o desejo e a necessidade de se protagonistas e multiplicadores de esperanças, passando, en- tão, de agentes passivos, obedientes, silenciosos, para sujeitos conscientes de seu papel como seres políticos. A educação é um direito social. Como direito público subjetivo de todos à educação, transforma-se num instrumento impor- tantissimo para afirmar a liberdade, a humanização, a cidadania, a autonomia e a democracia. Os movimentos sociais populares travam tensas lutas por di- reito no próprio campo do direito, nas normas. O direito à educação popular, humanizadora e transgressora de cri- anças, jovens, adultos e idosos do campo ainda não é assegurado na escola pública (de educação infantil à universidade), pois ainda está presente a per- petuação dos mecanismos de exclusão dos sujeitos pertencentes às classes po- pulares, particularmente aos de maioria negra e pobre. Educação como processo de humanização: tomada de consciência de si e do mundo Por educação, entendemos como sendo processo de humanização das pessoas, que significa a descoberta de si mesmas como sujeitos da histó- ria, ou seja, como autores do seu próprio destino, sem opressão e, ao mesmo tempo, a descoberta dos outros como sendo aqueles que nos complementam e a quem nós também complementamos. Ou seja, aqueles ou aquelas com OS quais compartilhamos a construção da história e com os/as quais nos educa- mos a partir do diálogo. No contexto predominantemente moderno, costumamos confundir a ideia de educação com a de escolarização. A educação, no entanto, dá-se na 176DIÁLOGOS COM PAULO FREIRE relação dialógica entre as pessoas, seja na escola, seja fora dela. É um processo horizontalizado no qual ensinar-aprender acontece em cada um dos sujeitos do processo educativo, ou seja, quem ensina também aprende e quem aprende também ensina. Aqueles ou aquelas com quem compartilho a construção da história e com OS quais me educo a partir do diálogo, estabeleço um ensinar e aprender com sentido, rumo à boniteza de um sonho (im)possível. Contudo, observa- mos hierarquização e não circularidade entre ambos. Existe maior ênfase no ensinar, legitimado a partir da "educação que consolida a apren- dizagem descontextualizada e burocratizada na escola. Enquanto a educação, por sua vez, dá-se numa relação dialógica entre sujeitos que se reconhecem entre si como diferentes, mas que se assumem ambos como sujeitos e não como objetos, diferentemente, processo de escolarização moderno é hierár- quico. O sistema escolar tem um saber pronto e acabado a ser transmitido. Muitas pessoas podem até partilhar a escola com outras, mas não estabelecem com elas relações dialógicas. Não as percebem como coautoras de um destino histórico comum, sem oprimidos e sem opressores. A educação, ao contrário da escolarização, é uma prática diária de relações dialógicas entre as pessoas. É um processo de compartilhamento de saberes, fazeres, sonhos e projetos entre OS diferentes sujeitos nele envolvidos. As diferenças são assumidas como base do processo. A educação, portanto, exige a tomada de consciência de si e do mundo por parte de cada um dos envolvidos. E que é tomada de consciência de si e do mundo? Por um lado, é a descoberta das contradições que resultam em processos de opressão entre for- tes e fracos, entre ricos e pobres, entre colonizadores e colonizados, entre que sabem e OS que não sabem, como acaba fazendo o sistema educacional escolar moderno, desumanizado. Por outro lado, é a descoberta dos mecanismos de opressão em que as pessoas estão envolvidas, ou seja, perceberem a si mesmas no jogo das con- tradições e pensarem e desenvolverem ações que ampliem espaços de desen- volvimento de suas subjetividades no diálogo permanente entre elas. Esse processo de tomada de consciência da exploração que se estabe- lece entre os humanos não é fácil, desde quando OS mecanismos operadores da opressão estão localizados dentro da alma dos próprios oprimidos e os 177DIÁLOGOS COM PAULO FREIRE fazem sentir como se eles fossem merecedores da própria opressão. Desse modo, o processo de educação é, antes de tudo, emancipador e, por isso, ele começa dentro de cada pessoa mesmo com medo, mas também com muita ousadia. A tomada de consciência de si e do mundo, portanto, é essencial ao processo de educação. porque a tomada de consciência do mundo por parte das pessoas é essencial para o processo educativo. A tomada de consci- ência de si e do mundo é a base para processo de emancipação dos sujeitos. Esperançando no mundo (des)aprendente do sonhar Nós, como seres (in)completos e (in)acabados que somos, escrevemos pela motivação da busca constante por um mundo justo e bonito. Esperan- çando eu vou criando minhas próprias marcas da indignação, refletindo e agindo, descobrindo que melhor momento para se lutar é hoje, amanhã e depois e que neste caminho precisamos olhar passado e ressignificar pre- sente. A carta abaixo nasceu pelo desejo de coletivizar sentido deste mo- mento histórico brasileiro para OS educadores inquietos e sonhadores. A ser- vidão e o autoritarismo estão bem perto de nossas práticas educativas como uma sombra, mas andamos com o Sol em nossos corações aquecendo e ilumi- nando OS caminhos por onde estamos e de mãos dadas iremos vencer o medo e anunciar que é preciso denunciar. Querido Paulo Freire, Estamos vivendo tempos dificeis... Ser humano nos tempos de hoje, ano 2021, requer estratégias anormais... Não podemos confiar nas autoridades nem nas informações das redes sociais, não podemos andar na rua de forma tranquila, estamos em isolamento social pela Covid-19 e num redemoinho de perdas de direitos essenciais por um processo político tão visto antes no período da Ditadura Militar vivido em nosso amado país. Sabe, Freire, algo aconteceu, temos uma cultura do ódio explodindo em cada esquina, em cada casa, contra tudo que para fazer deste mais chão para todos. E, nessa perspectiva, gostaríamos de te dizer que estamos em tempos de aulas remotas em todo e muitos estão ficando para trás... Às vezes nos sentimos sufocados, as lutas têm sido imensas, em diversas direções, não temos vividos tempos de boniteza, de esperança nas escolas públicas e na sociedade brasileira... Os caminhos estão diferentes do que lutamos e defen- demos nesta caminhada árdua ao longo da história da educação brasilcira para estudantes da Educação de Jovens e Adultos (EJA). Temos visto, neste momento, as escolas seguindo com plataformas on-line e blocos de ati- vidades, estes últimos sendo entregues de maneira presencial em tempos de 178DIÁLOGOS COM PAULO FREIRE vidas ceifadas pelo descaso com a saúde pública. Mas, Frcire querido, mui- tos dos nossos estudantes estão sendo excluídos mais uma VCZ. Cada dia mais portas e janelas estão se fechando, a chama da esperança se apagando, vidas e sonhos sendo ceifados, um abismo social se aprofundando... Os que podem, ricos, têm tido aulas particulares, adequações curriculares, acom- panhamento de profissionais, como também equipamento apropriado para essas tais aulas acontecerem com êxito. Os pobres não têm, em sua expres- siva maioria, nada de equipamentos tecnológicos, estão sendo deixados para trás... Que castigo, amigo Freire, estamos vivenciando a cada dia a nossa Constituição sendo rasgada em meio a risos fascistas que ecoam nos quatro cantos do Brasil. Além da impactante realidade do Ensino Remoto nas es- colas públicas e do aumento das desigualdades educacionais para os nossos estudantes... Freire, tem um exército gigante de brasileiros passando fome, perdendo direitos. Vemos e escutamos os ecos e as vozes vibrantes desses sujeitos e queremos que esses ecos e vozes tenham nome, tenham histórias, estamos sendo deso- bedientes e lutando. Freire, em meio a tantos problemas, temos a certeza de que, enquanto existirem pessoas sendo deixadas para trás, precisamos seguir juntos e fortes e segurar a mão de um, esse a mão do outro, outro a mão de mais um outro... E trazer luz e esperança para os pobres! Estamos atingindo crítico de contaminação da Covid-19 neste país, sabe, Freire, mas tem um outro contágio mais agressivo, que assola todo solo brasileiro, que é o ódio pelos negros, comunidade LGBTQIA+, indios, quilombolas, pobres o Castigo é esse! Algo no novo normal. Você, Freire, precisa saber que cri- aram um currículo para EJA de aulas remotas, seguindo a rotina das aulas presenciais, te lembra algo, querido amigo? Isso mesmo, tudo igual, só mu- daram ensino sempre menos para os que mais precisam. Mas, amado Freire, veja que o que relatamos aqui são os mesmos planos de ensino, as mesmas tarefas, os mesmos diários de classe e planilhas, com a mesma carga horária para discentes e docentes. A escola está funcionando, Freire, com os mesmos efeitos desastrosos, não tem sino do horá- rio, não é necessário, eles não estão aqui neste espaço remoto, estão sendo deixado para trás. São turmas incompletas, de um Brasil rasgado ao meio por aqueles que po- dem e os que não podem. Os descendentes, Freire, dos navios negreiros es- tão sendo colocados em embarcações velhas e cheias de furos, para naufra- garem no mar, outros não enxergamos, mas são muitos, trabalhadores e ex- trabalhadores, existe essa categoria agora, Freire, Governo Fascista man- tém as correntes do auxílio emergencial, tem que se declarar miserável para ter acesso. E a obscuridade vem ocupando as mesas das familias. Uns com champanhe, viagem em tempos de pandemia, outros com as incertezas, fri- eza na lama e sem alegria. Assim também como diversas vacinas estão sendo testadas e aplicadas. Mas com relação ao nosso país, Freire, o que é necessário ser feito? Uma vacina antiódio? Uma vacina de amor ao próximo? 179DIÁLOGOS COM PAULO FREIRE Que somos 0 que somos e precisamos ter esperança, ter sonhos! Acreditar que sonhos são Freire, os telefones celulares ou telemóveis que são aparelhos de comunicação por ondas os computado- res estão substituindo as rodas de conversas entre seres humanos. Existe uma indiferença sendo construida dia após dia nesta sociedade brasi- leira, a vítima está sendo culpada de ser por ela mesma, estão me- xendo com solidariedade humana, como uma nuvem sombria pairando so- bre nossas cabeças... Precisamos voar acima dessas nuvens! E refazer caminhos que foram desfeitos em nossa sociedade brasileira, atar os laços (re)começar com a humanidade. Kátia Simone Filardi Melo Inverno pandêmico, 2021 Considerações finais Muitas reflexões permanecem em aberto após a feitura deste texto, tornando-se, assim, campo fértil para novas discussões reformulações. A conscientização é, portanto, desenvolvimento crítico da tomada de consci- ência; é a consciência que aprofunda via imersão reflexiva na realidade de si, do outro, do mundo, em um processo dialético, complexo e transformador. A conscientização não está baseada na consciência, de um lado, e no mundo, de outro: não pretende uma separação. Ao contrário, está baseada na relação e vice-versa. Para Paulo Freire, a conscientização não significa um ato mecânico, instantâneo, de tomada de consciência da re- alidade. Ela é um processo construído por momentos nos quais se caminha do nível espontâneo e ingênuo para uma tomada de consciência à medida que se aproxima da realidade concreta e dinâmica. O sentido da práxis educativa popular está na intrínseca relação entre teoria e prática da educação, que se realiza a partir do diálogo entre sujeitos envolvidos. É por meio das discussões e dos debates que as visões de mundo, de homem e de sociedade se manifestam e podem ser questionadas e confron- tadas, abrindo espaço para um novo conhecimento que leve a uma nova ação e a uma nova realidade. A escola, bem como outros espaços de aprendizagem, ao pensar OS seres humanos como inconclusos e inacabados (FREIRE, 2005), contribuirá para que esses sujeitos se façam cientes dessa inconclusão, incentivando-os para a busca de um devir, do "ser mais" (FREIRE, 2000). Então, a 180DIÁLOGOS COM PAULO FREIRE característica distintiva de quaisquer atividades que se considerem educativas será identificada na contribuição que forem capazes de oferecer para cresci- mento humano integral de trabalhadores enquanto sujeitos históricos e soci- ais. Nesse contexto, a educação popular de crianças, jovens, adultos e ido- sos, na medida em que afirma a igualdade de todos como sujeitos de direitos, quebra a lógica de que uns valem mais do que outros, reforçando, com isso, a necessidade da luta contínua contra as injustiças e da indignação permanente diante da barbárie. Conforme Freire, dessa relação indissociável deve partir processo educativo, percebendo homens e mulheres como instituintes e instituidores da história. Educar-se, segundo Freire, é um processo que se dá em um contexto histórico, político e ideológico. É um processo impregnado pela cultura de um tempo, de um lugar e de sonhos de liberdade. Referências Bibliográficas BAUMAN, Zygmund. Tempos líquidos. Rio de Janeiro: J. Zahar, 2007. BOFF, L. In: FREIRE, Paulo. Pedagogia da Esperança: Um reencontro com a Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2016. p. 9-12. FARIA, E. M. S. Percurso Formativo dos Professores/Pesquisadores da EJA na Contemporaneidade. Práxis Educacional, Vitória da Conquista, V. 5, n. 7, p. 151-164 jul./dez. 2009. FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1967. FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996. (Coleção Leitura) FREIRE, Paulo. Pedagogia da esperança: um reencontro com a Pedagogia do Oprimido.3. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1999. FREIRE, Paulo. Pedagogia da indignação: cartas pedagógicas e outros escritos. São Paulo: UNESP, 2000. FREIRE, P. Pedagogia do Oprimido. 43. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2005. SANTOS, B. de S. Renovar a teoria crítica e reinventar a emancipação social. São Paulo: Boitempo, 2011. 181